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RESPOSTA AOS CRÍTICOS DO MEU TEXTO “SOCIALISMO E FÉ CRISTÔ

Por Eliel Vieira

Certa vez estávamos participando de um debate eu, o ateu Eli Vieira e o filósofo Dr. Alexandre Machado (dentre outros participantes) sobre o famoso “Paradoxo da Pedra”. O paradoxo propõe apresentar uma intrínseca incoerência à idéia de Onipotência ao perguntar, “Deus pode criar uma pedra tão pesada ao ponto dele não conseguir levantá-la depois?”. Se se disser que não, Deus não seria onipotente; se se disser que sim – que Deus pode criar tal tipo de pedra – então Ele também não seria Onipotente, pois, ao existir uma pedra tão pesada que Ele não pudesse levantar, Onipotente Ele não seria mais. O interessante neste debate é que o filósofo Dr. Alexandre Machado, que não é cristão, considerou o tal paradoxo um mero sofisma que possui uma contradição interna em sua formulação e que, a rigor, não conclui nada em relação à idéia de Onipotência. Não demorou muito para o mesmo ser acusado de “cristão” e de “criacionista” por parte do ateu Eli Vieira (que estava um tanto exaltado no debate).1 Pois bem. Alguns dias atrás (26/03/10) eu postei um texto eu meu blog questionando algumas conclusões de um ensaio de Norma Braga, chamado “Por que não sou de esquerda”2. As reações referentes a este texto foram impressionantes. Nenhum texto meu jamais recebeu tantos comentários (a maioria destes constituído de críticas ferrenhas) em tão pouco tempo. Nem mesmo o texto em que levantei a possibilidade do homossexualismo3 não ser pecado ou o texto onde questionei se o inferno de fogo existe4 foram tão apedrejados.

Para ler um texto do Dr. Alexandre Machado sobre o debate em, vá em <http://problemasfilosoficos.blogspot.com/2009 /06/onipotencia-e-tarefas-possiveis.html >. 2 <http://www.elielvieira.org/2010/03/resposta-norma-braga-sobre-socialismo-e.html>. 3 <http://www.elielvieira.org/2009/05/sobre-os-homossexuais.html>. 4 <http://www.elielvieira.org/2009/06/inferno-de-fogo-uma-objecao-logica.html>.

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Bem, o que o debate sobre o “Paradoxo da Pedra” e meu questionamento a Norma Braga têm em comum? Em ambos os casos, houve uma associação equivocada entre críticas e cosmovisões. Por ter defendido que o “Paradoxo da Pedra” era um sofisma, e como a maioria dos que questionam o paradoxo é composta por cristãos, o Dr. Alexandre Machado foi acusado de ser cristão e até de ser criacionista pelos ateus que participavam do debate. Da mesma forma eu, por ter questionado um texto anti-esquerdista, fui acusado de ser comunista (mesmo avisando por várias vezes que não era comunista no meu texto, já prevendo que tais associações surgiriam) e fui acusado por alguns até mesmo por alguns de “neo-ateu”. Se tivessem ficado apenas nesta questão da injusta associação minha com o comunismo e ateísmo, tudo bem (“eu sei em quem tenho crido”), porém os mal-entendidos se concentraram em cada peça singular do meu texto, a ponto de, se alguém ler apenas os comentários escritos pelos críticos, apenas um espantalho do texto que escrevi poderá ser montado. Pretendo aqui, portanto, esclarecer alguns pontos que, ou por falta de clareza de minha parte, ou por interpretação equivocada por parte dos críticos, não alcançaram os objetivos para os quais eu os planejei quando escrevi minha resposta a Norma Braga.

