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Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC

Centro de Filosofia e Ciências Humanas - CFH
Curso de Graduação em Ciências Sociais

Projeto de Pesquisa: "Aprenda fazendo" - uma etnografia sobre a educação
técnica de mulheres no IFSC em Florianópolis

Beatriz Demboski Búrigo

Florianópolis, Dezembro de 2015.

IFSC em Florianópolis. ou seja. de profissões não comumente ocupados por mulheres. e identificados. Minhas duas hipóteses de trabalho são que as disposições de habitus configuram os corpos femininos. Principalmente. . Muitas vezes. quanto de forma a influenciar as escolhas profissionais que exigem habilidades físicas/corporais. Isto também está relacionado com a probabilidade de escolha de homens e mulheres para certos tipos de profissões que exigem habilidades corporais. durante o acompanhamento das mulheres dentro dos cursos técnicos. portanto está sempre em desenvolvimento e transformação. o trabalho consistirá em perceber estes "corpos femininos" . concomitantemente. este binarismo acaba por não permitir uma compreensão mais aberta das possibilidades corporais de homens e mulheres. e que há um desenvolvimento de habilidades quando corpos femininos estão inseridos em contextos de ensino técnico considerados masculinos. A primeira parte da pesquisa possui o objetivo de perceber como estes corpos são construídos socialmente. Basicamente. que significa. como por exemplo. Desta maneira. diversas mudanças corporais. O principal ponto de partida é de que o corpo não é anterior à técnica e tampouco dissociado da realidade social.1. Introdução O presente projeto propõe uma etnografia das mulheres que estão participando de cursos técnicos no Instituto Federal de Santa Catarina . como se houvessem certas atividades físicas/corporais pré-definidas para cada "tipo corporal". condicionando esta escolha a partir e através do corpo. serão tanto mobilizadas as categorias de habitus e héxis corporal. com o objetivo de acompanhar essas mulheres ao desenvolverem habilidades nos cursos com presença mais expressiva de homens. cursos de conserto automotivo e mecânica.construídos socialmente e pontuados com certas diferenças do que conhecemos como "corpos masculinos" . tanto fisicamente. comportamentais e técnicas. por acreditar que estas categorias são importantes para a compreensão do desenvolvimento de novas habilidades. quanto as categorias de técnica e educação da atenção.em desenvolvimento de novas habilidades em campos que geralmente são considerados como serviços feitos por homens. em uma oposição entre 'feminino' e 'masculino'. para efetuar esta pesquisa.

. quanto de forma a influenciar as escolhas profissionais que exigem habilidades físicas/corporais. Específicos: .Acompanhar as disposições e possibilidades para corpos femininos construídos no ensino técnico.Identificar se há ou não desenvolvimento de novas habilidades em corpos femininos inseridos em cursos técnicos de conserto automotivo e mecânica. 2002) .Há um desenvolvimento de habilidades quando corpos femininos estão inseridos em contextos de ensino técnico considerados masculinos. Tim Ingold (2013) é um autor que propõe uma etnografia mais engajada. 3. . a escolha da etnografia somada ao engajamento prático com as atividades dos cursos técnicos.Perceber quais são os corpos feitos nestes cursos técnicos e quais são as habilidades desenvolvidas. a qual talvez traga uma maior significância para o conceito de observação participante.2. a partir da qual podemos até considerar uma 'participação observante'. em Florianópolis. 4. Objetivos Geral: Acompanhar a educação técnica de mulheres e analisar como se dá o desenvolvimento de novas habilidades em corpos femininos inseridos em cursos técnicos no Instituto Federal de Santa Catarina.As disposições de habitus configuram os corpos femininos. tanto fisicamente. . Hipóteses .Compreender como é a construção social e diferenciação dos corpos entre femininos e masculinos e como isso reflete nas disposições para atividades físicas/corporais. . propõe uma compreensão mais específica quanto ao desenvolvimento de habilidades e aproximação dos sujeitos que também estarão as desenvolvendo através da técnica. Método Quanto ao método do presente trabalho. (WACQUANT.

