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34º Encontro Anual da Anpocs;

Mesa Redonda - Imagens e interpretações: a pesquisa social em áreas e
situações de conflito e tragédia

Título do trabalho:
Habitantes do Arroio – imagens para uma cosmografia das águas
urbanas

Rafael Victorino Devos
Professor do Departamento de Antropologia - UFSC
Pesquisador Associado do Banco de Imagens e Efeitos Visuais – PPGAS –
UFRGS
Ana Luiza Carvalho da Rocha
Coordenadora do Banco de Imagens e Efeitos Visuais – PPGAS – UFRGS
Coordenadora do Projeto “Habitantes do Arroio: estudo de conflitos de uso
de águas urbanas, risco, saúde pública e comunidades éticas em Porto
Alegre-RS” (CNPq)

Habitantes do Arroio
imagens para uma cosmografia das águas urbanas
Rafael Victorino Devos
Professor do Departamento de Antropologia - UFSC
Pesquisador Associado do Banco de Imagens e Efeitos Visuais – PPGAS – UFRGS

Ana Luiza Carvalho da Rocha
Coordenadora do Banco de Imagens e Efeitos Visuais – PPGAS – UFRGS
RESUMO
Este trabalho apresenta a produção em imagem do projeto “Habitantes do Arroio: estudo
de conflitos de uso de águas urbanas, risco, saúde pública e comunidades éticas em Porto
Alegre-RS”. Financiado pelo CPNq, e executado pelo Banco de Imagens e Efeitos
Visuais (BIEV – Laboratório de Antropologia Social – UFRGS) e pela ONG Instituto
Anthropos, o projeto é voltado para as situações de conflito e interdependência entre
grupos sociais diversos, instituições e técnicos de diversas áreas envolvidos
cotidianamente com os usos das águas do Arroio Dilúvio, em Porto Alegre. Levantando a
memória ambiental dos territórios ligados pelas águas da Bacia Hidrográfica, a pesquisa
se vale da produção e da exibição de documentários, relatórios e narrativas visuais sobre
as condições ambientais dos recursos hídricos em questão contrapostos à diversidade
sócio-cultural de representações simbólicas, ethos e visão de mundo das populações que
habitam e transitam pela bacia do Arroio Dilúvio. O presente trabalho apresenta
narrativas

em

hipermídia,

em

um

DVD

interativo

e

um

blog

(www.habitantesdoarroio.blogspot.com) do projeto, destacando links entre vídeos
etnográficos, fotografias, mapas e textos de pesquisa como expressão das conexões entre
os diferentes “Habitantes do Arroio”, revelando ligações entre lembranças de moradores,
itinerários, representações de técnicos e usuários, impasses com a destinação cotidiana do
lixo e do esgoto, devaneios e projetos de integração do arroio na paisagem urbana.

crônicas literárias. através da Seleção Pública de Propostas para Apoio a Projetos de Pesquisa Relacionados à Água e Saúde Pública constante no Edital MCT/CT-Hidro/CT-Saúde/CNPq N º 45/2008. Rafael Devos.Introdução As imagens em debate neste encontro foram produzidas no contexto de pesquisa do projeto “Habitantes do Arroio: estudo de conflitos de uso de águas urbanas. A pesquisa é voltada para a descoberta das situações de conflito e interdependência. em Porto Alegre. Os vídeos. Viviane Vedana. O “Habitantes do Arroio” se vale da produção e da exibição de documentários. encerra-se no começo do segundo semestre de 2010. entre grupos sociais diversos. relatórios e narrativas visuais sobre as condições ambientais dos recursos hídricos contrapostos à diversidade sócio-cultural de representações simbólicas. O projeto. pela Mestre em Direito Ambiental e Doutoranda em Antropologia Social Ana Paula Marcante Soares.blogspot. mapas. envolvidos cotidianamente com os usos das águas do Arroio Dilúvio. em Porto Alegre-RS. concebida a partir da investigação de uma memória ambiental urbana. iniciado em janeiro de 2009. com consultoria do Engenheiro Sanitarista Paulo Renato Paim e da antropóloga Cornelia Eckert. Anelise Gutterres. assim como as demais imagens reunidas pela pesquisa (fotografias antigas. . risco.com). projetos) formam um ensaio de uma cosmografia da bacia do Arroio Dilúvio. instituições e técnicos de diversas áreas. ethos e visão de mundo das populações que habitam a sub-bacia do Arroio Dilúvio. financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). pelas estudantes de Ciências Sociais Deborah Beck. Sob coordenação de Ana Luiza Carvalho da Rocha. A equipe do projeto é composta pelos antropólogos Ana Luiza Carvalho da Rocha. saúde pública e comunidades éticas em Porto Alegre-RS”. é executado pelo Banco de Imagens e Efeitos Visuais (PPGAS – UFRGS) e pela Ong Instituto Anthropos. Luna Carvalho e Renata Tomaz do Amaral Ribeiro.habitantesdoarroio. sobre a qual este texto visa refletir. Seus resultados e imagens produzidas compõem um DVD interativo com documentários produzidos pela equipe que também estão disponíveis no blog do projeto (http://www.

