A GRANDE EPOPÉIA DOS CELTAS

Títuto: A GRANDE f-popj-\ pleli- épl1,1 Ir Títfflo original LA GRANDL 1- N lplql,: Autor: Can ¶MarU, Prefácio: Poul Fttqn Tradução: J,,rge Chichorn) Revisão:

Quarta época
OS TRIUNFOS DO REI ERRANTE

Quinta época
OS SENHORES DA BRUMA

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da sQuj,, FOtObto5: Po-to 2 - Arte, (;,á,,,, impressão: i-

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INDICE PREFÁCIO - Nas fronteiras do real......7 PRELUDIO - o homem dos tempos antigos............39 I - NAS BRUMAS DA AURORA ............ 47 II - AS TRIBOS DE DANA ............. 61 III - LUG DO BRAÇO LONGO ................ 79 IV - A GRANDE BATALHA DE MAG-TURED............ 95

Primeira época OS CONQUISTADORES DA ILHA VERDE JEAN MARKALE

A GRANDE EPOPÉIA DOS CELTAS
Primeira época OS CONQUISTADORES DA ILHA VERDE A PUBLICAR: Segunda época OS COMPANHEIROS DO RAMO VERMELHO Terceira época OS HERÓIS DOS CEM COMBATES

V - A VINGANÇA DE LUG ...............115 VI - OS FILHOS DE MILÉ .............131 VII - O ESTRANHO DESTINO DOS FILHOS DE LIR ........ 151 VIII - AS ATRIBULAÇÕES DO JOVEM ANGUS ............ 165 IX - DEMÔNIOS E MARAVILHAS ............... 179 X - POR AMOR A FINNABAIR .............. XI 199

- A TERRA DAS FADAS

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XII - ETAINE E O REI DAS SOMBRAS........229

Deste modo, impelidos para novos horizontes, Na noite eterna embalados sem retorno, Não seremos capazes, no oceano das idades, De lançar âncora ao menos por um dia? LAMARTINE, O Lago A identidade e a especificidade de uma civilização, seja ela antiga ou moderna, só se tomam reconhecíveis no caso de nela se encontrar uma tradição transmitida de geração em geração e que lhe sirva de testemunha essencial. Esta tradição agrega a memória de um povo ou de um grupo de povos que vivem em condições equivalentes ou, no mínimo, semelhantes, e pode manifestar-se de modos muito diversos, desde os simples costumes até especulações filosóficas muito complexas. Mas, na história da humanidade, sempre se privilegiou a escrita, por esta ser o meio mais seguro e mais fiel de conservar a memória do passado. Assim se explica que a Grécia seja o país de Hesíodo, Homero, Ésquilo, Heródoto e Platão, apesar de termos aprendido na escola que a escultura ocupa um lugar privilegiado na civilização que, segundo se diz repetidamente, constituem um milagre sem o qual nada teria sido possível. Assim, no caso dos gregos, não se coloca a questão de a sua identidade cultural ser reconhecida, pois eles deixaram um número suficiente de obras escritas para que possam integrar-se entre os chamados Povos «civilizados». Mas o que dizer dos outros povos que, por qualquer razão, não conheceram a escrita ou nunca a utilizaram? Antigamente, devido à crença ria «mentalidade pré-lógica», tão cara à escola sociológica francesa do início do século XX, rejeitava-se uma cultura, que não tivesse escrita, por ser considerada incerta incoerente e Primitiva. Esta ideologia (palavra que se aplica, sem dúvida, a essa crença), foi a

concretização de um sistema construído sobre a universalidade de uma Razão única que justificava qualquer ato de colonização, cultural ou outra, e de missão,1 fossem quais fossem as intenções; ela privou a humanidade durante muito tempo de uma importante parte de si mesma, pois rejeitava, sem apelo nem agravo, tudo o que não pertencesse às normas em uso num sistema imutável e incontestável. Não interessa se se tratava de ignorância ou de desprezo pela diferença, pois a verdade é que já se ultrapassou essa fase, Já ninguém hoje duvida que Os construtores dos megalíticos, que viveram do V ao XI milênio antes da nossa era, e de quem não se conhece nem o nome nem a língua, foram extraordinários artesãos de uma civilização brilhante que ocupou uma grande parte da Europa, tendo nela deixado marcas indeléveis. Em termos de obras escritas, apesar disso, nada deles chegou até nós. Deles ficaram apenas monumentos, assim como misteriosos símbolos gravados na pedra, os quais, por terem um conteúdo mais mágico do que escrito, testemunham sem dúvida não apenas um sentido de arte apurado, mas também um pensamento muito organizado e quase científico. Acontece, entretanto que o estudo destes símbolos e da arquitetura extraordinariamente complexa destes monumentos, a análise e a comparação dos diversos objetos arqueológicos contemporâneos, permitem que se reconstitua a partir de agora, mesmo que de forma incompleta e conjuntural, uma certa tradição característica da civilização dita megalítica. No que respeita à tradição celta, está-se perante um caso muito semelhante. Nunca se pensou negar a existência dos celtas que, bem pelo contrário, foram considerados os únicos predecessores dos Romanos, sendo-lhes atribuídos indiscriminadamente todos os vestígios que eram anteriores a estes últimos. Mas é sempre comum um desprezo indisfarçado que se faz referência aos povos cujo único defeito parece ser o de não se terem deixado seduzir

Comment [U1]: 1. Dom Lotris Gougaud, Les Chrétieniés celtiques, Paris, 1911, p. i (prefácio). o autor vai-se acentuando acrescenta numa nota na mesma página: «O cepticismo dos sábios dos bretões cada vez mais, no que respeita ao valor do conceito de raça. Tácito, falando (insulares), atribuía já uma grande importância ao ambiente, à adaptação, ao meio, em detrimento da idéia de ruça.» Esta reflexão perfeitamente lúcida foi feita no momento em que o auto-intitulado «iniciado» Edouard Schuré, digno discípulo de Gobineau e precursor de alguns teóricos de má meva os valores da «raça» celta moria, preconiza como sendo de origem nórdica e ariana

pelos encantos da escrita. Há uma realidade incontestável: os celtas não escreveram nada antes de serem cristianizados, ou seja, antes de monges eruditos e pacientes terem recolhido em manuscritos preciosos os seus testemunhos orais que estavam em risco de desaparecer e que foram salvos do esquecimento. Deste modo, dispomos de testemunhos que, apesar de incompletos e deformados, nos transmitem os vestígios da alma dos povos celtas. Mas, na verdade, quem foram realmente os celtas? A verdade obriga a que se diga que sobre eles muito pouco se sabe. O certo é que não os podemos considerar um grupo racial ou étnico delimitado, tão vasto e impreciso é o seu campo de ação, e tão confusa e contraditória é a morfologia daqueles a quem se chamou celtas, os quais tanto incluem morenos troncudos e baixos como louros altos e de olhos azuis. Será mais prudente falar-se deles enquanto um povo que fala a língua céltica. Também é preciso fazer algumas distinções. Os cimbros e os teutões, que foram exterminados por Marius e os romanos, eram sem dúvida de origem germânica, embora tivessem nomes celtas: Cimbros é o combroges gaulês, querendo dizer «do mesmo país» (e que deu o galês C-vmri); os teutões provêm de uma raça celta de onde saiu o irlandês tuath, «tribo», e que se reconhece no nome do deus gaulês Teutatès (ou Toutatis), literalmente «pai do povo», e no termo genérico atual deutsch, «alemão», o que não deixa de ser algo paradoxal. Quanto aos celtas da mesma época, existe outra dificuldade: a maior parte deles já não fala uma língua céltica, como o comprovam certos bretões armoricanos (da Alta Bretanha), nove em cada dez irlandeses, para além dos gauleses e de outros povos europeus outrora classificados como celtas ou que estiveram sob o domínio celta. Além disso, os autores da Antiguidade clássica não estavam mais elucidados do que nós a este respeito, confundindo com facilidade celtas e

germânicos, ou então fazendo dos primeiros uns vagos «Hiperbóreos», ou mesmo «Cimérios» que viviam num universo sombrio nas fronteiras de Outro Mundo. A verdade é que os celtas, cuja existência não se pode contestar, constituem uns povos quase míticos, ou pelo menos mitológico Esse fato também se explica largamente pela propensão dos celtas, para confundirem intimamente o real e o imaginário e, assim começaram a fixar a sua história, para a inventarem deliberadamente em função dos seus mitos fundadores. O certo é que os gauleses da Alésia ficariam muito surpreendidos se lhes chamassem celtas. Naturalmente, o termo Keltoi existia há muito tempo, mas era grego e fora utilizado pelos historiadores gregos por necessidade de classificação. Ora, os gauleses já não se sentiam à vontade ao serem considerados gauleses, como o provam as dificuldades Vércingétorix e as acrobacias oratórias a que teve de recorrer no seu discurso de Bibracte (monte Beuvray), em 52 antes da nossa era, para tentar assegurar uma coesão «patriótica» ou «nacional» na coliga ção de povos que tinham pegado em armas contra os romanos. Um gaulês era antes de mais membro dum «povo», duma «tribo», portanto duma tuath, e nada mais lhe interessava para além disso. E foi sempre assim: «Nem os irlandeses, nem os gauleses, nem os baixo-bretões da Idade Média se autodenominaram «celtas». Esta denominação comum, na qual se incluem atualmente os antigos escoceses, os irlandeses, os gauleses, os habitantes da Cornualha e os bretões, tem por base a semelhança das línguas primitivas faladas por estes povos e um vago parentesco étnico.»´¶ Esta constatação continua válida e mostra bem as dificuldades que se podem encontrar quando se tenta definir os celtas, a sua tradição e a sua civilização. Os celtas, segundo os autores gregos, apareceram na História por volta do ano 500 antes da nossa era. Isso não

significa que eles não constituíssem já nessa altura grupos sociais fortemente enraizados em certas regiões da Europa. Neste caso a arqueologia vem completar as lacunas da História e põe em evidência o aparecimento de uma nova forma de civilização na qual o ferro desempenha um papel fundamental. Chamou-se a este período Primeira Idade do Ferro, ou Civilização de Hallstatt, nome de uma estação arqueológica austríaca. É realmente verossímil que o domínio primitivo dos celtas, dividido em principados independentes, fabulosamente ricos e requintados como no-lo provam os móveis funerários dos tumulí, se estendia ao norte dos Alpes, entre os montes da Boémia e o Harz, prolongando-se até ao sul do Danúbio. Atualmente existe um consenso quanto ao fato de ter sido a partir desta região que os denominados povos celtas começaram as suas migrações, dirigindo-se, sobretudo para ocidente, em vagas sucessivas, talvez desde o final da Idade do Bronze, ou seja, entre 900 e 700 a.C. Deve reter-se deste fato que os celtas, ou os assim chamados (há quem lhes chame proto-celtas), são principalmente campesinos, criadores de gado, agricultores e artesãos. Se mais tarde os vamos encontrar junto ao Atlântico, isso não se deve ao fato de eles terem procurado aproximar-se do mar, mas por terem sido obrigados, por razões ainda desconhecidas, a refugiar-se nos confins do velho mundo. Crê-se que este nó primitivo dos celtas resultou de migrações anteriores de povos indo-europeus. Aqui, mais uma vez, é necessário precisar este termo, que só pode designar agrupamentos humanos que falavam uma língua comum - ao menos na origem - e que possuíam técnicas e estruturas sociais idênticas. É esta a única acepção possível do termo, com exceção de todas as outras que incluem uma noção de raça. Assim que se instalaram no triângulo Boêmia-Áustria-Harz, os celtas primitivos, ou por causa da superpopulação, ou porque estavam ameaçados

por outros emigrantes vindos de leste, ter-se-iam dirigido para ocidente a fim de descobrirem novos territórios onde se pudessem estabelecer. Este fato nada tem de extraordinário e é comum a muitos outros povos ao longo da História, explicando que todos os celtas, hoje tão bem enraizados na Europa ocidental e no extremo do Ocidente, atravessaram o Reno antes de se instalarem nos países cuja História os reconheceu. Graças ao estudo da distribuição das estações arqueológicas e da sua datação e tendo em considera ção marcas toponímicas e raros vestígios epigráficos, é possível afirmar-se que, o fluxo migratório dos celtas para a Europa ocidental ocorreu em dois períodos bem distintos. O primeiro, cronologicamente, situa-se na chaineira das Idades do Bronze e do Ferro e engloba um grupo de povos que falavam uma língua céltica ainda próxima do indoeuropeu comum, a qual, através de diversos arcaísmos, chegou aos nossos dias encontrando-se no gaélico da Irlanda, da ilha de Man e da Escócia. Deu-se a este ramo o nome de goidélico ou gaélico, ou então de celtas com Q, pois eles conservaram, tal como o latim, o uso do som Q indo-europeu primitivo (por exemplo, «cmco» do latim quinque, diz-se coic em gaélico). O segundo fluxo migratório ocorreu depois do ano 500 a.C., através de vagas sucessivas, tendo sido a última a dos belgas, no século I antes da nossa era. Este ramo é chamado, com i inclui, além dos gauleses e dos belgas, alguma liberdade, britónico, pois gauleses, os antigos bretões insulares cujos atuais descendentes são os habitantes da Cornualha e os bretões armoricanos. No plano lingüístico, classificam-se estes povos como celtas com P, porque os seus diversos componentes transformaram, tal como os gregos, o Q primitivo indo-europeu em som P, como o mostra o mesmo exemplo de «cinco» que se diz pemp em galês e bretão, e pente em grego.

Foram estes povos, formados provavelmente por pequenas tribos independentes umas das outras, que, no decorrer do primeiro milênio antes da nossa era, invadiram a Europa ocidental, incluindo a planície do Pó (Gália Cisalpina) e o noroeste da Península Ibérica. Havendo também que referir as expedições que, durante o século XI, chegaram a formar nos Balcãs o reino da Galateia. Entretanto, na Ásia Menor, estas migrações devem ser entendidas nas suas devidas proporções. Estes famosos celtas, fossem quem fossem, não eram numerosos, constituindo apenas uma elite guerreira, técnica e intelectual. Ora, os países onde eles se fixaram eram habitados por populações de que nada se conhece, mas que, com certeza, não foram inteiramente aniquiladas pelos seus dominadores. Bem pelo contrário, os celtas tinham necessidade de mão de obra, ou seja, de escravos. Fizeram por isso um esforço no sentido de dominar as populações autóctones, celtizando-as, ou seja, ensinandolhes a língua e transmitindo-lhes os costumes, a técnica e a religião, o druidismo que era comum ao conjunto dos grupos ditos celtas. Além disso, os celtas impuseram-lhes as suas estruturas sociais indo-européias, o seu modo de vida e o seu modo de pensar. A partir daí o próprio tempo se encarregou de fazer a sua obra inelutável de assimilação, tomando-se os autóctones os novos celtas, ao mesmo tempo em que os primeiros celtas não deixavam de ser modificados pelas populações indígenas. Este processo de interação - extremamente vulgar - contribuiu para a formação do que hoje se chama civilização celta. Contudo, estas vagas sucessivas de migrações e de misturas nunca deixaram de provocar deslocamentos internos das populações. Os primeiros invasores de língua céltica - chamemos-lhes por comodidade, gaélicos - foram empurrados ainda mais para ocidente, o que explica a especificidade da Irlanda, isolada nos limites extremos do

mundo antigo, e tendo conservado, mais do que qualquer outro país de dominação celta, as tradições mais arcaicas e reveladoras. «As descobertas arqueológicas sugerem que os celtas chegaram à Irlanda vindo da Grã-Bretanha, podendo ser traçada a sua rota através de Cumberland de Wigtownshire até se chegar ao nordeste do Ulster».´) É esta a opinião (Myles Dillon, Early Irish literaiure, 1994, p. XI.) do celtólogo irlandês Myles Dillon, que diverge da de um seu compatriota, O¶Rahilly, que aponta um itinerário direto dos celtas a partir da Gália. No fundo, as duas teses não são contraditórias, pois pode ter havido diversas migrações como, de resto, os irlandeses da Idade Média diferiam quando procuravam reconstitLir as idades mais recuadas da sua história. O Importante é saber que os dois ramos, o gaélico e o britônico, coexistiram durante muito tempo até se diluírem separadamente na História moderna, depois de terem tido uma origem comum. Ora, uma árvore não pode viver se os seus ramos e até a sua folha mais insignificante não forem alimentados pela seiva. A grande aventura dos celtas só foi possível porque uma mesma seiva animou desde a origem o ser social que lhe serviu de ponto de partida. Esta seiva pode ser identificada com o que se chama a Tradição, ou seja, com o que é transmitido de geração em geração para que cada uma destas possa conservar o sentido de uma certa identidade e os meios de a exprimir através das sucessivas etapas da história. Em primeiro lugar, esta tradição consiste num corpus de informações herdadas de um passado sempre apresentado como se remontasse à aurora da humanidade, ao que se chama a noite dos tempos. Assim sendo, a questão da tradição celta obriga-nos a pensar como pôde ela ser transmitida se a sua primeira transcrição data apenas dos primeiros séculos do cristianismo, sendo este responsável pelo seu enquadramento. Naturalmente, pode-se lamentar

que a falta de escrita seja responsável por não haver testemunhos essenciais para o conhecimento da antiga cultura celta; mas esta não-utilização da escrita, longe de atestar uma qualquer espécie de incapacidade, resultou duma escolha deliberada das elites celtas, dos chamados druidas, que eram simultaneamente sacerdotes, filósofos, historiadores, poetas e mágicos. Júlio César foi muito claro a este respeito: «Os druidas, diz ele, acreditam que a religião não lhes permite escrever a matéria dos seus ensinamentos (...), pois não querem que a sua doutrina seja divulgada nem que, por outro lado, os seus alunos, fiando-se na escrita, negligenciem a memória». (De bello gallico, VI, 14). Eis a razão pela qual, os discípulos dos druidas aprenderam, durante uma vintena de anos, milhares de versos que resumiam, de forma irmernotécnica, o conjunto da tradição celta. A existência de uma tal tradição oral está largamente comprovada. O grego Estrabão (IV, 4), afirma que os poetas dos celtas são «bardos, ou seja, cantores sagrados». Outro grego, Diodoro de Sicilia, transmite detalhes preciosos (V, 29 e 31): «Antes de cada batalha, eles cantam os feitos dos seus antepassados e exaltam as suas próprias virtudes, enquanto insultam os adversários. Eles exprimem-se por enigmas (...) e usam bastante a hipérbole.» O latino Pomponius nela observa que «estes povos possuem uma eloqüência muito própria» (111, 2); quanto ao poeta Lucano, este apostrofa os poetas gauleses nestes termos, na Pharsale (1, v, 5o sqq.): «Vós cujos cantos de glória lembram, ao futuro longínquo, a memória dos fortes antepassados desaparecidos em combate, bardos, vós dais largas sem medo à vossa veia fecunda!» Enfim, se fosse necessário um reconhecimento quase oficial, poderíamos encontrá-lo no historiador grego Poliffio, apesar de tudo, muito prudente nos fatos a que se refere. Depois de ter pintado um quadro dos povos gauleses da Cisalpíria, afirma convictamente (11, 17) que «os autores de histórias dramáticas contam a seu respeito lendas

maravilhosas». Foram os conflitos que opuseram os romanos aos gauleses da Cisalpina, cerca do ano 387 antes da nossa era, que suscitaram mais comentários a propósito de uma tradição épica que os celtas transmitiram de geração em geração. Quanto aos acontecimentos referidos por Tito Lívio, historiador latino, apesar de natural da Gália Cisalpíria, estão muito mais próximos da lenda do que da história e parecem inspirar-se diretamente num fundo tradicional veiculado pelos próprios gauleses, fundo esse que ele conhecia muito bem. «A história das guerras gaulesas, diz Henri Hubert é extremamente singular, fabulosa e épica.» E, a este respeito, Camille Jullian, faz notar precisamente que «a derrota dos romanos, diz claramente Tito Lívio, deveu-se ao pavor mágico (miraculum) que lhes inspirou o grito de guerra dos celtas. As narrações de Tito Lívio, de Apio e de Plutarco, cheias de cor e de pormenor, precisas, com um extraordinário humor religioso e muito favoráveis aos celtas (...), sempre me pareceram inspiradas em parte em alguma epopéia gaulesa». Trata-se realmente de uma epopéia. A definição clássica do termo, «narrativa poética de feitos heróicos», não nos impede de acrescentar que o gênero se refere sempre a fatos de um passado longínquo, que na sua maioria não podem ser confirmados, mas que fazem parte da memória coletiva de um povo ou de qualquer grupo social. A epopéia gaulesa assinalada por Camille Jullian e conservada por Tito Lívio na língua latina não pertence obviamente à história, sendo antes do âmbito da tradição. Quererá então isto dizer que a tradição celta, por estar inscrita no quadro de uma civilização que rejeitava a escrita, só pode ser conhecida através de outras civilizações? Assim parece ser, pois a epopéia gaulesa em questão só chegou até nós graças aos documentos escritos - pretensamente históricos - que os gregos e os latinos consagraram às guerras

Comment [U2]: 1. Henri Hubert, Les Celtes, Paris, 1932, 11, p.37.

Comment [U3]: 2. Camille Jullian, Histoire de ta Gaule, Paris, 192o, reimpresso 1993, 1, p.294.

travadas por Roma contra os habitantes da Cisalpina e às expedições celtas nos Bálcãs. O mesmo acontece com a epopéia bretã (ou seja, da Bretanha insular) à volta do fabuloso rei Artur: as supostas aventuras deste e dos seus cavaleiros, as peripécias da conquista do Graal, todas as matérias que atualmente se consideram de origem celta, só chegaram ao nosso conhecimento, com a exceção de alguns textos gauleses, graças a versões redigidas em línguas não célticas - nomeadamente o francês (dialeto anglo-normando), o inglês e o alemão. Daqui resulta uma situação no mínimo paradoxal´). Como é óbvio, existem várias versões de epopéias redigidas ou transcritas em línguas célticas, mas são tardias, remontando ao que se designa por Alta Idade Média. A primeira questão que se coloca é sobre a sua autenticidade, ou seja, ignora-se se elas dão conta duma realidade cultural celta incontestável, o fato de terem sido escritas numa conjuntura cristã, com todos os equívocos e todas as censuras que isso implica, pode suscitar algumas dúvidas e, no mínimo, legitimar alguma reserva. Seria útil, entretanto, que se esclarecesse em definitivo a noção de autenticidade associada à tradição. Na verdade, o que é autêntico na Tradição senão a própria tradição? Por quem foi escrita o Génesis da Bíblia? Com toda a certeza não a escreveram os que viveram nos primeiros tempos da humanidade, Por quem foram escritos os Evangelhos? Corri certeza não os escreveram os supostos evangelistas. De resto, a Igreja romana, muito prudente a este respeito, utiliza um termo latino que expressa bem a idéia que quer transmitir, secundum Johannen (ou Marcuni, ou Lucam, ou Mattheum). A palavra secundu nunca quis dizer «por», a tradução francesa oficial, «selon» [segundo não passa de um substituto de «segundo a tradição». E, sem querer entrar em exegeses sábias, é preciso

contextualizar os supostos poemas homéricos: Homero nunca existiu historicamente, não passando de um nome emprestado a numerosos rapsodos (literalmente «cosedores de cantos»), que tentavam inserir num plano de conjunto inúmeras lendas e narrativas herdadas de uma tradição oral com origem na noite dos tempos. Ninguém hoje em dia acredita que A Ilíada e A Odisseia são obras do mesmo autor e que este Homero Do caso, foi testemunha dos acontecimentos que relata. Estas duas obras não passam de duas versões tardias de lendas orais que dizem respeito a deuses e a heróis da Grécia antiga, e é por isso mesmo que elas são apaixonantes, pois testemunham irrefutavelmente um passado que, sem elas, teria mergulhado nas brumas do esquecimento. É por isso preciso ter em consideração que as narrativas homéricas não são mais do que a expressão duma tradição arcaica expressa numa língua Já clássica, e colocada ao dispor de um público que já não era contemporâneo do descrito. O mesmo se passa com as epopéias celtas. O fato de elas terem sido escritas depois de os fatos terem ocorrido (se é que estes são reais, o que está longe de ser provado), ou de eles terem sido posteriormente manipulados, não significa de modo nenhum que a tradição que veiculam não seja autêntica. Com efeito, quando se fala de epopéia., o problema da autenticidade nunca se deveria colocar, pois ela desemboca necessariamente num não-senso: neste domínio, nada é verdade ou falso e tudo existe na forma imaginada, simbólica, codificada, testemunhando a realidade profunda de uma civilização. «Se se tiver em conta as datas, a saga irlandesa é a que nos dá o tipo mais antigo da epopéia celta.». Esta afirmação de Georges Dottin não pode ser refutada, pois foram os manuscritos irlandeses, escritos em língua gaélica, que nos transmitiram a maioria das narrativas épicas cujo estudo interno prova claramente a sua antiguidade, nomeadamente em relação às que foram reunidas nos manuscritos do País de Gales. E sabe-se, graças a este mesmo estudo interno dos textos,

Comment [U4]: 1. Estudei em pormenor as circunstâncias destas epopéias meio -históricas, meiolendárias, e a sua difusão em dois capítulos Rome et Uepopéc celtique, Delphes el raventure celtique, do meu livro de síntese sobre Les Celtes et Ia civilisalion celtique, Paris, Payo1, 1969. reimpresso em 1992.

Comment [U5]: 2. Poderiam encontrar-se pormenores complementares acerca deste assunto nos meus estudos sobre o rei Artur e a sociedade célíica, Paris, Payot, 1976, reimpresso em 1994, e Merlin L¶Enchanteur, Paris, Rctz, 198 1, reimpresso Albm Michei, 1992. A questão é também abordada em oito volumes provenientes da reescrita dos meus romances da Távola Redonda, O Ciclo do Graal, Paris, Pygmalion, 1992-1995, e é muito comentada na minha Pequena Enciclopédia do Graal, Paris, Pymalion, 1997.

Comment [U6]: 1. Georges Dottin, Les Liitératlíres celiique,, Paris, 1923, p. 52

que foi a partir do século VII da nossa era que os monges irlandeses começaram o seu paciente trabalho de passar para a escrita a tradição oral gaélica que naquela época ainda era a deles. Como é óbvio, estes primeiros manuscritos desapareceram, devido à ação do tempo, como aconteceu também com os manuscritos que remontam à Antiguidade e à Alta Idade Média. Não é de crer que os manuscritos conservados nos nossos dias com tanto cuidado - e com tanto zelo! - nas bibliotecas e nos arquivos sejam os originais. São simplesmente cópias de manuscritos mais antigos cujo conteúdo se pretendeu conservar por este à escrita uma ilusão de ter vindo dar pergaminhos ou os papéis velino estão imunes à degradação. Quando os monges as grandes epopéias do passado, irlandeses passaram para a escrita, certos de que haveria quem mais tarde continuaria o seu trabalho. Não espanta por, só que os documentos de que se dispõe atualmente, e aos quais as técnicas científicas modernas asseguram uma maior longevidade, não são de modo algum anteriores ao século X. Quanto aos riscos que estas cópias, sejam de erro e de ou tenham a ver com simplificação como de listem o próprio conteúdo, que é o mais importante, é óbvio que eles existem. Existem três manuscritos principais no que respeita à epopéia irlandesa - ou seja, por conseqüência, a mais antiga epopéia celta: o Livre de Ia Vache Brune (Leabhar na hUidré), assim chamado por causa da sua encadernação e que, tendo sido escrito antes de 11 no 06 célebre recinto monástico de Clonmacnoise, está atualmente guardado na Royal Irish Academy de Dublin; o Livre de Leinster (Leabhar Laigen), anterior a 1160, que se encontra no Triníty College de Dublin; e por fim o manuscrito dito Rawlinson B 502, também do século XII, guardado na BodIeian, Library de Oxford. Os três possuem

o que existe de mais antigo e importante na tradição gaélica. Contudo, a Irlanda continuou a recorrer aos manuscritos não apenas durante a Idade Média, mas também no decurso do que se chama Tempos Modernos, isto, sobretudo com o objetivo de divulgar as obras em gaélico, que tinham estado proibidas ou, no mínimo, escondidas pelo ocupante inglês. O nosso conhecimento da epopéia irlandesa pode ser assim enriquecido graças a um grande número de outros preciosos manuscritos. Mencionemos século XV (Trinity Collenomeadamente o Livre jaune de Lecan, do séc ?), o Livre de BaIlymote, também do século XV, (Royal Irish Academy), o Livre de Lismore, do mesmo século, atualmente na posse de particulares, sem esquecer o Livre de Fermoy, do século XIV, mais especializado nos textos religiosos cristãos. Outros, menos importantes, revelam-nos verdadeiras pérolas raras. Ao todo são uma centena, estando a maior parte deles guardada na Royal Irish Academy. Só nos podemos maravilhar quando comparamos esta abundância com a pobreza dos raros manuscritos galeses e à inexistência dos manuscritos bretões anteriores ao século XVI. Se não fosse a Irlanda, nada conheceríamos da antiga epopéia dos Celtas. O que contêm estes manuscritos de valor inestimável? A resposta é simples: «Coleções muito variadas de narrativas em prosa e em verso, tanto sagradas como profanas versando lendas, história e a hagiografia, poesia bárdica e lírica, tratados médicos e jurídicos, tudo em gaélico antigo, médio ou moderno, sem ter que haver a preocupação da classificação. » O que é admirável é a mistura, numa mesma narrativa, da prosa com a poesia. «Os trechos em prosa, cuja extensão depende dos manuscritos, parece que foram a princípio simples esboços sobre os quais o improvisador podia criar à sua vontade; à medida que os poemas iam desaparecendo, esses trechos iam tomando o seu lugar.» (2) Estes esboços são bem demonstrativos de urna época em que a escrita estava proibida pelos druidas,

Comment [U7]: 1 . Georges Dottin, Les Liltératures celtiques.

Comment [U8]: 2. Ibidem.

transmitindo-se a tradição oralmente por meio de versos que os aprendizes estudavam ao longo de vinte anos, podendo enriquecer as suas narrativas quando o Julgassem útil. Além disso, na maior parte das vezes, os trechos em verso das narrativas épicas estão repletos de arcaismos que em alguns casos as torna incompreensíveis embora estes últimos comprovem a sua antiguidade. Considera-se que todas estas narrativas são reatualizações de contos tradicionais que remontam ao fundo dos tempos. O fenômeno é muito particular na Irlanda, pois, no País de Gales poucos trechos em verso subsistiram nas narrativas em prosa e, na Bretanha armoricana, apenas algumas canções dramáticas, os gwerziou, sobreviveram à turbulência da história e lembram de algum modo as grandes epopéias que deviam ser cantadas pelos bardos de outros tempos. Estas grandes epopéias encontram-se nos manuscritos irlandeses, mas, na maior parte das vezes, na forma de fragmentos, de episódios que podem ser auto-suficientes embora só se tornem realmente compreensíveis quando se ligam uns aos outros. Certas epopéias que têm como personagem principal um herói bem conhecido apresentam-se numa forma elaborada e completa: é o que acontece com a célebre Razzia des Boeufs de CuaIngé, verdadeiro monumento literário que muitas vezes é comparado à Ilíada e que está centrada no temível guerreiro Cuchulaínn. Este é também o herói de muitas outras histórias episódicas, o que acontece igualmente com a maioria dos atores, sejam «deuses», «demônios», humanos ou seres mágicos. Dir-se-ia que as personagens das epopéias eram, sobretudo símbolos pré-existentes a todas as narrativas organizadas, esforçando-se por lhes revelar a sua significação profunda ao emprestarem-lhes aventuras pretensamente históricas. Esta tendência, que parece fundamental em todos os celtas, contradiz formalmente a tese de Evhérnère, segundo a qual os deuses não passam de humanos divinizados. Com efeito,

sobretudo nas narrativas que se podem classificar como mitológicas, os deuses aparecem nitidamente inseridos na história, devido a esta não estar assente em nenhum acontecimento real. Aqui se encontra outra característica dos celtas: quando ignoram a história do seu passado ou a esqueceram, inventam-na. Pode mesmo chegar-se mais longe. Quando eles não estão satisfeitos com a história vivida, negam-na e criam outra, mais de acordo com a sua mentalidade. Nos celtas, é extremamente evidente a predominância do mito sobre a realidade quotidiana. Mas o que atrás foi dito não deve ser classificado de acordo com os padrões habituais. As epopéias irlandesas apresentam uma desordem mitológica real porque faz lembrar uma bruma artística. As personagens aparecem constantemente nas narrativas de natureza histórica, e encontram-se certos pormenores realistas em contos cuja beleza se centra no sobrenatural, pois na mentalidade celta, irlandesa ou outra, não existem fronteiras entre o mundo visível e o invisível. O sobrenatural, como o próprio nome indica, não é mais do que o natural visto um pouco mais de cima para que se possam observar as realidades escondidas. Neste caso, o real, que serve de base a qualquer narrativa verossímil, aparece como transcendido, como um autêntico surreal, um mundo do pensamento interior, à imagem do universo do sidh, ou seja, do Outro Mundo, que, segundo a crença irlandesa, se encontra no interior de grandes túmulos megalíticos onde vivem deuses e heróis. Estes túmulos abrem-se durante a festa de Samain (noite de Toussaint), o que permite a intercomunicação entre os dois mundos. O que há de mais natural? Não há maravilhoso na epopéia celta, apenas há fantástico. Com efeito, é o real que, passando por sucessivas metamorfoses, se torna fantástico. Comportamentos estranhos, cenários surrealistas, desordem do conteúdo e da forma, são algumas

características da epopéia primitiva dos celtas, em particular da que os gaélicos da Irlanda quiseram transmitir a posteridade. Esta desordem não pode deixar de surpreender quem vive ainda à sombra - e ao abrigo - da tranqüilizante lógica aristotélica baseada no verdadeiro e no falso. Mas os celtas nunca conheceram Aristóteles nem quiseram alguma vez obedecer aos seus apelos ao senso comum, tendo preferido permanecer na dialética présocrática anterior ao milagre grego, e defender, como o fez Héraclito, que «os mesmos caminhos que fazem subir fazem também descer». Não é um paradoxo mas uma pura verdade lógica demonstrar que qualquer juízo humano depende do seu sistema de referência, por outras palavras, da polaridade da ação, tudo dependendo do que se entende por «alto» e por «baixo». Além disso, os latinos, apesar de considerados lógicos, empregavam o mesmo termo, altus, para classificar a altura e a profundidade, o que parece ter caído no esquecimento. Quanto à desordem surpreendente da epopéia celta, esta não passa de uma aparência enganadora: os poetas e os contadores irlandeses sabiam muito bem o que estavam a fazer, pois alguns deles reconstituíram o plano de conjunto a partir de contos mitológicos desordenados ou em forma de fragmentos, procedendo assim do mesmo modo que um Chrétien de Troyes e outros autores franceses da Idade Média que, através de contos arturianos aparentemente desprovidos de continuidade, escreveram e prolongaram a grande epopéia do Graal e da Távola Redonda. Com efeito, as epopéias irlandesas formam um ciclo perfeitamente coerente que, não sendo sempre de fácil discernimento, aparece, no entanto como um esquema de um extraordinário rigor. Deste modo, foi redigido antes do ano 1168 o célebre Livro das Conquistas (Leabhar Gabala), que é uma espécie de compilação de contos mitológicos ligados aos sucessivos povoamentos da Irlanda, desde as origens até ao advento do cristianismo. Sabe-se atualmente que na origem desse

livro está a escrita em prosa de um cicio de poemas pretensamente históricos atribuídos a um certo Gilla Caemain, que morreu em 1097 e cuja obra está hoje perdida. Mas, tal como se encontra, representando o meio intelectual do século XII e tendo a preocupação de provar uma identidade gaélica face à invasão anglo-norrnanda, esta obra é de um valor imenso pois permite que se tenha uma idéia mais aproximada do encadeamento das diversas narrativas cujo objetivo era refazer a história da Irlanda de modo a acentuar-lhe a especificidade e o valor. Assim se explica que apareçam diversas referências bíblicas, sentindo os irlandeses a necessidade de se agarrarem a uma filiação honrada e quase dividindo com os romanos na fábula de Eneida, filho de Vênus, e como ocorreu também na mesma época com os bretões insulares que, pela pena de Geoffroy de Morrinouth, afirmaram que o seu antepassado epónimo Brutus era um descendente de Eneida, e por isso de essência troiana e divina. Como é evidente tomavam-se os desejos por realidades, ao mesmo tempo que se conciliava a tradição druídica pagã com a tradição judaico-cristã passando pelo Egito e pela Grécia. O mesmo acontecerá alguns séculos mais tarde com a História da Irlanda de Geoffroy Keating que, escrita cerca de 1640 e retomada em diversos manuscritos, só foi impressa em 1723 através de uma tradução inglesa. Tanto o Livro das Conquistas como a História da Irlanda estão repletos de testemunhos da antiga epopéia celta, que desafia o tempo e o espaço. Sendo verdade que estes manuscritos não apresentam a realidade histórica, não deixa de o ser também que contêm numerosos elementos filosóficos e metafísicos, assim como reflexões sociológicas, que os antropólogos modernos não desdenhariam. Assim, a enumeração e as características dos diversos povos que ocuparam a Ilha Verde - Ou seja, a Irlanda - desde o dilúvio são muito esclarecedoras. Os primeiros invasores, a tribo de Partholon, são de um tipo

que se pode classificar como vegetativo, preocupando-se unicamente em sobreviver, abrigar-se e procriar, imagem esta que corresponde numa perspectiva simbólica, ao que existe de mais primário na civilização, Os segundos invasores são membros da tribo de Nemed: ora, o nome nemed significa «sagrado», o que indica desde logo, claramente, uma reflexão metafísica ou religiosa numa sociedade que até então só tinha preocupações materiais. Os terceiros invasores são os Fir Bolg: também neste caso o nome é significativo, pois fir quer dizer «homens» (vide o latim vir) e bolg tem uma raiz indo-europeu que também deu em latim fulgur, «trovão».´¶ Como é óbvio, os Fir Bolg são sobretudo ferreiros, mestres do fogo e inventores de técnicas artesanais novas, destinadas à guerra ou a trabalhos agrícolas. Os quartos invasores da Irlanda são os famosos Tuatha Dê Danann, as «Tribos da deusa Dana», deusa-mãe cujo nome está associado a numerosos termos vizinhos do Médio Oriente, em particular Tanait, ou também Anáta, assim como a rios como o Don e o Danúbio (Tanaüs). Segundo a tradição, essas tribos vieram «das ilhas do norte do mundo», tendo introduzido na Irlanda a ciência, a magia e o druidismo. Elas são por isso detentoras de uma sociedade fortemente hierarquizada à maneira indoeuropéia, baseada em princípios mais ou menos teocráticos e onde predomina uma organização sacerdotal. Além disso, os heróis dos Tuatha Dê Danann são as antigas divindades do druidismo celta triunfante. Os quintos conquistadores da lha Verde são chamados, nas narrativas, «Os filhos de Milé», ou os «milesianos», surgindo do Oriente e passando por Espanha. Correspondem precisamente aos Gaélicos e representam a sociedade irlandesa tradicional, tal como a descobriram os primeiros missionários cristãos, e tal como ela era ainda quando da chegada dos anglo-normandos de Henrique II

Plantageneta, apesar de uma cristianização que tentara substitLir os druidas pelos padres, os abades e os bispos junto dos chefes dos clãs e das tribos. Esta invasão dos milesianos corresponde ao nascimento duma sociedade baseada no equilíbrio entre as duas forças que a compõem, a política (os gaélicos) e a religiosa (os druidas, portanto os Tuatha Dê Danann). Esse equilíbrio deriva de, após o triunfo dos Filhos de Milé sobre os Tuatha, estes não se terem deixado eliminar e, segundo um acordo solene, terem ficado na posse dos túmulos e das ilhas maravilhosas que rodeiam - miticamente - a Irlanda, enquanto os gaélicos ocuparam a superfície da ilha. Graças à Incontornável colaboração entre o druida e o rei, absolutamente indispensável para que qualquer grupo possa subsistir, a estrutura da sociedade celta é um verdadeiro modelo de harmonia entre o mundo visível e o invisível. Além disso, a sociedade descrita na epopéia é composta: por muito que os Tuatha sejam tanto criaturas feéricas como divinas, misturam-se com os seres humanos intervindo nos seus assuntos. Acontece também que os elementos originários da tribo de Nemed e dos Fir Bolg estão sempre presentes. E toda esta gente se vê constantemente confrontada com um misterioso povo, o dos Fomore, seres gigantes que, habitando em ilhas longínquas, têm numerosos pontos em comum com os ciclopes da tradição helênica e os gigantes da mitologia germano-escandinava. Tal como eles, provocam freqüentes distúrbios e atacam sempre que há uma vaga de conquistadores da Ilha Verde, simbolizando, como é evidente, as forças obscuras do inconsciente, os poderes da destruição e do caos que devem ser constantemente combatidas para assegurar não apenas o equilíbrio mas também a sobrevivência de uma sociedade dita civilizada. Com efeito, os confrontos são constantes. Nada é definitivo, e o retomar dos problemas gerais processa-se ao ritmo das estações e dos dias. Durante largos períodos de

Comment [U9]: 1. Para este nome propuseram-se significados extravagantes, em particular «homens sacos», o que não quer dizer absolutamente nada. O mesmo aconteceu com o povo dos Belgas, também considerados como «homens-sacos».

Comment [U10]: N. T.: Féeriques no original; o mundo feérico é o mundo das fadas (fèes), o mundo mágico.

adormecimento, a tensão vai-se acumulando, cresce, exacerba-se e acaba por se manifestar, ocorrendo então as guerras, as aventuras expedicionárias, os acontecimentos imprevistos. Ora, estas crises não são fruto do acaso nas narrativas épicas, podendo constatar-se que elas coincidem sempre com uma data essencial do calendário celta, o que demonstra que de certo modo se trata de rituais realizados segundo um plano bem determinado e com um significado profundo. As invasões, por exemplo, encontram-se sempre datadas à volta do 1 de Maio, e as guerras, no decurso das quais morre um rei, ocorrem à volta do 1 de Novembro. O conjunto obedece a um esquema superior que os múltiplos autores das narrativas épicas conheciam perfeitamente, o que faz supor que o corpus da epopéia celta da Irlanda exprimia a tradição mais antiga e mais específica dos povos celtas originais que sobreviveram a todas as migrações e a todas as vicissitudes.´¶ Sabe-se, com efeito, que o calendário dos celtas estava ordenado segundo um eixo fundamental que ia da festa de Samain (1 de Novembro) à da Beltaine (1 de Maio)´¶, ou seja, guiava-se em função da entrada e saída do Inverno. A datação das invasões no fim do Inverno e no começo da estação estival corresponde portanto a uma realidade simbólica, tratando-se de um novo princípio, de um novo nascimento, de um novo ciclo. Quanto à morte de um rei no início do Inverno, não há aqui senão a constatação de um certo adormecimento, de uma interrupção das atividades da função real, guerreira e pastoral, sendo esta última particularmente importante no caso da Irlanda, pois a Ilha Verde foi sempre e continua a ser o país por excelência da criação de gado, o que explica que a estrutura social dos gaélicos estivesse profundamente dependente da criação de gado, a única verdadeira riqueza destes povos ainda marcados pelo nomadismo e cujas fronteiras jamais ultrapassavam os territórios do rei, ou, dito de outro modo, a sua prosperidade dependia de poderem contar com a

proteção do rei na sua atividade pastoril. Este é um dado muito importante a ter conta se quer compreender, na sua expressão irlandesa, o sentido profundo da epopéia celta. Há, por conseguinte nesta grande quantidade de narrativas aparentemente independentes uma coerência que deixa supor um conjunto de situações regidas pelos costumes e as crenças dos antigos celtas. Uma comparação se impõe desde logo, mesmo que pareça paradoxal: as diversas narrativas recolhidas nos manuscritos irlandeses formam uma verdadeira saga (termo que costuma estar reservado às homólogas escandinavas), análoga à que Honoré de Balzac tentou fazer ao compor os múltiplos episódios autônomos da Comédia Humana. Com efeito, nestes últimos encontra-se de tudo um pouco: fragmentos da vida quotidiana, lutas intermináveis pelo poder, a voracidade de tubarões de dentes afiados, o sacrifício de inocentes, histórias de amor de partir corações, assassínios, barbáries, proezas heróicas, delírios poéticos ou proféticos, e ainda muitos outros elementos que são comuns à antiga epopéia celta, assim como ao gemo romanesco muitas vezes inspirado pelas vozes do invisível. É um fato inegável que a saga romanesca de Balzac se alimenta inconscientemente de mitos existentes na sociedade da primeira metade do século XIX. As personagens que encontramos na Comédia Humana e que vão aparecendo, aparentemente em desordem, nos diversos trechos narrativos, são absolutamente indispensáveis para a coerência do plano de conjunto que foi idealizado pelo seu autor. Todas elas representam arquétipos, e facilmente poderíamos identificá-los com certos heróis, não só da epopéia celta da Irlanda, mas também da epopéia humana em geral. O ingênuo, mas poderoso Rastignac tem o seu correspondente irlandês em Lug do Braço Longo e no seu prolongamento humanizado Cúchulainn; o tímido Rubempré encontra-se na tocante

Comment [U11]: Segundo tudo leva a crer, a epopéia irlandesa, que conservou uma grande parte de arcaísmos, testemunha, mais do que qualquer outra tradição europeia, a existência de uma epopéia primitiva indo-européia, ou indo-ariana, pois a comparação que se pode fazer com as narrativas dos ossetes, povos do norte do Cáucaso que descendem dos citas e dos sarmatas, é particularmente esclarecedora: em arribas as tradições se encontram, apesar de estarem muito distantes no tempo e no espaço, os mesmos episódios e as mesmas personagens, embora evidentemente com outros nomes. Podem ler-se a este propósito, dispersos em várias revistas, diversos artigos de Joêl Grisward, e sobretudo duas obras de Geoges Dumézil, Romans de Scythie e d¶alentour, Paris, Payot, 1978, e Le Livre des Héros, Paris, Gallimard, 1965-1989, contendo esta última traduções completas de narrativas ossetas que apresentam extraordinárias semelhanças com as narrativas irlandesas. É por isso verossímil a existência desta epopéia primitiva, o que justifica a procura de um esquema narrativo original. Comment [U12]: 1. Sendo um fato que o ano celta possuía doze meses lunares, mais u m mês intercalar para alcançar o ciclo solar, e que cada mês começava com a lua cheia, as festas de Samain e de Beltaine não calhavam em datas fixas: será mais correto dizer «na lua cheia mais próxima do 1¶ de Novembro ou do 1¶ de Maio».

personagem de Dermot (Diarmaid), e a pobre Esther Gobseck na de Déirdré, tão exaltada por John Millington Syngee é a imagem perfeita da Irlanda oprimida e martirizada. Quanto a Vautrin, ser proteiforrme, é o Thersite grego, o Lóki germano-escandinavo e o Bricriu irlandês, ou seja, uma das imagens fundadoras do Diabo medieval, o próprio símbolo do Tentador que, para melhor semear a discórdia, se mascara com as feições benevolentes do deus Ogma da palavra dourada, ou então com as feições dum estranho Côroi mac Dacré que muda de forma e de aspecto sempre que quer enganar um rival. Honoré de Balzac não conhecia rigorosamente nada das lendas irlandesas, mas o gênio de um artista de qualquer época traduz-se em encontrar através da sua criação própria os grandes mitos fundadores da humanidade, os mitos imperecíveis que moldam a estrutura de um pensamento humano e que se manifestam através de imagens e de símbolos que remontam à noite dos tempos. Além do seu exemplo, outros poderiam ser aqui referidos. Passando adiante, refira-se que do conjunto de episódios preciosamente recolhidos pelos transcritores irlandeses, saíram várias personagens com características bem vincadas, com um profundo valor simbólico, e com o seu lugar na sociedade irlandesa e na estrutura mental dos celtas. O mínimo que se pode dizer é que elas são «cheias de cor» e inesquecíveis, tão forte é o poder de evocação que exercem sobre o imaginário. Apeteceria chamar-lhes «divinas», se este epíteto tivesse um verdadeiro significado no espírito dos contadores: na verdade tudo leva a crer que os druidas professavam a existência de um deus único, incomunicável e inominável, ao qual por vezes era dada uma aparência humana para que pudesse ser inteligível. Com efeito, as personagens «divinas» que deambulam pelas epopéias celtas não passam de funções divinas materializadas, concretizadas e encarnadas por seres que, apesar de terem características perfeitamente humanas,

são dotadas de poderes sobrenaturais ou mágicos, trata-se de homens e mulheres que, por natureza ou graças a uma paciente iniciação, atingiram um grau muito elevado de sabedoria e de poder assimilando funções divinas de que são agentes e donos. Quer isto dizer que essas personagens diferem profundamente dos «atores» da epopéia grega, deuses ou semi-deuses, que, classificados a título definitivo como imortais, se sobrepõem à ação humana, dominando-a, ou mesmo contrariando-a sempre que ela desafia os limites impostos pelo Destino. Os deuses gregos são polícias e censores encarregados de manter a ordem numa sociedade ideal onde cada pessoa tem um lugar definitivo. Os pretensos deuses celtas são treinadores que mostram ao conjunto dos seres humanos como se transforma um mundo que ainda mal saiu do caos e se o leva a um estado de perfeição. Esta atitude metafísica encontra-se nos mais pequenos pormenores da epopéia e, graças a eles, respirase uma esperança e uma serenidade que fazem com que cada pessoa encontre o caminho para o pedaço de infinito que lhe coube. Acontece na verdade que os heróis, em algumas peripécias em que se enredam, estão constantemente nas fro nteiras do real e pronto a envolverem-se com um além, sendo a atmosfera essencialmente sagrada, embora permeada aqui e ali por alguns elementos realistas. É absolutamente verossímil que estas narrativas, independentemente da forma em que chegaram até nós, sejam a expressão narrativa, de algum modo romanesca, de antigos rituais religiosos, de velhos dramas litúrgicos que, entretanto se perderam e nos quais cada personagem era um sacerdote, um druida e portanto um deus, ou então aspirava a sê-lo; os atos são às vezes orações mais eficazes que as palavras, sobretudo quando estas são pronunciadas de tal maneira que mal se compreende o seu sentido. A regra

absoluta é por isso a superação, pois, na perspectiva celta que encontramos nos textos, Deus não é, mas transformase, participando todos os seres desta transformação. Estes seres comportam por isso diversas facetas, não sendo bons nem maus: eles serão. Os seus nomes pouco importam, pois trocam-se entre si; também pouco importam as suas ações aparentemente vis, pois pertencem à sua massa bruta. Eles serão heróis com o seu lugar na subtil e complexa liturgia que decorre no mundo desde que apareceu o primeiro ser vivo. O jogo começa. Assim se encontram as personagens na abertura da cena, ou melhor, nos primeiros degraus do santuário. Na tragédia antiga era o coro que, apresentando os heróis, abria o ritual. Neste caso, uma testemunha vem contar o que viu, pois qualquer narrativa histórica deve ser Justificada por uma tradição autêntica ou tida como tal. Aqui a testemunha é uni homem estranho, Tuân mac Cairill, acerca do qual se diz ter vivido várias vidas desde a época do dilúvio tomando diversas aparências. Em narrativas análogas, substitui-o um certo Fintan, filho de Boclira e descendente de Noé. Pouco importa: era necessário uma testemunha fidedigna e encontrou-se uma. Além disso, como estas histórias foram redigidas na era cristã, impunha-se a canção da nova religião: esta canção encarna no monge São Firmen a quem Tuân vai contar o que sabe ou, noutra versão, no célebre santo Colum-Cill (Colomba). Além disso, mais tarde, quando se tratou de transcrever a grande epopéia dos Fiana à volta de Finn e de Oisin (Ossían), foi o próprio São Patrícío, o grande evangelizador da Irlanda, que veio a evocar a grande sombra do herói Caílté, um dos companheiros de Finn, para lhe contar as aventuras de que ele foi ao mesmo tempo testemunha e ator. Acontece, porém, que Cailté tem uma dimensão humana normal e viveu apenas uma vida. Tuân mac Cairill tem um aspecto mais mágico, roçando as fronteiras do sobrenatural, fazendo lembrar o bardo galês Taliesin que, ao nascer uma

segunda vez, adqLiriu um conhecimento supremo, e lembrando também Merlim, o Encantador, da lenda arturiana, filho de um diabo, mestre da magia e da profecia, que, segundo os próprios textos, confia ao eremita Blaise a missão de passar para a escrita as aventuras do Santo Graal, de forma a chegarem à posteridade. Este procedimento permite recuar no tempo e tirar da sombra grandes figuras que vão cumprir o ritual, «recuperando-se» os antepassados míticos, como Partholon, o primeiro invasor de uma Irlanda completamente deserta a segLir ao dilúvio, como Nemed, o primeiro sacralizador da terra da Ilha Verde, ou como os invasores sucessivos, até ao famoso Tuhatha Dê Danann, que são verdadeiramente heróis civilizadores e os pilares da sociedade celta teórica, Na verdade, estas figuras míticas estão organizadas e hierarquizadas segundo o modelo sociocultural indo-europeu, servindo de fio condutor a tudo o que foi edificado na Irlanda e desejando conservar, apesar da ocupação anglo-normanda, a memória dos velhos gaélicos, depositários de toda uma tradição de sabedoria e de concepção do mundo. É assim que surge a figura hierática de Nuada, rei das tribos da deusa Dana, ponto de equilíbrio desta sociedade ideal, e que num certo sentido se poderia comparar ao Zeus grego e ao Júpiter romano. Nuada evoca também o Tyrr germano-escandinavo (e a personagem pseudohistórica latina Mucius Scaevola), pois perde um braço durante uma batalha. Na tradição germano-escandinava (como na tradição latina), a «mutilação» deriva de um juramento simulado pronunciado com plena consciência para proteger o mundo divino, mas na tradição celta tratase antes de uma ferida heróica, o problema, no caso dos celtas, consiste em que a integridade física do rei anda a par da sua integridade moral: um rei doente ou mutilado não pode reinar, pois se o fizesse o seu próprio reino

estaria doente ou mutilado, devido a ambos constituírem uma unidade. Contudo, como entre os celtas as fronteiras do real não são claras, há sempre uma maneira de inverter uma situação catastrófica, bastando um braço de prata para que Nuada readqLira a plenitude das suas funções reais. Assim, ele poderá nominalmente levar à vitória as tribos da deusa Dana contra as forças obscuras - e obscurantístas - representadas pelos Fomore, os demônios de um olho único e maléfico que têm por chefe o gigante Balor, o trovejador. Entretanto, a sociedade representada pelos Tuatha Dê Danam está constituída de forma a refletir a sociedade humana, agrupando, por vezes de forma elitista e aristocrática, um certo número de indivíduos que tanto representam arquétipos de funções sociais, como são de alguma forma especialistas duma arte (podendo esta palavra significar também técnica). O rei Nuada acaba por ser o eixo de um mecanismo complexo que só pode funcionar se cada peça estiver no seu lugar. Um rei que não esteja acompanhado de guerreiros, de artesãos, de «sábios», de sacerdotes, de mágicos e de poetas, não possui nenhuma relevância. ¶Que seria do fabuloso rei Artur sem os seus cavaleiros e sem o seu adivinho? O mesmo acontece com Nuada. À sua volta encontramos personagens como Ogma, o mestre da palavra - aquele Ogrulos que o filósofo grego Luciano de Samosata descreveu com correntes que, saindo da língua, chegavam às orelhas dos humanos - o artífice do bronze Credne, o ferreiro Goibniu, o médico Diancecht e muitos outros artistas que participam numa espécie de conferência onde cada um tem voto na matéria. De entre eles destaca-se a grande figura de Dagda, cujo nome significa literalmente «bom deus», e que tem como apelido Ollathair, isto é, «pai de todos». Este apelido é precisamente o epíteto de Odin-Wotan,

Affiadir, mas Dagda, ao que parece, apenas tem em comum com o deus germano-escandinavo uma certa ambiguidade do caráter. Do mesmo modo que Odin-Wotan é o deus dos contratos e não pára de troçar deles, Dagda, enquanto «bom deus», possui uma maça muito estranha que mata com uma das suas extremidades e ressuscita com a outra. Não será ele o equivalente do deus gaulês Sucellos, que estava sempre armado com um martelo e cujo nome significa «aquele que bate»? Ou tratar -se-á de Teutates, ou Toutatis, o «pai do povo»? Seja como for, à medida que, com os séculos, ele se foi «folclorizando», transformou-se no Gargantua da tradição francesa, que Rabelais tão bem soube recuperar e revalorizar. Trata-se com efeito de um gigante dotado de uma potência sexual fora do comum e de um apetite voraz. Além disso, possui um caldeirão maravilhoso, um dos arquétipos do Graal, no qual verte um alimento inesgotável. Mas ele é também um artista no sentido que atualmente se dá à palavra, pois consegue extrair da sua harpa sons que fazem chorar e mesmo morrer, que provocam alegria e riso, ou que adormecem quem quer que os ouça. E, como Dagda é o «pai de todos», possui diversos filhos, com quem tem um relacionamento de contornos muito pouco claros. Da sua irmã - ou filha - Boann, epónimo do rio Boyne, ele tem, após manobras perfeitamente delatórias, um filho que se chamará Oengus (Angus) e cujo apelido será Mac Oc, ou seja, «jovem filho». Oengus é uma das personagens mais célebres da tradição gaélica e uma das que mais se enraizou na memória popular. Rei feérico, ele é o senhor do caer megalítico mais famoso do mundo, o de Newgrange (em gaélico, Sidh-na-Brug ou Brug-naBoyne), que serviu de inspiração às grandes lendas da tradição épica irlandesa. E se Oengus tem uma essência divina, não deixa por isso de se vir misturar com os humanos, intrometendo-se nos seus jogos, nos seus assuntos e nas suas batalhas. Alguns contos populares

Comment [U13]: I. N. T.: Montículo de forma redonda, feito de pedras e de terra; túmulo celta ou pré-histórico. As antas ou dólmenes estavam normalmente inscridas num cairn. Estes montículos ou outeiros artificiais tão são designados por tumulus.

descrevem-no como estando sempre escondido no meio do arvoredo, pronto a intervir no caso de a ordem do mundo ser alterada. Este «jovem filho» é, em suma, uma espécie de consciência universal, sempre latente no espírito humano e capaz de se manifestar tanto para operar grandes milagres como para infligir os piores castigos. Todos estes extraordinários membros da tribo da deusa Dana formam uma espécie de sociedade ideal onde predominam as estruturas celtas. Cada um deles é «rei» nos seus domínios, «reina» sobre um palácio maravilhoso, ou sobre um outeiro megalítico; entre eles existem laços que tanto podem ser de aliança pura e simples, como familiares ou meramente contratuais. Após a batalha de Tailtiu e a partilha da Irlanda com os milesianos, foi Dagda que, na hierarquia, ocupou o lugar primeiro, como se fosse o rei supremo possuidor de uma autoridade moral incontestável e de poderes para exercer a justiça. Esta proeminência encontramo-la também na personagem de Mananann, filho de Lir, epónimo da Ilha de Man: este reina sobre a misteriosa «Terra da promessa», que também se chama Tir-na-nOg ou «País da Eterna Juventude», que é na verdade uma espécie de paraíso situado algures em ilhas longínquas, a ocidente, evidentemente, ilhas estranhas com uma vegetação maravilhosa e com grandes espaços conhecidos pelo nome de Mag Mell ou «Planície das Fadas». Acontece, entretanto que estes domínios estão situados sob um lago, e às vezes mesmo sob o mar: o Outro Mundo, para os celtas, está sempre muito próximo do mundo dos vivos, que nele podem penetrar. No que respeita às «boas gentes», termo popular que se refere aos seres feéricos, deambulam pelo mundo humano sem quaisquer problemas, possuindo o dom da invisibilidade e podendo assumir um aspecto humano sempre que o desejem; podem também tomar a forma de aves, o que acontece, sobretudo quando se trata de mulheres.

Entre todas estas personagens, Dagda, Mider, Oengus, Mananann e muitos outros, há uma que é muito particular e que escapa a qualquer hierarquia: Lug, ao qual estão associados dois epítetos, Lanifada, isto é, «braço longo», e Samildanach, «artesão múltiplo». Lug constitui a figura da divindade celta mais difundida, não apenas na Irlanda mas em todo o continente europeu, devendo-se a ele o nome de várias cidades, como Lyon, Laon, Loudun, Leyde e Leipzig, que derivam da antiga designação Lugudunum, «fortaleza de Lug». É a ele que se refere Júlio César, nos seus Comentários, quando menciona um Mercúrio gaulês, fazendo notar que se trata do deus mais venerado de toda a Gália. A sua origem é dupla: ele pertence ao ramo dos Tuatha Dê Danann pelo lado do pai, e ao dos Fomore pelo lado materno, o que faz com que só ele seja capaz, na segunda batalha de Mag-Tured (Moytura), de enfrentar o avô, Balor, de olho malévolo, e de matá-lo. Além disso, sem que ocupe nenhum lugar na hierarquia, ele é o organizador por excelência e o artesão da vitória final nesta batalha Isto . se deve ao fato de ele ser um deus para além de todas as funções, reunindo o conjunto das qualidades que se nos encontram outros deuses; ele é na verdade o «Múltiplo artesão», tal como o será mais tarde, na lenda arturiana, Lancelote do Lago, que e a sua imagem h eroicizada e tomada romanesca. Na epopéia celta encontram-se personagens femininas que nada ficam a dever aos homens. Segundo a tradição, a Irlanda era habitada, antes do dilúvio, por uma mulher primordial de nome Cessair; e a própria Irlanda se tornou uma entidade divina ou feérica, Banba, a qual, segundo algumas versões da lenda, teria sobrevivido ao dilúvio, assegurando assim a perenidade da terra situada nos confins do real. Foi também uma mulher, a filha do deusmédico Dianceclit, que, graças à sua ciência e magia, devolveu o poder real ao Nuada vencido, fabricando-lhe um braço de prata tão eficaz e vivo como o seu braço de carne,

Comment [U14]: 1 . A este propósito, ver J. Markale, Lancelot et la Chevalerie arthurienne, Paris, Imago, 1985.

e fazendo-lhe um «implante» graças a uma extraordinária «operação» cirúrgica. Acontece, com efeito, que, na perspectiva celta, as mulheres são dotadas de poderes ignorados pelos homens. A mulher é sempre a imagem simbólica da Soberania, pois encarna o conjunto da comunidade da qual o rei - acessoriamente o marido - é a trave mestra teórica, um pouco como acontece no jogo de xadrez em que a rainha é a peça de maior mobilidade, mas onde o rei é uma peça fundamental sem a qual se perde a partida. Nas narrativas épicas aparecem também mulheres mágicas, e frequentemente feiticeiras, como Funinach, primeira esposa de Mider, inimiga jurada da bela Etaine, e mais tarde mulheres-guerreiras iniciadoras dos jovens e temíveis sacerdotisas especialistas em manipular os sortilégios. Estas mulheres nunca deixam de viver em plenitude, arcando com as conseqüências dos seus atos. Por muito conscientes que estejam do seu poder, não esquecem que podem morrer de amor, estando sujeitas às circunstâncias que lhes alimentou a paixão voraz e ilimitada e aos caprichos do fado, ou seja, à força de um Destino desconhecido, mas imanente. E preciso não esquecer que a origem da história trágica de amor de Tristão e Isolda, tão célebre no mundo ocidental e chegando a ser considerada o símbolo do amor humano, está claramente inscrita na epopéia celta da Irlanda. A característica mais saliente destas heroínas femininas épicas é apresentarem múltiplas aparências, múltiplos rostos, múltiplos semblantes, geralmente três, tendo em consideração o número simbólico sagrado dos Celtas, o qual tanto se apresenta com a forma de tríade como de triskell, a tripla espiral que, girando à volta de um ponto central, simboliza por excelência o universo em expansão. As heroínas aparecem por isso com inúmeras aparências e nomes, em diferentes épocas e em encarnações sucessivas. Refira-se em primeiro lugar a tripla Brigit, que se diz filha de Dagda (a não ser que ela não seja sua irmã),

e que vem a ser nem mais nem menos que a Minerva gaulesa de quem fala César, deusa das técnicas, das ciências e das artes, que os cristãos recuperaram com o vocábulo «santa» Brígida atribuindo-lhe a fundação do célebre mosteiro de Kildare, antigo lugar de extrema importância do culto druídico. Ora, esta Brigit é também, com o nome de Boann, a mãe de Oengus, o Mac Oc que concebeu e deu à luz durante o espaço temporal da noite de Samain, ou seja, simbolicamente, durante a abolição do tempo, a eternidade. Brigit encarna a vida eterna, e o seu nome, derivado de Bo Vinda, «vaca branca», mostra bem até que ponto se encontra associada a um alimento inesgotável, o leite, elemento indispensável aos povos exclusivamente nômades e pastores, como era o caso dos celtas. A simbologia do seu nome dará os seus frutos, e Boann toma-se o rio Boyne (grafia moderna) que fecunda com as suas águas doces um vale verdejante ao redor do qual se situam os grandes outeiros feéricos, que são domínio dos deuses. E se o nome Brigit (que significa «poderosa», «alta», «luminosa») é extremamente significativo, Boann, representando a riqueza avaliada em cabeças de gado entre os celtas, constitui a alma duma sociedade onde predominam claramente as tendências ginecocráticas. O terceiro rosto de Brigit-Boann, o de Morrígan (genítívo de Morrigu), filha de Ernirias, uma das personagens mais marcantes da tribo da deusa Dana, é de difícil apreensão devido aos seus contornos pouco claros. O que nela melhor se evidencia, em particular na narrativa da batalha de magTured, é o fato de se tratar de uma divindade guerreira temível para os seus inimigos durante os conflitos enquanto exortava os guerreiros a combaterem com encarniçamento. O furor guerreiro de que ela dá provas abundantemente desdobra-se num furor sexual desabrido que a transforma senão numa divindade do amor, ao menos numa espécie de deusa do erotismo. A fúria guerreira e a sexual andam

assim a par, e nos prolongamentos da epopéia celta encontram-se numerosas mulheres guerreiras que têm poderes mágicos e são especialistas na arte militar, ao mesmo tempo que são iniciadoras dos futuros heróis, como é o caso, por exemplo, de Cuchulainn ou de Finn mac Cool. O nome de Morrigane (Morrigu) que significa «grande rainha» evoca o da «fada» Morgana das novelas arturianas e do ciclo do Graal, tratando-se, em qualquer dos casos, do mesmo arquétipo, ao mesmo tempo guerreiro, sexual e mágico. A Morrigane da epopéia irlandesa toma muitas vezes o aspecto duma gralha, chamando-se então Bobdh. A analogia com Morgana é evidente, pois ela e as suas companheiras da Ilha de Avalon possuem precisamente o mesmo dom de se metamorfosearem. Além disso, é de crer que a mulher feérica que leva um ramo de macieira de Emain ao herói Bran, filho de Fébal, antes de levá-lo a empreender uma estranha navegação, seja a própria Morrigane, embora o seu nome não seja pronunciado neste episódio. Porque não havia de reinar a «grande rainha» nesta terra bem aventurada de frutos maduros durante todo o ano e onde não existem a doença, a velhice e a morte? Seja como for, a ilha misteriosa de Emam Ablach é o equivalente, quer lingüístico quer mitológico, da ilha de Avalon, a fabulosa Insula Pornorum para a qual convergem todos os fantasmas da humanidade sofredora. Morrigane é bem o tipo de mulher celta vista pelos autores das epopéias mitológicas; e, muitas vezes, vamos encontrar este tipo nas personagens femininas que, na fronteira entre o humano e o feérico, possuem dons mais ou menos sobrenaturais e o poderoso geis, ou seja, o poder do encantamento mágico que tem o valor de obrigação absoluta para aquele ou aquela que dela é objeto. O belo Dermot, filho de O¶Duibhné, um dos companheiros de Finn mac Cool, conhecerá bem esse fenômeno, pois subjuga o geis da bela Grairiné (Grania),

perdidamente apaixonada por ele. Os filtros do amor pouco podem fazer face ao encantamento mágico e religioso que faz intervir o mundo invisível e faz depender os atos humanos das divindades invisíveis. A jovem Etaine, profundamente amada pelo sombrio deus Mider (que tem numerosos pontos em comum com Méléagant de Chrétien de Troyes), não escapa também ao geís lançado pela sua rival Furimach, e nada neste mundo a consegue poupar ao longo período de turbulências e depois de metamorfoses que a afetarão profundamente. Apesar disso a aventura de Etaine e de Mider é uma história de amor «normal», na mais bela tradição romântica. Na epopéia celta, no entanto, o amor não é um sentimento isolado, fazendo parte das grandes mutações que se operam no universo, tudo se dirige, por entre as diversas peripécias psicológicas, para uma dimensão cósmica à qual ninguém consegue escapar. O que é posto em relevo é muito menos a natureza fatal da paixão amorosa do que a sua necessidade metafísica. Acima de tudo, procura transmitir-se a idéia de que, a existir um deus, Ele só pode ser o amor, pois este constrói o mundo, e a mulher, que é iniciadora por essência, é capaz de dar, com o seu amor, um segundo nascimento, o nascimento na eternidade, àquele que escolheu amar. Existe muito a idéia, formada ao longo dos tempos, de que a epopéia não deixa nenhum espaço para a vida afetiva, para o estudo do comportamento psicológico dos heróis, cuja descrição permanece demasiadas vezes ao nível do exterior, estereotipada segundo as normas do gênero. Naturalmente, as personagens das epopéias são arquétipos carregados de significação simbólica, mas não deixam por isso de ser dotadas de reações humanas e por isso de vida interior. Naturalmente, há um aumento do que se chama qualidades, aumento que é indispensável para se pôr em destaque as ações fora do comum. E verdade que existe também uma simplificação destinada a inserir as personagens e as ações num determinado quadro

acessível a um público que não compreende a profundidade e as subtilezas da psicologia. Apesar disso, não se deve esquecer que os heróis são humanos, mesmo quando são apresentados como sobre-humanos. E tanto nas narrativas épicas da antiga Irlanda como nas da antiga Bretanha, são seres humanos que descrevem outros seres humanos que, ao atravessarem a vida, tanto passam por situações de incerteza, de angústia e de grande sofrimento como, por outro lado, também são capazes de viver grandes alegrias e de desfrutar de momentos de grande felicidade. O amor de Mider por Etaine comove-nos porque se trata de um amor que qualquer homem pode ter por uma mulher. O furor guerreiro com que Lug vinga a morte do pai, não poupando os descendentes do seu assassino, é bem demonstrativo do sofrimento que lhe provoca a injustiça de que o seu pai foi vítima. A estranha paixão de Oengus pela mulher que entrevê através da neblina e o encantamento de Bran, filho de Fébal, quando ouve a voz da rainha das fadas louvar-lhe os encantos da ilha bem aventurada, são sentimentos perfeitamente humanos que qualquer pessoa poderia sentir. É nessa universalidade dos sentimentos que se encontra a extraordinária riqueza destas epopéias fragmentárias dispersas nos vários manuscritos da Idade Média, cujas linhas diretrizes são agora fáceis de reconstitLir. Para além de nos fazerem refletir, num plano metafísico, sobre o mundo e sobre as relações entre o visível e o invisível, essas epopéias testemunham uma sensibilidade que em nada é inferior àquela que o romantismo pretendeu inventar. Estas diversas narrativas que nos chegam do passado têm um valor que vai muito para além de serem um testemunho de um mundo imerso em sombras, pois nelas palpita a beleza de histórias que devem ser transmitidas de geração em geração com a plena certeza de que nelas o belo, a bondade e o salutar andam de mãos dadas. A árvore do conhecimento não poderá apontar as

suas ramagens frondosas para o céu se as suas raízes não estiverem ricamente alimentadas pelas sombras que deambulam pela terra, como é o caso das dos fantasmas que esperam desesperadamente pelo momento de encamarem. E só a poesia pode permitir que se cumpra esta subtil operação alquímica. Para que o objetivo se realize, toma-se necessário que se viaje para as estranhas fronteiras do real, aí onde o sonho e a realidade formam duas vertentes duma mesma e única montanha. Paul Fetan, 1997

ADVERTENCIA. A narrativa que se segue não é uma tradução nem uma adaptação de textos originais, ainda menos uma ficção romanesca inspirada por temas épicos. Trata-se da reescrita da grande epopéia dos celtas, tal como é possível reconstituí-la com o auxilio de múltiplas histórias contidas nos manuscritos irlandeses da Idade Média, histórias que aparecem como sendo as mais antigas conservadas da tradição celta. Esta reescrita obedece a dois imperativos: contar com a máxima simplicidade possível, numa linguagem acessível ao maior número de pessoas, e respeitar integralmente o esquema dramático original. E esse o motivo por que se fará, em cada episódio, uma referência precisa ao texto que lhe serviu de base. As o bras do passado pertencem ao patrimônio da humanidade, mas torna-se necessário às vezes relembrá-las a um Público novo. Era já essa a tarefa dos transcritores da Idade Média, que aqui volta a ser proposta. Naquele tempo, o abade Finnen´¶, na companhia de seis dos seus discípulos, percorria a terra da Irlanda para ai pregar o Evangelho e

batizar aqueles que ainda não tinham recebido o batismo. Um dia acercou-se ele de uma fortaleza que se erguia numa margem, ao fundo de uma baía, numa região muito isolada do UIster.l¶1 Como ele e os seus companheiros estavam cansados devido à longa viagem, pediram ao chefe da fortaleza que os acolhesse. Mas este respondeu que de modo algum daria acolhimento a vagabundos que incitavam os homens da Irlanda a abandonarem os seus antigos costumes. Perante esta resposta, Finnen ficou furioso e, avançando para a porta da fortaleza, gritou: «Já que é assim, já que te referes aos nossos antigos costumes, eu vou lançar uma maldição sobre o dono deste edifício, assim como sobre todos os que nele habitam e toda a população deste país! Por Deus Todo-poderoso, enquanto não me for feita justiça, nada farei para evitar que a desgraça se abata sobre este país! Nem eu nem os meus companheiros comeremos qualquer alimento enquanto não for satisfeito o nosso pedido de hospitalidade. Se morrermos, a culpa será de quem nos recusou alojamento e de todos aqueles que o segLiram na sua detestável atitude. A vergonha abater -se-á sobre todos e terão de expiar as culpas, estendendo -se o castigo pelos descendentes até à nona geração. É esse o costume deste país e eu juro que o farei cumprir até às últimas consequências! Após ter pronunciado estas palavras, Finnen voltou para perto dos seus companheiros e os sete encaminharam -se para o prado existente em frente à fortaleza. Era um sábado de noite. Os homens ficaram deitados sobre a erva durante a noite e uma boa parte da m anhã seguinte até que assomou sobre as suas cabeças um sujeito de compleição imponente, de cabelos brancos e barba abundante, que, depois de os ter observado, se dirigiu a Finnen e se ajoelhou diante dele. «Saúdo-te, homem de Deus! » disse ele. «Permite-me que faça frente ao desafio que lançaste às gentes deste país e que, desse modo, não se possa

dizer que o costume da hospitalidade foi traído, recaindo a culpa sobre cada um de nós. Eu não moro longe, e pedi aos meus criados que acendessem o lume para coze os r alimentos no meu caldeirão. Vem, homem de Deus; tu e os teus companheiros terão uma acolhimento digno daquele que vos envia a pregar a sua mensagem aos povos desta ilha.» Finnen ergueu-se e cumprimentou o velho. «Quem és tu que me chamas homem de Deus? És tu também um homem de Deus ou vens aqui só para me provocar em nome do Inimigo? - Eu recebi o baptismo em nome do Senhor, o Deus Todo-poderoso, e foi Patrício que derramou sobre a minha cabeça a água da vida eterna», respondeu o velho. «Peço-te que renuncies à maldição que lançaste às gentes deste país e que venhas a minha casa descansar e procurar conforto». «Mas quem és tu?», insistiu Finnen. «Um homem dos tempos antigos. Já há muito tempo que vim a este mundo, e é por vontade de Deus que cheguei ao dia de hoje para estar diante de ti. Acho que isto te deve bastar. Acompanha-me a minha casa.» «Por Deus Todo-poderoso! », exclamou Finnen, «nem eu nem os meus companheiros te acompanharemos se não nos disseres quem és.» «Nesse caso ouve bem o que te digo. Nunca ninguém tinha desembarcado nesta ilha antes do dilúvio. Conta-se no entanto que, quarenta dias antes de as águas subirem, três mulheres aqui estiveram, tendo o nome de Banba, FothIa e Eriu´), e diz-se também que elas sobreviveram à inundação. Mas o que é certo é que esta ilha permaneceu deserta trezentos e doze anos depois do dilúvio. Só nessa altura é que aqui chegou Partholon, filho de Sera, acompanhado de vinte e quatro homens e das suas respectivas mulheres. E eu próprio estava entre esses vinte e quatro homens. «Partholon e o seu clã estabeleceram-se assim na Irlanda e aqui viveram muito tempo. A terra era bela e fértil, com grandes prados onde os gados podiam pastar. E o país

Comment [U15]: 1 . Firmen, ou Fíman (às vezes conhecido por «São Finian, o Leproso», é um dos inumeráveis «santos» irlandeses que, sem serem reconhecidos por Roma, são geralmente considerados os Primeiros evangelizadores da ilha Verde. Firmen passa por ter fundado o mosteiro de Mag Bile no Ulster e o de Innisfalien na ilha do grande lago de Killarney, no Kerry, estando este último a ilustrar os seus Anais, de valor inestimável para a história da alta Idade Média.

