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Não  é novidade para ninguém que atualmente todo mundo  quer falar de tudo.

 
O  imediatismo das redes sociais torna qualquer assunto um debate público extenso, 
ainda  que,  na  maioria  das  vezes,  este  debate  seja  pouco  aprofundado.  Em  geral, 
essas intervenções  se resumem ou a ofensas e agressões, ou a uma verborragia de 
muitas  convicções  mas   pouco  embasamento.  Esse   cenário  atual  foi  muito  bem 
percebido  e  resumido  por  Nuno  Ramos  durante  debate  na  PUC­Rio em 2015, onde 
disse  nunca  ter visto  tanta  gente  com  tantas  certezas, e que  estava impressionado 
como hoje todos pareciam saber de tudo.  
E  ultimamente  é  assim   que  acontece,  pelo  menos  na  minha  experiência:  
compartilha­se  um  vídeo  ou  um  texto  que contém  idéias  mais polêmicas e logo  em 
seguida  aparece aquele conhecido — que nunca  curte nem compartilha nada  mais 
trivial  postado  no  perfil  —  comentando  agressivamente  no  post.  E  aí,  quando  o 
comentário  é  rebatido de forma madura,  com  embasamento histórico, acadêmico  e 
crítico,  por  meio  de  vídeos,  textos,  depoimentos  e  afins,  a  pessoa  some.  Silencia. 
Isso quando não deleta o comentário. Só que dessa vez foi diferente.  
Começou  como  de  hábito.  O  assunto  da  semana  é  a  babá  obrigada  a 
acompanhar  os  patrões  numa  manifestação.  Gostei  muito  do  vídeo  de  uma  moça 
sobre  o  assunto  e  compartilhei.  Lembro bem  de como terminava: "Não venha  falar 
da  minha  dor,  se  você  não  tem  a  minha  cor."  Passados  nem  dez  minutos  e  a 
postagem recebeu os seguintes comentários:  
 
"​
Bla bl bla mais uma vitima...." 
 
"Nicole  com  todo  o  respeito  este video  é  muito  bla  bla  bla,.... Meu Deus como o povo quer  se vitimizar!  Daqui a  
pouco  vai  aparecer  um  doido  dizendo  que  tem  extinguir  todos  os  brancos   para   assim  terem   oportunidades 
rsrsrs!" 
 

Tudo  dentro  da  agressividade  já  corriqueira  das  redes  sociais.  Já  estava 
pronta  para  argumentar,  mas  aí  me  senti  impotente   e  desconcertada,  tudo 
embaralhou.  Como é que  se explica a discriminação racial para uma pessoa negra? 
Conclamei  amigas  conscientes  e  ativas.  Pessoas  que  pudessem  falar  de  suas 
próprias  vivências,  e  não  apenas  do  testemunho do  outro.  Uma  amiga postou dois 
vídeos interessantes que falam sobre discriminação racial: 
 
https://youtu.be/mtp8iNPuCH4 
 
https://youtu.be/CRQBOxwzwDc 
 
E,  finalmente,  o  comentário  que  faltava,  feito  por  uma  pessoa  da  família  do   meu 
marido: 
 
"O  preconceito  está  na cabeça de cada um... óbvio que tem uns que escancaram, mas o  maior  preconceito  está 
nas leis de cotas, no politicamente correto e etc…" 
 