O Tipo de Texto Em primeiro lugar, o meu texto se trata de um questionamento, uma crítica, não uma afirmação ou (para usar uma palavra que os apologistas adoram) “refutação”. Existe uma diferença gritante entre (1) afirmar e argumentar a favor de P; e (2) no intuito de fomentar um debate através de uma crítica, fazer uso de P no intuito de questionar Q. Todos podem ter certeza que, se algum dia eu me tornar comunista, e se algum dia eu argumentar a favor do comunismo, argumentos positivos serão apresentados. Até então, no texto em questão, eu apenas questionei uma defesa, sugerindo perguntas e reflexões. Tal distinção entre “questionamento” e “argumentação” eu aprendi inclusive em um livro de apologética5. Portanto, quando disseram que os “argumentos” do meu texto foram péssimos, pífios ou que eu tentei “refutar” Norma Braga, eu consegui apenas rir. Não houve tentativa de refutação (mesmo porque
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BECKWITH, Francis; MORELAND, J. P; CRAIG, William L. Ensaios Apologéticos. São Paulo: Hagnos, 2006. p. 55 - 65.

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esta palavra já está por demais batida nos círculos de debate, dado a alta carga de refutações “maravilhosas” que vemos por aí), nem meu texto apresentou, a rigor do termo, “argumentos” a favor de nada. Apresentei questionamentos, perguntas, propostas de reflexões e, para isto, ônus nenhum está sobre minhas costas.

A Associação Entre Comunismo e Ateísmo Alguns – a grande minoria, na verdade – tendem a misturar as coisas quando vão comentar sobre Comunismo e Capitalismo. Para alguns, esta é uma controvérsia intimamente ligada à controvérsia da existência de Deus, de forma que, é impossível a um marxista ser cristão – ele só pode ser ateu (ou “neo-ateu”, para usar o termo que o Luciano Henrique6 adora e cita 257 vezes ao dia); da mesma forma que impossível a um cristão flertar com o socialismo – ele deve apoiar o direito à propriedade provada, etc. Esta associação, no entanto, claramente não faz sentido algum. A controvérsia sobre a existência de Deus é de caráter religioso e pessoal, já a controvérsia sobre Estado-Maior e LivreMercado é uma controvérsia política e social. Apesar da questão da existência de Deus levantar algumas implicações sociais e da controvérsia sobre modelos econômicos levantar implicações religiosas, os debates são totalmente particulares – os pontos de convergência entre ambos são ínfimos se comparados ao escopo completo de cada controvérsia. Como já dizia o filósofo, “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Nas dezenas de debates que já acompanhei sobre a existência de Deus, em poucos eu vi levantamentos sobre o comunismo e, mesmo assim, tais menções sempre foram relacionadas ao que os comunistas fizeram, ao invés do que a tese comunista era em si. Com exceção do blog do Luciano Henrique (com sua fascinação pelos “neo-ateus” e pelo “marxismo cultural”), eu sinceramente pouco vejo sobre o comunismo nos debates apologéticos. Apenas para citar um exemplo oportuno, no debate entre William Lane Craig e Christopher Hitchens, quando levantaram ao Dr. Craig a questão das mortes causadas pelo comunismo no século passado, sua resposta foi “isto é completamente irrelevante para o debate que estamos tendo”. E aqui cabe um ponto interessante. Alguém argumentou, ao comentar sobre a associação que fiz entre Igreja Primitiva e socialismo (falarei sobre isto mais à frente), que tal associação é impossível,
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<http://lucianoayan.wordpress.com/>.

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pois o foco dos cristãos era Cristo, e o foco do socialismo é “um ente teórico chamado povo”. Entendese aqui que o foco dos cristãos deve ser sempre Cristo e, segue-se (por minha conta), os mesmos não devem perder seu precioso tempo e sua preciosa atenção ao engajar em controvérsias ideológicas sociais, buscando se concentrar apenas no foco, em Cristo. Ora, mas até os meus críticos agem da mesma forma quando se posicionam de forma tão fortemente contrária a alguém que questiona o antiesquerdismo. Pela quantidade e pelo nível das críticas que recebi, não me parece que o foco dos cristãos está apenas em Cristo – parece que a controvérsia social é sim importante e digna de foco também. Parece-me que, seja de forma ativa, seja de forma passiva, todos têm suas conclusões sociais escondidas (ou expostas) em algum canto, e, se este for o caso, não há incoerência alguma em levantar este debate às vezes (mas sabendo, pelo amor de Deus, que este debate nada tem a ver com a existência de Deus, a qual eu afirmo e, como muitos sabem, defendo) como eu fiz com minha resposta a Norma Braga.

