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OBSERVADOR POLÍTICO
Luiz Werneck Vianna

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SUMÁRIO
2015
1. A grande transformação (7 jun.)
2. As marcas de origem e a crise atual (3 maio)
3. Um outro mundo é possível (5 abr.)
4. Dois meses que duraram séculos (1º. mar.)
5. O segundo governo Dilma. Guinada à direita? Não! Um cavalo de pau (IHU On-Line,
15 fev. 2015)
6. O governo está perdido e confuso. A situação é preocupante.
7. O som ao redor (1º. fev.)
2014
1. Relatos selvagens (23 dez.)
2. Dilma, o minotauro e seu labirinto (7 dez.)
3. Sair da confusão (13 nov.)
4. Plebiscito sobre reforma política jogaria o país num labirinto (Época, 31 out.)
5. O moderno, o atraso e a esquerda (18 out.)
6. A sucessão presidencial e seus riscos (20 set.)
7. Sobrenatural de Almeida e a sucessão presidencial (19 ago.)
8. O futebol e a política (19 jul.)
9. O “grande número” e a política (22 jun.)
10. O vinho novo e os velhos odres (17 maio)
11. Está esquisito (26 abr.)
12. A Copa e o estado de coisas que aí está (30 mar.)
13. O reino dos interesses e a política (24 fev.)
14. Este ano não vai ser igual àquele que passou (26 jan.)
2013
1. Modernização periférica (22 dez.)
2. Por que não dá certo? (27 nov.)
3. O poder, esse sedutor (O Estado de S. Paulo / Aliás, 24 nov.)
4. No tempo dos embargos infringentes (30 set.)
5. Razões para um mundo fora do eixo (25 ago.)
6. Aladim e o gênio da garrafa (28 jul.)

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7. A busca por reconhecimento e participação política: o combustível das manifestações
(IHU On-Line, 19 jun.)
8. O movimento da hora presente (18 jun.)
9. As aparências e a política (26 maio)
10. A razão é astuta nos trópicos? (30 abr.)
11. O mundo gira e a Lusitana roda (24 mar.)
12. 2014 à vista (16 fev.)
13. A triste sina da democracia (27 jan.)
2012
1. O fim do mundo e a judicialização da política (29 dez.)
2. Virar a página da Ação Penal 470 (25 nov.)
3. Julgamento levou PT a se modernizar (Valor Econômico, 25 out. 2012)
4. A República e a Ação Penal 470 (17 out.)
5. O “mensalão” e o prático inerte sartriano (24 set.)
6. A Ação Penal 470 e o Brasil que vem aí (18 ago.)
7. As alianças na política brasileira (IHU On-Line, ago. 2012)
8. O “mensalão” e a dialética entre forma e conteúdo (24 jun.)
9. Os espectros do desenvolvimento (27 maio)
10. O Cachoeira e a gota d’água (22 abr.)
11. A aranha, sua teia e a judicialização da política (25 mar.)
12. O PT como condutor da expansão burguesa (IHU On-Line, 19 mar.)
13. As cidades e o sertão (14 fev.)
14. Problemas de repertório, o Barcelona e nós (11 jan.)
15. “Dilma será constrangida à infidelidade” (Valor Econômico, 10 jan.)
2011
1. Lula, Dilma e o repertório keynesiano-westfaliano (10 dez.)
2. Conjuntura, modernização e moderno (16 nov.)
3. O pêndulo, a centralização e a República (22 out.)
4. O rio do filósofo e a Dilma (12 set.)
5. Quando o passado deixa de iluminar o futuro (27 ago.)
6. Os agrários, a questão nacional e os sindicatos (13 jul.)
7. A judicialização da política e a política (18 maio)
8. A política e seus sinais (14 mar.)
9. O salário-mínimo e a judicialização da política (28 fev.)

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10. Mares nunca dantes navegados (21 fev.)
11. Os sindicatos e o Estado (14 fev.)
12. A Tunísia, o Egito e nós (7 fev.)
13. Os sindicatos e a política (31 jan.)
14. Dilma e os sindicatos (24 jan.)
15. Política sem sombra e água fresca (17 jan.)
16. O que há de novo (10 jan.)
17. Dilma e os tempos da política (3 jan.)
2010
1. O complexo do Alemão e a república (27 dez.)
2. A chegada da república no sertão (20 dez.)
3. Alexandre, Confúcio e outros heróis (29 nov.)
4. Principado novo e bola de cristal (22 nov.)
5. E la nave va (8 nov.)
6. Os céus por testemunha (25 out.)
7. A dádiva e as forças próprias (18 out.)
8. Matéria de princípio (11 out.)
9. O calendário e a coluna (4 out.)
10. A caveira de burro e a democracia (27 set.)
11. O lulismo sem Lula (20 set.)
12. Para onde estamos indo? (13 set.)
13. Que social-democracia é esta? (6 set.)
14. O Regresso (30 ago.)
15. O cidadão, o cliente e os intelectuais (23 ago.)
16. Plínio e os meninos do Santos (16 ago.)
17. Ventos do sudoeste (9 ago.)
18. O problema do inimigo e a questão nacional (2 ago.)
19. Revolução passiva e República (26 jul.)
20. Um bismarquismo tardio (19 jul.)
21. Futebol, crime e política (12 jul.)
22. Uma maneira de escolher um candidato (5 jul.)
23. A viagem de volta da América à Ibéria (28 jun.)
24. O eterno retorno (21 jun.)
25. O efeito Marina (14 jun.)

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27. A sucessão e o banho de lua (7 jun.)
28. Moderno São Paulo e a política nacional (31 maio)
29. A novela da sucessão (24 maio)
30. Pequenas grandes mudanças (17 maio)
31. O problema do jabuti: o Judiciário e a política (10 maio)
32. Direito, democracia e república (3 maio)
33. O fim da história do Brasil ou um novo começo para ela
Anterior a 2012
1. Tópicos para um debate sobre conjuntura (novembro, 2009)
2. Corações partidos (agosto, 2009)
3. Hoje, só Lula faz política no Brasil (maio, 2009)
4. Princípios no coração da matéria (abril, 2009)
5. O caso da Embraer (março, 2009)
6. O PT recuperou a era Vargas (fevereiro, 2009)
7. Moralismo cancela debate democrático (julho, 2009)
8. A sucessão de Lula e o retorno do nacional-popular (março, 2008)
9. País vive “Estado Novo do PT” (agosto, 2007)
10. O Estado Novo do PT (julho, 2007)
11. Ziguezagues, linhas retas e voltas redondas (outubro, 2006)
12. Não somos indianos agachados (março, 2006)
13. O inferno e as boas intenções (abril, 2004)
14. O PT já se definiu como partido de centro (dez, 2003)
15. O PT é quase um partido liberal (outubro, 2003)
16. Pacto social e generalização da representação (jan, 2003)
17. A história absolvida (dez, 2002)

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2015

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A grande transformação (7 jun.)
O ano político, iniciado sem fanfarras com a segunda investidura de Dilma Rousseff na
Presidência da República, já avança no seu sexto mês sem que se saiba para qual
direção aponta o rumo da sua navegação. Ainda em linguagem náutica, depois de tanto
ter alterado o argumento do seu primeiro mandato, parece que a presidente segue os
conselhos dados nos versos de um grande poeta popular, fazendo como o velho
marinheiro que, em meio ao nevoeiro, leva o barco devagar, mesmo que a sua rapaziada
sinta falta de um pandeiro e de um tamborim.
O script com que exerceu seu primeiro mandato, defendido com ênfase desregrada em
sua campanha eleitoral, jaz abandonado em gavetas que não mais se abrem, e que
guardam, talvez para uma crítica roedora dos ratos, os papéis que justificavam sua
orientação

terceiro-mundista,

seu

capitalismo

de

Estado

e

o

nacional-

desenvolvimentismo que, entre nós, sempre lhe emprestou sua alma. Da cornucópia de
onde jorrariam em abundância os recursos para os programas sociais mal sairão filetes,
condenada como está ao contingenciamento sob controle tecnoburocrático. Obrigada,
pela força das circunstâncias, a ceder em suas convicções, antes de avançar para o mar
alto a presidente trocou de tripulação na condução da economia e da política, passou a
evitar a ribalta e sua exposição a um público que não mais a vê com simpatia, ainda
aguardando as razões da mudança de sua orientação.
Nos idos de abril, as ruas pareceram abrir-lhe as portas do inferno, com as chamadas
medidas de ajuste fiscal — eufemismo para uma política de austeridade do tipo que
sublevou as ruas e as praças europeias neste começo de século —, erodindo as forças de
sustentação do seu partido e do seu governo nas bases sindicais e no mundo popular. O
espantalho do impeachment ganhou a linha do horizonte, e velhos e recalcitrantes
antagonismos ameaçam escapar da situação de equilíbrio mantida pelas artes de
prestidigitação do ex-presidente Lula.
A nova tripulação, estranha ao antigo curso da navegação, contando com a
cumplicidade do estado-maior da presidente, mandou às favas sem escrúpulos o
programa de radicalização do nosso capitalismo de Estado — sentido velado da
campanha da candidata Dilma Rousseff —, com tudo o que ele importava em termos de

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política internacional e de rearrumação no posicionamento das forças sociais e políticas
envolvidas, e sinalizou em alto e bom som para os rumos do capitalismo sans phrase.
Sem escrúpulos igualmente adotou as linhas principais do programa do seu adversário,
decapitando, em movimento clássico do transformismo político, a liderança da
oposição.
Salvo imprevistos — que não nos têm faltado —, o impeachment parece ter ficado para
trás, e bem devagar, o governo, em meio a amotinados em sua própria embarcação,
procura entre névoas um novo rumo. Desde então, nas ações presidenciais os versos
famosos de Fernando Pessoa têm seu sentido invertido: sobreviver é que é preciso, e
não navegar em mar desconhecido na busca de uma glória incerta. Fora do radar a
iminência de uma crise política convulsiva, vida que segue, agora em tons mais
cinzentos para todos, governantes e governados apertando os cintos numa economia que
se retrai.
Contudo esses meses de tantas reviravoltas inesperadas não foram perdidos. Eles
registram o fim de um ciclo, talvez o último do nosso longo processo de modernização
em que a sociedade tem sido conduzida sob comando autoritário do seu vértice político,
ora de forma aberta, como é da nossa tradição republicana, ora de modo encapuzado, tal
como o nosso presidencialismo de coalizão facultou aos governos do PT, que, passada
essa borrasca, jamais será o mesmo.
A conquista de um segundo mandato para a presidente Dilma que deveria importar na
radicalização do primeiro, contando com o exercício do papel discricionário do
Executivo, resultou no seu contrário. A partir da admissão da gravidade da crise
econômica com o anúncio da política de ajuste fiscal, o Legislativo assumiu, na prática,
sua autonomia diante do Executivo, movimento que deve contar com a simpatia, por
suas convicções de constitucionalista, do vice-presidente Michel Temer, elevado, na
pior hora da crise, ao status de um dos condestáveis da República.
O poder de iniciativa, ao menos momentaneamente — mas há algo sem volta nesse
movimento —, desloca-se, pois, do Executivo para o Legislativo, tal como se tem
verificado no andamento da reforma política em curso, no papel de negociação das duas

a que não faltou sorte. Mutação nada trivial na experiência republicana sob a hegemonia do PT. pela perícia política do ex-presidente. Ao contrário de Lula. com outra origem. o que seu estilo pragmático de governar. Nos dois governos do ex-presidente Lula — não importa se em cenário mais favorável que o atual —. é o começo de outra história. . depende da política que praticarmos nela. do empresariado aos sindicatos. Não há dúvida.9 Casas congressuais no ajuste fiscal e na reforma trabalhista que disciplina a chamada terceirização. os antagonismos presentes em nossa sociedade foram postos em equilíbrio. Do agronegócio ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). favorecia. o talento político da sua principal liderança soube reunir em sua base de sustentação um conjunto de forças sociais e políticas inéditas em nossa vida republicana. atribuindo a cada qual uma posição no governo. adotou-o por convicção. todos encontraram seu lugar no amplo condomínio que se tornou a máquina governamental. a presidente Dilma. Assim. fiel à sua formação no sindicalismo de resultados. que chegou ao capitalismo de Estado por conveniências da hora. Se melhor. perdendo de vista o que foi essencial à política do seu antecessor — manter em equilíbrio os antagonismos que já começam a ganhar as ruas e os debates públicos.

que teria nascido a partir das instituições do self-government. buscariam realizar. submeter à sua ordem os potentados clânicos do hinterland e interditar os riscos do caudilhismo que assolariam os países vizinhos. num processo de longa duração. O ideal normativo do Estado imperial de criar uma nação orientada pelas luzes da civilização. nos viria pela ação pedagógica das elites.10 As marcas de origem e a crise atual (3 maio) Marcas de origem. A civilização. quando a caracterizou como um caso singular. a nação deveria surgir pela ação de seus homens de Estado inspirados naquela teoria sobre um “povo disperso”. objeto de elogio do republicano Euclides. Aqui. nos indivíduos e nos países. Em A Construção da Ordem. o tema das origens da nacionalidade foi enfrentado por Euclides da Cunha no ensaio “Da Independência à República”. influenciam. Para ele. mas seus braços eram curtos. estuda-se a estratégia da política imperial de avizinhar essa cabeça — por meio da ação dos magistrados nomeados pelo poder central — da periferia e dos remotos rincões do Brasil. ao contrário da América. a fim de debelar a barbárie dos sertões. foi buscar na função internacional que coube à Itália como sede da Igreja e depositária do Sagrado Império Romano as origens dos males que afligiam seus contemporâneos. fazendo . Entre nós. de José Murilo de Carvalho. em suas notas sobre a formação tardia e mal resolvida do Estado italiano. sustentava Tocqueville em A Democracia na América. a consequência negativa dessa posição cosmopolita teria sido a de a Itália ter estagnado numa fase “econômico-corporativa” sem conhecer uma força “jacobina” que em outras nações operou no sentido de fundar os Estados modernos em torno de uma vontade nacional-popular. projeto de minorias eruditas que. na expressão do visconde de Uruguai. suas trajetórias futuras. contava com um problema: ele tinha uma cabeça grande. escorada pelo Direito e suas instituições. Gramsci. a que estávamos “condenados” — frase famosa desse autor —. a teoria política do liberalismo do legislador constituinte de 1823. ao identificar na paixão pelo princípio da igualdade dos pioneiros que colonizaram seu território as razões dos êxitos da sociedade que elegera como objeto de estudo. “em meio às trevas do meio”. para o bem ou para o mal.

que. o proscênio encontra-se ocupado pelo Judiciário. mesmo que velado. em particular nos anos 1920. a Carta Magna de 1988 ampliou. Ainda sob o diagnóstico. na chamada Operação Lava-Jato. com ela. As lutas pela descentralização política. a presença do Direito e de suas instituições na nossa vida política e social. Ambas fizeram fortuna e tanto sindicatos como partidos políticos não podem mais fazer sua história sem elas. Na cena política. estes últimos deslocados pela Carta de 88 das funções de defesa do Estado para a da sociedade — figura institucional sem paralelo no . No caso brasileiro. A intensa movimentação. que puseram sob a jurisdição do Direito e de suas instituições o cerne de uma sociedade que se modernizava. uma nova paisagem social e novos repertórios. teria encontrado sua forma de reprodução nas longas décadas do Segundo Reinado. investiga os casos de corrupção de agentes públicos e partidos políticos. como os do empresariado industrial e os do sindicalismo operário. como testemunham estes últimos anos de julgamento da Ação Penal 470 e do processo que. na qualificação de Euclides. formulada nos anos 1970. ao lado da afirmação da dimensão dos interesses. expõe mazelas do poder público e de partidos políticos diante de um Poder Legislativo acuado e sem forças de reação na opinião pública. que nos vinha de longe. especialmente com os êxitos da cafeicultura paulista. nos trouxeram a República e. por meio de várias inovações. presentes capilarmente na vida social.11 daqueles funcionários um instrumento da sua missão civilizatória. a criação da Justiça do Trabalho e da Justiça Eleitoral. expurgando heranças autoritárias como as que afetavam o sindicalismo. Entre essas inovações. o programa do notável jurista italiano Mauro Cappelletti de elevar o Judiciário à posição de um “Terceiro Gigante”. como os relacionados ao mundo do trabalho e à questão social. que precipitou inovações institucionais no sentido de incorporar ao sistema da ordem temas e sujeitos emergentes. Magistrados e promotores públicos. Com isso nossa marca de origem. já é obra realizada. da imaturidade da sociedade para resolver seus conflitos — marca sob a qual viemos ao mundo —. ao julgar crimes cometidos contra a República. dos novos seres sociais nascidos dessas transformações esteve na raiz da Revolução de 30. hoje.

inseguros quanto ao Poder Legislativo. corporações que não param de crescer numa sociedade destituída de outros meios para resolver seus conflitos que não o Judiciário. às quais cabe agora exercer um importante papel saneador na vida republicana. não há do que nos envergonharmos quanto às nossas marcas de origem. se têm voltado para o Judiciário em busca de soluções para impasses crônicos. reinterpretadas no tempo da democratização do País pelo constituinte de 1988 com as instituições que nos deixou. Na política. como em manifestações recentes de alguns a fim de que ele intervenha. na questão ambiental. a mulher e o juiz —. pelas vias judiciais. Até políticos e personalidades eminentes da nossa vida pública. fala-se em ménage à trois: o marido. .12 Direito Comparado —. A crise atual é a sua oportunidade. estão por toda parte. que não lhe virá dos tribunais e de suas leituras hermenêuticas nem de elites ilustradas. como na nossa tradição. na família — com ironia. Mas a sociedade tem de tomar o destino em suas mãos. em favor de uma reforma política ou que decida extrair o consumo de drogas da esfera criminal. De fato. na demarcação de terras indígenas. não há dimensão da vida social que escape da sua intervenção.

afetando suas atividades e a própria credibilidade da empresa. sente que seus sonhos foram roubados. bem mais encorpadas. à margem dos partidos e das organizações formais. optaram pela marca difusa de um protesto contra a política na forma como a que temos praticado. em geral. ao contrário das gregas e espanholas. nelas não se delibera e não se procura produzir autoesclarecimento sobre o que. ocupadas por multidões. mas. afinal. No espaço de dois anos o País se vê varrido por duas grandes ondas de mobilização social — mais duas estão a caminho. a que se somam as de incontáveis movimentos sociais. De fato. cornucópia que nos permitiria o acesso a recursos abundantes para a modernização do nosso parque industrial e para políticas afirmativas de inclusão social. A descoberta de uma sinistra trama a envolver a Petrobrás numa rede de relações corruptas com empresas e partidos da base governamental. O principal deles é o de que estaríamos em marcha batida para a afluência. Sem contar a dos sindicatos que têm feito das ruas e rodovias lugar de teatralização das suas manifestações — a ocupação da Ponte RioNiterói por uma passeata de metalúrgicos foi a mais contundente —. independentemente de suas clivagens partidárias. se não contidas por ações responsáveis. como os da mobilidade urbana. não só . embora desencontrados. com o bilhete premiado do pré-sal. trazem o risco de converter disputas políticas em guerra entre facções. não há por que tergiversar com a gravidade da situação. que se renovam quase semanalmente.) Isso que aí está é o fim do mundo ou é começo de outro? Os sinais que vêm das ruas. As ruas têm sido instituídas numa esfera pública paralela. expressam. À diferença das manifestações de 2013 que apresentavam agendas de políticas públicas definidas sobre temas concretos. na dos dirigentes políticos. a mesma sensação de mal-estar com os rumos do País e de desconfiança na ação dos partidos e. dos serviços de saúde e de educação. as que se iniciaram a partir de 15 de março de 2015.13 Um outro mundo é possível (5 abr. pois a cólera e as paixões irracionais. nem se pode contar com a garantia de que o caráter pacífico dessa leva de manifestações dos idos de março será preservado. Não se pode ignorar que a sociedade. nos aflige na hora presente. inclusive com o hegemônico. cada qual a seu modo.

a sua conta: o maniqueísmo é a marca dominante da nossa cultura de massas. essas manifestações de 2015. a sociedade defronta-se com um mundo para o qual não tem referências para se situar diante dos novos desafios a que está exposta. Sem confiar nos partidos. Saudáveis como são. o demos se dissocia da República. quem o ataca a defende —. A sinalização está feita — esta é uma hora que demanda com urgência a ação dos Poderes republicanos a fim de preservarmos e aprimorarmos as instituições conquistadas com a democratização do País. abrindo passagem para soluções salvacionistas e homens providenciais. e não pela ação autocrítica do governo.14 posterga a concretização desses legítimos anseios. Perigosamente. Décadas de passividade. não nos deixando em seus rastros ideias novas. que não reconhece os seus erros. também tem revelado a rusticidade da nossa cultura política. condenadas ao efêmero. Trocar sonhos por pesadelos não é uma boa experiência. pondo a política no pelourinho. descrente do governo. mal saído de uma eleição presidencial o País é advertido pela presidente Dilma de que. vêm à luz. seria necessária uma mudança de rumos: um severo ajuste fiscal tomaria o lugar da aceleração do crescimento. como já deixa em seus rastros o desemprego de milhares de trabalhadores e a ruína de cidades que prosperaram em torno dos seus negócios. embora necessárias e ingentes. agora. Mas essas tarefas. faz das ruas um tribunal. de empobrecimento do debate público. Nada . em si auspiciosa. além de erráticas — quem defende o governo discorda de sua política econômica. A emergência às ruas das multidões. dos quais temos a infausta memória do regime militar e da eleição de Collor na sucessão presidencial de 1989. contudo. A desinstalação do capitalismo de Estado como ideologia reinante nos chega por imperativos sistêmicos. ao contrário do que sustentou quando candidata. Mas como tudo o que é ruim pode piorar. não nos bastam. Chamada à realidade por eles. As reformas políticas têm de ser feitas e os crimes contra o patrimônio público ser apurados e punidos. sob o obscurantismo de concepções anacrônicas sobre os poderes demiúrgicos de um Estado tutelar e de heróis providenciais nos apresentam.

Em meio a um cenário de escombros. mesmo diante das inúmeras oportunidades que se apresentaram para abrir caminho em direção ao moderno. Elas são apenas especulares da miséria intelectual — sintomático o “nós contra eles” — a que nos condenou uma política realizada em nome de uma esquerda que. serviram de base para a organização do Podemos e dos Cidadãos. forma velada com que o autoritarismo político encontrou passagem para se reproduzir no cenário da Carta de 88. sempre presente em nossa História. nem os que. pela caixa de ferramentas e pelo repertório herdados do nosso passado. concedendo vida nova ao nacionaldesenvolvimentismo e à estatolatria. em particular do Judiciário e do Legislativo. mas desse mundo aí. este último a se desprender — não importando as motivações de algumas de suas lideranças — da sua gravitação em torno do Executivo. soou a hora final para o nosso presidencialismo de coalizão. na Espanha. A crise que o anuncia é a hora de oportunidade para a afirmação dos Poderes republicanos. Sob a modalidade bastarda como o conhecemos. na Grécia. optou. com o que ainda resta de pé dá para entrever que um outro mundo é possível.15 nelas evoca os movimentos que deram partida ao Syriza. . com um pragmatismo sem alma. Não se vive um fim do mundo.

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Dois meses que duraram séculos (1º. mar.)
No tempo curto de dois meses, um abismo separa o que foi o primeiro governo Dilma
deste que tarda em começar, ainda prisioneiro de práticas e concepções das quais não
será fácil desembaraçar-se. Na política, como nos transatlânticos, mudanças inesperadas
de rota são de operação complexa e demandam convicções firmes dos seus timoneiros.
Eles devem, se desejarem evitar movimentos de amotinados, ser capazes de apresentar
suas razões e demonstrar autenticidade e determinação na opção pela mudança de
rumos.
Pois é de tal grave natureza uma das ameaças que rondam o mandato presidencial, qual
seja, o de perder o apoio do seu partido, do sindicalismo da CUT, de movimentos
sociais, inclusive dos difusos como os que somente se fazem visíveis nas redes da
internet, adversos à política que adotou em favor do ajuste fiscal, contrariando o que
alardeou em alto e bom som no curso da campanha presidencial. A categoria dos
intelectuais, a esta altura, parece irrecuperável, apesar das cambalhotas dialéticas com
que alguns se eximem da crítica e da autocrítica.
Decerto que tais riscos têm sua origem em escolhas feitas pela presidente, ao insistir, em
sua campanha eleitoral, em caminhos já exauridos pela macroeconomia de sua lavra e
do seu ministro da Fazenda. Verdade que um eventual reconhecimento prévio de um
diagnóstico desse tipo, que não era estranho ao círculo do poder (Lula incluído) —
evidente na opção, feita nas primeiras horas após a vitória eleitoral, pela
descontinuidade da sua política econômica com a indicação de um nome antípoda à sua
tribo doutrinária para a pasta da Fazenda —, ter-lhe-ia custado a reeleição.
Assim, se no terreno da economia foi a mudança de cenário o que importou para a
guinada de rumos em favor do ajuste fiscal, brusca mudança de rota a marcar a
passagem do primeiro mandato presidencial para o segundo, no caso da política esse
marcador tem origem nas ações da própria presidente.
De um lado, por ter recusado manter-se alinhada às práticas tradicionais em seu partido,
que tanto serviram a ela e ao seu antecessor, suportadas, no fundamental, pelo eixo PTPMDB, ao apresentar uma candidatura de um quadro do seu partido, na disputa pela

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presidência da Câmara dos Deputados, contra o peemedebista Eduardo Cunha, um
franco favorito, segundo avaliação então corrente. Como se sabe, sua derrota eleitoral
destravou uma inédita rebelião parlamentar contra a interferência do Executivo no
Poder Legislativo.
De outro, ao compor seu governo com quadros vinculados a alas minoritárias do seu
próprio partido, a presidente contrariou suas lideranças mais influentes, e a solidão
política que se estabeleceu em torno dela tem trazido de volta o velho espantalho do
impeachment, sempre a rondar presidentes sem apoio congressual e em orfandade
partidária. Em breves dois meses, seu mandato assemelha-se ao de presidentes
malsucedidos que aguardam, com amargura, a hora da passagem do bastão de comando
a seu sucessor.
Agora, passado o carnaval, diante desse horizonte aziago que está aberto diante de nós,
a rota inevitável é a de enfrentar mar alto em águas turbulentas, em que o timoneiro
precisa estar atento a todos os sinais, e não apenas aos que lhe vêm dos seus impulsos e
convicções íntimas. Boa será a reforma política que vier do Parlamento e que venha a
ser referendada, onde couber, pela cidadania. Esse pode ser um começo para uma
navegação menos arriscada.
Se há previsões fundamentadas de mau tempo, em particular com os desdobramentos
dos escândalos da Petrobrás, ainda em fase de apuração por parte do Ministério Público
e do Poder Judiciário, de desenlace imprevisível quando os malfeitos e os responsáveis
por eles vierem a público com a formalização de um processo criminal, não se podem
ignorar os bons augúrios que nos vêm tanto da afirmação da autonomia do Legislativo,
que nos faltava — fato de importância capital nas Repúblicas democráticas —, como a
do Judiciário, a esta altura solidamente escorada pela intensa vida corporativa das
inúmeras associações de magistrados.
Não há motivos, pois, para surtos paranoicos quanto ao destino da nossa democracia
política, embora seja certo que os próximos quatro anos nos reservem turbulências e
nova disposição nas peças sobre o tabuleiro político. Os primeiros movimentos nessa
direção já se iniciaram com a elevação do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, um
estranho no ninho do PT, às funções de primeiro-ministro, a quem se encarregou de

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liderar as negociações com lideranças parlamentares a fim de aprovar o ajuste fiscal no
Legislativo, operação já iniciada com as bênçãos do PMDB. Na sequência, devem ceder
as resistências do Executivo a Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados,
que já deu fortes demonstrações de expertise no jogo da política parlamentar e parece
imune a ações de cooptação pelo governo.
Outro elemento de imprevisibilidade que nos ronda são as ruas, aqui uma protagonista
nos idos de 2013 e, por toda parte, uma nova e incontornável presença na vida política e
social neste início de século. No Brasil, até no carnaval paulistano. Elas deverão
retornar, mas com outra demografia e outros temas, diversos dos daqueles estudantes e
da agenda tópica de políticas públicas de dois anos atrás. Já estão nelas os sem-teto e o
sindicalismo operário, como na ocupação da Ponte Rio-Niterói por parte dos petroleiros,
entre tantas manifestações recentes de metalúrgicos paulistas, e, agora, perigosamente,
os caminhoneiros. A agenda desses recém-chegados às ruas, com uma economia
retraída, não recomenda ao boxeador ficar agarrado às cordas. Ele precisa se reinventar,
abandonando o tipo de jogo que o está levando à derrota, e reiniciar a luta, mesmo que
com um estilo com o qual não esteja habituado. Se quiser evitar o risco de beijar a lona.

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O segundo governo Dilma. Guinada à direita? Não! Um cavalo de pau (IHU OnLine, 15 fev. 2015)
“O governo está perdido e confuso. A situação é preocupante”. A resposta direta e sem
rodeios é do professor Luiz Werneck Vianna, sociólogo brasileiro que acompanha com
inquietação as medidas anunciadas pela presidente Dilma nos primeiros 50 dias de seu
segundo mandato. Embora enfatize que “o rumo dos acontecimentos no primeiro
mandato dela apontava para uma direção de retorno da inflação e baixo crescimento”,
para o eleitor há surpresas no segundo governo, “porque foi dita uma coisa e outra coisa
foi feita”, pontua.
De acordo com o sociólogo, embora na campanha eleitoral PT e PSDB fizessem
esforços para apresentar programas políticos e econômicos distintos, há uma coalização
entre os partidos, que se expressa na nomeação do Levy. “Um diálogo que está
implícito aí é o Levy e o seu programa econômico, que é o programa econômico do
PSDB. Então, num certo sentido, há uma coalizão aí não declarada”.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, Werneck Vianna
identifica ainda mais dois problemas centrais que estão por trás do atual momento
político e econômico do país. O primeiro, esclarece, é a aposta da presidente no
“caminho do nacional-desenvolvimentismo. Esse caminho está exausto. Ele teve seu
momento décadas atrás, mas agora não há como continuar. O mundo evoluiu e não há
mais fôlego para uma política desse tipo”.
Segundo ele, “faltou coragem intelectual e competência também para admitir que as
circunstâncias foram outras. Então, levou-se até o fim essa possibilidade esgotada na
campanha eleitoral, mas, com o fim da campanha eleitoral, não havia prerrogativa se
não mudasse”.
O segundo problema diz respeito à relação da presidente com o PT. “Que está havendo
atritos e ruídos na relação da presidente com o PT, que é o partido dela, é evidente. Isso
está presente no cotidiano, estampado nos jornais. E isso é muito perigoso, porque a
presidente precisa de um partido que a sustente”, enfatiza.

20
Diante da queda de popularidade da presidente Dilma pouco mais de um mês depois de
assumir o segundo mandato, o sociólogo é enfático: “Agora é difícil para ela, porque ela
fez uma campanha política dizendo que estava tudo bem. Mas, de qualquer forma, ela
tem de dizer que, se antes estava tudo bem, agora a situação é outra e é preciso fazer
mudanças, ou seja, que neste momento ela precisa fazer uma mudança de rumo no que
se refere a aspectos da sua política. Mas ela não fez nada: mudou e não falou nada; ficou
muda”.
Nos últimos dois anos, Werneck Vianna esteve entre os sociólogos brasileiros que
acompanharam as causas e as consequências das manifestações de massa que se
iniciaram em 2013 e assegura que, embora não tenha havido um retorno de
manifestações massivas no país, “a insatisfação agora é mais funda. Se ela vier à tona
vai ser muito difícil domesticá-la, porque aí diz respeito aos rumos do país e não a
políticas setoriais como foi em 2013, quando as manifestações foram organizadas em
torno de políticas públicas específicas, como da saúde, do transporte. Agora, se vier,
virá por uma agenda geral”.
Ele sugere que em algum momento os partidos políticos “mais responsáveis e
presentes” terão de encontrar uma “saída para o impasse que aí está para evitar o
terremoto que pode abalar as estruturas políticas do país, ameaçando as conquistas que
fizemos ao longo desse tempo”.
Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela
Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e
americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicialização da política e
das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três
poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra
Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem
Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012) (Por Patricia Fachin.
Colaboração de César Sanson).
Sendo sociólogo, como o senhor está enxergando o Brasil hoje, considerando que há
dois anos ocorreram manifestações em massa, depois a presidente Dilma foi reeleita, e
já no primeiro mês do segundo mandato, a popularidade dela caiu por conta dos ajustes

21
anunciados, entre eles, as medidas de austeridade, como o aumento dos impostos, o
aumento da energia, o aumento da gasolina, a crise da Petrobrás? O que está
acontecendo?

22
O governo está perdido e confuso. A situação é preocupante.
O senhor percebe mudanças no governo Dilma em relação ao discurso que levou à
reeleição da presidente e o primeiro mês e meio de sua gestão? Concorda com as teses
de que o governo deu uma guinada à direita ou pode-se dizer que se trata de um governo
de continuidade?
Uma guinada à direita não é bem o caso; ela deu um “cavalo de pau”. O rumo dos
acontecimentos no primeiro mandato dela apontava para uma direção de retorno da
inflação e baixo crescimento econômico — tudo isso estava no radar. Aliás, as
candidaturas de oposição batiam exatamente nessa direção, na necessidade de mudança
na orientação.
O problema da Dilma é que ela pensa que é economista; ela pode ser tudo, mas ela não
é a economista que ela pensa que é. Tanto que, quando ela assumiu as rédeas da
economia, junto com o Mantega, ela enfiou o país num beco sem saída. Então, não tinha
jeito, tinha de mudar.
Considerando esse cenário previsto anteriormente de baixo crescimento para este ano,
então não há surpresa em relação às mudanças anunciadas no segundo mandato ou há?
Não, certamente. Mas para o eleitor há, porque foi dito uma coisa e outra coisa foi feita.
Agora, o caminho em que a situação se encontrava não permitia a reiteração, porque era
o caminho errado. E não à toa Dilma foi chamar economistas que na verdade perfilavam
o programa do adversário.
Foi acertada a escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda?
Acho que foi, porque, se ela continuasse no caminho em que estava, a crise seria maior
ainda.
Quais são as principais crises e contradições do atual governo Dilma?

23
Ela apostou no caminho do nacional-desenvolvimentismo. Esse caminho está exausto.
Ele teve seu momento décadas atrás, mas agora não há como continuar. O mundo
evoluiu e não há mais fôlego para uma política desse tipo. A globalização e a
internacionalização da economia são um fato, são uma realidade.
O governo Lula iniciou seu mandato com o projeto nacional-desenvolvimentista. Em
que momento o governo Dilma, como continuidade do governo Lula, deveria ter
mudado de projeto ou deveria ter percebido que este projeto estava esgotado, como o
senhor está dizendo?
Faltou coragem intelectual e competência também para admitir que as circunstâncias
foram outras. Então, levou-se até o fim essa possibilidade esgotada na campanha
eleitoral, mas, com o fim da campanha eleitoral, não havia prerrogativa se não mudasse.
As circunstâncias das quais o senhor fala, que deveriam ter levado a uma mudança de
projeto, foram consequência de fatores internos ou externos? Pode exemplificar alguns?
As duas coisas. Os internos são a baixa capacidade de investimento, o afastamento do
empresariado do governo Dilma e o desencanto com uma proposta que já estava claro
que já tinha dado o que tinha que dar.
Qual é o significado da eleição de Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados e de
Renan Calheiros no Senado?
A eleição de Renan Calheiros era muito esperada, inclusive porque ele é muito
confiável do ponto de vista do governo. Por outro lado, Cunha vinha acumulando forças
em nome de algumas coisas até importantes, como a independência do Poder
Legislativo, e ele foi capaz de galvanizar em torno dele o baixo clero e setores
inconformados com a política do governo, inclusive da própria base aliada, conforme se
viu.
Que papel jogará o PMDB no segundo mandato de Dilma?

agora a situação é outra e é preciso fazer mudanças. como o tema da sexualidade. que propiciou a maciça adesão. por parte do PMDB. que é o partido dela. Além do fato de que a presidente não é capaz de justificar. que tem um vice-presidente do PMDB. O senhor concorda com a tese de que o governo Dilma está muito isolado neste segundo mandato? Se sim. em termos de programa econômico. libertária. porque ela fez uma campanha política dizendo que estava tudo bem. porque a presidente precisa de um partido que a sustente. as urnas apontavam para o fato de que o PMDB tinha se fortalecido. por que ela adotou a linha. e o PMDB reagiu. é evidente. A situação é preocupante. para os eleitores. de forma clara. Ele tem uma agenda política. Agora é difícil para ela explicar. Ele está mais encorpado e autonomizado agora em relação ao governo. uma agenda corporativa e uma agenda das questões comportamentais. que neste . E isso é muito perigoso. Ela tem de apresentar um diagnóstico. inclusive. ele se tornou um candidato muito poderoso por vários motivos. Agora a presidente vai ter de saber coexistir e conviver bem com ele. ou seja.24 O PMDB é chave. O PMDB percebeu que estava sendo alijado pelo governo e esse foi um dos motivos. estampado nos jornais. para o mundo da política. Além do fato de o Eduardo Cunha agrupar em torno dele todas as demandas corporativas na classe política e também de agrupar a reação a essa agenda comportamental. se antes estava tudo bem. qual é o sentido da política dela. Então. quais são as razões e os possíveis riscos disso? Que está havendo atritos e ruídos na relação da presidente Dilma com o PT. de alguns setores. Enfim. ou seja. não reconhece o fato e montou um ministério com uma influência reduzida do PMDB. digamos. mas a presidente. Mas de qualquer forma ela tem de dizer que. do seu adversário. à candidatura de Eduardo Cunha. Então isso também pesa. do aborto. para os cidadãos em geral. Isso está presente no cotidiano. Quais são as razões dos atritos entre ela e o partido? Isso representa uma crise ainda maior do próprio partido? Um dos motivos é que tal como o PMDB. as facções majoritárias do PT foram deslocadas na hora da composição do governo: os homens da Democracia Socialista passaram a ter uma posição mais encorpada do que as correntes majoritárias do PT. Isso tem de ser dito e explicado.

mas ele não pode prescindir de um elemento de convicção. postas embaixo do tapete. vamos repetir o caso do Collor e aí o impeachment seria inevitável. A ética de responsabilidade nos levou ao pragmatismo que só consultou as suas razões e pôs a marca maior no presidencialismo de coalizão que temos. ficou muda. estamos sem rumo e não podemos ficar assim. A pior coisa que ocorreu foi o desencanto e o fato de o país olhar em torno e ver que não há nenhum projeto de futuro que seja persuasivo. A ética da responsabilidade — essas categorias célebres da obra de Weber — é incontornável. a Dilma. Aloizio Mercadante. Se ela ficar sem partido. que é uma forma degradada de política. que mantenha capacidade de encantamento. O que ocorreu ao longo desses governos foi que as convicções foram jogadas fora. mas ela não pode abdicar de uma ética de convicção. Como interpreta esse movimento? Isso a meu ver não ajuda porque apenas põe em parêntese quatro anos. que não é o “ás” da política que dizem que ele é. mas isso aconteceu por causa do pragmatismo. O pragmatismo é bom em política.25 momento é preciso fazer uma mudança de rumo no que se refere a aspectos da sua política. em alguns casos. radicalmente diferente. Tudo vai depender do que o PT vai fazer. É possível identificar um núcleo duro hoje no governo? É o pessoal do teu estado. O que houve? Não foi diagnosticada a tempo? Sem dúvida. As coisas não vão permanecer . Essa falta de encantamento não é repentina. Como era o mundo há quatro anos? Como era o Brasil há quatro anos? Diferente e. especialmente o Lula. Quatro anos é muito tempo. a Democracia Socialista do Rio Grande do Sul. Mas ela não fez nada: mudou e não falou nada. A presidente precisa ter um partido que a sustente. Assiste-se hoje a um crescente movimento interno no PT com a convocatória “Lula 2018” como tábua de salvação da continuidade do PT no poder.

Se ela vier à tona vai ser muito difícil domesticá-la. virão por essa agenda que você mencionou. virá por uma agenda geral. se vier. quando as manifestações foram organizadas em torno de políticas públicas específicas. a mesma envergadura do que se encontrou em 2013. mas não agrada a todos. do transporte. é possível que os aspectos de difícil aceitação sejam logo rejeitados e as partes. Parcela do movimento social brasileiro tem levantado a bandeira da reforma política. porque aí diz respeito aos rumos do país e não a políticas setoriais como foi em 2013. do provável aumento da tarifa de água — já anunciado — e do aumento da gasolina. especialmente em São Paulo. E as manifestações de massa. mas é claro que isso vai demorar porque o projeto de reforma que está no Congresso agrada apenas parcialmente. por conta do custo de vida. O que se tem de pensar é como garantir condições de operação do governo que aí está. Agora. mas elas não têm. E se as manifestações vierem. mais saudáveis da reforma persistam. vislumbra a possibilidade de novas manifestações por conta do aumento da tarifa de energia. Diante das manifestações que ocorreram em 2013 e no passado.26 iguais até que chegue a hora da convocação da próxima sucessão presidencial. como da saúde. que possivelmente irá gerar aumento no valor da passagem do transporte público e dos alimentos? Tem havido algumas movimentações. Como interpreta essa bandeira no contexto da atual conjuntura? O presidente da Câmara já assumiu o compromisso de levar a iniciativa legislativa que já existe a voto. Há razões para ir às ruas hoje como se teve em 2013? A insatisfação agora é mais funda. mas. Isso vai encontrar uma decisão. Esse é um caminho possível. Vai ser difícil encontrar um consenso. da inflação. pelo menos por enquanto. digamos. como a opção foi de encaminhar a reforma política de modo “fatiado”. se vierem. poderá haver risco de impeachment? .

Que há distorções. tem. Algumas notícias dos últimos dias informam que o ex-ministro Mantega havia dito aos representantes das centrais sindicais. que ajustes seriam feitos neste ano.27 Penso nessa possibilidade com muita preocupação porque não gosto dessa saída institucional. num certo sentido. há uma coalizão aí não declarada. mas isso tem de ser dito. um terremoto. há. É necessário evitar isso urgente. porque do contrário essa crise pode se tornar infernal. especialmente se ocorrer a reiteração de movimentações massivas como aquelas de 2013. Um diálogo que está implícito aí é o Levy e o seu programa econômico. André Lara Rezende escreveu há poucos dias um artigo no Estadão em que os últimos parágrafos são dedicados precisamente a essa possibilidade de uma “quase que” — não estou dizendo “de” — união nacional. Mas não. há. e aí chegar a um consenso. Mas isso seria. as centrais sindicais tinham de ser chamadas e a situação tinha de ser exposta para mostrar qual é o tamanho da fraude e do buraco que as distorções têm trazido para a política fiscal brasileira. Mas essa questão não foi informada nas eleições. Então. que há fraude. em declaração recente no Senado. a meu ver. o assunto caiu como um relâmpago de cima para baixo. Mas está difícil ver quem seria um dos portadores dessa boa mensagem. no ano passado. isso já está nas ruas. Por quê? . mas. Isso tudo tinha de ser concebido de forma consensual. como disse o senador Cristovam Buarque. A presidente tem de procurar dialogar. Os principais protagonistas da política brasileira deviam propor uma saída suprapartidária no sentido de defender as instituições e a democracia brasileira. que é o programa econômico do PSDB. O governo em negociação com as centrais sindicais não voltou atrás e sequer negociou as medidas de redução do direito ao seguro-desemprego e de mudanças nas regras de pensão por morte e o auxílio-doença. onde certamente o termo impeachment vai aparecer. Mas precisa de muita maturidade para realizar isso. Como interpretar esse endurecimento do governo? Essa foi também uma coisa mal conduzida. Que isso tem de ser corrigido.

elas não vêm à tona e não resulta em educação cívica. Foi uma corrida vertiginosa contra o tempo à base de uma visão mágica de que com o pré-sal nós iriamos saltar para o mundo desenvolvido. O MST é o quê: um movimento social ou um partido político? Faz falta. como. ao lado da CUT. não sai do armário. Claro que o pré-sal é . O MST é outro que não se assume. Quem dá dinheiro para o trabalho do MST. O MST poderia ter se tornado esse partido ou então. foi assim com Lula também. cresceu mais do que podia e com uma velocidade que não permitiu que os passos fossem bem calculados. A Petrobras cresceu demais. que tem endurecido o discurso contra o governo é o MST. do desenvolvimento e da industrialização do país. do PT. mas essa é a última questão que ela irá trazer para o debate. O tema da distribuição de renda. por exemplo. ele prefere atuar como movimento social. mas é muito dependente do governo. não apareceu nas eleições. Mas não quis. Com essa covardia política. Thomas Piketty fazendo um sucesso danado nas livrarias e na imprensa. de os candidatos não apresentarem de fato suas posições. é um movimento muito ambivalente e não creio que o MST tenha esse poder de fogo. no sistema político brasileiro. Então. um partido que tenha mais representação agrária real. O governo corre o risco de perder apoio junto a bases tradicionais do movimento social? O MST é ambivalente. se não quisesse. Outro movimento social. para as escolas do MST? De onde vem esse dinheiro? É do governo. principalmente após a nomeação de Kátia Abreu. Como o senhor está “lendo” a atual crise da Petrobras? Essa é uma crise terrível porque afeta uma empresa que é um símbolo do país. mas esse tema passou ao largo nas eleições e ninguém quis se aventurar nele. Todas as questões polêmicas foram contornadas no debate eleitoral por falta de coragem política de apresentar as ideias com medo da perda de votos. por exemplo. e a política fica uma coisa meio eleitoreira.28 O debate eleitoral foi muito pobre. Eduardo Jorge. A presidente da República é claramente favorável ao aborto. conforme denunciou o candidato do PV. que fosse uma facção de outro partido.

mas não há esboço disso (da criação do partido no Brasil) nem de longe. com trajetórias políticas articuladas. como se fez. não se faz o Syriza. Rebaixar o preço da gasolina. um cálculo mais refinado. para governar o mundo é preciso algo além disso. agora. tanto o movimento grego como o espanhol são movimentos de jovens educados politicamente. Há possibilidades de um novo partido que preencha o vácuo do PT? Como vê a articulação em curso a partir do Rio e de São Paulo em torno da criação de um partido similar às experiências do Syriza da Grécia e do Podemos da Espanha? Em primeiro lugar. Em segundo lugar. O anarquismo já está superado enquanto uma “possibilidade” para se chegar ao poder. ela está ainda viciada nos manuais revolucionaristas das décadas anteriores. voltando ao ponto. fala-se disso (do surgimento de um partido como o Podemos no Brasil). ela está olhando para o passado e é prisioneira de uma história que já passou. na semana passada? Ao que tudo indica. mas isso tudo exigia mais ponderação. penalizou a Petrobras.29 um recurso importante. ainda vive no bovarismo. Como o avalia a renúncia coletiva da direção da empresa. A juventude brasileira não está nesse nível. A empresa precisa ter sua lógica própria. A Petrobras foi muito mal administrada politicamente e não só politicamente. Mas. A empresa tem de ser defendida e tem de ser regenerada. . ou uma reação ao poder instituído? O anarquismo tem lá os seus encantos poéticos. mas gerencialmente. Basta ver os black blocs. Uma das moedas correntes na juventude é o anarquismo. a juventude brasileira não está se educando para uma intervenção do tipo da que ocorre na Espanha e na Grécia. mas com o anarquismo não se faz o poder. é um modelo exemplar disso. Mas uma ambição desmedida tomou conta do governo. Então não tem novidade política e intelectual nesses movimentos juvenis. a Graça Foster desistiu. Vamos ver se a empresa consegue se recuperar agora. não suportou mais o curso dos acontecimentos. o Podemos.

vai depender dele. O melhor instrumento que nós temos é a Carta de 88 e as suas instituições. tentei sinalizar nesta entrevista.30 Os jovens não são modernos. o que o PT trouxe na época de sua formação está perdido. O que o futuro reserva ao Partido dos Trabalhadores? Conseguirá recuperar a vitalidade que um dia teve com as “ruas” ou sobreviverá apenas de sua história? O futuro a Deus pertence. em algum momento. Inclusive. o Judiciário. ameaçando as conquistas que fizemos ao longo desse tempo. mas essas esperanças dos gregos e dos espanhóis. O que falta para eles? É. Então. O PT hoje é um partido sem intelectuais. são muito ingênuas porque não há nada que esteja fermentando em nossa sociedade que indique essa possibilidade. . Ainda não deu os sinais disso. Não estou vendo até agora algo que reitere a experiência espanhola e grega. Ao mesmo tempo alguns intelectuais estão tentando pensar novos rumos para a esquerda no Brasil. a necessidade de os partidos mais responsáveis e presentes encontrarem uma saída para o impasse que aí está e para evitar o terremoto que pode abalar as estruturas políticas do país. Se ele terá condições de encantar e reanimar de algum modo a sua vida e ter um discurso persuasivo para a população. agora. Temos de impedir que essa crise desate uma situação incontrolável de todos contra todos. como o Ministério Público. Não vejo pistas e indícios disso. há. a meu ver. temos de vigiar essa crise com recursos institucionais que estão ao nosso dispor. Acho que vamos ter de contar com os partidos que estão aí.

naturalizando-se (Sobre o Estado. pois continua sustentado por muitos na academia e fora dela. alterando o ambiente em que estão inscritos. como em Pour un Droit Commun (Paris. Anos de supremacia na teoria social dos paradigmas dominantes na economia. a qual. 1994) e Trois Défis pour un Droit Mondial (da mesma editora. 2014). Pierre Bourdieu. em particular dos de extração neoliberal. após sua institucionalização. Em certos registros históricos. É verdade que as suas crenças não se encontram de todo desamparadas pela teoria social. A grande crise financeira de 2008 subtraiu força desse argumento. No terreno da formação de uma opinião pública internacional em favor de uma ordem cosmopolita não se pode deixar de mencionar a ação do papa Francisco e a de Jürgen Habermas. se dedica a estudos de sistemas que. que procurou desenvolver em sua obra a tradição da sociologia clássica. entre outros trabalhos relevantes dedicados ao tema. deixado livre de constrangimentos políticos. muito especialmente.) Há os céticos que gostam de qualificar. desde sua fundação. fev. entre as quais. nem a bibliografia dedicada ao processo de formação de um direito mundial. sobretudo a este. . têm feito com que se esqueçam as velhas lições de que o mundo. sustenta que “uma institucionalização exitosa se esquece e se faz esquecer” das condições que presidiram seu nascimento. com sua aposta em mecanismos automáticos de autorregulação e na sua crença de que o mercado. as institucionalizadas nos organismos internacionais.31 O som ao redor (1º. nos reserva um “happy end”. a vanidade dos esforços para mudar o mundo porque ele mudaria sozinho. com seu gosto amargo pela ironia. 1998). como também ao ator. se entregue a si mesmo. Éditions du Seuil. da que é exemplar a obra de Mireille Delmas-Marty. passam a operar a partir de uma lógica própria. este papa laico da democracia contemporânea. decerto que ainda parcialmente. os resultados imprevistos desse processo podem ser danosos a todos. Companhia das Letras. Mas a teoria social não dá voz apenas às estruturas. embora sempre mude. mas é inegável que o processo de globalização em curso já conhece a ação reguladora de instâncias jurídico-políticas.

uma sociedade civil mundial dotada de voz capaz de se fazer ouvir e que guarda na memória. Paradoxalmente. o que havia de universal na Revolução Francesa. e se fortalecem as lideranças democráticas. podem . à vista de todos. pareceram trazer de volta os tempos sombrios do 11 de setembro de 2001. que se opõem à maré montante da xenofobia e procuram favorecer tanto a inclusão social da população dos imigrantes e seus descendentes como o reconhecimento de suas identidades culturais — há poucos dias. sobre a existência de uma “guerra de civilizações” entre o Ocidente e o Oriente. Bons sinais ignorados pelo ceticismo falsamente elegante de sempre. vem tomando outra direção. contra os jornalistas do Charlie Hebdo e os frequentadores de um supermercado especializado no comércio de produtos destinados à comunidade judaica de Paris. praticados por sectários que dizem agir em nome do Islã. A chamada globalização mostrou sua face benigna com as passeatas multitudinárias que ocuparam as ruas de uma boa parte do mundo. o funesto episódio foi interpretado por muitos como a confirmação de um diagnóstico. em embrião. o primeiro-ministro Manuel Valls denunciou em manifestação pública a situação de apartheid em que. sem as quais a concórdia não tem como se instalar. A reação aos atentados do 7 de janeiro em Paris. convertendo o segundo aos seus valores e instituições. no seu país. por obra da política. À época. dirigentes da União Europeia já se empenham em esforços comuns com países árabes de combate ao terrorismo. à testa da qual marcharam expressivas lideranças mundiais. hoje. tendência percebida por tantos como inexorável. como a de François Hollande na França. A tarefa civilizatória do Ocidente deveria empenhar-se em impor a sua supremacia. com os resultados desastrosos. data das ações do terror contra as chamadas torres gêmeas.32 Os atentados terroristas. em reação à publicação de charges de humor sobre a figura do profeta Maomé. até então de baixa aceitação. em nome das liberdades de expressão e de culto religioso. política que inspirou as invasões por forças da Otan no Afeganistão e no Iraque. contudo. longe de robustecerem a extrema direita na Europa. até mesmo por meios militares. políticas e religiosas. como se viu. Na esteira daquelas grandiosas manifestações. O que era um devaneio da literatura ganhou ali materialidade: há. vivem as populações de origem árabe —. especialmente com a impressionante demonstração de Paris. os atentados de Paris.

como nas tratativas. sobre o restabelecimento das relações diplomáticas com Cuba e sobre a suspensão do embargo econômico que vem impedindo esse país de se desenvolver e modernizar seu sistema produtivo em benefício da sua população. por sinal. ainda ignoradas. pelo nosso debate político. com a nossa imaginação travada pelo economicismo. . Também nos EUA a política tem rompido com lógicas tidas como férreas. essa região do ator. pesada herança intelectual que nos ficou do nosso longo processo de modernização politicamente orientado. Não se pode deixar de registrar a iniciativa do presidente Barack Obama de fixar em sua agenda política a taxação das grandes fortunas no sentido de favorecer políticas públicas igualitárias. parece que a nossa opção. legitimando. Aqui.33 levar a resultado oposto. mas a lucidez com que lideranças democráticas têm movimentado suas peças demonstra que a política. nostálgicos do terceiro-mundismo. é a de fazer ouvidos moucos ao som ao redor. as propostas de Thomas Piketty sobre a reforma do capitalismo. Esse é um jogo ainda a ser jogado. ao seu modo. quando intervém criativamente no mundo. ora em curso. pode romper com lógicas que pareciam ter-se naturalizado.

34 2014 .

com um roqueiro de caricatura à frente. . a da desconstrução metódica da campanha da oponente. com o alarido do seu grasnar. A estratégia adotada pelas forças governistas foi. com o crescimento da candidatura de Aécio Neves. ainda nos marcos de uma argumentação racional. como sabido. sem crítica e elaboração reflexiva.35 Relatos selvagens (23 dez. Se o passado deveria ser trazido à tona em estado bruto. e assim puderam se defender? Que sinais ainda aguardamos para nos precaver dos riscos que rondam a nossa democracia tão duramente conquistada? A crônica política. deixou de ser uma passarela por onde a candidata à reeleição cumpriria seu trajeto triunfal. foi logo renomeada como entre pobres e ricos a fim de explorar o tema funesto do ressentimento social. resistem a retornar a seu lugar de origem. se entregam ao domínio da cólera e da agressividade irracional contra quem os contrarie. mesmo à custa da sua ruína pessoal. advertiram os soldados que faziam sua guarda da presença ameaçadora do inimigo prestes a invadir a cidade. que. como Gilberto Carvalho. Essa síndrome se instalou com o terror experimentado pelas hostes da candidatura governista quando o cenário de uma derrota eleitoral surgiu no radar. em que seus personagens. hipótese antes não cogitada a sério por gregos e troianos e que ganhou plausibilidade com a fulminante ascensão de Marina Silva nas primeiras pesquisas. ecoam no Parlamento relatos selvagens dos discursos do deputado Jair Bolsonaro. por soar ridículo no cenário que aí está. a partir da morte trágica do candidato Eduardo Campos. parece ter-se convertido em mais um episódio do extraordinário filme argentino Relatos selvagens. finda a sucessão. a campanha da candidata Dilma destampou a arca onde jaziam velhas assombrações. e até ministros. é verdade. Não se faz pacto com o diabo impunemente. Sob esse registro malévolo. o que se cumpriu. então. ele nos foi devolvido com o que nele havia de pior: manifestantes bradando nas ruas pelo retorno do regime militar e outros. como a do populismo. que. Mas.) Será que é por falta dos gansos do Capitólio romano que. vinda no vácuo de Marina. desde que a sucessão presidencial. nomeada como uma manifestação de luta de classes. tecem considerações públicas sobre adversários políticos com a linguagem de cafajestes de turmas de esquina. pelo impeachment. A disputa eleitoral foi. ele sempre cobra a conta. foi levada ao paroxismo.

porque foi a própria presidente eleita quem desarmou o petardo que esteve em suas mãos durante a campanha ao propor um diálogo com as forças políticas. muito particularmente. como no impeachment do presidente Collor e no episódio conhecido como mensalão.36 O escândalo da Petrobrás. como as que ocorreram na administração dessa estatal. de ciência certa para sairmos dessa confusão em que estamos envolvidos. A ela devemos um Poder Judiciário autônomo dotado da capacidade de impor limites. ao poder político. A breve súmula que os indicados por ela apresentaram publicamente à Nação. nada inverossímil a possibilidade de que eventuais intervenções desastradas. refratário às manifestações selvagens. filha das lutas pela democracia travadas contra o regime autoritário dos Atos Institucionais. Mas nem o diabo nos trará de volta aos idos do pré-64 que nos levaram. venham a desatar episódios do tipo dos narrados no filme argentino. agora. sobretudo quando indicou suas opções para os ministérios responsáveis pela condução dos destinos econômicos em sua nova administração. irrefletidamente. o ex-deputado Aldo Rebelo e o exdeputado José Genoino. o PT foi ao encontro do programa econômico da oposição. Pois é para esse lugar. Mas. na condução dos rumos a serem dados ao relatório da Comissão da Verdade. Não é por aí que os pescadores de águas turvas terão como prosperar. contamos com o mapa da Carta de 1988. que agora convergem tanto a controvérsia suscitada pela Comissão da Verdade sobre a Lei da Anistia quanto a dos . para tratar das incestuosas relações mantidas entre as esferas do público. ao golpe militar. Em primeiro lugar. quando não se conta mais no governo com o ex-ministro Nelson Jobim. uma criação original do Direito brasileiro. em nome dos direitos da cidadania. com as do privado. e. traz de volta ao noticiário a expressão mar de lama. cortou secamente com ela. longe de expressar uma regressão populista alardeada nos tempos da campanha. incluindo partidos políticos em posições de governo. em meio a tantos fios desencapados. de nefasta memória. na institucionalização de um Ministério Público independente do Estado com a missão de defender as instituições da democracia. Por fas ou nefas. E. que tem passado com bravura por graves crises políticas. que acumularam expertise no trato com a questão militar. por sua vez.

saberá reconhecer que ele é a pessoa certa no lugar certo. a partir do qual os partidos políticos. revelam — agora sob a jurisdição de um juiz de primeira instância. que atrasaram por miseráveis 20 anos nosso encontro com o moderno. mais uma vez. além da punição dos culpados. conduzida pela Polícia Federal. a abertura de um debate público sobre a necessidade de uma reforma política. Da segunda. esperase. que ainda tarda. como se constata com este vozerio populista que nos ronda. . pela Procuradoria-Geral da República e pela Justiça Federal do Paraná. obra de 2004 do juiz Sérgio Fernando Moro. o que é de comemorar — as perversas relações que cultivamos entre o poder e o dinheiro. esperam-se a pacificação e um sinal de advertência para que todos não reincidam nos erros do passado. cujos relatos parciais e provisórios já se fazem públicos.37 resultados das investigações da chamada Operação Lava Jato. Uma última frase: quem ler Jurisdição Constitucional como Democracia. Da primeira. e que. sob regime de urgência. encontrem no Legislativo uma solução que ponha fim nesta raiz funda dos nossos males.

labiríntico —. o minotauro e seu labirinto (7 dez. a partir desse desfecho singular. que germinava na então colônia. como nos anos 1930. pois. sob a vigência formal dessa última Carta que Vargas declarou seu apoio aos Aliados na 2. depois de matar o Minotauro que afligia a cidade de Tebas. o Brasil é a terra da revolução passiva. em que sempre nos perdemos. dela fazendo uso para fins de conservação do seu poder. e.38 Dilma.ª Guerra Mundial. também a metáfora do labirinto pode servir-nos para compreender algo do nosso. às vésperas da revolução de 1930. mais tarde. em que o filho do rei metropolitano foi consagrado como imperador. Definitivamente. de procurar uma rota americana consultando velhos mapas ibéricos. Sem fio que nos guie. retornando a passagens já percorridas. embora o labirinto ainda seja a nossa morada. o que fizemos. quando um movimento nacional-libertador. em que a condição para que as coisas mudem é a de que. visto da perspectiva de hoje. pegamos gosto pelos zigue-zagues. ao fim. bem antes de aprendermos nos livros. Oliveira Vianna e Francisco Campos. lição que. com uma Carta protofascista que jamais levou a sério. em 1937. arguto intérprete da política do Império — não à toa. tudo pesado.) Labirintos são lugares perigosos e não se deve entrar neles sem o fio de Ariadne com que Teseu. teve como encontrar o caminho de saída. título do ensaio clássico que dedicou à formação do seu país. foi atalhado pelo episódio da Independência. desconfiados das linhas retas. aliás. foi capaz de governar com a Carta de 1934. elas fiquem como estão — movimento. e enviou tropas para combater o fascismo na Itália. já tínhamos entranhado na nossa experiência política. se contavam entre os admiradores da política imperial —. Essa sina tem sua marca de origem na própria fundação do nosso Estado. como na frase famosa do estadista mineiro Antônio Carlos de Andrada. mesmo quando invocamos princípios fortes em nome de revoluções. fórmula descoberta nos primeiros anos do Segundo Reinado e que nos veio para ficar. composição bizarra da ordem liberal com a corporativa. Foi. até que com relativo êxito. “Façamos a revolução antes que . Por motivos diversos dos que levaram Octavio Paz a descrever o México como o labirinto da solidão. A conciliação entre contrários. Teríamos. em que Vargas. dois de seus principais colaboradores.

mas foi o que bastou. mobilizadas: o nacional-desenvolvimentismo. Lacan. Ferramentas de segunda geração foram. torna-se um dos carros-chefes da campanha. seus personagens aquietavam a fúria desse monstro da mitologia com os deliciosos bolinhos de Tia Anastácia. O mundo do trabalho e seus personagens teriam perdido centralidade em nome da emergência do povo. nem a velha esquerda é esquecida. apenas com o aríete de ruas desgostosas da política e do exército . antes evocado em surdina. se fosse o caso —. exercício hermenêutico que conclui no sentido de negar a existência. qualificada pelos malfeitos da Petrobrás. teria encontrado um lugar no partido e eventuais energias utópicas poderiam sentir-se liberadas. São Paulo. 2013). Nas histórias infantis de Monteiro Lobato. que. a direção política do PT apresentou seu plano de ação. Ao longo da campanha presidencial. de ontologias privilegiadas.39 o povo a faça”. O nacional-popular. bemsucedida em dois mandatos. Romper com sua política. que parecia saído das páginas de A Razão Populista (Três Estrelas. mais uma situação exemplar de como coexistimos com o Minotauro em seu labirinto. Dilma conta com Lula. em meio a uma tempestade perfeita — alta da inflação. Para sua sorte. E barrou-lhes o caminho. Esse mestre nas artes da revolução passiva não tardou a perceber a gravidade dos riscos de as veleidades populistas dominarem a agenda do novo governo. Wittgenstein. na cena contemporânea. o céu de brigadeiro com que se inicia a jornada da candidata à reeleição logo se vai turvar com a ameaça da candidatura Marina Silva. Freud. sofisticado trabalho em que argumenta em favor do paradigma populista como um experimento capaz de combinar com êxito o institucionalismo com as demandas sociais originárias de uma mobilização espontânea do povo. mais o Gramsci da teoria da hegemonia suportam sua difícil e tortuosa construção. Embalada pela vitória eleitoral. pavimentou o caminho para o crescimento da candidatura de Aécio Neves. perda de credibilidade interna e internacional —. então. desconstruída com ferramentas sacadas do arsenal do diabo — como Dilma antes de aberta a sucessão prometera fazer. do segundo governo de Dilma Rousseff. recentemente falecido —. mas na cena aberta diante de nós a tarefa parece ser bem mais complexa. jovens lideranças das redes sociais e das jornadas de junho de 2013 são incorporadas. ainda em curso. Foi por um triz. renegado nas origens do PT. nessa montagem. E aí. de Ernesto Laclau — professor emérito de Essex. crescimento zero.

com as elites econômicas. cunhada em 2007. embora continue tão enigmática quanto ao tempo da sua formulação. A intervenção ordenada por ele foi cirúrgica: cooptou-se o programa econômico da candidatura da oposição. A fórmula cáustica “hegemonia às avessas” do sociólogo Francisco de Oliveira. ou tentar sair dele por métodos confusos. demonizadas no discurso da campanha eleitoral. novamente reconhecidas como parceiras estratégicas do novo governo do PT. para designar a situação em que “os dominantes consentem em ser politicamente conduzidos pelos dominados” desde que não se questione a “forma da exploração capitalista”. voltou-se. Ela pode ser própria para quem deseja viver em labirinto. Num passe de mágica. tem aí recuperado o seu sentido original. . ao mesmo lugar de 2003.40 Brancaleone reunido às pressas no segundo turno da campanha eleitoral seria marcar um encontro com o desastre. quando se perde ainda mais. como sói acontecer nos labirintos.

mas o que veio a suceder vem desafiando o script mais fantasista de que se poderia dispor para o seu enredo. outro. da de Aécio Neves. e. mas com as jornadas de junho de 2013 o novo cenário não parecia ser promissor a ele. fora o ponto fora da curva das jornadas de junho de 2013 — nada inocente. que lhe foi propícia. antes uma hipótese de laboratório. aliás. se deparou com uma bifurcação inesperada provocada pelo crescimento. primeiro. não corresponderia às convicções de Lula — se a consulta a seu passado permite jogar luz sobre seu posicionamento político —.) “Sair da confusão” — com essa frase o treinador Vanderlei Luxemburgo. depois.41 Sair da confusão (13 nov. avaliado como . recémcontratado pelo Flamengo. mais uma a transcorrer sem maiores atropelos desde a democratização do País. da candidatura de Marina Silva. sempre encapuzado e que. com registro na biografia de Dilma Rousseff e presença latente em suas ações na Presidência da República. Mal ou bem. a política brasileira vinha seguindo o traçado amável e confiável desenhado pelo constituinte de 1988 quando. provavelmente. é fato. de uma eleição fadada a ser mais competitiva que as anteriores com a candidatura de Eduardo Campos a trincar a base de sustentação das hostes governistas. A questão que ora se põe para a política brasileira é da mesma natureza: sair da confusão a que fomos levados pela surpreendente fúria de que se revestiu a competição eleitoral — no prognóstico consensual que antes se fazia. com sua desenvoltura nos debates eleitorais. A definição clara do objetivo estratégico a ser perseguido parece. seria o de investir na estrada do discurso do nacionaldesenvolvimentismo. havia se tornado uma possibilidade tangível. Optou-se por este último. que surgiu opondo à agenda da modernização a do moderno. de súbito. iniciou seu trabalho à frente do elenco sob seu comando. Para evitá-la. Tratava-se. a esta altura. um caminho seria o de seguir avante na trilha astuta aberta por Lula no episódio da Carta ao Povo Brasileiro em sua primeira sucessão. A derrota eleitoral. pois tudo indica que em breve se dissiparão pesadas nuvens que ainda pesam no horizonte da sua agremiação. quanto ao que veio a ocorrer no processo eleitoral —. clube em grave crise e sob a iminência de rebaixamento da série A do Campeonato Brasileiro de Futebol.

mas logo sua real condição se fará pública com a designação do Ministério pela presidente eleita. porque já o antecedia — pela categoria povo não consiste numa operação trivial. ainda. não se sabe. mas . contudo. alternativamente. Esse será o momento de a presidente subscrever. ou permanente. optar pela razão populista. Por essa via fortuita o populismo ganhou seu bilhete de reingresso na política brasileira. em particular nas pastas da Fazenda e da Agricultura. A perda de centralidade do mundo do trabalho na cena contemporânea se constitui num fato registrado pela sociologia. Weffort. Decerto. Raymundo Faoro e Francisco Weffort. implícita no processo eleitoral — e não apenas nele. categoria que foi estratégica na forma como o PT se apresentou ao mundo. ou. que tem horror à confusão. reavivada na campanha vencedora nas urnas. por seu aguerrimento. o Partido dos Trabalhadores foi um dos seus principais coveiros. que o fator decisivo teve seu lastro na memória. que ainda se guarda. se de modo instrumental para efeitos da disputa eleitoral. tanto pela ação decisiva do sindicalismo do ABC paulista — em que Lula foi personagem destacado. avessos ao nacionaldesenvolvimentismo e à estatolatria. Vargas era chamado de “pai dos pobres” —. A derrogação teórica do papel da classe operária. por sinal. especialmente num país com as nossas tradições.42 atraente por falar ao imaginário de setores da esquerda que jamais se conformaram com a via da transição adotada pelas forças que conduziram a democratização do País. do papel do Estado como instância da Providência — na era que leva seu nome. e com mais força em algumas regiões do País. a sua carta ao povo brasileiro. quando denunciou as instituições da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) como o AI-5 dos trabalhadores e se rebelou contra ela — quanto pela crítica de algumas importantes personalidades intelectuais que a ele se vincularam. a seu modo. e acorreram em massa à campanha governista. contrariando o prudente Vanderlei. principalmente nas redes sociais. Esses setores se deixaram seduzir por esse canto de sereias. como Florestan Fernandes. como se sabe. vindo a desempenhar. mesmo que em tom de falsete. um não pequeno papel na sua vitória eleitoral. A narrativa da História contemporânea brasileira na chave do populismo parecia estar sepultada e. tornou-se o primeiro secretáriogeral do PT.

o primeiro deles. sim. . Com o deslocamento do mundo do trabalho para uma posição periférica na “construção do político”. Não esquecer que o sindicalismo nasceu da luta pela institucionalização de direitos. sinaliza-se para uma relativização do tema institucional em nome de pressões difusas e desencontradas em seus propósitos vindas da região do social. como sugerem teorias em voga. uma promessa de nos afundar no pântano da confusão. numa sociedade de capitalismo expansivo como a nossa. Diante do vazio que se abre com sua fraca presença em cena.43 daí a rebaixar. um pouco mais tarde. Isso não é Gramsci nem sua teoria da hegemonia. fruto da política de cooptação a que foi sujeito nos governos de Lula. sobra espaço para as manipulações discursivas. suas lutas econômicas e por reconhecimento social ao estatuto genérico de abrigarem apenas mais um tipo de demanda social. tal como viceja no atual populismo latino-americano. sob a arbitragem do Estado como intérprete privilegiado. e. em competição aberta por hegemonia. pela regulamentação da jornada de trabalho e. entre outras. vai um oceano. em torno do seu direito à participação na política.

Como avalia os ensaios para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff? É boa a proposta de reforma política por meio de um plebiscito? Essa proposta é inviável. deposto pelo golpe de 1964. uma reforma política pela via do plebiscito. é pela via do Congresso Nacional. Ela jogaria o país no labirinto. o carioca Luiz Werneck Vianna viu com preocupação a iniciativa da presidente Dilma Rousseff. Werneck vê um momento de virada na sociedade brasileira.44 Plebiscito sobre reforma política jogaria o país num labirinto (Época. Isso não vai a lugar nenhum. Se o governo insistir na tese do plebiscito. Não é uma contradição que ela fale em diálogo e coloque a carta do plebiscito na mesa de negociação. Dilma saiu enfraquecida politicamente dessas eleições? Saiu. ele acredita que poderemos ir para uma situação parecida ao dos tempos do ex-presidente João Goulart. em que a democracia poderá se aprofundar no país. O caminho correto para uma reforma. Nem responsável é. a um Legislativo. Ele falou com Época durante o encontro anual da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais). porém. de propor. Nela. Você precisa de uma reforma política que faça as coisas andar e não de uma que paralise o país. diz Werneck Vianna. pressionado a aprovar determinado projeto. mobilizador de setores da sociedade. Ele adverte. que esse momento poderá se tornar “péssimo”. A despeito dessa preocupação. em Caxambu (MG) (Guilherme Evelin). logo no primeiro discurso depois de reeleita. quando ela está enfraquecida? . porque ela é inteiramente incapaz de dar uma solução ao problema. se as lideranças políticas não souberem jogar direito.) Um dos principais cientistas sociais do país. um Executivo enfraquecido tenta se fortalecer mobilizando setores da sociedade contra o Legislativo. A via correta para a reforma política é a congressual. mais uma vez. 31 out. que oponha um Executivo.

com suas reformas de base. Se ela for nessa direção. eu acho que não. Está claro . o brasileiro tem se mostrado avesso a estruturas políticas muito simplificadoras. O que achou do acirramento de ânimos provocado por essa eleição? Esse acirramento não foi bom. É o Executivo tentando realizar reformas contra o Legislativo. também. derivou das manifestações de junho. Qual é a sua opinião? Foi muito grande. A questão é outra: seria desejável? No nosso caso. Há diferentes diagnósticos sobre a influência das jornadas de junho de 2013 nas eleições. É contraditório falar em diálogo e vir com uma proposta de reforma política via plebiscito. porque não educou a sociedade. o que lhe chama a atenção nessas eleições? Nós estamos num momento de uma grande virada.se ela for nessa direção. A existência de outras forças políticas pode reforçar a ligação do sistema político com a sociedade civil complexa e heterogênea que temos. entre conservadores e trabalhistas. a polarização entre democratas e republicanos está aí desde sempre. sim. porque ele não se deu em torno de questões substantivas. mas a polarização pode permanecer. fulanizado. isso quer dizer que ela vai procurar apoio na sociedade para se fortalecer contra o poder Legislativo. A democracia brasileira criou condições de se enraizar. Ele foi muito personalizado. No Reino Unido.eu estou falando na condicional. contra a oposição. com a discussão das políticas públicas de saúde e principalmente de educação. Lembra um pouco os tempos do Jango. Por que não pode permanecer no Brasil? Pode. Mais agora do que em qualquer outro momento. Isso é ruim. Nos Estados Unidos. A polarização política entre PT e PSDB tende a permanecer? Acho muito difícil que nós nos convertamos numa estrutura bipartidária. sim. No mundo real. A agenda dessa campanha. Como observador da nossa política há muitos anos. atenção.45 Sim.

então? É um bom momento. dependerá da ação dos atores políticos. É um bom momento para o país. Se insistirem nesse caminho da reforma política pelo plebiscito. com que contamos agora. por experiência própria. mais consistência. Que tipo de consequência isso pode ter? A sociedade precisa se organizar. os atores políticos estarão jogando no sentido de turvar e obstaculizar as belas possibilidades de aprofundamento da democracia. pode ser um mau ou até um péssimo momento. . que o caminho de conquistas sociais está no aprofundamento da democracia política. do ponto de vista sociológico. Se eles jogarem de forma desastrada. Vale dizer: as eleições no Brasil são uma forma superior de luta da agenda social.Se será um bom momento de verdade.46 para a sociedade. As pessoas visualizaram. mais densidade. Isso já não existia antes? Já existia. que as reformas e as mudanças sociais derivam do processo eleitoral — e não de ações externas ao processo eleitoral. Mas pegou mais força. os partidos precisam melhorar suas estruturas para que o debate político ganhe mais consistência. eu penso.

com a questão agrária já resolvida por meio de uma modernização pelo alto em favor da grande propriedade fundiária capitalista. Marx admitiu. Na interpretação de Kautsky. e depois a Karl Kautsky.47 O moderno. opondo em antagonismo radical as forças do capital às do trabalho. cenário bem distinto do russo. como o campesinato. como no prefácio de 1859 à Contribuição à Crítica da Economia Política. nessa versão. Tais forças deveriam contar apenas como aliadas eventuais e temporárias. as chamadas forças sociais retardatárias.) Desde Marx o tema das relações entre o moderno e o atraso é clássico na tradição da esquerda e raiz de fortes controvérsias. construção teórica escorada em textos do próprio Marx. reclamando estudos aprofundados sobre formações sociais de base agrária. primeiro. estas últimas tendencialmente majoritárias. respondendo a uma consulta feita por uma destacada liderança dos populistas revolucionários russos. a possibilidade de um salto revolucionário do atraso para o moderno — no caso. organizado em torno de sua vanguarda política. o atraso e a esquerda (18 out. obra do moderno e dependente de uma plena maturação do capitalismo. expoente da II Internacional e da social-democracia alemã. quando . o autor deixava claro que ela não encontraria fundamentação teórica em O Capital. embora reconhecesse como legítima e plausível a questão que lhe era posta. Depois de sua morte. das comunas tradicionais (o mir) para o socialismo —. sua opera magna dedicada à investigação do capitalismo em sua forma plenamente desenvolvida. que assim poderia evitar “o cortejo de misérias do processo de acumulação primitiva do capitalismo” de que a Inglaterra seria paradigmática. amigo e companheiro de toda a sua vida. que à medida que se aprofundava como modo de produção operaria como um simplificador da estrutura de classes. A transição para o socialismo seria. como a russa. não estariam destinadas ao desempenho de papéis ativos na revolução socialista em razão de seus vínculos de origem ao princípio da propriedade privada. especialmente em seus artigos políticos. o enfrentamento com o capitalismo. Caberia ao operariado. a Engels. uma vez que em sua obra. seu legado intelectual foi confiado. que ele então pesquisava. No caso. Não à toa.

aproveitando-se de forças da tradição como o campesinato. o atraso. num artigo sempre lembrado. trocam de lugar: seu eixo passa a gravitar em torno da agenda do moderno. como vimos. podia se apresentar como uma vantagem.48 sustentou que “nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém”. Nessa nova equação. O golpe de 1964 desmarcou essa topografia política. Com a esquerda brasileira. O jovem Gramsci. reeditando. no contexto da época. no estilo. e as revoluções do século 20 nos países de capitalismo retardatário as tiveram como referência. não foi diferente. a obra de Marx). a esquerda. caso de uma aliança operáriocamponesa realizada sob a hegemonia do primeiro. ele tenha valorizado em vários textos o papel das forças retardatárias no processo da revolução socialista. em boa parte de sua história. A crítica a esse postulado veio dos revolucionários russos. para a esquerda. vai saudar a vitória dos comunistas russos como “a revolução contra O Capital” (no caso. Não importa. longe de se constituir em obstáculo para a revolução socialista. que. a questão agrária foi compreendida como central pelo regime militar. Não por acaso. Como notório. que implicaria uma nova leitura para as relações entre o moderno e o atraso. Trotski e Lenin à frente. Nessa reviravolta. pois seu enunciado de 59 foi elevado a cânon da II Internacional. “as vantagens”. a criação do primeiro Estado socialista. Segundo ela. a que foi empreendida por Vargas sob a modelagem autoritária do regime do Estado Novo de 1937. mais tarde. O tema das vantagens do atraso correu mundo. em temas e muitos dos antigos personagens. que romperam com essa visão linear ao defenderem a teoria de um desenvolvimento desigual e combinado. então sob majoritária influência do Partido Comunista Brasileiro. com a . que supunha. uma aliança com o que então se caracterizava como burguesia nacional. e não mais na do atraso. O regime militar assumiu como estratégia a captura da agenda da modernização. optou pelo caminho da modernização do País. em 1917. embora a partir de fins dos anos 50 tenha cedido em importância à questão nacional. A derrota política desse regime. foi filha dessa teoria — um país majoritariamente agrário e de capitalismo inconcluso teria saltado etapas. em nome delas.

confiados. como se a política ora em curso fosse inocente quanto ao abismo social e político existente entre eles. de que se tem passado ao largo. a distância que os sindicatos de trabalhadores mantêm com a vida popular.49 institucionalização da democracia pela Carta de 1988. com os setores sociais ditos retardatários. para não ficar sem registro. no melhor dos casos. entregues a uma pauta meramente corporativa — o tema do sindicalismo tem sido outro ausente dos debates eleitorais. notadamente os de esquerda. Vale notar igualmente. Sobretudo na falta de vínculos dos partidos. Nada poderia testemunhar melhor a indigência atual da nossa discussão política do que a tentativa de traduzir essa questão capital numa grosseira oposição entre ricos e pobres. e das populações indígenas e quilombolas. Ela está aí no tema da Federação. na questão agrária (ainda!). tão pouco discutido. nos trouxe de volta a difícil relação entre o moderno e o atraso. A barafunda ideológica em que se converteu a presente sucessão presidencial vem toldando a percepção dessa relevante questão. à ação tutelar do Estado. de que o constituinte não se descuidou e nada tem de anacrônica. . sob roupas novas e em cenário radicalmente distinto.

formadas politicamente no terreno da gestão em administração pública. não estaria equivocado quem a identificasse como uma competição eleitoral travada sob o signo da previsibilidade. estranho aos discursos das três candidaturas originais. pouco conhecido fora de sua região. Dilma Rousseff. todos personalidades não carismáticas. trouxe de novo à ribalta o espírito dos idos de junho de 2013. As tramoias do destino. que tinham selecionado como mote os temas econômicos. empatia no mundo popular. Aécio Neves e Eduardo Campos. diante da descrença generalizada do eleitorado na política. de ponta-cabeça o cenário previsto para a competição. Para isso também conspiravam o perfil e o histórico dos três principais candidatos. enquanto Aécio contava com uma campanha que o credenciasse para o segundo turno como o melhor intérprete da insatisfação reinante com o atual governo.50 A sucessão presidencial e seus riscos (20 set. Esperava-se uma disputa morna e vazada em termos racionais. como se constata. Quase consensualmente. parecia apostar mais na sucessão presidencial seguinte. todos empenhados em apresentar argumentos sistêmicos sobre o estado atual da nossa economia e o que fazer para projetá-la à frente. uma presidente disputando uma reeleição em defesa de suas práticas governamentais e dois jovens ex-governadores bem avaliados em seus Estados. o mais jovem dos opositores. com sua história pessoal de superações e seu sobrenome tão comum aos “simples”. com seu discurso desconforme a “tudo isso que aí está” em nossas práticas políticas. com o dom de aliciar. viraram. Nesse cenário. agora de saias. Os scripts dos principais candidatos. não pareciam ter o condão de precipitar uma competição eleitoral que viesse a inflamar a atenção da opinião pública. Sua aparição.) Era para ser uma eleição disputada com bola murcha. admitia-se que caberia a Dilma vencer no primeiro turno. que jazia embaixo do tapete. com a tragédia que vitimou Eduardo Campos. . recém-saído da coalizão governamental de que tinha sido um dos esteios. Eduardo Campos. com o retorno à cena política da assombração do carisma. cálculo reforçado pela candidatura de Eduardo Campos. na pessoa da candidatura de Marina Silva. por si só. diante da crença de que se tinha pela frente uma eleição em dois turnos — estilo das imediatamente anteriores —.

aliás. logo acabaram por encontrar em Marina. em defensiva em muitos dos seus momentos. que. não teve condições de reciclar seu discurso. calculando e moderando cada passo com vista a manter sua coalizão com ele. Bem antes do seu desenlace em outubro. para a disputa no segundo turno. que ainda preconiza a sua continuidade. em que o moderno vem tendo de pagar pedágio às forças do atraso e às tradições do mando oligárquico. sem desconhecer as questões econômicas. para tantos um episódio remoto. estas eleições. reduzindo o papel tradicionalmente ocupado pelas políticas de modernização e pelo papel do Estado na condução da economia. estas últimas. salvo outras intervenções do Sobrenatural de Almeida. . Tal identificação projetou-a meteoricamente nas pesquisas eleitorais. ao menos até aqui. A agenda do moderno de algum modo se infiltrou nos debates eleitorais. passou a gravitar em torno de um elenco novo de questões. cujo aperfeiçoamento se tornou imperativo. passou a participar da sucessão presidencial. qualquer que seja o vitorioso nas urnas.51 Invocados os sentimentos difusos em favor de “uma nova sociedade” e de uma “nova política”. Este ciclo encontra quem o defenda na presente competição eleitoral e a coalizão política. parece ser a favorita para vencê-la. Junho de 2013. a dignidade de permanecer fiel ao seu programa e à sua história. deslocando Aécio. de Fernando Henrique Cardoso aos governos do PT. com ênfase especial nos temas políticos — nosso degradado presidencialismo de coalizão foi chamado à berlinda — e nas questões de fundo ético-moral. desta vez. Um longo ciclo. como nas discussões sobre a necessidade de ampliar a esfera pública a partir de mecanismos de participação popular. A economia foi obrigada a compartilhar seu tradicional lugar de primazia na campanha eleitoral com razões de outras procedências. tanto por sua figura não convencional quanto pelo discurso que adotou. preparado para outro tipo de embate. já nos deixam resultados tangíveis. O principal deles está na confirmação de que a via régia para as mudanças reclamadas difusamente pelas ruas se encontra nas instituições da democracia política. sem serem desqualificadas sob a designação de moralismo vazio. que tinham encontrado vocalização naquelas inéditas manifestações. Outros ecos de junho de 2013 também se fizeram ouvir. Restou-lhe. já esbarrou nos seus limites. o seu natural portador. O debate entre os candidatos.

com a sociedade alinhada em direção oposta. na situação atual. Wolfgang Schluchter em seu clássico Paradoxos da modernidade (Unesp. Aécio e Marina têm exercido um papel pedagógico na denúncia dessa política desastrada. . uma consciência crescente por parte da população dos seus efeitos perversos sobre a vida social e a política. para os governantes que não desertam de suas convicções são bem menores do que seguir adiante com as práticas degradadas que ora nos arruínam. em sua interpretação de Weber. se ela abdica de valores éticos. Os riscos. a esta altura. 2010). Nesse sentido.52 Mas está exangue e tem contra si. que a tudo sacrifica em nome de uma governabilidade cuja razão de ser é manter tudo isso que aí está. consiste numa política de alto risco conceder mais uma oportunidade a ela. tal como sinaliza. degrada-se em pragmatismo estéril se não souber preservar valores de convicção diante dos valores de sucesso. Contudo. Decerto que uma ética de responsabilidade não pode desconhecer as circunstâncias inóspitas em que atua.