. se forma e se transforma. Justificativa Acredito que seja bastante pertinente pesquisar e estudar o desenvolvimento de novas habilidades em mulheres adultas. que posteriormente auxiliarão na compreensão do material levantado durante o trabalho de campo. já que o comumente aceito é de que na infância nos desenvolvemos como predestinado por nossa "natureza". Segundo Simone de Beauvoir (2009). principalmente por acompanhar um 'ethos' entendido como o "de homem" . este se apresenta de modo inteiramente diferente segundo seja apreendido de uma maneira ou de outra". (BOURDIEU. (MAUSS. o lugar da pesquisadora não será exatamente o lugar do nativo durante a observação. esta reconstrução de corpos constituídos como femininos. sempre haverá um distanciamento inevitável e também um lugar de fala por parte desta. e que nos tornamos seres "completos" quando adultos.Esta forma de etnografia significa estar presente nas atividades observadas como alguém que também se expõe àquela prática. porém reitero que. justamente.e também possui o efeito colateral de constituir o habitus das mulheres na nossa sociedade.. também pautada por diferentes condicionamentos e objetivos. ainda assim. são desenvolvidas através do aprendizado de uma nova técnica. lembrando que o corpo não existe antes da técnica. portanto um trabalho como este proporcionaria presenciar esta apreensão do corpo a partir do desenvolvimento de novas habilidades. gostos .e este abarca profissões. o nosso corpo e nossas capacidades são construídas conforme vivemos no mundo e vivemos em sociedade. 5. mas se faz a partir dela. de certa maneira impedidos de desenvolverem habilidades consideradas como masculinas. que não é fixo e que na verdade possui um nível de agência individual. atividades. na verdade. principalmente por não ser comum a compreensão de que pessoas com uma certa idade ainda possuem a possibilidade de aprender e desenvolver novos conhecimentos. mesmo que transpassada pelas . Quando. " (. 2003) Esta pesquisa seria bastante pertinente por mostrar.) sendo o corpo o instrumento de nosso domínio do mundo. Para a discussão dos conceitos mobilizados na presente pesquisa. 2014) Este habitus. serão utilizados levantamento bibliográfico e comparação de autores. até porque possui um papel na interação pesquisadora/pesquisado e está vivendo a experiência de diferentes maneiras. que por sua vez.

como se existisse uma fórmula pronta de representações e conhecimentos femininos transmitidos de mulher para mulher e que ao passar dos anos. pois o interessante é perceber como as mulheres lidam com aprendizados pouco convencionais em seus contextos diários. portador de 'conhecimento cinético' e dotado de potencia estruturante". desconstrói-se a ideia de transmissão de informação e conhecimento. em lugares que mulheres desafiam tendências para desenvolverem habilidades técnicas em meios considerados masculinos. porém permissivas/estruturantes. principalmente por buscarem o desenvolvimento de habilidades que não são consideradas femininas pela nossa sociedade. Além disso. modifica-se nestes espaços da dialética mudança social. no caso. as habilidades são desenvolvidas de forma não estática. torna-se pertinente compreender a 'educação da atenção' como desenvolvimento de habilidades. este trabalho é importante para demonstrar que através de uma educação da atenção. mas sim como capaz de gerar e criar. por considerar a transmissão de conhecimento da maneira convencional. ou seja. 2005) 6. Por isso. (INGOLD. Revisão Teórica . (BOURDIEU. 2010) Para este trabalho. esse conhecimento se cristaliza. acabamos por cair na armadilha de que o conhecimento é transportado de uma pessoa a outra. (BOURDIEU.estruturas sociais. em constante cumplicidade ontológica. Como considera Wacquant (2002): "não tratar o corpo socializado como objeto. mas que mesmo assim apresentam conhecimentos e habilidades que serão colocados em prática no dia-a-dia destas mulheres. para a construção da ideia de desenvolvimento de experiências para se habitar lugares e ambientes. 2014) Assim. no caso. mas sim de maiores possibilidades para os corpos. foram escolhidos os cursos técnicos de conserto automotivo e de mecânica. percebendo ser este um caso onde o habitus em constituição também passa a estruturar dentro de estruturas estruturadas. na forma adulta. e de que maneiras essas habilidades funcionam como formas de emancipar mulheres adultas dos determinados contextos construídos como femininos e acaba por constituir novas ambições e novas configurações de seus habitus. Enfim.