O Problema do Mal e o Comunismo Luciano Henrique, em seu texto "O comuteísmo de Eliel Vieira"7, chamou o questionamento que levantei sobre a tese de Norma Braga referente a associação do Comunismo ao Problema do Mal de “argumento pífio” para o qual eu tentei, segundo ele, apresentar “provas”. Apenas para não correr novamente o risco de não soar claro o suficiente, a questão que eu levantei não é um “argumento”, nem os exemplos que usei constituíram “prova”. Eu sugeri que “Em certo sentido o ‘Problema do Mal’ é mais problema para um cristão do que, digamos, para um ateu”. Vejam que, (1) eu deixei bastante claro que os meus exemplos cobririam apenas um escopo do problema chamado de “certo sentido”, que posteriormente, no final do parágrafo, eu deixei bastante identificado como sendo o sentido de “teleologia”; (2) eu usei o grupo “ateísmo” apenas como sugestão; como exemplo. Eu poderia ter citado como exemplo, por exemplo, os mulçumanos, para os quais simplesmente não há “Problema do Mal” a se resolver: Allah é soberano e tudo o que acontece no universo é predestinado efetivamente por Ele, portanto, até mesmo o Mal existente, existe porque Ele efetivamente assim o quer. Eu citei os ateus como exemplo por se tratarem de um grupo “mais próximo” à controvérsia que eu e meus leitores compartilhamos em comum. Quando eu disse que o Problema do Mal “para o cristão está longe de ser resolvido [...] a não ser que trabalhemos apenas com ‘respostinhas prontas’ e superficiais” eu não quis, como sugeriu
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<http://lucianoayan.wordpress.com/2010/03/30/o-comuteismo-de-eliel-vieira/>.

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Francisco Razzo desmerecer as contribuições para o assunto de Santo Agostinho, Tomás de Aquino e tantos outros – muito pelo contrário, aliás. Tais pensadores geraram conhecimento exatamente porque se puseram a pensar, a não se conformar com as respostas prontas já propostas por outros – que é como a grande maioria dos cristãos (incluindo, ou, especialmente, os apologistas) age hoje em dia. Philip Yancey já escreveu mais de uma dezena de livros sobre a mesma questão do Problema do Mal e a que conclusão ele chegou? “É o Problema que sempre volta”. Em sua obra Os Irmãos Karamazov, Fiodor Dostoievski (que curiosamente Razzo não citou) apresenta o que é considerado por muitos como a mais profunda análise do Problema do Mal já escrita. E eu penso que A Anatomia de uma dor é uma obra muito mais profunda sobre o Problema do Mal do que o outro livro de C. S. Lewis sobre o assunto, O Problema do Sofrimento. Yancey, Dostoievski e Lewis (em Anatomia de uma dor) trouxeram contribuições magníficas ao Problema do Mal exatamente porque desconsideraram respostas prontas e trataram a questão de frente, sem medo, sem recorrer a “respostinhas prontas” de outrem. É uma postura completamente diferente da postura de boa parte dos “apologistas”, a saber, “Bem, o problema do mal pode ser de duas naturezas, intelectual e sentimental. Intelectualmente, Deus pode permitir o sofrimento no mundo; pessoalmente, saiba que Cristo sofreu por você então não há motivos para considerar este problema um ‘problema’. Então todos viveram felizes para sempre”. Muito fácil, não é!?

O Uso de Argumentos Ateístas Como tratei acima do Problema do Mal, que é um argumento ateísta bastante usado, vou falar aqui sobre os outros argumentos ateístas que citei ou fiz uso em minha resposta ao anti-esquerdismo de Norma Braga. Além do Problema do Mal, também questionei a afirmação de Norma de que “a violência aumenta na mesma proporção do secularismo” citando um dado estatístico que encontrei na internet (de forma, confesso, não tão rigorosa), apontando que quanto menos influenciado pela religião for um país, mais pacífico ele é. Também levantei a questão das mortes causadas pelos cristãos nas Cruzadas e na Inquisição e também citei as mortes supostamente causadas por Deus na Bíblia. Acredito que este foi o ponto do meu texto que mais causou revolta nos meus amigos cristãos que o leram. Como o Eliel que de tantos debates já participou pôde fazer uso de argumentos ateístas em seu texto? Um tal de Gabriel, profundamente desapontando com os argumentos ateístas empregaPágina | 5