Elas incidem decisivamente sobre os rumos . a campanha eleitoral em curso deveria prestar-se aos objetivos de expansão dos seus quadros e da sua projeção política no cenário nacional. Somente na aparência tais questões afetam apenas o PSB e as expectativas políticas de Marina quanto à formação do partido Rede. e certamente não se prestará ao papel de barriga de aluguel. pela qualidade política de seus movimentos iniciais. do seu prestígio e da sua candidatura presidencial. como se sabe. a esta altura. Mas — outra complicação — quem escolhe o novo elenco e quem detém poder de veto nessa escolha? A família de Eduardo Campos. pode ser vista como de alto risco para sua identidade partidária. a pretensão de Marina é formar seu próprio partido. que a aceitaram por persuasão do seu líder partidário. no desenho original do seu texto previstos para serem desempenhados por quem se ajustava a eles. Nos cálculos do PSB. porém. de corpo e alma — como a circunstância exige —. correm o risco de se tornar postiços e inverossímeis com novo elenco. como é de esperar. por história pessoal e physique du rôle. a caminhar nessa direção? As respostas. estarão propensas. o PSB. A aliança com Marina. já se fazia reconhecer como uma promissora liderança nacional. por sua vez. certamente já devem ser conhecidas pelo leitor. Antonio Campos. indicada como candidata a vice na chapa partidária. não virá sem problemas porque. ou um nome que discrepe abertamente das linhas estratégicas traçadas por quem foi sua maior liderança. com os principais candidatos atentos a uma agenda em boa parte comum. Risco ainda maior. A decisão. Atores serão substituídos e papéis principais. O enredo de uma competição eleitoral até então fria e acompanhada com distância quase irônica pela população.) O inesperado bateu à nossa porta com a morte do candidato à sucessão presidencial Eduardo Campos. se complica ao se perder uma parte importante do script. por meio do seu irmão e também dirigente do seu partido.53 Sobrenatural de Almeida e a sucessão presidencial (19 ago. que. já se pronunciou publicamente a favor de Marina Silva. com alas refratárias a Marina. seria não apresentar candidato algum. A coligação que abrigava Eduardo fará o mesmo? E o PSB. com a designação pós-moderna de Rede Sustentabilidade. mesmo que positiva. sem estar guarnecida pela presença de Eduardo.

com remotas possibilidades de vitória por falta de raízes nos maiores colégios eleitorais do País. Eduardo Campos era o fiador da possibilidade de o desenlace da sucessão não transcorrer no primeiro turno. sede do governo de Pernambuco. Dilma Rousseff. em meio ao luto. expressão com que o dramaturgo e bissexto cronista esportivo Nelson Rodrigues caracterizava resultados imprevistos. que. Aécio Neves. em última instância. para todos os efeitos e independentemente das intenções de muitos. O PT. insondáveis as inclinações do seu partido num eventual segundo turno. candidata favorita à reeleição. se esse rumo se afirmar. pela ação imponderável do destino. com Marina Silva à testa da candidatura do PSB. poderia ceder seu lugar a ela no segundo turno e. o nome de Lula? . desembainhando. de fato. o começo da disputa presidencial. mantinha seu foco no horizonte de 2018 e no fortalecimento do seu partido. com a sucessão dramatizada pela tragédia que vitimou Eduardo Campos. a própria situação de favorita de Dilma pode vir a ser ameaçada. assumindo os riscos letais de perder o poder. tal como demonstrado nas grandes manifestações de junho de 2013. mesmo que parcial. O enredo conhecido em que ela se travaria era o de uma competição eleitoral entre três forças. ou. Marina foi tacitamente ungida como a candidata da terceira via do projeto de Eduardo. embora turbinado pela aliança com a Rede de Marina. com a reunião dos chefes de fila da classe política brasileira. o tabuleiro muda radicalmente de figura: Aécio. diante da dramaturgia levada a público na missa campal em frente ao Palácio do Campo das Princesas. quando. especialmente nas circunstâncias adversas em que seus vínculos com os movimentos sociais se esgarçam. afinal. Se houver o chamado recall. nessa hipótese. No cenário que se esboça com tintas fortes à nossa frente. reviravolta ainda mais rocambolesca.54 da sucessão presidencial e nos remetem ao reino metafísico do Sobrenatural de Almeida. como segunda força. linhas de campanha e estratégias eleitorais foram condenadas ao anacronismo. nas disputas futebolísticas. com os sinos a rebate se precipitou. Nesse dia. com a Nação na expectativa. da votação de Marina em 2010 — quase 20 milhões de votos — e se a parcela do eleitorado até então propensa a anular o voto como forma de protesto se deixar seduzir pelo estilo não convencional da candidata. reage a ele. e Eduardo Campos. persistirá fiel à sua candidatura.

pode. o Brasil não é para principiantes — mudanças podem vir quando ninguém espera mais por elas.55 Tantas vezes se disse. Está aí: a agenda da campanha presidencial. Pela ação do fortuito. ao lado da pauta arquiconhecida da inflação e da gestão administrativa. caso vingue a candidatura Marina. começar uma nova história e. uma eleição que parecia condenada à mesmice e ao desalento quanto à política pode. sem favor. quem sabe. ser considerado como uma ruptura com um script desgastado e sem vida. . não poderá escapar de mutações que abriguem temas como “uma nova sociedade” e “uma nova política”. numa sociedade que vive ciclos ininterruptos de modernização econômica desde os anos 1930 — e se viciou nas controvérsias sobre ela —. sob a bandeira inspirada que nos ficou de um dos temas de Eduardo: “Não vamos desistir do Brasil”. tal como foi concebida originalmente. agora. O imaterial cobra por reconhecimento do seu espaço e isso.

) Não se pode mais não sentir. De fato — e nisso há consenso geral —. os ventos de mudança sopram de todas as direções. é inegável que a massiva exposição pública dos critérios adotados na convocação dos jogadores. As jornadas de junho de 2013 no Brasil. A linguagem do futebol. já toma corpo o diagnóstico de que ele requer uma radical mudança na sua cultura e nas suas estruturas. não pode ser atribuído tão somente ao fortuito e aos azares sempre presentes nas disputas esportivas. especialmente em torno da questão da habitação popular. como também se faz presente na formação do senso comum com que os brasileiros se percebem nas suas circunstâncias. a derrota por 4 a 0 imposta pelo Barcelona ao Santos do sempre brilhante Neymar. em tempos recentes. parcialmente confirmado. dias depois. popularizadas nas falas públicas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. ameaçam pegar um forte vento de cauda com o surpreendente desastre da seleção nacional na Copa do Mundo. Do mundo do futebol. Ele depõe contra a concepção estratégica da nossa preparação para os jogos e denuncia o anacronismo do nosso repertório e do nosso sistema de jogo. escrutinados com interesse apaixonado pela população. na derrota para a Holanda (3 a 0). na final do campeonato mundial interclubes. Mas. notoriamente. . no caso. O resultado acachapante da disputa das semifinais com a Alemanha (7 a 1). de resto visível nas competições em que se envolveram. põe a nu as estruturas do nosso futebol — arcaicas. não só favorece um amplo processo dialógico. os nossos principais clubes nos torneios internacionais. é um instrumento relevante da nossa cognição e presença forte na construção das metáforas com que estabelecemos a nossa comunicação de uso cotidiano. de outra parte. na sua escalação para os jogos.56 O futebol e a política (19 jul. sobretudo. nos métodos de treinamento e na avaliação do desempenho de cada qual. que se alongaram nestes primeiros meses de 2014. que só os ingênuos e as análises mal-intencionadas podem afetar indiferença quanto a seus efeitos sobre o humor dos brasileiros. em 2011. com novos temas e outros personagens. não é verificável empiricamente a relação entre êxitos e fracassos da nossa seleção de futebol com resultados eleitorais nas sucessões presidenciais. na política inclusive. E. Exemplar.

com as nossas ruas varridas por movimentos de protestos contra a natureza da política imperante entre . Fechada em panos de luto a Copa do Mundo de 2014. O anacronismo e a resistência à inovação são outras marcas comuns. O script apresentado. conforma um laboratório silencioso onde se processam experiências que transcendem o seu território. para a sucessão presidencial e as eleições para governador e das Casas parlamentares. entre outros estudiosos. tanto nas ruas como fora delas. a política do presidencialismo de coalizão na forma bastarda como o adotamos. aos interesses de autorreprodução de suas elites dirigentes. sopas de letrinhas a combinarem alhos com bugalhos. que. cujas afinidades eletivas com as práticas vigentes entre nossos próceres esportivos chamam a atenção ao submeterem o futebol. com esse resultados apavorantes na Copa do Mundo. Mais do que exercer um papel pedagógico para a vida moderna. notável atacante dos anos 1930 — nos estádios de futebol teria contribuído para a sua valorização na sociedade. vamos. mas há algumas coincidências com o que já agita o mundo do futebol. tão bem percebida por Mario Filho no clássico da nossa literatura social O negro no futebol brasileiro. até então. sem programa e sem alma diante de uma população que reclama por mudanças. Não há Muralha da China a interditar o aprendizado que daí deriva para outras dimensões da vida social. abriu uma janela para a oportunidade da sua remoção. com sua intrínseca valorização da cooperação — a coordenação de movimentos dos jogadores para defender e atacar — e do mérito individual. O sentimento em favor de mudanças que varre o País certamente não nasceu nesse “laboratório”. que já se iniciam sob maus auspícios com a movimentação dos nossos paredros da política em torno de alianças erráticas. quando argumentou que a valorização do negro — seu modelo foi Leônidas da Silva. todavia. tem destacado o antropólogo Roberto DaMatta. tal como os da política. A qual. agora. entre nós. por candidatos e partidos políticos para a disputa eleitoral não está à altura da excepcionalidade do momento que vivemos. Entre tantas.57 autocráticas —. não virá sem o clamor público e a ação de uma crítica contundente que a tornem imperativa. como. o futebol. A questão racial foi uma delas.

com todos os seus males conhecidos. hoje. faz tempo. em 2013. . teria mascarado nossos erros —. O mais grave. já soaram todos os alarmes. mas. mais moderna do que o seu Estado. tal política tinha assegurado condições razoáveis de governabilidade. na Copa do Mundo. contudo. Pode-se sustentar que. nos faltaram sinais que advertissem sobre a catástrofe a vir — a vitória na Copa das Confederações. é que a esta altura do campeonato não se saiba ao certo que times são esses. uma relação tradicional na nossa vida política: a sociedade é. Inverteu-se. Se antes. agora jaz exaurida diante de uma sociedade que recusa ser representada por ela. embora não faltem os que alardeiam que em time que está ganhando não se deve mexer. no campo da política. como se pode verificar com a emergência dos movimentos sociais que brotam de toda parte e se mantêm estrangeiros à política institucionalizada.58 nós.

não só têm estimulado. precisamente. e. cederam lugar a categorias de trabalhadores demandantes de melhorias salariais. embora guardem em comum o mesmo viés economicista e a mesma distância quanto à política. é um exemplo disso. nesta segunda onda dos dias presentes. como os de acesso à saúde.) Desde junho de 2013 as ruas não têm dado tréguas em suas manifestações. indicadores confiáveis atestariam o alcance de setores subalternos a melhores padrões de consumo e de acesso ao mercado de trabalho. em que estavam envolvidos importantes dirigentes do PT. e a movimentos sociais de extração social difusa. elas apontam. As duas florações da social-democracia — a do PSDB e a do PT —. como é intuitivo. . com o claro registro da dimensão dos interesses. tal diagnóstico convive sem conflito aparente com o reconhecimento por parte de analistas de diversas orientações de que. para direções opostas. como atuado no sentido de consolidar as liberdades civis e públicas previstas na Carta Magna de 1988. o processo dito do “mensalão”. segundo eles. Os diagnósticos que nos vêm da mídia são uniformes na interpretação economicista do mal-estar reinante na população. primeiramente sob as bandeiras dos direitos. nos últimos anos. a procura por parte dos setores subalternos da porta de acesso aos direitos da cidadania. à educação e à mobilidade urbana. embora a do PT venha sendo a mais desenvolta na intervenção sobre a questão social. Os limites em que o governo da presidente Dilma Rousseff se manteve no curso da Ação Penal 470. palavra-chave da sucessão presidencial que se avizinha. no governo por duas décadas. Em poucos meses. como os do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). antes com massiva participação. mesmo que indiretamente. carregando nas tintas o tema da inflação. por vezes à margem da orientação dos seus sindicatos. dessa região oculta da Lua e se manifesta na ruptura da passividade em que se mantinha o “grande número”. Muitos deles até sustentando que tais setores já fariam parte das classes médias. As camadas médias. cada qual no seu estilo. para flertar com a linguagem de um grande autor em suas alusões ao homem comum da sociedade de massas. Contraditoriamente. boa parte deles sob a influência de partidos da esquerda radicalizada. O fato novo que temos diante de nós vem.59 O “grande número” e a política (22 jun. Conquanto essas duas interpretações contenham seu grão de verdade. mudaram os temas e os personagens.

malgrado as diferenças entre PSDB e PT. em termos de organização . como igualmente se manteve ao largo dos movimentos sociais e do sindicalismo. No caso do PT. logo esvaziado. Quanto aos intelectuais. com seu núcleo duro constituído por elites de formação e trajetória tecnocráticas. e hoje padecem de desencanto com a revelação dos muitos malfeitos com origem na máquina governamental. Contudo. ambos optaram por estilos de governo tecnocráticos. o PSDB assumiu-a apenas no plano do discurso. confiante nos louros conquistados com os êxitos do Plano Real. que lhe cabia tão bem. partido formado por intelectuais. ultimamente. Nem um nem outro enfrentaram o desafio da “ida ao povo”. bem camuflado por instituições como o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Nas favelas e nos bairros populares. Nessa posição marginal. tais práticas podiam ser vivenciadas como um sucedâneo de democracia participativa. O PSDB. sobretudo. eles não encontraram em sua estrutura partidária um lugar próprio para exercer influência. entre os quais a do Plano Real e a do Bolsa Família. inscritas no DNA de cada um deles. rebaixados à situação de massa anônima de simpatizantes. o sindicalismo tem-lhe feito as vezes e. Na versão petista. em última instância. mesmo que suas deliberações fossem. marcas fortes dos governos de Lula. em que pese a forte atração que o PT exerceu sobre eles no momento de sua fundação. eles se confortaram na crença dos poderes carismáticos da sua liderança. incluídas grandes personalidades do mundo da ciência e da cultura. bafejada por sua origem operária. dependentes da discrição governamental. na do PSDB. a massa de consumidores. por sua vez. Assim. pela incorporação de movimentos sociais ao aparelho de Estado. mencionado este último apenas pela sua efetividade. E. tem sido empregado — certamente não foi indiferente às políticas bem-sucedidas dos governos social-democratas — declarados como tal ou não — que têm estado à testa da administração pública. Para os setores organizados e próximos ao partido.60 A passividade do “grande número” ao longo desse período — evita-se o uso do termo multidão para manter distância das ressonâncias metafísicas com que ele. não somente os deixou à deriva. se o PT se recusava a vestir a carapuça da social-democracia. e pelas reuniões informais entre o ex-presidente Lula e as lideranças sindicais.

a ativação do “grande número”. em meio a um oceano de evangélicos. que confundem o consumidor com o cidadão e a política com o cálculo eleitoral.61 partidária — não de voto. frise-se —. atabalhoado e. já está na hora de fazer ouvidos moucos aos ideólogos do economicismo. confessos ou encapuzados. vertical. Nessas condições. Nada a surpreender quanto à sua descrença na política e à selvageria de muitas de suas manifestações. tem encontrado à sua frente um terreno político desertificado. de modo tardio. Seja lá o que o destino reserva a essa iniciativa discricionária. não vai recuar nem mesmo diante da Copa do Mundo. que não nos chega em momento propício. a que se assiste desde junho do ano passado e. fato que o governo do PT reconhece agora. . ao que parece. não se nota a presença deles. como sempre. com a criação por decreto dos conselhos populares de participação na administração pública.

já teria motivos de sobra para renunciar a seu empedernido otimismo. ou por uma perversa ação combinada entre eles. . Decerto que ninguém espera. personagem de Cândido. possivelmente até o Doutor Pangloss. foi a de endereçar a agenda da igualdade às instituições da liberdade política. as relações entre o Estado e a nossa sociedade civil ameaçam experimentar um regime de apartheid. A Copa do Mundo de 2014. que implodiu as convicções filosóficas otimistas de Pangloss e de seu discípulo Cândido. eles transbordam tumultuariamente nas ruas. inclusive sob regime militar —. mobilidade urbana e atendimento à saúde transcorrendo à margem dos partidos e da vida associativa. como nos casos recentes da greve dos garis e dos rodoviários cariocas. se impondo nas relações sociais. Por imperícia na condução da política. um terremoto como o de Lisboa de 1755. que os meios de comunicação de massas reverberam acriticamente. em vez disso. que nos prometia tempos de festa e de congraçamento — como os das Copas anteriores. filha dileta do populismo reinante. está a realizar movimentos que nos sobressaltam. por aqui. ignorando até as diretrizes de suas lideranças. mas não se pode mais desconhecer que o terreno a que nos acostumamos a pisar com segurança desde 1988. ano da promulgação da nossa Constituição. cuja inspiração de fundo. Com efeito. em termos de filosofia política — revolucionária para uma sociedade com nossas tradições estatólatras —. para quem o mundo sempre vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. célebre romance picaresco de Voltaire. já se corre o risco de comprometer a obra do constituinte. a atmosfera de um clima de apreensões com um possível recrudescimento das manifestações de protesto e sua generalização sob a bandeira difusa de ser contra tudo isso que aí está. O tempo é de insatisfação e de descrença.62 O vinho novo e os velhos odres (17 maio) Do jeito que as coisas marcham. À falta de canais e por descrença nos existentes — até os mais longevos e respeitáveis como os do sindicalismo —. carrega. com os vínculos que os punham em comunicação cada vez mais esgarçados — esgarçamento posto à vista pela maré montante da questão social com seus vigorosos movimentos por habitação popular. com a cultura do ressentimento. ou pelo vício contumaz de concebê-la sob o viés do cálculo eleitoral.

porém. nos dias correntes. quando não lenientes. tem sido de fato o partido que mais se aplicou. velada ou abertamente. temos sido retardatários. Nessa linha. O governo do PT. sob provocação da sociedade e do Ministério Público. em nossa história política. para o interior da esfera pública. as leis de iniciativa popular e a legitimação constitucional de institutos como a ação civil pública. que extremaram os traços mais recessivos e perversos da nossa tradição política autoritária. trazendo os movimentos sociais para o interior do Estado à moda do velho corporativismo. rebaixados em sua autonomia pelos seus vínculos com o Estado que. inibiu a plena maturação deles. na prática e em sua retórica. em “interesses bem compreendidos”. à questão social. de modo politicamente educado. Com essa operação anacrônica. lugar em que a multidão de interesses múltiplos e desencontrados encontra filtros capazes de convertê-los. esse meio não tem sido pródigo em produzir lideranças políticas relevantes nem dá conta do que se passa nas ruas. Como se sabe. ao lado dos clássicos mecanismos da representação representativa. o social se manifesta como matéria-prima em estado bruto. A dura experiência de duas décadas de regime militar. Como é visível a olho nu. as audiências públicas realizadas no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo sobre questões de educação pública. O constituinte não trabalhou no vazio nem se deixou levar por abstrações. tal como toma conta das ruas desde as jornadas de junho. esteve no cerne da sua obra no sentido do fortalecimento da sociedade civil diante do Estado. Sem conhecer a prática da associação no mundo civil. o Poder Judiciário na administração da questão social. E daí transitarem. do que são exemplares. condicionou vinho novo em odres velhos. na linguagem de um grande autor. como na famosa parábola do Evangelho. . desanimados da vocação para se expandirem. os abriga. os da democracia participativa. Contudo. como os conselhos em matéria de políticas públicas. sobretudo. em relação a esses propósitos. as inovações constitucionais envolveram com audácia. Os ideais republicanos que ela expressa. não podem dispensar o cultivo das artes da associação. a Carta de 1988 admitiu.63 Com essa chave generosa. E.

Para ficar na parábola. essa categoria exótica existe. enquanto assiste com ira ao desenrolar de escândalos na administração pública e. por nossas cores. não tem como se manter contido pela ação organizadora do Estado. mas a questão dolorosa que fica é o deles estarem bem longe das suas mãos. com indiferença. uma pitada de Doutor Pangloss não faz mal a ninguém. numa sociedade de massas com o tamanho da brasileira. ao emergir à superfície em busca de direitos de cidadania. os astros parece que marcaram um encontro aziago. Temos uma seleção competitiva e ainda confiamos nos ideais da igual-liberdade. Afinal. mas vai haver Copa e poderemos torcer. em ano de sucessão presidencial. apesar de tudo. Para este mês de junho. é muito vinho para poucos odres.64 O social. Os direitos reclamados por ela estão afiançados pela lei e são respaldados pelo discurso oficial. à febril agitação. das classes políticas — no Brasil. a feliz fórmula que preside o espírito da nossa Constituição. .

com o que filosofa sub-repticiamente. nos espaços da internet. em meio a um processo de revisão da Lei da Anistia que as contraria. na procura por um herói sem rosto e anônimo — a multidão. não haverá Copa do Mundo sem elas. estúpido!”. Nessa visão rústica da dimensão do interesse. e não com o cidadão. identificando o homem real com o consumidor. e as ideias e as crenças de nada valem. Basta . inocentando o observador de fazer uma avaliação idiossincrática. ainda resiste a explicação singela de que foram desencadeadas pelo aumento em centavos dos preços das passagens dos serviços de transportes urbanos? Faz algum sentido esperar pela próxima campanha à sucessão presidencial com o olhar fixo nos índices da inflação? O mal-estar pode até ser medido.65 Está esquisito (26 abr. construção cerebrina da fabulação de profissionais de utopias. retruca com acidez aos argumentos que lhe são estranhos com o bordão “é a economia. somente o que importa é o bolso.) Está esquisito: a que se devem essa difusa sensação de mal-estar e esses pequenos abalos que vêm surpreendendo a rotina do cotidiano não só nos grandes centros metropolitanos? Por que uma parte da juventude escolarizada se empenha. fruto nativo do nosso longevo processo de modernização. ideologia reinante entre nós. de quem se espera a recriação do nosso mundo? Também está esquisita essa descrença generalizada nas pessoas e nas instituições diante da Constituição mais democrática da nossa história republicana e das políticas bemsucedidas de inclusão social levadas a efeito nos últimos governos. que estudaram seu papel na produção da vida material. É crível compreender tal estado de coisas pelo preço dos tomates? E quanto às jornadas de junho. como se sabe. como se pode ver nas recentes pesquisas eleitorais que indicam robustos 24% do eleitorado com a opção de votos brancos e nulos. dando as costas a lições de clássicos como Marx e Weber. são mobilizadas para tudo. Esquisitice que beira a ironia quando se constata que as Forças Armadas. o poder de compra. até para intervenção direta na questão social. O economicismo. como na chamada pacificação das favelas cariocas. a seu juízo uma simples abstração. E.

Elas estão noutra parte. que a presidente da República. toldando a percepção do que é próprio à política como o lugar da produção de consenso e de legitimação do poder incumbente. Entre nós. possa vir a ter sua indicação à sucessão presidencial substituída pela do presidente de honra do seu partido. a Pátria de chuteiras — expressão que. inclusive por um partido político no seu horário eleitoral. em particular do Terceiro Estado. desde que se fixou a hegemonia do viés economicista no senso comum. Debalde procurarmos as razões desse estado de coisas na dança dos indicadores econômicos. O Antigo Regime e a Revolução. e que o campesinato — personagem decisivo naqueles acontecimentos — estaria experimentando um inédito movimento de acesso à terra. E sem deixar de registrar que. seu mais ilustre personagem e responsável por sua eleição. então. como expôs. a França estaria conhecendo um bom momento em sua economia. que denunciaram a distância entre o governo e a sociedade civil. quadro do Partido dos Trabalhadores (PT). nada de surpreendente que ela venha sendo degradada a um mero registro desconexo de questões de bagatelas. com base em sólida empiria. para o que a influência do marketing político tem sido considerável. caso não sustente até o momento da convenção partidária indicadores aceitáveis de inflação. isso não era para ser assim. o processo especificamente político com que a monarquia se teria isolado da sua sociedade. Em princípio. especialmente da juventude. Alexis de Tocqueville. a ser disputada em nossos estádios pela nossa seleção de futebol.66 lembrar a análise do primeiro sobre a ética calvinista e a formação do espírito do capitalismo e a afirmação do segundo sobre como as ideias podem se tornar uma força material. uma vez que o . a sociedade civil da época. visível o fio vermelho com que ele se liga às jornadas de junho. às vésperas da revolução. tem seu quinhão de verdade —. seja recebida pelos brados de “não queremos Copa!”. Esquisito. capital na passagem para o mundo moderno. como sentimos. do papel das ideias e dos intelectuais — os iluministas que forjaram o conceito de direito natural com base na Razão —. em sua obra-prima dedicada ao estudo da Revolução Francesa. Esquisito que a Copa do Mundo. demonstrou não só a importância para a produção daquele evento.

em certos casos até acriticamente. e corre o risco de se converter na multidão dos profetas apocalípticos que estão por aí. a sociedade não se educou nem se organizou. ao Estado e à sua história institucional. caso do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). essa plataforma de lançamento cedeu. . O triunfo maior da lógica dos interesses sobre a política veio com a adoção. Essa inclusão.67 PT tem em suas marcas de fundação a vocação para agir na sociedade civil e favorecer sua organicidade — e. do programa Bolsa Família. mas a satisfação de interesses segmentados. aí compreendida até a vigente no regime militar. refratárias à época. com a ampliação do Estado a fim de nele incluir sindicatos e movimentos sociais. começou sua história fiel a essa orientação —. não significou a adesão a um programa e a uma política. perfeitamente compatível com os princípios neoliberais de raiz economicista. Sob esse registro. contudo. Ficou esquisito. em alguns casos mesmo que informalmente. porém. como atesta hoje o quadro atual da fragmentação das centrais sindicais. No governo. com uma guinada em favor da recuperação da política de modernização da nossa tradição republicana. e o sucesso. Nos seus fundamentos. de fato. de resto. passam a ser incorporados elementos da estratégia política de Vargas.

68 A Copa e o estado de coisas que aí está (30 mar. Não que da sociedade tenha aflorado o impulso para a auto-organização e para a difusão de valores cívicos. desde as refletidas e conscientes dos seus fins até aquelas — provavelmente majoritárias — que os desconhecem. especialmente na juventude. o sentimento de que tudo isso que aí está. Exemplos não faltam. às vésperas das competições as ruas se faziam engalanar pelos próprios moradores. que se disputa aqui. O fenômeno é outro e se faz indicar pela relação de estranheza e desconfiança que se vem estabelecendo entre ela e o Estado e suas instituições. que certamente não se dirige ao mundo do futebol. imposta em outro tempo e para outro perfil de trabalhador. “não me representa”. Nesta de 2014. fazendo ouvidos moucos às tentativas de fazer da Copa um momento de ufanismo e de integração nacional. mas ao da política. a manifestação dessas mesmas ruas tem sido a de brandir punhos cerrados sob a palavra de ordem ameaçadora de que “não vai ter Copa”. mas de tanto que empurrados pelos movimentos dos fatos quanto por nossas ações. A festa popular. . bem longe disso. Episódios como esses têm sido frequentes sem que se abalem os fundamentos anacrônicos da estrutura sindical. como o da Copa do Mundo que se avizinha. paixão inamovível dos brasileiros. conduzindo seu destino à sua discrição. tradicionais e novíssimos. já dá mostras de que perde seu controle sobre os movimentos dela. como se constatou com a greve dos garis do Rio de Janeiro. já fez sua opção de se manter distante da arena oficial. com sucesso. porque reina. que estendiam bandeirolas e grafitavam nos muros e nas calçadas símbolos nacionais. que certamente virá com a abertura dos jogos. suas demandas com o governo municipal diretamente. Ronda sobre ela o espectro dos idos de junho. disputadas em países distantes. Noutras Copas. ao revés.) Quase não se sente. inclusive a Copa. estamos à beira de uma grande mutação: o Estado que fez sua história entre nós como mais moderno do que sua sociedade. Estranheza quanto às instituições que não se confina a setores das classes médias. quando os trabalhadores dessa categoria profissional desautorizaram o seu sindicato e negociaram.

optando-se. de triste lembrança. institucionalizada pela Carta de 1937. da qual não se espera. não se limita à incredulidade quanto a esse “outro” que é o Estado. que o levou a revalorizar o que havia de mais recessivo na tradição republicana brasileira. A síndrome do protesto ganhou a imaginação de inteiros setores sociais nas metrópoles. Na raiz desse desencontro. em boa parte com origem em estratos subalternos até então imersos na passividade e no conformismo. pior. inclusive na democracia de 1946. que reclama mudanças e inovações. evitou-se responder ao desafio de encontrar um caminho original para um governo com origem na esquerda — decerto nada fácil. e que se radicalizou a partir do segundo mandato do presidente Lula. e encontraria seu sistema de defesa nos novos institutos criados por ela. de nenhum modo fortuito. muitas delas violentas. estes últimos cavalos de batalha do sindicalismo do ABC e dos primórdios do PT. uma discussão em profundidade sobre as causas do mal-estar reinante no País. mesmo que de modo inicialmente tímido e sem apresentar suas razões. encontrou seu lugar neste presidencialismo de coalizão que viceja à sombra da Carta de 1988. A rigor. com justas razões. mas era o que cumpria fazer —. sob a influência do dinheiro —. em suas periferias e mesmo em pequenos centros urbanos. Para trás.69 O sentimento de estranheza e desconfiança. pela restauração de práticas e ideias de um mundo defunto. . já esboçada antes de chegar ao governo em 2002. qual seja o viés de se inclinar em favor de uma cultura política estatólatra. está a guinada empreendida pelo PT. pela emancipação da vida associativa dos trabalhadores e pela defesa do princípio da pluralidade na representação sindical. que se agrava. Essa cultura é longeva e teve seu momento mais forte no Estado Novo. E. orientada em favor do fortalecimento da sociedade civil diante do Estado. traduzindo-se em ações. mas subsistiu de modo encapuzado nos períodos posteriores. O legado da resistência democrática seria preservado na Constituinte e consagrado na Carta de 1988. em meio ao jogo de parentelas e clientelas e. a rica história de lutas contra o autoritarismo do regime militar. camuflada com arte. caminha-se para uma eleição presidencial e parlamentar com todos os vícios das anteriores — aparelhadas. pela descentralização administrativa. Nesta hora. para não mencionar o regime militar. como um fardo embaraçoso de que se devia desvencilhar.

. do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. nas décadas de 1970 e 1980. animou a resistência democrática não é inocente quanto ao atual estado de coisas que ameaça deixar o Estado a girar no vazio. em que pese sua política social inclusiva. O abandono da agenda que. de verdade. a restauração de um sistema de capitalismo politicamente orientado. disciplina interpretativa por excelência. incapaz de manter. mas de História. as lições daquele tempo não é um exercício de memória. Mas. hoje uma instituição de carimbo da vontade governamental. porque é dela que nos vêm os sinais de a qual herança devemos renunciar para seguirmos em frente. com a pretensão de estar a serviço de ideais de grandeza nacional. uma interlocução positiva com os setores que emergiram dos próprios êxitos da modernização do capitalismo brasileiro. veio a minar as possibilidades de uma comunicação fluida do Estado com a sociedade civil. apesar dessa relevante ressalva. em 2003.70 em boa parte dependente de provocação da sociedade ao Poder Judiciário. vã a tentativa de aproximá-los com a criação. Recuperar.

assim enquanto as leis vêm assegurando inéditas garantias em termos de liberdades civis e públicas.71 O reino dos interesses e a política (24 fev. absolutamente necessários. A intensa energia da vida associativa. E isso malgrado seus êxitos em sua política de inclusão social e de relativo sucesso. sob um governo há mais de uma década sob a hegemonia de um partido saído das fileiras da esquerda. Sob esse viés. constatou-se. Mas a eles não pode faltar. tomando-as como um mero episódio da vida juvenil e de suas vicissitudes nas grandes metrópoles brasileiras. o que a sociedade expressava era seu desconforto contra tudo isso que está aí. Com efeito. Desconforto provocado pela profunda dissidência entre as palavras e as coisas. Com as jornadas de junho. especialmente no mundo agrário. que se apresenta como uma reserva de poucos. o da modernização. que suspenderam a marcha conhecida do nosso cotidiano com o registro da surpresa e do espanto. sua falta de vínculos com a juventude e a vida popular. à vista de todos. pertenceriam ao reino da Sociologia e da Antropologia Social. a não ser . canais a fim de que possa exigir a satisfação dessas promessas igualitárias. enquanto as manifestações dos três Poderes republicanos reverenciam ideais de igualdade social. o sintoma evidente de que nos encontramos no fim de um longo ciclo da política brasileira. de modernização da economia. uma sociedade transfigurada por alterações de largo alcance em sua composição demográfica e estrutura de classes e ocupacionais não encontra na esfera pública. aqueles massivos acontecimentos. Sobretudo pela recusa manifesta dos personagens envolvidos em admitir a presença de partidos e personalidades políticas em seus atos de protesto. qual seja. Decerto que os recursos dessas disciplinas para a observação de eventos desse tipo são. uma abordagem política da cena especificamente brasileira. e de sua rica e poliforme vida mercantil não se faz presente no sistema dos partidos. nas ruas. além de próprios.) É preciso ser um incréu empedernido para não reconhecer a presença do fato político nas manifestações das jornadas de junho. no clamor pela democratização das políticas públicas e por maior participação na definição dos seus rumos. Estava ali. Admissão tácita de que se queria outra política. tudo traduzido. inclusive dos seus setores subalternos. para que a narrativa seja compreensiva.

o retraimento da dimensão dos interesses diante dos partidos e a sua gravitação em torno do Estado. em comum. quanto ao nacional-desenvolvimentismo. ser listados. Um longo fio vermelho comunicaria a era Vargas ao PT. assim como é a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) que exerce esse papel em nome dos interesses do agronegócio. Sem eles os partidos perdem identidade e vínculos com a sociedade. tendendo a se comportar como máquinas orientadas para a sua própria reprodução. uma vez que o usual em sociedades democráticas. encontrou no PT antes de se tornar governo um dos principais arautos desse mal. Quem vocaliza o empresariado paulista. A diferença. expressão de uma filosofia política . apartidário por opção. paradoxalmente. estaria obrigado à difícil convivência com a Carta Magna de 1988. nesses dois tempos. reforçando a primeira com a legislação sobre as centrais sindicais e fazendo da segunda o Leitmotiv da sua linha de ação governamental. estaria no cenário institucional. O ciclo de modernização desencadeado pelo PT. é a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). um órgão corporativo. com o estilo decisionista intrínseco a ele. uma das locomotivas atuais do capitalismo brasileiro. Fora de controvérsia que os governos do PT deram nova vida a essas duas políticas. ainda chama a atenção a prática de boa parte dessas entidades ou de seus membros de favorecerem com doações partidos rivais nas disputas eleitorais. Esse não é um registro trivial. é claro. O presidencialismo de coalizão — prática que herdou de governos anteriores. como em suas críticas tanto ao sindicalismo nascido da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). o mais robusto do País. que abafaria a livre expressão dos conflitos entre o capital e o trabalho. que ataria politicamente a sociedade aos desígnios do Estado. Quanto aos setores subalternos do campo. No caso.72 fragmentariamente. é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). em particular nas que vivem sob organização capitalista. é que o reino dos interesses não seja refratário — na escala em que é aqui — ao sistema de partidos. que se arvora em assumir essa representação. porque notórios. Os casos desse tipo se multiplicam e dispensam. Essa patologia brasileira não é recente e. simulacro de um parlamentarismo de fantasia a camuflar a soberania do Poder Executivo sobre o Legislativo — consistiu na modelagem política que lhe permitiu o movimento de camaleão de se apresentar como novo condutor do processo de modernização brasileira.

eventuais obstáculos têm sido contornados e o processo de modernização segue o seu curso. Se a manifestação dessa vontade estiver viciada por um presidencialismo de coalizão que a degrade como a vontade de um só Poder. supõe uma prévia manifestação de vontade com origem numa esfera pública democrática. às ruas. O assim chamado poder incumbente.73 centrada nos ideais de autonomia do indivíduo e da sociedade diante do Estado. para que esse eufemismo à moda ganhe sentido. Se assim. mas usurpação praticada em nome de um suposto interesse geral que um governante encarnaria. em casos extremos. Como amplamente verificado. não há incumbência. para que partidos? . Os interesses deslocados ou mal postos diante das políticas de Estado teriam de se conformar com a alternativa de recorrer ao Judiciário — uma das raízes fundas do processo de judicialização da política deve ser procurada aí — ou. como se testemunha desde os idos de junho.

Depois dos idos de junho muita água correu debaixo da ponte: tanto o Estado como o governo se preveniram. Não vai. na forma como o praticamos. trouxe à luz novos personagens e um sentimento inédito de urgência quanto a demandas. com os jogos da Copa do Mundo e o processo de uma sucessão presidencial competitiva. o difuso mal-estar e os protagonistas de ontem. mas ainda estão ressoando em surdina no novo ano as toadas que tomaram as ruas nas jornadas de junho de 2013. como um encontro marcado. As manifestações. em particular em política de segurança e na tentativa de minorar as carências da população em termos dos serviços públicos. da população nos serviços públicos. tal como já se entrevê. não se esqueceu nada. é verdade. E a sociedade teve tempo para investir na reflexão sobre aqueles surpreendentes . Pior. reduz o papel dos partidos a máquinas eleitorais aplicadas à reprodução da classe política que aí está. já se reitera o vezo de um malfadado presidencialismo de coalizão que. a próceres empenhados no escambo do horário eleitoral. Foram fundas as marcas deixadas pelo ano que passou: além de suspender o cotidiano com as ondas de protesto das manifestações populares. em detrimento do que deveria ser a busca de rumos para uma complexa sociedade como a nossa. desatendidas. entre outros. a questão dos presídios e a dos indígenas. como no ano que passou. malgrado um tumultuado esforço despendido na produção legislativa a fim de responder ao clamor por mudanças. o que mais se agrava por ser este um ano a ser dominado pelo calendário eleitoral. Mas desta vez não haverá surpresa. como. como sempre. embora em diverso diapasão.74 Este ano não vai ser igual àquele que passou (26 jan. E. A política e os partidos. Não à toa esse dito clássico tem sido invocado por tantos — a política está entregue. é certo. embora não faltem à cena gatilhos novos. especialmente no interesse das cúpulas partidárias. a dos governadores e a parlamentar. para as quais não se deve prever céu de brigadeiro. cantava a antiga marchinha de carnaval. cessaram. assim como a têm a eleição presidencial.) “Este ano não vai ser/ igual àquele que passou”. conforme um deles declarou sem rebuços dias atrás em entrevista a um importante jornal. A Copa do Mundo tem data. Não se aprendeu nada. não há quem não espere o seu retorno. passado o susto pelo descontrole das ruas mantêm distância da sociedade. mas estão aí presentes os mesmos motivos.

Aí. desentranhado pelo governo do PT do baú da nossa História como resposta à crise financeira mundial de 2008. O Poder Executivo. essas são transformações que repercutem em cheio no modelo nacional-desenvolvimentista. especialmente o municipal. de imemorial tradição entre nós. o principal deles se faz indicar pela recusa em aceitar a reiteração do padrão de discricionariedade irrestrita na administração pública. na democracia da Carta de 88. . o de que estamos no limiar do esgotamento de um longo ciclo e já maturam as condições para sua superação. exerceu severa pedagogia quanto aos valores republicanos. Vários sinais apontam para essa direção. uma de suas vigas-mestras. São mutações relevantes e em todas elas se registram ecos das manifestações espontâneas de junho que confirmaram. nem sempre perceptível a olho nu. qual seja. vem sendo reproduzida pelas vias abertas pelo presidencialismo de coalizão à brasileira. latente na esquerda brasileira. O julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da Ação Penal 470. em alguns casos significativos. Sobretudo não se mostrou insensível ao significado de que eram portadores. minimamente consensuais. ora ameaçado pela votação ainda em curso no STF de uma ação proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil com a finalidade de interditar o financiamento das competições eleitorais por parte de empresas.75 acontecimentos. mais um indicador de exaustão do ciclo a que ainda estamos submetidos. Sem a escora dessa peça. De uma perspectiva mais larga. o que supõe ampla deliberação e adoção de rumos compartilhados. abrindo canais de participação para a população envolvida em temas do seu interesse. registre-se que tal modelagem. como testemunha a produção editorial dedicada a eles. inclusive com elementos que recebeu da sua versão sob o governo Geisel. terreno em que o Ministério Público se vem mostrando à altura do papel constitucional que a Carta de 88 lhe destinou. vem acompanhando essa tendência. De passagem. na tradução livre que imprimiram em suas faixas e seus galhardetes. o sentido visado por seus autores institucionais. com a condenação de importantes quadros do partido no governo. que depende visceralmente de um modelo político decisionista. o presidencialismo de coalizão somente poderia persistir em torno de programas.

um livro recente chama a atenção por sua energia e coragem intelectual. a muitas lições esquecidas. Os fortes abalos da crise de 2008. tão diferentes entre si. 2014 é um ano novo. 2013). é mais um desses sinais. longe de um diagnóstico desalentado. da teóloga católica Maria Clara Bingemer.76 A sensibilidade a esse novo estado de coisas está em todos. Karl Polanyi e Antonio Gramsci. o que ela apresenta aos seus leitores é um chamado. para uma ação política transformadora. que ainda sentimos. aqui e alhures. . Rocco. O Mistério e o Mundo – Paixão por Deus em Tempos de Descrença (Rio de Janeiro. no caso. de que é exemplo sua decisão de comparecer ao encontro de Davos. De verdade. até mesmo. pois. na estrita linguagem da sua confissão religiosa. têm devolvido vigor. por padrões eticamente orientados e pela política democrática. na presidente Dilma Rousseff e em sua equipe econômica. se valem os sinais. se importaram em ruínas e perdas materiais. mas convergentes nos seus propósitos de regular o mercado pelo direito. como as de Marcel Mauss. Mudanças no modo de interpretar o mundo são influentes e.

77 2013 .

78 Modernização periférica (22 dez. do qual se separou conscientemente com o movimento intelectual do Iluminismo e a Revolução Francesa. a modernidade não se confunde com a modernização. num de seus ensaios. diferenciando os casos da modernização central dos da periférica. São Paulo. Os processos de modernização periférica. nascem comprometidos com a tradição e altamente dependentes das elites políticas que os desencadeiam. Relações heterônomas entre governantes e governados. pois. ao contrário. são. designou como revoluções passivas os processos deste último tipo. uma vez que. obrigadas a abrigar no governo forças sociais heterogêneas originárias de tempos históricos distintos e a manter sob controle a sua movimentação social. Sua referência é a do seu tempo e é a partir dele que deve instituir livremente a sua normativídade (O Discurso Filosófico da Modernidade. numa esfera pública isenta de coerção e que se encontre aberta igualmente a todos. claramente dominante na América Latina na hora de partida da sua modernização. ela não estaria referenciada pelo tempo histórico passado. O corporativismo foi. precisamente a fim de caracterizar situações nacionais em que a mudança se opera num andamento que preserve as elites tradicionais e seus interesses. Daí serem constitutivas a ela a autonomia dos seres sociais e o processo de permanente deliberação entre eles. mesmo que de forma velada. Antonio Gramsci. em muitos dos seus países. . com o vértice do poder disposto assimetricamente diante da sua sociedade. Nesse sentido. enquanto os segundos resultariam de composições entre elites modernas e tradicionais. para a escolha de rumos coletivos. Os primeiros seriam caracterizados pela emergência da modernidade a partir de uma ruptura com a tradição desencadeada por movimentos revolucionários. ainda presente. a fim de preservar a política que pretende impor. Martins Fontes. nas lições incontomáveis de Jürgen Habermas. 2002).) A literatura em ciências sociais tem distinguido o duplo caráter dos processos de modernização. particularmente as originárias do mundo agrário. intrínsecos a eles. entre outras. como é o caso do Brasil. a exemplo da Inglaterra e da França. uma dessas fórmulas.

Essa complexa operação viria a ser realizada por duas novas agências estatais. a opção foi em favor da centralização administrativa e do estilo decisionista do Poder Executivo. no segundo. tal como a publicística brasileira daquelas primeiras décadas do século 20 diagnosticava. em que a luta contra o atraso reclamaria a intervenção da política. entre os quais Carlos Drummond de Andrade.79 O Brasil é um exemplo de manual da modernização periférica. a sociedade. nas dimensões da . os Ministérios do Trabalho — o Ministério da Revolução. Sob a ação pedagógica do Estado. aqui e no mundo. quando o objetivo de suas elites visava a atingir os caminhos para a civilização — que pode. essa versão sobre o autoritarismo — dito instrumental — ganhou galas de descoberta original e ainda persiste sem coragem de dizer seu nome. na cultura da época. caberia às políticas de Estado acelerar o tempo. ambos confiados a intelectuais — Oliveira Vianna estará no primeiro e Gustavo Capanema e sua legião de jovens intelectuais modernistas. por iniciativa de sindicalistas. Como se sabe. aqueles foram tempos de despertar das periferias. No Império. Dados os imperativos de romper com uma situação de país retardatário. concentrada no papel de um Estado forte orientado para os objetivos da modernização. como os do operariado que se organiza em sindicatos e se inscreve na política de modo autônomo com a criação. A chamada Revolução de 1930 rompeu com a ambiguidade entre o moderno e a modernização — a expressividade do primeiro termo seria subsumida à do segundo. A tópica do moderno e da modernização seria vivida com ambiguidade na República. Ruy Barbosa. A tópica do nacionalismo. como se dizia à época — e da Cultura. com seu plano ferroviário. a quem se deve a arquitetura de índole libertária da Carta de 1891. sob o diagnóstico de que a nossa sociedade não estava preparada para o selfgovermment. se dotaria da capacidade de participar da administração dos seus interesses. Já os anos de 1910 e 1920 testemunhariam a emergência de movimentos sociais especificamente modernos. Nosso autoritarismo seria manso e justificado pelos seus fins benfazejos. do Partido Comunista. que não poderia ser o do “idealismo constitucional” da Carta de 91. ser considerada um equivalente funcional da categoria modernização —. ao longo do tempo. em 1922. que ignoraria o “País real”. exemplarmente em Alberto Torres e Oliveira Vianna. Contudo. à agenda da modernização quando ministro da Fazenda. aderiu.

distinção essa que o regime militar veio a banir do dicionário. Mais à frente. nos anos 1950 e 1960. a união entre eles. não se deixa mais enredar por ela. A modernização à brasileira pôde e ainda pode muito. a força política mais estridente na denúncia dessa síndrome. sob a legenda do nacional-popular essa versão se popularizou. nos seus anos de formação. na crítica ao nacional-desenvolvimentismo formulada por grandes personalidades intelectuais a ele vinculadas. nos idos de junho. se enfraquece a distinção entre o moderno e modernização. mesmo que ainda não tenha encontrado seu caminho. . na prática. em boa parte. o PT. malgrado a resistência de alguns setores da esquerda. na linguagem política corrente. foi.80 economia e da cultura. quando então. escorada. viria a selar. Raymundo Faoro e Francisco Weffort. O Estado se consagrava como mais moderno que sua sociedade. mas recentemente. Paradoxalmente. se viu que o moderno que teima em renascer. como Florestan Fernandes. que nos seus governos tem obscurecido a distância entre os significados desses dois conceitos.

ademais disso. quando as circunstâncias. O empreendimento estatal na conquista desse vasto território para a ocupação econômica foi coroado pela construção de Brasília e.inscrita no seu DNA . UFMG.de expansão do poder nacional. com a incorporação do oeste e da Região Amazônica à sua estratégia . processos bem estudados por Robert Wegner (A conquista do Oeste. como também criou uma complexa legislação com a qual nacionalizou o mercado de trabalho e difundiu uma ética valorizadora do trabalhador.) Qualquer observador da cena brasileira não se recusará a afirmar o papel do Estado como categoria crucial da sua História. Seu último grande feito na modelagem do capitalismo brasileiro foi de estilo fáustico. consolida nossas fronteiras nacionais e as tensiona no sentido de projetá-las à frente. Belo Horizonte. qual seja a da conquista da unidade territorial. pela rede de rodovias criada pelo regime militar. pareciam prometer um destino semelhante à fragmentação que veio a ser dominante no mundo hispano-americano. deixou em sua esteira o agronegócio. iniciada sob o signo da aventura. será obrigado a reconhecer sua presença na modernização econômica do País. território e imaginação espacial. FGV. . Mas esse capitalismo politicamente orientado. hoje um carro-chefe do capitalismo brasileiro e que.81 Por que não dá certo? (27 nov. entre as quais a Transamazônica. conduzida como política de Estado nos anos estado-novistas por uma agência criada para esses fins. em que pese o regime de tutela a que foram submetidas as atividades da sua vida associativa. era a de fortalecer o mercado e tornar viável seu movimento expansivo. tarefa que envolveu várias gerações. ilustração exemplar da categoria cunhada por Weber. em que não só estabeleceu as bases de sua industrialização. ao lado de maximizar o poder nacional. 2012). De igual modo. logo após a Independência. Não à toa a ida aos sertões do nosso hinterland. sempre conservou no seu horizonte a perspectiva de que sua missão. a começar por uma de suas marcas mais distintivas. Rio de Janeiro. além dos já clássicos ensaios de José de Souza Martins sobre o tema. fora surtos passageiros a que foram acometidas algumas de suas elites políticas — não apenas as de direita —. a Fundação Brasil Central. duas décadas mais tarde. 2000) e João Maia (Estado.

dedicados às suas práticas. no governo Juscelino Kubitschek e no regime militar. como se nota na Teologia da Prosperidade que viceja em cultos pentecostais. com noticiários e colunistas especializados na interpretação do seu movimento e. para cuja sustentação concorrem políticas públicas estatais e ações da vida associativa empresarial. Andará mal informado. que os governos do PT. do mercado sempre esteve o Estado. em geral refratárias ao mercado. O mesmo movimento. dotado de mídia própria e equipamentos sofisticados. que tem atrás de si como guardiã e desbravadora de caminhos novos a força política de um Estado cada vez mais bem equipado para intervir em seu favor em busca de novas oportunidades de expansão. nas universidades e fora delas. tanto no Estado Novo. ao qual se deve atribuir a juvenilização do capitalismo brasileiro com o agronegócio. de que economistas de várias tendências doutrinárias se alinham. pois. afora o fato. com um associativismo empresarial robusto à frente do Sistema S e seus cursos de formação de mão de obra especializada. numa ação pedagógica dirigida ao grande público a fim de aconselhá-lo a extrair proveito de oportunidades de ganhos econômicos. portanto. expandem-se os cursos de formação de especialistas. com a mesma antecedência da ação norteadora do Estado quanto ao mercado. para não falar no papel das mídias que o estimulam. A presença incisiva da dimensão do mercado entre nós se faz estampar no espaço que todas as mídias lhe dedicam. o mesmo observador se não atentar para a força do mercado na cena contemporânea brasileira. Nosso observador a esta altura se volta para a dimensão da sociedade civil e se aturde com a multiplicidade de suas ricas formas. hoje. que se instalou em lugares dados como perdidos para os grandes empreendimentos mercantis. A capilaridade da sua influência cultural tem sido de tal monta que encontrou formas expressivas no terreno da religião. presidiu a industrialização do País. De outra parte. o processo de irradiação de sua influência encontrou uma forma nova de massificação com o fenômeno do empreendedorismo. Mais recentemente. como notório.82 Antes. entre as principais personalidades intelectuais do País. Confronta-se com um sindicalismo pujante. Ao deitar os olhos para a vida popular. bem conhecido. tem diante de si uma malha . tentam reiterar. em alguns casos. embora sem a força de empuxe dos anteriores.

que. ao contrário do Chile. O que falta para que este país dê certo. não há muito o que esperar das jornadas de junho. a organização do carnaval e seus milhares de dirigentes e operadores sociais — a trama densa da esfera pública dos seres subalternos. mercado e sociedade civil como dimensões fortes e bem aparelhadas? A resposta não está à mão. .83 incontável de associações de bairro. Talvez por isso. a que não falta a SBPC com o núcleo Ciência Hoje dedicado à divulgação científica e à massificação da ciência para um público juvenil. aqui. Nas grandes corporações profissionais reitera-se o cenário. se conta com Estado. Nosso observador se confunde. mas ele se esforça e descobre: falta a política como atividade aberta à prática de todos. se tornou atividade sob monopólio dos dirigentes do poder político. aqui. onde esses movimentos foram de maior porte. vício antigo também instalado no nosso DNA. apenas ele dotado de autonomia para pensar e agir. que acaba de renovar suas lideranças políticas a partir de movimentos sociais recentes.

Entre as primeiríssimas delas. Contraponto. absolve alguns e outros não. ressalva. E como Dirceu e Genoino serão lembrados. é “essa volúpia pela eternização no poder” — presente nos tempos de Lula. Werneck Vianna voltou para discutir os rumos políticos deste Brasil pós-mensalão. um dos momentos-chave dessa história. professor? “Alguém sempre pode dizer ‘a história me absolverá’. uma entrevista marcante com o cientista político Luiz Werneck Vianna. Basta notar a forma como a campanha de Dilma Rousseff foi . mas um especialista na política — o Maquiavel do Príncipe’. diz. mas atuou nos bastidores. no dia 31/7/2005. 2011). Não ligado aos movimentos sociais. 25 condenados e muitas. muitas páginas impressas sobre a Ação Penal 470. A convite do Aliás. José Dirceu. “Viva o PT”. No simbólico 15 de novembro. ressalva mais uma vez. 38 réus julgados. de punho cerrado. que pretendia permanecer no poder até o fim dos tempos”. em 2005. às vésperas do depoimento de José Dirceu no Conselho de Ética. foram compiladas 50 mil páginas nos autos. revelados mais de R$ 100 milhões movimentados fora das regras do jogo. José Genoino e outros oito condenados se entregaram à polícia federal. “A ideia de ganhar tudo e todos fez parte desse projeto megalômano do PT. sempre esteve”. Que dimensão tem a figura do ex-ministro José Dirceu hoje? Em entrevista ao Aliás. diz o intelectual. José Dirceu ficou ausente do poder imediato.) Após oito anos. O diabo. mas também em Collor e em Fernando Henrique. De 2005 para cá. 600 testemunhas on the record. esse sedutor (O Estado de S. o mensalão. bradou. A ver”. o dizia ‘o homem com faro e instinto de vida partidária. Ainda o vê assim? Certamente. Paulo / Aliás. o sr. Mas. Esse tipo de atuação obviamente não lhe permitiu o exercício de uma influência maior. Bem. 24 nov. com palavras pausadas. por vezes hesitante. “Mas a história está aberta.84 O poder. dia da proclamação de nossa República. o ex-presidente do partido. professor da PUC-Rio e autor de A Modernização sem o Moderno: Análises de Conjuntura na Era Lula (Fundação Astrojildo Pereira. ainda assim. continuam presentes os traços principais. diversas críticas austeras e duelos intelectuais sobre os meandros da AP470 ocuparam o Aliás. marcados na época em que ele teve a batuta na mão.

Quais questões? Essa volúpia pela eternização no poder. muito desgostosa com esse tipo de aliança. Isto é. em tempo largo. entre outros dentro do próprio PSDB. é que um governo com um projeto de mudança possa. Ficou esta lição: governos pretensamente longos. Um voo que avance até onde se pode avançar — e que. digamos assim. implicou uma política que levou a muitas dificuldades. principalmente. interpretou isso muito bem. É a questão ficou: o que a sociedade ganhou com esse arranjo entre atraso e moderno. tudo estaria perdido. de setores até contestadores dos projetos mudancistas. entre forças de mudança e forças comprometidas com a conservação? E o que se perdeu? O que se pode levantar. Fernando Henrique e Lula. A crítica da esquerda agora parece querer sustentar que o PT deveria ter unido forças próprias e aliados muito afins a seu projeto. pois assim um governo . necessitam de sólidas alianças governamentais. quem quer mudar precisa do apoio de setores que não estão realmente preocupados com a mudança — aliás. O caso chileno está nos ensinando que um voo não precisa ser transoceânico. mas exemplar. se tiver estratégias definidas. Collor não soube administrar isso.85 conduzida. Fernando Henrique. pensando em 2014. que miram o horizonte muito à frente. corra o risco de perder a próxima sucessão presidencial. E como está sendo conduzida agora. Isso leva a um certo imobilismo na política. contrafactualmente. pensar num voo não longo. essa volúpia esteve presente em Collor e em Fernando Henrique. sua associação com o PFL provocou protestos inclusive entre aliados mais íntimos. como era pretendido por Collor. e em nenhum momento perdeu de vista a necessidade de ter maioria governamental — à época. Persistem as mesmas questões de fundo. Vale antes ter um projeto com objetivos definidos. Não é verdade. Mas realizar reformas. em 2010. a começar por Ruth Cardoso. Mas imaginou-se que. Pense na vitória de Michelle Bachelet. Antes do PT. para realizar mudanças. posteriormente. Mas nada mudou? Há mudanças. Certamente. Vimos mudanças significativas com Fernando Henrique (como o Plano Real) e com Lula (como o Bolsa Família). perdido o governo. Isso não permitiria esse arremesso para a persistência no poder. não estabeleceu um sistema de alianças capaz de sustentar seu governo.

num processo mais avançado. que perdeu aura. os principais interessados estão se movimentando. deixou tudo ao andar “natural” dos acontecimentos. com essa ideia de que era antes necessário garantir estabilidade para um governo longo. Enquanto as ruas estão silenciosas. A política aparece em lugares inesperados. perder (o governo) pode ser ganhar (o projeto)? Sim. Todos perdemos perspectiva? A política atual. prejudica todos — e principalmente a própria atividade política. Estamos passando por um momento de turbulência. poderia significar uma vitória no futuro. Autonomia essa que falta a outros setores.86 poderia parar num determinado ponto e continuar mais à frente. quer dizer que. Onde não podia. Lula ainda é o detentor da hegemonia do PT. vide o caso das sucessões estaduais. Isso desarmou a sociedade. É preciso ter perspectiva. Há cassações. O Judiciário tem desempenhado um papel fundamental. quer dizer. impeachment. por ter uma relação autônoma com os demais poderes. prisões. Ficou num canto. Certamente há algo universal nisso. fora de sua trama real e concreta. por que fazer política. De tempos em tempos. que seriam as instituições e os partidos. certas vezes. como um poder de carimbo. Aí. Mas no Brasil. mas os esquemas se reestruturam. essa falta de representação política se tornou algo absurdo. se há quem a faça em nome de todos? Ao mesmo tempo. O PT foi desarmado também. ousadia. essa malha paralisa o próprio governante. em que as representações são meramente nominais. imaginação. Perder no presente. continuam fortes. Nossas instituições são fortes nesses momentos de crise? Sim. como está. avançando milimetricamente onde podia. pois lideranças políticas do partido hegemônico estão sendo apenadas. como os movimentos sociais e . O sr. mobilizando bases e sociedade para seguir seus caminhos. obrigado a todo momento a respeitar as estratégias gerais para garantir sua permanência ad eternum no poder. mas tendo tentado realizar seu projeto. acontece em diversos países. assistimos a uma faxina ética após um novo escândalo. O ponto é: perdeu-se o impulso para as mudanças.

Há obstáculos imateriais: a (falta) de vontade do legislador. A imprensa tratou o mensalão como o ‘maior escândalo de corrupção do País’. Nas motivações dos autores dessas infrações não esteve o impulso por aquisição de riqueza. os Anonymous e os Black Blocs. crimes contra todos. E é explosiva essa relação entre o poder judiciário. Se há uma grande movimentação social. Esse foi um fato que a sociedade e os tribunais julgaram severamente. Está presente na nossa história “desde sempre”. e operadores novos. que demandará muito tempo para encontrar uma saída razoável. a Ação Penal 470. trazidos pela Carta de 1988. Que papel tiveram a mídia e a opinião pública nesse processo? O papel da mídia foi importante. como vimos.87 étnicos. na expressão de muitos dos ministros do STF: foram crimes contra a República. comprometido com o estado de coisas anterior. é o avanço da esfera pública no mundo. Desde 2005 foram feitas críticas às investigações de corrupção a governos passados. também por estar vinculada à opinião pública. o que ocorreu por fora desses movimentos assumiu uma forma abstrusa. A reforma é possível neste momento? Possível é. É justo que a corrupção fique circunscrita ao PT? Não. Mas agora a sociedade conhece instrumentos novos. A corrupção é um mal endêmico no Brasil. Na ressaca das manifestações. sem vivificar os movimentos. Mas isso não dá para impedir. Não à toa. o movimento sindical e a UNE. proposta antiga do PT. pois a alta visibilidade desses processos deixa pouco espaço para o réu se defender. a opinião pública e a mídia. isto é. mas aquisição de poder. como procuro sempre descrevê-la — foi um caso de corrupção política. a presidente Dilma Rousseff deu os primeiros passos para uma reforma política. O mensalão — aliás. Que fazer? Fechar as portas dos . não há nenhum obstáculo material. que exercem uma vigilância inédita. passando ao largo da política e sem deixar rastros nem animar os partidos. Mas há indícios de que o esquema de Marcos Valério também serviu ao PSDB. aí realmente se pode imaginar que temos uma situação difícil adiante. como o Ministério Público e a Polícia Federal.

são políticos presos. A história deles deve ser preservada. sobretudo José Dirceu. absolve alguns e outros não. Esse desfecho influenciará 2014? . um perseguido político. o ex-ministro José Dirceu e o deputado José Genoino saíram do banco dos réus e foram para a prisão. porém. Não há razões para me regozijar com condenações dos outros. mas não há o que comemorar. pois as decisões podem ser contestadas na Câmara. mas não pode tudo. dizendo que o tribunal é autoritário. Ainda há um longo caminho a percorrer — e esse caminho não pode dispensar uma vida política mais rica. Com biografias respeitáveis. o papel que a Justiça tem cumprido é um processo de limpeza de território para que a democracia possa prosperar. Bem. Alguém sempre pode dizer “a história me absolverá”. que é tornar públicas determinadas cenas que realmente mereçam ser públicas. com partidos mais vigorosos e movimentos sociais autônomos. A ver. Isso faz parte do desenvolvimento de uma democracia de massas. Foi uma condenação justa. no que se refere à perda de mandato dos condenados. a meu ver. Muitos criticam as ordens de prisão. Foram condenados por uma corte com ministros inclusive indicados pelo PT. Vamos ficar com os vícios e as grandes virtudes disso. Quão supremo é o STF? É relativo. O julgamento foi uma conquista. Mas o mensalão não é uma nódoa na vida republicana brasileira. Tudo isso ainda está por acontecer. Como serão lembrados na história? Não sei. Esses. que não podem transcorrer nem em segredo de Justiça nem em silêncio obsequioso da imprensa. para que não seja poluída pelos que detêm poder político e econômico.88 tribunais? Silenciar os jornais? É só ver o caso das biografias. né? É preciso deixar o tempo fluir. São figuras importantíssimas para a história do PT. O STF pode muito. A democracia avançou. Eu fui um preso político. a melhor cabeça política deles. cumpridas no 15 de novembro. No fundamental. Os limites estão dados para o poder político: há leis — e o poder não pode tudo.

a partir daí tomou conta do cenário. de certo. particularmente daqueles vinculados às novas camadas médias — categoria social que. com intensa movimentação dos partidos. certamente. Ora.. José Serra. São antenas para auscultar seus interesses imediatos e futuros. São três as candidaturas principais à sucessão presidencial. uma vez que cada qual tem seu duplo: Dilma. Não aprenderam nada nem esqueceram nada (23 out. tangidas em estado bruto para uma ação legislativa de emergência. Nessa lógica. Marina Silva. nem estes refinam suas agendas. imprevistamente.) O estado de coisas da política no País desafia o entendimento. novas ideias. E assim vai. mesmo. e dos movimentos sociais. PSDB e PSB-Rede —. Também é difícil que isso se torne projeto de Aécio Neves. Operar mudanças implica dor e perdas — para ter outros ganhos. É muito difícil avançar. entre nós. Se favorecerá tal ou qual candidato. essa movimentação girou no vazio. que se sucedem numa interminável parada cívica. o Lula. Mas quem vier agora terá que ter claro que a sociedade quer mudanças no mundo real. tudo está fora dos eixos e sob o império da imprevisibilidade. é de compreensão fugidia —. iniciaram-se sob o figurino de Chapeuzinho Vermelho para a horas tantas. Mas. A política. uma vez que. com a distância que partidos e movimentos sociais mantêm entre si. mas como diria o papa Francisco. arredia até os idos das jornadas de junho. como se viu. As manifestações e os protestos de rua. não deixando rastro institucional.89 Sim. os movimentos exaurem-se em suas atividades episódicas. Os partidos não são antenas sensíveis para o que ocorre na sociedade. embora esses dois grupos mal se toquem. penso. novas gerações. Pede por movimentos. que pretendia uma permanência no poder até o fim da História do Brasil. se travestirem com as roupagens do Lobo Mau. nem aqueles têm sua legitimidade reforçada. no melhor dos casos. a fim de conduzi-las à concretização. é muito difícil. Aécio Neves. A ideia de ganhar tudo e todos fez parte desse projeto megalômano do PT. Se Marina Silva ou Eduardo Campos poderão recuperar a política. bote fé. e Eduardo Campos. ainda não dá para dizer. as quais são. sempre esteve. assim caminha a humanidade. a história está aberta.. salvo nos pontos mais doloridos. inclusive com a criação de mais duas legendas. . apenas as legendas — PT.

A própria Constituição.90 Num certo momento. quando não desprezo. não faltando os devaneios barrocos sobre os poderes constituintes da multidão. esbarram na estreiteza das portas que dão acesso a ele. sob o império dessa forma de presidencialismo de coalizão sem princípios triunfante entre nós. Na retórica. anonimato. nas escolas. Ressentimento. a fúria legislativa. especialmente nos jovens e em todos os que não se sentem reconhecidos em seus direitos e identidades. Mas o fosso a separar os partidos e os políticos das ruas. em geral. Por toda parte. no artigo “Sobre nazismo e descrença na política” (O Globo. Felizmente. da juventude e dos movimentos sociais. não importa que hiperbolicamente. Trata-se de uma combinação que alia a descrença generalizada nas instituições políticas e. nas republicanas à adesão a um fervor quase místico na ação espontânea do social. pela esfera pública instituída. No SUS. por toda parte. longe de diminuir no curso desses longos meses que já nos separam dos idos de junho. um caldo de cultura ruim está se formando”. embora se sintam formalmente convidados pelas nossas instituições e pelo discurso oficial a participar do festim dos êxitos da modernização econômica do País. que certamente ultrapassaria esses limites. larva a síndrome do ressentimento. O colunista Arnaldo Bloch. a sensação de uma exclusão injusta porque. nas ruas e na internet. agrava-se. foi de tal monta que poderia sugerir estarmos a viver um processo constituinte permanente. orientada para sanar o imenso vazio entre os órgãos de representação e os representados. Nada medra nesse terreno sáfaro e tudo definha ao seu redor. A . em suas opções pelas alianças com o que há de recessivo e anacronicamente tradicionalista. fixou um registro que não pode mais passar despercebido: “No Brasil. obstou o acesso à participação política dos filhos dos seus próprios sucessos econômicos. Duas décadas de uma política que hipotecou a sorte do moderno à modernização. justo no ano em que completa 25 anos de bons serviços prestados ao País. tal risco foi exorcizado e ninguém fala mais dela. 12/10). orgulhosa recusa dos caminhos do diálogo com o outro e desdém. desconfiança. flertou-se com o tempo das revoluções. foi posta sob ameaça com a tentativa da Presidência da República de convocar uma dita Assembleia Constituinte para o fim exclusivo de realizar uma reforma política. recomendando-lhes que usufruíssem as delícias do consumo.

testemunhando que os nossos políticos “não aprenderam nada nem esqueceram nada” com as jornadas de junho. não conhece vácuo e. trilhando com pachorra os que lhe são velhos conhecidos. já esquecida dos “crimes contra a República” — qualificação dada pelos votos da maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal no seu julgamento —. Não há dúvida. o retorno da Ação Penal 470. devemo-nos preparar para emoções de tipo padrão Fifa. envolvida nas malhas das agências estatais. mas o desfrute. contudo. fechados os novos caminhos que pareceram abertos para ela. é claro. banidos pela Revolução Francesa. para a satisfação do nosso cediço bacharelismo. E para atestar que tudo está como dantes no quartel de Abrantes. tal como na frase conhecida de um estadista da França do período da Restauração sobre os aristocratas do Antigo Regime que. em 2014. também aí os lances rocambolescos deste início de sucessão presidencial. dentro e fora dos estádios. Aí. quando esses setores emergentes despertaram para a política. legislando-se de afogadilho em obediência à pauta que as tabuletas portadas pelos manifestantes estampavam. . está aí. A política. se recusavam a reconhecer que não havia volta para o seu mundo de antanho. fazendo morrer à míngua uma reforma democrática da política que lhe devolvesse vida. Não à toa. com suas ONGs cooptadas e uma atividade partidária que mais lembrava um mercado em que se tomava cá para entregar algo acolá. processo disparado pelo tema da mobilidade urbana. teria de ser duramente diferencial. tinham diante de si uma sociedade civil apática. com esses embargos infringentes que aí estão e as piruetas hermenêuticas que os justificam.91 recomendação valia para todos. A reação à sua presença foi quase caricata.

92 No tempo dos embargos infringentes (30 set. ao protagonista da narrativa. mas a uma simples coadjuvante. cerrado na sua lógica interna . que nos manteve. gorda. vazios desejados por ele ou meramente fortuitos — quem há de saber? Dona Maria perdeu essa sessão do Desembargo do Paço. conhecida como mensalão). com o qual folgamos — para ouvirmos as razões do decano do Supremo Tribunal Federal (STF) a fim de admitir os embargos infringentes reclamados pelos réus (da Ação Penal 470. ciganos. dona Maria. Os processos e as demandas judiciais intermináveis animavam a sua vida. pois ali se reverenciava o objeto do seu culto. a quem atendia com os recursos que lhe sobravam naquele meio de escassez. contudo. embora fosse certo ser versada nas Ordenações Manuelinas. hirto em sua integridade de coisa em si. regimentos. barbeiros. e outros personagens típicos da vida popular das primeiras décadas do século 19. O motivo dessa alusão à obra tão celebrada não se prende. A hermenêutica do decano cobriu leis atuais e de antanho. Movida por esse sentimento que dominava a sua vida. Leonardo Pataca. numa tarde de quarta-feira. típicos do decadentismo ibérico. somente por peripécias do nosso código genético cultural pode ter aflorado. um processo interminável com vãos e desvãos. apartado do mundo. cativando prontamente o leitor para conhecer as desventuras do seu herói.) “Era no tempo do rei” — com essa frase mágica Manuel Antônio de Almeida inicia seu romance Memórias de um Sargento de Milícias. Com efeito. e que nutria uma paixão sem remédio pelas demandas judiciais. mulher de meia-idade. meirinhos. conhecedora de leis e de regulamentos. a informação desse gosto pelas manhas e pelos jargões dos leguleios. Toda uma galeria de homens comuns treinados nas artes de uma difícil sobrevivência sem perder o gosto pelas festas e pela convivência bem-humorada entre eles. compadecida dos pobres. não lhe faltando revelar as motivações implícitas do que jazia oculto nas lacunas da manifestação da vontade do legislador. que lhe faria delícia. jurisprudências. provavelmente dominando a dialética incerta dos esotéricos embargos infringentes. de repente. mas bem afeiçoada. saía de uma demanda para entrar em outra. mulheres de má vida. como hoje parecem dominar a nossa. assim. aferrados à TV durante duas horas e meia — tempo bem mais longo que o de uma partida de futebol. como milicianos.

no qual dominava inconteste o princípio da discricionariedade do Poder Executivo. como se diz em jargão. ainda presente nas nossas instituições e nas narrativas que nos chegam delas. passamos a conhecer uma nítida . admitindo sua filiação à corrente doutrinária do constitucionalismo democrático. aderiu com entusiasmo. esse meritório princípio pode tornarse uma política de alto risco na administração da justiça.93 alheia aos profanos e manipulado por sacerdotes convictos dos seus atos litúrgicos. Sob essa inspiração. Na esteira desses novos processos. de maior participação na vida pública e por transparência nas ações do Estado. pela ação da jurisprudência e de doutrinadores. destronando antiga hegemonia do Código Civil. no julgamento da admissibilidade dos embargos infringentes. tenha-se presente que a Constituição que aí está. nas ruas. em matéria penal. foi concebida para ter uma natureza de obra aberta. quando de um dos lados das margens até se ouvem declarações. Mas entre os dois episódios há um mundo a separá-los. dignos de admiração nossos vínculos com a Ibéria profunda. recriou o nosso Direito e suas instituições no sentido de que fossem capazes de acolher a voz das ruas. Deveras. quer nos inúmeros conselhos que criou com o intuito de incorporar os cidadãos na gestão de matérias afetas ao interesse público. o garantismo nos procedimentos judiciais. De fato. Por outro lado. tais como os que foram expostos pela TV diante de grande audiência. Sobretudo. protege a todos e se constitui num valor a ser defendido. fomos deixando de lado práticas que nos vinham do cediço iberismo que forjou nosso Estado. nas ações civis públicas. com a óbvia ressalva de que ele não se pode prestar a formalismos e a chinesices que desservem à justiça e penalizam a sociedade. prestes a comemorar 25 anos de bons serviços ao País. aos protestos da juventude em favor de direitos. Sem ponderação razoável. que não arredou pé e a tudo assistiu bestificada. com dicção forte. afirmou-se nesses anos a primazia do paradigma do direito público. O público era o mesmo que há poucos meses. de que não se devem considerar as vozes que ecoam do outro. nas jornadas de junho. quer no exercício do controle de constitucionalidade das leis. Ao longo desse período de implementação. em particular no Direito Administrativo.

para que elas se fizessem presentes nas decisões judiciais. em particular nos casos difíceis — a Ação Penal 470 é um caso difícil. ao julgar a Ação Penal 470. remota e presente. abriu com coragem o baú dos ossos da nossa História. transcorre em escala universal. a fim de assegurar uma narrativa coerente e progressiva do Direito. que. O pleno do STF em sua composição original. às quais o ministro também foi surdo.94 convergência do nosso sistema de civil law com o de common law. Resta ver os próximos capítulos e como se comportam as ruas buliçosas do Leonardo Pataca. que se ouvissem as vozes da história da sua comunidade. Doutrinadores influentes. . que nos deixou recentemente e concebeu o Direito sob o modelo de integridade. Dworkin recomendava. às quais o hoje ministro Barroso é refratário. aliás. como Luís Roberto Barroso. o dos embargos infringentes nos devolve aos alfarrábios da dona Maria das páginas de Manuel Antônio de Almeida. Muito além de ouvir as ruas. dedicam páginas simpáticas a políticas judiciais consequencialistas e à obra do notável filósofo do Direito Ronald Dworkin.

descentrada. em todas as mídias. O econômico tornou-se o foco privilegiado de todas as atenções. por baixo. como educação e acesso a bens culturais. no curso desses anos. principalmente do partido hegemônico na esquerda brasileira. incrustada em posição dominante no centro político. com os mais afoitos concebendo a irrupção de uma nova classe média a partir de critérios de renda e de consumo. Ao operador político. que. O economicismo. mas retorna. no Judiciário. não nos veio de sociólogos. estúpido” — usado na campanha presidencial de Bill Clinton ganhou foro de verdade incontroversa também entre nós nas interpretações sobre as disputas eleitorais. como os do Bolsa Família. criou-se uma nova classe média de disneylândia. de que é exemplar o número de publicações especializadas a ele dedicadas e a expansão desse tema no noticiário de todas as mídias. galas acadêmicas e prestígio entre os analistas da cena pública.95 Razões para um mundo fora do eixo (25 ago. Duas décadas de empenho das lideranças políticas e sociais. fora do eixo. legatário dessa presumida descoberta. O bordão de um publicitário americano — “é a economia. antes malsinado como uma perspectiva reducionista e empobrecedora na análise dos fenômenos sociais. pretendendo significar que um bom resultado em termos de indicadores econômicofinanceiros bastaria para atestar a aprovação do eleitorado a uma candidatura ao governo. Sob a inspiração desastrada dessa sociologia. como se vê. o Partido dos Trabalhadores (PT). horizontalizada e descrente do papel das instituições. mesmo que nesses cálculos incluíssem rendimentos auferidos em razão de programas sociais. vindo a garantir ponto seguro de estabilização ao nosso sistema político. à custa de . em instituir os objetivos da modernização econômica e da expansão da renda como determinantes na política estatal toldaram a vista para a percepção do que mudava nas esferas da política e da sociedade civil. no Congresso. em cima. e fossem ignorados outros marcadores clássicos. em toda parte. cumpria garantir. ganhou. quiçá ampliar. a bem da verdade. nas ruas e fora delas. os programas assistenciais e promover de modo contínuo o consumo de massas.) Afinal a política nos voltou. legião multitudinária na imaginação dos seus formuladores.

a maioria prisioneira das políticas do Poder Executivo. destituídos de autonomia. nesse mundo fora do eixo. a cada sucessão presidencial. quando decidimos que nossa democracia política deveria combinar as formas de representação com as de participação. um rico repertório. entre outros. jogaram por terra essas fabulações. embalados pelo pragmatismo sem princípios que se fez dominante. Aquele foi um tempo de reflexão e de tomada de decisões acerca de sob que instituições deveríamos viver. em que a vida social se deveria fazer presente. indo do controle de constitucionalidade das leis por provocação de entidades da sociedade civil aos conselhos. pois são decorrentes de uma política de governo que deliberadamente evitou esse caminho . O próprio Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. As jornadas de junho e as que se seguem. o paradeiro do centro político brasileiro e a quantas anda o comportamento do que seriam as novas classes médias brasileiras. longe de ser uma arena de deliberação. embotados. convertido numa instituição de carimbo da política oficial. com a emergência de protestos especificamente populares com seus temas próprios. a fim de efetivar esta última. dos votos desse centro político criado pela literatura. Tais resultados não podem ser atribuídos à fraqueza da sociedade civil. E a esta altura vai procurar em vão quem quiser localizar. prometendo encorpar nas festas de celebração do 7 de Setembro. como habitação e mobilidade urbana. uma criação do governo Lula a fim de envolver amplos setores da sociedade civil na esfera pública. resultado a que chegamos quase sem sentir. criando. O deslocamento da razão política pelas artes calculadoras da economia. muitos deles — não se pode ignorar o fato. sem luz própria. federal. quase invisíveis. estadual ou municipal.96 exonerações fiscais da indústria de determinados bens. os de saúde e os de educação. que se tem preferido esconder embaixo do tapete — sob a influência de partidos e grupos da ultraesquerda brasileira. e usufruir o retorno. Tais conselhos estão aí. entregues a um marasmo burocrático. deixou em sua esteira uma consequência nefasta: a ruptura com a cultura política que medrou nas lutas pela democratização do País e se encorpou no processo constituinte da Carta de 88. caiu no vazio.

postado assimetricamente diante da sua sociedade. o ministro do Trabalho. em especial as de transportes. após deliberações do Fórum Nacional do Trabalho. Nada mais esclarecedor do que um fato produzido no mundo sindical. problemas palpáveis que remetem ao anacronismo desse Estado que aí está. pode retomá-la. a política de modernização pelo alto é decisionista e refratária à auto-organização da vida social. inspirada no sentido de animar a vida associativa dos trabalhadores. As jornadas de junho não se voltaram contra as instituições da nossa democracia. encaminhou à Presidência da República. e que entregou sua alma a potências que não controla. como sucedida pela lei que destinou parte da contribuição compulsória às centrais sindicais. saúde e educação.97 promissor. território de origem do PT. na ilusão de que. fortalecendo seus vértices diante de suas bases. o sindicalista e militante do PT Ricardo Berzoini. não só foi engavetada. simulando encarnar em si seus anseios e expectativas. quando quiser. . em fevereiro de 2005. Essa emenda. uma proposta de emenda constitucional de reforma sindical fundamentada na necessidade de tornar “a organização sindical livre e autônoma em relação ao Estado”. mas contra políticas públicas. Por definição. quando.

do caudilhismo que imperava no mundo hispano-americano. sob a interpretação estatólatra do influente ministro do Império visconde do Uruguai. em que o Estado trouxe para si a tarefa de criar uma nação a partir de uma teoria política. vem dominando a imaginação das nossas elites políticas e os objetivos que perseguem. portadora do projeto de modernização do País pela indústria e pela criação de uma moderna força de trabalho. A longa duração de tal ciclo certamente pode ser explicada pelas características próprias da nossa formação. marcam. Modelar por cima uma massa tida como amorfa rumo aos ideais civilizatórios. tal como os indivíduos. foi sob um sistema de orientação centralizador. Nessa hora decisiva de mudanças sociais e econômicas. ao Estado caberia o papel estratégico de instituir as . na avaliação de suas elites. o fim de uma era e o começo de outra. As nações. superando as forças centrífugas que ameaçavam a sua unidade e evitando o risco maior. desavindo com as margens institucionais que lhe conformam o hábito e orientam seu cotidiano. com o vértice do poder político dotado de um decisionismo que não conhecia freios e contrapesos. que o País transitou à sua moda para a civilização. quando o social. discipliná-la e exercer sobre ela uma pedagogia cívica demandava a ação permanente do educador até que ela viesse a demonstrar estar apta a se auto-orientar. De fato. porque eventos dessa natureza. anotava Tocqueville nas primeiras páginas de A democracia na América. em ondas sempre renovadas.98 Aladim e o gênio da garrafa (28 jul. estatista. carregam consigo as marcas de suas origens.) Sobre as jornadas de junho rios de tinta já foram derramados e outros tantos ainda vêm por aí. Nada mais justo. cada qual com um estilo adaptado às suas circunstâncias — do de Vargas dos anos 1930 ao de Lula e Dilma nos dias atuais. em particular na recriação do regime pela chamada Revolução de 1930. um dos principais instrumentos para a realização dos seus propósitos. e foram elas que ressurgiram dominantes no regime republicano. na busca de explicações para o levante popular de âmbito nacional que tudo e todos pôs de pernas para o ar. em geral. e fez do Direito Administrativo. como nas lições de Euclides da Cunha. Não se pode mais não ver: esgotou-se o ciclo da modernização “por cima” que. irrompe nas ruas com a fúria de um fenômeno natural. passando pelo de Juscelino e dos generais-presidentes do regime militar —.

adotando a fórmula corporativa nas relações entre as classes sociais sob a sua tutela. que era sua marca identitária. alinhada ao tema moderno da autonomia dos seres sociais quanto ao Estado. nascido da iniciativa de suas lideranças. opção que conduziu à busca de alianças políticas. em intérprete privilegiado “do pensamento da Nação”. foi bem-sucedida. . Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro. que. aos poucos se diluiu. em seus traços principais. por uma recusa acrítica da política. concederiam suporte intelectual à fundação do novo partido. a expressividade do moderno. Mais uma vez essa modelagem. e a partir das profundas mudanças operadas em nossas estruturas demográficas e societais. contudo. ao tempo em que se instituía. apresentando-se como portadores de uma nova agenda sindical e política. em especial quando se tornou governo. subscrevendo argumentos de pensadores como Florestan Fernandes. que logo evoluiu para uma contundente crítica ao processo pelo qual se realizou a formação histórica brasileira. O caminho eleitoral foi o da sua preferência. então. abrindo espaço para a democratização do País. destacaram-se o sindicalismo das fábricas metalúrgicas do ABC e o Partido dos Trabalhadores. em clara oposição à cultura heterônoma prevalecente. Entre esses novos personagens. no basismo e no assembleísmo seria responsável.99 bases materiais e ideais para essa grande transformação. mas sua ênfase nos movimentos sociais. A modernização seria filha do decisionismo político. emergiram movimentos sociais e partidos políticos que denunciaram a natureza autocrática do sistema historicamente imperante. às quais aderiu com maior desenvoltura quando a conquista do governo se tornou uma possibilidade tangível. Na esteira desses processos. assim como sua interpretação sinistra da História do País não lhe permitiria a valorização dos seus aspectos positivos. por afinidades eletivas. Partiu deles a denúncia do caráter tutelar da legislação trabalhista. e seria reiterada em momentos seguintes. Nesse movimento. quando se completou a obra da modernização econômica com a incorporação do mundo agrário ao modo de produção especificamente capitalista. nos seus primeiros tempos. A trajetória do PT surge. particularmente no regime militar. como no texto da Carta de 1937.

e. e não é verdade que tenhamos à mão um Aladim capaz de negociar com ele. O passado não seria mais uma página virada. nessa toada. antes objeto de sua feroz condenação. virando as costas para o moderno e tudo de novo que emergia da vida social.100 levando-o a absolver acriticamente a História do País. das ruas aos sítios do Congresso e do Palácio do Planalto. A estatalização dos movimentos sociais desertificou a sociedade civil. mas para se fundir com ele. por onde a juventude e seus valores por autonomia respiram. significa um estado de rebelião contra esse retorno. deixando-lhe apenas as redes sociais. O itinerário das jornadas de junho. ninguém sabe o que ele pode aprontar. mas uma experiência a ser retomada. Retomam-se a ideologia do nacional-desenvolvimentismo e políticas de grandeza nacional e. . o moderno se alia ao atraso oligárquico não para induzir sua transformação. Lula e seu sindicalismo se reencontraram com a era Vargas. no pior estilo da modernização autoritária. Agora que o gênio saiu da garrafa.