Comment [U17]: 1. Trata-se do famosojejum legal, praticado frequentemente pelos celtas e que consistia, para o queixoso, em jejuar diante da parte adversária, revelando solenemente os motivos do conflito. Se o que faz jejum morre, a responsabilidade recai sobre aquele que não reparou os seus erros e que, por isso, é excluído da comunidade. Encontra-se aqui o mesmo princípio da greve da fome. Comment [U16]: 2. Trata-se da baía de Sheephaven, no condado de Donegal. No lugar da antiga fortaleza, encontram -se ainda vestígios do castelo de Doe, construído no sCCulo XVI pela família dos Mae Sweeney. Comment [U18]: I- São os três nomes tradicionais (e mitológicos) da Irlanda personificada. o último tornou-se o nome gaélico oficial da República da Irlanda, Eriu no nominativo e Erin no genitivo.

agradava-lhes, porque nele podiam(2) prosperar tranquilamente e sem o receio de animais venenosos. Mas um dia, entre dois domingos, uma epidemia abateu-se sobre a ilha e morreram todos os seus habitantes. Entretanto, como nunca se ouviu falar de um desastre que não tivesse deixado ficar ao menos um único sobrevivente para contá-lo, fiquei eu, a única testemunha dos dias antigos. «Eu senti-me extremamente só e passei a deambular de colina em colina e de falésia em falésia evitando os lobos que percorriam as planícies e as florestas. Errei assim ao acaso durante trinta e dois anos sem encontrar vivalma. Por fim a velhice abateu-se sobre mim e os membros começaram a pesar-me, ficando eu fraco e desamparado. Já não conseguia subir as colinas e a certa altura, já não me conseguindo mexer, refugiei- me numa gruta à espera da morte. «Lembro-me como se fosse hoje. Eu estava à entrada da gruta, meio deitado, quando vi chegar Nemed, filho de Agnoman, seguido por vários homens e mulheres. Vi os tomarem posse da ilha e, quando chegaram à entrada da gruta, não me quis mostrar. Eu tinha deixado crescer os cabelos, as minhas unhas estavam enormes, estava todo grisalho, decrépito e nu, tolhido pela miséria e pelo sofrimento. Certa vez, depois de uma noite de sono, ao acordar numa manhã de sol, apercebi- me de que tomara a forma de um veado, fato com que o meu espírito se alegrou pois eu voltava a ser jovem. «Revestido da minha forma animal, passei a tomar conta dos gados da Irlanda, vendo passar a meu lado grupos de veados arruivados que corriam através de planícies e vales, e através de montanhas até chegarem aos estuários dos rios. Foi essa a minha vida no tempo de Nemed. Os do seu clã tomaram-se numerosos e chegaram a formar quatro mil

e trinta casais. Mas as gentes de Nemed tiveram de combater gigantes que vinham das ilhas imersas em nevoeiro e aqueles que não se exilaram foram sucumbindo sucessivamente. Assim fiquei só, nesta ilha, a tomar conta do numeroso gado, e tendo de me refugiar do vento que vinha do largo e da chuva que me encharcava e me obrigava muitas vezes a esconder-me debaixo dos carvalhos da floresta. «E mais uma vez fiquei velho, com os membros entorpecidos. Eu sabia, no entanto que o meu destino ainda não se cumprira, pois faltava-me voltar ao UIster já que fora nessa região que eu mudara de aspecto. Resolvi por isso refugiar-me numa gruta, não longe daqui, e ficar à espera do que poderia acontecer de seguida. Foi nessa altura que assisti ao desembarque nesta terra da Irlanda daqueles a quem se chama os Homens-Trovão. Eles eram muito numerosos e ocuparam esta terra depois de terem feito frente aos gigantes das ilhas que queriam impedi -los de aqui viver em paz. Assisti a terríveis perseguições nos vales e ao longo dos estuários, assim como a combates mortais e a caçadas ao homem na floresta. Mas, por fim, os Homens-Trovão acabaram por dominar este país. Em dada altura estava eu à entrada da minha caverna, lembro-me disso como se fosse hoje, e o meu corpo voltou a mudar de aspecto, passando a ter a forma de um javali. Consigo mesmo lembrar-me que entoei uma canção inspirado pela maravilha que comigo ocorrera: «Hoje, sou um javali, Sou um rei forte e vitorioso. O meu canto e as minhas Palavras eram agradáveis, outrora, nas assembléias, Encantando os jovens e belas mulheres. O meu carro de combate era belo e majestoso, a minha voz: emitia sons graves e doces, Eu era hábil nos combates, tinha um rosto encantador.

Comment [U19]: 2. Não há serpentes na Irlanda. Este fenómeno deriva do fato geológico de a ilha se ter separado do continente europeu e das Ilhas Britânicas antes da chegada dos animais dos países temperados e quentes ao norte, no período pósglaciar. Mas segundo uma lenda tradicion al irlandesa, São Patrício em pessoa terá caçado serpentes na ilha lançando-lhes uma maldição.

Mas, hoje, sou um javali negro... » «Ora, os Homens-Trovão foram vencidos por outras gentes que desembarcaram nesta terra na noite anterior às calendas de Maio. Eu vi essas gentes Incendiarem os navios nas margens e penetrarem nos vales; e vi-as combaterem os Homens-Trovão nas planícies. Pertenciam às tribos da deusa Dana cuja origem, segundo se diz, é desconhecida. Mas é provável que eles viessem do céu, pois tinham uma inteligência rara e os seus conhecimentos ultrapassavam largamente os dos outros povos do universo. «Mais uma vez fiquei velho, apoderando-se de mim a tristeza e a melancolia. Eu já não era capaz de fazer o que fizera antes. Não me queria misturar com os outros e habitava em cavernas sombrias e em covas que existiam entre os grandes rochedos. Eu fugia de tudo o que mexia, fossem homens ou animais. Lembro-me agora perfeitamente de que me deitei ao comprido no chão e de que passaram à minha frente as formas que já possuíra até então, o que fez com que a minha tristeza aumentasse. Jejuei então durante três dias, ao fim dos quais senti que já não tinha forças. Mas, sem disso me aperceber, tornei- me um pássaro, uma grande águia do mar. Fiquei de novo alegre, por perceber que poderia percorrer incansavelmente os céus desta ilha voando mesmo rente às nuvens. Foi assim que levantei voo e que pude testemunhar tudo o que se passava na Irlanda. E eu cantarolava estes versos: «Águia do mar hoje, Já fui noutros tempos um javali. Vivi antes entre varas de porcos selvagens, e eis-me agora entre bandos de pássaros ... » «Que história estranha me contas! », disse Finnen. «E

como é possível que agora sejas um homem como qualquer outro?» - «Os desígnios de Deus são insondáveis», respondeu o velho, «pois o futuro a Ele pertence. Fica contudo a saber que foi na forma de animais que consegui sobreviver a todos os povos que invadiram esta ilha. Também assisti à chegada dos Filhos de Milé e à sua luta contra as tribos da deusa Dana. Nessa altura tinha eu a forma de pássaro e estava no buraco de uma árvore, junto ao rio.» «Estive adormecido durante nove dias, ao fim dos quais acordei com o aspecto de um salmão. Atirei- me então à água e comecei a nadar. Sentia-me bem, com muita energia, e saltei de rocha em rocha em direção à nascente. Graças à minha habilidade, escapei durante muito tempo a variados perigos, às redes de pesca dos pescadores, às garras das aves de rapina que tentavam agarrar-me, aos dardos que os caçadores me atiravam, às lontras que me perseguiam através da corrente. «Mas, um dia, lembro-me muito bem, fui apanhado por um pescador, que me ofereceu como presente à mulher de CarilI, o rei deste país. O cozinheiro meteu-me numa grelha, para me cozer num fogo de ramos secos. A mulher do rei, ao passar perto, ficou cheia de vontade de comer me e devorou-me, passando eu a habitar no seu estômago. Lembro-me como se fosse hoje, do tempo em que estive no estômago da mulher de Carifi. Lembro-me também de ter nascido outra vez sob uma forma humana, graças à mulher de Carifi. Comecei então a falar como os homens falam, e fui capaz de revelar tudo o que se tinha passado na Irlanda desde a época do dilúvio. E foi depois do meu novo nascimento que me chamaram Tuân, filho de Carlll.» «Muito bem», disse Finnen. «Agora podemos segLir-te até à tua casa, já que nos ofereces hospitalidade para nos compensares da má conduta e da perversidade dos habitantes deste país.»

Tuân, filho de CarilI, conduziu então Finnen e os seus discípulos à sua casa que se erguia sobre uma colina de onde se avistava o estuário. Era uma casa real, cercada por um muro e por uma paliçada, e guardada por alguns guerreiros armados. Tuân fez entrar os seus hóspedes, mas quando quis dar-lhes de comer na sala dos festins, Finnen disse-lhe: «Hoje é Domingo e ainda não prestamos homenagem ao Senhor. Não comeremos nem beberemos absolutamente nada enquanto não tivermos cumprido o nosso dever.» «Não há problema», respondeu Tuân, «há aqui um local para oração. Vem com os teus companheiros e cumpram o vosso dever.» Quando Firmen e os seus companheiros acabaram de celebrar o ofício de Domingo, segLiram Tuân até à sala de festins. Tuân pedira aos seus criados para cozerem os alimentos num grande caldeirão, no fogo que se encontra va ateado a meio da sala. A volta havia juncos e palha fresca. Finnen, os seus companheiros e Tuân, filho de CarilI, sentaram-se ao redor do fogo. «Tomai e saciai-vos», disse Tuân. «Por Deus Todopoderoso! », gritou Finnen, «Nós não comemos nenhum alimento nem tomamos nenhuma bebida enquanto tu não começares a contar-nos o que aconteceu nesta ilha a segLir ao dilúvio. Sê um bom anfitrião e diz-nos o que sabes, para que possamos apreciar a tua generosidade ao mesmo tempo partilharemos contigo o que tu que sabes acerca da história do mundo.» «Com todo o prazer», respondeu Tuân. O anfitrião começou então a narrar as cinco invasões que a Irlanda sofrera desde os tempos distantes do dilúvio. E, enquanto os seus hóspedes comiam e bebiam, o homem dos tempos antigos falava. Os discípulos de Firmen ouviam o que ele dizia. Foram estes que, mais tarde, contaram

tudo o que ouviram aos seus próprios discípulos, os quais transmitiram a mensagem a novos discípulos e assim por diante. E é assim que, graças a Tuân, filho de CarilI, e também ao abade Firmen, nós conhecemos a grande epopéia dos celtas.(¶) ³Depois de terem sido expulsos do Jardim do Éden, Adão e a sua companheira Havali, ou seja, Eva, erraram por muito tempo pela terra em busca de um lugar que os pudesse proteger do calor ardente e do frio cortante. Com eles levavam uma pedra verde caída do céu´¶ e um ramo da Árvore da Vida. Assim que encontraram um lugar propício, aí construíram uma cabana com pedras e pedaços de argila, e Havah cravou no solo o ramo da Árvore da Vida. Passaram a viver na cabana, criaram gado, cultivaram trigo, plantaram vinhas. E tiveram uma numerosa descendência que se espalhou por toda a terra, chegando às regiões mais longínquas e às margens do grande oceano que rodeia o mundo. Ora, entre os filhos dos filhos de Adão e da sua companheira Havali, contavam-se diversas filhas. E estas filhas ocuparam as planícies e os vales da terra e chegaram às margens do grande oceano. Ora, estas filhas eram muito belas, e os filhos de Deus que, descendo da profundeza dos céus, vinham contemplar a terra, observaram-nas e ficaram seduzidos por elas. Aproximaram-se então e uniram-se a elas, fazendo com que, em breve, das filhas de Adão nascessem crianças de grande estatura. Estes gigantes, por seu turno, uniram a -se outras filhas de Adão e engendraram novos gigantes. E, assim sucessivamente, sucederam-se diversas gerações de gigantes que se espalharam por toda a terra. Nessa altura, Deus compreendeu que o mal provocado por Adão ia arruinar toda a sua criação. Triste com esse fato e arrependido por ter dado vida a Adão e à sua companheira

Comment [U20]: 1Segundo a narrativa do Rawlinson B. 512, publicada com tradução inglesa de Kuno Nleyer, The Voyage of Bran, Londres, 1987. Outra versão, a do Leabhar na hUidré, foi traduzida Para francês por Ch.-J. Guyonvarc¶h, Textos mitológicos irlandeses, Rennes, 1980.

Comment [U21]: I- Isto faz lembrar a esmeralda de Lucifer que se transformará no Santo Graal numa versão gnóstica da lenda.

Havali, resolveu então acabar com as criaturas que o ultrajavam, poupando a vida apenas a um homem com quem simpatizava: Noé, um homem justo que venerava o Eterno. Deus preveniu-o de que iria fazer chover sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites para destrLir o que havia de mal na criação. E ordenou-lhe que construísse uma arca, que nela embarcasse um casal de cada espécie animal que habitava na terra, nos ares e nos oceanos, e que depois nela se refugiasse com toda a sua família, pois graças a ele sobreviveria o que havia de melhor na criação. Então, Noé construiu um barco e reuniu tudo o que deveria ficar a salvo da cólera de Deus. Os Livros dizem que Noé tinha três filhos, Sem, Cham e Japliet. Mas os Livros não dizem que ele tinha um quarto filho, de nome Bith, e que este filho tinha uma filha chamada Cessair. Ora, esta Cessair, quando foi avisada de que as águas iriam inundar a superfície da terra e engolir tudo o que fosse vivo, à exceção do que estivesse dentro da Arca, tentou escapar ao Destino pelos seus próprios meios. Segundo ela pensava, devia haver no mundo um lugar onde nenhum homem tivesse chegado e que por isso deveria desconhecer qualquer tipo de crime ou de mal; além disso, esse lugar, que deveria ser poupado pelo Dilúvio, jamais deveria ter sido habitado por serpentes ou por monstros. A pensar nesse país, chamou os druidas e perguntou -lhes onde ele se poderia encontrar. Os druidas refletiram longamente, e disseram-lhe que só um país poderia ser poupado, a Irlanda, pois esta ilha estava situada no lado ocidental do mundo, para norte, do mesmo modo que o Jardim do Éden estava situado a oriente, e para sul. «Com efeito, acrescentaram eles, estas duas regiões têm muitas semelhanças tanto no que respeita à sua natureza como à sua situação sobre a superfície da terra. Assim como o Paraíso não pode dar abrigo a animais perigosos, é

do conhecimento geral que a ilha da Irlanda não tem serpentes, nem dragões, nem leões, nem sapos, nem ratos, nem escorpiões, nem quaisquer outros animais capazes de fazer o mal, se excetuarmos o lobo. À Irlanda chama-se ilha do Ocidente. Mais tarde, os Gregos chamarlhe-ão Hyberocl¶) e os Romanos, que dominarão o mundo, charnar-lhe-ão Occasimi.. A Irlanda está próxima da Ilha da Bretanha mas, no que respeita à sua dimensão, é mais estreita, sendo no entanto mais fértil. Estende-se desde o norte de África, fica na vizinhança da Ibéria e do oceano Cantábrico, e é este o motivo por que lhe chamarão um dia Hibérnia. Mas também lhe chamarão Scotia porque será povoada pela nação dos escotos.» «É então para ai que temos de ir», disse Cessair após ouvir aquelas palavras. Ela mandou constrLir navios e preveniu os que lhe eram próximos de que iriam partir por mar na direção do sol poente. Era uma terça-feira quando ela deixou a ilha Meroe, que ficava ao largo do Nilo. Demorou-se sete anos em escalas no Egito e levou oito dias a navegar no mar Cáspio. Depois, levou mais vinte dias para ir do mar Cáspio ao mar Negro. Permaneceu um dia na Ásia Menor, entre a Síria e o mar Tirreno, depois partiu com a intenção de se dirigir aos Alpes, durando vinte dias a sua navegação. Aí chegada, o trajeto entre os Alpes e a Espanha levou-lhe dezoito dias. Foi a partir daí que ela partiu por mar em direção à Irlanda, onde só chegou passados nove dias, desembarcando na ilha num dia de Sábado. Cessair e as suas gentes chegaram à Irlanda quarenta dias antes do Dilúvio. Mas, dos três navios que tinham partido, dois naufragaram, tendo sobrevivido apenas Cessair e os que seguiam no mesmo navio que ela, a saber, cinquenta donzelas e três homens. Eram estes Bith, filho de Noé, Ladra, o piloto, que, segundo se diz, foi o primeiro homem a morrer na Irlanda, dizendo alguns que morreu de excesso de mulheres e outros que foi vítima de um remo que lhe

Comment [U23]: 2. Literalmente «queda», subentendendo- se do sol, ao «poente» (Occidentem).

Comment [U24]: I. Nome fantasioso que e provavelmente uma forma corrompida do grego uperokhê, «saída extrema», subentendendo- se para ocidente. Os redactores do Leabhar Gabala (que aqui seguimo s) queriam por força chegar ao termo tradicional Ibernia, para designar a Irlanda (tendo ainda como justificação a quase homofonia IberiaIbernia que justifica a passagem - imaginária - dos sucessivos invasores da Irlanda pela Península Ibérica). Comment [U25]: 3. [Scots no original - N. T.] Nome genérico dos gaélicos, que depois o transmitiram aos escoceses. Comment [U26]: 4. A rota é obviamente fantasiosa, tanto do ponto de vista espacial como cronológico, mas a Passagem pela Península Ibérica aparece como uma necessidade mitológica, representando esta Península, como aliás a Escócia, uma espécie de Outro Mundo que pode estar em toda a parte e em lado nenhum. Há também uma certa ambiguidade entro os Alpes e o antigo nome da Escócia, Alba, e entre o nome dos escotos e o dos citas. Comment [U22]: 1 .Pode surpreender encontrarse a presença de «druidas» numa época prédiluviana, mas o termo, típico de uma sociedade celta, designa antes de mais uma classe sacerdotal. Forarti os celtas que compuseram o transmitiram esta gigantesca epopéia dos antigos dias, e fizeram -no com os meios de que dispunham, de acordo com os critérios socioculturais que eram os seus, mesmo sendo tardia a redação desta epopéia (século X1 ou XII) que procura deliberadamente aliar a história mítica da Irlanda à tradição bíblica.

atravessou o corpo, e Fintan, filho de Boclira, o qual, segundo uma certa versão, não terá morrido e vive ainda entre os povos naturais da Irlanda. O certo é que Cessair, as suas cinquenta donzelas e os três homens, desembarcaram nesta ilha quarenta dias antes do Dilúvio, ou seja, mil seiscentos e cinquenta e seis anos depois do princípio do mundo. Assim que desembarcaram no solo da Irlanda, disse-lhes Cessair: «Chegámos a um país que não sofrerá a fúria das águas, pois encontra-se na extremidade do mundo. Estabeleçamo-nos no cume das montanhas e construamos casas para nos abrigarmos. Contudo é meu desejo que, daqui em diante, vocês me chamem diferentes nomes consoante o que eu fizer. Durante o dia, quando o sol brilhar, eu chamar-me-ei Banba. Quando cair a noite, serei Fothla. E quando estiver a dormir, quero que me chamem Eriu.» Assim foi. Foram construídas casas no cume das montanhas e a floresta começou a ser desbravada. Mas uma doença alastrou, e ao fim de uma semana estavam todos mortos, à exceção de Cessair que permaneceu adormecida. Entretanto, as águas do céu abateram -se sobre a terra, caindo incessantemente durante quarenta dias e quarenta noites. Cobriram as montanhas mais altas, e mataram tudo o que era vivo. Só ficou à superfície das águas a Arca em que Noé e os seus tinham embarcado, com um casal de cada espécie animal. Mas o que os Livros não dizem é que a Irlanda não foi coberta pelo Dilúvio. A ilha estava desabitada, tendo sobrevivido a mulher que dormia e se chamava Eriu. Os Livros também não dizem que, na vastidão do oceano, no meio do nevoeiro, algumas ilhas também não foram submersas pelas águas. Ora, nestas ilhas viviam gigantes que foram poupados pelo Dilúvio. Foram eles que depois foram chamados Fomore, os quais nunca deixaram em paz os povos que se vieram a

estabelecer na Irlanda. Entretanto, logo que as águas deixaram de cobrir a terra e esta secou, Noé e todos os seus saíram da Arca e procuraram lugares onde se estabelecer. Noé tinha consigo três filhos na Arca, os quais ocuparam as três regiões da terra, a Europa, a África e a Ásia. Sem, filho de Noé, instalou-se no que atualmente é a Ásia, tendo saído dele vinte e quatro raças. Cham foi para África, descendendo dele quinze raças. Quanto a Japliet, o terceiro filho de Noé, apoderou-se da Europa e do norte da Asia, sendo o patriarca de quinze raças. E, pois de Japhet, filho de Noé, que descendem, no nordeste do mundo, os citas, os armênios e Os Povos da Ásia Menor, assim como todos os povos que ocupam, a norte e a oeste do mundo, a Europa e as ilhas que ela tern em frente, no grande oceano. Japliet teve oito filhos, e o oitavo chamava-se Magog. Este teve dois filhos que se chamavam Baath e Ibath. Foi deste último, a saber Ibath, que descenderam os reis que governaram Roma. Baath teve um filho a quem chamou Fenius Farsaid: del e descendem os citas, dos quais provêm os gaélicos.´¶ Mas foi de Magog, filho de Japliet, que saíram os povos que se vieram a estabelecer na Irlanda antes dos gaélicos, a saber, a tribo de Partholon, filho de Sera, e a tribo de Nemed, filho de Agnoman, assim como todos os da tribo de Neined que, após terem sido expulsos da Irlanda, aí regressaram mais tarde. Depois do Dilúvio, a ilha da Irlanda permaneceu deserta durante um período de trezentos e doze anos. Foi então que aí chegou Partholon, filho de Sera, que vinha de um país chamado Mygdonie, ou seja, Pequena Grécia. Partholon fora obrigado a deixar a sua Pátria porque cometera um crime: matara o pai e a mãe para permitir que o seu irmão reinasse, mas, ao fazê-lo, provocara grandes desgraças, sendo assassinados nove mil homens numa

Comment [U27]: 1. Estas genealogias são imaginárias. Entretanto, a comunidade de origem ceito-cita parece certa. Georges Durnézil pos em evidência as analogias entre as narrativas mitológicas dos gaélicos da Irlanda e as dos nartes, os descendentes actuais dos antigos cita s e sarmatas. Por outro lado, existe um evidente parentesco entre a arte celta de la Tène e a arte dos steppes, de influência cita, como o mostra o célebre «Caldeirão de Gundestrup», que, conservado no museu de Aarhus, na Dinamarca, ilustra perfeitamente a mitologia dos celtas.

semana, o que forçou Partholon a fugir o mais depressa possível na companhia de dez pessoas, entre as quais os seus três filhos e quatro mulheres. Ele deambulou durante um mês na Adalácia, depois levou nove dias para Ir da Adalácia ao país dos Goths. Voltou a partir deste país e viajou durante um mês até chegar a Espanha, demorando mais nove dias até atingir as costas da Irlanda. Estava-se numa terça-feira, o décimo sétimo dia da lua, nas calendas de Maio. «Esta terra sem dúvida é a que mais nos interessa», disse Partholon. «As árvores aqui são belas e verdejantes, e a caça deve ser abundante. Procuremos um lugar onde nos possamos estabelecer.» Deram a volta à ilha e decidiram fixar-se no lugar que lhes pareceu mais fértil. Conta-se que é aquele que hoje se chama Mag Inis, a Planície da Ilha. Naquela altura não havia fazendas, nem casas, nem campos cultivados à disposição dos homens, que só podiam sobreviver colhendo frutos selvagens ou então caçando e pescando no estuário dos rios. As casas foram construídas na Planície da Ilha. Quando Partholon partia para a pesca ou para a caça, deixava a mulher, Elgnat, filha de Lochtach, a tomar conta da casa. E pedia ao seu criado Topa para proteger EIgnat, para que ela não fosse atacada pelos lobos. Na verdade, havia lobos na Irlanda, embora não houvesse na ilha outros animais perigosos. Tão pouco havia abelhas, pois elas aí não podiam viver. Era tal a incompatibilidade entre as abelhas e a Irlanda que, se alguém espalhasse areia ou cascalho da Irlanda num qualquer lugar da terra onde houvesse colmeias, as abelhas abandonavam -nas imediatamente. Entretanto, sempre que Partholon se ausentava, Elgnat deitava um olhar ardente, cheio de desejo, ao criado. E

quanto mais o olhava, mais desejava tê-lo nos seus braços. Um dia, não podendo agüentar mais, convidou-o para o seu leito. O criado recusou terminantemente e disse que jamais trairia a confiança do seu senhor, «Es um grande covarde», disse a mulher. «Tens medo de que Partholon te mate se souber que te deitaste comigo!» «Eu não tenho medo, senhora, mas não quero trair o meu senhor.» No dia seguinte, Elgnat voltou a provocar Topa, e ele voltou a recusar deitar-se com ela. «Já percebi», disse a mulher, «Tu não és viril, e por isso não queres deitar-te comigo. Devias ter vergonha!» Ao ouvir este insulto, o criado não encontrou outra solução senão ir provar à mulher de Partholon, na sua cama, que era viril. Findo o ato, o homem e a mulher tiveram sede e beberam pelo recipiente que Partholon tinha preparado para quando chegasse. Ao fim da tarde, quando voltou da caça, Partholon teve sede e bebeu pelo recipiente que tinha preparado. Mas, ao levá-lo à boca, sentiu o gosto da boca de Elgnat e de Topa, e compreendeu o que se tinha passado. Não se contendo de fúria, matou o pequeno cão da sua mulher, Saímer, tendo sido esta a primeira crise de ciúmes da história da Irlanda. «Parece impossível», disse Elgnat indignada, «tu acabas de cometer uma grande injustiça, belo Partholon, pois este cãozinho não te tinha feito mal nenhum». «Eu sei», respondeu Partholon, «mas eu precisava de descarregar a cólera devido à afronta que tu me infligiste. Desde que Eva cometeu o pecado da maçã, por causa do qual a raça humana foi condenada à escravidão e foi exp ulsa do Jardim do Éden, jamais houve neste mundo um crime tão grande e tão hediondo como aquele que vós acabais de praticar, tu e o meu criado.» «Bom Partholon», disse a mulher, «quando o desejo é muito, é difícil resistir à tentação. Olha à tua volta: as vacas parecem-te calmas e tranqüilas quando pastam no prado,

Comment [U28]: 2. Ou seja, durante a grande festa celta da Beltame.

mas assim que aparece o touro ficam cheias de desejo. E as ovelhas, quando querem saciar o instinto, não hesitam em segLir o primeiro carneiro que lhes apareça à frente. Experimenta pôr um copo de leite à frente de um gatinho: verás como ele não resiste ao desejo de tomar o leite». Desenrolou-se pouco tempo depois a primeira batalha da Irlanda. Os Fomore, que vinham em barcos do país do nevoeiro, vieram atacar Partholon e os que moravam com ele. Eram gigantes com forma humana, monstros que tinham uma força descomunal apesar de terem apenas uma perna e um braço. Comandados pelo seu chefe que se chamava Cichol da perna curva, combateram Partholon e os seus filhos. A batalha durou uma semana inteira, mas nela ninguém morreu, pois tratava-se de uma batalha mágica. Entretanto, Cichol da perna curva feriu Partholon num braço, ferida de que este nunca se recompôs. Quando Partholon chegara à Irlanda, esta ilha só possuía três lagos e nove rios. Mas durante o tempo em que ele e os seus descendentes habitaram no país, sete novos lagos irromperam da terra. E foi quatro anos depois da irrupção do sétimo, que se chama Lough Cuan, que Partho lon morreu na velha planície de Elta Edair. Esta planície foi assim chamada porque nenhum braço, nenhum ramo, dela alguma vez saiu. E Partholon morreu por causa de um veneno que lhe penetrou no corpo através do ferimento que lhe fora infligido por Cichol da perna curva, na batalha contra os Fomore. Tinham-se passado trinta anos desde que Partholon chegara à Irlanda, e o princípio do mundo tinha sido há dois mil seiscentos e vinte e oito anos. Depois da morte de Partholon, a ilha foi dividida pelos seus filhos, tendo sido esta a primeira partilha da Irlanda. o país permaneceu assim enquanto nele viveram os descendentes de Partholon, ou seja, durante quinhentos e vinte anos. Mas abateu-se sobre eles uma doença nas calendas de Maio, na segunda-feira da festa da Beltame.

Esta peste fez sucumbir nove mil homens até à segunda feira seguinte, e ainda mais cinco mil homens e quatro mil mulheres após essa segunda-feira. Morreram todos, à exceção de um único homem, Tuân, que era filho de Sdam, filho de Sera, filho do irmão do pai de Partholon. Deus permitiu-lhe que sobrevivesse, assumindo as mais diversas aparências, desde o tempo de Partholon até aos tempos de Colum-Cill e de Finnen. Foi ele que revelou aos gaélicos o conhecimento da história, as conquistas que tiveram lugar na Irlanda, as batalhas provocadas pelos Fomore, desde a chegada de Cessair a esta ilha até à época de São Finnen, o Leproso. Foi com esta intenção que Deus o manteve vivo até ao tempo dos santos, até ao tempo em que o chamaram Tuân, filho de Caffil. A Ilha Verde permaneceu deserta durante trinta anos. Então desembarcou nela Nemed, filho de Agnoman, que vinha do país dos citas de onde partira com quarenta navios. Navegaram ao acaso durante um ano e meio no mar Cáspio, mas só um navio conseguiu chegar à Irlanda, com Nerned e os seus quatro filhos, que chefiavam as hostes. Estabeleceram-se num lugar fértil e aí construíram duas fortalezas reais, tendo sido depois atacados pelos Fomore contra os quais travaram uma batalha onde no decurso da qual foram assassinados os dois chefes dos Fomore. Nemed desbravou doze planícies nesta ilha e nelas fez prosperar a criação de gado. Assim que morreu um dos seus filhos, que se chamava Annind, enterraram -no numa das planícies. Mas, ao ser cavada a terra para se fazer a sepultura, jorrou um lago que inundou todo o país. Em consequência disso, três outros lagos surgiram na terra. Nemed não demorou a sucumbir a uma doença que vitimou também dois mil dos seus. Quando os Fomore souberam que Nemed, filho de

Agnoman, tinha morrido, aparelharam as suas frotas e foram combater os filhos de Nemed. Os chefes dos Fomore eram nessa altura More, filho de Déla, e Conan, filho de Fébar. Este último construíra uma grande torre numa pequena ilha, a meio do mar, e era aí que se re uniam os navios dos Fomore. Esta torre chamava-se Torre de Conan, mas também se lhe chamava Tormis, ou seja, Torre da Ilha. E como os Fomore eram mais numerosos que os filhos de Nemed, venceram-nos em combate e impuseram pesados encargos aos homens da Irlanda: estes deviam entregar-lhes anualmente dois terços do trigo e do leite que eram produzidos na ilha e dar-lhes como escravos dois terços dos recém-nascidos. Furiosos e sentindo-se ultrajados, os homens da Irlanda não sabiam como haviam de suportar o pe so de tais encargos. Reuniram-se por isso em segredo e decidiram atacar os Fomore de surpresa. Na costa havia três mil homens, mas outros três mil embarcaram sob a chefia do filho de Nemed, Fergus da face vermelha. Não tardaram a chegar a Torinis e, após uma batalha encarniçada, acabaram por tomar de assalto a torre, onde o próprio Fergus da face vermelha matou Conan. Depois, voltaram para a Irlanda para comemorar a vitória. More, filho de Dela, ficou furioso quando lhe anunciaram o desastre da Torre de Conan e resolveu vingar-se dos homens da Irlanda que tinham vencido os Fomore e agora recusavam pagar-lhes os tributos. Reunindo sessenta navios, aproximou-se então das costas da Irlanda. Os filhos de Nemed, por seu lado, voltaram a reunir as suas hostes e fizeram-se ao mar para irem ao encontro dos Fomore. Travou-se então urna batalha encarniçada e sangrenta, e uma tempestade afundou os navios dos homens da Irlanda, escapando apenas um, que tinha a bordo trinta homens, entre os quais Semeon, filho

de Sdarn, ele próprio filho de Nemed, Bethach, filho do adivinho larbonel, igualmente filho de Nemed, com o seu filho Ibath, assim como Fergus da face vermelha, que era o filho mais jovem de Nemed. Os sobreviventes reconquistaram a Irlanda e foram encontrar-se com Fintan, filho de Boclira, que vivia na encosta de uma montanha. Fintan tinha a reputação de ser um sábio e um vidente, e dizia-se que estava perfeitamente a par do nascimento do mundo e do seu futuro. Quando os filhos de Nemed foram ao seu encontro, Fintam disse-lhes: «Sede bem vindos, homens poderosos e corajosos sobre quem se derramou o Espírito.´¶ O que vos traz à minha presença? É a guerra que aqui vos traz ou o fato de não saberdes qual o rumo a dar à vossa vida?» «o que nos traz aqui, sábio e prudente Fintan, é a decisão que temos de tomar por causa dos Fomore. Eles oprimem -nos desde que nos mataram um grande número de bravos guerreiros, e obrigam-nos a pagar-lhes um pesado tributo que não conseguimos agüentar por muito mais tempo.» «o melhor conselho que vos posso dar, brilhantes filhos de Nemed, é o seguinte: deveis pôr um fim ao vosso sofrimento e à opressão dos Fomore. Por isso deixa esta ilha e ide instalar-vos noutro lugar deste vasto mundo.» «É esse o conselho que nos dás, Fintan?», perg untaram os filhos de Nemed. «Devemos deixar este país que é nosso¶?» «Na verdade», retomou Fintan, «é o único conselho que vos posso dar. Mas há outra coisa que vos tenho de dizer: não deveis ir todos na mesma direção ou por um único caminho, pois é bem sabido que um grande ajuntamento de homens é susceptível de provocar conflitos. E impossível que se junte uma multidão sem que daí não resulte uma querela por uma razão ou outra. Além disso, sempre que há um agrupamento de homens armados com lanças e dardos, logo se pensa que o que eles querem é

Comment [U30]: 2. É Preciso não esquecer que Nemed significa «sagrado» em gaélico. É uma palavra que Provém duma raiz indo-européia que deu em latim nemus, «bosque sagrado», em gaélico Moderno niamh, em gaulês nef e em bretão neni, designando estes três termos o «céu» de um ponto de vista religioso, e daí o antigo nome nemeton, «santuário», «clareira sagrada», «Projeção, simbólica do céu sobre a terra», que se reconhece no nome actual de Néant-sur-yvel (Morbihan) e da floresta de Nevet, perto de Locronan (Finisterra).

Comment [U29]: 1. Esta primeira parte do capítulo foi redigida de acordo com o Leabhar Gabala, o «Livro das Conquistas», narrativa que data muito possivelmente do século XI, publicado, comentado e traduzido por R.A.S. Macalister, Lebor Gabaia Erenti, the Book qf the Taking of Ireland, 5 Vol., Dublin, 1938-1956. Tradução francesa parcial no Ch.-J. Guyon-varc¶h, Textes mytholOgiques iriandais, Rermes, 1980. Este «Livro das Conquistas» é uma compilação de informações muito antigas apresentadas às vezes de forma anacrónica, com lacunas, incoerências e contradições flagrantes. É muito difícil reconstitLir o fio condutor desta epopéia mitológica que diz respeito não só à Irlanda como a todo o mundo celta, sem que se recorra a todas as outras fontes irlandesas, e sem que se restitua à narrativa propriamente dita uma certa coerência cronológica, o que não significa de modo algum que a coerência tenha de ter uma natureza histórica ou científica. A reconstituição será assim meramente conjectural

fazer guerra. Jamais a enquanto sobre a terra invadidos por outros que filhos de Nemed, deixai mundo.»

paz é possível, na verdade, houver povos que se sentem chegam depois. Parti por isso, esta ilha e espalhai-vos pelo

«Mas para onde havemos de ir, sábio Fintan, filho de Bochra? Diz-nos para que possamos partir de imediato.» «Vós sois, com certeza, muito numerosos», respondeu Fintan. Por isso dividi-vos em três grupos. Um deles que parta para o norte, o outro para oriente e o terceiro que siga a direção oposta ao curso do sol, mas para sul, para os lados onde há mais calor.» Assim falou Fintan, o Sábio, filho de Boctira, aos filhos de Nemed, que dele se despediram. Mas, antes de partirem, disse-lhes ele ainda: «Ide pois, filhos de Nemed, deixai este país que já não podeis habitar. Fugi desta ilha onde sois tão cruelmente oprimidos e escravizados. Não fiqueis aqui por mais tempo e recusai-vos a pagar aos Fomore uns encargos tão pesados. Mas eu garanto-vos que os vossos filhos e os vossos netos regressarão a este país de que vós fugis e eles tomá-lo-ão pela força e com todo o direito. Pois, aconteça o que acontecer, vós sereis sempre os filhos desta ilha e dela sereis para sempre os senhores.» Combinaram então a maneira como se haveriam de dividir em três agrupamentos. Bethach, filho de larbonel, o adivinho que era filho de Nemed, não quis deixar a Irlanda. Permaneceu nela durante algum tempo, vindo a sucumbir a uma doença que assolou o país. Entretanto, as suas de z mulheres sobreviveram-lhe vinte e três anos. Quanto ao seu filho Ibath, deixou a ilha na companhia do seu próprio filho Baath, e ambos se dirigiram para as ilhas do norte do mundo. Os seus descendentes são aqueles a quem hoje se chama tribos da deusa Dana. Fergus da face vermelha, que era o filho mais novo de Nemed, fez-se ao mar e foi para leste com o seu próprio filho que se chamava Bretão, o

Príncipe. Desembarcaram na grande ilha que fica próxima da Irlanda e aí se estabeleceram. Os seus descendentes, a quem se chamam bretões, por causa do nome de Bretão, o Príncipe, dominaram a ilha até à chegada de dois novos chefes saxões que ocuparam as suas terras, empurrandoos para a costa e obrigando um grande número deles a exilarem-se no outro lado do mar, na península a que se chama Armórica e à qual depois deram o seu nome. Quanto a Semeon, filho de Sdarn, filho de Nemed, partiu para sul à conquista dos países onde o sol é mais quente. Uma tempestade desviou-o da rota, e fê-lo chegar ao mar Tirreno. Aí foi surpreendido por outra tempestade, que o empurrou pelo meio das Ilhas até às costas da Trácia. Aqui o solo era seco e estéril, nada nele se podendo cultivar. Apesar disso, Semeon e os seus companheiros estabeleceram-se naquela região inóspita e construíram as suas casas com terra seca. Graças a conversações com as gentes daquele país, que não lhes quiseram fazer frente, concluíram um tratado de paz. Ao clã de Semeon foram atribuídas as propriedades e as terras que ficavam junto ao mar e em fronteiras distantes, em regiões muito frias, em montanhas escarpadas e em vertentes de colinas expostas ao vento norte. Foram-lhes também concedidas ravinas profundas e cumes inabitáveis, em regiões inóspitas cujo solo jamais tinha conhecido colheitas de qualquer tipo. Mas, não querendo desperdiçar a oportunidade que lhes tinha sido concedida, as gentes do clã de Semeon fizeram grandes sacos com panos e com as peles de animais e transportaram grandes quantidades de terra arável através dos rochedos nus e áridos que lhes tinha cabido em sorte no tratado de paz. Entregaram-se ao trabalho com tanto afinco e com tanta devoção que daí a pouco tempo aquelas terras estéreis se tinham transformado em planícies aprazíveis e férteis onde se cultivava o trigo, a vinha prosperava e o gado pastava em esplêndidas pastagens. Desse modo, não se arrependeram de ter deixado a Irlanda

e de assim se terem furtado aos Pesados tributos que lhes eram impostos pelos Fomore. Entretanto, quando os chefes e os guerreiros daquele país viram a obra realizada pelos recém-chegados, ficaram maravilhados e ao mesmo tempo cheios de inveja de um tal sucesso. Sempre que Iam visitar as terras do clã de Semeon, ficavam admirados com os campos cultivados e com os prados que regurgitavam de ovelhas e de carneir os. Convenceram-se então de que aquele país lhes pertencia e que deviam conquistar aquelas terras tão férteis aos estrangeiros que nenhum direito tinham sobre elas. Foram então falar com as gentes de Semeon e propuseram -lhes, em troca do que lhes tinham dado, outras terras, ainda mais para norte, em regiões inóspitas e frias, em terras duras e cheias de pedras, de solos infestados de serpentes venenosas. E, para evitarem entrar em guerra, as gentes de Semeon aceitaram o que lhes era pedido e deixaram as terras que tinham tornado férteis. Mudando-se mais para norte e sem jamais perderem o ânimo, as gentes de Semeon trataram tão bem a novas s terras que as transformaram em campos ricos e férteis, em tudo idênticos àqueles que tinham deixado. E, havendo comida em abundância, as gentes do clã de Semeon multiplicaram-se e aumentaram de número até chegarem aos milhares. Mas, vendo os estrangeiros tornarem-se tão numerosos, tão ricos e poderosos, os chefes do país intimaram-nos a entregar-lhes todos os anos metade das suas colheitas e metade dos gados que pastavam nos prados. Nessa altura as gentes do clã de Semeon reuniram-se em conselho. Os seus chefes eram os cinco filhos de Dela, descendente de Nemed, chamando-se Slaingé o mais velho.

«De nada nos serviu fugir da Irlanda para escapar à tirania e aos tributos dos Fomore... Encontramo-nos agora num país estrangeiro, expulsos de terras incultas que tornamos férteis, e estamos sujeitos à mesma tirania e aos mesmos tributos. Chegou o momento de nos revoltarmos contra a injustiça, pois assim não podemos continuar» «Tens razão», disse o seu irmão Rudraige. «Não podemos continuar sem reagir e sem fazer valer os direitos do nosso trabalho.» «Os donos deste país jamais nos darão razão», afirmou por seu lado Slainge. «Só nos resta voltar para o mar, levando todas as riquezas que pudermos, e regressar à terra da Irlanda, pois essa é a terra dos nossos antepassados e temos o direito de a habitar.» Assim que o conselho terminou, todos estavam de acordo quanto ao que havia a fazer. Construíram barcos com os grandes sacos que lhes tinham servido para transportar a terra arável através dos rochedos inóspitos, e é esse o motivo pelo qual eles foram chamados Fir Bolg ou seja, os Homens dos sacos.´¶ Contudo, há quem diga que o nom e deriva do fato de eles saberem domesticar o trovão e utilizarem o fogo para fundirem o metal e fabricarem as armas e os instrumentos usados para o cultivo da terra. Segundo se pensa, eles roubaram também navios às gentes do país e juntaram-nos todos no porto onde tinham desembarcado quando da sua chegada. «Chegou a hora de partirmos», disse então Slainge, que era o mais velho do grupo e aquele que era considerado mais sábio pelos irmãos. «Lembrem-se que temos sido muito prejudicados pelos habitantes deste país. Temos por isso de nos vingar, sem esquecer que cada um dos nossos homens vale por cem dos deles.» Carregaram então para os navios todas as mercadorias e toda a comida que encontraram, matando todos aqueles que os queriam impedir de fazê-lo, e depois arrasaram a

Comment [U31]: 1. Muito corrente, esta terminologia popular não resiste à análise. Apesar de uma certa analogia, a palavra bolg deriva de uma raiz indo-européia que deu em latirrifúlgur, «raio», raiz que se encontra no nome dos belgas e no da espada mágica de Nuada, Caladbolg, que se transformou em Caledfwlch em galês e Excalibur em francês e em inglês, sendo a célebre espada do rei Artur, literalmente, «raio duro». Entretanto é preciso lembrar que esta história dos sacos servirem para constrLir barcos se apoia numa certa realidade: a barca irlandesa típica é com efeito o curragh (coracle em inglês), sendo a armação de madeira revestida de peles e de panos alcatroados.

região circundante e atearam-lhe fogo. Em seguida acumularam o produto do saque nos navios de proa negra que tinham construído com os seus sacos e, por fim, levantaram âncora e desfraldaram as velas. Conta-se que os Fir Bolg, ao deixarem a costa da Grécia, possuíam uma frota de mil cento e trinta navios. Na sextafeira seguinte, encontravam-se no mar Tirreno e, ao fim de um ano e três dias, chegaram a Espanha. Pediram então aos seus druidas e aos seus adivinhos para os instruírem e os informarem acerca dos ventos com que teriam de contar na sua viagem à vela através do grande oceano. Deixaram Espanha com um vento de sudoeste e navegaram sempre a direito durante treze dias até avistarem as costas da Irlanda. Mas ergueu-se então uma tempestade repentina e violenta que fez com que a frota se dividisse em três grupos. O primeiro a desembarcar foi o filho mais velho de Déla, Slaingé, no lugar que se veio a chamar Inber Slaingé. Estava-se num Sábado, no Primeiro dia do mês de Agosto. Os outros desembarcaram em diferentes pontos do país. Como não havia contactos entre os diferentes grupos, foram enviados mensageiros por toda a Irlanda com a missão de pedir aos Homens-Trovão para se juntarem todos no mesmo lugar, na fortaleza dos Reis que se encontra em Tara. Os mensageiros percorreram a ilha em todos os sentidos e cumpriram a sua missão, de tal modo que daí a pouco tempo todos se reuniram no lugar combinado. «Agradeçamos aos deuses por nos terem guiado com sucesso até este país que é o dos nossos antepassados», disseram eles. «Agora devemos partilhar a Irlanda de tal modo que ninguém seja prejudicado. Chamemos o sábio Fintan, filho de Boclira, e ele nos dirá como havemos de partilhar esta ilha de forma justa.»

Fintan, filho de Boclira, veio à assembléia de Tara. Após ter ouvido os Fir Bolg, dividiu a Irlanda em cinco partes que foram confiadas a cada um dos filhos de Déla. Todos ficaram satisfeitos com a sentença pronunciada pelo sábio Fintan, e estabeleceram-se nas terras que lhes foram atribuídas. Foi assim que os Fir Bolg, os Homem-Trovão, chegados de tão longe, ocuparam as terras da Irlanda. E dominaram esta ilha durante trezentos anos. Os filhos de Nemed, que haviam partido por mar sob o comando de Ibath, filho de Bethach, rumaram ao norte. Navegaram ao acaso, durante muito tempo, até que desembarcaram num pais que se diz ser a Beócia. Aí foram muito bem recebidos pelos naturais, e, segundo consta, foi aí que eles se iniciaram nas artes, nas técnicas, na magia e no druidismo. Tomaram-se especialistas em todas as artes do paganismo ao ponto de superarem, em pouco tempo, os seus mestres. Foi então que começaram a ser chamados Tribos de Dana, defendendo certos historiadores que eles assim foram designados por causa de três homens muito versados na ciência druídica, os três Deuses de Dana, que eram filhos da mesma mulher-chefe que se chamava Dana. E como eles tinham tantos poderes como os deuses, as gentes do seu clã quiseram partilhar o seu nom e o seu e poder. Entretanto, um belo dia, uma grande frota vinda da Síria veio atacar os habitantes da Beócia. Travaram-se batalhas intermináveis, com os homens da Beócia que tinham sido mortos na véspera a voltarem na manhã seguinte para enfrentarem os seus inimigos. Na origem desta maravilhosa ressurreição estava a magia que permitia aos homens de Dana inserir demônios nos corpos que tinham perdido a vida. Deste modo, as gentes da Síria tinham de lutar todos os dias contra os mesmos adversários, o que lhes

Comment [U34]: 2. Em gaélico, «província» diz se «coiced», literalmente quinto. Na verdade, nunca houve mais do que quatro províncias, o UIster, Cormaugiu, o Munster e o Leinster, sendo a quinta sobretudo moral: trata-se do famoso reino de Meafla (Mide), literalmente «meio», à volta de Tara, sede do alto-rei (ard-ri) da Irlanda.

Comment [U35]: 3. Segundo a narrativa conhecida com o título A primeira batalha de MagTured, contido no manuscrito H.2.17 do TrinitY College de Dublin, publicado por J. Fraser na revista Eriu, Tomo VIII, Dublin, 1915. Tradução francesa quase integral de Ch. -I Guyon-varc¶h, Textes my1hologiques irlandais, Rermes, 198o.

Comment [U32]: Data simbólica: é a festa céltica de Lugnasad («assembléia de Lug»), no decurso da qual se celebra O casamento sagrado do rei com a terra que lhe foi confiada.

Comment [U33]: 1. Santuário pré-histórico, depois celta, situado não longe do vale de Boyne, no condado de Meath. É o centro simbólico da Irlanda, uma espécie de Omphalos, que foi respeitado e que se continua a considerar como sagrado.

provocava um grande espanto e um enorme transtorno. Foram, por isso consultar os seus próprios druidas, que os aconselharam a estar vigilantes no campo de batalha assim que a noite caísse: nessa altura deveriam trespassar com um ramo de freixo os cadáveres que os enfrentassem. Se fossem demônios a reanimar os corpos, estes cairiam logo e corromper-se-iam rapidamente. As gentes da Síría segLiram este conselho, e massacraram um grande número de defensores da Boécia. Quando as tribos de Dana viram que os primeiros iam triunfar sobre os segundos e se arriscavam a ser perseguidas em seguida, os seus chefes reuniram -se e decidiram que era necessário deixar o país o mais depressa possível. Aparelharam os navios, fizeram-se ao alto mar navegando à vela, e, como os ventos eram favoráveis, chegaram às ilhas do Norte do Mundo. Aí foram muito bem recebidos, por serem muito conhecedores e muito hábeis nas artes mágicas, e deram-lhes quatro cidades para que pudessem ensinar os jovens do país. Estas quatro cidades eram Falias, Gorias, Murias e Findias. Nestas Ilhas do Norte do mundo, as tribos de Dana multiplicaram-se e tomaram-se tão célebres que se falava delas por todo o lado. Naquele tempo, o rei das tribos de Dana chamava-se Nuada e tinha a seu lado diversos chefes que o aconselhavam com sapiencia: entre eles encontrava-se Ogina, o campeão possuidor de uma força terrível, Credné, o artíficie do bronze, que cinzelava belos ornamentos, Goibniu, o ferreiro, que fabricava armas e instrumentos aratórios, Dianceclit, o hábil médico, Mananann, filho de Lir, especialista em arte de navegação, Morrigane, filha de Emnias, grande conhecedora de cantos guerreiros, e, sobretudo Eochaid Ollathair, mais conhecido por Dagda, ou seja, o bom deus, que percebia melhor do que ninguém de assuntos de magia e de druidismo. E, em cada uma das quatro cidades em que eles se tinham estabelecido, um druida ensinava os jovens e contava as

proezas que outrora tinham sido protagonizadas pelos filhos de Nemed, na terra da Irlanda e no mundo inteiro. Um dia, uma certa Eri, uma das mulheres mais nobres das tribos de Dana, estava em casa a observar a terra e o mar. o mar estava calmo e uniforme como uma tábua de madeira bem polida. Ora, estando a contemplar a paisagem, Eri ficou muito admirada ao ver um navio brilhante como prata a navegar diante dos seus olhos. O navio pareceu-lhe de grandes dimensões, mas ela não conseguia distingLir-lhe a forma. Entretanto, como a corrente o aproximou de terra, ela pôde examiná melhor. -lo Notou então que havia um homem a bordo, um homem que lhe pareceu extremamente belo. Uma cabeleira de ouro caía-lhe sobre os ombros, e um manto com faixas de tecido dourado revestia a túnica, que estava ricamente adornada com bordados de ouro. Sobre o peito, resplandecia um broche de ouro onde estavam incrustadas pedras preciosas. O homem trazia dardos de prata com hastes de bronze polido, cinco colares de ouro à volta do pescoço, assim como uma espada cujo punho de ouro estava adornado com círculos de prata e com ornamentos em ouro. Maravilhada, a mulher saiu de casa e aproximou -se da beira-mar. O homem desceu do barco, pôs os pés em terra e, apercebendo-se de Eri, disse-lhe: «Mulher, será esta a melhor altura para me unir a ti?» «Estou surpresa com o que vêem os meus olhos», respondeu ela. «Pois bem», disse o homem, «não percamos tempo. Peço -te que venhas.» Sem demora, eles estenderam-se no chão e, quando terminaram, a mulher começou a chorar. «Porque choras?», perguntou ele. «Eu tenho para isso duas boas razoes», respondeu ela. «Vou-me separar de ti e fico desgostosa por isso. Os homens mais belos das tribos de Dana desejaram-me sem sucesso, e agora que tu me

Comment [U36]: 1. Segundo A História da Irlanda, (Foras Feasa ar Eirinn), composta no século xvii por Geoffroy Keating e editada por David Comyn (Londres, 1902).

possuíste, o meu coração pertencer-te-á até ao meu último suspiro.» «Não quero que fiques a sofrer por minha causa», disse-lhe o homem. Tirando o anel de ouro que tinha no dedo do meio, ele enfiou-o na mão da mulher e recomendou-lhe que jamais o desse ou vendesse, cedendo-o apenas a quem tivesse um dedo a que o anel se adaptasse. «Fica certo de que jamais me separarei dele», respondeu a mulher. «Mas tenho muita pena de não saber quem aqui veio encontrar-se comigo.» «Revelar-te-ei a minha identidade», disse o homem. «Aquele que veio encontrarse contigo é Elattia, filho de Indech, que é um dos chefes de Fomore. Nós vivemos em ilhas envoltas em nevoeiro e, se me quiseres encontrar, só terás de mostrar este anel a quem se cruzar no teu caminho. Posso dizer-te também que da nossa relação terás um filho, que se chamará Eochaid Bress, ou seja, Eochaid, o Belo. Fica a saber que tudo o que se vê de belo na Irlanda e nas ilhas do norte do mundo, sejam os prados onde pastam os gados, os campos onde se cultiva o trigo, as fortalezas edificadas em altos cumes, a cerveja que se bebe nas assembléias, as velas que iluminam as salas de banquetes, as mulheres cujo encanto entontece os homens, os cavalos que puxam os carros de combate, tudo isso não terá uma beleza comparável à do teu filho. E correrá de boca em boca: «Eis o belo Bress.». Depois, o homem dos Fomore pediu licença para se retirar. Regressou para o seu navio prateado e desapareceu no mar alto de onde tinha saído. Eri, por seu lado, voltou para sua casa. Não tardou a perceber que estava grávida e dela nasceu Eochaid Bress, tal como tinha predito Elatlia dos Fomore. Oito dias depois do parto, o rapaz parecia ter quinze dias e continuou a crescer mais rapidamente que as crianças da sua idade, de tal modo que, com sete anos, tinha a estatura de um rapaz de catorze anos. Assim era Bress, filho de Elatha dos Fomore

e de Eri das tribos de Dana. Quando as tribos de Dana tiveram conhecimento dos seus feitos, os seus chefes reuniram-se e foram aconselhados a conclLir um tratado de amizade com os Fomore. Enviaram então embaixadores à presença dos Fomore, e selou-se assim uma aliança entre eles. Foi assim que Cian, filho de Dianceclit, desposou Ethné, filha de Balor, o campeão dos Fomore. Da sua união nasceu Lug do Braço Longo, que mais tarde se tornou o herói de todos os homens que se reclamavam das tribos de Dana. Mas Lug não foi criado pela mãe pois, logo que as tribos de Dana chegaram à Irlanda, ele foi confiado a uma mulher dos Fir Bolg que se chamava Tailtiu, a qual foi a sua ama de leite, e de quem ele perpetuou a memória graças aos jogos fúnebres realizados no mesmo lugar onde ela foi enterrada, ou seja, em Tailtiu, nome dado mais tarde a este sítio. Houve um tempo em que as gentes das tribos de Dana eram tão numerosas que viveram com dificuldades nas quatro cidades onde residiam. Nuada, que era o seu chefe, reuni-las à sua volta e, após longas discussões, tomaram a resolução de partir por mar e de voltar à Irlanda que era o país dos seus antepassados. Aparelharam cerca de trezentos barcos e prepararam-se para uma longa viagem. Levaram consigo objetos maravilhosos, com os quais pensavam poder dominar os outros povos da terra. Da vila de Falias levaram a Pedra de Fail, que foi depois colocada sobre a colina de Tara, tendo havido quem lhe chamasse Pedra do Destino: o seu grito indicava o nome de cada rei que devia governar a Irlanda. De Gorias foi levada a lança que mais tarde pertenceu a Lug, e a que também se chamava Lança de Assal: era impossível vencer quem quer que a brandisse. De Findías foi levada a espada de Nuada, a que também se chamava Caladbolg, ou seja, «Raio Violento»: a ela ninguém escapava, tal era o seu ímpeto furioso quando saía da bainha. De Murias foi transportado o

Comment [U39]: 1. Tailtiu é hoje Teitown, no condado de Meath, lugar onde decorrem comemorações folclóricas - e pagãs - em honra de Lug, no início do mês de Agosto, o que corresponde à festa de Lugnasad. Nas antigas narrativas, Tailtiu é referida como «filha de Mag Mor (=grande planície), rei de Espanha», e esposa de Eochaid, o último rei dos Fir Bolg. o nome Tailtiu refere-se a uma raiz talamh (do latim teIlus), que significa «terra». Todas estas narrativas mitológicas insistem na união indispensável entre deus, ou o rei, e a terra, em particular a terra da Irlanda. o nome da mãe de Bress, Eri, é uma variante de Eriu, uma das denominações da mulher primordial Cessair, que se ... [3] Comment [U37]: 1 .Em todas as narratívas deste gênero, as etimologias são necessariamente metafóricas. Com efeito, «Bress» significa literalmente «sopro violento», «golpe guerreiro», podendo designar, por extensão, «herói». Entretanto, na perspectiva épica, um herói só pode ser «belo» [1] ... Comment [U40]: Foi esta pedra, posteriormente conhecida pelo nome de «Pedra de Scone», que o rei de Inglaterra Eduardo I fez transportar para a sua própria coroação e que se encontra atualmente no trono que serve para a entronização dos soberanos ingleses em Westminster. Em vão os escoceses ... [4] Comment [U41]: 2. A Pedra de Fail, que se encontra em Tara, servia para a entronização do alto rei da Irlanda. Outros textos contam que, quando da eleição deste, os candidatos deviam tocar na pedra: se ela «gritasse», era porque os deuses tinham escolhido o mais apto para governar a Ilha Verde. Na ... [5] Comment [U42]: 1. Noutro texto, é referido que o poder desta lança era tal que, para a acalmar, era preciso mergulhar a sua ponta num caldeirão cheio de sangue humano. Não deixa de ser interessante compará-la com a «Lança que sangra» apresentada no decurso do célebre cortejo do Graal. Comment [U38]: 2. Segundo a narrativa da «Segunda batalha de Mag-Tured», contida no manuscrito Harleian 528o, editada e traduzida por W. Stokes na «Revista Céltica», XIII. Tradução francesa de Henri d¶Arbois de Jubainville, na «Epopée celtique en Irlande», [2] ... Comment [U43]: 2. Ela é o protótipo de CaledfivIch, por-tanto Excalibur, a célebre espada cheia de poder que só pode ser confiada ao rei Artur.

caldeirão de Dagda, que continha um alimento inesgotável, e ninguém que ele se servisse deixava de ficar saciado. As tribos de Dana partiram então das Ilhas do norte do mundo e navegaram para a Irlanda. Ao cabo de três dias, três noites e três anos, na segunda-feira da semana do início do mês de Maio, estavam diante da costa de Muga no UIster. Há quem defenda que as gentes de Dana, que eram da raça de Larbonel, o Adivinho, chegaram nas asas de nuvens sombrias e não em barcos ou navios. O mais certo, no entanto, é que, ao desembarcarem, elas incendiaram os seus navios para que não caíssem na tentação de voltar ou de quererem fugir se algum perigo as ameaçasse. As grandes nuvens de fumaça que, a certa altura, obscureceram os céus da Irlanda, fizeram crer que elas teriam sido trazidas por um nevoeiro mágico. Mas a verdade é que a fumaça ocultou a chegada das tribos de Dana, que se foram refugiar no país de Corcu Belgatan, que é agora Cormernara, na província de Coiinaught. Naquele tempo, o rei da Irlanda era Eochaid, filho de Erc, da raça dos Fir Bolg. Ora, na mesma noite em que as tribos de Dana desembarcaram, ele teve uma visão durante o sono. Levantou-se incomodado e mandou chamar o seu druida que se chamava Cesard. Logo que este chegou à sua presença, o rei disse-lhe que um sonho que tivera durante a noite o tinha deixado cheio de angú stia e de perplexidade. «Que haveis visto vós, ó rei da Irlanda?», perguntou Cesard. «Na verdade», respondeu Eochaid, «vi grandes bandos de pássaros negros surgirem das profundezas do mar e virem na minha direção. Num abrir e fechar de olhos, eles chegaram a terra e misturaram -se conosco, trazendo a confusão e a hostilidade aos homens da Irlanda. Então, um dos nossos desembainhou a espada e cortou uma asa ao pássaro que, de entre todos, me parecia o mais nobre. Agora, ó druida, levanta-te e usa a tua ciência e a tua magia para nos dizeres que significado

tem este sonho.» Cesard ergueu-se diante do rei da Irlanda e, graças ao conhecimento que tinha das coisas ocultas, falou nestes termos: «Não tenho notícias agradáveis a dar-te a ti e a todos os homens desta ilha: vêm ao nosso encontro por mar guerreiros nobres e corajosos que nenhuma força consegue deter. Com eles vêm a morte e a destruição, pois são gentes hábeis nas artes da magia e do encantamento. Eles lançarão sobre vós nuvens druídicas que vos alucinarão e, em cada combate que travardes com eles, sereis a parte mais fraca. Fica, pois a saber, rei da Irlanda, que chegou a hora de os Homens-Trovão deixarem de ser os donos desta ilha.» Ao ouvirem aquelas palavras do druida Cesard, os Fir Bolg enviaram espiões para vigiarem as gentes que chegavam por mar. Cumprida a missão, os espiões informaram que o grupo dos recém-chegados era constituída por gente tão bela que Jamais no mundo se vira igual, e que, além de muito bela, possuía armas muito poderosas e apetrechos bélicos temíveis, tendo para mais, dotes extraordinários para a música e um comportamento exemplar. Segundo os espiões, jamais se vira gente tão temível, pois todos os guerreiros pareciam ter uma ciência apurada das artes e das técnicas do druidismo e da magia. Os Fir Bolg reuniram-se em conselho no palácio real de Tara, «É terrível que não saibamos de onde vem essa gente e o que pretende de nós. Enviemos Sreng, filho de Sengann, ao encontro dos recém-chegados, pois trata-se de um homem rude e de alta estatura que conhece muito bem as artes e as ciências. Ele irá perguntar aos forasteiros quem são e o que pretendem.» Streng, filho de Sengann, levantou-se e aprontou-se para a partida, equipando-se com o poderoso escudo vermelhoacastanhado, as duas lanças de madeira muito espessa, a
Comment [U44]: 3. Sem dúvida, trata-se de um dos protótipos do «santo» Graal cristão cuja aparição diante dos cavaleiros da T ávola Redonda lhes fornece o alimento e a bebida que desejam.

Comment [U45]: 4. Isto é, durante a festa céltica de Beltaine, festa essencialmente sacerdotal que assinala o fim do Inverno e o início da estação do Verão.

Comment [U46]: 5. Síntese entre o Livro das Conquistas, a narrativa da Primeira batalha de MagTured e a narrativa da Segunda batalha de MagTured, primeira versão.

espada que cintilava, o capacete com quatro chifres e a pesada moca de ferro. Assim equipado, despediu-se da assembléia real e dirigiu-se para o sítio onde se tinham entrincheirado as gentes das tribos de Dana, no território de Coimaught. As gentes de Dana vieram recebê-lo na planície, e ficaram muito admiradas com a sua estatura e com o seu péssimo aspecto. «Olhai: um homem vem ao nosso encontro», disseram elas. «Só pode ser um mensageiro que nos vem perguntar quem somos e o que desejamos. Mas nós desconhecemos de que raça ele é, talvez seja da raça dos Fomoire.» Dirigindo-se a Bress, filho de Elattia, disse-lhe: «Vai recebê-lo, pois, embora sejas de sangue real, tens um pai que é um Fomore, e por isso poderás com certeza compreendê-lo e dizer-nos em seguida quem ele é.» Bress, filho de Elattia, pegou no escudo, na espada e nas duas grandes lanças, deixou o campo das tribos de Dana e avançou para a planície ao encontro de Sreng, filho de Sengann. Aproximaram-se um do outro até o intervalo que os separava ser suficiente para que pudessem comunicar entre si. Ficaram a olhar um para o outro com atenção e curiosidade, admirando-se ambos com o armamento e o equipamento do que estava em frente. Achando estranhas as duas grandes lanças de Bress, Sreng cravou o escudo na terra de modo a proteger o corpo e o rosto. Bress fez o mesmo com o seu escudo e saudou Sreng. Este correspondeu à saudação e ambos compreenderam que falavam a mesma língua e que por isso tinham antepassados comuns. «Fico satisfeito por ouvir palavras tão gentis como as tuas», disse Bress. «Já percebi que os teus antepassados são da raça de Nemed, que o céu lhe seja leve.» «Eu também fico satisfeito por constatar que somos da mesma raça e do mesmo sangue», respondeu Sreng. «Fica no entanto a saber que nós somos homens muito poderosos e que jamais recuámos diante de qualquer

inimigo, por muito poderoso que ele fosse.» «o mesmo acontece conosco», respondeu Bress. «Fica a saber que nada nos detém e que nunca ninguém levou a melhor sobre nós.» «Não duvido», disse Sreng, «que o teu povo é corajoso. Se os nossos exércitos se chegarem a enfrentar, haverá muitas mortes em ambos os lados, por muitas artes mágicas que sejam usadas para evitar o derramamento de sangue.» Ficaram a olhar-se por um momento, e depois Bress disse: «Afasta o escudo da frente do teu corpo e do teu rosto para que eu possa fazer uma descrição do teu aspecto às tribos de Dana.» «Assim farei», respondeu Sreng. «o meu corpo e o meu rosto estavam escondidos por eu desconfiar das lanças aguçadas que ambos trazemos conosco». Sreng afastou o escudo deixando-o cair no chão. Bress fez o mesmo, e encaram-se um ao outro longamente. «Mostrame as tuas armas», pediu Bress. «Fá-lo-ei de boa vontade», respondeu Sreng, atirando para o chão as suas lanças. Bress deixou cair também as suas. «Pelo que vejo», exclamou Bress, «são armas de pontas largas, pesadas e fortes, poderosas e cortantes! Pobre daquele que por elas for ferido, pois não consegLirá sobreviver! Como lhes chamas?» » «São lanças de batalha», disse Sreng. «Com elas não há inimigo que nos faça frente, pois provocam ferimentos e danos irreparáveis nos adversários abrindo o caminho à vitória.» «Acredito bem que sim», disse Bress. «Mas as minhas armas não são menos eficazes, vais ver. Com elas, posso espalhar a morte e a destruição entre aqueles que quiser atingir, envenenando lhes o sangue e fazendo-os desaparecer da superfície da terra.» Calaram-se por um bom tempo e continuaram a observar se. «Pois sendo assim», retomou Bress, «e para evitar que os nossos parentes tenham a tentação de se destrLir, o

melhor será que estabeleçamos um tratado de alia nça e de amizade.» «De boa vontade», respondeu Sreng. Bress, filho de Elattia, das tribos de Dana, e Sreng, filho de Sengann, da tribo dos Fir Bolg, juraram então aliança e amizade. «Onde estavas na noite passada?», perguntou Bress. «Estava na fortaleza real de Tara», respondeu Sreng. «É lá que estão os nobres e os guerreiros dos Fir Bolg, à volta do rei supremo da Irlanda, Eochald, filho de Erc. E tu, de onde vens?» «Eu desci daquela montanha», disse Bress, «onde estão as tribos de Dana e o seu rei supremo, Nuada, filho de Eclitach. As tribos de Dana vieram das ilhas do norte do mundo num manto de nevoeiro e chegaram à Irlanda graças a uma tempestade desencadeada pelos druidas. É sua pretensão vir habitar nesta ilha, e por isso seria justo que os Fir Bolg lhes dessem metade dela, para que pudéssemos viver em paz.» «Tenho de voltar para Tara», respondeu Sreng, «e de transmitir as tuas palavras ao rei supremo da Irlanda. Até se chegar a Tara o caminho é longo, portanto tenho mesmo de partir.» «Vai», disse Bress, «mas antes toma uma das lanças que eu trouxe comigo. Os Fir Bolg saberão assim que tipo de armas possuem as tribos de Dana.» Sreng apoderou-se da arma que lhe estendeu Bress, e por seu lado, deu-lhe uma das que tinha trazido. «Diz aos FuBolg», disse Bress, «que só se derem metade da ilha ao meu povo poderão evitar a guerra de que sairão derrotados pela certa.» «Transmitir-lhes-ei o teu recado», respondeu Sreng. Nessa altura separaram-se, depois de mais uma vez terem prometido amizade entre si, e cada um seguiu o seu caminho. Quando Sreng chegou a Tara, fizeram-lhe perguntas sobre as gentes com quem se tinha ido encontrar.

