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Sermão de Santo António aos Peixes de Padre António Vieira

Capítulo I - Exórdio
Alegoria – representação de uma realidade abstracta através de uma outra concreta que a simboliza por analogia, encadeando de forma lógica imagens, metáforas, comparações… é
o simbolismo concreto que abrange o conjunto de toda uma narrativa ou quadro, de maneira a que cada elemento do símbolo corresponda a um elemento significado ou simbolizado.
1º Parágrafo
Conceito Predicável – «Vós sois o sal da terra» - a função do sal é impedir a corrupção, logo a função de todos nós é impedir que a corrupção exista. Cristo, no entanto, dirige esta
função especificamente aos pregadores.
Problema – Corrupção na terra – «o sal não salga» (os pregadores não estão a cumprir a sua função, impedir a corrupção na terra) ou «a terra não se deixa salgar» (a terra/as pessoas
não querem deixar de ser corruptas, não querem receber a verdadeira palavra de Deus)
Causas
Pregadores
Não pregam a verdadeira doutrina
Não dão o exemplo, pois dizem uma coisa e fazem outra
Pregam-se a si, preocupam-se com os seus interesses e não com os
interesses cristãos

Ou
Ou
Ou
Ou

Terra/Pessoas
Não querem receber a verdadeira doutrina
Querem imitar o que os pregadores fazem e não o que dizem
Preocupam-se com os seus «apetites»/interesses e não servem a Cristo

ò
Orações coordenadas disjuntivas – estabelecem uma relação de alternância
ò
Conectores do discurso mais utilizados neste capítulo:
. adição (ex. e);
. causa (ex. porque);
. hipótese (ex. se);
. oposição (ex. mas).

Os conectores (p.348) sequencializam as ideias e estabelecem relações entre elas. Padre António Vieira
tem necessidade de justificar o que diz, colocando sempre hipóteses e refutando-as, até chegar à sua
conclusão final.

2º Parágrafo
«Suposto pois» - Expressa uma condição para o que se segue, supõe-se que há algo que é tido como certo e, sendo assim, há necessidade de concluir acerca disso. Neste caso
relaciona-se com o facto de ser certo que «ou o sal não salga» «ou a terra não se deixa salgar» e, por isso, tem que haver uma solução para qualquer um destes casos.
Interrogações retóricas – Habitualmente utilizadas por Padre António Vieira. O objectivo de qualquer sermão é ser ouvido e não lido, desta forma há que ter preocupações adicionais
com o auditório (princípios da oratória). As interrogações retóricas têm como função chamar a atenção dos ouvintes, questionando a sua inteligência para que reflitam acerca do que
está a ser tratado. Não se pressupõe uma resposta, esta está implícita, todavia o auditório tem que se questionar interiormente relativamente aos aspectos tratados, ou seja, também
ele é chamado a refletir.
Citações evangélicas – ao longo do Sermão são utilizadas citações evangélicas que pretendem atribuir credibilidade e força àquilo que é dito. A argumentação serve-se de citações
bíblicas de forma a consolidar as ideias expressas dando-lhes veracidade, afinal essas ideias estão a ser comprovadas com a palavra de Cristo, que funciona como um dogma e, por
isso, inegável.
3º Parágrafo
Panegírico (discurso de louvor, enaltecimento de virtudes de personalidades, ações ou feitos de grande valor) – Louvor a Santo António que, tendo dificuldade em pregar a verdadeira
doutrina aos homens, não cedeu às tentações de não a pregar ou pregar uma coisa e fazer outra, ou ainda pregar-se a si e aos seus interesses e não a Cristo e decidiu pregar aos
peixes. Padre António Vieira toma-lhe o exemplo e decide fazer o mesmo, daí a homenagem que lhe presta no seu dia (13 de Junho), em vez de falar do Santo, junta-se a ele e
seguindo-lhe o exemplo prega aos peixes, que se revelam um melhor auditório.
Diferentes ritmos – Interrogações retóricas – Conceito - chamar a atenção do auditório, fazendo-o refletir sobre o que é dito «Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia?
Daria tempo ao tempo?»; Jogos antitéticos – jogos de palavras reveladores de antíteses, realidades antagónicas «Deixa as praças, vai-se às praias, deixa a terra, vai-se ao mar»;
modelações prosódicas, através, por exemplo das frases exclamativas – entoações diferentes da voz que são feitas mediante o que se diz. São inflexões e intensidades de voz que
diferenciam a importância do que é dito.
ÄO efeito tido sobre o auditório é simplesmente captar a atenção e agitar as mentalidades, fazê-las pensar, refletir sobre a vida e a sua conduta.
4º Parágrafo
Antítese - «… voltar-me da terra ao mar…» - pretende reforçar a desilusão de Padre António Vieira face à incapacidade dos homens ouvirem a verdadeira doutrina; “Muitas vezes vos
tenho pregado (...) de dia e de noite” – reforça a ansiedade de Padre António Vieira de veicular a verdadeira doutrina e a recusa dos homens em recebê-la.
Enumeração e Polissíndeto - «Muitas vezes vos tenho pregado nesta Igreja, e noutras de manhã, e de tarde, de dia, e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito
verdadeira, e a que mais necessária e importante é a esta terra…» - explicita a importância da verdadeira doutrina na conduta de Padre António Vieira e a sua prestação em relação à
terra/homens. Estes dois recursos estilísticos reforçam a ideia de Padre António Vieira ser incansável na divulgação da palavra de Cristo, ele tenta sempre «salgar» a terra, a terra é
que «não se deixa salgar» por ele.
Ironia - «É muito bom Texto para os outros Santos Doutores; mas para Santo António vem-lhe muito curto» - Padre António Vieira louva Santo António em detrimento dos outros
pregadores aos quais apelida ironicamente de «Santos Doutores», quando na realidade não são «santos», pois não pregam a verdadeira doutrina, por isso mesmo é que «é muito bom
o Texto» para eles, porque como não o pregam, é-lhes suficiente; «…o sal da minha doutrina, qualquer que ele seja, tem tido nesta terra ua fortuna tão parecida à de Santo António em
Arimino, que é força segui-la em tudo» - reforça a ideia da recusa dos homens em ouvir a verdadeira doutrina e da necessidade dos pregadores que querem divulgá-la terem que o
fazer aos peixes; “o mar está tão perto que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o Sermão, pois não é para eles.”
Alusão – Sempre que se refere a Santo António e sempre que se refere indiretamente ao auditório)
6º Parágrafo
Invocação – No final do exórdio existe uma invocação a «Domina maris» - Maria, Senhora do Mar. Esta invocação existe pelo facto de Maria ser a inspiradora do discurso religioso,
assim Padre António Vieira pretende, desta forma, pedir inspiração a Maria para proferir este sermão à semelhança de Santo António, a quem faz o seu panegírico.
Funcionamento da língua
1.2 e 1.3– A forma verbal «façam» encontra-se no presente do conjuntivo exprimindo, por isso, uma dúvida, uma possibilidade, um desejo. Nesta frase «porque quer que façam…» o
verbo fazer está antecedido de um verbo modalizador (explicita a apreciação do locutor sobre o valor da verdade da proposição [p. 342]), neste caso o verbo «querer», que lhe atribui
uma maior noção de certeza ao desejo expresso pelo presente do conjuntivo.