de forma não estática e fixa. pré-dispostos e predestinados. (MAUSS. nossas compreensões do que são corpos e constituições tanto femininas. de se comportar. A partir de então. "se o corpo não é . fazem parte dessas construções sociais e devem muito ao que foi estruturado ao longo do tempo em nossa sociedades: "As injunções sociais mais sérias se dirigem ao corpo e não ao intelecto. que segundo ele representa. ou seja. o nosso corpo é carregado de significados que através deles agem sobre a materialidade do mundo.de um agente em ação.quase de maneira postural . de sentar-se etc. quanto masculinas. o primeiro tratado como um "rascunho". por tanto. razão prática. um conhecimento adquirido. sob a forma de maneiras de andar. pontuado. mas sim se faz a partir dela e durante ela. o corpo da mulher é um dos principais elementos da situação em que ela ocupa no mundo. basicamente. As técnicas corporais também são construídas e desenvolvidas e não existe um "nascer sabendo" de qualquer uma delas. Assim. segundo o autor o corpo não existe antes da técnica. de falar. tanto se formando quanto se transformando.Marcel Mauss (2003) é um dos primeiros autores a mobilizar o conceito de habitus. contrapondo-se ao senso comum de que estas capacidades são dados naturais. Percebemos que com isso. Além disso. 2003) Portanto. para tentar explicar certas capacidades técnicas e corporais como coisas adquiridas e construídas ao longo do tempo. assim como Mauss. 2007) Segundo Simone de Beauvoir (2009). age em e compreende seu mundo através de suas disposições corporais. percebo a importância de trabalhar esse transformar de corpos construídos socialmente durante a realização técnica. uma disposição incorporada ." (BOURDIEU. mas que também age sobre ela através de seu habitus. de dirigir o olhar. Bourdieu (2009) procura trabalhar suas teorias e pesquisas com base na categoria de habitus. Bourdieu também defende a ideia do corpo socializado. por suas regras e constituições. O essencial da aprendizagem da masculinidade e da feminilidade tende a inscrever a diferença entre os sexos nos corpos (sobretudo por meio do vestuário). mas em constante desenvolvimento. ou seja. recorrendo a ideia aristotélica de hexis. porém é imprescindível considerar que este mesmo só possui sentido e existência dentro de uma sociedade. que carrega em si as regras da estrutura. elas são ferramentas do ser humano e são indissociáveis de seu meio social. Decorrendo disso.

Para isso.uma coisa. e que todo ser humano é um centro de percepções e agência em um campo de prática”. é uma construção social naturalizada. 2014) Assim. Explicar. e particularmente do corpo." (BOURDIEU. etc. binárias e não tão fiéis a realidade . que dá um fundamento aparentemente natural à visão androcêntrica da divisão de trabalho sexual e da divisão sexual do trabalho e. Um dos primeiros desafios que terei na execução deste projeto será explicar quais são os meus pressupostos quando falo sobre corpos femininos e masculinos e profissões (ou atividades) femininas e masculinas. a partir daí. faz-se pertinente compreender essas habilidades contrapondo-as com a construção dos corpos femininos e corpos masculinos. demonstrando que esta divisão. ela própria. 2009) Justamente por isso. progressivamente. a razão do argumento de que mulheres não podem consertar carros por serem delicadas. de toda a ordem natural e sexual. A força particular da sociodiceia masculina lhe vem do fato de ela acumular e condensar duas operações: ela legitima uma relação de dominação inscrevendo-a em uma natureza biológica que é. tanto de corpos. Segundo Ingold (2015). (BEAUVOIR.porém consegue exemplificar muitas coisas que persistem quanto às construções dos nossos corpos e papéis sociais. por sua vez.ainda mais na nossa sociedade atual . de todo o cosmos. é uma construção arbitrária do biológico. “nosso conhecimento consiste. mas também. quanto de trabalho. a relação entre o aprendizado através do corpo e a consciência que este corpo é situado. No caso do presente trabalho. por exemplo. é uma situação: é a nossa tomada de posse do mundo e o esboço de nossos projetos". em habilidades. masculino e feminino. ele afasta do biológico a argumentação do porquê das tarefas serem divididas entre homens e mulheres. demonstrar com bastante clareza que o meu trabalho já suporá que estas categorias são construções sociais. em primeiro lugar. utilizarei a genealogia sobre o 'feminino' e o 'masculino' que Pierre Bourdieu faz em sua obra "A Dominação Masculina". ela ainda se faz presente nas nossas relações e explicaria. de seus usos e de suas funções. uma construção social naturalizada. Segundo ele: "Longe de as necessidades da reprodução biológica determinarem a organização simbólica da divisão sexual do trabalho e. sobretudo na reprodução biológica. Por ser assim. é bastante importante para compreendermos o desenvolvimento de habilidades técnicas. . por seus corpos serem frágeis.