  Ou seja.  espanhol  e  francês  como  línguas  estrangeiras;  e  piano  e  os  instrumentos  mais  populares  da  orquestra  sinfônica  clássica.  existiu.  A  maioria  pressupõe  a  existência  de  um  padrão.  entre  a  grossa  maioria  da  população.  por  exemplo.  branco.  não  acho  justo  nem  lícito  usar  a  minha  voz  para   contar  uma  história  que  não  é  minha. Das formas mais diversas.Ele  disse  tudo:  o  preconceito  está  na  cabeça  de  cada  um.  uma  desvalorização  da  cultura  e  das  tradições  não­européias.  quando  existem. como violino  e flauta.  e  busquei  como  o  racismo  do  meu  país  influenciou  —  através  da  formação  que  recebi e das minhas  origens  —  minhas  atitudes.  Vou me  repetir.  elas  quiserem.  Aquele  que.  em  detrimento  dos  costumes dos países ocidentais.   Nesse  vídeo  ele  fala  sobre  maioria  e  minoria. ele age.  Um exemplo  bastante corriqueiro  está nas  escolhas das  atividades  extra­curriculares das  crianças  de classe média e alta: balé clássico.   Assim. é verdade.  Essas  pessoas  são  amigas  íntimas  e  eu  estaria  sendo  desleal  em  contar  algo  sem  sua  autorização.  Porém hoje eu vou falar de quem eu sou e do que eu vivi.  Isso também se reflete na atitude de alguns pais e professores  .  O  restante  da  população que aceite  esse modelo  e o copie.  Um bom exemplo  disso  foi  a  repercussão  negativa que  obteve  uma ​ coreografia do Hino Nacional feita  por  alunos  de  uma  escola  pública  de  Cacimba  de  Dentro.  mas  há  um  ​ trecho de uma entrevista  de Deleuze​  em que ele explica muitíssimo bem isso.  Tenho  plena  ciência  de  que meu  relato  é mixo perto dos relatos das pessoas  com  as  quais  eu  convivi  e  convivo.  e  ainda  existe.  ao  invés  de  apenas  reproduzir  um  modelo  imposto.  na  sua.  contar suas experiências.  heterossexual  e  cristão.  farei  dessa página um  canal  para que elas possam dar testemunho do que viveram.  Antes de mais  nada  é  preciso compreender como a discriminação funciona e  porque  ela  existe.  O  preconceito  está  na  minha.  e  vocês logo entenderão o porquê) e aceitasse minhas escolhas e meus gostos.  como  ele  mesmo  disse.  que  para  ele   é  vazio.  As  classes  detentoras  da  cultura  em  geral  repudiam. jazz  e  sapateado;  inglês.  na  Paraíba.  nem  sempre  se  escancara.  na  nossa  cabeça.  Aparentemente  o  senso  comum  só  aprova  alterações  ao Hino com  alguns  gêneros  musicais  e  empreendidas  por  alguns  estratos  da   sociedade.  está  dentro  de  todos  nós.  mas  está  vivo  e  ativo todo o santo dia na nossa sociedade.  todos  buscam  manter sua inclusão  na  sociedade  a  partir  de  uma  negação daquilo que os  distancie  daquele  modelo.  E  é  verdade.  Entretanto.  marginalizam  e  desmerecem  manifestações  culturais  que  provenham  de  camadas  da  sociedade  consideradas  inferiores  e  por  isso  desautorizadas  a  produzir   cultura  a  partir  de  seus  próprios  elementos.  e  como  a  consciência  de  sua  existência  permitiu  que  eu  mudasse  meu  modo  de  pensar.  são  exceção.  meus  sentimentos.  desde  a  infância. após  lerem  esse  texto.  pois  estamos  todos  sempre   em  devir.  me  aceitasse  (sim.  no  Brasil. Se.  E  o  padrão   da  nossa  sociedade  hoje  é  ser  homem. mesmo que não se sinta representada  e nem  se identifique.  ex­colônia  de  Portugal.   Aulas  de  capoeira  e  hip­hop.  Repassei  então  toda  a  minha  vida.  anonimamente  ou  não.