«São grandes guerreiros», respondeu Sreng. «São viris e hábeis, e têm heróis cruéis e experientes em combate. Usam escudos largos e sólidos, e lanças com pontas afiadas e fustes de madeira muito sólida. As lâminas das suas espadas são flamejantes e ameaçadoras. É melhor que selemos com eles a paz e que lhes cedamos metade da Irlanda, pois será muito difícil vencê-los.» Os HomensTrovão reuniram-se à volta do rei Eochaid e estiveram a analisar durante muito tempo a proposta de Sreng. «Nós não daremos metade da Irlanda aos estrangeiros», disseram por fim, «pois se o fizéssemos eles a segLir apoderar-se-iam de toda a ilha e escravizar-nos-iam, a nós, aos nossos filhos e aos nossos descendentes.» Bress, por seu lado, voltou para o campo das tribos de Dana. Perguntaram-lhe como era o homem que tinha ido ao seu encontro na planície, e como eram as suas armas. Mostrando a lança que lhe dera Sreng, ele respondeu: «É um homem rude, poderoso, e vi o na posse de armas muito poderosas. É grande e corajoso, e nada o atemoriza. Duvido muito que o seu povo nos ceda sem luta metade da Irlanda.» «Devemos então preparar-nos para uma dura batalha», disseram as gentes das tribos de Dana. Fabriquemos lanças e espadas e construamos fortalezas onde nos possamos refugiar em caso de necessidade.» As três magas das tribos de Dana, Bobdh, Macha e Morrigane, foram enviadas a Tara, chegando pouco tempo depois ao monte dos Reféns. Daí elas lançaram enxurradas de magia druídica, nuvens densas de nevoeiro e violentas chuvas de fogo, com gotas de sangue, que caíram na cabeça dos guerreiros. Assim, durante três dias e três noites, os Fir Bolg não consegLiram ter um segundo de tranquilidade e de paz, ficando cheios de angústia. «Os nossos druidas são incapazes de nos proteger da

magia das tribos de Dana», lamentaram-se eles por fim. «Nós proteger-vos-emos», responderam os druidas dos Fir Bolg. E fizeram então encantamentos à volta da colina de Tara e detiveram a magia das tribos de Dana. Nessa altura, os Fir Bolg reuniram-se em conselho e decidiram preparar-se para o combate. Reuniram as suas hostes num lugar determinado, com todos os seus chefes, todos os seus nobres e todos os seus reis, e aquele lugar passou a ser chamado Planície de Lia. Quando viram os Fir Bolg reunidos, as gentes das tribos de Dana reuniram todas as suas hostes e, dirigindo-se para a planície, tomaram aí posição. Três dos seus druidas foram enviados ao encontro dos Homens-Trovão para lhes propor a partilha da Irlanda em nome da sua origem comum, visto que os Fir Bolg e as gentes das tribos de Dana eram todos descendentes de Nemed. Os três druidas não tardaram a chegar à tenda de Eochaid, filho de Ere, rei supremo da Irlanda. Foram-lhes oferecidos tesouros e presentes e perguntaram-lhes o que pretendiam. Eles disseram que tinham vindo propor ao rei supremo a partilha da Irlanda. Os Fir Bolg responderam-lhes que Jamais aceitariam fazer uma tal partilha e que jamais dariam metade da ilha a quem se apresentava daquele modo. «Pois bem», disseram os três druidas de Dana, «Ficai então a saber que tereis de vos haver conosco em combate. Quando quereis iniciar a batalha?» «Precisamos de um tempo», responderam os Fir Bolg. «Temos de preparar as nossas lanças e as nossas espadas, e temos de fabricar escudos fortes para nos defendermos.» Os três druidas voltaram para perto das gentes de Dana e anunciaram-lhes que os Fir Bolg não estavam na disposição de dar metade da Irlanda, compreendendo

então as gentes de Dana que teriam de travar lutas sangrentas, pois as tribos adversárias eram tão bravas e corajosas como elas. A batalha na Planície de Lia foi marcada para quinze dias e um mês depois do início do Verão, ao meio do dia. As hostes puseram-se em marcha aos primeiros raios de sol, e ficaram frente a frente exibindo escudos ornamentados com pinturas, lanças majestosas e reais, dardos e espadas flamejantes. Fatach, o poeta dos Fir Bolg, destacou-se dos demais para exteriorizar a fúria que sentia cantando as glórias dos seus antepassados. Tendo posto um pilar de pedra no meio da planície, apoi ouse nele, enquanto Cairpré, o poeta das tribos de Dana, enterrou o seu próprio pilar na outra extremidade da planície e apoiou-se nele para cantar a coragem dos guerreiros do seu povo. Foi a partir daqui que a Planície de Lia passou a ser chamada Mag-Tured, ou seja, «Planície dos Pilares». O combate começou então, violento e Implacável, sucedendo-se golpes mortais entre os guerreiros que ficaram com os escudos partidos, as lanças tortas e as espadas despedaçadas. O clamor tomou-se medonho, e o furor posto na luta pelos guerreiros, na vasta planície, parecia aumentar de momento para momento. Ao fim do dia, contudo os homens das tribos de Dana, vencidos, tiveram de começar a recuar. Em vez de os perseg Lirem ao longo do campo de batalha, os Fir Bolg deixaram-se ficar no seu próprio terreno e cada um dos Combatentes levou à presença de Eochaid, filho de Ere, rei supremo de toda a Irlanda, uma pedra da Planície e a cabeça cortada de um inimigo, com que fizeram um enorme montículo. Quanto aos homens das tribos de Dana, ergueram pilares em honra das suas gentes mortas em combate. O médico, que se chamava Dianeccht, fez o que pôde para tratar dos feridos. Por seu lado, os médicos de Fir Bolg, tendo consigo ervas curativas, esmagaram-nas e dispersaram-

Comment [U47]: Atualmente, «Moytura», planície situada entre o lago Arrow e o lago Kcy, na fronteira dos condados de Sligo e de Roscommon, não longe da cidade de Boyle.

nas tão bem nas águas duma fonte que estas se tomaram verdes e espessas. E todos os homens feridos que mergulhavam na fonte recuperavam logo a saúde e ficavam curados, prontos para voltarem para o combate. Na manhã seguinte, Eochaid, filho de Ere, rei supremo dos Fir Bolg, foi-se lavar àquela fonte. Ora, estando ele só, entretido a fazer abluções, viu por cima de si três homens belos mas terríveis que, protegidos por escudos, o ameaçavam. «Deixem-me ao menos ir buscar as minhas armas», disse o rei Eochaid, <´Pois não é justo que venhaís ameaçar um homem só e desarmado.» Mas os três hornens recusaram o seu pedido e quiseram enfrentá-lo ali, sem que ele tivesse tempo para se armar. Apareceu então Sreng, filho de Sengann, um homem grande e forte, de compleição temível, que se interpôs entre eles. «Não admito que um dia se diga», exclamou ele, «que o meu rei indefeso foi atacado por três jovens presunçosos. É comigo que deveis lutar e não com ele!» Os três atacaram-no e sucumbiram imediatamente aos golpes furiosos que ele lhes infligiu. Com a luta já terminada, apareceram os Homens-Trovão. Viram os três homens caídos por terra, e o rei contou -lhes como Sreng lutara em seu lugar. Então, pegaram em pedras com que encobriram Os três corpos de modo a formar um caer, que desde então passou a ser chamado Tumulus de Champion. Depois disso, o rei seguiu-os, e prossegLiram os combates contra os homens das tribos de Dana. Ora, eram tão densas as hostes ali concentradas que, por todo lado faiscavam cores resplandecentes como as do nascer e as do pôr-do-sol, campeões dos dois campos, sobre os quais incidia o sol tinham um aspecto aterrador, indiscriminado, fogoso e resplandecente, agitando as suas espadas nos ares em todas as direções, enterravam as

suas lanças no corpo dos adversários e deles faziam jorrar rios de sangue que se derramavam pela erva verde da planície, Defendendo-se atrás de filas serradas, os homens das tribos de Dana lançaram um ataque impetuoso contra os Fir Bolg. Formaram uma linha de batalha impenetrável e sangrenta, escondendo-se atrás dos seus escudos coriáceos de vermelho e pintados com as cores mais variadas. Os guerreiros mais jovens estavam na linha de frente, pois os mais velhos foram colocados nos flancos estes para ajudarem e aconselharem os que combatiam com tanta valentia. Os poetas, os adivinhos e os sábios colocaram-se ao lado dos pilares que erigira, e puseram em prática toda a magia para tentarem enganar os seus inimigos com feitiços e encantamentos. As fúrias, os monstros e os feiticeiros berravam tão alto e com tanta fúria que as suas vozes ecoavam pelos rochedos e pelas cascatas, chegando às cavernas mais profundas da terra. E a própria terra tremia ao ouvir os gritos horríveis que, naquele dia, se soltaram por toda a planícíe de Mag -Tured. Eochad, filho de Ere, o rei supremo dos Fir Bolg e de toda a Irlanda, encontrava-se mesmo no coração da batalha, assim como Nuada, o rei de todas as tribos de Dana. Ambos distribuíam socos violentíssimos à esquerda e à direita, socos que fustigavam os corpos, despedaçavam os escudos e as lanças, e cortavam as cabeças, mais parecendo lenhadores a derrubarem à machadada as árvores da floresta. Os heróis andavam de um lado e do outro e, no meio da confusão, lançavam murros impetuosos a tudo o que estivesse ao seu alcance, enquanto iam brandindo as lanças cortantes e faiscantes. Estavam também presentes três mulheres, as três magas das tribos de Dana, Bobdh, Macha e Morrigane, a filha de Ernmas. No meio do tumulto, elas lançavam feitiços para ajudar os seus e imprecações para enfraquecer os adversários. As espadas embatiam nas extremidades dos

Comment [U48]: - 1-Ernnias significa «estranho». Na realidade, as três magas são três aspectos da mesma personagem: Bobdh é a Gralha, Macha, a Amazona, o Morrigane a Grande Rainha. Esta triplicação encontra-se na tradição britónica, em particular na lenda arturianu em que a fada Morgane aparece às vezes com a forma da Amazona Rhiannon e às vezes com a forma de uma gralha, pois possui o poder de se metamorfosear.

escudos redondos, e lâminas incandescentes provocavam poças de sangue que chapinhavam debaixo dos pés dos homens. Bress, filho de Elatha, veio combater contra os Fir Bolg. Cento e cinquenta guerreiros sucumbiram às suas mãos, tendo ele aplicado nove golpes no escudo do rei Eochaid enquanto este lhe infligia nove ferimentos. Sreng, filho de Sengann, veio combater as tribos de Dana. Morreram às suas mãos cento e cinquenta guerreiros, tendo ele aplicado nove golpes no escudo do rei Nuada que, por seu lado, lhe infligiu nove ferimentos. A certa altura, os homens das tribos de Dana começaram a repelir os Homens-Trovão, enquanto na planície se iam acumulando os cadáveres. As hostes tremiam como a água de um caldeirão que transborda por todos os lados, ou como um rio cujas águas engrossam quando um exército abre caminho por entre elas para os seus guerreiros poderem passar. E, como os próprios reis queriam combater, foi- lhes dado um grande espaço. Os guerreiros afastaram-se e os servos, atemorizados com aquele espetáculo, puseram-se em fuga. A terra foi calcada pelos heróis e com o ardor da luta endureceram as turfas sob os seus pés. Sreng e Nuada infligiram-se mutuamente trinta ferimentos, e o primeiro infligiu um golpe terrível ao rei das tribos de Dana atravessando com a espada a borda do seu escudo e indo cortar-lhe o braço direito até ao ombro. Nessa altura, Nuada lançou um grito tremendo de dor. Ao ouvi-lo, Dagda dirigiu-se para ele e tentou protegê-lo dos inimigos que o cercavam. Depois aconselhou-se com os companheiros, e mandaram chamar cinquenta heróis para proteger o rei, encontrando-se entre eles o médico Diancecht. Nuada foi levado para fora do campo de batalha, e tiraram-lhe o braço para o colocarem num círculo de pedras. E o sangue de Nuada escorreu sobre as pedras. Entretanto, apesar de Nuada se ter retirado, o combate

continuou aceso. Bress, o filho de Elattia, queria vingar o seu rei. Precipitou-se para o lugar de onde Eochald dirigia a batalha, exortando os heróis e dando ânimo aos campeões. Bress atacou-o furiosamente e ambos, escudo contra escudo, feriram-se nas partes do corpo a descoberto, enquanto os restantes combatentes se mantinham no meio de um cenário caótico, enraivecidos e tendo de suportar o peso das suas armaduras e dos seus corpos. Assim que os campeões de Dana vieram em seu socorro, tendo à cabeça Dagda, Ogma, Bobdh Derg, filho de Dagda, Cian, filho de Diancecht, assim como Goibniu, o ferreiro, os Fir Bolg foram obrigados a deixar o terreno. Quando chegaram a um outeiro que dominava a planície de Tured, Eochaid, filho de Erc, o rei supremo dos Fir Bolg da Irlanda, sentiu-se muito fraco. Pediu então a Sreng, filho de Sengann, para lhe vir falar-lhe «Prossegui o combate, fazei com que todos os nossos guerreiros continuem a combater com bravura e tenacidade, até que eu encontre água que possa beber e com que possa lavar a cara», disse Eochaid, «pois tenho a garganta seca e estou a morrer de sede.» «Nós somos pouco numerosos, agora», respondeu Sren g, «mas asseguro-vos que o combate prossegLirá, aconteça o que acontecer.» Sreng reuniu uma centena de homens e preparou -se para enfrentar as gentes das tribos de Dana. Mas, assim que os druidas daquelas souberam que o rei da Irlanda estava morto de sede, lançaram um feitiço de forma a esconder das suas vistas os nos e os regatos da Irlanda. E ele, por muito que procurasse o país à procura de uma fonte onde matar a sede, não encontrou nada. Ora, estando ele a ser perseguido pelos guerreiros das tribos de Dana, aproximouse de uma margem, num lugar que hoje se chama o Areal de Eochaid. Aí foi atacado por três guerreiros, mas defendeu-se energicamente, apesar da sede que o atormentava, e matou-os aos três. Tendo recebido diversos

ferimentos e estando enfraquecido por todos os golpes que sofrera, ele próprio também acabou por sucumbir. E ali mesmo foi enterrado, naquele mesmo areal, debaixo de um montículo que os Fir Bolg fizeram com pedras para ali levadas. Naquela noite, devido ao cansaço e às grandes perdas que sofreram, os Homens-Trovão estavam consternados e completamente desanimados. Censuravam-se por não terem lutado com suficiente ardor e deram sepultura às suas gentes, aos pais, aos amigos e aos familiares. Para os nobres foram feitos montículos, erigiram-se pilares em memória dos heróis, e os restantes combatentes foram enterrados em campas. Depois disso, Sreng, filho de Sengann, convocou a assembléia dos Fir Bolg para se aconselhar e decidir o que fazer. Disse aos Fir Bolg que só tinham duas possibilidades: ou deixavam a Irlanda para sempre e partiarn para outro país, ou aceitavam partilhar a ilha entre si e as tribos de Dana. «A não ser assim», acrescentou ele, «teremos de combater até à última gota de sangue. E ficai a saber que, com os poucos homens que nos restam, não nos será fácil alcançar a vitória.» Os Firbolg decidiram não abandonar a Irlanda e combater as tribos de Dana até ao último homem em condições de pegar em armas. Então, voltaram a pegar nos grandes escudos quadrados, nas lanças envenenadas, nas espadas cortantes de metal azul, e partiram ao encontro das tribos de Dana, sabendo que no combate terrível e desesperado que se avizinhava o mais certo era encontrarem a morte. Uma vez chegados ao lugar onde se encontravam as tribos de Dana, Sreng, filho de Sengann, desafiou Nuada para o combate como vingança pela luta que ambos já tinham travado. Nuada, como se não tivesse ficado sem braço, enfrentou cheio -o de coragem. Com a mão esquerda agarrou nas armas e

avançou para Sreng, dizendo-lhe: «Se o que desejas é uma luta como deve ser, amarra o braço direito, pois eu perdi o meu, e assim estaremos em igualdade de condições. Se queres que a luta seja justa, é isso o que deves fazer.» «Nada a isso me obriga», retorquiu Sreng. «Nós estávamos em igualdade de condições na primeira luta que travamos, e esta é a continuação dessa primeira luta. É verdade que eu te cortei um braço, mas os teus guerreiros mataram o meu rei, Eochaid, filho de Erc, e eu tenho sangue real. Cabe-me a mim vingar a morte do rei supremo da Irlanda, vencendo o rei das tribos de Dana.» Nessa altura interveio Bress, filho de Elatha: «Sreng, valoroso guerreiro, lembra-te que nós fizemos um juramento de paz e de amizade. Eu também tenho sangue real e poderia combater no lugar do meu rei. Mas como estamos unidos por este juramento de amizade, não podemos voltar a encontrar-nos frente a frente. Paremos com isto e façamos a paz.» «Farei como dizes, e respeitarei desse modo o juramento feito perante ti, ó valoroso Bress». respondeu Sreng. «Espero as tuas propostas.» Bress foi-se reunir com os chefes das tribos de Dana e analisou a situação com eles. «Que perdas sofremos?», perguntou Nuada. «Nobre Nuada», respondeu Dagda, «juro-te que perdemos muitos guerreiros e muitos campeões nesta batalha. Uma grande parte de nós, muitos dos nossos irmãos e dos nossos filhos, morreram às mãos dos Fir Bolg, e são tão grandes as nossas baixas que tão pouco podemos saber quantas foram. Nós pedimos aos Fir Bolg para partilharem a Irlanda conosco porque temos origem no mesmo clã, o do glorioso Nemed que é uni nosso antepassado. Era uma questão de justiça, e nós tínhamos o mesmo direito que eles de habitar este país. Eles não nos quiseram deixar o lugar que por herança nos

pertencia, e tivemos de o conquistar pelas armas, pagando um alto preço com o sangue dos nossos heróis e dos nossos guerreiros. Penso que chegou o momento de celebrar um acordo com os Fir bolg, pois eles já não estão em condições de lutar conosco e seria cometer uma injustiça matá-los até ao último homem». «E a voz da sabedoria que fala pela tua boca, ó Dagda», disse Nuada. «E, apesar da dor que me provoca a min enfermidade, ha apesar da raiva que sinto, prefiro que se firme a paz entre nós e os Homens-Trovão. Que Bress vá ao encontro de Sreng, filho de Sengann, e que lhe proponha o fim das hostilidades e a escolha, pela sua parte, de uma província da Irlanda para habitar com as gentes do seu povo.» Bress foi falar com Sreng e transmitiu-lhe a proposta dos chefes das tribos de Dana. Sreng escolheu a província de Connaught. Então juraram paz e amizade, para eles e os seus descendentes. E Sreng, filho de Sengann, re uniu-se com os Fir Bolg que tinham escapado ao massacre de Mag-Tured, e partiu para Connaught, de que tomou posse. Quanto aos homens das tribos de Dana, reuniram-se mais uma vez para decidir o que haviam de fazer na Irlanda, tendo-se tornado donos de quase todas as terras da Ilha Verde. Chegaram a acordo unanimemente que era preciso fixarem-se nas planícies e nos vales tirando proveito do solo cultivando o trigo e fazendo a criação de gado nos grandes prados situados junto aos rios. Quanto a Nuada, o rei supremo das tribos de Dana, o médico Diancecht, com a ajuda do artesão Credné, fez-lhe um braço de prata dotado de todos os movimentos da mão em cada dedo e em cada articulação. E Miach, filho de Diancecht, enxertou-lhe o braço, articulação a articulação, nervo a nervo e veia a veia, por três vezes, ficando ele curado ao fim de nove dias. Entretanto, Diancecht ficou despeitado com aquela cura e, furioso, brandindo a espada sobre a cabeça do filho, provocou-lhe um golpe profundo no pescoço. O rapaz, contudo, curou-se pondo em prática a sua arte. Então,

Diancecht voltou a feri-lo e chegou ao osso. O rapaz mais uma vez curou-se voltando a usar a sua arte. Ainda mais furioso, Diancecht feriu-o uma terceira vez na cabeça e atingiu-lhe o cérebro, tendo sido assim que Miach morreu às mãos do próprio pai. E este disse que ninguém dali em diante o poderia devolver à vida. Depois, Diancecht dirigiu-se aos homens das tribos de Dana: «Mesmo no caso de Nuada se apresentar diante de vós com um braço, ficai a saber todos que este é de prata. Por esse motivo ele passará a ser chamado Nuada do Braço de Prata. Sabei também que qualquer rei que perde uma parte do corpo se toma incapaz de reinar, pois a integridade do rei é o que garante a integridade do reino. Devemos por isso escolher entre nós qual é o mais digno de ser nosso rei, pois Nuada do Braço de Prata, por muito mérito que tenha, já não é digno de exercer uma tal função.» Os chefes das tribos de Dana reuniram-se em conselho. «Diancecht tem razão», disse Nuada. «Eu ja não posso ser o vosso rei, pois lamentavelmente perdi o meu braço. ³Escolhei, pois, entre vós aquele que vos parecer mais digno de ser o vosso rei.» Então, após acesa discussão, acabaram por escolher Bress, filho de Elattia, pois ele tinha sangue real, sendo filho de um príncipe dos Fomore. E assim Bress tomou-se rei da Irlanda durante sete anos, após a batalha de Mag Tured em que as tribos de Dana combateram e venceram os Fir Bolg. O saberem que Bress, filho de Elatha, se tomara rei das tribos de Dana, os Fomore ficaram muito satisfeitos, pois viam nele um dos seus e, por seu intermédio, tudo fariam para impor aos habitantes da Irlanda encargos tão pesados como aos seus antepassados noutros tempos. Assim, enviaram mensageiros a Bress para lhe lembrar que, se a sua mãe era originária das tribos de Dana, já o seu pai era

Comment [U50]: 1. Definição da realeza de tipo celta: um rei só é capaz de governar o seu reino se tiver o «Poder do dom», ou, dito de outro modo, o poder de distribLir as riquezas de acordo com os méritos de cada um. Mesmo com uma prótese, Nuada é um rei amputado, e não se pode servir do braço direito para cumprir simbolicamente a sua missão, que é «distribuir». Na lenda arturiana encontra-se precisamente o mesmo conceito, quando o rei Artur perde devido à doença - o poder de dar. Isto também acontece no caso do Rei Pescador que, vítima de um ferimento mágico, não é capaz de assumir em plenitude a função de Rei do Graal. Desse modo o seu reino torna-se estéril e assim permanecerá enquanto ele não se curar ou enquanto um jovem rei, de uma incontestável integridade física, como Perceval, não lhe suceder no trono. Costuma dizer-se que um reino se estende até ao alcance do olhar do rei, o que faz supor da parte deste uma perfeição física indissociável da perfeição moral. Comment [U49]: A tradição popular local de Connaught, sobretudo no condado de Galway, conserva a marca da lembrança dos Fir Bolg. Deste modo, os habitantes das ilhas de Aran são considerados os descendentes dos Homens-Trovão, e as fortalezas pré -históricas que se encontram nas três ilhas de inismore, Inisman e Inislicer, passam por ser obras destes longínquos antepassados, na verdade mais míticos que reais, mas capazes de vencer as barreiras do tempo graças ao poder do imaginário, Comment [U51]: 2. Segundo a narrativa da «Primeira batalha de Mag-Tured», com alguns pormenores extraídos dos «Livro das Conquistas» e da narrativa da «Segunda batalha de Mag-Tured», primeira versão.

Elatha, um dos grandes chefes dos Fomore, gigantes que habitavam em ilhas no meio do nevoeiro. Desse modo, os Fomore fizeram recair pesados encargos sobre as tribos de Dana. Os homens da Irlanda deviamlhes pagar um imposto sobre o trigo, um imposto sobre o leite e a manteiga, e um imposto por cada pedra que servisse para constrLir uma casa. Além disso, deviam pagar uma onça em ouro por pessoa, homem ou mulher, adulto ou criança, ou arriscavam-se a que lhes cortassem impiedosamente o nariz. Para cúmulo, o rei Bress, desde que soubera que podia contar com os Fomore, abusava em benefício próprio das suas prerrogativas. Atribuiu terras a si mesmo, e obrigou os nobres das tribos de Dana a executarem trabalhos muito duros em seu proveito. Assim, Ogma, o campeão, devia levar diariamente um feixe de lenha para a lareira da casa de Bress; e Dagda, que já lhe havia construído a casa, foi obrigado a constrLir-lhe fortalezas, Com o passar do tempo, cada vez mais os nobres das tribos de Dana viam com maus olhos os impostos que lhes eram infligidos pelos Fomore, assim como as injustiças que eram praticadas pelo seu próprio rei Bress, filho de Elatha. Certo dia, um cego de nome Cridenbel foi encontrar-se com Dagda na sua casa real. Era um preguiçoso, um parasita, mas costumava dizer sátiras e toda a gente o receava. Ora, Cridenbel pensava que a parte de comida que lhe cabia era muito inferior à de Dagda. «Oh Dagda!», exclamou ele em alta voz, «por tua honra, quero que uma terça parte substancial da tua ração de comida me seja dada!» Foi assim que, a partir de então, Dagda passou a dar uma grande parte da sua comida ao sátiro. Apesar disso, a ração daquele era abundante, sendo cada bocado de comida do tamanho de um grande porco. E como Dagda, apesar de privado de um terço da sua ração, continuava a fazer os seus trabalhos muito duros, ia ficando cada vez

mais fraco. Um dia, estando a cavar uma fossa, o seu filho Bobdh Derg veio vê-lo e ficou espantado ao vê-lo tão magro e sem forças. «Que se passa contigo, ó Dagda?», perguntou Bobdh Derg. «Porque é que estás com tão mau aspecto?» «Ora», respondeu Dagda, «Crideribel, o sátiro, exige de mim que lhe dê todas as noites uma terça parte substancial da minha ração». «Vou-te dar um conselho», disse Bobdh Derg. Tirou a bolsa da túnica e, pegando em três peças de ouro, pô-las na mão de Dagda. «Ouve bem o que te digo», continuou ele. «Vais meter estas três peças de ouro em três bocados de comida que lhe deres, tendo a preocupação de que sejam os mais belos e mais apetitosos. Cridenbel engoli-los-á vorazmente, com as peças de ouro dentro, de tal modo que o ouro, ao entrar lhe no corpo, o fará morrer. Irão então dizer a Bress que o sátiro morreu por lhe teres dado uma erva envenenada. O rei, furioso, dará ordens para que tu sejas castigado com a morte, mas tu defender-te-ás. Dirás que Cridenbel te pediu os três melhores bocados da tua comida e que, para o satisfazeres, lhe deste três peças de ouro, ou seja, os três melhores bocados. acrescentarás que foi por ter engolido o ouro que Cridenbel morreu.» Dagda pôs em prática o conselho de Bobdh Derg. Naquela mesma noite, meteu as três peças de ouro nos três melhores bocados da sua comida e deu-os a Cridenbel. O sátiro devorou vorazmente os três bocados e de manhã foi encontrado morto. Então, as gentes da casa foram dizer ao rei que o sátiro tinha morrido porque Dagda lhe dera a comer urna erva envenenada. Bress chamou Dagda à sua presença e censurou -lhe veementemente a sua malvadez, ameaçando-o com a morte no caso de se vir a saber que ele era culpado. «Eu não sou culpado», respondeu Dagda. «Crideribel pediu-me as três melhores partes que me cabiam, e o que eu tinha de melhor eram as três peças de

Comment [U52]: 1- Ognia é o deus Oginios que o filósofo grego Luciano de Samosata, no seu tratado sobre Herácles, apresenta com os traços de um «Hércules» já idoso cujas correntes saídas da língua chegavam às orelhas dos humanos. o nome OginiosOgina não é celta mas grego, e evoca a «e strad^ o <caminho», tratando-se de qualquer modo de uma divindade da comunicação. Segundo a tradição irlandesa, terá inventado o «ogham», ou seja, a escrita ogântica vertical que se encontra nas colunas de pedra da alta Idade Média na Irlanda e no oeste da Gr Bretanha. Obviamente, há pontos em comum entre o nome Ogina e o de Ogliam,

Comment [U53]: 1. Membro da classe sacerdotal druídica, o sátiro desempenha um papel muito partícula, as sociedades de tipo celta: quando ele lança uma «sátira», ou seja, um feitiço mágico, contra alguém, aquela adqLire um caráter incontornável e o seu destinatário não lhe pode fugir, pois se o fizer arrisca-se a perder a honra, a saúde e a própria vida.

ouro. Dei-as por isso a Cridenbel, e não tenho culpa de ele ter morrido pelo fato de o seu corpo não ter suportado o ouro.» «Se assim é», disse o rei, «mandarei abrir o corpo de Cridenbel para ver se existe ouro lá dentro. Se não houver, tu morres, e se houver, ser-te-á poupada a vida.» Abriram a barriga ao sátiro e encontraram três peças de ouro no estômago, o que serviu para desculpar Dagda, que não tardou a recuperar força e energias, pois já não tinha de dar uma parte substancial da sua comida. O perdão dado a Dagda não impediu, no entanto que este e todos os chefes das tribos de Dana se continuassem a queixar das injustiças de Bress. Queixavam-se amargamente que ele não os deixava dar uso às facas e que nunca lhes oferecia festins onde corressem a cerveja e o hidromel. Nunca havia grandes festas em que os poetas, os músicos e todos os tipos de artistas se exibissem para gáudio de toda a gente. Também não se assistia nunca a grandes competições onde os campeões pudessem mostrar as suas habilidades. E todos se interrogavam como se havia de ultrapassar esta situação constrangedora.´ Nuada, pela sua parte, lamentava-se por ter perdido a coroa e o poder real devido à falta do braço, apesar de um braço de prata lhe ter sido enxertado, permitindo-lhe mover as articulações com uma extrema suavidade e destreza. Vivia em Tara, com a maior parte das tribos de Dana, e o porteiro que lhe vigiava a entrada da fortaleza só tinha um olho. Um dia, andando o porteiro no prado em frente da fortaleza, viu ao Pé das muralhas dois jovens belos e de estatura nobre. Um era homem, o outro mulher, tendo-o ambos cumprimentado após se aproximarem dele. Ele correspondeu ao cumprimento e perguntou-lhes o que os trazia à fortaleza real de Tara. «Nós somos dois bons médicos», responde. Segundo a narrativa da «Segunda

batalha de Mag-Tured», primeira versão eram eles, o filho e a filha de Dianceclit. Ele chamava-se Oirmiach e ela Airmed. «Se são tão bons médicos», disse o porteiro, «têm de nos provar. Não vêem que sou zarolho? Pois bem, fazei com que eu tenha um olho no lugar daquele que me falta.» «E para já», disse o jovem, «Eu vou imediatamente pôr um olho de gato no lugar do olho que te falta». «Ficarei muito satisfeito com isso», respondeu o porteiro, «e elogiarei os teus méritos em todas as assembléias desta ilha.» Com efeito, este jovem, que se chamava Oirmiach, e a jovem, que se chamava Airmed, meteram o olho do gato no lugar do que estava em falta no porteiro. Mas, mais tarde, o porteiro só ficou meio satisfeito, pois quando queria dormir ou descansar, o olho abria-se ao mais pequeno chiar de um rato, ao mais leve bater de asas de um pássaro, ou mesmo ao mais ligeiro sopro de vento nos ramos das árvores. Pelo contrário, quando tinha necessidade de observar um grupo de guerreiros ou uma assembléia de nobres à volta do caldeirão, o olho fechava-se-lhe e ficava com vontade de dormir e de repousar. Maravilhado, entretanto, com a arte dos dois jovens, entrou no palácio e foi falar com Nuada do Braço de Prata. Comunicou-lhe que havia dois bons médicos à porta e que eles tinham acabado de lhe pôr um olho no lugar daquele que lhe faltava. Nuada mandou então que eles entrassem. Quando os jovens entraram na grande sala onde estava Nuada do Braço de Prata, ouviram uma espécie de gemido de lamento e de dor. «o que há aqui?», perguntou Oirmiach. «Pareceu-me ouvir o gemido de um guerreiro que padece de um mal terrível.» «Na verdade, é um grito de dor e de desespero», disse Airmed. «Vejamos se não se trata de um suspiro de um guerreiro que sofre por um escaravelho lhe estar a roer o braço sem que ele disso se dê conta.»

Estenderam Nuada do Braço de Prata numa liteira e examinaram-no com atenção. Airmed acabou por lhe tirar o braço de prata, e de dentro dele saiu um escaravelho que se pôs a correr por toda a fortaleza. Os homens da casa real vieram então ver o que se passava e mataram o bicho. «O braço de prata estava bem articulado», disse Oirmiach, «mas não serve ao rei Nuada. Se encontrássemos um braço com igual comprimento e largura, metê -lo-íamos no lugar desse.» Os nobres das tribos de Dana que se encontravam ao redor de Nuada ordenaram então aos criados que procurassem entre eles um braço adequado. Os criados observaram os braços de todos aqueles que ali se encontravam e pediram aos dois jovens para darem um parecer. Mas estes, fazendo uma ronda por braços sucessivos, não encontravam nenhum que conviesse. Referindo-se ao braço de Moffian, o chefe Porqueiro das tribos de Dana, os criados perguntaram aos médicos: «Este braço servevos?» «Esse parece-nos com efeito o mais conveniente», responderam eles. Era necessário ainda que o homem aceitasse de boa vontade dar o seu braço ao rei Nuada. «Fá-lo-ei com todo o gosto», disse o porqueiro, «desde que isso nos ajude a livrarmo-nos da opressão dos Fomore e das injustiças de Bress.» Oirmiach disse então à sua irmã: «o que preferes? Enxertar o braço nos ombros do rei Ou ir procurar ervas para permitir que ele se adapte à natureza da sua carne?» «Prefiro enxertar o braço», respondeu Airmed. E, enquanto Oirmiach foi procurar ervas, Airmed pacientemente meteu mãos à obra. Com todo o cuidado, enxertou o braço do porqueiro no ombro do rei e, assim que o Irmão voltou com as ervas, ela aplicou-as com tantas cautelas que o braço se ajustou perfeitamente a Nuada.

Qualquer pessoa que desconhecesse que ele perdera um braço em combate não poderia suspeitar que aquele braço não era o seu. Mas, apesar disso, não se deixou de se lhe chamar rei Nuada do Braço de Prata. Entrementes, os nobres das tribos de Dana puseram -se a debater quem havia de ser o rei da Irlanda. Alguns observaram que, tendo-lhe sido restituídas uma mão e um braço, Nuada poderia reinar de novo sobre o seu povo. Mas outros alvitraram que, tendo sido atribuído poder real a Bress, filho de Elaffia, este não lhe poderia ser retirado sem seu consentimento. Ora, era sabido de todos que Bress se apegara ao poder e que não o abandonaria sob nenhum pretexto. «Eu sei o que há a fazer», disse então Dagda. «Peçamos a Cairpré, que é poeta e sátiro, para ir a casa de Bress e para lhe fazer provocações pondo a nu as suas fraquezas e a sua sovinice.» Cairpré, filho de Etaine, que era o poeta das tribos de Dana, deslocou-se então à casa real que Dagda construíra para Bress. Apresentou-se e pediu hospedagem, que lhe foi dada de boa vontade. Mas Cairpré achou a casa de Bress sombria, muito pequena e desconfortável. Nela não havia lareira para se poderem aquecer, nem leito para dormir, nem comida em quantidade suficiente para matar a fome. Trouxeram-lhe três pequenos pães, que estavam secos e duros. Além disso, em vez de cerveja e de hidromel, deram-lhe água. Comeu os pequenos pães, bebeu a água, mas dormiu tão mal na casa real de Bress que acordou na manhã seguinte de muito mau humor. Saiu de casa, atravessou o pátio e ia pronunciando as seguintes palavras: «Que horrível é a casa de Bress, filho de Elatha, pois nela a comida não é servida em pratos de ouro, o leite de vaca não é generosamente distribuído, a cerveja deliciosa não corre a rodos, e os poetas, os contadores de histórias e os músicos nela não têm lugar! Que rei é este que não sabe distribLir as suas riquezas? Daqui em diante, enquanto Bress, filho de Elattia, for o rei supremo, não

Comment [U54]: 1- Segundo a narrativa do «Sort des enfants de Tuirenn» (Oidhech Chloinne TLireann), contida em diversos manuscritos do século XVIII, publicada e traduzida por O¶Curry em 1863, por P-W. Joyce em 1874 (old Celtic Romances) e por Richard J. O¶Duffy em Dublin em 1901. Tradução francesa fragmentária em R. Chauviré, Contes ossianiques, Paris, 1947. TraduÇão francesa integral em Ch.-J. Guyonvarc¶h, Textes mythologiques irlandais, Rennes, 1980.

haverá colheitas, as vacas não darão leite, não se fará cerveja, riem se fará a distribuição de pedras preciosas e de ouro na terra da Irlanda.» E, pronunciadas aquelas palavras, Cairpré deixou a fortaleza. Bress ouviu a maldição lançada por Cairpré e, muito assustado, foi a Tara encontrar-se com os nobres das tribos de Dana na casa real. «Porque é que me obrigaram a ouvir a sátira de Cairpré?», perguntou ele. «Um rei deve estar imune a qualquer maldição, seja de que tipo for.» «A razão é que tu não te comportas como um rei», respondeu Dagda. Para além de não seres generoso conosco, fizeste de nos escravos e obrigas-nos a pagar elevados impostos em benefício dos Fomore. «A verdade», acrescentou Cian, filho de Diancecht, «é que nós nunca deveríamos ter firmado uma aliança com os Fomore. Eles só nos deixaram conquistar esta ilha aos Fir Bolg para poderem depois dominar-nos e tirarem dividendos da nossa vitória, e tu nada fizeste para evitar que eles nos prejudiquem.» «Nós fizemos de ti rei», retomou Dagda, «porque, o nosso rei tinha perdido um braço em combate. Tu tinhas dois braços, mas eles de nada nos valeram pois não serviram para criar riqueza e prosperidade.» «O que é que eu podia ter feit o», perguntou Bress. «Eu digo-vos qual é a minha opinião», disse Dagda, «Agora que o braço que faltava foi restituído a Nuada, ele deve ser o nosso rei. Pedimos-te que abdiques do trono, pois, devido à sátira que sobre ti foi lançada, o teu reino está condenado a não dar frutos: faltarão as ervas nos prados para seus animais pastarem, as vacas não darão leite, os campos tornar-se-ão estéreis. Se insistires em ser rei, nada de bom poderemos esperar para o nosso rei o.» n «Nesse caso abdicarei do trono», disse Bress. «Concedeime algumas garantias, e reconhecerei Nuada como nosso rei.»

Os nobres das tribos deram algumas garantias a Bress, filho de Elatha, prometendo-lhe que seria sempre bem vindo à casa real e que jamais deixaria de ser convidado para os festins. Então, ele pediu um prazo de sete dias, que lhe foi dado, deixando depois a casa real de Tara. Mas o pedido de um prazo deveu-se a um desejo de vingança, tendo ele ficado furioso por ter sido privado do trono que lhe dava o poder de reinar sobre a Irlanda. Foi encontrar -se com a mãe, Eri, e perguntou-lhe corno é que havia de encontrar o pai, Elatha, filho do rei dos Fomore. «Vem comigo, que não terás dificuldade em achá -lo», disse-lhe a mãe. Ela encaminhou-se para a praia e mandou aparelhar barcos para navegarem para o país dos Fomore. Depois, tirando o anel de ouro que lhe tinha sido dado por Elattia quando viera ao seu encontro, estendeu-o para Bress. Bress pô-lo no dedo do meio, ao qual ele se adaptou perfeitamente. Até àquela altura, Eri tinha-o guardado religiosamente, não o tendo vendido ou dado a nenhum homem. Apesar disso, muitos guerreiros tinham tentado enfiá-lo no dedo, sem êxito, pois aquele anel não se adaptava a nenhum dedo dos guerreiros. Mãe e filho partiram então para o país dos Fomore, situado numa ilha envolta em nevoeiro. Desembarcaram e avistaram uma grande planície onde havia varias assembléias. Dirigiram-se para aquela que lhes pareceu mais bela, e as pessoas que aí se encontravam perguntaram-lhes por novidades, respondendo eles que tinham vindo da Irlanda. Perguntaram-lhes então se tinham cães, pois naquele tempo era costume, sempre que pessoas de fora chegavam a uma assembléia, realizaremse competições e Jogos. «Sim, temos», respondeu Bre ss, «e temos todo o gosto em que eles participem em jogos com os vossos.» Soltaram então os cães, e estes fizeram corridas contra os dos Fomore, destacando-se graças à sua imensa velocidade. Perguntaram cristão aos recémchegados se tinham cavalos e se permitiam que eles

Competissem com os dos Fomore «Temos», respondeu Bress, «e é para uma grande prazer que compitam com os vossos.» E os cavalos das tribos de Dana foram mais rápidos do que os dos Fomoire. Perguntaram então aos recém-chegados se tinham trazido com eles alguém perito em desembainhar a espada. Mas os companheiros de Br ess, apesar de muito se esforçarem, não consegLiram ser mais rápidos que os Fomore. Então Bress tentou a sua sorte, mas assim que pôs a mão na espada o pai reconheceu o anel de ouro que tinha na mão e perguntou-lhe quem era ele. A mãe respondeu por ele, dizendo a Elatha que Bress era um dos seus filhos, e em seguida contou-lhe toda a história desde que o guerreiro estrangeiro se fora encontrar com ela. O pai compreendeu que o filho estava ali devido a uma situação grave, e perguntou-lhe: «O que é que te fez deixar o país de que és rei?» «O motivo é simplesmente a injustiça e a arrogância com que tratei os meus súditos. Eu privei-os dos seus bens e dos seus alimentos, fazendo-os passar por uma terrível humilhação e por uma situação extremamente injusta.» «Isso é mau», disse o pai. «Teria sido preferível que o teu reino fosse prospero, pois um reino rico faz do seu rei um homem rico. Além disso, é muito mau ter de ouvir maldições.» «Revoltados comigo» continuou Bress, «os meus súditos enviaram ao meu encontro um poeta que lançou um feitiço sobre o reino que durará enquanto eu for rei.» «Estás a dar -me péssimas notícias», disse o pai, «pois se o teu povo ficar na penúria, não poderá pagar-nos os impostos que lhes impusemos. E porque é que vieste até aqui, tendo deixado a longínqua Irlanda?» «Vim pedir campeões para me ajudarem», respondeu Bress, «pois é minha pretensão reconquistar o país pela força.» «Se em tempo de paz não conquistaste o teu país, não será pela força que consegLirás conquistá-lo. Temos de ter uma conversa.»

Então, ele levou Bress à presença do pai, Indech, rei dos Fomore. O rei convocou os nobres e os campeões entre os quais se destacava Balor, filho de Net, que tinha um olho maléfico. Estudaram a situação e concluíram que, a menos que o trono da Irlanda fosse devolvido a Bress, filho de Elattia, eles perderiam todos os privilégios que lhes advinham de tributarem impostos às tribos de Dana. Os Fomore reuniram por isso uma multidão de homens de todas as ilhas e decidiram partir para a Irlanda. Aí chegados, os cobradores de impostos reclamariam o tributo devido e, se os homens de Dana se recusassem a pagar, iniciar-se-ia uma guerra contra eles. E foi assim que a Irlanda viu aproximar-se um exército poderosíssimo e temível, como jamais se vira. Entretanto, os nobres e os campeões das tribos de Dana tinham-se reunido à volta do seu rei Nuada do Braço de Prata, no palácio real de Tara. Sabendo que B ress os trairia e que iria pedir auxilio aos Fomore, tinham decidido preparar-se para combater aqueles inimigos cruéis e impiedosos. A reunião decorria na casa real, enquanto o porteiro se mantinha vigilante no exterior da fortaleza. Ora, ao perscrutar o horizonte, ele viu um exército que, avançando pela planície, vinha direito para a fortaleza. Um jovem destacava-se à frente do exército, parecendo exercer um ascendente sobre os seus companheiros. O rosto brilhava-lhe como a luz do sol, e as suas feições muito amplas resplandeciam como ouro. Vinha montado num cavalo cuja crina era tão bela como as ondas do mar e que avançava tão rapidamente conio a nortada fria e cortante da Primavera. Envergava uma armadura cintilante e na cabeça tinha um capacete belo e suntuoso que brilhava, estando ornado com uma rica pedra preciosa atrás e outras duas à frente. Trazia também uma espada maravilhosa, que matava quem quer que por ela fosse ferido, e que

Comment [U55]: l¶ Segundo a narrativa de A segunda batalha de Mag-Tured, primeira versão.

tomava fraco como uma mulher em trabalho de parto quem quer que a visse reluzir no ardor da luta., Destacando-se dos companheiros de armas, o jovem avançou para o porteiro. «Quem és tu?», perguntou -lhe este. «Chamam-me Lug do Braço Longo. Sou filho de Cian, filho de Diancecht, e de EtImé, filha de Balor das ilhas que ficam para lá do nevoeiro. Fui criado por Tailtiu, filha de Maginor, dos Fir Bolg.» «Muito bem», disse o porteiro, «e que desejas tu, filho de Cian?» «Quero dirigir-me à assembléia dos nobres e dos campeões das tribos de Dana», respondeu Lug. «Isso era bom», disse o porteiro, «mas fica a saber que ninguém é admitido na assembléia da casa real de Tara se não possLir o dom de uma arte, seja ela qual for. O que é que tu sabes fazer?» «Muitas coisas... Sei constrLir vigas para o teto das casas e edificar paliçadas ao redor das fortalezas.» «Não duvido da tua arte, mas nós já temos um carpinteiro. Chama-se Luchté, é filho de Luachaid, e servenos perfeitamente sempre que queremos edificar entrincheiramentos ou constrLir vigas no teto das casas.» «Eu também sou capaz de forjar relhas do arado e armas com pontas bem afiadas», replicou Lug. «Sei bater o metal quando ele sai da forja e talhar os objetos à minha maneira.» «Não duvido das tuas capacidades», retorquiu o Porteiro, «mas já temos um ferreiro que se chama Goibmu, que é inigualável nas artes do metal.» «Eu também sou um campeão imbatível no campo de batalha», disse Lug. «Pois que isso te faça bom proveito! », exclamou o porteiro, «mas nós já temos um campeão que se chama Ogma. Sozinho ele é capaz de vencer em combate uma centena de homens armados.» «Eu também sou tocador de harpa», insistiu Lug, «e sei provocar alegria, tristeza e sonolência.» «Quanto a isso», objetou o porteiro, «ternos também quem nos satisfaz. Craffine e o nosso tocador de harpa e, além disso, o nosso protetor Dagda possui uma harpa mágica

com a qual é capaz de provocar todos os estados de espírito. A harpa sai por ela própria da parede a que está encostada e, espontaneamente, vem parar às mãos de Dagda. Como vês, não precisamos de ti nesta assembléia real.» «Além disso sou poeta e contador de histórias», disse Lug. «Conheço as histórias de tempos passados, e sou capaz de as contar a quem quer que peça para as ouvir. Sou a memória viva das tribos de Dana e de todos os povos do mundo.» «Nós já temos um poeta, Cairpré, filho de Etame. Ele conhece tudo o que aconteceu no mundo desde a sua criação, e tem o dom de contar os acontecimentos. Se queres que te diga, não sei o que poderias fazer por nós.» «Mas também sou feiticeiro», insistiu Lug. «Conheço os feit iços que são necessários para congelar as fontes, impedindo a água de flLir, e para evitar que os homens ouçam o tumulto do combate. Conheço os sortilégios que desencadeiam as tempestades e que fazem com que as brumas avancem para os inimigos.» «Também nesse particular», replicou o porteiro, «nós estamos melhor servidos do que qualquer outro povo. Temos entre nós diversos sábios e feiticeiros que conseguem dominar o vento, a chuva, o mar e a terra. Temos também três magas, Bobdh, Macha e Morrigane, que são as filhas de Errimas. As três têm o dom de lançar feitiços durante os combates e de fazer com que caia chuva de sangue sobre os inimigos.» «Está bem ... », insistiu Lug, «mas eu sou médico e possuo a arte de sarar as feridas sofridas em combate.» «Tu de nada nos servirias», respondeu o porteiro, «pois temos o mais dotado médico do mundo. Chama-se Diancecht, e tanto o seu filho como a sua filha são capazes de fazer prodígios.» «Sou também copeiro real», disse Lug. «Num festim sou capaz de distribLir a cerveja e o hidromel por todos os assistentes e de acordo com a categoria e o valor de cada pessoa.» «Nós não precisamos de ti para nada», respostou o porteiro, «pois entre nós existe um copeiro real que não tem ninguém igual no mundo. Ele serve a cerveja e o hidromel com sabedoria, e sem melindrar seja quem

Comment [U56]: 2, Trata-se de Lug do Braço Longo, o Artesão-Múltiplo. Esta descrição muito «solar» e feérica da Personagem foi tirada da narrativa Sort des enfants de Tuirenn.

for. Podes ver, portanto, que há entre nós homens de arte e de ciência, homens e mulheres que conhecem todos os segredos do mundo.» «Pois bem! », disse Lug, «vai fal r a com o teu rei e pergunta-lhe se conhece alguém que reuna numa só pessoa todas as qualidades que eu acabo de te enunciar. Se a sua resposta for afirmativa, eu renuncio a entrar na casa real de Tara.» Então o porteiro entrou na fortaleza e dirigiu-se à casa onde à volta do rei Nuada do Braço de Prata estava reunida a assembléia de nobres e de campeões das tribos de Dana. «Rei supremo», disse ele, «já fora, à entrada da fortaleza, está um jovem guerreiro que diz chamar-se Lug, filho de Cian, e que se diz perito em todas as artes que se praticam nesta casa. Nunca vi nada parecido: é um homem que sabe fazer tudo e que é um Artesão-Múltlplo. Então, Nuada pediu ao porteiro para ir buscar o jogo de xadrez de Tara e para fazer uma partida com o jovem guerreiro. O porteiro disputou um jogo de xadrez com Lug, e este ganhou a partida. Sem perda de tempo, o porteiro foi informar Nuada e os chefes das tribos de Dana sobre o ocorrido. «Fá-lo, pois entrar na casa real», disse Nuada, «pois amais ouvi falar em alguém que seja capaz de tantos prodígios.» O porteiro foi então chamar Lug e fê entrar -lo na fortaleza, encaminhando-o depois para a casa onde estava reunida a assembléia. Aí chegado, Lug tomou lugar no assento reservado aos sábios, pois, como era evidente, ele era a pessoa mais sábia que alguma vez estivera na presença dos nobres e dos campeões das tribos de Dana. Entrementes, Ogina foi buscar a grande pedra que se encontrava no exterior da casa, e que só podia ser levantada com o esforço de vinte e quatro homens; arrastando-a através da casa, depositou-a aos pés de Lug,

sendo lançado um desafio a este. Ora, o jovem guerreiro, sem pronunciar uma palavra, ergueu-se, agarrou a pedra, e com um único movimento levantou-a na vertical, fazendo-a depois retomar o lugar onde estivera. «O jovem guerreiro que toque harpa!», disse então Dagda. «Precisamos de música para ficarmos em boa forma.» Lug segurou a harpa de Dagda que estava encostada à parede e, trata-se de um protótipo do célebre «Assento Perigoso», que, na Távola Redonda, está reservado apenas a predestinados. Dirigindo-se à assembléia, tocou com tal perfeição uma música sonolenta que todos dormiram um dia inteiro, desde aquela hora até mesma hora do dia seguinte. Depois tocou uma música que fazia rir, e todos ficaram alegres e bem dispostos durante muito tempo. Por fim, tocou uma música triste, e todos mergulharam numa profunda angústia durante a noite e até à mesma hora do dia seguinte, lamentando-se e choramingando. Quando Nuada do Braço de Prata chegou à conclusão de que o jovem guerreiro possuía poderes que ninguém mais tinha, ponderou um momento e pensou que talvez Lug pudesse libertá-los do jugo dos Fomore que oprimia as tribos de Dana. Consultou os nobres destas tribos e, a seu conselho, levantou-se do seu assento e pediu ao jovem guerreiro para nele se sentar. Lug do Braço Longo sentouse então no assento real, embora não fosse rei, e Nuada ficou de pé diante dele treze dias e treze noites. Depois disso, o rei foi encontrar-se com Dagda e Ogma para lhes dizer em segredo que era aconselhável confiar a Lug, filho de Cian, a chefia da guerra que iam travar contra os Fomore. Ogina e Dagda aprovaram a idéia e foram da opinião de que Lug deveria ter a última palavra sobre o modo como o combate devia ser travado. Foram então reunir-se com ele para o consultarem. Após refletir durante alguns instantes, Lug perguntou ao ferreiro Goilmiu que contributo ele lhes poderia dar. «Não te

Comment [U57]: 1. Em gaélico, «Samildanach, um dos numerosos epítetos de Lug. Esta personagem divina, cornum ao conjunto do mundo celta, está com efeito «para além das funções», ou seja, reúne em si todas as funções atribuídas à divindade única que parece ter sido a dos celtas. Trata-se do «Mercúrio» gaulês de que fala César nos seus comentários, deus que, segundo o Procônsul, era o mais venerado e aquele a quem foram consagrados mais simulacrum,

Comment [U58]: 2. ou, dito por outras palavras, pilares de madeira ou de pedra.

preocupes», respondeu Goibrtiu. «Podem os homens da Irlanda estar em guerra durante sete anos, e por cada ferro do dardo que saia da haste, ou por cada espada que se parta, eu substitLirei a peça em falta. Qualquer ponta de armamento que saia da minha forja será de tal modo eficaz que o corpo em que penetrar perderá todo o vigor. Nem o ferreiro dos Fomore será capaz de tal artifício. Pela minha parte, estou pronto para a batalha, e darei todo o apoio a todos os que estiverem em apuros.» «E tu, Diancecht», retomou Lug, «que podes fazer por nós?» «Não te preocupes: saberei cuidar de todos os feridos e de os recuperar para as batalhas seguintes, a menos que os matem ou lhes cortem as goelas.» «E tu, Credné», perguntou Lug ao artíficie do bronze, «que grande contributo nos poderás dar na batalha?» «Não te preocupes: fornecerei rebites de dardos, punhos de espadas, bocetes e guarnições de escudos.» «E tu?», dirigiu-se Lug ao carpinteiro, «que grande contributo nos poderás dar, frente aos Fomore?» «Não te preocupes: fornecerei a todos os escudos e as lanças de madeira de que precisarem, e substitLirei instantaneamente as armas que ficarem danificadas no ardor do combate.» «E tu, Ogma?», interrogou então Lug o campeão, «o que farás na batalha contra os Fornore?» «Não te preocupes: fazendo recuar o rei dos Fomore e três novenas dos seus guerreiros, farei com que os homens da Irlanda fiquem desde logo com um terço da vitória ganha. Nenhum inimigo conseguirá resistir aos golpes que eu infligir.» «E tu, Morrigane» dirigiu-se Lug à maga, «que grande contributo será o teu nesta batalha?» «Não te preocupes: tudo o que eu quiser alcançarei, graças ao poder dos meus feitiços. A minha arte aterrorizará de tal modo os Fomore que a planta dos seus pés ficará branca, e os seus campeões morrerão uns a segLir aos outros devido à retenção da urina. Quanto aos outros guerreiros, fá-los-ei ter tanta sede que ficarão enfraquecidos, e farei com que todas as fontes fujam deles de modo a não poderem matar a sede. E enfeitiçarei as

árvores, as pedras e as elevações de terra de tal modo que, confundindo-as com contingentes de homens armados, os inimigos nelas se perderão cheios de terror e de pânico. «E tu, Cairpré, tu que nos encantas os ouvidos com os teus cantos melodiosos», interrogou Lug o poeta, «que surpresa agradável nos reservas nesta batalha?» «Não te preocupes: frente às hostes dos Fomore cantarei a glória dos nossos pais, os filhos de Nemed. Depois enfeitiçá-los-ei e lançar-lhes-ei o glam dicin mais poderoso que alguma vez existiu na Irlanda. Desse modo a honra dos Fomore cairá por terra e eles não resistirão à investida dos nossos, o que, podes crer, Lug, filho de Cian, sem dúvida se deverá à magia da minha arte». Então, Lug do Braço Longo virou-se para os diruidas que se encontravam na assembléia e perguntou-lhes: «E vós, druidas das tribos de Dana, que proezas fareis durante a batalha?» «Não te preocupes: desencadearemos tantas tempestades e tantas chuvas de fogo sobre os Fomore que eles nem serão capazes de levantar a cabeça e sucumbirão às mãos dos vigorosos guerreiros que investirão contra eles. E se isso não for suficiente, faremos desaparecer as fontes, os rios e os lagos da Irlanda para que os Fomore não possam saciar a sede que lhes secará as gargantas durante a batalha. Essas são as proezas que faremos, ó sábio Lug do Braço Longo, filho de Cian.» « tu, E Craftiné», continuou Lug, dirigindo-se ao harpista, «que feito porás em prática nesta batalha?» «Não te preocupes: tocarei músicas e melodias tão doces aos nossos guerreiros que eles mergulharão num repousante sono até à manhã seguinte. Depois disso, irei combater e matarei o maior número de inimigos possível.» «E tu, Bobdh Derg, filho do valente Dagda». prosseguiu Lug, «que podemos esperar de ti?» «Não te preocupes: irei combater e logo na minha primeira investida farei com que caiam a meus pés, vítimas dos meus golpes, mais de uma centena de guerreiros Fomore. E não deixarei de os persegLir para os

Comment [U59]: 1. O tema das «árvores que combatem» encontra-se em toda a tradição celta, inclusivamente na recolha feita por Tito Lívio na sua História Roinana, embora ele a apresente sob uma forma racionalizada. Ver J. Markale, Le Druidisme, nova edição, Paris, Payot, 1994 (capítulo sobre «o visco e o ritual vegetal»). Comment [U60]: 2. O glam dicin é a maldição suprema utilizada pelos druidas. É um feitiço mágico acessível a todos os membros da classe sacerdotal, e portanto também aos poetas e a fortiori aos druidas propriamente ditos, adivinhos e mágicos de toda a espécie, assim como aos heróis ou heroínas que mais se destacam. Tem algo de comum com o não menos poderoso geis, às vezes traduzido incorrectamente por tabou, e que é uma obrigação mágica - e social itriposta a um indivíduo. Aquele que, por um motivo qualquer, recuse um geis é rejeitado pela comunidade; mas aquele que seja atingido por um glam dicin não tem outra saída senão sofrer passivamente o feitiço. Parece que, após a cristianização da Irlanda - ao menos a crer na tradição hagiográfica - um certo número de padres e de monges praticaram uma forma atenuada do glam dicin contra não cristãos ou contra indivíduos culPados de um grande mal, em geral de natureza religiosa.

eliminar e para Os matar até ao último dos seus homens.» «E tu, Dagda, o mais sábio de nós todos», continuou Lug, «que proezas nos reservas durante a batalha contra os Fomore?» «Não te preocupes: tomarei a dianteira dos homens da Irlanda e serei o primeiro a avançar contra os guerreiros que nos vêm fazer frente. Bater-me-ei contra eles com tal vigor que arrasarei, corri sortilégios e com armas, todos aqueles que tentarem resistir. Os ossos dos meus adversários transformar-se-ão em migalhas de tanto eu lhes bater com a minha moca, e as migalhas serão dispersas parecendo saraiva pisada pelo casco dos cavalos depois de uma tempestade. No auge da batalha, mesmo se estiver cheio de chagas e de feridas, eu não vos faltarei com a minha assistência e a minha proteção.» «E tu. Mananann, filho de Lir, senhor das ilhas distantes», perguntou Lug, «que grande feito realizarás na luta contra os Fomore?» «Não te preocupes: agitarei tão habilmente o meu manto entre os Fomore e os nossos heróis que os Formoire nem se lembrarão da razão que os levou até à planície.», por fim, Lug virou-se para Nuada do Braço de Prata. «E tu, Nuada», dirigiu-se-lhe ele, «rei supremo da Irlanda, que proeza irás protagonizar na batalha contra os Fomore?» «Não te preocupes», respondeu Nuada. «Na qualidade de vosso rei estarei entre vós, mas não combaterei. Estarei, no entanto em condições de dar de comer a todos os guerreiros que estarão sob a tua chefia, e não deixarei que a fome ou a sede se instalem entre eles enquanto durar a batalha.» Foi assim que na casa real de Tara, no meio de uma assembléia de nobres e de chefes das tribos de Dana, Lug do Braço Longo, filho de Cian, falou com todos eles na intenção de preparar a grande batalha que tinha de ser travada para acabar com a escravidão imposta pelos Fomore. E o discurso que ele fez perante todos foi de tal modo convincente, que o seu espírito mais parecia o de um rei ou de um príncipe. Passou-se isto uma semana antes

da festa de Samain. Findo isto, Lug separou-se daqueles nobres e chefes das tribos de Dana e marcaram um encontro para a véspera de Samain. Mas, antes de deixar a assembléia, Lug, pediu a Dagda para que estivesse atento a chegada dos Fomore, que deveria ser retardada o mais possível de modo a que o combate pudesse ser preparado com todas as cautelas. E Dagda prometeu a Lug satisfazer o seu pedido, pois ele era o protetor das tribos de Daria e devia, acontecesse o que acontecesse, velar pela proteção do seu povo. Dagda mandara constrLir uma casa no norte, no vale de Etin. E como ele combinara encontrar-se aí com uma mulher, não se demorou em Tara, partindo apressado para norte de forma a estar em casa no dia e à hora que havia combinado. Perto de casa, à entrada do vale, corriam dois ribeiros, um para oeste, na direção de Connaught, e o outro para norte, em direção ao UIster. À chegada, Dagda viu a mulher a lavar-se, banhando delicadamente o pé direito no ribeiro que corria para Connaught e o pé esquerdo no que corria para o Ulster. Esta mulher era nem mais nem menos do que Morrigane, filha de Eminas, a maga das tribos de Dana. Ora, ao observar o espanto de Dagda por vê-la lavar os pés em dois ribeiros diferentes, ela disse: «Não te admires. Assim eu envio os meus sortilégios para Connaught e para o Ulster, pois será na confluência destas duas províncias que se travará a batalha contra os Fomore.» «Podes vir falar comigo por um momento?» perguntou Dagda. «Não é altura para isso», disse Morrigane. «Parece-me que temos outra coisa a fazer, como ficou combinado.» «Está bem», disse Dagda, «Mas foi a teu pedido que marquei o encontro aqui. Porque é que temos sempre de nos encontrar em segredo, às escondidas de todos, sem o conhecimento dos

Comment [U63]: 2. A grande festa celta do início de Novembro. Note-se que todas as batalhas épicas se travam sempre por ocasião das festas celtas, mormente a «Beltaiiie», no início de Maio (chegada das tribos de Dana), ou a «Lugnasad», no princípio de Agosto. Significa isto que as batalhas grandiosas são sobretudo simbólicas e referem -se a rituais religiosos muito antigos, assinalados pela mudança de tendências ou pela substituição de soberanos. Comment [U61]: 1. A moca de Dagda é célebre na tradição irlandesa. Outro texto explica que, ao bater noutro homem com uma ponta da moca, Dagda matava-o, e se lhe batesse com a outra ponta da moca, ressuscitava-o. Isto tinha que ver com a ambiguidade deste «Bom Deus», como ele se chamava. Parece que Dagda poderá ser identificado com o «Deus do Maço» frequentemente representado na estatuária galo-romana e que, com o epíteto frequente de Sucellos, ou seja, «Soco Duro», é provavelmente um outro aspecto do Taranis gaulês, que personifica o trovão. A imagem de Dagda com a moca é muito frequente no mistérios o «Homem Selvagern», rústico a quem obedeciam os animais selvagens e que se encontra em diversos contos populares, assim como em romances do ciclo arturiano. Comment [U64]: 3. Segundo a narrativa de A segunda batalha de Mag-Tured, primeira versão, com alguns Pormenores retirados da versão posterior. Esta, diferente da primeira, encontra-se no manuscrito 24 P 9 da Academia Real Irlandesa de Dublin e foi publicada por Brian O¶Cuiv em Dublin, em 1945. A única tradução atualmente existente é a francesa, de Ch.-J. Guyonvare¶h, Textes mythologiques irlandais, Rennes, 198o. Comment [U62]: 1. O manto mágico de Mananann também é célebre na tradição celta: é um objecto mágico que faz com que se esqueçam alguns dos acontecimentos mais recentes. A personagem de Mananann, pouco referenciada nas narrativas que dizem respeito ao estabelecimento das trib os de Dana na Irlanda, tamanho destaque depois da partilha da ilha entre as tribos de Dana e os filhos de Milé, ou seja, os GaéIs [Gaélicos em português - N. T.], pois ele tornar-se-á o rei supremo do «povo feérico», dito de outro modo, as gentes das tribos de Dana que residem nos «sidhs», os grandes Tumulms megalíticos. ... [6]

homens das tribos de Dana?» «Tu sabes perfeitamente que eles não suportariam saber que estou em tua companhia. Se o soubessem, teriam um ciúme mortal que se abateria sobre ti.» «No entanto», disse Dagda, «eu não sou o único homem que tem a honra de se poder encontrar c ontigo.» «É verdade, Dagda, mas ninguém o deve saber. Pois, aos olhos dos homens das tribos de Dana, eu sou livre, e todos esperam ser desejados por mim. Haveria muitos corações destroçados e inconsoláveis se os meus encontros fossem conhecidos.» Saindo então do ribeiro que corria para o Ulster, Morrigane avançou para Dagda. Trazia consigo um vestido vermelho cor de sangue, nove tranças saiam da sua cabeleira. «Desata os meus cabelos», disse ela. Dagda pegou nas tranças, desatou-as uma a uma, e a cabeleira de Morrigane, que era negra como as penas do corvo, caiu sobre os ombros e escorreu ao longo do corpo até roçar ao de leve na cintura. Estendendo-se na relva, chamou-o: «Agora vem.» Dadga deitou-se a seu lado e ela apertou-o contra as suas coxas. Aquele lugar onde eles se uniram chama-se agora Leito do Casal. Terminado o ato, Dagda levantou-se e disse: «Vou deixar-te, pois tenho a missão de identificar o lugar onde estão estabelecidos os Fomore, devendo depois retardá-los o mais possível para que as tribos de Dana se possam preparar para a batalha.» «Eu posso ajudar-te», disse Morrigane. «Estás a ver o bando de pássaros negros que voam por cima das nossas cabeças? Eles vêm de leste, e se voam na direção do sol poente, é porque um terrível exército os assusta. Não é difícil perceber de onde eles vêm, tão desnorteados: vêm da planície de Scene, Junto ao Woral. Foi aí que os Fomore desembarcaram em massa e é aí que estão as suas hostes.» «Nesse caso, vou à planície de Scene», disse Dagda. «Observarei os seus movimentos e verei o que posso fazer para lhes retardar a

expedição. E tu, o que vais agora fazer?» «Em primeiro lugar, vou esperar por um momento propício», respondeu Morrigane, «depois intrometer-me-ei entre os Fomore e pedirei para ver o rei. Deixar-me-ão passar porque sou uma mulher bela e atraente, e entrarei na tenda do rei Indech. Quando ele quiser saciar os seus desejos comigo, farei com que o seu coração se Parta e os seus rins se diluam em sangue. Nessa altura, irei mostrar os restos do rei às tribos de Dana e, tomando conhecimento de que os Fomoré perderam o rei, elas partirão para a batalha com uma coragem acrescida.». Nisto, Dagda separou-se de Morrigane e dirigiu-se diretamente para a planície de Scene. Chegando aí, ficou a observar demoradamente a atividade dos Fomore, e depois decidiu ir ao encontro dos guardas pedindo-lhes para falar aos Fomore sobre as convenções que deveriam ser respeitadas na batalha. Conduziram-no então à presença de Indech, rei dos Fomore que o recebeu com deferência, pois sabia que Dagda era um sábio entre os homens de Dana. Falaram sobre o lugar onde deveria decorrer a batalha e do dia em que ela se deveria iniciar. Depois, o rei, querendo tratar o hóspede com todas as honras, ordenou aos criados e aos cozinheiros que lhe dessem de comer. Os Fomore começaram por lhe dar a beber grandes quantidades de cerveja e de hidromel, podendo ele saciarse à sua vontade. Depois prepararam-lhe uma papa de farinha pois sabiam que era um alimento da sua preferência, mas ao fazê-lo, tinham em mente troçar dele e pôr a nu a sua gulodice. Para o satisfazerem encheram então o caldeirão do rei que era muito grande, cabendo nele cinco homens fortes, com leite fresco, farinha e banha, em idênticas proporções. E como isso não era suficiente, deitaram para dentro do caldeirão cabras, carneiros e

Comment [U65]: 1. Morrigane, filha de Étrange (Ernmas), é uma personagem extremamente misteriosa. É a imagem arcaizante de uma deusa da guerra, da sexualidade e da magia, estando estes três domínios indubitavelmente associados à tradição celta em que os guerreiros recebeu, duma mulher a iniciação sexual, mágica e guerreira (por exemplo, Perceval, com as feiticeiras de Kaerloyw no ciclo do Graal). Mas Morrigane apresenta aqui o seu aspecto mais terrível, fazendo lembrar claramente a Judite bíblica, e sobretudo Kali, a Negra, da tradição indiana, deusa da vida e da morte, que muitas veze 1s é representada como a castradora por excelência. Além disso, impõe-se uma comparação muito óbvia entre ela e a fada Morgana das narrativas arturianas, mesmo tendo ela perdido alguma da sua rudeza primitiva e tendo-se tornado uma espécie de símbolo sexual.

porcos que cozeram com a papa de farinha. Depois, como era impossível comer de uma vez toda a comida do caldeirão escaldante, fizeram uma cova no solo e deitaram para lá tudo o que ele continha. Quando Dagda viu a refeição que lhe tinham preparado, começou por se queixar dizendo que não estava habituado a ser servido de forma tão rude e altiva. Mas o rei dos Fomore foi ter com ele e ameaçou-o de morte se não comesse tudo o que estava na fossa. Segundo ele, desse modo Dagda não se iria queixar de que os Fomore não sabiam tratar bem os seus hóspedes. Percebendo que não poderia recusar, Dagda pegou na colher, que era de tal maneira grande que um homem e uma mulher se poderiam deitar ao fundo dela. E cada colherada que ele tirava da fossa obrigava-o a devorar meio-porco, um pernil de ovelha ou de cabra «Que saborosa deve ser a carne, se o cheiro não me engana ... », disse Dagda. E pôs-se a comer deliciando-se com as papas de farinha e a carne. Os Fomore observavam-no cheios de curiosidade, e troçavam do modo como ele devorava o conteúdo da sua colher. Quando repararam que ele rapava o fundo, por não estar ainda satisfeito com tudo o que havia dentro da fossa, ficaram embasbacados, pois nunca tinham visto ninguém com tanta gula. Entretanto, Dagda sentia-se entorpecido, estando a sua barriga tão curva como o maior caldeirão que alguma vez existira na casa do rei. Deitou-se no chão e não tardou a adormecer, enquanto os Fomore à sua volta não paravam de se rir e de se divertir à sua custa. Diziam eles: «Se todos os heróis das tribos de Dana são como este, como é que nos havemos de espantar que eles não nos queiram dar o trigo e o gado que, na qualidade de vassalos, nos devem?»