O cálculo dessa escassez da água. etc. na medida em que se constitui a partir do processo de ambientalização (LOPES. Portanto. a produção industrial. que norteia atualmente boa parte da gestão de recursos hídricos no país. que vem sendo praticado do ponto de vista administrativo e econômico. digamos assim. 1997). lagos. através de etnografia audiovisual. o alagamento de áreas baixas e úmidas. A construção de uma realidade socioambiental contemporânea. Tal concepção ecossistêmica do conceito de bacia hidrográfica transborda. 2006). pensando o risco de contaminação de águas subterrâneas. na medida em que são também diferentes construções institucionais que se encontram envolvidas na disputa pelos direitos e pela cobrança de deveres com relação aos usos da água. GIDDENS e LASH. a moradia. o abastecimento. baseia-se numa relação de interdependência e conflito entre diferentes territorialidades quanto à demanda e à disponibilidade de água doce. pensada em escala global. já não mais pensada como futuro mas como presente. cidades. Por exemplo. a geração de energia. coloca em conflito e hierarquiza responsabilidades e direitos de acesso com relação aos usos diversos da água. o desmoronamento de áreas de encosta de morros. no entanto. o saneamento. estados. A chamada crise mundial da água. para usar já uma imagem líquida. o lazer. águas subterrâneas. arroios. países que encontram-se ao mesmo tempo separados e unidos por rios. regiões. é pensado a partir do risco em uma perspectiva sistêmica (BECK. o conceito de bacia hidrográfica – um corpo hídrico que se forma pela convergência de diferentes fontes de água – provoca um jogo de escalas e valores. etc.Habitantes do Arroio Como produzir imagens documentais de uma bacia hidrográfica? Um dos primeiros desafios que motiva a produção de imagens deste projeto é a investigação. ou seja. a pesca. conflitos e contradições que relacionam a chamada qualidade de vida ambiental e o direito ao ambiente sadio à desigualdade de condições de . para outras esferas da vida social. de construção da questão ambiental como uma nova questão pública que revela as tensões. o planejamento urbano contemporâneo se constitui sob o desafio de pensar as interdependências diversas entre os territórios sobrepostos na cidade. São localidades. de diferentes imagens a serem confrontadas ao conceito de bacia hidrográfica. entre a irrigação. a poluição da atmosfera. extrapola o exercício racional do planejamento.