. “As pessoas querem ser reconhecidas. são o combustível dessa movimentação”. Diálogos com Luiz Werneck Vianna. Tudo isso foi distanciando a população. 2002). dia 17-06. uma juventude desencantada com a política. avalia. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo. organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. É preciso evitar [. Na entrevista concedida por telefone para a IHU On-Line. A afirmação é do professor e pesquisador Luiz Werneck Vianna. 1999). se é que ainda há tempo. .. 2012). leia a obra Uma sociologia indignada. radicalizada e que procure formas inadequadas de resolução de problemas”. “Ao longo desses anos. Se nada for feito a tempo. A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan. O tema do reconhecimento.101 A busca por reconhecimento e participação política: o combustível das manifestações (IHU On-Line.) “O que acontece nessas manifestações é uma recusa”. da vida institucional. por outro. Eu insisto: o problema todo é auscultar de forma correta os sinais que estão vindo e agir da forma mais tempestiva possível. é autor de. A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan. e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG. Para ele. Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na PUC-Rio. Sobre seu pensamento. por um lado. É um sinal de alerta. e o da participação política. as manifestações expressam “um sentimento de exclusão da arena pública” e “a busca por reconhecimento social”. pois há o risco de não haver mais tempo”. 19 jun. Werneck Vianna afirma torcer para que o processo desses dias “sirva como uma sinalização poderosa para que mudanças importantes na política brasileira comecem a ser encaminhadas. querem que sua dignidade e identidade sejam respeitadas. esse movimento pode ter um desfecho muito ruim.. entre outros.] que 2013 tenha o mesmo desfecho que 1968. UFJF.]. especialmente os jovens. essa geração cresceu vendo e se confrontando com uma situação em que os partidos e a classe política em geral se desmoralizavam a cada dia [. isto é. ao comentar a onda de protestos que se disseminou pelas principais capitais brasileiras na última segunda-feira.. legitimadas. 1997).

não a classe dita “C”. em especial dos jovens. A falta de participação dessa geração na política é algo que chama a atenção. Ao lado disso. os setores baixos dessa classe média estão cultivando um ressentimento muito grande. na sua demografia. após seus primeiros movimentos. É uma classe média dos novos serviços. Este ressentimento se manifestou na raiva com que essas manifestações se deram. como o Bolsa Família. Por outro lado. ou elas são de outra ordem? Acho que não são as mesmas razões. Esse é o primeiro ponto. que é muito diferente das classes médias tradicionais. As pessoas querem ser reconhecidas. tal como havíamos conhecido. se nas ruas não há vestígios de organização. das novas ocupações.102 Como podemos compreender as manifestações sem lideranças que ocorreram ontem e na última semana em várias capitais brasileiras? O que elas significam? De um lado. As mesmas razões motivam as manifestações no Brasil. O porquê do movimento. que tomou forma a partir de um episódio que podia ser entendido como algo de menor expressão. O tema aqui é mais político e cultural. essa geração se pôs no mundo e está aí a sua marca. político e social. as redes sociais estão absurdamente dominadas por um diálogo interminável a respeito da situação da geração atual. E ela está sem perspectiva quanto ao seu projeto de vida. o afastamento imenso da população. na sua estrutura de classes. da política e dos partidos políticos. É um sentimento de exclusão da arena pública. O fato também de terem sido rechaçados por uma repressão muito forte. . Trata-se de uma classe média de um novo tipo. incendiou a imaginação. ter desencadeado esta proporção só pode ser entendido como um sentimento que vem se acumulando de exclusão e insatisfação. Por outro lado. Na Espanha. Enfim. aparentemente por um motivo quase banal — o aumento irrisório do preço das passagens —. relacionada a esses programas governamentais. muito evidente. é preciso considerar que esse país tem passado por mudanças muito significativas na sua composição social. as manifestações dos indignados do movimento 15M demonstraram um desconforto econômico. Há uma nova classe média. Além do mais. a busca por reconhecimento social desses grupos emergentes das classes médias é muito forte e o tema do reconhecimento é muito associado ao tema do ressentimento.

ele quis dizer que o absolutismo francês havia desfeito todas as organizações intermediárias vigentes na França tradicional e a massa do povo ficou isolada. São dois mundos que não se tocam. que mal começou. Havia um sentimento de melhoria do ponto de vista econômico. Esses partidos que estão aí foram chamados pelo ministro Joaquim Barbosa de “partidos de mentirinha”. Foi um movimento dirigido também contra essa política. de que a vida tem melhorado e pode melhorar ainda mais. por outro. que vem acorrendo à vida social. Com isso. Até porque. do ponto de vista da economia. sem lideranças conhecidas. como se observa. não há partidos. antepondo-se diretamente ao Estado. A sociedade está inteiramente isolada da esfera pública. Por toda a parte viam-se faixas com os seguintes dizeres: “nós não acreditamos na representação que aí está”. Devemos procurar as origens desse movimento que ainda não terminou e não se sabe para onde vai. nesse ponto não há como discordar dele. Embora ele seja muito midiático. por um lado. e o da participação política. Está evidente que temos que passar por reformas políticas importantes no sentido de que o sistema político se abra à participação. O que ele dizia é que quem ficasse procurando as causas a partir desse ângulo jamais entenderia a Revolução Francesa. de nucleação. não têm trabalho de consolidação. especialmente essa multidão de jovens. No entanto.103 querem que sua dignidade e identidade sejam respeitadas. Diz ele. A França da Revolução Francesa — anotou Tocqueville no seu trabalho clássico O Antigo Regime e a Revolução — estava em um momento de expansão econômica. Com quem negociar? . multitudinário. Fora as redes sociais. nessa forma de relação entre Estado e sociedade. Tudo pode acontecer. fragmentada. veio a revolução. hoje tem um papel muito pequeno. Ela deveria ser entendida pela sua especificidade política naquele momento. Não creio que isso esteja vinculado diretamente a causas econômicas. Não há clubes. Estes (os partidos) vivem inteiramente orientados para sua reprodução política. que antes cumpria um papel muito importante nessa organização. legitimadas. nessa obra. há no país — e as pesquisas indicam isso — um sentimento de satisfação. é um perigo. “nunca o campesinato teve tanto acesso à propriedade como naquele momento”. Temos que procurar as origens desse processo. que vai às ruas. O tema do reconhecimento. entre política e sociedade. A própria Igreja Católica. eleitoral. foram o combustível dessa movimentação. não há nada que esteja organizando a sociedade. Um movimento desses. Abre-se campo para a selvageria.

Basta ver o noticiário dos jornais: corrupção disso. Ainda há um cenário propício para isso? Se não houver. esse movimento pode ter um desfecho muito ruim. pois há o risco de não haver mais tempo. Nisso. Agora é preciso fazer um balanço do que vem acontecendo e apresentar alternativas e soluções. demonstrou seu esgotamento. Eu insisto: o problema todo é auscultar de forma correta os sinais que estão vindo e agir da forma mais tempestiva possível. não se sabe como o país teria acordado hoje. as coisas irão mal. O sinal que soou é muito forte para não ser ouvido e bem interpretado. isto é. Se tivesse havido conflitos mais severos. A política de presidencialismo de coalizão. com mortos. negociata daquilo. uma juventude desencantada com a política. É um sinal de alerta. E quais seriam as formas adequadas? Participação política e organização social. É preciso evitar — e escrevi isso em um artigo que saiu hoje (18-06) no Estadão — que 2013 tenha o mesmo desfecho que 1968. levou à desmoralização da política com o “toma lá. da forma como a praticamos. essa geração cresceu vendo e se confrontando com uma situação em que os partidos e a classe política em geral se desmoralizavam a cada dia. dá cá” e a compra de votos. O que significa uma manifestação cujo grito de guerra seja “povo unido não precisa de partido”? Trata-se da falência da política representativa? Como pensar uma política sem partidos? O que acontece nessas manifestações é uma recusa. Tudo isso foi distanciando a população. Ao longo desses anos. se é que ainda há tempo.104 Tomara que o processo desses dias — de ontem (17-06-2013) em particular — sirva como uma sinalização poderosa para que mudanças importantes na política brasileira comecem a ser encaminhadas. O que temos a comemorar nesta terça-feira é um fato importantíssimo: de que esse movimento ainda não carrega um morto. a imprensa tem um papel muito importante de localizar . Se nada for feito a tempo. radicalizada e que procure formas inadequadas de resolução de problemas. da vida institucional. especialmente os jovens.

O fato é que estamos em um deserto cultural. O que eu posso dizer é que o acontecimento foi de tal proporção que os seus próprios participantes. para poder enfrentar uma situação dessas. Afinal. Não ter pressa. hoje. num Saara monumental em que tudo o que era vivo foi levado para dentro do Estado. Pode levar tempo. político. Essa crise vai se alongar. inteligência. deve haver pessoas que estejam exercendo uma liderança silenciosa sobre esse processo todo. criando uma nova cultura. Nesse processo de diálogo. O governo foi pego desprevenido? O governo e todos nós vamos ter que entender. Que modelo de política se pode vislumbrar a partir dessa característica mais participativa da população. devem estar na condução. e da comunicação entre eles e nós. de comunicação entre eles mesmos. O que está claro é que a grande massa desse movimento reprimiu a violência de alguns grupos. isso pode acabar como em 1968. Esses movimentos perderam a aura. a autenticidade. identificá-las. é preciso ter calma. nas universidades. Gilberto Carvalho disse que o governo está preocupado com os protestos e quer garantir diálogo com os movimentos para entender “anseios importantes” que têm levado as pessoas a se manifestar. com um mau desfecho. fazer com que elas falem. intelectuais. através desta cooptação política desenfreada que esse governo — que é Estado — desencadeou. Ou. radicalizando a juventude e afastando-a da vida política. significando a entrada dessa geração na política institucional brasileira. Os setores mais ressentidos tiveram a oportunidade de manifestar sua fúria. sem lideranças específicas? Isso se forma no calor da hora. discutindo o que houve ontem e o que fazer. políticos e imprensa. uma má solução. num protesto pela sua exclusão. 2013 pode ser o começo de uma cena nova. O que eles fizeram ontem? Foram capazes de dar diretivas? Não. Porque evidentemente as lideranças podem estar subterrâneas. contrariamente. perderam bases.105 entre eles lideranças. a coisa vai se sedimentando. Eu vi na universidade em que eu trabalho eles se organizando para a passeata. Grande parte desses jovens que estão nas ruas é estudante. Ali se misturou tudo. pelo fato de não serem . nas escolas. E esses movimentos sociais cooptados (como ficou claro) não têm a menor condução dos processos reais. Acredito que hoje eles estarão comentando o que se passou ontem. a legitimidade.

Agora. através de políticas de cooptação. De modo que a chave não é econômica. que assistiu a tudo isso de camarote. O fato é que essa forma de administração da questão social assimétrica. O futuro a Deus pertence e ele está para ser criado por nós agora. Ainda não há como saber qual será. Basta ver o próprio nome do partido: Rede. a candidatura da Marina Silva certamente será bafejada por esse tipo de movimento. . a essa distância entre o Estado e a sociedade e a essa destituição do papel dos movimentos sociais tradicionais. que não tem nada a ver com a tradição do futebol brasileiro. As pessoas se sentiram excluídas também nos estádios. de cima para baixo. Essa questão da Copa demonstrou ser realmente um desastre. e no protesto pelas políticas públicas que não funcionam. O atual cenário de manifestações pode determinar as eleições e a sucessão presidencial ou não? Certamente terá influência. Isso não quer dizer que ela vá ganhar as eleições.106 reconhecidos. porque isso tem muito a ver com a cultura que ela representa. Ela é fundamentalmente política e cultural. Basta ver a situação da UNE. queremos saúde e educação”. levou a esse descalabro. olhando de binóculo esses acontecimentos. com gastos suntuosos para a organização de um espetáculo de tipo europeu. como tantas faixas falavam: “não queremos Copa.

que destituiu a política da sua dignidade e converteu os partidos políticos em instrumentos sem vida. Em cima. mas ao contrário do movimento da Terra. no coração do Brasil. Os interesses e as ideias de cada qual são díspares. então capital federal. nas corporações profissionais e entre os estudantes. de dentro dessa crosta encardida que. os sem-teto. os sem-terra. a quem recebeu em seu gabinete presidencial. no Rio de Janeiro e em outras grandes cidades — especialmente no caso paulista — somente na aparência podem ser tomados como um raio em dia de céu azul. há anos. este movimento que aí está não dá para não perceber. aos poucos centavos acrescidos a seu preço. nas grandes capitais. não poucas cursando universidades de elite. com o próprio presidente Kubitschek intercedendo junto ao presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). . à primeira vista desproporcional. lá em Belo Monte. Igualmente enganoso seria compreendê-los como um mero. em particular as da imprensa escrita. que não sentimos. na frase famosa de Joaquim Nabuco.107 O movimento da hora presente (18 jun. As reportagens dos meios de comunicação. Os acontecimentos recentes em São Paulo. nas periferias. como seria de esperar numa sociedade que não mais reflete sobre si. máquinas eleitorais especializadas na reprodução política dos seus quadros. embora significativo. um movimento de estudantes durante vários dias tomou as ruas na chamada greve dos bondes. desencontrados uns dos outros. no Rio de Janeiro. entre os índios. A memória política talvez ajude a pensar o caso em tela: no segundo ano do governo de Juscelino Kubitschek. a tudo abafava há sinais de vida nova. têm trazido à luz a identidade social de algumas lideranças desse movimento de ocupação popular das ruas. em baixo. episódio de políticas públicas de transporte urbano.) Eppur si muove. em 1956. A crise foi contornada politicamente. e seu alcance foi de tal natureza que se temeu a iminência de uma crise institucional. para as quais o aumento irrisório nas tarifas dos transportes não teria como explicar a reação.

pôde se tomar compatível. vive-se um tempo de acelerada modernização promovida por indução da ação estatal. Foi assim que. o que vale notar é que aquela movimentação estudantil transcendia a sua motivação declarada. em curto espaço de tempo. Contudo. com a emergência do moderno com as postulações que lhes são intrínsecas de autonomia da vida social. O paralelo com a situação atual não é arbitrário: hoje. como se verifica com o tema da mobilidade urbana que somente agora chega à ribalta. esse ângulo tópico é apenas a ponta mais sensível das atuais manifestações — muitas delas mal escondendo a carga de fúria de . Entre tantos processos dessa natureza. das que as antecederam. que viram nascer formas expressivas do moderno na cultura brasileira. numa sociedade dominada pelo tradicionalismo. que vem revolvendo as suas estruturas sociais e ocupacionais e provocando o realinhamento. de modo imprevisto e paradoxal.108 Nesse registro. Não há exagero em sustentar que a feliz solução daquela crise — exemplar em termos de sua orientação democrática — vai estar na raiz da afirmação dos movimentos sociais nos anos subsequentes. no Cinema Novo e na Bossa Nova. encobrindo um malaise — sintoma que não escapou das sensíveis antenas políticas do presidente — que se arrastava desde o suicídio do presidente Getúlio Vargas e a subsequente turbulenta sucessão presidencial. Como inevitável. na esteira do processo de desenvolvimento capitalista do Brasil e da mobilidade social que a acompanha. os chamados “anos dourados”. deve ser notada a nova configuração das chamadas classes médias. tais transformações vêm repercutindo no sentido de enriquecer as agendas de demandas sociais. em termos de mentalidade e de inscrição no mercado. manifestações para as quais a UNE e o seu Centro Popular de Cultura desempenharam um não pequeno papel. em meio a golpes e contragolpes de Estado. desencadeada por clecisões discricionárias do Poder Executivo — os “cinquenta anos em cinco” —. a modernização das estruturas econômicas do Brasil. o aumento do preço das passagens. da posição de classes e de estratos sociais. como no Teatro de Arena. inteiramente distintas. tal como nos anos 1950.

não apenas urbanos. e Taksim. a que o repertório de interpretação corrente nos últimos anos não concede acesso. com ela. A chave somente se fará disponível quando se compreender que se está diante de uma insurgência democrática em favor do reconhecimento de novas identidades sociais e de direitos de participação na vida pública. Há. e um dos maiores deles é o de não agir no sentido de evitar que a juventude se distancie dos valores da democracia. Porém. Os movimentos sociais que emergem diante de nós não estão confrontados com um regime autoritário — vive-se na plenitude das liberdades civis e públicas. estamos longe das Praças Tahir. tal como nesta forma bastarda de presidencialismo de coalizão sob a qual se vive. o que pode vir a ocorrer por intervenções desastradas dos atuais governantes. um componente novo nessa movimentação social a requerer precisa identificação. a da remoção das instituições e práticas nefastas que a têm degradado.109 que são portadoras — que irrompem por toda parte em diferentes cenários. engessando a moderna sociedade brasileira no passado e no anacronismo destes novos coronéis da vida republicana. do Egito. sem dúvida. da Turquia. Há riscos na hora presente. especialmente das novas gerações. . O desfecho de 2013 não pode repetir o de 1968. A hora da política está chegando e. no entanto.

integra com quadros do seu partido. como as motivações que levariam a uma candidatura presidencial o governador de Pernambuco.110 As aparências e a política (26 maio) Dá para sentir que há algo de estranho no ar. detentora de altos índices de aprovação popular e pretendente legítima à reeleição. De outra parte. caso da candidatura à próxima sucessão presidencial da presidente Dilma Rousseff. amarga uma parte da militância partidária. condenados a pesadas penas pela Justiça. ainda hoje. a qual se arrisca em movimentos de autonomia. ora na iminência de serem recolhidos à prisão. Noutra ponta. se aparência e essência coincidissem. Contudo. uma vez que inequivocamente a desconstrução que empreende da imagem de Dilma e do seu governo — por motivos que permanecem difusos — não se faz acompanhar de uma rejeição do seu histórico de firme aliado do seu antecessor. como a sua confirmação. expondo-se de modo transparente ao observador. um grande pensador costumava dizer. insistem alguns. têm escapado à nossa vã filosofia. não haveria lugar para a ciência — o sentido das coisas estaria sempre à mão. a situação de altos dirigentes do partido hegemônico. o PSB. cujas reações fogem à previsão. a cogitada candidatura do governador Eduardo Campos já deixa um rastro de sombras na sua esteira. provêm sinais de mudança. posições relevantes na coalizão governamental. Se. De qualquer forma. a . Dilma e Lula mantêm entre si relações fraternas e solidárias. A inédita antecedência com que foi anunciada. sem que se saiba ao certo se movida pela pressão de grandes interesses ou pelo legítimo objetivo de ganhar luz própria. da base congressual do governo. embora cada eixo aparentemente gire nos seus gonzos e a marcha das coisas siga caminho previsível. no mundo desencantado da plítica brasileira. Eduardo Campos — fora pretensões dinásticas de herdeiro de um cabedal político regional —. deveria ser vista. como no caso dos emitidos ao longo da tramitação dalegislação dos portos. na superfície lisa dos fatos. parceiro seguro do PT em três sucessões presidenciais e que. Não são poucos os sinais que. especialmente diante da neutralidade da postura presidencial quanto à sua sorte. longe de contrariar esse diagnóstico feliz.

Na economia e na política. precocemente. um espectro vagueia pelos palácios do poder nos lugares que já foram seus em tempos idos. Para além das repercussões desse episódio circunstancial. logo que a Suprema Corte venha a confirmar as sentenças condenatórias aos réus da Ação Penal 470. inteiramente distante do prosaísmo da sua sociedade. de autoria do deputado do PT do Piauí Nazareno Fonteles. dois temas de complexa administração prometem fazer-se dominantes. com sua carga negativa para a vida institucional. o PMDB. A outra. e as relações entre os Poderes da República. Para ressaltar ainda mais a ideia de mistério que ronda a política brasileira. cumprindo a decisãojudicial ou reabrindo a questão em seu .111 aprovação pelo Congresso Nacional dessa regulação reforça a posição da presidente e do seu principal aliado. A pilotagem da primeira no sentido de evitar uma escalada inflacionária depende de uma feliz e oportuna intervenção da equipe econômica. deputado Henrique Alves. da qual depende o destino da campanha pela reeleição. por sua vez. ora paralisada por decisão do presidente da Câmara. tem sido objeto de controvérsias na esfera pública. entre outros objetivos. boa parte dela entretida no consumo e nos apetites desencadeados pelo empreendedorismo. em meio a uma situação de baixo crescimento do produto interno bruto (PIB). quando o Parlamento tiver de decidir sobre a cassação dos mandatos dos parlamentares apenados. que visa. a sucessão presidencial: a inflação. que reservou papel destacado ao Poder Judiciário. de que é exemplo a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) n. está entregue aos azares da fortuna. No caso.° 33. assombrando todos com suas aparições. basta lembrar que dois dos condenados por ela ocupam posições na estratégica Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. no campo acadêmico e no interior do Parlamento. tem data certa para reaparecer. Tal tema. a submeter as emendas vinculantes instituídas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) à aprovação do Parlamento. ambos tendentes a dramatizar as circunstâncias em quejáse desencadeia. em particular na forma concebida pela Carta de 1988. a questão da separação entre os Poderes. o que deve ocorrer nos inícios da alta estação do processo sucessório. inclusive porque se encontra contaminada pelos resultados da Ação Penal 470.

Mas. .112 plenário. às voltas com a montagem de um largo sistema de alianças a fim de disputar a reeleição. Se os pequenos abalos e sinais podem apenas significar variações momentâneas. é de esperar que o caso mude de escala. Decerto são apenas palavras. São Paulo. 2013). Na entrevista concedida pelo ex-presidente Lula ao sociólogo Emir Sader na coletânea de artigos coligidos em 10 anos de Governos PósLiberais no Brasil (Ed. Nessa hora. sabe-se lá. em nome de uma alegada defesa do princípio da soberania popular. eles merecem ser registrados. ao menos se um autor atilado como Tocqueville deva ser levado na devida consideração. logo ela que não se encontra na galeria dos heróis fundadores. desses a que somente se deve conceder atenção com reservas. pode haver método nessa loucura. que teriam sido banalizados por causa das disputas eleitorais. Boitempo. Tarefa difícil para a presidente Dilma. com a discussão sobre a sorte dos mandatos dos envolvidos embaralhada com a denúncia de um governo de juízes e da judicialização da política. que a ação dos tribunais estaria pondo sob ameaça. e tanto elas como os sinais podem ser de sentido aleatório. fica a sugestão da necessidade de um retorno aos valores partidários originários.

depois por Dilma Rousseff. que têm um dos seus eminentes praticantes conduzido a um ministério do governo. . Aceita essa premissa. por sua iniciativa. para usar uma metáfora cara a Raymundo Faoro — a parte moderna mal equilibrada pelo lastro que carrega do que há de mais recessivo e anacrônico na sociedade brasileira. entre política e religião. formado nos quadros do sindicalismo de ponta da região do ABC paulista. tem diante de si é de desnortear. tais relações. no esforço de toda uma vida. o cenário que o observador. imprimem ao governo uma configuração quasímoda. em tentativas de interpretá-lo e sondar os rumos do seu destino. em particular as de culto pentecostal. dois casos deveriam ser perturbadores para a esquerda: a preservação das antigas elites tradicionais. em particular as originárias do mundo agrário. inteiramente jejuno na matéria. alçadas. Entre tantos. o problema está em identificar a natureza dessa esquerda que tem favorecido mais as forças da conservação do que as da mudança. embora. De fato. e a criação de vínculos inéditos. com histórico em movimentos radicalizados de combate ao regime militar. muitas delas são bafejadas com recursos públicos para se tomarem aptas ao exercício de papéis destacados na moderna economia capitalista brasileira. a posições de mando nas estruturas do poder governamental graças ao controle político que exercem na política local — não bastasse.) O Brasil não é para principiantes — a frase justamente famosa tem sua autoria atribuída a um dos nossos maiores artistas. em nossa História republicana. não isenta de controvérsia. o senso comum tem como ponto firmado que o País é governado pela esquerda há mais de uma década. Em ambos os casos. uma construção surreal a desafiar o seu julgamento: isso que aí se desenrola é uma tragédia ou uma comédia com a qual ainda não aprendemos a rir? Para todos os efeitos. sempre justificadas em nome da governabilidade e do que seriam as necessárias alianças a fim de dar continuidade a uma política que se apresenta como de esquerda. como notório. Falta dizer que também não é para os veteranos. nacionais e internacionais. o da Pesca. até para os curtidos. primeiro por Lula.113 A razão é astuta nos trópicos? (30 abr. principiante ou não.

inclusive nos lugares em que transitam matérias sensíveis como a dos valores e dos princípios. expressa. onde são ponderadas suas razões e estabelecidos os limites para ação. que. porém. hipotecando as modernas gerações a um passado de sombrio anacronismo. muralha da China. que.114 Nessa bizarra construção. Fora de dúvida que a esquerda. contornada pelas vias abertas pelo Estado a fim de acolher os movimentos da sociedade civil. a esfera pública política míngua. demandas de categorias específicas. . confunde-se com ele. dirige-se para cima. nessa lógica torta. entre a ética de responsabilidade e a ética de convicção. para os padrões usuais a um governo de esquerda. A vocalização. posto à testa da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Pior. São Paulo. ela própria. de preferência. Noutra ponta. Os espaços estatais. quando ocorre. tal como na leitura do notável especialista em sua obra Wolfgang Schluchter (Paradoxos da modernidade. quando no governo. em especial para uma secretaria do governo destinada a lhe prestar audiência. por definição. a seu modo. com frequência submetendo-se a elas. A extrema pluralidade das centrais sindicais é uma das testemunhas dessa fragmentação. impondo-lhe seu ritmo e sua lógica. o contubémio entre moderno e atraso tem facultado a este último acesso fácil a posições influentes na esfera pública. por falar em China. Exemplar disso é o caso desse espantoso deputado Marco Feliciano (PSC-SP). em geral. o moderno abdica da pretensão de conduzir o atraso. Não à toa. não pode ignorar seus compromissos com uma ética de responsabilidade. E. Nesse processo. vive-se um ciclo de baixa na mobilização social. Não há. como já advertia Weber em seus textos clássicos sobre o assunto. com a presença de Confúcio encravada em sua História. 2010). caberia a um parlamentar atento e sensível aos novos temas que irrompem na cena contemporânea. Ao contrário. e não a uma mentalidade reacionária e de entendimento curto. deixando de concertar relações horizontais entre eles. impondo ao que seriam as suas forças próprias marchar de acordo com o andamento das forças retardatárias. Deriva daí que os movimentos sociais que vêm amparando a sua sustentação encontrem poucos estímulos à mobilização. para onde deságuam as pretensões de todos. um bom testemunho disso. Edusp. convertem-se assim no lugar privilegiado da sua comunicação.

ardilosamente.115 Sob domínio de uma razão instrumental. da demanda por ética na política. Nessa marcha à ré em que nos encontramos. que. da denúncia corrosiva da estatolatria imperante e do patrimonialismo na administração pública. na sua trajetória no poder. teses e temas com que renovou nosso repertório político e que. somente pressagia que agora estamos prontos para enterrá-lo definitivamente? . Ela nasce em nome da defesa da autonomia dos movimentos sociais diante do Estado. em meio aos maiores obstáculos. em que se busca o poder pelo poder. são os princípios que cedem. sempre encontraria um modo superior de realização. ou esse regresso. inclusive — em alguns casos. até principalmente — aqueles com que essa esquerda que aí está se credenciou na opinião pública. em particular do sindicalismo. acabou por deixar de lado. Hegel falava na astúcia da razão. quando se devolve à moderna sociedade brasileira o pior do seu passado. devemos duvidar da sua ação sob os trópicos.

E a senhora dessa decisão tem nome e sobrenome.116 O mundo gira e a Lusitana roda (24 mar. num salto se fez ao alcance da mão. perdem forças. como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). adquiriram musculatura. titular do comando do partido hegemônico na coalizão das forças políticas que nos governa. cujos dirigentes têm desfrutado acesso privilegiado ao vértice do poder. a acompanhá-la nessa precipitação dos fatos. Por que passamos de súbito de uma marcha lenta para essa aceleração do tempo? Se o natural. a qual reclama um ator com espírito de missão. inclusive porque já está passando. que era uma data distante no calendário eleitoral.) Vai passar. mas vai passar. não somente perde o seu lugar de antes. a joia da coroa do governo Lula. A transição de Lula para Dilma apenas na aparência transcorre em termos de continuidade: os estilos diferem. Dilma Rousseff. ao contrário. foi contrariado. e outros que. enquanto assistem à ocupação de lugares estratégicos na política e na economia por parte do agronegócio. Verdade que ainda são insondáveis as razões que levaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. como os pentecostais. no fim deste verão. Há novos personagens. o curso distendido do tempo. A sucessão presidencial. Sobretudo a circunstância é outra. já estavam claros os sinais de uma mudança de estação. somente o foi pela intervenção humana. sempre pródiga para quem já detém os cordéis do poder. mas. O sindicalismo. mantendo todos aquietados. e a sociedade não é mais a de dez anos atrás. E o que está por vir não necessariamente será melhor do que o que está aí. passa-se do reino do carisma ao da gestão. Não se sabe quando nem como — não deve ser por agora —. no curso da última década. a presidente da República — embora a prudência e os nossos usos e costumes recomendassem a inércia. que é de difícil compreensão para ouvidos treinados na retórica política da ética de convicção. reconhecido publicamente como tal. como é confrontado — reparam com azedume . trazido juntamente com as elites empresariais para o centro de decisões no interior da máquina governamental. homem de tirocínio político reconhecido. que. entretidos em suas fabulações.

A escalada do Partido dos Trabalhadores (PT). A esquerda. alçadas à posição proeminente de partícipes de um projeto de expansão do poder da Nação.117 alguns dos seus próceres — com a desenvoltura do papel exercido pelas principais lideranças empresariais. boa parte delas assíduas nas antessalas do Estado. em que a perspectiva da ruptura cedeu lugar a um andamento de reformas ao estilo das democracias sociais europeias. que traria de volta o tema da ruptura institucional. e núcleos antigos seus logo foram defenestrados ou optaram por outros caminhos. um operário vindo do chão de fábrica. atingiu capilarmente a vida municipal. São águas passadas os primeiros anos da década petista. O seu governo não se fixaria na agenda do moderno e dos interesses e personagens que são próprios a ela. do social e da economia. em que seus interesses particulares são interpretados como de todos. especialmente com a decisão crucial de adotar a política macroeconômica do governo a que sucedia. . Essa foi a obra-prima de Lula. o PT abdicou da mobilização popular. Tal estratégia foi bem-sucedida nas dimensões da política. era um retrato na parede que não doía. a partir de uma audaciosa política de alianças com as elites políticas do Brasil profundo. do sindicalismo e das massas emergentes — aspirantes ao acesso ao mundo dos direitos e do consumo — à política do governo. aí incluída a dos rincões. Reeditava. com o alinhamento do empresariado. investiu na via eleitoral e parlamentar e. e pela ênfase com que o governo do PT se envolveu na questão social e na defesa dos direitos do mundo do trabalho. manteve parentesco com alguns dos seus aspectos. a princípio renegada por ele. Lula à frente. se não consistiu num processo revolucionário — a respeito desse ponto há consenso entre gregos e baianos —. rumo à conquista do governo. dessa forma. Consciente da sua circunstância de riscos. mas que não escondia os seus pontos fracos: exigia a sua presença demiúrgica e uma acomodação minimamente satisfatória de todos com os lugares que lhes eram reservados no heterogêneo comboio que ele conduzia. indistintamente. no caso. quando acabou se encontrando com a tradição do trabalhismo brasileiro. A começar pela identidade social da sua liderança maior. a manobra do PMDB de décadas atrás. quando se apresentou como um partido-ônibus que a todos conduziria. Afastada a tentação de um terceiro mandato.

por simples conveniência de cálculos políticos. . com certeza. Lula foi confinado aos bastidores. A antecipação da sucessão presidencial liberou o gênio da garrafa. instalar. um pastor pentecostal de inclinação fundamentalista na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. a esta altura sem conhecer qual o itinerário a percorrer nem o seu destino final. que. mas com seu lastro de valores com origem na catolicidade. num país secularizado. não é mais aquele anunciado no começo da viagem dos idos de 2003. E com a sintomática ascensão desse pastor — sinal nefasto de que todos os apetites podem ser saciados — será necessário. das novas dificuldades de acomodar interesses diferentes. prover de mais vagões o governo-ônibus pilotado pelo PT. tem feito o resto. e a ação do tempo. assim como não é nada fácil.118 alternativa evitada pelo PT no início do seu primeiro governo. A crise na Federação deflagrada em torno dos royalties do petróleo e a resistência dos trabalhadores à mudança na regulação das atividades portuárias são exemplos. entre tantos outros. porque o mundo gira e a Lusitana roda. decididamente.

de certo. já se ouvem vozes anunciando terra à vista e de preparação de desembarque próximo. trincheira em que é agente passivo. mantidos na toada atual. e o metafísico. no qual não tem raízes nem influência significativa. uma herdeira sem luz própria. preferem atuar em surdina. hoje condestável da presidente Dilma? A dualidade no poder sempre é fonte de instabilidade. alçada à chefia de uma coalizão de forças políticas sem exercer comando sobre o partido que nela é hegemônico. mera observadora dos fatos que. não conhece um comando único nem sequer são enunciadas as linhas gerais do seu diagnóstico sobre o estado social da Nação. poderiam fazer a roda da fortuna girar a seu favor.) Há algo de estranho no ar. principalmente quanto à inflação. do Partido dos Trabalhadores (PT). em que já se ultimam preparativos de caravanas nos moldes de campanhas eleitorais do ex-presidente Lula. Contudo. A tripulação que nos dirige. quais as razões da pressa no partido hegemônico no poder. sobretudo o seu programa alternativo de governo ao que aí está. esperando os prazos rituais. tal como a reconhecemos no momento atual. estaria procurando atalhos para encurtar o tempo como manobra para evitar a aproximação de temíveis naves inimigas. ou teme motim a bordo na sua coalizão? A oposição mal começa a reunir forças. pois essa aceleração do tempo político que presenciamos não é normal. o ano da sucessão presidencial. de que se encontra investido o ex-presidente. do seu empenho em elucubrações em matéria de análise econômica. sem saber o que o resto dos seus dias nos promete. É própria do poder a procura permanente da sua ampliação. A transição de Lula para Dilma. de que ela é portadora. se boa safra ou tempos aziagos. simbólico. como demonstram velhas lições de teoria política. nem todos vinculados à oposição formal. Nesse sentido. Ainda estamos nos prelúdios de 2013.119 2014 à vista (16 fev. velha de guerra de dez anos na função. ainda em alto oceano. o poder que emana da presidente é de caráter derivado. como que cindiu o soberano em dois corpos distintos: o físico. sujeito à unção de fontes de poder que lhe são externas: de um lado. bem longe do porto. . Sabe-se. De um salto estaríamos chegando a 2014. Se os eventuais candidatos à Presidência.

seria submetida a uma escolha difícil. A candidatura à reeleição da presidente Dilma. do fascínio do carisma do ex-presidente sobre grandes massas do eleitorado. abre a possibilidade de a decisão da Suprema Corte ser recusada. mas não têm faltado pressões para que persista o entendimento do seu antecessor. com evidentes prejuízos na sua imagem republicana. junto à base aliada parlamentar. comprometendo-se. em tese. nessa eventualidade. em razão dos personagens envolvidos. até que pode ter continuidade. na prática. que se concluiu pela condenação de alguns cardeais do partido hegemônico. Sua sucessão no cargo pelo deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). de outro. pode vir a admitir um entendimento alternativo da matéria — há registros apontando nessa direção. é de esperar que a sucessão presidencial se inicie sob o signo dramático de um conflito entre Poderes. a não se conter nos limites do Poder Judiciário. seria plausível imaginar que vozes no interior do seu próprio partido — no qual não é pequena a influência dos seus dirigentes apenados — podem voltar-se para a candidatura do ex-presidente. na hipótese nada remota de que o STF não delongue com a publicação dos acórdãos e do julgamento dos embargos a serem oferecidos pelos réus. Diante de uma emergência de tal gravidade. No caso. Antes de concluir seu tempo na presidência da Câmara dos Deputados. a Ação Penal 470. Tal fato estava fadado. o petista Marco Maia (RS) firmou posição no sentido de que os parlamentares condenados somente poderiam perder seus mandatos por deliberação dos seus pares. ações solidárias em favor dos seus dirigentes condenados pela Justiça. cujos dons nas artes . assim.120 que deve sua unidade à presença e às ações de Lula. Mas surgiu uma pedra inesperada no caminho. o que. A solução de converter Lula em seu condestável pareceu judiciosa e. e segue com sua presença fora dos autos a assombrar a política e os próprios rumos da sucessão presidencial. vide seu encontro com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) —. a partir de um processo que lhes garantisse o direito de defesa. bem administrada. seu efetivo comandante. no terreno difícil das relações entre o Poder Legislativo e o Judiciário. para além das naturais e esperadas turbulências advindas da economia. na medida em que o seu partido pode vir a demandar dela.

que é o da preferência tanto da oposição formal como da encapuzada. bem pode servir tanto à oposição quanto aos nostálgicos do governo Lula. por ora. ao contrário da presidente. Na conta de todos. o que ficou claro no último pronunciamento público da presidente em rede nacional.121 da arbitragem são bem conhecidos e não têm faltado a eles. que. que calculam suas possibilidades com olhar fixo nos indicadores econômicos. que sonham com seu breve retorno. com palavras solidárias. é claro. que no Planalto se adiantem os ponteiros do relógio. a dificuldade está aí. . deve levar de vencida mais uma corrida sucessória. conspira contra o tempo largo. mesmo que na arena ainda não se divise o perfil do adversário. A solução heroica seria facilitada se o governo Dilma vier a experimentar um percurso negativo na agenda econômica. mesmo que venha a perder o PSB. salvo eventos extraordinários. vale notar. de contar com um candidato que a agrupe. a coalizão situacionista. à condição. PT à frente. portanto. gravitando entre os dois corpos com que se apresenta o poder soberano. Ao menos. inclusive no interior do partido hegemônico. Não é sem razões. A ambiguidade que ronda a política do Planalto.

com ênfase especial nos direitos humanos. e não à toa ele se voltou. De outra parte. para quem é leitor da mídia eletrônica e de alguns notáveis do colunismo econômico da grande imprensa.) De fato. Faz sentido. é também refratário às concepções sistêmicas que confiam ao mercado o destino das sociedades. uma ausência pode ser considerada sintomática. Tudo contado. como aqui. Nos dias que correm. para o estudo do Direito e dos direitos. Habermas. refratário à estatolatria. sem controlar o alcance das nossas micro e macrodecisões. parece que estamos em meio a mais uma floração do nacionalismo tanto nos rumos atuais da política interna quanto nos da externa. em plena maturidade. Nossos maîtres à penser. é um cosmopolita e. reagem ao cenário da globalização numa aceitação tácita do mundo tal como ele se nos apresenta. tido — o que ninguém lhe nega — como um dos maiores pensadores contemporâneos. sob a pilotagem de peritos nas navegações de longo curso exigidas pelas peripécias do mercado. se vale o que é dito. um herdeiro das tradições libertárias da filosofia clássica alemã.122 A triste sina da democracia (27 jan. Nesse vasto material. em suas interpretações sobre o estado de coisas no mundo. aberto ou encapuzado. seara propícia à sua perspectiva universalista. a de Jürgen Habermas. por livre escolha em diálogo permanente com alguns dos seus membros mais eminentes. sob a condução geral da presidente Dilma Rousseff. falante da língua franca dessa grei. e em igual medida. da democracia como prática de homens dotados de autonomia para agir e pensar livremente. a seu modo. na contramão das correntes intelectuais que sondam as possibilidades de evasão dessa gaiola de ferro que construímos para nós mesmos. nas citações abundantes dos colunistas de maior renome. na crença de que ele conhece mecanismos de autoajuste. dominante na comunicação —. . sua obra monumental se aplica na valorização da política. ela mesma uma economista. senhores da língua franca dos economistas — hoje. o esforço concentra-se na busca de janelas de oportunidade para uma inscrição com grandeza na economia-mundo. patologia que encontra terreno fértil nos contextos nacionais de capitalismo politicamente orientado. Diante dela. embora não se precisem a sua natureza nem as forças contra as quais se opõe. como tal.

os empresários das grandes empresas. Trata-se. especialmente estes últimos. Nessa roupagem. ao contrário dos surtos modernizantes anteriores. os maiores interessados no sucesso dessa navegação de longo curso. pela tecnocracia e pelo grande empresariado. Com essa manobra ideológica. como na África e na América do Sul. na nova tradução que lhe concede o governo Dilma. Nesse registro. em que o poder político agia monocraticamente. nem sempre inteiramente nacionais. heróisempresários que desbravam o mundo em torno. das finanças. que. tais personagens são alçados. não na busca de território. encontrou sua expressão nos últimos anos da democracia de 1946 e foi sustentado por intensa participação popular em favor de . a sociedade civil é vista como uma beneficiária indireta dos êxitos da acumulação capitalista resultante dos empreendimentos econômicos bemsucedidos no interior de nossas fronteiras e fora delas. da dimensão da economia para a da política. o nacional se apresenta sem vínculos com a agenda da sociedade civil. parceiros na política de projeção do poder estatal. o nacional é subsumido à lógica da modernização econômica. no caso. quando. novo ator ativo na tomada de decisões. além desses personagens. das empreiteiras e do agronegócio. há outros. sob a mediação do Estado. pois — e isso precisa ser declarado em alto e bom som — de um projeto nacional grão-burguês. como na atuação de um barão do Rio Branco e suas motivações ibéricas.123 Mas. em torno da agenda de direitos. são revestidos do manto de aura que os identifica como portadores do interesse nacional. que se tem orientado. Para eles franqueia a cornucópia dos recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do financiamento estatal a fim de alavancarem os seus empreendimentos no País e fora dele. apresentados como “campeões”. mas como novos bandeirantes que levam à frente o capitalismo brasileiro em nome da representação de presumidos interesses gerais da sociedade. passa a ser um processo conduzido condominialmente pelo poder político. quando muito. Sob esse estatuto de acento bismarckiano. O ideário nacional-popular começou a tomar forma a partir dos últimos meses do segundo governo Getúlio Vargas. que manipulações ideológicas ora em curso pretendem aproximar retoricamente da configuração do ideário nacional-popular. desde a democratização do País.

mais uma vez. logo depois de evocar — sem o citar — as lições de Gilberto Freyre sobre o sincretismo e a mestiçagem como a contribuição original brasileira ao mundo. em seu belo discurso de posse. aqui e lá fora. silenciosas e mal têm notícias dos feitos do nosso Estado e das nossas grandes empresas. acomete a democracia brasileira. com seus consultores e suas elites dirigentes imersos em cálculos de macroeconomia e artes afins. empenhados em realizar um projeto de País às nossas costas.124 mudanças sociais de largo alcance até ser varrido do léxico político brasileiro pelo regime militar. dizia que “(a nossa) política externa refletirá também os anseios que se expressaram nas ruas”. As ruas estão. no qual só há lugar para as razões instrumentais que nos elevem ao estatuto de grande potência mundial. Dez anos atrás. Não há o nacional-popular sem a presença e a voz da sociedade e dos seus setores subalternos. triste sina que. há tempo. o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. .

125 2012 .

E se a sociedade brasileira está fadada a conhecer grandes tumultos. por meio de uma sentença criminal. nas artes intrincadas dos julgamentos nos tribunais. mesmo quando pagão no tema. como se sabe. . aquele tribunal julgou incompatível com o exercício de um mandato político o parlamentar que. mas não será agora. ainda não foram registrados os indícios promissores de evento tão espantoso. necessária. sem que se incorra aqui na prática que se dissemina no nosso colunismo político de se arvorar. como se não coubesse a este último o papel de intérprete constitucional da lei. a fim de harmonizar o sentido de diferentes disposições legais da Carta de 88 e do Código Penal quanto à perda de mandatos eletivos. de Sinop a Lucas do Rio Verde. dos intelectuais enredados em seus afazeres e rotinas cinzentas do mundo acadêmico.126 O fim do mundo e a judicialização da política (29 dez. o ministro Celso de Mello. sim. quando contrariados. ao menos. vindos daí. nas claras palavras do seu decano. De fato. tomando-se a nuvem por Juno. Por maioria. Desejos fortes. Assim é que alguns pintam com cores fortes a controvérsia entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados sobre os efeitos da decisão condenatória emanada na conclusão da Ação Penal 470 como uma crise institucional a semear impasses catastróficos nas relações entre os Poderes Legislativo e Judiciário — o gatilho tão esperado para o “fim do mundo”? —. prestes a converter a multidão em potência demiúrgica de uma grande transformação. até então. dos movimentos sociais ao sindicalismo. que. na mitologia condena o seu autor a um resultado infeliz. podem dar asas à imaginação. ao Complexo do Alemão. Por toda parte.) O fim do mundo até que pode estar próximo. já deixada para trás a presumida data fatídica do calendário maia. de captar. seja destituído dos seus direitos políticos. houve. uma intervenção hermenêutica do STF. nem as antenas mais sensíveis têm sido capazes. dos sertões mais remotos às periferias dos grandes centros urbanos. sinais da tormenta anelados pelos que em desespero com o atual estado de coisas no mundo preferem qualquer outro a este aí. nem se deram a conhecer os seus profetas. que passa a ver o seu objeto mesmo onde ele não está.

sobretudo. Sobre a matéria. da saúde às questões ambientais. “quem inventou isso foi o PT. e o das novas relações entre o Executivo e o Legislativo vindas à tona desde que. são suscitadas topicamente as questões que são objetos da bibliografia clássica sobre o assunto: o da agenda da igualdade e dos novos direitos a ela associados. se institucionalizou no Ocidente o sistema do Welfare State (Estado de bem-estar social). em que esse fenômeno especificamente contemporâneo já afeta a quase totalidade das relações sociais.127 Diante da decisão. “em uma renúncia evidente ao poder que lhe foi conferido” (in coluna de Rosângela Bittar. Mais que isso. uma vez que por meio dela o Judiciário estaria usurpando prerrogativas do Legislativo e desobedecendo ao que seriam as rígidas fronteiras a discriminarem os territórios próprios a eles. 20/12. agora. em rompante manifestação feita no recinto do Senado. que na oposição a qualquer problema batia na porta do Supremo”. vozes interessadas em degradar o histórico julgamento da Ação Penal 470. Em suas palavras. no curso do qual se fizeram ouvir razões fortes em defesa da República e de suas instituições com uma ênfase desconhecida nos tempos presentes. passando pelos direitos das minorias — vide a decisão do STF sobre as relações homoafetivas —. p. acusam-no de fazer parte de mais um capítulo da judicialização da política. pois nessa versão é o STF que atenta contra a República. atribuiu a voga do processo da judicialização a uma autoria certa. dado que “serviria de contraponto aos grandes grupos que controlam o parlamento”. O senador José Sarney. especialmente na sociedade brasileira. o deputado Miro Teixeira. identifica que na raiz do fenômeno da judicialização estaria a “servidão voluntária” a que se teria sujeitado o Congresso Nacional ao Poder Executivo. indo ao cerne do problema. Com efeito. o PT que difundiu . é mais reflexivo. Foi. Nessas reações de dois políticos relevantes. de fato. e que estaria. no segundo pós-guerra. provando do seu veneno (O Globo. no desempenho da Alta Corte nas ações levadas a ela para a avaliação da constitucionalidade das leis. a que não faltam boas razões. conferindo à chamada judicialização da política um caráter positivo. no seu décimo mandato pelo Rio de Janeiro. o tema da judicialização da política é perturbador. 19/12). O refrão do bardo seria bem lembrado: chamem o ladrão. e. 38). Valor. quando se confronta com a decisão do legislador.

quem avassalou o Legislativo. educação e meio ambiente. não se furtando à sua judicialização. que. não fomos imunes. 2003). sob as novas circunstâncias do século. Politicizing Law”. Não estamos à beira do fim do mundo. e não a do insulamento. com frequência em associação com o Ministério Público. mas de um recomeço dele. tal como dá noticia a Ação Penal 470. o Judiciário como Terceiro Gigante nasce dessas grandes transformações (Juízes Legisladores?. cuja marca nova é a da colaboração.128 entre nós a agenda igualitária. Porto Alegre. como no caso das ações civis públicas em questões de saúde. para os fins dos seus propósitos partidários. 1993). e devemos reconhecer com John Forejohn. “é simplista demais restringir a política ao processo legislativo” (“Judicializing Politics. 41. a que. Como nas lições de Mauro Cappelletti. cientista político americano bem conhecido dos nossos acadêmicos. . Sergio Antonio Fabris Editor. assim como tem sido ele. Journal of Law and Contemporary Problems. evidentemente. inclusive no campo das relações entre os Poderes.

já consagram a Carta de 88 e o papel da Corte Suprema como seu guardião. mas que deixam boas lições para que se recuperem os fios dessa obra coletiva que tem sido a nossa História desde a democratização do País nos idos de 1985. como notório. ora em finalização. a sucessão municipal e a Ação Penal 470. a passagem do tipo de Direito Repressivo. 2010) — que agora completamos. para a aprovação do Senado Federal. um governo de leis. no Supremo Tribunal Federal (STF). podendo-se sustentar — tal como na modelagem da pequena obra-prima de Philippe Nonet e Philip Selznick. quase todos condenados a penas severas. por livre discrição da chefia do Poder Executivo sob comando do PT. de membros influentes da coalizão partidária governamental. Mas. pela mais alta Corte do Judiciário. a autonomia do Poder Judiciário experimentou o seu batismo de fogo. páginas viradas do nosso folhetim. sobretudo. a um poder político vitorioso em três sucessões presidenciais consecutivas. a sua efetiva eficácia. na esteira de um julgamento.129 Virar a página da Ação Penal 470 (25 nov. Os efeitos em cascata dessa decisão devem reforçar as instâncias de controle do poder. Nesse episódio. A melhor delas está na oportunidade para o pleno assentamento da República e de suas instituições. em razão da alta voltagem com que a opinião pública se envolveu no curso da longa tramitação do julgamento. quando que elas se impuseram. como o Ministério Público e os Tribunais de Contas. uma vez que. submetendo a julgamento e condenando vários dos seus dirigentes. Mas uma coisa é o caráter simbólico das leis e algo bem diverso. Sempre se pode tentar desqualificar o ineditismo dessa passagem com o fato de que é da tradição das nossas Constituições republicanas dispor sobre o princípio da autonomia do Judiciário. sendo. Direito e sociedade: a transição ao sistema jurídico responsivo (Editora Revan. diante de uma circunstância concreta e por fatos delituosos determinados. e não de homens. para o do Direito Autônomo. que oito dos seus magistrados foram selecionados.) Dois importantes processos da vida republicana. cabalmente. os juízes se detiveram nas suas repercussões sobre a concepção de República na forma que o poder extraordinário do . já são deixados para trás. bem para além de se manifestarem sobre um caso penal concreto. em que o direito se encontra subordinado aos fins do poder político. como agora. Rio de Janeiro.

foi um dos principais responsáveis por conceder vida a muitos dos seus novos institutos. Os sinais emitidos pela sucessão municipal. inequívocos em sua disposição farta de meios para que os fins da democratização social venham a ser atingidos pela via da República e de suas instituições. colonizada pelo poder da administração e do sistema econômico. se dissiparam no ar. um inimigo notório de intervenções judiciais no campo da política. dispensando atalhos. contrariamente ao que muitos sugerem. afinal. pela opinião pública. por sua vez. bem longe de uma chave moralista vazia de conteúdo. inclusive pela ação do PT — partido que. características dos tempos de fastígio do Welfare State (Estado de bem-estar social). recepcionadas. puseram em evidência que os canais e instrumentos da democracia política são aptos a conceder passagem às expectativas por mudança social. Em linguagem de Jürgen Habermas. o episódio que ora se encerra não guarda relação com o intrincado tema da judicialização da política.130 constituinte deu à luz. do tipo das Constituições programáticas. favoráveis a candidatos e partidos de programas orientados por agendas de políticas públicas socialmente inclusivas. qual seja nos procedimentos que garantam uma livre e igual competição política a fim de que a soberania popular não seja contaminada. Deve-se interpretar a firme defesa de princípios e valores que se fez ouvir do plenário do STF. foram. com frequência consorciado ao Ministério Público —. como a confirmação dos rumos traçados pelo constituinte. Os maus presságios sobre a Carta Magna. em boa parte. para brincar com as palavras. com seus resultados. com o processo da Ação Penal 470. fixou-se na salvaguarda do “núcleo dogmático” — uma expressão dele — de uma Constituição democrática. em que tantos identificaram mais um instrumento simbólico. ou pior. Nesse sentido. se já tinham sido infirmados de modo robusto pela prática política. tudo bem contado. A nossa Lei Maior e as suas instituições. . em particular os sombrios. o julgamento do Supremo Tribunal. na verdade. como o das ações de controle de constitucionalidade das leis e o das ações civis públicas. em que muitos pareciam estar presentes numa sessão do Senado Romano.

entre outros. partidos. sua esfera pública não saem iguais ao que eram antes dessa Ação Penal 470. Para o bem ou para o mal. como as de 1930 e de 1964. que. entre nós. embora nunca perca de vista seus objetivos de reprodução. A sociedade. versaram sobre o tema da soberania popular e da sua representação. mas ficou à vista de todos que já passou a hora da reforma de nossas instituições políticas. Decerto que não foi uma revolução. de criarmos partidos representativos da nossa rica vida social de hoje.131 Daí o paradoxo irônico desse julgamento. . nunca merece esse nome. que apenas mudaram para conservar o que já estava lá. e não essa coleção patética de siglas a nuclear em torno de si pequenos interesses paroquiais vivendo da política. é paradigmático —. membros de uma Corte não poucas vezes acusada de usurpar poderes do Legislativo — o caso do reconhecimento civil da união afetiva das relações homoeróticas. uma vez que as razões emitidas em seus votos pelos magistrados. seus três Poderes. nossa História não é amiga da ruptura. que teriam sido objeto de emasculação pelo poder político. que calaram mais fundo na opinião pública. material comburente dessa forma nefasta de presidencialismo de coalizão que nos governa sem alma e sem direção.

e vencer. Fernando Haddad. mas diz que ela quer a reeleição. em pleno processo de renovação de quadros de liderança. a sucessão municipal mostra. A seguir. concedida em um intervalo da sua participação no 36º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais. saltam aos olhos as motivações e ações que levaram ao grande escândalo que o país viveu a partir das declarações do Roberto Jefferson denunciando a existência de uma conspiração contra as instituições republicanas. 2012) O processo do mensalão e as eleições municipais que terminam no domingo estão associados para demonstrar que “é possível avançar [na democracia social] através dos procedimentos democráticos institucionais” e denunciar que “não há nenhuma Muralha da China entre a democracia social e a democracia política”. candidato em Campinas. à saciedade. e Marcio Pochmann. que vê na emergência de nomes como o candidato petista à Prefeitura de São Paulo. em 2010. o expresidente Luiz Inácio Lula da Silva. trechos da entrevista. a continuidade de um processo de renovação iniciado pelo próprio presidente de honra do partido. Praticamente encerrados os dois processos. sua sucessão na Presidência. não mais sujeita ao poder da Administração do Estado? São dois processos: o julgamento da Ação Penal 470 e as eleições municipais. Nesta entrevista. com remotas possibilidades de o governador de Pernambuco. 25 out. Enquanto isso.132 Julgamento levou PT a se modernizar (Valor Econômico. que é possível . mesmo com membros da sua cúpula julgados e condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). o PT deverá sair fortalecido das eleições municipais. em Águas de Lindoia (SP). São análises do sociólogo Luiz Werneck Vianna. E. No PT ele não crava se o nome será o da presidente Dilma ou do ex-presidente Lula. ao indicar o nome de Dilma Rousseff para disputar. professor e pesquisador da PUC-Rio. Eduardo Campos (PSB) lançar-se como uma terceira via. Werneck Vianna aponta para uma disputa entre o PT e o tucano Aécio Neves pela Presidência em 2014.(Chico Santos) Como preservar a conquista que o senhor vê no julgamento da Ação Penal 470 [mensalão] que seria o surgimento de uma nova República.

. a votação do porte que ele terá. se nós olharmos bem esse processo que está ocorrendo. as lideranças do PT. e que já teve no primeiro turno. embora houvesse sobre esse processo eleitoral a sombra do processo que tramitava no Supremo Tribunal Federal contra as lideranças partidárias.. O que a sucessão municipal demonstra é que os avanços podem até ser mais profundos e amplos se eles forem percebidos por meio dos canais democráticos. A quem veja nesse resultado que o Haddad está obtendo mais uma vitória pessoal do personagem Lula. Porque. com o pretexto. Denuncia de maneira solar que não há nenhuma Muralha da China entre a democracia social e a democracia política. não. vários observadores já apontaram isso. O resultado de São Paulo? A crer nas pesquisas. inclusive. denuncia como inepta a tentativa lá no começo da década de 2000. de se procurar se assenhorar dos controles da política por cima. pelas vias republicanas institucionais.133 avançar através dos procedimentos democráticos institucionais. Dois processos: um que nos seus inícios foi formulado no sentido de partir da ação do poder administrativo e do poder do dinheiro pra se assenhorar do poder legislativo. os desmandos que hoje estão em julgamento. Isso macularia de algum modo esse raciocínio que o senhor acaba de fazer? Não. Tem também o [candidato do PT] Marcio Pochmann em Campinas. que maquinaram essa tentativa de usurpação da vontade do poder soberano. A instituição... A tentativa de controle das instituições pelo dinheiro e pelo poder. Talvez a melhor indicação disso ainda esteja por vir. no caso o partido (PT) sobrevive a essa tentativa. mas o ponto é relevante. o [Fernando] Haddad ganha em São Paulo. traz uma mudança geracional. Mesmo que não haja a vitória do Haddad. Acho que não ficou ainda claro.. O PT sai dessa sucessão muito fortalecido. com a ideia implícita de que era para avançar mais no social.

as marcas de racionalização que ela vem procurando trazer ficaram muito claras a esta altura de dois anos de governo. Como se ele estivesse com isso anunciando o começo de um novo ciclo. o julgamento da Ação Penal 470.. mostra que algo mudou. uma caracterização do [sociólogo] Francisco de Oliveira. Evidentemente que são duas novas personalidades que irão atuar nesse jogo que não tem mais nada a ver com as velhas práticas de controle da vida sindical que levaram a essa confusão entre governo e sindicatos. já seria um embrião desse fenômeno que o senhor está apontando? Eu não quero estabelecer uma relação de causa e efeito. O que é um pouco misterioso porque. Mas os adversários podem dizer que se trata de uma esperteza de velha raposa. mas essa pesquisa precisa ser feita em todo o país: o que vem de novo nessa sucessão municipal. ela não é uma mulher da política.134 Dois quadros muito interessantes. ela mesma uma nova liderança. da gestão. Certamente a esperteza da velha raposa está presente. Isso precisa ser mais bem apurado. como Haddad e Pochmann. mas acho que alguma coisa na eleição dela já significava isso. E aí. principalmente as grandes lideranças políticas. e essa outra entra sob o impacto de dois extraordinários eventos. é uma mulher da administração. o primeiro foi a Lei da Ficha Limpa e o segundo. o que eu digo é o seguinte: embora haja um tom muito otimista nas coisas que estou falando e . Eu não estou querendo com isso insinuar que o Lula tenha tido plena consciência desse movimento e de no que isso importa. A Dilma. como Dilma. com condenação de praticamente todos os réus. Então. do PT e do governo [passado]. essas elites sindicais se apropriando de posições importantes no sistema de Estado. mas o fato de essa esperteza ter como resultado a mudança no sentido de opção por quadros mais modernos. quase uma nova classe.. Dilma. Nós lembramos aqui do Pochmann e do Haddad. Haddad e Pochmann foram escolhas pessoais do Lula. por exemplo.. Está saindo uma velha elite política e entrando outra. A própria eleição em 2010 da presidente Dilma Rousseff. O Haddad e o Pochmann foram alçados a um protagonismo político inesperado.. não sei se isso é propriamente verdadeiro. porque os sindicatos foram inteiramente absorvidos e apareceu até. perceba por favor. mas alguma coisa disso é.

Os temas regionais aparecem com eles muito fortemente. independentemente da intenção do Lula. denunciando a prática anterior. E o que nós estamos assistindo é a emergência de quadros com uma história muito regional. A percepção desses dois processos que eu mencionei. Aécio será candidato. herdeiros dinásticos de duas casas governantes. as circunstâncias econômicas lhe sendo desfavoráveis. por sua vez. esse país. o que mostra que o tema da democracia social pode avançar perfeitamente no limpo terreno republicano. Os dois. embora frequentemente oculte o fato. a de [Miguel] Arraes e a de Tancredo Neves. ele introduziu o novo. a significação do fato. da situação econômica do país. ele vai se alinhar à coalizão majoritária. E com nomes muito atentos à questão social. no interior do PT. Extrapolando para fora do PT. crescimento da economia. Como o senhor acha que esse quadro que se desenha agora irá reproduzir-se na eleição presidencial de 2014? Isso vai depender muito. de que haverá um aggiornamento aí. é uma Federação.. como o senhor analisa a afirmação de nomes como o do senador Aécio Neves (PSDB-MG) e do governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB) nesse processo de renovação? É a consolidação dessa moderna ordem burguesa brasileira que faz com que a sociedade torne-se cada vez mais complexa e diferenciada. acho que há sinais por dentro. é de que um movimento denuncia o erro do outro. Além do mais. Para consolidar uma posição nacional. e eu não sou o primeiro a dizer. O Eduardo Campos em Pernambuco e o Aécio Neves em Minas. as possibilidades do quadro posto [o PT no poder] permanecer são muito altas. a Ação Penal 470 e as eleições municipais. Com um andamento favorável na economia.135 analisando. isto é. Candidato em 2014 com vistas a 2018. O que mostra que as raízes fundas da expressão atual política deles.. Ou seja. O Eduardo Campos. Ele precisa sair de Minas. Em que posição? Terá forças para deslocar Michel Temer da vice-presidência? Muito difícil . especialmente o Pochmann.

no qual ele está se saindo muito bem agora em 2012. fica muito complicado. que é o Aécio. Ela vem sinalizando claramente que quer a reeleição. não na retórica explícita. mas na forma como se resguarda. São estratégias. calculando riscos. e essa questão não é minha. Ela se resguardou muito no processo da Ação Penal 470. Dilma ou Lula? O Lula pode se afeiçoar a esse papel de dirigente partidário. são cálculos cuja materialização vai depender das circunstâncias. não terá acesso a vice. A continuidade da judicialização da política é um obstáculo à instalação dessa nova república? . o Eduardo Campos. com a derrota dele [Serra]. imaginando que não ganha em 2014. Uma derrota domingo é o ocaso para José Serra (PSDB)? O Serra perdendo. jogando para 2018. como que dizendo: não tenho nada com isso. e ficar sem lugar até 2018. Liderança emergente no PSDB. Então. mas que em 2018 estará em situação de forte competição com Aécio. pela idade. supondo que a presidente Dilma se reeleja em 2014. o senhor foi muito claro ao dizer que não se deve confundir a Ação Penal 470 com a judicialização da política. Só para concluir esse assunto da Ação Penal: na segunda-feira. O senhor acha que a presidente Dilma não se rebelaria contra um desejo dele de se candidatar? Rebelar. Agora. lançar-se como uma terceira via. é o Aécio. Resistir acho que ela está resistindo da forma que lhe é possível. se lançar nacionalmente. o senhor imagina que o Lula queira retornar? Não. O que ele vai fazer? Não sei. Ele pode ainda. seu rival imediato. De terceira força ele pode passar a segunda em 2018.136 porque a essa altura o PMDB já deu seguras manifestações de que a âncora verdadeira dessa política é ele. a meu ver. é de todos: quem é o candidato do PT em 2014. ver seu antagonista. É um movimento de alto risco. Ele tem um movimento de alto risco: pode ficar fora da vicepresidência. não. a questão para mim é outra. durante o debate sobre a conjuntura econômica aqui na Anpocs.

Com que intenção isso foi feito lá atrás? Tutelar e controlar a sociedade.137 Não. como assegurar a reforma política. obstáculo não. essa marca ficou. que é uma marca da modernização burguesa brasileira Justiça do Trabalho [anos 1930/1940]. Como fazer para preservar essa consagração da Carta que o senhor apontou. . É o legislador que tem que operar no sentido de tornar nossa legislação eleitoral mais adaptada às nossas circunstâncias. Agora. O julgamento da Ação Penal 470 foi uma vitória da Carta de 1988. E o Congresso Nacional está à altura dessa tarefa? Vai ser obrigado a ficar. esse teme mereceria uma outra entrevista. chamando a atenção do legislador para a urgência da reforma política. A presença do Judiciário na cena política. Olhe.. mas vou democratizar as suas funções. Justiça Eleitoral [anos 1930]. por exemplo? Essa é a hora do legislador.. O que a Carta [Constitucional] de 1988 disse foi o seguinte: eu vou preservar esse Judiciário que vem da tradição autoritária brasileira. porque o impacto do julgamento da Ação Penal 470 foi exatamente no sentido de produzir resultados nessa direção.

velha conhecida —. O julgamento da Ação Penal 470 no Supremo Tribunal Federal (STF) — que se investiu da pesada toga de um Senado romano desde a leitura em plenário do introito à denúncia do procurador-geral da República — pretendeu ser um julgamento político da História de uma sociedade submetida à discrição do poder político da administração. de uma cultura pluralista e de um enérgico sistema produtivo. incontornável na cena contemporânea. a partir de uma vida associativa e de partidos políticos que extraiam sua seiva de um mundo da vida descontaminado do poder administrativo e do poder sistêmico da economia. privilegiou a perspectiva da esfera pública. Estamos. que tardam em se fazer reconhecer. somente o foi ao alto preço de ter sacrificado em favor dela o moderno e os seus valores. em nome dos valores e das instituições consagradas na Carta Magna de 1988. na nova margem em que nos encontramos. ainda envoltos na névoa deixada por décadas de surtos de modernização. a hipoteca que nos deixou é a de uma sociedade rebaixada diante do Estado e enredada em suas malhas. O passado. em pleno território da República — não mais a de fachada. tal qual o conhecemos. identificando a . foi eficaz em nos trazer a modernização. por maiores que tenham sido os seus méritos na construção da identidade nacional. de Jürgen Habermas. a esta altura do século. os atentados ao sistema de representação política e aos procedimentos democráticos.) O Rubicão foi atravessado à vista de todos e. O nome próprio do moderno é o da autonomia que se exprime no exercício da livre manifestação de vontade da cidadania.138 A República e a Ação Penal 470 (17 out. mas sempre sob a lógica afeita aos principados a exercitar verticalmente sua vontade sobre uma sociedade como base passiva. para usar a linguagem. agora. não deve mais iluminar o futuro. pois. nesse sentido. Se ele. não há mais caminho de volta. sem se limitar à avaliação de comportamentos ilícitos na esfera da vida privada — os personagens dos bancos e das empresas envolvidas —. cada qual em estilo adequado às conjunturas que os viram nascer. O Supremo Tribunal Federal. compelidos a devassar uma terra ignota. sem dúvida.

por definição. delitos cometidos contra a República e suas instituições. visando a realizar seus interesses e valores. em que personagens clássicos da Roma republicana foram evocados. não há uma Muralha da China a separar a democracia social da democracia política. tendo em vista guarnecer a todos com um direito igual em suas manifestações de vontade — “núcleo dogmático” de validade universal nos sistemas jurídicos das modernas democracias ocidentais —. Em alguns votos contundentes. execrando a tentativa de colonização da representação popular por parte da administração e do poder do dinheiro. deixa no vazio as insinuações de que essa Ação Penal 470 seria mais um episódio da judicialização da política entre nós. A fixação dos votos dos ministros do STF no tema dos procedimentos. Provavelmente.139 necessidade de limpeza dos filtros que levam a essa esfera a manifestação de vontade do cidadão. em particular a modalidade sui generis com que aqui se pratica o presidencialismo de coalizão. O seminário com público de massas em que se converteu o julgamento da Ação Penal 470. que se amplifica com as poderosas mudanças sociais de que o País é hoje um laboratório aberto. que. E não poucos mencionaram a Lei da Ficha Limpa — na origem. A democracia de massas. não pode desconhecer a República e as suas instituições. ministros da Suprema Corte demonstravam estar conscientes de que anunciavam um novo começo para a democracia brasileira sob a égide de uma ética republicana. ecoaram nesse tribunal os argumentos de maior alcance pedagógico já registrado entre nós em favor da democracia representativa. Vale dizer. expôs a nu as fragilidades do sistema político vigente. sindicatos e organizações sociais que nela atuem. considerada como bem maior a ser defendido. sob pena de se ver dominada pelos interesses políticos e sistêmicos estabelecidos. partidos. indiferente a programas políticos e cruamente orientado para ações estratégicas com vista à conquista do voto e à reprodução eleitoral das legendas coligadas. desde que essa esteja aberta a uma competição que não crie obstáculos às legítimas pretensões dos agentes. uma lei de iniciativa popular — como instrumento de proteção ao sistema da representação política. No mais. gravita em torno de matéria substantiva. por sua vez. Nesse .

entre os quais o que prevê financiamento público das campanhas eleitorais e a extinção das coalizões partidárias nas eleições proporcionais. Nada de novo no diagnóstico. . para cujos males há remédios conhecidos em vários bons projetos em andamento no Parlamento. Por causa da natureza fragmentária do quadro partidário e da dispersão dos votos dela resultante. O cimento notório dessas coligações deriva do loteamento entre elas de posições no interior da administração pública. a reter insulado o cerne do programa com que foi eleito — que nunca sai ileso dessa operação — e a facultar o acesso à máquina estatal e às suas agências a aliados de ocasião com o objetivo de obter maioria parlamentar. o governante vê-se tangido. e desde Maquiavel se sabe que as Repúblicas que fizeram História começaram com a ação virtuosa de um legislador. tornando-a vulnerável às pressões privatistas exercidas em favor de financiadores de campanhas e de apoiadores políticos. em nome da governabilidade. quando passam a ser criaturas dele. O laissez-faire em política não é menos deletério do que em economia.140 processo. os partidos migram da órbita da sociedade civil para a do Estado.

é de origem distinta. inclusive de carreiras estratégicas de Estado. Contudo. Nada de trivial nessa constatação. o clamor que tem vindo das ruas. Datam essas razões. agora. contra ou em defesa de algumas lideranças de um partido à testa do governo há quase dez anos. esse sinal lisonjeiro não pode eclipsar um diagnóstico perturbador. longe disso. imaginasse que o tempo do julgamento dessa Ação Penal 470 jamais chegaria. em algum grau.141 O “mensalão” e o prático inerte sartriano (24 set. se tornou evidente. pois procede de movimentos prosaicos dos servidores públicos. conquistada em nome de agendas igualitárias nascidas no campo da esquerda. o julgamento do núcleo político que teria sido o ideador da operação dos malfeitos contra a administração pública e instituições republicanas —.) Não andaria com a cabeça nas nuvens quem. uma vez que o silêncio das ruas estampa a distância existente entre a política e a população. faltando ainda o principal — qual seja. em torno de questões salariais. meses atrás. caso coincidisse com o período das eleições municipais. supunham outros. . que a todos. ora levadas às barras de um tribunal. As razões dessa distância também não são triviais. ele próprio inerme diante da situação. embora. Mas. ora reduzida à posição de mera observadora do andamento de um processo que expõe à vista de todos práticas de malfeitos de alguns dos dirigentes do partido hegemônico na coalizão governamental. E se chegasse. Se ela. igualmente deve obrigar. algo disso possa estar-se fazendo presente. das cruciais opções assumidas pelo Partido dos Trabalhadores (PT) imediatamente após sua vitória eleitoral em 2002. uma vez que ela pode significar um processo de amadurecimento das instituições da nossa democracia política no exercício do controle do poder político e no culto republicano de obediência e respeito às leis. traria consigo um clima de exasperação da política e de ruas efervescentes pela participação popular. governantes e governados. se avaliado de uma perspectiva com foco mais reduzido. até o momento. suas origens são remotas e não podem ser buscadas exclusivamente numa repentina conversão da multidão às regras do jogo democrático e a uma atitude de reverência diante da autonomia do Poder Judiciário.

quando não estatalizados tout court. seriam postos sob a influência de agências estatais. quase todos legendas de baixa densidade programática. convertendo-se a política num quase monopólio da chefia do Executivo. uma significativa incorporação ao mundo dos direitos de parcelas da população até então à sua margem. certamente exótico ao campo da esquerda. quando suas ações eram pautadas pelas legendas partidárias. tendo. a sociedade viveu mais um ciclo de modernização econômica. que importava a mobilização dos movimentos sociais. Mas a sociedade que emerge desse . de fato. foi gestada no interior e a partir dessa decisão política de perseguir objetivos de mudança social desancorada de uma ativa esfera pública democrática. revestindo a sociedade do estatuto do prático inerte de que falava JeanPaul Sartre. seu programa de mudanças. pela ação afirmativa de políticas públicas conduzidas pelo Estado. tangidos a ela com a expectativa de extrair recursos públicos para sua reprodução eleitoral. tornava-se dependente de uma coalizão estranha ou indiferente à agenda política que o tinha conduzido à vitória eleitoral. encontrou seu coroamento na política de massificação da política social com os programas assistenciais. massa passiva a ser conduzida por uma inteligência posta acima dela. agremiação partidária congressualmente majoritária. para os quais a conquista de posições fortes na administração pública era a chave para o atendimento de suas clientelas locais. e contrariamente à opinião de importantes próceres do PT. Como um prático inerte. enquanto ao Executivo. fortemente aparentado com os ciclos que se sucederam a partir dos anos 1930. salvo nos períodos eleitorais. aliás. o mensalão. preterida em favor de uma coalizão com partidos de menor representação. além de contingenciado pelas reservas da época quanto à sua capacidade de garantir a estabilidade financeira — pedra de toque da conjuntura do primeiro governo Lula —. experimentado. que logo. politicamente imobilizada. esse partido se recusou a enveredar por uma via de aliança com o PMDB. Tal cálculo político.142 Nessa hora. Aos partidos dessa bizarra coalizão presidencial. pelas vias decisionistas do direito administrativo. caberia realizar a agenda de mudanças avaliada como compatível com as circunstâncias. fundamentalmente preocupados com a reprodução política dos seus quadros dirigentes. caberia conceder apoio parlamentar às iniciativas governamentais. Assim. A matéria bruta da Ação Penal 470.

se conhece a modernização. 2010). Filha de um tipo particular de revolução passiva. ambas sáfaras à floração de uma cultura política democrática: a da restauração do poder político das oligarquias tradicionais. assim como aí estão os ecos na política dos cultos religiosos centrados na ideologia da prosperidade. na forma tão bem caracterizada pelo sociólogo Francisco de Oliveira em seu ensaio Hegemonia às avessas (São Paulo. Com esse quadro. a sociedade que dela resulta traz em si duas marcas negativas. não é de espantar que a política pareça ter migrado para o mundo fechado dos tribunais. Boitempo.143 experimento de mudança por cima. numa versão chapada e imune à política. às quais se propiciaram os meios para a preservação do seu domínio local. e a valorização sans phrase da dimensão do interesse. não irrompe para o moderno. . Os sobrenomes e a genealogia de tantos envolvidos na presente sucessão municipal testemunham isso.

conhecida como o processo do mensalão. a sensação de que o Judiciário tomou para si o lugar da política é também filha de uma ilusão de perspectiva. alguns deles notoriamente jejunos no tema. brindam-nos pelas redes midiáticas com opiniões sobre o justo. para a atribuição de culpas e penas ou de eventuais absolvições por parte dos juízes devem se circunscrever aos cânones legais e à tradição hermenêutica do nosso repertório jurídico. Jornalistas. os mais temerários. e as razões.) Talvez não seja assim tão abstruso em razão da História que temos. nos dias que correm. Mas alegorias são figuras de linguagem que se prestam a revelar o que se oculta por detrás das aparências imediatas. como a da caverna de Platão. se transformou num imenso tribunal. cunhadas pela Carta de 1988. A terra de bacharéis — qualificação pejorativa de que parecíamos ter-nos livrado com nossos ciclos impetuosos de modernização — parece ter ganho vida nova. porque ele não sobe em árvore. o Ministério Público. e com o rebaixamento generalizado dos partidos políticos ao papel de despachantes de interesses privados. mas o fato é que o Brasil. com os comentaristas especializados nas artes da processualística e nas manhas das contendas judiciais já rivalizando em importância com o colunismo dedicado ao futebol. uma instituição republicana. e não ela própria. somente podiam ver as sombras da realidade. a se crer pelos rios de tinta derramados diariamente em nossa imprensa.º 470. especialmente em matéria penal. no caso em tela. sobre papel a ser exercido pelo clamor popular em julgamentos de grande repercussão. na imagem que criou. ora em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF).144 A Ação Penal 470 e o Brasil que vem aí (18 ago. sobre a validade das provas em matéria penal e até. No caso do processo do mensalão. mobilizada pelo filósofo para demonstrar que os homens prisioneiros da caverna. como presentemente nessa Ação Penal n. . Com a política recalcada por uma cooptação sem freios dos movimentos sociais exercida pelo Estado e seus múltiplos aparelhos. foram as novas instituições de nossa democracia. o Judiciário passou a ser conhecido pela sociedade como a alegoria da República que lhe falta. O que está em julgamento são atos denunciados como ilícitos penais por quem detém a capacidade legítima para tal. Quem colocou o jabuti nos galhos do STF.

Decerto ser improvável que Dilma. ao menos até aqui. De outra parte. no estrito cumprimento do seu mandato constitucional. um transcurso ordenado para o andamento do processo. até há pouco considerado como o demiurgo do que deveria ser nosso salto à frente. no enfrentamento com o sindicalismo do setor público. deve migrar para o setor privado. ofereça à sociedade um julgamento sereno e justo. um esteio seguro dos governos de Lula. casos fortes o posicionamento do PSB no Recife e em Belo Horizonte. se deixe tentar pelo estilo draconiano de uma Margaret Thatcher e venha a . ora em curso. alguns deles prementes. Nesse sentido. que acorreu em revoada ao Palácio do Planalto para bater o martelo em grandes negócios. simpática às hostes petistas e rechaçada pelas outras centrais sindicais. O que cabe. e com a dissidência que se instala no sindicalismo em geral sobre a reforma da legislação trabalhista. rotulam a guinada de “choque de capitalismo”. têm sido elas que vêm garantindo. descerra-se um cenário novo com seus desafios. nesta última capital em aliança com o PSDB. que procura responder a ela com um arsenal de medidas exóticas à tradicional orientação. O Estado. sai em surdina. em tom de falsete. tem atuado no sentido de afetar a coalizão governamental. é que se ponha à altura da grave circunstância à sua frente e. a esta altura com seu candidato Aécio Neves já em trabalhos para disputar a Presidência da República. do partido ao qual pertence. Desanuviada do ambiente essa carga sombria. em matéria econômica. que deixe definitivamente para trás essa história mal-assombrada que vem toldando a percepção do efetivo estado de coisas da Nação. acérrimo adversário do PT. e não faltam aqueles que. o processo eleitoral nas sucessões municipais. porque a alavancagem para o crescimento econômico. que não para de mudar. e se espera dele. O cenário ainda mais se complica com a movimentação massiva do sindicalismo dos funcionários públicos. A crise sistêmica do capitalismo como sistema mundial ronda as nossas portas em meio da segunda metade do governo Dilma. A controvérsia semântica sobre a diferença entre política de concessões e de privatização não passa de uma chinesice que não engana o empresariado. espinha dorsal da sua base de sustentação. não cabe travestir o STF do papel salvífico de herói institucional.145 Mais que tudo. em que pese o fato de alguns réus serem lideranças influentes do partido hegemônico na coalizão governamental. por decisão presidencial.

Mas é igualmente improvável. Para o bem ou para o mal. E ela era datada. . deixadas para trás as que o serviram quando iniciou sua feliz trajetória. que reedite a política do seu antecessor. na de JK e no regime militar de Geisel. uma colagem de referências de tempos vividos na modernização de Vargas. missão tão difícil quanto a de devolver ao tubo a pasta de dente que se extraiu dela. Não se pode acusar Dilma de infidelidade a seu mentor. concedendo os aumentos na escala pleiteada a fim de devolvê-lo ao redil. essa também será a hora da plenitude da sua investidura presidencial. pouco venturosa. ela é piloto de mar ignoto.146 enfrentá-lo com mão de ferro. diante da dura contingência a que está exposta. a carta de navegação que serviu a Lula perdeu seus préstimos. com a economia desencontrada do caminho para crescer. logo que chegue ao fim o processo do mensalão.

2012) Na visão do sociólogo Werneck Vianna. A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan. Na entrevista que concedeu por telefone para a IHU On-Line. leia a obra Uma sociologia indignada. já têm uma certa história. Isso certamente não oferece um bom cenário para a democracia política brasileira”. Diálogos com Luiz Werneck Vianna. a ampla maioria que hoje o chefe do Executivo tem conseguido lograr no Legislativo tem dado estabilidade à política brasileira. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo. 2012) (Graziela Wolfart). Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na PUC-Rio. a descoberta. Que espécie de política se desenha em nosso país a partir das alianças que vêm sendo feitas em nome da busca pelo poder? Nossa forma não programática de alianças. onde todos cabem e onde tudo cabe”. desde a economia e a política até a sociedade. E constata: “estamos vivendo um momento em que os efeitos dessa política de presidencialismo de coalizão começam a se tornar cada vez mais complicados”. Sobre seu pensamento. entre outros. A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan. um salto. o risco. e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG. esbarram nessa larguíssima coalizão que atinge várias dimensões. “Mas é uma estabilidade que não faculta a aventura. 2002). Certas reformas muito necessárias para que o país dê um avanço. organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. que são feitas por meros interesses eleitorais — como o tempo de televisão —. que é obrigado a respeitar os limites dados por essa amplíssima base governamental. Ele está voltado para uma grande competição eleitoral.147 As alianças na política brasileira (IHU On-Line. Os ventos cruzados que se estabelecem no interior da coalizão governamental fazem com que haja um comportamento paquidérmico do governo. UFJF. 1997). a inovação. não é um quadro que favoreça a limpeza e a firmeza de identidade. O presidencialismo de . Werneck afirma que o sistema partidário brasileiro “não foi feito para que a sociedade encontre formas expressivas de se incluir no mundo da política. é autor de. ago. 1999). Ele está feito para expressar interesses e diferenças regionais.

Os ventos cruzados que se estabelecem no interior da coalizão governamental fazem com que haja um comportamento paquidérmico do governo. Na verdade. Aliás. Certas reformas muito necessárias para que o país dê um avanço. em tese é aceitável. essas alianças não são feitas para que uma determinada orientação seja posta em prática. desde que essa política foi sendo vitoriosa. mas é difícil digerir o apoio de Paulo Maluf à candidatura do PT.148 coalizão tem tido essa característica entre nós. ao fato de ele vir de um partido minoritário e não ter sabido compor uma base congressual. olhando de outro ângulo. desde a economia e a política até a sociedade. esse espantalho vem dominando o presidencialismo brasileiro. Hoje a queda é atribuída. em boa parte de modo verdadeiro. Mas é uma estabilidade que não faculta a aventura. e que não dão nenhum bônus. É evidente que essas alianças. mas apenas para garantir maioria parlamentar para o governante. Os partidos já são naturalmente enfraquecidos por uma série de circunstâncias sociais que não são atuantes apenas aqui no Brasil. Mas o fato é que ele tomou essa característica desde o governo Fernando Henrique Cardoso. esbarram nessa larguíssima coalizão. que é obrigado a respeitar os limites dados por essa amplíssima base governamental. ou um determinado programa se viabilize. Esse é o lado nefasto. afetam a identidade partidária. um salto. onde todos cabem e onde tudo cabe. caíram todas as reservas. formando-se um campo aberto de troca. especialmente a partir do segundo mandato do presidente Lula. porque não necessariamente ele deve ser tão arbitrário quanto à orientação programática. Ao longo dos mandatos do PT. por causa do histórico de oposição entre eles e pela história pessoal de Maluf. mas com essas acrobacias se tornam ainda mais vulneráveis. porque as alianças têm sido desencontradas. O fato é que. que não é muito recomendável. São empates que se sucedem e que têm um consenso muito difícil. não dão agilidade e limitam a capacidade de uma nação em um momento em que inovar é fundamental. isso tomou uma proporção imensa. todas as prudências. o tema da maioria parlamentar se tornou um espantalho desde o impeachment do governo Collor. essa ampla maioria que hoje o chefe do Executivo tem conseguido lograr no Legislativo tem dado estabilidade à política brasileira. Por exemplo. que atinge várias dimensões. a inovação. É preciso mudar o repertório da política que está anacrônico já há algum tempo. essa base larga. É possível governar sem alianças políticas em um regime democrático? . o risco. A partir daí. No entanto. a descoberta. por outro lado.

Mesmo que não fosse um programa explícito. E do outro lado teremos o DEM e outros que de memória não consigo recuperar. pensar que uma tendência ou partido. não é um quadro que favoreça a limpeza e a firmeza de identidade. Esse sistema partidário não foi feito para que a sociedade encontre formas expressivas de se incluir no mundo da política.. que entra no campo doutrinário do socialismo. porque. que também se fazem presentes. Num campo teremos o PT. o PSOL. O senhor poderia fazer uma breve análise do atual quadro partidário brasileiro? Não é fácil. e teremos o PSB. dado esse empate entre as forças políticas que têm orientação desencontrada.. Temos partidos que agregam os evangélicos. Essa linha ideológica se mostra inoperante para recortar o quadro atual. esse poder se sente compelido a agir por sua própria orientação. O que temos é agregação de interesses. de velho tipo. de que a partir de um Executivo forte é possível reformar e reestruturar o país. os ruralistas e as corporações. Ele está feito para expressar interesses e diferenças regionais. como a brasileira. Isso certamente não oferece um . cujo efeito é o de estimular o decisionismo do Executivo. vertical. Essa experiência foi feita também por Jânio Quadros antes de 1964. isso se formos tomar o que é dito e não o que é praticado. mas um programa que tivesse certa abrangência. tentando produzir resultados quase autocraticamente. o PPS de certo modo. o PCdoB.149 As alianças são absolutamente necessárias. Não posso esquecer de mencionar o PDT. O problema está nos limites dessas alianças. que tem até o socialismo no nome. Elas invadem a vida partidária. Se formos tentar trabalhar a partir da clivagem mais ideológica. Quanto a isso não resta nenhuma dúvida. que governou sem uma base forte de sustentação e isso o levou à crise e à renúncia. Este é um efeito muito negativo dessa construção. teremos os partidos de orientação socialista e os partidos de orientação liberalburguesa. Ele está voltado para uma grande competição eleitoral. através desse sistema decisionista. Em uma sociedade plural. ou apenas um sistema de orientação dará cabo dos problemas existentes é cair na ilusão. que pudesse admitir parceiros com identidades diversas e que pudesse ser revisado. e não essa “feira” ideológico-político-partidária em que nos encontramos. mesma ilusão que o Collor teve. Certamente. O limite deveria ser o programa.