E acrescentavam: «Pelo que estamos a ver, será para nós uma brincadeira vencê-los pelas armas!» Por fim Dagda acordou, não sabendo onde estava. Ao ver que os Fomore troçavam dele, ficou furioso. Estava tão entorpecido que preferiu não dar troco à zombaria deles. Depois de se despedir, começou a caminhar para a assembléia de Tara para contar o que vira e a experiência por que passara. Mas a barriga estava tão grande que lhe era difícil caminhar, tendo de parar várias vezes. Estava com um aspecto deplorável, pois a saliência das nádegas aparecia à mostra por baixo da túnica, e o seu membro viril, que era comprido, estava perfeitamente escancarado. Arrancara um ramo duma árvore e servia-se dele como se fosse uma bengala, mas era tanta a força com que se apoiava nele que ia deixando atrás de si um risco profundo que daria para traçar a fronteira de uma província. Quando estava a chegar a um vale, viu uma jovem a lavarse num ribeiro. Como ela era muito bela, com tranças na cabeça e formas muito atraentes, encheu-se de desejo por ela. Disso se apercebendo, a moça não o rejeitou, e deitaram-se na erva, perto do ribeiro. Apesar disso, Dagda estava tão pesado que não conseguiu unir-se à jovem, que se ergueu e fez troça dele. Furioso e com ímpetos violentos, Dagda quis bater na insolente, rnas ela furtou-se e começou a correr. Dagda levantou-se com dificuldade e, percebendo que não poderia apanhá-la, lançou-lhe pedras, mas não a atingiu. Então, enfurecido, jurou vingar-se massacrando todos os Fomore que apanhasse pela frente na batalha, pois eram eles os culpados pela sua vergonhosa situação. A seguir, retomou a marcha em direção a casa real de Tara. Enquanto isto acontecia, os Fomore, depois de terem preparado as lanças, as espadas e os escudos, reuniram -

Comment [U66]: Por trás de uma farsa de mau gosto, o episódio tem por base uma certa realidade. Achados arqueológico antropológicas provaram que os homens da Idade do s e experiências Bronze e depois do Ferro possuíam uma espécie de cozinha ao ar livre. Cavava -se uma fossa que se cobria com tábuas ou pedras secas e na qual, depois de ela ter sido enchida com água, se mergulhava a caça envolvida em palha e temperada com aromas e alho selvagem. Depois juntavam -se pedras aquecidas numa fogueira de modo a cozer os ali mesrno a uma temperatura moderada, prática que a todos os níveis está em conformidade com a dietética moderna.

Comment [U67]: 1. Aqui transparece o aspecto gigantesco de Dagda. É um gigante que carrega uma moca, sexualmente insaciável e incrivelmente glutão. Representa o poder de absorção atribuído à divindade, traço de personalidade que se encontra bem evidente nos Gargantua e nos Pantagruel, os quais, antes de serem os heróis de Rabelais, eram personagens divinas tornadas folclóricas. Gargantua vem a ser o gigante Gwrgwnt das antigas lendas celtas, significando o seu nome «da perna curva». Quanto a Pantagruel, é uma espécie de demónio medieval que enche de sede os seus inimigos atirando -lhes sal. o Dagda irlandês é uni dos aspectos que toma esta personagem saída da mais remota mitologia.

se à volta do rei, Indech, cheios de coragem e de determinação, prontos para avançarem sobre a planície de Tured onde tinham combinado com Dagda travar a batalha. «Os homens da Irlanda são uns convencidos, por se atreverem a querer combater contra nós», disse Indech. «Tenho a impressão que eles ficarão reduzidos a migalhas e que os seus ossos serão poeira no dia a segLir à batalha.» «Rei supremo», interveio então Bress, filho de Elatha, «seria bom que fizéssemos uma última tentativa para evitar a confrontação.» «És covarde?», gritou Indech. «Tens medo de medir forças com os guerreiros das tribos de Dana?» «Claro que não, rei supremo», respondeu Bress. «Se falo assim, é no interesse de todos. Pelo que me toca, estarei a vosso lado no combate e, aconteça o que acontecer, portar-me-ei como um rei. Mas se exterminarmos os homens da Irlanda, esta ilha ficará deserta e não haverá mais ninguém para cultivar os campos e para criar o gado. Que ganharíamos com isso? As vossas próprias terras são ilhas no meio do nevoeiro, e é de todo o interesse para vos manter os homens da Irlanda sob o vosso domínio para que eles criem riqueza e comida em abundância. Seria de todo o interesse para vós que Os homens da Irlanda, temendo o vosso poder, permitissem que eu Voltasse a sentar-me no trono, pois assim eu poderia dar-vos o que vos Pertence.» «Penso que tens razão», disse Indech. «Mandemos uma vintena de homens à Irlanda para lhes pedir que paguem o que nos devem e que reconheçam Bress como rei supremo. Se eles aceitarem estas nossas últimas propostas, se nos pagarem o tributo, abster-nos-emos de os combater e voltaremos para as nossas ilhas. Mas se eles recusarem, terão de travar um combate mortal e de desaparecer desta terra da qual passaremos a ser os únicos senhores.» O rei dos Fomore deu ordens para que uma vintena dos seus homens mais corajosos e cruéis se preparassem para partir para Tara com o fim de reclamar o tributo devido aos Fomore e de obrigar os homens de Dana a reconhecerem

Bress, filho de Elatha, como rei supremo. Os emissários agruparam-se sem perda de tempo e puseram -se a caminho, chegando a Tara pouco tempo depois. Ao ver aquele grupo impertinente e de mau aspecto aproximar -se das muralhas da fortaleza, o porteiro, aterrado, perguntou o que desejava. Assim que lhe foi dada uma resposta foi, apressado, ter com Nuada e informou-o das pretensões dos Fomore, que exigiam a sua parte das colheitas, de gado e de objetos preciosos, assim como a devolução da coroa a Bress, filho de Elattia. Furioso, Nuada deu um salto e exclamou: «Vai lhes dizer que os filhos de Dana nunca mais voltarão a pagar tributos aos Fomore, e Bress, filho de Elatha, nunca mais será o rei supremo da Irlanda.» Acrescentou: «Nós combateremos no dia combinado na planície de Tured, e eliminaremos todos os Fomore, pois eles não têm nenhum direito sobre esta terra e nós queremos libertar-nos da escravidão que nos é imposta por estrangeiros. Manda-os voltar para perto dos seus, e diz-lhes para se prepararem para sofrerem uma derrota vergonhosa que lhes trará toda a infelicidade do mundo!» O porteiro transmitiu a mensagem, e os Fomore, sem insistirem, regressaram para junto das hostes do rei Indech. Entrementes, apareceu Lug, filho de Cian. Informado do que acabara de acontecer e, tomando conhecimento das exigências do adversário, ficou negro de raiva. «Como?», gritou ele. «Vocês sofreram durante largos anos a o pressão dos Fomore, que vos impuseram a escravatura, e deixaram partir sãos e salvos os mais cruéis e perversos deles?» «Não tínhamos alternativa», respondeu Nuada. «Eles vieram na qualidade de mensageiros e era dificil impedi-los de voltar para junto dos seus.» «Mas como me enfurecem os vossos escrúpulos!», rugiu Lug. «Deviam tê-los tomado como reféns ou tê-los massacrado para que não pudessem combater-vos na batalha que se avizinha. Eu vou persegui-

Comment [U68]: 1. Segundo a narrativa da Segunda batalha de Mag-TÚred, primeira versão.

los e fá-los-ei pagar um preço bem alto pela audácia e pelas suas pretensões!» «Não faças isso!», interveio então Cian, filho de Dianceclit. «Não te compete a ti, meu filho Lug, persegLir esses malfeitores. O teu lugar é aqui, entre os chefes das tribos de Dana, que se preparam para travar a batalha mais violenta que alguma vez se viu. Serei eu a ir atrás desse bando execrável!» E, antes de alguém poder reagir, Cian saltou para cima de um cavalo e este começou a galopar a toda a velocidade no encalço dos Fomore. Dois dos seus irmãos, chamados Cti e Ceithenn, decidiram acompanhá-lo para o ajudarem, mas não conseguiram apanhá-lo e dirigiram-se para sul ao passo que ele fora para norte. Quanto aos Fomore, tinham um grande avanço e Cian, desesperado por chegar perto deles, ia-se consolando a pensar que, ao menos, os teria pela frente na batalha a travar na planície de Tured, podendo aí vingar-se deles. Arrepelou então caminho com a intenção de entrar em Tara. Atravessou a planície de Murthemné e logo viu três jovens armados a virem ao seu encontro. Reconheceu neles, imediatamente, os três filhos de Tuirenn, que se chamavam Brian, lucharba e luchar. Ora, havia Já muito tempo que os membros da família de Diancecht e os da família de Tuirenn se detestavam, chegando mesmo a odiar-se mortalmente. Eram sem conta as batalhas em que se tinham confrontado, e onde quer que se encontrassem, alguns deles tombavam por terra, embora todos eles fizessem parte das tribos de Dana e descendessem de Nemed. Mas era mais forte a incompatibilidade entre eles, e os três filhos de Tuirenn tinham todos herdado um ódio feroz pelos membros da família de Diancecht. Ora, os filhos de Tuirenn, tendo visto e reconhecido Cian na planície de Murthemné, logo disseram entre si que tinham

ali uma oportunidade há muito sonhada para se livrarem de um filho de Diancecht, já que ele estava só e indefeso em frente a três jovens corajosos e determinados. Também disseram entre si que, se Cian perdesse a vida naquela aventura, fariam recair a responsabilidade sobre os Fomore. E decidiram então atacá-lo sem piedade. Cian compreendera muito bem as suas intenções e, percebendo que corria perigo de vida, murmurou para si mesmo: «Se os meus dois irmãos estivessem aqui, nós lutaríamos rijamente e não teríamos dificuldade em desembaraçar-nos destes três. Mas eu não os tenho comigo, estou só, por isso o melhor que tenho a fazer é fugir. Eles que esperem e nunca mais me poem os olhos em cima.» Ao ver-se depois cercado por uma vara de porcos, não hesitou e bateu em si mesmo com uma varinha druídica, adqLirindo então o aspecto de um porco e começando a esgaravatar no chão como faziam os outros porcos. «Que estranho», disse Brian, filho de Tuirenn, aos irmãos. «Vocês não viram, como eu, um dos filhos de Diancecht a atravessar a planície?» «Vimos, na verdade», responderam eles, «e reconhecemo-lo. E impossível que tenha desaparecido sem motivo. Desde que vejo planícies e vales aprendi a saber distingLir o que existe do que não existe. Estou bem em crer que sei como ele desapareceu: bateu em si mesmo com uma varinha druídica de ouro e transformou-se num porco, misturando-se com os desta vara- E, neste mesmo momento, nas nossas barbas, ele prepara-se para fugir com os seus semelhantes.» «Estamos com pouca sorte», disseram os dois irmãos, «pois esta vara pertence a uma das tribos de Dana e não podemos matar todos os porcos, já que seríamos censurados por isso. Além disso, mesmo que o fizéssemos, é certo que o porco druídico nos escaparia.» «Tu não és muito inteligente», respondeu Brian, «e vejo que de nada te serviu a lição que recebemos nas ilhas do norte do Mundo. Tu nem sequer és capaz de distingLir um animal druídico de um animal natural.»

Quando acabou de pronunciar estas palavras, Brian bateu nos seus irmãos com uma varinha mágica e druídica que trazia sempre consigo, e deu-lhes a forma de dois cães muito magros, ágeis e rápidos que, soltando latidos fortes, se precipitaram sobre a vara e a dispersaram. Depois, investiram sobre um dos porcos, precisamente aquele em que se transformara Cian, e este refugiou-se junto de uma mata de aveleiras, esperando não ser visto; mas, por efeito de artes mágicas, Brian, adivinhando a sua intenção, brandiu a sua lança e bateu-lhe no peito com ela. «Porque me bateste desta maneira, sabendo quem eu era e que estava indefeso?», perguntou o porco. «Eis uma voz humana! », gritou Brian. «Não me enganei e os meus dois cães druídicos não desfloraram a reconhecer-te.» «E verdade», admitiu o porco, «eu era um homem antes de adquirir esta forma. Sou Cian, filho de Dianceclit. Poupa -me a vida, suplico-te, e serei teu criado, ficando ao teu serviço na batalha contra os Fomore.» «Juro por todos os espíritos do ar», gritou Brian, «que se a tua alma voltasse sete vezes para o teu corpo, eu a caçaria sete vezes!» «Então», disse Cian, «faz-me um favor» «Como queiras», disse Brian. «Deixa que eu volte a ter a forma humana». «A vontade», disse Brian, filho de Tuirenn, «pois muitas vezes custa-me mais matar um porco do que um homem.» Cian adquiriu então a sua forma natural. «Enganei-te», disse ele, «pois se me tivesses matado na forma de um porco, o meu filho apenas poderia reclamar o preço de um porco. Mas, ja que me queres matar na minha forma natural, terás de o recompensar com o preço de um homern, o que te ficará multo caro devido à minha categoria, as minhas ações e aos meus méritos. E serão as armas com que me matardes que servirão de testemunho da minha morte ao meu filho.» (¶) «Não serás então morto com as nossas espadas», disse Brian, «mas com pedras que apanharemos do chão.»

E, dito isto, os três irmãos começaram a flagelá-lo com pedras que arremessavam violentamente, sem piedade e compaixão, fazendo do corpo do herói uma massa informe e repelente. Cavaram depois uma fossa e enterraram-no. Mas a terra não aceitou este assassínio e atirou o corpo para a superfície. Os filhos de Tuirenn enterraram-no uma segunda vez, mas a terra voltou a rejeitá-lo. E eles, enterrando-o seis vezes de seguida, seis vezes de seguida a terra o rejeitou. Só à sétima vez, enfim, o corpo ficou encerrado dentro da terra. Então, os filhos de Tuirenn deixaram a planície de Murthemné e dirigiram-se para a planície onde estava planeado travar-se a grande batalha contra os Fomore. Entretanto, as tribos de Dana tinham escolhido o seu campo sobre uma colina que dominava a planície e d e onde se podia vigiar os movimentos e os gestos dos Fomore. E todos os dias havia lutas entre eles, não Participando nelas nem reis nem nobres, mas apenas guerreiros muito rijos e temerários. Os Fomore estavam espantados com o infortúnio que sobre eles se abatera. As suas armas, fossem dardos ou espadas, deterioraram-se sem motivo aparente, e os seus guerreiros morriam sem que voltassem no dia seguinte. Em contrapartida, era o contrário o que acontecia com as gentes das tribos de Dana: as suas armas, quando porventura sofriam danos, logo apareciam intactas e refeitas no dia seguinte, tão poderosas e mortíferas como antes. O grande artífice que tornava aquilo possível era o ferreiro Goibilu, que não parava de fabricar espadas, lanças e dardos, bastando-lhe dar três pancadas para fazer o seu serviço. O carpinteiro Luclité forjava hastes também com três pancadas, sendo a terceira para as polir e as inserir no encaixe da lança ou do dardo. Quando as armas eram postas ao lado da forja, ele lançava os anéis nas hastes, e já não era necessário ajustá-las. Quanto ao artífice do bronze Credné, também

Comment [U70]: 2. Pistas e Permitir encontrar o assassino. Segundo a narrativa de Sort (le,y,fils de Tuirenn.

Comment [U69]: Em diversas narrativas mitológicas ou épicas, as armas podem falar e fornecer dados sobre asPcctos que envolveram o seu uso. Não se trata de uma ingenuidade, sabendo-se que a e minologia moderna aplica o princípio segundo o qual a arma do crime pode fornecer

fabricava pregos com apenas três pancadas, sem ter depois necessidade de os ajustar. E os guerreiros que tinham sido feridos ou mortos em combate voltavam no dia seguinte para o seu posto, o que se devia a Diancecht que, com o seu filho Oirmiach e a sua filha Airmed, lançara um feitiço na Fonte da Saúde. Nesta fonte se banhavam os homens, mortos ou feridos, ficando com a saúde restabelecida logo que dela saíam. Esta fonte chama -se Lusmag, ou seja, Planície das Ervas, pois Diancecht a ela deitou urna haste de cada erva que crescia na Irlanda. Há quem sustente, no entanto, que estas plantas, trezentas e sessenta e cinco ao todo, são as que cresceram no túmulo de Miach, filho de Dianceclit, assassinado pelo pai devido a ciúmes, por ter enxertado tão perfeitamente o braço de prata do rei Nuada. Airmed, a filha de Dianceclit, tinha posto estas ervas no seu manto e tinha-as lançado na Fonte da Saúde. Mas Dianceclit, sempre movido por ciúmes, tinha misturado tão bem estas ervas que só ele conhecia a virtude particular de cada uma. Compreendendo por fim o que se estava a passar, os Fomore encarregaram um dos seus de ir ver a disposição das hostes das tribos de Dana e de tentar descobrir como eles eram capazes de fazer tantos prodígios. Coube a Ruadan, filho de Bress e de Brig, filha de Dagda, e que, por consequência pertencia mais ao clã de Dana do que ao dos Fomore, ir espiar o campo adverso. No regresso, ele contou aos Fomore as proezas que vira serem feitas pelo ferreiro, pelo carpinteiro, pelo artífice do bronze e pelo s médicos reunidos à volta da fonte, e cofiaram-lhe então a missão de ir matar o ferreiro. Ruadan pediu a Goibniu um dardo, ao artífice do bronze pregos e uma haste ao carpinteiro, sendo satisfeito o seu pedido. E, logo que se viu na posse do dardo, Ruada n voltou-se e atingiu Goibniu com a arma, ferindo-o gravemente. Goibniu arrancou a arma da carne e, voltandose para Ruadan, furou-o dum lado ao outro, entregando

este último a alma ao pai que estava em frente, no exército dos Fomore. Brig veio então chorar o filho, dando primeiro um grito e lamentando-se depois. Crê-se que foi nesta altura que, pela primeira vez, se ouviram choros e lamentações na Irlanda. Goibniu, por seu lado, foi mergulhar na Fonte das Ervas e, recuperando rapidamente, reapossou-se da forja e retomou o trabalho. Entre os Fomore encontrava-se um jovem guerreiro chamado Octriallach, que era um dos filhos do rei Indech. O jovem aconselhou os Fomore a pegarem numa pedra e a atirarem-na à Fonte das Ervas, situada a norte do lago e a oeste da planície de Tured. Os Fomore dirigiram-se para ai, um apos outro, e cada um atirou uma pedra para a fonte que ficou assim cheia, de tal forma que não era possível mergulhar nela. E desde então, neste lugar, ergue -se um outeiro a que se chama Tumulus de Octriallach. Quando chegou a hora da grande batalha, os chefes reuniram-se de ao lado e do outro. Os Fomore saíram do seu campo e formaram batalhões ínvulneráveis e indestrutíveis. Fosse um chefe ou um simples guerreiro, todos envergavam uma armadura, e tinham um capacete na cabeça, uma lança aguçada na mão direita, uma espada bem afiada à cintura, e um escudo largo e sólido aos ombros. Atacar os Fomore, naquele dia, na planície de Tured, era como bater com a cabeça contra uma rocha, por a rnão num ninho de vespas, ou ficar exposto a um fogo ardente. Os chefes das tribos de Dana ergueram-se e prepararamse para o confronto. Mas, como Lug do Braço Longo deixara a casa real, Nuada do Braço de Prata disse aos que ali estavam: «Não é conveniente deixarmos o nobre Lug do Braço Longo, filho de Cian, ir combater correndo assim o risco de ser ferido. Penso que deveríamos impedilo de se envolver na carnifícina.» «Tens razão», concordou

Ogina, «mas todos nós sabemos que ele nos poderá conduzir à vitória. Que nos poderá acontecer, se ele não estiver conosco?» «Nada receemos quanto a isso», respondeu Nuada, «os nossos heróis não têm receio algum quando estão diante das armas dos inimigos, e sei que eles saberão resistir à fúria desta raça cruel dos Fomore, mesmo se Lug não estiver presente Para nos dar o exemplo e nos guiar. Seria mais conveniente que ele ficasse resguardado, pois ele é o nosso estratega e o nosso mestre cheio de sabedoria.» «Mas», disseram os nobres das tribos de Dana, «Lug nunca aceitará ficar resguardado.» «Eu vou revelar-vos um plano», continuou Nuada do Braço de Prata, «antes de começarmos a combater, devemos organizar um grande festim com muita cerveja fresca, deliciosa para os campeões. Faremos este festim em homenagem a Lug e com ele presente. Ele, cheio de alegria, beberá em excesso até ficar bêbedo. E nós, logo que o vejamos inconsciente, atá-lo-emos e amarrá-lo-emos firmemente com correntes de metal azul aos grandes pilares plantados na terra que sustentam a tenda dos festins. Desse modo, a batalha decorrerá sem a sua presença, e não correrá risco de vida.» «o teu plano é sensato e inteligente», disseram os chefes das tribos de Dana, «e concordamos em pô-lo em prática.» Assim fizeram. Preparam a tenda dos festins e reuniram-se à volta de Lug e de Nuada. Lug bebeu tanta cerveja espumante e curativa que não demorou a ficar ébrio e alegre. Os assistentes tocaram depois harpa e gaitas de foles, assim como outros instrumentos, embalando o real guerreiro com o excesso de bebida e com a suave melodia. Depois, Craftiné pegou na sua harpa e, dedilhando as suas nove cordas, tocou até o jovem guerreiro ficar em repouso absoluto, profundamente adormecido. Então, os nobres das tribos de Dana apressaram-se a acorrentar o herói. Amarraram-no com firmeza aos pilares bem presos à terra, sem que ele disso se pudesse aperceber. As hostes

puseram-se logo em seguida em andamento, prontas para combaterem pelo rei supremo da Irlanda, Nuada do Braço de Prata, tendo ficado apenas Craftiné, o harpista, para vigiar Lug do Braço Longo. Há muito tempo que decorria o combate, e era grande o tumulto quando Lug despertou. «o que se passa, meu amigo Craftlné?», perguntou ele. «Como é que eu estou amarrado a estes pilares e ouço gritos da batalha que se desenrola fora da tenda?» «Não sei», respondeu Craffiné. «Com efeito, também ouço os gritos dos Fomore e os feitiços de Morrigane que sobre eles lança, os sortilégios de que só ela tem o segredo. E, tal como tu, ouço Goibinu que bate com a forja, mas não sei o que se passa do lado de fora desta tenda.» «Mentes!», replicou Lug do Braço Longo. «Tu sabes muito bem que é o barulho de uma batalha o que ouvimos. Peço-te, Crafliné, que me desamarres os laços, para que eu possa ir à frente de batalha guiar os nossos homens à vitória.» «Eu não tenho a força nem a coragem suficientes para desatar os laços, ó Lug», respondeu Craffiné, «pois foram mãos de heróis e a força de guerreiros que te amarraram aos pilares.» Então, Lug sacudiu o corpo com uma tal força e energia que derrubou os pesados pilares que estavam presos ao chão, e em seguida, apenas com os seus braços robustos, ergueu as correntes pesadas e azuis. Depois, sem grandes dificuldades, conseguiu desembaraçar-se delas e precipitou-se para a porta, começando a correr para o lugar onde se defrontavam os exércitos. O alando provocado pela sua corrida foi tal que não houve combatente que não ficasse a vê-lo aproximar-se com uma mistura de medo e de espanto. A sua aparência era tão impressionante que ambos os exércitos deram um passo atrás. Então, Lug foi juntar-se às tribos de Dana e deteve-se diante de Nuada do Braço de Prata. «Tu cometeste um erro terrível, ó herói real!», gritou ele. «Pensavas travar a batalha e libertar a Irlanda sem que eu pudesse ter uma palavra a dizer? Foi

Comment [U71]: Na Primeira versão da «segunda batalha de Mag-Tured», não é dada uma explicação nem urna justificação para o fato de Lug ficar resguardado. Em contrapartida, na segunda versão, Nuada propõe que ele fique resguardado por uma questão de ciúme e por querer reclamar só para si a vitória final.

uma imprudência terdes iniciado esta batalha sem terdes tempo para a preparar. Regressai pois ao acampamento e esperai pelo sinal que eu vos enviar no momento que achar mais apropriado para eliminar a raça dos Fomore e libertar a terra da Irlanda dos seus opressores.» Então, os chefes e os guerreiros das tribos de Dana voltaram ao acampamento, passando -se a noite sem que houvesse mais qualquer escaramuça entre os guerreiros dos Fomore e os das tribos de Dana. Entretanto, Morrigane, filha de Ertimas, chegara ao campo dos Fomore e entrara na tenda de Indech, o seu rei supremo. E ao sair, nas mãos manchadas de sangue, trazia os rins do rei, que exibiu altivamente aos Fomore para lhes mostrar que já não tinham chefe. E, sem perda de tempo, entrou no acampamento das tribos de Dana. Na manhã seguinte, Lug do Braço Longo fez sair os guerreiros para o campo e encheu-os de coragem. Disse aos homens que deveriam lutar com coragem e que ma is valia morrer do que continuar a viver debaixo da escravatura, tendo de pagar pesados tributos como até ali tinha acontecido. Depois, diante de todos os chefes, nobres e guerreiros, Lug fechou um olho e, de pé sobre uma perna, entoou um canto enquanto ci culava por entre os r guerreiros das tribos de Dana. Os guerreiros de ambos os lados lançaram um imenso clamor ao partirem para o combate. Encontraram -se no meio da planície de Tured, liunia luta de corpo a corpo, e um grande número de homens bravos e generosos logo caíram no campo de batalha. A carnificina foi enorme dando lugar, mais tarde, a imensas sepulturas neste lugar. Sentimentos como a vergonha e o sentido da honra ali se misturaram à pior ferocidade que se possa imaginar. Correram abundantes rios de sangue na pele branca dos belos guerreiros que, cortados pelas espadas, lutavam

encarniçadamente, aplicando golpes implacáveis com as suas lanças muito afiladas. O fragor da luta foi desmedido, atirando-se os guerreiros uns contra os outros com um grande alarido de lanças e de espadas. Por todo o lado ecoava um grande estrondo: o grito dos guerreiros respondia ao ruído dos escudos que embatiam uns nos outros, as espadas silvavam nos ares indo ao encontro de carne humana, o estalo das armaduras misturava-se com o ruído dos dardos. No choque brutal dos corpos os membros superiores misturavam-se com os inferiores num cenário infernal. Os heróis caíam uns a seguir aos outros, e o chão estava escorregadio sob os seus pés devido ao sangue derramado. As cabeças batiam umas nas outras, provocando o estalido dos ossos do crânio e espalhando os miolos na erva ensanguentada. E o rio transportava cadáveres que, levados pela corrente para os lagos, aí se amontoavam. No meio daquela massa humana, Lug do Braço Longo semeava a morte e a destruição. Envergava um equipamento maravilhoso, desconhecido, que sem dúvida provinha do País da Promessa. Tinha uma camisa de linho, bordada com um fio de ouro sobre pele branca, e a túnica, ampla e confortável, possuía diversas cores. O seu avental muito largo e belo estava revestido de ouro fino e possuía franjas, colchetes, com bordados em prata, tendo um cinto tão bem guarnecido que nem a espada mais afiada do mundo o poderia trespassar. Lug envergava também uma armadura em ouro espesso, com belas maçãs onde estavam incrustadas pedras preciosas, e para se proteger trazia um largo escudo de madeira vermelha revestida a ouro. Nas mãos segurava a espada, muito longa e fina, escura e muito cortante; brandia a lança que tinha ferro envenenado, uma lança larga, temível, de cinco pontas, da qual ninguém conseguia escapar. Mas, sobretudo, ele trazia consigo a sua moca usada em batalhas, de ferro muito sólido, e a sua funda que lhe permitia arremessar

Comment [U72]: 1. Trata-se de um canto mágico - e druídico - acompanhado de «eircumambulação», de acordo com um ritual muito antigo. o fato de fechar um olho e de se aguentar apenas sobre um pé lembra também uma espécie de ritual xamânico de êxtase guerreiro que se encontra no tema indo-europeu do deus zarolho (Odhin-wotan, que deu um dos seus olhos Para desfrutar da «dupla visão») e do rei coxo guardião dos segredos do Outro Mundo (o Rei Pescador do ciclo do Graal).

poderosas bolas de ferro que nunca falhavam o alvo. Era de todo este aparato bélico que se fazia acompanhar o poderoso protetor do país, o valoroso Lug do Braço Longo, sempre pronto a fazer frente a quem quer que se intrometesse no seu caminho e a inspirar os guerreiros das tribos de Dana com o seu exemplo de homem forte e poderoso, que nunca vacilava perante os inimigos. Nele se misturavam a fúria do leão enraivecido, o bramido das vagas do mar no momento das grandes tempestades, e o ronco do oceano de espumas azuis e verdes quando se abatem sobre a areia. E os guerreiros de Dana seguiam-no no seu ímpeto feroz, capaz de fazer estremecer o mundo. Daí a pouco, Lug do Braço Longo encontrou -se diante de Balor, campeão dos Fomore que era o pai de Ethné, ela própria mãe de Lug. Balor era poderoso e temível, e nunca ninguém o tinha vencido. Tinha um olho maléfico, que só se abria durante os combates. Nessa altura quatro homens eram obrigados a erguer a pálpebra com um croque bem delicado. Aqueles que fossem atingidos pelo olhar deste olho não lhe podiam resistir, ficando paralisados pelo medo. O sortilégio deste olho devia-se a um feitiço que Balor recebera quando ainda era jovem. Os druidas do seu pai tinham posto a ferver um caldeirão onde deitaram ervas mágicas, o feitiços, e ele, ao abrir uma janela, recebera no olho o vapor envenenado que se libertava do caldeirão. A partir de então passou a ser chamado simplesmente Balor do olho maléfico. Quando ficou diante de Balor, Lug do Braço Longo pediu lhe para mandar suspender a batalha, para que a vida dos Fomore fosse poupada e eles pudessem voltar sãos e salvos para as suas ilhas rodeadas de nevoeiro. Acrescentou que não era por medo que falava assim, mas para pôr cobro a uma batalha que já fizera um grande número de mortos e de feridos. Balor virou-se então para

aqueles que o rodeavam, dizendo: «Companheiros, levantai-me a pálpebra, para que eu possa ver o palrador que se dirige a mim com tanta impertinência.» Ergueram-lhe a pálpebra, e Balor começou a contorcer-se à volta de Lug para o provocar. Um arrepio de medo percorreu o filho de Cian quando viu a sombria cavidade injetada de sangue negro que, muito aberta, observava as tribos de Dana. Mas, prudentemente, Lug evitou olhar para o olho de Balor e chamou Goibniu, pedindo-lhe para lhe trazer uma pedra de funda terrível, arrasadora, maravilhosa, que conseguisse atingir o olho de Balor e eliminá-lo. Goibniu imediatamente pediu ajuda aos seus filhos adotivos que se Puseram em movimento e o secundaram à volta da forja. Ao pedido do tutor, os filhos ergueram-se de imediato e puseram mãos à obra, cheios de vontade e de determinação. Acenderam o fogo da forja e fizeram a mais terrível e mortífera bala para funda que alguma vez se viu. Ao sair da forja, a bala era tão pesada e escaldava tanto que nem conseguiram pegar nela, sendo necessário o próprio Goibrim para a transportar até à presença de Lug do Braço Longo. Ora, naquele momento era grande o desespero de Lug, pois não havia guerreiro que não tivesse sido ferido pelo olho maléfico de Balor, um olho que soprava ventos violentos como os de uma tempestade e de onde saíam chuvadas cheias de veneno. Ainda por cima, o calor que emanava da bala da funda, os fumos, os vapores que a rodeavam, os feixes de faíscas que a cravejavam, queimando a pele, impediam quern quer que fosse, mesmo os mais bravos, de se aproximarem do lugar onde Lug do Braço Longo se encontrava diante do seu avô Balor, o campeão invencível dos Fomore.

Contudo, Lug, com extrema destreza e rapidez, segurou a bala de ferro ardente e, tendo-a colocado na funda, fê-la rodar à volta da sua cabeça e arremessou-a com toda a força na direção de Balor. Apesar da distância que os separava, o tiro foi tão certeiro que o projétil atravessou a pele muito dura de Balor e lhe esvaziou completamente a órbita do olho perverso. Os Fomore, que assistiam à terrível luta do seu campeão contra Lug do Braço Longo, viram o olho maléfico que, depois de ter atravessado o crânio de Balor, foi cair junto deles, matando logo ali três novenas de homens. Entretanto, aproveitando a confusão Balor fugiu. Então interveio Morrigane, filha de Ernmas, mostrando aos guerreiros das tribos de Dana os despojos que arrancara de Indech, rei dos Fomore. Contou-lhes a proeza que acabara de fazer e encorajou-os a combater os Inimigos até à sua destruição total. Então, e sem perda de tempo, os heróis das tribos de Dana lançaram um assalto furioso aos Fomore onde pereceram, além de Elatha, filho de Indech, diversos campeões vindos das ilhas imersas em nevoeiro. Logo depois, Bress, filho de Elatha, saiu das fileiras dos Fomore e pôs-se diante de Lug, com a intenção de vingar o pai. Começaram a combater furiosamente, e Bress, batendo em Lug com o seu escudo, provocou-lhe três ferimentos, mas Lug não deixou de responder e corfi o rebordo do seu infligiu-lhe golpes tão violentos que Bress estava enfim em grandes apuros quando os Fomore vieram em seu socorro. Dando três gritos poderosos contra Lug, eles fizeram chover sobre ele um feixe de lanças e de dardos, mas ele evitou-os e fê-los cair por terra, pisando-os depois até os transformar em bocados de ferro contorcido. Mas esta manobra de diversão permitira que Bress escapasse sem ser ferido e depois se confundisse com os seus, não conseguindo Lug encontrá-lo, Entretanto, os homens das tribos de Daria investiram de novo contra os Forriore e não tardaram a encosta-los à

parede. Desnorteados, aqueles ficaram desorganizados e, abandonando a planície de Tured, dirígiram -se para o mar com a esperança de reembarcar e de fugir o mais depressa possível da ilha da Irlanda. No meio deles, Balor tentava recompor-se da grave ferida que lhe fora infligida por Lug do Braço Longo. Lug, entretanto, não desistiu de perseguir ferozmente Balor, massacrando sem dó nem piedade todos aqueles que, em fuga, se atravessavam a sua frente. Acabou por apanhar Balor junto à costa e aí lançou-lhe um grito de desafio. Balor, voltando-se, tentou defender-se, mas Lug, com o seu dardo, perfurou-lhe o peito de lado a lado. «Lembra-te que sou o teu avô», gritou Balor para Lug, «e que a tua mãe é Ethné do rosto doce». «Eu também sou filho de Cian, filho de Diancecht, e pertenço às tribos de Dana!», replicou Lug. «Por favor, não me humilhes!», implorou Balor. «As tuas palavras nada valem!», respondeu-lhe Lug. «Já não te estás a humilhar quando me pedes para te poupar a vída?» «Eu não te peço que me poupes a vida», replicou Balor, «peço-te apenas que me deixes satisfazer um desejo.» «o que desejas, então?» «Pois bem, é o seguinte: se me derrotares e me matares, quando me cortares a cabeça, peço-te que a coloques sobre a tua própria cabeça. Desse modo, o meu valor guerreiro e as minhas virtudes andarão contigo, não havendo entre os meus descendentes quem eu estime tanto como a ti te estimo!» «SegLirei o teu conselho, mas de acordo com a minha consciência», respondeu Lug. Cheios de fúria, aproximaram-se um do outro e começaram a lutar com violência, ferindo-se mutuamente com as espadas e os dardos que flamejavam diante deles, até que Balor, sem forças, acabou por ceder, cortando-lhe Lug a cabeça. A segLir, Lug afastou-se, levando consigo o despojo envolto em cabelos, e foi depositá-lo no fuste de um pilar de pedra que existia nas proximidades. Mas a

Comment [U73]: 1. No contexto mágico inerente a esta época mitológica, já aqui foi referido, pode ressuscitar-se s mortos, mas na condição de a coluna vertebral e o cérebro não estarem afectados nem cortados. isto explica o fato de ser usual cortar a cabeça do inimigo, mesmo morto, P ara impedir que ele ressuscite. Comment [U74]: 2. Referência ao curioso «ritual das cabeças cortadas», abundantemente testemunhado pela arqueologia galo -romana, e de que dão testemunho numerosos autores da Antiguidade clássica: trata-se de se ficar de posse das qualidades de um herói, inimigo ou amigo. o tema encontra-se em diversas narrativas irlandesas, em particular nas do ciclo do Ulster,

cabeça esteve aí pouco tempo, pois estava tão quente que fez com que a pedra rachasse e se dividisse em quatro antes de cair por terra. Então, Lug colocou-a num ramo bifurcado de aveleira e voltou rapidamente para perto do corpo de Balor», disse ele, «o conselho que me deste não era muito amigável. Se eu o tivesse seguido, a minha cabeça teria sofrido ainda mais do que o pilar de pedra.» E, sem perda de tempo, ele voltou a partir, levando consigo a cabeça de Balor. Entre os Fomore, que iam sendo massacrados, apenas subsistiam os que adquiriram a forma de pedras e de pilares na planície, mas poetas, deixou de avançar em sua direção e de os ameaçar, mesmo tendo Lug não deixão a forma humana e Lug do eles mudado de aparência. Eles tomaram o exacto de prometeu que lhes faria um favor se lhe revelassem o número de mortos. «Eu não sei o número de escravos e de plebeu, das perdas entre os Fomore, mas sei, que entre os senhores, nobres campeões, que caíram em combate, cinco deles são filhos de reis e os grandes reis dos Fomore, Quanto aos plebeus e aos escravos que acompanhavam os nobres e os chefes, pois todos os chefes traziam as suas gentes, só posso revelar o número daqueles que vi tombarem com os meus próprios olhos, quanto aos outros, aqueles que ou seja, três mil seiscentos e vinte e sete, ter visto só poderão ser enumerados quando se souber, o número de estrelas céu, os grãos de areia na praia, as gotas nos campos, ou os relâmpagos na tempestade.» Quando Lug do Braço Longo deixou os poetas e voltou para perto das tribos de Dana, viu num relance Bress, filho de Elatha, tentando esconder-se atrás de um rochedo. Avançou logo para ele e ameaçou-o,1» gritou. «Foi por tua culpa que sofreram com a espada. «Maldito seja, sofremos a opressão dos Fomore e que fomos obrigados a

travar esta sangrenta batalha!», «É melhor que não me mates e que me poupes a vida!», exclamou Bress. «A sério», respondeu Lug. «o que se ganharia?» «Se a vida me for poupada, eu farei com que as vacas da Irlanda tenham sempre leite em abundância». «Vou consultar os meus sábios para saber qual é a opinião del s», respondeu e Lug. Lug foi à presença de Maffiné para saber a sua opinião e repetiu-lhe o que ouvira da boca de Bress a respeito das vacas da Irlanda. «Não devemos poupar-lhe a vida por esse motivo2», «Pois ele não nenhum poder sobre as vacas da Irlanda, nem sobre a quantidade de leite que elas possam dar» respondeu Maffiné. Lug voltou depois ao encontro de Bress, e dIsse-lhe: «Não há motivo para te poupar a vida, pois tu não tens nenhum poder sobre as vacas e sobre a sua produtividade.» Bress lançou um feitiço e Lug perguntou-lhe então: «Há algum outro motivo que Possa justificar que a tua vida seja poupada?» «Sim, evidentemente», disse Bress. «Se me pouparem a vida, haverá sempre teria a Irlanda uma colheita por estação.» Lug foi de novo consultar MailIné. «Devemos poupar a vida a Bress», perguntou ele, «se assegurar aos homens da Irlanda uma colheita por estação?» «Não», respondeu Maffiné, «pois a realidade é bem diferente: nós temos a Primavera para lavrar e semear, o início do Verão para que o trigo se fortaleça e amadureça, o começo do Outono para a colheita e o Inverno para comer. Não faz nenhum sentido essa idéia de uma colheita por estação.» Lug foi de novo falar com Bress, «Tu não serás poupado», disse-lhe ele, «pois já temos o que nos propões.» «Isso não é bem assím», retorquiu Bress, «e se me deixardes viver, eu digo-vos-ei como se lavra, semeia e faz a colheita, que são três coisas que vos ignorais.» «Se tu mas revelares», disse Lug, «poupo-te a vida». «Pois bem», disse Bress,1 «E preciso lavrar à terça-feira, lançar a semente à terra à

terça-feira e fazer a colheita à terça-feira.» E por causa desta artimanha é que Bress, filho de Elatha, salvou a vida a segLir à batalha da planície de Tured. A segLir, Lug foi juntar-se a Dagda e a Ogma, o homem forte, que encontrara a espada do rei dos Fomore. Naquela altura ele tirava-a da baínha e limpava-a. Então, a espada contou o que vira e testemunhara Pois, naquele tempo, as espadas tinham o costume, assim que eram desembainhadas, de revelar as proezas que tinham feito ou que tinham testemunhado. E assim que se explica que haja hoje sortilégios nas espadas. É preciso ter em consideração que naquele tempo os demônios falavam por meio das armas, sendo essa a razão por que era frequente os homens adorarem as armas. Lug, Dagda e Ogma ergueram pilares aos heróis que tinham caído em combate e gravaram neles inscrições. Depois Morrigane, a maga, ¶veio juntar-se a eles. «o que vês?», perguntou-lhe Dagda. «Neste momento veio a vitória e o triunfo», respondeu ela, «mas também vejo que o tempo futuro traz muitas desgraças. O mundo deixará de me interessar, Pois os Verões não terão flores, as vacas não darão leite, as mulheres não terão pudor, os homens não terão coragem, as árvores não darão frutos e os mares não terão peixes. Nada será como dantes: os velhos prestarão juramentos falsos, os homens atraiçoar-se-ão uns aos outros, os filhos roubarão os pais... É esse o mundo de amanhã, mas hoje as tribos de Dana podem cantar vitória.» E Morrigane, filha de Errimas, foi por toda a Irlanda para anunciar que as tribos de Dana tinham vencido os Fomore das ilhas do nevoeiro na grande batalha da planície de Tured.1¶1 CapítuloV

Depois da vitória das tribos de Dana sobre os Fomore na planície que passou a chamar-se Mag-Tured, Lug do Braço Longo encontrou dois irmãos do seu pai, Cu e Ceithenn, ambos filhos de Dianceclit, e perguntou-lhes se tinham visto Cian na batalha. «Não, não o vimos», responderam eles. «Fomos no seu encalço seguindo o rasto dos Fomore que tinham vindo a Tara exigir o pagamento do tributo, mas não chegámos a encontrá-lo, pois rumámos a sul ao passo que ele se dirigiu para norte. Por isso, não voltámos a vê -lo.» «Os Fomore tê-lo-ão matado?», perguntou Lug. «Pensamos que não», responderam Cu e Ceithenn, «Pois os Fomore dirigiram-se para sul, e não é provável que se tenham encontrado.» «Vamos procurá -lo», disse Lug do Braço Longo. Cavalgaram os três até ao lugar onde os seus caminhos devem ter divergido e, apontando bem para norte, acabaram por se encontrar na planície de Murthemné. «Estou convencido de que o meu pai já não está vivo», disse Lug, «e juro que nunca mais como e bebo nada enquanto não souber de que modo ele morreu.» Ora, estando eles a chegar a um outeiro que se erguia no meio da Planície, a terra pôs-se a falar. Disse ela a Lug que naquele mesmo lugar, Cian, apanhado pelos filhos de Tuirenn, tinha adquirido a aparência de um porco. Disse também que ele tinha morrido às mãos deles depois de ter retomado a forma natural e que se encontrava enterrado debaixo do outeiro. Então, Lug e os dois irmãos de Cian puseram-se a cavar debaixo do outeiro. Descobriram o corpo e viram os inúmeros ferimentos que lhe tinham provocado a morte. «Ele foi morto de forma desleal», disse Lug. «Esses ferimentos devem-se a pedras arremessadas pelos filhos de Tuirenn, que mataram o meu querido pai de forma covarde e abominável.»

Comment [NR75]: 1. Segundo a narrativa A Segunda Batalha de Mag-Tured, primeira versão, com pormenores retirados da segunda versão, nomeadamente o episódio em que Lug se esconde e aquele em que Lug e Balor se confrontam.

Curvando-se, Lug beijou duas vezes o corpo do pai, depois endireitou-se com um ar cheio de nobreza, e disse aos companheiros: «Tenho o coração destroçado pelo que aconteceu ao meu pai. Custa-me muito não o ter podido ajudar quando estava refém dos filhos de Tuirenn, mas juro que tudo farei para que estes malditos assassinos paguem muito caro a perversidade que cometeram contra um dos seus, um herói das tribos de Dana.» Lug entoou então um canto fúnebre sobre o corpo do pai e depois, escavando a terra com as unhas, recolocou aquele debaixo daquele tumulus. Em seguida erigiu um pilar no qual foi gravada uma inscrição que tinha o nome de Cian em ogham e que explicava o modo traiçoeiro como ele fora morto pelos filhos de Tuirenn. Por fim, continuou Lug: «Juro que o crime abominável aqui cometido não ficará impune, embora ainda tenhamos de atravessar um longo período de grande infelicidade. Por muito tempo a Irlanda continuará a ser dilacerada por lutas fratricidas, não havendo pa para z ninguém. No que me toca, sinto-me profundamente consternado pela morte que os filhos de Tuirenn deram a meu pai, o valoroso filho de Diaricech1.» E logo em seguida Lug despediu-se dos dois irmãos de Cian: «Ide juntar-vos àqueles que rejubilam com a vitória das tribos de Dana, mas peço-vos que não reveleís a ninguém o que aqui se passou enquanto eu próprio o não fizer.» Alguns dias mais tarde, Nuada do Braço de Prata, rei supremo da Irlanda, convocou o conjunto das tribos de Dana para se reunirem na fortaleza de Tara. Quando chegou, Lug do Braço Longo sentou-se, cheio de nobreza e com uma auréola de honra ao pé de Nuada, em frente de todos os chefes e de todos os nobres que ali se encontravam. Olhando em volta, viu os filhos de TLireinn. Os três eram famosos pelo seu valor e beleza, pela sua

agilidade e destreza. Todos eles tinham ajudado à vitória sobre os Fomore, e eram muito considerados por todos. Lug a certa altura pediu a palavra, que lhe foi concedida, concentrando-se nele todas as atenções. «Que assunto quereis tratar, ó filhos de Dana?», perguntou ele, «Escolhe tu o assunto», responderam eles. «Pois bem», começou Lug, «vou colocar-vos uma questão: que vingança cada um de vós gostaria que fosse aplicada sobre quem fosse culpado de ter matado o vosso pai?» Pronunciadas estas palavras fez-se um silêncio e foi o rei da Irlanda o primeiro a falar: «A alguém que tivesse matado o meu pai eu não infligiria uma morte de um único dia, mas uma pena muito mais dura de suportar. Se tivesse poder para isso, todos os dias eu arrancar-lhe-ia um membro seu corpo até ele cair a meus pés.» Todos os nobres das tribos de Dana foram da mesma opinião, tanto os filhos de Tuirenn como os outros. «Constato», disse Lug, «que todos são da mesma opinião, inclusive aqueles que mataram o meu pai. Portanto exijo que me paguem um desagravo pelo sucedido, já que todos os homens das tribos de Dana pertencem ao mesmo clã e descendem do mesmo antepassado. Se eles me derem uma satisfação, não violarei o direito que obriga o rei da Irlanda a proteger todos os seus hóspedes. Mas não respondo pelos meus atos se eles recusarem dar uma satisfação pelo assassínio que cometeram, e nesse caso não permitirei que abandonem a casa real de Tara sem se terem havido comigo.» «Se tivesse sido eu a matar o teu pai», disse o rei da Irlanda, «veria com muito bons olhos apaziguar-te.» Os filhos de Tuirenn puseram-se então de lado a falar entre si. «E a nós que se refere Lug», disseram luchar e lucharba. «Pelos vistos, ele procurou saber do pai o veio a saber como Cían foi morto na planície de Murthemné.

Comment [NR76]: 1. o tumulus megalítico de Newgraiige, ao cimo do vale de Boyne, no condado de meath.

«Muito bem», respondeu Brian, «que ele esteja furioso, que nós façamos uma confissão na presença de todos os nobres espera que aceitará das tribos de Dana, e, uma vez que isso aconteça, não aceita de nossa parte o desagravo.» «Se ele pedir uma confissão», disseram dois deles, «nós falaremos, mas pensamos que te cabe a ti fazê-la em voz alta, pois és o mais velho.» Então, Brian, filho de Tuirenn, ergueu-se e, diante de todos os nobres e chefes das tribos de Daria, interpelou Lug nestes termos: «E a nós que tu acusas, ó Lug, filho de Cian. Quando falas de assassínio e de desagravo, é a nós que te referes, pois pensas que nós os três atacamos o filho de Diancccht. Não confessaremos nada, mas também não fugiremos às responsabilidades e estamos prontos a compensar-te pela morte de Cian como se nós próprios tivéssemos cometido o crime.» «Assim sendo», disse Lug, «vou então dizer-vos a compensação que me devereis dar» «Diz-nos lá qual é essa compensação, ó Lug.» «E a seguinte», Prosseguiu Lug, «Peço-vos três maçãs, uma pele de porco, uma lança, dois cavalos e um carro, sete porcos, um pequeno cão, um espeto de assar e três brados num monte. É esse o pagamento que vos exijo pela morte do meu pai. Se ele vos parece excessivo, torná-lo-ei mais leve, mas se vos parece ao vosso alcance, parti de imediato em sua demanda.» «Na verdade», respondeu Brian, filho de Tuirenn, «nós não o achamos muito pesado, o que me faz pensar que poderás estar a preparar uma traição contra nós. Ele seria mais pesado, com efeito, se exigisse de nós trezentas mil maças, a mesma quantidade de peles de porco, cem lanças, cem cavalos e cem carros, cem suínos, cem cães, cem espetos de assar, e cem brados num monte.» «Nesse caso», continuou Lug, «mantenho o preço que tendes a pagar. Dar -vos-ei a garantia dos chefes das tribos de Dana, nada mais vos pedirei e não vos trairei. Exijo-vos, no entanto, que me dêem a mesma garantia.»

Os três filhos de Tuirenn juraram então que pagariam o que lhes era pedido, e deram como garantia Nuada, rei supremo da Irlanda, assim como Bobdh Derg, filho de Dagda, e alguns dos chefes que ali se encontravam. «Sendo assim», disse Lug, «e tendo eu as vossas garantias, dar-vos-ei agora a conhecer o que me deveis trazer.» «Nós íamos interrogar-te a esse respeito», disseram os filhos de Tuirenn. «Pois então ouvi com atenção», disse Lug, «as três maçãs que vos peço são as três maçãs do Jardim das Hespérides, que se encontra a leste do mundo. Só essas maçãs me poderão satisfazer, pois são as melhores e as mais belas de toda a terra. Têm a cor do ouro bem polido, e a cabeça de uma criança de um mês não é maior do que cada uma delas. Sabem a me l quando as comemos, e não deixam amargor nem acidez na boca. Além disso, não diminuem de tamanho quando as comemos, mesmo que o façamos todos os dias. Aquele que consegLir colher uma destas maçãs terá conseguido cometer a maior proeza do mundo, pois a maçã pertencerlhe-á para sempre. E eu sei que, segundo uma profecia desse longínquo país, serão três jovens corajosos e arrojados idos do oeste da Europa que delas se apoderarão pela força.» «A pele de porco que vos peço», continuou Lug, «é a pele de porco que pertence a Tuis, rei da Grécia. Esta pele é curativa e cura todos os feridos e todos os doentes que por ela sejam revestidos, por muito grave que seja o seu estado, e desde que tenham ainda um sopro de vida. Este porco tinha uma excepcional virtude: se o fizessem atravessar um rio, a água deste transformava-se em vinho durante nove dias. Qualquer ferida que ela tocasse cicatrizava, mas, a crer nos druidas da Grécia, só a sua pele, e não ele possuía esta virtude. Morto o porco e esfolado a pele, esta foi conservada desde então. Estou certo de que não vos será fácil apoderar-vos dela, pois está vigiada e muito bem guardada. E sabeis que lança vos

exijo?» «Não o sabemos», responderam os filhos de Tuirenn. «Tu é que tens de no-lo dizer.» «Pois bem», prosseguiu Lug, «é a lança envenenada de Pisear, rei dos Persas. Trata-se de uma arma mágica que é capaz de cometer as proezas mais extraordinárias do mundo. E de tal modo escaldante que, em tempo de paz, a sua cabeça fica continuamente mergulhada num caldeirão de água fria. A não ser assim, a povoação onde se encontra arderia e ficaria destruída. Com efeito, ser-vos-á muito difícil apoderar-vos dela. Agora, sabeis quais são os dois cavalos e o carro que desejo receber de vós?» «Não o sabemos, pois cabe-te a ti dizer-nos». «Pois bem, são os dois cavalos maravilhosos de Cobar, o rei da Sicilia. Tanto a terra como o mar lhes servem para cavalgar, e é frequente vê-los a galopar sobre as ondas. Não há cavalos mais rápidos e resistentes do que eles. Também não há nenhum carro tão sólido e tão belo como aquele a que eles andam atrelados. Além disso, quanto mais se matam estes cavalos, mais eles renascem, e cada vez mais belos e mais sãos do que antes, desde que, pelos menos, se juntem todos os seus ossos. É minha convicção que não vos será fácil obtê-los, pois estão guardados com todo o cuidado nas cavalariças do rei. «Agora», continuou Lug, «Sabeis quais são os sete porcos que vos Peço? São os porcos que estão na posse de Easal, rei das Colunas de Ouro. Eles têm a particularidade única de, ao serem mortos de noite, serem encontrados vivos de manhã. E quem comer um pedaço deles, nunca fica doente nem com má saúde.» «o pequeno cão que vos peço chama-se Failinis, e pertence ao rei loraidh. Tem a particularidade de todos os animais que o observam não Poderem continuar de pé e terem de se deitar no chão. Tal como aos Porcos de Easal, ser-vos-á muito difícil ficar de posse dele. O espeto de assar que vos peço é um dos que servem às mulheres de

Fianchair para preparar a comida. Mas é quase impossível conseguir ficar em poder dele, tal é o cuidado que as mulheres tem para não o perderem. Quanto aos três bardos no monte que vos peço, são os brados no monte de Miodchain, nos países do norte. Ora, tanto Miodcham como as suas danças proíbem quem quer que seja de dar brados naquele monte. Foi na casa dele que o meu pai fez a sua aprendizagem, e se eu tiver a fraqueza de vos perdoar o vosso crime, é certo que Miodchain não vos perdoará. E essa pois a compensação que vos exijo pela morte de meu pai.» Os filhos de Tuirenn permaneceram em silêncio, enchendo-se de angústia. Abandonaram a assembléia e foram falar com o pai para lhe contar o que se passara, e para o pôr a par da compensação exigida por Lug do Braço Longo pelo assassínio de Cian, filho de Diancecht. «Trazeis-me más notícias», disse Tuirenn. «lreis passar por grande perigos se partirdes em busca do que vos pede Lug. Mas não tendes outra alternativa, e é preciso reconhecer que ele tem razão, pois haveis cometido o pior crime que se pode cometer. Mas previno-vos: vós não consegLireis alcançar tudo isso sem os poderes maravilhosos de Mananann ou do próprio Lug. Aconselhovos, pois o seguinte: pedi emprestado o cavalo de Mananann, que atualmente está ao serviço de Lug. Lug não vo-lo poderá emprestar e recusará o vosso pedido, pois o cavalo não lhe pertence. Então pedir-lhe-eis a barca que Mananann também lhe emprestou, e como ele não poderá recusar um segundo pedido de empréstimo, terá de vo-la emprestar. E ficai a saber que a barca vos será mais útil do que o cavalo.» Os filhos de Tuirenn foram então encontrar-se com Lug do Braço Longo, saudaram-no e disseram que não poderiam compensá-lo se ele próprio os não ajudasse. E suplicaramlhe então que lhes emprestasse o cavalo de Mananann. «É impossível», respondeu ele, «o cavalo não me pertence.» «Então», disse Brian, fillho de Tuirenn,

«empresta-nos a barca de Mananann.» «Desta vez não posso recusar o vosso pedido. Levem-na», disse Lug. «E onde está ela?» «Em Brug-na-Boylle.» Quando ficaram de posse da barca, os filhos de Tuirenn foram despedir-se do pai, que ficou triste e desolado ao vêlos partir, pois sabia que a empresa estava condenada ao fracasso, mesmo com a barca de Mananann. Etimé, filha de Tuirenn, acompanhou os irmãos ao porto e, aí, entoou para eles um canto lamuriento em que deplorava que os filhos de Tuirenn tivessem cometido um tal crime contra o pai de Lug e por isso fossem condenados a errar pelo mundo em busca de coisas impossíveis de obter. Os três irmãos embarcaram e alcançaram o alto mar. «Que rota vamos tomar?», perguntaram os dois irmãos mais novos. «Vamos procurar das maçãs», respondeu Brian, «pois foi o primeiro pedido que nos foi feito.» Apontaram então a barca de Mananann na direção do Jardim das Hespérides, e a barca seguiu a sua rota na crista das ondas, cruzando o oceano. Como cortou caminho, daí a pouco chegou a um porto, na costa das Hespérides. Assim que chegaram, Brian perguntou aos irmãos: «Como é que nos havemos de aproximar do Jardim das Hespérides? Suponho que há uns campeões e uns guerreiros armados que não estarão na disposição de nos deixarem lá entrar, estando acompanhados do próprio rei. Não nos devemos esquecer, apesar disso, do nosso próprio valor, e de que os venceremos em caso de termos de lutar contra eles, embora com grandes custos e correndo o risco de perdermos a vida.» Proponho-vos pois que assaltemos este jardim sob a forma de falcões fortes e rápidos. Os guardas só dispõem de armas ligeiras e, quando as usarem contra nós só teremos de usar da

máxima prudência e de estar atentos. E, assim que os nossos inimigos estiverem desarmados, lançar-nos-emos sobre as macieiras, apoderando-se cada um de nós de uma maçã. Quanto a mim, se puder, apoderar -me-ei de duas, trazendo uma nas garras e a outra no bico.» luchar e lucharba aprovaram este plano. Então, Brian bateu neles e em si mesmo com uma varinha mágica e druídica e, tomando os três a forma de belos falcões rápidos e possantes, voaram ao encontro do Jardim. Os guardas viram-nos e, depois de terem gritado, mas em vão, para tentarem detê-los, dispararam sobre eles uma chuvada espessa de armas que tinham veneno na ponta. Os filhos de Tuirenn estavam tão atentos que evitaram todas as setas e, seguindo o plano de Brian, foi- lhes fácil lançaremse sobre as macieiras depois de os guardas terem gasto todas as suas munições. Logo depois levantaram voo, sãos e salvos, e dirigiram-se para a barca de Mananann. A notícia daquela grande proeza logo se espalhou pela cidade e por todo o país. Ora, o rei das Hespérides tinha três filhas extremamente conhecedoras e hábeis nas artes mágicas. AdqLirindo a forma de três grifos, elas persegLiram os falcões até ao mar, lançando-lhes raios de fogo muito ardentes. «Estamos numa situação multo delicada», disse Brian, «e se não descobrirmos um truque, seremos calcinados - mas já sei o que temos que fazer.» Batendo com a varinha mágica e druídica nos irmãos e nele Próprio metamorfosearam-se imediatamente em cisnes brancos que num salto chegaram ao mar, de tal forma que os grifos, sobrevoando-os, nem repararam neles. Então, os filhos de Tuirenn subiram para a barca e retomaram o aspecto humano. Depois disso, decidiram partir para a Grécia para se apoderarem, a bem ou pela força, da pele de porco. A

barca de Mananann conduziu-os velozmente até à vizinhança do palácio real. «Que forma tomaremos quando nos apresentarmos na corte do rei?», perguntaram os irmãos mais novos ao mais velho. «Na nossa própria forma», respondeu Brian, «mas far-nos-emos passar por poetas e artistas da Irlanda, para que sejamos recebidos com todas as honrarias.» Os três irmãos pentearam os cabelos à maneira de poetas e foram bater à grande porta da cidade. O porteiro perguntou-lhes quem eram e o que queriam. «Somos artistas da Irlanda», responderam eles, «e vimos a esta cidade recitar um poema ao rei.» O porteiro foi avisar o rei. «Eles que entrem», respondeu o soberano, «pois e para nos uma honra receber artistas estrangeiros.» O rei deu ordens, também, para que a corte fosse preparada com toda a magnificência, para que, ao regressarem ao seu país, os artistas da Irlanda pudessem transmitir a sua admiração pelos méritos e a opulência do rei da Grécia e dos nobres que o rodeavam. Os filhos de Tuirenn foram então conduzidos até um grande salão decorado com belas tapeçarias bordadas. Serviram-lhes bebidas e estavam maravilhados, pois jamais tinham visto uma casa tão esplendorosa e nunca tinham sidos recebidos com tanta pompa em nenhum outro lugar. Pouco depois, os poetas do rei ergueram-se para declamarem os seus poemas aos forasteiros. Quando acabaram, Brian pediu aos irmãos para fazerem o mesmo, mas estes recusaram com o pretexto de que só sabiam combater. Por esse motivo, Brian avançou sozinho ficando diante do rei e da assembléia. Fez-se um grande silêncio em sua honra, e ele cantou um poema que terminava com este verso: «A pele de um porco, riqueza sem igual, é a riqueza que eu peço. »

«o teu poema é muito bom», disse-lhe então o rei, «mas o que significa esta alusão à pele de porco? Eu elogiar-te-ia o poema de boa vontade se não fosse essa alusão, pois é uma grande impertinência pedir-me essa pele. Fica a saber que, por nada deste mundo, a dana aos poetas e aos artistas, ou sequer aos nobres e aos príncipes, a não ser que fosse obrigado a isso. Mas, para te recompensar, fica certo de que consinto em te oferecer uma quantidade de ouro que vale três vezes a pele de porco bem esticada. «Que sejas recompensado pela tua generosidade, ó rei», respondeu Brian. «Mas previno-te: sou de tal modo desconfiado que só aceitarei o ouro que me ofereces se ele for pesado e convenientemente medido à minha frente, pois não acredito em ninguém.» O rei deu ordens aos seus servos e aos seus intendentes para que levassem Brian e os irmãos à casa do tesouro onde seria pesado e medido o ouro. Mas, quando estavam a chegar àquela casa, Brian apoderou-se da pele com um movimento rápido da mão esquerda e dobrou-a cuidadosamente com a intenção de a levar; em seguida, desembainhando a espada, golpeou com tal violência o homem que o acompanhava, que o rachou ao meio. Depois, apertando a pele contra si, abriu caminho por entre os criados e os intendentes, vindo juntar-se a ele os seus dois irmãos. O rei e os seus guerreiros precipitaram-se sobre eles, mas, após um violento e sangrento combate, o rei morreu às mãos do próprio Brian, enquanto os dois irmãos massacraram vários adversários à sua volta, de tal modo que ninguém conseguiu evitar que eles saíssem da cidade e regressassem à barca de Mananann. Puseram-se no alto mar em pouco tempo e só pararam de navegar quando chegaram às costas da Pérsia. Aí, Brian e os seus irmãos voltaram a adqLirir a aparência de poetas vindos da Irlanda, e foi nessa qualidade que eles foram

apresentados na casa do rei. Este recebeu-os muito bem e pediu-lhes para cantarem. Brian improvisou então um canto em que se fazia referência, de propósito, à lança de Pisear, rei dos Persas. «o teu poema é muito bom», disse o rei, quando Brian acabou de cantar, «mas não percebo porque é que nele mencionas a lança, ó poeta da Irlanda.» «Eu explico -te, nesse caso», respondeu Brian, «é porque quero como recompensa a lança maravilhosa que está em Vosso poder.» «É muito pouco delicado, o teu pedido», disse o rei. «E tens muita sorte por eu não te matar imediatamente diante dos nobres e dos príncipes deste país! » Ouvindo estas palavras, Brian lembrou-se que tinha apanhado duas maçãs no Jardim das Hespérides. Pegou numa e arremessou-a contra o rei com tanta violência que ela lhe atravessou o cérebro. Depois, desembainhou a espada e começou a massacrar todos aqueles que estavam ao seu alcance, fazendo os seus irmãos o mesmo. Descobriram então a lança, com uma ponta mergulhada no caldeirão Para evitar que a casa ficasse em brasa. Apoderaram-se dela, assim como do caldeirão, e regressaram à pressa para a barca. Depois voltaram para o alto mar e não tardaram a avistar em frente a fortaleza do rei da Sicília. Brian disse aos irmãos que se apresentariam sob a forma de três mercenários da Irlanda que vinham com a intenção de se pôr ao serviço do rei. Assim, sem terem necessidade de combater, saberiam, ao fim de algum tempo, em que lugar estavam guardados os cavalos e o carro que costumavam ser usados nos combates. E, entrementes, foram-se aproximando da elevação de terra atrás da qual se erguia a vila. O rei, os príncipes e os nobres da sua casa formaram um cortejo muito bem organizado para irem ao seu e ncontro.

Os filhos de Tuirenn prestaram homenagem ao rei da Sicília, e este perguntou-lhes quem eram, de onde vinham e o que pretendiam. «Nós somos mercenários da Irlanda», respondeu Brian, «e ganhamos a vida ao serviço de todos os reis da Terra.» «Quereis ficar ao meu serviço?», perguntou o rei. «Sim, é esse o nosso desejo.» Fizeram um contrato e firmaram uma aliança com o rei da Sicília. Mas, ao fim de quinze dias e um mês na fortaleza, ainda não tinham conseguido obter nenhuma informação sobre os dois cavalos e o carro. «Este contrato de nada nos está a servir, pois não fizemos nenhuns avanços até agora», disse Brian. «Que pensas então que devemos fazer?», perguntaram-lhe os irmãos. «Ouçam bem o que vos digo», disse Brian. «Peguemos nas nossas armas e no nosso traje de viagem, e vamos comunicar ao rei que deixaremos de estar ao seu serviço se não nos mostrar a sua parelha de cavalos.» Os irmãos aprovaram, e os três, depois de se arrumarem, apresentaram-se perante o rei da Sicília. Este perguntoulhes por que motivo estavam em traje de viagem. «A razão é simples, ó rei», disse Brian. «Nós somos mercenários da Irlanda, mas não nos basta servir os reis da terra quando há guerras e conflitos. Também somos seus confidentes e seus conselheiros, especialmente quando eles possuem tesouros preciosos. Ora, desde que aqui estamos, temos sido tratados de uma forma bem displicente. Sabemos que tu tens os dois melhores cavalos e o melhor carro do mundo, mas evitaste falar-nos deles e mostrar-no-los. É esse o motivo que nos faz querer partlr.» «Fazeis mal em querer partir», respondeu o rei, «pois, de todos os mercenários que tenho ao meu serviço, sois vós quem mais eu estimo. Ficai a saber que, se logo no primeiro dia mo tivésseis pedido, eu ter-vos-ia mostrado os cavalos e o carro. Mas já que reprovais a minha atitude, vou imediatamente satisfazer o vosso pedido.»

O rei ordenou aos seus criados que fossem buscar os dois cavalos e os atrelassem ao carro, e a ordem foi cumprida num abrir e fechar de olhos. Brian ficou então a ver os cavalos com toda a atenção, em seguida deteve o carro, agarrou o cocheiro e, arremessando-o contra um rochedo próximo, esmagou-lhe o crânio. Depois, saltando ele próprio para dentro do carro, aplicou um golpe tão violento ao rei que o deixou prostrado e inanimado. Seguiu-se uma luta rija e impiedosa que envolveu os guardas do rei, as gentes da cidade e os três irmãos, que deixaram atrás de si um banho de sangue antes de voltarem para a barca de Mananann com os dois cavalos e o carro. Dali se deslocaram velozmente para o país de Easal com a intenção de se apoderarem dos porcos maravilhosos que lhes era exigido por Lug do Braço Longo. Ora, o rei Easal estava ao par das proezas feitas pelos filhos de Tuirenn, e também ele veio em pessoa recebê-los quando se aproximaram da sua fortaleza. «Porque vindes a este país?», perguntou-lhes ele. «Por causa de uma Injustiça que cometemos», respondeu Brian, «e porque temos de pagar um desagravo, faltando-nos agora levar os teus porcos. Se no-los deres de livre vontade, partiremos pacificamente e muito gratos pela grandeza da tua ação. Mas se te recusares a no-los dares, não deixaremos por Isso de os levar, custe o que Custar, após lutas sangrentas em que muitos dos teus perderão a vida.» «Seria uma péssima idéia entrarmos em luta por causa dos porcos», disse o rei. «Vou-me aconselhar.» O rei foi então consultar os sábios e os adivinhos. Todos foram da Opinião de que era preferível dar os porcos aos filhos de Tuirenn do que resistir aos seus ímpetos furiosos, vindo dizer-lhes o rei que permitiria que eles levassem os seus porcos. Os filhos de Tuirenn ficaram encantados, pois era a primeira vez que lhes era dada uma parte da compensação sem que tivessem de lutar por ela, expondo-

se assim a riscos. O rei levou-os à noite a sua própria residência, fazendo com que eles fossem tratados com toda a deferência e fossem satisfeitos todos seus desejos, providenciando para eles todas as comodidades e dando lhes de comer e de beber. Na manhã seguinte, os porcos foram levados a sua presença, e disse o rei: «Aqui está o que procuráveis com tanto empenho. A partir de agora estes Porcos são vossos. Que caminho ides agora tomar? Que mais deveis adqLirir para completardes as cláusulas do desagravo?» «Falta-nos ir ao país de loraidh», respondeu Brian, «e trazer de lá o cão que pertence ao rei. É um cão diante do qual se deitam todos os animais selvagens.» «Posso pedir-vos um favor?», perguntou o rei Easal. «Certamente, e nó s satisfazê-lo-emos de boa vontade, Pois estamos-te muito reconhecidos». «Pois bem», disse o rei Easal. «Acontece que a minha filha desposou o rei de loraidh, que por isso é meu genro. Aceitai que vos acompanhe, e eu farei com que fiqueis de posse do cão sem precisardes de lutar» Os filhos de Tuirenn agradeceram ao rei Easal e partiram com ele para o país de loraldh. O país estava bem defendido, pois já era do conhecimento geral que os filhos de Tuirenn tinham massacrado muita gente nos países por onde tinham passado. Assim, encontravam-se por todo o lado diversos homens armados prontos para se baterem contra quaisquer estrangeiros que, sem motivo, por ali aparecessem. O rei Easal identificou-se e entrou pacificamente naquela terra, depois foi ao lugar onde estava o seu genro, o rei de loraidh, e contou-lhe as viagens e as aventuras dos filhos de Tuirenn. «Por que motivo os trouxeste ao meu país?», perguntou o genro. «Para te pedir o cão que te Pertence», respondeu o rei Easal. «Por todos os deuses do cé u!», indignou-se o rei de loraidh, «não seria justo que eu

reconhecesse a três guerreiros o direito de se apoderarem do meu cão sem antes lhes ter dado luta.» «Não deves proceder com tanta intolerância», retomou o rei Easal. «A tua atitude irá trazer-te muito sofrimento e infelicidade.» Apesar das advertências do sogro, o rei de loraidh recusou voltar atrás na sua decisão. O rei Easal voltou então para perto dos filhos de Tuinenn e contou-lhes o que se passara. «Sendo assim», disse Brian, «seremos obrigados a lutar.» Os guerreiros de loraidh avançaram sobre os filhos de Tuirenn e estes foram cada um para seu lado, aplicando cada um deles golpes Violentos a todos os que apareciam à sua frente. Diante de Brian abriu-se uma clareira, tal era a violência com que ele esmurrava os adversários, e estes punham-se em fuga mas ele perseguia-os e massacrava-os sem piedade. Os dois irmãos eram também impiedosos, um de cada lado, e lutavam heroicamente provocando um banho de sangue. Lutou-se corpo a corpo, durante várias horas, e não cessavam os murros, os pés furiosos e implacáveis. Por fim, Brian dominou o rei de loraidb mas, em vez de lhe aplicar um golpe fatal, amarrou-o e exibiu-o preso perante as suas hostes, antes de o levar à presença do rei Easal. «Aqui Easal!», gritou ele. «E juro-te, pela minha honra está o teu genro, rei pelo valor das minhas armas, que me teria sido mais fácil matá-lo do que trazê-lo assim amarrado à tua Presença, Se lhe poupei a vida, foi em atenção a ti e pela consideração que me mereces. Toma este homem e faz dele o que te aprouver.» O rei Easal ordenou que o combate terminasse-se libertou o genro na condição de que ele daria o cão aos filhos de Tuírenn, condição que ele aceitou. Depois, chegou -se a uma paz baseada numa amizade infalível. Então, os filhos de Tuírenn despediram-se do rei Easal e do rei de loraidh, e muito felizes, voltaram com o cão paira a barca de Mananann.

