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A viagem de Tufi

Por Luiz Algarra (Centro Livre Estrela D'Água. Sorocaba - SP)

Não sei como será na próxima vez que eu for ao Acre e não encontrar seu Tufi.
Ele disse que não gostaria que ninguém chorasse, eu ouvi dizer, e não chorei
mesmo. Mas quando eu estiver me aproximando daquela varanda em sua casa
e não perceber que ele virá me receber, com aquele seu sorriso sábio e
inocente, acho que não vou aguentar, e darei mais uma daquelas decepções
pro velho Tufi. Acho que vou chorar sim.

A gente sente mais forte a falta de alguém quando vê o entorno que aquela
pessoa habitava, vazio. O amor e a amizade são assim mesmo. Nossos
amados surgem para nós assim, no ir e vir de todos os dias. Vemos quem
amamos não como um pedaço do mundo, mas como parte integrante de nosso
mundo, mais até, como uma espécie de centro, de sol ou estrela que brilha do
mundo da gente. E quando vemos este conjunto de mundo todo que nos
cerca, com todas as coisas no lugar do jeito que deve ser, e para nós está
faltando uma, é um problema. Quando está faltando alguém então, é um
mistério. Mas quando está faltando um que amamos, xí, daí é uma baita duma
dor! E quando dói a gente chora, né? Então me desculpe, seu Tufi, se eu
chorar sua falta quando não lhe ver dia desses num lugar onde eu for e você
não estiver do jeito que eu aprendi a ver em mim.

Fiquei imaginando como seria estar no Acre sem o Tufi, e como seria estar no
mundo sem eu conseguir percebê-lo. Difícil imaginar como será nossa vida
daqui prá frente mas consegui imaginar como teria sido minha vida se nunca
tivesse conhecido Tufi Rachi Amim.

Em primeiro lugar, lá no Sete Estrelas, bem no início do meu contato com o
Santo Daime, justamente na metade do hinário de cura da casa, organizado
pelo Luiz Carlos Teixeira de Freitas, quando a gravação mudava de uma voz
feminina com música para a voz do seu Luiz Mendes do Nascimento cantando
à capela uma série de chamados, eu jamais ouviria o hino "Linha de Arrochim",
marcado na página do hinário com suas iniciais T.R.A. Aquela voz estridente e
compassada de Luiz Mendes chamando: "Eu me balanço, balanço meu
Maracá, a força vem para vir nos ajudar." E nem ouviria: "Eu venho de branco,
trazendo o amor, te entrego e remédio e levo a tua dor". Aprendi muito nestes
hinos.

Em segundo lugar eu nunca teria tido, logo em seguida, a oportunidade de
ensaiar meu violãozinho iniciante ao lado do seu Tufi e de seu filho Rachidinho
(que já era enorme), tomando copos de daime e aprendendo a me firmar na
música e nos rogos prá cair sem tombar. Aprendi muito naqueles ensaios.

Depois não poderia ter me hospedado em sua casa como ficamos quando
fomos ao Acre, eu e Maria Regina, pela primeira vez. Em um quarto no fim do
corredor, ao lado do banheiro, bem perto da cozinha onde saboreávamos
tapiocas e tapiocas de hospitalidade acreana. Nem teria estado em sua
varanda, horas a fio, prestando uma atenção enorme à estórias e histórias que
surgiam de Tufi e dos seus valorosos amigos. Aprendi muito naquelas
conversas.

Muito menos poderíamos ter passado a limpo o hinário de Dona Maria Damião,
revisando letras e melodias, em nossa chácara lá perto de Araçoiaba da Serra,
pouco antes de ousarmos fazer pela primeira vez este hinário em nosso recém-
emancipado grupo-semente do Estrela D´Água. Aprendi muito nesta ocasião.

Também não teríamos recebido sua visita aqui no Estrela D´Água, já em
Inhayba, durante a presidência do Osmar e depois também, em suas
orientações sobre os meandros do trabalho de Santo Daime do jeito que o
Mestre deixou, ao que se sabe, pelo que tudo indica, conforme os antigos
dizem, etc Com todas essas ressalvas que ele usava para nos apresentar
pontos importantes da doutrina de modo a não nos melindrar numa relação
professor-aluno, colocando-se humildemente como um estudante das coisas
do Mestre como nós. Só que sempre o soubemos mais adiantado, com mais
tempo de serviço no Alto Santo. Aprendemos muito com todas estas
orientações.

E mais recentemente não teríamos recebido seu apoio e condução na
realização de um dos nossos primeiros feitios (lembra, Ciro?), quando ele ao
nosso lado esteve mostrando um pouco de tudo, da arrumação de cipó e folha
na panela, da postura durante o feitio e até mesmo dando uma mãozinha na
bateção (que para nós ainda era uma enorme novidade). Aprendemos muito
com ele neste feitio.

Tudo isso sem contar mais uma centena de interações que tivemos com Tufi e
sua família, Dona Herotildes, Rachid, Liliam, Leila, Suzy e Lisandra. Em todos
estes encontros só surgiram coisas boas. Sem exagero mesmo, gente, que
você sabem que eu sou de florear mas não de aumentar.

Imaginem então minha vida, nossas vidas, sem tudo isso! Pois é, assim seria o
mundo sem Seu Tufi. Digo seria porque, conforme afirmam os hinos em
relação àqueles que trabalham no replatio desta Santa Doutrina, ele se foi mas
aqui deixou. Deixou o eco reverberante de sua voz sorrindo, louvando,
cantando e rogando. Deixou uma amizade que não é grande nem pequena,
porque amizade não se mede em tamanho, mas em profundidade. Deixou uma
tropa de gente (olha o trocadilho, velho sargento!) orientada firmemente nos
bons princípios da doutrina, conforme o Mestre ensinou. Deixou filhos, amigos,
irmãos e admiradores que irão sentir, aqui e acolá, muito a sua falta e até um
tanto de sua presença sutil.

Bem, ele se foi.

Então este é nosso caminho, não há outro, a estrada é esta. Mas os hinos
dizem que podemos ver e viver tudo isso de um modo diferente. Não sei se há
mesmo esta garantia pois a certeza no que os hinos trazem tem o tamanho de
nossa fé, e a minha tem apenas o meu tamanho.
Mas diante de tudo que é bom, positivo e sincero só me resta dizer, muito
obrigado Seu Tufi, e me desculpe alguma palavra mal escorregada nessa
homenagem que este seu irmãozinho deu de fazer.

Para terminar incluo aqui um video que nos traz um pouco do Seu Tufi para
nós, em seus hinos celebrados num trabalho com sua família:

http://www.youtube.com/watch?v=fu-HdUp9umI

Vou tentar não chorar.

Amém.

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