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bom cenário para a democracia política brasileira. Por outro lado, tudo o que existe em
nossa sociedade encontra formas de expressão na vida política partidária, o que é uma
dimensão saudável. No entanto, isso cria um quebra-cabeça de enorme dificuldade. O
presidencialismo de coalizão é uma resposta a isso: é criar certa unidade a partir deste
mundo extremamente fragmentário. O problema é que só quem pode estabelecer essa
unidade é o Executivo, o que faz com que esse quadro, que é aparentemente ameno e
afável de expressão da diversidade existente na sociedade brasileira, contenha
elementos autoritários, que favorecem a ação do Executivo, porque só ela é capaz de
cimentar e soldar essa multiplicidade de identidades e interesses. Diga-se de passagem
que o presidente Lula demonstrou um enorme tirocínio e habilidade em trabalhar diante
desse cenário, tirando proveito desse quadro político e colocando-o a seu favor. Essa
solda, esse cimento que ele soube instituir não é uma arte de fácil transferência. Essa era
uma das características dele, pela sua capacidade de articulação que veio do seu
treinamento no mundo sindical. Com a Dilma temos outro quadro na mesma política.
Ela imprime outra administração, de alta burocracia do mundo da gestão, o que não quer
dizer que ela seja indiferente à política. E não é. Mas ela não tem nem o mesmo gosto,
nem o mesmo treino. Além do mais, “o Natal mudou”. O mundo já não é mais aquele
de cinco anos atrás. A gravidade da crise econômica atesta isso. A necessidade de se
fazer algumas reformas, como a reforma da legislação trabalhista, está se tornando cada
vez mais imperativa. No entanto, a coalizão governamental que conhecemos é muito
pouco permeável a uma reforma como essa. Basta pensar no PCdoB, que reage a essa
reforma, ou no PDT, que é o partido do ex-governador Brizola. É um conjunto de forças
que, dentro da coalizão governamental, reage a essa reforma, que parece ser cada vez
mais inadiável. Outra questão é esse sistema altamente sensível da previdência. O fator
previdenciário que o governo tenta extinguir por medidas de saneamento fiscal, em
função da crise que já se abate sobre nós e que tende a se aprofundar, não encontra
apoio na sua base governamental, inclusive no próprio PT. Estamos vivendo um
momento em que os efeitos dessa política de presidencialismo de coalizão começam a
se tornar cada vez mais complicados. Não só porque falta o Lula. Mesmo com ele esse
quadro, que agora se exerce sobre a presidente Dilma, estaria presente.
Quais são os cenários possíveis de mudança nos próximos anos, levando em conta que,
apesar de todas as fragilidades e incongruências, permitiu-se que vivamos o maior
período de regime democrático?

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A democracia política tende a se aprofundar. Por exemplo, no julgamento do chamado
processo do mensalão foram levados a tribunal líderes políticos do partido hegemônico
da coalizão governamental. Não há registro na nossa história dessa autonomia das
instituições, em que o judiciário, com independência do poder político, obedece aos
procedimentos e leva a julgamento pessoas ligadas ao vértice do sistema de poder. Esse
é um sinal. Não importa o resultado do julgamento, importa ver essas pessoas lá no
tribunal, onde a questão é técnico-jurídica. Do ponto de vista político, importa que
personalidades e figuras participantes do poder vão a julgamento e a sociedade participa
desse processo apenas como observadora, como comentarista, sem que haja nenhuma
comoção maior nas ruas. Não há nenhum assédio físico no Supremo Tribunal Federal.
Isso é uma novidade, um avanço extraordinário das nossas instituições. Além disso,
registre-se que, desde agora, com as eleições municipais, as fraturas desse sistema estão
mais do que denunciadas. Basta ver o processo eleitoral em Fortaleza, no Ceará; em
Recife, em Pernambuco; e em Belo Horizonte, Minas Gerais. Isso para mencionar
apenas casos muito fortes, em que se observa que a coalizão governamental não
consegue operar da mesma forma que estava acostumada, isto é, impondo ao local, ao
municipal o seu programa de ação política. Isso mostra como a maturação da sociedade
está pondo em xeque essa forma verticalizada de administração da política, que é o
presidencialismo de coalizão. Tudo isso é muito favorável à vida democrática. O que se
pode arguir é que é difícil construir um quadro político mais ordenado com essa
pluralidade de partidos ou pelo menos com essa legislação que permite a partidos sem
nenhuma expressividade terem acesso aos recursos do fundo partidário, ao tempo de
televisão, dando a eles um poder de troca que, na verdade, favorece apenas às
oligarquias que comandam as suas legendas. Estamos, por ora, condenados a fazer
política num cenário em que as linhas de força vão todas no sentido da fragmentação e
que a unificação disso depende de uma ação externa, que é o governo. Então, fica essa
marca autoritária, da dominação da dimensão vertical sobre a horizontal, que só uma
reforma adicional pode dar conta. De modo que temos que aprender a trabalhar com
esse quadro e superar as dificuldades que ele impõe à política. É um quadro caótico que
só faz sentido no fim. Só o resultado da ação faz sentido, porque não faz sentido na
articulação de cada parte, pois cada uma entra nisso pelo seu motivo particular. Isso dá
um mapa desencontrado, que só pode fazer algum sentido por uma ação externa, de um

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outro, superposto a esses interesses desencontrados, que consegue estabelecer uma linha
em que todos possam ser minimamente atendidos.
Na política brasileira hoje quem é antagonista de quem?
Há antagonismos, mas nem sempre com a lógica do amigo e inimigo. Há uma lógica
“adversarial”, mais do que de confronto, que vise levar à eliminação de um polo. Nós
temos mais lutas agônicas do que lutas antagônicas. A política está se tornando, entre
nós, mais um campo adversarial. Inclusive porque os dois principais partidos políticos
brasileiros — PT e PSDB — têm muitas afinidades de fundo. Ambos estão com as
raízes fincadas na social-democracia.
Em entrevista concedida a nossa revista em março deste ano, o senhor apostava no
ressurgimento da política nos próximos anos com muita força, apontando que “não há
mais possibilidade de segurar a sociedade com esse jogo de manter os contrários em
permanente equilíbrio” . Como avalia essa declaração hoje, quatro meses depois?
Confirmo-a inteiramente. Só que, quando me refiro aos “contrários”, não falo das
concepções antagônicas do mundo como, por exemplo, concepções socialistas e
concepções liberal-capitalistas. Eu estava me referindo a interesses. O que eu estava
dizendo é que o governo Lula foi capaz de trazer para o seu interior múltiplos interesses
divergentes como a agricultura familiar e o agronegócio. Eu dizia que essa operação
tinha um prazo de validade e que no governo Dilma tenderia a se derruir. E vejo que
está se derruindo diante dos nossos olhos. Nós podemos dizer que a política volta agora
de forma muito clara. As eleições municipais estão deixando isso manifesto. A
pluralidade da sociedade está procurando formas expressivas como independência dessa
forma política do presidencialismo de coalizão.
Qual é o balanço que o senhor faz do governo Dilma Rousseff? Algo ameaça uma
possível reeleição da presidente?
Essa é uma questão muito delicada e perturbadora para o cenário político atual. Nós
estamos diante de um quadro em que há uma dualidade de representação. Quem detém,
de fato, o poder: o governo ou o seu partido e a coalização que esse partido montou?

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Qual o papel aí do ex-presidente Lula como que representando o poder real, afastado
por circunstâncias do calendário eleitoral, mas para o qual se espera uma volta triunfal
em 2014? Esse é um quadro que cria muita instabilidade. Os movimentos e os partidos
devem calcar a sua orientação pelo governo Dilma ou pela expectativa do retorno
“sebastianista” do ex-presidente Lula? Isso tudo, essa dualidade, afeta o quadro atual,
introduz nele elementos de instabilidade e tira força e capacidade de coesão dessa forma
de presidencialismo de coalizão ao qual fomos acostumados nos dois governos de Lula.
Essa é uma ambiguidade que atua de forma escondida na cena atual e não favorece o
assentamento das forças políticas atuantes. O próprio partido hegemônico, o PT, se
questiona a quem obedecer: ao governo ou ao seu líder maior, apenas contingentemente
fora do governo, mas que logo voltará a ele? E Dilma poderá ou deverá se afirmar uma
liderança nova, o que significa candidatar-se à reeleição desde agora? As incertezas
quanto a isso favorecem a perda de controle que hoje está estabelecida por parte do
centro do poder político sobre a sociedade e as forças políticas envolvidas.
O senhor acredita na volta de Lula à presidência em 2014? Dilma cederia espaço para
ele?
É difícil prever. O fato é que não faz bem ao governo dela, agora, abdicar da reeleição.
Ela precisa do horizonte da reeleição para ter mais força hoje, especialmente em um
momento em que o país está na iminência de viver perturbações derivadas da situação
econômica. Nesse sentido, deverão existir forças orientadas a robustecer Dilma agora
porque é preciso um presidente forte na hora da crise. E um presidente forte agora
significa um presidente que vai lutar para a reeleição. Se isso viola o sistema de
lealdades de Dilma com Lula é difícil de dizer, pois é uma questão subjetiva. No
entanto, do ponto de vista da situação presente, o fato é que o país vive a necessidade de
uma presidência forte por causa da crise.
O que há de nacional na sucessão municipal (22 jul.)
De toda parte surgem sinais que testemunham a existência de vida ativa na política
brasileira em busca de mudanças e de novos repertórios. Os mais visíveis são os que
apontam para o processo terminal de passagem, após longa e penosa maturação, da
nossa vetusta tradição de principado para a República, exemplar na autonomia com que

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a sociedade e as suas instituições jurídico-políticas se vêm conduzindo diante do poder
político no chamado processo do mensalão, que leva a julgamento altos dirigentes do
partido hegemônico na coalizão governamental.
Em outro registro, mas igualmente importante, já se pode constatar, no processo em
curso das eleições municipais, que a pluralidade efetiva reinante na sociedade vem
encontrando seus caminhos ao largo do dirigismo com que a fórmula do
presidencialismo de coalizão, com seu estilo centralizador e vertical, tem esterilizado a
prática política no País.
Não à toa, tal pluralidade, como é da tradição brasileira, se afirma melhor quando é
escorada em questões federativas, como se verifica nos Estados de Pernambuco e de
Minas Gerais, onde o PSB, um antigo esteio das candidaturas presidenciais do PT, se
apresenta na competição eleitoral, que ora se abre, com candidaturas forjadas à margem
do vértice que articula o sistema do presidencialismo de coalizão — em Minas Gerais,
em aliança inusitada com o PSDB, partido de oposição.
No caso, são relevantes tanto o fato de o governador Eduardo Campos (PSB-PE) como
o senador Aécio Neves (PSDB-MG) serem políticos com luz própria, netos e herdeiros
de robusto capital político — de Miguel Arraes, o primeiro, e de Tancredo Neves, o
segundo —, quanto o de serem aspirantes declarados à Presidência da República; Aécio
na próxima sucessão e Campos logo que puder.
Não importa a nomenclatura, essas duas eleições (em Minas e em Pernambuco), atrás da
singela fachada de locais, são, a rigor, nacionais, como o será, por definição, a da
Prefeitura da capital de São Paulo, além de apontarem para o fato sensível de que se está
diante de uma troca de gerações na política brasileira. A política — durante tanto tempo
um monopólio, em estado prático, do vértice da coalizão presidencial com o expresidente Lula como o seu principal articulador — dá mostra, afinal, de que se
descentra, com a emergência de focos de formação de vontade com origem em outros
lugares que não os palácios do Planalto.
Esse descentramento, na verdade, tem um dos seus pontos de partida na dualidade
manifesta na própria natureza da investidura presidencial da presidente Dilma Rousseff,

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que apenas encarna a parte material do corpo do “rei”, uma vez que sua representação
simbólica, sobretudo para o seu partido, se encontra na pessoa do seu antecessor, posto
em relação metafísica com os seus militantes e a sua imensa legião de simpatizantes. A
sucessão presidencial, na forma como foi operada, criando a expectativa de que caberia
à presidente o exercício de um mandato-tampão, sublinhou a noção de que entre
governo e poder havia uma distância que ela não poderia, ou deveria, encurtar.
Os males de saúde que acometeram o ex-presidente puseram entre parênteses a
promessa sebastianista do seu retorno triunfal em 2014, assim como já dificultam a sua
comunicação com seu partido, seus quadros e simples militantes, desde sempre
dependente do seu envolvimento pessoal, mais pelo exercício de seus reconhecidos
dons carismáticos do que pela persuasão de um argumento logicamente articulado. O
partido, uma confederação de tendências soldada por trabalhos de Hércules da sua
principal liderança, à falta destes, ao menos sem a onipresença pertinaz a que estava
habituado, ensaia movimentos de autonomia quanto a vigas mestras do lulismo, como o
da CUT em sua adesão à reforma da legislação trabalhista, que ameaça de divisão a
sólida base sindical dos dois mandatos de Lula.
Assim, se Dilma, por estilo pessoal e vocação, começou o seu mandato com o perfil de
gestora do governo, apontada como uma estranha no ninho da política, viu-se movida à
assunção de papéis políticos, quer na remontagem do seu governo, caso forte da
indicação da engenheira Maria das Graças Foster para a estratégica Petrobrás, uma
técnica de sua estrita confiança, quer na constituição do que já se pode designar como o
núcleo duro do seu comando político, a esta altura formado por quadros de sua escolha
pessoal, em geral distantes da rede paulista que antes caracterizava os mandatos de
Lula.
É da ocasião, até mesmo pela crise econômica que ronda o País, com independência das
motivações dos atores envolvidos, que se tente encaminhar a fusão na mesma
representação dos dois corpos do “rei”, a material e a simbólica, processo a que setores
do partido e muitos movimentos sociais não deverão assistir com indiferença, já
amargando a lenta passagem do tempo enquanto não chega a hora — talvez não chegue
— de devolver o cetro a quem entendem ser o seu legítimo dono.

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A ambiguidade resultante dessa configuração dual na cadeia de comando, como seria de
esperar, tem estimulado, no Parlamento e fora dele, uma movimentação desalinhada,
especialmente no PT, quanto a tópicos importantes da política do governo, tal como
ocorre na iniciativa de parlamentares petistas a fim de extinguir a cláusula do fator
previdenciário. Nas bases, em particular no sindicalismo dos servidores públicos e na
militância dos movimentos sociais, registram-se sinais com a mesma direção — no Rio
de Janeiro, desavindos com a direção do seu partido, militantes vão às ruas em apoio a
um candidato de oposição à coalizão governamental.
Sob esses novos augúrios, a política desmente as cassandras e se refaz para quem tem
olhos para ver.

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O “mensalão” e a dialética entre forma e conteúdo (24 jun.)
Ainda é cedo, mas marinheiros treinados em perscrutar o horizonte, instalados no cesto
da gávea no maior mastro do navio, sondando as proximidades do mês de agosto, data
marcada para o julgamento do processo do “mensalão” no Supremo Tribunal Federal
(STF), já alardeiam mar tranquilo à frente. Há pouco, uma reunião pouco republicana
entre um ex-presidente da República, um membro do STF e um ex-presidente dessa alta
Corte, influente homem público, no escritório desse último, carregou os céus de nuvens
sombrias, mas a sua rápida e surpreendente dissipação só veio confirmar o diagnóstico
de tempo benigno para os navegantes.
A previsão não deixa de ser espantosa, vistas as coisas a partir do que temos
experimentado ao longo da nossa história. Desde sempre, como um habitus entranhado
na cultura nacional, estivemos obedientes a uma regra não explícita que se traduziria no
primado que as questões de conteúdo deveriam exercer sobre as de forma. Tal habitus
— para continuar flertando com muita liberdade com categorias do sociólogo Pierre
Bourdieu — como que estaria inscrito em nosso próprio corpo, convertido, pelo uso
continuado, numa espécie de ideologia natural nascida das próprias condições
singulares em que se teria forjado o nosso Estado-nação, em que teria cabido ao
primeiro termo a criação demiúrgica do segundo.
Essa particularíssima condição da nossa formação não escapou ao gênio de Euclides da
Cunha, que a ela atribuiu, em texto de À margem da história, o caráter do
excepcionalismo brasileiro, um país que teria nascido a partir de uma teoria política a
ser, gradual e paulatinamente, internalizada pela sociedade em busca dos ideais
civilizatórios do Ocidente.
Na tradição dessa leitura, a construção da ordem no Estado nascente seria uma criação
dos juristas imperiais, magistrados que, encarnando os desígnios das elites à testa do
Estado, imporiam vertebração e o sentimento de unidade a uma sociedade entregue às
suas paixões e ao particularismo dos potentados locais, tal como na demonstração
clássica de José Murilo de Carvalho. O conteúdo nos viria de cima e os procedimentos
formais, declarados no estatuto liberal que nos regia, deveriam ser confrontados, de um
lado, com o poder discricionário dos governantes — o Direito Administrativo

em boa parte cumprido em contexto mais amável às instituições do liberalismo político — salvo o hiato do regime militar — . enquanto os procedimentos para sua realização são meramente instrumentais. preservou essas marcas congênitas à nossa formação. Sem um Poder Judiciário autônomo diante do Poder Executivo e na ausência de uma esfera pública. sim. A Carta de 1988. a que se expressa na tendência de converter o constitucionalismo democrático em novo paradigma dominante no sistema jurídico-político. o . de outro lado.158 claramente hegemônico diante dos demais ramos do Direito — e. seu programa de metas para a aceleração da industrialização do País. pois. o Estado Novo tendo significado um momento de exasperação da imposição do conteúdo sobre a forma. Essa dialética difícil entre forma e conteúdo se vai projetar no cenário republicano. Sob esse duplo contingenciamento. ao instituir os termos da democracia política no País. em seu artigo 135. A Carta de 1937. comanda sem subterfúgios que a precedência “do pensamento dos interesses da Nação” deveria se impor aos interesses individuais. a modelagem discricionária do Direito Administrativo se vai comportar como o instrumento mais adequado para que o conteúdo ideado pelo vértice político procurasse suas vias de realização. aí não mais orientado pelos ideais civilizatórios. com o poder de fato das elites senhoras de terras e do sistema produtivo da época. os procedimentos e as formas próprias ao estatuto político liberal deveriam ceder quando importassem ameaças de lesões ao plano da ordem que se queria impor ou mesmo se viessem a afetar interesses dos potentados locais em seus domínios patrimoniais. a fim de viabilizar. e. qual seja. cabendo ao Estado a leitura e vocalização desse pensamento. afetando as antigas primazias exercidas pelo Código Civil e o poder discricionário das esferas administrativas. pela ação discricionária da administração pública. como no governo JK. em que se contornou o Poder Legislativo com a criação dos então chamados grupos executivos. O curso do processo de modernização subsequente. ainda em andamento e não de todo percebida. A emergência dessa tendência — escorada por institutos próprios. pelos da modernização do País. entre outros. deu início a uma mutação em nossa vida republicana. o pensamento da Nação se substantiva. Na fórmula. cuja formação efetiva somente vai germinar com as lutas abolicionistas.

se intentava. agora. No mais. . era insular a vontade política dos governantes. quando não inibe. o decisionismo de nossa tradição política. no que importa. Pode-se entender o assim chamado processo do “mensalão” como uma tentativa de reação anacrônica do conteúdo contra a forma. na verdade. a sociedade e suas instituições já demonstraram recusar aos governantes o monopólio para decidir sobre quais são os verdadeiros interesses da Nação. no suposto de que somente deles provinha a melhor interpretação dos interesses da Nação. A tentativa se frustrou.159 Ministério Público. foi criminalizada e. embora por métodos nada republicanos. uma vez que. é como se dizia antes da invenção da ultrassonografia: nunca se sabe o que vai sair de barriga de mulher ou da cabeça de um juiz. a essa altura se trata de questão menor. chega aos tribunais. Quanto à sorte do seu julgamento. confinada às artes dos especialistas em técnica jurídica. pois o que. as ações civis públicas e as de controle da constitucionalidade das leis — modera.

dando continuidade ao cerne da política do seu antecessor a ponto de serem pouco distinguíveis as diferenças entre eles em matéria de política econômica. deflagrada pelos episódios nada republicanos vindos à tona na CPI dita do mensalão. mas o processo em curso que nos embala. sem a pesada qualificação de tempos de antanho. confrontado com uma realidade que não suportava o seu programa e as ideias-força que o tinham trazido ao primeiro plano da cena política brasileira. A crise política e institucional de 2005. que o associou à fórmula.160 Os espectros do desenvolvimento (27 maio) Ainda não é oficial. por volta das décadas de 1950-60. a de . apenas o regime militar —. que identificou na ideologia do nacional-desenvolvimentismo os suportes para uma política populista que teria atrelado o sindicalismo ao Estado e à coalizão pluriclassista que o dirigia. reagindo a uma contingência ameaçadora à sua reprodução. vindo a povoar a imaginação da esquerda brasileira da época. a partir de uma de suas costelas. Sob esse nome. Desenvolvimentismo assim sem mais. com raízes na tradição republicana brasileira. A partir daí. incluídas todas as suas dicções. já conta com um nome à espera de consagração na pia batismal: desenvolvimentismo. em termos de orientação política levou a um movimento defensivo por parte do governo do PT. criada. nessa marcha batida rumo aos grandes do mundo. talvez se pretenda deixar para trás o tempo dominado pela contingência. já às portas do processo sucessório de 2006. declina da interpretação que lhe serviu de viga mestra para a fixação do discurso com que iniciou a sua escalada vitoriosa nas eleições e na conquista da direção de importantes movimentos sociais. o PT adaptou-se às circunstâncias. como é sabido. se não importou mudanças nessa dimensão. Produzida essa metamorfose — categoria plenamente admitida no léxico partidário. que trouxe consigo uma verdadeira mutação na forma de esse partido se pôr no mundo. animada pelas fanfarras dos nossos êxitos econômicos e sociais. do nacional-popular. para encurtar razões. enunciada várias vezes por sua principal liderança —. como foi aquele em que o PT iniciou o seu ciclo governamental. especialmente de suas florações autoritárias — cite-se. hoje cediça. deu início a uma deriva rumo ao encontro com a tradição republicana brasileira. Diante da pressão incoercível dos fatos.

nesse mesmo ano aziago de 2005. o PT abriu mão do seu programa de reforma sindical. Um dos resultados dessa recomposição foi a admissão das centrais sindicais como figuras institucionalizadas do sindicalismo. Ressurgências do passado costumam assombrar os vivos. instituindo-se pontes de comunicação entre Vargas e Lula. passando a ser contempladas com recursos da contribuição sindical. até mesmo pela razão de esse partido ter vindo à luz com a incorporação de setores influentes da catolicidade de esquerda. bête noire de ícones intelectuais de suas primeiras horas. quando. O processo de modernização. a de Juscelino Kubitschek e. torna-se o projeto in pectore do segundo mandato de Lula. o diagnóstico de que na origem dos nossos males estaria mais a falta de capitalismo do que os efeitos da sua presença. pragmaticamente. Insinua-se. então. um cultor da herança de Vargas. cuja proximidade quanto à tradição republicana se fazia garantir com a entrega do Ministério do Trabalho ao presidente do PDT. sobretudo a do governo Geisel. nesse caso. tangido pelas circunstâncias. fortalecendo-se os vértices em detrimento das bases da vida associativa dos trabalhadores. refratárias doutrinariamente a construções desse tipo. Tal guinada em termos de orientação não foi acompanhada de razões que a justificassem. consagrando-se sans phrase no governo de Dilma Rousseff. vistos como lideranças maiores na adoção de políticas sociais inclusivas. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) cede lugar à Força Sindical.161 Getúlio Vargas. Exemplar desse movimento a mudança de política quanto ao sindicalismo — ponto de referência estratégico quanto à sua formação —. a do regime militar. partido fundado por Leonel Brizola. mas o fato é que. o PT se vai descobrir instalado num território ideal antípoda ao de sua formação. Seu panteão se renova com a inclusão em lugar de honra de Celso Furtado. é incorporado à sua política econômica. se bem que veladamente. inclusive. emprestando-se ao tema do desenvolvimento das forças produtivas materiais uma centralidade imprevista. projetá-lo além-fronteiras. e sua própria interpretação da História republicana é revista. abdicando dos seus princípios em favor da pluralidade sindical e contrários à contribuição sindical. confirmado num fórum nacional realizado no ano anterior. trazendo de volta . como Raymundo Faoro. Expandir o capitalismo brasileiro.

espectros que saem das sombras a fim de nos cobrar ações para que. O desenvolvimentismo que ameaça retornar com galas oficiais que venha. Espectros que nos rondam. possam repousar em paz. que. como na tragédia clássica de Hamlet. basta abrir uma janela que eles se dissipam no ar. afinal. com suas roupas próprias. Ele não conhece a face amedrontadora de um inimigo fatal nem a necessidade heroica de mobilizar a Nação para combatê-lo. . 1994). quando os vivos não enterram bem seus mortos. então. e se investem desajeitados dos papéis que tão bem couberam neles em farsas que são pantomimas do que eles viveram. no estilo prosaico do agronegócio. como na China. enredos que não se completaram. mas o do cálculo da racionalização de mandarins. Relume Dumará. Quanto aos espectros. nas poderosas imagens de Marx de O Dezoito Brumário. tentam tecer por cima o rumo dos nossos destinos. do empreendedorismo e da associação crescente com as empresas multinacionais.162 tempos mal vividos. na bela leitura de Derrida (Espectros de Marx. Seu mundo não é o da encarniçada luta política sem quartel.

categoria que a sociologia. concebido como um projeto nacional a ser implementado de modo decisionista pelo Poder Executivo e sua sofisticada tecnocracia. não lhe cabe mais a imagem de uma simples gerente da administração pública. o agronegócio abriu-lhe o hinterland.) Não há teoria que subverta a convicção de que as coisas humanas andem ora tangidas por nossas ações. a continuidade corporal do seu antecessor. ora como que animadas por movimentos internos. mas que já se constitui num processo politicamente orientado. Essa vigorosa difusão da vida mercantil. sob o governo Dilma. sem alarde. Nas ciclópicas obras da . De outra parte. celebrada como uma prestidigitação em que a segunda deveria representar. contudo. centralmente orientada para a projeção da economia do País no cenário internacional e refratária. omitiu no seu ritual a transmissão do carisma para a sucessora. a esta altura. como se ela estivesse fadada tão somente à missão litúrgica de zelar pelo culto do fundador da sua dinastia. importou da biologia. a postulações político-ideológicas. como que em comunicação demiúrgica com ele — o corpo metafísico do rei —. O fato é que. cria e expande mercados. mais um indicador dessa inovação em termos de estilo de exercício de poder está na sua diplomacia presidencial. a expansão da experiência capitalista no Brasil não é mais apanágio do Centro-Sul. se afirma num cenário desértico quanto à estruturação do político e à difusão de valores cívicos. Entre vários outros. introduzindo mutações irreversíveis na sua composição demográfica e na sua estrutura social. E por toda a imensa região da fronteira ela ativa e energiza a iniciativa dos seus setores subalternos. os sinais de que esse movimento não obedece apenas a uma simples lógica naturalística. evidentes. o ímpeto da expansão do capitalismo no País segue o seu curso. Dilma investe-se do papel de primeira executiva em geral do capitalismo brasileiro. na obra clássica de Niklas Luhmann. hoje incorporada ao léxico da moderna teoria social. porque já está aí o esboço de um perfil forte de dama de ferro do capitalismo brasileiro.163 O Cachoeira e a gota d’água (22 abr. A mudança de bastão de Lula da Silva para Dilma Rousseff. como que autopoieticamente. Se coube antes. Mais do que gestora. no exercício do poder. conscientes ou não dos resultados que delas advirão.

com métodos de máfia. a presença multitudinária de trabalhadores e de homens em busca de oportunidades de vida. entre nós. que se pretendeu pôr acima dos partidos. cuja montagem original não resistiu sequer a poucos meses de operação. como se tem apurado nas investigações em curso. como uma via institucional adequada a fim de afiançar governabilidade. e o seu andamento sinaliza. em Serra Pelada. na forma como vem sendo praticado. nas estruturas do Estado e do Ministério Público — lugar de origem da escalada política do senador Demóstenes Torres — e também na sede do Poder que representa a soberania popular. no caso. se infiltra em grandes empresas. são mobilizadas centenas de milhares de trabalhadores. o major Sebastião Curió —. O presidencialismo de coalizão. decerto. converteu-se numa política de alto risco para a democracia brasileira. Mas a reiteração acrítica da sua prática. representado pelas oligarquias tradicionais. a emergência de novas elites que fizeram a sua história à margem das lutas pela democratização do País. A natureza quasímoda do nosso sistema político — tradicional composição heteróclita do moderno com o atraso. dessa floração de um capitalismo sem lei. em boa parte. as portas de entrada da política. a maior parte deles conhecendo o seu primeiro emprego formal e a sua primeira exposição às leis trabalhistas e à vida sindical. espécie refinada de um gângster de bons modos e de bom gosto que parece saído de um romance de Scott Fitzgerald. que ora têm lugar nessa região de fronteira — empreendimento de grandes empreiteiras.164 construção de usinas hidrelétricas. tem-se mostrado. especialmente após a experiência frustrada do governo Collor. às vezes com sucesso. o que talvez fosse ainda pouco visível para o seu antecessor: o presidencialismo de coalizão. Por baixo. que. financiado. como neste Goiás de Carlinhos Cachoeira — personagem tão expressivo desse mundo quanto o foi. este. não deixa mais . em particular no segundo mandato de Lula e na articulação da composição ministerial do governo Dilma. para o governo Dilma. Por cima. As coisas humanas andam. que agora começa a chegar-lhes. em meio a greves selvagens e a atos tumultuados de protesto contra as precárias condições de trabalho com que se defrontam. com recursos estatais —. filhas do nosso secular exclusivo agrário — torna-se ainda mais aberrante com a incorporação. um capitalismo de faroeste que tem forçado.

já desavindos com essa democracia de interesses que converteu a política num processo penal sem fim. e não de interesses avulsos e fragmentados. a qual. . quando não do crime organizado por meio de redes de estilo mafioso. A História contemporânea é farta em exemplos no sentido de mostrar que. como na nossa experiência atual. O affaire Demóstenes-Cachoeira. bem que pode ser a gota d’água. com a CPI “do fim do mundo” ou sem ela. franqueia as estruturas do Estado à apropriação por parte de particularismos privatísticos. com a pretensão de garantir insulamento para a política decisionista e tecnocrática do Executivo. há uma República.165 dúvidas quanto à necessidade da revisão do seu modo de operação. Nessa forma de presidencialismo. por trás da projeção nacional dos Estados bem-sucedidos. ao ratear benefícios e prebendas a granel. a coalizão deve-se dar em torno de políticas. destino para o qual nos tangem os fatos.

de procurar realizar a modelagem da sociedade por elites do Estado. pode-se sustentar que o Brasil se tornou. sua teia e a judicialização da política (25 mar. em especial as de formação jurídica. pouco importando se estamos ou não satisfeitos com esse fato nada trivial que desafia ortodoxias. cânon dogmático que. recobrindo tanto o mundo do trabalho como o da competição político-eleitoral. mas sem deixar de lembrar a presença do papel central das elites imperiais. para não recuar muito na História. Com efeito. de suas instituições e seus procedimentos na vida social a partir da vigência da Carta Magna de 1988. a capital mundial da judicialização da política. especialmente por parte do Supremo Tribunal Federal (STF). Desde aí se fixaram duas jurisdições institucionalizadas em ramos do Judiciário. exercendo papéis centrais na democracia brasileira. de suas instituições e seus procedimentos na formatação de um mercado de trabalho nacionalizado e de um “mercado” político democratizado. que careceriam de representação democrática — magistrados não são eleitos — para intervir criativamente na produção das normas. socializadas no campo do Direito. de José Murilo de Carvalho (Rio. costuma-se datar a presença cada vez mais afirmativa do Direito. tem associado esse processo a um ativismo judicial que estaria sendo exercido. como vetustas teorias sobre a separação entre os três Poderes. Entre nós. tão bem estudadas no clássico A construção da ordem. sem sinais de mudança no horizonte.) Forçando nas tintas. de Ivo Coser (Editora UFMG. assim como limitar a observação da sua incidência nas relações entre os Poderes Legislativo e Judiciário. pela via da adoção da fórmula corporativa que trouxe para o interior . o senso comum. ainda é influente tanto em países de sistemas jurídico-políticos com matriz na civil law quanto nos de common law. tal como a mídia o registra. por juízes e tribunais. Sob Getúlio Vargas. a trabalhista e a eleitoral. a moderna República burguesa retomou a política. O senso comum erra nos dois casos. hoje. 2008). que levaram a cabo a obra de instalação do Estado-nação como um exercício criativo de Direito Administrativo. embora já claudicante. 1980). sem atentar para o papel estratégico do Direito. vigente no Império. ambas. Campus. a partir da Revolução de 1930. não se pode explicar o processo de modernização burguesa do País.166 A aranha. e em Visconde do Uruguai – centralização e federalismo no Brasil. em matéria de natureza política. Nesse tipo de diagnóstico.

nas ações populares. instalou a sociedade civil como novo e importante personagem na trama entre essas duas dimensões. admitindo. mas contínua. um momento propício a rupturas. após inédita mobilização social e política em favor das liberdades civis e políticas. se coube à ação da aranha. tal como consagrada na Constituição de 1988. dotando-o da capacidade de representá-la. aprofundando. passa a conhecer novas possibilidades. uma vez que ultrapassa em suas repercussões o próprio teor da coisa julgada. Sobretudo. v. aperfeiçoando e democratizando as relações entre eles. o estadista da centralização administrativa sob o Império. Werneck Vianna. jurista de ação decisiva na elaboração da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). 4. entre tantos outros instrumentos relevantes. A decisão recente do STF que julgou inconstitucional a criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). É de ver que a democratização da vida republicana. a sua conversão em lugar de emancipação e até da conquista de direito novo. seus procedimentos e instituições. o Direito. ela. já é prisioneira de sua própria obra. em sua faina. como se tem sugerido. como na famosa metáfora de Weber — no caso. os estadistas de formação neopombalina. Para reforçar essa nova presença. não à toa tem a obra do visconde de Uruguai (Paulino José Soares de Sousa). 48. redefiniu o papel do Ministério Público. Oliveira Vianna. Burgos. tal como nas ações de controle da constitucionalidade das leis. levou a resultado oposto: a opção do constituinte (a “aranha”) foi a de aproximá-los. com seu desenho anterior. sob o fundamento de que a tramitação da medida provisória que o criou não teria obedecido a disposições expressas na Constituição. Dados. chamados assim por Raymundo Faoro —. in nuce. Com essa nova arquitetura da teia. longe de apartar a política do Direito. como objeto de culto. e evidente na decisão do STF sobre o reconhecimento legal das relações homoafetivas. nas ações civis públicas. a urdidura de uma teia com essa característica. em princípio. 2005). reacende vivamente a controvérsia sobre a judicialização da política. amplamente legitimada pela opinião pública. em meio a um consenso silencioso. a fim de serem expostos à sua pedagogia. expurgada dos seus elementos autoritários. de óbvia .167 da malha estatal a vida associativa dos trabalhadores. como tem ocorrido em alguns casos de decisões de juízes singulares e tribunais inferiores (entre tantos. Assim.

a sua teia. a “aranha” não abandona.168 relevância para a afirmação do papel do Legislativo na produção das leis. estaria em situação de risco. mesmo que por via acidental. Tal como se constatou. a Suprema Corte voltou atrás em sua decisão e proclamou a constitucionalidade da lei que criou o ICMBio. Com essa decisão. . O consequencialismo. ganha foro de cidade no Direito brasileiro. sem esconder sua inspiração em correntes pragmatistas — caso manifesto do ministro Luiz Fux —. muitas de importância vital. logo que proferida a decisão. promulgadas com o mesmo vício de origem da que criou o ICMBio. a validade de 560 medidas provisórias. por esmagadora maioria. Medindo as consequências. mas a sua ação responsiva diante de um fato social e político de suma gravidade flexibiliza e alarga a sua trama. instalando um cenário de insegurança jurídica de efeitos imprevisíveis. decerto.

concedida por telefone para a IHU On-Line. atraindo-os para o Estado e daí exercendo sobre eles uma tutela. que teve vigência durante décadas. de racionalização. 1999).) Dilma Rousseff é uma grande racionalizadora. que predominaram e ainda predominam em boa parte do país. constata o sociólogo. “A política não é o ramo dela”. 19 mar. é autor de. e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG. 2002). 1997). pois ela é diferente dele”. O que ocorre é que os remanescentes desse sistema de controle político. estão ressurretos entre nós através da coalizão que o governo faz com os setores vinculados a práticas retardatárias e a formas de propriedade. “Não há mais possibilidade de segurar a sociedade com esse jogo de manter os contrários em permanente equilíbrio”. “Ela procura ser fiel. A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan. entre outros. A ênfase do governo Dilma é economia de gestão. Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo. especialmente o latifúndio. principalmente no Nordeste. de gestão. O problema é que não é fácil ser fiel. racionalização”. o professor-pesquisador da PUCRio aposta no ressurgimento da política nos próximos anos com muita força. “Ela é muito desatenta em relação a esses problemas de tornar o governo mais poroso. uma grande administradora. Ao avaliar o primeiro ano do governo Dilma Rousseff. A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan. Por que o Brasil não consegue romper com as forças conservadoras e atrasadas? O senhor percebe a necessidade delas? . Werneck não concebe a ideia de que Dilma traia o mandato de Lula. Na entrevista a seguir. o sociólogo Luiz Werneck Vianna defende que as questões que importam para a presidente são as de estado e de economia. O senhor percebe a marca do chamado “coronelismo” na coalizão de governo com ministros oriundos de oligarquias? Essa não seria uma designação adequada.169 O PT como condutor da expansão burguesa (IHU On-Line. mais próximo dos movimentos sociais.

Na verdade. estão sendo mobilizados para realizar agendas modernas. Os sindicatos têm uma participação importante ainda. Nisso não se avança. com o atraso. especialmente se olharmos para a agenda comportamental. o governo acha que representa o moderno e os interesses gerais da nação e qualquer acordo que ele faça com a tradição. para ter maioria governamental. Para se dar um passo é preciso recuar dois. porque são atitudes. Mas há coisas importantes ainda no PT. Não obstante. mas ainda têm alguns elementos característicos disso. mas isso é resultado de um cálculo. além de ter uma política muito atualizada e amável com a vida sindical. As coalizões devem ser programáticas e não de oportunidade e instrumentais como são essas nossas. com o patrimonialismo. com o clientelismo não importa. Não é a questão de ser ou não a favor do aborto. não tanto no governo Dilma como tiveram no governo Lula. trata-se de uma prática de saúde pública que está levando à morte milhares de mulheres que são mal atendidas. Isso tudo são registros a . O PT guarda ainda alguma inovação para a política nacional ou rendeu-se ao pragmatismo? Ele se rendeu. socializados e chegaram à política. É difícil. Há limites para a coalizão de governo? Devem existir. dia internacional da mulher). comportamentos. Pelo contrário. arejou e aproximou os movimentos sociais do governo. Como conciliar a cobrança de Dilma de postura republicana dos seus ministros num governo com figuras que se formaram politicamente em ambientes onde se pratica o patrimonialismo e o clientelismo como regras do jogo? Essa é uma contradição. não se discute.170 Não vejo como necessidade para a boa governança do país. a mulher mesmo e a questão do aborto. E hoje é um dia especial (dia 8 de março. da administração. que trouxe inovações. E eles fazem política da forma mais tradicional. expectativas republicanas que não são compatíveis com as formas como esses homens foram treinados. Dilma escolhe apenas por cálculo político. para pensar nas questões referentes a comportamento.

Esse era anterior à Primavera Árabe e a todos os acontecimentos depois deste grande acontecimento que ainda persiste. Dilma se aproximou de uma agenda de direitos humanos bem mais . atraindo-os para o Estado e daí exercendo sobre eles uma tutela. Como está a situação levada por Dilma neste primeiro ano de governo? Isso persiste. A ênfase do governo Dilma é economia de gestão. o vínculo com as suas origens. a gerente do Brasil como empresa. O que ele perdeu foi o elã. Em que medida Dilma difere de Lula em relação aos direitos humanos e aos sindicatos? Em relação aos direitos humanos. racionalização. mas com uma atenuação. A sociedade se deixa levar na medida em que a taxa de emprego está bastante razoável e os negócios prosperam. Em que sentido podemos ver a marca da racionalização no governo Dilma? Nesse sentido. visto que com Lula esse processo avançou muito. É uma questão que existe. como negócio e não como sociedade. cooptados. mas não é a ênfase do governo Dilma. No entanto. Na verdade. O que traduz de forma mais incisiva é a natureza desse governo tendo como seu sistema fundamental de orientação o aprofundamento e a expansão da ordem burguesa no país. de racionalização.171 serem feitos na agenda que o PT tem cumprido até aqui. Ela é muito desatenta em relação a esses problemas de tornar o governo mais poroso. os sindicatos não deixam de estar também jurisdicionados pelas políticas governamentais. com as suas grandes expectativas de produzir uma transformação no país. o PT se tornou uma força condutora da expansão burguesa no Brasil. a posição dela difere positivamente. De qualquer forma. a sociedade está órfã politicamente. de gestão. o mundo que ela pegou é diferente do mundo de Lula. Em outras entrevistas o senhor sempre reiterou que o governo Lula havia cooptado os movimentos sociais. que continua. trazendo-os para dentro do Estado. Daí os movimentos sociais estão articulados com o Estado. ela vem merecendo o qualificativo de “gerentona”. mais próximo dos movimentos sociais. As questões que importam para Dilma são as de estado e de economia. a inspiração.

é algo . é preciso ter coragem política para erradicar. A política não é o ramo dela. Ela não veio desse mundo. mesmo que elas não sejam lá muito compatíveis com o espírito e o sentido do que preponderou no governo Lula. que sabe falar e sabe qual é a linguagem própria a ser usada. uma grande administradora. a reforma trabalhista: os empresários a querem. e assim vão se criando essas composições. De qualquer forma. Por exemplo. Importaria ter um programa de reformas real. Lula fez uma carreira na sociedade civil. Vejo que a reforma previdenciária. As marcas visíveis. Ela veio aí do Rio Grande do Sul. O que não quer dizer que ela tenha rompido. Não concebo a ideia de que Dilma trai o mandato de Lula. de líder sindicalista. Mas o que vemos é um governo dividido em todas as questões. Tanto empresários como sindicatos estão dentro do governo. não é o estilo dela. Mas por que o senhor afirma que Dilma cada vez mais é constrangida à infidelidade? Independentemente do sistema de valores dela. Como o senhor define a “cara própria” do governo Dilma? Dilma é uma grande racionalizadora. Ela procura ser fiel. que parece que Dilma vai fazer. O que marca a guinada introduzida por Dilma no presidencialismo de coalizão brasileiro? Como seria uma coalizão mais programática? Essa guinada ela não fez nem ameaça fazer. são de que ela persiste no modelo anterior. os sindicatos não. pois ela é diferente dele. Os dois lados estão dentro do governo. O problema é que não é fácil ser fiel.172 moderna e atualizada do que a de Lula. A carreira de Dilma é de gestora. da administração pública. ele tinha uma proximidade forte com os pleitos sindicais e se reunia com eles quase que entre iguais. assim como está também a estrutura da propriedade familiar. evidentes até então. Como resolver isso? É um ministério para um. Outro exemplo é a reforma do Código Florestal: a oposição entre o agronegócio e os ambientalistas é mortal. Já a Dilma delega isso. as circunstâncias atuais a obrigam a inflexões e mudanças. Em relação aos sindicatos. um ministério para outro. mas ponderou algumas ênfases do governo Lula. Não é fácil erradicar.

o que tende a se generalizar de forma autônoma. Na questão dos funcionários públicos. isso vai cair. Por exemplo. Não há mais possibilidade de segurar a sociedade com esse jogo de manter os contrários em permanente equilíbrio. Isso vai se energizar. mais localizadas.173 que vai repercutir. Isso. O senhor aposta em iniciativas como o movimento dos indignados. A política tende a ressurgir nos próximos anos com muita força. na questão militar já há indícios disso. está muito difícil manter a Força Sindical dentro do governo do jeito que as coisas se encontram. Para onde ela vai? Quer aprofundar o moderno ou quer fazer com que o moderno só passe? Imagino daqui para frente um quadro de muita exasperação da política. por ser uma questão sensível e pelo fato de o PT ser um partido mais “funcionário público” do que qualquer outra coisa. . bem como na questão agrária e na questão sindical. o equilibrista perde o controle. assim como no número das varetas no circo. Estou falando de coisas mais tópicas. ou o Ocupe Wall Street. A situação de Dilma também é delicada em relação à bancada evangélica no Congresso. Não sei o quanto de dor. na questão do meio ambiente. De um lado ela é libertária e de outro está comprometida com o que há de mais recessivo em matéria comportamental na sociedade brasileira. sem vínculos com o Estado. Uma hora dessas. mas alguma dor isso acarretará... Há indicações fortes na vida associativa de robustecimento dela. A questão promete ser dolorosa. Não estou anunciando agonias. Não sei se vamos chegar a ações desse gênero. Estou dizendo apenas que a sociedade não vai ficar com essa ausência de movimentação que hoje a tem caracterizado. por exemplo? Cada forma de protesto tem a sociedade que merece.

Na sociologia brasileira. A nomeação para o Ministério das Cidades do deputado federal pela Paraíba Aguinaldo Ribeiro (PP) não se pode perder no noticiário dos faits divers da política nacional. Na história recente da sociologia provavelmente ninguém melhor que Pierre Bourdieu. Certamente que atos dos nossos avoengos não nos comprometem — a responsabilidade por eles é puramente individual e não se transmite às futuras gerações. é exemplar não por sua trajetória pessoal. os lugares em termos de poder ou de prestígio social. como se sabe. por inteiro. dimensão crucial da vida contemporânea —. Leôncio Martins Rodrigues e Jessé de Souza. sobretudo. ex-discípulo de Bourdieu. a sociologia já é uma disciplina científica estabelecida e há tempos fixou como critério na investigação social operações de escrutínio dos dados referentes às origens sociais dos atores sob sua observação. Sergio Miceli. Nele. se põe em evidência o segredo de Polichinelo da modernização brasileira. Contudo. têm demonstrado em seus influentes trabalhos o papel explicativo. menos ainda por já ter respondido em seu Estado a processos por improbidade administrativa. mora nos detalhes. contribuiu para esclarecer o lugar do chamado capital social. ou de privar. a revelar de modo contundente o que há de reacionário na forma de imposição do nosso processo de modernização. da origem social a fim de dotar. pela sua linhagem política. os outros na sociologia política.174 As cidades e o sertão (14 fev. nos governos Lula e Dilma Rousseff — se radica no pacto implícito — quando . macroestrutural de que se investe. mas pelo significado. mas.) O diabo. novo ministro guindado ao vértice de nossas instituições republicanas. ouve-se dizer. administrar o urbano. na produção e reprodução da hierarquia social numa dada sociedade. os indivíduos do capital social que lhes vai demarcar. positiva ou negativamente. entre tantos autores relevantes. se bem que não determinante. conquanto de modo velado. passando pelo regime militar e que ora se renova. o primeiro na sociologia da cultura. que desde sempre — de Vargas a JK. O caso do deputado Aguinaldo Ribeiro. digamos. nem tanto pela falta de credenciais do indicado para exercer os papéis na direção de uma agência estratégica como essa — cabe-lhe. hoje no panteão da disciplina como um dos seus maiores. conceito elaborado por ele.

depois de muita correria. A saga de João Pedro Teixeira e de sua família foi objeto de um documentário. sem contar outros membros da sua parentela em posições de comando na vida local e até na prestigiosa Embrapa. e Fábio Fabrini. salvos. pois era disso que se tratava. acusado de mandar matar. quando se destacou nacionalmente pela firmeza na defesa dos direitos da sua categoria social. obra-prima de Eduardo Coutinho. o mesmo usineiro Aguinaldo foi. em circunstanciada notícia (4/2) sobre a projeção na política regional da rede familiar do novo ministro. cultuada na Marcha das Margaridas. hoje deputada estadual. Cabra marcado para morrer. o deputado Aguinaldo Ribeiro é neto — como registra oportuna matéria do jornalista Raphael Di Cunto (Valor. Com efeito. revela que sua irmã. é candidata à prefeitura da importante cidade de Campina Grande. explicitado — entre as elites modernas e as tradicionais. desfila em avenidas de Brasília. em meio à filmagem no sertão. que esperou quase 20 anos para ser finalizado. ilustração viva do ensaio de José de Souza Martins “A aliança entre capital e propriedade da terra: a aliança do atraso” (A política do Brasil lúmpen e místico. apontado como responsável por mais um crime político. em 1962. João Pedro Teixeira.175 necessário. econômico e . uma das maiores lideranças dos trabalhadores do campo. com o assassinato sob encomenda de Maria Margarida Alves. que desde 2000. Em 1983. símbolo das lutas feministas no País. anualmente. São Paulo. surpreendido. na época um jovem cineasta do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE). A matéria do jornalista Di Cunto informa ainda que a mãe do deputado Aguinaldo é prefeita de Pilar. pequena cidade paraibana. Editora Contexto. dos seus setores vinculados social e politicamente à história do exclusivo da terra e ao sistema de controle autocrático que ele impôs no hinterland. pelo golpe de 1964. no caso em tela. 2011) e que se vem atualizando por meio da conversão do imenso estoque de capital social. repórter do Estado. Está aí a mais perfeita tradução da quasímoda articulação. ponta de lança da moderna agricultura brasileira. no processo de modernização capitalista do País. chefe de baraço e cutelo do agreste paraibano. ele e o filme. mais uma vez. 3/2) — do tristemente famoso usineiro Aguinaldo Velloso Borges. entre o moderno e o atraso. então à frente da Liga Camponesa de Sapé.

176 político do latifúndio tradicional. num país com as heterogeneidades sociais e regionais que nos são características. que se processa no circuito da política e mediante favorecimento da ação estatal. Mas isso não se pode confundir com a reanimação — como a que acaba de ocorrer —. sem princípios e em nome de razões instrumentais. Para quem é renitente em não ver. . a fim de ajustar. De fato. procedida por políticas de Estado. o andamento para a conquista do moderno nas relações sociais e políticas. seu movimento a elas. interpretativamente. das sedimentações socialmente recessivas que recebemos do passado. num contexto de democracia institucionalizada. com as quais é preciso romper. via escusa em que os porões da nossa História se maquiam e mudam para continuarem em suas posições de mando. este é o lado obscuro do nosso presidencialismo de coalizão. não pode deixar de consultar sua História e as forças da sua tradição. em que seus herdeiros se reciclam para o exercício de papéis modernos.

em que pese a afirmação de uma já robusta sociedade civil. tudo o que antes parecia sólido estava condenado a se dissolver no ar. mas há sociedades e culturas que os protegem dos riscos da obsolescência. foi a da permanente busca pela inovação do seu repertório cognitivo em todos os ramos da atividade humana. selecionados pela experiência. na música erudita e na política. com o que se abriu passagem para o moderno. neste extremo Ocidente ibérico em que nos encontramos. há décadas. sob a influência do Século das Luzes. do tipo das que se manifestam. em que o Estado cumpriu. como na antiga China. temia-se a síndrome da imobilidade chinesa como um fim do mundo em que as rodas da História parariam de girar. por exemplo. No Ocidente. A opção ocidental. tornando-se. que se tornam dominantes quando amplamente compartilhados. sempre contingenciados pelas alterações do gosto. Contudo. Marx. envolvendo-os numa aura mística. dessa mesma cultura. Nietzsche e Weber. Somos filhos. como no caso das regras de etiqueta. abertamente. como em Tocqueville. implicando a emergência ao mundo dos direitos de massas de milhões que antes nem sequer os divisavam. papel determinante em todas as dimensões da vida social. nas conhecidas palavras de um grande autor. de . a fim de garantir a permanência de princípios que sustentem dever existir harmonia entre o cosmo e a vida dos homens. pela emergência de novas necessidades ou de novos desafios. no primeiro caso. continuamos prisioneiros de repertórios que nasceram à sombra da sua incontrastável presença em nossa História. decerto num processo que conheceu lutas sociais prolongadas e revoluções. e no segundo. se revestir da alta complexidade. o Barcelona e nós (11 jan. a seu modo e a seu tempo bem-sucedidos — seguem como presenças renitentes na Argentina e no Brasil. e um bom testemunho disso está no vitorioso processo de modernização que. por processos inerentes à nossa formação. inclusive na China. Assim é que o peronismo e o varguismo — dois casos clássicos de repertórios que nasceram na órbita do Estado. e até levantam muralhas. assim. e desde então. um instrumento de uso generalizado para os diferentes modos do agir social. na ciência. Repertórios mudam.177 Problemas de repertório. e segue cumprindo. subverte nossa paisagem econômica e social.) Os repertórios constituem um conjunto articulado de conhecimentos e de práticas. Tanto podem assumir uma forma simples.

conquistado em dura e longa luta. Mais intrigante ainda. sem ceder lugar mesmo diante das novas circunstâncias com que. aquele programa estava animado pela disposição de conter a discrição da administração pública. atualmente. Paz e Terra. Angela Alonso. disponível para uma sociedade que . de abrir seu repertório a práticas e aos discursos que vinham à tona a partir da emergência de novos tipos sociais. Esse repertório novo não nos chegou de cima nem por meio de construções intelectuais arbitrárias sem amparo nas correntes de opinião que germinavam na sociedade civil. da descentralização e valorização do poder local e da abertura da esfera pública a uma ampla participação da cidadania. recorrendo a fórmulas ora puramente repressivas. pleito que o constituinte reconheceu ao criar um complexo sistema de controle da sua operação. em seu importante estudo sobre a chamada geração de 1870 (Ideias em movimento. ter seu sentido contaminado precisamente pelo que visava a substituir. ora mais brandas — como no período JK —. se defrontam. Ao contrário. em meio a mudanças políticas e sociais — em boa parte desencadeadas por elas —.178 modo dissimulado. é filho do movimento da resistência democrática à ditadura militar. a partir da chamada Revolução de 1930. encorpouse a partir de meados dos anos 1970 e tomou forma no diagnóstico de que na raiz dos nossos males estava um processo de modernização conservadora que. essa patologia particular que se manifesta na dificuldade de abandonar surrados repertórios conta com antecedentes históricos vetustos. é o processo que transcorre diante de nós quando testemunhamos. que. no curso das lutas da resistência. argumenta persuasivamente que uma das razões para a queda do Império esteve na incapacidade de suas elites políticas. adensou-se e se converteu no programa que serviu de plataforma para a convocação da Assembleia Constituinte de 1986. sujeitava a sociedade a uma modelagem exercida pelo Estado. inclusive pelos novos papéis que concedeu ao Ministério Público. o adotou. Tal diagnóstico. em suas linhas gerais. um repertório novo e promissor. Sua tópica gravitou em torno dos temas da autonomia da sociedade e da vida associativa quanto ao Estado. sinal aziago de que pode estar instalada uma caveira de burro em algum lugar da nossa História. Além disso. Estava aí. No Brasil. dia a dia. 2002).

Decididamente. nos desconcerta. que encontrou explicação. e isso. em geral. . Mas há algo em nossa História.179 experimenta notáveis mudanças em sua economia e em sua estrutura social. eles criaram um repertório novo. não foi assim. as marcas profundas do seu pathos conservador. numa pretensa fidelidade do time catalão ao velho e vitorioso repertório do futebol brasileiro. Provavelmente. pois não se pode mais ignorar a ressurgência da síndrome típica dos nossos ciclos de modernização autoritária. ao modelo de capitalismo politicamente orientado. um novo repertório. foi esse pathos que atuou em nossa reação à acachapante derrota do Santos pelo Barcelona. nunca saiam de moda. abandonado por nós. que teria sido. ao decisionismo que campeia na ação do Executivo e às esdrúxulas manias de grandeza nacional. na maior parte da crítica especializada. que conspira para que velhos repertórios. já visível no retorno às práticas de centralização administrativa. como as marchinhas de carnaval. em má hora.

Para o sociólogo Luiz Werneck Vianna. Montará um governo com cara própria e o tocará sob a égide da racionalidade. quando foi aluno de curso de formação de quadros comunistas internacionais na então União Soviética. afirmam de modo tão categórico que a presidente Dilma Rousseff conduz um governo essencialmente diferente do de seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva. de 73 anos. afirma o pesquisador. professor da PUC-Rio. Dilma separa-se do padrinho nos direitos humanos. Ex-militante do Partidão. dá espaço a uma presidente sintonizada com a agenda internacional de uma nova época em emergência. A seguir. onde o Estado-nação perde força. Dilma. em 1974. na relação com os sindicatos — “a armação que Lula concebeu e fez funcionar está destruída” — e será cada vez mais impelida à infidelidade. transcorrido apenas um ano de observação. 10 jan. A “estatolatria” de Lula. Dilma realiza mudanças profundas que abrem novos caminhos na prometida marcha de continuidade à era Lula. . Defende as férias de 60 dias dos magistrados e critica o acerto de contas com o regime autoritário. e será. prevê. por chegar ao poder em circunstâncias distintas — num mundo em mutação e em crise financeira — e.180 “Dilma será constrangida à infidelidade” (Valor Econômico. Luiz Werneck Vianna mantém a posição em causas consideradas polêmicas. é de uma coalizão mais programática. e não para atender aos caprichos dos amigos e aliados. em segundo lugar. que considera o empresário Eike Batista e a senadora Kátia Abreu (PSDTO) símbolos do capitalismo brasileiro em expansão. da capacidade de calcular os riscos por ela mesma. com sua formação universitária em economia. por estar dotada. o PCB. que significou uma volta ao varguismo e ao regime militar. os principais trechos da entrevista concedida por Werneck Vianna ao Valor (Cristian Klein).) Raros analistas. Dilma é. em que pese a própria Dilma. em primeiro lugar. Qual é a sua avaliação do primeiro ano de Dilma Rousseff? Mudou em relação ao governo anterior. diferente de Lula. nos moldes realizados pelos vizinhos sul-americanos: “Os direitos humanos dizem respeito aos vivos”. já está introduzindo uma guinada no presidencialismo de coalizão brasileiro. afirma o sociólogo. A tendência. com ministérios sem “porteira fechada”.

o que nunca ocorreu no Lula. Quais são as evidências? Ela está conversando mais com os secretários-executivos sobre a realização de programas de governo. Já está montando um governo com cara própria. e porque não há recursos para esses gastos perdulários. ela não tem ninguém relevante do lado dela. Perdeu o . o Nelson Jobim [ex-ministro da Defesa]. Dependendo de como ela manobre. A primeira implicação é uma mudança no sentido de partidos que parecem mais estruturados do que nossa filosofia admite. era absolutamente chave. como a contenção de emendas parlamentares. Porque não há sociedade que tolere. Para que o presidencialismo de coalizão programático funcione é preciso que os partidos estejam mais estruturados do que estão. E nem [desagrade] embaixo. Politicamente.181 Como assim? Independentemente de querer ser fiel ao patrono. Vai definir qual será a natureza do presidencialismo de coalizão. seus amigos. com esse sistema de freios e contrapesos. por denúncias de corrupção. Tende a enxugar. A reforma vai ser importante para dar a cara dela. sendo que o sétimo. Essa é uma tendência do governo Dilma: racionalização. O desafio é encontrar uma fórmula que não desagrade tanto a classe política. Caíram seis ministros. Era “Vem cá meu bem. A Dilma está introduzindo uma mudança de fundo na arquitetura do presidencialismo de coalizão no Brasil: [o ministério] não vai ser de porteira fechada. Tende a ser uma coalizão programática. Na reforma ministerial. ela vai ser constrangida à infidelidade. Os outros significavam bem essa política do presidencialismo de coalizão do Lula. E essa é uma inflexão importante. tende a racionalizar. que para você tem” e com isso você pode atender seu partido. Foi uma perda imensa. podemos ter turbulências. isso vai aparecer de forma mais definida.

O Estado-nação perde força. São quadros que ela não tem como recuperar. Exemplo forte é o da Justiça internacional. como no diagnóstico da [filósofa] Nancy Fraser. E porque nós estamos vivendo uma mudança de época. com o recente fortalecimento do peso do Estado. não seria um contraponto à tendência? Esse deslizamento está acontecendo numa escala mundial. mas ainda não pressentimos para onde vamos. comportamentos e atitudes que vieram com ele vêm se esmaecendo. onde terá que fechar o cofre. por exemplo os que mexem com economia. Isso é bom? Dá mais autonomia para a sociedade. Dilma mudou em relação a Lula? Com ela. Sabemos do que estamos nos afastando. O mundo mudou. O MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] já começou. de criação. meio ambiente e terrorismo.182 [Antonio] Palocci [ex-ministro da Casa Civil] e o Nelson Jobim. Por que Dilma abriria mão do arranjo político que foi tão bem sucedido com Lula? Porque ela está vivendo um outro mundo. É uma época de inovação. E as ideologias. tende a diminuir. O Brasil. nós vamos ver nos próximos meses um progressivo distanciamento dos sindicatos e dos movimentos sociais em relação ao governo. acima dos Estados nacionais. de um paradigma keynesiano-westfaliano. De que nos afastamos? Do que se poderia caracterizar. com o Tribunal Penal. . O senhor critica uma certa “estatolatria” que haveria no Brasil. Se eu estiver certo. Estamos indo para um mundo onde temas centrais da vida moderna são tratados por organismos que exercem jurisdição internacional.

custo Brasil. está obrigando a que o argumento econômico seja mais respeitado. América Latina. Essa crise está limpando a névoa. As medidas dela não terão como objeto os que estão em cima. do regime militar. ajuste fiscal. Isso foi feito com Lula e eles. nas relações com o mundo árabe. mas só que o mundo deslizou. Espanha.. Ter os sindicatos por perto não seria uma medida mais racional para Dilma? Mas a conta também é alta. Não tem mais Dilma e eles. mas quem está embaixo. as elites econômicas. Há exemplos de fora: Itália. tanto de inflação — e que virou lei agora. Este sindicalismo não tem mais o velho lugar. Foi um momento de forte adesão ao paradigma keynesiano-westfaliano. vem deslizando. Como isso se deu? Houve um retorno a um repertório dos anos 30. A relação com os sindicatos mudou muito? A Dilma herda esse eixo. especialmente a do governo Geisel. no segundo mandato de Lula. Esse eixo Getulio-JK-regime militar se projetou inteiro no segundo mandato de Lula. teve acompanhamento. Isso envolvendo políticas e valores do nacional-desenvolvimentismo.183 Mas. O tema [westfaliano] da grandeza nacional foi um retorno quanto à política do regime militar. A armação que Lula concebeu e fez funcionar está destruída. não dá mais. Passa pela Previdência. no momento em que esse paradigma no mundo perde força. especialmente. . Para não falar da forte “estatalização” do movimento sindical. do Estado Novo. do “Brasil país grande potência”. [O economista] Celso Furtado [1920-2004] foi guindado a uma figura ícone do governo. um navio importante recebeu o nome dele. Agora mesmo. Na política externa. quando sentava com o presidente da República e deliberava como ia ser o salário-mínimo futuro — tanto de produtividade. Você continua a viver num condomínio entre governo e elites econômicas do país. pelo salário-mínimo. Sempre disse isso.. houve uma mirada no retrovisor.

Delegava. Qual é a consequência? . com as suas pretensões. e não outra. com a saída desse ministro [Carlos Lupi. é a fortuna. como Previdência. “Isso eu não posso dar”. Não tem como não aderir a este movimento. Dilma busca legitimar seu poder no mundo da técnica enquanto a fonte de Lula era o carisma? Pode-se dizer. Ela sabe que não pode dar. que não teve no governo Lula. não. O movimento sindical sofreu — a meu ver foi uma ferida funda — um abalo. para ficar na imagem cediça do Maquiavel. a virtù tem que mudar também. Só sei que quando os sindicatos chegam. saúde. aí. E em outras coisas. O Lula. independentemente desse cálculo. Alguma coisa de economia ela entende. E. além da mídia. A crise chega com a presidente no olho do furacão. Nestes termos weberianos. O país está em boas mãos? Não estou avaliando se é melhor ou pior. Mas. há constrangimentos que fazem com que ela seja orientada para esta direção. ela tem objeções a fazer. sabendo ler. interpretar e calcular os riscos por ela mesma. Que outras diferenças marcam o estilo Dilma? Há uma diferença irremovível: ela tem formação universitária e numa área determinada. A cognição política pode ser a mesma. Mas são processos que requerem muita maturação. o que muda é a circunstância. por razões econômicas e por razões de fortalecimento de um sistema de freios e contrapesos que foi se tornando cada vez mais importante. do PDT]. O tema dos direitos humanos ganhou uma projeção no governo Dilma.184 O combate à pobreza e a ascensão de uma nova classe média não contradizem essa ideia? Está sendo importante. que vinha do atraso sindical. ela é obrigada a se adaptar a uma agenda mais racional-legal do que Lula. em economia. como fez na época da votação do saláriomínimo.

Com o Lupi.. Foi o nascimento de uma nova instituição de controle? Isso ao lado da Controladoria Geral da União e desses mecanismos todos que foram criados pela Constituinte ou depois dela. E Lupi dando carta sindical para todo mundo e tudo isso aparelhado com ONGs. um sedimento. destituir a Comissão seria um desastre. O sindicalismo foi se expandindo. A Comissão teve uma importância inesperada.. Mais competitividade? Sim. Era tudo nominal. digamos. uma jurisprudência. entre CUT. A recomendação de saída do ministro deixou a presidente numa saia-justa. no papel. A Comissão de Ética da Presidência da República ganhou um peso que não tinha. Mas. houve a ampliação da vida sindical em torno dos projetos governamentais. E não teve. deixou. nem poderia fazer. mais dócil.185 O movimento sindical vai conhecer a divisão real entre as centrais. por exemplo. e também mais independência em relação ao governo. A Comissão de Ética era para ter um outro papel. A esquerda em 1988 — consideradas as forças . Por que ele caiu? Porque as instituições democráticas se reforçaram no país. Força. independentemente disso. Fora o acesso aos recursos do imposto sindical. para que a sociedade pudesse fiscalizar o Executivo. o Lupi não caiu por causa da Dilma. com todos os sindicatos se arregimentando ao governo. E mais: deixou uma raiz. Para ela.

Mas tem sua energia. Porque também não dá para entregar para um petista. do Ulysses [Guimarães. como se fosse um herói calvinista. ex-presidente da Câmara dos Deputados e da Assembleia Nacional Constituinte]. que já existia — não tinha a menor ideia do papel que essa institucionalidade iria ter. na Constituinte]. especialmente o José Afonso da Silva [constitucionalista. Quem o lidera e para onde ele vai? Vai sem projeto. Ele é bem representativo. Esse Eike Batista [presidente do grupo EBX e oitavo homem mais rico do mundo] pode ser considerado uma figura emblemática. Fez uma emenda constitucional. entre 2004 e 2005]. à acumulação. politicamente desarmado. Estava em quem? Parece que foi uma associação entre juristas e [o ex-governador de São Paulo] Mário Covas. Vive para servir à riqueza. é voraz. Como deve ser a sucessão no Ministério do Trabalho? É difícil. Isso não estava na cabeça do Fernando Henrique [Cardoso. Ele é obrigado a fazer reforma. ex-presidente]. não estava na do Lula. O PT no Ministério do Trabalho é um complicador? Acho impossível [a nomeação de um petista]. A presença dessas instituições e do Judiciário na vida política brasileira não foi algo que surgisse daquela intelligentsia e daquela esquerda. ex-secretário de Segurança Pública de 1995 a 1999 e principal assessor jurídico de Covas quando ele era senador. que vem com a agenda prontinha lá daquele fórum de 2004 [o Fórum Nacional do Trabalho]. com uma carga doutrinária sobre o assunto e a defesa da pluralidade sindical. do PT.186 que mais tarde fundaram o PSDB e o PT. O senhor costuma mencionar em suas análises o processo de expansão do capitalismo no país. Tem essa ética. O Berzoini tentou. Não pode entregar a um [Ricardo] Berzoini [ex-ministro do Trabalho. não é um homem de consumo conspícuo. E os homens do agronegócio . com uma vida de monge.

187 também. Página virada. Os militares recorrem sempre à acusação de revanchismo. com estes limites. Os Matarazzo [de São Paulo] tinham uma vida mais aristocrática. O CNJ é importante? Freios e contrapesos fazem parte de uma dinâmica que tem funcionado cada vez mais. E para conhecer as circunstâncias das mortes. seria jogar o país numa crise. em circunstâncias diferentes. à esta altura. Vigorosos. Há determinadas profissões que também têm férias mais extensas. Prerrogativas dos magistrados. . Acho que a gente deve recuperar a história. sem punição. Seu trabalhos sobre judicialização da política são referência. sem ostentação. A [senadora] Kátia Abreu [do PSD de Tocantins e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)] é outra. rasgar a Lei da Anistia. São os novos personagens do capitalismo brasileiro. Você. esse tipo de coisa. como férias de 60 dias. sem fraquezas. são justificáveis? É uma atividade terrível. Cada país fez. não sei para quê. Como o senhor avalia as críticas às tentativas de se podar o Conselho Nacional de Justiça (CNJ)? Isso vai na esteira do mesmo processo de intensificação do mecanismo de controle [das instituições brasileiras]. como aprovado? Isso deve existir. mas o passado passou. A sociedade é que tem que estabelecer isso. escafandristas. A Comissão da Verdade não chega tardiamente? A minha posição não acompanha as posições majoritárias aí na intelligentsia.

As forças derrotadas. na luta política. a luta armada.188 Mas. Por isso ela é menos legítima para reivindicar investigações sobre o período? É politicamente anacrônica. É o que esta Comissão da Verdade está fazendo. Era um outro projeto. as grandes lideranças que nos trouxeram à democracia tiveram muito clara essa questão: anistia real. ela não estava à frente. Os direitos humanos não deveriam estar além do conflito entre projetos à esquerda ou à direita? Os direitos humanos dizem respeito aos vivos. o velho direito de serem enterrados como Antígona [protagonista da tragédia grega de Sófocles] quis enterrar o irmão em solo pátrio. Nos momentos capitais. na Constituinte. vem cá. na luta eleitoral. ou seja. geral e irrestrita. Aos mortos. O país foi para frente. . Tem uma ex-prisioneira política na Presidência da República. querem reabrir esta questão? Não foram elas que nos trouxeram à democracia. Altos dignitários da administração têm a mesma origem que ela.

189 2011 .

) As mudanças de época não chegam ao som de trombetas. que logo se arvorou na pretensiosa ambição de uma pax mercatoria. mal equilibrada. nem sempre desejado por eles. da Irlanda. Aids. ao adotarem uma ética de trabalho e um sistema de vida dominado pelo cálculo e pela poupança. não têm como recorrer a suas instituições nacionais. desprovidos também de voz nos fóruns de deliberação tecnocrática que tomam decisões sobre seus destinos? Por ora. nascidas. Um desses fundamentos residiria no que a reputada filósofa política Nancy Fraser denominou “enquadramento keynesiano-westfaliano”. 77. as discussões acerca da justiça concernentes às relações entre os cidadãos deveriam “submeter-se ao debate dentro dos públicos nacionais e contemplar reparações pelos Estados nacionais” (revista Lua Nova. ao derruimento. então. cujos cidadãos. transpassando-as e se tornando objeto de uma jurisdição internacional. assim como os referidos aos meios de comunicação de massas — não mais estariam contidos apenas em órbitas nacionais.190 Lula. até da Espanha e da Itália. nos dias de hoje. a partir dos anos 1970. alheias aos efeitos que seu movimento teria para a emergência do capitalismo moderno. como uma resposta. sem que os atores envolvidos tenham consciência do papel que desempenham para o seu advento. avançam nas sombras em processos silenciosos e. não só produziu o resultado da crise sistêmica de 2008. Dilma e o repertório keynesiano-westfaliano (10 dez. a cena do nosso mundo. tal como na demonstração clássica de Weber. com frequência. 2009). A globalização. para mencionar alguns casos. mas . As reformas neoliberais. com o processo de globalização. tráfico de drogas. salvo às ruas e praças. As seitas protestantes. meio ambiente. o que se pode dizer é que o enquadramento keynesiano-westfaliano tende. pelo qual. São Paulo. no diagnóstico da época. O que dizer. terrorismo internacional. à crise de acumulação capitalista. estavam movidas pela intenção de render glória a Deus. na suposição de que uma economia liberada de constrangimentos políticos estaria dotada do condão de autorregulação. nesse argumento datado de 2005. de Portugal. da Grécia. teria resultado em que temas cruciais — como reivindicações por redistribuição de recursos econômicos. para reagir às políticas draconianas que os afetam. como também veio a erodir fundamentos sobre os quais ainda se assenta. em regra.

reforçou-se o papel do Estado como instrumento de indução e de planejamento da economia. embora moderado. que foi. com um ajuste fiscal que. trabalham em surdina e ao lado de outros fatores especificamente nacionais. sinaliza inequivocamente uma racionalização da administração pública e da máquina estatal. não à toa com um Ministério do Trabalho sob controle do PDT. o Ministério Público e até a recente Comissão de Ética Pública da Presidência da República. Esses sinais de mudança de época. no jargão da mídia. entre os quais os Tribunais de Contas. ao menos na aparência. pelo já evidente desalinhamento do governo Dilma do de seu antecessor. ausentes da agenda explícita da política brasileira. Nos dois mandatos de Lula. onde ainda ressoavam fortes os ecos da era Vargas. de resto. ao tempo em que se retomavam as aspirações de grandeza nacional do regime militar — o tema westfaliano — e inesperadamente. foram restaurados. em que pese a sua retórica de se apresentar como fiel continuadora das suas linhas de ação. resultou a mobilização desse novo poderoso elenco de instituições que atuam como contrapesos do Poder Executivo na democracia brasileira pós-1988. Desse processo de faxina ética. como ilustra o caso europeu. em que Lula era. com a distribuição de recursos do chamado imposto sindical às centrais sindicais. O governo Dilma iniciou-se diante do aprofundamento da crise econômica internacional de 2008. em especial no segundo. procura responder. como se sabe. em que a destituição do político está dando lugar à administração tecnocrática sob comando do capital financeiro. um estranho no ninho. inteiramente refratária a veleidades carismáticas. os cediços nexos corporativos entre o Estado e os sindicatos. economista de formação. em que seis ministros — Nelson Jobim não entra nessa conta — seriam defenestrados por completa inadequação ao script racionalizador. a que ela. entre outros recursos macroeconômicos. sobretudo dos que dizem respeito à consolidação das instituições democráticas. . um não pequeno abalo nas linhas mestras do presidencialismo de coalizão do seu antecessor. embora. para um governo petista. quando a agenda keynesiana se tornou forte referência na orientação macroeconômica governamental. Desse movimento resultará.191 está fora do horizonte qualquer expectativa de uma jurisdição internacional democrática sobre a economia-mundo. de modo imprevisto.

que deve tornar-se mais próximo de um modelo programático. como a que se exerce sobre os direitos humanos — incluídas aí as liberdades civis e públicas —. ao contrário da prática imperante no governo Lula. pondo sob ameaça a ampla base de sustentação sindical. . sobre questões afetas à Primavera Árabe e ao meio ambiente. Efeito correlato anuncia-se com a provável mutação. que levaram o governo Dilma a uma deriva claramente antiwestfaliana em seu posicionamento. de onde veio o golpe letal que conduziu ao pedido de exoneração do ministro Lupi. Outras mutações nos chegam da jurisdição internacional de certos bens e valores. em janeiro. entre outras. O repertório que serviu a um intérprete não cabe mais no outro. do presidencialismo de coalizão. notoriamente influente na tramitação da votação no Congresso do novo Código Florestal. e o respeitável público parece que começa a dar-se conta disso.192 na verdade. obra-prima de Lula e dos governos do PT. reduzindo o poder discricionário dos partidos aliados na administração dos ministérios que lhes cabiam na partilha dos postos governamentais.

entre outros. tais como. e não o da deliberação na esfera pública entre vontades contrastantes. ou aderem a ele sem apresentar a justificação de princípios que informem suas linhas de ação. da estrutura partidária que aí está — isento de princípios. onde vige o princípio decisionista. por sua vez. a mais crua e melhor tradução desse estado de coisas veio a se manifestar com a criação de mais um partido. sans phrase. de quais poderiam ser os traços dominantes da natureza atual da sua conjuntura deve deslocar-se desse terreno e mirar para outras regiões do social. expressiva figura típico-ideal. dissociados dos interesses e das motivações ideais reinantes na sociedade civil. de tal forma a dimensão da política se encontra rebaixada que quem quiser procurar se acercar. . que vem ao mundo como estuário de apetites mal resolvidos da classe política e sem declinar seu programa. sem atingir o cerne da natureza da política do governo e do seu estilo tecnocrático na condução da administração dos negócios públicos. a não ser sintomaticamente. modernização e moderno (16 nov. fora de propósito considerações em torno de uma ética de convicção.193 Conjuntura. o que vale é manter e expandir sua influência eleitoral. orientadas. nada que registre. os que se originam do pacto federativo. caso até daqueles que se declaram vinculados a uma orientação doutrinária definida. fora da teatralização de pequenos interesses. o Partido Social Democrático (PSD). mas já conta com uma das principais bancadas parlamentares. em meio aos múltiplos e complexos processos que transcorrem no nosso cotidiano. Não à toa. Os partidos oposicionistas. firmemente ancorado no cálculo estratégico dos seus membros e nas suas razões. limitam-se às críticas adjetivas e de caráter procedimental. Os partidos ou se deixam enredar nas malhas do governo por cálculo eleitoral e pelas conveniências das suas necessidades de reprodução política. cuja vocalização e cujo lugar de arbitragem se deslocam para o plano da administração. o PSD pode ser apresentado como o caso mais puro.) Na sociedade brasileira de nossos dias. Nesse sentido. Sob esse registro. da política salarial e das relações entre a indústria e o agronegócio. para fins instrumentais. os antagonismos fortes que atuam sobre ela. Na arena propriamente política.

por que saíram? Se não. a política faz-se representar por seu simulacro. Aqui. tal como se faz indicar pela ampla difusão. a democrático-popular. na medida em que eles são identificados como portadores do sentido da História do Brasil. com suas exigências de autonomia da cidadania diante do Estado e de auto-organização da vida social. volta-se para o passado em busca de soluções. Nele o moderno não se deixava subsumir à modernização. em que um dia de alvoroço provocado por denúncias de malversação de recursos públicos pode ser sucedido pela defenestração. entre nós. as razões que o animavam provinham do campo da política e de uma sociabilidade emergente que começava a experimentar os rumos de uma expressividade autônoma. sobretudo porque. hoje. com os olhos cegos e os ouvidos moucos aos sinais e às vozes que nos vêm tanto das praças do Oriente retardatário como do Ocidente desenvolvido. foi objeto de duras disputas entre o que seria uma via nacional-burguesa e a que lhe seria oposta. os quais. em particular as que gravitam em torno da questão nacional em sua versão desenvolvimentista. Dilma seriam atualizações encarnadas do espírito da Nação rumo aos objetivos de grandeza nacional. E aí se tem o eixo em torno do qual. gravita a conjuntura. por mandato do destino. A dimensão sistêmica da economia estava ali. Se eram inocentes. JK. longe de consistir numa fórmula consensual entre os setores progressistas da sociedade. nos cabe realizar. Pois é esse retorno a temas e soluções que prosperaram. no campo democrático-popular. dos administradores acusados de pesadas irregularidades.194 Sem lugar. nessa cômica mascarada em curso em nome da racionalização e de uma pretensa busca pela primazia da ordem racional legal sobre práticas tradicionalistas. No passado. Vargas. nos tempos de imposição autoritária do capitalismo que tem animado muitas das fabulações dos grandes protagonistas da cena atual. mas era uma entre outras. o dito caminho nacional-desenvolvimentista. o regime militar. por que os aplausos? O ator declina do seu papel e se abandona ao andamento dos fatos. sob aplausos e agradecimentos presidenciais. no circuito da formação da opinião pública. . Lula. do vocabulário afeto à dimensão sistêmica da economia. significando que ele era objeto de uma luta pela hegemonia a decidir que conjunto de forças político-sociais deveria estar à frente na forma da sua imposição.

do Centro Popular de Cultura e tantos outros que souberam. para quem se dispuser a ouvi-los. como os do Cinema Novo. podem dar num bom samba. Há outros disponíveis e que. hoje na ribalta. um desses que se tem gosto de cantar. dar vida à agenda do moderno como lugar de autonomia e de emancipação. Assim. se é para retornar a velhos repertórios. inclusive daqui. à margem do Estado e até das estruturas universitárias. se bem arranjados com os novos sons que nos chegam de toda parte. não há por que adotar o da preferência dessa tecnocracia iluminada. dotados de recursos quase artesanais.195 Aquele foi o tempo de uma refundação cultural liderada por jovens que construíram suas identidades por fora de espaços institucionalizados. das cidades e do campo. quanto aos controles sociais exercidos sobre eles tanto pelas estruturas corporativas sindicais como pelo sistema do coronelismo rural. Também foi o tempo de lutas por emancipação dos setores subalternos. . da Bossa Nova.

postulações de direito material. protegidas constitucionalmente por alguns instrumentos criados com essa finalidade. diante de uma sociedade cada vez mais enredada nas agências estatais e dependente delas. desde o Império. uma denúncia dos males da centralização administrativa. cuja mais incisiva formulação se tornou clássica com a publicação de A Província. A igualdade. que. a centralização e a República (22 out. que nos trouxe de volta a descentralização. acompanha a nossa História. além de fazer girar o pêndulo em favor da descentralização.) Seria de supor que algumas correntes liberais brasileiras. uma vetusta tradição liberal. Nada de surpreendente. A igualdade tem suas urgências e os recursos para atendê-las eram e são escassos. a partir de outros porta-vozes. que ainda ecoa no não menos clássico da nossa bibliografia liberal Os Donos do Poder (1958). ao movimento do pêndulo em direção à centralização administrativa. portanto. comecem a assistir. ao menos as de “casco duro” — para se utilizar de uma expressão jocosa introduzida pelo ex-presidente Lula em nosso vocabulário político —. denúncia que. depois de décadas de vigência do princípio que lhe era oposto. uma vez que no cerne da controvérsia sobre que papel deve desempenhar o Conselho Nacional de Justiça no controle do exercício da magistratura está a antinomia centralização/descentralização. de Raimundo Faoro.196 O pêndulo. vai ressurgir nas lutas contra o autoritarismo político do regime militar e encontrar tradução nas demandas municipalistas dos movimentos políticos e sociais apresentadas ao legislador constituinte de 1988. agora num cenário de democracia política institucionalizada. A Carta de 1988. redigida num tempo em que ainda se ouviam as vozes de Tancredo Neves e de Ulysses Guimarães — “as pessoas vivem nos municípios e não na União” —. em nome da justiça social. encontrava estatuto próprio como um ideal coletivo a ser perseguido por políticas de Estado. pela primeira vez em nossa História. manifestassem alguma relação de empatia com a posição firmada pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB). em 1870. que os tempos subsequentes à promulgação da Carta de 88. . combinava a democracia representativa com a de participação e abrigava. de Tavares Bastos. No caso.

inclusive em suas manifestações eleitorais. porém. mesmo que na ausência de um plano definido. em linha direta. então. que. constatados por dois dos maiores fundadores da teoria social moderna. para não falar das políticas assistenciais do tipo do programa Bolsa-Família. logo que começaram a se emancipar dos controles coercitivos a que estavam sujeitos. como no caso das políticas de educação e de segurança. a centralização não é filha. Com a escora dos fundamentos constitucionais igualitários. entre as quais a de sua política de legitimação. um novo giro em favor das tendências centralizadoras. Seu carro-chefe será o das agências públicas de âmbito nacional.197 Tais efeitos perversos da afirmação da agenda da igualdade não são incomuns. em O 18 Brumário de Luis Bonaparte — de que a asfixiante centralização que tomou conta da sociedade francesa após a Revolução de 1789 — a revolução da igualdade — era um dos seus frutos negativos. em suas lutas por liberdades civis e públicas. convergiram no diagnóstico — o primeiro. como o Sistema Único de Saúde (SUS). . essas pressões se fizeram irresistíveis. abriu passagem para a emergência de uma vigorosa movimentação dos setores subalternos em torno dos seus interesses. Para ambos. Diante da escassez de recursos da Federação e dos imperativos de urgência reclamados pela sociedade. decididamente uma política igualitária de largo alcance. o segundo. A revolução democrática brasileira. todas com baixa ou nenhuma participação ativa da sociedade. Tocqueville e Marx. que. da igualdade. que tomou forma na Carta de 88. mas da falta de República e da livre vida associativa que lhe é própria. Sem ela as postulações por igualdade são interpretadas pelo Estado que as concede à sua discrição e a partir de um cálculo em que suas conveniências são levadas em alta conta. resultou da articulação de uma ampla coalizão política. malgrado a radical diferença existente entre eles. Tal movimentação persistiu ao longo do processo de transição para a democracia e da sua subsequente institucionalização. no sentido de reforçar as postulações por direito material que procediam de várias regiões da vida social. em O Antigo Regime e a Revolução. inicia-se. mantendo a esfera pública sob pressão. que se torna um paradigma dominante em termos de outras políticas sociais.

passando por cima das Corregedorias dos tribunais. mas. tem-se instalado uma estatolatria doce. é muito melhor e mais segura. a Federação cede espaços à União e a sociedade abdica de sua autonomia em favor do Estado.198 De modo quase invisível à percepção imediata. como o demonstra sobejamente a nossa já longa experiência republicana. chamem-se as Forças Armadas. . e sem que sequer se esbocem tentativas de mobilização das corporações profissionais dos operadores do Direito e de setores da sociedade a fim de exigirem exemplar correição. Nessa batida. A tendência à centralização torna-se universal e não poupa nenhuma região da vida social: há problemas de segurança. apele-se ao Conselho Nacional de Justiça. sem sequer se mencionarem os graves problemas tributários. com a sociedade e suas instituições empenhadas na solução dos seus problemas e desafios. A República democrática tem seus custos sociais e políticos e um dos mais elementares deles é o de criar e preservar as condições para a auto-organização do social. embora o Haiti não seja aqui. há corrupção no Judiciário. forma com que nem sempre se chega mais rapidamente ao objetivo. justificada e legitimada por sua destinação social. tidas de antemão como suspicazes.

