You are on page 1of 4

UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO

Curso de Graduação em Direito

FONTES DO DIREITO NO CONTEXTO DAS
ORDENAÇÕES AFONSINAS

ALUNO: HEMYLSON PORTO DE SOUZA

Trabalho
apresentado
para primeira avaliação da
disciplina História do Direito,
professor João Ribeiro, do
curso de graduação em
Direito.

Seropédica
2015

ou Santo Cânones. estão organizadas como Estados Constitucionais. há de se constatar que o movimento jurídico supracitado surgiu e vem se consolidando desde o século XX. a do império e a da Igreja Católica. Note-se que a lei só não será aplicada quando for omissa. no final da Idade Média (GILISSEN. Nesse sentido. praticamente todas as sociedades. pag. elaborada por Hans Kelsen. Pois bem. numa acepção quase que inversa.Atualmente. diante do contexto histórico em que vivemos nesse início de século. Pois bem. 296). como referido acima. foi um aspecto que marcou as sociedades daquele período. É notável. ou costume. como se vê atualmente. o pluralismo de ordens jurídicas. Já o surgimento dos primeiros Estados Constitucionais data do final do século XVIII. sobretudo quando há menção sobre as possíveis fontes de aplicação do Direito no caso concreto: “Lei do reino. necessariamente nessa ordem de preferência. O costume. dos EUA. é de se destacar o quanto o surgimento da noção de Estado soberano viria a contribuir mais tarde para a unificação da ordem jurídica. a exemplo da França. a validade dos atos judiciais e institucionais é fundada em tal ordem jurídica. De fato. portanto.. Sabe-se que esse panorama atual é reflexo direto do movimento que se convencionou chamar de positivismo jurídico. em três delas (Lei do Reino. e da Inglaterra (este último não estabeleceu constituição escrita em um documento).. Muito embora tenha ocorrido uma séria de transformações ao longo de todo este período histórico. Nesse contexto. todas independentes (em tese): a do reino. o positivismo jurídico tem exercido impacto decisivo no que se refere ao estabelecimento da lei (em sentido amplo) como a mais importante (senão a única) fonte para aplicação do Direito. como afirmado no início deste trabalho. além da soberania. sobretudo no mundo ocidental. é . 1979.) a opinião de Bártolo”. (. a jurisprudência.. Na mesma linha de entendimento. que naquele momento a noção de soberania ou de Estado Soberano ainda era latente. há que se notar um aspecto que predominou durante todo este tempo: o pluralismo de ordenamentos jurídicos aplicados a uma determinada sociedade. a doutrina jurídica brasileira costuma eleger como as principais fontes do Direito a lei. e consequentemente para a otimização das fontes de aplicação do Direito. a exemplo da Teoria Pura do Direito. Trata-se de legislação editada pelo Reino de Portugal por ocasião do renascimento desse tipo de fonte do Direito no continente europeu.. Leis Imperiais e Santo Cânones) percebe-se que há mais de uma esfera de poder político incidente sobre aquela sociedade. a própria doutrina e os costumes. que consiste justamente no objeto de discussão do presente trabalho. inclusive no que diz respeito ao modo de aplicação do Direito (como será discutido adiante). O trecho das Ordenações Afonsinas também aponta os costumes como uma das possíveis fontes de aplicação do Direito. No período que vai desde a Baixa Idade Média até o final do século XVIII. as sociedades ocidentais não possuíam ordenamento jurídico sistematizado e organizado. ou Leis Imperiais. Este aspecto é claramente visualizado no trecho em questão. De todas as fontes citadas.) as glosas de Acúrsio (. Um dos pressupostos mais fundamentais do Estado Constitucional. ou estilo. e muito menos fundamentado em uma constituição. é a existência de um ordenamento jurídico baseado na supremacia da constituição. É nessa linha de intelecção que se torna oportuno iniciar os comentários acerca do trecho das Ordenações Afonsinas.