 p.  Em  suma.  Minha  empregada é negra.   Eis  abaixo  a  única foto que tenho deles.  seu  povo  e sua cor são ruins  e  indesejáveis. 202)     Mas  enfim.)  fiz  jardim   de  infância  ainda   em  Belo  Horizonte." (In:  HOLLANDA;  PEREIRA. sua  mãe foi a escrava  Emboava.  a  mensagem  que  nos  foi  passada   é  a  de  que  a  África.  a  não ser que abdiquem de suas  raízes  e se "embranqueçam"..  Quem nunca  ouviu a famigerada frase:  "Não  sou racista.da  rede  pública  de  ensino.  e  de  Brasilina  e  Joaquim  Alvarenga.  fiz  escola  primária  e  passei  por  aquele  processo  que  eu  chamo  de  lavagem   cerebral   dado  pelo  discurso  pedagógico  brasileiro;  porque na  medida em que eu  aprofundava  meus  conhecimentos.  suas  culturas..     .)  Na faculdade  eu já era uma  pessoa de  cuca.  dentro  do sistema. como já  afirmava Lélia Gonzales:    "(. eu rejeitava  cada  vez  mais a  minha  condição  de  negra. (.  pelo  que  me  contaram.  quando  se  negam  a  ensinar   e  debater  sobre  a  cultura  dos  povos  africanos.  em  geral  sob  alegação  de  que  suas  religiões  seriam  demoníacas.. 1980. Tolera­se  a  convivência com  os negros pela  conveniência  da  exploração.  já  perfeitamente ​ embranquecida  ​ (grifo  meu)." Mas  a eles não foi e não é concedida  a inclusão.  Brasilina  Dias  era  filha de negra e  índio.  E  João  era  filho  de  portugueses.  quem  sou  eu  e  que  parte  tenho   nisso?  O  que  esse  padrão  significou para mim e como fui afetada por ele?    MÃE    Por  parte  de  mãe  sou  bisneta  de  Brasilina  e  João  Dias..

  se  casou  com  meu  avô  Juca.  provavelmente  também descendente dessa mistura bem ​ à la​  Casa Grande e Senzala.   .  Brasilina e João Dias    E  a  filha  deles.  Rosalina.

 já não estão mais entre nós para contar.  numa  conversa  comigo sobre o  assunto.       .  Mas  minha mãe  (filha do  Juca  e  da Rosalina  da  foto acima).   E essa é a brevíssima genealogia do lado materno da minha família. E não há como saber.  Sem  entender  o   porquê. se lembra de  ter  dado  graças  a  Deus  por  não  ter  nascido  negra.  Juca e Rosalina    Para a maioria  dos  brasileiros. e  acho  que elas  próprias  nunca se  questionaram  sobre  isso  ou  sobre  como  isso  influenciava  seu  papel  numa  sociedade  que   privilegia  quem  segue o padrão. relatou que quando ainda era muito pequena.  essas  pessoas que  acabei de  apresentar são  consideradas  brancas.  ela  sentia como se estivesse livre de uma desgraça.

  recolhendo  documentos. filho deles.  afinal  o  imigrante  traz também para o  país seus costumes e tradições.revistadehistoria.br/secao/artigos­revista/os­outros­somos­nos  .  Nicola  era  italiano.  investigando. Abaixo seguem alguns links sobre o assunto:    http://www.      José Marcello     Sabe  aquela  história  que  te  contam   os  livros  de  História.  e  Luiz  e  Júlia  Fonseca.pdf    http://www.  lá  pelos  idos de 2010.  Em  busca no  Google  pelo  termo  "Sociedade Promotora  da  Imigração"  podemos ter  uma  idéia  melhor  de  como  a  imigração  européia  no  Brasil  tinha  por  finalidade  um  "branqueamento"  da  população  e  da cultura.PAI    Por  parte  de  pai   sou  bisneta  de  Nicola  Marcello  e  Maria  Schmidt.  E encontro  textos falando  sobre a intenção do governo brasileiro de "branquear" a população brasileira através  do  incentivo  à  imigração  de  europeus. pesquisando  as  origens  da  minha  família.  sobre  como  os  imigrantes  italianos   e  alemães  vieram  para  o  Brasil  a  partir  de  meados  do  século  XIX para tapar  o  buraco  que a mão de obra escrava deixou após  a abolição? Isso é  em parte verdade.  em  sua  maioria  do  Vêneto.br/proin/download/revista/revista_seminarios3_imagemimigrante.  da  Campania. Abaixo coloco uma foto do meu avô.  região próxima à Áustria.  sobretudo  alemães  e  italianos.  E  Maria  Schmidt  filha  de  colonos  alemães.   O  que  eu  não sabia sobre a história  do  meu  país.  Eis  que  estou  eu.com. Em parte.usp.  com população de pele e olhos claros.  a história da minha família  foi  me  contando.