) Se ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio. com suas crenças ingênuas em mecanismos autocorretores da vida econômica. rolar mais ligeiras. massificam-se os protestos contra o estado de coisas atual. a China como o maior parceiro comercial do País. que parecia refém de suas tradições. se ainda se sustém no seu incontrastável poderio militar. a máscara do seu antecessor. surpreendentemente. sob as novas circunstâncias do mundo. não há por que estranhar as mudanças entre o governo de Lula e o de Dilma. No terreno propriamente da política há outros espantos a varrer noções que pareciam firmemente ancoradas no mundo: as massas dos países árabes são capazes de ouvir outras vozes que não as do fundamentalismo religioso. viga mestra das suas crescentes exportações e do bom estado de suas contas internacionais. jogando por terra convicções e certezas como antes. e ameaçam. uma vez que muitas águas já rolaram. mesmo com sinceridade. para a qual ainda não há remédio sabido. com maior estrondo. como na lição do aforismo de Heráclito de Éfeso. se havia ainda alguma proteção da . Essas são algumas das linhas-força a compor o cenário internacional à frente de Dilma. que. em seu começo de mandato. e um rival temível no interior do seu próprio mercado de bens industrializados. país com menos de 8 milhões de habitantes que levou às ruas quase 500 mil pessoas inconformadas com a alta do custo de vida. Décadas de neoliberalismo. a hegemonia americana. de devaneios político-filosóficos de que se estava no limiar do fim da História. e. perde terreno no front decisivo da economia e se estiola numa cizânia política que dificulta a busca pelos caminhos que levem à sua recuperação. no Egito e por toda parte daquela região. que já encontra. na Europa. como na Tunísia. portanto. cedem diante de nós. pois lá o que ora se impreca em suas ruas e praças é em nome das liberdades civis e públicas. não provêm do Ocidente as ameaças de redução do Brasil às atividades primário-exportadoras. por mais que esta aferre.199 O rio do filósofo e a Dilma (12 set. com sua juventude acossada pela falta de oportunidades de vida. pois a farmacopeia com que se enfrentaram os idos de 2008 parece não ter impedido a recidiva que se faz anunciar. veio abaixo o Muro de Berlim. chegam a Israel — antes aquietado por seus problemas político-militares com sua vizinhança árabe —. Desta vez. Estamos em mais uma crise sistêmica do capitalismo.

mas preferencialmente pelo ministro Gilberto de Carvalho. mas da revolução democrática que envolveu a maior mobilização política. Nesse caso. quatro ministérios já foram espanados no seu governo. suas dificuldades nas relações com a assim chamada base aliada. . em contrapartida. significou apenas uma intervenção necessária diante da sua interpretação do estado de coisas reinante na economia aqui e no mundo? Os sindicatos continuam sendo ouvidos em matérias que lhes dizem respeito. ou. outra perda. dominamos sua linguagem como um idioma que nos é próprio e é a partir dessa posição que nossas credenciais se fazem valer para a interlocução com os grandes do mundo e com os países periféricos. dado à luz quando da controvérsia sobre o valor do salário-mínimo. além de deter as condições de defesa do nosso território e da economia nacional. nostálgica de Lula e de suas artes de contornar problemas difíceis sem perder amigos. Não à toa. ela não nos serve para nada diante da arremetida comercial chinesa. outra nostalgia. que não os ouviu. pela amplitude de massas envolvida e pelo tempo da sua duração. pode-se admitir que a mudança não tenha sido da única responsabilidade dos fatos. Estamos plenamente instalados no Ocidente. veio dela. mais uma banca de negócios do que uma fórmula de compor partidos afins em torno de um programa comum. a navegação de Dilma não tem como reiterar a do seu antecessor. Lula. da História recente do País. Nosso Estado. e são seus princípios fundamentais a fraternidade. desconfortável com a presença deles no interior do governo. a esta altura. a dignidade da pessoa e os direitos humanos. agora. como nós. notórias. assim como está visto que sua vocação para a gestão na administração pública e seu estilo político orientado para a racionalização se têm mostrado pouco aptos a assimilar as práticas nada republicanas vigentes no nosso arremedo de presidencialismo de coalizão. que não é filha do acaso. que anseiam por mudanças no destino dos seus povos. logo no início do mandato da presidente. só acessível por interposta pessoa.200 “Linha Maginot” herdada da cultura terceiro-mundista. Mas. pode falar em nome da sua Carta Constitucional de 1988. uma vez que a presidente Dilma também foi influente no resultado. e nas relações com os sindicatos? O novo sinal. Nestas novas águas.

em épocas de crise é comum redescobrir a serventia da autonomia política do Estado. o Estado vai ser desocupado dessa multidão tumultuada de classes e frações de classe com interesses divergentes entre si que tiveram assento no seu interior. . em meio a uma crise sistêmica do capitalismo. nem todos poderão ganhar por estarem ao abrigo protetor do Estado. tabu da política brasileira desde o longo ciclo FHC-Lula. pouco mais à frente. porque é a sorte da inflação. pois o tempo de Dilma anuncia que. um governo que abarcava todos e em que ninguém perdia. em nome da racionalização da economia. Sem maior alarde. Como se entregar à prática do piloto anterior. o inevitável desenlace para a votação do Código Florestal nos fará conhecer qual perdedor? À vista de todos. desmancha-se a obra-prima de Lula. que trama de suspense nos prepara.201 O rio é sempre cada vez mais outro. A lição é clássica. que não lhe conhece as suas novas manhas e não pode pôr as mãos no leme do barco? Essa recente decisão da queda da taxa de juros — novela que promete alongar-se e da qual só assistimos ao primeiro capítulo —. que está em jogo? E.

em vez de gravitar em torno de valores culturais. O capital. ora vencedor. Este pós-2008 é diverso dos acontecimentos dos idos de maio de 1968. poderá sair renovado da crise atual. mas o preço da sua reprodução parece exigir algo bem além de uma retomada do experimento keynesiano. A matéria é outra: é econômica. desde o setembro negro de 2008 o mundo parece estar fora dos seus eixos. Marx seria um pensador prisioneiro das circunstâncias do século 19 e da filosofia da história de Hegel. pondo em xeque hegemonias. Os custos de uma saída para os ciclos . na sua teoria do materialismo histórico. pois.202 Quando o passado deixa de iluminar o futuro (27 ago. quando identificou o processo de subsunção da economia real ao sistema financeiro como o foco de crises especulativas que o ameaçariam persistentemente de colapso. moedas. O seu tema dominante não é o dos libertários que. assentava o primado da instância econômica na determinação da vida social. não sendo capazes de explicar a natureza do nosso tempo. conquistas sociais e políticas. Estamos bem longe da queda do Muro e. A queda do Muro de Berlim significaria a demonstração fática de que o augúrio de tantos afinal encontrava a sua confirmação: na melhor das possibilidades.) Não foram poucas as vezes em que a obra de Marx e a herança do seu pensamento foram declaradas como peremptas e anacrônicas. falta de emprego e de oportunidades de vida. vítima dos mecanismos da intermediação financeira. jamais teria conseguido romper. bradavam que “é proibido proibir”. tem o seu epicentro na natureza do sistema capitalista e nas dificuldades que enfrenta para a sua reprodução ampliada. que condenou Marx ao anacronismo. em 1968. apesar do diagnóstico. O capitalismo. e o papel dos seus filósofos de ontem tem encontrado o seu equivalente funcional nos economistas de hoje e nos comentaristas versados na crítica da sociabilidade. mais uma vez. com a qual. Sobretudo estaria por terra o princípio que. apesar dos seus esforços. cujo desenvolvimento o levou a seus estudos sobre o capitalismo em sua obra maior. Não há observador qualificado da cena contemporânea que se recuse à hipótese de que estamos diante de uma mudança epocal. trata-se de uma crise que. sem deixar de incluí-los.

muito particularmente pela convivência que se soube criar entre diferentes etnias e religiões. portanto. O desenvolvimento político e social seria sucedâneo do sucesso no front econômico. Como disse um grande autor. quando se podia conceber a transferência da tocha da civilização de um Estado para outro. como dizem os economistas. A linguagem da modernização foi e segue sendo a da economia. passando por JK e pelo regime militar. bem ou mal. Nossas credenciais têm. E o que ainda nos falta é um projeto de nação que se afirme de baixo para cima. de comunidade. nos pode excluir ou subalternizar a nossa presença nos fóruns de .203 depressivos se tornam cada vez mais pesados e já importam a necessidade de uma inédita ordenação do sistema financeiro em escala mundial. O tempo é de riscos e de novos rumos. todas protegidas constitucionalmente. que está a exigir um novo repertório. rompendo com décadas de modernização pelas vias do pragmatismo. com o pé no acelerador. um duplo registro: o das ideias e o dos interesses. que. definitivamente. Estamos longe dos tempos de Hegel. em que a tradição do nosso processo de modernização não nos serve para o enfrentamento da crise atual. tem resistido aos avanços da mercantilização da vida social. e pelo fato capital dos nossos êxitos no processo de modernização. na História de um povo há momentos em que o passado deixa de iluminar o futuro. a China não parece ser o lugar mais adequado para o seu novo endereço. a novos patamares de acumulação. com seus valores de paz. e do alto da nossa História bemsucedida. de Vargas a Lula. uma vez que o antigo. sempre em busca de ajustamento ao mundo. A nova época que se abre diante de nós. com que se justificava uma política de tutela das associações dos trabalhadores e o autoritarismo político que confiava às elites na chefia do Estado a missão de nos conduzir. que nos levaria a uma tentativa de fuga solitária. Aqui. também pode ser a da oportunidade para a política e para a reconstituição do tecido social. do extremo Ocidente onde nos situamos. como agora. esgarçado depois de décadas de exposição nua aos automatismos do mercado. tudo o mais devendo ceder lugar a ela e aos imperativos de luta contra o tempo na superação do atraso de suas forças produtivas. se imediatamente promete ser de escassez e de destruição criadora de ativos. com a efetivação de mecanismos de cooperação internacional que a todos obrigue. e. estamos dotados de condições para o exercício de voz nos desafios ora presentes no mundo.

tênues. como na liberação de poderes públicos capturados. como na metáfora de Tocqueville. lugar do interesse público e da universalização de direitos. da presidente Dilma com líderes e importantes personalidades da oposição. inclusive no cenário internacional.204 cooperação internacional de onde deve sair uma nova engenharia para a operação da economia-mundo. Tal repertório é o do moderno. em São Paulo. aqui e ali se distinguem riscas de luz. por meio de uma intermediação política não republicana. e no encontro. com uma radical desprivatização do Estado. especialmente os de origem subalterna. Ainda imersos em trevas. é verdade. da democracia como um valor universal. o autor há pouco citado. por interesses privados. Aí podem estar sinais de que a estratégia da presidente estaria considerando a possibilidade de fazer frente à crise com a política do moderno. . e da afirmação. estimulada a autonomia dos seres sociais e o adensamento da sua participação na esfera pública.

uma vez que. até mesmo para aqueles que. Vidas secas. Aquele foi um tempo crispado. podem ser lembrados O pagador de promessas. preconizavam medidas em favor da modernização da produção agrícola. e o marcante documentário Cabra marcado para morrer. O observador. abertas ou veladas. Deus e o diabo na terra do sol. personagem adestrado secularmente a exercer formas coercitivas. de Glauber Rocha. é boa testemunha de como o mundo do campo e os seus personagens estavam presentes na imaginação e na fabulação dos brasileiros daquela geração. estava na reforma do estatuto da propriedade da terra. até pela razão de que obras cinematográficas. que não só interditaria a criação efetiva de um campesinato no País. de conflitos agônicos. quando a sociedade se dividiu de alto a baixo em torno de iniciativas legislativas afetas à questão da terra. de controle social em suas propriedades sobre seus trabalhadores e dependentes.) É de chamar a atenção a dimensão que um tema agrário. O ponto de partida. A filmografia da época. cenário bem distante de tempos idos. diante do silêncio indiferente das ruas. a questão nacional e os sindicatos (13 jul. partidos políticos e movimentos sociais. estava em jogo tirar de cena o senhoriato agrário. porém. uma vez que a oposição entre ruralistas e ambientalistas está confinada ao circuito fechado do processo legislativo em que se decide sobre os rumos de um novo Código Florestal. como preservaria as elites patrimoniais do campo. deve estar atento para separar o joio do trigo. intelectuais e artistas. está a exercer no quadro atual da disposição das forças sociais e políticas no País. em que a linguagem das revoluções se fez presente. de Nelson Pereira dos Santos. por sua natureza de indústria.205 Os agrários. envolveu atores do campo e da cidade. de Eduardo Coutinho. de Anselmo Duarte. liberando energias utópicas e a promessa de um novo começo para a História do País. como Ignácio Rangel. num país já esmagadoramente urbano e orientado para os fins da modernização há décadas. Entre outros. de Leon Hirszman. . A mobilização em torno da questão agrária. no contexto dos anos 50 e 60. nos anos 1950 e 1960. se direcionam a amplas audiências. abolindo-se a cláusula do exclusivo agrário. São Bernardo. na verdade. para um programa de mudanças sociais e políticas.

O tema havia perdido a capacidade de universalização e os seus novos protagonistas. contra as promessas de ambos em favor de uma reforma agrária. apesar da excitação retórica de alguns debates parlamentares. Com efeito. a questão agrária voltou à ribalta na controvérsia sobre que tipo de propriedade seria passível de desapropriação para fins de uma reforma do seu estatuto. foram domesticados conflitos que antes estiveram no limiar de conhecer desenlaces dramáticos. no favorecimento do agronegócio e em ambiciosos planos de colonização na fronteira. nestas duas últimas décadas. em detrimento das atividades industriais. a própria inversão de papéis no contencioso agrário de agora é o melhor indicador do novo estado de coisas reinante: a iniciativa política passou para as mãos da grande propriedade. desde os inícios da sua imposição. a modernização do campo. Em quase duas décadas de governo de estilo social-democrata. vinham sendo detentoras desse lugar na imaginação social brasileira. especialmente nas suas correntes de esquerda. que. ao tema agrário. que se faz representar como portador do interesse geral. durante algum tempo.206 Não por acaso. tal como sustentam defensores do novo Código Florestal. de outra parte. consiste numa forte evidência de como e quanto. com a criação do Estatuto da Terra. sem a estridência e o alcance de antes. garante da expansão da economia e da boa saúde das contas externas do País. mais do que exprimir a sua vitalidade econômica já traduz a sua importância política. em especial após a convocação da Assembleia Nacional Constituinte. A partir da democratização do País. e a institucionalização de um sistema previdenciário para o trabalho rural. desde os anos 1930. enquanto. sob a forma com que nos retorna no projeto atual de reforma do Código Florestal. dessa vez. se iria empenhar em políticas de modernização da produção agrícola. cujas atitudes radicais prometiam nos devolver aos anos 1950. Com tais registros históricos anteriores. foram insulados. Tal reviravolta. em particular do agronegócio. o regime militar aplicou-se. mas. apesar de este último ter conquistado. a ala do PT sucedendo à do PSDB. o tema especificamente agrário. a simpatia de largos segmentos da opinião pública. enveredou na trilha aberta pelo regime militar . com o resultado inesperado de promover o agronegócio a uma posição de centralidade na chamada questão nacional. em 1964. como a União Democrática Ruralista (UDR) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

ressurreta. não é nada trivial. O caminho de eleição da modernização do País. o sindicalismo dos trabalhadores da indústria. Não à toa. no governo Dilma Rousseff. a pasta dos Transportes — não afeta. cerne. que ainda no Império repeliu a acusação de atividade artificial com que a tachavam publicistas do porte de Tavares Bastos. foi o da indústria. O governo do PT instalou seus próceres e os partidos que os representam no núcleo estratégico do seu Ministério. à cota destinada às elites agrárias. para eles. metalúrgicos à frente. ao contrário do que se supunha. Tal repactuação entre as elites. nossa indústria natural. com a admissão dos agrários no núcleo duro do poder. e por pouco um dos empresários mais bem-sucedidos do setor não veio a ocupar. por tradição. . de forma imprevista e com novos portadores. a questão nacional.207 de favorecimento do agronegócio. já incorpora à sua agenda específica de reivindicações o tema da defesa do nosso parque industrial. de Getúlio Vargas ao regime militar. do que deveria estar na base de uma política democrática de desenvolvimento. Em outro cenário. em nome da defesa do que seria a vocação agrária do País. está aí.

A decisão sobre matéria altamente sensível. tardia. consiste num exemplo. se fez. a reação da sociedade. razão por que a origem da síndrome da patologia deveria ser buscada no legislador. a entrevista Novo ambiente não permite que Dilma repita Lula. Não há outra tradução possível: o chamado terceiro Poder. que as manteve — para se continuar flertando com a linguagem da sociologia de Durkheim — em antagonismo com práticas sociais emergentes. do estado de coisas reinante nas relações entre os Poderes republicanos. significou um reconhecimento de que as regras vigentes do Direito estavam aquém dos costumes já socialmente vigentes. sempre acusado de deter um insanável déficit democrático por não ser ungido pelo voto.º 132. especialmente dos seus círculos mais influentes.208 A judicialização da política e a política (18 maio) A partir daqui. Na verdade. O caso da recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre os direitos dos parceiros nas uniões homoafetivas. à falta de um. bem ao contrário. Paulo. até mesmo por suas óbvias ressonâncias religiosas. reunidas pela identidade do objeto de que tratavam. a primeira ajuizada pelo procurador-geral da República. saudada como a expressão. por critérios hermenêuticos próprios à sua corporação. o . inacessíveis aos leigos —. diante de um quadro de injustiça. a direta de inconstitucionalidade (Adin) n. longe de ser recebida pela opinião pública e pelos principais partidos como uma manifestação patológica de nossas instituições republicanas. a segunda por um personagem institucional do Poder Executivo. quando o vértice do Judiciário. foi. todos os artigos foram originalmente publicados em O Estado de S. Veja-se. numa decisão colegiada unânime. aliás. também. entre tantos. de legislador substitutivo.277 e a da arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF) n. O quadro ainda se torna mais intricado quando são identificados os autores das ações agora levadas a julgamento pelo STF. do justo.º 4. que inaugura a série de artigos no Estadão. provocado pela discriminação exercida contra cidadãos por motivo de sua orientação sexual. A moderna sociedade brasileira é indevassável para um observador que não atente ou se recuse à perspectiva de estudá-la a partir das relações instituídas entre o seu direito e a sua política. produziu lei nova com base na sua interpretação de textos constitucionais — isto é.

de modo algum. que veio a reparar uma situação de injustiça. A opção . Vale dizer. à formação prévia da opinião tanto no âmbito parlamentar quanto no da sociedade civil. com a ultrapassagem do Legislativo pelo Executivo com seu uso abusivo das medidas provisórias sem que se satisfaça. Nesse circuito perverso. nas matérias públicas relevantes para os rumos da sociedade. criar a legislação que conceda eficácia e plena inteligibilidade à inovação. retrata bem o crescente desprestígio da atividade parlamentar — fato anotado. Impõe-se daí a conclusão de que o Legislativo foi ultrapassado por uma intervenção que combinou. a cláusula de emergência prevista na Constituição. e se reduz a cidadania a uma massa de clientes. A estrutura atual do sistema político não é. o Executivo e o Judiciário. que articula o vértice do Executivo. indiferente a esse processo. O episódio. subtrai-se. assim. agora. Por sua vez. conferindo. revestindo-se de um caráter decisionista a ser chancelado ex post pela maioria parlamentar. apesar do seu desenlace feliz. Deve igualmente ser registrado que tal decisão judicial foi acolhida por importantes autoridades do governo federal que se posicionaram publicamente de modo favorável a ela. a maioria parlamentar se faz garantir pelas características peculiares ao nosso presidencialismo de coalizão. sob a mediação de parlamentares governistas que desfrutam acesso aos recursos públicos e influência entre os agentes responsáveis pelas políticas públicas. declaradas como justas pela via judicial. paradoxalmente. A tomada de decisões. em tom de lamento. na verdade. legitimidade a esse caminho. ao Legislativo. que surge.209 governador do Estado do Rio de Janeiro. membro de um importante partido da coalizão governamental. reforça-se a dissociação entre representantes e representados. ações dos demais Poderes. no caso concreto do reconhecimento legal da união estável para casais do mesmo sexo está manifesta a intenção do Executivo de um importante Estado da Federação de recorrer à judicialização da política. às bases locais que garantem a sua reprodução política. de práticas institucionais das democracias ocidentais no segundo pós-guerra a fim de conter a vontade majoritária e de abrir passagem para direitos que ela não patrocinava ou embargava. em grande parte dos casos. Cabe. por alguns ministros da Suprema Corte no dia do julgamento. retardatário no atendimento de demandas procedentes da vida social. obviamente de modo não concertado.

por natureza. a via por onde avança. deliberado no interior dos seus aparelhos. pavimenta. o resultado final da operação não pode deixar de confirmar o diagnóstico negativo. por sua vez. . o moderno é apanágio do Executivo. dado a público por modelagem iliberal decisionista. que não se estabelece em torno de afinidades programáticas entre os partidos — cancela a antinomia entre moderno e atraso na política brasileira. cabendo aos procedimentos do presidencialismo de coalizão. O estreitamento da esfera pública. a judicialização da política. Nessa construção. nos níveis em que atualmente a praticamos. uma vez que.210 paroxística pela governabilidade — marca do nosso presidencialismo de coalizão. por meio de provocação da sociedade ou até de setores governamentais. A equação se fecha: justifica-se o decisionismo pelo baixo nível da cultura cívica da população. que. quando for institucionalmente necessário. compensando-se os setores eventualmente contrariados. uma fruta que somente medra aqui. induzindo a que. ela inibe a autonomia dos cidadãos sobre os quais atua. traduzi-lo à linguagem da democracia representativa. arrisca se tornar mais um caso de jabuticaba. a agenda do moderno ceda a interesses e a concepções do mundo retardatários. com o Legislativo desancorado de um processo de formação da opinião na sociedade civil. no Poder Legislativo.

segurança e educação — para não mencionar o Conselho Nacional de Justiça. abre possibilidades para a democracia participativa. ali no Oriente. Essa é uma revolução da sociedade civil. . particularmente no Egito.) Os sinais são muito fortes para serem ignorados: há um novo estado de coisas no mundo que se realiza como que por detrás dos atores. e se orienta pelo princípio da descentralização administrativa. conquanto seja evidente. No Brasil. como. desde as lutas contra o regime militar. a da Comuna de Paris no longínquo 1871. sem partidos estruturados verticalmente e homens providenciais. de todo um novo repertório. O levante democrático-popular que varre a margem árabe do Mediterrâneo e se espraia pelo Oriente Médio dá início a uma nova época. como instância federal de regulação da magistratura —. criado em 2004. mal disfarçada pelo nosso presidencialismo dito de coalizão. decerto tumultuadas. Dessa feita. a democracia como valor universal vem ganhando a dimensão que lhe faltava. Trata-se. na análise e nos termos de Tocqueville. experimenta-se a internalização desse repertório. Contudo. do que são exemplares as políticas públicas de saúde. a par de instituir amplas liberdades civis e públicas. com quem este texto vinha flertando até aqui. o plano institucional e o da imaginação e o da prática política não vêm guardando entre si relações de homologia.211 A política e seus sinais (14 mar. Com o seu desenlace ainda envolto em névoas. a seu tempo e na sua circunstância. no plano do agir político. enquanto a Constituição. pode e deve procurar dirigir. assistimos a um impulso crescente rumo à centralização administrativa. sobretudo na forma consagrada pelas instituições da Carta de 88. facultando até a intervenção da sociedade no controle de constitucionalidade das leis. que vai conhecer pelo muito caminho que ainda tem pela frente. independente das peripécias. a presença de instituições modernas na emergência da rebelião popular. não pode ser denunciada como portadora de ameaças potenciais à liberdade porque ela é feita também em seu nome. a revolução da igualdade. sem dúvida. e à centralização política. movido por um processo irresistível que a ação humana. condenando ao anacronismo as fórmulas prisioneiras das circunstâncias e da cultura do século do qual estamos nos afastando em passo acelerado. Assim. de ciência sabida já se pode dizer que. embora não tenha mais como barrar.

não fariam falta à política de hoje em razão de um diagnóstico não confessado.212 A essa forma de presidencialismo. como o PSDB e o PT. mas observado pela classe política e suas adjacências: com o Plano Real. Imaginação e coragem criativa. malgrado os intelectuais de declaradas vocações teóricas que integraram seus governos — em alguns casos. Sem a animação que os partidos poderiam emprestar à política. deve-se o resultado de um Executivo que se impõe como poder hegemônico diante do Legislativo. tanto nos mandatos de FHC como nos de Lula. originariamente contestadores do patrimonialismo e de suas práticas a fim de realizar suas aspirações de poder. A recente campanha presidencial é a melhor ilustração da aceitação desse diagnóstico — os dois principais candidatos se limitaram a disputar quem seria o autor do próximo capítulo a garantir continuidade ao enredo dessa história virtuosa. contudo. como referência republicana a ser preservada. herdeira envergonhada de muitas das tradições do nosso autoritarismo político — não à toa viceja tão bem entre nós —. e as políticas de inclusão social de Lula. vive-se uma política que desconhece os termos da sua justificação. o Brasil como que teria chegado ao fim da sua história. inclusive em matéria sindical. consensualmente reconhecidas. Ora denuncia-se a era Vargas como carga obsoleta a ser jogada ao mar. . ora reabilita-se acriticamente a sua obra. ao domínio da razão tecnocrática e ao pragmatismo instrumental. Sob a égide do pragmatismo. ela se curva. o pragmatismo arrisca se desprender dos limites de uma ética de responsabilidade para se acanhar em uma política que sequer cogita da sua justificação. Nessa batida. de FHC. sem que se anunciem os fundamentos dessa operação. se associam a personagens do atraso político e social em nome de ampliar suas coalizões e da governabilidade. diante de uma sociedade imobilizada politicamente. Partidos de extração moderna. uma vez que adotou como seu o rumo que lhe é indicado pelo regime dos ventos. rebaixado ao papel de caudatário na iniciativa das leis. afora a cenografia dedicada à contemplação dos que se encontram à margem dos círculos do poder.

especialmente a multidão de adolescentes. para além das celebridades dos camarotes e dos desfiles das escolas de samba. se e quando movimentos como o MST romperem com o anacronismo da sua orientação e se renderem ao espírito da época. a articulação entre atraso e moderno. modernizou e democratizou de fato a economia e a estrutura social do país. às vezes pequenos sinais também podem ser úteis à observação. nesse carnaval que passou. moderando-se os impulsos de reforma e desconfiando-se da imaginação.213 Mal comparando. ainda mal comparando. quando a política de conciliação entre conservadores e liberais — nos dias de hoje. No Rio de Janeiro. fora do circuito oficial. o fato a registrar está nos jovens dos blocos de rua. Em política. como nas décadas do segundo reinado. . na política. estaríamos. Mas o longo ciclo de FHC a Lula. base do nosso presidencialismo de coalizão — apresentou-se como o percurso ideal para se perseguir os fins civilizatórios das elites da época. onde não tinham como entrar. que. em particular as que são portadas pelos trabalhadores e seus sindicatos e as que poderão provir do mundo agrário. postos em permanente comunicação por meio de celulares e do Twitter. fizeram uma festa para si. se preservou os elementos recessivos e anacrônicos da nossa política. importando com isso novas exigências a serem satisfeitas.

migrando para o Poder Judiciário por meio de uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) a ser impetrada por eles no Supremo Tribunal Federal. a se confiar nas declarações transcritas pelos jornais de líderes políticos da oposição. os contestadores do controle de constitucionalidade das leis por parte do Judiciário desconsideram outra robusta tradição republicana. tudo indica. onde foi objeto de acordo. entre tantos. sobretudo. Agora. Como se vê. Na leitura dos partidos minoritários. que mudará de arena. do assim chamado processo de judicialização da política.214 O salário-mínimo e a judicialização da política (28 fev. o Tertius constitucional. A matéria dessa ação não diria respeito aos aspectos substantivos — o valor do saláriomínimo —. na moderna democracia brasileira. inciso IV. em 2007. tal delegação significaria uma usurpação de poder do Legislativo em favor do Executivo. ganhou o Parlamento. não levam em conta a inequívoca vontade do legislador constituinte brasileiro de abrigar esse instituto no sentido de proteger sua obra de eventuais . a fixação do mínimo conforme fórmula prevista nesse novo diploma legal. e sim aos procedimentais. a da revolução americana. A maioria defende a constitucionalidade da nova lei. Mas. que trouxe consigo a sua institucionalização. sustentando que os futuros decretos presidenciais sobre o valor do mínimo apenas cumpririam a vontade já expressa do legislador.) A controvérsia sobre o salário-mínimo escapou dos gabinetes palacianos. mediante decreto. e por pouco não atingiu as ruas. no seu artigo 7º. Mais um caso. uma vez que o artigo 3º da lei aprovada delega ao Executivo. vindo contra disposições expressas da Constituição. nos próximos três anos. submetida à votação nas duas Casas congressuais. deslocando-se do plano econômico-corporativo para o político-institucional. que teria fixado como princípio dogmático o império da vontade majoritária. dispõe que o salário-mínimo deve ser fixado por lei. que. Além do fato de que esse princípio não foi consensual entre os revolucionários franceses. entre o governo Lula e as centrais sindicais. quando passa a admitir a arbitragem do Judiciário. recurso hostilizado por alguns em nome de presumidas filiações ao republicanismo da Revolução Francesa de 1789. a controvérsia imprevistamente mudou de forma.

uma opinião isolada. diante de um Judiciário autônomo das instâncias do poder e de franquia. às sucessivas tentativas dos parlamentares que combatiam aquele odioso sistema. ameaças de guerra civil. do nazifascismo e com a convicção. sabe-se lá por quanto mais tempo. 10). em uma solução típica de judicialização da política. Como se sabe. Como anota um conhecido especialista no assunto. Certamente este é o caso do ilustre presidente do Senado. sentenciando “que as questões políticas devem ser resolvidas dentro do Parlamento” (Valor. garantida constitucionalmente. que. não por acaso.215 mutilações. sem dúvida. onde agora se alastra o levante de povos inteiros contra regimes autocráticos. filha da soberania popular. das liberdades civis e públicas. p. A propósito. embora a questão em tela esteja longe de ser bem encaminhada com soluções ao gosto do senso comum. a ascensão do nazismo ao poder transitou sob a chancela do princípio do voto . na Alemanha de 1933. que. como se verificou. nessa outra margem do Mediterrâneo. José Sarney. de que um sistema de poder com as características desumanas daquele não deveria se repetir. na conjuntura da época. vigem mecanismos institucionais que permitam a seus cidadãos exercer o controle de constitucionalidade das leis? A floração do constitucionalismo democrático nos países de sistema da civil law. em 1945. coincide. e as associações empresariais e de trabalhadores. então generalizada na opinião pública internacional. merecendo ser ouvida. 25/02/2011. ao criticar a iniciativa da oposição. a segregação racial nos Estados Unidos poderia ter resistido. Notório que. atores originários da sociedade civil. Essa não é. criou um ambiente de paz nas relações raciais daquela sociedade. respaldada por uma teoria democrática que admite. foi o Judiciário quem cortou o nó górdio daquele litígio com suas evidentes. entre outros. diante dos impasses e das divisões reinantes no sistema político americano. como intérpretes da Constituição. com a derrota. A emprestar alcance universal ao que preconiza essa declaração. como os partidos. o ex-presidente da república sob cujo mandato foi elaborada e promulgada a Carta de 1988. declarou que “chamarmos o Supremo como uma terceira via é uma coisa que deforma o regime democrático”. a judicialização da política somente encontra campo para sua manifestação em países de regime político democrático.

tem sede na própria ação do legislador que. firmada pela ONU em 1948. só na aparência trivial. e. o PT. com a emergência.216 majoritário. produz leis com cláusulas de caráter aberto e indeterminado. em escala mundial. A partir daí. de que o instituto das ações de controle de inconstitucionalidade “pegou” no Brasil: são cerca de 200 Adins ao ano. do fenômeno da judicialização da política. não passíveis de derrogação por eventuais expressões da vontade majoritária. e. admitindo o juiz no papel de legislador implícito. materiais e procedimentais. por imperativos da complexidade das sociedades contemporâneas. aliás. quando na oposição foi um dos grandes campeões na sua propositura. Mas esse é apenas um dos aspectos das atuais mutações por que passam as relações entre os poderes republicanos. como tais. constituindo o que alguns denominam o núcleo dogmático das constituições. decisivo. . hoje partido no governo. as democracias ocidentais passaram a positivar em suas constituições determinados valores. Outro. E mais tantos outros. sob a inspiração da Declaração de Direitos Humanos. inclusive o fato.

De outra parte. mas com fundadas esperanças. no solo do Oriente. o país. A democracia como valor universal. antes um santuário da tradição. em parte articulada via internet. demonstra estar à altura dos desafios do nosso tempo. consiste em um indicativo de que a conclusão do processo em curso não deve se desviar do seu impulso original. começa a encontrar. Contudo. Para a América Latina. o alcance dessas mudanças no cenário internacional não é de pouca monta. planta exótica de guetos de esquerda ocidentais. se aprofundam no Egito e se irradiam pelo Oriente Médio são a marca visível de uma mudança de época. agora. se encontra altamente credenciado para ampliar sua presença nas democracias que venham a emergir. salvo para os militantes de um pessimismo mal intencionado. como se espera. igualmente situado na periferia do Ocidente desenvolvido. com ela e suas instituições. sempre afirmando rumos democráticos. expressão de uma política de mudanças sociais contínuas. em que a presença ativa da multidão. persistentes entre nós. e o Brasil em particular. que se sucedem em escala progressiva. constituída por uma imensa rede subterrânea de organizações. a presidente Dilma já navega em mares novos para os quais têm pouca serventia as rotas singradas por seu antecessor. e. apartando de modo irreparável o mundo tal como o conhecemos até então desse novo continente do qual nos aproximamos entre brumas. naquela região. a obra já feita. As grandes transformações que ora convulsionam o Magreb. por mais fiel que pretenda ser a ele.217 Mares nunca dantes navegados (21 fev. principalmente aos observadores estrangeiros a eles. aí claramente compreendidos os direitos sociais. intervém diretamente na luta por um estado democrático de direito. as lições que nos vêm do Oriente põem em evidência a natureza anacrônica das tendências. mais uma vez.) Ainda não passados dois meses do seu governo. A força dos acontecimentos. não permite. Nasce ali uma revolução da sociedade civil. A Carta de 88. de confiar ao Estado e às suas . previsões confiáveis sobre o seu desfecho. terreno fértil para seu florescimento.

fora do Estado. vindo a imprimir nele os traços simplificados de um Estado burguês moderno. A política econômica. Restou-lhe. mediante sua direta arbitragem pessoal. Assim. do interior do Estado para ganharem “as ruas e o parlamento”.218 burocracias. adversários internos. talvez por pouco tempo. querendo ou não. . uma posição combalida no Ministério do Trabalho. a uma queda de braços com o sindicalismo. ao contrário do governo Lula. em nome da racionalização e da gestão eficiente. como Lula insinuava que fossem. A esse movimento. pela primeira vez em oito anos. e que levou um governo do PT. o papel de condutores da modernização. como anota um sindicalista. a carga pesada de conflitos com que Lula sobrecarregou seu governo e sua forma de Estado. em uma regressão à era Vargas. provavelmente. provavelmente destinados a procurar o mesmo caminho. Dilma é levada a abandonar a forma de Estado barroca. Nessa disputa. mais uma prova está na atual controvérsia sobre o salário-mínimo. à margem da sociedade civil e de suas organizações. não conhecerá. sobretudo os que gravitam em torno da questão agrária. A racionalização da administração e da economia. De que o mar por onde transita o governo Dilma não estava no mapa do governo anterior. que Lula adotou em seu segundo mandato. suas demandas e os eventuais conflitos nelas envolvidos escapam. mas política: o sindicalismo foi posto no seu lugar. ora tramitando no parlamento. para onde aponta a bússola de Dilma. não lhes diz respeito na qualidade de interlocutor institucional. uma das importantes peças de sustentação do modelo Lula de governar. que certamente não encontrarão uma solução consensual. tornada viável por sua política de contemplar a todos. devem se seguir outros. estavam em jogo apenas trinta moedinhas de 50 centavos. como se constatou. O sindicalismo desprendido do centro de decisões do Estado terá que aprender a fazer um caminho de volta. Sob o governo Dilma. a derrota do sindicalismo não foi de natureza econômica — afinal. está dito e sacramentado por votação amplamente majoritária na Câmara Federal. devolvido à cena mercantil. em que seu crescimento dependa da sua capacidade de acumular forças próprias em suas bases sociais e na sociedade civil. Sem os sindicatos. como alardeava um parlamentar de origem sindical —. como anunciam as controvérsias sobre o novo Código Florestal. começa a ser aliviada.

lenta. centrado na estadofilia. e embora o Estado deva seguir no papel de dirigente quanto aos rumos da economia. entre tantos. expressão do cientista político José Murilo de Carvalho.219 Ela deve obedecer. no governo Dilma-Palocci. tudo indica que estão contados os dias de capitalismo orientado. à lógica sistêmica. os processos que se sucedem após a emancipação das favelas cariocas dos laços que as subordinavam à cultura da violência do crime organizado e aos setores do aparelho policial a ele associados. Se esta não é uma boa hora para os partidos. mas progressivamente. começa a cortar vínculos com seu passado e com o imaginário. inclusive a que ora germina nos seus setores subalternos. do que pode ser um exemplo. ainda que lhe falte um projeto para tal. qual será? . diante de novas circunstâncias externas e internas. a ordem burguesa brasileira. Compelida a se ajustar ao mundo. Em particular nas novas sendas que se abrem para uma maior projeção da sua sociedade civil. que nele predominou.

da construção da moderna ordem capitalista brasileira. não há nada de imprevisto nisso.220 Os sindicatos e o Estado (14 fev. A tutela de que eram objeto se fazia compensar não só pela legislação de amparo ao trabalho. embora de modo inteiramente subordinado. em 1937. sob a forma autoritária com que foi concebido e realizado. muito particularmente nas lutas pela criação das indústrias da siderurgia e do petróleo. Pela Carta de 1937. mas também por meio de forte manipulação simbólica. por várias razões. A primeira delas é a de que eles sempre fizeram parte. E. não apenas como base passiva do seu desenvolvimento. defendidas pelo Ministério do Trabalho e pelo recémcriado aparato do judiciário trabalhista. aos sindicatos delegaram-se papéis de caráter público. figura da fórmula corporativa com que as elites estatais davam curso à sua empreitada de nos trazer “por cima” o moderno e a modernização. consagrada pela Carta de 1988. eles foram expostos a ela. em 1943. a regulação pela lei dos sindicatos e dos direitos trabalhistas. mas como protagonistas de momentos determinantes da sua história. mais recentemente. narrar a conquista da democracia política. em lugar estratégico. teve como um dos seus pontos de partida. com a sua conversão em agências paraestatais. de algum modo. em especial após a institucionalização do Estado Novo. O empreendimento para as tarefas da modernização do país. instalando-se um culto oficial de consagração do trabalho e do trabalhador. convertendo-os em correias de transmissão da vontade do Estado às massas dos trabalhadores. sem se deter na história dos metalúrgicos do ABC e do sindicalismo da época. e. pela CLT. O fato é que esse tipo de construção tornou-os mais próximos da dimensão do público do que da de mercado. Não se pode contar os episódios da montagem da indústria de base sem a participação política dos sindicatos. como é largamente sabido. vai se instalar no seu DNA institucional. o sindicalismo perdeu autonomia. que deviam se alinhar “ao pensamento dos interesses da Nação”.) Os sindicatos estão retornando às páginas políticas. . consolidados. Era mais do que uma frase denominar o Ministério do Trabalho como o “ministério da Revolução”. e esse traço. O paradoxo da situação foi o de que. Com essas marcas institucionais. ao se interditar a política aos sindicatos.

mas. o retorno à vida dos sindicatos não virá da política. contudo. em que se notabilizou. onde estava instalado em algumas posições-chave. mas de suas ações no mercado. ambos contrários ao princípio da unicidade. notadamente no sistema previdenciário. com a legislação que disciplina sobre as centrais . porém. e.221 Findo o Estado Novo. de um lado. Goulart chegou a ser acusado de pretender instalar uma república sindicalista no país. ao caracterizar as suas propostas de reformas. naquela nova circunstância de liberdades civis e de avanços nas liberdades públicas. entre elas a sindical e a trabalhista. com base em um duplo movimento: agindo no campo propriamente sindical. ao menos como movimento tático e circunstancial. a partir de suas intervenções no interior do Estado. Tal orientação política do sindicalismo. se consolida. apesar das vizinhanças doutrinárias entre o PT e o PSDB em matéria da legislação sindical. Naquele contexto desfavorável. Sob a presidência de João Goulart. que já não dispunham. “sem a ganga autoritária”. dirigente do PTB. no dizer de um jurista de então. Tal mudança de posições. o PT. de outro. dos partidos que antes as apoiavam. que alterou minimamente a legislação. igualmente por razões instrumentais. sob a liderança de Lula. que o PT herdou das lutas sindicais do ABC. no mundo da política. o sindicalismo do ABC. no primeiro mandato presidencial de Lula. começa a se inverter a relação entre sindicatos e Estado: eles passam a invadir. Na oposição ao governo de FHC. atuavam amparados por partidos. o sindicalismo inicia uma fase de crescentes postulações por autonomia diante dos controles exercidos sobre ele. como atentatórias a direitos dos trabalhadores. levando com eles suas políticas. a Carta de 1946 preservou. O regime militar. todos dissolvidos por ato discricionário. o sistema construído para tutelá-los. se não foi abandonada. alguns ocupando posições influentes no aparato estatal. baniu a presença dos trabalhadores do interior do Estado e exerceu cerrado controle das atividades sindicais. que contestava a legislação da CLT em nome da autonomia dos trabalhadores. foi deixada em segundo plano nos dois mandatos de FHC. as linhas mestras da legislação anterior. da necessidade da sua permanência. Nessas ações. começa a deslizar da sua denúncia da CLT para uma admissão implícita.

e as disputas sobre o valor a ser estipulado não têm o seu valor de face. Inclusive porque. as práticas e os quadros com origens e motivações diversas das que vieram à luz com a emergência do sindicalismo do ABC. que entendem que o governo Dilma lhes recusa. tem aí suas origens. partido governante. ora contrapondo sindicatos ao governo. quem declinou de sua proposta de reforma sindical. sem resistência. do que em qualquer outro momento da sua história. em 2007. agora. A questão do mínimo salarial. serem enviadas de volta ao mundo do mercado e ao prosaico cotidiano sindical. das próprias negociações que culminaram com a atual regulação do saláriomínimo. Com isso. como no caso. de uma perspectiva puramente sindical. reavivada por sua prática nos oito anos de governo Lula. em nada sugere que aceitem. reabilitando-se. no curso do governo Lula. estão mais fortes. a que se acrescenta a abertura do Estado à sua participação. Sua memória de tempos idos. que sinalizava para outros caminhos. .222 sindicais. O que as centrais querem é o seu lugar de volta no interior do Estado. e também porque foi o próprio PT. o sindicalismo se unifica.

que tentava fazer chegar a ele um documento com algumas reivindicações. Ou. evento que culminou com o fuzilamento pela guarda imperial de centenas de manifestantes. na Tunísia. desencadeada a partir de uma corriqueira ação repressiva contra pequenos negociantes do comércio informal. que levou um deles. Revoluções não se fabricam. o jovem Mohamed Bouazizi. de uma boa parte das chancelarias ocidentais. evento dramático que se iniciou a partir de uma manifestação pacífica. concedia-lhes a aparência de estabilidade. com os acontecimentos. cujo impulso irradiou-se pela costa africana do Mediterrâneo e pelo Oriente Médio. e são. tentar conduzi-los para a mesma direção dos processos que elas desencadeiam. levando a um levante indignado da população contra seu governo. à falta de políticas adequadas. como. A longevidade da maior parte dos regimes.223 A Tunísia. tal como no caso da revolução russa de 1905. salvo. um clérigo convicto da magnanimidade do czar Nicolau II. mais uma vez. que. somente agora. testemunham os regimes autocráticos do norte da África e do Oriente Médio. para lembrar velhas lições. não foram capazes de sentir os sucessivos pequenos abalos que anunciavam as grandes convulsões que ora os abalam. . pelo que ora se constata. toda uma região em posição estratégica na geopolítica do mundo possa se converter em um bastião do fundamentalismo islâmico. daí a surpresa da opinião pública mundial e. a se imolar em praça pública. entregues à inércia intelectual e com seus interesses confortavelmente instalados e protegidos por regimes anacrônicos. Seu estopim pode ser um incidente ingênuo e não desejado. por terem desconhecido canais institucionais de expressão dos seus conflitos. na melhor das hipóteses. o Egito e nós (7 fev. agora por terra ou sitiados por esses levantes populares. Os estadistas do Ocidente. como agora. cujas repercussões para os destinos da região e da ordem mundial são imprevisíveis.) Fora de disputa que os regimes políticos fechados consistem no terreno mais fecundo para a emergência das revoluções. que lhes chegam como catástrofes naturais e com a fúria de elementos irresistíveis contra os quais nada pode a força humana. Surpresa que já se traduz no temor de que. liderada pelo padre Gregori Gapone. mais próprias dos principados do que das repúblicas.

que devem ser buscadas as origens da atual movimentação. nessa esfera pública submersa. É aí. ali no Oriente. não só os meios usados para os fins de concertar ações comuns têm vindo de recursos modernos da internet. a sua escala e seu tempo de duração constituem a melhor indicação de que. pois. A forma da sublevação popular. embora nessas sociedades inexistisse uma esfera pública diferenciada do poder político. rondam aí ameaças sombrias para uma nova escalada do fundamentalismo religioso. caracteristicamente retardatárias do ponto de vista econômico. se dão conta dos equívocos de suas avaliações sobre o efetivo estado de coisas da região. ainda a carecer de não pouco aperfeiçoamento. pressionando-os no sentido de que mobilizem seus recursos institucionais em favor de uma alternativa democrática que livre aquela imensa e complexa região dos abismos da guerra civil e dos demônios que ela pode liberar. apesar dos inúmeros sinais animadores emitidos em favor da democracia política e da democratização social. constituída. sistema de vida e de organização política a que aderimos quando derrotamos o regime autocrático nos idos dos anos 1980. com a maioria da população subsistindo na informalidade. em boa parte. reclamando uma posição ativa dos governantes. Essas ameaças afetam a todos. Tratase da defesa da democracia. joga uma cartada decisiva no tabuleiro do mundo. por setores das classes médias sem lugar no mercado de trabalho e no sistema político formal. germinava a formação de uma esfera pública informal e subterrânea. e não deve haver neutralidade em relação a elas. que em meio a sociedades a que faltavam partidos e sindicatos fortes. contestatória dos seus regimes e dotada da capacidade de estabelecer um sistema eficiente de comunicação entre seus participantes. do que é exemplo a doutrina do pan-arabismo. nem tudo está por fazer nesses países.224 depois de muito leite derramado. que contam com uma rica tradição política em suas histórias de luta contra o colonialismo e em favor da democratização social e da modernização econômica. Constatou-se. Contudo. como suas bandeiras e propósitos são igualmente modernos. formulada sob o governo de Gamal Abdel Nasser nos anos . em particular nas suas demandas por liberdades civis e públicas. a democracia. igualmente. Ao contrário do que muitos alegam. como sistema de governo e como caminho estratégico de mudança social. Exorcizá-las implica participar do movimento da opinião pública internacional.

Aquele foi um tempo de forte mobilização. conduzida por forças e ideais seculares. que se demonstrou capaz de conformar uma esfera pública submersa. conta com a oportunidade de ressurgir a partir de baixo. como as da corporação militar e as dos partidos de esquerda. além de local. o presidente Jânio Quadros flertou abertamente com ela. de alcance universal. já tem uma história que ora amadurece velozmente com a sua vigorosa participação nas lutas pelas liberdades e pela democracia. Ela. que. longe de gelatinosa. a institucionalização de uma esfera pública democrática? Se isso ocorrer. A política de não-alinhamento com as potências polares da Guerra Fria — União Soviética e Estados Unidos — adotada por Nasser ganhou mundo. Aqui. também animada por valores das religiões. naquele teatro de operações onde transcorre um drama. as melhores expectativas se depositam no reconhecimento de que há. então influente na região. No seu curto governo. será capaz de animar. mais um ponto para a teoria que admite as vantagens do atraso na passagem para o moderno. inclusive. tal como ocorreu na democratização brasileira. uma sociedade civil que. de tão longe. nessas novas circunstâncias. ou até mesmo promover.225 1950. combinando um nacionalismo-desenvolvimentista avant la lettre com a tópica do socialismo. .

Essa postura favorável ao governo do mundo sindical. não contavam. Anote-se que a pesada qualificação — política nefasta —. embora tenha sido o de Lula que. condenou ao veto qualquer aumento acima do teto de R$ 540. essas importantes distinções doutrinárias são canceladas. convocado pelo governo com a intenção de promover uma profunda reforma na legislação sindical. Com Lula. quando não ao próprio governo. usada por um deles. no entanto. os sindicatos praticamente se limitavam a manter uma postura solidária ao governo de um ex-sindicalista sempre pronto à interlocução com eles. A própria retórica encrespada de que fazem uso importantes dirigentes sindicais em defesa de suas posições indica que as tensões contidas nessa matéria não são triviais. para levá-las a interferir na arena política. base de sustentação de uma legislação que nos acompanha desde o Estado Novo. contudo. foi destinada ao governo Dilma. uma pista para elucidar um novo estado de coisas no sindicalismo. nestes últimos dias de janeiro. mesmo que o desejassem. com essa controvérsia sobre o valor do salário-mínimo. menos ainda. em seus últimos dias. talvez. Em 2004.) Os primeiros cem dias consistem na marca cabalística a partir dos quais a imprensa sonda os sinais premonitórios a anunciar o caráter de governos novos. já se sabe que algo mudou no estilo e na forma das relações do governo com os sindicatos na passagem de bastão de Lula a Dilma. conhecia uma zona de sombra: historicamente o PT e seus dirigentes sindicais eram defensores do pluralismo sindical. Nos primeiros tempos. quer. enquanto que a maioria dos sindicatos propugnava pela manutenção do modelo da unicidade. com condições propícias a fim de mobilizar suas categorias. depois dos resultados frustrantes do Fórum Sindical. uma vez que. diante de uma quadra desfavorável ao mundo trabalho como era aquela.226 Os sindicatos e a política (31 jan. quadro político originário do sindicalismo metalúrgico. vários representantes da vida sindical vão ser alçados a postos influentes em várias agências estatais. quer em torno de suas demandas. O que fará as vezes de uma reforma terá o seu sentido original invertido: reforçam-se os vértices da . Aí. No caso que se apresenta diante de nós. talvez um tempo mais curto possa bastar porque.

como o da quebra do encanto. parecem insinuar as centrais sindicais. a novidade é a de que o programa do governo Dilma de racionalização da economia e da administração. no país. inclusive em matéria econômica. como atestam vários indicadores. A fórmula atual que preside o reajuste do salário-mínimo é filha dessa conjuntura particular. atou ainda mais os vínculos entre ele e os sindicatos. cada vez mais influentes nos rumos da administração. um mercado de trabalho de pleno (ou quase) emprego. reza consensualmente a bibliografia. estejam tão presentes os sinais de que essa controvérsia é mais política do que propriamente salarial. estaria optando por um caminho adverso a uma estratégia de crescimento. que. o número de trabalhadores a eles filiados e significativas conquistas salariais. e não à toa. inclusive concedendolhes acesso a recursos extraídos do chamado imposto sindical. suscetibilizadas em razão de se sentirem ultrapassadas na tomada de uma decisão que as afetaria. um momento de reafirmação. resultado oposto à proposta dos próceres sindicais da CUT e do PT. Na matéria. incorporando-se as centrais à estrutura da CLT. entre outros efeitos — inclusive os benéficos — que já está a produzir. combinado com economia aquecida e amplas liberdades civis e públicas. consiste no ambiente ótimo . ao longo de 2005. No mais. fragilizou politicamente o governo. a mais adequada. na questão salarial e na da elevação dos juros. nas negociações ainda em curso entre governo e as centrais sobre a questão do mínimo salarial. entre eles. para o momento atual. em sua avaliação. com base em sua interpretação do estado de coisas reinante no país e no mundo. tão celebrado nos governos de Lula. o sindicalismo passa a ocupar um papel relevante no governo. entre governo e sindicatos. O sindicalismo vive. traz.227 vida sindical. agora. do que é melhor exemplo as boas relações entre as antigas rivais CUT e Força Sindical. Unificado em torno de princípios de organização. também os não desejados. de desfecho ainda imprevisível. e não as suas bases. como o enfrentamento da crise mundial de 2008 teria demonstrado. A crise do “mensalão”. quando as centrais contestam a proposta do governo. entre os quais a expansão dos sindicatos. estar-se-ia diante de um retrocesso na orientação econômica do governo que. Assim. com as diferentes centrais atuando de modo concertado.

Além do Estado. de fato. Sem que se esqueça que há várias centrais em competição. a um tempo fáticas e institucionais. ao contrário daquelas linhas frouxas que as demarcavam no segundo mandato de Lula. como já se ouve dos sindicatos.228 para sua floração. . cada qual vigiada por todas as outras. que ora se apresta. A partidarização das centrais. dotando os primeiros de recursos próprios. Sob essas condições. O sindicalismo poderá continuar a ter assento em posições influentes no governo e em suas agências. como no caso das centrais brasileiras. mas na gestão dura da administração e da economia. trouxe uma mutação benigna na forma sindical na medida em que obstou uma comunicação direta entre sindicato e Estado — entre eles há os partidos. política e sindical. crescentes dificuldades devem pavimentar o rumo de suas relações. há o parlamento e as ruas. é equívoco concebê-las no papel de correias de transmissão da vontade do Estado nos moldes da Carta estadonovista de 1937. Em particular. se estão expostos a uma dura competição entre si. o aprofundamento da racionalização do capitalismo brasileiro. Por definição. como se pode entrever nesse pequeno episódio do mínimo salarial. Sua dimensão claramente malévola está em outro lugar: na distância que ela propicia entre os vértices sindicais e as suas bases. não terá como evitar a determinação de fronteiras mais nítidas a separarem o campo da política do campo da economia.

Esses foram tempos de silêncio do mundo sindical. em suas movimentações classistas deveriam considerar o estado de coisas reinante na economia e na correlação de forças políticas do país. mantinha uma posição doutrinária adversa à legislação da era Vargas. Tamanha responsabilidade. quando exercia o papel de principal partido da oposição. embora tenham assistido a uma expressiva ocupação por parte de sindicalistas de posições no interior da máquina estatal. acrescentava. . era para ser compartilhada pelos sindicatos que. a política econômica do ciclo PSDB/PT não foi contestada pelo sindicalismo nos oito anos do governo Lula. o cálculo político não poderia se ausentar de suas decisões. Os dois primeiros anos do governo Lula foram especialmente difíceis para o conjunto de forças que o apoiavam. com ele. em sua avaliação. à medida que significaram uma evidente continuidade com os rumos macroeconômicos da administração que sucedia. uma pedra no caminho: o PT. desde suas origens no movimento sindical do ABC.229 Dilma e os sindicatos (24 jan. fiel a essa política. em particular os sindicatos. denunciada como nociva aos trabalhadores pelo PT. o governo convoca um amplo Fórum Sindical com a proposta de converter seu programa sindical em realidade. uma vez que havia um governo de novo tipo a ser defendido. nos idos de 2003. Um indicador dessa espécie de concordata implícita entre governo e sindicatos está na radical queda das ações de contestação junto ao Judiciário de medidas legislativas de iniciativa governamental — de passagem. o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou as principais lideranças sindicais do país para dizer-lhes que. registre-se que esse foi um tempo em que se produziram várias leis favoráveis aos trabalhadores —. Com efeito. para não se mencionar a baixa incidência de greves durante o período. De fato. se iniciava a experiência inédita de um governo dos trabalhadores. por fas ou por nefas. Havia. que. Em suma. obstaculizavam o caminho para a conquista de um sindicalismo efetivamente livre de vínculos com o Estado e representativo da vontade do seu corpo associativo. algumas delas de importância estratégica.) Logo em seus primeiros dias de governo. em 2004. que o levava a questionar duramente dois dos seus pilares: o sindicato único por categoria e o chamado imposto sindical. contudo.

registrando-se um salto entre 2009 e 2010 da ordem de 7. se esboçam. e o será em escala inédita na nossa história republicana. Daí que o atual contencioso entre as centrais sindicais e o governo Dilma extravasa o campo prosaico das demandas salariais e se torna uma questão caracteristicamente política. no curso dos anos de 2000 a 2010. metalúrgicos de montadoras e petroleiros). foi retirada. tendem a evocar os anos de governo João Goulart. Ainda tateantes. diante de uma cerrada oposição de outras correntes do sindicalismo. e. que. De outra parte. mais que isso. reforçados por sua inscrição no interior do governo e das agências estatais. quando conspiravam contra ele tanto a reestruturação do sistema produtivo quanto o baixo crescimento da economia. a partir da controvérsia sobre o valor do salário-mínimo. novas relações entre governo e sindicatos que. houve um aumento expressivo da massa salarial. analisando os reajustes salariais de quatro estratégicas categorias de trabalhadores (bancários. exibe dados em que se constatam ganhos salariais bem acima da inflação. além de legitimadas pela legislação. quando as centrais pretendiam exercer poder de veto quanto a iniciativas governamentais que não contassem com sua prévia aprovação. em particular. Dilma estaria . passam a receber uma parcela do que for arrecadado pelo imposto sindical. no caso. A mesma matéria. uma vez que ameaça afetar o seu programa de governo a partir da sua própria estrutura interna. nos últimos cinco anos. em duas categorias. a conjuntura sindical se encontra informada por variáveis favoráveis ao mundo do trabalho que repercutem positivamente em sua capacidade de organização. Os vértices sindicais ganham. assim. maior autonomia operacional e recursos próprios para a sustentação de suas atividades. Oportuna e bem documentada matéria do Valor (19/1/2011) demonstra que. químicos. põe sob risco sua orientação de promover uma gestão sob a bandeira da racionalização da administração e da economia em nome de suas políticas sociais e de expansão das atividades produtivas.6%. Substantivamente.230 Tal proposta. tradicionalmente bem organizadas. ao contrário do que ocorria. a antiga formatação da CLT se faz ampliar com a incorporação a ela das centrais sindicais. poucos anos atrás. de certo modo o sindicalismo é governo nos mandatos de Lula. Doutrinariamente unido em torno do modelo da CLT.

ou vão fazer política no Parlamento. recomeçou”. mas parece que o governo que inicia quer implantar a agenda econômica que foi derrotada nas últimas eleições por privilegiar o capital especulativo” (o mesmo “Boletim”. “que recomeçou. para além da questão salarial. é puramente retórico: o candidato Serra sempre se mostrou inequivocamente contrário à política de juros do Banco Central. . na verdade. como Lula parecia anuir ou lhes fazia imaginar.231 contrariando o estilo de Lula. No caso. nota dada a público pela Força Sindical não foge das palavras fortes: “É incrível. nas ruas e nos sindicatos. 21/1/2011). as centrais parece que se insurgem — talvez principalmente — contra o fechamento dos canais de negociação que Lula mantinha com elas (ver “Boletim Eletrônico da Agência Sindical” de 20/1/2011). que não as levava a público antes de torná-las minimamente consensuais entre suas forças principais de sustentação. em frase pouco enigmática. O argumento. estão é declarando em alto e bom som que ou são reinstaladas no governo pela presidente Dilma. como se sabe. As centrais. Como disse um sindicalista. O tema recente da elevação da taxa de juros por decisão do Banco Central sinaliza para a mesma direção. Sobre esse tema sensível.

ainda se fez reforçar com a criação. algumas mudanças na posição relativa de alguns . Os oito anos da presidência Lula se caracterizaram pela incorporação ao Estado e à sua máquina governamental de representações de classes e categorias sociais. em 2003. contudo. Tal construção. uma vez que. tanto das elites financeiras. As que tratam do tempo.) Previsões falham. Ademais. Sob essa modelagem. seriam submetidos à arbitragem do chefe do Executivo. com o qual se instituiu um parlamento paralelo. considerado como um intérprete privilegiado do interesse público. o curso dos acontecimentos pode apresentar resultados inesperados até para o ator que procurou intervir consciente e racionalmente sobre eles. ressalve-se. como atividade social generalizada. não tem como imprimir continuidade a esse modelo e ao estilo de governo do seu antecessor. sendo conduzida para o interior do Estado e de suas agências. dependia da reconhecida capacidade de Lula nas artes da negociação e se fazia escorar na legitimação do seu governo pelos sortilégios do carisma. O governo Dilma. por suas características pessoais e pelas novas circunstâncias reinantes no mundo. em que se tentou emprestar à dimensão dos interesses uma vocalização que prescindiria da política e dos partidos. que evocava antigas práticas e instituições da era Vargas. como a história não nega. do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. que se demonstram acertadas. quanto daquelas com origem no mundo do trabalho e na multiplicidade dos movimentos sociais. o campo da política convertido em monopólio seu. composto por aquelas representações. Há. de estilo corporativo.232 Política sem sombra e água fresca (17 jan. por meio da ação humana. retornaria à cena pública brasileira logo que se cumprissem os efeitos da transmissão do mandato de Lula ao seu sucessor. mas ninguém atentaria para elas se nunca se confirmassem. estão cada vez mais precisas. a explicitação dos interesses devia contornar o campo da sociedade civil. embora não se possa dizer o mesmo das que têm como objeto os fenômenos da política. Nos casos de conflitos entre eles. da indústria e dos serviços. previsões nessa matéria. amparadas em refinados métodos dos serviços meteorológicos. Tal formatação. e um modesto e recente exemplo delas foi a de que a política.

Talvez um dos maiores exemplos disso se encontre no mundo sindical. a essa altura com a questão ambiental bafejada pelos 20% de votos da Marina e pela tragédia que se abateu sobre as cidades serranas do Estado do Rio. forte indicação de que suas controvérsias com o atual governo sobre o valor do salário-mínimo transcendem uma simples querela sobre matéria salarial. parte delas fruto de políticas levadas a cabo pelo próprio Lula.233 atores. vale notar que a emergência desses partidos. De outra parte. começa a dar sinais de exaustão — os conflitos de interesses já ameaçam escapar do interior do Estado e migrar para o espaço aberto da sociedade. informa o noticiário político. fez retirar da sua agenda imediata os temas das reformas — tributária. se se considera a sua crescente projeção no mundo sindical. Carlos Lupi. além de ancorada em uma representação parlamentar que integra a coalizão governista. como as que foram apresentadas por ocasião do Fórum Sindical. até há pouco apendiculares à coalizão governamental. previdenciária e trabalhista —. esses e outros emitindo sinais de que aspiram por um tipo de poder que as práticas da mera fisiologia não satisfazem. a presidente. devem o seu crescimento ao lugar que ocuparam à sombra de Lula. ou postergadas para momentos mais propícios. política. A Força Sindical. Mas. em 2004. tendem a escassear a sombra e água fresca. alguns partidos. Na verdade. elas já admitem a hipótese de que o modelo Lula de fazer política. encorparam a sua representação. caso tanto do PSB como do PDT. partido do atual ministro do Trabalho. e a agitação política desses primeiros dias de Dilma é um sintoma do que vem por aí. em que. caso do PR. Sondando riscos no horizonte. sem a presença do seu idealizador. De passagem. sem Lula. e não à capacidade de encantamento dos seus programas e/ou do seu enraizamento capilar na vida social. alteraram a cena anterior. e de suas concessões ao sindicalismo corporativo tradicional. quando possível. que serão fatiadas. tal como a inclusão das centrais sindicais no rol das entidades a serem contempladas com os recursos extraídos do chamado imposto sindical. além de tantos outros. a partir da abdicação do PT de suas posições reformadoras. conta em seus quadros com importantes militantes vinculados ao PDT. quando esquentar de fato a disputa pela presidência da Câmara Federal e pela tramitação do Código Florestal. . deu-se o fortalecimento de correntes rivais à CUT. o primeiro deles com óbvias ambições presidenciais da sua principal liderança.

e sim para gerir. mas. quem sabe até dando a conhecer novos partidos. e cabe a seus autênticos portadores zelar por eles. abrigaria todos os interesses em pé de igualdade no interior do Estado. O nome do novo tempo é racionalização. em particular se a democracia brasileira afinal reagir. a política volta. já entenderam isso. Não importa que a tomada desse rumo tenha sido ou não planejada. O tempo ainda é curto para que se saiba para onde vai o seu governo. e com eles. Os interesses são devolvidos às suas instâncias de origem. política de resultados e não de manipulação simbólica — a ordem burguesa a ser consolidada por Dilma deverá ser implacável com a metafísica que. porque fora dela terão muita dificuldade de sobreviver. de algum modo.234 Ao contrário dos tempos de Lula. talvez surpreendidas. Até por eles. desde logo. está claro: ela não veio para arbitrar. como as centrais sindicais. Os partidos que cresceram à sua sombra. inclusive porque há poderosos constrangimentos sistêmicos a reclamar a mesma direção. Essa bem pode ser a porta de reingresso da política no nosso mundo. mais e melhor com menos. estão percebendo agora. perdedores serão selecionados. como se espera. em nome de uma suposta comunidade nacional. . contra essa aberrante legislação político-eleitoral que aí está.

mais do que uma emanação dos seus dotes carismáticos — perfeitamente. o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. mas somente para deixar patente. Nessa versão. designado por ato da presidente ungida pelo voto popular e empossada segundo os ritos republicanos. como nos adverte a plenos pulmões a canção de Cazuza. que seria o de realizar todos os efeitos de uma sucessão. já não é mais noite e ainda não é dia. Mas. nesse passo e a seu modo. Fantasmagorias à parte. ao abrir. sob a suspeita de que a sua passagem nessa sucessão seria fictícia. e o tempo das repúblicas com suas instituições profanas abertas à participação dos cidadãos é inimigo dos mistérios. como que congela na expectativa de ressurgir em seu fluxo em 2014. pois o secretário-geral da Presidência da República. residiria no fato misterioso dele ser capaz de encarnar o seu povo. “uma transmissão de direitos e/ou encargos segundo certas normas”. e já às voltas com a difícil tarefa de abrigar no seu interior a vasta coalizão política que conduziu a presidente Dilma Rousseff à vitória eleitoral. fenômeno místico que. o caminho para a sucessão. no caso de uma eventual necessidade de reverter um placar adverso. aliás. achou oportuno recordar a todos que havia um Pelé. logo a seguir. nas palavras de um dicionário. o tempo não para. bem mais que isso.) Começo da segunda semana de janeiro de 2011. na forma da lei. uma vez que os direitos e os encargos nela envolvidos não deteriam a capacidade de serem transmissíveis. O tempo. Com essa declaração. argumento com que a coluna. acompanha um recente artigo do cientista político Rubem Barboza Filho. por definição. compatível com as instituições republicanas —. e. Assim. as repúblicas não conhecem. Lula efetivamente reverenciou a forma e o cerimonial republicano. de converter os quadros selecionados dessa coalizão em uma equipe capaz de dar conta do que vem por aí. que a fonte real de sua força política. circunstancialmente fora do jogo. . implícito que direitos e encargos não poderiam ser transmitidos pela razão substantiva de já fazerem parte do próprio corpo do soberano. o decurso do tempo hesita em cumprir seu destino. isto é.235 O que há de novo (10 jan. temos governo novo. a ser prontamente mobilizado.

como o demonstra fartamente nossa experiência republicana recente. De passagem. registre-se que o senso comum predominante na imprensa sobre o PMDB como um partido destituído de valores. Essa questão. A vice-presidência. como notório. Para além das naturais dificuldades de administração dos conflitos em torno da alocação de cargos entre os partidos que compõem sua base de sustentação. Porque há outro: no já longo histórico desse partido não se conhecem senões quanto à sua adesão aos princípios e práticas garantidores das liberdades civis e públicas. insinuam-se outras. com a agravante de que uma delas. partido da coalizão governamental que ora ocupa o Ministério do Trabalho. e a sua ocupação por Michel Temer. não é uma função sem préstimos. um dos pontos altos no discurso de posse de Dilma. da sua atual presença na política brasileira. aliás. outros partidos da coalizão. mais intrincadas. uma vez que seu principal aliado entre os partidos está firmemente ancorado por quatro anos na própria estrutura constitucional de comando da República. dado que traz consigo a ameaça de trincar o até então seguro dispositivo sindical de apoio ao governo. compor o PT com o PMDB vai consistir em um desafio não somente pela disputa de cargos nas agências governamentais como também em torno de políticas. a Força Sindical. exprime apenas um aspecto parcial. um hierarca do PMDB. restrito às práticas fisiológicas. aí incluído um senador do PT. significam uma relevante mudança quanto à forma do governo anterior. 08/01/11). Paulo Paim. uma vez que não envolve um litígio entre categorias profissionais — ela é de natureza política. se encontra. mais a forte representação congressual desse partido. embora significativo. No rastro dessa controvérsia. em boa parte. tal como na controvérsia sobre a fixação do montante do salário-mínimo. vinculada ao PDT. influente em matéria sindical. só na aparência de pequeno alcance. contrapondo partidos e centrais sindicais à política econômica do governo Dilma.236 Sabe-se de ciência certa que. sem a reconhecida capacidade de negociação do expresidente Lula. porém. ameaçam o governo de acompanhar esse movimento de dissidência no interior da base . não é uma questão sindical em sentido estrito. matéria que povoa a pauta da imprensa. bem analisado em artigo de Rosiska Darcy de Oliveira (O Globo.

demandariam uma política de contenção dos gastos governamentais. se veem afetados os rumos para o enfrentamento de temas estratégicos para o governo. a coalizão governamental nos descaminhos “do toma lá. E quando políticas públicas. preconizam que haverá “porta de saída” nos programas assistenciais. reiteração das circunstâncias do governo anterior. Não há. como as agora anunciadas. imperativa pela razão de que as obrigações mútuas entre PT e PMDB ou se assentam no terreno do bem público. um compromisso de governo de Dilma. pois é da natureza das sociedades capitalistas. segundo vários dos seus porta-vozes. mas tudo é quase novo. ou farão naufragar. para não falar dos seus programas de desenvolvimento econômico. da previdência e da preservação da política de estabilidade. . Alguns personagens são os mesmos. por motivos. decerto que muitos ainda com os olhos pregados no retrovisor. dá cá”. fazer dissolver no ar tudo que antes parecia se revestir de uma aparência sólida. como os do orçamento. pouco republicanos.237 governista. pois. Assim. diga-se. É nova a entrada em cena da tópica republicana. ela só pode ser a de entrada na República. que. em meio a uma crise institucional. como dizia um filósofo. Alguns deles. Imperativa também porque esse é o único sentido para a libertação de contextos como o do Complexo do Alemão do controle que padecem sob o império do crime organizado.

um mandato da Providência. como se cumprisse. Temos conhecido várias formas de manifestação desses tempos da política. jabuti não sobe em árvore. em que seguimos em marcha quase lenta. a política ficaria como que subsumida ao lento andamento das estruturas. Bastava isso para interromper a rota aprazível. condenando as ações do ator. que evitou atravessar aquele Rubicão que mudaria o seu destino e o da República. a uma mera e estéril agitação. que não saberia interpretá-lo e agir de acordo com ele. A decisão. no entanto. continha. As sombras que anuviavam as vésperas da posse de Dilma. e que devem acompanhar o início do seu governo. diante de um presidente . embora arraste os caminhos da vida inexoravelmente para uma dada direção. Evidente que os ensaios para o terceiro mandato não povoavam apenas a imaginação de Lula. Ora. Projetos de emenda constitucional andaram sendo apresentados. diria Tocqueville. Esse tempo de média duração. o seu tempo se encurta. O terceiro mandato somente poderia se justificar em nome de um novo começo para o governo do PT. da “Carta aos brasileiros”. e o transcurso do seu enredo passa a depender da vontade e da capacidade de ação dos atores envolvidos em sua trama.) A política conhece muitos tempos. um retorno à pureza das origens perdida com o que teria sido o passo malfadado. mas obrigatório. inequivocamente coube a ele. compartilhados por vários do seu entorno. uma forte possibilidade de ser subvertido: a proposta de uma emenda constitucional que viesse a dispor sobre a possibilidade de um terceiro mandato para Lula. até essa forma que se tornou presente nesses 16 anos de governos do PSDB e do PT. para sermos devolvidos à política de conflitos agonísticos de um passado recente. como sabido. Ora exerce seus efeitos na longa duração. e. Sob o primado desse tempo. contrariamente. em que ator e estruturas como que se ajustam entre si em favor da obra continuada de consolidação e aprofundamento do capitalismo no país.238 Dilma e os tempos da política (3 jan. porém. desde a lentidão paquidérmica do 2º Reinado às repentinas acelerações dos anos 1950/60 — exemplar os 50 anos em 5 de JK —. em sua própria avaliação. que já se projeta por mais quatro anos no mandato presidencial de Dilma. com tempos previsíveis e calculáveis. em que o movimento que ela ativa é quase imperceptível à observação.

reclamando que imponha logo e com precisão os rumos do seu governo. a começar pelas políticas públicas destinadas à saúde e à educação. E daí. . um terceiro mandato por interposta pessoa? Ou um gabinete das sombras. confrontado pela necessidade de eliminar os ruídos que ainda lhe chegam dos tempos em que a tentação do terceiro mandato parecia atraente e de eventuais remorsos pela decisão que o recusou. ficam para trás veleidades de uma política de modernização pelo alto. afinal. uma candidata em cuja campanha se empenharia. sequer cogitada. que sempre ronda a nossa história republicana com a sua tradição de autoritarismo político. arredia como é à expressividade própria ao carisma. algum modo. na preparação de um retorno triunfal na próxima sucessão? Se um terceiro mandato para Lula somente faria sentido se implicasse um giro radical em favor de uma ética de convicção orientada para os fins de uma política tida.239 resplandecente de popularidade. como justa e desejável. sua recusa a esse caminho não concede a Dilma senão o da ética da responsabilidade. provêm do drama pessoal e político que terminou pelo ato de vontade de Lula ao recusar o atalho que tinha à sua frente. assim. A opção de Lula foi a de escolher. catástrofes nacionais. O governo de Dilma se vê. como se candidato fosse. Dado que seu mandato está de. Uma alternativa seria a de confiar os destinos da política ao seu partido. de antemão pode-se avaliar que a aceleração do tempo não será mobilizada como recurso político. Tudo indica que. Algo dessas marcas está aí presente nesse momento do seu nascimento. entre os quadros de confiança do seu governo. pela sua vitória eleitoral. desde o seu início. À sua frente os desafios são imensos. com ela e seus homens de governo. eventual crítico do governo de Dilma e sem com ele se comprometer. mas no ocaso do seu mandato. e pelas incertezas postas no horizonte pela economia-mundo. inclusive por razões de estilo pessoal. vinculado à herança da obra dos seus antecessores.

Os indicadores estão à vista de todos: a sociedade civil quer. e deverá contar com sua participação. em uma ação politicamente concertada. Sem a mobilização da sociedade civil. inclusive a sindical. . é de se esperar maior influência da política sobre os rumos da economia. em particular com a ocupação político-militar do Complexo do Alemão. em particular os estratégicos bens culturais. demonstra com clareza que incorporar à cidade milhões de pessoas à margem dos seus valores é obra que transcende em muito a capacidade do Estado e de suas agências. a dialogar com o já vasto circuito. na universidade e na imprensa. via que se impôs à nova governante. por mais insulada que esteja dos partidos políticos e da sociedade civil. a adesão do Estado às instituições e aos valores republicanos tem de se tornar absolutamente explícita. não há bom futuro para uma simples ocupação militar. ela se verá condicionada. como tal. mas. pode e tem recursos próprios para agir. ao que parece com tirocínio na matéria. De outra parte. enfaticamente patente nos episódios do Rio de Janeiro.240 A dimensão sistêmica da economia será enfrentada pelos especialistas integrantes do seu governo. A ética da responsabilidade. qualquer que seja a orientação adotada. de formação da opinião em assuntos econômicos. e. Mas. para que isso ocorra. é propícia à lógica da vida republicana. a urgência da questão social.

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nem ainda dispõe dos meios e de quadros qualificados a fim de converter uma cidadela de quatrocentos mil habitantes. em suas idas e vindas para os lugares do seu emprego. além das tropelias da incursão policial-militar. a sociedade teve diante de si. sob as ordens de núcleos com base nesse complexo de favelas. nada havia ali que denotasse a presença do público e do cidadão. recolhendo experiências e conquistando o apoio da população. certamente o complexo do Alemão deveria ser uma das últimas. era a própria ocupação do solo sobre o qual tinham construído suas habitações. em meio a tantas indicações de uma natureza bem assentada da vida privada. Nas imagens repetidas à exaustão. em toda parte. Em sua concepção original. daí passando a agir nas mais problemáticas. principal refúgio para evitar a lei da selva imperante no território. essencial. Concluída com sucesso a operação político-militar de ocupação daquele território. os sinais de uma intensa vida mercantil. inclusive pela natureza da sua geografia. embora as circunstâncias não lhe sejam afortunadas. a exposição nua de uma cidade de médio porte que vivia em um mundo paralelo à margem do Estado e de suas leis e serviços públicos. Nessa escala. nas telas da TV. a política das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) previa a sua imposição primeiramente nas comunidades faveladas de baixo risco. Ali estavam indivíduos treinados a buscar suas condições de sobrevivência como seres especializados a viver na bolha da esfera privada. É vencer ou vencer. A reação dos narcotraficantes. há décadas vivendo sob uma ordem imposta por senhores de guerra.242 O complexo do Alemão e a república (27 dez. viam-se os movimentos das pessoas em suas fainas cotidianas. que lhe chegou de modo inesperado. a ser objeto de uma UPP. . obrigou a mudança de cálculo: tornou-se imperativo começar pelo fim. que desencadearam uma série de ações terroristas em alvos indiscriminados da cidade. e que tinha aprendido a construir uma rotina em meio a um campo de guerra e às ameaças das balas perdidas. se não a última. em um espaço citadino.) Com o episódio de ocupação do complexo do Alemão. Mas. uma das quais. visíveis. a experiência republicana brasileira trava uma batalha que não admite recuo. santuário do narcotráfico encravado em uma região estratégica da cidade do Rio de Janeiro. com suas sacolas de compras. quer porque ela não teve como escolher a hora.

a república conta com uma oportunidade para criar raiz. em estado de anomia cívica. um espaço em que o exercício da autonomia deveria se confinar à dimensão privada da vida. socialmente necessária. registre-se de passagem. a eles. mesmo para aqueles que sempre a trataram com desdém em nome de nomeadas urgências substantivas. Estão maduras as condições para a . quando ficaram patentes os efeitos perversos de deixar tantos à margem da cidade. A tarefa é de perder o fôlego e exige o envolvimento de todos. que contém. e se impõe como um remédio heroico. embora a maioria adulta da população seja eleitoral e faça parte do mundo do trabalho. não sem frequência ocupado por membros da sua banda podre. tal como se constatou. direitos e oportunidades de vida. pois foi a partir do domínio terrificante que impuseram nos territórios que ocupam. um evidente elemento de rebelião juvenil quanto a um sistema de ordem excludente e discriminador. sindicatos. em uma das principais cidades do país. não teve como apresentar qualquer narrativa que exprimisse a situação de terror sob a qual vivia. que a demanda por ela se tornou uma questão geral. não deve fazer parte das cogitações dos tomadores de decisão quanto ao objeto do complexo do Alemão. destituída de auto-organização. ali. alguns com a rica experiência do Haiti. A tópica republicana sai dos livros. dos negócios dos narcotraficantes. agora. Se. que. continua uma presa fácil quer para a reconstituição. como se sabe. A simples libertação do território é. Confiar unicamente na intervenção policialmilitar. em novo formato. dos partidos. Sem um lugar institucionalizado para uma fala livre. O paradoxo da situação está no fato de que essa mudança de larga envergadura nas relações do Estado e dos seus governantes com os setores mais sensíveis das classes subalternas — a imensa população que habita as favelas — se apresente como uma resposta à ação do narcotráfico. dos seus valores. apenas um primeiro passo. sem vínculos orgânicos com o mundo externo. A população inerme. diante da gravidade da situação. deve-se. o que cada qual deveria esperar era o estatuto da heteronomia imposta pelos comandos narcotraficantes ou pelo aparelho policial. dos intelectuais. dos especialistas. a comunidade. uma vez que. de algum modo. no mundo da rua. associações empresariais. não podem mais agir segundo sua própria discrição. com uma solidariedade ativa dos partidos e dos sindicatos. nem contou. além das autoridades governamentais envolvidas. mesmo que permanente. quer para sua subordinação a organizações de milícias.243 Ali estava. da universidade.

tempos propícios aos bons augúrios. e a conhecemos. como autocrática. Desta feita. mas. A república nos veio de cima. a coluna mudou de estilo — foi mais normativa do que analítica. A Carta de 1988 nos apresentou às instituições de uma república democrática. pois. contraditório que seja. Deve ser o Natal e a passagem de ano. sob forma oligárquica. como sabido. onde estão dadas as condições para que se rompa com o sertão sem lei rumo à cidade e para que se introduza animação republicana a partir de baixo. ela ainda não é uma ideia popular. . agregando um conjunto de inúmeras atividades já existentes a fim de concertar iniciativas comuns. é essa a possibilidade que se abre com o complexo do Alemão.244 constituição de um fórum permanente da sociedade civil. pelas longas décadas do processo de modernização. como se vê.

que confiou no protagonismo dos fatos e apostou na desregulação do mercado. nas entrevistas dos quadros já identificados como responsáveis pela condução da economia no futuro governo. O governo Dilma nasce. Há. Não à toa. Sob risco. é. dicção própria ao discurso da social-democracia. e teme-se uma recidiva. O neoliberalismo. avessa àquela do nacional-desenvolvimentismo. Os ecos da crise financeira de 2008 ainda ressoam por toda parte. até vale o recurso ao ajuste fiscal. que não deve ser igual àquele que está passando. queiram ou não os principais envolvidos na passagem do bastão presidencial de Lula a Dilma. segue seu curso. em que política e economia voltam a se encontrar como dimensões interativas. tanto no plano nacional quanto no internacional. retorna-se a Keynes e ao ideal de um capitalismo organizado. tem exposto o mundo sistêmico a uma inédita influência das instituições republicanas sobre o seu comportamento. que não deveria temer. na crença de que ele conheceria mecanismos automáticos de correção de desajustes. ao menos por ora.) Mais alguns dias e começamos nova década e um novo governo. que guarda em sua gramática uma concepção fáustica sobre as promessas da expansão das forças produtivas. portanto. é claro. entre outros espantalhos. as economias nacionais passam a depender do tirocínio e de uma intervenção perita das agências especializadas dos seus Estados no sentido de dirimir o impacto da crise. sob a desconfiada vigilância de todos os envolvidos que se empenham em higienizar seus sistemas financeiros. e. como se diz. nesse novo cenário é percebida como um lugar de riscos. enquanto sondam as possibilidades para os caminhos que levem a uma recuperação. Em uma palavra. uma página virada na agenda do mundo. A necessidade da cooperação. A aceleração do desenvolvimento por políticas de crédito fácil e de uma diversificada e potente ação do Estado no domínio econômico. mas.245 A chegada da república no sertão (20 dez. o lema adotado é o da “administração prudencial” do seu curso. que dominou o discurso de campanha da então candidata. em um cenário descrente em surtos de modernização. para evitá-las. um certo quantum de inflação. antes demonizado. até ontem um objetivo a ser perseguido. armadilhas na rota do crescimento. A globalização. e já não se ouve falar das virtudes do estilo de governar do nacionaldesenvolvimentismo. . racionalizando as suas operações. a essa altura.

no da sociedade. inclusive pelo fato de que não se enfrentou o tema decisivo da libertação dos territórios ocupados pelas bandas de narcotraficantes. Coube ao secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro. mas. por uma combinação também errática dos fatos. cujas origens mais remotas provinham do programa Favela-Bairro. em uma expansão gradual das UPPs. na raiz dos males da sociedade carioca. que descobrem o caminho eleitoral como recurso de proteção às suas atividades. compostas pela banda podre do aparelho policial. já fala no novo idioma que passará a imperar. indicado para continuar sua gestão no ministério da Fazenda do governo Dilma. não se chegou a essa mudança por uma operação meramente mental. os germes de uma nova política estavam presentes. estava uma certa configuração do Rio de Janeiro como “cidade escassa”. que recorreram a atos de terrorismo na tentativa de impor um recuo às forças do Estado. Decerto que. especialmente nas favelas. a ponto do presidente Lula não se reconhecer na figura do ainda seu ministro Mantega. Por vários motivos. a fixação do objetivo estratégico da conquista territorial por parte do Estado das zonas sob a ocupação das facções criminosas. Tal diagnóstico se assentava no reconhecimento de que era a falta do Estado e de suas instituições republicanas no mundo popular. adotado nos anos 1990. pelo prefeito Cesar Maia. a política do Favela-Bairro não prosperou. que. O episódio não deixou alternativa às forças da segurança estaduais senão a de recorrer ao governo federal a fim de mobilizar a presença das Forças . em seu primeiro mandato. E assim seria não fosse a reação desastrada dos chefes das facções dos narcotraficantes. Em outro plano. nota-se a emergência da tópica republicana como o repertório mais adequado para emancipar os territórios das favelas cariocas do domínio exercido sobre elas pelas diferentes facções de narcotraficantes. na forma do conceito formulado pela socióloga Maria Alice Rezende de Carvalho. o objetivo era o de libertar primeiro as comunidades menos problemáticas. Tal programa se fundava no diagnóstico de que.246 Como notório. em que se infiltrava um novo e insidioso perigo com a organização das chamadas “milícias”. posta em evidência pelo controle territorial e de populações das classes subalternas exercido pelo crime organizado. no caso. afortunada. desde a criação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Foram os fatos — a crise de 2008 — que forçaram o ator a buscar novos paradigmas. No plano. José Maria Beltrame. a causa mais funda domalaise carioca. de algum modo apropriado. que poderia levar anos até compreender o universo visado. a partir da inovação institucional das UPPs.

quer na micro. cidade que viveu sob o terror da máfia. logradouro habitado por mais de 400 mil pessoas. nos tem chegado por imprevistos. Um bom começo está no convênio. havia. núcleo principal dos narcotraficantes. Conquistá-lo. porém. quer na dimensão macrossocial. Com ela. efetivou-se a conquista policial-militar do complexo do Alemão. mas já passou da hora a entrada em cena do ator. do ministério da Justiça e do governo estadual. A república. ou bandido ou policial. entre autoridades do judiciário federal e estadual. há pouco celebrado.247 Armadas. . Em Palermo. Animar e proteger a vida mercantil nessas comunidades é outro ponto obrigatório na agenda de ampliação da cidade para um lugar que antes foi apenas um sertão dominado pela lei do mais forte. Em tempo: no complexo do Alemão não há registro da presença dos partidos políticos nem dos sindicatos. para a cidade é tarefa que mal se inicia. no sentido de implantar nos territórios resgatados para a cidadania as agências de defesa e promoção dos seus direitos.

desabrochariam na revolução do cristianismo. estava plantando as sementes que. diante de um ator que aparenta estar impotente diante deles. estúpido! —. articulando vários sistemas dotados de movimentos próprios. tem. Tal mudança. Sustentam alguns dos seus biógrafos que. quando se lançou à conquista do Oriente estava animado por vários objetivos. trezentos anos depois. destruindo economias nacionais e concedendo a outras oportunidades imprevistas.248 Alexandre. Outros. um dos seus principais trunfos para atuar no mercado internacional. Droysen sobre Alexandre. que se alimentaria. em escala continuamente ampliada. Mas decididamente não estava em seus cálculos que. em que. A fortuna é sempre arredia à vontade dos homens. com cujos feitos teria a pretensão de se ombrear. o Brasil que. incluem entre seus objetivos motivos filosóficos como o de promover a razão à instância ordenadora do mundo. da sua base anterior. entre os quais o de livrar a Hélade da ameaça iminente de ser submetida ao império persa. não fosse a sua vulgaridade. Assim. uma das fortes expressões desse fenômeno estaria no processo de criação e reprodução do valor. O protagonismo dos fatos. Alexandre. A ciranda financeira. a Robert Wegner e a Jessé Souza. Alexandre se julgava um descendente do mítico guerreiro Aquiles. sob certas circunstâncias. As complexas sociedades modernas obedecem a outras lógicas. como argumenta a sempre clássica obra de Johann G. levando em conta que o jovem rei fora discípulo de Aristóteles. inclusive no que se refere à disposição das classes . que não têm como antecipar o resultado de suas ações. o rei dos macedônios. como anota um grande pensador. de larga envergadura. hoje. aparenta agir de motu proprio. com seus trilhões de dólares circulando pelo mundo virtual à procura da aplicação mais rentável. obscurecendo o papel do ator na tentativa de condução das coisas do mundo. mesmo quando virtuosos e diligentes. ao estabelecer a comunicação entre a cultura filosófica dos helenos com a dos mistérios místicos do Oriente. além dessa motivação de natureza estratégica. desde os anos 1930. No capitalismo. graças às peripécias do fluxo cego das mercadorias. tal como Marx o estudou. no agronegócio. bem poderia servir de caracterização para a atual cena internacional. poderia perfeitamente ter sido de sua autoria. A emissão do bordão que tornou mundialmente conhecido o publicitário americano James Carville — é a economia. Confúcio e outros heróis (29 nov. os “protagonistas são como que os fatos”. se acostumou a projetar seu futuro pelo caminho da industrialização. principalmente com a poderosa China.) Esta coluna é dedicada a Ricardo Benzaquen.

no caso brasileiro. Com essa nova conjunção dos fatos no mundo. e deve ser por isso que os analistas japoneses da agência Nomura Securities. que. as poderosas empresas estatais. vem pondo em xeque a hegemonia americana. tão cara aos anos 1960. que. se não poupou os países emergentes. importou na adoção de políticas anticíclicas de corte keynesiano. No Brasil. abriu-se. sobretudo o BNDES. estimulando o experimentalismo e a inovação. A crise. fazendo ressurgir a ideologia. não fazia parte das cogitações estratégicas dos tomadores de decisão há pouco tempo atrás.249 sociais e grupos de interesses no país. estimam que o modelo de crescimento econômico chinês estaria em vias de se impor entre nós. a essa altura já desafiada pela crescente expansão da economia e da diplomacia chinesa no Oriente. encimadas pela Petrobras. como uma tecnocracia estatal de quadros qualificados. então. Para a sua volta triunfante. o do nacional-desenvolvimentismo de JK e do regime militar. O tsumani de 2008 — não por acaso o noticiário econômico tomou de empréstimo essa categoria da esfera das catástrofes naturais para nomear a crise financeira daquele ano — mais do que desorganizar a economia mundial. em particular o do governo Geisel. na África e na América Latina. como tantas vezes analisado. na verdade. tais como o combate aos juros altos por mais oferta de créditos e medidas administrativas. de um capitalismo organizado. que não teríamos como reiterar? Por que não olhar para China com sua milenar burocracia treinada no sistema do mérito. precisava-se de pouco: estavam ao alcance da mão os seus principais instrumentos. com o estímulo do governo. quanto um dos seus maiores investidores. os bancos estatais. para a harmonia cordata que prevalece em sua complexa estrutura . transformou-se em um dos maiores bancos de fomento do mundo. ao lado de outras considerações sobre o que deverá ser a economia sob o governo de Dilma. a política se converte em um instrumento consciente de consolidação e aprofundamento do capitalismo brasileiro. Além disso. significou um duro golpe no neoliberalismo e suas crenças em uma feliz autorregulação do mercado. um sistema financeiro bem regulado e sob competente vigilância do Banco Central. a China terse-ia tornado tanto o maior mercado para os seus produtos. Desde então. os atingiu em escala bem menos severa. Quem sabe — logo se vai poder perguntar — a inteligência brasileira teria seguido pistas equívocas ao perseguir os caminhos abertos pelo Ocidente. a oportunidade para a retomada de um antigo repertório.

em um exercício meramente conceitual sobre categorias presentes na sociologia da religião de Max Weber. avizinhou o homem cordial. ao mais remoto Oriente.250 social e seus espantosos índices de desenvolvimento econômico? Não seria para essa direção que a época nos tange desde os acontecimentos catastróficos de 2008? Um reputado sociólogo. e assim nos levando de roldão do extremo Ocidente. personagem típico do iberismo. construção teórica de Sergio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. ao tipo de homem recortado pelo padrão confuciano. Vale. torcer para que esse experimento abstrato não escape de uma situação de laboratório. agora. há algum tempo. lugar que os heróis da nossa história escolheram para nós. com o risco de ser arrastado pelos últimos balanços das ondas do tsumani de 2008. . onde perderíamos o caminho de casa.

já se pode saber que a parte dura do núcleo governamental será constituída por quadros formados na administração do mundo sistêmico. o que deve importar uma maior autonomia na sua implementação diante dos partidos que compõem a ampla base aliada de sustentação congressual do . aplicada à leitura. distantes de pressões. mesmo que criativa. nele consagrados por seus desempenhos na condução das finanças. De outro lado. Se tal linha de interpretação estiver correta.) Para onde vamos depois que se findar esse longo entreato entre as eleições e a posse da candidata eleita. de ciência certa. a fim de que. ou de uma presidente que vai se aventurar nos mistérios da composição de uma peça nova? Mais que inédita na moderna república brasileira. a presidente eleita não deve contar com esse trunfo antes de ser entregue à voragem dos acontecimentos que estão destinados a surpreendê-la nos quatro anos do seu mandato. de uma pauta já conhecida. somente sabemos que o mar não vai virar sertão nem o sertão vai virar mar. Nesse núcleo não deverá haver lugar privilegiado para operadores especializados na leitura do fato político. Dantes. que já nascem sob o signo de uma dúvida letal: programase para um mandato ou para dois? Trata-se de um governo tampão. como foram José Dirceu e Franklin Martins. e que podem interferir no curso de suas ações. essa má disposição dos fatos impõe à dramaturgia que ora entra em cena com o mandato de Dilma Rousseff um elemento estranho ao especificamente político em razão das conotações pessoais envolvidas. sob os mais variados pretextos. em igual circunstância. Nesse sentido. quando inauguramos principado novo? Por ora. os futuros presidentes programavam longas viagens. da indústria. sob a guarda de uma criatura que apenas ocupa por um tempo determinado um lugar reservado ao seu criador. com os quais vai se dar sequência ao atual movimento de expansão e aprofundamento capitalista do país e da sua inserção no sistema mundial. dos serviços e do agronegócio. as políticas públicas orientadas para o social deverão ser objeto de uma forte racionalização. Menos afortunada que eles.251 Principado novo e bola de cristal (22 nov. o perfil do próximo governo acabará confirmando o que foi o tom predominante na campanha eleitoral: mais próximo da agenda da administração do que da política. aplicados monotematicamente a questões relativas à conservação e à reprodução do poder. pudessem montar sua equipe de governo e definir os rumos estratégicos e as medidas de impacto com que imporiam suas marcas no exercício da Presidência.

a espécie de concordata entre o mundo sistêmico e a política. visaram moderar a sua influência nas relações entre Estados. apto a desafiar. A oposição será obrigada a criar um sucedâneo de um gabinete das “sombras”. em um tempo de globalização. sob o risco de converter uma crise cambial em uma guerra comercial efetiva. de fato. em que deveremos ter um governo de economistas. Nesse contexto. tendo que fazer várias escolhas de Sofia. os rumos governamentais. a começar pela própria presidente. Nesse cenário. A política impõe-se à economia. especialmente. não há lugar para a livre movimentação de capitais. no mesmo idioma. o primado do princípio da soberania nas relações entre as nações sobre as concepções e práticas. ao menos no plano da retórica. na rica expressão do sociólogo Immanuel Wallerstein. como anota Paulo Nogueira Batista Jr. políticas monetárias de desvalorização de suas moedas nacionais. a economia-mundo. deve encontrar seus . marca política do governo a que sucede. entrou em crise sistêmica com a assim chamada guerra cambial. sobretudo este. inclusive porque os constrangimentos sistêmicos a que o país está exposto lhe chegam. que. nessas últimas quatro décadas. como recursos estratégicos para a defesa de suas hegemonias.252 governo. apontam para essa mesma direção. Será sob os auspícios dessa crise que Dilma entrará em cena. em grande parte. parecendo nos querer devolver a uma cena internacional de marcação hobbesiana. com os países que lideram o mercado mundial instituindo. ameaçam regredir a práticas abertas ou veladas de protecionismo. Assim. sob os mandatos de Lula. em que os temas da macroeconomia devem sair dos gabinetes dos doutos para se tornarem linguagem corrente entre os partidos e os políticos. coexistiram em boa paz. quando “o principal emissor de moeda internacional [os EUA] adota políticas monetárias ultraexpansivas” (O Globo. contrapondo interesses que. que bafejou o governo que ora se conclui. como as do Direito Internacional e de suas instituições. Tanto o cenário interno como o externo. 13/11/10). Os mercados nacionais. Os resultados da última reunião do G-20 deixaram patente a afirmação do princípio da soberania sobre as considerações assentadas em princípios de cooperação internacional. Ressurge. sempre sob a arbitragem de Lula. uma vez que não terá como contemplar a todos. inevitáveis as pressões por algum nível de ajuste fiscal e pela reforma trabalhista e tributária — essa última já anunciada pela notícia de que o governo Dilma se vai empenhar em medidas de desoneração da folha salarial —. Pois. do novo estado de coisas reinantes no mundo e que imperativamente exigem respostas adequadas.

parece razoável supor que a liberação de tantas tensões represadas no interior do Estado.253 limites. principalmente os de esquerda. que agora tendem a se desviar para o terreno livre da sociedade civil. entre outras agendas conflitivas pesadas. de difícil composição diante da crise cambial. As políticas de defesa da atividade industrial e do agronegócio. e. A previsão faz parte da análise política. consistirão. no caso. em um duro teste para ela. . venha a ativar os movimentos sociais e a animar em um impulso de baixo para cima os partidos.