em conflito. do satélite. A tecnologia das imagens está justamente comprometida com a visualização destes jogos de escalas e contrastes. Na formulação de um interlocutor que se dizia “atingido por satélite” enquanto morador de área classificada como irregular. a Avenida Ipiranga. Zona Leste de Porto Alegre. perto do atual Largo dos Açorianos. Do ponto de vista da gestão ambiental contemporânea. nos perguntamos neste projeto: qual o papel das imagens etnográficas neste jogo de representações da realidade socioambiental? Este é um dos primeiros desafios do projeto. boa parte das regiões do estado. pelo contrário. de diferentes pontos de vista. o arroio passou a ter uma importância estratégica. na primeira metade do Século XX. A sub-bacia do Dilúvio tem cerca de 80 quilômetros quadrados. do pátio de casa ou do prédio vizinho. No entanto. social. às exclusões dos chamados “irregulares” de uma cidadania ambiental contemporânea. que envolve. do ponto de vista econômico. interligando territórios pelas águas e tendo uma importância fundamental – o abastecimento de água potável de toda a região. o que se constata em inúmeros softwares e recursos que têm efeitos de realidade nos diagnósticos ambientais. que percorre os 12 quilômetros de extensão canalizada do arroio. no centro da cidade. à privatização de áreas e bens considerados patrimônios ambientais. Moinho. Salso. contaminadas. São Vicente e Cascatinha e deságua no Lago Guaíba após atravessar uma das principais avenidas da cidade. são convergências misturadas pelas águas. ambiental. administrativo.vida. na Represa da Lomba do Sabão. foi realizada com o objetivo de evitar o . mas também a partir do helicóptero. Recebe vários afluentes como os arroios dos Marianos. de dentro da água. no contexto da Região Metropolitana de Porto Alegre/RS o Arroio Dilúvio pode ser um pequeno universo. a do Lago Guaíba. o de investigar e descrever em imagens diferentes configurações de um arroio em uma área urbana. Em seu leito original o riacho passava sob a Ponte de Pedra. de baixo (da foz) ou de cima (das nascentes). Não são portanto fronteiras demarcadas. de uma margem ou de outra. que alteram-se dependendo da escala ou do lugar em que são visualizadas. que existe ainda hoje. de cima ou de baixo da ponte. na escala municipal. Por seu volume de águas e pela abrangência de territórios que percorre pode ser considerado uma sub-bacia que contribui para uma bacia hidrográfica muito maior. A canalização do arroio e a alteração de sua foz. são territorialidades sobrepostas. esta sim. O Arroio Dilúvio nasce na Lomba do Pinheiro. dos quais 19% estão localizados no município de Viamão. do mapa ou do microscópio.

obrigatoriamente. O saneamento de tais áreas passa pelo remodelamento da sua configuração espacial. pautado pelo direito ambiental. O Dilúvio está no centro da problemática entre a drenagem do solo. pela recuperação da qualidade de suas águas. os pátios dos vizinhos. um desafio que não depende apenas de investimentos em infra-estrutura.alagamento de diversas áreas da cidade. áreas alagadiças. . os canos e valos que levam os esgotos domésticos percorrem as casas. Sejam feitos pelo poder público ou pelos moradores. No segundo caso. fez com que a bacia hidrográfica do Arroio Dilúvio ganhasse uma nova importância no começo do Século XXI. fruto de um trabalho de conscientização como o pensam as pedagogias ambientais contemporâneas. mas que demanda também investimentos e arranjos que partem do privado para o público. portanto. mas na adequação das ocupações. para que as mesmas liguem separadamente as redes de esgoto doméstico e pluvial. Por suas águas e nas redes de saneamento que acompanham seu leito corre um terço do esgoto da cidade de Porto Alegre. valorizar e remodelar uma imensa região da cidade. A partir da sujeira. para que realizem adequadamente a drenagem do solo. o desafio de institucionalizar um processo de regularização das condições de moradia de populações que ocupavam até então os chamados “vazios”. Descobrir significados atribuídos às águas deste arroio significou percorrer inúmeras vezes essas conexões e arranjos diversos. A ambientalização do processo de planejamento da cidade. mas sim um processo de negociação da realidade (VELHO. trata-se do seu contraponto. passam. encostas de morros. mas acabou também por urbanizar. multas. a prevenção de alagamentos e o tratamento de esgotos domésticos. à tal infra-estrutura. a compreensão do chamado ponto de vista ambiental sobre a cidade não é. o que faz com que junto com o “esgoto”. que transformam a própria paisagem urbana na medida em que a valorizam diferencialmente. outras questões se agreguem à chamada melhoria da qualidade de vida. transitando literalmente entre a “privada” e o público. na forma de licenças. 1981) socioambiental e mediação de conflitos. áreas entre o mato e o acesso às grandes vias de circulação. as ruas até chegarem nos arroios e finalmente saírem da escala doméstica. regulares e irregulares. No primeiro caso. As soluções de saneamento urbano. etc. trata-se de um processo institucionalizado. procedimentos que visam adequar as novas construções e antigas edificações. com o objetivo de recuperar a qualidade das águas do Lago Guaíba.