  brasileiro? Ela nasceu no Brasil. foi obrigada a casar com meu bisavô Nicola.       Minha avó paterna  .  correu  para  verificar  a  situação;  havia  rumores  de  que  estariam amasiados.  casavam­se  entre  si. Emilia.  Só  que  o  pai  não  autorizou:  ele  era  brasileiro.  Casou­se  longe   dos  olhos  da  família.  ele  me  disse que  sua  mãe.  Meu avô se casou com uma nordestina.  meio­irmão  do meu  avô.  Tio  Jurandir  ainda  enfatizou  o  paradoxo   da  situação:  "Olha que  absurdo! Como  assim. natural de Goianinha."   Mas  tudo  indicava  que  a  comunidade  italiana  do  Oeste  Paulista  pensava  assim.com. Rio Grande do  Norte.  Uma  mulher  fora  do  padrão. mas ela é branca!"  Me  pergunto  se  minha avó teria sido  tão  bem  aceita  pela  família do meu  avô  se ela fosse a nordestina da imaginação deles e não essa senhora da foto abaixo.webnode.  http://historiasdomeuavo. Sabe qual a primeira frase que disseram ao conhecê­la?   "Gente. Já era todo mundo brasileiro.  A  maioria  daqueles  imigrantes  mantinham­se  fechados  em  suas  comunidades.br/news/o­brasil­no­seculo­xix/    Quando  obtive  todas  aquelas  informações  comecei  a  perceber  como  a  política  imigratória  influenciou  minha  família.  que.  quando  ficou  sabendo.  Lembrei­me  então  do  dia  em  que  conversando  com  o tio Jurandir. mesmo  gostando  de  um  outro  rapaz.

  de  classe  média  e  alta).  de  muito  choque  cultural. de que  um  conhecido tinha "calcanhar de preto".  numa  atitude  que  minha  mãe  achava muito desrespeitosa  com a  minha  avó.  racismo  de  verdade. Senti um alívio.  não se considerava racista.  Não  tem.  E  tenho  quadris   largos.  Não  sei. era? Perguntei.  Estávamos  todos  vendo  televisão  e  surgiu  a  conversa. E  ficou  ele  e  minha  mãe. Não. o negro e o hispânico.  Eu  e  minha  irmã  descobrimos  a  diferença  na  escola.  entre  nós.  onde  diziam  que  as  pessoas  não   deviam  se  miscigenar.  quando  a  questão  do  racismo  era  abordada  no  colégio  (particular.  Minha  condição  de  estudante  intercambista  me  deixava  imune  à  discriminação a qual os mexicanos ilegais eram submetidos.  Na minha  casa  eu saí  como  minha  mãe.  sou morena de cabelos  castanhos  bem  escuros. A conclusão era a de no Brasil não tinha muito racismo.  onde  havia  segregação  racial  e. que é  praticamente todo mundo que vem da América Latina.  E  riam  muito  com  minha  fúria.  assim  como  os  meus  ancestrais. queria ter a pele bem branca.  quando  mostravam  capturados  pela  polícia  por  algum crime:  "Olha lá!  Tudo  branquinho!"  Mas por algum motivo ele não era racista. Eu  devia  ter  uns  treze.  E  com  uma  semana  de  praia  fico  muito. E eu segui até um ponto da minha vida sem  me  questionar. Não  me  sentia feliz  com a  minha  aparência.  Fazia  dieta e não tomava sol.  Me  lembro  bem  que  numa  noite surgiu a questão do "calcanhar de preto".  portanto." Ele respondeu: "Filha. E para completar fui morar no  Mississippi.  não  me  lembro  como.  Quando  voltamos  do  primeiro  dia  de  aula  minha  irmã  falou:  "Pai.  Ele  me  respondeu  que  era  um  calcanhar  de  pele  grossa.  Elogiava  abertamente  as  mulatas  sambando  na  televisão. acho  que  como  todo  adolescente. E o meu.  juntava­se  agora  o  medo  de  ser  rejeitada  como  estrangeira.  catorze  anos. E  foram os dois que educaram meu pai. não era." Era a tia Maria: porteira e servente do colégio.    EU    Que  se  casou com a minha mãe.  Na  adolescência  passei  a  sentir  que  não   era  branca  o  suficiente  para  o  padrão.  Tem.  O certo é 'de cor'.  Minha  mãe  e  meu  pai  diziam  que  era  o  meu  balacobaco.   Mas  meu  pai fazia  questão de mencionar a cor das pessoas pejorativamente.  o  debate  se   limitava  a  comparações  com  os  EUA  e  a  África  do  Sul.  esbranquiçada.  Fui  fazer  intercâmbio  nos EUA e lá a coisa funcionava assim: tinha o  branco. não fale assim que é feio.  Até  que eu perguntei  o  que  era  esse  tal  calcanhar.   .  Foi  um  ano  difícil.  Mas  foi  com ela que ele se casou.  Alguém  fazendo  barbeiragem  no  trânsito?  "Olha  a  cor!  Tinha  que  ser!"  Nos  telejornais  sensacionalistas.  tem uma  tia  preta  na  escola.Me  pergunto  se  meu  avô  se  considerava  racista.  Tem.  mas  muito  bronzeada.  Não  queria ser morena. Ele dizia que para ele eram todos iguais.   Já  mais  velhas. E à vontade de corresponder ao padrão ideal para a família. Não tem.  mas acho  que  mais assisti  à  discriminação do que  fui  vítima  dela.