Ora, enquanto isto acontecia, Lug do Braço Longo, que possuía o dom de saber o que se passava muito longe, tomou conhecimento dos feitos extraordinários dos filhos de Tuirenn. Desse modo, ficou a saber que eles tinham sido bem sucedidos em todas as provas que ele lhes tinha imposto, ficando por isso muito amargurado. Recitou então um sortilégio no vento e lançou um feitiço druídico tão poderoso aos filhos de Tuirenn que eles se esqueceram de que deviam ainda duas partes da compensação a Lug. E este fez com que eles tivessem um desejo incontido de voltar a ver o mais depressa possível a Irlanda. Assim, a barca de Mananann levou-os a Brug-na-Boyne. Quando desembarcaram, informaram-se sobre a as dsemPbrlaetiaasdeaesntcriobnotrsadveaDnuanmaa. Disseram-lhes que o rei Nuada do Braço de prata os chamara para uma reunião na fortaleza de Tara e, sem perda de tempo, deslocaram-se para aí com tudo o que tinham conseguido obter para pagar a compensação. Deram-lhes as boas vindas e o rei perguntou-lhes se tinham obtido o que era reclamado por Lug do Braço Longo. «Temos tudo», respondeu Brian, «e estamos prontos para lhe apresentar o que pediu.» Mas Lug não estava ali, pois soubera do regresso dos filhos de Tuirenn à Irlanda e queria que a vingança fosse completa. Foram por isso enviados mensageiros por toda a ilha, e estes acabaram por encontrá-lo, vindo ele para a assembléia dos chefes e dos nobres das tribos de Dana. Quando ele chegou à pequena saliência de terra em frente à casa real de Tara, os filhos de Tuirenn apresentaram-lhe o que ele lhes exigia. Depois de ver com todo o cuidado as maçãs de ouro, a pele de Porco, a lança, os cavalos e o carro, os sete porcos e o pequeno cão, Lug exclamou: «Espero que os chefes das tribos de Dana vos sos fiadores, pois, se assim não fosse, eu matar-vos-ia aqui

imediatamente por não terem cumprido as vossas promessas.» «o que dizes?», perguntaram os filhos de Tuirenn. Lug do Braço Longo mediu-os de alto a baixo com um ar de desprezo e disse com uma voz forte, de modo a que o ouvissem todos aqueles que estavam presentes na assembléia: «Onde estão pois o espeto de assar e os três brados que vos pedi? Parece-me bem que não estão incluídos entre o que me trouxestes ... » Ao ouvirem aquelas palavras, os filhos de Tuirenn ficaram aterrorizados e lembraram-se de repente que tinham perdido a memória. Deixaram Tara e dirigiram-se a casa do pai em Dun Edair´>. Contaram-lhe as suas aventuras e o modo como Lug do Braço Longo os tratara diante da assembléia, ficando Tuirenn muito entristecido e angustiado. Passaram juntos aquela noite e de manhã dirigiram-se para o porto, mas já não podiam embarcar na barca de Mananann, pois tinham-na entregue a Lug. Ethné, a irmã deles, estava em sua companhia, acompanhando -os quando estavam em terra. E, quando chegou a hora do embarque, entoou um canto de lamento que lamentava a má sorte dos filhos de Tuirenn. Depois de terem ouvido o canto da irmã, os filhos de Tuirenn içaram as velas do barco e partiram para o alto mar. O espeto de assar objeto da sua demanda estava na ilha de Fianchair, mas nenhum deles conhecia a localização desta ilha, e o barco em que agora viajavam não podia levá-los por si mesmo ao destino que eles queriam alcançar. A única coisa que eles sabiam era que aquela ilha estava sob o mar. Navegaram ao acaso durante um quarto do ano, fazendo perguntas a todos os que com eles se cruzavam, e acabaram por descobrir que a ilha de Fianchair estava a

pouca distância da embarcação. Fazendo esta avançar sobre a crista das ondas, tentaram achar o caminho que levava à ilha e, passadas algumas semanas, souberam que ela estava mesmo debaixo deles, bastando-lhes mergulhar para a alcançarem. «Eu vou sozinho», disse Brian aos irmãos, «pois na qualidade de mais velho sou responsável por vocês.» Deixaram-no então ir, e ele entrou na cidade que se erguia debaixo do mar. Aí estava um grupo de mulheres a coser e a bordar, podendo ele aperceber-se, entre os numerosos objetos que elas tinham à volta, de um espeto de assar. Então, sem fazer barulho, Brian aproximou-Se dos espetos, agarrou num e dirigiu-se para uma porta, mas de repente todas as mulheres presentes começaram a rir. «Que ação corajosa
1. Ou seja, na colina de Howth, na extremidade nordeste da baía de Dublin.

acabas de realizar!», disse por fim uma delas a Brian. «Fica a saber que, se tivesses vindo com os teus irmãos, nenhuma de nós permitiria que levassem o espeto. Muito pelo contrário, precipitando-nos sobre vós, arrancar-vosíamos os olhos e castrar-vos-íamos. Mas, como vieste só, sem defesa e como não nos agrediste, não nos opomos a que leves o espeto. Admiramos a tua bravura, e por isso te deixamos partir.» Brian agradeceu-lhes e despediu-se delas. Depois, deixou a cidade e foi ter com os irmãos a bordo do barco, ficando eles satisfeitos por o verem voltar são e salvo. Içaram as velas e voltaram para o alto mar em direção ao norte, dirigindo-se para o monte de Miodchain, o antigo mestre de Cian, filho de Dianceclit. Nesse monte deveriam dar três brados, levando-os aos três para Lug, filho de Cian. Demoraram vários meses até chegarem à ilha onde se erguia o monte de Miodchain. Quando aí chegaram,

Miodchain viu-os e veio ao seu encontro, pois cabia-lhe a tarefa de impedir que alguém desse três brados naquele monte. Ao vê-lo, Brian não hesitou em atacá-lo, e lutaram durante muito tempo. Por fim, Miodchain caiu morto, mas deixou três filhos que, por seu lado, vieram lutar contra os três filhos de Tuirenn. Depois de uma luta violenta e impiedosa, os filhos de Miodchain golpearam os corpos dos filhos de Tuirenn com as suas lanças, mas estes, sem se deixarem atemorizar e desafiando a própria morte, atravessaram de lado a lado os filhos de Miodchain com as suas armas, fazendo-os cair sem vida por terra. Então, os três filhos de Tuirenn deram três brados nos montes e, apesar de terem sofrido graves ferimentos, voltaram para o barco e desfraldaram as velas. «Não podemos morrer antes de chegarmos à Irlanda», disse Brian aos irmãos, «pois temos de pagar a Lug do Braço Longo a compensação que nos pediu.» Navegaram, assim, durante várias semanas até avistarem a Irlanda, e atracaram o barco diante da fortaleza de Bem Adair. Tuirenn veio recebê-los à costa, e, vendo-os num triste estado, ficou desolado e desesperado. «Pai», disse debilmente Brian, «estão aqui conosco o espeto de assar e os três brados que demos no monte de Miodchain. Trouxemos o que Lug nos pediu para o recompensar pelo assassínio do pai. Leva-lhe o que trouxemos e pede-lhe emprestada a pele de porco do rei da Grécia, para que possamos sarar os ferimentos e salvar a vida. Vai depressa, porque estamos esgotados, mas não queríamos morrer sem Voltar a ver a Irlanda e sem pagar o preço do que nos era exigido.» Tuirenn partiu imediatamente à procura de Lug do Braço Longo e encontrou-o em Tara, no meio de uma assembléia dos nobres e dos chefes das tribos de Dana. Deu-lhe o espeto e os três brados dados no monte de Miodchain e, diante de toda a assembléia, pediu-lhe emprestada a pele

de porco do rei da Grécia para salvar a vida dos três filhos. «Isso não está estipulado no acordo que fizemos», respondeu Lug, «Fico muito satisfeito por os teus filhos terem cumprido a sua obrigação e por terem pago a compensação que me deviam pelo assassínio do meu pai, mas não me interessa nada o que lhes possa acontecer. De modo nenhum te emprestarei a pele de porco do rei da Grécia.» Então, Tuirenn voltou para o lugar onde deixara os filhos, que estavam deitados, quase sem forças, a bordo do barco, e anunciou-lhes a resposta de Lug. «Leve-me à presença de Lug, ó meu pai», disse Brian, «e eu suplicar-lhe-ei que me ceda a pele de porco que faz sarar todas as feridas e cura todas as doenças.» Tuirenn levou-o então a Tara. Quando chegou à casa real, disse Brian a Lug do Braço Longo: «Nós cometemos um crime contra o teu pai, e tu exigiste de nós uma compensação que foi satisfeita. Deixa por isso que curemos as nossas feridas.» «Isso não faz parte do nosso acordo», disse Lug com firmeza. «Vós cumpristes a obrigação, tendes salvo a vossa honra, mas nada mais posso fazer por vós. E nada me obriga a salvar a vida dos assassinos do meu pai,» Após ouvir a resposta de Lug, Brian pediu ao pai para o levar de volta para o barco onde os irmãos jaziam, e, subindo para bordo, foi deitar-se ao lado deles. E logo os três irmãos perderam a vida, deles se libertando a alma. Tuirenn ergueu um pilar para os filhos e aí gravou os nomes deles em ogham. E Ettiné, filha de Tuirenn, entoou um cântico fúnebre pelos seus três irmãos. Assim se vingou Lug do Braço Longo dos filhos de Tuirenn, fazendo-os pagar pelo assassínio que perpetraram contra a pessoa do seu pai, Cian, filho de Dianceclit.1¶1

Comment [NR77]: 1. Segundo a narrativa de Destino dos filhos de Tuirenn.

Capítulo Em tempos muito distantes, havia um rei muito poderoso que exercia a sua autoridade sobre um país a que hoje se chama Céltica. E este rei tinha uma filha a quem dera o nome de CeItmé. Esta sua filha era tão bem dotada fisicamente que nenhuma outra mulher se lhe comparava, e a sua beleza fazia Com que tivesse varios pretendentes. Contudo, o seu aspecto e a admiração que despertava tinham-na tomado tão orgulhosa que rejeitava todos aqueles que se lhe declaravam, julgando-os indignos da sua categoria e do seu encanto, Naquele tempo, o grande Héracles acabara de enfrentar o terrível gigante Geryon, que tinha três cabeças e três corpos. Depois de uma luta impiedosa, ele matara o monstro e levara consigo a sua manada de vitelas. Foi então que ele deixou a Eriteia, levando consigo as vitelas, e errou proximamente através da Céltica, em busca de um lugar onde pudesse constrLir uma cidade. Chegou por fim a casa do pai de Celtiné, que o recebeu, lhe deu belas pastagens e o convidou a estabelecer-se no seu reino. Ora, logo que viu Héracles, a bela Celtiné apaixonou-se por ele, Pois, segundo pensava, um homem com aquele porte e uma presença tão distinta tinha por força de lhe estar destinado. Por infelicidade, Héracles não parecia prestarlhe atenção, estando muito ocupado com as suas vitelas. Imaginou então uma artimanha e, uma noite, escondeu os animais numa caverna cuja entrada só ela conhecia. Héracles ficou consternado quando soube do desaparecimento da sua manada, e jurou a si mesmo que a havia de encontrar o mais depressa possível. Ele calcorreou então os vales mais escondidos e secretos, sem encontrar a mais pequena pista sobre o seu paradeiro; pelo caminho ia interrogando as pessoas que encontrava, sem nunca receber uma resposta que lhe pudesse indicar o

caminho certo a tomar. Então, a bela Celtmé veio ao seu encontro. «Eu sei onde estão as tuas vitelas», disse ela, «Mas se quiseres saber onde elas estão, terás de aceitar as minhas condições.» Héracles acedeu, e ela guiou-o até â caverna onde se encontravarn as vitelas. Louco de alegria, Héracles levouas para um belo prado mas, chegada a noi e, tinha de se t sujeitar às condições impostas pela jovern, que se traduziam em se unir a ela. E como ele começava a deixarse seduzir pelos seus encantos, não teve dificuldade em aceitar unir-se a ela. Da ligação entre ambos nasceu um filho a quem chamar am Celtos, em homenagem à mãe. Este filho não tinha igual entre as gentes do país, pois era de uma coragem e de uma robustez invulgares. Chegado à idade adulta e tendo herdado o reino dos seus antepassados, conquistou uma grande parte dos territórios vizinhos e destacou-se graças a inúmeros atos heróicos. E, como forma vincar bem o seu poder, deu o seu nome aos povos que ficaram sob o seu domínio, estendendo-se depois este nome a todos os países dos celtas. Os seus descendentes reinaram num clima de paz e de prosperidade, construindo vastas fortalezas para se defenderem de eventuais invasões. Bravos e generosos, os soberanos fizeram-se rodear de artistas e de poetas. Um dos soberanos, chamado Luern, fazia o possiveis para s receber benesses do seu povo, e quando passava de carro pelos campos, atirava ouro e prata para a multidão de homens e mulheres que o seguiam ou que se chegavam à beira dos caminhos para o ver passar. Em certas alturas, ele ordenava que para um certo recinto preparado para o efeito se encaminhassem grandes quantidades de bebidas preciosas e de provisões, de tal modo que, durante vários dias, se podia entrar livremente no recinto e ficar regalado com os acepipes que eram servidos ininterruptamente a

quem quer que chegasse. Um dia - tendo sido a data marcada com grande antecipação - o rei Luern ofereceu um grande festim a todos os poetas e músicos do país. A festa foi de arromba e durou várias horas. Os convivas começavam a pedir licença para se retirarem quando chegou um poeta, que se atrasara bastante. Vendo que a festa estava no fim, o poeta apareceu diante de Luern e entoou um canto em que prestava homenagem à magnificência do rei, ao mesmo tempo que lamentava que o atraso o tivesse privado de uma grande alegria. O rei, divertido e encantado com Os seus versos, pediu uma bolsa de ouro a um dos seus criados e atirou-a aos pés do poeta que corria atrás do seu carro. O poeta apanhou a bolsa, mas continuou a correr enquanto entoava outro canto, dizendo que o rast o r deixado na terra pelo carro do rei eram raios que faziam prenunciar uma grande quantidade de ouro e de benefícios para os homens. Entretanto, à medida que cresciam as riquezas, a população ia aumentando, até que chegou o dia em que as colheitas já não eram suficientes para garantir a alimentação de todos, tornando-se por isso difícil governar tanta gente. Assim, o rei Ambigat, sucessor de Luern, que se sentia envelhecer e que queria aliviar o reino do excesso de população, chamou à sua presença dois filhos da sua irmã, Bellovèse e Ségovèse, Jovens corajosos e empreendedores. Anunciou-lhes a sua intenção de os enviar para novas terras e pediu-lhes, com este propósito, para determinarem o número de homens que queriam levar com eles, devendo evitar-se qualquer revolta entre as populações com as quais iriam entrar em contato. Bellovèse e Ségovèse escolheram então os homens que os deveriam acompanhar; depois foram convocados os druidas, os sábios, os adivinhos, e perguntaram-lhes qual

seria o melhor destino a dar a estes dois grupos. Os druidas, os sábios e os adivinhos, depois de se reunirem, disseram: «Segundo pensamos, impõem-se duas direções, uma para a floresta herciniana e a outra para Itália. Isto deve-se a que as regiões mais férteis da Germânia se encontram perto da floresta herciniana, numa região a que os antigos chamavam Orcinia. Quanto à Itália, o seu clima e os seus vales muito férteis permitem cultivar a vinha, o que será uma fonte de grande riqueza. «Muito bem», disse o rei Ambigat, «mas falta-me saber qual dos meus sobrinhos vai para oriente e qual vai para sul.» Tiraram à sorte, sendo atribuída a Itália a Ségovèses e a floresta herciniana a Bellovèse. Bellovèse partiu então com um grande número de homens, cavaleiros e soldados de infantaria, com carros de combate e pesadas carroças para transportarem os víveres e os despojos. No entanto, como não encontraram na floresta herciniana o que esperavam, os druidas do grupo preconizaram que se seguisse para sul, seguindo a mesma rota dos pássaros que voavam naquela direção e passavam para além de altas montanhas. Foi assim que este grupo de celtas, que a si mesmos se chamavam gauleses, gente brava, temível e audaciosa, conseguiu subir ao cume vertiginoso dos Alpes e chegar a lugares tão frios que se diria serem inacessiveis. Na etapa seguinte, aquele grupo chegou à llíria, cujos habitantes levavam uma vida de ócio e passavam o tempo sentados à mesa em festins intermináveis. Os gauleses, procurando uma maneira de se desembaraçarem deles com um mínimo de custos, decidiram então tirar partido da sua intemperança: cada um deles devia convidar um Iliriano para a sua tenda, e sentando-o a uma mesa muito bem fornecida de comes e bebes misturaria entre a comida uma certa erva que desarranja os intestinos. E, graças a este estratagema, os gauleses tornaram-se donos do país, sendo vários os ilirianos que sucumbiram em estado de

fraqueza, enquanto outros se atiravam para os rios devido a não aguentarem a incontinência infernal dos intestinos. Mas há também quem defenda que os ilirianos pereceram por terem sido víturias da vingança do deus Apolo, o qual terão ofendido com a sua gula e a sua indolência. Antes de começarem os combates contra os gauleses, sofreram calamidades naturais, tempestades e chuvas diluvianas. E aqueles que consegLiram escapar às inundações e à traição dos gauleses, encontraram depois outros tormentos, pois a terra produziu uma enorme quantidade de rãs, cuja putrefação e estado de decomposição deterioraram as águas do país, Pior ainda, devido aos miasmas que saiam da terra, o ar tornou-se tão infecto que apareceu uma peste de tal modo mortífera que todos foram obrigados a abandonar o país. E os gauleses não quiseram continuar por muito tempo nesta região maldita. A primeira expedição dos gauleses foi comandada por Cambaulès. Tendo penetrado até à Trácia, os gauleses no entanto não ousaram atacar os povos que existiam para além desse território. A expedição seguinte, realizada por aqueles que tinham seguido Cambaulès, foi composta por um exército poderoso de soldados de infantaria e de cavaleiros que se dividiram em três corpos, o primeiro confiado a Cerethrios, o segundo a Breno e Cichorios, o terceiro a Bolgios. Este último partiu imediatamente para fazer guerra aos macedónios. Os gauleses possuíam um equipamento bélico que enchia de espanto os povos por cujas terras passavam. Na verdade, como armas defensivas eles usavam escudos que lhes desciam da cabeça até aos pés, ornando-os cada um a seu gosto. Como estes escudos serviam não só para defesa como também para ornamento, alguns soldados tinham gravado neles figuras de bronze em alto relevo trabalhados com muito requinte. Os capacetes de bronze

possuíam partes salientes que davam um aspecto fantástico àqueles que os usavam. Alguns destes capacetes tinham chifres e outros possuíam efigies com pássaros e animais de todas espécies em relevo, Além disso, os guerreiros sopravam trombetas bárbaras que, graças a um truque de fabrico, provocavam um ronco descomunal que aumentava ainda mais o grande tumulto existente no decurso das batalhas. Estes povos tinham uma tal reputação e exibiam um aparato tão grande que chegou a haver reis que, sem serem atacados, simplesmente ao ouvirem o seu nome, lhes compraram a paz a preço de ouro. Só Ptolomeu, rei da Macedónia, não mostrou medo ao saber que eles se aproximavam. Revoltado com os seus crimes atrozes e com os seus parricídios, atreveu-se a marchar ao encontro deles com um punhado de guerreiros desorganizados, como se pudesse fazer frente a um tão poderoso exército. Os gauleses, cujo rei era Bolgios, enviaram mensageiros a Ptolomeu para saber da sua disposição e para lhe perguntar se queria comprar a paz, e este último vangloriou-se perante os seus por ter levado os gauleses a pedir a paz. E levou a presunção ao ponto de afirmar, diante dos emissarios, que não poderia haver paz se os gauleses não1 depusessem as armas e não entregassem os seus chefes, pois só confiava neles se estivessem desarmados, Quando os mensageiros voltaram para o seu campo e contaram o que se tinha passado, os gauleses puseram-se a rir e exclamaram cheios de desprezo que o rei da Macedónía não tardaria a saber se era por medo ou por piedade que lhe tinha sido oferecida a paz. E a determinação da nação dos gauleses para combater, aumentou consideravelmente. Alguns dias mais tarde, os dois exércitos enfreritaram-se, e os macedónios foram destroçados. Ptolomeu, que sofreu graves ferimentos, foi

Comment [NR78]: Estes Pormenores de fonte grega são extractos de Pausânias (X, 22), o qual, é preciso notar, não é muito confiável historicamente, pois a narrativa que ele faz do ataque a Delfos pelos gauleses (ver mais adiante) é uma colagem integral da que Heródoto consagrou à pilhagem do santuário pelos persas,

feito Prisioneiro, depois puseram a cabeça dele na ponta de uma lança e exibiram-na à volta do campo de batalha para convencer os macedónios de que não tinham salvação possível. Quando voltou da perseguição feita aos fugitivos, Bolgios juntou os Prisioneiros e, entre eles, escolheu os mais fortes e válidos para serem imolados, manifestando desse modo o seu agradecimento pela vitória aos deuses. Foram poucos os macedónios que escaparam, tendo sido quase todos mortos ou capturados. Quando na Macedónia se soube deste desastre, os habitantes concentraram-se nas cidades e fecharam as suas entradas. A consternação era geral, mas um dos principais chefes, que se chamava Sóstenes, decidiu reagir e resistir aos invasores. Juntou uma grande parte dos Jovens e, cheio de entusiasmo e de determinação, chegou a deter o avanço dos gauleses que, muito entretidos a celebrar entusiasticamente o triunfo, tinham perdido o espírito ofensivo. Entrementes, o outro chefe gaulês, que se chamava Breno, dirigira--se para a Grécia, que tencionava Ocupar. Quando soube que as hostes comandadas por Bolgios tinham vencido os Macedónios, mas tinham parado de avançar, ficou indignado por eles negligenciarem de forma tão inglória um despojo valioso que continha todos os tesouros do Oriente. Juntou então quinze mil cavaleiros e cento e cinquenta mil soldados de infantaria que, cheios de determinação, invadiram a Macedónia. Enquanto saqueavam os campos, Sóstenes veio atacá-los com as suas hostes, mas estas eram pouco numerosas e a maior parte dos jovens que as compunham receavam a ferocidade e a reputação dos gauleses. Assim, estes últimos, resolutos e confiantes, facilmente os fizerem dispersar por todo o país. Os macedóníos voltaram então a fechar-se no interior das muralhas das suas cidades, e Breno pôde a partir daí entreter-se a saquear à sua vontade as regiões vizinhas.

Entretanto, o saque acumulado parecia bastar aos gauleses, cuja satisfação lhes refreou o ímpeto, fato que desagradou a Breno. O objetivo deste era ir muito mais longe e descobrir um país onde ele e os seus pudessem prosperar e viver num clima de tranquilidade. Por isso, não descansou enquanto não convenceu as suas gentes a pegarem em armas contra os gregos. Para as convencer fez discursos muito eloquentes em que mostrava de um lado a Grécia derrotada e sem forças, e do outro a sua audácia que era responsável pela opulência das cidades, a riqueza dos templos e grandes quantias de ouro e de dinheiro. Para convencer os gauleses a seguirem-no, Breno fez desfilar perante as assembléias do povo prisioneiros gregos de cabeça rapada que ele escolhera entre os mais enfezados e os mais macilentos e que eram seguidos pelos seus homens mais corpulentos e robustos - desse modo podia dizer que guerreiros tão possantes nada tinham a recear de inimigos tão frágeis e indefesos. Assim, Breno conseguiu formar um extraordinário exército de cento e cinquenta mil soldados de infantaria e de dois mil e quatrocentos cavaleiros. Cada senhor possuía dois lacaios que seguiam atrás dele: se perdia um cavalo, um dos lacaios dava-lhe o seu e, se ele morria, um deles substituía-o no combate. E, se morressem dois, havia um terceiro para prosseguir a luta. Os gauleses chamaram a esta espécie de milícia trimarkesia, termo derivado da palavra marka que, na língua celta daquele tempo, significava cavalo. Com este equipamento, Breno comandou, muito seguro de si, o seu exército até à Grécia. Breno era extremamente audaz e experiente, sendo mesmo perito em artimanhas e, em expedientes de todo o gênero para enganar o adversário. Uma noite, em vez de se deixar intimidar pela destruição das pontes do rio

Sperchios, teve a idéia brilhante de enviar dez mil hornens para a foz do rio. Queria ele que os seus homens atravessassem para a outra margem sem os Gregos saberem. Naquele lugar, com efeito, o rio não tinha uma corrente tão forte, e prolongava-se para o interior dos campos, formando aí um verdadeiro pântano. Ora, entre estes dez mil homens, uns sabiam nadar perfeitamente, e outros tinham unia estatura imponente, tendo Breno apenas o problema da escolha, pois os celtas tinham uma compleição sem igual entre todos os outros povos. Foi assim que, naquela noite, uma parte do destacamento conseguiu atravessar o rio a nado, enquanto a outra parte o atravessou sem perder o pé, o que não estava ao alcance de pessoas mais pequenas. Entretanto, Breno dera ordens aos habitantes das redondezas do golfo Maliaque para construírem uma ponte no rio Sperchios, e aqueles tinham-se apressado a fazê-lo, incitados pelo medo que tinham daqueles guerreiros armados que os obrigavam a trabalhar dia e noite. Quando a ponte ficou concluída, os gauleses atravessaram o rio e avançaram para Heraclea, pilhando todas as habitações que encontravam e matando todos os homens que se lhes atravessavam no caminho, deixando os seus corpos espalhados pelos campos. Mas o mais importante para Breno não era conquistar Heraclea. Para ele o objetivo principal era expulsar a guarnição das muralhas que protegiam a cidade, pois se isso não fosse conseguido, não conseguiria alcançar a passagem das Termópilas. Após violentos combates, Breno conseguiu pôr a guarnição em fuga. Passando sem problemas as muralhas de Heraclea, continuou a marcha Para as Termópilas e resolveu atacar os gregos que estavam preparados Para lhe oferecer resistência. O confronto ficou marcado, por sua vontade, para o dia seguinte, ao nascer do sol. Os gregos avançaram para o Combate muito bem or ganizados e em silêncio absoluto. Cansados pela longa viagem, os

gauleses não estavam na sua melhor forma nem estavam bem armados, bem pelo contrário. Tendo apenas escudos em seu Poder viram-se na contingência de se atirarem ao inimigo como uma força bruta, parecendo feras ferozes a atirarem-se as suas presas. Apesar de duramente atingidos por machados e por espadas cortantes, nem por isso se rendiam e não perdiam o ar ameaçador e obstinado que lhes era característico. Lutaram encarniçadamente, até ficarem completamente sem forças e não houve entre eles quem não fizesse das tripas coração e não retirasse dos golpes mortais infligidos pelos gregos as forças necessárías para lhes responder da mesma moeda, provocando várias mortes entre eles. Entretanto, os atenienses cercaram-nos tão bem pelos flancos que os invasores não consegLiram sair dos desfiladeiros onde se tinham reunido, ficando numa situação muito delicada. Ao verem que a situação era desesperada, os seus chefes deram ordens para recuar, mas a fuga foi tão precipitada que numerosos guerreiros, caindo uns sobre os outros, morreram esmagados. Outros dos fugitivos meteram-se pelos pântanos que naquele lugar eram vizinhos do mar, e os gauleses na debandada perderam tantos homens como na batalha. Mas Breno nem assim desistiu. Passados sete dias, novas hostes gaulesas puseram-se em marcha para desta vez tentarem passar o monte Oeta, Breno pretendia que elas seguissem por um pequeno atalho que levava a Trachine, cidade que Daquela época estava em ruínas, mas sob a qual existia um templo devotado a Palas, que os habitantes da região tinham enriquecido com numerosas oferendas. O objetivo dos gauleses consistia em, seguindo através daquele atalho escondido, chegar ao cimo da montanha e aproveitar para saquear o templo.

O objetivo, no entanto, não era fácil de alcançar, pois os Etólios guardavam as passagens e sem que nada o fizesse prever surpreenderam os gauleses, destroçando-os. Estes entraram em panico e uma grande parte deles quis pôr-se em fuga, sendo Breno o único a não perder a coragem. Pensou ele que, se conseguisse obrigar os Etólios a voltarem para trás, o caminho ficaria aberto para chegar ao desejado objetivo. Assim, formou um destacamento de quarenta mil homens e de oitocentos cavaleiros, entregando o comando a um chefe muito corajoso chamado Milé e ao seu lugar-tenente Orestorios. Ordenoulhes que atravessassem o rio Sperchios e a Tessába, e que fossem pôr o país dos Etólios a ferro e fogo. Foram estas tropas que devastaram a cidade de Callion e aí perpetraram um massacre pavoroso. Os sexos viris foram todos mutilados, Os velhos foram passados pelo fio da espada, as crianças de tenra idade arrancadas ao seio das mães e decapitadas; e àquelas que pareciam rnelhor amamentadas os gauleses bebiam -lhes o sangue e saciavam-se com a sua carne,´¶ As mulheres e as jovens que tinham o senso da honra entregaram-se voluntariamente à morte para evitarem a fúria dos vencedores, Outras, obrigadas a sentir na pele todas as indignidades que se possam imaginar, foram depois alvo de chacota por parte dos seus carrascos, que eram completamente insensíveis à piedade e ao amor. Quando os Etólios que defendiam as Termópllas souberam o que se passava no seu país, partiram imediatamente em socorro dos seus compatriotas e deixaram que os gauleses ficassem livres para fazerem o que muito bem lhes apetecia. Passando as Térinópilas podia alcançar-se o cume do monte Eta por dois atalhos distintos: um, muito estreito e difícil, levava ao cimo de Trachine; o outro, mais acessível à passagem de um exército, atravessava as terras de

Emanes. Breno escolheu este último para a sua expedição, Os gregos não demoraram a saber que os gauleses seguiam este caminho, conduzidos pelos habitantes de Heracica e pelos Eníanes. Breno deixara o seu lugartenente Kikorios no acampamento e, acompanhado de quarenta mil homens, seguia os guias. Quis o acaso que, naquele dia, um nev oeiro espesso cobrísse o monte Eta de tal forma que nem se conseguia ver o sol. Por isso os Fócios que estavam na região só se aperceberam do inimigo quando este lhes infligiu o primeiro ataque. Gerou-se então uma enorme confusão, com as vidas a correrem um grande perigo, e enquanto uns procuravam desesperadamente tapar a passagem aos gauleses, outros tentavam fazer manobras de diversão, mas, no fim, cercados por todos os lados, abandonaram as suas posições e espalharam-se em todas as direções, deixando o adversário dono do terreno, Breno não perdeu tempo. Ordenou que se marchasse imediatamente sobre Delfos, dizendo repetidamente para aqueles que o acompanhavam que era uma tarefa dos deuses fazer tesouros para os oferecerem aos humanos. Um dia, aliás, estando no interior de um templo, nem sequer deu atenção às oferendas em ouro e prata que aí estavam depositadas, apoderando-se simplesmente das imagens de Pedra e de madeira, o que provocou uma enorme rísota: como era possível que os Gregos pudessem dar às divindades formas humanas que eram fabricadas com materiais perecíveis? Sem esperar que Kikorios se lhe juntasse, Breno, acompanhado de Milé, precipitou-se então para o santuário de Delfos. Sabendo da notícia, todas as cidades da Fócida enviaram auxílio: Anfísia deu quatrocentos homens de infantaria; os Etólios, apesar de já terem alguma experiência, apenas forneceram um pequeno número de

guerreiros; e as outras cidades enviaram para Delfos o número máximo de guerreiros que conseguiram reunir para tentarem evitar a pilhagem que Breno pretendia levar a cabo. Breno hesitou ao ver o santuário: deveria ordenar o ataque imediatamente ou, pelo contrário, deveria conceder aos seus homens uma noite de descanso, já que estavam esgotados pela viagem? Dois dos chefes gauleses que se lhe tinham juntado na expectativa de um saque inimigo muito proveitoso queriam que se atacasse imediatamente o que, recolhido na defensiva, dava sinais de fraqueza. Mas os guerreiros gauleses, fartos de privações e maravilhados por este país repleto de alimentos e de vinhos, tinham posto de lado os seus estandartes e estavam eufóricos pelo sucesso alcançado e por terem encontrado urna inesperada abundância. Espalhados pelos campos, os gauleses colhiam os mais diversos frutos e saciavam o estômago e os sentidos com o que havia para comer e beber. Breno esforçou-se por reagrupá-los e por lhes fazer ver o magnífico saque que se lhes oferecia, improvisou discursos inflamados, exaltando o ouro maciço das estátuas, os carros que se distinguiam ao longe, e garantia a pés juntos que o valor destes objetos ultrapassava tudo o que se poderia imaginar. Excitados pela sua eloquência e embriagados pelas orgias a que se tinham entregue, os gauleses acabaram, por aceitar partir para o combate. Pressentindo o perigo iminente, os habitantes de Delfos perguntaram ao deus se era necessário retirar dos templos os tesouros que ai se encontravam, e se era preciso mandar as mulheres e as crianças para cidades vizinhas, melhor fortificadas, onde pudessem estar em segurança. Pela voz da Pítia, o deus ordenou que as oferendas e os ornamentos dos santuários ficassem nos seus lugares, pois

ele mesmo, com as Virgens Brancas suas companheiras, se encarregaria de as ter sob a sua guarda. No templo do deus encontravam-se, com efeito, duas capelas bem antigas, uma consagrada a Palas Pronaos e a outra a Artémis, e estas duas deusas, de acordo com o oráculo, secundavam Apolo. A fúria dos deuses não tardou a manifestar-se contra os gauleses. Para começar, o terreno ocupado pelas suas tropas sofreu um abalo que durou uma grande parte do dia. A segLir, ribombaram trovões, acompanhados de clarões contínuos que aterrorizaram os assaltantes e impedirarin que eles ouvissem as ordens dadas pelos seus chefes. Os raios, que frequentemente caíam sobre eles, não se limitavam a matar aqueles que atingiam, mas igualmente reduziam a cinzas os que estavam perto deles, assim como as suas armas. Para completar o quadro, no céu apareceram heróis de tempos antigos que costumavam devolver a coragem aos Gregos e lhes mostrava como combater os inimigos. Mesmo os sacerdotes do santuário se envolveram na batalha e se colocaram na frente de combate, gritando que deus os tinha vindo defender e que tinha sido visto a atravessar as espessas nuvens que envolviam as montanhas. Parecia que todo o universo estava em fúria. Os gauleses, depois de terem passado por tantos reveses e por tantas angústias durante o dia da batalha, tiveram uma noite ainda mais negra, pois a enorme quantidade de neve que caiu tornou o frio ainda mais insuportável. E os gauleses chegaram mesmo a acreditar que as Virgens Brancas das profecias se tinham virado contra eles, de tal modo eram fustigados por rabanadas de vento e por borrascas de neve. Depois, como se todos os elementos tivessem cumprido o seu papel, soltaram-se do monte Parnaso grandes pedras,

ou antes revoadas de rochas inteiras que, caindo sobre eles, esmagaram não um ou dois de cada vez mas trinta e quarenta. E o sol só se ergueu quando os gregos, que se tinham refugiado na cidade, a deixaram, enquanto os Fócios, por seu lado, desciam das montanhas geladas. Só os guardas de Breno e os homens de elite, muito robustos e rijos, resistiram ao ataque, embora estivessem enregelados e exaustos. Ao verem o seu chefe gravemente ferido e numa situação desesperada, estes últimos não hesitaram em cobrir-lhe o corpo e em transportá-lo, atitude esta que provocou uma debandada geral. Na fuga, foram surpreendidos pela noite e acamparam, passando então, por momentos de pânico, palavra esta que designa medo, crendo-se que eles estavam a ser inspirados pelo deus Pã em pessoa. O pavor da noite fê-los passar por um falso alarme, quando um grupo de guerreiros pensou ouvir um galope que se aproximava e que os vinham atacar por trás. O medo logo contagiou os outros, e todos empunharam as respectivas armas, dividiram-se em diversos grupos e guerrearam-se entre si, plenamente convencidos de que enfrentavam os Gregos. O pâníco criado foi de tal ordem que, tendo eles esquecido a sua própria língua, acreditavam que as palavras que ouviam eram dos gregos. Acresce que, no meio da escuridão, não conseguiam distinguir nem reconhecer a forma dos seus escudos, apesar de serem muito diferentes dos de seus inimigos. Assim, todos eles de uma forma ou de outra passaram a noite enganados e foram poucos os que conseguiram voltar para o campo de Heraclea quando a luz do dia irrompeu. Breno perdeu muitos milhares de homens naquela aventura, tendo sido ele mesmo ferido por três vezes. Sabendo que não tinha muito tempo de vida, chamou ao seu leito de morte os seus principais lugares-tenentes e

pediu-lhes que acabassem com ele, assim como com todos os feridos, que incendiassem todas as carroças, alcançassem um porto e voltassem o mais depressa possível para o país de origem, Ordenou também que o comando do que restava das tropas fosse entregue a Kikorios e a Milé, e depois de se embriagar apunhalou-se a si próprio, assim perdendo a vida o chefe desta expedição que se aventurou pelas montanhas e pelos vales da Grécia. Por ordem de Kíkorios, ele foi sepultado e tirou -se a vida aos feridos, assim como a todos aqueles que, em grande número, tinham adoecido devido ao frio e à fome. Depois, de comum acordo com Milé, Kikorios reuniu os homens que pertenciam ao seu clã e dirigiu-se corn eles para o mar, tendo ainda de travar várias batalhas para abrir carninho e chegar aos barcos. Uma vez embarcados, ele e os seus deixaram-se conduzir pelo vento, e chegaram às costas da Ásia. E são eles que, desde então, são chamados Gálatas. No que respeita a Milé e aos seus companheiros, estes tomariam outra direção e, depois de várias atribulações, chegaram a um porto e decidiram deixar o país. Depois de terem trocado uma parte do saque por barcos, fizeram -se ao mar e chegaram às costas de Creta. Contudo, ficaram aí pouco tempo, pois não foram bem recebidos pelos habitantes do país. Então, embarcaram de novo e navegaram até ao Egito, onde morreu Milé, tendo-se tornado o seu filho Bréogan o chefe do clã a que mais tarde se chamou Filhos de Milé. Mas, não lhes interessando o país do Egipto, decidiram todos partir. Andaram então ao acaso pelo mar T irreno, e acabaram por desembarcar na Sicília, mas não Permaneceram aí muit o tempo Pois os seus druidas e os seus adivinhos tinham-lhes dito para navegarem o mais possível para oeste, para os países onde o sol se põe sobre as vagas do oceano. Voltaram Por isso para o mar,

Comment [NR79]: 1, Toda a primeira parte deste capítulo foi redigida de acordo com episódios que se encontram dispersos por obras de escritores gregos e latinos da Antiguidade: Apamea (XX1,1), Tito-Lívio (V, 34), Justino, que faz o resumo do Gaulês Trogue-Pompeu (XX1V, 4,5,6,8), Ateneu (X,6o), Ãpio (1vrica), Diodoro de Sicilia (V, 31 e Fragmentos XX11 e Pólio (VII, 35), Cícero (De Divinatione) e sobrctudo, Pausânias (X, 19, 2o, 21, 22, 23).

com diversos navios, e acabaram por chegar à costa de Espanha. E foi aí que morreu Bréogan, filho de Milé que , deixou oito filhos, os quais foram Os chefes dos Filhos de Milé que quiseram dar a estes um país digno do seu valor. O filho mais velho de Bréogan dava pelo nome de Ith. Mais do que os irmãos, estava decidido a descobrir os países maravilhosos cujas virtudes o irmão Amorgen, que era poeta, tanto enaltecia nas suas visões proféticas. Um dia, com muito esforço ele subiu ao cume de uma montanha. O tempo estava muito claro, Permitindo que se estendesse o olhar até muito longe, e ele olhou ria direção do Poente. Vislumbrou então uma terra verdejante que tinha uma aparência sedutora. Desceu à pressa a montanha e foi contar aos irmãos o que vira. Mas Brégu, filho de Bréogan, troçou dele, dizendo que a terra que vira não podia ser senão uma nuvem suspensa no céu. Mesmo assim, Ith insistiu levou-os a todos ao cimo da Montanha de onde avistara a terra maravilhosa. «Tinhas razão», disseram Os filhos de Bréogan, «trata-se de uma terra onde Poderemos levar uma bela vida a criar animais e a viver da agricultura, Vamos Pois preparar a partida de Modo a alcançá-la por mar.» Durante várias semanas, Os filhos de Milé construíram navios e ocuparam-se, preparando-os para se poderem abastecer de provisões e de água doce. Quando terminaram os Preparativos, levantaram âncora e partiram à vela. E os ventos empurraram-nos a toda a velocidade pelo meio do oceano que cerca o mundo, ameaçando levar Os barcos para o fundo e lançar os seus tripulantes nos abismos onde reinam as trevas da noite. Os Filhos de Milé já navegavam há vários dias quando foram envolvidos por uma bruma. Como o vento caíra, andaram muito tempo à deriva Sobre as ondas. Mas, de súbito, viram para lá da bruma uma luz débil que Parecia

brilhar a Partir do vazio. Todos tentaram perceber que luz seria aquela e começaram a desesperar acreditando estar no fim do mundo, quando vislumbraram a silhueta de uma torre no meio do mar e lânçaram então na sua direção com todas as suas forças e chegaram ao pé de uma torre imensa que, muito direita dentro mar, ia abraçar o céu. Ficaram estupefatos quando viram que a torre era de vidro e que, no seu interior, subiam e desciam homens que pareciam não lhes dar atenção. Os filhos de Milé gritaram o mais alto que puderam para chamar a atenção dos desconhecidos. Estes olharam -nos, mostraram-se indiferentes à sua presença, e não disseram nada. Então, os filhos de Milé perguntaram-lhes quem eram e que torre era aquela, mas no outro lado da muralha de vidro os outros, sem pronunciarem uma palavra, continuaram entretidos com o que estavam a fazer, como se nada tivesse acontecido. A luz desapareceu então, e a bruma encerrou-os numa estranha obscuridade que os encheu de angústia. Entretanto, a bruma não tardou a dissipar-se, tão depressa como se formara. Eles encontravam-se bem no alto mar, e o sol começou a declinar para o horizonte. Mas, por muit o que eles olhassem em volta, não viam nenhum vestígio da torre de vidro e dos seus misteriosos habitantes. Então, recomeçaram a navegação seguindo a direção do norte, Aportaram na Irlanda na praia que confina com a planície que hoje se chama Mag Ilha, em memória de Ith, o primeiro dos filhos de Milé a desembarcar naquele lugar. O segundo a desembarcar ali foi o seu irmão Amorgen do joelho branco, o poeta, que, ao pousar o seu pé em terra, entoou o canto seguinte: «Mar tão piscoso e brilhante, terra fértil, bosques em vales, com bandos imensos de pássaros, mar rude com vagas brancas, estuários profundos com centenas de salmões,
Comment [NR80]: 1. O episódio da Torre de Vidro encontra-se apenas na Ilistoría Brittonum, narrativa ein latim de Nenníus, e que data do século X.

írrupção de peixes, mar de peixes infinitos, rios abundantes em água, terra fértil e verdejante ... » Os filhos de Milé tinham chegado em trinta e seis navios. Quando todos tinham desembarcado, vieram pessoas falar lhes e aperceberam com espanto, de parte a parte, que falavam a mesma língua, ou seja, o gaélico, passando então a tratar-se afavelmente. Os Filhos de Mílé quiseram saber o nome da ilha e a identidade dos seus habitantes. <Vós estaís na ilha de Elga», responderam os outros, «e pertencemos às tribos de Dana. Atualmente temos três reis, Mac Cuill, Mac Cecht e Mac Greine, filho de Cermat, filho de Dagda, e os seus três reinos são Banba, FothIa e Eriu.»´ Depois de combinarem o que haviam de fazer, os Filhos de Milé decidiram enviar um dos seus a presença dos reis das tribos de Dana para lhes perguntar se se podiam estabelecer numa parte da ilha para a cultivarem e aí fazerem a criação de gado. E como tinha sido Ith a coaduzilos até ali, foi-lhe confiada aquela missão, partindo ele imediatamente com uma quinzena de homens. Naquele dia, os chefes das tribos de Dana estavam reunidos em Tara, na casa real, para resolverem o conflito que opunha Mac Cuill aos seus dois irmãos, Mac Cecht e Mac Greine. Estes dois últimos acusavam Mac Cuill de ter ficado com a maior parte dos tesouros de Fiachma, filho de Delbaeth, que morrera pouco antes. Quando Ith chegou a Tara, o porteiro fê-lo entrar na casa real, e os reis deramlhe as boas vindas expondo-lhe depois os motivos daquela disputa. «Seria conveniente que houvesse um clima de amizade», disse Ith, «pois nenhum país pode ser feliz e próspero se não houver concórdía e fraternidade entre aqueles que o governam, A vossa ilha é boa e verdejante, com pastagens aprazíveís; o trigo, o peixe, os cereais são aqui

abundantes. O calor e o frio não são excessivos e nada vos falta. Deixai-vos, pois de quezílias e partilhai equitativamente os tesouros que vos fazem guerrear uns contra os outros. Pela minha parte, só vos peço uma coisa: que permitis que nos estabeleçamos numa das vossas regiões. Podeis ficar certo de que a trataremos bem, cultivando-a e criando animais, ficando-vos muito gratos por todo o bem que nos fizerdes.» «Tens razão», disseram os reis, «quando nos dizes que é muito triste andarmos em disputas por causa de tesouros que não são dignos disso. Quanto a ti, volta para perto dos teus e dizlhes que em breve concluiremos um tratado entre nós.» Ith disse-lhes adeus e, satisfeito por ter cumprido a sua missão, voltou para o lugar onde os filhos de Milé tinham desembarcado. Entretanto, os chefes das tribos de Dana começaram a conspirar nas suas costas. Diziam que ele era filho de um dos reis do mundo, e que viera espiá-los com o objetivo de se apoderar de toda a ilha, sendo necessário impedir que aquelas gentes se instalassem naquelas terras que as tribos de Dana tinham conquistado mercê do seu valor, da sua bravura e da sua tenacidade. Combinaram então matar Ith e puseram-se em sua perseguição, ferindo-o gravemente. Ith conseguiu ainda chegar à presença dos filhos de Milé e teve tempo para lhes contar o que se passara, mas morreu logo de seguida. Muito consternados, os seus irmãos e os outros filhos de Mílé fizeram-lhe uma sepultura junto da qual erigiram um marco funerário. «Não permitiremos que este crime fique impune», disse Eber Donn, o irmão mais velho de Ith. «Vamos imediatamente pedir aos reis das três tribos de Dana que seja feita justiça.» Puseram-se então a caminho tomando a direção de Tara. Pelo caminho encontraram Banba, uma das três rainhas. Ao vê-los aproximarem-se, ela disse-lhes: «Se viestes a esta ilha com o propósito de vos apoderardes dela, ficai a
Comment [NR81]: 1, Encontram-se aqui os três nomes da Mulher Primordial, a que estava adormecida durante o dilúvio e que simboliza a Irlanda. Os três reis possuem nomes reveladores: Mac Cuill significa literalmente «filho de aveleira» (sendo a aveleira uma árvore mágica e druidica), Mac Ceclu, «filho do arado» e Mac Greine «filho do sol».

saber que as estrelas não vos estão favoráveis.» «E por necessidade que aqui estamos», respondeu Amorgen, o poeta. «Mas com que direito te permites pronunciar palavras tão nefastas? «Fazei-me um favor», disse Banba. «Qual?», perguntou Amorgen. «Gostava que o meu nome fosse dado a esta ilha» «E como te chamas, e de que raça és tu?», perguntou Amorgen. «Chamam -me Banba», respondeu ela, «e sou da raça de Adão. Sou mais velha que Noé. Durante o dilúvio estava no cume da montanha, e as vagas do oceano não me atingiram» Os druidas dos Filhos de Milé lançaram então um encantamento, e Banba afastou-se sem que eles lhe fizessem o favor. Mais adiante, encontraram FothIa, a segunda das três rainhas. Ela dirigiu-se-lhes nos mesmos termos de Banba, e eles desembaraçaram-se dela voltando a lançar encantamentos. Depois, pondo-se de novo a caminho, encontraram a terceira rainha, esposa de Mac Greme, que dava pelo nome de Eriu. «ó guerreiros», exclamou ela ao vê-los, «sede bem-vindos a esta ilha. Há muito que os nossos profetas anunciaram a vossa vinda. Esta iha será l vossa para todo o sempre e não haverá terra tão magnífica no mundo inteiro. Nenhuma raça será tão numerosa como a vossa.» «A profecia é boa», disse Amorgen do joelho branco. «Gostava que se desse o meu nome a esta ilha», respondeu ela. «Pois bem», disse Arnorgen, «então que o teu nome seja o seu principal nome.» E ern seguida chegaram a Tara. Eber Donn e os irmãos foram recebidos pelos três reis, e protestaram com veemência contra o crime que fora cometido contra Ith, pois este levara-lhes uma mensagem de paz e não possuía quaisquer propósitos agressivos ou mal intencionados. Os reis estiveram muito tempo a ponderar e depois determinaram o seguinte: os filhos de Milé deveriam voltar para os seus barcos e levantar âncora, e se num prazo de

três dias conseguissem aportar de novo, toda a ilha passaria a pertencer-lhes. Se, pelo contrário, ao fim de três dias, os Filhos de Milé não conseguissem aportar, a ilha continuaria na posse exclusiva das tribos de Dana. Pensavam os três reis que os Filhos de Milé nunca mais voltariam, pois os druidas lançariam tantos encantamentos contra eles que os impeliriam muito para longe de terra. «Nós vamos pensar», disse Eber Donn. «Que pensa Amorgen desta proposta?» «Parece-me razoável», respondeu Amorgen. «Até que distância iremos?», perguntou Eber Donn. «Iremos para além de nove vagas.» Os Filhos de Milé deixaram então a fortaleza de Tara e dirigiram-se para sul até ao porto de Seria, na foz do rio Felle, onde tinham ficado os seus barcos. Embarcaram neles, levantaram âncora e navegaram para além da nona vaga. Os druidas das tribos de Dana e todos os poetas lançaram-lhes então encantamentos, de tal modo que os ventos empurraram os navios para muito longe da Irlanda, enchendo de angústia os seus tripulantes por se achare m no alto mar. «E um vento druídico que nos empurra para tão longe», disse Eber Donn. «Vejam se o vento sopra debaixo dos mastros.» Olharam com atenção e viram que o vento aí não soprava. «Paciência», disse Erech, um dos filhos de Milé que pilotava o barco de Eber Donn; «só temos de pedir a Amorgen para se opor a este vento druídico.» Erech era filho adotivo de Amorgen e chamou-o. «É uma vergonha para todos os nossos homens de arte», disse Eber Donn, «termos de suportar durante tanto tempo a afronta que nos é infligida pelos druidas da Irlanda. «Não», respondeu Amorgen, «não é uma vergonha, mas os nossos homens nada podem fazer enquanto tu mesmo nada fizeres contra a magia das tribos de Dana.» Eber Donn desembainhou a espada e apontou para o -a

céu. «Por deus!», exclamou ele, «eu juro que trespassarei com o fio da minha espada todos aqueles que vivem nesta ilha.» O vento mudou de direção e empurrou então os barcos dos Filhos de Milé para a costa onde aportaram pouco depois. «Repara», disse Amorgen, «que o nosso poder druídico vale mais do que o das tribos de Dana. Voltámos à Irlanda antes dos três dias que nos tinham aprazado e temos agora o direito de nos apoderarmos de toda a ilha.» Pegaram nas armas e em todos os seus apetrechos e puseram-se a caminho de Tara. Entretanto, os chefes das tribos de Dana já sabiam do seu regresso à Irlanda, tendose reunido à pressa na casa real de Tara, Estavam aí os três reis, Mac Cuill, Mac Cecht e Mac Grein, assim corno Mananann, filho de Lir, Goibmu, o ferreiro, Díancecht, o médico, Lug do Braço Longo, filho de Cian, Dagda, a quem também chamavam Eochaid Ollathaír, e Bobdh Derg, filho de Dagda. Estudaram aprofundadamente a situação, mas não consegLiram encontrar nenhuma forma para evitar o conflito que fatalmente os iria opor aos Filhos de Milé. «Temos de partilhar o país com eles», disse Dagda. «É impossível», responderam os três reis. «Temos de os expulsar desta terra, pois nós somos os únicos donos desta ilha.» «Nós fizémos um acordo com eles», disse Lug, «e devemos respeitá-lo. Segundo esse acordo, se eles conseguissem aportar a esta ilha antes dos três dias combinados, tornar-se-iam os donos da Irlanda. Respeitemos, pois os nossos compromissos e retiremo-nos para os nossos domínios feéricos. Aí seremos sempre nós a mandar, aconteça o que acontecer, e eles não conseguirão aproximar-se de nós sem que o saibamos.» «Além disso», acrescentou Mananann, «temos o poder de nos tornarmos invisiveis, e poderemos por isso errar pelo mundo sem que alguém possa suspeitar da nossa presença.»

Mas os três reis das tribos de Dana mostraram -se irredutíveis e exigiram dos seus companheiros que se envolvessem numa luta sem quartel contra os Filhos de Mílé que diziam descender de uma mesma linhagem que eles, a linhagem dos filhos de Nemed. Deste modo propuseram que se formasse um exército e que este se opusesse com vigor, tanto pelo poder mágico como pelo das armas, às pretensões dos Filhos de Milé de ocuparem toda a Irlanda. Por fim, todos aceitaram, uns com melhor vontade do que outros, enfrentar os invasores e evitar que eles se apoderassem da Ilha Verde. O destino assim determinaria o que viesse a acontecer, e todos juraram que se conforimariam com o resultado do conflito. As tribos de Dana reuniram todos os homens disponíveis, que não eram muitos, e confiavam sobretudo no poder , mágico dos seus druidas que lhes prometiam a vitória sem a perda de vidas humanas. As tropas reagruparam-se longe de Tara, num lugar que se chamava Tailtiu em honra da ama de leite de Lug do Braço Longo, e onde este mandara que ela fosse enterrada. Aí em honra dela Lug do Braço Longo realizava-se jogos e, festas que se desenrolavam dez dias antes do início do mês de Agosto e dez dias depois, e chamavam-se esses jogos e festas Lugnasad, ou seja, «Assembléia de Lug», nome que passou a designar o mês de Agosto. Foi, pois em Tailtiu que se enfrentaram as tribos de Dana e os Filhos de Milé. Como o exército dos primeiros era pouco numeroso, os seus druídas lançaram encantamentos e incitaram as tropas a oporem-se aos invasores, Mas os druidas e os poetas dos Filhos de Milé não demoraram a perceber que os seus inimigos recorriam à magia, e por isso lançaram também eles encantamentos. Desse modo, daí a pouco tempo todos viram que os belos exércitos das tribos de Dana se tinham transformado em arbustos e em torrões de turfa, o que não impediu que os três reis Mac CuilI, Mac Cecht e Mac Greine sucumbissern às mãos dos

Filhos de Milé. Privadas dos seus chefes, as gentes das tribos de Dana foram aconselhar-se com Morrigane, que lhes disse que era altura de celebrarem a paz, pois a magia dos Filhos de Milé era muito superior à deles. Deste modo Dagda e o seu filho Bobdh Derg, na companhia de Mananann, filho de Lir, foram encontrar-se com os Filhos de Milé para lhes proporem uma forma de partilharem a Irlanda. Começaram por se sentar em frente a uma fogueira, partilharam os alimentos que tinham sido passados pelo lume, depois beberam cerveja e hídromel, sendo por fim celebrado um acordo. Eber Donn e os seus Irmãos fizeram prevalecer a Idéia de que as tribos de Dana eram culpadas de um crime contra Ith, filho de Bréogan, que era rei, e, naquelas condições, deveriam pagar uma grande compensaçã naquele caso a o, Irlanda inteira. Mas as tribos de Dana de modo algum queriam abandonar esta ilha que noutros tempos tinham conquistado e por isso chamaram o sábio Fintan, filho de Bochra, que falou a uns e a outros e demonstrou que era preferível celebrar a paz do que continuar com guerras até ao fim dos tempos. Fíntan e Amorgen prepararam então os termos de um tratado cujo juramento deveria ser feito em nome dos deuses protetores: os Filhos de Milé ocupar-seiam da superfície da Ilha Verde, encarregando -se do cultivo da terra e da criação de animais, enquanto as tribos de Dana se retirariam para o mundo dos tumulus e para pequenas ilhas que existem ao largo da Irlanda. Deste modo, cada tribo estaria no seu domínio, o que não impediria que houvesse contato entre os membros de uma e outra. Nomeadamente foi determinado que as gentes das tribos de Dana poderiam, se fosse esse o seu desejo, deixar o mundo invisível e vir fazer companhia aos Filhos de Milé, podendo por sua vez os Filhos de Milé visitar o domínio das tribos de Dana todos os anos, enquanto

durasse a festa de Samain, o tratado foi celebrado sob juramento e solenemente por ambas as partes. Deste modo as tribos de Dana retiraram-se para o domínio obscuro dos tumulus e para as ilhas que rodeiam a Irlanda, enquanto as tribos dos Filhos de Milé se espalharam por todo o país, construindo aí fortalezas, cultivando a terra e cuidando de belas pastagens para os animais que tinham levado consigo. Terminou assim a batalha de Tailtiu, com grande satisfação de ambas as partes, e começou então na Irlanda o reinado dos Filhos de Milé, aqueles a quem hoje se chama gaélicos. Depois da batalha de Tailtiu e a partilha da Irlanda entre as tribos de Dana e dos Filhos de Milé, ambas se organizaram de acordo com os seus costumes antigos e as suas leis ancestrais. Os Filhos de Milé confiaram o poder real a dois dos filhos de Bréogan, Eber Donn, o mais velho, e Eremon, o mais novo. Eber ficou com o sul da Ilha Verde, cabendo a Eremon a soberania do norte. Mas os dois irm ãos não se entenderam e daí a pouco travaram uma batalha sangrenta. Eber Donn foi morto, e Eremon tornou -se o rei supremo de toda a Irlanda, organizando grandes festas na casa real que se situava no interior da grande fortaleza de Tara. As tribos de Dana, por seu lado, e de acordo com o que ficara acordado com os Filhos de Milé, tinham-se refugiado nos domínios féericos, debaixo dos tumulis, em cavernas profundas no interior da terra, em palácios que construíram no fundo de lagos, assim como nas ilhas que rodeavam a Irlanda. E como os seus três reis haviam perecido na batalha de Tailtíu, reuniram-se um dia para designar aquele que reinaria entre elas. Tiveram de escolher entre os seus diversos heróis, tais como Mananann, filho de Lir, ou o grande Dagda, ou o ferreiro Goibniu, ou Mider de Bri Leith, irmão de Dagda, ou ainda Bobdh Derg, filho de Dagda. Quanto a Lug, filho de

Comment [NR82]: 1. Segundo o Livro das Conquistas.

Cian, este decidira jamais voltar a ser rei, Preferindo manter-se completamente livre para fazer o que muito bem lhe aprouvesse. Ora, depois de acesas discussões, as gentes de Dana decidiram dar o Poder real a Bobdh Derg, filho de Dagda, tendo em conta tanto a sua nobreza como a sua sabedoria herdada do pai. Este fato provocou o despeito de Lir, que reinava no tumulis de Fimiachaid, já que ele esperava ver atribuída a coroa ao seu próprio filho, Mananann. Contrariado, ele abandonou por isso a assembléia das tribos de Dana sem se despedir de ninguém e sem pronunciar uma palavra. A sua atitude chocou de tal modo os chefes que, depois de terem confirmado solenemente Bobdh Derg, todos pensaram numa maneira de o castigar pelo seu desdém e pela sua descortesia. Alguns chefes chegaram mesmo a propor que se deveria persegui-lo até sua casa, incendiar a sua fortaleza e matálo com uma lança e uma espada como se ele fosse um criminoso. E não era realmente um criminoso, por ter recusado inclinar-se perante o rei que tinha sido designado pelas tribos de Dana como sendo o melhor para as conduzir? «Não posso acatar a vossa proposta», respondeu Bobdh Derg, «Lir é um guerreiro corajoso, sempre pronto a lutar até às últimas consequências por uma causa que lhe tenha sido confiada, e o fato de não se inclinar perante mim não impede que eu seja o rei das tribos de Dana.» Assim falou Bobdh Derg e, para provar a sua estima e deferência por Lir, elegeu Mananann, filho de Lir, para seu principal conselheiro. Mananann aconselhou-o então sobre a melhor maneira de distribuir as tríbos de Dana pelo território da Irlanda, de acordo com a partilha combinada com os Filhos de Milé. Segundo ele, era preciso dispersar as tribos pelos tumulis e fixá-las também nas colinas e nas

planícies mais distantes e isoladas. Em seguida, Bobdh Derg distribuiu os chefes e os nobres em seus domínios. Depois Mananann, que era um hábil mágico e um perito em ciências druídícas, conferiu a todos o dom da invísibílidade, o Festim de Goibniu e os porcos de Mananann: graças ao dom da invisíbilidade, só eles se podiam ver uns aos outros; o Festim de Goibniu evitava que sentissem o avançar da idade; quanto aos porcos de Mananann, estes asseguravam-lhes comida eternamente pois, mortos ao entardecer e comidos durante a noite, voltavam a estar vivos na manhã seguinte. Além disso, Bobdh Derg ensinou aos chefes e aos nobres das tribos de Dana como fazer as suas residências feéricas e como construir as suas fortalezas de modo a parecerem as da Terra da Promessa, às vezes chamada Emain Ablach, e que está perdida algures no meio do vasto oceano. Deste modo os chefes das tribos de Dana, em sinal de gratidão, convidaram Bobdh Derg a visitar as suas residências assim que elas estivessem prontas, e a assistir ao festim que realizariam para celebrar a Festa do Tempo, altura que era escolhida para prestar homenagens e tributos. E assim foi. Entretanto, Lir foi vítima de uma grande desgraça: a sua mulher, mãe de Mananann, morreu ao fim de uma doença que durou três anos. Este infortúnio custoulhe muito, pois devotava à falecida mulher um amor profundo e sincero, chorando amargamente a sua morte. A notícia espalhou-se por toda a Irlanda e chegou à residência de Bobdh Derg na altura em que este estava reunido com os chefes das tribos de Dana. «Se Lir aceitar a minha amizade», disse Bobdh Derg, «eu poderei atenuar lhe o sofrimento provocado pela morte de quem ele amava. Tenho aqui, na minha casa, três jovens muito graciosas, de ótima aparência e famosas em toda a Irlanda, Aeb, Aifé e Ailvé, todas filhas de Awnm, rei de Arann. Elas estão sob a

Comment [NR84]: Os dois Parágrafos dedicados à distribuição das tribos de Dana e aos dons mágicos que lhes são atribuídos têm origem em Altranth Tige da Medar (o alimento da casa dos dois ), narrativa contida no Livro de Fermoy, manuscrito do século XV publicado com tradução inglesa por Lilian Duncan em Eriu, vol. X1, Dublin, 1932. Tradução francesa de Ch--J. Guyonvare-h em Textos mitológicos irlandeses, Rermes, 1980. Comment [NR83]: Lir é urna personagem emblemática. Traduz-se muitas vezes o seu nome por «mar» ou «vagas», mas esta etinologia é pouco certa, pois a IrIanda pagã não tem um deus marinho (aliás, só tem um deus lavrador). Lir, por viver ern ilhas distantes, não tem de ser por isso o deu- da navegação marítima. Além do mais, os gaêlicos parecem ter horror ao mar e não têm interesse pelo que se passa no oceano, com a excepção de quando o designam por país do Outro Mundo. Os gaélicos estão muito mais ligados às fontes e aos rios, portanto às águas doces, como o parece revelar o nome de Nechtan (derivado do latim Nepturiu), outra denominação de Elernar, irmão de Dagda, proprietário de Brug-naBoyne, ou seja, Newgrange. Lir tem, como correspondente em galês LIvr (o rei Lear de Shakespeare), pai dos heróis Brân Vendigeit («Corvo Bendito»), Branwen («Corvo Branco») e Manawyddan, correspondente britónico exato do gaélico Mananann, ele próprio epónimo da ilha de Man. Esta ultima personagem aparecia muitas vezes nas narrativas irlandesas como originária de ilhas distantes, ou seja, da Terra da Promessa, espécie de paraíso celta, às vezes chamado Emain Ablach, nome no qual se encontra o termo que designa as macieiras, o que remete para a ilha de Avalon da lenda arturiaria. Às vezes Mananan n chega a ser apresentado a cavalgar um fogoso corcel no meio do mar, o que naturalmente poderia levar a associá-lo a uma divindade marinha. Na tradição galesa, Manawyddan, contudo, não tem nenhuma ligação particular com o mar e não tem nada de navegador.

minha guarda e proteção, pois foram-me entregues na condição de eu ser o seu pai adotivo. Que pensais disso? ³Se eu lhe propusesse uma delas para esposa, o nosso diferendo ficaria resolvido...» Os chefes e os nobres das tribos de Dana acharam a idéia excelente. Foram então enviados a Lir mensageiros da parte de Bobdh Derg para lhe perguntarem se gostaria de firmar um acordo de amizade com o rei recebendo dele para esposa uma das suas filhas adotivas. Lir ficou encantado com a oferta que lhe foi feita e pôs-se a caminho, no dia seguinte partindo da sua casa da Colina Branca, com cinquenta carros muito belos, em direção ao Lago Derg onde Bobdh fixara a sua residência e construíra a sua fortaleza. Aí chegado, foi muito bem recebido e viu -se rodeado das mais lisonjeiras atenções. As três filhas de Awnm, rei de Arann, estavam sentadas no mesmo assento que a rainha, mulher de Bobdh e sua mãe adotiva que nutria por elas um imenso amor «Lir», disse Bobdh Derg, «estão aqui as filhas do rei Arann. Podes escolher a que mais te agradar.» «Não me é fácil fazer uma escolha», respondeu Lir, «pois todas elas são muito belas e de grande nobreza. De qualquer modo, penso que seria conveniente escolher a mais velha.» «Assim sendo», disse Bobdh Derg, «a mais velha é Aeb, que será por isso tua esposa, se for esse o teu desejo.» «E esse o meu desejo», afirmou Lir. Desposou então Aeb naquela noite, e ficou a viver na casa de Bobdh Derg durante quinze dias. Depois levou a mulher para a sua fortaleza, não sem antes ter prometido a todos os chefes das tribos de Dana que os convidaria para a grande festa das núpcias. Ach deu-lhe dois filhos, uma moça e um rapaz, que se chamaram Finula, ou seja, Espádua Branca, e Aedh, ou seja, Fogo. Ao fim de um certo tempo, ela voltou a engravidar e, desta vez, deu à luz

dois filhos que se chamaram Conn e Fiachra. Aeb, contudo, morreu no parto, fato que voltou a mergulhar Lir numa grande amargura e tristeza. A notícia desta triste ocorrência não demorou a chegar a casa de Bobdh Derg, e todos os que aí se encontravam deram três gritos para lamentar a perda da filha adotiva. Mas, quando acabaram de a chorar, Bobdh Derg disse: «o amor que tínhamos pela nossa filha e a amizade que nos liga àquele a quem a entregámos como esposa fazem com que nos sintamos muito consternados pela sua perda. Mas a amizade por Lir ter-se-á como dantes, pois dar-lhe-ei outra mulher, Alfé, irmã da defunta. Quando soube desta oferta, Lir veio buscar a segunda jovem no lago Derg, casou com ela imediatamente e levoua com ele para a casa da Colina Branca. Aifé estimava profundamente e tratava muito bem os quatro filhos da sua irmã mas, na verdade, ninguém no mundo poderia deixar de o fazer, tão cheios de graça eles eram. O próprio Bobdh Derg muitas vezes ia a casa de Lir para os ver, e levava-os para passarem uns tempos com ele, pois achava muito agradável a sua companhia. Naquele tempo, as tribos de Dana celebravam a Festa do Tempo debaixo dos outeiros e das colinas feéricas, cabendo a cada um dos chefes convidar, alternadamente, os outros para a sua residência, Ora, chegou a vez de Lir receber na Colina Branca os chefes e os nobres das tribos de Dana, que foram chegando e ficando encantados com a beleza e dos filhos de Lir, que a todos enchiam de alegria e de comprazimento. Era costume deles dormirem no mesmo quarto do pai e, quando Lir se levantava, de manhã, ia sempre deitar-se por alguns momentos ao lado deles. Mas este comportamento de Lir teve como consequência fazer com que Aifé ficasse extremamente enciumada com os filhos da sua irmã, ao ponto de os ciú mes se

transformarem em despeito e em ódio. Então, um ano Aifé adoeceu e fez-se passar por vítima de uma febre que, decidindo então livrar-se daqueles que a faziam adoecer e provocavam ciumes. Assim, um dia ela aparelhou o seu carro, convidou as quatro crianças para a acompanharem à casa de Bobdh Derg, e quando elas se sentaram a seu lado Aifé fez com que os cavalos se dirigissem para o lago Derg. Mas Finula estava contrariada, pois suspeitava que Alfé lhes queria fazer mal, tendo-lhes um ódio de morte, e um sonho tinha-lhe mesmo revelado que a irmã da mãe projetava vingar-se daqueles que lhe provocavam insuportáveis ciúmes. Ora, Aifé fez o carro parar num vale e ordenou aos criados: «Matai os filhos de Lir, pois eles roubaram-me o amor do seu pai, e eu dar-vos-ei como recompensa tudo o que houver de melhor neste mundo.» «Não podemos obedecer te», responderam os criados, «poís estas crianças são dignas de todo o respeito e amor. Um dia, rainha, pagarás por essa tua intenção tão perversa.» Então, como os criados se recusavam terminantemente a fazer mal aos filhos de Lir, Aifé empunhou uma espada e quis ela mesma praticar o crime, faltando-lhe, no entanto a coragem no derradeiro momento e dando por isso ordens para que a viagem prosseguisse. Quando chegaram ao pé do Lago Derg, ela mandou as crianças tomarem banho no lago. Mas, ainda eles não tinham mergulhado nas águas e, batendo-lhes com uma varinha mágica e druídica, ela transformou-os em quatro cisnes graciosos e brancos. «Parti agora, filhos do rei», disse-lhes ela. «Parti e errai pelo vasto mundo. Haveis sido condenados a uma terrível aventura e todos aqueles que vos amam sofrerão por isso. Doravante será entre os pássaros que se ouvirão os vossos gritos e os vossos lamentos.» «Bruxa!», exclamou Finula. «Tu tocaste em nós sem te termos feito mal, mas p odes ter a certeza de que pagarás muito caro pela tua maldade e

pela tua desfaçatez, e no fim nada te poderá valer! Díz-nos só por quanto tempo teremos de suportar o feitiço de que somos vítimas.» «Se quereis saber, di-lo-ei, mas isso só servirá para aumentar a vossa mágoa e a vossa angústia», respondeu Alfé. «Conforme é meu desejo, o vosso feitiço durará enquanto a Mulher do Sul não tiver encontrado o Homem do Norte. E já que não resistis à curiosidade, sabei que nenhum amigo nem nenhum poder vos poderá livrar da forma em que vos transformei enquanto vós não tiverdes vivido trezentos anos no Lago Derg, trezentos anos no Mar de Moyle, entre a Irlanda e a Escócia, e trezentos anos na angra de Doninann. Apesar da vossa aparêncía, mantereis a vossa linguagem e cantareis a música doce dos palácios feéricos, que é de tal modo límpída e suave que adormece todos aqueles que a ouvem. Ficareís pois novecentos anos a terde suportar na superfície das águas o vento glacial e o sol escaldante. E essa a minha vingança, filhos de Lir, por me terdes privado do amor do vosso pai.» Voltando a subir para o carro, ela ordenou que se prosseguisse a viagem. Assim, ela continuou o percurso até à casa de Bobdh Derg onde foi muito bem recebida pelos chefes e pelos nobres das tribos de Dana, admírando-se no entanto Bobdh, filho de Dagda, por ela não ter trazido as crianças. «A razão é simples», disse ela. «Lir já não te ama e não te quer confiar os seus filhos com , medo de que não tomes bem conta deles, na sua ausência.» «Isso surpreende-me», disse Bobdb Derg, «pois sei que Lir tem a máxima confiança em mim e me confiaria com toda a boa vontade os seus filhos que amo tão profundamente como se fossem os meus próprios filhos.» Mas ele pensou com os seus botões que a mulher o estava a enganar e por isso apressou-se a enviar mensageiros para a casa de Lir, na Colina Branca. Ao ver estes chegarem, Lir perguntou-lhes o que os levava ali, «E por causa das crianças», responderam eles. «Como?»,

admirou-se Lir. «Elas não foram para a casa de Bobdh Derg na companhia de Aifé?» «Não», responderam os mensageiros. «E diz Aifé que tu é que não quiseste que elas fossem para a casa do filho de Dagda, com medo de que ele não tomasse conta delas.» Ao ouvir aquelas palavras. Lir ficou muito perturbado, pois pensou logo que Aífé devia ter feito algum mal aos seus filhos. Assim, logo pela manhã seguinte, aparelhou o carro e tomou a direção que levava ao Lago Derg. Quando estava a chegar às proximidades do lago, os quatro cisnes aperceberam-se dos cavalos e do carro, e disse Finula para os seus irmãos: «Que seja bem vindo este grupo que se aproxima do lago, pois os homens que dele fazem parte são nobres e poderosos. Nas suas feições há muita tristeza e mágoa, e sem dúvida estão aqui por andarem à nossa procura. Aproximemo-nos da margem, pois aqueles que se acercam de nós, são Por Certo Lir e as gentes da sua casa.» Lir, entretanto, fez parar o carro e aproximou -se da beira do lago. Viu os cisnes virem ao seu encontro e, espantado por eles terem uma voz humana, perguntou -lhes a razão de um tal mistério. «Eu vou-te contar», disse Finula. «Os quatro cisnes que vês são os teus próprios filhos, e foi a tua mulher, irmã da nossa mãe, que, toda enciumada, nos metamorfoseou para que nos perdêssemos,» «Há uma forma de vos fazer voltar à forma normal?» «Não há. Ninguém pode fazer nada por nos, ao menos enquanto não tivermos passado pela prova do tempo, que deverá manter nos nesta situação durante novecentos anos. Vê bem a nossa triste sorte.» Ao ouvir estas palavras, Lir e as suas gentes Soltaram três grandes gritos de dor e de lamento. «Quereis vir conosco para a nossa terra», Perguntou ele, «já que conservais a linguagem, a razão e a memória?» «o sortilégio que se abateu sobre nós», respondeu Finula, «não nos perrnite

que vivamos com qualquer outro ser humano e por isso deveremos Permanecer nestas águas. Mas resta-nos a nossa linguagem, e podemos entoar músicas suaves, iguais às que se ouvem nos palácios feéricos. Se Passardes a noite perto do lago, adormecereis embalados pela suave melodia dos nossos cantos.» Lir e aqueles que o acompanhavam interromperam então a , sua Viagem e acomodaram-se naquele lugar para passar a noite. Apuraram os Ouvidos ao canto dos cisnes, e as horas passaram por eles com uma extrema doçura. Mas, na manhã seguinte, Lir anunciou aos cisnes q tinha de ue partir, mas que jamais os esqueceria. Depois, prosseguiu o seu caminho até ao Palácio de Bobdh Derg. Foi aí acolhido com todas as honras e com toda a benevolência, mas o filho de Dagda censurou-o por não ter levado os filhos com ele, «Ora essa!», respondeu Lir, «Por certo não seria eu a recusar-me a trazer os meus filhos a tua casa, bem Pelo contrário. Foi Aifé, a tua filha adotiva, irmã da mãe deles, que lançou sobre eles um sortilégio, fazendo com que se transformassem em cisnes brancos no Lago Derg, o que pode ser comprovado por todas as gentes da Irlanda. Agora eles são cisnes embora mantenham a razão, o espírito, a voz e a linguagem que encontramos nos seres humanos.» Perante esta notícia, Bobdh Derg ficou possesso de rai a mandando chamar v Aifé, censurou-a veementemente pela má ação que praticara. «A tua maldade terá um preço muito alto», disselhe ele, «e Por teres mudado a aparência dos filhos de Lir, espero que sejas tu mesma vítima de um sortilégio semelhante. Diz-me qual é a Pior das formas em que gostarias de ser transformada! » «A pior de todas, segundo penso», disse ela, «seria a de um demónio do ar.» «Pois bem», exclamou Boddh Derg, «nesse caso é essa a forma que tomarás!»