de redes diversas de agentes implicados nas relações sociais circunscritas a determinado ambiente. do ambiente em debate como universo de pesquisa. do ecossistema. na medida em que o mesmo remete a dimensões locais e globais.Fig. de forma a descobrir o lugar das águas nas conexões simbólicas entre lugares e tempos. à inclusão dos elementos ditos naturais nessa rede de relacionamento. aproximando o conhecimento antropológico a outros campos de conhecimento como a Geografia. etc. 1 – Menu de crônicas do DVD do projeto Percorrendo as águas urbanas O percurso metodológico que gerou as imagens apresentadas no DVD e no blog do projeto consiste num constante deslocamento por diversos caminhos possíveis neste território. sua bacia ou sub-bacia hidrográfica em área urbana . Little (2006) sugere a eleição do bioma. a interações no campo institucional e na vida cotidiana. a Biologia. elegeu-se o arroio. o Direito Ambiental. Seguimos o desafio metodológico proposto por Paul Little (2006) de elaboração de uma cosmografia das territorialidades sobrepostas de grupos sociais. Nesse sentido.

Em uma terceira direção. estranhamento. o lixo. entre redes sociais distintas. Um outro deslocamento. na maioria das vezes. que envolvem moradores residentes de tais territórios. representado a partir da diversidade. O objetivo destes percursos foi o de investigar o lugar do arroio nos itinerários urbanos (ECKERT e ROCHA. como ex-moradores. o esgoto. que se encontrem. ocorreu acompanhando profissionais que atuam nos serviços de saneamento. e o compartilhar de narrativas sobre a memória de tais espaços e as representações sobre pureza e sujeira (DOUGLAS. o arroio marca a fronteira entre um . imagens que foram fundamentais no estabelecimento de trocas com moradores de áreas onde atualmente o arroio foi removido da paisagem urbana. como um único arroio. muito menos como uma única bacia hidrográfica passível de constituir um patrimônio ambiental da cidade ou de determinada comunidade. portanto. percorremos também acervos da cidade em busca de imagens que narram a transformação desses caminhos. praticando trilhas. os deslocamentos ocorreram também de forma virtual. 2005). no contra-fluxo do caminho habitual. 1976) no contato do arroio com a cidade.como universo a ser estudado. intervenções e pesquisas na bacia hidrográfica. 1974) entre o público e o privado. A produção constante de imagens à beira d’água permitiu uma estratégia de aproximação de pessoas que justamente incluem nos seus caminhos cotidianos a travessia das pontes que cruzam o Dilúvio ou o percorrer de suas margens. seus desvios na passagem de um lugar a outro. provocou curiosidade. Ao demandarmos sobre a origem do arroio. inter-relacionados a partir das suas percepções e impactos sobre as características ambientais da bacia escolhida para a pesquisa. assim como abrange outros habitantes da cidade referidos a tais territórios. navegando na internet e na mídia. Como registro desse cosmos. Muitas vezes. seu destino. A pesquisa etnográfica atua. o Dilúvio não era reconhecido. ainda. Num deslocamento similar. mas também técnicos e agentes do poder público atuantes em políticas e serviços na área ambiental. tem importância fundamental a imagem audiovisual. entre o urbano e o natural. adeptos dos movimentos ambientalistas. que percorrem os territórios da bacia atuando na manutenção das ligações sanitárias ou na construção de novas redes de infra-estrutura. de transporte. o que nos levou a encontrar pessoas que inseriam o Arroio Dilúvio numa reflexão sobre o urbano e o natural. agentes dos setores comerciais. enquanto elemento liminar (TURNER. a vegetação. seus afluentes. mas que guardam ainda as marcas das águas que agora correm subterraneamente pelas ruas de antigos bairros. de alguma maneira. A postura da equipe voltada para a água.