Com efeito. Em segundo. pelo estudo dos votos evangélicos obtidos pela candidata Marina Silva no primeiro turno. Um hábito novo — constata-se à vista de todos — se difunde em todas as camadas sociais do país: o do respeito às leis e às regras do jogo. que lhes vinha das pesquisas. que se generaliza. menos ainda. assim como programas de governo. Findo o processo. suas instituições e seu aperfeiçoamento. a linguagem dominante foi a do marketing. a cidadania começa a se dar conta de que o mundo de fantasia do horário eleitoral não condiz com o mundo efetivamente existente. segurança — procedia das pesquisas quantitativas e qualitativas elaboradas por especialistas dessa técnica de comunicação. em primeiro lugar. educação. a do aborto. A vitória nas urnas é inacessível sem ela. visto como um mero consumidor de bens e serviços. vitoriosa a candidata Dilma. O diagnóstico. salvo alguns escorregões presidenciais. quando não completamente ignorados pelos candidatos. contudo. como as das reformas tributária. nessa disputa pela sucessão presidencial. Democracia. inclusive no segundo turno eleitoral. a consagração da questão social como estratégica para a composição das forças políticas e de seus projetos de poder. como tais. Apesar disso. que suscitou paixões falsas nos candidatos. .) Há consenso entre os analistas de que. há muito que comemorar. o fortalecimento das instituições republicanas e da democracia. É certo que. e isso foi bem compreendido pelos candidatos. de que é por aí que se encontram os caminhos que levam a uma política de transformação social. As questões ameaçadoras. mesmo que ainda em estado de ressaca cívica. na previdenciária — deveriam ser deixadas para depois do período eleitoral. a agenda que os candidatos seguiam — saúde. era o da satisfação dos eleitores com o estado de coisas reinante no país. veio à tona uma questão efetivamente ameaçadora. foram considerados temas fora do alcance do entendimento da massa do homem comum e. política. trabalhista e sindical — nem pensar na agrária e. mantidas dentro do armário e que vão sair dele a partir de agora.254 E la nave va (8 nov. embora não se lhes possa negar o desempenho eficiente ao expor seus antigos feitos nesses quesitos e na apresentação dos que prometiam para o futuro. e o reconhecimento. por acaso. marginalizados. e não a da política. do qual derivaria a orientação comum de se apresentarem como agentes da continuidade. com o que se infantilizou o eleitor. postas no lugar das que poderiam revelar as verdadeiras. baixadas as cortinas. durante os longos meses da campanha no horário eleitoral.

que. por mais que se fale mal deles. Dilma não contará com esse monopólio. que herdou do seu avô. Por outro lado. Dilma. inclusive porque o PT não lhe concederá tanto quanto concedeu a Lula em matéria de abdicação de poder. eles não são favoráveis à difícil tarefa de manter contrários em equilíbrio. que terá na vice um dos seus melhores quadros. preservou nos seus tempos de militante do PDT de Brizola. um político que também cultuava o primado da vontade em sua forma de agir. Tal terreno não parece próprio para a emanação de virtudes carismáticas. A sinalização da mudança de cenário também é indicada pelo novo mapa dos governadores eleitos. respaldado por políticos notabilizados. Miguel Arraes.255 O mundo efetivamente existente é o da política e o das controvérsias sobre quais os rumos a serem seguidos. inclusive porque a maioria governamental no Congresso é mais um resultado das estratégias eleitorais dos partidos que a compõem do que de uma união política em torno de um programa. por sua vez. e adotou o pragmatismo como lema de vida. nas circunstâncias da ditadura militar. se os registros biográficos servem para algo. de algum modo. Dilma governará em condomínio com o PMDB. como o PSB. que não faltaram ao carismático Lula. avessa a manifestações de uma ética de convicção por parte de um líder operário. as mesmas aspirações presidenciais. Aliás. o que exigirá um andamento para a política mais consensual. como atesta sua história na resistência armada. Decerto que essa tarefa exigia qualidades extraordinárias do seu operador. dirigido pelo governador de Pernambuco. de frações de classes. A marca do governo Lula foi a de trazer para o interior do Estado uma pluralidade de classes. Tampouco. é vocacionada para a ida ao povo. quando a opção dos candidatos foi a de se mostrarem . alinhadas ou não partidariamente. e de uma política. O estilo Lula de administração se assentava no monopólio que ele desfrutava no exercício da política e na sua capacidade de interlocução direta com o povo. assim interditando a sua manifestação no terreno da sociedade civil escorados em suas representações políticas e sociais. administrando os conflitos entre elas a partir dos recursos de poder presidenciais. esse foi mais um recado trazido pela campanha eleitoral. Dilma não é Lula nem o seu quatriênio de governo será o mesmo daquele que passou. provém da política. orientada pelo culto da vontade. pelo tirocínio político e sabedoria na preservação do poder. e alguns partidos da chamada base aliada se fortaleceram. não se pode desconsiderar que Lula construiu sua identidade no meio sindical. Se traços desse estilo pessoal persistem. com a oposição à testa dos principais Estados da Federação. Aliás. como notório.

de fato. a política promete voltar. evadindo-se da jurisdição estatal e retomando seus lugares na sociedade civil. sabia temperar. em uma ordem burguesa racionalizada.256 como os mais credenciados para impor uma administração racional à economia e às políticas públicas. ao invés de procurar rumos novos para a sociedade. Para o bem e para o mal. Com Dilma o que se tem é principado novo. Sem ele e o seu estilo de negociador nato. os interesses e os conflitos de interesses devem fluir mais soltos. ao encarnar a representação do povo. que o messianismo implícito de Lula. e se ingressa. .

Para o bem e para o mal. foi isso que. que. brancas e cultivadas. notória nas eleições à assembleia constituinte de 1934. embora os candidatos que chegaram ao segundo turno eleitoral tenham perfis e históricos na vida pública bem definidos segundo os padrões laicos republicanos.) A campanha presidencial se aproxima do fim. A partir daí. perdido o apoio na alta hierarquia da Igreja. Logo que se abre o segundo turno. mais à frente. embora tenha extrapolado em muito o fator religioso. há décadas impactando fortemente o comportamento das classes médias tradicionais brasileiras. no registro desse inventário. vem tocando bem menos nos recémchegados a essa fronteira social. impôs o reconhecimento de que a antropologia do voto tinha acabado de conhecer uma significativa mutação. será explorado nas análises acadêmicas e do jornalismo especializado no fato político.257 Os céus por testemunha (25 out. a partir das atividades da Liga Eleitoral Católica (LEC). A LEC. Vale dizer. emergiram para se acrescentarem na composição das classes médias. que. indicava uma lista de candidatos da sua preferência e vetava aqueles vistos como contrários aos seus princípios de doutrina. É verdade que essa presença não é inédita na nossa história eleitoral. é preciso ir além de um discurso orientado para conquistas materiais. está insinuado que. a presença da religião ocupou um papel surpreendente. aos poucos. deixou de exercer qualquer influência. fundada dois anos antes. . A votação em Marina nas periferias metropolitanas. especialmente daqueles que. em boa parte de adesão evangélica. em razão das transformações sociais e dos sucessos econômicos do país nas últimas duas décadas. para sensibilizá-los. Mas desde logo é evidente que. agora. a religião passa a ser reconhecida como portadora de um poder efetivo de veto nas escolhas majoritárias das competições políticas. escudados em valores religiosos que provêm de cultos que se enraizaram no seu próprio meio. sob a chancela de círculos da hierarquia católica. por atos e palavras. mas. A novidade. ainda se fez presente. as candidaturas de Serra e Dilma vieram a admitir. a inflexão religiosa dessas candidaturas revela o entendimento de que a secularização. já permitindo um primeiro balanço do seu inventário. nas primeiras eleições subsequentes ao Estado Novo. está na ressurgência da importância da religião no voto e sobretudo no fato decisivo de que a agenda dita comportamental e dos valores religiosos é também expressa com vigor nos setores subalternos.

Com o compositor popular. gravita em torno do mundo agrário e das atividades econômicas nele existentes. cujos desdobramentos podem vir a ameaçá-la. os conflitos de interesses entre as classes e entre as concepções do mundo. que. como se ele não conhecesse. mesmo que tenham optado por não nomear as fontes de que vão extrair os recursos para os prodígios prometidos. apresentando um cenário ocupado por um único ator. entre os quais um trem-bala. os candidatos finalistas. fora as invectivas sarcásticas de Plínio. possível transitar lisamente sobre a questão agrária brasileira sem que fossem declaradas e debatidas pelos candidatos as suas posições sobre a atual estrutura fundiária. como é de conhecimento generalizado. embora tanto o PT como o PSDB contem em sua história e práticas de governo — no caso do PT. então. pode-se perguntar: com que roupa que eu vou. saem limpos dessa pesada e incontornável questão. assim. lembre-se do projeto de reforma do ministério Berzoini. nesse balanço preliminar de uma competição ainda em andamento. A ausência desse tema se tornou ainda mais excruciante pelo fato de que boa parte das controvérsias de natureza ambiental. Foi. Serra e Dilma. ao samba que você me convidou? E. sobre o tema sindical. Hoje. durante esses longos meses de campanha. Passou-se batido.258 No rol desse inventário não pode faltar a questão social. os silêncios podem ser tão ou mais eloquentes do que o que é dito. em 2005 — com iniciativas contrárias à vinculação dos sindicatos ao Estado. a ligar a cidade de São Paulo ao Rio de Janeiro em meio a desfiladeiros de Alpes suíços. nada se sabe sobre como cada qual se situa nesse mundo que abriga uma fronteira agrária viva no norte e no centro-oeste do país — excepcionalidade brasileira em pleno século XXI — e um dos vetores por onde se amplia e aprofunda o moderno capitalismo no país em forte conexão com políticas do Estado. projeto de faraós. Sob esse registro. igualmente. Finda a campanha. Mesmo destino teve a questão estratégica dos rumos da industrialização do país. permitiu aos candidatos exibirem seus presumidos dons de verter dos céus leite e mel. em sua vida real. essa campanha declinou da política. ao lado de saneamento básico aqui na terra. sem que se saiba sequer — um exemplo escandaloso — qual a posição deles sobre a reforma do Código Florestal. às vésperas das eleições. porque as ladainhas rotineiras do horário político produzidas pelos marqueteiros não têm como suprir a ausência de programas políticos. o governo e suas ações. recitandose um monólogo para um público idealizado. para não falar das abrasivas matérias previdenciárias e . mesmo em plena “guerra cambial”. ora em andamento no Legislativo federal.

com o que vem por aí. de que outros caminhos não levariam a melhores resultados. diante das circunstâncias. Pode-se cogitar. por que nenhuma palavra. inclusive porque. que trouxe para o seu interior todas as classes e todos os interesses relevantes. . por mais contraditórios que fossem entre si. tão invocados nessas eleições. E. será apenas um retrato na parede. nem contra ou a favor. sobre o capitalismo politicamente orientado que se insinua por aí? Resultou da campanha um retrato chapado do país. vai precisar muito da ajuda dos céus. Mas Lula. contará com uma oposição forte e aguerrida. não é fácil o acesso ao voto em uma sociedade desigual como a nossa. e o candidato vencedor. agora. bem nos moldes do governo Lula. porque. sabemos todos. a propósito. qualquer que seja ele.259 tributárias.

como esta em que estamos envolvidos. e partem para o confronto eleitoral em um campo dominado pela linguagem da administração. Essas eleições de 2010 nascem sob o signo oposto ao da inovação. Sob esse registro sem alma. mesmo quando anódinas. ou deveriam contar. com a leitura privilegiada dos candidatos sobre o cenário e as circunstâncias em que estão envolvidos. pode-se sustentar que o carisma tenha sido um elemento determinante em suas vitórias. Tanto para Dilma como para Serra. como Jânio Quadros. na medida em que importou em leituras inovadoras da situação do país e eles significavam rupturas com rotinas e com as formas usuais de interpretá-la. da criação propriamente política. Assim. descobriram os que poderiam levá-los a atingir as expectativas dos eleitores das eleições que disputaram. quais são as motivações para o voto de um eleitorado de comportamento ainda muito pouco conhecido. ambas as candidaturas abdicam da invenção. A partir dessa opção comum.) Sucessões presidenciais. o horário político franqueado pela legislação vai servir de vitrine para as obras realizadas e de lugar para controvérsias estatísticas sobre serviços anteriormente prestados. expostas por um largo período de tempo à propaganda eleitoral nos meios de comunicação de massa. a chave de leitura com se credenciam à disputa eleitoral é a da continuidade. os dois contendores que aí estão no segundo turno. as eleições. Algumas sucessões do nosso passado recente não podem ser explicadas se não se consideram os atributos demiúrgicos de candidatos vencedores. afora a presença do marketing político e dos institutos de pesquisa especializados no estudo do voto que atuam no sentido de produzir alguma inteligibilidade e previsibilidade sobre o processo eleitoral. em meio a inumeráveis caminhos possíveis. em meio a uma profunda heterogeneidade social e regional. especialmente em uma sociedade inarticulada como a nossa. contam.260 A dádiva e as forças próprias (18 out. com seus candidatos obrigados a decifrar. têm o condão de mudar o curso dos acontecimentos. cada candidato brandindo uma cornucópia gigante de onde se . Fernando Collor e Lula. No caso deles. salvo a de se apresentarem como administradores preparados a fim de dar sequência a um script que vinha “dando certo”. Sucessões brasileiras envolvem um colégio eleitoral de milhões de pessoas. diagnóstico que lhes chega dos especialistas e que não reclamava deles uma qualidade especial. que.

Frustrações nesse terreno. inclusive em documentos oficiais de candidatos. essas eleições culminem. Para esse desastrado resultado. havendo dois times bem definidos para uma aguerrida disputa em cada ponto da sua agenda. não conspiraram. vai depender da economia. o mandato que vier a nascer dessa campanha presidencial estará incontornavelmente comprometido com a realização do que foi o programa social das duas candidaturas. saneamento básico. Dessa modelagem resultou. com o novo governante. promessas são dívidas.261 extraem promessas de habitação. a hora das reformas chegará para valer. essa nova espécie de jabuticaba que medra entre nós. não seriam aconselháveis. vida farta e barata como dádiva do futuro governante. como seria de se esperar. em suas convicções pessoais. nada difícil prever que. segurança. uma vitória de Lula — uma envergadura inédita na política brasileira. adquiriu — e essa é. uma campanha presidencial em que os movimentos sociais e seus temas tenham sido os grandes ausentes. saúde. por acaso que. dado que os recursos são escassos. notar que o tema das privatizações. de que caberia um lugar na vida republicana brasileira para as formas mais primitivas do fundamentalismo religioso. diante de um cenário frio e despolitizado. antes tão influente. tirante as expectativas de tesouros escondidos no pré-sal. aumentos salariais. e que subestima a . De qualquer modo. agora. com Lula tão perto em São Bernardo. resultado para o qual os candidatos — instituídos em ideólogos da dádiva como recurso de mobilização eleitoral — estão longe de serem inocentes. o público eleitor não está suficientemente informado de como tantas promessas vão se converter em bens tangíveis. a queda de braços a definir quem perde e quem ganha. e. Não é. somente. sabem-no as pedras das ruas. lastimavelmente. temática dominante em todo o seu transcurso. como se diz. nem Serra nem Dilma. a questão social brasileira. e. sem acender a imaginação dos eleitores e a dos próprios candidatos. com o reconhecimento. uma vez que os candidatos se têm mostrado reticentes sobre quais são os seus programas de governo. sem dúvida. Porém. e. com ela. pois. Contudo. pelo que se vê. mas sim essa dita política do social reinante entre nós. em sua reta final. nesta disputa eleitoral. Abrir essa cornucópia. no segundo turno. faz sua aparição. De passagem. ambas alinhadas a uma social-democracia à brasileira de corte paternal. dessa perspectiva. produzida de cima para baixo. embora. dos sindicatos às organizações feministas. inequivocamente modernas e progressistas.

Daí que outro efeito. por natureza. são prisioneiros da lógica da conservação e expansão do poder político. que. do caráter benfazejo dessas eleições é o de ter demonstrado aos movimentos sociais e às suas organizações que a realização de suas aspirações depende das forças próprias de que falava Rousseau. o movimento feminista é a melhor testemunha disso. Por ora.262 capacidade da sociedade de se auto-organizar sem a indução benevolente de um governo compadecido. certamente inesperado. e não do Estado e de suas agências. .

O tema do meio ambiente. em que ela foi a vitoriosa com 40. desde logo. p. para o bem e para o mal. 06/10/10. Ambos indisfarçavelmente vindos da região sistêmica da vida social. Nessa região. especialmente no final da campanha. está participando do processo eleitoral e que a identidade evangélica de Marina contribuiu em não pequena monta para o seu sucesso eleitoral nos setores subalternos da sociedade.263 Matéria de princípio (11 out.53 de Dilma e apenas 18. Mas. prometendo mundos e fundos. o mundo da vida — no seu léxico. não demonstrou ser um monopólio do PT. claramente transcendeu o voto evangélico. inclusive de organizações religiosas influentes. que dissentiu da orientação que lhe vinha das estruturas partidárias.73% contra os 42. não deveriam ser objeto de controvérsias. no caso do Rio de Janeiro. cujos fundamentos. porém. A leitura das urnas. outrora cidade símbolo da industrialização do país. como atesta a consulta do voto de urnas de zonas eleitorais das camadas médias.02% da votação contra 39. com seus 36. 14). em meio a um oceano de sufrágios da chapa da situação. da poderosa Assembleia de Deus. A pesquisa dos especialistas no estudo do voto decerto que trará mais luz sobre essa inesperada rebelião do voto popular. O voto da periferia. contudo. e chamando para si a responsabilidade de levar à frente a modernização econômica e social do país. como. p. das máquinas eleitorais dos governos. como era de se esperar em razão das políticas assistencialistas do governo. já conhecidos pelas práticas exitosas dos governos anteriores. 05/10/10. fenômeno que se reiterou exemplarmente na cidade de Volta Redonda. A16).) Vamos para a fase decisiva da sucessão presidencial sem a presença da personalidade e do discurso que a salvaram. Com Marina. estatísticas em punho.92% de votos para Dilma (Valor. a candidata do PV rondou em torno dos 33% dos votos (O Globo. com audiência crescente na sociedade. de algum modo.7 de Serra. da rotina regida pelo marketing eleitoral. A votação em Marina. uma política para o século XXI com eixo na solidariedade e na cooperação social — encontrou passagem na disputa que se concentrava nos candidatos Dilma e Serra. principalmente as de adesão evangélica. Ao eleitor cabia apenas indicar qual deles seria o mais qualificado a fim de realizar essa tarefa consensual. tal como visto na Zona Oeste do Rio de Janeiro. certamente . está claro que a religião. em particular na juventude. e nos surpreendentes resultados de Recife. subverteu o cenário do primeiro turno. em cujos bairros as famílias de baixa renda se constituem em maioria.

sobre a leitura desse primeiro turno. na sociedade civil. para quem quiser conhecer a posição de contestação dos republicanos liberais históricos ao ensino religioso nas escolas públicas. em plena capital federal. em razão da sua natureza laica e republicana. projeto liderado pelo grande educador Anisio Teixeira. em particular no mundo da vida dos setores subalternos. da Universidade do Distrito Federal. em que o mundo popular era interpelado apenas como consumidor de bens e serviços. A insistência com que muitos analistas procuram explicar o seu voto pela religião ou pela questão ambiental — há quem fale no voto chique em Marina — deixa de fora a marcação política do seu discurso. já foram dados passos de rendição do Estado — laico. sob o governo Lula. principalmente. de Roque Spencer Maciel de Barros. protagonizado pelas questões sistêmicas. paira um risco a ser erradicado pela raiz.264 teve um peso considerável. em tratativas com os vértices da Igreja Católica. O inventário de boas questões trazidas por ela certamente será reapresentado ao eleitor pelos candidatos que seguem na disputa. consultar A Ilustração Brasileira. se há recuos quanto à natureza laica do Estado. em um debate cujo centro gravitava em torno de papéis a serem conferidos ao Estado. Quanto a essa decisiva questão não se pode deixar de registrar que. que se instalasse no cimo da elevação conhecida como Corcovado. sinal sinistro. então nos seus inícios. Nesse mundo. nas décadas de meados de 1960 a 1980. Mais uma convergência — pouco notada. o de franquear o espaço republicano à ação da religião e. iniciativa ainda a ser concretizada. (De passagem. poucos anos mais tarde. é com frequência a principal via de comunicação da população com as agências republicanas. a política foi . em 1931. se destruísse a notável experiência. até por pressões exercidas pela hierarquia católica. só encontra paralelo no regime de Vargas (um positivista sem religião). Tamanha presença da religião no coração da vida republicana que é a escola pública. mas a questão que importa reter é que sua votação extravasou do seu nicho temático. por definição constitucional — em matéria de ensino religioso nas escolas públicas. Mas. Contudo. porém sintomática — entre as eras de Vargas e a de Lula. sua opção em se dirigir à sociedade civil em busca de soluções. mesmo sem a candidatura de Marina. ainda passíveis de extensão a outras designações religiosas. aí. que ora deixamos para trás. clássico de 1986). não há reversão possível ao quadro anterior. sua ênfase nos valores republicanos e. o quadro ainda é mais complexo: a religião. quando se permitiu. Mas. qual seja. E. a grupos religiosos fundamentalistas. a estátua do Cristo Redentor.

por cálculos eleitorais. . o narcotráfico e as milícias. e. a expressões de fundamentalismo religioso. Às instituições republicanas cabe respeitá-los e compreender o seu papel positivo na formação civil do povo. E. a religião e seus diversos cultos se instituíram como um dos poucos lugares de ação autônoma nesses territórios onde vige a lei da natureza. no vazio que restou.265 banida pela repressão do regime militar. mas sem se render em matéria de princípio. infiltraram-se os administradores de clientelas. como nessa intempestiva questão sobre o aborto. a fim de discriminar com nitidez o estadista do mero oportunista com seu Maquiavel mal compreendido. à falta de república. Esse talvez o metro que nos faltava na sucessão presidencial.

cuja presença política certamente não se limitará a esse episódio eleitoral. necessariamente escrita antes dela. Essa é uma inovação de não pequena monta. Serra. De outra parte. e na esteira dela reforçaram-se tanto os instrumentos como os procedimentos criados pelo legislador para zelar pelo caráter republicano da administração pública. Marina Silva. vale dizer. E sobre isso há muito do que cogitar. possui quadros qualificados e uma liderança nacional. estão conscientes de que seu programa e discurso necessitam se ancorar em temas e projetos de alcance geral. como se fez demonstrar nessa campanha. deixando para trás o tempo em que aguardava intervenções providenciais. e que se converteu na chamada lei da ficha limpa. E nunca é demais lembrar que a moralidade pública é um princípio constitucional da república brasileira. muita suspicácia contra o plano liso das aparências e das pretensões do senso comum. o Ministério Público e a Controladoria-Geral da União. experimentado pela primeira vez. as instituições. uma segunda pele no cidadão brasileiro. agora. Resta a ela cogitar sobre o processo — ainda em curso? — de uma das sucessões mais frias da história da moderna democracia brasileira. está aí a emergência do PV. das que se realizaram a partir de 1989. muito joio a separar do trigo. ter-se-ia reiterado a polarização entre o PT e o PSDB. nessas eleições. em particular a Justiça Eleitoral.266 O calendário e a coluna (4 out. Um dos melhores exemplos desse novo estado de coisas se encontra na iniciativa da sociedade civil. e não um atavismo cediço de combates eleitorais de tempos de antanho. que já as compreende como a via real para a realização de seus interesses e de suas expectativas por direitos. Marina distam anos-luz de qualquer veleidade providencial. fundamentalmente traduzindo em linguagem corrente o que compreendem como desenvolvimento sustentável. em atos ou palavras. chancelada pelo parlamento. contrariando o diagnóstico de que nada teria mudado na cena política. . não houve quem ameaçasse. Desde logo. cujo impacto benfazejo no processo eleitoral foi. Os verdes têm audiência internacional e. a essa altura. lema forte da sigla. foi condenada pelo calendário a desconhecê-lo. uma vez que. Dilma. Nessa sucessão. que foi representado por uma candidatura competitiva. mas esta coluna. A começar pela constatação de que as práticas da vida política democrática se vêm constituindo em rotina.) A eleição já passou e o leitor já conhece o seu resultado.

Em qualquer caso. prefeitos e sua poderosa bancada congressual. são claros os novos sinais de mudanças a que o processo político não poderá ser indiferente. da previdência. Outro sintoma de que à esquerda sopram ventos de mudança está na vitória da central Conlutas. Do mundo agrário. no novo governo. à direita e à esquerda. às vezes apenas em registro subliminar. e alguns deles saem da campanha com seus quadros renovados. O alinhamento ao centro dos nossos cúlaques. sobre a CUT na disputa eleitoral recente travada no estratégico sindicato dos metroviários de São Paulo. tradicionalmente. até há pouco um monopólio do PT.267 pode-se arriscar que. como se espera. Marina. os custos de transação entre eles não serão pequenos. se os imperativos de racionalidade da moderna ordem burguesa brasileira impelirem o governo no sentido das reformas trabalhistas e previdenciárias. expressões de radicalização política. que se tem traduzido em apoio de certos círculos do capitalismo agrário brasileiro à sua reeleição. mais uma circunstância a reforçar o papel do PMDB no futuro governo. Os partidos ditos nanicos da esquerda. não deve permanecer vazio. Sem Lula para mediar a relação difícil desse partido com o PT. não será a do seu partido. souberam aproveitar o horário eleitoral a fim de marcar posições. nos discursos de Dilma. que deverá evitar rotas de conflagração. é dessa região do mundo que provêm. da trabalhista e tributária. caso as tendências atuais se afirmem. as duas já presentes. a linha de governo de Dilma. seus governadores. Esse lugar da política. tais como as da reforma política. mas o da sua coalizão. A oposição estará fincada nos governos dos dois principais estados de federação. se tiveram poucos votos. seus temas e o seu partido serão peças importantes no tabuleiro. Aldo Rabelo. não condiz com as . inclusive na próxima disputa presidencial. que não foram tão mal como se alega — basta ver o desempenho da candidatura Plínio e sua audiência na juventude universitária —. vinculada ao PSTU. com a vice-presidência — no caso da eleição de Dilma —. hoje à deriva em razão do posicionamento ao centro do espectro político por parte desse partido. Desde as discussões sobre a reforma do Código Florestal. diante das grandes transformações sociais em curso. em especial se a agenda presidencial se fixar em questões altamente controversas. por sua vez. Especialmente. testemunha-se uma imprevista aproximação entre o agronegócio e setores da esquerda. Maior importância ainda terá o PMDB. São Paulo e Minas Gerais. O fenômeno não é nada trivial. tendo como referência a questão nacional. no caso representada por um parlamentar do PCdoB. uma vez que.

então. percepção equívoca a que fomos levados pela modorrenta sucessão de que acabamos de sair. dado que essa reviravolta lhe tira um bom pedaço de chão. o que o MST tem a dizer sobre isso. É enganosa. .268 previsões de imutabilidade do nosso sistema político. ainda. A vida está à espreita esperando sua boa hora. A ver. essa placidez de águas paradas.

como certificaria a guerra contra Canudos. lá estava ela conspirando para que o largo movimento da opinião pública em favor do abolicionismo. um vilarejo de deserdados da terra no sertão brasileiro. anos a fio. o clube malsinado conquistou o campeonato. teria. pouco tempo depois. seguem-se. Nesse mesmo ano. Recuperemos apenas um ano. talvez os anos dourados no processo de emergência da sociedade civil brasileira. já dá para desconfiar. a fechar os caminhos.269 A caveira de burro e a democracia (27 set. então. Lenda ou não. Conta-se que. Nos anos 1920. com a agenda de reformas sociais e políticas de publicistas como Joaquim Nabuco e André Rebouças. registram aqueles anais. o de 1922: é nele que se funda o Partido Comunista.) Consta. que encontra respaldo e ressonância na opinião pública. afinal encontrada depois de muita escavação. Voltar aos tempos de suas antigas glórias demandava localizar a mandinga nefasta. com o inaudito do levante do Forte de Copacabana contra as forças do Estado. Com efeito. em nome de exigências democráticas pela verdade do voto contra a corrupção e a fraude no processo eleitoral. mais uma vez lá está ela. Desenganando-se de explicações racionais para os seus insucessos. desembaraçando-se do seu passado — não necessariamente rompendo com ele — a fim de arremeter inovadoramente rumo ao futuro. a caveira de burro que impede a democracia brasileira de se afirmar como um experimento novo. criado por quadros atuantes nas greves de 1917/19 em torno de reivindicações por direitos sociais e políticos. vinha acumulando. apesar de contar com um bom elenco de jogadores. foi a de que torcedores malévolos de um time rival teriam enterrado uma caveira de burro sob uma das balizas do campo da sua agremiação. em 1924. em algum ponto entre o Oiapoque e o Chuí. que ganhou a imaginação de alguns dos seus aficionados. e a chamada . recorrido a pesquisar o sobrenatural. uma vez que só nele poderia estar escondida a causa inexplicável dos seus males. fracassos nas competições esportivas. na esteira desse movimento. na passagem da monarquia à república. nitidamente superior ao dos seus adversários. de que esteja escondida. de extração genuinamente operária. nos velhos anais do futebol. A hipótese. com sua presença aziaga. se perdesse no novo regime. pois. presença moderna. a fim de se garantir nele com voz e voto. a rebelião em armas do tenentismo em São Paulo. sobrevém a rebelião da juventude militar. dos interesses dos setores subalternos no sentido de ampliar o demos. no caso da história brasileira. que um grande time do Rio de Janeiro.

é denominado o Ministério da Revolução —. como mais moderno que ela. como Oswald de Andrade e Pagu. frequenta os tenentes. e o exemplo mais poderoso é o de Noel Rosa. que. em uma ida ao povo que vai amadurecer na obra. em graus variados — varou décadas de vida republicana. em um país que se modernizava rapidamente. Tarsila. que traz para si a administração da questão social — o Ministério do Trabalho. da perda de autonomia da sua sociedade. a estrutura agrária de propriedade latifundiária. então em moda em países de capitalismo retardatário. provinham igualmente sinais de mudanças. era indiferente à buzina do seu carro. a agenda do moderno é capturada pelo Estado. . como na ação social do capitão de indústria têxtil de São Paulo. que o decurso do tempo prometia incrementar. terão fortes ligações com os comunistas. vai impor uma rígida tutela do Estado sobre a vida sindical. ao alto preço. a par de institucionalizar direitos. sempre em nome de ideais da sociedade civil da época e com amplo apoio dela. o predomínio dos interesses conservadores e da sua expressão política. A República se amplia. o líder dos comunistas. Astrojildo Pereira. porém. O Estado se põe à frente do projeto de modernização do país. incorporando a ela novos setores sociais. que ingressa no modelo corporativo. Entre os intelectuais. de um Mário de Andrade. Di Cavalcante. A chamada revolução de 1930 reverteu esse processo tendencialmente virtuoso para os fins de se instituir uma república democrática. Anita Malfatti. Embora tênue. De empresários. lutam por abrir passagem ao moderno no país. surgem manifestações de intelectuais formados no convívio com o mundo popular. Sob a inspiração do racionalismo positivista. em particular na música popular. como no caso da Itália fascista. dando partida a uma legislação trabalhista que. afiançando. cuja Carta del Lavoro servirá de inspiração para nossa legislação sindical. Jorge Street. que. e alguns deles. recém-criado.270 Coluna Prestes. há comunicação entre esses mundos. talvez sobretudo em Villa-Lobos. com o que se preservou. frequentados também por intelectuais modernistas. que medrara no Rio Grande do Sul. salvo o curto interregno dos anos 1961/1964. e se apresenta. poucos anos mais tarde. diante de sua sociedade. Essa precedência do Estado sobre a sua sociedade — conforme a conjuntura. entre tantos. Além disso. que não à toa celebrou como uma de suas musas uma operária de uma fábrica de tecidos. o movimento do modernismo traz à cena a presença da nossa paisagem social e física. aliás.

271 Se vale o que está escrito. como tal. o viés antirrepublicano em nome de imperativos da democracia substantiva. pior. como o nacional-estatismo. que teve na valorização da sociedade civil um dos seus conceitos-chave. os ideais grão-burgueses de potência mundial. pelas mãos de um governo. encontrou consagração institucional na Carta de 1988. endereçada à criação de uma república democrática entre nós. em meio a tantos esforços para realizar esse generoso programa. atenta contra a nossa sorte. no entanto. E eis que ressurgem. essa sombria tradição teria sido interrompida com a democratização do país. Só pode ser a caveira de burro. cujas origens partidárias estão fincadas no terreno da sociedade civil. e. as velhas assombrações da república autoritária brasileira. com seus sortilégios. de remover a caveira de burro que. em 1985. e. . Esqueceu-se. o corporativismo.

) Esta coluna. entre tantos outros de perfil semelhante. em 2005. Henrique Meirelles e Nelson Jobim. sinal certo de chuva grossa. principalmente com a sua expressão pluriclassista. à testa o PMDB. todos comprometidos. devem ocupar postos-chave. dito à saciedade na campanha eleitoral que ainda transcorre. podem ficar indiferentes a mudanças de tal envergadura no regime dos ventos. ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. sempre sob o risco de fragilizá-la na chefia do Estado e dos negócios da administração pública. no essencial. com um dos seus principais condestáveis. e nem mesmo os marinheiros de primeira viagem.272 O lulismo sem Lula (20 set. manter sua influência sobre a sua sucessora. levando o governo à incorporação do PMDB. deverão permanecer no proscênio políticos de genuína cepa conservadora. e sim o de imprimir continuidade às linhas mestras do que sucede. Tais princípios e práticas não estão enunciados em um programa. anunciando que ao longe soprava um vento sudoeste. em fins de 2008. Sem Lula. na prática. não é o de fundar principado novo. Bem. as chuvas chegaram. como que apenas observando a mudança climática. ela aparenta ser suscetível a arranhões em sua autoridade. Não será Lula quem sucederá a Lula. Fora da tripulação. embora. particularmente em dois momentos cruciais: a crise. em um registro quase filosófico. passando pelo grande empresariado e pelo sindicalismo. como José Sarney. já em meio à sucessão presidencial. reanimados por prováveis vitórias eleitorais. mesmo isso não seja uma operação fácil. O programa do novo governo. no posto estratégico da Vice-Presidência da República. Ainda mais que. reagindo-se às contingências das conjunturas interna e externa. é claro. na verdade. e personagens como Antonio Palocci. do sistema financeiro mundial. em uma política a que se chegou erraticamente. em um arco que vai do agronegócio. com que o ex-ministro José Dirceu dirigiu-se em palestra a sindicalistas. salvo incidentes extraordinários. como se pode constatar das palavras. a se confiar nos relatos sobre sua biografia. consistindo. Da base aliada. Renan Calheiros. pelos idos de agosto. Michel Temer. com a continuidade dos princípios e práticas do governo Lula. e a crise. o grande timoneiro desses últimos oito anos deverá. que demonstrou ao governo a necessidade de ampliar a sua base de sustentação congressual. é trivial. do chamado “mensalão”. que são tantos. o lulismo sai do governo. mas Dilma. e o que fica nele é o PT e sua imensa base aliada. deixou-se tentar por uma metáfora meteorológica. .

O cerne desse sistema de orientação está no seu caráter pluriclassista e pluripartidário. os sinais são os da volta da política. deverá governar com a aliança que suporta sua candidatura — é falso dizer. ao se pôr em linha de continuidade com ciclos afirmativos da modernização brasileira. O lulismo é isso e mais as habilidades de comunicação do seu inventor. poderão ocorrer fortes tensões entre o lulismo e o PT — certamente com sua nova representação congressual bem mais encorpada —. tendo em vista inclusive a ultrapassagem dos seus limites nacionais. em seu objetivo de consolidar e aprofundar a experiência do capitalismo brasileiro. em um eventual governo Dilma. acabaram por se traduzirem em um sistema de orientação política não escrito. Reinterpreta. que seus aliados não tenham ideias. e o PMDB. como os de Vargas. como já se sabe. em especial com a valorização do papel do seu Estado. mesmo que . especialmente na sua relação compadecida com as massas mais pobres da população. o de JK e o do regime militar. que não conhecerão mais a arbitragem de Lula detendo os poderes de chefe de Estado. Não há motivo para espanto com o diagnóstico de que. pondo em risco a economia do país. a segunda. No caso. saberão encontrar justificação no terreno aberto da batalha das ideias? Haverá intelectuais entre nós capazes de defender persuasivamente. o tempo é novo e próprio à navegação. contrapondo-se à versão do PT. foi refratária a políticas centradas na questão nacional e em estratégias de modernização “pelo alto”. a história do país. na forma dos programas de assistência social em curso. y compris o agronegócio? A esquerda está pronta a se reencontrar com os caminhos da democracia como valor universal. não se perde por esperar. reafirmado sem equívocos na campanha da candidata situacionista. uma via de “nacionalismo revolucionário” em aliança com a burguesia. implicando uma reinterpretação. que já encontrou abrigo até em setores do próprio PT? De qualquer forma. é de se esperar que as intervenções escoradas no carisma cedam lugar à política. Dele igualmente fazem parte políticas destinadas à inclusão social de setores marginalizados. Por onde se devassa o horizonte. a primeira delas admitindo a possibilidade de um impeachment. Os caminhos de hoje. ficará bem perto disso. inclusive porque Dilma. que.273 As respostas aos duros desafios que se apresentaram nessas oportunidades. se assim o quiserem as urnas. filhos da contingência. em chave positiva. se não compuser a maior bancada nas duas casas congressuais. pois. para o que conta com o Estado e suas agências produtivas e financeiras como instrumentos estratégicos. intocada por esse sortilégio. para além dos sussurros de hoje. apenas interesses —. da história brasileira. desde as suas mais remotas origens.

que a rota que tiver curso vai se defrontar com o carisma de Lula rondando por aí .274 se saiba. de ciência certa.

que tal expectativa tem sido frustrada. Com efeito. Para tanto. o atual bom desempenho da economia. sob um regime democrático.275 Para onde estamos indo? (13 set. outra forte expectativa daquela agenda era a de que. Decididamente. em um mercado político de massas. alargando a esfera pública com a participação de organizações sociais autônomas do Estado — a própria Carta de 1988 declarou que. uma das melhores expectativas da agenda de lutas da resistência democrática contra o regime autoritário dos anos 1964/85. afinal.) O argumento desta coluna de hoje não vai obedecer a uma linha reta. e. portanto. pelo voto. a cidadania reuniria. menos ainda. a democracia brasileira seria participativa. diante do atual estado de coisas. que vinculava as exigências de democratização social ao avanço continuado da democracia política. resultado da elevação das rendas de parcelas da população situadas desde sempre na base da pirâmide social. Contudo. conferir primazia a este nas suas relações com ela. como o sindicalismo. além de representativa. resultante. esteve muito longe das cogitações dos fundadores da moderna república democrática brasileira apartar a sociedade civil do seu Estado. têm contribuído o poderoso legado da Carta de 1988 em matéria de regulação da questão social brasileira. na forma que se vem impondo nos últimos anos. Tal forma não obedece a qualquer desenho institucional legitimado pelo legislador. Não é difícil admitir. Pesquisas recentes têm até demonstrado um crescimento significativo de um mercado consumidor com padrões típicos das classes médias. principalmente nos momentos eleitorais. confirma-se. mas é fato fora de qualquer contestação que a estabilidade das instituições da democracia representativa ao longo dessas últimas três décadas tem repercutido positivamente no sentido de favorecer políticas públicas destinadas a minorar o grau de exclusão dos setores subalternos da nossa sociedade. para que algumas de suas demandas mais sentidas sejam incorporadas pelos que buscam a sua representação. assim como as políticas orientadas para o aumento do salário-mínimo e os programas de cunho assistencialista com foco nos setores socialmente mais vulneráveis. atribuindo ao cidadão um papel ativo na condução do seu destino. inclusive por meio de nexos corporativos que instalam no seu interior movimentos sociais organizados. em boa parte e na melhor das . À primeira vista. as grandes maiorias vêm encontrando os meios. condições para adensar a sociedade civil. com a afirmação de um regime de liberdades civis e públicas.

Nada de surpreendente. fosse conduzido à Presidência no primeiro turno das eleições. vale comparar com o que sucede com as reformas sociais empreendidas pelo governo Barack Obama. antes de âmbito reduzido. que. em que alguns dos seus principais êxitos sociais e econômicos tiveram a característica comum — mais uma convergência entre eles — de serem resultados. partícipe passivo desses processos. um dos responsáveis por ele. com uma mínima intermediação da política. uma representação nua do social que apenas tolera a política como um mal necessário. notoriamente. Alguns momentos ilustram esse processo: a fixação. a adoção de uma agenda de intervenção na questão social como política de Estado — para esse fim. que a política esteja em baixa. da luta contra a inflação como objetivo primordial da ação do Estado. entre a alta tecnocracia estatal e o homem comum. então. e. repercutindo fortemente na melhoria das condições de vida dos setores subalternos. diante de uma sociedade imobilizada politicamente. Estabeleceu-se aí um encontro feliz. propiciou outro encontro feliz do governo com as massas desvalidas da população. Lula. a ponto do nosso principal partido de massas. que têm implicado. a todos os títulos justificável. aí. São. . para melhor perseguirem seus fins. por duas vezes. no seu encaminhamento. adotou um modelo de modernização típico de processos capitalistas politicamente orientados. ao massificar políticas de assistência social. especialmente a da política de saúde. O sucesso do Plano Real. ter sido ultrapassado pelo lulismo. Igualmente com mínima intermediação da política. das contingências da política e das reações dos atores no sentido de buscar soluções para elas. não se limitou a sanear e a racionalizar a economia. No caso. no governo Itamar Franco.276 hipóteses. portanto. quatro mandatos de governos do PSDB e do PT. no governo Lula. de intervenções do Estado e de suas agências especializadas na regulação da economia e na do social. Em políticas dessa natureza. mas. forneceram um expressivo contingente de votos para que FHC. o decisivo depende de intervenções sistêmicas com origem nos centros de poder. criou-se o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza — e de uma estratégia de modernização conduzida pela ação estatal. a partir do seu segundo mandato. se insulam da sociedade. que. já para a felicidade das grandes empreiteiras e de outros setores do grande capital. uma máxima intermediação da política na sociedade americana. por meio de intervenções tecnocráticas. o PT. Em estilo semelhante.

e não há bons pretextos para ignorá-la. porque ela politiza tudo —. em uma sociedade com suas tradições fincadas no autoritarismo político. resta submersa no social — a questão agrária. em registro minimalista. como uma pedra no caminho. para onde mesmo estamos indo? . em que os principais candidatos sequer revelam seus programas de governo e passam ao largo. A propósito. a política é a grande ausente.277 Nessa sucessão. das discussões sobre como aperfeiçoar a democracia entre nós. nem para que se procurem atalhos fora dela em nome de presumidas razões de justiça e de imperativos de grandeza nacional. Ela é o caminho. que transcorre em meio a uma melancólica apresentação de dados sobre indicadores sociais. é claro. fora. A política.

deveríamos admitir a natureza refratária da massa dos indivíduos subalternos aos temas abstratos e complexos. que confrontaram os candidatos à presidência Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal. apenas capazes de dar ouvidos a quem deles se aproximar com um dom materialmente tangível. cada um dos oponentes apresentou seus diagnósticos sobre o estado de coisas reinante em seus países e os programas de ação em que iriam se empenhar. com a brasileira. como nas famosas interpelações de Barack Obama ao inventário das tradições americanas. como a imigração. ela própria. não há razão alguma para que não se introduzam nos debates sucessórios a questão crucial da transposição do rio São Francisco. Seria deles. no segundo. não se deveria esperar que a campanha presidencial em curso reeditasse o seu padrão de debates. caso vitoriosos. para a qual a população sertaneja. na França e nos Estados Unidos. Sequer faltaram as que tinham por objeto a própria interpretação de suas histórias nacionais. caso exposta às controvérsias nela presentes. e Barack Obama e John McCain. Ora.278 Que social-democracia é esta? (6 set. quando.) Não é preciso recuar muito no tempo. assim. no calor das controvérsias. nas intervenções espontâneas. assim. e. a campanha presidencial quando se destina às massas deserdadas do Nordeste se torna refém das políticas de programas assistencialistas. vanguardas do Ocidente desenvolvido. Na velha pauta do nosso pensamento conservador. a marca personalíssima de cada candidato nas questões mais sentidas de suas sociedades. Sobretudo no que dissesse respeito às novas oportunidades que se poderiam abrir para que. a responsabilidade pela pobreza dos debates. saberia manifestar as suas preferências. afinal. explica-se a falta de imaginação e o caráter personalista da nossa política como resposta funcional à rusticidade da nossa sociologia. Evidente e natural que os temas selecionados e o tipo de desempenho adotado por eles estavam largamente informados por pesquisas de opinião e por especialistas em marketing eleitoral. Dessa forma. viesse a reunir condições para reinventar a sua forma de inscrição no . a serem expandidos e aperfeiçoados na linguagem comum dos candidatos. mais uma vez. com audiência mundial. a guerra. mas também ficou evidente. os rumos da economia e da administração da questão social. pois são de ontem os debates. com os temas a ela correlatos. no primeiro caso. ouvir estrelas… Não haveria termo de comparação entre essas duas sociedades. Se o estado de emergência em que vivem justifica esse tipo de intervenção. direis. e.

entre outras medidas relevantes. o governo recuou dessa proposta. reconhecer a necessidade de uma reforma que torne “a organização sindical livre e autônoma em relação ao Estado”. clara opção em favor da pluralidade sindical e da extinção da contribuição sindical. que sempre combateu. convocado pelo próprio governo. admitindo-se como adequada essa conceituação em voga sobre o que seria. da sua intervenção direta na qualidade de intérprete mais qualificado do interesse geral. Contudo. de 2005. interpretando deliberações do Fórum Nacional do Trabalho. Seu atraso constitutivo e sua tradicional fragmentação não favoreceriam que a livre explicitação dos interesses conduzisse às soluções mais justas e racionais. mais do que da arbitragem do Estado diante de interesses divergentes. vindo a fomentar “a negociação coletiva como instrumento fundamental para a solução de conflitos”. data daí. Um exemplo significativo desse estado de coisas se encontra na vida sindical. encaminhou a PEC 369/05. . de FHC a Lula. dizendo. presente desde os tempos em que Lula era um sindicalista metalúrgico do ABC.279 seu mundo. em oposição ao legislado. se o conceito se aplica. que dependeriam — em um diagnóstico que nos devolve à demofobia de um Oliveira Vianna dos anos 1920/30 —. que tem prevalecido nestes anos do segundo mandato de Lula. felizmente ainda sem teoria que a escore. que estariam a impedir a ação de uma representação autêntica da vida associativa dos trabalhadores. em marcha batida. a caracterização do sistema de governo atual. Como amplamente sabido. em sua declaração de motivos. demonstra confiar muito pouco na sociedade civil. quando se disparou o comando de meia-volta. e. volver. Ainda fiel a essa inspiração. o modelo da social-democracia neocorporativa à brasileira. com o que veio a propiciar o retorno a práticas do corporativismo de Estado. propõe a desconstitucionalização do princípio da unicidade sindical. Com essa prática. A cara nova da social-democracia à brasileira. mudando sua agenda sindical no sentido de destinar às centrais sindicais reconhecidas pela legislação um porcentual do arrecadado com a contribuição compulsória. destacado sindicalista e prócer do PT. o então ministro do Trabalho. O mesmo em relação às populações a serem afetadas pelas intervenções nas bacias hidrográficas já em andamento ou em fase de planejamento no Norte do país. e. A opção por um modelo de sistema de sindicalismo negociado. o melhor lugar para os movimentos sociais estaria nas adjacências do Estado ou no seu próprio interior. o ministro Berzoini identifica a existência de “obstáculos institucionais à modernização das relações sindicais”. Nessa exposição de motivos. consistiu em uma das marcas de origem da formação do PT. Ricardo Berzoini.

. em que só cabe lugar para o Estado e sua ação paternal sobre a sociedade. De lá para cá. já se passou uma campanha presidencial e estamos quase ao término de outra.280 redescobrimos o Estado dos anos 1950/60. sem que se discuta que socialdemocracia é esta.

como a tributária e a política. A hipótese. seus pontos programáticos em matérias de educação. toda a obra da Carta de 1988 estará sob risco. após a vitória eleitoral de Lula. Os dois principais candidatos oposicionistas sequer sugerem uma ameaça efetiva às linhas principais do governo e têm declarado em alto e bom som que serão. mais o fato de tanto Serra como Dilma serem personagens avessos a histrionismos carismáticos.281 O Regresso (30 ago. em tom monocórdico. a possibilidade de uma convocação de uma assembleia constituinte. Tudo isso. com perfis políticos forjados em temas técnicos da economia e da administração pública. na TV e nas emissoras radiofônicas. perdoável em jovens militantes intelectuais do PT. seriam indicações de que há algo de impostado nas manifestações exaltadas das hostes situacionistas. contínuos a elas. e sabe-se lá qual modelo de . o candidato às próximas sucessões. obedientes à pauta que lhes empurram os seus especialistas em marketing eleitoral. E se assim for. e não Dilma. no fundamental.) Não está fácil compreender o que anda se passando. no caso de vitória de Dilma. vista ao lado de uma série de outros indicadores. o que rolaria. Sob esse véu das promessas compadecidas. a análise chega ao território das coisas indemonstráveis. saúde e segurança. e nas vindouras em carne e osso. tudo o que aí está vai se consolidar e mesmo se aprofundar. E a partir de considerações desse tipo. Na eventualidade. Nada vai cair. por interposta pessoa. Não há paixões soltas nas ruas nem debates acalorados entre os principais candidatos à sucessão presidencial que desfilam. Não se põe de volta ao tubo a pasta de dentes que se extraiu dele. especialmente quando se considera. houve quem a recebesse como uma queda da Bastilha. Se em 2002. em particular o regime de freios e contrapesos que ela criou para impedir a tirania de maiorias eventuais. especialmente do presidente de honra do PT e da República. mesmo que de poderes limitados para fins de reformas pontuais. nem o da questão social em geral. porque não se pode deixar de cogitar que é Lula. ao contrário. de verdade. qualquer tentativa de interpretá-la em chave grandiloquente é puro disparate. o cenário real em que se deve travar a disputa eleitoral não pode ser o do trinômio saúde. não é para ser negligenciada. seria um projeto de poder e de acumulação de mais poder. agora em 2010. se vier mais uma vitória agora em 2010. como se esta sucessão importasse um confronto dramático entre duas concepções do mundo. educação e segurança. o que era um exagero.

restaurando a majestade do Estado. opondo a democracia formal à substantiva. ao modelo da modernização. . e até parece indiferente ao fato de as oligarquias tradicionais mais recessivas e cúpidas estarem instaladas nos postos de mando. ao invés de seguir em frente com sua experiência republicana. se há e havia um caminho promissor rumo ao futuro. temerosa dos setores populares. no período regencial. são as do 18 Brumário de que estamos mais próximos. como se dizia em meados do século XIX. A sociedade regride ao aceitar passivamente a verticalização a que estão sujeitas as questões que lhe dizem respeito. então. da autonomia de suas organizações. é claro. quando a nação francesa. externos e internos. conclamava a mobilização popular em defesa do seu legado. com inícios na resistência ao regime autoritário. em especial com as tradições de estadofilia que nos caracterizam. por que não fazer dele o centro estratégico da sua política? Retorna-se. retomando. com a ressurgência do mito de Vargas. que grassa em surdina em certos círculos do poder? As respostas podem ser muitas. na esteira do movimento de emergência popular. Mas por que essa viagem de volta na história. teríamos também um encontro marcado com o nosso passado. inclusive os sindicatos. abdica do moderno. se espraiou nas décadas seguintes com a conquista da Constituinte. que Vargas conheceu e que levaram ao desfecho trágico do seu governo. findo o tempo em que a sociedade. Como no Império. E para quem está à testa do Estado. que. Melancolicamente. A ficar com as imagens da Revolução Francesa. vinculada como está às agências estatais. Pachorrentamente. assim em maiúsculas. noimpeachment de Collor e na vitória do PT na sucessão de 2002? Por que se retornou ao anacrônico dilema. ganhou alguma autonomia diante do seu aparato burocrático. aos seus ícones intelectuais e ao tema do nacional-desenvolvimentismo.282 democracia participativa vingaria com a vida associativa. podemos constatar que o Regresso. e agora com um mito vivo. fez a opção de se voltar para o seu passado. em uma sociedade já prosaicamente burguesa. ao que parece. estejamos em uma cena já esvaziada da carga dramática das lutas anti-imperialistas dos anos 1950 e diligentemente empenhados no aprofundamento da experiência capitalista brasileira sem os obstáculos. Aqui. embora. abre caminho. em suas últimas palavras. esse revival do varguismo não se esquece de recordar o papel de pai dos pobres que lhe colou em sua campanha presidencial largamente vitoriosa. o mito napoleônico. mas qualquer delas será falsa se não admitir que o princípio em vigência é o de acumular poder pelo poder. Vargas que.

a sociedade se prepara para revisitar o nosso abominável mundo velho. .283 docemente resignada. com suas ruas emudecidas.

mais e melhores bolsas famílias. e que assim se conservem — a fazerem o elogio da modernização conservadora brasileira. tal como na Alemanha. esteve presente em contextos nacionais que abriram passagem para o fascismo. e a coalizão pluriclassista que o sustenta. como modalidade de mudança social. o cliente e os intelectuais (23 ago. Itália e no Japão? A tentação de rendição a esse processo. se generaliza e não pode ser mais ignorada. recua para o campo de uma perspectiva ético-moral: a precedência da administração sobre a política se faz defender pela primazia que deve caber à questão social.) Será mesmo que estaríamos condenados pelo destino a avançar a pequenos solavancos. em que todos disputam quem detém as credenciais para levar adiante uma história que deu certo e que segue uma linha reta de realizações nos objetivos nacionais. com a exposição do Estado e de suas políticas públicas às pressões que vêm do voto e que demandam mais segurança. no registro da compaixão. em nome de uma presumida delegação que a sociedade lhe teria conferido graças a seus bons resultados na economia e na questão social. cabendo ao Estado e às suas agências selecionarem os alvos preferenciais de suas ações. e que. parece confirmar esse movimento. O despojamento político da sociedade. O cidadão fica submerso no cliente. amplia a sua legitimação e o domínio que exerce sobre sua sociedade ao estender a sua rede de incorporação a setores até então dela excluídos. Pedro II com Vargas. hoje essa linha se esticou até Lula. Agora. acabado por se acomodar ao tempo lento e aos ganhos “moleculares”? Já não se ouvem vozes na Universidade — felizmente ainda isoladas. o Estado. a dar crédito ao discurso dos candidatos que se encontram no topo das pesquisas eleitorais. A sucessão em curso. Para ele. sobre uma massa de seres dependentes. pois. uma vez que essa seria uma marca inamovível. passando pelo regime militar. segundo seus termos. governar é administrar. mais saúde e educação. e é saudada como benfazeja. forma autoritária que presidiu o nosso processo de industrialização. Em cada volta. cabendo a ele . no que seria um encontro com a nossa verdadeira natureza.284 O cidadão. reserva o monopólio da política. mais uma volta gradual nesse parafuso estaria para ser concluída. depois de experimentar tantas alternativas. à falta de uma justificação na teoria democrática. Se até pouco tempo atrás um Raymundo Faoro identificava com palavras sarcásticas um fio vermelho a vincular D. ancorada na forma conservadora com que nosso Estado veio ao mundo? Teria a sociedade.

285 decifrar. Se o chamado “protagonismo dos fatos” campeou no primeiro mandato. Só está faltando dizer que. foi delineando o seu contorno. fincadas na precedência do Estado sobre a sociedade civil. Nas competições . em que se assuma a defesa da sempre perigosa. tal como fizeram o Visconde de Uruguai no 2º Reinado. inclusive fora de suas fronteiras nacionais. tão esquecido até recentemente. talvez nem vingue completamente. por ora. já assentada sobre uma crescente economia capitalista. Ela não surgiu pronta. não passa de um exercício de mistificação. Evidente que há uma política nos atuais círculos governantes. mas. embora seu alardeado pragmatismo. para os fins da democracia. apresentar as razões dessa política grão-burguesa. submergir a política na questão social. na moderna democracia de massas brasileira. o Brasil deve investir no papel da política expansionista americana de começos do século XX. Francisco Campos. evitando os atalhos que não levam a lugar algum. que as defendeu em sua obra produzida entre as décadas de 1920/1930. Azevedo Amaral e Oliveira Vianna no Estado Novo. chegou-se a ela em meio ao segundo mandato de Lula. no século XXI. e Golbery do Couto e Silva e outros no regime militar. mal sabemos os nomes dos intelectuais que aceitam o risco de se apresentarem como seus campeões. e não à toa Oliveira Vianna. Nada disso é distante das nossas mais remotas tradições. tenha se tornado um autor de referência nos estudos atuais sobre a formação do nosso pensamento social e político. da política científica e da projeção para o exterior do capitalismo brasileiro. por ensaio e erro. abdicar da política e se embrenhar nos caminhos perdidos da administração. inteiramente descontínua quanto ao que foi o programa libertário do PT dos movimentos sociais e da auto-organização do social. Evitá-la é não lhe conceder terreno livre. e não questionar a vinculação atual dos movimentos sociais e do sindicalismo ao Estado. com a vocação e as oportunidades para uma vigorosa expansão. talvez até por ardil. e. ainda. já são visíveis as mãos que operam no campo decisivo da alavancagem da economia. qual o candidato mais confiável para a realização das promessas de ocasião. fusão entre o Estado e os grandes grupos econômicos como hoje se verifica à vista de todos. que. como se verifica nos atuais debates sucessórios. na prática. quem sabe. Contudo. e que conta com palpáveis possibilidades de se reproduzir no próximo governo. Falta. Ela ainda não recuperou o viço de outrora. nunca se recusou a sua justificação. como se perder em discussões sobre mutirões de saúde. do Império a Vargas. na hora do voto. A ideologia de Estado entre nós. e. quando dominante.

sem deixar para os que vão continuá-la o exemplo da coragem e de uma posição firme quanto a princípios. .286 esportivas e eleitorais. perder faz parte do jogo. o que desonra é perder sem luta.

entretanto. com esse desfile monótono de candidatos. sem perder de vista o objetivo crucial do jogo. o que se assistiu na terça-feira. até agora inquestionável. apesar de se mostrar aguerrido. fazendo do oponente um mero espectador de suas evoluções em campo. certamente foi um fator. Ocorre. que.) Não se trata de mais uma entediante metáfora futebolística. Depois dos jogos da Copa do Mundo em que nosso time. Última imagem com futebol: Plínio atuou como um dos meninos do Santos que . o mote dessa campanha deveria se centrar nos temas da continuidade e do aperfeiçoamento de políticas em andamento. o gol. uma seleção americana formada há anos. produzindo o resultado. porque. mas não deve explicar tudo. nossos jogadores fluíam no gramado leves e soltos. quem sabe em uma bola parada ou em erro do adversário. pela ênfase e comunicação expressiva de suas convicções. Tal diagnóstico recomendaria. em território do adversário. Qual a mudança que transformou o comportamento do nosso time? A entrada de novos jogadores. na expectativa de que a sorte viesse a lhe sorrir. A explicação é conhecida: dada a popularidade do governo Lula e a noção de que haveria um sentimento de satisfação com o estado de coisas reinante. mas esse último jogo da seleção brasileira dá no que pensar. A comparação com o quadro melancólico da sucessão presidencial em curso parece se impor. embora senhores (e senhoras) de fortes personalidades e cada qual com um histórico expressivo de realizações na vida pública. passado apenas um mês da nossa participação naquela infausta competição. nos debates organizados pela rede de TV Bandeirantes. foi como que uma confissão pública de um equívoco monumental. memoráveis momentos de um passado político nem tão remoto assim. evoluía pelos quatro cantos do campo sem a menor imaginação. segundo especialistas em marketing eleitoral. parece ter sido decisiva a da cabeça. como se fossem ventríloquos de marqueteiros. relembrando o seu desempenho. que veio a valorizar as características de improviso e de inovação tradicionais à nossa cultura futebolística. de que se tornassem semelhantes entre si. com a adoção de uma nova concepção de jogo. uma atitude de contenção por parte dos candidatos nas manifestações de suas convicções. antes da intervenção de novos pés.287 Plínio e os meninos do Santos (16 ago. de belo desempenho na África do Sul. o candidato que melhor atraiu a atenção do público comportou-se fora desse script. Apesar de enfrentar. antes descartados.

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derrotaram a seleção americana, como se estivesse entre os burocráticos jogadores que
disputaram a Copa.
Sem discussão, contudo, o viés anacrônico de certos posicionamentos do candidato do
PSOL, mas esse senão não é um bom motivo para ignorar que ele trouxe à sucessão a
questão da igualdade como nenhum outro, sem os subterfúgios das políticas de foco à
moda de um neoliberalismo enrustido tão em voga. O fundamento último da República
não é outro senão o da igualdade, pois o mundo dos desiguais é o dos principados, cujo
melhor destino possível é contar com condottieri virtuosos que se façam amar por suas
obras e feitos pelo seu povo, que delas usufrui como o camponês dependente do regime
do clima, olhando para o céu a esperar pelas chuvas. Mas a sorte mais comum dos
principados é a de estarem os muitos sujeitos à discrição de uns poucos, às vezes de um
só, em sistemas despóticos que a política moderna aprendeu a camuflar no interior de
aparências apenas formalmente democráticas.
Nesse sentido, está certo o candidato Plínio, diante do silêncio dos demais, em levantar
o tema da democratização da terra, que, desde a nossa hora inaugural, nos condenou à
desigualdade com uma história de latifúndios que criou a “ralé de quatro séculos” dos
moradores de favor, base da cultura da dependência da multidão dos homens do campo,
e que, com a queda do Império, se traduziu no sistema do coronelismo que contaminou
os inícios da nossa vida republicana e ainda está por aí.
Trazer o tema da terra para o centro do debate político, nas condições de hoje da
sociedade brasileira, importa, preliminarmente, reconhecer que não há boa solução fora
dos princípios e das instituições da Carta democrática de 1988, filha das lutas por
liberdade dos brasileiros. Importa, ainda, reconhecer que se deve procurar uma via de
compatibilização entre o agronegócio, uma das vigas mestras da moderna economia
brasileira, a defesa do meio ambiente e uma política agrária de estímulo e expansão da
agricultura familiar, a qual deve ser objeto de uma política específica de distribuição de
terras, tanto pelos seus efeitos benéficos à economia, como, talvez sobretudo, pela sua
intrínseca capacidade de democratizar a sociedade e a política.
Não há como fugir do diagnóstico: sem igualdade não teremos a República para a qual
nos orientam os melhores impulsos da nossa história. Sem ela, o movimento que hoje,
na esteira da expansão da fronteira do capitalismo brasileiro, nos empurra para o mundo
exterior, liderado por empresas e negócios que florescem à base da nossa abissal
desigualdade social e de uma crescente centralização e concentração de capitais, longe
de nos aproximar do modelo de uma República democrática pode, ao contrário, nos

289
avizinhar da República dos doges em Veneza, ou, para quem preferir uma comparação
mais moderna, da belicosa República americana dos nossos dias.

290
Ventos do sudoeste (9 ago.)
Não se perde por esperar porque, lá longe, já sopra um vento sudoeste, e isso, como
sempre se soube, é sinal de chuva grossa. A bonança dessa sucessão é de mau agouro,
pois mantém a atenção descuidada do que vem por aí, uma vez que ela não corresponde
a um estado de coisas realmente existente, e sim à crença, que ultimamente se alastrou
entre nós, de que atingimos, nestes 16 anos de PSDB e de PT, o ponto ótimo, e final, da
história do Brasil.
Confiante nela, a sociedade se entrega ao curso dos acontecimentos, embalada pelo
canto de sereia dos êxitos econômicos, pela pujança do seu agronegócio, pela presença
afirmativa no cenário internacional e pela estabilidade política e financeira, certa de que,
agora, navega no rumo certo. Nesse diapasão, a palavra de ordem não poderia ser outra
senão a de continuar, e, uma vez que a política é sempre o terreno da controvérsia e da
exploração de outros mundos possíveis, não haveria lugar para ela em meio a tantas
certezas, devendo ceder lugar à administração, arte da qual se espera aperfeiçoar o que
aí está.
Contudo, é do próprio processo dessa sucessão presidencial que vêm os avisos de
desvios de rota, mesmo que se possa desconfiar de que eles sejam meramente parte de
uma estratégia eleitoral de setores que, no interior do governo, patrocinam a candidatura
situacionista. Pois é deles que tem partido a sinalização para uma forma de capitalismo
de Estado orientada para objetivos grão-burgueses de grandeza nacional, associando o
empresariado, por meio do financiamento estatal, aos seus propósitos. Trata-se da
situação clássica de “exasperar, por meio de recursos políticos, a conquista de fins
econômicos”, tendente, também classicamente, a realizar uma fusão entre essas duas
dimensões.
No caso desse empreendimento vingar, decerto que se introduzem importantes
elementos de mutação na experiência de social-democracia no país, em uma deriva
potencialmente autoritária, na medida em que a sociedade passará a ser objeto passivo
de uma tecnocracia de estilo messiânico que traz para si a representação do projeto de
nação. Tal processo pode ser ainda mais insidioso se persistem as tendências atuais de
estatalização dos sindicatos — do que a recente legislação sobre as centrais sindicais é
um sintoma —, dos movimentos sociais e da política assistencialista, cuja inspiração,
não custa nada lembrar, é de cepa neoliberal.

291
Contudo, esse eixo, melhor identificado em grandes personagens da cena atual, como
Samuel Pinheiro Guimarães, Nelson Jobim e Mangabeira Unger, não reina solitário. Em
outra ponta, o eixo Antonio Palocci-Henrique Meirelles representa tendência oposta,
contínua, em seus fundamentos, ao ciclo de dezesseis anos de governos do PSDB e do
PT, mais pragmática e refratária a uma estreita vinculação entre política e economia.
A competição entre esses eixos ainda não é aberta, ambos empenhados na candidatura
situacionista, que, na eventualidade de uma vitória, deverá fazer sua opção. Um deles
sairá perdedor, restando sempre a possibilidade de um compromisso entre eles, tal como
vem ocorrendo nesses últimos anos do governo Lula. Esse compromisso se apresenta,
desde já, como difícil, não só porque o pêndulo, nos últimos tempos, se deslocou em
sentido favorável a uma forma qualquer de capitalismo de Estado, pela biografia da
candidata Dilma — em toda a sua carreira, uma personagem da administração pública
— e, sobretudo, pela falta de Lula, que fez da composição de contrários a sua marca
como homem de Estado e, nessa arte, ao que parece, não formou discípulos à altura.
A disputa entre eles, em um eventual governo Dilma, não deve ficar retida nos quadros
palacianos, cada qual procurando escoras em organizações e movimentos da sociedade
civil, abrindo um debate público em torno de questões programáticas, que, pela sua
própria natureza, estimulam a mobilização social.
Ainda na hipótese de uma vitória de Dilma, outro componente novo será a da posição
do PMDB, que contará com a vice-presidência, governadores de Estados, ministérios e
uma expressiva bancada congressual, que, diante de uma divisão por motivos
programáticos no interior do PT e do governo, pode vir a se comportar com orientação
própria, ora vetando políticas, ora impondo outras, e já visando a sucessão de 2014, no
interior da coalizão governamental. O dissenso em cima deve afrouxar a capacidade de
hoje do Estado de controlar os movimentos sociais, que assim poderão interromper o
quietismo em que estão imersos.
Em outra perspectiva, se vencer o candidato Serra, é de se aguardar uma forte oposição
por parte de movimentos sociais, especialmente daqueles que foram trazidos pelo atual
governo para o interior e proximidades do aparato estatal, e que devem perder essas
posições. A sombra de Lula, no ostracismo de São Bernardo, pode vir a assombrar o seu
governo, como a de Getúlio, em São Borja, assombrou o de Dutra. O capitalismo de
Estado no seu governo não será certamente uma alternativa de política, mas sua
linhagem de formação intelectual de estilo keynesiano promete uma forte presença
estatal na condução da economia, até preservando quadros da atual administração.

292
Assim, por fas ou por nefas, é a política que deve voltar, encerrando esse longo período
melancólico em que só se falou da administração das coisas. Mais uma vez, constata-se
o papel das sucessões presidenciais na liberação de energias novas, o que ocorreu
mesmo no regime militar, que, aliás, acabou em uma delas.

293
O problema do inimigo e a questão nacional (2 ago.)
Um observador estrangeiro que queira interpretar o atual estado de coisas da política
brasileira deve estar advertido de que este país tem horror à linha reta, uma vez que o
traço da preferência nacional é o zigue-zague. Fazem-se, por exemplo, histórias
políticas de êxito em nome da necessidade de uma ruptura com a era Vargas para, mais
à frente, reabilitá-la, sem que se suspenda o juízo crítico que a condenou como
experiência malsã e sem que se justifiquem os motivos da sua reabilitação. Metáforas
médicas como sístoles e diástoles são empregadas, com sucesso de público, para
explicar as vicissitudes do federalismo brasileiro, como se, para nós, o eterno retorno
fosse um dado da natureza do nosso metabolismo político.
Ainda agora, no curso desse ciclo de dezesseis anos de governos de social-democracia à
brasileira, com seus temas reprisados à exaustão, como esse tal de presidencialismo de
coalizão que nos assola desde FHC, sinais que poderiam indicar uma circunstância
afortunada para invenção e descoberta de novos caminhos nos levam mais uma vez ao
passado, em busca de velhas ferramentas. Assim, nesta sucessão presidencial, os magos
da prestidigitação eleitoral afetam sacar da cartola a tópica do nacional-popular,
evocando um tempo de crispações e de duros antagonismos da sociedade dos anos
1950/60, embora vivamos sob um céu de brigadeiro, nessa ordem burguesa
domesticada, que se aprofunda sem cessar.
A tópica do nacional-popular, como se sabe, resultou de uma inovação conceitual e
política concebida especialmente pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), em meados
do século passado, após longo processo de discussão. Seus termos foram consagrados
na famosa “Declaração de Março” de 1958, com que os comunistas abandonaram a
ortodoxia das lutas de “classe contra classe”, passando a adotar uma política de alianças
amplas em torno do nacionalismo a fim de emancipar o país da dominação imperialista,
especialmente americana, e de remover os entraves estruturais que estariam impedindo
o livre desenvolvimento das forças produtivas nacionais, entre as quais as relações
semifeudais no mundo agrário. Tal aliança deveria assumir uma configuração
pluriclassista heterogênea, envolvendo o proletariado, seu componente mais
consequente, os camponeses, a pequena burguesia urbana, a burguesia e até os setores
latifundiários que possuíssem contradições com o imperialismo norte-americano.
Com essas características, suportada em elementos de extração social tão diversa, essa
aliança nascia dependente de ações políticas bem calculadas, que, sem perder de vista os

294
interesses contraditórios dos atores envolvidos, fosse capaz de manter a unidade em prol
do objetivo comum. Segundo o texto da “Declaração”, a burguesia seria uma força
revolucionária inconsequente, temerosa de uma ação independente das massas,
vacilante e tendente a compromissos com os setores entreguistas. O proletariado deveria
se postar, a um tempo, como o agente mais ativo das lutas dessa complexa frente e
como a sua consciência crítica, salvaguardando a sua independência ideológica, política
e organizativa sem, no entanto, comprometer o objetivo principal da aliança
nacionalista.
Em suma, a ele cabia disputar a hegemonia no interior dessa coalizão pluriclassista, sem
se deixar subsumir às forças aliadas — mas sem antagonizá-las radicalmente —, daí
que, nessa concepção, a melhor designação desse movimento seria a de nacionalpopular.
O cenário em que veio à luz a “Declaração de Março” de 1958 é o da política
desenvolvimentista de JK, apenas alguns anos após o trágico desfecho do segundo
governo Vargas. Sob JK, o executivo chama para si o planejamento do processo de
indução da industrialização, que passa a ser favorecido por financiamento do Estado e a
contar com sua proteção fiscal. Para a esquerda e os setores nacionalistas, inclusive das
Forças Armadas e da alta burocracia estatal, estaria aberta uma senda nova, a ser
mantida e ampliada, e que significava, afinal, a descoberta da natureza singular da
revolução brasileira como nacional, democrática e popular.
Levar essa revolução à frente importava uma crescente mobilização de massas, das
cidades e do campo, nesse último caso em torno de uma reforma agrária em favor do
campesinato e de lutas que viessem a garantir os direitos trabalhistas no mundo agrário.
Nesse sentido, a radicalização dos movimentos por direitos dos setores subalternos
deveria se traduzir em pressões de baixo para cima em favor da abertura do Estado às
suas reivindicações e em mudanças internas em sua composição, que, por sua vez,
deveriam repercutir em favor de medidas mais enérgicas contra os interesses e grupos
identificados como inimigos da nação.
Notório que, em 1964, fechou-se esse capítulo do nacional-popular. O regime militar,
em particular no governo Geisel, reinterpretou-o de forma bastarda, cancelando o
popular e concedendo ao nacional o sentido grão-burguês de objetivos de grandeza
nacional. Agora, quanto mais se aproxima o fim do segundo governo Lula e mais
vizinhos estamos do processo eleitoral, imprevistamente, ressurge, vindo de vozes do
interior do próprio Estado, a questão nacional, nua de qualquer outra qualificação e

295
absolutamente inocente quanto a pretensões de mobilização popular, inclusive no
mundo agrário, que, aliás, vai muito bem com o agronegócio. Discípulos de um filósofo
político em moda poderiam perguntar: nessa versão corrente da questão nacional, qual é
mesmo o inimigo? A imagem é gasta, talvez devesse ser evitada, mas se tornou
inevitável, porque o enredo trágico do nacional-popular — com o suicídio de um
presidente, a renúncia de outro e um golpe militar — está ameaçando retornar como
farsa.