Ele tocou-lhe logo de seguida com a sua varinha mágica e druídica, e Aifé transformou-se de repente num espírito maligno do ar. Então misturou-se com o sopro do vento, e permanece com esta forma até à consumação dos séculos, como castigo pelo crime perpetrado na pessoa dos filhos de Lir. Quanto a Bobdh Derg e aos nobres das tribos de Dana, voltaram ao Lago Derg e aí se instalaram para ouvirem o canto dos cisnes. E os Filhos de Milé, que tinham reparado na beleza destes cantos, costumavam também deslocar-se para ali vindos de todos os cantos da Irlanda. Na verdade, na Ilha Verde, nunca houve música que se pudesse comparar à dos quatro cisnes. E os cisnes contavam também histórias e entretinham-se a conversar todos os dias com os homens e as mulheres que tinham conhecido no passado, quer tivessem sido os seus antigos mestres ou os seus antigos parceiros de jogo, E, todas as noites, eles entoavam a música suave do país feérico, de tal modo que, por muitas mágoas e tristezas que alguém tivesse, adormecia cheio de paz e de bonomia. Ao ouvir-se o canto dos quatro cisnes, a felicidade era plena. As tribos de Dana e dos Filhos de Milé reuniram-se nas rnargens do Lago Derg durante trezentos longos anos. Ao fim desse tempo, disse Finula aos seus irmãos: «Sabeis que já se cumpriu o tempo que deveríamos passar aqui? Amanhã deveremos partir.» Ao ouvirem aquelas palavras, os filhos de Lir ficaram cheios de Pena, pois a possibilidade de falarem com os seus conhecidos, familiares o amigos, permitia-lhes suportar a sua sina sem terem um grande sofrimento. Além disso, sabiam que estavam condenados a ir para regiões muito inóspitas, fustigadas por ventos cortantes que vêm do norte. Na manhã seguinte, os três irmãos e a irmã vieram pela última vez falar aos seus dois pais, a saber Lir, o pai

natural, e Bobdh Derg, o pai adoptivo. Disseram-lhes adeus, e Finula entoou um canto de tri teza em que s lamentava ter de partir para paragens desconhecidas e afastadas das que amava. Quando Finula acabou de cantar, os quatro cisnes levantaram vôo e, batendo as asas vivas e velozes, confundiram-se com o céu e tomaram a direção do Mar de Moyle, situado entre a Irlanda e a Escócia. Ao desaparecerem nas alturas, deixaram com uni nó na garganta quem as via partir, e data desse dia a proibição na Irlanda de matar cisnes. O Mar de Moyle era um lugar inóspito e terrível para nele se viver. Quando os filhos de Lir viram a vasta costa aparecer diante deles, senfiram a humídade e o frio colarse-lhes ao corpo e ficaram cheios de medo e de angústía. Todas as provações que já tinham passado pareciarn-lhes uma brincadeira quando comparadas com as que previam. Certa vez, estando a ser fustigados por uma grande tempestade, disse Finula aos irmãos: «A noite que se aproxima será terrível e vem lá uma tempestade tão forte e violenta que corremos o risco de nos separarmos uns dos outros. Devemos Por isso marcar um lugar de encontro para o caso de o vento e a tormenta nos dispersarem.» Decidiram então encontrar-se na Ilha das Focas, pois todos conheciam a sua localização. Ao aproximar-se a meianoite, o vento redobrou de violência, aumentou o rumor das vagas, os clarões da trovoada incendiaram os céus, e o furacao que então se abateu sobre o céu e os mares foi de tal ordem que os filhos de Lir se dispersaram pelo vasto oceano sem que pudessem saber do paradeiro de uns e outros. Por fim a tormenta acalmou e a terra e o céu encheram-se de bonança, achando-se Finula sozinha no Mar de Moyle. Então, ao ver que os seus irmãos tinham desaparecido, entoou um canto de lamento e de desespero.

Depois, Sem perda de tempo, dirigiu-se para a Ilha das Focas e Passou aí toda a noite. Ao nascer do sol, quando perscrutou o horizonte, viu aproximar-se com dificuldade o irmão Conn, caída com a cabeça e a penugem desalinhada, Ela acolheu-o muito bem e deu-lhe o máximo de conforto que pode. Pouco depois, veio também, em péssimo estado, Fíachra, que meio encharcado, tremia de frio e sofria terrivelrnente. Finula protegeu-o com a sua asa e murmurou: «Ficaríamos muito contentes se Aedh viesse ao nosso encontro ... » Pouco depois, lá apareceu Aedh, de cabeça erguida e as penas secas, pois encontrara uma gruta para se abrigar. Finula recebeu-o muito bem e, para reconfortar os três, colocou Aedh debaixo do peito, Conn debaixo da asa branca e Fiachra debaixo da asa esquerda, aconchegando os a todos debaixo da sua penugem que a todos aqueceu. «Ah, meus irmãos! », exclamou ela, «Foi terrível a noit e que passámos, mas esperam-nos outras ainda mais cruéis!» E, com efeito, eles tiveram de permanecer durante muito tempo no Mar de Moyle, resistindo ao frio e às privações, e sendo visitados muitas vezes pela neve. Jamais eles tinham passado tão mal! Choraram e gemeram lamentando a triste sina, fustigados pelo frio da noite, pela neve muito espessa e pelo vento glacial que lhes cortava a pele e lhes chegava aos ossos! Depois de terem penado nesta situação durante um ano inteiro, abateu-se sobre eles uma noite ainda pior: estavam então na Ilha das Focas, a água gelava à sua volta e, como estavam sobre as rochas, as suas patas, as asas, as penas começaram a enregelar, colando-se de tal modo à pedra que nem conseguiam fazer um movimento. Após fazerem um grand esforço para se e libertarem, finalmente conseguiram-no, mas deixaram sobre a rocha a pele das patas, muitas penas e a

extremidade das asas. «Ah, filhos de Lir», disse Finula, «é muito triste a situação em que nos encontramos, pois a água salgada provoca-nos uma dor intensa ao tocar-nos, e apesar disso estamos condenados a não deixar o mar: além disso, corremos o risco de morrer se o sal penetrar através das feridas que temos por todo o corpo.» Voltaram para a corrente marítima de Moyle com o sal a provocar-lhes dores intensas, estando condenados a penar naquela situação aflitiva. E permaneceram junto à costa, sofrendo atrozmente até ao dia em que se acharam completamente curados, com as penas saradas e as feridas cicatrizadas. Já recuperados, começa ram então logo de manhã a voar até às costas da Irlanda e da Escóci a mas, todas as noites, antes do pôr-do-sol, tinham de voltar ao Mar de Moyle. Um dia, quando sobrevoavam as costas da Irlanda, chegaram à foz do Boyne e viram aí um grupo de cavaleiros de belo porte, ricamente vestidos de branco, que montavam cavalos muito ágeis e rápidos. «Sabeis quem são estes cavaleiros, filhos de Lir?», perguntou Finula. «É bem possível que sejam Filhos de Milé ou membros das tribos de Dana.» Aproximaram-se da margem do rio para identificarem os belos cavaleiros que, ao aperceberem-se deles, também se aproximaram Para estabelecer conversação. Estavam entre eles dois filhos de Bobdh Derg, Aedb do espírito ágil e Fergus o Sábio, e com eles havia também dois nobres das tribos de Dana. Tinham deixado a casa de Bodh Derg para irem à de Lir onde iria ser celebrada a Festa da Idade. Os cisnes identificaram-se então como sendo os filhos de Lir e os nobres das tribos de Dana, muito satisfeitos Por encontrá-los, deram-lhes as boas vindas e quiseram saber da sua sorte. Depois, Finula

quis saber notícias de Lir, de Bobdh Derg e de todos os chefes do povo feérico. «Estão todos bem de saúde e mantêm as suas qualidades, como quando vós estáveis entre nós», responderam -lhes. «Vivem nos mesmos lugares e amanhã reúnem -se no palácio do vosso pai, na Colina Branca. Aí se celebrará a Festa da Idade num clima de grande alegria e felicidade, apesar de se lamentar a vossa ausencia, pois ninguém sabia em que e que vós vos havíeis tomado desde a vossa partida do Lago Derg». «Ah, oxalá tenhais melhor sorte do que nós», disse Finula. «Desde então e até hoje passámos por terríveis e inimagínáveis provações, e sofremos intermináveis tormentos no fluxo e no refluxo das marés.» E logo a seguir ela entoou este canto: «Paira uma grande alegria no palácio de Lir Aí bebe -se cerveja e hidromel, Contudo, fria é a noite quando descansam os quatro filhos do rei. De nada nos valem os nossos tetos Pois só as penas nos cobrem o corpo. Noutros tempos, os nossos vestuários eram de púrpura, bebíamos o doce hidromel; mas hoje o que temos para beber e comer e a areia e a salgada onda do mar Tivemos outrora leitos bem macios feitos de penas de pássaros; mas hoje os nossos leitos são rochas nuas que as vagas não conseguem atingir, » Entoado este canto, os pássaros despediram -se dos cavaleiros e desapareceram nos confins do céu, Os nobres das tribos de Dana puseram-se em marcha na direção do palácio de Lir, na Colina Branca, e contaram a todos as provações por que tinham passado os cisnes e como era triste a sua sina. «Nada podemos fazer por eles», disseram os chefes e os nobres, «mas ficamos contentes por saber que ainda estão vivos e temos a certeza de que serão

salvos no fim dos tempos.» Os filhos de Lir, por seu lado, voltaram para o lugar onde viviam no Mar de Moyle, onde ficaram tanto tempo quanto aquele que já aí tinham passado. Mas, um dia, Finula avisou os irmãos que precisavam de partir. «É chegada a hora em que deveremos deixar este lugar maldito e partir para a angra de Dorimann. Mas esperam-nos outras provações, pois aí não teremos nenhum lugar para aterrar nem nenhum abrigo contra as tempestades. Partamos apesar disso nas asas do vento gelado, pois tem de os cumprir a nossa triste sina.» Deixaram o Mar de Moyle e, chegados à angra de Dorrinann, viveram uma vida cheia de desgraças e de tormentas. Certa vez, tendo o mar gelado à volta deles, imobilizou-os completamente. Perante o lamento dos três irmãos, Finula consolou-os o melhor que pôde, lembrandolhes que seriam salvos quando chegasse o tempo da sua libertação. Viveram na angra de Dormiann durante os trezentos anos que lhes tinham sido aprazados, dizendo Finula por fim: «Chegou a hora da partida. Diriamo-nos j agora para o palácio da Colina Branca, onde vive o nosso pai com as suas gentes.» Os irmãos ficaram todos contentes e os quatro levantaram voo, parecendo que o ar tinha ficado mais suave e mais leve. Assim, daí pouco tempo eles chegaram à Colina Branca e nela pousaram, mas ficaram muito espantados e cheios de angústia ao verem que aqueles lugares estavam completamente desertos. Só se viam aí outeiros verdes e pedras dispersas forradas com urtigas. Os quatro então chegaram-se uns aos outros e todos eles deram três gritos de dor e de lamento. Depois, Finula entoou este canto: «Oh que triste! Tudo está deserto! Nem um teto, nem um lar!

O meu coração enche-se de amargura ao ver no que se tornou este lugar Nem um cão, nem uma matilha, nem uma mulher, nem uma sombra, nunca tinhamos visto este lugar assim quando Lir o nosso pai, nele reinava. Já não há taças nem bebidas inebriantes na sala iluminada, nem jovens cheios de alegria nas salas de festas, durante osfestins. Quando penso nos outros tempos o meu Coração pesa-me, e e com uma grande magoa que veio este lugar deserto e abandonado esta noite. » Entretanto, Os filhos de Lir passaram aquela noite no lugar onde se erguera o palácio do pai e onde eles tinham crescido. E aí entoaram a doce música do povo feérico. Ao amanhecer, levantaram voo, ergueram-se nos céus e viajaram para a ilha de Clare. Quando lá chegaram todos os pássaros do país se reuniram à sua volta, passando a chamar-se Lago dos Pássaros aquele lago onde se encontravam. Ora, aquele era o tempo em que o bem-aventurado Patrício tinha levado a fé de Cristo para a Irlanda e o seu discípulo, que se chamava Mohévog, se tinha estabelecido na ilha de Clare onde construíra um cemitério. Ao fim da primeira noite que passaram nesta ilha, os filhos de Lir ouviram o som do sino que soava perto dali. Ficaram muito espantados e cheios de medo, Pois jamais tinham ouvido um som como aquele. Ouviram o som do sino enquanto ele durou e em seguida puseram-se a entoar em surdina a doce música dos palácios feéricos. Ao ouvir aqueles tons suaves, Mohévog, encantado com a tristeza daquele canto, pediu a Deus que lhe mostrasse quem era capaz de entoar aquela música tão bela que el e jamais ouvira antes. E, na noite seguinte, teve um sonho que lhe revelou que os cantores eram os filhos de Lir. Na manhã seguinte, deslocou-se ao Lago dos Pássaros e,

vendo Os quatro cisnes na superfície das águas, aproximou-se da margem para ficar perto deles. «Sois os filhos de Lir?», perguntou ele. «Somos», responderam eles. «Deus seja louvado», disse Mohévog, «Pois o amor que tenho Por vós é que me trouxe até esta ilha, que escolhi em vez de todas as Outras. Agora, filhos de Lir, vinde a terra e confiai em mim e seu sofrimento acabou e ficareis debaixo da minha proteção.»* Eles obedeceram-lhe, e Mohévog levou os para o Senipre que Moliévog celebrava missa, eles estavam prese seu eremitério. Os quatro ficavam sentados em segurança e ao abrigo do frio e tempstades. Mohevog mndou um hábil ferreiro fazer umas correntes de prata brilhantes e meteu umas entre Aedh e Finula, e outras entre Conn e Fiachra. E os quatro entoaram admiráveis cantos que lhe encheram o coração de alegria. Naquele tempo, o rei de Connaught era Lergnenn, filho de Colmann, e a rainha era Déoch, filha de Fingliinti. Eram o Homem do Norte e a Mulher do Sul de que Aifé falara quando lançara o seu sortilégio sobre os filhos de Lir, tendo previsto que eles se encontrariam. Ora, ao ouvir falar nos cisnes, a mulher ficou ansiosa por possuí-los. Pediu a Lergnenn para ir buscá-los, e o rei respondeu-lhe que iria pedir a Moliévog para lhe confiar os pássaros. Enviou então mensageiros ao encontro de Moliévog, mas estes voltaram com a notícia de que o santo eremita se recusava a separar deles. Então, a rainha Déoch ficou furiosa, de cabeça perdida, e jurou que não passaria nem mais uma noite com o rei se ele não lhe trouxesse imediatamente à sua presença os pássaros que tanto desejava. Lergnen foi por isso pessoalmente falar com Moliévog e perguntou-lhe se era verdade que tinha recusado dar os cisnes. «É absolutamente verdade», respondeu Moliévog o rei Lergnenn ficou enraivecido. Entrou na capela onde

estavam os cisnes e pegou neles, junto ao altar, preparando-se para os levar à rainha com dois em cada mão. Mas mal ele tinha posto a mão neles, caiu-lhes a penugem e, em vez de cisnes, apareceram diante dele três velhos magros e enrugados e uma velha decrépita, todos eles descarnados e sem pinga de sangue. E Lergnenn ficou de tal modo horrorizado com aquele espectáculo que se pôs em fuga. Então, disse Finula a Moliévog: «Santo homem, é altura de nos baptizares, pois não vamos ficar muito tempo neste mundo. Quando morrermos, cava a nossa sepultura e põe Conn no meu flanco direito e Fiactira no meu flanco esquerdo. Quanto a Aedh, põe-no diante de mim, entre os meus dois braços. Apressa-te, pois o nosso tempo está a chegar ao fim.» Moliévog sem demoras batizou os quatro filhos de Lir, e eles morreram daí a pouco tempo. Então, Mohévog enterrou-os de acordo com as instruções que Finula lhe dera. Erigiu um pilar de pedra na sepultura e gravou nele os seus nomes em ogham. Depois, entoou umas orações para que os infelizes filhos de Lir conquistassem finalmente a paz eterna.´¶ Capitulo VIII O tempo em que Bobdh Derg reinava sobre as tribos de Dana, os principais chefes do povo feérico visitavam-se frequentemente entre si, encontrando-se nomeadamente para celebrarem em conjunto a Festa da Idade. Entre os chefes havia um que era mais famoso do que todos os outros, Eochaid Ollathair, pai do rei e mais conhecido pelo nome de Dagda. Este chefe era respeitado por todos, pois era capaz de fazer grandes prodígios como desencadear tempestades ou apaziguá-Ias. Além disso, Dagda era também capaz de proteger as colheitas, e fazia com que os gados tivessem sempre pastagens muito ricas, vindo-lhe

daí o nome Dagda, que significa «deus bom». E as gentes das tribos de Dana, quando precisavam de um conselho, nunca deixavam de o consultar acerca dos acontecimentos do futuro, pois ele aliava as qualidades de adivinho às de mago. Um dia, Elcinar deu um grande festim na sua residência de Brug-na-Boyne e Dagda não pôde deixar de estar presente, pois Elcinar era seu irmão, e seria uma grande desonra, perante as tribos de Dana, se não prestasse homenagem a quem lhe era tão próximo e possuía, sem dúvida, o mais belo palácio de toda a Irlanda, o festim durou três dias e três noites. Ora, Elcinar tinha uma mulher que se chamava Boann, e a beleza desta era tal que, ao vê-Ia, Dagda ficou obcecado com a idéia de a possuir. Por isso, ficou à espreita do momento propício para a encontrar sem ninguém ver e, quando a ocasião surgiu, declarou-se-lhe sem vergonha nem reservas. «Eu unir-me-ei a ti de boa vontade», respondeu Boann, «mas receio o que possa fazer Elciriar, pois ele é um mágico hábil e vingar-se-á de mim sem dó nem compaixão.» «É verdade que ele é um mágico hábil», disse Dagda, «mas eu sou mais hábil do que ele, e sei como o manter longe de tudo o que nos diz respeito. Co nfia em mim, mulher, e nada receies.» Naquela mesma noite, Dagda pediu a Elciriar para levar uma mensagem da sua parte a Bress, filho de Elattia, que vivia na Planície da Ilha. Na manhã seguinte, Elciriar deixou assim o palácio de Brug para levar a cabo a sua missão. Mas, tendo-se ele afastado um pouco, Dagda lançou-lhe grandes encantamentos para que ele estivesse ausente durante um ano. Dagda fez com que ele se perdesse na escuridão da noite e andasse ao acaso por um longo período de tempo, pensando apesar disso que a sua viagem só durara um dia e uma noite, o que o poupou às

Comment [NR86]: 1. Lembremo-nos que se trata do caer megalítico de Newgrange, no condado de Meath, não longe de Slane, no cimo do vale de Boyne.

Comment [NR85]: 1. Segundo a narrativa Oidheadh Clainne Lír (o destino trágico dos filhos de Lir), contida em diversos manuscritos do fim da Idade Média. Resumo pormenorizado por MY1e¶ Dillon em Early Irish Literature, Dublin, 1994. Tradução francesa de Roger Chauviré o11, Contes ossianiques, Paris, 1949.

agruras da fome e da sede. Então, Dagda foi encontrar-se com Boann, e uniram-se com grande prazer de ambos. Foi tão profícuo o resultado da união que daí a nove meses Boann deu à luz o rapaz mais belo e mais perfeito do mundo. «Que nome lhe vamos dar?», perguntou Dagda. «Chamernos-lhe Angus, ou seja, Escolha Unica», respondeu Boann, «pois ele é o fruto da minha união contigo, tendo sido esta a única escolha da minha vida.» O filho de Boann e de Dagda foi assim chamado Angus, mas ern seguida passou a ser chamado com mais frequência Mac Oc, ou seja, «jovem rapaz», pois era o filho mais recente de Dagda e possuía todas as qualidades do pai, além de ter a beleza da mãe. Quando Elcmar voltou da viagem, o parto de Boann já ocorrera há muito tempo, mas, longe de imaginar o que se passara, ele continuou convencido de que apenas estivera um dia e uma noite ausente da sua casa de Brug-na-Boyne. Antes do regresso de Elciriar, entretanto, Dagda enviara o filho para ser educado na casa de Mider, no outeiro de Bri Leith. A escolha recaíra sobre Mider porque nele Dagda depositava toda a confiança e sabia que ele daria ao rapaz a melhor educação possível entre os rapazes mais nobres de toda a Irlanda. Deste modo Angus, durante muitos anos, foi entregue aos cuidados de Mider, em Bri Leith. Mider tinha um grande campo de jogos em frente da sua residência de Bri Leith, e albergava nesta cento e cinquenta rapazes e cento e cinquenta moças que tinham sido confiados aos seus cuidados pelos chefes das tribos de Dana e cujos chefes dos Fir Bolg que habitavam ainda na Irlanda. Angus era o grande campeão, pois tinha uma força e uma habilidade Inigualávels, e Mider tratava-o com tanto afeto como se ele fosse seu filho.

Ora, um dia, Angus entrou em conflito com Triath, filho de Fébal, do clã dos Fir Bolg e um dos chefes dos Jogos realizados por aqueles que estavam a ser educados no outeiro de Bri Teith. Triath era também um dos filhos adotivos de Mider, que tinha por ele muita consideração. Triath acabara de criticar Angus por ter ajuizado mal sobre o vencedor duma partida, e o jovem enfurecera -se. «Só me faltava ter de levar lições do filho de um servo!», gritou ele. Acontece que Angus pensava que Mider era seu pai e que iria herdar dele a posse de Bri Leith, mal podendo suspeitar do seu parentesco com Dagda. Mas, ao ser injuriado, Triath sobressaltara-se e retorquira: «E a mim só me faltava ter de suportar que me levante a voz um mercenário que nem conhece o pai nem a mãe!» Ao ouvir aquelas palavras, Angus ficou espantado e estonteado, e foi logo ter com Mider, pois queria saber se correspondiam à verdade as palavras de Triath. «Que se passa?», perguntou-lhe Mider ao vê-lo chegar com um ar sombrio e com os olhos marejados de lágrimas. «Estou muito ofendido com Triath, o filho de Fébal», respondeu Angus. «Ele atirou-me à cara que não tenho pai nem mãe.» «Isso é falso», disse Mider. «É verdade que eu não sou teu pai, embora te tenha criado com um amor de pai, mas Posso assegurar-te que tens um pai e uma mãe.» «Então», disse Angus, «Peço-te que me digas quem é a minha mãe e onde poderei encontrar o meu pai.» «A tua mãe é Boann, a mulher de Elcirtar de Brug-na-Boyne, e o teu pai não é Elcrnar, mas Eochaid Ollathair, mais conhecido pelo nome de Dagda. Foi ele que me incumbiu de te educar, às escondidas de Elciriar, para que este não ficasse ofendido por teres nascido na sua ausência. É esta a verdade, meu rapaz, e não quero que me censures por te não ter revelado mais cedo as tuas origens. Era preciso antes de mais proteger a tua mãe, pois se Elcinar tivesse tido conhecimento do que se Passou, ter-se-ia vingado dela.»

Comment [NR87]: 1. Segundo a narrativa Tocinarch Etaíne (La Courtíse d¶Etaine), contida no Livre Jaune de Ucan, editado e traduzido em inglês por o. Bergin e R.I. Best, em Eriu, vol. Xil, Dublin, 1938. Tradução francesa de Ch-J. Guyonvarch, em Textos mitológicos irlandeses, Rennes, 1980*

«Muito bem», disse Angus, «fico-te grato por me revelares que não sou um rapaz sem pai e sem mãe. Agora, vou-te pedir que me leves a casa do meu pai, para que ele me reconheça e assim eu deixe de estar sujeito aos insultos dos Fir Bolg.» Mider partiu então com o filho adotivo ao encontro de Dagda. Quando chegaram a Uisnech de Meath, n centro o da Irlanda, onde naqueIa época vivia Dagda, encontraramno a meio de uma assembléia dos chefes e dos nobres das tribos de Dana. Mider chamou-o e pediu-lhe Para se retirar por um pouco para conversar com o jovem que o acompanhava. Dagda deixou a assembléia o foi logo ter com eles. «Pois bem, que deseja este jovem guerreiro que nunca aqui tinha vindo?» «É seu desejo ser reconhecido pelo pai», respondeu Mider, «e que lhe sejam dadas terras, pois não é justo que o teu filho nada tenha tendo tu vastos domínios em toda a Irlanda.» «Concordo contigo, e fico muito satisfeito por poder dar as boas vindas a um filho», disse Dagda, «Acontece, no entanto que não tenho nenhuma terra livre nos meus domínios para poder satisfazer o seu desejo.» «Tu não podes no entanto , recusar terras ao teu filho», insistiu Mider. «Eu sei», disse Dagda, «preciso apenas de um tempo para encontrar uma solução, e depois o seu desejo será satisfeito.» Dagda foi aconselhar-se com Mananann, filho de Lir, e, depois de ter exposto o caso, ponderaram os dois sobre o procedimento a tomar. «Eu dar-lhe-ei de boa vontade o domínio de Brug-na-Boyne», explicou Dagda, «mas como havemos de consegui- lo de Elcinar? Ele nunca o quererá dar ... » «Talvez se consiga alguma coisa...», respondeu Mananann. «Ouve bem o que te digo sobre o que temos a fazer: Elciriar convidou os chefes e os nobres das tribos de Dana para a celebração da Festa da Idade na casa de Brug-na-Boyne, na véspera do próximo samain. Faz com que o teu filho te acompanhe e eu pela minha parte farei

com que lhe seja atribuído o domínio de Brug, com o próprio consentimento de Elcinar, e sem que alguém possa opor-se» Deste modo, Mananann, Dagda e Angus partiram juntos para as margens do Boyne, que tinham a erva seca coberta de orvalho. Foram aí recebidos com todas as honrarias, e na sala do festim havia palha e rosas frescas para que eles pudessem dispor de todo o conforto. A sala era bela e suntuosa: o chão era de bronze, de uma porta à o utra, placas de bronze branco ornamentavam as paredes, e havia animais de todos os géneros finamente esculpidos a decorarem os leitos. Elernar dera ordens aos seus criados para irem aos lugares mais remotos da Irlanda pescar e caçar pássaros e outros animais, em honra dos visitantes. Os chefes das tribos de Dana sentaram -se para o festim, Bodgh Derg ao meio, Mananann à direita e Dagda à esquerda. Mais afastados, encontravam-se Mider e Angus, com Elemar e Goibniu. Os convivas sentiam-se felizes e estavam de bom humor, pois eram obsequiados com os melhores manjares e as melhores bebidas que se possa imaginar. Vieram músicos recordar-lhes Outros tempos, e reeitaram-se poemas em que se exaltavam grandes proezas das tribos de Dana quando tinham guerreado contra os Fir Bolg e os Fomore. Depois, todos se foram divertir no prado em frente à fortaleza e, nessa altura, Manannan chamou Angus à parte para que pudessem falar sem serem ouvidos. «Esta casa é muito bela, ó Angus», disse Mananann, «e nunca vi nenhuma tão bela na Terra da Promessa. Que bem situada ela está, num lugar tão aprazível, nas margens do Boy e ne, na fronteira das cinco províncias! Se estivesse no teu lugar, Angus, não ficaria descansado enquanto esta residência não fosse minha, e lançaria encantamentos sobre Elcinar para o intimar a deIxá-la imediatamente de forma a poder ficar na sua posse. Estamos na véspera de Samain e como

sabes, durante a noite de Samain, o tempo deixa de existir. Bastar-te-á por isso pedir a Elemar que te deixe ser senhor de Brug durante uma noite e um dia: ele estará tão entretido com a bebida que nem se aperceberá de que, no decurso da festa do Samain, uma noite e um dia equivalem a uma eternidade.» «Porque me dás esse conselho?», Perguntou Angus. «Eu explico-te o motivo», respondeu Mananann. «Como o teu pai quer que adquiras terras, encarregou-me de te instruir sobre o que há a fazer.» «Nesse caso», disse Angus, «seguirei o teu conselho.» «Jura então sobre o teu escudo púrpura e sobre a tua espada que agirás rigorosamente de acordo com o que te direi.» Angus prestou o juramento que Mananann exigia dele. «Muito bern», continuou Mananann, «fica a sabe que r Elemar não é o dono legítimo desta residência e que o território de Brug não deverá continuar na sua posse. Quando voltarmos para a sala para nos regalarmos com as bebidas do festim irás ter com Elcinar e, desembainhando a tua espada, ameaçá-lo-ás de morte, mas nada lhe farás, desde que ele prometa satisfazer a tua vontade que se traduzirá em ficares senhor de Brug por um dia e um a noite. Ele não poderá recusar e, assim que se tiver esgotado o tempo, ele pedir-te-á para voltar a ser o senhor de Brug, e tu dirás simplesmente que o tempo no mundo se mede por dias e noites, e que ele nada mais tem aqui a fazer, pois deu Brug por uma eternidade.» Voltaram todos para a sala do festim, e Angus seguiu à risca o conselho de Mananann. Elcinar deixou-o ser senhor de Brug por uma noite e um dia. Mas, consumado aquele tempo, quando reivindicou a devolução do seu domínio, Angus lançou-lhe um encantamento mágico e ordenou-lhe que abandonasse Brug o mais depressa possível. E, ao ouvir aquela ordem, Elcinar compreendeu que não tinha alternativa senão partir. E assim Elcinar saiu da sua casa com todas as

suas gentes, tanto homens como mulheres. Ninguém que se encontrasse na assembléia poderia evitar aquela situação, nem poderia protestar contra a injustiça, pois o encantamento era tão poderoso que a todos afectava por igual, sendo impossível fugir-lhe. Mas, assim que à noite se viu no prado cheio de humidade, Elemar lamentou -se perante a mulher e todos os que o rodeavam: «Que desgraça se abateu sobre vós, que pertenceis à minha família e ao meu clã. É muito triste que ten hais de deixar Boyne e Brug, e sentireis uma grande mágoa e um grande sofrimento quando estiverdes muito longe daqui, exilados em países desconhecidos. Como é evidente, foi Mananann quem maldosamente ensinou Angus a agir daquela forma. Ali, estou tão consternado e tenho o coração tão partido que nem me importo se tiver de morrer!´ Entretanto, antes de deixar aqueles lugares, Elcmar chamou Dagda para perto de si e perguntou -lhe: «ó Dadga, tu que és o mais sábio de todos nós, que pensas da ação perversa de que fui vítima?» «Penso que a ação não foi perversa, mas justa», respondeu Dagda. «Daqui para a frente é a este jovem guerreiro que a terra pertence. Ele apanhou-te de surpresa, num dia de paz e de amizade, e permitiste que ele fosse senhor dos teus domínios porque te atemorizaste perante ele. Mas vou dar-te uma compensação: conceder-te-ei uma terra que não te será menos proveitosa que a de Brug.» «Que terra é?», perguntou Elcmar. «Vou-te dizer: trata-se de Cletech, e dos três vales ficam em volta. Fica a pouca distância daqui. Os jovens do teu clã poderão vir distrair-se na terra de Brug todos os dias, e tu poderás consumir os frutos da Boyne como antes.» «É bom que seja assim», disse Elcmar. Ele partiu em seguida para a colina de Cletech e mandou construir aí uma fortaleza. Angus, o Mac Oc, por seu lado, permaneceu na residência de Brug-na-Boyne.(2)

Comment [NR88]: 1. Síntese entre La courtise d¶Etaine e La nourriture de Ia maison des deux gobelets a primeira narrativa, é Dagda quem concebe o truque destinado a espoliar Elcmar; na segunda, em que Angus é o filho adoptivo do próprio Elemar, é Mananann.

Comment [NR89]: 2. Segundo a narrativa La Courtise XEtaine.

Angus dispôs da sua nova residência como muito bem entendeu. O intendente de Elemar não tinha seguido aquele, e veio apresentar-se ao seu novo senhor, com a mulher e o filho. Angus disse-lhe que manteria todas as suas funções, e que ficaria sob a sua proteção. E, desde então, o intendente foi- lhe devotado, fazendo os possiveis para que no palácio de Brug tudo corresse pelo melhor. Ora, uma noite dormia Angus serenamente, e teve de súbito uma visão surpreendente. Em sonhos viu uma moça que vinha ao seu encontro e se punha à sua cabeceira. Era sem qualquer dúvida a mais bela jovem que alguma vez existira em toda a Irlanda. Angus quis agarrá-la com os braços para a trazer para a cama, mas ela, com um salto, afastou-se até se confundir com a escuridão. Angus levantou-se e interrogou os criados, mas nenhum deles vira a beldade, e ninguém lhe soube dizer para onde ela fora. Ele voltou a deitar-se mas ja não conseguiu adormecer, tantas vezes o visitava a imagem graciosa da jovem. E assim ele permaneceu até de manhã, altura em que se encontrava muito enfraquecido e triste. A forma que entrevira de noite, sem que lhe pudesse tocar ou falar, pôlo doente e a partir daí perdeu a vontade de comer. Entretanto, na noite seguinte, a exaustão fê cair num -lo sono profundo, e voltou a vê-Ia, tendo ela nas mãos, desta vez, o mais belo címbalo que alguma vez vira. Ela tocou -lhe música, e depois desapareceu da mesma maneira como aparecera. Angus ficou acordado o resto da noite e, de manhã, não quis comer. E todas as noites aconteceu o mesmo: a jovem aproximava-se do seu leito quando adormecia, mas logo lhe fugia ou lhe tocava uma música que o adormecia rapidamente. Isto durou um ano inteiro, fazendo com que Angus ficasse cada vez mais fraco. E, como ele não confidenciava a ninguém os motivos da sua doença, todos à sua volta

estavam muito preocupados. Vieram vários médicos da Irlanda, mas nenhum soube identificar a doença nem receitar os medicamentos apropriados para o curar. Então, chamaram Fingen, o melhor médico do Ulster que conseguia fazer um diagnóstico certeiro de qualquer doença simplesmente olhando para o doente, e que, ao ver fumo a sair de uma casa, ficava logo a saber quantos doentes havia lá dentro. Graças a esses seus dotes o tinham chamado à residência da Brug. Ora, depois de ter examinado Mac oc com toda a atenção, não conseguiu apesar disso identificar a doença de que ele padecia. Então, Angus pediu que o deixassem ficar a sós com Fingen, e contou-lhe o que se tinha passado, insistindo muito na beleza da jovem que o vinha visitar todas as noites. «o teu sofrimento é realmente atroz, pois amas profundamente uma mulher que está sempre ausen te», disse Fingen. «É ela que me põe doente», disse Angus. «Adoeceste gravemente», continuou Fingen, «porque não quiseste partilhar o teu segredo.» «Eu não o podia fazer, pois quem iria acreditar que uma jovem de rara beleza, extremamente distinta, me vem visitar com um címbalo todas as noites e me toca música maravilhosa, sendo por isso que fiquei doente? E haverá cura para uma tal doença?» «Acredito que se encontrará uma solução», respondeu Fingen. «É óbvio que esta jovem vem ter contigo porque te ama profundamente. Porque a não vais procurar? Envia mensageiros a Boann, tua mãe, e pede -lhe para te vir falar.» Partiram então ao encontro de Boann, que estava na casa de Cletech, e ela foi informada de que o seu filho estava doente. Ela apressou-se e foi a Brug-na-Boyne, onde foi recebida por Fingen. «Eu estou a tentar curar o teu filho», disse este, «pois ele padece de uma grave doença.»

Comment [NR90]: 1* Sèrtre no original, palavra francesa que tanto significa outeiro como tunitilus megalítico, Ou seja, um outeiro artificial cobrindo um dólmen. Segundo estas tradições de povos celtas Corno os irlandeses os povos feéricos vivem nestes tumuius ou cairns. (N. T.)

Fingen explicou-lhe o que provocava o enfraquecimento de Mac Oc, que estava a morrer por ter visto em noites sucessivas uma jovem de grande beleza que lhe tocava música. «Eu penso», continuou Fingen, «que num caso destes só a mãe pode fazer alguma coisa por ele. Se amas o teu filho, dá uma volta por esta ilha para saber se existe alguma jovem com a aparência que nos é descrita por Angus. A única maneira de o curar é encontrar a jovem e levá-la à sua cabeceira.» Boann prometeu a Fingen que partiria sem demora a procura da beldade por toda a Irlanda, mas foi em vão que ela percorreu as várias províncias, durante um ano, perguntando por ela a todas as pessoas que encontrava: nem as gentes das tribos de Dana nem as dos Filhos de Milé lhe souberam indicar a existência de alguém que se parecesse com a jovem referida por Mac Oc. Voltou por isso para Brug-na-Boyne muito desiludida e, mais uma vez, foi falar com Fingen. «Não encontrei ninguém», disse ela, «e estou muito preocupada com o que pode acontecer ao meu filho. Que podemos fazer agora?» «Bem», disse Fingen, «já que nem a própria mãe conseguiu descobrir um remédio para o seu, mal, deve mandar-se procurar Dagda para que fale ao seu filho, Pois deve ser agora o pai a tentar encontrar uma cura para ele.» Foram então enviados mensageiros a Dagda. Este deu lhes as boas vindas e perguntou-lhes que bons ventos os levavam ali. «Ora!», exclamaram eles, «o teu filho Angus está muito doente e Boann, a sua mãe, pediu que o vás visitar!» Então Dagda apressou-se a tomar o caminho de Brug-naBoyne, e Boann deu-lhe as boas vindas quando o viu vir ao seu encontro. «Deves aconselhar o teu filho», dl se-lhe ela, s «pois está tão fraco e tão incapacitado para se mexer que nem sabemos como lhe havemos de salvar a vida! Peço-te que o ajudes, pois está profundamente apaixonado por

urna jovem que o vem visitar todas as noites, mas que desaparece assim que ele acorda. Percorri a Irlanda de um canto ao outro, durante um ano, mas todos os meus esforços foram em vão. Que podemos fazer por ele, sábio Dagda, que conselho lhe podemos dar?» «De nada valeria eu falar», disse Dagda, «pois não posso fazer mais do que tu.» «E verdade», disse Boann, «mas tu és o mais sábio e o mais solicitado dos chefes das tribos de Dana. Manda consultar Bobdh Derg, o teu filho mais velho, pois ele é o nosso rei supremo. Ele deve saber melhor do que ninguem como se há-de ajudar Mac Oc.» Dagda enviou então mensageiros para o Outeiro de Femen onde nessa altura vivia Bobdh Derg, e este acolheu com -os muito boa vontade. «Sede bem vindos à minha residência, caros servos de meu pai Dagda», disse-lhes ele. «Que motivo vos traz aqui?» «o estado preocupante de Angus, filho de Dagda», responderam eles. «Há dois anos que ele está doente por ter visto uma jovem durante o sono, e a visão fê-lo perder a saúde. Ora, nós não sabemos onde se encontra, na Irlanda, a Jovem beldade que ele ama profundamente e que todas as noites lhe vem cantar músicas muito suaves. Por isso te convocamos, ó rei, da parte de Dagda, para que mandes procurar em toda a ilha essa jovem de beleza lnigualável.» «Ide dizer a Dagda, meu pai», respondeu Bobdh Derg, «que a manda rei procurar, mas que preciso do prazo de um ano para tentar encontrá-la.» Ao fim de um ano, os mesmos mensageiros voltaram a apresentar-se na casa de Bobdh Derg, no Outeiro de Femen. «Vasculhei por toda a Irlanda», disse-lhes o rei, «e começava a desesperar quando encontrei, no lago Bel Dracon, a jovem que procurais. Ide levar a notícia a Dagda, dizei-lhe que estou pronto para levar Angus a esse lago para poder reconhecer aquela que viu durante o sono.» Sem perda de tempo, os mensageiros regressaram à residência de Dagda. «Temos boas notícias», disseram

eles, «a jovem foi encontrada! E Bobdh Derg manda dizer que está pronto para receber Angus e para o levar ao pé dela para que a possa ver e reconhecer.» Angus deslocou-se então de carro até ao Outeiro de Femen, onde um grande festim lhe foi oferecido em jeito de boas vindas. Ao fim de três dias e três noites de festividades, Bobdh Derg disse por fim: «Chegou o momento de irmos ao lago Bel Dracon. Deves ver a jovem para saberes se é a que te aparece em sonhos .» Partiram então para o lago Bel Dracon e, entre as colinas, viram um espectáculo impressionante, pois havia aí cento e cinquenta jovens, todas elas de uma beleza inigualável, divertindo-se nas margens do lago, rindo, cantando e folgando exuberantemente. Formavam pares tendo a ligálas uma corrente de prata, exibiam colares de prata, à volta da cintura tinham correntes de ouro, e os seus cabelos eram de uma beleza estonteante.´¶ Apesar de se parecerem umas com as outras, de entre elas destacava -se à primeira vista uma que era mais alta alguns centímetros. «Olha aquela ali», disse Bodh Derg a Mac Oc. «Não é a que te visitou em sonhos e te veio tocar música muito suave?» «Sim, é ela», respondeu Angus, «reconheço-a bem. Vou falar-lhe ... » «Isso não é possível», respondeu Bobdh Derg, «pois ela não depende da minha autoridade e ninguém se pode aproximar destas jovens. Nada mais posso fazer por ti e não lhe podes falar, muito menos a podes levar contígo. «Que hei-de então fazer?», perguntou Angus. «Eu estava doente por poder vê-Ia só à noite, e por ela me fugir quando a queria agarrar, e agora que a vejo em pleno dia, não posso aproximar-me dela? A minha tristeza é agora muito maior.» «Ouve-me», disse Bobdh Derg. «Vou dar-te um conselho: esta moça é Caer Ibormaith, e o seu pai é Ethal Aribual do Outeiro de Uaman, na província de Connaught. A única maneira de te aproximares dela e de a

conquistares é falares com o pai dela. Mas ele só admitirá dar-te a filha se for forçado a isso ou se estiver debaixo do efeito de algum encantamento.» Angus e as suas gentes deslocaram-se então à residência de Dagda, indo Bobdh Derg com eles. Boann encontravase lá, na companhia de Dagda, e Angus contou-lhes o que vira, descreveu-lhes a moça, cuja beleza elogiou, referiu a figura tão distinta que ela tinha, e lamentou que fosse tão inacessível e tão difícil de conquistar. «Quem é ela afinal?», perguntou Dagda. «Pelos deuses!», respondeu Dagda, «com muita pena minha, nada posso fazer por ti, meu filho, pois esta moça não está sob o meu domínio. Ninguém conseg uirá conquistá-la sem o consentimento de seu pai, e eu sei que ele só a cederá pela força ou se estiver debaixo do efeito de encantamentos.» «Era conveniente», disse Bobdh Derg a Dagda, «que tu em pessoa fosses a casa de Ailill e Maeve, pois é na sua provincia que se encontra a moça. Se tu lhes pedires ajuda, talvez eles possam fazer alguma coisa por ti.» Sem demora, Dagda partiu então para a província de Connaught, com uma escolta de pelo menos sessenta carros e na companhia do seu filho Angus. O rei e a rainha deram-lhes as boas vindas, e passaram uma semana inteira a festejar por entre comidas e bebidas com que os presenteavam. «Porque haveis vindo?», perguntaram por fim Aílill e Maeve. «Vou explicar-vos», respondeu Dagda. «Encontrase nesta província uma moça por quem o meu filho se apaixonou, mas com a qual não se Pode relacionar nem pode conquistá-la, o que lhe provoca uma profunda tristeza e mágoa. Vim a vossa presença para vos perguntar de que modo se poderá chegar perto desta moça e conquistá-la.»

Comment [NR92]: Ailill e Maeve são personagens de relevo na epopéia celta da Irlanda, e desempenham um Papel importante em todos os ciclos, escapando a qualquer cronologia. A rainha Maeve ri, particular é Imito característica, sendo a síntese entre uma provável rainha histórica de Conn,,ght e uma antiga deusa ceita. o seu nome (Mebdh) significa «embriaguez» mas também «meio» o que indicia uma posição intermédia entre o mundo humano e o Outro Mundo, divino Ou feérico. Affill e Macve residem na fortaleza real de Cruachan (actual Crogh an, no condado de Roscommon); e na pequena montanha de Knoeknarea, perto de ´9o, existe um «cairn» megalítico que tem o nome de «Túmulo da rainha Maeve». Comment [NR91]: 1. Descrição clássica das jovens do povo feérico que, como se verá mais adiante, Podem metamorfoscar -se em cisnes: voam sempre aos pares e estã o sempre ligadas por correntes.

«Quem é ela?», perguntou Ailifi. «Caer Ibormaith, a filha de Ethal Anbual.» «Ora!», exclamou Aílifi, «nós não temos nenhum poder sobre ela, mas mesmo assim tudo faremos para que o teu filho a conquiste.» «Nesse caso», disse Dagda, «convém que chames o teu pai para que Possamos falar com ele.» «Assim farei», prometeu Ailifi o intendente de Ailill partiu imediatamente para o Outeiro de Uaman e, assim que se encontrou na presença de Ethal Aribual, disse-lhe: «Venho da parte do rei Ailill e da rainha Maeve pedir para que os vás visitar pois pretendem falar-te.» «Não irei», respondeu Ethal, «pois sei muito bem o que eles pretendem. Fica pois a saber que jamais darei a minha filha ao filho de Dagda.» O intendente voltou para a fortaleza de Ailill e de Maeve e contou-lhes palavra por palavra o que lhe dissera Ethal Aribual. «Que ímpertínente!», exclamou Aillil, «juro que a bem ou a mal o traremos até nós, nem que tenhamos de humilhar os seus guerreiros!» Ailill juntou então um grupo de homens armados que se pôs a caminho com a escolta de Dagda, Chegaram ao Outeiro de Uaman e, após terem lutado contra as gentes de Ethal Aribual, penetraram no outeiro e saquearam -no, com tal proveito que no regresso levavam consigo sessenta cabeças de guerreiros e Ethal Aribual como prisioneiro. Quando chegaram pouco depois à fortaleza de Cruachan, Ailill disse a Ethal: «Dá a tua filha ao filho de Dagda.» «Não o farei», respondeu Ethal Aribual. «Para mais, mesmo que o quisesse não o poderia fazê-lo, pois o poder que a domina é muito mais forte do que o que eu tenho sobre ela.» «Que poder é então esse que a domina?», perguntou Ailill. «Acontece muito simplesmente que ela está sob o efeito de um sortilégio. Durante um ano inteiro, ela tem a forma de um pássaro e no ano seguinte retoma a forma humana, e ninguém consegue mudar essa situação.»

«Muito bem», disse Ailill, «e em que ano ela tem a forma de pássaro?» «Eu não devo traí-la», respondeu Ethal. Então, Ailill ergueu-se e, desembainhando a espada, brandiu-a sobre a cabeça de Ethal Aribual. «Eu arranco-te a cabeça se não falares!», gritou ele. «Estou a ver que não me resta alternativa senão falar», suspirou Ethal, «pois estais decidido a matar-me. Sabei então que na próxima festa de Samain ela estará com uma forma de pássaro no lago Bel Dracon, tendo na sua companhia um maravilhoso grupo de cisnes. Todos estarão à superfície das águas, e será possível falar-lhes a partir da margem, Em contrapartida, quem quiser aproximar-se deles, não poderá ter a forma humana.» «Está bem», interveio Dagda, «já sei o que hei-de fazer.» Foi então firmada a paz entre Ailill, Dagda e Ethal, sendo este último posto em liberdade. Depois, Dagda e o filho voltaram para Brug-na-Boyne. Mac Oc estava agora muito feliz, pois sabia que pouco faltava para conquistar a donzela por quem se apaixonara e cuja ausência o martirizava. Na noite anterior à festa de Samain, ele dirigiu-se então para as margens do lago Bel Dracon, sendo acompanhado pelo pai. Aproximou-se da água e viu um maravilhoso grupo de pássaros brancos que cruzavam serenamente o lago e que estavam ligados entre si por correntes de prata, tendo a coroá-los arcos de ouro. Angus, com a forma humana, chamou a moça pelo seu nome e um pássaro veio ao seu encontro. «Quem me charna?», perguntou ela. «E Angus, filho de Dagda, quem te chama. Peço-te, Caer, que venhas comigo, pois o meu amor por ti é tão grande que não conseguiria viver nem mais um minuto se não viesses comigo para a minha residência.» «Eu não posso seguir alguém que possui a forma humana», respondeu o pássaro, e afastou-se.

Então, Dagda tocou no filho com uma varinha mágica e druídíca, e Mac Oc tomou imediatamente a forma de um cisne majestoso. «Bela Caer», gritou Angus, «podes agora vir comigo?» «Posso, com certeza, mas na condição de me dares a tua palavra de honra que me deixas voltar amanhã para o lago,» «Eu Prometo», respondeu Angus, antes de se abraçar a ela. Naquela noite, eles dormiram juntos na forma de cisnes e, na manhã seguinte, deram várias voltas ao lago e uniramse fisicamente varias vezes. Depois ergueram-se no ceu, sempre na forma de pássaros brancos, e viajaram para Brug-na-Boyne. Aí, em terra firme, Caer retornou a forma humana: nunca fora tão bela, e Angus estava no auge da felicidade. Puseram-se os dois a cantar a música suave dos palácios feéricos, e todos aqueles que ouviam aquela música ficavam a dormir durante três dias e três noites. E a moça ficou a partir de então a viver com Angus no palácio de Brug-na-Boyne. Desde então uma grande amizade passou a ligar Affill e Maeve, rei o rainha de Connaught, a Angus, o Mac Oc, último filho de Dagda. E as gentes das tribos de Dana, assim como os Filhos de Milé, ficaram todos muito felizes, de tal modo que os seus poetas, inspirados por esta história, nunca mais deixaram de compor belas músicas e de escrever narrativas que partem os corações mais sensíveis.

passear pelas margens do lago, vendo de súbito um homem írromper através da bruma: cobria-o um manto de púrpura com cinco dobras, e na mão segurava dois dardos de cinco pontas, tendo ao ombro um escudo de bossa de ouro; à cintura trazia uma espada de punho de ouro, e uma bela cabeleira dourada vinha pousar-lhe suavemente sobre os ombros. «Vêem o homem que se aproxima?», perguntou Loégairé, filho de Crimthann, um dos mais belos e nobres guerreiros de Connaught. «Julgo que devemos saudá-lo e recebê-lo bem, pois ele tem um porte nobre e não revela nenhuma hostilidade contra nós.» Quando o guerreiro desconhecido chegou ao pé das gentes de Connaught, estas saudaram-no e deram-lhe as boas vindas. «Agradeço-vos a recepção calorosa», disse o desconhecido. «o que te traz aqui?», perguntou-lhe Loégairé. «A esperança de que me possais ajudar» «De onde vens e quem és?», voltou Loégairé a perguntar. «Sou das tribos de Dana», respondeu ele, «e chamo -me Fiaclina, filho de Rété. Sou um chefe respeitado entre os meus.» «Se é ajuda o que pretendes de nós», disse L oégairé, «nós dar-ta-emos de boa vontade se tios disseres o que pretendes.» «o motivo que aqui me traz é o seguinte: a minha mulher foi-me raptada por Eochaid, filho de Sâl, que a levou para a sua fortaleza. Inconformado, eu fui atrás do raptor, que morreu às minhas mãos. Entretanto, a minha mulher refugiou~se em casa de um filho do seu irmão, GolI, filho de GoIb, cuja fortaleza se encontra no centro da Planície Agradável, e ele não ma quer devolver. Já o combati em sete batalhas, mas em todas elas fui derrotado e não conseguiu reaver a minha mulher. Hoje, travaremos uma batalha contra GolI, mas são poucas as nossas possibilidades de a vencer se não tivermos ajuda. Por isso vos venho pedir auxílio, homens de Connaught, e estou disposto a recompensar qualquer um de vós que se junte a
Comment [NR93]: ¶-Segundo a narrativa Awj,, oenguso (o sonho de Angus), contida no manuscrito EgertOn 1782 do Museu Britânico, editado com tradução inglesa por Edward Muiler na Revue celtique, vol. III, Paris, 18761878. Tradução francesa de Ch.-J. Guyonvarch¶h em Te´´ ¶1i1o1,ógí- irlandeses, Renries, 1980.

CapítuloIX
Certa vez, os homens de Connaught estavam reunidos junto ao Lago dos Pássaros, na planície de Aé, tendo sido preparado para eles um grande festim que durou toda a noite. Ao romper da alva, eles levantaram -se e foram

mim e venha combater ao lado dos meus homens.» Ditas estas palavras, o estranho deu meia volta e desapareceu na bruma, ficando os homens de Connaught a contemplá-lo enquanto deixava os limites da terra firme e entrava lentamente nas águas do lago com as quais se confundiu. «Seria para nós uma vergonha se não ajudássemos este homem!», exclamou Loégairé. Cinquenta guerreiros dirigiram-se então para o lugar onde tinham visto Fiachria desaparecer e, entrando nas águas e descendo até à profundeza do lago, foram juntar-se a ele dispostos a ajudá-lo. Ao verem diante deles uma fortaleza e, no prado, dois exércitos frente a frente, puseram-se ao lado de Fiachria, filho de Rété, que estava na fileira da frente. «Agora que aqui chegámos», disse Loégairé, «preparemo nos para fazer frente ao chefe dos cinquenta guerreiros que estão diante de nós.» «Aqui estou», disse GolI, filho de GoIb, «e aceito o desafio que me lançais! Lutemos, pois, se é esse o vosso desejo!» E começou logo ali uma violenta batalha, ao fim da qual Loégairé e os cinquenta homens que o acompanhavam foram os claros vericedores, deixando caídos sobre o campo de batalha Goll e os seus cinquenta guerreiros. Depois, avançaram e saquearam tudo o que encontraram pela frente. «Onde se encontra a tua mulher?», perguntou Loégairé a Fiachna. «Na fortaleza, no meio da Planície Agradável», respondeu Fíachna, «mas tem a pro tegê-la um poderosíssimo contingente de homens armados.» «Fica então aqui», disse Loégairé, «enquanto eu lá vou com os meus cinquenta homens.»

Foram então à fortaleza da Planície Agradável e viram o grupo numeroso de homens que a guardava. Não se deixando intimidar, investiram contra ele e, combatendo com valentia, abriram uma passagem que dava para o interior da fortaleza. À entrada desta Loégairé gritou: «Nada vos pode valer! Os vossos chefes já foram mortos, e GolI, de GoIb, morreu. Estamos na disposição de lutar até vos termos morto a todos, Libertai, pois a mulher que tendes como refém e em troca pousaremos as armas e pouparvos-emos a vida.» Aqueles que estavam no interior da fortaleza pediram um tempo para responder, e Loégairé acedeu ao seu pedido. Retiraram-se para ponderar e, pouco depois, a mulher saiu da fortaleza a entoar um canto de lamento pelo fato de terem morrido tantos guerreiros por sua causa. Loégairé pegou-lhe pela mão e conduziu-na até Fiachria que, muito contente com o sucesso daquela aventura, convidou Loéagairé e os seus cinquenta homens para um festim na sua residêncla. «Não sei como te manifestar a minha gratidão», disse Fiachria a Loegairé, «mas vou fazer-te uma proposta: fica comigo neste país e governemo em -lo conjunto, tu e eu. Tenho uma filha que se chama Der Greine e, se ela te agradar, poderás desposá-la.» Mandaram chamar a moça, cuja beleza e belo porte muito agradaram a Loégairé. Fiachria deu então a mão de Der Greine a Loégairé e passaram a noite juntos. Por seu lado, os cinquenta guerreiros que tinham acompanhado Loégairé tiveram cada um a sua mulher, sendo escolhidas as mais nobres jovens do país. E todos ali permaneceram um ano inteiro. «Nós gostávamos de ter notícias do nosso país», disse então Loégairé a Fiachria. «Permiti que partamos.» «Se é esse o vosso desejo, não vos contrariarei», respondeu Fiachria. «Mas devo advertir-vos de uma coisa: ide de cavalo para o vosso país, mas assim que aí chegardes, de

modo algum deveis pousar os pés. Eles foram então às cavalariças de Fiachria onde escolheram cavalos robustos e ágeis, deixaram a fortaleza, atravessaram bosques e plametes, e pouco depois encontravam-se nas margens do Lago dos Pássaros. Ora, precisamente naquele dia os homens de Connaught estavam reunidos num festim, e Crimthann, pai de Loégairé, encontrava-se entre eles, Todos se lamentavam então de não terem notícias dos homens que tinham partido no ano anterior. Assim, quando viram Loegaire e os seus cinquenta guerreiros a dirigirem-se na sua direção, surgindo das profundezas do lago, ficaram todos contentes e foram recebê-los para lhes dar as boas vindas. «Não se aproximem!», exclamou Loégairé. «Viemos aqui para nos despedirmos de vós.» Trocaram então diversas informações sobre o ocorrido no ano em que tinham estado separados. «Não nos deixes», pediu Crimthann, «pois no reino de Connaught tu podes ter tudo o que desejas: ouro, prata, pastagens férteis para o gado, cavalos rápidos e as mais nobres mulheres de toda a ilha.» Mas nem Loégarré nem nenhum dos seus cinquenta companheiros quis ficar a viver no reino de Connaught, e depois de se despedirem dos familiares e dos amigos, voltaram para as águas do lago. Pouco depois, entraram na fortaleza onde Loégairé partilhava o poder com Fiachna. Este poder, entretanto, só era exercido sobre as tribos de Dana que viviam no Connaught, pois Ailill e Maeve eram por seu lado rei e rainha dos Filhos de Mité. Segundo fora estipulado a seguir à batalha de Tailtíu, estes últimos povoavam o território da Irlanda enquanto as tribos de Dana se estabeleceriam nos outeiros, sob as colinas e debaixo das águas dos lagos, não podendo as suas gentes

ser vistas pelos Filhos de Milé senão quando o desejassem, pois tinham o dom da invisibilidade. Vivendo de acordo com o que tinha sido combinado entre eles, os dois povos mantinham excelentes relações e respeitavamse mutuamente. Ora, nesta época em que partilhava com Loégairé a soberania sobre as tribos de Dana que viviam em Connaught, Fiactina tinha um hábil porqueiro chamado Rucht e este Rucht tinha uma relação de amizade com o porqueiro das tribos de Dana que residiam no Munster, o qual, de nome Friuch, não lhe ficava atrás em habilidade e reputação, Assim, sempre que faltavam bolotas em Munster, Rucht convidava Friuch a levar a sua vara de porcos a Connaught e, por seu lado, quando faltavam bolotas em Connaught, Friuch convidava Rucht para a apanha de bolota em Munster. Além desta entreajuda, os dois homens também costumavam encontrar-se de tempos a tempos para fazerem jogos mágicos e de prestídigitação. Ambos eram de uma habilidade inigualável, e as tribos de Dana procuravam saber qual deles era o melhor. Mas, como não havia vencedor nem vencido nos torneios que realizavam, sendo de igual valor os dois concorrentes, as gentes de Dana ficaram impacientes e acabaram por lhes impor provas susceptíveis de desequilibrar a balança a favor de um ou de outro. «Já que sois tão fortes», disseram-lhes um dia, «fazei pois com que os vossos porcos fiquem um ano sem comer, veremos então qual das duas varas é a mais resistente.» Rucht e Friuch lançaram encantamentos sobre os porcos que tinham ao seu cuidado e, ao fim de um ano, ambas as varas tinham não só sofrido por causa da falta de comida como os porcos de Munster tinham emagrecido tanto como os de Connaught. «Pelo mal que fizestes passar os

Comment [NR94]: Segundo uma narrativa contida num manuscrito do século XV, publicado com tradução inglesa por Saint O¶Grady, Silva Gadelica, Dublin, 1892. Tradução francesa de Georges Dottin na Epopeia Irlandesa, nova ed. Paris, 1980.

porcos», disseram-lhes, «mais vale que deixais de cuidar deles!» E a ambos foi retirada a atividade de porqueiro. Além de ficarem estupefatos e consternados, Rucht e Friuch não conseguiram resolver o seu problema de saber qual deles era o mais hábil. Decidiram então mudar de forma durante um ano e rivalizar durante este período para saber qual deles venceria melhor as dificuldades. E, de comum acordo, tomaram a forma de corvo. Ao longo do ano, sobrevoaram a Irlanda e enfrentaram diversas dificuldades. Mas, por muitas lutas violentas que fizessem entre si, não havia maneira de qualquer um deles ganhar vantagem ao outro. No dia primeiro do ano seguinte, compareceram perante a assembléia de Munster, tendo voltado a adquirir a forma humana assim que pousaram no chão. Foram recebidos com boas vindas e perguntaram-lhes o que tinham feito durante o ano sob a forma de pássaros. «Na verdade», disseram eles, «não tendes motivo algum para estardes satisfeitos e para nos desejardes as boas vindas. Obrigaste-nos a tentar demonstrar qual de nós é o mais hábil, mas não se chegou a nenhuma conclusão. Devemos lembrar-vos que, por causa das provas que nos impusestes, haverá muitas mortes e a Irlanda terá muitas razões para se lamentar,» Quiseram logo saber se eles se estavam a referir a uma guerra em particular, obtendo como resposta: «Não o podemos dizer, mas o certo é que todos os povos desta ilha, sejam as tribos de Dana ou os Filhos de Milé, serão vítimas do que está para acontecer. Ninguém conseguira evitar um grande sofrimento e duras penas e o sangue dos homens correrá nos rios e nos lagos. Agora, para satisfazer a vossa exigência e para ficarmos a saber qual de nós é o mais hábil, iremos mudar de forma durante mais um ano inteiro.»