alternando-se entre riacho. 2 – Fundo do menu principal do DVD. riozinho. Valão. 1999) . que traz e leva embora (dádivas e sujeiras) como pode ser visto em algumas narrativas do DVD. na região de suas nascentes. uma vizinhança e outra. Fig. se altera. valão. Acesso privilegiado às divindades das águas (o som tranqüilo do riacho. ou valo. e efetivamente. os muitos nomes do Dilúvio e seus afluentes retomam identidades diversas que se revelam em narrativas de trajetórias de alguns indivíduos que pensam as mudanças em sua própria vida ritmadas pelas transformações das águas. a fertilidade conferida ao solo) ou perigosa proximidade com a força devoradora das águas e com animais que surgem nas enxurradas (como os ratos). Media portanto as relações entre um “lá” e um “aqui”. cuja principal característica é o seu temperamento inconstante que faz como que suas margens aumentem e diminuam ao longo do tempo. entre um bairro e outro da cidade. Nem mesmo a característica de arroio o mesmo adquire em muitos casos. por exemplo. e neste processo. um espaço por onde “as águas” vêm e vão. é nomeado por alguns moradores como um caminho. produzido a partir de mapa de drenagem da bacia do Arroio Dilúvio (Fonte: Atlas Ambiental de Porto Alegre. entre a cidade de Porto Alegre e a cidade de Viamão.território e outro.

que os moradores relatavam ao refletir sobre as mudanças nestes espaços. Encontramos alguns arroios “sem nome”. O conceito de itinerários urbanos (ECKERT e ROCHA. Fig. 3 – Menu de crônicas do DVD do projeto . expressos nesses itinerários às margens das águas. seja pela repetição de gestos de fundação de suas moradas. a confluência das águas aludiu a uma confluência de tempos. Portanto. marcavam uma memória dos ritmos diferenciados de ocupação de becos. seja pela sua adesão a determinadas práticas que se repetem em espaços de sociabilidade que constituem a vida urbana. expressa-se uma memória ambiental da formação da diversidade de territórios urbanos. pequenos riachos que embora não fossem nomeados.A própria imagem da bacia é reveladora dessa outra territorialidade expressa na confluência de lugares relacionados pelas águas. 2005) é o que permite. mais do que espacialidade. construído a partir de diferentes trajetórias de indivíduos que vão dando profundidade aos significados inscritos na paisagem urbana. nas referências de lugares simbolicamente relevantes e ambientalmente valorizados. Inscritas na paisagem urbana. nesse sentido. de novas ruas. aprofundar a dimensão temporal do território.

conquistar e controlar sua ação sobre o solo e desenhar os itinerários da cidade. neste sentido. e mesmo a grande Avenida Ipiranga. e as imagens de acervo que encontramos seguem. para o universo da cidade. que se construía como necessidade na realidade urbana da segunda metade do Século XX. que reunimos nos vídeos com entrevistas com pessoas que relatam . acessos. transformá-lo em corredor de ônibus. cujo contraponto é a luta contra a ação devoradora da água na constante reconstrução de pontes de acesso. A narrativa dos engenheiros envolvidos na grande canalização do arroio nos anos 1950. no reforço da “barranca” do leito do arroio com sacos de areia. o processo de ocupação da margem implica no aterramento de parte da margem. para participarem no controle das cheias com a drenagem da água da chuva. para entender o papel das águas urbanas na passagem destas dimensões da territorialidade urbana. becos. são itinerários que consolidaram. numa escala muito maior. caminho para um trem. a associação dos arroios a esta propriedade de delimitação de fronteiras. para usar uma expressão de Bachelard (1998). enquanto espaços que marcam a passagem do microcosmos da casa. A investigação de uma memória ambiental foi fundamental.Acompanhando tais itinerários. a mesma perspectiva de “domar” o arroio. No caso das ocupações irregulares. no cultivo de espécies vegetais que “segurem” o solo. redesenhando a relação do solo com a água. Nos eventos públicos e divulgações do projeto na mídia. ou mesmo para abrir mais uma autopista na cidade. a areia dragada do arroio serviu também de matéria prima para a elevação da avenida e para sua pavimentação orientada para a grande circulação de automóveis. As propostas contemporâneas de retomada da presença dos arroios e de suas margens “naturais” na paisagem urbana. encontram como obstáculo este longo processo de associação dos arroios às ruas e avenidas da cidade. percebemos que o caminho do arroio cruzando tais territórios se confunde com o sistema viário – ruas. “tapar” o Arroio Dilúvio. da vizinhança. não foram poucas as propostas que recebemos de “enterrar”. no processo de urbanização da cidade. Memória ambiental e crise As lembranças “felizes” associadas às águas do arroio. metrô. A obra de canalização do Dilúvio é também a obra de construção da Avenida Ipiranga.