296
Revolução passiva e República (26 jul.)
Revoluções passivas são processos de revolução sem revolução em que as elites
políticas das classes dominantes se apropriam total ou parcialmente da agenda dos
setores subalternos, cooptando suas lideranças, afastando outras, em uma estratégia de
conservar-mudando, tal como nas palavras de um personagem do romance O leopardo,
a obra-prima do italiano Giuseppe Lampedusa, que sentenciava ser necessário mudar
para que as coisas permanecessem como estavam. Deve-se a Antonio Gramsci a mais
refinada elaboração do conceito desse processo particular de mudança social, em
especial em dois textos coligidos em Cadernos do cárcere, o dedicado ao estudo
do Risorgimento, tendo como tema a unificação do Estado italiano, e o que tem como
objeto a análise de dois fenômenos cruciais no período de entreguerras, o americanismo
e o fordismo.
A partir dos anos 1970, em uma iniciativa de Ênio Silveira, à testa da Editora
Civilização Brasileira, iniciam-se as primeiras publicações da obra de Gramsci, que
logo ingressa no panteão dos clássicos selecionados pela bibliografia brasileira em
ciências sociais, muito particularmente em razão da sua teoria pôr sob nova luz a
natureza da modernização autoritária, então em curso sob regime militar. Fiz parte desse
movimento intelectual, atraído, como tantos da minha geração, pela capacidade de
explicação dos conceitos e categorias desse autor, que favoreciam perspectivas originais
para o estudo da nossa realidade, e, sob essa inspiração, o tema da revolução passiva
dominou o argumento que desenvolvi em Liberalismo e sindicato no Brasil, publicado
em 1976.
Em A revolução passiva, iberismo e americanismo no Brasil, de 1997, dei continuidade
a esses estudos, um dos ensaios coligidos nesse livro tendo por título “Caminhos e
descaminhos da revolução passiva à brasileira”. Sempre na convicção de que a
revolução passiva se manifestava como um processo de longa duração entre nós,
analisei, em 1996, sob a mesma chave os primeiros anos do governo Fernando Henrique
— um presidente que citava Gramsci em seus pronunciamentos públicos —, quando
sustentei que o Gramsci presidencial seria o da revolução passiva como um programa de
política e não como um critério de interpretação, vale dizer, introduzindo mudanças
sociais sem afetar a reprodução da hegemonia dos grandes interesses dominantes.
A chegada da esquerda ao governo pela via eleitoral, com a vitória de Lula, em 2002,
prometia que esse longo ciclo se interromperia, favorecendo a mobilização popular e a

297
emergência dos setores subalternos na cena pública como sujeitos autônomos e dotados
da capacidade de apresentar, a partir de sua vida associativa, uma agenda de
transformações sociais. Com o governo Lula, escrevi em 2007, invertem-se os termos
da revolução passiva clássica: será a esquerda quem vai acionar os freios a fim de deter
as forças da mudança, mas será ela também quem vai submeter politicamente as elites
dominantes, cooptando os seus quadros e confiando a elas postos estratégicos na
condução da máquina governamental em matéria econômico-financeira (O estado novo
do PT).
Nessa bizarra construção, o governo, oriundo da esquerda, se abre para uma coalizão de
contrários, mas preserva o seu comando na iniciativa de políticas sociais,
encaminhando, para usar o léxico gramsciano, transformações moleculares que
tenderiam a ativar o polo da mudança. Tais transformações, contudo, derivam, em geral,
mais de ações induzidas pelo próprio governo do que da mobilização dos setores
subalternos, que se tornam objetos passivos das políticas públicas, do que é exemplar o
programa Bolsa Família, em meio a uma crescente estatalização dos movimentos
sociais, que já atinge o sindicalismo.
Resistente a tantas mudanças em nossa história moderna, o processo da revolução
passiva, de Vargas a Lula, persiste como se fosse um atributo do caráter nacional, com o
Estado feito árbitro do que seria a ótima (e difícil) ponderação dos dois termos da
fórmula do conservar-mudando. E continuará se reproduzindo enquanto os seus pilares
não forem afetados: o da prevalência do Estado sobre a sociedade civil, invadida e
regulada por suas agências, senhor de uma vontade soberana que a tudo arrosta,
inclusive as próprias instituições da representação política, e o da heteronomia presente
na vida popular, de precária inscrição em um estatuto real de cidadania.
Nesse sentido, a atual emergência da tópica republicana entre nós, embora débil,
consiste em um elemento que não pode ser mais negligenciado, pois o golpe de morte
na revolução passiva à brasileira deve provir dela, e não de atalhos voluntaristas.
Decerto que ainda são apenas movimentos dispersos, descoordenados entre si, com
baixa capilaridade, mas que podem ser potenciados a partir de uma reflexão que os
justifique e proponha a sua ampliação.
No entanto, alguns êxitos recentes, como a iniciativa popular que culminou na lei da
Ficha Limpa, já secundada pela que agora visa o tema decisivo da reforma política, são
sinais de que a questão republicana vem ganhando vida e está animando agências

298
relevantes da sociedade civil, muitas delas as mesmas que fizeram parte da resistência
democrática nos tempos do regime militar.
A justiça eleitoral e o ministério público — agente ativo na defesa da república por
definição constitucional — têm desempenhado um papel fundamental nesse processo de
livrar os procedimentos democráticos dos atuais obstáculos que falseiam a manifestação
da soberania popular, porque somente ela pode imprimir o impulso que, ativando a
esfera pública, interrompa essa longa história em que a sociedade é reduzida a ser uma
espectadora passiva dos acontecimentos, conduzida “por cima” pelos que decidem, para
o bem ou para o mal, o seu destino.

299
Um bismarquismo tardio (19 jul.)
Há jornais que mantém a tradição de informar diariamente aos seus leitores o que, a
critério de um editor especializado, teriam sido as notícias mais relevantes há 50 anos.
Em um deles, na edição do dia 16 de julho, quando essa coluna está sendo escrita, a
matéria dedicada a esse tema informou que o então senador John Kennedy tinha
acabado de aceitar sua candidatura à Presidência do seu país. Nessa ocasião, Kennedy
pronunciou a declaração, tornada célebre, apelando para que seu povo viesse a se
orgulhar do que ele iria lhe pedir e não a lhe oferecer, afirmando que seus ideais de
governo “falarão mais alto ao orgulho nacional do que ao bolso”. Cada tempo com seus
costumes, estamos, nos anos 1960, distantes anos-luz do marqueteiro de Bill Clinton,
que explicava sarcasticamente o sucesso da sua campanha com a expressão “é a
economia, estúpido!”, com a qual aludia claramente ao bolso dos seus cidadãos.
Nos Estados Unidos, como aqui, era época de sucessão presidencial, e o mesmo jornal
informava que o ministro da Guerra de Juscelino Kubitschek, o marechal Odilio Denys,
afirmara que o “Exército, sem ficar indiferente aos assuntos importantes da vida do país,
não pretende abandonar a sua posição de neutralidade em face da sucessão presidencial
e absolutamente alheio à política”. Aparentemente prosaica, a fala do ministro
significava o oposto do seu enunciado, uma vez que, na verdade, era uma declaração de
forte teor político, em uma circunstância em que um dos candidatos à Presidência era
outro militar, o marechal Lott, candidatura que o ministro não endossaria. Indicava
também que o poder moderador da República brasileira, como o Exército veio a ser
chamado pela moderna historiografia, acompanhava com atenção o desenrolar dos
acontecimentos. Constata-se, assim, que estamos, em 2010, com a ausência de
manifestações públicas de dirigentes das Forças Armadas sobre o processo de sucessão
em curso, distantes anos-luz dos anos 1950/60.
Edições anteriores desse tipo de matéria jornalística deixam patente que o elemento
agonístico, tão forte na política em meados do século passado, está inteiramente ausente
na atual competição eleitoral. Personagens e programas que naquelas décadas
polarizavam a sociedade, ameaçando-a de divisão — que, aliás, virá, poucos anos
depois — em golpes, contragolpes e sinais de revolução, se encontram, hoje, fora de
cena, inclusive a corporação militar. E a outrora dramática questão agrária, em torno da
qual se tentou gestar uma aliança operário-camponesa, agora se acha convertida em
objeto de uma simples controvérsia parlamentar, envolvendo apenas — a sociedade

300
mera espectadora — os setores diretamente interessados, tais como as representações do
agronegócio, da agricultura familiar e das ONGs ambientalistas, aliás, três segmentos
presentes na composição do governo.
Não pode haver lugar para a polarização quando os três principais candidatos se
apresentam como portadores de um mesmo projeto, qual seja, o de garantir continuidade
ao longo ciclo que, iniciado com o governo FHC, encontrou prolongamento no governo
Lula. Esse ciclo é o do aprofundamento do capitalismo e da consolidação da ordem
burguesa no país sob a égide das instituições da democracia política, rompendo com a
nossa história de modernização sob regimes autoritários.
Em razão dessa nova qualidade, tal processo se encontra aberto às demandas por
direitos e reivindicações substantivas da sociedade e da sua vida associativa, e tem
assumido, sobretudo no governo Lula, fortes compromissos com políticas públicas
orientadas para a democratização social. Na verdade, o que os três candidatos estariam
disputando é qual deles, na avaliação do eleitor, teria as melhores credenciais para levar
à frente esse ciclo, confiando a seus marqueteiros a tarefa de singularizar o personagem
que devem encarnar.
Essa perspectiva, contudo, é a do espelho retrovisor. Qual o projeto de futuro para a
nossa sociedade, quais formas de relação devem presidir seus vínculos com o seu
Estado, como perseguir os fins de realização de uma república democrática, fechando
caminho à reprodução de um cidadão-cliente que se dissemina entre nós? Será um
destino desejável para o país nos convertermos de presas em predadores, para usar as
palavras do tema-título do excelente artigo de Rodrigo Marcilio, advogado especialista
em mercado de capitais, publicado em Valor de 12/07/2010?
Segundo o artigo, “as multinacionais brasileiras têm encontrado um ambiente bastante
propício para seus recentes movimentos de expansão além das fronteiras nacionais”, nos
últimos anos, realizando importantes aquisições de companhias estrangeiras, invertendo
a lógica em que elas é que eram compradas. A Vale, a Camargo Corrêa, a Votorantim,
entre outras, comporiam o elenco dessas multinacionais brasileiras, financiadas por
incentivos estatais, BNDES à frente, política que se reforça com a criação recente de
uma subsidiária desse banco em Londres, voltada para o financiamento realizado
diretamente no exterior.
Nesse sentido, avizinhamo-nos, ainda sem ideologia, de um bismarquismo tardio, para o
qual contamos, sem dúvida, com a nossa pesada tradição de modernização autoritária
que nos vem das eras de Vargas e a do regime militar. Essa fusão entre economia e

301
política em nome de objetivos grão-burgueses, com o sindicalismo crescentemente
vinculado ao Estado, não é nada promissora para a democracia brasileira. A agenda dos
candidatos à sucessão presidencial comprometidos com ela está equivocada: não se trata
apenas de disputar, com os maneirismos do marketing político, o modo de continuar um
ciclo feliz, mas de impedir o nascimento de um que ameace as conquistas democráticas
já realizadas e a serem aperfeiçoadas.

302
Futebol, crime e política (12 jul.)
O assassinato de Eliza Samudio em que está envolvido como suspeito o goleiro Bruno,
ex-capitão do Flamengo, vencedor do último campeonato brasileiro de futebol, não deve
ficar confinado às páginas do noticiário policial. O horror que ele suscita por seu enredo
escabroso, a história dos personagens, a gratuidade do crime, a forma da execução — os
restos mortais da vítima foram lançados a cães para serem devorados —, a presença do
mal em estado bruto, tudo isso reclama que se olhe para além das patologias dos
indivíduos já indiciados como culpados. Em primeiro lugar para o clube, agremiação
mais que centenária, e para a estrutura do futebol, o esporte de massas que é uma paixão
nacional. Em segundo, para o tipo de sociabilidade selvagem, à margem da vida civil,
que se reproduz em escala crescente e que encontra na cultura do narcotráfico e do
consumismo, alçado a valor supremo, os seus paradigmas.
Bruno, um dos mais altos salários do seu clube, era uma liderança, portando a
braçadeira de capitão por indicação de seus dirigentes, em que pesem várias
manifestações arrogantes de sua parte, inclusive nas relações com o seu técnico, e já se
envolvera, com alguns colegas, em escândalos públicos em festas promovidas em
domínios territoriais do narcotráfico. Em uma dessas ocasiões, proferiu uma declaração
em que, explicitamente, admitiu ser normal a violência física entre casais, e, embora sua
agremiação desportiva fosse dirigida por uma mulher — uma ex-atleta olímpica —,
manteve a honraria da braçadeira.
Registre-se, ainda, que dois companheiros de clube, como o noticiário esportivo com
frequência denunciava, eram contumazes participantes de pagodes em redutos do crime
organizado, um deles fotografado ao lado de marginais armados com metralhadoras, o
outro levado à polícia para esclarecer relações mercantis com notórias lideranças do
mundo do tráfico em favelas cariocas.
Em todos os casos, o clube optou pela contemporização, em nome certamente de uma
política de resultados, uma vez que esses jogadores se notabilizavam por seus feitos nas
competições. E o que importa aí é deslocar o foco para a estrutura do nosso futebol, com
sua organização autocrática, dominada por um vértice que se eterniza no poder, apenas
orientada para a produção de vitórias nas competições, inteiramente arredia às
possibilidades de fazer do futebol, com sua penetração capilar na vida do povo, um
instrumento de educação de massas.

303
Para ela, o futebol do país se resume a ser mais um ator no processo de globalização
dessa atividade esportiva graças à qualidade dos seus praticantes, um celeiro de craques
de exportação. Nesse sentido, a expressão esportiva e cultural que ele representa se
encontra crescentemente contaminada pela ameaça de ser submetida inteiramente à
lógica mercantil. E não à toa não se pode mais descrever a sua história atual sem incluir
o papel dos empresários no recrutamento de jovens jogadores talentosos,
empresários que passam a administrar suas carreiras, relegando o papel das agremiações
esportivas a um lugar subordinado, quando não inteiramente ausente, na sua formação
como homens e cidadãos.
Os frutos bem-sucedidos desse sistema se convertem em mercadorias do mercado
globalizado do futebol, as transferências para os milionários clubes europeus, para onde
migram cada vez mais jovens, significando a realização de suas carreiras. Nada mais
natural que seus praticantes, desde cedo sem tempo para se dedicarem aos estudos,
encapsulados na bolha do mundo do futebol, manifestem fortes opções religiosas, em
geral pentecostais, aí encontrando escoras emocionais que lhes permitam suportar as
pressões do mercado que condiciona suas vidas.
Sem essas escoras, seus profissionais, com uma educação formal em geral precária,
muitos vindos de lares destroçados — o caso de Bruno —, se veem à mercê da cultura
do consumismo, o tempo livre de jogos e treinamentos dissipados em meio a uma legião
de fãs, sua presença prestigiosa disputada em pagodes e orgias em que são convidados
de honra. Os clubes, indiferentes ao comportamento dos seus profissionais, cerram os
olhos a seus desvios de conduta, por sua vez prisioneiros da lógica de resultados que
comanda o futebol. Assim, os clubes e seus heróis do maior esporte de massas do país,
que poderiam exercer um papel na difusão dos valores civis na formação da juventude,
tornam-se uma vitrine a estimular o hedonismo e o comportamento narcísico.
Futebol é cultura — no nosso caso uma de suas mais vigorosas manifestações —,
fazendo as vezes de uma escola moderna em que se ensina a competir sob a jurisdição
de regras interpretadas por um árbitro e que são de prévio conhecimento dos seus
praticantes e do seu público. Atividade generalizada na juventude do nosso país,
presente no mais remoto dos rincões, a política e os partidos não podem ser estranhos a
ela, esperando-se da sua intervenção a criação de regras que venham a atuar no processo
de formação dos seus profissionais, que chegam a ela, em muitos casos, como préadolescentes. De outra parte, cabe à opinião pública reclamar que os clubes adotem

Entre tantos fatos estarrecedores no caso de Bruno. . Só faltou o uso de micro-ondas na eliminação da pobre Eliza para tornar ainda mais evidentes as impressões digitais da cultura do narcotráfico nesse caso. está a revelação de que ele estava conscientemente envolvido com personagens e com os padrões vigentes nas redes do crime organizado.304 padrões de conduta que impeçam os seus atletas de manterem relações privilegiadas com o submundo da criminalidade.

A oferta de bons nomes embaraça a escolha do incauto que procurar seguir essa prosaica regra. em abstrato. se comporta no sentido de ampliar e aprofundar a ordem burguesa. na medida em que um partido. Marina e Plínio Sampaio são cidadãos virtuosos e têm atrás de si uma história de realizações na vida pública. é claro em regimes de tirania.305 Uma maneira de escolher um candidato (5 jul. para quem procura um candidato à próxima sucessão entre os nomes até então apresentados. pode se declarar orientado para os fins do socialismo. enquanto que. Uma dessas referências obrigatórias está no reconhecimento de que a moderna sociedade brasileira tem seu assentamento em uma revolução democrática. certamente aparenta ser mais útil deslocar o foco para os partidos e seus programas. aí. que não se pode conhecer sem observar a sua forma de agir no mundo. um poder efetivo de decisão sobre os rumos do futuro. bem mais do que a gestão da máquina da administração pública. Se um partido. afirmando-se pelo caminho de uma transição política. salvo. em que se persigam fins democráticos por meios que não o sejam. suas realizações e biografias. quando se vai atribuir a um governante. não lhe retira o significado de mudança de . Em tempos de sucessão. Nessa procura. a partir das balizas e referências que nos são constitutivas. para onde queremos ir. O fato dessa revolução democrática ter desconhecido rupturas agônicas. e que recebeu consagração institucional com a Carta de 1988. Se ele a contingencia. Dilma. inclusive pela magnitude de sua escala.) Não é um bom ponto de partida. as coisas também podem se tornar confusas. Pois. afirma que a democracia se tornou um valor universal. que envolveu em seu processo a representação do que havia de mais significativo na sociedade civil em um movimento inédito na vida republicana. gestada na resistência ao regime ditatorial. em um sistema de governo fortemente presidencialista como o nosso. fora de dúvida que Serra. ela não pode ser contingenciada por uma perspectiva substantiva. limitar sua escolha à avaliação do perfil de cada qual. cabível na avaliação de currículos para admissão em empresas ou em programas de pós-graduação universitários. por exemplo. porque será necessário distinguir os seus enunciados programáticos das suas práticas. Assim. não deve ser uma boa opção para quem adere a esse valor. Mas. do ponto de vista da sua ação. o que importa é definir. uma declaração de princípios por parte de um partido em favor de determinados valores não necessariamente revela a sua real identidade.

entre tantas. não pode ser outra que democracia como valor universal.306 época que ela introduz na história brasileira. que nos vem das lutas da resistência e do movimento da opinião pública de então. exigem-se respostas novas. com sucesso. A condução à Presidência. Continuar e aprofundar tal inspiração dos fundadores da moderna república brasileira implica torná-la presente na agenda das questões relevantes com que a sociedade hoje se defronta. atesta que o impulso originário. o empenho do relator em encontrar uma solução consensual. que nunca antes demandou por seus direitos como agora. pela via habermasiana que orientou o relator. todos formados nas lutas democráticas e populares. já produziu um novo . com a valorização da sociedade e de suas instituições diante do Estado. ou mesmo das próprias políticas sistêmicas que definem os rumos da economia. figura conceitual que resume a obra coletiva da geração da resistência. De muitas direções. A tradução em termos políticos do Estado Democrático de Direito. os ambientalistas e a agricultura familiar. esse naipe de candidatos à sucessão de 2010. Para tanto. tratando de interesses supostamente inconciliáveis entre o agronegócio. e. algumas surpreendentes. na determinação de suas linhas gerais. primeiro de um intelectual saído da esquerda da vida universitária. No entanto. exemplar. tal como no processo recente que levou à criação da lei da Ficha Limpa. essa nova forma de fazer política. somam-se as iniciativas que testam. melhor ilustrada pelo caso da tramitação no Parlamento da reforma do Código Florestal. com a criação de um Ministério Público como figura republicana destinada a agir em nome da sociedade e não mais como instrumento da vontade estatal. e que tenham como ponto de partida o envolvimento da sociedade e de sua vida associativa. com a audiência de todos os envolvidos. das preferências expressas pelos cidadãos. Questão crítica. e de um complexo sistema de proteção para os direitos individuais e coletivos. a tentativa de repensar a questão agrária brasileira. sob a relatoria do deputado Aldo Rebelo. sucedido por um sindicalista de origem operária. segue animando a vida pública. que não podem ser autônomas. do meio ambiente. nas causas que envolvem as comunidades quilombolas. parece se achar próximo de um final feliz. pela via do diálogo democrático. qualquer que seja o resultado. agora. quer as que tratam da questão social. A carta política em que essa revolução declarou seus valores e instituições já se entranha na nossa nova cultura política e começa a fazer parte do imaginário da vida popular. quer sejam as que envolvem o modo de inscrição do país no cenário internacional.

se encontra. . para além dos cálculos produtivistas e dos impasses do passado. estamos aprendendo que. um dos temas chave para uma política de soberania nacional e uma das passagens para a nossa transição ao moderno.307 diagnóstico: na contramão de idiossincrasias e preconceitos consolidados. nessa velha questão dramática da sociedade brasileira.

que estaria dominado por uma burocracia parasitária. Entre esses fundamentos o que nos garantiu a unidade territorial. Restaurou-se. A americanização que não nos veio com as instituições políticas da Carta liberal de 1891. e uma certa configuração da dimensão do público capaz de impor limites aos potentados locais. única escola que poderia educá-los para o civismo. principalmente as de São Paulo. ou. Se o Império seria a Ibéria e suas tradições cediças. a centralização que antes fora denunciada como herança de uma Ibéria patrimonialista. daí resultando a instituição de um sistema de ordem racional-legal de pressupostos liberais. encontrou sua inspiração no que seria o feliz exemplo americano. com a chamada política dos governadores. então ministro da Fazenda do Governo Provisório. traduzindo o seu Estado os interesses particularistas dos estados hegemônicos — São Paulo e Minas Gerais — e vinculando o poder local ao Poder Central por meio do sistema do coronelismo.) O Brasil faz parte da Ibero-América. A centralização de estilo asiático. animando uma controvérsia sempre renovada ao longo do tempo. como na crítica do publicista Tavares Bastos. inspiração forte das elites estaduais. herdada da metrópole. Esse diagnóstico. e rios de tinta têm sido gastos para procurar desvendar o papel dessa contingência de origem na formação da sua sociedade. Essa origem seria uma herança desafortunada com a qual teríamos que romper a fim de começar uma nova história mais justa e igualitária. como na sua carta de identidade apresentada em sua Constituição de 1891. a República nascente se voltaria para o modelo americano. Desde o Império. animado pelos ideais do self-government americano.308 A viagem de volta da América à Ibéria (28 jun. esteve na base da reivindicação pela Federação. evitando-se a balcanização do país. contrariamente. que impediria seus cidadãos de conhecerem as práticas das liberdades públicas. Mas logo a 1ª República perverteu. na institucionalização da Federação e na valorização da cultura material e culto do desenvolvimento das forças produtivas. que logo se uniram contra o Império no movimento republicano. um legado valioso a partir do qual teríamos assentado os fundamentos cruciais para o empreendimento de uma bem-sucedida construção do nosso Estado-nação. assim. se atirou na campanha pela expansão da malha da rede ferroviária. os ideais federativos. a recusa a essa herança e a sua identificação como raiz dos nossos males. virá “por cima” com a Revolução de 1930 e a partir de uma fórmula corporativa . sufocaria as energias vivas do país. segundo alguns. exemplar no fervor com que Rui Barbosa.

Decifrar a natureza presente desse partido e sua meteórica ascensão na política brasileira. transformara-se a composição da estrutura de classes. Assim. O PT nasce nesse novo contexto. a responsável pela realização das aspirações americanas em favor de uma cultura material robusta e de uma moderna sociedade de massas. inclusive a classe operária dos centros industriais mais modernos. em uma ação reformadora de largo alcance: cria-se o Dasp no objetivo de favorecer o mérito no acesso ao serviço público. em particular no sindicalismo operário. desde a crítica dos publicistas liberais à malfadada herança ibérica. inaugurava-se um arranjo paradoxal. de baixo para cima. Mudara a demografia. O regime militar esgotou as possibilidades desse arranjo. vai persistir como um enigma obscuro enquanto a análise se contentar com categorias de raiz . e. com sua precedência da esfera pública sobre a esfera privada. e sobretudo uma legislação trabalhista que.309 autoritária. e com a qualificação fundamental da sua origem se radicar nos setores subalternos. além de regular o mercado de trabalho dos assalariados urbanos em âmbito nacional. pela primeira vez surgia entre nós um partido onde ecoavam os antigos ideais dos nossos americanistas. a autonomia da sociedade civil diante do Estado e a valorização da auto-organização do social. na expectativa de que a crescente diversificação da estrutura econômica. viessem a gerar uma moderna sociedade de classes. em que seria a nossa tradição ibérica. expressando a necessidade de um novo sindicalismo em ruptura com as antigas estruturas corporativas que o vinculavam ao Estado e a seus fins. compreender como lhe foi possível transitar sem traumas da posição de um partido de sociedade civil para a da situação atual de um partido de Estado. Marca de origem a defesa do princípio da supremacia das bases da vida associativa sobre seus vértices. por toda parte. e a complexificação social a ela associada. Dessa forma. uma nova sociedade emergente reclamava liberdades civis e públicas e autonomia para suas associações. a população passara a ser majoritariamente urbana. inclusive em razão dos seus próprios êxitos na modernização econômica e social do país. A indústria e a imposição do ethos do industrialismo passam a ser os fins a serem perseguidos pela política do Estado. deveria se instituir como meio de valorização da ética no trabalho e escola de civismo para os trabalhadores nos sindicatos tutelados pelo Estado. Resultado bem distante dos anelos americanistas dos nossos liberais que preconizavam a conquista do moderno por uma via “natural”. que persistirá pelas longas décadas do processo de modernização autoritária do país.

como o carisma. a segunda.310 irracional. agora. a primeira. por ensaio e erro. Uma pista talvez mais sugestiva possa ser encontrada no fato de que nele e no seu governo convergiram. tida como exausta quando o PT inicia sua trajetória. instalada no seu código genético desde os tempos do sindicalismo do ABC. ressurreta. por sua intervenção. que a todos parecia improvável. . e como um final feliz para a história do Brasil. nele presente. Sob essa configuração. as duas matrizes da nossa formação: a ibérica e a americana. o PT não se apresenta como um partido. mas como síntese das oposições que viram a sociedade nascer. em que não há mais espaço legítimo para outros partidos.

mobilizando um sem número de especialistas em suas questões e na tradução de suas demandas para o governo e para a opinião pública. e da sua obra. assim como o dos agrários. como traços principais. Essa distância quanto aos partidos conta com mais um exemplo no Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Essa força da economia capitalista brasileira é registrada. Fora de controvérsias a natureza bem-sucedida do nosso capitalismo. exemplarmente as da atividade teatral. mas sim. a sociedade civil. que se substitui ao Estado na proteção de manifestações vulneráveis do ponto de vista do mercado. das ações.) Parece que o relógio da história atual do Brasil desandou: quanto mais ele avança no tempo. inclusive nas artes e na cultura. nos veio verticalmente. no seu diversificado parque industrial. desde os anos 1930. capilarmente. mais volta ao seu passado em busca de velhas soluções. cuja opção . dia a dia. no agronegócio. como também formas de organização corporativa dos interesses de empresários e trabalhadores. na sua presença afirmativa na cena do mundo. estatal e privado. como a Fiesp e a Febraban. Tais êxitos. em grande parte. ao Estado e à sua política que. impuseram os objetivos e as linhas mestras do processo de modernização que recriou o país. A nossa modernização. de cima para baixo. contudo. não podem ser inteiramente debitados à livre iniciativa. para não mencionar a rede com que o chamado sistema S recobre. ora duramente repressiva como nos ciclos 1937-45 e 1964-85. ficaram não só a articulação solidária entre suas elites urbanoindustriais com as agrárias. Com a democratização do país. o peso dessa herança logo se fez sentir. bem o caso do Sesc. tiveram um papel secundário na reorganização da vida partidária. quando dissemina sua linguagem e seus valores em várias camadas sociais. indicada de modo evidente na força do seu sistema financeiro. ao longo do tempo. Salvo o caso do PT que se constituiu como um partido classista e de agregação de interesses dos trabalhadores — de início. os grandes interesses dos setores urbanos industriais. em todos os veículos da mídia que abrem amplos espaços aos seus temas — quando não inteiramente dedicados a eles —. não sendo o resultado “natural”. fundamentalmente do setor industrial —. Essa presença poderosa da economia capitalista na nossa vida social se expressa com igual vitalidade na vida associativa que reúne os seus dirigentes em influentes corporações. cálculos e deliberações dos agentes econômicos. ora sob formas mais brandas como no governo JK.311 O eterno retorno (21 jun. caracteristicamente autoritária. como se sabe.

Fora do mundo dos interesses organizados e das instituições dedicadas a eles. A ressurgência do tema do populismo. segmentos de interesses atuam por meio de bancadas de parlamentares pertencentes a vários partidos. como a da compaixão. porque será da sua inclinação que se vai ter a decisão do lado vencedor. Assim. nem um nem outro são figuras em extinção. oriundo do antigo partido classista dos anos 1980. ao criar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. redescobrindo. há o povo. temos o processo de modernização mais bem-sucedido do antigo 3º Mundo. Para ele. temos uma Constituição que consagra a democracia política e cria instrumentos eficazes para sua defesa e aperfeiçoamento. o socialismo. nem com uma sociedade robusta em termos de organização política. Mas. Mas se não há. inclusive como ideologia silenciosa de próceres da atual administração.312 foi a de preservar sua identidade de movimento social. mesmo por parte dos seus ferozes críticos no passado. mas não contamos com partidos fortes. as velhas formas de representação recuperaram viço. em condições de plena democracia política. quando a linguagem sistêmica conta pouco. a fim de exercer funções de mediação direta entre ele e a sociedade. eles estão aí. O liberalismo dos empresários é vocalizado nos editoriais e nas páginas de opinião dos grandes jornais. de formatação inequivocamente corporativa. objeto passivo das políticas públicas. da imobilização da sociedade diante de um Estado que traz tudo para si como se fosse um agente da . vem dessa atrofia da política. Nessa direção. terem atribuído posiçõeschave na administração pública a lideranças de corporações. especialmente o do PT. fortalecendo seus vínculos com o Estado e adotando uma perspectiva instrumental em relação aos partidos — no interior do Legislativo. restaura o estilo e instituições típicas do Estado Novo. nas revistas dos intelectuais. mas presença determinante na hora das urnas. como ninguém ignora. na sociedade. Tal prática se tem reforçado pelo fato de os últimos governos. o atual governo. Com essa orientação. Sob essa estratégia. salvo para o grupo seleto dos diretamente envolvidos em sua lógica. o governo do PT foi além. se reserva a linguagem dos sentimentos. a fórmula de um capitalismo politicamente orientado que não impõe seus fins a seus agentes econômicos porque os estabelece em negociação com eles. lido agora em luz favorável. espaço para sua expressão é porque esse Estado que está aí não admite espaço vazio que não tenha a marca da sua ocupação. deixando sem representação partidária direta o que nos restava de campesinato e a pequena propriedade rural.

o que cumpre fazer é ganhar a alma popular. aprendeu a decifrá-la. com as artes demiúrgicas de quem. eles já estão previstos. por destino. então.313 Providência. quando a política se confunde. . Não há porque discutir os rumos possíveis para a nossa sociedade: sistemicamente.

sujeito. Agora vamos para um bom programa. tanto o Estado Novo de 1937 como o regime militar de 1964-1985 passam a ser percebidos acriticamente. pelo tipo de reflexão panglossiana que ora nos conduz. estaria domesticado pela emergência do agronegócio e a difusão das relações capitalistas no campo. apropriada como está pelo Estado e pela fração do empresariado a ele vinculado. ressalvadas as questões-limite como a do trabalho escravo. que mobilizou a sociedade nos anos 1950/60. Nessa versão.) Na sucessão presidencial que se avizinha temos conhecido apenas dois tempos: o do passado e o do presente. a lógica dos conflitos se confinaria ao terreno da simples disputa por interesses.314 O efeito Marina (14 jun. A questão nacional. a valer a retórica dominante. um velho celeiro de conflitos. como momentos necessários para a realização apoteótica dos fins de grandeza a que o país estaria. que não parece temer a ira dos deuses. No presente já se poderia contar com a solução feliz de impasses históricos que antes dramatizavam a política brasileira: o mundo agrário. que. pois o do futuro. Com palavras que introduziram um alento de ar fresco nesse início de campanha. tutelou a vida associativa dos trabalhadores. fomos para um bom programa de transferência de renda. combater as desigualdades sociais não mais importaria em trazer à cena o tema da exploração. ao longo das nossas décadas de modernização autoritária. embora ainda de modo tímido e reverencial com o discurso dominante. sob risco iminente de converter a cidadania dos seus seres subalternos em uma vasta clientela: “Saímos da cesta básica. essa seria uma questão a ser remetida para o terreno das políticas públicas. que mobilize a sociedade brasileira. é claro. passa a ser reinterpretada sob outros filtros. e assim apronta-se mais uma floração para o sindicalismo corporativo. afinal. perde capacidade de universalização. herança maldita com que deveríamos romper. Dessa forma. desde sempre. por toda parte. Sair da ideia de um Estado . predestinado. Junto com essa política terá que vir também um novo tipo de Estado. No mais. fez sua aparição nessa sucessão presidencial. por meio da fala com que a senadora Marina Silva lançou-se como candidata pelo PV. o tempo do futuro. a aperfeiçoamentos. A própria história. deve ser contínuo a este que temos aí. e. Com esses tempos empatados — o de um presente que não quer ir além de uma reiteração em roupa nova do passado —. concedendo-se vida nova a instituições e valores comprometidos com fins e práticas autoritárias. foi ao cerne do problema atual da democracia brasileira.

a fim de encontrar nelas sustentação política. Pois. Essa lúcida intervenção da candidata Marina não merece ser vista meramente da perspectiva do cálculo eleitoral. fazer do seu diagnóstico e da política que dele decorre um ponto de relevo estratégico na agenda dos debates presidenciais. abdicou das formas repressivas de controle sobre as associações dos trabalhadores. que faz as coisas com as pessoas. políticos e sociais — aqueles até então destituídos dela. a macroeconomia brasileira. mas com os pobres”. inclusive porque nem o mais experimentado navegador domina por antecipação qual o regime dos ventos de amanhã de manhã. em nome de suas lutas em favor da questão nacional. segundo o cânon da tecnocracia. do que tentou o segundo Vargas dos anos 1950-54. implicitamente contido em suas posições em defesa do meio ambiente. Não é fazer para os pobres. fechado em sua lógica interna e animado por uma ideologia de grandeza nacional. deixando para trás as obscuras e bizantinas discussões de como se deve operar. e não do modo assimétrico como vem ocorrendo. Para esse fim. quando. Marina. a partir da auto-organização da vida social. na forma. Outra importante contribuição importante da candidatura Marina para a campanha eleitoral reside no seu viés internacionalista. por ele mesmo impostas à época do Estado Novo. já não é sem tempo pôr sob a luz da crítica algumas tendências em curso que o concebem em chave grã-burguesa. . aliás. Tal novo tipo de Estado deve resultar da sua ampliação para admitir ao estatuto da plena cidadania — direitos civis. no caso. que faz as coisas para as pessoas. Assumir a mobilização como missão. nessa hora de pensar o futuro do país. bem público de todos os homens. Importa muito. ele deve se revestir de um papel pedagógico que tenha como norte estimular a emergência de lideranças extraídas da vida popular sem estarem sujeitas aos mecanismos da clientela e da cooptação. para um Estado mobilizador. com seus escassos recursos de campanha e exíguo tempo de televisão no horário gratuito da campanha eleitoral. em um movimento de baixo para cima. não parece. mas do seu valor intrínseco. instalando a política no centro da matéria da sucessão.315 provedor. fora mudanças de todo imprevistas. se constituir em uma candidata competitiva.

duros antagonismos entre os três principais candidatos envolvidos. já dá para suspeitar que algo com o mesmo condão propício se faz presente no governo Lula. assim. conforme antiga crença. A mesma boa sina socorreu o presidente quando do episódio do mensalão em 2005. em que o nascimento de uma criança é bafejado pelo sortilégio dela ter vindo ao mundo de bunda para a lua. desconhecendo. como a cartada iraniana da diplomacia presidencial. pode sugerir que estamos a assistir a uma disputa entre alas de um mesmo partido. E. Pois foi o que aconteceu a partir dessa malfadada e iníqua agressão praticada por forças militares de Israel contra uma flotilha de voluntários que tentavam levar solidariedade à população palestina da Faixa de Gaza. a exemplo. A calmaria em que transcorre a sucessão presidencial. algumas delas tidas como tão consagradas que ninguém se atreve a discuti-las. feliz augúrio. suscitando um clamor de protestos da comunidade e da opinião pública internacionais.) Tal como no belíssimo romance O albatroz azul. assemelhados em tantos aspectos cruciais. do qual saiu indene de uma avalanche de denúncias de corrupção contra o seu governo para uma consagradora reeleição no ano seguinte. essa hora da sucessão. restando agora cuidar — porque podemos mais — do seu aperfeiçoamento. Como que postos de acordo quanto ao principal. ao menos até aqui. com os temas da estabilidade financeira e da responsabilidade fiscal. já teríamos atingido um ponto ótimo na história da evolução do país. querendo ou não. e que pôs a nu os equívocos cometidos pelos dirigentes daquele Estado quanto à sua política para a sua região. os candidatos divergem em questões tópicas. Só mesmo a proteção do destino seria capaz de reverter o que parecia ser uma aposta grávida de perigos. a se tomar pelas aparências. de João Ubaldo Ribeiro. de que ela seria dotada de melhor sorte do que a sua sofrida família. também pós-FHC. entre outras.316 A sucessão e o banho de lua (7 jun. todos alinhados a uma perspectiva pós-Lula. se apequena na rotina e na reiteração de práticas. do quantum de autonomia de que deveria gozar o Banco Central. em um trunfo promissor para o sucesso dessa intervenção em paragens tão distantes como as do Oriente Médio. longe de impor um debate sobre os caminhos já percorridos e sobre a marcação dos objetivos estratégicos a serem atingidos. Tudo se passa como se não . Enfim. de como encaminhar uma reforma tributária — exigiria ela uma emenda constitucional? —. que não deixa de ser.

Para que. a que se atribui a missão de combater a desigualdade social. não sobra espaço para a política. em que o que vale é o resultado imediato. se a política. em sua maioria. como o assistencialismo do programa Bolsa Família. soando como um crime de lesa-majestade. enquanto atividade consciente dos homens para tentar criar o seu destino. Mais que isso. Estiolam-se os partidos. interesses serão afetados. uma política orientada para intervir em caráter emergencial. sem vida própria. Nessa chave. agora representados por centrais sindicais dependentes do imposto sindical. temos um potente mundo dos interesses. Nessa construção. quase um monopólio de fato do Estado e dos seus agentes. redescobrem-se. não necessariamente os grandes. boa parte deles destituídos de representação significativa. apresenta-se o que deveria ser apenas um paliativo como instrumento idôneo de correção da nossa desigualdade social. legítima enquanto tal. prontos ao conflito. sobre uma avaliação da nossa história e a determinação das escolhas com que pretendemos dar continuidade a ela. Mas. dependentes de favores do governo. Não há sucessão livre sem que haja livre discussão sobre que sociedade queremos para viver. Amplia-se o Estado em um sem número de agências que invadem a esfera da sociedade civil com a disposição de regulá-la por cima. tal como se pretendera fazer com o mundo do trabalho nos idos do Estado Novo. qualquer manifestação de dissonância com os rumos atuais. se muito contrariados. está em baixa e sob o controle de alguns poucos. como o sindicalismo controlado por seus vértices. e nem sempre passíveis de compensação por vias . vive-se na modorra do pensamento único. Nessa circunstância.317 estivéssemos no fim de um governo. Certamente. animada pelo projeto único de garantir a sua reprodução. a sociedade civil é vista como uma matéria-prima sobre a qual deve se exercer a modelagem de uma intelligentsia de novo tipo. como a criação de uma gigantesca clientela a que não se fornecem os meios para escapar dessa condição. ameaça se tornar permanente sem que se discutam os seus aspectos perversos. Ausente a energia que provém da luta política. apropriados por uma “classe política”. O social passa à órbita de um Estado administrativo sob a gestão de uma tecnocracia especializada. no baú da nossa história. no que se avizinha. uns bem mais atendidos que outros. velhas ferramentas a que se pretende dar uso novo. a que restaria apenas aperfeiçoar. grandes e pequenos. mas no seu recomeço. uma sucessão? Dessa forma. então.

resta pouca esperança de que. falta-lhes o carisma e é provável que também lhes falte o mesmo banho de lua. A política de que estamos tão distantes. o mesmo remédio seja eficaz. Seguramente. promete nos cobrar com juros a sua próxima aparição. Se até aqui o decantado carisma de Lula e a sua proverbial boa sorte permitiram que as fortes contradições entre eles não ganhassem as ruas. sempre resolvidas por acordos nos gabinetes ministeriais sob a arbitragem presidencial. oculta nas razões da gramática tecnocrática. .318 administrativas. com esses pretendentes à sucessão.

embora procedentes de regiões diversas do social. será referência de ambos ao começarem suas trajetórias. de amplas coalizões com outros partidos. traço do nosso DNA herdado da história ibérica. não contem com força própria de sustentação no Poder Legislativo. embora.319 Moderno São Paulo e a política nacional (31 maio) Nessa próxima sucessão. como se saiba. e não à toa Os donos do poder. quando não relegadas ao plano do que deve ser esquecido. das políticas de clientela e de um burocratismo parasitário a impedir a livre movimentação da sociedade civil. hoje. Nenhum outro partido durante esse longo período conseguiu se projetar de modo competitivo a ponto de ameaçar a posição desses dois partidos nas disputas presidenciais. dependentes. o segundo com origem no sindicalismo da região do ABC. Desse tempo originário guardaram marcas que conservaram nos seus primeiros embates eleitorais. era preciso emancipar os mecanismos da representação política dos da cooptação. mais quatro anos para esse ciclo que se abriu em 1994 e que está destinado a completar duas décadas em 2014. PT e PSDB. sede da moderna indústria metalúrgica. não contraria o fato de que ambos se constituam como partidos hegemônicos na estrutura partidária brasileira. Faoro foi um dos fundadores do PT e é celebrado como um dos ícones do partido. é verdade que. teremos mais um presidente extraído das fileiras ou do PSDB ou do PT. de algum modo. No diagnóstico da época. o clássico de Raimundo Faoro. vão ter em comum a valorização da matriz do interesse e a denúncia do patrimonialismo. algumas delas bem esmaecidas. o primeiro. largamente majoritários nos resultados das eleições presidenciais. Precisamente nesse sentido é que podem ser compreendidos como partidos paulistas na medida em que localizam no Estado a raiz do nosso autoritarismo político. o papel dominante do Estado de São Paulo na política da Federação. e de que sejam reconhecidos como tais pelos demais partidos. da sua história de fundação. salvo mudanças catastróficas no estado atual da disposição das forças políticas do país. e. contudo. a memória da infância nos partidos é como nas pessoas — um partido já formado é prisioneiro. preconizava o PT. era preciso romper com a Consolidação da Legislação Trabalhista (CLT) e conduzir suas ações reivindicativas . Essa ressalva. Mas essa hegemonia embute outra. quando vitoriosos eleitoralmente. nascidos de movimentos sociais que fizeram parte da resistência ao regime militar. Tanto o PSDB como o PT são “partidos paulistas”. qual seja. como expressão de círculos intelectuais e de políticos nucleados em torno de um diagnóstico comum sobre o que seriam os males do país. Aliás. Contudo. No caso dos sindicatos.

objeto de desejo do PSDB. Assim. A resposta do PSDB. A matriz do interesse. cobiçado pelo PT. vindo a significar uma ruptura com uma cultura política que afirmaria a primazia do Estado e dos seus fins políticos sobre a sociedade civil. pode ser explicada. nesta sucessão. contudo.320 para o sistema da livre negociação com os empresários. em boa parte. como no caso. partindo de São Paulo. A surpreendente mudança do PT. ao incorporar acriticamente o atraso. se entregam a uma dura luta por território. seria libertária. que. indiferentes ao atraso político e social que representam. do Maranhão do clã de Sarney. por essa lógica. passou a incorporar muito de suas práticas. além de moderna. mimetiza a do PT. por exemplo. moderando. com um histórico de lutas contra o imposto sindical e o princípio da unicidade sindical. o PSDB. que mudam com eles. governando o Estado há vinte anos e pretendente a governá-lo por mais quatro. de ácido crítico da Era Vargas e da tradição republicana em geral. Essas afinidades no ponto de partida não resistiram à exposição às circunstâncias da política. que se têm encontrado em tantos pontos na modernização e expansão do capitalismo brasileiro. Nascidos no mesmo solo. Aliás. No plano da disputa nacional. desequilibrando a disputa em seu favor. encontrou sua sobrevida. Para cada qual importa. essas duas florações da social-democracia brasileira. a passagem do moderno. no movimento sindical. hoje se veem tangidas a participar de uma estrutura sindical que sempre condenaram como lesiva à autonomia dos trabalhadores. os impulsos modernizadores vindos de São Paulo são moderados pelo cálculo político que preside a disputa entre seus grandes partidos — um deles. mais do que aproximar as suas convergências. meramente instrumentais para os fins da competição eleitoral. quando não interditando em muitos aspectos relevantes. alguém sabe qual o programa do PSDB para a reforma trabalhista? O velho sindicalismo. encaminham o seu antagonismo na disputa pelas forças do atraso político e social. que . não são ingênuos quanto à própria história desses partidos. as forças genuinamente petistas. além das questões inarredáveis de suas agendas. ou do PTB de Roberto Jefferson. Assim. essa luta se tem caracterizado pelo esforço desses partidos em arregimentar aliados que engrossem suas hostes. na carona do novo. essas expressões do moderno na política brasileira. com vários pontos em comum. cuja força dependeria da sua capacidade de organização e de mobilização dos trabalhadores. Com isso. Esses movimentos. O mesmo vem ocorrendo com os agentes do patrimonialismo das antigas oligarquias regionais. capturar o maior número possível de forças aliadas. igualadas em força aí.

. dessa forma. cindido em dois como está. este último capitula de dirigir o atraso a fim de transformálo para simplesmente se associar a ele.321 preservam o seu domínio a partir de suas articulações com o moderno.

para a outra. Serra. mas todos já ouvimos falar da experiência de escritores que se surpreenderam quando viram personagens. os dois reivindicando para si o papel de melhor intérprete para continuar um roteiro supostamente consagrado. por exemplo. o que importa. esse é um momento em que se começa a delinear o esboço de um próximo capítulo a partir da interpretação do que acaba de se viver. Como que indiferente a ele. o PT e o PSDB — já estivesse comprometido a reprisar. em vigília fiel de quatro anos à espera que seu verdadeiro titular reocupe seu lugar. Tanto a retórica de Serra quanto a de Dilma apontam para essa direção. Dilma. As diferenças se resumiriam a questões operacionais na condução da economia. Médici. não confrontá-la. os anteriores. Como em uma novela. na questão de juros e no grau de relativa autonomia a ser desfrutada pelo Banco Central diante das autoridades governamentais.322 A novela da sucessão (24 maio) Em uma democracia de massas. como se sabe. como. a presente sucessão transcorre. mais uma vez. e. em princípio o senhor da trama que tece. com retoques. como bem atesta a profundidade da crise da União Europeia. cada um deles levado ao poder por um círculo homogêneo de eleitores muito restrito. põe sob tela de juízo o script até então estabelecido e se abre às promessas da novidade. como Aécio Neves preconizava. não desconheceu o conflito e a mudança de rumos. a mudança no comando político nunca é trivial — a passagem do bastão nos governos dos generais-presidentes Castelo Branco. de acordo com as estratégias dos dois principais candidatos. No entanto. definindo-se como um pós-Lula. . como ocorreu aqui em tempos recentes. a pauta dos candidatos segue obedecendo aos cálculos do marketing político. não seria um candidato de oposição. uma sucessão presidencial suspende a marcha ordinária da política. como se o próximo capítulo — inevitavelmente. a de Serra e a de Dilma. é a herança da popularidade de Lula. passando como que a agir por conta própria. ganharem animação autônoma. mesmo em regimes políticos autoritários. Geisel e Figueiredo. Nesse jogo de simulações. Não importa que o cenário do mundo esteja mudando à frente de todos. Toda história tem um autor. sob a égide dos partidos de hegemonia paulista. por sua vez. logo em seguida à crise financeira de fins de 2008. para uma candidatura. seria Lula como um outro corpo do Rei. Costa e Silva. Quando há um processo de sucessão institucionalizado. nascidos da sua imaginação. ao menos até aqui.

Serra. além. de Henrique Meireles. hoje. com suas reviravoltas e artimanhas nossas velhas conhecidas. os interesses dos chamados ruralistas com um vigoroso movimento ambientalista. De outra parte. em especial em matérias como a da questão social e a do crescimento econômico. em franco processo de recuperação da sua força de outrora? Lula. Uma indicação disso está nas abdicaçôes de José Eduardo Dutra. apresentando alternativas persuasivas que garantam continuidade a ela. na qual está o PMDB. na frente agrária. não deve passar pelo hiato da Copa do Mundo. desejadas pelo empresariado. Ela terá de governar com o PT e com a coalizão política que a eleger. o agronegócio sob a pressão dos movimentos sociais do tipo MST. mesmo que não confronte com o governo atual. pode encontrar lugar em uma economia conduzida pelo eixo Henrique Meirelles-Antonio Palocci? Qual a dialética que poderá sustentar a política externa atual com as necessidades. como se haverão com a resistência dos sindicatos. para que seja um candidato competitivo. com seus imperativos políticos de projeção do poder nacional. não poderá governar com ele. inclusive dos sindicatos. Nessa agenda. destituída de suspense. o bordão nacional-popular não é próprio para a nova inscrição internacional do país e para as aspirações de projetar o capitalismo brasileiro na economia-mundo. como compatibilizar. no . ambos serão guindados ao seu ministério. A novela que nos tem como seu público obrigatório. Depois dela. deve ser incluída a valorização de uma vida civil ativa e autônoma. das suas pretensões eleitorais a fim de assumirem posições de comando na campanha eleitoral de Dilma. que requer uma gramática dominada pelo pragmatismo. a essa altura incapaz de mobilizar paixões. hoje identificado com uma candidatura presidencial? Noutra ponta: o nacional-desenvolvimentismo. com os dois lados ganhando. do país ocupar uma posição entre os grandes do mundo? As demandas pelas reformas trabalhista e previdenciária. com um dos seus cardeais instalado na Vice-Presidência da República. uma vez que não são compatíveis com a nova democracia política brasileira as tendências que aí estão de estatalização dos movimentos sociais.323 Mas há algo nesse enredo que não encaixa. e o enredo ficará tenso e cheio de surpresas: é ainda possível manter. na medida em que ele é atributo intransferível do carisma do seu inventor. não há outra leitura possível. Por outro lado. presidente do PT. cairão as máscaras da dissimulação. Caso ela seja eleita. e de Antonio Palocci. terá de sustentar outro andamento à história em que estamos há 16 anos envolvidos. Se Dilma pode ser eleita pelo lulismo. a essa altura inarredáveis. é claro. um condestável da política econômica.

pôde conciliar esses antagonismos. Alguém mais pode? .324 seu tempo. que já não é o de agora.

não se tem limitado a essa esfera institucional. se não houve uma ruptura de tipo clássico contra o sistema da ordem do nosso antigo regime. Dessa última natureza estão aquelas dependentes da ação de atores externos à esfera pública institucionalizada.325 Pequenas grandes mudanças (17 maio) A iniciativa popular conhecida pela designação de lei dos “Ficha Suja”. Isso se deve ao fato. mas ele está de tal forma regulado que pareceria ter sido criado apenas para viver no papel. Ela significa que a transição política do regime autoritário para a democracia. mobilizando. tem sido apropriado pela linguagem de moradores de favelas cariocas nas suas reivindicações por direitos. como a do simples cidadão singular. um por cento do eleitorado . uma vez que é para aí que convergem as demandas de massa. A decantação da sua obra na vida civil. a que a via eleitoral seja facultada a pessoas condenadas por faltas graves contra a pessoa. Na raiz desse processo. é de se registrar — um exemplo entre tantos — que o Estatuto da Cidade. o coração da matéria nas repúblicas — o Poder Legislativo. especialmente na consciência popular. E não à toa. a Constituição. nascido na esteira da filosofia política da Carta de 1988. No entanto. o comando constitucional que admite a iniciativa popular das leis. no mínimo. dado que requer a sua subscrição por. tem sido. algumas percebidas imediatamente. também negligenciado. Tal decantação. a valerem os abundantes dados estatísticos. tal como se verifica na ação dos que se opõem. tem no Judiciário um dos seus principais lugares de realização. portanto. de que. já aprovada com votação altamente expressiva na Câmara dos Deputados. bem o caso dessa iniciativa contra os “Ficha Suja”. outras. instituiu um conjunto de instrumentos postos à disposição da sociedade para agir em nome próprio em busca dos seus diferentes fins. do consumidor e do que diz respeito ao meio ambiente. somente com o transcurso do tempo. em nome do princípio de moralidade pública. Mas esse movimento. como nos casos do direito à saúde. importou mudanças de fundo. com frequência cada vez maior. longe da interpretação de alguns. filha da resistência democrática à ditadura e da forte mobilização popular que a sustentou. ora em tramitação no Congresso Nacional. é mais um sinal positivo no processo de aperfeiçoamento das nossas instituições. Já atinge. os valores e os princípios consagrados constitucionalmente. lenta e desigual entre as diferentes camadas sociais. o patrimônio e a administração pública. além do seu valor intrínseco como um meio capaz de produzir efeitos benfazejos na nossa representação política. como inevitável.

326 nacional. a lei 9. tem como cenário o Judiciário — a apropriação por parte da cidadania das regras. e já são conhecidos seus êxitos na vida republicana. tanto pela envergadura de cada iniciativa popular. O fato dessa criação. em particular —. e já se cogita do estabelecimento de uma parceria com entidades da sociedade civil a fim de ampliar o alcance desse caminho alternativo ao judicial. demonstra a efetividade da decantação acima mencionada. distribuído pelo menos por cinco estados. também tendo como objeto impedir a corrupção nas disputas eleitorais — a compra de votos. fora das questões de câmbio e de superávit primário. . sem a necessidade de intermediação dos partidos políticos. No Judiciário já vingam as políticas que estimulam uma via extrajudicial para a resolução de conflitos por meio da conciliação e da mediação. valores e princípios da sua Constituição a fim de impor sua presença no processo de elaboração das leis. necessariamente de escala massiva. cercada por inédita cobertura da mídia e amparada pela opinião pública. envolvendo centenas de milhares de cidadãos. já começa a indicar transformações de fundo nas relações entre a sociedade civil e as instituições jurídico-políticas. especialmente nas pequenas comarcas do hinterland. pois. Vale dizer. foi filha de idêntico movimento. então. Manifesta-se. dando vida aos novos instrumentos e processos que a sua Carta política pôs à sua disposição. o acesso ao Legislativo pela cidadania por via direta. Mas é no Legislativo que esse caminho parece ser mais promissor. uma tendência a que se realize nesse Poder um movimento semelhante ao que. deve pavimentar o caminho para futuras intervenções desse tipo. sempre um bem público de interesse geral. com outros fins. com tais restrições draconianas. Anterior a essa iniciativa. como pelo seu objeto. ter encontrado realização. A esperada conversão em lei da iniciativa contra os Ficha Suja. É preciso olhar para a Lua e não para o dedo que a aponta. A presença emergente dos cidadãos na criação de direitos e no aprimoramento da República. Há vida. com não menos de três décimos por cento dos eleitores de cada um deles. de 28 de setembro de 1999.840.

e não mais como um sistema fechado orientado para garantir a autonomia privada. O intérprete dessa vontade seria a sociedade por meio de suas instituições. importando a afirmação da matriz do público sobre a nossa tradicional matriz privatística. como ocorreu ao longo da persistência da tradição autoritária republicana. que já imprimem uma marca singular na sua democracia política. dotada da capacidade de interpelar o Supremo Tribunal Federal em nome da defesa da constitucionalidade das leis. que têm evoluído no sentido de uma cuidadosa cooperação. com os quais a cidadania poderia acionar os demais Poderes para os fins de conceder eficácia aos direitos fundamentais que declarou. instituindo um conjunto de novos instrumentos. princípios e dos direitos fundamentais. . e que importou a constitucionalização de valores. passando a se compreender a Constituição como obra aberta e em progresso contínuo. a começar pela promulgação da Carta de 1988. A mais forte indicação das transformações por que tem passado o nosso ordenamento jurídico-político pode ser percebida na recente supremacia do direito constitucional sobre o Código Civil. e deve-se. na medida em que ele é mobilizado constitucionalmente a dela participar. Ao lado disso. expressão de uma vontade geral quanto aos fins que deveriam ser buscados e concretizados. tal como nos casos de políticas públicas em matéria de saúde e em tantos outros. Esse foi um momento de ruptura com a cultura jurídico-política estabelecida. Com essas largas intervenções. logrados nas duas últimas décadas pela sociedade brasileira. A partir dessa disposição. entre os quais partidos e representações da vida associativa. A prevalência do público foi uma opção estratégica do legislador constituinte. o constituinte inovou o papel do Poder Judiciário na cena republicana. mas essa narrativa estará incompleta se forem ignorados os avanços institucionais. deixando para trás a clássica separação rígida entre eles. diluem-se os limites entre os Poderes e se redefine o cânon que prescrevia um estrito insulamento do Judiciário quanto à política. e não a esfera estatal. como o mandado de injunção e a ação de inconstitucionalidade por omissão. admitiu uma comunidade de intérpretes do texto constitucional. até há pouco a sua maior referência. falar nos êxitos econômicos e sociais.327 O problema do jabuti: o Judiciário e a política (10 maio) Pode-se. Sinais evidentes dessa singularidade se manifestam nas novas relações entre os três Poderes republicanos.

finalmente. pois foi ele quem intencionalmente incluiu o Judiciário na trama dos impasses sociais. em segundo. mais importante ainda. Jabuti não sobe em árvore. porque anos de burocratismo e de submissão do Judiciário ao poder político hipotecaram boa parte dos nossos operadores do Direito ao conservantismo doutrinário. E. para as crianças. contrariando o entendimento de que a união homossexual seria apenas uma sociedade de fato. inclusive do mundo do trabalho. nosso sistema jurídico. Nonet e P. porque ainda desconhecemos o vigor das lutas pelos direitos civis e a judicialização deles. que vem ampliando o seu alcance. tal como no exemplo acima mencionado. nas novas circunstâncias da democracia brasileira. em fins dos anos 1970. antes mesmo da vigência da Carta de 88. que vêm de várias regiões da vida social. então. Decerto que nosso caso é particular. 2010). Direito e sociedade: a transição ao sistema jurídico responsivo. que se não as admite corre o risco de perda de legitimidade. no trabalho clássico de P. o Direito se torna responsivo. não podem ser mais ignoradas. as demandas por políticas públicas encontram uma arena alternativa à da representação política. em nome das consequências. somente agora. em 1985. venceu a tese de que. Selznick. e. exemplar o caso recente em que o Superior Tribunal de Justiça decidiu. compelido a ampliar sua competência cognitiva. publicado entre nós (Rio: Revan. vivenciados pela sociedade americana na década decisiva de 1960.328 Sob impacto dessas inovações. esteve presente na obra do legislador constituinte. sobretudo desde a criação da ação civil pública. ao menos in nuce. permitir a adoção de duas crianças por um casal de mulheres. Essa transição. instituto que adotamos a partir do estudo da sua experiência americana. na prática. inclusive em matéria trabalhista. o que importava era a qualidade “do vínculo e do afeto no meio familiar em que serão inseridas”. em primeiro lugar porque pertencemos à família da civil law. A moderna democracia de massas brasileira atua. o tema do Direito Responsivo. A partir dessa dialética entre integridade e abertura. As pressões por essa abertura. e não por acaso. a orientar as suas decisões sopesando suas consequências. no sentido de pressionar a abertura do Direito a novos temas e na direção de novas soluções. ancorado na tradição da civil law. já presente. No caso. levando a que o Judiciário se veja. As tendências para a transição do Direito Autônomo — a ordem racional-legal clássica do positivismo jurídico — ao Direito Responsivo. começa a conhecer elementos de convergência com a tradição da common law. Com as ações civis públicas. tendo como objeto o caso americano. Mas essa obra estará incompleta se não se . e com a jurisprudência que a ela se seguiu. foi estudada. põem sob tensão o princípio da integridade do Direito.

e essa é mais uma questão que não pode faltar nos debates da próxima sucessão presidencial.329 democratiza e moderniza esse Poder. o Judiciário é importante demais para ser objeto exclusivo dos seus especialistas. parodiando um grande autor. . porque.

em maior ou menor medida. tal como expressos em seus partidos e sindicatos. pois afeta. fixou em termos lapidares a natureza desse processo ao escrever que o Judiciário se teria tornado um moderno muro das lamentações. democracia e república (3 maio) A presença do Direito e de suas instituições na vida social e política contemporânea consiste em uma marca que. se impõe ao observador. outra. dos seus ideais e instituições. o Welfare State foi republicano e se assentou sobre as suas principais instituições. A bibliografia sobre o assunto é abundante e não para de crescer. estava sustentado na organização política e sindical das diferentes partes da sociedade. tem. . avançou o diagnóstico de que “a sociedade brasileira se tornou dependente do Judiciário”. estatísticas sobre a expansão da litigação no país — hoje. deplorado por uns como um sintoma de patologia da política contemporânea. importou o derruimento da arquitetura do Estado de Bem-Estar Social. Nesse sentido. a das suas corporações e das disputas entre elas realizadas no interior do Estado e sob sua arbitragem. em boa parte. reputado especialista francês no assunto. independente de juízo de valor quanto ao fato. com suas concepções de um mercado autorregulado. o juiz Gilmar Mendes. daí devendo resultar um “capitalismo organizado” orientado para o bem comum. de algum modo. Esse tipo de Estado — não importam. as sociedades ocidentais desenvolvidas. visto como um sinal de vitalidade da democracia por outros. no entanto. quando da sua recente despedida da presidência do Supremo Tribunal Federal. e. em razão da sua forma específica. não menos relevante. à desregulamentação de direitos. No Brasil. em torno da controversa questão que trata da chamada judicialização da política e das relações sociais. um registro comum: a invasão da vida social pelo Direito seria uma resposta ao esvaziamento da república. cada qual identificada com seus interesses e projetos de uma vida boa.330 Direito. muito especialmente a partir dos anos 1970. aqui. que. O parlamento era uma de suas arenas. ao esvaziamento de partidos e sindicatos. A imposição do neoliberalismo provocou a diluição das formas de solidariedade social que. em torno de 80 milhões de ações em andamento —. o Welfare induzia. apresentando. quando a emergência triunfante do neoliberalismo. em tom alarmado. A ressalva a ser feita é a de que tal fenômeno não nos é singular. girando. considerações sobre o seu anacronismo na realidade de hoje —. Antoine Garapon. levando a uma intensa fragmentação da vida social. A avaliação crítica desse fato.

O constituinte de 1988 foi um bom intérprete da nossa realidade políticosocial ao dotar a sociedade de meios. No caso. como também para sua aquisição. ao longo de três décadas. persistindo como assunto de poucos. A democratização da vida social é fato recente entre nós. mais à frente. a república passa a ser tensionada por pressões de sentido democratizador que visam à conquista de novos direitos — o da infância. aqui. —. protegida das políticas de cooptação do Estado e do poder do dinheiro. em contrapartida. nasce sem participação popular. mas que. mas não se democratiza. vai fortalecer esse movimento a fim de lhe fornecer recursos de defesa. refratária. O caso brasileiro se alinha a essas tendências que mantêm sob tensão as relações entre república e democracia. para a defesa da sua república. o problema agora se inverte: se temos democracia. sem ela. a república se “amplia”. ao que se denominou a revolução processual do Direito. quando se cria um sistema de direitos sociais em favor dos assalariados urbanos — não extensivo aos trabalhadores do campo —. a institucionalização de códigos do consumidor. o da mulher. uma vez que. quando criou a Lei de Responsabilidade Fiscal. inclusive judiciais. porque a república. suprime a autonomia das suas associações e as põe sob tutela estatal . A democracia de massas não pode abdicar da república.331 ao lado de outros processos societais relevantes. A incorporação deles começa com a Revolução de 1930. estamos longe da república. uma das intenções implícitas do legislador foi a de tentar reanimar a vida republicana em cenários alternativos aos da representação política. e segue seu curso de modo cada vez mais intenso. assim. o do deficiente físico. Não há república sem vida ativa da cidadania na esfera de uma livre sociedade civil. O legislador não menos. foram fatores decisivos para que o Judiciário viesse a se converter em um novo lugar não só para a defesa de direitos. O próprio legislador. Contudo. Em primeiro lugar. cujo marco mais representativo foi a criação da ação civil pública e. é presa fácil para intervenções messiânicas. etc. dando partida. Vale dizer. Nesse novo registro. quando a decisão de um pode se justificar em nome . o da cidade. passando a admitir ações por parte de entes coletivos. filha que é da elite oligárquica de senhores de terras. mas certamente é singular. o do ambiente. consciente do quanto a sociedade se tinha tornado vulnerável diante do Estado e das empresas. entre os quais o ministério público e a justiça eleitoral. que são postos sob a tutela do poder judicial. à incorporação dos seres sociais que emergiam do mundo urbano-industrial.

As eleições que se avizinham. como nas eleições anteriores. Já são décadas de modernização. chegou a hora do moderno. vão confrontar programas dos candidatos em torno de questões substantivas de relevância indiscutível. mais uma vez. mas a eles não pode faltar mais.332 do interesse geral de que ele seria o intérprete privilegiado. como educação. emprego e renda. . o tema da república e da auto-organização da cidadania. saúde.

têm sua origem nesses partidos. o diagnóstico de que seus piores efeitos teriam sido evitados graças aos “sólidos fundamentos da nossa economia” e do que seria o padrão de excelência vigente na regulação do nosso sistema financeiro. fiéis a esse estilo em suas campanhas eleitorais. portanto. nem Lula. afinal. nenhuma indicação de que ela venha apontar para contrastes duros nos programas das candidaturas envolvidas na disputa. Vale dizer. De modo mais geral. Passada a crise. Afinal.Março 2010 A sucessão presidencial já está na linha do horizonte. as mais credenciadas eleitoralmente. frutos. cujas controvérsias girariam em torno de temas da administração e da gestão da coisa . em boa medida. sobretudo. consagrou-se. encontrou uma solução feliz. de uma obra comum do PSDB e do PT. nem sinalizar para mudanças relevantes nos rumos da política. Para essa impressão concorre também o estilo das duas principais candidaturas. impróprio. duas delas. que abalou mercados e a própria economia capitalista. o País conhece nestes quase 16 anos de governos paulistas do PSDB e do PT uma forte linha de continuidade em termos de política macroeconômica e de políticas sociais. com razão. nem Collor. da difusa percepção de que os êxitos recentes na expansão do capitalismo brasileiro estariam a significar que a História do País. As conquistas econômicas e sociais teriam serenado o campo da política.333 O fim da história do Brasil ou um novo começo para ela Luiz Werneck Vianna . nessa sucessão não se terá nem Jânio. quadros com perfil forjado nas altas tarefas da administração pública. por sua natureza. às paixões. sem dúvida. mais do que nos debates político-ideológicos. entre as candidaturas concorrentes. formatada e aperfeiçoada no curso dos seus governos. Nada surpreendente. essa expectativa de uma disputa eleitoral destituída de agonística se alimenta. A continuidade na condução dessas políticas passou pelo teste severo da grande crise internacional. Na superfície dos fatos. suportada pelo País sem maiores traumas. e. Dilma Rousseff e José Serra. que venham a ser.

como nos idos de 1960. sede tradicional dos protestos sociais mais virulentos. por meio de políticas públicas. No governo Lula. mudou o seu sentido e já percorre outro caminho. . no Norte e no Centro-Oeste do País. O sucesso econômico do agronegócio. em que o tema agrário teria sido deslocado da sua antiga centralidade nos conflitos de classes no País. sua elevação à arena política constituída. instituindo-se numa estratégia definida. fixa-se para o capitalismo brasileiro o objetivo de transbordar suas fronteiras nacionais. Caberia. sob a liderança do Estado e de suas agências. Vencido seu teste de resistência sob condições extremas. Posto nessa plataforma segura. num esforço conjunto do Estado e das grandes empresas de capital nacional. O que vinha sendo uma navegação numa linha quase reta. Sob essa nova marcação da conjuntura. lançar-se na aventura da sua imposição no cenário internacional. no campo e nas cidades. agora. transitando para uma forma superior de organização. restando incorporar ao sistema da ordem. uma estratégia ainda inominada. a trabalhos precários e intermitentes e a uma vida sem direitos.334 pública. Nessa reorientação. o impulso nessa direção foi intensificado. a partir da crise financeira mundial de 2008. ganha corpo e alma. na rota traçada pelos governos do PSDB e do PT. personagens plenos do moderno. ainda um experimento de ensaio e erro. caberia ao capitalismo brasileiro reestruturar-se. sua presença no governo — federal e de Estados — teriam removido de vez as tensões que antes ameaçavam o campo. o que era apenas um esboço. principalmente. num processo audacioso de concentração e de centralização de capitais. em particular. de caráter moderno ou não. escolher entre os candidatos o mais preparado para continuar o script consagrado no sentido do seu aprofundamento e. com o fantasma da revolução. os trabalhadores urbanos estariam circunscritos a uma agenda de reformas. na tentativa de exercer uma vocação conquistadora de tipo grão-burguês. contra o sistema da ordem da propriedade. uma vez que o País já se acharia com suas instituições estabilizadas e assentado o seu caminho futuro. as grandes massas sujeitas. cuja mais forte indicação estaria na penetração do moderno capitalismo no mundo agrário. A marca forte desse script estaria no reconhecimento de que a tarefa imediata imposta pelas circunstâncias seria a de completar a longa revolução burguesa no País.

Nessa operação. pode datar um promissor recomeço. . salvo quando sob seu estrito controle. conceitos e motivações ideais no baú dos ossos da tradição autoritária brasileira. audaciosa em seus fins. que recusa à nossa História o papel de prisioneiro passivo das fabulações que nos vêm do seu passado autoritário. é conservadora quanto a seus meios: ela não procura a mobilização dos seres subalternos. longe do quietismo que tantos auguram para ela. Vista dessa perspectiva crítica. como na sua patética mimetização do Estado Novo e da ressurgência que promove. quando se trata de perseguir os seus fins de uma ordem grão-burguesa. Tal estratégia.335 Outra característica está na abertura do repertório da tradição brasileira de Vargas a Geisel. por meio das práticas do chamado presidencialismo de coalizão. da “democracia social”. o Estado traz a sociedade para dentro de si. Assim. a presente sucessão presidencial. recuperando a fórmula do nacional-desenvolvimentismo como via de uma modernização conduzida “por cima”. ao Executivo. convertendo-se num “parlamento” onde se tomam as decisões a serem legitimadas por um Poder Legislativo enredado. ela é enérgica e criativa. e se limita a procurar soluções institucionais. e passadista e conformista na política. em nome da realização de fins “substantivos” de justiça.

336 ANTERIORES A 2010 .

Do êxito da sua estratégia de defesa face à crise. A crise de 2008 serviu-lhe como um duro teste. do que a Embrapa talvez se constitua no melhor exemplo. foi formada uma base técnico-científica. 2. também levada à frente por uma estratégia de Estado consciente dos seus objetivos econômicos e políticos de maximização de poder. a partir da qual. que a tem favorecido. O capitalismo brasileiro vive uma circunstância que o conduz a um desbordamento para além dos limites nacionais. essa já é uma ordem grão-burguesa. ignorar que a crescente mobilização de recursos e fins da política para a condução da economia já indicam uma via de capitalismo politicamente orientado. 3. O capitalismo brasileiro é um experimento bem sucedido. em estreita articulação com o grande empresariado. Essa projeção do Brasil vem sendo compreendida de modo benfazejo pelos principais protagonistas na cena internacional. um mercado interno em expansão. não só pela natureza emergente da sua economia. em particular nas áreas da engenharia naval e aeronáutica. os gastos públicos estão submetidos a controles que se tornam cada vez mais eficientes. e já avança para formação de um complexo industrial-militar. quando ficou comprovada a sua solidez. Seu sistema de justiça se encontra sob uma profunda reforma que o deixará mais previsível e racionalizado.337 Tópicos para um debate sobre conjuntura Luiz Werneck Vianna . 4. não apenas escorada pela força expansiva do seu mercado. Não se pode. como também por sua história de paz com seus vizinhos e sua cultura de boa convivência entre religiões e etnias diversas. entretanto. velha conhecida da tradição republicana brasileira. um pujante agronegócio e um sistema financeiro racionalizado. em . mas. Por meio de uma continuada política de Estado.Novembro 2009 1. que ora se amplia e se articula com o sistema produtivo. que se mostrou capaz de atravessar sem maiores abalos a crise mundial de 2008. a essa altura. Mais do que burguesa. resultaram tanto a sua consolidação no plano interno quanto oportunidades para se projetar no mundo exterior. Atestam isso o seu parque industrial diversificado.

intensificava uma postura de autonomia diante do sindicalismo atrelado ao Estado). 6. na conjuntura da época. o nacional-desenvolvimentismo teria sido uma típica floração autoritária da ordem patrimonial brasileira — parece significar. que. a de JK. antes. consagrada institucionalmente na Carta de 1988. Contudo. Assim com a ênfase que passa a ser concedida à questão nacional (desacompanhada da cláusula do popular. mais uma mudança provocada por motivos contingentes do que fundamentada em razões programáticas. foi uma das suas principais críticas — de acordo com a interpretação dos mais eminentes intelectuais que tiveram influência na formação do PT. com os patéticos postulados de grandeza nacional que já se fazem ouvir. no curso de suas lutas contra o regime autoritário. devemse ter presentes os riscos de que tais práticas alcancem o enunciado de um discurso coerente. a crise. ao preservar a instância do público como dimensão estratégica. A mobilização de tal repertório tem ignorado a crítica que lhe foi feita pelos movimentos democráticos e populares. com a teoria do populismo e com a denúncia da natureza patrimonial do Estado. com o desenvolvimentismo. A apropriação repentina desse repertório pela esquerda que se encontra na chefia do governo. ao trazer de volta o tema do Estado e do seu papel como agência organizadora da economia. que. que.338 conjunturas diversas — a de Vargas. atualizou. Se já havia elementos embrionários desse processo. por ora. detentor das razões do bem comum. 7. o repertório da tradição republicana brasileira. o Estado pluriclassista não se . A tradição da esquerda de pensar o todo pela perspectiva das partes é abandonada. submeteu-a ao controle democrático da sociedade. 5. constituída principalmente por economistas. aparentes em particular no segundo mandato do governo Lula. deve cuidar da articulação dos diferentes interesses das partes. por meio de uma intelligentsia iluminada. quando políticas estratégicas são conduzidas pelo Estado sem anuência explícita da sociedade civil e suas instâncias de deliberação. que denunciou a incapacidade do mercado de se autorregular. que. Daí tem derivado a percepção da sociedade como uma comunidade fraterna. que importava uma luta pela hegemonia entre a fração da burguesia nacional e o movimento operário e sindical. É o todo. processando-os no interior do Estado. e a do regime militar — realizou-se o processo de modernização do país. imprevistamente.

o presidencialismo de coalizão em vigência converte os partidos políticos em partidos de Estado e sem representação significativa na sociedade civil. Dessa modernização não deve provir o moderno. O Estado se amplia com a incorporação de representantes das entidades classistas de empresários e de trabalhadores. entre tantos. de outra parte. mais uma vez. Mais que mudanças tópicas ou de ênfase. que abriga no seu núcleo diretivo as principais representações das frações burguesas do país. elas foram credenciadas a terem direito sobre a contribuição arrecadada de toda a massa da população trabalhadora. uma modernização a partir do alto. Exemplo. em particular no novo papel concedido às corporações e à representação funcional.339 apresenta como intérprete de qualquer classe em particular. evidente nas funções delegadas ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). e sim heteronomia. 9. tendência à verticalização e ao domínio das bases pela cúpulas. Tal configuração veio a ser reforçada pela crise de 2008. . A política é capturada pelo Estado. é toda uma forma de Estado que ressurge. inclusive estes culaques à brasileira. da avocação do repertório da tradição republicana: a contribuição sindical. a comercial. independente de filiação sindical. dotadas de recursos próprios. levando a uma revalorização acrítica do Estado Novo e até mesmo de governos do regime militar. 10. mas como um intérprete de todos. a financeira. as burocracias das centrais sindicais tendem a gozar de autonomia frente a seus filiados. e são guindadas à condução de ministérios estratégicos as lideranças das múltiplas frações da burguesia brasileira — a industrial. e que procura justificar suas ações em nome de uma imaginada comunidade fraterna. a agrária. que começaram a sua história na pequena e média propriedade — lado a lado com as centrais sindicais e com os representantes do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST). que suporia autonomia dos sujeitos na trama do social. 11. Têm-se. Com a incorporação das centrais sindicais à estrutura jurídica. 8. ponderando-os segundo os cálculos racionais que responderiam aos objetivos do desenvolvimento.

É falso e anacrônico conceber a próxima sucessão eleitoral como a reedição dos embates entre a UDN e o PTB. Por toda parte: centralização. Pré-sal. o sistema financeiro estatal brasileiro. 13. 30 de outubro de 2009) . sim. Petrobras. (Rio.340 12. em sua diversidade. verticalização. conferindo à liderança de um chefe de governo carismático a tarefa de cimentar a unidade dos seus contrários. Estado forte. dos sindicatos e movimentos sociais. Como também não é o fato da sociedade. e não sobreposto assimetricamente a ela. cooptação da intelligentsia. Não é um bom presságio para a democracia brasileira se apresentar sob a retórica de significar uma comunidade fraterna quando se encontra envolvida em uma política de vocação grãburguesa. Estamos conscientes dos riscos aí envolvidos? A pergunta deve incluir como destinatários os principais atores políticos que estão a dirigir esse processo. a Vale. se deixar subsumir ao Estado. complexo industrialmilitar. mas sob controle da sociedade. grandes empreiteiras da construção civil.

tem lá seus desmaios. na mesma semana em que os senadores Marina Silva e Flávio Arns pediram sua desfiliação. ao povo. professor titular do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).341 Corações partidos Luiz Werneck Vianna . E achou prudente não permitir novo desfalque no Partido dos Trabalhadores. Marina Silva deu sinal verde para uma candidatura de terceira via pelo PV. “O operador político. E o PT de São Paulo já começa a sinalizar com um plano A para Dilma — “a” de Antônio Palocci. o conhecido faro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter sentido o tempo mudar. para quem a estratégia de Lula ao dissuadir Sarney da renúncia à qual já estava resignado acabou por trazer um desgaste maior do que o esperado. ao raiar do dia já estava nas mãos do senador Aloizio Mercadante um novo apelo. José Sarney. o cálculo político de Lula ao manter Sarney no Senado para garantir o PMDB na chapa da candidata petista em 2010 não fecha. chicoteou-se Mercadante na tribuna ao anunciar.Agosto 2009 No Palácio da Alvorada. permanecem. “O governo errou. Com tudo isso. Acho que houve um erro aí”. meu partido errou. no entanto. foram cinco horas de conversa. que se estenderam até 1 da manhã. Daí as recentes evocações à herança de Getúlio Vargas por parte do sindicalista que criticava o . e o senador tucano Arthur Virgílio. Como se não bastassem. que fica. por escrito. Um equívoco logo da parte do político que ele considera “o grande prestidigitador”. Embora rumores em Brasília dessem conta de que o governo daria de ombros ao pedido de renúncia “em caráter irrevogável” do líder no Senado — por causa do arquivamento sumário de todas as denúncias contra o presidente da Casa. por mais competente que seja. eu errei”. avalia o cientista político carioca Luiz Werneck Vianna. As rachaduras. capaz de trazer a pluralidade da sociedade brasileira “para dentro do Estado” e arbitrar ali suas gritantes contradições. residência oficial do presidente da República. na quarta-feira —. enterrando a disputa plebiscitária entre Dilma Rousseff e José Serra desejada pelo Planalto.

E tem ido nessa direção. escolhem um caminho possível. o deputado Ricardo Berzoini.342 peleguismo no ABC dos anos 70 e 80 — em um processo que Werneck Vianna define como “o Estado Novo do PT”. Lula engoliu o PT? A vida partidária no PT está muito ofuscada pela presença dominante de Lula. que voltou à cena recentemente? São todos políticos pragmáticos que. Só que agora. o partido se encontra inteiramente dependente de seu carisma. postos diante de uma encruzilhada. Discute também as dificuldades do Brasil em deixar para trás o patrimonialismo incrustado no Estado e em sua vida social. Na entrevista a seguir. mais profunda e longa que esta. a bordo de seus 80% de popularidade. só não entregou o cargo após um apelo pessoal do presidente. de sua história imediata e de sua formação de origem. Quem dá as cartas é mesmo Lula. houve uma recomposição de forças e o PT ganhou o segundo mandato. Na esteira da crise no Senado. Qual foi o cálculo político de Lula na crise do Senado? . ou José Dirceu. que é hoje um instrumento dele. Não se pode esquecer que. Lula tem um gênio para se adaptar às circunstâncias e tirar delas a posição mais favorável para ele. a possibilidade de superação do “infantilismo político” que retarda a modernização do País (Ivan Marsiglia). Aloizio Mercadante. que enquadrou a bancada do Senado a votar a favor do arquivamento das denúncias contra Sarney. uma vez que o PT abdicou de exercer um comportamento autônomo quanto ao governo. E o líder da bancada. dois senadores do Partido dos Trabalhadores. ao final do ciclo dos “presidentes cordiais” Fernando Henrique Cardoso e Lula. O presidente tomou conta do partido. pediram desfiliação. presidente do PT. depois da crise do mensalão. o professor fala da presença ofuscante de Lula em seu partido — hoje “inteiramente dependente de seu carisma” —. em uma mesma semana. do enigma de uma sucessão a cada dia mais imprevisível e o futuro do PT em caso de derrota em 2010. E vê. Marina Silva e Flávio Arns. independentemente dos princípios.

Certamente. Resta ver se o presidente terá força. sua estrutura sindical corporativa e o processo de modernização imposto pelo Estado à sociedade. o senhor lança mão de uma metáfora utilizada pelo historiador Raymundo Faoro. Mas.343 Ao que parece. eu não gostaria de satanizar o Sarney: me recusei esse tempo todo a fazer isso. O que quer dizer? O PT começa seguindo o mapa que Faoro desenhou. tem lá seus desmaios. de segurar esse tecido tão complexo. A defesa do presidente em relação a Sarney não era obrigatória nem inevitável. tenho certeza absoluta de que o candidato seria José Dirceu. Veja. Dirceu teria removido tudo da frente. Pode haver uma rebelião no partido. sobre a qual o PT nunca foi consultado. Se o mensalão não tivesse ocorrido. sem remover o patrimonialismo de seu caminho — para descrever mudanças pelas quais o PT passou nos últimos anos. será a maior vítima desse erro? Circulam rumores de que petistas paulistas já sugerem substituí-la pelo ex-ministro Antônio Palocci. diante do cenário que restou. no fim das contas. indicada — é possível. É o que qualifiquei de “viagem quase redonda” do PT — que em sua origem recusava o modelo do nacional-desenvolvimentismo da era Vargas. nome que “empolgaria mais”. Acho que houve um erro aí. que é o PT. Mantê-lo unido em torno de uma candidatura que não saiu do seu seio — uma candidatura de dedo. variado. a da “viagem redonda” do Brasil — que se moderniza. e a esta altura os indicadores começam a aparecer. Mas ele ficou sem defesa. O operador político. E o que se . para manter próximo o PMDB. que acabou trazendo um desgaste maior do que se esperava. com todas as suas tendências. Dilma tornou-se a única alternativa confiável para Lula. Foi um caminho tomado que não deu volta. Em um artigo recente. faltando um ano para o fim do seu mandato. mas não será fácil. dos recifes a serem evitados. o governo trabalhou para conter uma eventual CPI da Petrobras. Mesmo com Palocci no páreo. por mais competente que seja. Lula fez um cálculo eleitoral. que talvez nem tivesse efeito tão explosivo. Nem sempre consegue realizar o melhor movimento a cada instante. A candidatura Dilma Rousseff. Mas em seus dois governos ele assume esse mapa e passa a governar com ele.

em outros. que afirma sobretudo a importância do Estado. No governo. que o partido possuía? Governar é ser posto diante de escolhas difíceis. Especialmente após a crise financeira que se abateu sobre o mundo. em alguns momentos. à medida que foi se colocando diante delas. É preciso valorizar o público. O senhor concorda? . de encruzilhadas. ao longo do processo de modernização brasileira. E tem sua história de modernização diretamente atrelada à ação estatal. por astúcia da razão. ele passa a ser o grande defensor de uma tradição republicana que o PT sempre criticou. Acho que não houve uma estratégia: incidentes no meio do caminho foram tangendo o PT a se identificar com temas. sou até favorável à valorização dessa tradição. como em 1937. Mas. E. Em que sentido? Publiquei um conjunto de ensaios com o título Esquerda brasileira e tradição republicana. mais democratizado do que em qualquer outro momento de nossa história . foi o partido acabar se identificando com esse mesmo inventário. Este país não pode ser pensado sem essa instituição: ele foi criado a partir dela. autoritária. autocrática. E se encontra hoje. Lula foi fazendo opções que acabaram recuperando a tradição da era Vargas. É evidente que ela assumiu sempre uma função assimétrica em relação à sociedade.no que a Carta de 1988 exerceu papel fundamental. o Estado foi sendo obrigado a se democratizar. sem que houvesse intenção clara nisso. por exemplo. É importante ter um Estado com capacidade de intervir e certo patrimônio para defender dimensões capitais da economia. E não estou fazendo juízo de valor com isso: em boa parte. Que tipo de “astúcia da razão” fez com que o PT abandonasse o que o senhor chama de “DNA contestador da modernização à brasileira”. Alguns analistas políticos afirmam que as forças de oposição ao governo Lula foram fracas e desarticuladas. Outro dia mesmo saiu estampada nos jornais uma frase do presidente Lula repudiando o processo de denúncias que Getúlio sofreu.344 viu. trajetórias e formas de conceber a política que antes denunciava como males do Brasil — como o corporativismo sindical. apesar de tudo.

cativando a massa da população desorganizada com um programa do tipo Bolsa-Família. . Então. Costumo dizer brincando que só eu estou fora (risos). coexistirem. Outra teria sido necessariamente mais ousada. A ida da Marina para o Partido Verde e sua candidatura à Presidência da República são fatos de enorme importância para a estruturação do sistema partidário brasileiro. Os empresários da indústria. além do mais. não penso a partir do PT. Porque a única possibilidade dessas contradições conviverem. Sua entrada no jogo vai mudar muito as eleições e a política brasileira. O MST também. na medida em que o governo Lula se aproxima do final. Não sobra espaço para a oposição. tem uma vida que se pode mostrar e milita em um tema de relevância mundial. Um outro percurso teria sido melhor para o partido? Eu não sou nem nunca fui um intelectual do partido. Ela é carismática. mas provavelmente não teria feito o segundo mandato. O PV será.345 A oposição ficou muito difícil de se fazer porque o presidente levou a sociedade toda para dentro do governo. se o tivesse feito. Agora. Essa é a arquitetura getuliana que eles incorporaram. Lula foi o grande prestidigitador. teríamos hoje um presidente enfraquecido. idem. o alquimista capaz de trazer a pluralidade da sociedade para dentro do Estado e fazer com que suas controvérsias se desenvolvessem lá dentro — e não fora —. sob sua arbitragem. de um tamanho que a gente ainda não consegue estimar direito. sem dúvida. revitalizado com a chegada de um quadro da expressão nacional e internacional de Marina. E. assim como várias centrais de trabalhadores. as contradições que o animam vão aparecendo. era a ação dele. e que descrevi no artigo “O Estado Novo do PT”. Não é uma perda que um partido possa sofrer impunemente. O capitalismo agrário foi para dentro. Essa interferência de Lula em sua sucessão fica prejudicada pela entrada de Marina Silva na disputa? Acho que o fenômeno Marina é de enorme importância. incapaz de interferir no processo de sua sucessão. Não o vejo como mero episódio de luta eleitoral. Mas foi uma trajetória possível. como se pode operar em um contexto que o governo mantém uma enorme capacidade de envolver a sociedade e trazê-la para si. dando-lhe posições de governo e.

onde o capitalismo é fraco. que está no campo da esquerda. Se perder. Ela parece alguém fora de tudo isso. A esquerda brasileira faz um movimento com a Marina que pode ser metaforicamente compreendido pela migração do ABC de São Paulo. Mas para se ter uma ideia da importância. para Xapuri. a selva.346 Sua candidatura é imprevisível. de uma cultura não contaminada pelos interesses materiais. Efeitos Obama são possíveis aqui. consultando as conveniências. dos quadros políticos. da Alemanha e dos EUA em torno de uma liderança de natureza quase messiânica. Sua entrada na campanha deixa a sucessão mais imprevisível do que era. Em que sentido isso pode ser renovador? Veja. E não descarto a possibilidade de ela ter boa recepção nas urnas. especialmente nesse contexto de desmoralização da política. mais próximo do PSDB? Acho que o PV deve seguir uma trajetória independente. do interior. ou viverá uma crise permanente até perder o resto de sua identidade original. que não passam por setores modernos. terá de fazer uma grande reavaliação. uma pessoa limpa no meio de um mundo contaminado. mas por essa mística do camponês. a classe operária moderna do Brasil. o Acre — um território de outro tipo. ou do PPS. E aí ou o partido sai renovado. Como eu sempre . Em um cenário de tantas concessões em nome da ?governabilidade? e da aliança para a sucessão de Lula. Acredito que a candidatura Marina vá atrair a atenção de ONGs da Noruega. basta pensar que a Amazônia é um tema estratégico para o Brasil e para o mundo. dos partidos. Vejo nela uma outra forma de expressão para as lutas anticapitalistas no Brasil. com uma linha mais definida na qual o lulismo terá sido enterrado. O PV tende a se aproximar mais do PSOL. há uma ênfase na dimensão espiritual e nas relações solidárias. não estou aqui me identificando ou sendo mobilizado como cidadão. discutir sua trajetória recente e as razões da derrota. da Dinamarca. as dimensões materiais não são tão valorizadas. o que pode restar ao PT caso perca a eleição de 2010? 2010 é para o PT de hoje questão de sobrevivência.