dos no meu texto, disse, “até hoje eu seguia o blog do Eliel [...] Que dizer disso? Já vi o Eliel falar muita coisa válida e fundamentada, mas esse post em questão, parece o post de um neo ateu comunista disfarçado de cristão”. Pois bem, permitam-me apresentar minha defesa. Todos os argumentos ateístas que já li não competem, pelo mínimo que seja, para a conclusão de que Deus não existe. Tal conclusão ateísta é atingida por uma espécie de “fé”. O Problema do Mal? Ora, o mesmo precisa pressupor a existência de Deus para ter algum sentido e, mesmo assim, é perfeitamente racional crer que não é incoerente existir um Deus de amor e maldade no mundo, especialmente quando Ele proveu livre-arbítrio para seus filhos. Os crimes cometidos pelo cristianismo durante a história? Ora, não se conclui de qualquer apresentação de dados que a fé cristã é má para a humanidade, pois, como reconheceu Michael Shermer (diretor da Skeptical Society) “para cada uma das grandes tragédias [relacionadas à religião] há dez mil atos de bondade pessoal e benefício próprio que ficam sem registro”8. As chacinas cometidas por Deus na Bíblia? Isto não compete a favor da não existência de Deus, muito menos testifica que Ele é um ser mal que não deva ser adorado. Eu, particularmente, sou bastante simpático à posição do teólogo e professor de Antigo Testamento Eugene Merrill, de acordo com o qual, Deus não ordenou os massacres no AT9, mas esta é uma questão para outro debate. Eu creio que nenhum dos argumentos acima possui qualquer relevância no que tange a existência de Deus. Contudo, e é aqui que eu me afasto de muitos “apologistas”, eu não nego a validade de todas estas questões, pois todas elas são dignas de serem refletidas e em muitos sentidos elas são válidas até mesmo para crescimento da nossa fé. Philip Yancey, ao falar certa vez para uma platéia de estudantes, perguntou a eles qual dos argumentos ateístas já não tinha sido apresentado anteriormente na própria Bíblia, na forma de reflexão dos próprios servos de Deus – e não conseguiu nenhuma resposta10. Quando eu levantei a questão de Deus ter matado milhões, eu não quis com isto compactuar com a caricatura que os ateus fazem de Deus, antes, levantar um questionamento válido com este fato que é aceito por muitos, a saber, “Se o comunismo é mal porque milhões morreram, por que o tratamento deveria ser diferente quando quem mata é a Igreja de Deus, ou o próprio Deus?”. Como podem ver, trata-se de um questionamento, não de um argumento. Eu estou perguntando qual é a base objetiva que garante ao cristianismo (ou a Deus) o direito de matar e continuar ser verdadeiro (ou Santo) enquanto o mesmo não é garantido às demais cosmovisões. Esta diferença de tratamento é
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Citado em: MCGRATH, Alister; MCGRATH, Joanna. O Delírio de Dawkins. São Paulo: Mundo Cristão, 2007. p. 134. Leia sua opinião no livro: Deus Mandou Matar?. Editora Vida, 2006) 10 <http://www.elielvieira.org/2009/11/maravilhosa-graca-uma-entrevista-com.html>.