não se destaca por suas características ambientais hídricas. nas regiões menos urbanizadas da bacia. lavar roupa. no caso de Porto Alegre. o lixo e a areia acumulados. Tal alternância entre o riacho natural e o esgoto poluído.na sua infância o desfrute das águas do arroio para banho. do ponto de vista do planejamento urbano. próximas às nascentes. os prazeres do verão) que estão associadas às suas trajetórias de adesão e de ruptura com estilos de vida ligados a diferentes territórios da cidade. pesca. os projetos de grupos sociais que encontraram nas áreas alagadiças dos arroios uma possibilidade de ocupação diferenciada do solo urbano. ou que precisam atravessar as águas para chegarem até o ponto do ônibus. a autoconstrução com o acesso à rede de transporte. pesca. Não se trata no entanto de duas cidades. o arroio. mas como obstáculo e incômodo pela qualidade de suas águas – o mau cheiro. que precisam estar atentos à subida das águas para salvarem a vida e os poucos pertences das águas. que se expressa nas trajetórias dessas pessoas. Narrativas semelhantes encontramos com moradores que vivem em seu cotidiano atual essa dualidade das águas. ou dois arroios que se apresentam. As narrativas de alguns moradores e ex-moradores das margens desses pequenos arroios e riachos remetem a práticas cotidianas de usos das águas (brincadeiras de infância. a presença dos animais que vêm com as águas. de ficar “ilhado” da cidade pelas águas. reunidos nas mesmas águas. O mesmo não ocorre com as pessoas que circulam pelas grandes avenidas e habitam edificações ligadas à bacia do Dilúvio por conexões subterrâneas. são parte de um processo. embora presente. combinando o uso do solo. que evocam em suas narrativas algumas características ambientais dos arroios. que ocupam os vãos das pontes ao longo da Avenida Ipiranga. brincadeiras. são justamente os habitantes do arroio que convivem com os perigos das cheias e da poluição das águas. são ligadas igualmente à face terrível do arroio – a lembrança de grandes cheias. com exceção dos moradores de rua. narrando a ocupação das áreas baixas ao longo do caminho do arroio e das encostas de . Embora “irregulares” ou em situação de risco. mas de um mesmo processo de configuração de um ambiente cósmico e social. de mediação entre um determinado padrão de urbanização da cidade em oposição às características ambientais da região e o seu contraponto. Para estas. moradores que ocupam as margens dos pequenos afluentes. deslocamento) e da sua presença nos ritmos temporais (as cheias do inverno.

da “Ilhota” e do “Forno do Lixo”. A outra região. mas a maioria das famílias que ali residiam encontram-se hoje em distantes territórios na região metropolitana da cidade. “puxando” a cidade para tal região.morros de Porto Alegre. como forma de inserir tais territórios nas práticas cotidianas da cidade e nas trocas sociais que envolvem os pequenos serviços que compõem a vida urbana (comércio de alimentos. tornando-se altamente valorizada na cidade. ambas as regiões são marcadas pela instalação inicial de instituições públicas (a Polícia. Duas regiões encontram ressonâncias na forma como são marcadas por reformas urbanas. dos animais. a Universidade. e que em contrapartida. com a remoção de populações das áreas de risco para conjuntos habitacionais em outras regiões da cidade e a colocação de redes de esgoto que acompanham a instalação de grandes condomínios residenciais (como a “Chácara das Nascentes”) em áreas “verdes”. é marcada pelo seu convívio constante com as manifestações das águas que se acumulavam antes de chegarem à foz do Dilúvio. a Companhia de Energia Elétrica) que até mesmo incentivaram a ocupação irregular destes “vazios” da cidade por funcionários. Ainda encontramos na região remanescentes desse “arquipélago” de favelas. ganharam o direito a ocupar (sem no entanto serem proprietários) uma das margens do Dilúvio. A região do “Areal da Baronesa”. incluída no . próximas à Universidade (que é atravessada pelo Dilúvio também). A região foi dotada de infra-estrutura sanitária com a canalização do Arroio Dilúvio nos anos 1950-60. vive hoje um processo de valorização no mercado imobiliário da cidade. 1984) nas cidades brasileiras. sistemas de transporte. Encontramos. De fato. operários que atuam na construção civil e suas famílias. e também a remoção dessas ocupações em prol de melhorias na infra-estrutura sanitária da cidade. A recuperação das nascentes. próxima às nascentes. importantes para a memória da cultura afro-brasileira na cidade. vemos como o pertencimento de tais famílias ao lugar contrasta com outros moradores que ocuparam e foram aterrando a margem oposta. Contemporaneamente. algumas famílias dos primeiro funcionários da faculdade de Agronomia e Veterinária. portanto. dá continuidade a um processo de segregação espacial (CALDEIRA. antigos territórios considerados de periferia urbana antes de sua remodelação. serviços de limpeza e cuidado de crianças). por exemplo nas margens do arroio. que possuíam o duplo papel de trabalharem na Universidade e de cuidarem do terreno. em que o investimento público em infra-estrutura sanitária é associado à valorização destas regiões no mercado imobiliário urbano.