 mas não tanto. esse relacionamento  gerar  um  filho.  Tanto  na casa dos  meus  pais.  onde  tudo  é  muito  mais  complexo. Como ouço  até  hoje.  Os  mais  velhos  (e  os  mais  novos)  todos  escandalizados  pelo  despautério  que  era  o  "tigrão"  e  "passar  cerol  na mão e pegar pela  rabiola".  vimos  um  outro  grupo  perto da piscina. menos  a cor.  né?  Parece  que  estão  recebendo  santo.  quando  tive  a oportunidade de estudar com  Claudia Lage na "Estação das Letras".  E  percebi  que  o  racismo  no  Brasil  opera  uma  segregação  silenciosa.  ao  mesmo tempo.  estavam  lá  às  dúzias.  não  quis  mais  rejeitar o funk.  me  mudei  para  o  Rio  e  me  casei. percebendo  o  mundo  à  minha  volta. E  aquela  batida  forte.  Mas  a  partir  daquele  dia.  O  ritmo é  algo de  dentro.  e  era  só  o  que  se  falava  por  causa  de  suas  letras  desbocadas.  me  dava  vontade  de  dançar.  Devia  ser  2006.   Essa  segregação  fica  flagrante  quando  alguém  de  uma  família  branca  começa  um  namoro   com  um  negro.  percebendo  o  quanto  o  mundo em  que eu vivi foi.  Mas  se  fosse  para  determinar  um  momento  de  virada  em  que  eu  compreendi  que  não  deveria  mais  me  isolar  da   luta  contra  a  discriminação  racial.  "empacotadoras:  de  côr  ou  não".  independente  do  que  falava. A música estava alta.  Ouvi  os  testemunhos  escabrosos  de  pessoas  que  passaram  por  muita   discriminação  e  vi  que  a  distribuição  do  trabalho e da renda é  sim  muito  desigual. Era amoral  e indecente.  Por  trás  de  um  discurso  de  que  existem   oportunidades  iguais  para  todos.  O  novo  namorado/a  de  repente  tem  todos  os  defeitos.  esse  momento  foi  quando  assisti  à  novela  "Lado a  Lado". E  conheci o Rio  de  Janeiro.  quando a mulher do  aniversariante chegou  para mim e  falou:  "Coisa  horrível.  acaba  por minar o relacionamento.  por acaso. Ouvia.  Mas  sem tomar partido. E começa uma operação dentro da família que.  que  não exiba  sua ascendência "condenável".  Aos  poucos  fui  ouvindo  pessoas  ao   meu  redor.   O  tempo  passou. os parentes  vão torcer muito por uma  criança bem branquinha.  Anúncios  como.  E. muito injusto com as pessoas que estão fora  do  padrão.  E  as  coisas  foram  mudando.  E  passei a dançá­lo  em  algumas festas de  casamento e  aniversário.  Quando  eu  e  meus  amigos  saíamos. rejeitávamos o funk. e é até hoje.    .  que  ele  mexia  comigo  e  qual  o  significado  de  tudo  isso. Eu fiquei olhando um pouco para  aquelas  pessoas dançando."  Concordei.  sem  explicação.  como  entre amigos no Rio.  Me  lembro  do  dia  em  que  percebi  que  renegava  o  funk.  um carioca. normalmente.  que vai além do explicável.  Era  2001  e  o  funk  já  tinha  se  espalhado  pelo  Brasil.  descobri  lendo  jornais  da  década  de  1970  que  os  anunciantes  dos  classificados  de   emprego  da  época  se  reservavam   o  direito  de  escolher  abertamente  a  cor  de  seus  empregados.  E  se.  alguns anos  depois.   Fui  aprofundando  minhas leituras  e.Daí eu voltei  e  comecei a  namorar  meu  marido. dançando funk.  Estava  em  uma  festa  de  aniversário  num  clube  da  Tijuca.  de  Claudia  Lage e João  Ximenes  Braga.