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justificada pelo o que? E, com todo respeito aos que me mandaram links, eu já li livros de apologética e Teologia suficientes para saber qual é a posição cristã, bem como já vi todos os vídeos que foram apontados anteriormente, e sei muito bem que da forma como foi elaborado, meu questionamento é válido. Em linhas gerais o que faço é o seguinte: os ateus apresentam o argumento da multiplicidade de religiões para inferir que, existindo Deus, é impossível saber qual Deus Ele é, pois o número de possibilidades (todas clamando veracidade absoluta) é enorme e, sendo assim, é perda de tempo crer em algum Deus especial. Eu nego a conclusão ateísta simplista, e acho que existem alguns argumentos específicos que apontam para a superioridade cristã ante as demais religiões. Porém, ainda assim eu acho que o problema da multiplicidade das religiões é um problema válido para reflexão interna, e que todos têm muito a refletir com base nele. Você, cristão que me critica, não pode escapar do fato de que você (muito provavelmente) só é cristão porque nasceu no Ocidente. Se tivesse nascido na Arábia Saudita, muito provavelmente você seria hoje um mulçumano (e com bastante convicção da sua fé!). É exatamente por isto que eu fiz uso de “argumentos ateístas” para questionar Norma Braga. E eu faço isto sempre, há muito tempo. Quem preferir viver no mundo de ilusão de que absolutamente nada das críticas levantadas contra a fé cristã é válido em quaisquer sentidos, que seja. Apenas não me obrigue a ser assim. Não há, portanto, nada de “O Eliel caiu de cabeça?” como perguntou ironicamente Francisco Razzo, nem estou eu “Torcendo para os ateus” como também ironicamente sugeriu Luciano Henrique. Eu escrevi tudo com consciência do que estava escrevendo.

Como o Eliel Pode ter Mudado? Houve aqueles que se disseram surpresos com minha súbita mudança. Luciano Henrique questionou se eu não estou sendo doutrinado por algum “guru marxista”, tipo professores de faculdade. Eu acho pouco provável, afinal, faço graduação superior em Comércio Exterior em uma universidade privada, cenário totalmente alheio a comunistas. Muitos dos meus professores, aliás, são donos ou diretores de empresas com ramificações no mundo inteiro. Sobre eu ter “mudado”, também não vejo isto, e quem conhece meu blog a mais tempo sabe que o Eliel que escreveu o texto Socialismo e Fé Cristã em 2010, foi o mesmo que escreveu Sobre os Homossexuais, Inferno de Fogo, uma objeção lógica, Cristianismo e as demais religiões existentes e

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Impressões de um sábado ecumênico – isto para citar apenas alguns “não fundamentalistas” ou “antifundamentalistas” dos meus textos.

Sobre o Socialismo em Atos Outro ponto que irritou a muitos foi minha associação (que, aliás, nem minha é) de que o sistema social dos cristãos de Atos era mais parecido com o socialismo do que com o capitalismo. Em primeiro lugar, boa parte das críticas surgiu através de uma má interpretação do que meu texto era: não se tratou de uma afirmação, mas de um questionamento, como já afirmei acima. Como aparentemente eu não me fiz claro, vou reformular meu questionamento: o sistema econômico interno que regia a vida dos cristãos primitivos, onde todas as posses eram trazidas aos pés dos apóstolos, que re-dividiam o que recebiam conforme a necessidade de cada um, este sistema, em termos gerais, é mais similar à logística econômica capitalista (onde cada um faz o que quer e, se não há mais ninguém sobrando, emprega o vizinho e se enriquece com o trabalho dele) ou à logística econômica socialista (onde tudo que é produzido vai ao Estado, voltando depois à população conforme as necessidades dela)? Relevando os aspectos particulares de cada sistema econômico, olhando apenas para aspectos logísticos gerais, com qual sistema econômico a sociedade de Atos mais se assemelhava? Veja que não se trata de uma afirmação e sim de um questionamento. É óbvio que existem várias diferenças (por exemplo, o modelo econômico de Atos não era imposto pela força), mas não estou propondo que se trata de um modelo idêntico, mas sim questionando com qual modelo econômico a sociedade de Atos mais se assemelhava. E mesmo que eu tivesse fazendo uma afirmação, eu estaria afirmando uma analogia, não uma relação de identidade entre socialismo e economia em Atos.