sendo esse urbano a rua em oposição à casa (DA MATTA. da poluição. Esta adesão não ocorre. na correta ligação do esgotos pluviais ou domésticos às redes que correm em separado ao longo do leito do Dilúvio. não ocupa de fato todo o terreno. 1997). associada ao domínio do poder instituído. por parte dos proprietários de residências e edificações. no entanto. situa os projetos de recuperação da qualidade ambiental da cidade sobre o desafio de reinserir o “natural” neste processo entre diferentes e desiguais concepções de privado e público. nem os chamados “irregulares” nos sentimentos de pertencimento a uma idéia de patrimônio público. que como a Universidade. de determinada ordem que não inclui nem os proprietários de terrenos ao longo da bacia. recebendo cerca de 50 mil metros cúbicos de terra e lixo todos os anos. A negociação da realidade socioambiental. e mesmo a invisibilidade do “perigo” (DOUGLAS. pela simples constatação da crise ambiental. etc. que também se criaram ao longo do Arroio Dilúvio durante sua canalização nos anos 1950. A perda da “pureza” das águas. O Arroio Dilúvio. como escoamento de dejetos advindos de hospitais e de inúmeras áreas residenciais da cidade. A ambientalização do processo de urbanização da cidade. como a perda da presença desses espaços “naturais”. que por volta da década de 1950 apresentava águas límpidas. são portanto parte de um ritmo de expansão da cidade que não valorizava as chamadas áreas naturais. assim. de mediação entre o doméstico e o urbano.terreno de outra instituição (CEEE). ao apresentar novas direções nos itinerários da cidade. Esses “vazios”. Recentes ações do Departamento de Esgotos Pluviais de Porto Alegre vêm demonstrando que o Arroio Dilúvio ainda é bastante utilizado como esgoto cloacal. patrimônio natural. as destinava a determinados grupos sociais que as utilizavam como possibilidade de inserção no universo da cidade. e por isso mesmo. . 1976) das cheias e das condições ambientais da bacia podem ser pensadas. não apropriados. Os novos projetos de recuperação de suas águas dependem da contribuição. encontra-se poluído.

a poluição das águas ainda parece um preço irreversível a pagar pela constituição de uma sociedade urbano- . Acompanhando o trabalho de técnicos da companhia de saneamento municipal (DMAE) ao verificarem e orientarem moradores para a correta ligação dos esgotos domésticos na rede pública. os recentes projetos de despoluição das águas que banham a cidade encontram a descrença de grande parte da população: para muitos.Menu de crônicas do DVD do projeto Pensando os serviços de saneamento. percebemos o grande desconhecimento e desinteresse por parte da população que reside em situação “regular” da destinação de seus esgotos e da origem da água que abastece sua residência. 1996) de promoção da proteção ambiental das áreas naturais. a produção de imagens e a pesquisa científica como agentes de mediação entre micro-éticas locais de uso das águas e do solo e macro-éticas planetárias (OLIVEIRA e OLIVEIRA. De fato. percebemos a importância da memória no processo de compreensão da inserção dos territórios urbanos na bacia hidrográfica. 4 .Fig.