 Se eu sofro algum tipo  de violência. provavelmente  seria considerada "usuária".  para  poder  ser  tolerada.  Carlos  Alberto   M.  Heloísa  Buarque;  PEREIRA.  Assumo  quem  sou  e  do  que  eu  gosto.  Isso  mesmo. não  vão  nunca me  negar  uma  vaga  de  emprego  porque  não  possuo  o  "perfil"  da  empresa.  Minha  análise  pode  parecer  horrível.  Quando  jogam  pedra  na  mãe­de­santo.  não  sofro nenhum tipo  de  preconceito:  posso  andar  de  bermuda  e  chinelo  sem  levantar  suspeitas.  em  suma.  de  poda.  Ou  seja.  como  bem  disse  o  primo  do  meu  marido.  Mas  sei  também  que  a  história  da  minha  família  me  coloca  numa  posição  na  sociedade  onde  não  sou  considerada  negra  e.  e  dificilmente  serei  discriminada em  estabelecimentos comerciais  pela  minha aparência.  ​ São  Paulo: Brasiliense. pedem justiça.  está na  cabeça  de  cada  um.   tolerada. para que  eu  me sentisse  mal  por  me  bronzear.  cruel  e   irreal.  quando  você  torce o  nariz para o baile funk.  a  cultura  do  negro é marginalizada. pp. para o cabelo dread do sobrinho.O  racismo  também  engloba  discriminar toda uma cultura considerada fora do  padrão.  a   música. Se fosse pega  portando  drogas.  por  isso.              . para a moça que sentou ao  seu lado  de turbante ou  com o cabelo crespo muito bem arrumado sem alisar. 1980.  destruir  a  auto­estima do negro é fundamental para o racismo.   mas  para  mim  foi  importante  para  que  eu  tomasse  consciência  do  racismo  existente  no meu  país.  E  cobro  sim.        HOLLANDA.  ter  quadril  largo  e  gostar  de  funk. Você  não  precisa  gostar.  As  vestimentas.  Entrevista  com  Lélia  Gonzales  1979.202­212. Mas  se  pergunte  antes  o  porquê  do seu  incômodo.  a  religião. e  assim  agir  contra  esse  mal   que.  In:  ​ Patrulhas  Ideológicas:  arte  e  engajamento  em  debate.  nem  usar  nada  disso.  as  comidas.  que  as  pessoas  têm  que  respeitar. Por que será que você menospreza tudo isso?   Hoje  eu  vejo  que  o  racismo  agia em  mim. ou então precisa  passar  por  uma espécie de  pasteurização.