Definindo “Social” e “Socialismo” Um dos comentários mais interessantes que recebi neste meu texto em questão foi o de Marcio Carneiro (muito obrigado pela contribuição, aliás), pois ele ao menos se prestou ao trabalho de tentar apontar diretrizes e definições e seu comentário merece reflexão, mas como reflexão não é algo que se faz da noite para o dia, não há muito que comentar aqui agora.
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Foi dito que “O Marxismo vai muito mais alem do que a defesa do explorado”. Sim, concordo. E, no meu caso em particular, as reflexões se dão exatamente em razão do anseio por justiça social que é latente a qualquer pessoa que, ao voltar para a casa todo o dia se depara com pessoas que saqueiam lixeiras para comer sobras de comida. Em resumo, apesar de P (marxismo) não ter apenas Q (anseio por justiça social), ainda assim existe Q em P, muito mais do que Q em R (capitalismo), e é neste fator que residem os pontos de minha reflexão. Foi dito também que “Não precisamos ser de esquerda ou comunistas para nos preocuparmos com o social”. Eu concordo, mas pergunto de volta, qual grupo efetivamente se preocupa mais com questões sociais, éticas e ambientais hoje em dia, direita ou esquerda? Quem já viu uma manifestação a favor de direitos dos estudantes (inclusive em Belo Horizonte tivemos uma esta semana) organizada por movimentos de direita? Quem já viu greves e denúncia de exploração de trabalho por parte de movimentos de direita? Quem já viu manifestações para melhoria de transportes e demais serviços públicos organizadas por grupos de direita? E, esta é inevitável, qual dos últimos presidentes do Brasil mais fez pelo social em seus mandatos (isto para não falar de todos os avanços econômicos11), o de direita ou o de esquerda? Não é necessário ser de direita ou de esquerda para haver preocupação social, contudo, a partir de um círculo de direita, dificilmente surgirá alguma reação coletiva eficaz contra problemas sociais, o que vemos com freqüência nos círculos de esquerda.

O Cristão e o Socialismo Então vem a pergunta: pode um cristão ser socialista? Se se interpretarmos “socialismo” como “preocupação social”, eu acredito que até meus críticos concordaram que sim, que o cristão não apenas pode, mas deve ser socialista. Mas e se interpretarmos “socialismo” na forma do modelo econômico ideológico proposto por Marx – o de uma reestruturação social completa na qual todos passam a trabalhar em benefício do Estado (que é a própria população trabalhadora)? Alguns vão dizer que não, e algumas justificativas apresentadas são, (1) o foco do comunismo não é Cristo, mas o Estado; (2) o comunismo é imposto à força; e (3) a fim de atingir suas “ambições globais” os comunistas devem mentir, e mentir não é algo que um cristão deva fazer (alguém levantou este argumento em algum dos comentários ao meu texto).
Sou honesto o suficiente para aceitar e reconhecer que os avanços econômicos do governo Lula só foram possíveis por causa das reformas e da estrutura econômica levada a cabo por Fernando Henrique Cardoso.
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Ora, mas (1) o foco do capitalismo também não é Cristo, é uma entidade chamada “lucro”, e meus críticos não parecem nem um pouco preocupados com isto; (2) o capitalismo é imposto e se expande à força também, com a diferença que o caminho para ele é muito mais fácil já que ele está a priori imposto. A imposição à força acontece de forma mais sutil do que imaginamos. Se está difícil pagar 1500 dólares semanais para atendentes de telemarketing nos EUA, simples, contrate os indianos pagando 1/10 disto – explore a mão de obra dos países mais fracos que não tem poder de barganha! (obs: eu trabalho em uma multinacional que mantém funcionários na China recebendo 1/14 do que um funcionário americano ganharia para fazer a mesma coisa – eu sei o que eu estou falando); (3) a mentira está intimamente ligada ao capitalismo de forma que, sem ela, ninguém “vence”. Ainda na semana passada um dos meus professores da faculdade (obviamente não vou citar seu nome) comentou sobre como a empresa da qual ele era o gerente regional na América Latina participou de um consórcio de várias empresas relacionadas a produtos derivados do petróleo que ajudaram a bancar a invasão dos EUA no Iraque. Ele contou sobre quando ele foi chamado junto com todos os diretores da empresa do mundo para uma rápida reunião em Boston dois meses antes da invasão no Iraque, e como foram todos aconselhados pela Direção a como proceder a partir daquele momento em que a empresa ficaria focada apenas nos “despojos” do Iraque. Meu professor contou com sarcasmo de como era a assinatura do seu e-mail na época: Helping Rebuilding Iraq [Ajudando a Reconstruir o Iraque]. Usei aqui um exemplo bastante macro, exagerado, mas em nosso dia a dia vemos como é freqüente e necessário o “mentir” para se sobreviver no capitalismo – desde sonegação de tributos, a mentiras na hora de fazer orçamentos, até as micro-omissões que fazemos todos os dias (“não estou mentindo, estou omitindo”, como dizem muitos). Se no meu texto em resposta à Norma Braga eu não fui claro sobre como o comunismo pode ser associável à fé cristã, ainda assim não há nenhuma boa razão para acreditar que o capitalismo deva ter este privilégio, ainda mais por se tratar de um sistema que recompensa o individualismo, o que é condenado na Bíblia. No mínimo (no mínimo mesmo, pois eu não penso assim), ambos estão no mesmo pé de igualdade, merecendo ambos rejeição. O interessante (na verdade, poderíamos usar aqui “engraçado”) é que vemos com prontidão as rejeições ao socialismo (por ser este um sistema econômico à parte de Deus), mas não vemos com a mesma intensidade (aliás, vemos?) uma rejeição cristã ao capitalismo (que também é um sistema econômico à parte de Deus).