E imediatamente, deixando a assembléia, foi cada um para seu lado. Um dirigiu-se para o Shamion, onde mergulhou transformando-se num Peixe enorme. O outro partiu para o Suir(¶) onde mergulhou e, por seu lado, também transformou num enorme peixe. Depois, ambos, através dos nos, dos lagos e do mar, nadaram ao encontro um do outro. Passaram metade do ano no Sharmon e a segunda parte no Suir, e procuraram não se ferir nem se cansar enquanto se perseguiam mutuamente. Um dia, estando os homens de Connaught reunidos numa assembléia nas margens do Lago dos Pássaros, assistiram a um espectáculo extraordinário: dois peixes enormes lutavam nas aguas com uma extrema violência, de tal modo que faíscas saíam das suas escamas que mais pareciam espadas num combate cruel. E as faíscas, muito vivas e incandescentes, chegavam até às nuvens. Ao fim de lutarem sem piedade diante dos homens de Connaught durante algum tempo, os dois peixes saíram do lago e, sobre a margem, readquiriram a forma humana, sendo reconhecidos como os dois porqueiros. Fiachria foi então até perto deles e deu-lhes as boas vindas. «Não nos deveis dar as boas vindas», responderam eles, «pois de nada valem as nossas lutas, que, como pudestes ver, são terrivelmente violentas. Continuamos sem saber qual de nós é o melhor e tomaremos agora uma nova forma para pormos à prova a nossa habilidade.» Após terem ficado à conversa durante algum tempo, despediram-se de Fiachria e dos homens de Connaught e partiram cada um para seu lado. Tornaram-se então dois campeões famosos pela sua força e resistência. Um era o campeão de Ochall, que era o rei do Outeiro de Femen, em Munster, e o outro o campeão de Fergria, que era o rei do Outeiro de Nento-sob-as-águas, em Connaught. Todas as campanhas levadas a cabo pelas gentes de Ochall, ficavam

Comment [NR95]: 1.Rio do Munster.

a cargo do seu campeão e o mesmo acontecia em relação às campanhas realizadas pelas gentes de Fergria em Nento-sob-as-águas. A fama dos dois campeões espalhouse rapidamente pela Ilha Verde, sem que alguém soubesse de onde eles tinham vindo. Entrementes, Ochall decidiu deslocar-se com as suas gentes à assembléia que os homens de Connaught estavam a realizar junto ao lago Raich, o cortejo de Ochall era notável: nele seguiam sete vezes vinte carros e sete vezes vinte cavaleiros, e os cavalos, de uma única cor, tinham riscas prateadas sobre o corpo. Várias mulheres desmaiaram ao ver aquele cortejo, pois nunca na vida tinham visto um espectáculo tão esplendoroso. Quando chegaram, os homens de Ochall deixaram Os carros e os cavalos no prado, sem ninguém a vigiá-los. Os homens de Connaught vieram ao seu encontro e deram-lhes as boas vindas, perguntando-lhes depois qual era o motivo da visita. «Nós viemos», respondeu OchalI, para realizar provas convosco «fazer jogos para vermos quem é mais forte de entre nós.» «Assím seja», responderam os homens de Connaught. Durante todo o dia se fizeram jogos no prado e ao anoitecer juntaram-se todos num festim que durou até meio da noite. Mas, no dia seguinte, Ochall disse aos homens de Connaught: «Estamos muito satisfeitos, mas agora eu quero que um de vós lute contra o meu campeão, que se chama Rinn.» «Manda vir o teu campeão.» Ochall chamou Rinn, e este postou-se diante dos homens de Connaught que, ao vê-lo, ficaram de tal modo assustados que não ousaram desafiá-lo, convencendo-se antecipadamente que iriam ser derrotados. Ora, naquele mesmo momento, todos viram um cortej que o se aproximava, vindo do norte. Nele havia três vezes vinte

cavalos atrelados a carros e tres vezes vinte homens que montavam cavalos negros, parecendo que cavalgavam sobre o mar. Estavam todos mal vestidos e mal armados, e os cavalos que montavam, magros e sujos, pareciam arrastar-se penosamente. Perante aquele cenário tão miserável, puseram-se todos a rir, embora o cortejo tenha sido depois muito bem recebido e tenha sido Perguntado àqueles que o compunham o que desejavam. «Eu sou Fergria, do Outeiro de Nento-sob-as-águas», respondeu orgulhosamente o chefe do cortejo. «Vim aqui com as minhas gentes Para competir convosco. Entre os meus companheiros, tenho um campeão tão poderoso que duvido que alguém deseje enfrentá-lo.» «pois bem», responderam os homens de Connaught, «outro grupo antecipou-se ao teu, o de OchalI, do Outeiro de Femen, e trouxe um campeão de tal forma temível que ninguém se atreve a enfrentá-lo.» «Façamos com que lutem um contra o outro», disse Fergita. Ao ver o campeão recém-chegado, que se chamava Faebal, a assembléia ficou aterrorizada, e desmaiaram vinte homens de medo e de emoção. Nenhum dos homens de Connaught teria aceito o desafio, mas Rinn, o campeão de Ochali, ergueu-se imponente e muito seguro de si e foi ao encontro de Faebal, «Eu lutarei contra o teu campeão!», exclamou ele na direção de Fergria. E, com efeito, atiraram-se um ao outro com uma incrível ferocidade, durando o combate três dias e três noites. Tão violenta foi a luta, os ferimentos provocados em ambos não paravam de aumentar, ficando os corpos todos ensanguentados e cheios de nódoas negras. Por fim tomou-se a decisão de os separar, por se recear que pudessem morrer de exaustão. Mas, após um breve repouso, mudaram de aspecto e metamorfoscaram -se em hediondos demônios do rio e depois arremessaram-se um contra o outro dando urros medonhos. E a luta que se

seguiu durou três dias e três noites sem que jamais um ganhasse vantagem ao Outro. Mais uma vez foram se mudando para forma habitual, ou seja, a dois porqueiros Rucht e Fruich. «vejam até onde nos levou a vossa loucura», disseram então. «Quisestes que lutássemos para pôr à prova a nossa valentia, e foi nisto que deu o desafio que nos lançastes. Porque quereis saber qual de nós é o melhor, atraístes grandes males e penas para nós os dois, o que acarretará grandes males para esta ilha no futuro.» «Que quereis dizer com isso agora», perguntaram-lhes então. «Acontece que no futuro uma guerra terrível e sangrenta se abaterá sobre esta ilha, e isto por causa da nossa rivalidade. Como resultado dela muita dor e miseria se espalharão pelos guerreiros desta ilha, sejam eles das tribos de Dana ou dos Filhos de Milé. Melhor teria sido por isso se não tivésseis incentivado a disputa entre nós doís.» «Nesse caso», disseram os homens de Connaught, «o melhor será ficarmos por aqui e considerarmos que tendes igual valor. Porque não pomos um fim às disputas declarando-vos a ambos vencedores?» «Já é demasiado tarde», mais deixaremos de nos bater um contra o responderam eles, «e ja que fostes vós que quisestes que assim fosse» Os dois deixaram a assembléia e desapareceram sem se saber exatamente que rumo tomavam, transformando -se em minhocas e mergulhando nas águas. Um deles foi para a fonte de Uaran Garan, em Cormaught, e dizia chamar-se Tumue a quem o interpelava. O outro foi para o ribeiro do Glass Gruin, em Cuaingé no UIster, e dizia chamar-se Crunniuc. Um dia, o chefe da província do Ulster chamado Maga, filho de Daré, velo banhar-se no Glass Gruind e viu, sobre uma pedra, um pequeno animal colorido que parecia uma minhoca. O animal chamou Maga pelo seu nome, e ele, cheio de medo, quis sair dali imediatamente. «Não te vás»,

disse o animal. «Tens todo o interesse em ficara conversar comigo, pois poderei dar-te alguma informação preciosa «A felicidade está ao teu alcance, Maga, filho de Daré. «o quê?», perguntou Maga, muito espantado. Existe um barco cheio de tesouro, e ele está à tua espera no lugar em que o curso de água se lança no mar. Se não acreditas em mim, vai ver com os teus próprios olhos.» Então Maga foi ao longo do rio até ao estuário, e aí viu um barco que tinha naufragado. Como não viu ninguém a bordo, entrou para dentro dele e descobriu que estava cheio de jóias, de taças de ouro, e de urna grande quantidade de pedras preciosas. Depois de ter ordenado as suas gentes para recolherem o tesouro e para o levarem para casa, Maga voltou rio acima ao encontro do lugar onde vira o pequeno animal. «Pois bem», disse aquele, «acreditas agora na minha palavra>» «Acredito», respondeu Maga. «Mas quem és tu, que tens um aspecto tão esquisito e que me revelas coisas escondidas?» «Já ouviste falar de Rucht e de Friuch, os porqueiros de Connaught e de Munster?» «Já, e sei que a disputa entre eles nunca acabará pois são os dois igualmente habilidosos. «Eu sou um dos porqueiros. Mas que relação têm contigo» embora hoje tenha esta forma e seja conhecido por Crurinitic. Vou agora dizer-te outra coisa, Maga, filho de Daré: amanhã uma das tuas vacas virá beber água ao rio e, ao fazê-lo, erigolir-me-á. Então ela engravidará e dará à luz um vitelo de belo porte e de cor negra que se chamará o Moreno de Cuaingé, Fica também a saber que amanhã, na fonte do Connaught, uma outra minhoca, parecida comigo, também será engolida por uma das vacas que pertencem ao reino Maeve. Também esta ficará grávida e dará à luz um vitelo que, graças aos seus magníficos cornos, se chamará o Belo Cornudo de Aé. Virá por fim o dia em que dois touros provocarão uma guerra terrível. Os dois touros acabarão por se enfrentar nessa guerra, e nenhum sobreviverá a ela. Assim concluirão as

nossas provas no futuro, Maga, filho de Daré, e isto é tudo o que te posso dizer.» Então, o pequeno verme muito colorido desapareceu na profundeza das águas do Glass Gruind, deixando muito pensativo e melancólico Maga, filho de Daré. No mesmo momento, e naquele mesmo dia, a rainha Maeve foi-se refrescar à nascente de Uaran Garan no Connaught. Nas mãos levava um vaso de bronze branco, para lhe a facilitar as abluções. Mergulhou então o vaso na nascente e um pequeno animal que lhe pareceu uma minhoca ficou preso dentro do recipiente. Ela ficou a examiná-lo durante algum tempo, pois tinha uma forma estranha e era multicolor, Ora, de súbito, o animal pôs-se a falar: «Rainha, tu és poderosa e respeitada, mas um dia faltar-te-á qualquer coisa e tu entrarás numa guerra terrível para conseguires obter aquilo que te faltar.» «Que queres tu dizer com isso, verme tão pequeno e insigníficante?», perguntou a rainha, cheia de surpresa. «Na verdade, ao invés de ser um verme insignificante, sou capaz de tomar todas as formas que quero. Mas o destino está feito de tal modo que jamais encontrarei a paz enquanto for vivo. Queres saber quais foram as formas que tomei desde que os homens da Irlanda me enfeitiçaram?» «Fala, pequeno verme, e diz-me o que sabes.» Ele contou-lhe então que a razão da disputa com o seu amigo, as metamorfoses por que ambos tinham passado e as lutas intermináveis que tinham travado sem nunca se conseguirem livrar delas. «Mas», disse Maeve, «quando é que tu e o teu camarada conseguirão descansar?» «o desfecho está próximo, e tu terás nele uma palavra a dizer, ó Maeve. Fica a saber que, amanhã, uma das tuas vacas virá matar a sede a esta nascente e, ao beber água, engolir-me-á. Ela ficará grávida e dará à luz um jovem tour o dotado de uns cornos tão magníficos que se chamará o

Belo Cornudo de Aé. E fica também a saber que no Ulster, no Glass Gruind, se encontra neste momento uma minhoca em tudo semelhante a mim. Amanhã ela será engolida por uma das vacas de Maga, filho de Daré, que parirá um touro negro que se chamará o Moreno de Cuaingé. E tu, rainha Maeve, desejarás esse touro, porque ele será tão soberbo e poderoso como o Belo Cornudo de Aé. E nenhum touro da Irlanda se atreverá a mugir depois de o Moreno de Cuaigné e o Belo Cornudo de Aé o terem feito.» Depois de pronunciar estas palavras, o pequeno verme de múltiplas cores saltou para fora do vaso e desapareceu nas profundezas da nascente. E a rainha Maeve voltou muito pensativa para a fortaleza de Cruachan. Ao anoitecer daquele mesmo dia, Ailill e Maeve encontravam-se em casa, no interior da fortaleza, com todos os seus parentes, a cozerem a comida no caldeirão. E tendo o rei e os seus guerreiros feito na véspera dois prisioneiros, disse ele: «Aquele que for capaz de ir pôr o rebento de um vime à volta do pé de um dos cativos terá uma recompensa à sua escolha.» Escura como breu estava aquela noite. Todos os homens quiseram vencer o desafio, mas todos logo voltaram sem terem conseguido pôr o rebento de vime à volta do pé do cativo, na casa das torturas, pois tinham muito medo dos fantasmas que rodeavam a fortaleza. Então o jovem Néra ergueu-se e disse: «Pois bem, irei eu, e vencerei o desafio que nos lanças.» «Se assim for», disse Allill, «terás a minha espada de punho de ouro.» Néra envergou então uma sólida armadura e dirigiu para -se a casa onde estavam os prisioneiros. A armadura, contudo, caiu-lhe três vezes, dizendo-lhe um dos prisioneiros: «Tens de por um prego na armadura, ou jamais ela deixará de cair no chão.» Néra pôs então um prego na armadura e

Comment [NR96]: 1 Segundo a narrativa Os dois porqueiros, contida no Livre Leinster e no manuscrito Egerton 1782, editado por Windisla, «Irishe Texte», vol. 111. Tradução francesa de Arbois de Jubainville em Les druides e les Dietix à,forme Xanimaux. Outra tradução francesa de Ch.-J. Guyonvarc¶h em Textes rnythologiques irlandais, Rermes, 198o. Esta narrativa serve, como muitas outras, de prólogo à célebre epopéia de La R=ia de CuaIngé, que põe à bulha os homens do 1JIster com os outros homens da Irlanda por causa da posse do Moreno de CuaIngé.

conseguiu segurá-la. «Es corajoso», disse o cativo. «Sem dúvida», respondeu Néra, «e isso permitir-me-á obter como prêmio a espada de punho de ouro do rei Ailil.» «Ouve», disse ainda o cativo, «já que és tão corajoso, põe-me às costas para que eu possa ir beber água contigo. Eu estava cheio de sede quando para aqui me trouxeram.» «Sobe para as minhas costas», respondeu Néra. «Mas onde é que te hei-de levar-te» «A casa mais próxima.» Ao aproximarem-se da casa mais próxima, viram-na de súbito ser cercada por uma corrente de fogo. «Não há nada de bom para nós nesta casa», disse o cativo, «pois onde existe fogo falta a discrição. Vamos à outra que está mais perto de nós.» Mas quando chegaram ao pé da casa mais próxima viram, na ser cercada por um lago. «Não vamos a essa casa», disse o cativo. «A banheira que nela existe só deve servir para tomar banho, para se refrescar o corpo ou para se lavar a louça depois de uma noite de sono. Vamos a outra.» Entraram então noutra e o cativo afirmou que aí havia com que saciar a sede, pousando-o Néra no chão. Naquele lugar havia, com efeito, banheiras para se refrescar o corpo e para se tomar banho, mas não havia torneiras. No meio da sala encontrava-se também uma cuba com lixívia. Depois de ter bebido um gole de cada um dos recipientes para a água, o cativo soprou a última gota sobre os habitantes da casa, que morreram todos, Depois disso, Néra levou o prisioneiro para a casa das torturas. Mas Néra viu então um cenário surpreendente: no lugar da fortaleza, estava a colina queimada à sua frente e, entre um montão de cabeças metidas em estacas, reconheceu as cabeças de Ailill, de Maeve de todos os seus familiares.

Entretanto, como uma multidão de guerreiros se confundia com a sombra, ele seguiu-os até penetrar no interior do outeiro. Uma vez aí chegados, todos aqueles homens foram mostrar ao rei as cabeças que levavam consigo. Néra, por seu lado, deixou-se ficar prudentemente para trás, ocultando-se. «o que é que fizestes ao homem que vos acompanhava?», perguntou-lhes o rei. «Não lhe fizemos nada, pois não estava com os outros». «Trazei-o à minha presença para que lhe possa falar.» Trouxeram Néra à presença do rei, que lhe perguntou: «Como vieste até aqui?» «Não o sei», respondeu Néra. «Eu segui os guerreiros que assaltaram e incendiaram a fortaleza.» «Está bem», disse o rei, acrescentando: «Vai àquela casa onde te espera uma mulher. Diz-lhe que eu é que te mandei ao seu encontro e traz-me todos os dias um feixe de lenha.» E assim foi. A mulher deu-lhe as boas vindas, e ele dormiu com ela naquela noite. E todos os dias, desde então, ele levava um feixe de lenha à casa do rei. Mas todos os dias ele via um cego que, carregando às costas um coxo, saía da casa do rei e se dirigia para um muro em frente da casa. «É aqui?», perguntava o cego. «É sim», respondia o coxo, «Agora vamo-nos embora.» Muito espantado com aquela estranha cena, Néra acabou por perguntar à mulher o que sabia ela àquele respeito. «o coxo e o cego vão observar a coroa que se encontra escondida no muro», respondeu ela. «A coroa é um diadema de ouro que o rei põe durante as festas, pois é mágica e dá poder a quem a ostenta. Esconderam -na no muro para que ninguém, a não ser o rei, lhe possa tocar.» «Mas porque e que aqueles dois vão juntos assegurar-se de que a coroa está sempre lá?», perguntou Néra. «A explicação é simples: como um é cego e não vê nada, e o outro é coxo e não consegue andar, o rei fica certo de que a coroa não será furtada.» «Uma coisa ainda me intriga», continuou Néra. «Gostava de saber o que se passou no dia

em que entrei no outeiro. Pude observar que a fortaleza de Cruachan tinha sido destruída e incendiada, e que as gentes do teu povo mataram Ailill e Maeve, assim como todos os que lhe são próximos.» «Isso não é exato», respondeu a mulher. «Foi um exército de sombras que foi à fortaleza. Mas o que viste acabará por acontecer se não puseres os teus de sobreaviso.» «Mas como?» «Levanta -te e vai ter com eles. Eles estão sempre de volta do caldeirão, cujo conteúdo ainda não foi comido. Diz-lhes para se manterem em guarda, na próxima noite de Samain, pois os homens do outeiro deverão atacar nessa altura a fortaleza de Cruachan e todos os que aí se encontrarem. O que viste ainda não aconteceu. Aconselha também Ailill e Maeve a virem atacar o outeiro na véspera de Samain, pois há muito tempo foi profetizado que este outeiro seria destruído por Ailill e Maeve, os quais se apoderariam da coroa do rei Bnun. Esta coroa conceder-lhes-á a supremacia sobre todos os outros povos da Irlanda.» «Mas eles pensarão que estou a inventar histórias se lhes disser que vim a este outeiro», disse Néra. «Leva contigo frutos de verão», disse a mulher. «Fica também a saber que estou grávida de ti e que darei à luz um rapaz. Quando o teu povo vier destruir o outeiro, envia-me uma mensagem a avisar-me, para que eu possa refugiar-me num abrigo, com o teu gado. E tu próprio poderás vir aqui sempre que quiseres. Agora parte, vai ter com os teus.» Depois de colher áleas-rosas, alho selvagem e morangos, Néra dirigiu-se para a fortaleza, tendo a impressão de que permanecera três dias no outeiro. Ora, ao chegar a casa encontrou aí Ailiii e Maeve, assim como os seus familiares, à volta do caldeirão. «Cumpriste, o que te pedi?», perguntou Ailill. «Cumpri», respondeu Néra, «mas vivi aventuras muito estranhas. Fui a um belo país onde havia grandes tesouros, pedras preciosas, ricos ornamentos, comidas muito saborosas e bebidas inebriantes. Mas os habitantes desse pais na proxima noite de Samain vêm

matar-vos e incendiar a fortaleza, a não ser que vós mesmos ides na véspera destruir o outeiro.» «Nesse caso», disse Ailill, «nós iremos já sem falta atacá-los antes que eles nos venham atacar. Ainda bem que fizeste esta viagem, ó Néra. Como recompensa pelo que fizeste ganharás a espada de punho de ouro.» Três dias antes do Samain, Ailill avisou Néra de que ele deveria ir então proteger a mulher e os seus bens. Néra voltou então ao outeiro, e a mulher deu-lhe as boas vindas. «Vai agora a casa do rei», disse-lhe ela, «pois eu fui lá todos os dias levar um feixe de lenha em teu lugar, fingindo que estavas doente. E segura nos braços o teu filho.» Néra tomou o filho nos braços, e depois foi levar um feixe de lenha à casa do rei, como se nada tivesse aconteci o. d Ailill e Maeve reuniram os homens de Connaught e foram atacar o outeiro. Depois de o destruírem, levaram consigo todas as riquezas que nele existiam. E foi assim que Ailill e Maeve obtiveram a coroa de Briun que lhes conferiu a supremacia sobre todos os outros povos da Irlanda. Néra, por seu lado, voltou para o outeiro com a sua mulher, o filho e o gado, ficando aí a viver desde então. Naquela mesma altura, em Munster, reinava um rei chamado Failbe e dois filhos, Rib e Ecca. Tendo tido o desgosto de Failbé que tinha de perder a mulher, Failbé desposara uma Jovem de grande beleza que se chamava EbIlu. Ora, esta EbIlu andava a deitar o olho ao filho mais novo, Ecca, por quem estava loucamente apaixonada. Ela enchia-o de atenções e manifestava por ele tanto interesse que o rapaz acabou por perceber que aquela afeição, longe de ser a que uma mãe tem por um filho, era antes filha do desejo. Ecca passou então evitar encontrar-se com Ebliu, pois não

Comment [NR97]: 1. Segundo a narrativa Echira Nerai (as Aventuras de Néra), conservada no manuscrito Egerton 1782, e publicada por Thurneysen em Die Irische Helden Und Konigssage. Versão francesa de i, Markale em Les Cahiers d¶Histoire el de Folklore, vol. VI, Análise e resumo em J. Markale, A Epopéia celta da Irlanda, nova ed., Paris, 1993.

queria provocar qualquer transtorno ao pai. Muitas vezes ia a caça com os jovens da sua idade e chegava o mais tarde possível à casa real, mas isso de nada lhe valia, pois Ebliu fazia-lhe esperas e arranjava sempre maneira de lhe dar a entender o quanto estava apaixonada por ele. Assim, tornou-se inevitável que Ecca se tenha deixado seduzir por Ebliu e se tenha deitado no seu leito de amor. Durante algum tempo a relação passou despercebida a toda a gente. Mas, um dia, entrando o rei Failbé de surpresa no quarto, viu a mulher e o filho juntos na cama. Foi tão grande a sua mágoa e a sua dor que pensou matar os dois logo ali, mas acabou por se acalmar e ordenou -lhes que abandonassem Munster imediatamente. Deste modo Ecca, filho de Failbé, deixou o país do pai na companhia de Ebliu, com toda a criadagem que o servia. E o seu irmão mais velho, Rib, que não se dava bem com o rei Failbé, foi atrás dele. O grupo de exilados dirigiu-se para norte, esperando encontrar aí um lugar aprazível para se estabelecer. Mas os druidas que os acompanhavam disseram-lhes que não era conveniente que os dois irmãos ficassem a morar na mesma residência. Decidiram por isso separar-se e, enquanto Ecca continuou o seu caminho para norte, Rib e as suas gentes dirigiramse para leste. Depois de muito errarem, descobriram um belo lugar na planície de Arbthenn. «Eis o lugar que nos interessa», disse Rib aos seus companheiros. «Esta bela planície rica e verdejante será excelente para a criação de gado, terá sempre alimento em abundância. E nós poderemos saciar a sede à nossa vontade nesta fonte que brota do solo em direção ao ceu.» Estabeleceramse então na planície de Arbthenn,

decididos a residir aí para sempre. Mas, naquela mesma noite, quando iam buscar água à fonte, esta transbordou bruscamente e inundou-os a todos. E foi a partir de então que passou a haver um lago no meio da planície de Arbthenn. Por seu lado, Ecca, Ebliu e todas as suas gentes continuaram a dirígir-se para norte, mas não encontraram nenhum lugar onde se estabelecer. Andaram assim durante vários dias, parando apenas algumas horas à noite para descansarem os membros fatigados e cuidar dos cavalos esgotados por puxarem carros muito pesados, Chegados por fim ao vale da Boyne, encontraram-se num prado que ficava na vertente de uma colina onde se situava o outeiro de Brug, que tinha um brilho muito incandescente ao pôr do-sol. «Estamos muito cansados e Ja não conseguimos andar», disse Ecca. «Fiquemos aqui, pois este lugar é fresco e aprazível, e poderemos montar as nossas tendas no sopé da colina, abrigados do vento.» Começaram a instalar-se mas, no alto do outeiro, Angus, filho de Dagda, tinha estado a vê-los e ficara furioso por os intrusos estarem a instalar-se nos seus domínios sem sequer se terem dado ao trabalho de lhe pedir autorização. Assim, deixando a sua casa, ele veio ao encontro de Ecca que, após lhe ter censurado a sua indelicadeza, intimou-o a partir imediatamente com as suas gentes, pois não estava disposto a permitir que estragassem aqueles pastos puros que cobriam a encosta. Feita a intimação, voltou pa Brug. ra Como caía a noite, Ecca decidiu adiar a partida, preferindo esperar pela manhã para retomar a viagem. Montaram as tendas rapidamente e, como todos estavam fatigados, dormiram profundamente. Ainda estavam mergulhados no sono quando Angus

apareceu no meio deles, mais furioso do que nunca. Lançou um encantamento sobre Os cavalos de Ecca e de Ebliu, e todos os cavalos morreram imediatamente. «Procedeste muito mal, ó filho de Dagda», disse-lhe Ecca. «Nós não tencionávamos prejudicar-te e estávamos apenas a descansar até de manhã, Pois todos nós estamos exaustos.» «Eu não vos dei permissão para que ficásseis», gritou Mac Oc. «Sois vós os culpados por eu ter lançado um encantamento sobre os vossos cavalos para os matar. Se tendes algo a lamentar, é a vossa presunção.» «Tu procedes mal ao nos repreenderes tão vilmente!», replicou Ecca com veemência. «Além de não respeitares os deveres de hospitalidade, privaste-nos dos nossos cavalos. Quem é que agora nos puxara os carros com tudo o que têm dentro?» «Vós mesmos puxarei os carros!», respondeu Angus. Então eles começaram a arrumar as tendas e quando tudo ficou pronto, puseram-se corajosamente a puxar os carros. Mas como o terreno não era plano, tiveram uma grande dificuldade para os fazer avançar, Angus observava-os a partir da sua casa, com um ar irónico, e disposto a dar -lhes outra reprimenda se não deixassem a sua terra. Mas depois, vendo-os fazer um esforço tão desmedido, teve pena deles, desceu a colina e foi ao seu encontro. «Esperai!», gritou ele. «Vou dar-vos um cavalo para vos compensar dos que matei. É um cavalo forte e poderoso que vos permitirá puxar todos os carros ao mesmo tempo.» Angus foi a Brug e voltou de lá com uma magnífico cavalo cínzento, de pêlos brilhantes, a crina prateada e as patas robustas e ágeis. Trazia o belo animal arreios de prata guarnecidos com fivelas em ouro onde estavam incrustadas pedras preciosas de todas as cores. «Cedo-te este cavalo sem pedir nada em troca», disse ele a Ecca, «mas devo prevenir-te de uma coisa. Este cavalo não pertence a nenhuma raça que tu conheças e terás de ter o cuidado de

o não deixar nunca parar, seja dia ou noite. Não o deixes nunca descansar, pois, se o fizeres, isso causará uma grande catástrofe, a qual te será fatal a ti e aos teus.» Os exilados, sem perda de tempo, retomaram a viagem e Viram maravilhados que o cavalo, na verdade, puxava sozinho todos os carros sem fazer um grande esforço. Entraram no Ulster e daí a pouco avistaram uma planície muito verdejante rodeada de colinas, a planície de Neagh. «Eis um belo lugar para nos estabelecermos», disse Ecca. «Aqui existe erva em grande abundância para criarmos o nosso gado, e o terreno é tão plano que não teremos dificuldade em construir aqui as nossas casas.» Descarregaram os carros, mas, absorvidos pela tarefa, esqueceram-se de vigiar o cavalo. No momento em que este parou uma fonte jorrou então do solo, lançando para o ar jactos de água que se projectavam torrencialmente nos céus. Ecca lembrou-se então da advertência de Angus e, muito perturbado com o fenómeno que provocara, mandou construir sem demora, com pedras de grandes dimensões, uma casa à volta da fonte com uma porta que vedava o caminho às águas torrenciais. Deste modo, a água deixou de correr e de inundar os terrenos vízinhos, e Ecca decidiu edificar a sua própria casa perto da fonte para melhor a vigiar. Todos puseram mãos à obra e, Ecca encarregou uma criada da sua confiança de vigiar a fonte, ordenando-lhe que tivesse sempre a porta rigorosamente fechada, excepto quando as gentes da fortaleza fossem buscar água à fonte. Construiu-se assim uma cidade ao redor da fortaleza de Ecca e este, com as suas gentes, dedicaram-se à criação de gado que ia pastar na erva abundante da planície onde também se cultivava o trigo. Ebliu deu a E cca duas filhas que se chamaram Ariu e Libane. Numerosos chefes do

UIster vieram visitar Ecca e prestaram-lhe homenagem, tendo ele tanto sucesso que ficou soberano de metade da província. E todos elogiavam as excelentes qualidades de Ecca, filho de Failbé. Quando chegou à idade de casar, Ariu desposou um poeta de nome Curnan, que cheio de boa vontade percorria o país de lés a lés recitando ou cantando profecias que pareciam desprovidas de qualquer sentido: por esse motivo lhe chamaram Curnan, o Simples. Curnan repetia constantemente que um dia um lago surgiria por causa da fonte, sendo por isso urgente fazer barcos. «Vejo esta planície cheia de morte e destruição», dizia ele. «Vejo jactos de água a saírem da terra, jactos impetuosos e torrenciais. Vejo o nosso chefe e todos os seus hóspedes engolidos pela fúria das águas, Também vejo Ariu, a minha amada, levada pelas vagas. Oh!, nem sequer a posso salvar. Todos morrerão nesta planície, à excepção de Libane e de eu próprio. Que triste destino... E vejo Libane a leste e a oeste: ela nadará muito, muito tempo no vasto oceano, passando perto de costas misteriosas e de ilhotas obscuras, e perto de grutas profundas imersas nas aguas. Esta cidade desaparecerá, e só eu ficarei para chorar os que partiram ... !» Era este o lamento que Cuman o Simples constantemente entoava àqueles com que se cruzava, mas ninguem o queria ouvir e todos lhe voltavam as costas quando o viam aproximar-se. Ora, um dia, a mulher que estava encarregue de vigiar a fonte esqueceu-se de fechar a porta. Logo a água saiu da casa de pedra e invadiu a planície, formando um grande lago que se chama Lough. Naquele tempo havia um jovem herói chamado Fraech, que era o homem mais belo de toda a Irlanda e Bretanha. Tinha por pai Idach de Connaught e por mãe Befinn, irmã de Boann, das tribos de Dana. Befinn oferecera-lhe dez vacas

feéricas, brancas e com orelhas vermelhas, e que produziam leite em grande abundância. Na casa onde vivia encontravam-se cinquenta filhos de reis, todos da mesma idade, com a mesma estatura e o mesmo aspecto que ele, e encontravam-se também três harpistas muito talentosos. A fortuna de Fraech era imensa, e a sua reputação estendia-se muito para além do Connaught. Acontece que Finnabair, filha de Ailill e de Maeve, que reinavam então naquela província, de tanto ouvir falar nas excelentes qualidades de Fraech, se apaixonou por ele sem nunca o ter visto. Tendo chegado aos ouvidos de Fraech as pretensões da jovem em relação à sua pessoa, ele decidiu então ir conhecê-la. A este respeito falou com as suas gentes, que lhe deram todo o apoio. «Mas», acrescentaram elas, «antes de ires para casa de Ailill e de Maeve, vai falar com a irmã da tua mãe e pede-lhe para te dar presentes feéricos.» Fraech foi então à residência desta última, que se chamava Boann e o recebeu com benevolência, dando-lhe o que ele lhe pediu: cinquenta capas, azuis como as costas de um escaravelho, que estavam ornadas com broches vermelhos, cinquenta túnicas brancas com adornos de animais em ouro e prata, cinquenta broquéis de prata com orlas vermelhas salientes, pedras preciosas que brilhavam à noite como raios de sol, e cinquenta espadas de punho de ouro. Da casa de Boann, ele trouxe também cinquenta cavalos que tinham como pendentes do pescoço sinetas de ouro, e exibiam caparazões de púrpura, arreios de ouro e de prata decorados com figuras de animais e munidos de cinquenta chicotes em latão branco que tinham na ponta colchetes de ouro; trouxe ainda sete cães de caça equipados com correntes prateadas, sete tocadores de trompa de cabelos longos dourados, vestidos com túnicas multicolores e com mantos brilhantes, e seguiam o grupo três druidas coroados com díademas de prata revestidos a

Comment [NR98]: 1. Outra versão da mesma narrativa atribui a aventura não a Ecca mas ao seu irmão Rib. É Mider, o pai adoptivo de Angus, que lhe dá o cavalo, e lhe faz a mesma advertência. Mas o cavalo põe-se a urinar tão abundantemente que Rib se vê obrigado a fechá-lo numa casa. Trinta anos mais tarde a urina transborda e inunda todo o país. (Revue celtique, tomo xv, segundo o manuscrito de Rermes dos Dindsenchas, série de notas mitológicas sobre os lugares da Irlanda). Neagli. Ecca, filho de FalIbé, EbIlu, toda a família e todas as suas gentes foram vítimas das águas furiosas, salvando-se apenas a sua filha Libane e o seu genro Curnan o Simples.´ Mesmo tendo sido arrastada pelas vagas, Libane conseguiu sobreviver e desceu com o seu cão às profundezas do lago onde viveu um ano inteiro, numa gruta. Mas, ao fim de um ano, ela cansou-se de estar presa e exprimiu o desejo de ser um salmão para poder nadar nas águas profundas dos estuários e poder percorrer com os seus semelhantes o mar claro e verde. Com efeito, mal ela exprimira o seu desejo, este fora satisfeito, embora o seu rosto e os seus seios tenham mantido o aspecto dos duma donzela. (2) Libane errou assim durante trezentos anos por todos os lagos e todos os rios da Irlanda, e percorreu o mar profundo e encapelado junto à costa. Multas vezes ela voltava ao lago Neagh e, aí, entoava um lamento em memória de seu pai Ecca e de toda a sua família. Depois, voltava a partir pelos estuários e continuava as suas longas incursões por toda a Irlanda. Ora, certo dia, estando ela num rio de águas pouco profundas, foi pescada pelo santo homem Congal que, professando a fé de Cristo, vivia num eremitério. Congal ficou surpreendido e maravilhado ao ver aquele ser estranho e belo, e Líbane contou-lhe os acontecimentos que testemunhara. Quando Congal lhe perguntou se queria receber o baptismo, ela aceitou humildemente e pediu a Deus para a acolher na paz eterna. Então ele baptizou-a e no mesmo instante morreu Libane, filha de Ecca, que veio a ser Muirgen, a «Filha do Mar»Y1 ... [7]

ouro. Quando se aproximavam de Cruachan onde residiam Ailill e Maeve, a sentinela que estava na torre da fortaleza viu-os desembocar na planície e foi anunciar ao rei e à rainha, aos gritos: «Vem ao nosso encontro uma companhia como nunca se viu desde que reinais sobre Connaught. Juro pelo deus protector da minha tribo que jamais se viu companhia tão brilhante e rica: vêm com tal ligeireza e com tal aparato que nunca vi nada igual! Quanto aos malabarismos e às habilidades que exibe o jovem que se encontra no meio da companhia, ultrapassam tudo o que se possa imaginar: ele atira o dardo para a frente e, antes que a arma atinja o solo, sete cães com correntes de prata seguram-na em pleno ar.» Ao ouvirem tão grande elogio, as gentes que se encontravam na fortaleza de Cruachan precipitaram-se para as muralhas para poderem ver o grupo que se aproximava, e foi tal a pressa e a sofreguidão que várias pessoas ficaram esmagadas, tendo morrido dezesseis. Depois, o espectáculo que todos viram foi impressionante: os membros do grupo deixaram os cavalos soltos pelo prado e libertaram os caes que, começando a correr velozmente, num instante, às vistas das muralhas de Cruachan, caçaram sete gamos e sete raposas. Depois, os cães partiram para um pântano e trouxeram de á sete l lontras que depositaram à porta das muralhas. Então, os membros do grupo sentaram-se na erva fresca e ficaram à espera. Foram da parte de Ailill e de Maeve perguntar-lhes quem eram e de onde vinham, e responderam que Fraech, filho de Idach, desejava visitá-los. Disso foram então avisados o rei e a rainha, dizendo Aílill: «Sejam bem vindos, com todo o vosso séquito!»

Fizeram-nos entrar e foi-lhes dada uma casa para repousarem. Nela encontraram, da lareira ao muro, sete leitos dourados com um frontão de bronze e divisórias de teixo vermelho à volta dos quaís corriam cintas de bronze. Sete cintas de cobre partiam também, do caldeirão até ao tecto da casa. Esta, feita de abeto, era coberta com ripas e tinha dezasseis janelas com caixilhos em cobre. Um caixilho de prata, e a seguir um frontão, uniam as travessas da casa e cercavam-na de uma porta à outra. Após dependurarem as armas nas paredes da casa, Fraech e os seus companheiros começaram a retirar das arcas pedras preciosas. E quando Ailill e Maeve vieram cumprimentá-los e dar-lhes as boas vindas, falaram de diversos assuntos durante bastante tempo, dizendo-lhes depois a rainha: «É meu desejo jogar xadrez com este jovem.» «Pois bem, se o desejas, que se faça a tua vontade», concordou o rei, «mas entretanto seria bom que se fosse preparando uma refeição para os nossos hóspedes.» Trouxeram um jogo de xadrez. O tabuleiro era esplêndido, todo em bronze branco, com os cantos em ouro, e as peças eram de ouro e de prata. Maeve começou a jogar com Fraech e, enquanto decorria a partída, as gentes da casa coziam os alimentos. «Diz agora aos teus harpistas para nos tocarem qualquer coisa», disse Ailill a Fraech, e este ordenou aos harpistas: «Começai a tocar.» As harpas estavam guardadas em sacos de pele de lontra, debruados a couro escarlate com ouro e prata incrustados. As harpas eram de ouro, de prata e de bronze branco tendo em relevo as figuras de pássaros e de cães. Quando se tocava nas cordas, as figuras corriam às voltas ao redor dos homens. Os harpistas começaram a beliscar as cordas, e provocaram um tal sofrimento e uma tristeza tão grande

Comment [NR99]: 1. A lareira tem fratIcêsfoyc r - N. T.1 encontra-se no centro da sala, saindo o fumo por uma abertura feita no tecto.

que morreram doze homens da casa de Ailill e de Maeve. Estes músicos, excelentes melodistas, eram irmãos, e chamavam-se Lamuriento, Risonho e Adorrnecedor. Eram assim chamados de acordo com as diferentes melodias que tocara a harpa de Dagda em honra deles. Com efeito, aquela, quando do nascimento deles, tinha provocado tristeza quando das primeiras dores da mae, provocara sorrisos e regozijo com o parto dos dois primeiros filhos, mas induzira ao sono quando do nascimento do terceiro, pois o trabalho de parto foi muito penoso e a mãe adormeceu. Quando esta acordou, quis comemorar o que sentira durante os seus partos. Quanto a Maeve e a Fraech, jogaram xadrez durante três dias e três noites, sem sequer darem pela escuridão, pois das pedras preciosas desprendia-se uma luz muito suave. Por fim, Fraech levantou-se. «Basta», disse ele, «que já ganhei esta partida, seja qual for a jogada que fizeres a seguir. E não fiques aborrecida se te pedir para deixarmos de jogar.» «Desde que te encontras nesta casa», respondeu Maeve, «nunca os dias me pareceram tão compridos!» «Não admira», replicou Fraech, «estamos a jogar há três dias e três noites! » Maeve ergueu-se, envergonhada por ter deixado os jovens sem comer, mas disseram-lhe que eles tinham sido servidos com grande fartura. Então, ela pediu que lhes dessem ainda mais comidas e bebidas, para que se saciassem. Depois, Aílill e ela chamaram Fraech à parte e perguntaram-lhe qual era o motivo que o tinha levado a Cruachan. «Eu queria visitar-vos», respondeu Fraech. «E uma grande honra para nós», disse Ailill, «e estamos muito felizes por te conhecermos. Fica a saber que gostamos muito de te ter aqui conosco.» «Nesse caso ficarei convosco uma semana», disse Fraech.

Assim, durante uma semana ele ficou alojado na fortaleza de Cruachan. Os seus companheiros iam caçar todos os dias e traziam caça em abundância, vindo visitá-los as gentes de Connauglit. Mas Fraech estava muito aborrecido por não ter encontrado Finnabair, pois viajara por causa dela, estranhando que Ailill e Maeve não lha tivessem apresentado. Ora, uma manhã, Fraech levantara-se logo aos primeiros raios de sol e, quando foi ao pátio lavar-se na fonte, viu Finnabair tomar a mesma direção na companhia de uma criada. Imediatamente ele tomou-lhe as mãos e disse-lhe: «Vem falar comigo, pois se aqui me encontro é por tua causa.» «Eu sei», respondeu ela, «e ficaria muito feliz na tua companhia, mas isso não é possível. O meu pai e a minha mãe pediram-me que me escondesse de ti» «Aceitas fugir comigo?», perguntou Fraech. «Isso seria uma atitude insensata, pois sou filha de um rei e de uma rainha. Quero no entanto que saibas que Isso não significa desprezo por ti, pois a tua riqueza e a tua reputação são suficientes para que a minha família consentisse em obteres a minha mão. Além disso, era contigo que eu preferia ficar, pois amo -te desde que comecei a ouvir falar de ti. Toma este anel, que servirá para nos manter unidos. A minha mãe deu-me para o guardar, e se perguntar porque não o trago comigo direi que o perdi.» Separaram-se logo em seguida, mas Ailill e Maeve foram prevenidos de que a sua filha se encontrara com Fraech. «Receio muito», disse o rei, «que a nossa filha fuja com esse jovem.» «Poderíamos dar--lhe a nossa filha com todas as honras na condição de ele aceitar dar um bom dote e se se comprometer a acompanhar-nos quando tivermos de fazer uma expedição guerreira.» Naquele mesmo momento, Fraech entrou em casa. «A vossa conversa é secreta¶?», perguntou ele. «Se o fosse, não poderias nela participar», respondeu Allifi. «Gostaríamos que nos

dissesses o que desejas.» «Nesse caso, serei lesto a dizervos o que desejo», disse Fraech, que perguntou em seguida: «Quereis dar-me a mão da vossa filha» Ailill e Maeve entreolharam-se muito sérios. «Nós dar-teernos a sua mão», afirmou Ailill, «desde que aceites dar nos o dote que te pedir.» «o que desejas então?» «Três vintenas de cavalos de cor acinzentada, com freios em ouro e prata, doze vacas leiteiras com capacidade para darem leite, cada uma delas, a cinquenta pessoas, e tendo cada uma delas um veado branco com orelhas encarnadas. Peço-te também que jures que nos acompanharás sempre que de ti necessitarmos numa expedição guerreira. Caso aceites as nossas condições, a nossa filha será tua.» «Pela minha espada e pelas minhas arrnas!», exclamou Fraech, «nem mesmoa Maeve de Cruachan eu darei um tal dote!» E, irado, deixou-os e abandonou a casa. Ailill e Maeve retomaram a conversa. «A situação agravouse», disse Ailill, «pois agora ele é capaz de levar a nossa filha à força, o que nos encherá de vergonha e de desonra perante os reis e os nobres da Irlanda. A meu ver, mais vale que acabemos com ele antes que nos deixe ficar mal.» «Isso não seria justo», disse Maeve, «pois ele é nosso hóspede, e temos o dever de lhe prestar assistência e de o proteger. Matá-lo só serviria para nos desonrar.» «Eu agirei de tal forma», disse Ailili, «que evitarei que a desonra caia sobre nós.» Os dois imediatamente saíram da fortaleza e viram os cães na caça. Estava-se a meio da tarde e os caçadores dirigiam-se para o lago para se refrescarem, seguindo-os Affill e Maeve. «Disseram-me», disse Ailill a Fraech, «que és um nadador excelente. Mergulha no lago para que possamos admirar o teu talento.» «Como é o lago?», perguntou Fraech. «E igual aos outros», respondeu Ailifi. «Não tem nenhuns perigos e nele é frequente tomarem-se

banhos.» Deixando o cinto na margem. Fraech despiu-se e mergulhou nas águas Ailill aproximou-se, baixou-se, pegou no cinto, abriu a bolsa que estava dele pendente, onde descobriu o anel de Finnabair, e reconhecendo-o imediatamente, atirou-o com um gesto brusco para um lugar distante do lago. Entretanto, Fraech, sem nunca deixar de nadar, estivera sempre, a observar aquela cena. Seguiu o anel com os olhos e viu um salmão saltar para fora da água e engoli- lo, Sem perder tempo, precipitou-Se para o peixe, agarrou nele, transportou-o para terra e pô-lo num lugar escondido da margem, no meio dum canavial. Depois, quando se preparava para sair do lago, gritou -lhe AiIiII: «Um instante! Vês aquela sorveira, naquele lado do lago? Acho muito bonitas as suas bagas. Antes de vires ter conosco, vai lá e traz-me um ramo.» Fraech nadou até ao outro lado do lago, chegou perto da sorveira, arrancou-lhe um ramo, e transportando-a sobre um ombro, nadou de volta ao encontro do rei. Enquanto isto acontecia, Finnabair aproximara-se do lago e estivera a apreciar os movimentos muito belos e ágeis de Fraech a nadar: nunca ela vira um corpo tão branco, com uma cabeleira preta tão harmoniosa, e um rosto tão delicado, com os olhos azuis e os lábios bem vermelhos. O coração acelerou-se-lhe e pôs-se a sonhar. Entretanto, Fraech aproximou-se da margem e arremessou o ramo da sorveira aos pés de Ailifi. «Estas bagas são magníficas!», gritou ele. «Nunca eu vi bagas iguais a estas. Peço-te, Fraech, que nos vás buscar outro ramo.» Fraech deu meia volta e começou a atravessar o lago. Mas, quando chegou a meio, sentiu que, vindo do fundo, um monstro o estava a atacar. «Atirem-me a espada!», bramiu ele, «Estou a ser atacado por um monstro!»

Mas, com medo de Ailill e de Maeve, ninguém se atreveu a atirar-lhe uma arma. Então, Finnabair despiu-se num abrir e fechar de olhos a atirou-se às águas com a espada de Fraech. Ao ver a filha ter aquela atitude, Ailill disparou contra ela um dardo de cinco pontas. O dardo atravessou as duas tranças da moça, mas Fraech agarrou-o com a mão direita e voltou-o contra Ailill com uma tal precisão que a seta atravessou o vestido púrpura do rei. Finnabair estendeu então a espada para Fraech, que exclamou: «ó Finnabair, tu és mesmo a branca aparição´¶ que me vem salvar!» De posse da espada, Fraech cortou logo a cabeça do monstro e arremessou-a para a margem. Estava no entanto exausto, com o corpo branco cheio de feridas, ordenando Ailill que o transportassem para a fortaleza. «Curem-no!», gritou ele, «e preparem-lhe um banho para que possa lavar as feridas. Dêem-lhe também um caldo para que se possa recompor.» Disse depois para Maeve: «Eu não deveria ter procedido daquela maneira, pois o rapaz não tem culpa nenhuma e, além disso, ele demonstrou muita coragem. Estou arrependido de ter procedido tão mal. Quanto à nossa filha, traiu-nos levandolhe a espada. Os seus lábios calar-se-ão antes de amanhã à noite, pois já não é possível tolerar tanta audácia e presunção.» Entraram depois na fortaleza. Fraech estava a tomar banho, havendo mulheres à sua volta a esfregarem -no e a lavarem-lhe a cabeça. Deram-lhe a beber um caldo, depois retiraram-no da banheira e deitaram-no numa boa cama. Naquele mesmo instante, ouviu-se um grande lamento que se espalhou por toda a Cruachan, e viu-se de seguida no prado três cinquentenas de mulheres vestidas com túnicas

de purpura, com a cabeça coberta com toucados e trazendo nos pulsos braceletes de prata. Logo alguém foi mandado perguntar-lhes por que se lamentavam daquela maneira e quem eram. «Nós lamentamo-nos por causa de Fraech, o filho de Idacha e de Befinn de quem é o filho favorito, e o jovem mais amado de todas as tribos de Dana.» Fraech, que ouvira o lamento, pediu para o deixarem ir ao encontro daquelas mulheres. «Reconheço entre os lamentos o da minha mãe e das mulheres de Boan», disse ele. Transportaram-no então para o prado, no exterior da fortaleza, e logo que o viram, as mulheres rodearam -no e levaram-no, desaparecendo na bruma que repentinamente se levantara e que cobria Cruachan. Mas, no dia seguinte, quando a tarde ia a meio, viram Fraech voltar na companhia das cinquenta mulheres. Estava curado de todas as feridas e já vencera a fatiga. As mulheres que o acompanhavam eram todas da mesma idade, da mesma estatura, igualmente belas, e tinham um aspecto feérico, não sendo possível distinguir umas das Outras. Pouco faltou para que as pessoas morressem esmagadas, tal foi a precipitação quando quiseram contemplá-las de perto. Elas deixaram Fraech à porta do pátio principal e, depois de se despedirem dele, regressaram pelo mesmo caminho por onde tinham vindo. Mas como, ao afastarem-se, elas continuaram a entoar o lamento com um sentimento profundo, todas as pessoas que se encontravam naquele momento no Pátio ficaram loucas. E é desta história que provém o « Lamento das Fadas, muito conhecido de todos os músicos da Irlanda.´¶ Fraech entrou imediatamente na casa de Ailill e de Maeve juntou-se toda a assembléia para o acolher e para lhe dar as boas vindas, parecendo que ele vinha de outro rnundo.´¶ o rei e a rainha também se levantaram e exprimiram o seu

Comment [NR100]: 1. É este o sentido do nome gaéíico Finnabair, o equivalente estrito do galês Gwenhw¶f¶af, ou seja, Guenievre, a esposa do rei Artur.

Comment [NR101]: 1. Este Lamento das Fadas é, com efeito, um dos mais antigos cantos tradicionais e mantétn-se enraizado entre todas as classes do povo irlandês. ou seja, ao sidh, o outro mundo 2, É este o caso: Fraech foi levado ao «pa ís das Fadas,> vas que se referein, a outeiros mpgalíticos. Nas outras narrati ida que se supõe existir sob os achan está constrAilifl e a Maeve, tudo leva a pensar que a sua fortaleza de Cru e de ond, a qualquer sobre um coim, no qual é Possível ern`rat ` certas ocasiões, momento pode surgir o povo feérico para se misturar com os humanos.

arrependimento, pedindo-lhe desculpas pelo que lhe tinham feito. Ele, por seu lado, saudou-os e fez as pazes com eles, começando-se depois os festejos. Entretanto, Fraech mandou chamar um jovem do seu sequito dizendo-lhe: «Vai à margem do lago, a um lugar onde eu estive no meio de um canavial e onde deixei um salmão, Leva-o a Finnabair e pede-lhe para o preparar e para o cozer bem. Diz-lhe também que o anel se encontra no interior do peixe. Creio que ele nos poderá ser muito útil esta noite.» Ailill e Maeve, comprazendo-se com a música e a bebida, não tardaram a ficar embriagados. Então, o rei pediu ao seu intendente para lhe trazer as suas jóias, que foram, expostas à sua frente. «Que maravilha!», exclamaram os convidados. «Nunca vimos uma riqueza igual!» Ailill ordenou então: «Mandem vir Finnabair!» Pouco depois, exibindo um vestido debruado ela apresentou-se perante o pai e toda a assembléia. «Minha flha», disse-lhe o rei, «onde está o anel que a tua mãe te deu no ano passado para o guardares? Ainda o tens? Se o tiveres, traz-mo para que todos possam admirar a sua beleza.» «Não sei onde ele está», respondeu Finnabair. «Nesse caso», replicou AiIIII, «vai procurá-lo. Se o não encontrares, juro-te que te faço a alma sair do corpo!» «Isso não é justo!», Protestaram os presentes. «Tens aqui riquezas suficientes para que nem dês pela falta do anel.» «Estou disposto a dar à tua filha objectos Preciosos como esse», interveio Fraech, «pois ela salvou-me a vida, e estou-lhe muito grato por isso.» «Não insistas», disse Ailifl. « Se ela não trouxer o anel que lhe peço, nenhumajóia que lhe dês a poderá salvar» «Assim vou procurá-lo.» disse Finnaair «Não», gritou AiliII.«eu sei muito bem que se deixares esta sala, desapareces da minha vista para sempre. Se pensas que escapas assim tão facilmente, enganas-te. Mas permito que mandes alguém procurá-lo em teu lugar.»

Finnabair incumbiu então a sua criada daquela tarefa. «Eu juro pelo deus protector da minha tribo», disse Finnabaír, «que se o anel for encontrado, não ficarei nem mais um minuto em teu poder, e que farei a partir de então o que muito bem entender» «Se se encontrar o anel», exclamou Ailifi, «serás livre até de te encontrares com o rapaz das cavalariças.» Naquele momento, a criada entrou com um prato nas mãos. No prato todos viram um salmão bem temperado e cozido, condimentado com mel e especiarias, estando o anel de ouro sobre o salmão. Ailill e Maeve olharam-no muito espantados, e depois olharam para Fraech, que levou a mão ao cinto. «Parece-me», disse ele, «que quando mergulhei no lago, a teu pedido, deixei o cinto na margem. No cinto havia uma bolsa pendente e dentro dela estava este anel. Se realmente tens ainda uma réstia de decência, Ailill, diz-nos o que fizeste ao anel.» o rei defendeu-se o melhor que pôde, muito embaraçado: «Este anel pertencia-me e dei-o a Finnabair, mas soube que ela o tinha dado. Foi por isso que, quando mergulhaste no lago, o tirei da tua bolsa e o atirei à água. O que me espanta é vê-lo aqui. Por tua honra, ó Fraech, explica-nos este prodígío,» «É muito simples ... », respondeu Fraech. «Ao dar-me este anel, a tua, filha ficou comprometida comigo, o que te deixou incomodado. Enquanto nadava, vi te pegar nele e atirá-lo à água, e vi depois o salmão engolilo. Nessa altura agarrei o salmão e escondi- o na margem, de forma dissimulada. Ainda há pouco, antes do festim, mandei buscá-lo para o dar à tua filha e foi ela que, ao mandar cozer o salmão, descobriu o anel. Assim se explica que ele esteja agora perante ti.» Aílill, terrivelmente perturbado, olhou para Maeve que se mantinha calada, e depois fixou o olhar em Fraech sem ser

capaz de falar. «Rei Ailill», continuou Fraech, «todos os que estão aqui presentes ouviram as palavras que pronunciaste ainda há pouco. Tu disseste que, se o anel fosse encontrado, ela poderia partir, nem que fosse com o moço das cavalariças, segundo as tuas próprias palavras.» «Tu sabes muito bem», exclamou Finnabair, «que só a ti trago no coração!» «Pelos vistos», suspirou Ailill, «tenho mesmo de te dar a minha filha. Exigir-te-ei no entanto uma única coisa: que jures acompanhar-nos em todas as expedições guerreiras em que necessitemos da tua ajuda.» Fraech ficou assim na fortaleza de Cruachan e dormiu com a donzela. Na manhã seguinte, despediu-se do rei e da rainha de Connaught e, com todas as suas gentes e Finnabair, regressou para a sua residência. Pouco tempo depois, a pedido de Ailill e de Maeve, ele veio ajudá-los numa expedição guerreira. Mas, logo que regressou, soube que lhe tinham roubado as vacas e que a sua mulher desaparecera. Foi a mae que lhe veio anunciar: «A tua ausência não foi nada feliz, pois provocar-te-a um grande sofrimento. Roubaram as tuas vacas e levaram Finnabaír. Três das tuas vacas estão na Escócia do norte, no território dos Pictos. E as outras, assim como a tua mulher, estão nas montanhas dos Alpes.(¶) «Eu vou à procura dela!», exclamou Fraech. «Não vás!», disse a mãe, «pois se o fizeres a tua vida correrá um grande perigo. Eu dar-te-ei outras vacas.» «Mas, e Firinabair?» «Na Irlanda há mulheres tão belas e nobres como ela e eu própria me encarregarei de te arranjar uma que te convenha.» «Não me interessa o que dizes», disse Fraech, «pois de qualquer modo partirei em busca de Finnabair e das minhas vacas.» Deixou então a mãe e, acompanhado de três novenas de homens, de um falcão e de um cão puxado pela trela, pôsse a caminho e chegou à província do UIster, onde encontrou Conall Cemach com quem fez amizade. Disse-

lhe este, acompanhando-o na sua demanda: «A tua missão está condenada ao fracasso, pois prevejo que terás de passar por muitos tormentos e por muito sofrimento.» «Acompanhar-me-ás, seja qual for o perigo?», perguntou Fraech. «Nunca recusei ajuda a um amigo», respondeu Conall. «Acompanhar-te-ei para onde quer que vás.» Juntos atravessaram então o mar e o norte da ilha da Bretanha, entraram no mar de Wight, erraram muito tempo na Gália e por fim avistaram as montanhas dos Alpes. Quando aí chegaram, viram uma moça que pastava carneiros. «Vamos falar-lhe», disse ConalI, «enquanto as nossas gentes esperam aqui por nós. Sem dúvida, ela poderá prestar-nos informações sobre este país.» Foram então falar a moça que, ao saber que eles vinham da Irlanda, começou a chorar. «Porque choras?», perguntou Fraech. «A minha mãe veio da Irlanda, tal como vos», respondeu ela, «mas podeis ter a certeza de que não está cá de sua livre vontade. Estais num país horroroso e terrível, povoado por jovens guerreiros cruéis e traiçoeiros que andam por todo o lado a roubar tesouros, vacas e mulheres.» «Qual foi a última coisa que roubaram?», perguntou ConaIl. «Eles roubaram a mulher e as vacas de Fraech, filho de Idach, de Connauhgt, na Irlanda. A mulher encontra-se na fortaleza que existe lá em cima, e as vacas vão agora pastar para a encosta da montanha.» «o que e que nos aconselhas?», perguntou Fraech. «Penso que devereis ir-vos encontrar com aquela mulher que está a levar as vacas a pastar. Dizei-lhe por que estais aqui e ela, que veio da Irlanda, saberá aconselhar-vos melhor do que eu.» Apressando-se, Fraech e Conall foram então ao encontro da mulher que tomava conta das vacas na encosta da montanha. Ela deu-lhes as boas vindas e perguntou-lhes de onde vinham: «Nós vimos da Irlanda», respondeu

Comment [NR102]: 1. Como nas narrativas dos Dois Porqueiros e das Aventuras de Néra, esta Cortesã de Finnabair constitui um dos numerosos prólogos da célebre epopéia da Razzia des Boenfs de Cualngé. Nesta Fraech participará e morrerá às mãos do herói Couhoulinn. 2. As narrativas irlandesas incluem sempre um jogo de palavras entre os Alpes , o nome Alba, que designa Grã-Bretanha. Comment [NR103]: 3. Este Conall Cernach é uma das principais personagens do ciclo épico do UIster. Cornpanheiro de armas do herói Couhoulinn, será também um dos protagonistas da Razzia des Boeufs de Cualngé. Numerosas narrativas mostram-no a intervir nas circunstâncias mais diversas.

Fraech, «e queremos resgatar a mulher que está na fortaleza, assim como as vacas que nos foram furtadas. Sabes como havemos de entrar naquele lugar?» Ouvindo aquelas palavras, a mulher deu três gritos de lamento. «Ah», exclamou em seguida, «é o infortúnio que vos traz a este país. A fortaleza está guardada por uma serpente monstruosa que só deixa entrar quem conhece. Aos estranhos ela devora sem piedade, jamais tendo escapado alguém com vida. Mas quem sois vós afinal, tão temerários ao ponto de acreditardes que podeis entrar na fortaleza?» «Este é Fraech, filho de Idach, de Connaught, e eu sou Conall Cernach, companheiro do Ramo Vermelho no Ulster. Finnabair, filha de Alill e de Maeve, é a Prisioneira que está na fortaleza, e as vacas dadas a Fraech pela sua mãe, Befinn, das tribos de Dana, estão no meio dessas que guardas.» Ao ouvir aquelas palavras, a mulher não se conteve e, pondo os braços à volta do pescoço de Fraech, manifestou uma enorme alegria. «Que se passa?», perguntou Conall, muito surpreendido com aquele comportamento, «Eu vou explicar-vos», respondeu ela. «Se estou tão feliz, é porque está próxima a hora em que a fortaleza será destruída. Com efeito, circula pelo país uma profecia que diz que tu deverás pôr um teimo aos nossos infortúnios. Segundo essa profecia, bastar-te-á apertar o cinto à volta da cabeça da serpente para que esta adormeça imediatamente.» «Isso é mesmo verdade?», admirou-se Conall. «Nesse caso, não percamos tempo.» «Esperai», disse a mulher, «pois os guerreiros que guardam a fortaleza são tão perigosos como a serpente. E melhor esperar pela noite. Vou para minha casa mas, esta noite, não mungirei as vacas, e farei de conta que as vitelas precisam de mamar toda a noite. Deixarei a porta entreaberta, pois sou sempre eu que a fecho todos os dias antes de cair a noite. Vós

entrareis assim na fortaleza assim que os guardas estiverem a dormir e em seguida fareis o que muito bem entenderdes.» Esperaram então que a noite caísse e foram para a porta da fortaleza. A serpente, com um pulo medonho, atirou a -se eles, mas Conall teve tempo de lhe apertar a cabeça com o cinto, adormecendo-a. Então avançaram, mataram os guardas, libertaram Finnabair e fugiram levando as jóias mais preciosas que encontraram na fortalez. Atearam um grande fogo cuja luz se propagou por toda a montanha, e partiram apos reunirem as vacas de Fraech. Em seguida, não demoraram a chegar a um porto e partiram por mar com Finnabair e as vacas que Befinn dera a seu filho. No entanto, faltavam três e por esse motivo se dirigiram para o território dos pietos do norte, na Escócia. Após passarem por grades dificuldades, conseguiram encontrar o lugar onde se encontravam as vacas, apoderaram-se delas e saquearam a fortaleza do que as roubara. Feito isso, dirigiram-se para a costa e navegaram até às costas da Irlanda, onde aportaram num lugar chamado Bennchur. Nessa altura, após terem renovado o seu juramento de amizade, Fracch e Conall Cernach separaram-se. Conall voltou para a sua fortaleza, e Fraech, na companhia de Finnabair, atravessou a ilha com o seu gado e dirigiu-se para sua casa onde ja ninguem o esperava.´¶ C a p í t u lo X I Em um belo dia do início do Verão, Bran, filho de Fébal, andava a passear sozinho pelos campos que se estendiam em frente da sua fortaleza. Estava um dia de sol e soprava uma ligeira brisa. De súbito, Bran ouviu uma música vinda de trás de si. Voltou-se para saber quem estava a tocar, mas, assim que se voltou, a mesma música continuou a

Comment [NR104]: 1. Espécie de fraternidade guerreira do Ulster que, agrupada ao redor do rei Conor (Conchobar mae Nessa,) fazia as suas reuniões numa casa chamada «Ramo Vermelho», onde estavam expostos os troféus conquistados nas batalhas.

ouvir-se nas suas costas. Isto durou ai um tempo, até que, embalado pela extrema melodia e harmonia daquela música, ele deitou-se na relva e adormeceu, Quando despertou, Bran viu perto de si um ramo duma macieira com flores brancas que não se distinguia facilmente de outros ramos, e levou-o para a fortaleza. Quando os Filhos de Milé chegaram à sala onde se ia realizar o festim, uma mulher apareceu vestida com um traje muito leve. Avançando para Bran, ela começou a cantar: «Eis um ramo da macieira de Emain que te trago, semelhante aos outros. Ele tem ramos menores de prata branca e sobrancelhas de cristal conifiores. Ela vem duma ilha longínqua ao redor da qual brilham os cavalos marinhos viajando na espuma das ondas. Quatro colunas suportam esta ilha, são quatro colunas de bronze que brilham ao longo dos séculos no mundo, num lugar onde brotam numerosas flores. É uma terra de bondade e de beleza onde abundam os cristais e as pedras preciosas. O mar arremessa a vaga contra a terra e nela deposita os cabelos de cristal da sua crina. Aqui não se conhece a dor nem a perfidia: Nem mágoa, nem desgosto, nem morte, nem doença, nem, fraqueza, Pois vive-se sob o signo de Emain, Beleza de uma terra maravilhosa Onde tudo é maravilhoso e onde a bruma não tem igual ... » Assim que terminou o canto, a desconhecida afastou-se, e

ninguém soube para onde ela foi. Mas levava com ela o ramo da macieira, que por si mesmo saltara das mãos d e Bran para as dela sem que ele o conseguisse evitar, Bran ficou muito impressionado pelo que acontecera, e ocorriam lhe ao espírito, sem cessar, as palavras que ela cantara, Ficou toda a noite sem conseguir dormir, e de manhã, muito cedo, foi ter com um druida que tinha fama de ser muito sábio e que residia no país de Corcomroe, druida chamava-se Nuca. Bran perguntou-lhe qual era o significado do canto que ouvira e da presença da mulher misteriosa na grande casa da sua fortaleza. «Não é difícil de perceber», respondeu o druida. «Esta mulher veio de Emain, ou seja, da Ilha das Macieiras. E, ao apresentar-te um ramo de macieira de Emain, estava a convídar-te para te ires encontrar com ela nesse lugar.» «A sério?», admirou-se o filho de Fébal. «E onde se situa esta ilha de que me falas?» «A ilha situa-se algures no vasto oceano, para os lados onde o sol mergulha nas ondas. Não se conhece a sua exacta localização e ninguém lá consegue ir sem a ajuda de um guia.» «Nesse caso, que hei de fazer?», insistiu Bran. «Queres mesmo ir ter com a mulher à Ilha de Emain?» «Não quero outra coisa», respondeu Bran, «poís desde que me visitou que não consigo pregar o olho a pensar que nunca mais a vejo.» O druida pôs-se a meditar longamente, e depois indicou a Bran o dia em que poderia começar a construir um barco, especificando mesmo o número de home que o deveriam ns acompanhar a saber dezasseis, nem mais um, ou de contrário ele poderia sofrer graves reveses. Por fim indicoulhe o dia mais conveniente para partir e o porto de onde deveria sair, Bran regressou então a casa e, no dia marcado pelo dr uida Nuca, ordenou que se começasse a construir um barco

Comment [NR106]: 1. No condado de Clare, no seio dum vale verdejante e solitário que domina o maciço calcário desértico de Burren. Foi em Corcomroe que foi construída, no século XIII, a mais ocidental das abadias cistercienses. A toda a volta subsistem diversos ve stígios megalíticos e célticos. Comment [NR105]: 1. Trata-se de um dos nomes gaélicos da Terra das Fadas, que corresponde à ilha de Avalon da lenda arturiana.

Comment [NR107]: 2. No condado de Kerry, ao fundo da Baía Brandão, cujo nome evoca a figura de São Brandão, o Navegador, fundador histórico do mosteiro de Clonfert, tendo sido inserido nesse nome o mito pré-cristão de Bran.

com três cascos. Feito o barco, selecionou os familiares que o poderiam acompanhar na arrojada viagem. Entre eles, encontrava-se um certo German, de quem Bran gostava tanto como se fosse seu irmão, a ssim como Nechtân, filho de ColIbran, que era um grande conhecedor da arte de navegar, Reunindo o grupo que o iria acompanhar, Bran levou-o ao porto de Cloghan para aí se fazerem os últimos preparativos para a viagem. Embarcaram no dia marcado pelo druida Nuca, e ainda mal tinham içado as velas e começado a afastar-se da costa, quando os três irmãos de Bran chegaram à praia e daí começaram a gritar muito alto para que os fossem buscar. «Voltai para casa! », gritou-lhes Bran, «pois não posso levar a bordo mais homens do que os previstos!» «Nesse caso», responderam eles, «vamos atirar-nos à água, seguiremos no teu encalço, e podes ter a certeza de que acabaremos por nos afogar se não nos aceitares a bordo! » E, no mesmo instante, eles atiraram-se à água e nadaram para o largo, Vendo que estavam decididos a cumprir a ameaça, Bran deu ordens para que se desse meia volta e, com medo que se afogassem, permitiu que subissem para bordo. Nesse dia, remaram até ao anoitecer, pois o vento não era suficiente para fazer avançar a embarcação. Quando a noite caía avistaram duas pequenas ilhas rochosas totalmente desprovidas de vegetação e com duas fortalezas em cima. Ouviram uma algazarra vinda de lá, que era provocada por pessoas que falavam alto e que se vangloriavam de ter praticado ctos heróicos. «Nós podemos aportar e perguntar-lhes se conhecem a direção da Ilha das Macieiras», disse Diuran, o Poeta. «Tens razão», respondeu Bran. «Vamos falar-lhes, pois devem saber coisas que nós ignoramos.»

Mas, enquanto pronunciavam aquelas palavras, um vento fortíssimo abateu-se sobre o barco e deixou-o desgovernado sobre as ondas. Depois de terem andado ao sabor do vento e das ondas durante toda a noite, já não viram pela manhã nem a ilha nem terra firme, ignorando completamente onde se encontravam. «Tudo isto é por vossa culpa», disse Bran aos irmãos. «Vós subistes para o barco contrariando as determinações do druida Nuca que me avisou que eu poderia sofrer graves reveses no caso de ter mais de dezasseis homens a bordo . Agora só nos resta deixar o barco à deriva e ver para onde ele nos leva.» Os irmãos, sentindo-se culpados, não responderam, e os outros companheiros de Bran, cheios de angústia, mantiveram-se também em silêncio. Andaram assim ao sabor das correntes durante três dias e três noites, sem verem terra. Ao fim do quarto dia, ouviram um ruído proveniente de nordeste. «É o ruído de ondas a baterem na costa», disse Bran. «Dirijamo-nos para lá, pois estou certo de que aí descobriremos alguma coisa.» Não demoraram muito até avistarem terra. Quando estavam a tirar à sorte quem iria a terra, um enorme enxame de formigas, cada uma delas do tamanho dum potro, surgiu na praia e avançou para o mar. Era muito visível que estas formigas gigantes pretendiam alcançar o barco e devorar a tripulação. Bran ordenou aos seus homens que remassem com todas as forças e conseg uiram então ficar fora do alcance das formigas, passando novamente três dias e três noites à deriva no Mar sem saberem onde se encontravam. Ora, na manhã do quarto dia, avistaram à luz do sol uma ilha alta e grande, com terrenos suspensos nas alturas, Havia fileiras de árvores em cada um dos terrenos e, nos

Comment [NR108]: Nechtân é o nome gaélico derivado do latim Neptuntis, o que indica claramente a classificação marítima da personagem.

Comment [NR109]: 3. Trata-se claramente de um encantamento mágico: se os três irmão s de Bran morressem afogados, a responsabilidade recairia sobre Bran que perderia a sua honra.

ramos, estavam dependurados pássaros. Bran e os seus companheiros aconselharam-se sobre o que havia a fazer, mas não chegaram a nenhuma conclusão. Então Bran decidiu ir a terra sozinho não tendo aí nenhum percalço. Caçou dois pássaros e levou-os para o barco, proporcionando a toda a tripulação uma excelente refeição. Logo depois voltaram para o mar. Ao meio do dia avistaram outra Ilha que lhes pareceu grande e arenosa. Quando se preparavam para aí acostar, viram um monstro que parecia um cavalo, mas quetinha as patas de um cão, o pêlo todo eriçado e unhas pontiagudas. Era visível que o monstro estava preparando-se para saltar sobre eles e os devorar. Bran ordenou que se navegasse para o largo o mais depressa possível, mas quando o monstro percebeu que estavam a fugir dele, correu pela areia e come çou a arremessar calhaus contra o barco. E apressando-se o mais que podiam, os navegadores conseguiram escaparlhe. Pouco tempo depois avistaram outra ilha, Bran designou German para ir explorá-la, mas pediu para acompanhá-lo, dizendo que o risco era menor se fossem dois. Assim que desembarcaram, caminharam com muita atenção e foram dar a um grande prado onde observaram enormes pegadas no terreno que pareciam ter sido deixadas pelos cascos de cavalos. Havia também, espalhada por toda a parte, grandes cascas de noz. E como também havia casas em ruínas, chamaram os seus companheiros para virem ver com os seus próprios olhos o que eles estavam a ver. Este espectáculo, no entanto, assustou-os, Pois não conseguiram compreender o que poderia ter provocado aquelas pegadas e aquelas ruínas, de tal modo que apressaram-se a voltar para o barco.

Quando já se tinham afastado da costa, avistaram uma multidão de cavalos, de um tamanho enorme, que se dirigiam para o mar, montados por uma raça de homens magros e negros que os incitavam com altos gritos. Os navegadores não duvidaram de que havia ali uma conspiração de demônios e de fantasmas e afastaram-se a toda a velocidade daquele lugar maldito. Chegaram depois a outra ilha que tinha na costa uma casa com um grande pórtico nas traseiras. Havia também uma porta que dava directamente para o mar, com uma batente de pedra com uma abertura por onde as vagas lançaram um salmão. Desembarcaram então e entraram na casa. Esta estava deserta, mas nos seus quatro cantos havia quatro leitos, comida e um recipiente de vidro que continha uma bebida aparentemente inebriante. Eles comeram e beberam o que encontraram, e depois voltaram para bordo sem terem visto vivalma. Voltaram a navegar ao acaso por muíto tempo e começavam a sentir sede e fome quando descobriram outra ilha que tinha uma grande falésia que caía a pique sobre o mar e que estava coberta, no cimo, por uma densa floresta. Bran desembarcou na ilha e, embrenhando -se na floresta, arrancou um ramo de urna árvore. O ramo esteve nas suas mãos durante três dias e três noites, enquanto o barco dava voltas à ilha, e ao quarto dia apareceram três maçãs na ponta do ramo. Todos partilharam entre si as maças e saciaram-se delas. Também passaram na proximidade de uma pequena ilha, baixa e muito bela de se ver, onde avistaram grandes animais parecidos com cavalos. Cada animal mordia o flanco de outro arrancando-lhe um pedaço de carne com pele, de tal modo que rios de sangue carmesim escorriam das feridas e derramavam-se sobre o chão. Os navegadores afastaram-se a toda a velocidade, sentindo-se

cada vez mais fracos e desamparados, pois não tinham nada para comer. Ora, no momento de maior aflição, avistaram uma nova ilha onde se destacavam numerosas árvores cobertas de frutos, mormente grandes maçãs de cor dourada. Havia pequenos animais vermelhos que se poderiam tomar por porcos selvagens debaixo das árvores, às quais, batendo -lhes com as patas, faziam cair as maçãs. Depois, comiam -nas com uma imensa satisfação. Enquanto isso, diversos pássaros banhavam-se nas ondas perto da ilha e quando, ao anoitecer, os animais vermelhos se retiraram para as suas cavernas, eles voaram para as arvores e começaram a debicar os frutos. «Parece que estamos com sorte», disse Bran. «Se estes animais vermelhos e estes pássaros comem com tanto prazer os frutos das árvores, isso significa que também nós poderemos comer esses frutos. Vamos pois abastecer-nos a terra.» Desembarcaram na praia e estranharam que o solo fosse tão quente debaixo dos pés. Na verdade, aquele calor tornou-se tão insuportável que tiveram de regressar à pressa ao barco; apesar disso, ainda tiveram tempo de levar com eles uma grande quantidade de maçãs que lhes permitiram ter alimento para vários dias. Quando a comida começou de novo a faltar e eles mal podiam respirar devido ao mau cheiro do mar, acostaram numa ilha estreita na qual se erguia uma fortaleza rodeada duma muralha muito branca, corno se tivesse sido construída com cal ou com giz, e tão alta que quase chegava à nuvens. Como havia uma porta aberta na muralha, eles atravessaram-na e viram grandes casas também brancas. Entraram na que lhes parecia maior e encontraram-na sem ninguém, apenas com um gato que saltava sobre uns pilares que existiam nos quatro cantos da sala. Ao ver os recém-chegados, o gato não pareceria

minimamente assustado, pois continuou a saltar como se não estivesse ali ninguem. Aos olhos dos recém-chegados, entretanto, apresentaram-se outras coisas. Havia três filas de objectos numa das paredes da casa, indo de uma porta à outra: uma de broches dourados e prateados pregados à parede por alfinetes; a outra de cordões de ouro, tendo cada um a dimensão de um círculo de cobre; e a última, por fim, de grandes espadas, com Pedras preciosas incrustadas nos punhos de ouro. Avançando pela sala, eles viram no meio, no fogão, carne assada, toucinho cozido, e grandes taças cheias até cima de uma bebida de cheiro agradável. «Isto é para nós?», perguntou Bran, voltando -se para o gato. O gato olhou-o por um instante, e depois continuou entretido a saltar de um pilar para outro. Bran percebeu então que aquela refeição tinha sido preparada a pensar neles e comeram e beberam até se fartarem, adormecendo depois nuns leitos que ali se encontravam. Na manhã seguinte, quando acordaram, deitaram as bebidas em bilhas e juntaram os restos de comida para os levarem com eles. Mas, quando estavam de partida, disse um dos irmãos de Bran: «Eu gostava de levar um destes colares.» «Não faças isso», disse Bran, «pois desconfio que esta casa está a ser vigiada. Estes objectos foram postos aqui para despertarem a nossa cobiça.» Mas, às escondidas, o irmão apoderou-se dum colar e, no mesmo instante, o gato, que tinha estado tranquilamente a saltar de um pilar para outro, atirou-se a ele como uma flecha implacável e o infeliz ficou de tal modo em brasa que se transformou num montão de cinzas, o gato voltou então para junto de um dos pilares e Bran tentou acalmá-lo com palavras muito suaves, ao mesmo tempo que pos o colar no seu lugar. Os navegadores voltaram depois para o barco, muito entristecidos por terem perdido um companheiro.