e repensar a diversidade de lugares. uma revisão desse processo de urbanização através da compreensão das particularidades do ambiente urbano como apropriação da diversidade ambiental da região. Sobretudo. A construção das narrativas visuais seguiu esta proposta de continuidade e descontinuidade de universos simbólicos (VELHO. em que o tempo antigo remete a menos de 30. territórios.com). novamente. como o definem determinadas discursos ambientalistas. cujo desenrolar da narrativa se completa em outra narrativa.blogspot. mas uma unidade construída ao longo do processo de saneamento e urbanização da cidade provoca a imaginação a fazer o caminho inverso. a constatação de que o Dilúvio não é um único arroio próprio do “ambiente original” da cidade. riachos e seus usos nos projetos futuros para a cidade.habitantesdoarroio. quando pescavam. em nossos interlocutores. E. quando navegavam por arroios. . situando narradores e contextos. permitia aos pesquisadores do projeto articular as primeiras interpretações sobre trechos de diários de campo. A possibilidade de re-inserção dos arroios na paisagem urbana é portanto. mas que convergem para determinados núcleos semânticos.industrial. Durante a pesquisa. Os vídeos foram editados na forma de crônicas etnográficas (DEVOS. 40 anos. no entanto. articulando-se assim uma constelação de imagens que podem ser assistidas em ordenamentos diversos. são justamente as lembranças de usos “populares” das águas na cidade que são evocadas em projetos atuais de recuperação da qualidade das águas. sem ter a pretensão de dar conta da totalidade da complexidade da bacia hidrográfica e seus tempos sobrepostos. os relatos de moradores sobre os antigos caminhos dos arroios e as imagens antigas reunidas em acervos da cidade provocaram. 1981) representados. articulando a diversidade de microcosmos e pontos de vista com a tessitura de uma rede de intrigas narrativas e conexões diversas entre personagens. articulando textos de pesquisa com materiais visuais em que a forma fragmentada. 2007) que se caracterizam pela forma fragmentada como apresentam determinada temática no universo investigado. quando bebiam a água diretamente do rio. Ainda é possível encontrar moradores que lembram com prazer de quando se banhavam nas águas do Guaíba e do Dilúvio. percebemos que as imagens produzidas pelo projeto. uma possibilidade de exercício da reflexão entre as dinâmicas da vida urbana e a dinâmica das águas. temporalidades. As crônicas também foram instrumentais para a divulgação da pesquisa no blog do projeto (www.

foto. nos termos de Eckert e Rocha (2005) pois é uma concepção de muitos "começos" de muitos desvios. recomeços. E mesmo as possibilidades de mudança.blogspot. nas suas formas : ciclos. Como mostra Bachelard.habitantesdoarroio. cujo ritmo é ditado pelo esforço de continuar. Neste ponto revela-se claramente que a memória não é a reprodução do passado. nos termos de Halbwachs (1990) pois não se encontra na consciência de um indivíduo. mortes. 5 – postagens no blog do projeto – www. de retornos em trajetórias no tempo. que depende da ação do leitor/espectador para se consolidar como narrativa. progressos – são todas modalidades de interpretação da passagem do tempo. formando narrativas em hipermídia.Fig. mas sim nas representações de uma coletividade. mas a sua elaboração criativa a partir de razões do presente. com uma identidade. poderíamos dizer) não é um dado imediato. a memória é coletiva. texto ou documento pesquisado constitui-se também numa outra forma de descrição etnográfica. nos símbolos. nas práticas e saberes em que esta se reconhece. 2005).com Próximas da dinâmica dos jogos da memória (ECKERT e ROCHA. do ambiente. É duração. Entendida como duração. do ser. Provocar o leitor/espectador a deslocar-se pela bacia hidrográfica é sobretudo uma proposta do projeto de provocar seus interlocutores a deslocarem-se por tempos diversos sobrepostos nos territórios da bacia. a continuidade (da cultura. nos lugares. é uma construção humana o esforço de permanecer o mesmo. cuja relação (link) entre cada vídeo. retornos. de transformação são expressas nas imagens do tempo. as narrativas foram articuladas em menus interativos. que embora se .

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