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O Cristão e o “Ser de Esquerda” Tenho que apontar ainda algo que passou despercebido da atenção de todos (aparentemente). O texto de Norma Braga é sobre não “ser de esquerda”, como se pressupõe com base na leitura do título do mesmo. O corpo do texto traz, contudo, uma crítica às posições comunistas e marxistas. Pressupôsse que comunismo e o “ser esquerda” sejam coisas intrinsecamente interligadas, de forma que, ao se falar de uma, necessariamente estamos falando da outra em todo o tempo. Porém eu não penso que este seja o caso. Muitos comunistas não se consideram pessoas de “esquerda”, muitos esquerdistas não se consideram comunistas e muitos de direita – em algumas questões e em alguns posicionamentos – são de esquerda. A variedade de variações é muito grande para que o reducionismo “comunismo = esquerda” seja adotado. Apenas para citar um exemplo cristão, os anabatistas foram chamados na época de sua revolta de “protestantes de esquerda”, por se oporem tanto a Roma quanto a Lutero12 e, pelos meus superficiais cálculos, isto aconteceu antes de Marx ser sequer um espermatozóide. A própria postura de Lutero de protesto contra Roma, a meu ver, foi uma atitude radical de tipo esquerda. Se analisarmos com cuidado a posturas dos profetas no Antigo Testamento, elas se identificam muito mais como postura de esquerda do que de direita. Os profetas denunciavam os crimes e a corrupção que acontecia na antiga Judá, em uma clara postura de esquerda, de denúncia, mas não é razoável chamá-los de comunistas. Para citar um exemplo mais atual, o compositor João Alexandre possui músicas com mensagens claramente de “esquerda” (Em nome da Justiça, Justiça Social, Pra Cima Brasil) - seria ele comunista? Acho que esta seria uma conclusão precipitada. Não necessariamente quem é de esquerda é comunista, de forma que ao tentar explicar por que não se é de esquerda “refutando” (destaque para as aspas) o comunismo, como Norma Braga fez, é, em minha opinião, dar nó em pingo d’água.

Conclusão Recebi dezenas de críticas, mas, como deixei claro, boa parte delas vieram baseadas em uma má interpretação do que meu texto era de fato. Ademais, os críticos do socialismo ou (1) não

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NICHOLS. História da Igreja Cristã, São Paulo: CEP, 1978.

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apresentaram críticas eficazes também ao capitalismo (que a rigor deveria também ser rejeitado) e (2) incorreram nos mesmos pontos que eles criticam os comunistas de cometer. Eu, que estou no meio, continuarei fazendo minhas considerações aqui. Criticando o comunismo quando achar que devo fazê-lo, e criticando o “direitismo” quando achar que devo fazê-lo. Se vou responder aos inúmeros pontos levantados pelas dezenas que me escreveram? Não. Pelo menos não agora e não de uma vez. Sinceramente não tenho tempo. Mas certamente alguns pontos começarão a ser comentados em alguns próximos textos que serão postados em meu blog.

Um abraço a todos, Eliel Vieira

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