Andaram de novo três dias inteiros no mar e por fim avistaram uma ilha que estava dividida em duas partes iguais por uma paliçada. Num lado pastava um rebanho de cabras brancas, e do outro um rebanho de cabras negras, enquanto um homem muito robusto andava de um lado para o outro a separar os animais. Quando ele agarrava uma cabra branca e a atirava por cima da paliçada, o animal tomava-se negro ao tocar no solo, e se o fazia a uma cabra negra, esta tornava-se branca.´¶ Ao verem aquele espectáculo, Bran e os seus companheiros assustaram-se. «Devemos desconfiar daquele sortilégio», disse Bran. «Vamos fazer uma experiência: deitemos qualquer coisa negra no lado das cabras brancas para ver o que acontece.» Pegaram então num ramo cuja superfície estava enegrecida e atiraram-no para a parte da ilha onde se encontravam as cabras brancas, ficando o ramo branco instantaneamente. Arremessaram depois um outro ramo que era branco para o lado das cabras negras, e o ramo tornou-se negro. «Na verdade», disse Bran, «esta experiência é elucidatíva. Devemos deixar este lugar tão estranho, ou arriscamo-nos a ter alguma má experiência.» Pouco tempo depois, avistaram outra ilha na qual estavam reunidas grandes multidões de homens e de mulheres. Tanto eles como elas eram inteiramente negros, quer fisicamente quer no vestuário que envergavam. Tinham fitas igualmente negras amarradas à volta da cabeça e não paravam de se lamentar. «Um de nós deve ir ter com eles e perguntar-lhes porque se lamentam daquela maneira. E devemos aproveitar para lhes perguntar qual a rota a tomar para a ilha que desejamos alcançar.» O acaso designou o segundo irmão de Bran para

desempenhar aquela missão. Ele foi a terra e dirigiu -se para as gentes de negro, mas assim que chegou perto delas, corneçou também a lamentar-se. Bran mandou então dois homens buscá-lo, mas estes, ao invés de o reconhecerem entre os outros, puseram-se igualmente a chorar e a lamentar-se. Bran disse então: «Que vão lá quatro homens com correntes e que os tragam à força. Para terem êxito não deverão olhar para a terra, e deverão cobrir o nariz e a boca para evitarem respirar os miasmas da ilha e apenas verem aqueles que vão buscar!» Diuran, Nechtân, German e o terceiro irmão de Bran foram a terra e, com infinitas, precauções, acorrentaram os dois homens que tinham ido buscar o primeiro. Mas não conseguiram descobrir este, de tal modo ele já se confundira com os outros. Quando perguntaram aos dois resgatados o que tinham visto, eles responderam que não se lembravam de nada. E, cheios de mágoa por terem perdido o segundo irmão de Bran, os navegadores deixaram a toda a pressa as costas da ilha das lamentações. Não tardaram a avistar outra ilha de muito pequenas dimensões, onde existia uma fortaleza, com uma porta aparentemente de bronze, não se podendo entrar nela senao por uma ponte de vidro. Bran e os seus companheiros desembarcaram e dirigiram-se para a fortaleza, muito decididos a falar com os que nela deviam habitar. Mas, assim que puseram os pes na ponte de vidro, caíram todos para trás, sendo incapazes de se manter de pé na superfície muito escorregadia.´ Estavam naquela situação embaraçosa quando viram uma mulher sair da fortaleza com um balde na mão. Levantando uma placa de vidro, ela encheu o balde numa fonte que jorrava água debaixo da ponte. Depois, parecendo que nem tinha reparado na presença de Bran e dos seus

Comment [NR110]: 1 Encontra-se uni episódio semelhante na narrativa galesa de Peredur. Vde 3. Markale, Le (ycle du Graal, sexta época: Perceval o Galês. A mudança de cor significa a passagem de um mundo para outro, e a paliçada simboliza a fronteira entre o mundo humano dos Filhos de Milé e o mundo, completamente feérico, das tribos de Dana. Já , ten, hamado muitas vezes a este episódio o «Van das Almas», tendo-se corno referência o texto galês en, que so, é preciso ter em conta as cabras mudam de cor ao atravessarem um estuário. Neste ca. a região que Bran e os seus companheiros se encontram nos I imites do mundo humano, num ambígua em que se manifestam personagens ou acontecimentos extraordinários, não estando eles ainda prontos para atravessar a fronteira. Assim s, explica o fato de andarem nluitO tempo perdidos no mar antes de encontrarem a Ilha das Fadas. Comment [NR111]: 1. É lógico que este episódio pode muito bem conter uma alusão a uma qualquer terra áretica e, nesse caso, a ponte está coberta por um leito de gelo. Mas estamos no domínio do mito, onde a lógica nada conta. Com efeito, corno na lenda arturiana, esta ponte de vidro é uma fronteira entre os dois mundos, sendo semelhante à célebre «Ponte da Espada» que Lancelot tem de atravessar para libertar a rainha Guenievre da fortaleza de Gorre, ou seja, de Vidro, onde a mantém prisioneira Méléagant, uma espécie de divindade dos infernos. Note-se que, no episódio aqui apresentado. Bran e os seus companheiros não chegarão nunca a entrar na fortaleza, sinal evidente de que ela não é a «Emain Ablach» onde devem ir. Vide J. Markale, Le Çycle du Graal, terceira época: Lancelot du Lac.

companheiros, voltou para trás e entrou na fortaleza. «Que alguém venha falar a Bran, filho de Fébal!», gritou em voz muito alta Diuran, o Poeta. A mulher, que acabara de entrar, reabriu a porta e olhou para fora. «É mesmo Bran, filho de Fébal?», perguntou ela com um tom ironic antes o de voltar a desaparecer no interior da fortaleza. Rastejando, Bran e os seus companheiros chegaram à porta de bronze e começaram a bater nela com as espadas e os escudos na esperança de que a viessem abrir. Mas o bronze transformou o barulho que faziam numa música muito suave que os fez dormir até de manhã. Quando acordaram, viram a mesma mulher sair da fortaleza com o balde na mão. Ela fez o mesmo que no dia anterior, indo encher o balde à fonte que existia debaixo da ponte. Nechtân não se conseguiu conter: «Que alguém venha falar a Bran, filho de Fébal!», gritou ele. A mulher pareceu não ter ouvido nada mas, ao fechar a porta, voltou-se e disse simplesmente: «Bran, filho de Fébal, parece-me muito belo.» E desapareceu no interior, voltando então Bran e os seus companheiros a bater à porta de bronze com as suas armas. Mas ao fazerem -no, provocaram música e esta prostrou-os até à manhã seguinte. Estiveram assim durante três dias e três noites, sem comer nem beber. Na manhã do quarto dia, a mulher dirigiu-se a eles. Era muito bela, e trazia um manto branco, um colar de ouro à volta do pescoço, e um diadema de prata sobre os cabelos negros. Calçava sandálias de prata branca que realçavam a delicadeza dos seus pés, e no manto tinha pregado um broche prateado guarnecido com ouro. E o manto, batido ao de leve pela brisa matinal, deixava ver uma camisa de seda muito fina sobre a pele branca. «Sê bem vindo, Bran, filho de Fébal», disse ela. Em seguida, ela pronunciou o nome de cada um dos

companheiros de Bran. «Hã muito tempo», disse ela, «que sabíamos que vós viríeis. Mas, nobre Bran, não fiques ofendido por não poderes entrar nesta fortaleza.» Guiou-os até uma grande casa que se encontrava na costa, sobranceira ao mar, e ela própria trouxe o barco deles para a areia. Ao entrarem na casa, eles viram um leito para Bran e outro para três das suas gentes. Logo a seguir, a mulher deixou-os e voltou para a fortaleza. «Então», perguntou Diuran a Bran, «esta mulher não é a que viste na tua residência e a que procuramos há tanto tempo?» «Não, não é», disse Bran, «e esta ilha não é aquela de que andamos em demanda. Não há aqui macieiras, e nada nela se parece com a descriçao que me foi feita pela mulher antes de reaver o ramo da macieira de Emain.» «É pena», disse Nechtân, «pois esta mulher é muito bela e ganharias muito em ter uma esposa da sua beleza.» Dito isto, ela voltou, trazendo-lhes um cesto que tinha dentro o que parecia queijo ou leite coalhado. Distribuiu o alimento por todos, e todos se regalaram com ele. Em seguida, encher o balde na fonte debaixo da ponte de vidro e deu o seu conteúdo a Bran. Depois foi encher o balde a pensar nos outros e, quando viu que estavam todos saciados, deixou-os e voltou para a fortaleza. «Realmente», disse Nechtâm a Bran, «esta mulher seria uma esposa digna de ti.» «Não foi ela que me veio trazer o ramo de Emain», respondeu Bran. Na ausência de Bran, entretanto, os seus companheiros não deixavam de trocar impressões. Começavam a ficar fatigados de tantas viagens infrutíferas e, não sabendo como regressar à Irlanda, não lhes parecia má idéia ficarem algum tempo naquela ilha onde eram tratados com tantas

atenções. «E se pedíssemos a esta mulher para dormir com Bran?», perguntou então Nechtân. «Sim», concordou Diuran, «mas como havemos de propor-lhe isso sem a ofender?» A mulher voltou na manhã seguinte, trazendo comida no cesto e bebida no balde. Diuran disse-lhe: «És capaz de provar que gostas de Bran dormindo com ele? Porque não passas aqui esta noite, para que isso aconteça?» «Como é que podeís fazer uma tal proposta a esta mulher?», gritou Bran furioso. «Eu seria incapaz de fazer uma tal proposta! Nós só queremos saber, ó mulher, que direção devemos tomar para chegarmos a Emaín Ablach, a Terra das Fadas, onde me espera aquela que me foi levar um ramo de macieira.» A mulher começou a sorrir, e disse: «Amanhã terás uma resposta para a tua questão.» Naquela noite, Bran e os seus companheiros adormeceram profundamente na casa. Mas, ao acordarem, repararam que estavam no barco, no meio do mar. Nunca mais eles viram a ilha misteriosa, nem a fortaleza, nem a ponte de vidro, nem a casa onde, junto à costa, tinham dormido, nem a mulher que lhes tinha servido comidas e bebidas deliciosas. Sentiram-se terrivelmente deprimidos e de nada valeu Bran tentar consolá-los dizendo-lhes que aquelas aventuras eram etapas necessárias para poderem chegar a Emain: por muito que ele se esforçasse, uma profunda tristeza e um sentimento de desamparo acompanhava enquanto o -os barco andava ao sabor das ondas. De súbito, avistaram uma ilha de onde Provinham ruídos estranhos, semelhantes aos que fazem os ferreiros quando batem com a bigorna dos seus martelos. Aproximaram-se e viram, com

efeito, quatro ferreiros que ali trabalhavam. Estavam perto da costa, quando ouviram um dizer: «Estão ao vosso alcance?» «Estão», respondeu outro. «Mas que gentes são aquelas?» «São uns garotos», disse um terceiro. «E num pequeno barco», acrescentou um quarto. Ouvindo aquela troca de palavras, Bran ficou muito inquieto. «Fujamos daqui», disse ele, «mas sem fazer o barco dar meia volta. Rememos para trás de modo que eles não se apercebam da nossa fuga.» Remaram então em sentido inverso. O primeiro homem que falara na oficina perguntou aos outros: «Já chegaram ao porto?» «Não», respondeu o segundo. «Eles estão imóveis e não avançam.» Pouco depois, o primeiro ferreiro retomou a palavra: «Que estão eles agora a fazer?» «Penso», disse o segundo, «que estão a preparar-se para fugir, Pois estão mais longe do porto do que estavam ainda há pouco.» Então os ferreiros precipitaram-se para a costa, segurando nas mãos enormes massas de ferro vermelho e arremessaram-nas em direção ao barco. As massas não os atingiram mas o mar a toda a volta começou a ferver enquanto os remadores faziam um esforço do para se porem longe dali. De repente, num instante eles começaram a navegar num mar que parecia de vidro esverdeado. As águas eram tão límpidas que os navegadores podiam ver as pedras no fundo. Mas não se via nenhum animal, nenhum peixe, nenhum monstro debaixo do barco, nem se via nada entre os rochedos a não ser cascalho e areia de cor verde. Navegaram assim durante muito tempo, maravilhados com a beleza e a transparencia esplendorosa da água. Mas logo depois ela transformou-se numa espécie de nuvem leve e sem consistência, e eles chegaram a pensar

que o barco se iria afundar. Olhando por sobre as águas viram um belo país verdejante e o tecto de fortalezas. Avistaram também um animal monstruoso nos ramos de uma árvore e gado bovino em campos existentes à volta. Um homem amado com uma espada e um escudo, quando se apercebeu do grande animal no ramo da árvore, começou a correr desenfreadamente. O monstro, então, estendeu o pescoço para fora das folhagens, aproximou o focinho do maior boi da manada, e atirando -se a ele devorou-o num instante. Nisto todos os outros bois da manada se puseram a fugir numa correria louca. Perante aquele espectáculo, Bran e os companheiros ficaram apavorados, ainda mais porque o barco não poderia deslocar-se muito depressa naquelas águas. Mas, ultrapassados os momentos de angústia, conseg uiram deixar aquelas perigosas paragens e viram-se num mar normal, apesar da água parecer parada. Por muito que tentassem remar com todo o vigor, durante várias horas o barco não avançou. Por fim, levantou-se o vento, a vela enfunou-se, e voltaram a deslizar sobre as ondas. Acostaram daí a pouco a uma ilha coberta de árvores que pareciam salgueiros ou aveleiras, com frutos maravilhosos e grandes bagas. Sacudiram alguns ramos e depois tiraram à sorte para ver quem provaria os frutos, sendo escolhido Bran. Este esmagou algumas bagas numa taça e bebeu o sumo, caindo então num sono profundo que durou até ao outro dia àquela mesma hora. Entretanto, os seus companheiros mostravam-se preocupados, sem saberem se ele estava vivo ou morto, pois uma espuma vermelha apareceu-lhe na comissura dos lábios. Ele, no entanto, acordou fresco e bem disposto, e disse-lhes: «Podeis tomar o sumo, Pois é excelente.» Juntaram então todos os frutos que puderam para levar para bordo, certos de que com eles poderiam obter um sumo agradável e inebriante,

Estavam os navegadores para partir quando viram uma grande nuvem vir na sua direção. Mas logo eles repararam que se tratava de um grande pássaro e, aterrorizados com a idéia de que ele ia aprisioná-los com as suas garras monstruosas, puseram-se a correr em busca de abrigo, atravessando um bosque até se encontrarem no centro da ilha. Havia aí um pequeno lago na extremidade do qual pousou o pássaro, que tinha no bico um ramo tão colossal como um carvalho, mas de uma especie desconhecida. O ramo possuía diversos galhos muito grandes dos quais pendiam, como se fossem frutos, cachos de uma espécie de bagos amarelos, que mal se viam através das folhas, por serem estas muito frescas e abundantes, Bran e os companheiros ficaram com os olhos fixos no pássaro, a ver o que ele iria fazer. Mas ele não se mexia e, vendo melhor, repararam que tinha a plumagem em péssimo estado, podre e comida pelos bichos. Um dos homens aproximou-se com cuidado do pássaro, e este permaneceu imóvel; depois voltou para perto dos companheiros e todos se preparavam para partir quando apareceram por cima deles duas grandes águias, que por sua vez se puseram perto do pássaro enorme. Depois de urna leve pausa para repousarem, as águias puseram-se a dar bicadas na sua plumagem, como que para o aliviar dos parasitas que o infestavam. Assim estiveram as duas águias até meio do dia. Em seguida, começaram a comer as bagas do ramo, antes de novamente se porem a dar bicadas na plumagem decrépita do vizinho, arrancando-lhe as penas em pior estado. Por fim colheram os frutos, esmagaram-nos contra pedras e atiraram-nos ao lago, fazendo com que a água criasse espuma e ficasse toda amarela. Então o grande pássaro ergueu-se e, dirigindo-se para o lago, foi-se banhar, ao mesmo tempo que as duas águias levantaram voo e

desapareceram do mesmo modo misterioso como tinham aparecido no céu. Passado um instante, o grande pássaro saiu do lago e, depois de se sacudir vigorosamente, ficou imóvel na margem como se quisesse dormir. Cada vez mais intrigados com o seu comportamento, Bran e os companheiros n ão se atreviam a aproximar-se dele, limitando-se a observá-lo através do ramo das árvores. E por fim o grande pássaro lá se moveu, agitando as asas e levantando voo, num instante, tão veloz e imponente como quando chegara, e desapareceu na mesma direção de onde viera. «Parece evidente», disse Diuran, o Poeta, «que ele veio aqui restaurar forças. Vamo-nos também banhar no lago para recuperarmos as energias.» «Tens de ter cuidado», gritou Bran, «poís pode ser perigoso à que o pássaro contaminou as águas e quem nele se o banhar pode ficar infectado!» «Se ele se banhou, também eu o posso fazer!», replicou Diuran, acrescentando: «Vou Tendo dito aquelas palavras, despiu-se e mergulhou nas águas onde ficou durante algum tempo, dando depois duas ou três braçadas para chegar à margem. E, naquele dia, os olhos brilharam-lhe como nunca, os dentes jamais tinham sido tão sãos, e nenhum mal parecia ser capaz de o atormentar. Apesar disso, nenhum dos seus companheiros quis seguir o seu exemplo, e voltaram todos para o barco, contentando-se em levar para bordo as bagas vermelhas colhidas no bosque. Na manhã do dia seguinte, estando a navegar calmamente, viram com grande espanto um homem a guiar um carro puxado por dois cavalos por cima das ondas. O desconhecido dirigiu-se para o barco e entabulou conversa com Bran. «Sê bem vindo, Bran, filho de Fébal, a ssim corno todos os teus, espantou-se Bran. «E companheiros.» «Como é que me conheces?», quem és tu?» «Sou

Mananann filho de Lir, das tribos de Dana, e vim ao teu encontro para te anunciar que em breve alcançarás o objetivo que persegues». «Mas», admirou-se Bran, «que prodígio é esse que te permite galopar os teus cavalos sobre o mar?» «As coisas nem sempre são o que parecem», respondeu Manannan «Tu achas maravilhoso que o teu barco seja capaz de navegar sobre as águas mas, a meus olhos, o que tu chamas mar é uma planície florida sobre a qual se desloca o meu carro puxado por dois bons cavalos. O que te parece um mar claro, ó Bran, filho de Fébal, é para mim uma aprazível planície com flores encantadoras. Enquanto tu vês vagas à tua volta, eu, nesta planície imensa e maravilhosa, vejo gado a pastar tranquilamente na erva verde e macia seja Verão ou Inverno. Os peixes que vês através das ondas são para mim pássaros que cantam no ramo das árvores, e a espuma das vagas é para mim como frutos de todo ano. Sim, Bran, o teu barco navega sobre o alto de um bosque, roçando na copa da árvores, cheio de frutos maravilhosos de frutos muito odoríferos, de frutos perfumados, cujas folhas são da cor do mais puro ouro.» Bran e os seus companheiros ouviam cheios de espanto o que lhes dizia Mananann. Este deu várias voltas ao barco, com os cavalos a galoparem em grande estilo e a atirarem chuviscos brancos na direção das velas.1 «Agora devo deixar-vos», disse Mannanan. Bem sei que ja passastes muito frio, fome e sede. mas talvez as privações fossem necessarias para conseguirdes finalmente avistar a Ilha das Mulheres através da bruma. É muito frequente, na verdade, passar-se perto do que se pretende sem se dar conta disso. Adeus, Bran, filho de Fébal, e que os teus companheiros e tu remem com todas as vossas forças para a ilha das Mulheres, Emain, que é tão aprazível para quem a visita. Não estais longe, e chegareis à ilha antes do pôrdo-sol.»

soleira da porta. Dito isto, Manannan desapareceu das suas vistas por entre uma fascinante nuvem de espuma. Puseram-se então todos a remar com energias renovadas, cheios de confiança e de esperança Assim foi ate que chegaram a uma ilha que, prudentemente, se limitaram a contornar. Viram nela grupos de homens e de mulheres que se riam a gargalhada e que, mesmo depois de olharem para Bran e os seus companheiros, continuaram a conversar e a dar grandes gargalhadas. «Claro que esta não é a ilha das Mulheres», disse Bran. «Mas temos de saber que gentes são essas e o que e que as faz rirem-se daquela maneira.» Tiraram à sorte para escolher quem iria a terra, e o acaso elegeu o terceiro irmão de Bran. Este desembarcou e, assim que chegou ao pé dos que se riam, começou também a rir como eles. E por muito que os seus companheiros o chamassem, não respondia, limitando a -se olhá-los e a fazer troça deles. Então, Bran lembrou-se das advertências do druida Nuca: em caso algum deveria levar mais de dezesseis companheiros a bordo. Agora que os três irmãos tinham desaparecido, a ordem era reconstituída. Com alguma mágoa, Bran decidiu então abandonar este terceiro irmão na ilha dos Bem Humorados e voltaram para o alto mar remando corajosamente. Pouco depois, ficaram em frente duma grande ilha onde se destacava uma vasta planície, com belos bosques abundantes em árvores floridas e um grande planalto coberto por uma erva macia. Junto ao mar erguia -se uma grande fortaleza, alta e imponente. Atracaram o barco e dirígiram-se para ela. A porta estava aberta e entraram para o pátio, onde havia uma casa que tinha também a porta aberta. Olhando para o interior, viram dezessete leitos ricamente ornamentados com tapeçarias. Viram também dezesseis moças que preparavam um banho. Não se atrevendo a entrar, sentaram-se no pátio, em frente da Quando o sol começava a declinar no horizonte apareceu uma mulher montada num cavalo de raça. A cavaleira envergava uma capticha azul, um manto de púrpura bordado, pulseiras com gravações em ouro, e sandálias de prata. Desceu do cavalo em frente deles e logo uma das dezesseis moças pegou na montada pelas rédeas e levoua para a cavalariça. Então a mulher avançou para Bran, que nela reconheceu aquela que lhe levara o ramo de macieira de Emain e depois o fizera ouvir a música das fadas. «És bem vindo, ó Bran, filho de Fébal», disse ela. «Há muito tempo que eu aguardava este momento. Foi a esperança de te receber nesta ilha que me levou a ir visitar te na tua fortaleza. Os teus companheiros são também bem vindos por terem tido a coragem de te acompanhar nas tuas longas aventuras por mar. Pois não é realmente fácil descobrir esta terra em que reino só, em paz e harmonia, sem mágoas, tristezas ou doenças. Mas agora que aqui estais, entraí nesta casa.» Após entrarem na casa, Bran e os seus companheiros tomaram banho em grandes banheiras que estavam preparadas para eles. Depois, a rainha sentou-se com as suas dezesseis companheiras ao redor num lado, enquanto Bran ficou no lado oposto com os seus dezesseis companheiros à sua volta. Levaram a Bran um prato de prata cheio de manjares requintados e um copo de vidro cheio até cima de um licor muito saboroso. Serviram também urn prato e um copo a três dos seus companheiros. Quando acabaram de comer e de beber, a rainha levantou-se e disse: «Como vão dormir os meus hóspedes?» «Como te aprouver», disse Bran. «Pois então», disse a rainha, «que cada um escolha a mulher que tem diante de si e a leve para a cama consigo.» E porque na casa havia dezessete quartos equipados cada um com

um bom leito, os dezesseis companheiros de Bran deitaram-se com as dezesseis filhas da rainha, e ele próprio foi dormir com a rainha. Na manhã seguinte, disse a rainha a Bran: «Fica comigo nesta ilha, ó Bran, filho de Fébal, e jamais ficarás velho. Serás sempre tão jovmi como és hoje, e a tua vida não terá fim. E os prazeres de que desfrutaste na noite passada, desfrutá-lo-ás todas as noites. Fica, pois ja perdeste muito tempo a correr de ilha em ilha entre perigos e grandes, tormentas. «Mas quem és tu afinal?», perguntou Bran. A rainha desatou a rir e disse: «Que importa isso? Já me deram tantos nomes que nem sei qual e o que tenho. Contenta-te em saber que estou do teu lado e que daqui para a frente nada de mal te poderá acontecer. Todos os habitantes desta ilha me respeitam e respeitam os meus hóspedes. Sou a rainha e todos os dias aplico a justiça para que nunca deixem de ter uma vida calma e feliz, sem guerras e sem conflitos de qualquer espécie. Ditas estas palavras, a rainha despediu-se de Bran e saiu para o grande prado existente em frente da fortaleza, para se reunir com o seu povo. Bran e os seus companheiros permaneceram nesta ilha durante os três meses de Inverno, parecendo-lhes que estes três meses tinham durado três anos. Mas, ao fim desse tempo, Neclitân, filho de ColIbran, ficou cheio de saudades. «Estamos aqui há multo tempo», disse ele um dia a Bran, «Porque não regressamos a casa?» «Não sejas inconveníente», respondeu Bran, «pois em lado algum levaremos uma vida tão agradável como a que aqui levamos.» Entretanto, Os companheiros de Bran começaram a murmurar e a acusar o seu chefe, dominado pela rainha da ilha, de não os querer levar de volta para o seu país. «Muíto ama Bran esta mulher», disse German, «e sendo assim, deixemo-lo com ela e regressemos nós à Irlanda.»

Ora, Bran estivera a ouvir a conversa, e disse-lhes: «De modo algum partíreís daqui sem mim. Se realmente pretendeis voltar para o vosso país, e se, mantiverdes esse vosso propósito, ficai a saber que irei convosco, pois o dever de um chefe é estar sempre com os seus companheiros.» Prepararam então em segredo a partida. Um dia, tendo ido a rainha presidir a uma assembléia do seu povo, Bran e os seus embarcaram no barco e navegaram para o largo, mas a rainha, que nesse mesmo instante voltava para a fortaleza, viu o barco afastar-se com Bran e os seus companheiros. Ela foi então a cavalo até à beira -mar, e atirou Um novelo para dentro do barco, agarrando-o Bran e ficando com ele colado à mão. Nessa altura, a rainha só teve de Puxar o fio do novelo para fazer os fugitivos voltarem para o porto. «Porque partís desta maneira?», perguntou-lhes ela. «Ao menos Podíeis-me ter prevenido, em vez de fugirem como ladrões» Como todos abaixaram a cabeça sem saberem o que dizer, Bran acabou por tomar a palavra: «Os meus companheiros queriam rever o seu pais e eu não podia deixá-los partir sozinhos.» «o teu sentimento é nobre, Bran, filho de Fébal», disse a rainha, «mas sabíeis vós que grandes perigos vos esperavam? Se quereis Partir para a Irlanda, podeis fazê-lo amanhã logo pela manhã, mas devo prevenir-vos do seguinte: nunca deveis descer do barco e pôr os pés em terra, aconteça o que acontecer.» Partiram no dia seguinte, depois de se despedirem da rainha da ilha e das suas dezesseis companheiras, e, estando o vento favorável, não demoraram a avistar as costas da Irlanda onde acostaram num lugar chamado desde então o Regato de Bran. Ora, realizava-se então uma grande assembléia na costa, e perguntaram- lhes quem eram.

Comment [NR112]: 1.Trata-se de Brandon Creek, na baía de Brandon, no norte da península de Dingle. Segundo a tradição, foi daqui que São Brandão partiu na sua navegação em busca do Paraíso, o que prova que existe uma profunda ligação entre o mito de Bran e a piedosa lenda de São Brandão. Síntese de duas narrativas: Iniramni Brain (Navegação de Bran), contida em diversos manuscritos, editado por K. Meyer e A. Nutt, com tradução inglesa em The Voyage of Bran; Mailduin, editado por K. Meyer em Zets(hhri,ftjúr Celtische Philologiè, v()[, XIII, tradução francesa de D¶Arbois de Jubainville em L¶Epopée celtique en Irlande, vol. V do seu Curso de literatura celta.

Bran respondeu, mas as pessoas de terra não compreenderam as suas palavras. Ele insistiu, dizendo com toda a exatidão quem era, onde residia, e que reis reinavam sobre o país. «Não conhecemos esses de quem nos falas», responderam elas. Então um velho avançou para a borda da água. «Ouvi contar, na minha infância, que aí há uns trezentos anos, um chefe chamado Bran, filho de Fébal, partiu para o mar e nunca mais voltou. És tu? Pareces-me bem jovem para poderes ser aquele que dizes ser.» «Sou eu, apesar de poderes duvidar da minha palavra», disse Bran, «e os meus companheiros estão aqui para servir de testernunhas.» Naquele momento, Nechtân, filho de ColIbran, não se contendo, saltou para fora do barco. Mas mal os seus pés tocaram na terra ele ficou feito em cinzas, como se tivesse estado sepultado há séculos. Então, Bran entoou um lamento por Nechtân, filho de ColIbran. Depois, após ter contado as suas aventuras às pessoas que estavam ali na costa, despediu-se delas, mandou içar as velas e logo o seu barco desapareceu na bruma. Ninguém a partir dali o voltou a ver, mas toda a gente sabe que Bran, filho de Fébal, se encontra na Terra das Fadas, algures no vasto oceano, junto da grande rainha Morrigane, filha de Ernma.´¶ Um dia, Mider de Bri Leith, das tribos de Dana, decidiu fazer uma visita ao seu filho adotivo, Angus, filho de Dagda, que ele criara e por quem tinha uma grande afeição. Assim, por alturas da festa de Samain, ele deslocou-se até à residência de Angus, em Brug-na-Boyne, e encontrou aí Mac Oc ocupado a observar, numa colina, grupos de rapazes que brincavam na encosta, enquanto Elcmar. irmão de Dagda na colina de Cletech a sul, também observava aquela cena.

A certa altura os rapazes começaram à bulha, e Angus correu para os separar antes que a luta Provocasse sangue quando Mider os fosse tentar pacificar. «Sai daqui!», gritou lhe ele, com medo que Elcitiar descesse e fosse também meter-se no meio daquela confusão. «Elcmar está aborrecido contigo desde que tu o expulsaste de Brug. Eu próprio vou acalmar estes rapazes estouvados!» Angus foi então meter-se no meio dos jovens que se esmurravam e tentou acalmá-los, mas não foi fácil e, no meio da confusão gerada, um dos rapazes atirou uma ponta de aveleira contra Mider, ferindo-o num olho. Então, Mider aproximou-se de Angus, magoado e furioso, mostrando-lhe o sangue que corria do olho. «Era melhor eu não te ter vindo visítar!», gritou ele. «Já estou arrependido da minha viagem, Pois sinto-me humilhado com o que aconteceu! Esta ferida, no entanto, não me impedirá de ver o país em que me encontro, e não estou certo se conseguirei voltar para o meu ... » «As tuas palavras são injustas, ó Mider», respondeu Angus, «e ofendem-me muito. Vou pedir a Diancecht para vir tratar de ti. Ele curar-te-á e poderás depois voltar a ver este país com tanta clarividência como se fosse o teu.» Mac Oc, sem perda de tempo, foi encontrar-se com Diancecht e disse-lhe o que esperava dele. Diancecht acompanhou-o a Brug e tratou imediatamente de curar Mider, cujo olho ficou bom. «Excelente», disse Mider, «poderei agora comprazer-me com a minha viagem, pois estou curado.» «E ainda será melhor», retomou Angus, «se ficares aqui durante um ano, até à próxima festa de Samain. Serás meu hóspede e terás o prazer de visitar a minha terra e de conviver com os meus amigos.» «Eu só fico», respondeu Mider, «se for compensado da humilhação que sofri e da vergonha por que passei.» «E como desejas ser compen sado?», perguntou Mac oc. «Eu só te peço o seguinte: um carro no

valor de sete jovens escravas, um manto a meu gosto e a moça mais bela da Irlanda.» «Eu tenho o carro e o manto que pretendes», disse Angus. «Mas também quero a moça mais sábia e mais bela de todas as que existem na lrlanda», insistiu Mider. «Onde se encontra ela?» «No Ulster. Trata-se de Etaine, filha de Ecliralde, rei do nordeste. Ela é sem dúvida nenhuma a mais sábia e bela moça de toda a Irlanda.» Mac Oc pôs-se a caminho do Ulster e chegou Sem perda de tempo onde residia o rei Ecliraide. Deram-lhes as boas vindas, e ao fim de três noites perguntaram-lhe o que o levava ali, ao que ele respondeu que desejava a mão de Etalne, a filha do rei. «Não a terás», respondeu Echraide, «pois, se ta der, nada mais conseguirei de ti, devido aos teus poderes mágicos. E se a minha filha for desonrada, ninguém das tribos de Dana me quererá pagar uma compensação por isso.» «Garanto-te que isso não corresponde à verdade», disse Angus. «E se te recusas a dar-me a tua filha, posso comprar-ta agora mesmo.» «Assim está bem», disse o rei. «Quanto tenho de pagar por ela?» «o que eu te peço é o seguinte: quero que desbraves nas minhas terras doze planícies que estão cobertas de floresta, para que nelas haja boas pastagens para os meus gados, e para que nelas se construam casas, façam jogos e se realizem assembléias.» «Eu atenderei ao que me pedes», respondeu Mac Oc. Em vez de voltar para casa, ele foi ter com o pai, Dagda, ao qual contou o que se passara. Dagda prometeu-lhe então que o trabalho exígido por Ecliraíde seria levado a cabo e, deste modo, no dia seguinte começou o desbravamento das doze planícies. Findo o trabalho, Angus foi de novo encontrar-se com Echraide e reclamou-lhe a mão de Etaine. «Tu não a terás», disse o rei, «a não ser que transformes

em doze rios tudo o que este país possui de nascentes, de pântanos e de turfeiras de tal modo que as águas possam ir lançar-se ao mar. Assim, serão drenadas as minhas terras que darão peixes em abundância às tribos e às famílias do meu país.» «Isso será feito», respondeu Mac Oc. Foi de novo ter com o pai, expôs-lhe a situação, e Dagda fez com que doze grandes rios se formassem no pais de Echraide antes de se irem lançar no mar em grandes estuários, coisa que jamais se vira até então. Quando o trabalho ficou concluído, Angus voltou a casa do rei Ecliraide e reclamou-lhe a mão de Etaine. «Pelo deus que protege a minha tribo», disse o rei, «ainda não é desta que te dou a mão da minha filha, pois se eu ta desse, amanhã já nada poderia obter de ti.» «Que mais queres então?», perguntou Mac Oc. «Eu digo-te o que pretendo: quero o equivalente ao peso da minha filha em ouro e em prata. Caso consigas trazer-me o que te peço, poderás levar Etaine.» «Terás o que pedes», respondeu Angus. Chamaram a donzela e pesaram-na na casa de Echralde. Então, Angus fez trazer o equivalente ao seu peso em ouro e prata e deu-o a Echralde. «Agora estás satisfelto?», perguntou ao rei. «Acho que já tive de pagar um bom preço pela tua filha, e que eu saiba nunca ninguem pagou um preço tão alto por uma donzela irlandesa.» «Podes levála», respondeu Ecliraíde, «mas lembra-te que és o responsável pela sua honra e pela sua saúde.» Mae Oc levou então Etaine consigo para Brug-na-Boyne onde o esperava Mider. Ao vê-lo, Etaine ficou tão encantada com a sua boa aparencia e com a sua beleza que se apaixonou por ele imediatamente. Mider, por seu lado, ao ver as feições finas da donzela e a elegância do seu corpo, ficou muito bem impressionado e também se apaixonou.

Etaine e Míder acabaram por dormir juntos naquela noite. No dia seguinte, Angus deu a Mider o manto e o carro que lhe prometera, e Míder, aparti de então muito satisfeito, ficou um ano inteiro na companhia do seu filho adotivo em Brug. Concluído este tempo, Mider anunciou a Mac Oc a sua intenção de voltar para a sua própria residência, no outeiro de Bri Leith. «Não posso impedir-te de o fazeres», disse Angus, «mas toma bem conta da mulher que levas contigo. A que lá te espera é muito poderosa e perita em Pois, foi educada por Bresal, um dos druidas mais sabedores das tribos de Dana.» Mac Oc, na verdade, tinha pouca confiança em Fuamnach, mulher de Mider. Ela era a filha de Beothach, do clã de larbonel, e, graças às lições de Bresal, conhecia melhor do que ninguem os sortilégios e sabia lançá-los sobre quem lhe desagradasse. Depois de se ter comprometido a tomar conta dela, Mider partiu com Etaine para o outeiro de Bri Leith, onde foram recebidos por Fuamilach que lhes deu as boas vindas. Em seguida, ela contou ao marido o que se passara nos seus domínios enquanto estivera ausente. «Vem, Mider>, disse ela, «para que eu te mostre a casa e as extensões de terra que possuis, e para que a filha do rei possa contemplar as tuas riquezas.» Mider fez então uma ronda completa pelos seus domínios e Fuamnach mostrou-lhe, assim como a Etaine, tudo o que fora feito ao longo do ano. Depois, levou-os para casa e fêlos entrar no quarto onde dormia. «Só mulheres nobres têm acesso a este quarto», disse ela a Etaine, «e fica a saber que agora podes dispor dele à tua vontade.» Mas logo que Etaine se sentou na borda da cama, Fuamnach bateu-lhe com uma varinha de aveleira púrpura e transformou-a numa poça de água que se estendeu por

toda a casa. Feita a malvadez, Fuamnach saiu o mais depressa possível dali e desapareceu da fortaleza para se refugiar na residência do seu pai adoptivo, o druida Bresal. Entretanto, o calor da lareira e do ar, e a fermentação do solo, atuaram de tal forma sobre a po de água espalhada ça pela casa que ela se transformou num verme, o qual pouco depois se tomou uma mosca purpura. Esta mosca tinha uma cabeça humana, e jamais no mundo se vira um inseto tão belo como aquele. O som da sua voz e o zumbido das suas asas produziam uma música mais suave ainda que a das harpas e das gaitas de foles, e os seus olhos brilhavam como pedras preciosas na escuridão. O perfume que dela emanava era tão agradável que fazia passar a fome e a sede a todos os que dela se aproximassem. As gotinhas segregadas pelas suas asas curavam todos aqueles que ficassem doentes ou se sentissem debilitados. Ela acompanhava Mider onde quer que ele fosse, sem jamais o deixar, e ele regozijava-se com a sua presença, pois sabia que Etaine estava do seu lado tendo adquirido aquela forma. Ora, como ele a amava profundamente, nunca se interessou por outra mulher enquanto a mosca esteve com ele, e sentia-se saciado só de a contemplar. Adormecia ao som do seu zumbido, e ela encarregava-se de o acordar sempre que se aproximava alguém cuja presença lhe desagradava. Quando Fuamnach ouviu falar da mosca que tanto extasiava Míder, compreendeu imediatamente que se tratava de Etaine. Tratou então de Ir Visitar Mider, mas Por uma questão de segurança fez-se acompanhar a Brug-naBoyne Por três chefes das tribos de Dana, a saber Dagda, Ogma e Lug do Braço Longo. Mider censurou vivamente Fuamnach e disse-lhe que, se ela não estivesse rodeada de três responsáveis pela sua segurança, a não deixaria partir viva. Ela retorquiu que não tinha nenhum remorso pela ação praticada, que preferia fazer o bem a si mesma do que a qualquer outra pessoa, e

Comment [NR113]: 1. No direito ceita o homem pode ter uma ou mais concubinas, mesmo sendo casado, na condição de a mulher legítima aceitar a pessoa que lhe é apresentada pelo marido. Este concubinato é de ahum modo leal, pois é sujeito a um verdadeiro contrato que protege a concubina: este contrato é válido por um ano e pode ser renovado. É o que acontece neste caso.

que, fosse qual fosse a forma que tomasse Etaine, nunca deixaria de a importunar. E, dito isto, lançando encantamentos que lhe tinham sido ensinados pelo seu mestre, Bresal, desencadeou um vento druídico que envolveu a Mosca num grande turbilhão o a arremessou violentamente para fora da fortaleza de Bri Leith. E o vento era tão forte e terrível que a infeliz Etaine não conseguiu encontrar nem lugar, nem copa de árvore, nem cume de colina, onde pousar durante sete anos, ficando ref m dos é rochedos à beira mar e das grandes vagas que vinham rebentar na praia. Mas, um dia, ela bateu em Mac Oc, quando este passeava no prado que dominava a fortaleza do Brug-na-Boyne, e Mac Oc reconheceu Etaine na forma de mosca púrpura. Ele deu-lhe as boas vindas e, dando-lhe guarida nas pregas do seu manto para a proteger do vento que continuava a soprar, levou-a para o interior da fortaleza. Aí ele colocou o insecto na sua câmara de sol que estava sempre inundada de luz e que continha ervas com multo bom cheiro e Propriedades maravilhosas. E, a partir de então, ele dormia todas as noites ao lado dela e cuidava dela com todo o carinho para que pudesse reaver as suas cores e a suas energias.

Comment [NR114]: 1. Mencionada noutras narrativas irlandesas, assim como o francês da Folie Tri,çta,11, esta «Câmara de Sol» evoca um antigo ritual de regeneração pelo sei. o,a, a cena passa-,se em Brug-na-Boyne, ou seja, no cairn megalitico de Newgrange, o que não acontece por acaso, Com efeito, no soIstício de Inverno. os Primeiros raios de sol penetra o outeiro de Newgrange por uma abertura feita ao cimo da entrada, sobem ao longo do corredor e chegan, à câmara funerária que iluminam com uma assombrosa claridade durante ai-uns minutos. Ora, nesta câmara, encontravam-se bacias de pedra nas quais tinham sido colocados ossos e cinzas, É inegável que se tratava de um rito simbólico do renascimento. O que é digno de nota, neste caso. É o fato de haver urna extraordinária correspondência entre o mito e a realidade arqueológiea. Vide J. Markale, Dolmens el Menhirs, Civifisation Inégalithique, Paris, Payot. 1994.

Ora, Fuamnach, ao ouvir falar dos cuidados com que Angus tratava Etaine, na sua residência de Brug enviou-lhe um mensageiro para lhe pedir que fosse a Bri Leith onde ela própria se deslocaria para fazer a paz com Mider e o seu filho adotivo: se eles aceitassem a proposta de paz, ela devolveria a Etaine a forma humana. Muito satisfeito com aquela proposta, Mae Oc foi logo ao seu encontro. Mas Fuamnach, ao invés de ir para Bri Leíth, foi direita a Brug e, entrando na fortaleza, dirigiu-se logo para a câmara de sol. Aí lançou uns terríveis encantamentos, e o vento druídico, arrebatando o insecto do lugar onde estava, pô-lo a errar por cima da Irlanda. Depois de suportar muito frio e muita chuva, a mosca acabou por cair em estado de grande fraqueza no tecto duma casa onde homens e mulheres do UIster se preparavam para começar a beber. Etaine estava de tal modo subnutrida e debilitada que adq uirira a forma de uma mosca normal, e foi naquele estado que, passando através do buraco da chaminé, entrou na taça de ouro que a mulher de Etar, um dos campeões do UIster, segurava numa das mãos. Esta, sem dar por isso, engoliu com a -a bebida e ficou grávida naquela noite, dando à luz, nove meses depois, uma moça chamada Etaine, filha de Etar. Entretanto, Mider e Anger, tendo estado à espera de Fuamnach sem que ela aparecesse, tinham ficado preocupados. «É evidente que ela nos fez cair numa armadilha», disse Mae Oc. «Se ela souber que Etaine está em minha casa, é capaz de lhe ir fazer mal. Devo por isso regressar urgentemente a Brug.» Quando chegou à fortaleza, não encontrou Etaíne na câmara de sol. Compreendeu então que Fuamnach ali estivera e que de novo desencadeara um vento druídico para levar o insecto dali para fora. Furibundo, partiu então no encalço de Fuamnach e encontrou-a precisamente no momento em que ela se preparava para entrar na casa do

druida Bresal. «Maldita mulher!», gritou ele. «Serás castigada pelo crime que cometeste, pois não posso admitir que tenhas desonrado e posto em perigo a mulher por quem sou responsável!» E, atirando-se a ela, cortou-lhe a cabeça e voltou depois para Brug-na-Boyne levando aquela consigo. Etaine, por seu lado, foi criada com todo o carinho por Etar em Inber Cichmaine, onde estava rodeada de cinquenta filhas de chefes. Etar dava-lhes de comer e vestia-as para que pudessem estar constantemente a tomar conta de Etaine. Esta cresceu cheia de sabedoria e de beleza, e todos os homens do UIster elogiavam as suas qualidades e o seu encanto. Um dia, quando as jovens se banhavam no estuário, viram um cavaleiro que, saindo das águas, se dirigiu para elas. O cavaleiro montava um cavalo escuro muito ágil, imponente e grande, com a crina e a cauda frisadas. Cobria-o um manto verde cujas dobras muito largas, com um broche de ouro saliente, caiam sobre uma camisa fina ornada de bordado vermelho. Segurava na mão uma lança de cinco pontas inteiramente guarnecida de ouro, e ao ombro trazia um escudo de prata bordado a ouro, Uma fita prendia -lhe os cabelos louros para impedir que eles caíssem sobre o rosto. Ele deteve-se diante das donzelas e entoou-lhes um canto estranho que elas não compreenderam, embora tenham ficado encantadas com a beleza do cavaleiro e se tenham logo apaixonado por ele. Apesar disso, ele deixouas, ficando elas sem saber de onde viera e para onde ia aquele que era Mider e que viera de Bri Leith para contemplar Etaine, pois jamais ele a esquecera e jamais a amara tanto como agora. Naquele tempo, o rei supremo da Irlanda era Eochaid Airem, filho de Fimi. Ora, naquele ano que se seguiu à sua

subida ao trono, ele mandou que se anunciasse por toda a Irlanda que em Tara se realizaria um festim durante a festa de Samain. Todos os nobres e reis dos Filhos de Milé deveriam aí deslocar-se, pois aproveítar-se-ía aquela ocasião para Se tratar de negócios e para se fixarem os impostos que deveriam ser pagos ao rei supremo. Mas os homens da Irlanda responderam que não iriam ao festim de Tara enquanto o rei que os convocava não tivesse urna esposa digna de si. Na verdade, Eochaid Airem não era casado, e não havia chefe ou nobre da Irlanda que não honrasse o festim de Tara tendo uma mulher a seu lado. Eochaid enviou então os seus servos e os seus mensageiros a todas as províncias em busca de uma mulher que fosse digna do rei supremo. Quando voltaram, os enviados disseram-lhe que tinham encontrado apenas uma mulher que correspondia exactamente ao ideal que ele perseguia: Etaíne, filha de Etar, no UIster. Na esperança de a ver, o próprio Eochaid Airem se deslocou então ao lugar onde lhe tinham indicado que estava a moça e, ao atravessar um vale verdejante, viu uma donzela junto a uma fonte, Com um pente de prata magnífico a sobressair de enfeites dourados, ela lavava-se num tanque de prata ricamente ornamentado com quatro pássaros de ouro e pedras preciosas. A donzela estava vestida com um belo manto púrpura claro, tendo broches de prata e um alfinete de ouro a cintilarem sobre o peito. Cobria-lhe o corpo uma camisa comprida de seda verde bordada a ouro, com ouro e prata acolchetados, e o sol derramava tons maravilhosos pela roupa que trazia vestida. No alto da cabeça tinha duas tranças douradas, e quatro ganchos mantinham-nas separadas, havendo uma pérola de ouro no alto de cada uma delas. Naquele instante a moça soltava os cabelos para se lavar e, segurando-os com as mãos, em seguida fê-los caírem sobre os seios. As mãos eram mais brancas que a neve

nocturna e as maçãs do rosto mais vermelhas que uma dedaleira púrpura. A boca era fina e sem defeitos, e os dentes brilhantes como pérolas. Os olhos eram mais cinzentos que o jacinto. Vermelhos e finos eram os lábios, leves e suaves os ombros, ternos, doces e brancos os braços. Os dedos eram longos, magros e brancos. As unhas eram muito belas, de um vermelho pálido. O ventre era feérico, mais branco que a neve ou a espuma do mar. As coxas eram macias e brancas, a barriga da perna estreita e muito elegante, os pés finos, imaculados e brancos; os calcanhares eram muito bem torneados e delicados, e muito brancos e redondos eram os joelhos, Eochaid Airem, maravilhado com toda aquela harmonia, aproximou-se da donzela e cumprímentou-a, tendo ela correspondido ao seu cumprimento. Depois, ele perguntoulhe quem ela era, e ela respondeu que era Etaine filha de Etar, campeão do UIster. «Donzela, queres casar comigo¶?», perguntou-lhe ele. «E quem és tu?» «Eu sou Eochaid Airem, rei supremo da Irlanda, e vim pedir-te em casamento.» «Não devo ser eu a dar-te uma resposta, mas sim o meu pai». disse ela. O rei foi logo encontrar-se com Etar, e este concordou em lhe dar a filha se ele tivesse um bom dote para lhe dar. Eochaid deu-lhe sete jovens escravas e uma magnífica manada de vacas brancas, e levou Etaine para Tara. Ao saberem que o rei arranjara uma esposa, os homens da Irlanda foram ao festim de Tara. Chegaram quinze dias antes do Samain e permaneceram quinze dias depois de terminado o festim. Ficaram espantados com a beleza e a elegância de Etaine e não paravam de a elogiar, dizendo que nunca um rei da Irlanda tivera uma mulher tão perfeita. Entretanto, Eochaid Airem tinha um irmão que se chamava

Ailill Anglonnach. E quando este viu Etaine pela primeira vez, no festim de Tara, apaixonou-se imediatamente por ela. Não parava de a contemplar e de suspirar, de tal forma que a mulher acabou por lhe perguntar: «Para quem olhas, ó Ailill? Só o amo¶* Pode suscitar olhares tão profundos e suspiros como os teus!» Ailíll, muito envergonhado, recriminou-se a si mesmo e evitou daí em diante olhar para Etaine. Mas, tendo partido os homens da Irlanda a seguir ao festim de Tara, Ailill pelo contrário deíxou-se ficar, sendo acometido de um estado de grande fraqueza devido ao ciúme, a inveja e ao despeito que o minavam. Preocupado com ele, Eochaid Airem, o seu irmão, mandou chamar o seu médico, Fachtna. O médico auscultou o peito de AffilI, e este suspirou profundamente. «Penso que não estás doente», disse Fachtna. «Tu foste acometido do que me parece ser uma espécie de inveja,» Ao ouvir aquelas palavras, Ailill ficou cheio de vergonha e evitou dizer ao médico o que o atormentava, não podendo por isso ser curado. Ora, Eochaid Airem devia partir no seu périplo real pelas províncias da Irlanda, mas Preocupava-o tanto a saúde do irmão que disse a Etaine: <Mulher, trata do meu irmão e presta-lhe toda a assistência que puderes, pois ele parece-me bem doente. E, se Por infelicidade, ele morre, tu mesma faz-lhe a sepultura e escreve o seu nome em ogham na laje neste )ugar.» Tendo incumbido Etaine de cuidar de Ailili, Eochaid começou então o seu Périplo por todas as províncias da Irlanda. Etaine, por seu lado, ia todos os dias à cabeceira de Affill para lhe lavar a cabeça e lhe dar de comer. Mas Affill piorava de dia para dia, e Etaine receava que ele morresse. «Ouve», disse-lhe ela uma noite, «às vezes fico a pensar que a tua doença é provocada por um pensamento que não tens coragem de confessar. Estou certa de que se mo confessares, poderei fazer alguma

coisa para te cura,> <Oh mulher!». respondeu Aiffil, «tu poderias fazer alguma coisa para me curar mas eu não me atrevo a revelar-te a causa do meu mal.» «Diz-me o teu segredo» «Não to direi», obstinou-se AffiL No entanto, ao fim de alguns dias de muita insistência da parte dela, ele decídiu-se a falar, «Se queres saber a causa do meu mal», disse ele, «vou-to revelar: és tu. Desde que te vi pela primeira vez, fiquei de tal maneira apaixonado que deixei de ser senhor do meu coração e dos meus sentimentos. E uma situação bem triste, ó mulher do rei, pois o meu corpo e o meu espírito estão doentes e nada me pode curar a não ser que tu própria me sirvas de remédio. Nem podes imaginar como o meu amor é um espinho dilacerante que me rasga a alma e me destrói todo por dentro! O meu amor, que tem as dimensões da terra inteira e do céu infinito, tortura-me noite e dia e flagela-me a alma que vive no meio de sombras e de trevas! Não podes imaginar como me consumo a lutar contra as sombras que não param de me visitar e de me torturar, ó mulher!» Assim falava cheio de mágoa Ailill Anglonnac, filho de Finn, irmão do rei supremo da Irlanda, Eochaid Airem. E, depois de se ter pronunciado, escondeu o rosto com vergonha por estar apaixonado pela mulher do irmão. «É uma pena que tenhas ficado tanto tempo sem dizer a origem do teu mal», murmurou Etame, «pois poderíamos tê-lo curado há muito tempo.» «Tu poderias curar-me completamente, se o desejasses», disse Ailifi. «Eu quero», retorquiu Etaine. «Esta noite, quando todos forem dormir, vem ter comigo à casa que se encontra fora da fortaleza. Eu estarei lá e farei com que fiques curado.» Aillil teve muito cuidado para não dormir, naquela no ite. Mas, chegado o momento de partir para o encontro, foi visitado por um sono profundo e dormiu até de manhã. Etame, por seu lado, tendo-se dirigido para a casa fora da fortaleza, viu chegar um homem fraco e fatigado, parecido com Ailill, mas ela percebeu que não era ele. «Não foi

contigo que marquei um encontro», disse ela, «mas com um homem a quem prometi curar, pois está muito doente devido à paixão que tem por mim.» « encontro que o marcaste com esse homem não seria conveniente», disse o desconhecido, «e garanto-te que aquele que esperavas amanhã estará curado. Fui eu que o fiz dormir e vim no seu lugar para te poupar à desonra e à vergonha.» «Mas quem és tu?», perguntou Etaine. «Não me reconheces? Quando eras Etaine, filha de Ecliraide, pertencias-me, e desde então nunca deixei de te amar. Tu sabes bem que me chamo Mider de Bri Leith. «Se é como tu dizes, o que é que então nos separou?», perguntou Etaine. «Os artifícios de Fuaninach e os encantamentos do druida Bresal. Não te lembras, ó Etaine, a mais amada e a mais digna de ser amada?» «Lembro-me, na verdade», disse Etaine, «mas tudo isso está envolto numa névoa muito distante, parecendo que sombras aparecem à minha frente sem que eu consiga apreender o seu sentido. E que farás tu para curar Ailill Anglonnach?» «Eu fá-lo-ei passar por um sonho que o levará a pensar que te teve nos braços durante toda a noite. O mulher tão amada, virás comigo?» «E para onde me levas?», perguntou Etaine. Então, Mider entoou este canto: «o bela mulher tão amada, virás comigo para a terra tão amada onde se ouvem músicas, Onde sobre os cabelos se levam coroas de primaveras, onde, da cabeça aos pés, o corpo é da cor da neve, onde ninguém Pode ficar triste ou sentir-se infeliz, Onde os dentes são brancos e as sobrancelhas são negras, onde as faces são vermelhas como as dedaleiras em flor? A Irlanda é bela, mas Poucas paisagens são tão belas como as que verãs na grande planície onde te levarei.

A cerveja da Irlanda é Jorte, mas a cerveja da Grande Terra é ainda mais inebriante. E um país maravilhoso o que já conheces- nele os jovens nunca envelhecem e correm rios de hidromel, nele os homens são encantadores, perfeitos, e o amor não é proibido... O mulher tão amada, quando chegares ao meu pais passarás a levar uma coroa de ouro no cimo da cabeça, comerás porco fresco todo o ano, tomarás cerveja e leite, ó mulher, bela mulher tão amada, virás comigo? «É impossível», respondeu Etaine. «Estou casada com o rei supremo da Irlanda e não o Posso deixar.» «E se eu conseguir que o rei da Irlanda me dê a tua mão, virás comigo?» «Sim», respondeu simplesmente Etaine. Então Mider desapareceu, sem que Etaine soubesse o rumo que ele tomara. De manhã, ela viu Ailill Angloninach vir ao seu encontro com um óptimo aspecto e um olhar radioso. «ó mulher!», exclamou ele, «tu curaste-me, e não sei como te agradecer.» «Eu sei como poderás agradecer-me», disse ela. «Basta que não fales a ninguém sobre o que se passou esta noite entre nós.» Passados alguns dias, Eochaid Airem voltou do seu périplo real pelas províncias da Irlanda. Ao ver o irmão curado, ficou muito contente e agradeceu a Etaine o tratamento que lhe dera. Então, Ailill Anglonnach voltou para sua casa e nunca mais ficou doente. No dia seguinte, Eochaid Airem levantou-se muito cedo e subiu ao terraço de Tara para contemplar a planície que se estendia sob o brilhante sol de Verão. Ao olhar ao redor da fortaleza viu aproximar-se um estranho guerreiro, que vestia urna túnica púrpura e cuja cabeleira loura caía em ondas até aos ombros- o guerreiro tinha os olhos brilhantes e a lança de cinco pontas. No

pescoço contas azuis, e na mão segurava um escudo de prata bordado a ouro e com pedras preciosas nele incrustadas. Eochaid não o reconheceu, mas sabia que aquele homem não tinha estado na noite anterior na sala de festins de Tara. «Bem vindo, guerreiro que não conheço», disse Eochaid- «Eu conheço-te», respondeu o outro. «Tu és Eochaid Airem, rei supremo de toda a Irlanda.» «Tens razão, mas corno te chamas¶» «o meu nome não é muito conhecido entre os Filhos de Milé. Fica a saber que me chamo Mider «E que desejas?» perguntouu Eochaid, «eu sou tigo», respondeu o guerreiro. «Na verdade», «Gostava de jogar xadrez com Mider de Bri Leith.» retorquiu, Sou muito bom no jogo de xadrez, e quando me desafiam para uma parti nunca recuso. Mas a rainha ainda está a dormir, e o tabuleiro e as peças estão nos seus aposentos.» «Não importa», respondeu o guerreiro, «eu tenho aqui um jogo de xadrez que não tem menos valor.» Era verdade o que dizia, pois tinha em seu poder um tabuleiro de prata com cada canto iluminado por uma pedra preciosa. Depois, retirou as peças que eram de ouro dum saco com malhas em bronze, e pousou o tabuleiro sobre o terraço. «Agora podemos jogar», disse ele. «Eu nã jogo se o não houver um prémio», disse Eochaid. «E qual será o prémio?», perguntou Mider. «É-me indiferente.» «Pois bem», disse Mider, «se tu ganhares o prêmio serão cinquenta corcéis acinzentados com as cabeças malhadas e vermelhas, as orelhas pontiagudas, o peito largo, as narinas muito abertas, as patas muito finas e poderosas, fogosas, rapidas, fáceis de atrelar, e também cinquenta rédeas esmaltadas. Se eu perder, os corcéis estarão aqui amanhã à terceira hora.» Os dois homens começaram então a jogar. Eochaid ganhou a partida e Míder retirou-se, levando o jogo de xadrez. No dia seguinte, quando Eochaid andava pelo recinto da fortaleza de Tara, viu Mider

aproximar-se do terraço. Não sabia de onde ele vinha nem como conseguira, satisfeito ao ver que Mider trazia consigo um grupo de cinquenta cavalos acinzentados com as rédeas esmaltadas. Chegar ali, mas ficou muito satisfeito com isso «Está bem», disse ele, «mantiveste a palavra.» «o que é prometido é devido», disse Mider. «Vamos jogar outro jogo hoje?» «Por mim está bem», respondeu o rei, «na condição de que haja um prémio.» «Isso nada tem de mais. Se ganhares esta partida, dar-te-ei cinquenta vacas brancas de orelhas vermelhas, cinquenta porcas com bojo cinzento, cinquenta espadas com protecção em marfim, e cinquenta mantos sarapintados. O que pensas?» «Concordo em absoluto», respondeu Eochaid. Fizeram uma partida, Eochaid ganhou, e no dia seguinte Mider voltou com tudo o que tinha prometido. E assim foi durante vários dias: Mider perdia regularmente, e Eochaid ia acumulando as suas riquezas na fortaleza de Tara. Entretanto, o intendente do rei estava muito admirado com tantos tesouros acumulados em tão pouco tempo. Interrogou Eochaid, e este contou-lhe como ganhava aquelas riquezas. «E muito estranho», disse o intendente. «Aconselho-te a não confiares neste homem, pois pareceme que ele tem poderes mágicos. Na próxima vez, não deixes que seja ele a propor o prêmio. Impõe-lhe tu pesados encargos, e veremos como ele assume as suas responsabilidades. » Assim, quando Mider apareceu no terraço para propor a Eochaid uma nova partida de xadrez, foi este a impor as condições em caso de vencer, a saber, retirar todas as pedras de Meath, construir uma estrada sobre os pântanos de Larriraige e plantar uma floresta no vale de Breifné. «Isso é muito», disse Mider, «mas mesmo assim aceito as

condíções.» Voltaram a jogar e Eochaid ganhou a partida. «Amanhã terás o que pediste», disse-lhe Mider, «mas não deixes que nenhum homem ou mulher saia da fortaleza antes do sol nascer.» «Eu prometo», disse Eochaid, «ninguém sairá da fortaleza antes do nascer do sol.» Mas, ao invés de manter a promessa, o rei mandou o seu intendente ver o que se passava. O homem saiu então da fortaleza e foi observar os movimentos de Mider. Viu uma multidão de homens a trabalharem arduamente na construção da estrada, outros a recolherem pedras, e ainda outros a plantarem árvores. Voltou imediatamente para Tara e contou a Eochaid os grandes trabalhos que estavam a ser feitos durante a noite para que a promessa fosse cumprida. E acrescentou que nunca vira no mundo um poder mágico tão poderoso como aquele que testemunhara. Estavam a conversar quando viram aproximar-se o grande guerreiro de cabelos louros e de olhos azuis. Tinha um cinto à volta do tronco e parecia furioso. Eochaid ficou um pouco assustado, mas deu-lhe as boas vindas. «Pouco me importam as tuas gentilezas», respondeu Mider com aspereza. «As tarefas que me pedes para executar e as exigencias difíceis, Eu estava realgências que me fazes são demasiado duras de cumprir o combinado para te agradar, mas tu mente na disposição, acalma-te», disse o rei. «Eu tentarei ser abusas da situação.» «Vamos ao jogo?», pedirei algo mais compreensivo na proxima vez». «Fazernos Outro perguntou Mider. «De boa vontade», respondeu Eochaid- ¶<Mas qual será o prémio?» «o que decidir o vencedor», disse Mider. «Eu aceíto», disse oa vontade para contigo, pois desse modo o rei, «o que prova a minha boa vontade nada fica combinado previamente.» Jogaram novamente, mas, desta vez, Míder ganhou deixando a Eochaid muito embaraçado, «Que prémio desejas?», perguntou. E Mider respondeu, «Quero a tua

mulher, Etaíne, filha de Etar que foi minha mulher antes de ser tua.» «Nesse caso Eochaid acabou Por dizer «Dá-me um prazo» «Eu dou» volta daqui a um dia e eu cumprirei o meu compromisso. Mider partiu, deixando Eochaid numa grande angústia, o rei desconfiava que Mider tinha deliberadamente criado aquela situação catastrófica de que dificilmente conseguiria sair corno vencedor. Entretanto, nao tinha intenção nenhuma de perder Etaine e de a dar a Mider, de tal form que após a muito refletir, resolveu não cumprir com as suas obrigação. Que por esse motivo no dia combinado, Eochaid Aírein reuniu ao seu lado todos os guerreiros da Irlanda em redor, em Tara, a elite dos seus homens, cercando a fortaleza Além disso, Eochaid Providenciou de a forma que a casa onde estava com Etaine ser defendida por horda de tropas, homens armados e determinados a resistir a quem quer que quisesse chegar a rainha. As portas da fortaleza assim poderes mágicos sabia que o homem de grandes chefes e os senhores que rodeavam o rei naquela noite, e servia pois Eocha, não faltaria ao encontro marcado, Etaine As medidas tomadas não impediram, apesar de tudo, que Mider, aparecesse, sem se saber como, no meio da casa. Ele era extremamente belo, mas a todos pareceu que naquela noite estava ainda mais belo do que era habitual, com os cabelos louros, os olhos azuis e o manto ornado com pedras preciosas e um broche de ouro. O coração de Etaine estremeceu ao vê-lo assim, no meio de uma assembléia que lhe era hostil, mas ficou calada, limitando-se a encher os copos de cerveja e de hídromel. Estavam todos estupefatos por ele estar ali, no meio da sala, quando todas as entradas lhe estavam vedadas. Mas Eochaíd avançou para ele e deu-lhe as boas vindas. «Estou aquí», disse Mider, «para reclamar o prêmio

Comment [NR115]: 1. Era evidentemente aqui que Mider pretendia chegar. perdendo partidas sucessivas, o hábil mágico que era capaz de pagar prémios exorbtantes venceu a desconfiança de Echaid e o fez cair na sua armadilha. Em todas as naraumentou a sua rapacidade, Para élic , são apresentados como sendo milito infe,,tivas., os Filhos de Milé, ou Seja, o¶ ga o antigos deuses druídicos que se rioTes à, personagens das tribos de Daiw 11,do estas os s, ou seja, as Fadas da ira~ s, «boqs gCnte tomaram por us,quência, até aos nossos dia t-1 dição popular oral da irianda e da Escócia. oral, se não fosse o com--2, o final desta história poderia considerar-se «II que falta ao prometido, Prlm´ro mandando espia´ depois tentandO `¶ assum¶r os

combinado e se não mo deres perderás a honra.» «Um rei da Irlanda não pode dar a mulher a outro», respondeu Eochaid. «Posso dar-te tudo o que me pedires, mas é impossível que Etaine parta contigo esta noite.» «Tu prometeste-ma», disse Mider, «e deves liquidar a tua dívida perante todos os homens da Irlanda.» «Eu não te darei Etaine», disse Eochaid com um ar muito ríspido. «Não me assustas», respondeu Mider. «Ninguém se pode furtar às suas obrigações e muito menos um rei. Eu próprio não tive de liquidar os compromissos assumidos, apesar de todas as dificuldades por que tive de passar?» «É verdade», acabou por ter de admitir Eochaid, Então Mider voltou-se para Etaine. «Mulher», disse-lhe ele, «é verdade que me acompanharás, se o rei supremo da Irlanda o consentír?» «Sim», respondeu Etaine. «Eu prometi-to.» «Mas eu não ta entrego!», gritou Eochaíd furibundo. «Cometes perjúrio», disse Míder, «e todos os homens da Irlanda são testemunhas de que não tens palavra.» «Apenas consinto que tomes Etaíne nos braços e lhe dês três beijos», disse Eochaid. «Farei então como dízes», disse Mider. Míder segurou as armas com a mão esquerda e, com a direita, envolveu a cintura de Etaine e deu -lhe três beijos. Depois, sem pronunciar uma palavra, fê-la passar por um orifício do tecto desapareceram na noite. Os guerreiros que rodeavam por não terem podido impedilo, ele pertence às tribos de Dana», alguém disse, «e as tribos de Dana vivem nos outeiros da Irlanda. Com certeza ele refugiou-se com a rainha no outeiro mais próximo.» Eochaid partiu então, com a elite dos homens da Irlanda, para o outeiro mais próximo de Tara, do lado oeste, o de Bart Finn. Quando aí chegaram, o rei ordenou que se escavasse o solo do outeiro até se conseguir desalojar os fugitivos. Escavou-se toda a noite, vasculharam-se os mais

recônditos recantos do outeiro, mas não se encontrou nada nem ninguém, pois os homens das tribos de Dana tinham o poder de se tornar invisíveis àqueles que não eram do seu povo. Mas, de manhã, viram aproximara-se uma mulher já velha. «Que procurais vós aqui, homens da Irlanda?», perguntou ela. «Procuramos Etaine, a mulher do rei da Irlanda, que acaba de ser levada», responderam eles. «o homem que foi encontrar-se convosco e que levou a vossa rainha não é daqui», respondeu ela. «Se desejais encontrá lo, deveis dirigir-vos para a resídência de Bri Leith.» Rumaram para norte e, ao entardecer daquele dia, chegaram ao outeiro de Bri Leith. Escavaram o solo toda a noite e de manhã perceberam que todo o esforço tinha sido em vão. Apesar disso, voltaram a escavar durante todo o dia, e, quando o sol já declinava para o horizonte, viram dois cisnes brancos que, lado a lado, se erguiam no céu, Por um instante os pássaros sobrevoaram as suas cabeças e depois, rumando a norte, perderam na bruma. -se A partir deste tempo distante, quando a tarde cai e uma bruma leve sai das turfeiras, ouve-se muitas vezes o canto dos dois cisnes brancos que nadam à superfície das águas calmas de um lago ou de um rio. Têm um canto tão harmonioso que é impossível reter as lágrimas ao ouvi lo, pois é a música das fadas que se eleva no ar por entre os últimos raios de sol. Quando menos se espera, vê-se os dois pássaros levantar voo, sobrevoar por um breve instante na bruma, e desaparecer. E todos sabem que é Etaine, a bela rainha de Tara, que, na companhia de Mider de Bri Leith, rei das Sombras, vai percorrer o céu sobrevoando a Ilha Verde em direção ao país da Eterna onde os frutos são doces, a tristeza e nem a dor existem e onde as árvores têm flores que nunca murcham.

Comment [NR116]: 1. É preciso ter em conta que o nome gaélico «Airem» significa «aquele que trabalha», «aquele que escava o solo». Este fato não é certamente casual, e sabe-se que numerosos cairns megalíticos foram destruídos por sucessivas gerações de agricultores. Por outro lado, uma das versões da lenda defende que Eochaid Airem foi o primeiro irlandês a meter um jugo nos bois para os fazer puxar a charrua.

Comment [NR117]: 1. Síntese de quatro narrativas, todas intituladas Tochmarc Etaine (Courtise d¶Etaine), conservadas no Livre de ia Vache Brune (Leabhar na hUidré), manuscrito do fim do século XI, no Livre Jaune de Lecan, manuscrito do século xiv, e no manuscrito Egerton 1782, Textos publicados em diversas obras, nomeadaniente por Best e Bergin, em Eriu, vol. XII, com tradução inglesa. Tradução francesa de Ch.4. Guyonvarc¶h iriandais, Rennes, 1980 em Textes mYthologiques . Análise de J, Markale, L¶Épopée celtique d¶Iriande, Paris, 1994. A personagem de Etame simboliza a soberania da Irlanda, e aparece nas narrativas mitologicas e épicas com numerosos nomes, tais como Ethné (mãe de Lug), Tailtiu (mãe adoptiva de Lug), Banha, Fothla, Eriu e, mais tarde, no ciclo do Uster, com o nome da célebre Deirdré.

Outra obra de Jean Markale publicada pela ÉSQUILO: O CRISTIANISMO CELTA e as suas sobrevivências populares Como foram os celtas cristianizados? O que é que sobreviveu da antiga religião druídica? É respondendo a estas e outras interrogações que Jean Markale analisa este fenómeno histórico apaixonante que foi a emergência do cristianismo celta. Nascido na Bretanha, na Irlanda e na ilha da Bretanha de uma fusão entre o druidismo e o cristianismo, esta espiritualidade aceita a mensagem de Cristo conservando ao mesmo tempo muitas das características da tradição céltica: Monaquismo, santos heróicos, integração das mulheres no culto, bispos errantes, peregrinações pro amore Dei... Ainda hoje, nas zonas rurais - essencialmente na Bretanha - Jean Markale tem descoberto sobrevivências populares deste cristianismo celta no culto dos santos, assim como nas festas tradicionais e nos santuários. Combatido pela Igreja de Roma - foi mesmo, por vezes, considerado herético - o cristianismo celta influenciou profundamente o conjunto do cristianismo e constitui uma chave fundamental para compreender o «cristianismo português».
N¶ DE PÁGINAS:

248 - FoRmATo: 16X23 Cm - PREÇO: 17,5

XIII. Tradução francesa de Henri tomo V do «Curso de Literatura tin na «Epopée irlandaise», nova Ch.- J. Guyonvarch¶h, «Textes ma coerente o fio condutor desta onológica aparente de múltiplas e diferentes épocas e de assuntos o tal.
11/15/2009 12:23:00 AM

- e pagãs - em honra de Lug, no início do mês de mo «filha de Mag Mor (=grande planície), rei de z talamh (do latim teIlus), que significa «terra». a, em particular a terra da Irlanda. o nome da mãe r, que se tomou o nome oficial da Irlanda, Do Etaine, a heroína de outra narrativa, que é a não usa dos Começos. Esta última tem origens muito m Roma (Anna Parerma), no nome dos rios Don e ta» Ana dos Bretões. NO folclore irlandês, dá o Na mitologia galesa, tornou-se Dôn, a mãe de uma andesas, onde os nomes mudam constantemente, que, como tal, assume diversos aspectos e nomes. s, assim que se simplifica a nomenclatura, as é preciso ter em conta que os irlandeses sempre es para isso de recorrer a etimologias metafóricas

7/6/2008 8:50:00 PM

erra Eduardo I fez transportar para a sua própria ingleses em Westminster. Em vão os escoceses ntre esta maravilhosa Pedra de Fail e o misterioso mo a aventura da conquista do Graal, portanto ao

7/6/2008 8:38:00 PM

utros textos contam que, quando da eleição deste, mais apto para governar a Ilha Verde. Na sua u seja, os irlandeses, a Pedra de Fail foi da abadia de Scone. 7/6/2008 10:49:00 PM

gico que faz com que se esqueçam alguns dos que dizem respeito ao estabelecimento das tribos s filhos de Milé, ou seja, os GaéIs [Gaélicos em o, as gentes das tribos de Dana que residem nos

11/15/2009 3:20:00 PM

da, e percorreu o mar profundo e encapelado m memória de seu pai Ecca e de toda a sua por toda a Irlanda.

to homem Congal que, professando a fé de ser estranho e belo, e Líbane contou-lhe os baptismo, ela aceitou humildemente e pediu orreu Libane, filha de Ecca, que veio a ser

manuscrito do fim do século XI, editado com nny, 187o. Outra tradução inglesa de P. W,

engolida pelas vagas do mar por culpa da Gales encontra-se esta tradição no caso da carregue de vigiar uin poço, que não fechou tradição respeitante ao país de Lyonesse, elas águas parece constante na lenda celta. ao Mito céltico das origens) e, sobretudo A

: na origem, uma sereia é, com efeito, um para os levar para o fundo. Pelo contrário a de serpente e não de peixe). É preciso ter a Idade Média: testemunham esse fato as podem encontrar no exterior da catedral m contraforte, no interior da magnífica igreja o de São Brandão, o Navegador.

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