Bártolo fazia parte desta escola (GILISSEN. evidencia de modo bem conciso a realidade jurídica do final da Idade Média e início da modernidade. Porém. ainda mais quando comparadas ao que ocorre atualmente. primeiramente. pag. 1979. Como se nota. dos registros de costumes e dos recursos a tribunais superiores (GILISSEN. . pag. ressalta-se que tal pretensão só veio a se consolidar. é marcado pelo pluralismo de ordens jurídicas. já que esta não era tão abundante naquela época como é hoje. que apenas em 2005 institui uma Corte Suprema para esse fim. Concluindo. a efetivação do desejo de unificação da aplicação do Direito era prejudicada. havia grande probabilidade de se encontrar lacunas na legislação da era medieval e moderna (mais na medieval) do que atualmente. 1979. pag.na prática. o exemplo ilustrativo do trecho das Ordenações Afonsinas. num primeiro momento. e o costume de modo subsidiário. Este contexto. Enquanto que hoje os estudos jurídicos levam em consideração aspectos decorrentes do âmbito de outras ciências. 1979. a Economia. no trecho em questão das Ordenações Afonsinas há menção às glosas de Acúrsio e à opinião de Bártolo. 264). 344). pag. e também pela maior utilização de fontes do Direito subsidiárias da lei. 260-264). Uma das principais desvantagens relativas ao costume consiste na necessidade de provar sua existência. como a Psicologia. a Ciência Política e a Administração. interpretações sobre os textos romanos. uma tentativa de unificação da ordem jurídica. a Sociologia. recorrer aos costumes como fonte do Direito era algo comum. havia procedimentos específicos empregados para provar o costume. pag. a exemplo da inquirição por turba. o método medieval era baseado na produção de glosas. há uma distância enorme entre a produção legislativa atual e a que se atribui àquela época. onde eram realizados comentários acerca de outras glosas. 1979. em vez de mera carta política. Atualmente. a metodologia utilizada pela doutrina jurídica é amplamente diversa do que ocorria na Baixa Idade Média. especialmente o corpus iuris civilis. ou seja. No que se refere à doutrina. sucintamente discutido neste trabalho. e logo depois em documentos oficiais (GILISSEN. Mais uma vez.ainda hoje considerado como fonte do Direito. Haja vista as condições precárias de comunicação daquela época. pelo menos é assim no Brasil. Havia também a chamada Escola dos Comentadores ou Pósglosadores. Esse era o método de Acúrsio (GILISSEN. como foi visto. Ilustra-se a questão com o exemplo da Inglaterra. na prática. pois são situações diversas. essa doutrina era baseada quase que exclusivamente nos textos romanos compilados por Justiniano. Muito embora houvesse. 1979. inclusive mediante a redução por escritos oficiais dos costumes e sua inclusão na legislação. por exemplo. passou-se a registrar os costumes em documentos particulares. por exemplo. Como consequência disso. Inclusive a atual concepção da constituição como verdadeira norma jurídica. a partir da edição das chamadas ordonnances (GILISSEN. Num momento posterior. enquanto que hoje isso raramente ocorre. a aplicação das normas do Rei nem sempre ocorriam com efetividade. 246). muito recentemente. Muito embora haja também uma preferência expressa no trecho em utilizar a Lei do Reino como fonte primária. é necessário ressaltar um ponto. há que ser cauteloso. Após os comentários referentes ao trecho das Ordenações Afonsinas. Assim. na era medieval. com a adesão de vários Estados no que se refere ao estabelecimento de Cortes Supremas cujo controle judicial perante a constituição é atribuído. foi consolidada apenas no século XX. Nesse sentido. obviamente. 297).

1995. 1997. Panorama histórico da cultura jurídica européia. J. Mem Martins: Europa-América. M. . A.Referências Bibliográficas GILISSEM.Lisboa: Calouste Gulbenkian. 2a ed. Introdução Histórica ao Direito .. HESPANHA.