em sua obra O Segundo Sexo.mesmo sem estes lhes serem recusados. aqui consideramos uma dimensão estrutural das escolhas por atividades profissionais. 2014) Além disso. mas também modificações corporais duradouras consequentes de uma criação social específica para mulheres em contrapartida aos homens. provavelmente enfrentam algum tipo de resistência tanto por parte da sociedade a sua volta. não são apenas representações que distinguem os sexos. Esta construção dos corpos é tão profunda. já que estas em parte são direcionadas conforme a divisão sexual do trabalho. Assim. das mulheres que dificilmente escolhem agir profissionalmente como mecânicas. não são só as condições corporais objetivas que definem certas capacidades ou tendências a dominar. 2005) Simone de Beauvoir. positivas ou negativas. portanto é inevitável perceber as construções dos corpos femininos e masculinos de forma diferente. pontuando um argumento bastante interessante para o presente projeto. ou não.Neste sentido. essas construções e disposições do habitus estão extremamente relacionadas com as condições objetivas postas para os agentes. quando demonstra o corpo da mulher como corpo que possui significado." Por isso. Que o biológico só pode aparecer e se desenvolver em meio social. refletindo nas habilidades de cada ser humano e nas suas experiências sensoriais. quanto de suas próprias constituições corporais e de habius. Lembrando que. é construído e situado socialmente. tendem a se inscrever nos corpos sob forma de disposições permanentes. Segundo Bourdieu (2014): "Através das esperanças subjetivas que elas impõe. certas técnicas. e aquelas que escolhem. desencorajando-a. (BOURDIEU. a experiência prolongada e invisivelmente mutilada de um mundo sexuado de cima a baixo tende a fazer desaparecer. das aspirações às possibilidades. pois justamente se faz na prática do dia a dia. mas também essa construção social acaba por definir também as expectativas e vontades comuns de pessoas do mesmo sexo. as 'expectativas coletivas'. a própria inclinação a realizar atos que não são esperados das mulheres . estas condições acabam por construir cognitivamente nestes. segundo a lei universal de ajustamento das esperanças às oportunidades. (BOURDIEU. também procurou demonstrar a naturalização da divisão sexual. estruturas semiconscientes que condicionam suas ações e suas corporeidades. no sentido de direcionar as aptidões práticas. Segundo ela: . no nosso caso específico.

significaria elevar a importância da prática e das técnicas nos fluxos de desenvolvimento destas. A teoria da "educação da atenção" (INGOLD. 7. Cronograma 2015 Leituras Orientaçã o Campo Escrita Defesa Març o X Abri l X Maio X Junh o X Julho Agosto Setembro X X X X X X X X X X Outubr o Novembro X X X X X X X X X X . 2010). corroborando com as teorias analisadas até agora de que as técnicas corporais são formas de constituição e desenvolvimento dos corpos. observar o desenvolvimento de habilidades em mulheres nos contextos de ensino técnico. 2009) Dessa maneira. ou fixadas. indissociáveis do meio social e nunca dadas previamente. Ele só tem realidade vivida enquanto assumido pela consciência através das ações e no seio de uma sociedade" (BEAUVOIR. não é nada além de definir capacidades inatas para cada um dos sexos. Por fim. pelo viés da educação da atenção. no sentido que "biologizar" a divisão dos corpos entre masculinos e femininos e suas capacidades corporais e físicas. Mas não é ele tampouco que basta para a definir. o grande debate a certa da teoria do conhecimento é a oposição entre capacidades inatas e adquiridas. surge como crítica a esta oposição entre capacidades inatas/adquiridas. Consequentemente. seria uma análise da abertura do leque de oportunidades de atuação corporal para estas mulheres."O corpo da mulher é um dos elementos essenciais da situação que ela ocupa neste mundo. como um modo de aprender a desenvolver novas habilidades a partir do engajamento prático e da técnica.

O Poder Simbólico. As Técnicas do Corpo. Educação. ____________. Marcel. Porto Alegre. In: Sociologia e Antropologia. Tim. Corpo e Alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. New York: Routledge. 2015. MAUSS. 2007.1. ________________. 2003. 2ª ed. v 1. ________________. ____________. INGOLD. Making. 6-25. 2014. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. da UFSC. Loic. p. O Senso Prático. ________________. Pierre. Florianópolis: Ed. . Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2013. BOURDIEU. n. Rio de Janeiro: Relume Dumará. In: Meditações Pascalianas. Rio de Janeiro: BestBolso. v. 2014.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BEAUVOIR. O Conhecimento pelo corpo. Da transmissão de representação à educação da atenção. São Paulo: Vozes./abr. Estar Vivo. São Paulo: Cosac Naify. 2009. 2002. 2005. Petrópolis: Vozes. 2009. A Dominação Masculina. ________________. 2010. Simone de. 33. WACQUANT. jan. Os Herdeiros: os estudantes e a cultura. O Segundo Sexo.