Ciro — será capaz de administrar essa realidade política. obrigarão o governo a ter uma linha mais definida. De que maneira? Pode nos obrigar a uma maturidade política que não fomos obrigados a ter. partidos não morrem. a bordo de sua enorme popularidade. apenas Lula. E previu uma crise para 2010. mas manteriam com eles relações menos próximas que as existentes nos governos FHC e . Eles têm um perfil muito parecido. E. Para ele. submetidos que fomos ao infantilismo político que advém do fato de termos sidos tutelados 16 anos por essa social-democracia que optou pela indefinição: a do PSDB e a do PT. conciliando as forças conservadoras para se manter no poder? Sem dúvida. Aquele PT pré-2002 já é um capítulo do passado. da extensão das riquezas materiais. Mas as dificuldades serão bem maiores. não tem força para se afirmar sem o apoio da tradição. Dilma. Sem ele. Ele tem razão? Quem tinha força e representação política para segurar esse difícil equilíbrio de contrários era o Lula. pelo menos? Acho que tanto Serra quanto Dilma teriam identidades mais bem definidas e poderiam governar a partir do moderno. Mas é o moderno que tem que dirigir a tradição. Há algumas semanas. Em 2010 será possível ir um pouco além nessa “liderança do atraso”.347 digo. O Brasil moderno. com menos conciliação — o que pode vir a ser bom. se apequenar. sozinho. inclusive. o pré-candidato Ciro Gomes falou do dilema de se governar o País com ou sem o PMDB: da difícil convivência com esse ?centrão? conservador. A única possibilidade de Fernando Henrique me citar é para dizer que eu sempre sustentei isso (risos). esse tecido tende a esgarçar. o que não quer dizer se romper. Marina ou ele próprio. mas podem diminuir. Iriam conviver com esses grupos mais conservadores. na verdade. resiste a tanto desgaste. Então o senhor concorda com a tese de Fernando Henrique Cardoso segundo a qual não resta ao PSDB nem ao PT mais do que exercer o papel de “vanguarda do atraso”. pois ninguém — Serra.

Você não pode dizer isso do Serra nem da Dilma.348 Lula. Fernando Henrique e Lula são dois brasileiros cordiais. Inclusive por temperamento. .

Na entrevista.Maio 2009 Pensando nas eleições presidenciais de 2010. Temos a política de um só”. de projetos alternativos. Para ele. neste andamento. E. Revista do Instituto Humanitas Unisinos.349 Hoje. só uma pessoa faz política: o Lula. é autor de. pela Universidade de São Paulo. 2002) e Esquerda brasileira e tradição republicana: estudos de conjuntura sobre a era FHC-Lula (Rio de Janeiro: Revan. E completa: “O horizonte de 2010 mostra que a disputa política. O resto da sociedade está destituído da capacidade de fazer política real. mas sim administração”. A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan. o professor Luiz Werneck Vianna defende que. “a continuar nesta toada. 2004). entre outros. para o país não terá uma presença muito forte”. concedida por telefone à IHU On-Line. política e eleitoral brasileira por dois partidos: PT e PSDB. só Lula faz política no Brasil Luiz Werneck Vianna . 1999). tanto um como o outro. nenhum deles possa se intitular como o maior partido brasileiro. argumenta. “Embora. Rio de Janeiro: Revan. para vencerem. 2006). Doutor em Sociologia. no Brasil. a sucessão de Lula. precisam de um terceiro partido: o PMDB. reiterando uma opinião que defende há mais tempo. será muito pouco emocionante e dramática. O que os aproxima mais ainda”. José Serra e Dilma Rousseff. em função da semelhança entre os principais candidatos até então. Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG. “não se discutirá política nem quais rumos seriam melhores para o país. o professor repete: “Hoje. É o único que tem os cordões efetivos da política nas mãos. Como o senhor vê a possibilidade de um terceiro mandato de Lula? . Werneck Vianna ainda identifica um claro domínio da vida partidária. A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (2ª ed. Luiz Werneck Vianna é professor pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). alcançando mais a continuidade do existente do que a descoberta de novos caminhos”.

a esquerda católica. Ele sempre esteve muito dependente da ação seletiva e arbitral do Lula. O PT está em uma encruzilhada muito difícil. Tornou-se cativo do governo. como partido. por exemplo. de técnicos competentes. a não ser a manutenção do que já vem ocorrendo. o pessoal da outra esquerda que vinha da luta armada. uma frente de vários segmentos e de tendências. que tinha expectativas em relação a um partido de novo tipo. de ser o novo e representar os movimentos sociais. uma intelectualidade mais antiga (tipo Sérgio Buarque. no caso da . aqui. Pensando ainda nas eleições presidenciais de 2010 e no cenário constituído pela disputa entre José Serra e Dilma Rousseff. Ambos têm uma visão da questão nacional bem definida e são valorizadores do papel do Estado. se os governos deles seriam parecidos em função dessas semelhanças. O PT sempre agasalhou essas tendências. E. não. Florestan Fernandes.350 Seria uma solução infeliz para os rumos da sociedade e da democracia brasileira. Raymundo Faoro). então. alguma vez. Isso se é que. No entanto. Os dois são testados em posições difíceis (Ministério da Saúde e da Casa Civil). de administradores públicos. Não vejo maior distância entre os candidatos. Ele precisa se afirmar autonomamente diante da máquina do Estado. terá muita significação. diante da sua liderança maior. o que já vem acontecendo. econômico e social. no caso de Serra ser o vencedor. o sindicalismo do ABC. Diferenças haveria. físico. perdeu inteiramente a capacidade de agir autonomamente. perderá as credenciais que já teve. visto que esses estão todos dentro do Estado. Considerando a opção entre Dilma Rousseff e um possível terceiro mandato de Lula. ou. teve condições de agir a partir de deliberação própria. e a única pessoa capaz de mantê-las unidas em torno de um projeto comum é Lula. como. independente de quem vencer. tudo continuará igual? Dilma e Serra têm um perfil muito semelhante. o PT. Precisamos considerar. acho que não. Não vejo motivo. São pessoas operativas. o senhor identifica diferenças do ponto de vista da política econômica entre eles ou. do presidente. como fica o PT hoje? Ele já abdicou há algum tempo de um papel mais autônomo. Não vejo o que justificaria isso do ponto de vista político. eficientes. É claro que o peso de São Paulo.

Em que irá mudar? Pensando ainda num tempo mais largo. Com a Dilma. política e eleitoral brasileira por dois partidos: PT e PSDB. Inclusive em razão da similitude dos dois principais candidatos até então. da descoberta. Esse governo demonstrou uma capacidade forte de atuar nessa direção. O que os aproxima mais ainda. Embora nenhum deles possa se intitular como o maior partido brasileiro. por mais quatro anos. alcançando mais a continuidade do existente do que a descoberta de novos caminhos. não terá uma presença muito forte. nós estamos nesta política desde 1994. Mas as novidades não significaram uma nova estrada. Nesse sentido. ela não está encravada nos movimentos sociais. sem dúvida nenhuma. na questão econômico-financeira. pelo fato de o PMDB aprovar ou desaprovar o caminho que eles quiserem assumir. como. olhando da perspectiva de hoje. talvez se possa imaginar um papel mais desenvolto do Estado e das suas agências. Temos um domínio da vida partidária. para vencerem. Com flexibilizações para lá e para cá. Não significaram a abertura de caminhos. de sinais. houve mudança? Não houve. por exemplo. mas sim administração. de mudanças. muito constrangido. do ponto de vista político. embora esse partido não tenha representação forte nos movimentos sindicais. tanto um como o outro. Lula não trouxe novidade? Ele trouxe.351 Dilma. Onde houve mudança? Na questão social. Não se discutirá política nem quais rumos seriam melhores para o país. de projetos alternativos para o país. Então. será muito pouco emocionante e dramática. alguns programas sociais do governo Lula foram criados no . no fundo e no cerne. o programa de inovação que eventualmente eles venham a ter está muito referido. a continuar nesta toada. precisam de um terceiro partido: o PMDB. Agora mesmo o PSDB reafirma o seu apoio à Bolsa Família. sim. da invenção. essa política tem uma continuidade imensa e deve continuar. neste andamento. mas. com Serra e Dilma. Em primeiro lugar. Estamos muito longe de uma sucessão marcada pela possibilidade da inovação. No entanto. ancorada na presença majoritária do PMDB na vida partidária e parlamentar brasileira. a sucessão de Barack Obama significou nos Estados Unidos. Quais são suas perspectivas de forma geral para as eleições de 2010? O fato é que o horizonte de 2010 mostra que a disputa política. Esta política toda orbita dentro do centro político. Essa sucessão.

os sindicatos. O que aconteceu foi um aumento da representação simbólica dos setores subalternos. É o único que tem os cordões efetivos da política nas mãos. Tornou-se o interlocutor dos países fortes. no Brasil. O MST. invenções novas. uns têm poder de veto sobre os outros. Era de se esperar que houvesse mudanças nessa direção. embora. essa é uma crise que deixará sequelas. de Fernando Henrique Cardoso. do PSDB. estão todos dentro do aparelho do Estado. E quem arbitra e decide tudo é o presidente. tem uma posição muito boa na vocalização das grandes questões internacionais. Não foram descobertas. O movimento social ainda tem peso no jogo de forças da política brasileira hoje? Tem. Como o senhor analisa a popularidade do governo Lula mesmo com a crise do capitalismo e do emprego? O governo tem sabido manobrar com muita lucidez e habilidade nesta crise. conseguiu alguma representação dos países emergentes. De fato. porque isso poderia desandar esse compromisso que existe dentro do Estado. estariam a reforma agrária e a reforma política. Fernando Henrique também deu um passo nisso. Agora. de José Sarney. ele não esteja ativado. O resto da sociedade está destituído da capacidade de fazer política real. dos movimentos sociais no governo. deveremos ter um fortalecimento de . Recuperando uma entrevista que eu dei há algum tempo.352 governo anterior. só uma pessoa faz política: o Lula. Podemos dizer que o Lula aprofundou esse caminho. Entre essas reformas. E sem retorno. a partir daí. O movimento social foi cooptado e trazido para dentro do Estado que. O sujeito hoje vota e não comparece nunca mais. Temos a política de um só. social e política do país. o movimento negro. Além disso. que não saíram e possivelmente não sairão. eles têm o parlamento dentro do governo. A partir daí. E lá eles se neutralizam. as concepções neoliberais foram derrotadas. de Itamar Franco. Houve mudança na política externa? A política externa para a América do Sul vem de antes. Hoje. no sentido de chamar a cidadania para mais perto da esfera pública. eles evitam ir à sociedade nas suas disputas. Qual a grande mudança que se podia esperar de seu governo? Governar com uma crescente mobilização dos movimentos sociais na direção de realizar determinadas reformas indispensáveis para a mudança econômica. exerce essa influência.

A economia não tem como trazer harmonia e coordenação. que agem como fenômenos glaciais. Essa ordem demonstrou sua incapacidade. é que. Por exemplo. e que ele conquistou ao longo da vida. homóloga a esses processos societais de fundo. O que não quer dizer uma volta a concepções já vividas historicamente. A meu ver. Estamos em uma passagem de época. Mas é claro que se vai para uma nova ordem mundial. Também não significa que. capacidade de induzir normas em relação à vigilância sanitária. com capacidade de induzir comportamentos em escala mundial.353 mecanismos de regulamentação internacionais. e tudo o que está perto dessa experiência. crescem em expressão. Esses organismos internacionais. com a sucessão do Lula. O governo é muito aplicado na defesa de si mesmo e procura abarcar todos os interesses. é que a nossa política externa tem dominado isso e operado num sentido bastante lúcido em relação a essas questões. o que já vem ocorrendo. como isso ainda é embrionário. A economia não pode mais ter a pretensão de ser uma dimensão autorregulada. a balança oscila mais para o lado do trabalho ou para o lado do capital? Entre os dois lados. daqui para a frente. E o que se pode dizer do Brasil. do direito e das instituições sociais no controle e na regulação da economia. que é própria do Lula. O Brasil está se comportando de maneira afim. o coração de Lula balança. com eles. e. por si só. nesse nevoeiro ainda não é possível perceber inteiramente para onde se vai. Ainda estamos tateando. Sempre haverá perdedores. essa situação não poderá se reiterar. como mudanças de “placas tectônicas” da nossa sociedade. Nenhum deles têm a capacidade. aos complexos mecanismos da vida financeira mundial. e. perante as candidaturas Serra e Dilma. mais à frente. dependendo da natureza dos impasses e da gravidade do contexto. a única coisa que esteja em vista seja uma volta maquiada da ordem neoliberal. Isso tudo ficou para trás. pela sua . ou o mundo do estado do socialismo real. que é a Organização Mundial da Saúde. como a ONU. No governo Lula. como um fator de paz e de harmonia na ordem internacional. essa gripe suína trouxe à cena um ator extremamente fundamental. além de uma presença da política. pelo seu carisma. como o Estado-Providência. E ele arbitra. o que muda. mas em boa direção. nesse contexto. com o exercício de uma coordenação mais efetiva sobre um mundo sistêmico. Uma ordem internacional mais justa se torna uma possibilidade. de fato.

quando pensamos no PAC. de resolver arbitralmente essas questões. de ter sido o reator que vem aprofundando a experiência democrática brasileira. O que não quer dizer que. os perdedores e os vencedores serão mais claros. a JK. Essa nova ênfase nas questões nacionais desenvolvimentistas o aproxima muito de Vargas. Não creio que ele esteja capitulando. E. No governo Lula. mesmo diante da crise ecológica? Precisamos reconhecer que os ambientalistas estão presentes no governo. Tem havido uma inflexão ao longo do governo Lula e que ficou muito mais caracterizada no segundo mandato. O fato é que a ação deles está sendo mais ponderada agora em função das necessidades de expansão das forças produtivas que esse país experimenta. o que importa é que o PT. mas sim da continuidade.354 força pessoal. Essa será uma mudança significativa. a Vargas. o PT não se comportou como um agente da descontinuidade na política brasileira. A meu juízo. um partido que nasceu em clara oposição a esse passado. que apresenta tensões com a questão ambiental. nessa ação da continuidade. Com Dilma e com Serra. vem se aproximando cada vez mais desse inventário. O ministro do meio ambiente é um ambientalista convicto. voltando à sua primeira pergunta desta entrevista. E. O senhor compartilha da opinião de que governo e sociedade seguem o mesmo modelo de desenvolvimento que privilegia o crescimento a todo custo. no sentido de uma orientação nacional desenvolvimentista. De qualquer forma. ou seja. o que nos remete ainda para o tema da continuidade neste outro registro. sem muita preocupação ambiental. não tenha havido releituras nem transformações importantes. essa questão vendo sendo bem administrada. O modelo de desenvolvimento de Lula lembra mais Getulio Vargas ou mais JK? Ele lembra ambos (Risos). O terceiro mandato pode significar um divisor de águas muito complicado. A principal delas tem sido o reforço e a consolidação da democracia política entre nós. . ele lembra muito Juscelino. o terceiro mandato pode ameaçar esse patrimônio do que têm sido esses dois mandatos do governo Lula.

as decisões dos dois Tribunais não reconheceram esse direito. do que é testemunha a legitimação das ações civis públicas como recurso dos sindicatos. a demissão imotivada de que trata a convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).723 empregados da Embraer e de 1. inovando o sistema de defesa dos direitos dos trabalhadores. as demissões de 4.500 da Usiminas. e a relação dos empregados dispensados. indicando-se o seu tempo de serviço. Mais recentemente. que a proíbe. embora tenha . respectivamente. mas o precedente está aberto e se acumulam as evidências de que a jurisprudência pode vir a se mover no sentido sinalizado por aquelas decisões. estão aí as decisões dos Tribunais Regionais do Trabalho da 15ª e 3ª Regiões que suspenderam. porque nos dois casos foi imposta a realização de audiências de conciliação. De fato. a questão envolvida se acha instalada no coração da matéria das relações trabalhistas. Este é bem o caso da Justiça do Trabalho. Substantivamente. No entanto. Decerto que essas liminares foram cassadas pelo plenário desses dois tribunais. exemplar dessa mutação. por medida liminar.Abril 2009 A institucionalização da democracia política no país com a Carta de 1988 não só importou a criação de novos direitos e de novos procedimentos destinados a lhes conceder eficácia.355 Princípios no coração da matéria Luiz Werneck Vianna . Em particular. obrigando a Embraer e a Usiminas a justificarem os motivos da demissão dos seus empregados perante os sindicatos e o poder público. como também tem ensejado um ambiente propício para que antigas instituições renovem sua forma de atuar e se atualizem na complexa cena contemporânea. na medida em que afeta o direito discricionário do empregador de demitir os seus trabalhadores. exigida das empresas a apresentação de balanços patrimoniais e dos demonstrativos contábeis dos últimos anos. com a presença de líderes sindicais e do Ministério Público do Trabalho. salvo em casos especiais.

“Situações difíceis”. litígios tópicos diante dos quais o direito ainda hesita sobre a interpretação a adotar. não foi mobilizado em terreno juridicamente vazio. responsável. uma vez que os novos contratos de trabalho estipulam. que os princípios devem ser chamados a fim de participar das decisões. sujeitas apenas às multas previstas na lei do FGTS. inciso I —. a justificação comprovada da sua necessidade e uma justa indenização por seus anos de serviço. em especial nas demissões coletivas. circunstância qualificada pela denúncia do governo da convenção 158. como muitas vezes demonstrado. no ano seguinte. a única — para que o justo prevaleça. inciso III). Contudo. que é o caso. reclamar deles a sinalização para a melhor solução — no limite. as empresas a motivarem as demissões. . 1º. matéria a ser regulamentada por lei complementar. podem. 7º. passados mais de vinte anos de vigência da Carta de 88. após forte reação do empresariado à sua implementação. que preencheria este vazio legislativo. cria-se a possibilidade para uma intervenção criativa do juiz. pela alta rotatividade no emprego do trabalhador brasileiro. não é sentida apenas por uma das partes contratantes nas relações de trabalho. de igual modo. A segurança por que demandam os trabalhadores é a de terem. uma remuneração inferior a que o empregado recebia no emprego anterior. À falta desta lei. Não são apenas nos “casos difíceis”. especialmente diante de uma crise econômica de largo alcance que põe sob ameaça o emprego e o mercado de trabalho. Este princípio. o que vige são as práticas das demissões imotivadas. A estratégia dos Tribunais diante de uma “situação difícil” — a demissão de milhares de trabalhadores — foi a de obrigar.356 sido ratificada pelo governo brasileiro em 5 de janeiro de 1995. A insegurança jurídica. tema da reação dos empresários às decisões dos dois Tribunais que interpelaram princípios — mas não só —. apenas uma intervenção da especulação hermenêutica. com óbvias repercussões salariais. com origem em litígios sistêmicos. como a da segregação racial na sociedade americana nos anos 1950. foi denunciada por ele. a Constituição dispõe que a relação de trabalho deve ser protegida da demissão arbitrária — art. pois é a própria Constituição que declara a sua intenção de proteger o trabalhador da demissão arbitrária. em nome do princípio constitucional da “dignidade da pessoa humana” (art. em geral. entretanto. no capítulo dos direitos sociais. Sem ela.

São claros os termos da decisão ao mobilizar o texto constitucional: “o poder diretivo do empregador [. mais à frente. entregue à servidão voluntária e aos mecanismos de mercado. A escalada da violência urbana e a sucessão de escândalos na “classe política” apenas confirmariam o diagnóstico de esgotamento das antigas promessas de se instituir. porque dá plena consequência aos princípios e aos direitos fundamentais estatuídos na Carta de 88 no mundo do mercado de trabalho. trazendo para a dimensão sistêmica da economia o valor ético “dignidade da pessoa humana”. incapaz de formular um destino de afirmação para seu povo.357 O caso da Embraer Luiz Werneck Vianna . aqui. confiada quase que exclusivamente ao controle dos profissionais da política. parece se ter tornado uma nova moda entre intelectuais. é um destes vigorosos sinais. de mandar.Março 2009 Despotismo fabril e dignidade da pessoa humana: o caso da Embraer O acento pessimista. De fato. O diagnóstico a tal ponto se acha confundido com o senso comum que os fortes sinais que o infirmam ou são ignorados. há bons motivos para o desalento. A decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região. ou têm sua interpretação rebaixada. sobretudo quando se atenta para a situação de degradação em que se encontra o sistema dos partidos e da representação política no país. uma cultura e uma civilização originais.] não é absoluto. no caso da demissão de mais de quatro mil trabalhadores da Embraer. sentenciar que “a dignidade da . suspender as rescisões contratuais. por medida liminar. encontrando limites nos direitos fundamentais da dignidade da pessoa humana”.. Também não é animadora a distância que a sociedade civil mantém em relação à esfera pública. Esta hora de crise mundial do sistema financeiro ainda mais generaliza o azedume na mídia e nos chamados formadores de opinião — não haveria mais lugar para as pretensões de mais um surto de modernização.. para. Em primeiro lugar. a versão de que o Brasil perdeu a crença em si mesmo.

a sua viabilidade econômica. envolve a sociedade inteira. pela indicação de que há poderes. A decisão judicial. e não ao mundo da lua. Em terceiro lugar. em nossas instituições republicanas. porém. não desconhece que o mercado está submetido a leis próprias e não tem como ser dirigido pela força de canetadas. ou estão perdendo. embora deva operar em comunicação com os valores. capazes de se pôr em sintonia com os comandos constitucionais que nos orientam no sentido de criarmos uma sociedade mais justa. 06 de março de 2009.358 pessoa humana é um valor superior que deverá presidir as relações humanas. pela evidência de que o movimento sindical trouxe para si os fundamentos e os princípios da Carta de 88. práticas e instituições que lhe chegam de outras regiões do social. diante da gravidade da crise econômico-financeira. Em segundo lugar. Rio de Janeiro. nesse sentido. propício. pelo próprio contexto em que a decisão foi produzida. e sob a arbitragem do poder judicial. em obediência ao que dizem as leis. E. na medida em que. a admitir exclusivamente argumentos e intervenções de caráter instrumental em detrimento de razões estranhas à lógica do mercado. E. não vai se negar o caminho das demissões dos trabalhadores de empresas que perderam. no interior de um confronto tradicionalmente interpretado como de natureza mercantil. finalmente. e passa a provocar a ação do juiz a fim de arbitrar questões que transcendem a região do econômico-corporativo. entre as quais as relações jurídico-trabalhistas”. Assim. dirige-se a este mundo e às suas contingências. em particular as de proteção do trabalho. quando suscita o valor da dignidade da pessoa humana. . desde que a sua necessidade seja comprovada em um cenário de negociação sindical.

porém. no mundo emergente. A análise é do cientista político Luiz Werneck Vianna. por motivos históricos determinados. mecanismos do Estado brasileiro. Para o Brasil o que isso aponta? Acho que estamos muito bem equipados. Com o tema da regulação. Dilma Rousseff. (Wilson Tosta) Estamos diante de uma conjuntura política nova. cada sistema nacional. com a crise econômica. Há muito tempo”. Milhões de pessoas desempregadas. isso que ocorreu era o desejado. diminuição da riqueza mundial.Fevereiro 2009 Mesmo com a crise econômica.359 O PT recuperou a era Vargas Luiz Werneck Vianna . sua sucessora. José Serra (PSDB). “Getúlio não elegeu Dutra?” Ele alerta. darão fôlego ao governo e reforçarão o potencial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na tentativa de fazer a ministra da Casa Civil. O que não quer dizer que as concepções de extremação da presença política na economia retornem.. Mesmo os anos de desmonte. é “um osso duríssimo de roer”. que o governador de São Paulo.. aqui. O neoliberalismo está fora das alternativas políticas? Creio que está fora. aqui na periferia. diz. De que se trata hoje? De regular. sempre foi muito forte. O Lula é um Getúlio. como o BNDES e a Petrobrás. do Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj). Regular o sistema financeiro mundial. O pesquisador vê no discurso otimista de Lula e na sua proximidade dos pobres os motivos para a sua popularidade. “O PT recuperou a era Vargas. das . a presença da política. não há como recusar isso. Agora. O que isso aponta para 2010? Estamos diante de uma catástrofe. A presença do público.

de algum modo continuou com Lula. porque uma boa parte dele está situado na base da pirâmide. O fato é que não vendemos nem o Banco do Brasil nem o BNDES. pode agir na sucessão? Ele é parte dessa história boa. seguiu com Fernando Henrique. não teríamos essas instituições que hoje estão nos defendendo se o PMDB não fosse um personagem tão presente na vida republicana recente. E tem um presidente que ganhou a confiança da população. Que. a crise financeira nos anos 90 fez com que criássemos antídotos. E além do mais. Em linguagem fácil. se comporta no sentido de inspirar segurança. Mas ele não é associado ao atraso? Eu sei. Lula não tentou. realmente.360 tentativas de desmonte da chamada era Vargas. no meio dessa crise. tudo isso que se diz é um pouco verdadeiro e às vezes muito exagerado. que agora estão se demonstrando extremamente eficazes. mas a tradição da presença do público na sociedade brasileira foi preservada. Mas o PMDB é uma escora na defesa dessa tradição do público na sociedade brasileira. fisiológica. Como o PMDB. à frente do Senado e Câmara. E temos a Petrobrás. Temos um mercado interno que cresce. A questão aqui é quem dirige o atraso. Por exemplo? Collor. o PMDB é um partido muito difícil de administrar. Começou com Collor. Fernando Henrique não tentou. quem tentou romper com ele perdeu. E está comprometido com a defesa do emprego e a sua ampliação. não foram aprofundadas. Se o atraso assume a direção. Possivelmente. não precisa de muito para crescer. o aumento do salário mínimo intensifica o consumo. Agora. O Bolsa Família intensifica o consumo. não há o que fazer. aí. Mas não está postulando a Presidência até agora. Mas desde Vargas ele não assume. confiança. Aliás. ficaram na superfície. rápida. ao lado disso.. Por que um partido grande como o PMDB não lança candidato? .. O PMDB é uma força política regional. o atraso é questão altamente sensível e estratégica na sociedade.

Getúlio não elegeu Dutra? Agora. Serra é um osso duríssimo de roer. a maneira apaixonada através da qual Lula faz isso. Mas o navio não vai afundar. De certo modo. Dilma. não? O que dá lastro a isso? A ida ao social. Mas é o que dá um partido como o PT ir ao governo e não realizar o seu programa. Na sua avaliação. como o Geddel (ministro da Integração). O programa do primeiro mandato não era esse que está sendo realizado. O PT recuperou a era Vargas. Há muito tempo. Os seus líderes são regionais. é.. Deu para os dois lados. se o navio tiver de afundar. Aumentou. A popularidade dele é. Teve de se aliar aos outros para realizar um programa descoberto no meio do caminho. É claro que ninguém atendeu melhor aos empresários e às finanças que ele.. aos pobres. Está cada vez mais popular. O Lula é um Getúlio.361 O PMDB deixou de ser um partido nacional. “transmissível”? Ah. é candidata forte? É. é. digamos assim. então.. ele quer morrer que nem um almirante batavo: afundar com o navio. Vai sofrer .. qual vai ser o peso do presidente na sucessão? Do jeito que ele está se comportando. aos sindicatos. como Getúlio foi. Getúlio também foi. Mas não tirou de um lado para dar para o outro. Mas tem um potencial enorme de influir na sucessão e no governo.

Como fica o PT? O PT se programou por 20 anos. provocada por jornalistas? Não se sabe. nunca teve perfil para isso. e PT e PSDB. pode prejudicar Serra? Pode. E nosso mercado interno pode nos segurar. Ficou sem candidato. A briga. O outro lado é muito forte e vem de um Estado muito poderoso. é candidato com dificuldades. Mas volto à minha argumentação: temos algumas defesas. Candidato inventado. O risco para Serra é Minas escapulir. Então. Ela. que nunca passou pelo teste das urnas. talvez severos. Mas em qual quadro? Está todo mundo chamando atenção para o PMDB. o presidente Lula será um ator importante em 2010? Ah. Mas é o projeto “desde garotinho” do Serra. por si só. Mas.362 abalos. certamente. Decisivo? Não sei se ele garante a vitória do seu candidato ou candidata. Como a Dilma vai se comportar. Teve contratempos. Isso não torna a participação de Lula ainda mais fundamental? Sem dúvida. Não tem treino. que já rachou a bancada tucana.. A candidatura Aécio-PMDB não existe. está inventando a Dilma.. nunca se pensou. que estão cada vez mais parecidos e cada vez mais rivais? O enigma é: por que não se aproximam mais? . Se Serra conseguir fechar São Paulo.

O presidente governa o partido. Aliás. se desprendeu do PT.363 Por causa da briga em São Paulo? O Lula já se desprendeu disso. . Agora. com relações cada vez mais doces com o governador de São Paulo.

A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan. Está faltando sociedade organizada. 1999) e A democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG. entre outros livros. “O que constatamos. há uma zona de sombra que ainda precisa ser esclarecida. 2002). na sua opinião. o professor Luiz Werneck Vianna. Para ele. No entanto. O pesquisador acredita que “os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso”.Julho 2008 Ao analisar os recentes episódios de corrupção no Brasil. Não há política. que são. Quais foram as condições políticas e econômicas que permitiram o surgimento desses personagens? O Brasil é um país capitalista. pela Universidade de São Paulo. jovens. identifica apenas “o capitalismo operando”. explica. A política está reduzida ao noticiário policial”. a partir da prisão (ou da tentativa de) do banqueiro Daniel Dantas. é que a política recua. E esses são empresários audaciosos. o mal não está em figuras como as de Dantas ou de Eike Batista. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais”. do Iuperj. ao longo desse episódio. Doutor em Sociologia. a reforma agrária e a democratização da propriedade. em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. E que a solução virá “com mais política”. A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan. reflexiva.364 Moralismo cancela debate democrático Luiz Werneck Vianna . Ele garante: “Não vai melhorar. o crescimento econômico. é autor de. 1997). e têm encontrado um terreno favorável a tratativas com o executivo no sentido de fazer negócios de interesse comum. E nisso parece que ambos têm se complicado muito. Personagens como Daniel Dantas e Eike Batista avançaram sobre nacos importantes do patrimônio do Estado brasileiro. Werneck Vianna é professor pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Meu problema em . “como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas”.

às políticas sociais. da democratização da propriedade. A cultura do fascismo pode se manifestar com traços mais bem definidos. que devem ser discutidas com mais ênfase? O tema do crescimento econômico. se mobiliza a classe média para um moralismo que não pára de se manifestar. especialmente aquela praticada pelas elites. Não depende. Pode-se afirmar que os anos dourados do neoliberalismo brasileiro produziram uma nova burguesia nacional da qual Daniel Dantas e Eike Batista são hoje personagens centrais? O que distingue essa nova burguesia da “velha burguesia nacional” do período desenvolvimentista? Eike Batista não é um homem das finanças. salvacionista. Nada muda no que se refere à questão agrária.365 relação a tudo é essa sucessão de intervenções espetaculosas da Polícia Federal. Então. mentira! O que o senhor considera como as questões centrais na sociedade brasileira. O Daniel Dantas. que é muito perigoso. aparecem dois personagens institucionais. A política cai fora do espaço de discussão. que podem indicar a emergência de uma cultura política fascista entre nós. e a sociedade não reage a ele faz tempo. Todos esses escândalos e espetáculos atraem a opinião pública como se a salvação de todos dependesse de apurar os negócios do Eike Batista e do Daniel Dantas. Não vai. é um espírito salvacionista. Ele é um homem do setor financeiro. Há elementos muito perigosos aí. Enquanto isso. o país viveria numa sociedade justa. e sim um homem da produção. da reforma agrária. Este caminho é perigoso. Além disso. desencantada. não. a sociedade acha que se resolve esse problema colocando a elite branca na cadeia. do Ministério Público. a mobilização da mídia. o mundo continua como dantes. Esse “Batman” é a Polícia Federal associada ao Ministério Público. Há um “Batman institucional” atuando sobre a nossa realidade. o que aparece aqui. isso é mentira! Com isso. de índole messiânica. Com essa cortina espetacular. A população anda desanimada. As questões centrais não são essas. a partir da idéia de que nosso inimigo é a corrupção. Desse modo. do Judiciário e da opinião pública para esses fatos. apolítica. ambos vinculados ao Estado: o Ministério Público e a Polícia Federal. Este setor apresentou enormes . Para isso ninguém mobiliza ninguém.

Dantas foi uma. com o mercado financeiro internacional e os fundos de pensão do Estado do qual fazem parte sindicalistas? Acabou-se a velha contradição capital–trabalho? Essa questão dos fundos previdenciários existe em toda parte. O capital hoje tem uma outra forma de circular. pelo menos. Se examinarmos os currículos deles. Não vai melhorar. Como o senhor interpreta essas relações aparentemente ambíguas que o banqueiro Dantas tinha. é uma alusão importante. com doutorado no exterior. FHC e Lula. O ponto da privatização estabeleceu um caminho para que esses homens encontrassem a sua oportunidade. nessa malha de corrupção? Era necessário que nessa rede público-privada aparecessem personagens. ao mesmo tempo. e isso não ajuda o mundo sindical a se reorganizar. E não creio que isso esteja na intenção da Polícia Federal. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais. Esses executivos do setor financeiro não têm 40 anos. sua capacidade de manipulação e envolvimento de tantas pessoas. O que vemos é um sindicalismo inteiramente cooptado pelo Estado. Quem mexeu com a questão e falou no surgimento de uma nova classe foi o Francisco de Oliveira. veremos que são formados por boas universidades. Apareceu um novo mundo para esses setores médios e educados da população. Passa-se da posição de economista para a posição de banqueiro hoje muito facilmente. de diferentes governos. não apenas no Brasil. Até agora. Como entender o poder de Daniel Dantas. especialmente os economistas. Dantas jogou com as oportunidades que viu. Não sei se devemos concordar inteiramente com o que ele diz. mas. .366 possibilidades. Essa rede não podia se montar sem pessoas concretas. O mal não está nessas figuras. Daqui a pouco vão querer “prender” o capitalismo. O banqueiro Dantas estabeleceu uma rede de conexões políticas ao longo de três governos — Collor. Esse é o capitalismo operando. as únicas coisas concretas pelas quais ele pode ser pego são o suborno ao policial e seu problema com o Imposto de Renda. como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas. E o controle disso tem sido em boa parte corporativo.

Num ano eleitoral. pelos grampos telefônicos. Isso não lembra a linguagem do regime militar. com cortinas de fumaça. ao longo desse episódio. menos a política. apurando. com um domínio total dos meios de comunicação. um grande processo pode resolver as máculas da nossa história. O próprio Congresso se tornou uma ampla comissão parlamentar de inquérito. temos um grupamento novo na sociedade: a Polícia Federal é nova. Vejo as primeiras fumacinhas de uma síndrome fascista entre nós. Ela foi extraída da classe média.367 O senhor considera que o caso Dantas ameaça o conceito de República. e com política. responsável por todos os males. e também não deixa de incorporar essa preocupação com o testemunho do espetacular que essas operações policiais manifestam. Seus integrantes estão autonomizados a ir para as ruas com esse sentimento messiânico. Estamos indo para um estado policial? Com isso. E isso deve ser denunciado. é que a política recua. que aparece no relatório do delegado Protógenes. Está faltando sociedade organizada. Além do mais. fará com que ela melhore. de que a Polícia pode salvar o mundo. Como o senhor analisa a postura do Supremo Tribunal Federal nesse caso? Como interpreta o comportamento do ministro Gilmar Mendes? Interpreto bem. caso preso e execrado. ou se pode afirmar que efetivamente o Brasil nunca desfrutou do status de República? Não ameaça nada. a sociedade aprende a apontar como culpado o “malvado” lá da ponta. O que constatamos. de que o grande inimigo é a corrupção? Só que agora tudo está sendo feito numa escala nova. com mais política. Não podemos defender a idéia de que um grande inquérito. investigando e não discutindo políticas e soluções para os problemas. quando ele se impôs. O papel da Suprema Corte é defender a Constituição. Uma outra questão vinculada a isso é a escuta telefônica. e a política está reduzida ao noticiário policial. Esse é um affaire midiático. imensa. Qual é a sua opinião sobre o combate à corrupção no Brasil? Este episódio recente abre a possibilidade de mudanças? . que. bem formado. criar um novo tipo de encaminhamento feliz para nós (e isso é feito pela polícia. as liberdades individuais. tudo se discute. Os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso. Seu pessoal é concursado. pela repressão!). com curso superior. reflexiva. combatido.

n. mas sem que isso assuma o caráter de escândalo. 2008. isolada. mantém a sociedade fragmentada. Isso sim é perigoso. a ordem racional legal avança. descrédito nas instituições? Descrédito. dessas corporações novas. à dignidade da pessoa humana. 21 jul. mas também vejo que esse processo pode ser corrigido se a ordem racional legal for defendida por recursos democráticos. investigando a corrupção. Talvez eu tenha dado muita ênfase à dimensão negativa de tudo isso. se aprimora. Que tipo de sentimento esse episódio provoca na população brasileira? Revolta. São Leopoldo.368 Nesse processo. o que tento combater é uma visão salvadora. 265. se aperfeiçoa.. Não creio que isso seja um indicador de democracia. justiceira. prendendo seus responsáveis. retiradas das suas casas nas primeiras horas da manhã. como se não devesse haver nenhum impedimento entre a ação da polícia e a sociedade. no qual parece que temos um agente de salvação em defesa da sociedade. e tudo isso passando por câmeras de televisão.. com respeito às leis. . E também aprofunda o fosso entre a sociedade e a política. messiânica do papel policial para a erradicação dos nossos males. sem violência. É possível avançar na ordem racional legal. Revista do Instituto Humanitas Unisinos. como se não devêssemos ter habeas corpus. No entanto. de espetáculo. ---------Entrevista originalmente publicada em IHU On-Line. como se as pessoas pudessem ser presas. esperando que a ação desses novos homens. algemadas. nos livre do mal.

entre nós. dramatizaram a cena política brasileira. valorizador do Estado e do seu papel na condução da vida econômica e social. senhora de frações da vida social organizada e com significativa representação na formação da opinião pública. antes percebido como um lastro a empenhá-lo ao tradicionalismo e às relações pré-capitalistas.Março 2008 Fora de discussão que a experiência de afirmação do capitalismo vive. Contudo. cada qual presente na máquina do governo. em torno de dois projetos bem delimitados sobre o seu destino. . Atestam esse processo a diversificação do parque industrial. sob o ângulo falso de que se recusa à política e se mantém avessa a seus conflitos. embora o comando de ambas esteja situado no interior do mesmo governo Lula: enquanto na primeira se cultua e se procura praticar o modelo capitalista de livre mercado. tem sua sorte ligada à resolução das suas disputas no interior da própria máquina governamental. já lhe chega moderada pelos filtros que atuaram sobre sua carga conflitiva. que. a modernização do vasto mundo agrário. historicamente. na outra. esse registro de êxitos não se mantém quando o foco da observação abandona o cenário da economia de mercado e se fixa no da política. quando recai sobre a sociedade. o comportamento dos indicadores econômicos. Com efeito. apesar de estar recortada. reunião de contrários. permanentemente ameaçado de ruína se uma das partes ignora a arbitragem presidencial e convoca a sociedade como elemento de decisão. A tensão que naturalmente deriva da disputa entre elas. predomina viés oposto. vivenciada no interior do Estado e arbitrada pelo presidente Lula com a autoridade que lhe concede o apoio popular que detém. de alto a baixo. então. o confronto entre essas duas dimensões revela a assincronia dos seus movimentos. Essa tensão. não lhes faculta o exercício de uma ação hegemônica. Daí que o Estado de compromisso vigente.369 A sucessão de Lula e o retorno do nacional-popular Luiz Werneck Vianna . em razão da força política dessa arbitragem. A sociedade se apresenta. um de seus melhores momentos. a sofisticação do agronegócio.

a administração política de um governo que é. Assim. no caso. às . no seu poder de veto. no cotidiano. em que a ênfase na questão nacional rivaliza com a da luta pela terra. decerto que com a marca singular de os controles institucionalizados da atividade política serem detidos por um governo com origem na esquerda e apoiado por uma ampla base sindical e movimentos sociais. em que a tônica foi a de condenar o papel do Estado na sociedade brasileira. para os sindicatos e movimentos sociais. cada qual no seu campo. pois não se pode mais negar o clássico andamento de revolução passiva que caracteriza a cena brasileira. Para os empresários. inclusive do seu empresariado. do cálculo dos atores envolvidos na “guerra de posições”. Essa desambição também é enganosa. nos centros urbanos e no mundo agrário. A importação de categorias gramscianas é. as disputas que recortam os “dois partidos” no interior do governo encontram plena correspondência nos movimentos sociais e na sociedade civil organizada. o sistema de orientação dos atores da sociedade civil. sempre que possível — no caso da CPMF não foi —. em geral. longe de estar descolado dos valores da sua informal “representação política” em postos governamentais.370 A presumida apatia da sociedade não resiste ao rico inventário das ações dos seus movimentos sociais. o grande teste de auto-avaliação de suas forças esteve na campanha e na votação da CPMF. portanto. reforçam suas posições na sociedade civil. pelos seus êxitos econômicos. uma vez que procede do cálculo estratégico dos diferentes atores sociais em preservarem suas posições no Estado de compromisso que a todos procura contemplar. até então efetivo. como notório quando da votação da CPMF. é muito próximo deles. tal como se patenteia na agenda do MST. uma coalizão de contrários. sem que ainda se possa antecipar qual lado sairia vencedor. uma prudência calculada na vocalização de suas posições. obrigatória. sem demonstrar até aqui ambição de escalar a esfera propriamente política. se manifestem apenas topicamente. igualmente medida. embora. tende a escapar de controle à medida que estes. De outra parte. cujo teatro de operações tem sítio no interior do Estado e dos seus aparelhos de governo: uma eventual mobilização das forças sociais que lhes são afins comprometeria o delicado e frágil compromisso que os tem reunido. e na do empresariado. Contudo. a rigor. A ilusão de imobilidade da cena política provém. todos guardando.

que é o seu garante real. com uma guerra de movimentos. Essa eventualidade parece oportuna para os que sonham. Mesmo com Lula. como tem sido seu estilo de governo. ao menos alguns dos principais atores em dissídio. combinando-as. O cenário de beligerância emergente na América do Sul. único árbitro socialmente reconhecido para julgar as controvérsias que se originam da convivência no governo de projetos tão díspares. um ajuste de contas. é altamente previsível que. evidentes as tentativas da Venezuela em tornar sua “proposta bolivariana” instrumento de ação hegemônica no subcontinente. a estabilidade do Estado de compromisso. e a presença das Farc na Colômbia. e com bastante ênfase caso a atual crise venha a se agravar. Sem ele. a reedição do Estado de compromisso que aí está não é obra fácil. mesmo que não radical. pelo seu potencial diruptivo. Mas esse complicado cálculo tem data marcada no calendário político. tal como a conhecemos nos idos do começo da década de 1960. se fará presente na próxima sucessão presidencial. De outra parte. mesmo sob uma versão reformada. A “guerra de movimentos” ronda. o econômico para os empresários. particularmente em razão da base de massas que escora a reunião de contrários no seu ministério. tem sido suficientemente forte para conter. tem posto em evidência a posição do Brasil como força de equilíbrio . e tenderá a deixar de atrair os atores envolvidos à medida que a próxima sucessão eleitoral começar a entrar na ordem do dia. como também de empresas estratégicas para o mundo do mercado.371 iniciativas que ferem seus interesses. satisfazendo-os em parte e sem negar a cada um legitimidade nas suas pretensões. dessa vez. a agenda das relações internacionais. uma potencial força a ser mobilizada por essa proposta. se não todos. por detrás da aparente imobilidade do quadro e da apatia social reinante. Tal ameaça. desde já ensaiada pela audaciosa política de ocupações do MST não só de terras. como em matéria de legislação trabalhista e previdenciária. a partir das suas “áreas temáticas” — o social para os sindicatos e movimentos sociais organizados. em setores da esquerda. Seu terceiro mandato pode nascer de um contexto em que a incerteza impere — a ambição de todos em ganhar tudo vindo a ameaçar o que cada um já tem — surgindo como a via possível para que se evite o confronto entre as duas matrizes que disputam primazia. parece inevitável. porém. em particular no nosso subcontinente.

no caso de Serra se apresentar à disputa e for fiel à sua plataforma programática de 2002. hoje ocupando posições no governo? Sem Lula. criada como resposta ad hoc às críticas . a administração de um governo de contrários não estará ao seu alcance. que reconhecem no governo Lula tirocínio na administração dessa controvérsia. porém. o “sindicalismo atrelado ao Estado” — já quase caber no perfil de Lula. a partir das especificidades nacionais dos países envolvidos. No caso. não deverá ser indiferente aos atores internos e externos na hora da sucessão presidencial. a concepção de uma política nacional-popular. do que propriamente dos seus êxitos na economia e no social.372 e de paz entre políticas nacionais radicalizadas. no imaginário político brasileiro. pode vir a se fazer presente. o terceiro mandato — por natureza. especialmente no segundo. mesmo sob uma forma fraca. nem denunciar esse retorno como farsa: uma história que adotou o “andamento passivo” como recurso para introduzir mudanças e que tem horror à linha reta. O nacional-popular. O Estado de compromisso atual é uma invenção de Lula. podem ser minimizados e postos sob controle. a ser contestado. pelo próprio PSDB. cuja herança foi estigmatizada pelos criadores do PT — o “populismo”. em particular a Venezuela. que registra apenas possibilidades e tendências. Não cabem surpresas. com propósitos eleitorais. é de se presumir. em uma versão democratizada. Mantidas essas regras. Por sua natureza. uma crise institucional em si — depende mais dos riscos. coligada ou não com o PT. tende a ser mobilizadora e a definir o campo dos amigos e dos inimigos. internos e externos. o fato do plano externo replicar cenário semelhante ao existente no seu plano interno. e a candidatura à presidência do governador de São Paulo atua no sentido de que as regras do jogo sejam preservadas. caminho. Contraditoriamente. o mesmo dissídio Estado vs. o “nacional-desenvolvimentismo”. não costuma ser generosa para com as propostas novas. Os riscos. onde se situará a fração majoritária da esquerda. mais uma vez. alternativa contida in nuce nos dois mandatos de Lula. a Colômbia e o Equador. Não há nada de inevitável nesse quadro. A eleição de um dos dois candidatos do Partido Democrata à sucessão americana pode implicar uma distensão na conjuntura internacional. Mercado. confrontando. internos e externos. a ponto de a efígie de Vargas. já manifestos no atual contexto. como resposta a essa circunstância.

continha um potencial conflitivo desconhecido nos dias presentes. agora. no curso dos anos 1950. Aí. essas lideranças intelectuais que apresentam os termos da disputa em jogo. conhece. Eugênio Gudin e Roberto Campos. a tomar conta dos debates públicos. O peso da influência desse tipo de intelectual deriva naturalmente da natureza da controvérsia. na verdade. a mais aguda reflexão sobre o estado de coisas atuais e a precisa fixação dos temas que compõem a controvérsia.373 circunstâncias do começo do seu governo. sobre matéria econômica. em que o Estado se comportasse como agência indutora e de direção política. uma alternativa de atividade. são elas que apresentam a alternativa de um projeto inclusivo para os campos que pretendem representar. mas certamente destinada. por economistas como. e. em suas múltiplas formas de intervenção sobre a opinião pública. não haveria condições favoráveis à criação de uma moderna economia de mercado. a expressão de um projeto de desenvolvimento autônomo. Decerto que naquela quadra. que versa. incluído o PT. São. e os êxitos recentes do capitalismo na economia do país esvaziaram o antigo argumento de que. embora não omita preferências por modelos do que deva ser uma boa sociedade. os protagonistas mais evidentes nessa polarização têm inscrição direta ou indireta no mundo sistêmico. de um lado. valendo lembrar o papel determinante de lideranças intelectuais desempenhado. Muitas das questões que dramatizavam a política daqueles anos ou saíram de cena ou foram domesticadas — a questão agrária somente em parte. no principal. e não pode subsistir sem ele. . A esquerda. e procuram traduzir suas análises e posições em matéria especificamente econômica a fim de que elas exerçam atração sobre as dimensões da política e do social. entrevista pontualmente nos entreveros no interior do governo e na arena da sociedade civil. na próxima sucessão presidencial. inclusive em razão da carga ideológica trazida pela Guerra Fria e pela própria debilidade do capitalismo brasileiro de então. Na esfera pública. disciplinando os interesses contraditórios que emergem da vida social. um retorno. São deles que partem. conforme o demonstra o MST —. Celso Furtado e Ignácio Rangel. aqui. Em boa parte. também. ainda abrandada e contida pela vigência do Estado de compromisso que aí está. tais entreveros têm sido vocalizados e ganham densidade pela ação da fração mais influente dos intelectuais brasileiros — os economistas. de outro.

se encontram aqueles para quem o desenvolvimento não pode prescindir da participação ativa do Estado. nos níveis atuais. aliados aos custos de manutenção de uma pesada e ineficaz máquina estatal. como a estrutura previdenciária e a legislação trabalhista. dependeria da dura imposição de reformas estruturais que não temessem impor sacrifícios a atual população ativa. dando expressão à vontade de todos. Removê-los implicaria a obra de reformas estruturais — com sinal trocado. lugar onde toma corpo a idéia de nação e se concebem as instituições aplicadas à indução da solidariedade e da coesão sociais. no sentido de permitir uma queda na carga tributária a fim de estimular as atividades empresariais. afetando a taxa de investimento e a mantendo aquém do necessário para uma vigorosa alavancagem do sistema produtivo. importando. sobretudo. a economia não pode ser considerada como uma dimensão isenta a processos externos a ela. a valores e práticas que sejam homólogas a essa economia. a destituição da forte presença do Estado na vida social. especialmente nas áreas da saúde e da educação. insuficiente. e.374 Mas essas mudanças não provocaram um alinhamento das instituições — exemplo maior. o da Carta de 1988 —. enunciada nas deliberações e pleitos democráticos. inclusive em matéria social. onerariam a poupança. situados. os gastos sociais. flexibilizando a legislação trabalhista a fim de reduzir os custos das empresas e reduzindo os gastos públicos. No país. da política e da sociedade. Para os outros. devendo estar referida a interesses nacionais e a objetivos de inclusão social de caráter universalista. ao largo da lógica mercantil. Dessa perspectiva. O planejamento e a determinação dos fins estratégicos do desenvolvimento econômico devem partir da iniciativa da esfera pública política. se não ameaças. ao menos obstáculos a seu melhor desempenho. como os previdenciários. A via real para um futuro de afirmação. por definição. a mesma retórica dos nacionaldesenvolvimentistas dos anos 1950 e 60 —. no sentido de liberar o mercado de entraves prejudiciais. para promover um salto de tipo asiático no desenvolvimento econômico do país a fim de aumentar a riqueza social. a instituição de uma boa sociedade deveria ter como tema central a formação da poupança. a inserir de modo vantajoso a economia brasileira no processo de globalização. Para eles. . segundo os intelectuais da matriz de mercado.

reforçados pelo novo papel de suas centrais de trabalhadores. deverão ir às urnas em torno de programas políticos definidos. tradição que se reitera com este governo originário do campo da esquerda. ele não ainda não transitou em julgado. Se o enredo não conhece o ator que investe contra os fatos e o destino. ao menos. é de se contar com o fato de que essa disputa não é nova. quando afirma que “uma questão ultrapassa em importância todas as outras no Brasil: a questão nacional”. o céu de brigadeiro da atual política brasileira não resiste a uma sucessão sem Lula. celebradas a fim de viabilizar um governo que desertou do seu programa. Antigas identidades e agendas. entre elas a dos sindicatos. mais uma vez. com outros intérpretes e à luz de uma nova interpretação. tradicionalmente presentes na vida republicana brasileira. meses antes de tomar posse em suas funções. preservado pela patologia nacional de somente aceitar a mudança se ela trouxer consigo a marca da conservação. romper com ela importa seguir caminho novo. É a possibilidade do fim da reiteração de que a condição para mudanças está na preservação do que existe. como a de um ministro do atual governo. e se arrasta. embora ainda ecoem algumas palavras fortes do passado. Para a esquerda. já desconfortáveis neste Estado de compromisso que tem abafado as divergências entre eles. Elas retornam recicladas. começam a ressurgir. aqui. depois de tantos anos contida nos aparelhos da Administração. fazendo ouvidos moucos ao canto de sereia que. desde o primeiro governo Vargas. tende a dissolver o pragmatismo de alianças sem princípio. a da questão agrária e a da nacional. que não estão soltas de representação e de vínculos com a sociedade civil. Mascarada pela política de falsa união nacional. No caso. As concepções e projetos de sociedade que se confrontam. até então surdos.375 Com as tensões originárias da diversidade dessas matrizes intelectuais. Os argumentos contrastantes têm história e muitos dos personagens que os vocalizam estão marcados por ela. que se divisa no horizonte de uma sucessão sem Lula. mas apenas o que se adapta a eles. dos militares. o desvendamento livre dos conflitos. que conduziu a tudo e a quase todos para um compromisso sem programa no interior do Estado. limadas pelo tempo. insistirá nos encantos da “guerra de . o que pode trazer de volta para a sociedade o mundo da política como lugar de encontro entre os ideais e os interesses. não há farsa em continuar a viver a mesma história. Não se trata de vestir a roupagem do passado porque.

a serem mobilizadas em torno das instituições e procedimentos da democracia política. .376 movimentos”. 26 de março de 2008. bem como fazendo da história uma matéria-prima para a invenção e não um simples acervo de práticas a serem repetidas. Rio de Janeiro. e aplicar-se a traduzir o nacional para a linguagem das grandes maiorias.

ao lado de gestões financeira e fiscal ortodoxas — ecos do ideário que gerou o trabalhismo brasileiro. Há ainda a desmobilização social. diz. diz que o Brasil vive um “Estado Novo do PT”. com um chefe de Executivo carismático a mediar interesses conflitantes. “Está bom ficar lá dentro. com a volta a um certo nacional-desenvolvimentismo. pela necessidade (e dificuldade) de conciliar interesses em luta em seu interior. em tom algo irônico. mantém os setores antagônicos unidos no Estado. “É uma metáfora. O pesquisador descreve algumas características que vê no “Estado Novo petista”. fortalecido pela crescente centralização do Estado. Uma é a lentidão para decidir. diz. tende a se quebrar na sucessão em 2010. o Conselho de . A popularidade de Lula. seria reforçada pela desmoralização do Legislativo causada pelos sucessivos escândalos. a tendência ao esvaziamento da democracia. (Wilson Tosta) O sr. do Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj). batiza a formação: Estado Novo do PT.377 País vive “Estado Novo do PT” Luiz Werneck Vianna . Outra. opina.” Mas a formação. com a formação de uma ampla clientela com programas como o Bolsa-Família.Agosto 2007 Um governo que absorve as representações corporativas de trabalhadores e empresários. mas é mais do que uma metáfora”. Qualquer semelhança da administração comandada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945) não é mera coincidência para o cientista político Luiz Jorge Werneck Vianna. O que é isso? O que a gente vem observando é o uso de recursos políticos que tiveram muita presença em décadas passadas. Com uma possibilidade: a de as corporações exigirem que o presidente continue. evidenciada na crise aérea. Sintoma: a representação profissional. Ele vê na forma como Lula age na política e na economia — nesta. E.

viu? É um processo . Mas não é exagero comparar o atual governo com a ditadura do Estado Novo? Eu não disse que há uma reiteração. Qual foi a operação que o Estado Novo getuliano fez? Exatamente esta: tudo o que era vivo na sociedade ele trouxe para si... Outro sintoma: a presença na própria estrutura ministerial de representação das corporações. Além do mais. estamos passando por um processo de centralização muito forte no Brasil. É o agronegócio. Não é que ele tenha sido indicado pela corporação dele. está representada através de suas corporações. estamos encontrando plena confirmação entre nós. é de Alexis de Tocqueville.. O parlamento está esvaziado. para falar por ela. que é a forma através da qual este sistema se acopla à representação.378 Desenvolvimento Econômico e Social. em A democracia na América. só vê Executivo.. exatamente. lá da Agricultura. A centralização está agora associada a pressões democratizantes. Trouxe para si e. Tende a. O senhor acha que isso esvazia a democracia? Tende a. Isso não tem nada a ver com este governo. Dessa hipótese. Mais um exemplo: a Força Nacional de Segurança. Esse diagnóstico é clássico.. Tal como agora. Porque é o Estado que vai aos partidos e seleciona os próceres que vão fazer parte dele. Para onde você olha. era um nome de consenso na corporação que foi indicado. Ela não está representada politicamente. Ele dizia que a democratização da vida social conduziria ao despotismo burocrático. ainda incentiva isso. Mas esse parlamento assim vulnerável interessa ao Executivo. Não que a sociedade não esteja representada. O presidencialismo de coalizão. A presença da CUT e de outras centrais também. que leva ao crescente reforço do Estado. O ministro Furlan. que é uma representação de corporações. formula políticas para a sociedade. O Conselho Nacional de Justiça. Inclusive porque vivemos num regime democrático. O Rodrigues. de cima. Exemplo? O SUS? Entre tantos.. Porque o Executivo absorve todas as forças vivas da sociedade.

. como no populismo? Tento qualificar como um Estado de compromisso. O atual Estado trabalha como árbitro. pode? Mudança é contrariar interesses. que veio pela esquerda. porque todos tinham que ser minimamente contemplados. não pode ter esse modelo. decapitou os seus adversários. alguma coisa tinha que ser feita. Agora. Meirelles e tutti quanti. Isso não leva à paralisia? Temos uma crise aérea há 10 meses. Então. Lula foi eleito em 2002 com forte sentimento de mudança. Meirelles no Banco Central. se o objetivo é mudança.. Agora. Outro exemplo de demora: a nomeação de Luiz Paulo Conde para Furnas agora. O que era para ser contingente foi se tornando permanente. A preservação desse equilíbrio leva a uma certa falta de agilidade na tomada de decisão. importaria no governo mobilizando a população em sua defesa. Mas é isso. isso significou o quê? Este governo do PT. de composição. incorporando as suas práticas. A opção foi a do equilíbrio. Em que o presidente da República. acima das classes. de outro lado.. E isso. Esse foi o quadro que o partido do governo e o presidente quiseram evitar. segundo suas próprias palavras já ditas na televisão. com aquele que tinha sido derrotado. A situação já era desastrada. mas nada podia ser feito. O caminho foi governar com o outro.. Porque tem que compor muitos interesses. a estrutura Meirelles. se ele não assumisse tanto o modelo do Estado Novo. . Equilíbrio para quê? O caminho de mudanças efetivas significava aproximar o País da forma das revoluções. Sob esse ponto de vista. Ou teria jeito.379 que já vinha do governo Fernando Henrique e tem a ver com demandas por democratização. deixa que os dissídios internos amadureçam e no final arbitra e decide. Não tem jeito. o governo Lula fracassou. se fosse um governo que assumisse riscos.

o que você tem hoje no País é uma clientela inumerável. Agora. O que dá para prever? Esse equilíbrio só é possível a partir da atuação do Lula. esse equilíbrio vai ficar insuportável. Nem o carisma do Lula vai segurar. Então. Essa combinação heteróclita foi constitutiva do Estado Novo. Agora. a área social do governo. para segurar essa colcha. carisma. o Stédile tem os seus rompantes. foram readaptados. Por isso.. uma certa forma de conceber a política no Brasil.. sabendo que. modelos anteriores. porque é o cenário em que Palocci. mas mais que uma metáfora. A sociedade está desmobilizada e desorganizada. Alguns recursos. na verdade. o Bolsa-Família. Na medida em que todos começarem a fazer isso. O PAC seria uma tentativa de retomada do nacional-desenvolvimentismo? E num cenário muito desfavorável. trazendo força da sociedade. alguns instrumentos de governo. cada um já procura jogar por fora do marco do Estado. vale a pena evocar formas anteriores. É uma metáfora. Mas de qualquer forma essas duas pontas podem conviver. Então. Ele tem força. mas fica. com o tema do justo. Daí que o inventário de idéias e práticas do Estado Novo se tornou muito útil para ser recuperado. O pessoal do agronegócio tem lá seus problemas com os sem-terra. pode conseguir margem de manobra maior. longe do cenário de um governo de esquerda que mobiliza e organiza a sociedade. Meirelles e tutti quanti já tomaram conta há muito tempo. são todos programas estatalizados. Essa federação é boa para todos. porque está bom ficar lá dentro. este Haddad na Educação. Temporão na Saúde. A esquerda também foi contemplada. Quando isso vai acontecer? . como o do Estado Novo.380 Isso explica a paralisia do PSDB? O PSDB ficou morto. Bateram-lhe a carteira da estabilização monetária. mas continua parte do governo.

entender as exigências de uma vida pública mais assentada. não? É como se estivessem defendendo um governo de estilo soviético até as últimas conseqüências. . A forma é importante. Inclusive a substância. Engraçado. eu não aceito. É isso. Só se pensa na substância. de padrões éticos maiores na população. não saia. como as coisas estão aparecendo hoje. vive. pelos sindicatos.. todos esses envolvidos e mais a vocalização das massas digam: Lula. nunca se pensa na forma.381 Na medida em que formos chegando perto das eleições. corre. como um moralismo UDN dos anos 50. pelos partidos políticos. Qual é o risco de toda essa situação? É que. Há quem diga no PT que o governo não tem projeto de mudança.. a forma democrática é importante. no chefe da Nação. mas de poder. que vai ser um inferno. no que há de mais seiva nela. Agora. no que tem de mais relevante. chegando a 2010. E não por esta representação encarnada no chefe do Executivo. Mas o Lula não é mais o PT.

Dilma Rousseff e Luciano Coutinho. com a cultura da soja. menos que de ruptura o passado é mais objeto de negociação. sobretudo. tem sido agora que se vê conduzido por um projeto pluriclassista e com a definida intenção de favorecer uma reconciliação política com a história do país. estão aí a revalorização da questão nacional. da qual é ícone institucional a criação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). que converteu Celso Furtado em um dos seus principais ícones. inclusive os cúlaques que começaram sua história na pequena e média propriedades. o tema do planejamento na economia. com sua interpelação positiva do passado. adquire. como José de Alencar.Julho 2007 A crer nos indicadores dos dois períodos presidenciais de Fernando Henrique. do Estado como agente indutor do desenvolvimento. Contudo. mais homogênea em sua composição de interesses e decididamente refratária ao que entendia ser o legado patrimonial da nossa herança republicana.382 O Estado Novo do PT Luiz Werneck Vianna . o capitalismo brasileiro encontrou um caminho de expansão e de intensificação da sua experiência. Se. as lideranças das múltiplas frações da burguesia brasileira — a industrial. lado a lado com o sindicalismo das grandes centrais sindicais e com a representação dos intelectuais do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). De outra parte. no seu cerne. em especial no que se refere à dimensão da economia — marca da tradição republicana brasileira —. e em que ressoam linguagens e temas do chamado período nacional-desenvolvimentista em personagens destacados da sua administração. mas. a ruptura com o passado fazia parte de um bordão comum ao PSDB e ao PT — o fim da Era Vargas —. contrariamente à administração anterior. a agrária. representa as forças expansivas no mercado. sob o governo Lula. uma certa autonomia quanto a elas. naturalmente avessas à primazia do público. antes. todos em posições-chave. Assim. o governo que. guindadas a Ministérios estratégicos. atingiram o reino do grande capital — . a retomada do papel político da representação funcional. neste governo Lula. Com efeito. e que. a comercial. das quais não provém e não lhe asseguram escoras políticas e . a financeira. estão aí. a partir do mandato de Lula.

A afirmação da representação funcional como forma de articulação de interesses. se o Estado traz para si grupos de interesses com outra orientação. se erige em “patrão” delas para melhor realizar os seus interesses. Longe do caso clássico em que o Estado. e decididas. portadores de concepções e interesses opostos em disputas abertas na sociedade civil. portanto. Contorna-se. em última instância. reforça ainda mais as possibilidades de ultrapassagem da representação política. À falta de consenso. agência criada nos começos do primeiro mandato. o parlamento real e o sistema de partidos na composição dos interesses em litígio. no curso do qual não desempenhou papel relevante. a autonomia diante do núcleo duro das elites políticas e sociais que nele se acham presentes. frações de classes. quando couber. delibera-se sobre políticas e se decide sobre sua execução. agora. onde todos se fazem representar. é mais um indicador da intenção de se despolitizar a resolução dos conflitos em favor da negociação entre grupos de interesses. pelo chefe do poder executivo. salvo por meios indiretos. no interior das suas agências. diante da abdicação política das classes dominantes. Com essa operação. segmentos sociais têm voz e oportunidade no processo de deliberação das políticas que diretamente os afetam. sob a arbitragem do Estado. um outro lugar para a expressão do seu dissídio. em fase legislativa. mas que. . em uma forma de Estado de compromisso. para um governo originário da esquerda. o presidente arbitra e decide.383 sociais confiáveis. A criação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. cujas pretensões são arbitradas no seu interior. que somente irão examinar da sua conveniência. parece destinada a cumprir de fato as funções de câmara corporativa a mediar as relações entre o Estado e a sociedade civil organizada. Nesse parlamento. pois. Pois. A composição pluriclassista do governo se traduz. MST. respaldadas pelas poderosas agências da sociedade civil a elas vinculadas. encontram no Estado. somente pode existir. Capitalistas do agronegócio. a forma particular desse Estado de compromisso se exprime na criação. a formação da vontade na esfera pública não tem como conhecer. a opinião que se forma na sociedade civil. abrigando forças sociais contraditórias entre si — em boa parte estranhas ou independentes dos partidos políticos —. empresários e sindicalistas. de um parlamento paralelo onde classes. e as decisões tendem a se conformar por razões tecnocráticas.

Tudo que é vivo gira e gravita em torno dele.384 Com esse movimento. tida como ameaçada pelos impulsos separatistas do poder local no período da Regência. nos postos de comando na máquina governamental. uma vez que. o chefe do Estado. não somente amplia a autonomia do governo quanto às partes heterogêneas que o compõem. Boa parte das Organizações Não-Governamentais (ONGs) são dele dependentes e sequer lhe escapam os setores excluídos. pela lógica vigente de presidencialismo de coalizão. justificada à época pela necessidade de preservar a unidade nacional. os quais incorpora por meio de programas de assistência social. com o que se mantém capilarmente articulado à sua sociedade. pois. difusamente distribuídos no território do país. desde o publicista Tavares Bastos no Império. a bibliografia brasileira. o Estado avoca a sociedade civil para si. Com razão. ademais reforçada por sua capacidade constitucional de legislar por meio de medidas provisórias. de espírito federativo e descentralizador. em que pese a Carta de 1988. Tornam-se partidos de Estado. Essa associação foi confirmada . A representação funcional lhe é. que acolhe representantes das principais corporações da sociedade civil. A ela se agregam. associa a opção pela centralização administrativa à natureza autoritária do nosso sistema político. constitutiva. a sua prática se limita ao exercício solitário do vértice do presidencialismo de coalizão. os quadros extraídos da representação política. Contudo. distantes das demandas que nela se originam. Nesse ambiente fechado à circulação da política. inclusive movimentos sociais como os de gênero e os de etnias. Tal couraça de que se reveste o Executivo se acha qualificada pelos notórios avanços da centralização administrativa nos marcos institucionais do país. O governo. gravitando em torno dele e contando com seus recursos de poder para sua reprodução nas competições eleitorais. A dupla representação — a política e a funcional —. ainda se vincula formalmente a elas pelo CDES. os partidos políticos no governo passam a viver uma dinâmica que afrouxa seus nexos orgânicos com a sociedade civil. como cria condições para o seu insulamento político quanto à esfera pública. a formação de uma vontade majoritária no Congresso é dependente da partilha entre os aliados de posições ministeriais. operando ambas à base de movimentos de cooptação realizados pelo Executivo. As múltiplas correias de transmissão entre Estado e sociedade funcionam em um único sentido: de cima para baixo. como o bolsa-família.

subordinada ao Ministério da Justiça e com sede operacional na Capital Federal. até então desconhecida entre nós. tem privilegiado a União sobre a Federação. de vértice do Poder Judiciário. nessa estrita dimensão. que culminou com a democratização do país. que se fizeram presentes. originários das justiças estaduais. nessa última década. com a introdução da súmula com efeito vinculante. têm conduzido. o princípio da primazia das decisões dos vértices do Poder Judiciário sobre os juízes singulares. A ação do Ministério Público participa do mesmo movimento. ao controle da administração do sistema da Justiça. em especial no controle que exerce. presidido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal. como as da agenda da saúde. privatizados os seus antigos e poderosos bancos. que. à centralização do seu planejamento e ao controle da sua execução. sobre as leis estaduais.385 pelos dois longos períodos ditatoriais do regime republicano — o de 1937-45 e o de 1964-85 —. Desde aí se vem confirmando o diagnóstico clássico de que a centralização administrativa também pode ser filha da democracia. em nome da busca dos fins da modernização econômica. educação e segurança. De outra parte. extremaram a centralização administrativa e a prevalência da União sobre a Federação. foram obstados de emitir dívidas. destinando-se esse Conselho. e a Polícia Federal cada vez mais se comporta como a suprema guardiã de todo o aparato civil de segurança. dotado do poder de estabelecer sanções sobre tribunais e juízes. atualizou as demandas pela descentralização e pela afirmação do poder local. em sua maioria. assim elevado à posição. Centralização que. está associado à crescente democratização social e às necessidades de racionalização da . federais e estaduais. A reação ao autoritarismo político. sobretudo os estados. ao contrário de períodos anteriores. na busca da eficácia e da racionalização das suas ações. Na mesma direção. que. ainda se reforça com a recente criação de uma força de segurança nacional. Registro forte a confirmar a intensidade e a abrangência do atual processo de centralização está indicado na criação do Conselho Nacional de Justiça. como é sabido. a política tributária. As crescentes demandas por políticas públicas orientadas por critérios de justiça social. Tem-se daí que o novo curso da centralização. no texto constitucional de 1988. em nome da racionalização. pela via das ações diretas de inconstitucionalidade. consagrou-se.

Aí. os ecos da Era Vargas e do Estado Novo. Elo perdido a sistemática denúncia do populismo e das alianças políticas entre partidos representativos de trabalhadores com os de outra extração. cada vez mais apartidário. Sob essa formatação. decerto que ajustados à nova circunstância da democracia brasileira. em que se quer apresentar o Estado como agência não só mais moderna que sua sociedade. pretendem que ele se torne mais justo que ela. inclusive a do Judiciário e do sistema de segurança pública. alçado a essa posição na condição de presidente da CUT —. assim como desvanecidos os outrora fortes vínculos com a obra de interpretação do país que se aplicava em assinalar a necessidade de uma ruptura com aquela tradição — Sérgio Buarque de Hollanda. em que se faz uso instrumental das instituições da democracia representativa. cujos antagonismos harmoniza. do discurso dos tempos de origem e de confirmação do PT como partido relevante na cena contemporânea. portanto. o que se tem é uma grossa linha de continuidade com a política da tradição brasileira. Se o Estado pretendeu. que dela derivam. como Gustavo Capanema. uma vez que decorre da ação das elites ilustradas. nos idos do Estado Novo. as principais referências. em que elites dirigentes de corporações integram o comando da política econômica. que toma corpo com a vitória do PT. Nada. Também aí um presidente da República carismático. sob a iniciativa das suas elites intelectuais. Florestan Fernandes e Raymundo Faoro eram. em que as centrais sindicais tomam assento no governo. . selecionadas à margem dos interesses sistêmicos e das corporações que os representam. sobretudo.386 administração. Francisco Campos. detendo sobre eles poder de arbitragem. e. prescinde da participação dos cidadãos. Mas esse movimento — por sua própria natureza — atua de cima para baixo. elites que encontram no governo a oportunidade de realização das suas agendas de democratização social. ser mais moderno que sua sociedade. Agamenon Magalhães. as elites desse novo Estado. móvel normativo que presidiu sua formação nos movimentos de resistência ao regime militar. em que se valoriza a representação funcional — caso conspícuo o ministro do Trabalho. então. em que se reforçam os meios da centralização administrativa. único ponto de equilíbrio em um sistema de governo que encontrou sua forma de ser na reunião de contrários. como também mais justa que ela. e em que somente ele merece a confiança da população. acima das classes e dos seus interesses imediatos. entre tantos.

a reação a esse programa veio sob a forma de uma rebelião do mercado.387 Se. depois de oito anos de governo FHC. Nessa chave. quando reclamou delas que. abdicar do seu programa e das veleidades revolucionárias de amplos setores do seu partido e de se pôr em linha de continuidade com a política econômico-financeira do governo anterior. levada a efeito pelo partido às vésperas de assumir o poder. que não só levara o país a debelar a crônica inflação brasileira e rebaixara dramaticamente. pela recusa a um modelo de simplificação do Estado. levassem em conta o interesse nacional. o de uma esquerda brasileira clássica. em clara inclinação favorável às forças de mercado. como se sabe. conceitua-se o próprio desenvolvimento do capitalismo no país e sua inscrição no chamado processo de globalização como processos a serem subsumidos ao interesse nacional. como tal. no começo da sua trajetória. cuja representação tem sede no seu Estado. de que o descontrole no preço do dólar foi apenas um indicador. o melhor repertório se encontra em nossa tradição republicana. e. mais clara à medida que o governo . foi a de ceder à contingência. o que importou uma aproximação. instituindo o Estado como um lugar de condomínio aberto a todas as classes e principais grupos de interesses. na pretensão de conformá-la a partir de baixo em torno dos interesses e valores dos trabalhadores — a parte recriando uma nova totalidade à sua imagem e semelhança —. a presença do Estado na economia. tentar realizá-lo. a reconciliação com ela. A inovação viria da política. que preponderava no governo anterior. nos seus primeiros dias de governo. O programa do PT era. sob consenso geral das elites econômicas. De fato. conduziu-o aos trilhos comuns da política brasileira. Ainda no período eleitoral. para uma orientação desse tipo. com suas variações. A opção do governo recém-eleito. em marcante discurso às lideranças sindicais. ponto enunciado claramente pelo próprio presidente da República. continha in nuce as possibilidades de se inscrever o país na lógica das revoluções. em suas reivindicações. A totalidade adquire precedência sobre os interesses das partes. Mas essa opção não foi feita a frio. Nesse sentido. o PT se apresentava como portador da proposta de um novo começo para história do país. Em segundo. Em primeiro lugar. se orientava no sentido de preconizar reformas estruturais que permitissem dirigir os rumos da economia para as necessidades da sua população e favorecer um desenvolvimento auto-sustentado das forças produtivas nacionais.

no terreno da sociedade civil. a da reforma política e a da legislação sindical e trabalhista. ao menos no plano simbólico — isso mais no caso do MST —. reencontrando-se com o . Começadas as grandes mudanças estruturais. aí incluído o MST. desde a primeira vitória eleitoral. até com independência da consciência dos atores sobre sua circunstância. em torno de questões que vão da propriedade da terra ao uso de transgênicos na agricultura. Esse Estado não quer se apresentar como o lugar da representação de um interesse em detrimento de outro. de procurar conciliar pragmaticamente as controvérsias que os opõem. as forças da antítese não quiseram assumir os riscos da sua vitória. com idênticas conseqüências. da legislação trabalhista e da sindical. não têm impedido a permanência dos seus representantes no governo. de que se estava no limiar de uma revolução. como a tributária. salvo em matérias tópicas. Nesse contexto hipotético. posições fortes na Administração. com temas da agenda da tradição republicana — o nacional-desenvolvimentismo de Dilma Rousseff e de Luciano Coutinho. em litígio aberto na sociedade civil no que se refere a questões previdenciárias. com sua carga potencialmente conflitiva. comporia o cenário mais dramático para o seu desdobramento. negocia e compõe com os interesses heterogêneos que convoca para seu interior. por exemplo — e com seu estilo de fazer política. Os duros e constantes conflitos que os envolvem. poderiam ameaçar a unidade de contrários que intenta administrar. a validade das suas pretensões. o front dos conflitos agrários. ambos ocupando. pelas suas representações. A rigor. seguir-se-ia o momento da mobilização popular e da sua contínua intensificação. sem dúvida. O caráter do governo como condomínio entre contrários encontra sua expressão paradigmática nas relações entre o capitalismo agrário e os trabalhadores do campo. A mesma relação. Prevalece a política. Essa a razão de fundo por que o governo evita a fórmula de poder decisionista e também se abstém de propor mudanças legislativas em matérias estratégicas. Pragmático. manobra com que se evadiu do caminho de rupturas continuadas aberto à sua frente. A forma benigna com que a esquerda chegou ao poder — a via eleitoral — não tinha como escamotear. legitimando.388 aprofundava sua experiência. que. se reitera no caso das lideranças empresariais e sindicais com assento em ministérios. mas de todos os interesses.

quase todos presentes no governo. e se fazem objetos passivos das políticas públicas. pois. Os setores subalternos não são mobilizados. incorporam à malha governamental lideranças de movimentos sociais. anuência tácita com a herança recebida dos neoliberais da administração econômica do governo FHC. Mas será dele o controle da máquina governamental e o comando sobre as transformações moleculares constitutivas à fórmula do conservar-mudando. retidos nessas suas posições. em muitos casos. pela ação combinada dos movimentos sociais com a sua representação no governo. ao menos até agora. Invertem-se. aciona os freios a fim de deter o movimento das forças da revolução. Exemplar disso o fato de que a agenda de reformas — a tributária. não são as forças da conservação que se encontram na posição de mando político legítimo. demonstrando. nessa dimensão. São as forças da antítese que se apropriam do programa das forças da tese. o programa dele. mais uma vez. sob seu controle. . Mas a inversão da lógica da revolução passiva não obedece à mesma pauta da sua forma canônica. aos quais destina a direção dos rumos sistêmicos em matéria econômico-financeira. que essas forças compreendem como necessárias à estabilização e ao aprofundamento do capitalismo brasileiro. os termos da revolução passiva clássica: é o elemento de extração jacobina quem. o desenlace de 2002 não foi o de uma contra-revolução. barradas. decapita o seu antagonista. apartando-as de suas bases. para a área das políticas públicas aplicadas ao social. Não havia contradição a ser superada. aderem ao andamento passivo e se deixam estatalizar. não venha encontrando passagem para sua implementação.389 adversário que acabaram de derrotar. porém. Nessa sua forma bizarra. Decididamente. fundamentalmente. comprometendo-se a realizar. restaura o seu andamento. a da previdência e a da legislação sindical e trabalhista —. O ator definha. e coopta muitos dos seus quadros. contra as quais tinham construído sua identidade. direcionadas. Os partidos de esquerda e os movimentos sociais institucionalizados. abdicando de apresentarem rumos alternativos para o desenvolvimento. e os protagonistas são. A dialética sem síntese da tradição política brasileira. os fatos. com plenos recursos para administrarem a fórmula do conservar-mudando. não contando. por assim dizer. que. no governo.

E mais. a construção tem prazo de validade: o fim do mandato presidencial em 2010. um partido integrante do governo. fração de classe ou grupamento de interesse. como o Parlamento. . com a CUT. deverá se confirmar quando as campanhas eleitorais — a primeira.390 Assim. nesses cinco anos de governo em condomínio. presente na coalizão governamental. no mundo sindical. ameaça virtual ao estado novo do PT. Tal arregimentação. Mas já se faz sentir. persistem papéis para um ator que. que a melhor forma de vencer — ou de não perder tudo — está em sua capacidade de arregimentar forças na sociedade civil. e. em nome de uma ação sindical mais reivindicadora. A esquerda tem como alvo principal a administração do Banco Central. cuja coesão depende unicamente do prestígio popular do seu chefe. dependa tanto da intervenção carismática do ator. começam a procurar formas próprias de expressão. invista na mudança. Os antagonismos. Tal tendência. aprendeu. em particular na ação de resistência a políticas públicas que lhe sejam adversas e na democratização da dimensão do social. A sua fragilidade conspira contra a sua permanência. pode-se mais mudar que conservar. blindado às intervenções originárias de territórios estranhos aos seus. que é. frágil construção. com o anúncio de rompimento do PCdoB. por sua vez. com a contestação do MST à política do agronegócio do etanol. Eventualmente. Daí que. a política em curso. e na margem. o Estado de compromisso que procura equilibrá-los é um lugar de permanente tensão. a direita encontrou o seu na presença do PMDB na coalizão política que sustenta o governo. em 2008 — vierem a reanimar a agenda contenciosa das reformas institucionais (a da previdência à frente). por lição vivida. cujo programa parece limitar-se à adaptação à sua circunstância. repercute no interior do governo e dificulta o processo de composição dos interesses contraditórios em que se acha empenhado permanentemente. no mundo agrário. o cimento dessa. sem a qual ele perde força no Congresso e na sociedade. entre tantos sinais. à medida que essa data já se põe no horizonte. além de bizarra. afinal. mesmo sob o império dos fatos. caixa-preta da política econômico-financeira do país. Cada classe. em um cenário com partidos em ruínas e instituições políticas. Com os antagonismos sociais importados da sociedade para o seu interior. desacreditadas pela população. contraditoriamente. nos seus litígios no interior da máquina governamental. desde que não atinja a região estratégica do mundo sistêmico.

sempre na defesa da sua autonomia. favorecer alianças. fonte originária da corrupção no país. em particular quando se tornar inevitável. a política pode se tornar um lugar vazio. Rio. no contexto de uma sociedade civil desorganizada. Mas ela somente reunirá credenciais para tanto. da perspectiva de hoje. em particular nos seus setores subalternos. em torno de suas reivindicações. se. a ser denunciado como agência patrimonial. já visível o marco de 2010. em favor de um programa centrado no objetivo de destravar os entraves ao crescimento econômico e de promover a justiça social. for capaz de reanimar seus partidos. e do atual desprestígio de nossas instituições democráticas. Na eventualidade. 10 de julho de 2007. não se pode deixar de cogitar sobre as possibilidades de que o condomínio pluriclassista que nos governa venha a encontrar crescentes dificuldades para sua reprodução. com todos os partidos. brandindo seu programa de reformas institucionais. .391 De qualquer sorte. Impedir isso é a tarefa atual da esquerda. entre as quais a de simplificar ao máximo o papel do Estado. a perda da ação carismática do seu principal fiador e artífice. rompendo com o estatuto condominial vigente. ou vulnerável à emergência eleitoral da direita. e de estabelecer vínculos concretos com os movimentos sociais. E. nas eleições e fora delas. nostálgico do seu homem providencial. sem preconceitos. associações e personalidades de adesão democrática. na hora da sucessão presidencial. aí compreendido o PT.

] contemplem os primeiros exemplos que cheguem ao olhar dela. enfim. Decifradas as circunstâncias de origem. [. influenciam. “o germe do que deve seguir e a chave de quase toda a obra” (Id. pois.Outubro 2006 Os mortos não governam os vivos. É conhecida a analogia entre a história dos indivíduos e a das nações a que Tocqueville recorre para ilustrar o seu argumento sobre a singularidade americana. em meados da terceira década do século XIX. O homem está. o texto conclui: “algo análogo acontece no caso das nações. examinem a criança até nos braços da mãe. então. 37). mas que influenciam. um ponto de partida afortunado: os emigrantes falavam a mesma língua e eram portadores de uma cultura comum. nosso autor recomenda o conhecimento do seu ponto de partida. eu poderia dizer. e manifestavam a crença no dogma da soberania do povo. um só acontecimento. 2. os hábitos e as paixões que vão dominar sua vida. As circunstâncias que acompanham seu nascimento e serviram para seu desenvolvimento influem sobre todo o resto de sua carreira” (Democracia na América. nas 18 breves páginas do capítulo 2 da primeira parte. inteiro nos cueiros do seu berço”. Com esse ponto de partida feliz.. São Paulo: Martins Fontes.. por assim dizer. 35 e 36. linhas retas e voltas redondas Luiz Werneck Vianna . tinha.. nosso autor vai até poder sustentar que nela “não há uma só opinião. 37). dois elementos — o espírito de religião e o espírito de liberdade — que. A vasta narrativa sobre a democracia na América encontraria. Para a compreensão de ambos. Lembro a passagem: [diante de um adulto] “voltem atrás. .392 Ziguezagues.. compreenderão de onde vêm os preconceitos. provinham da experiência do governo comunal em seu país de origem. 2001). assistam. p. Os povos sempre se ressentem de suas origens. em geral. À frente. as primeiras lutas que ela precisa travar — somente. a seu juízo. quando considera a América que tem diante de si. levam os povos à discórdia e à guerra civil. e. que o ponto de partida não explique sem dificuldade” (Id. a história se faria transparente. p. cap. A sociedade estudada por Tocqueville. p. um só hábito. uma lei. se combinariam em harmonia. Livro I. primeira parte. ouçam as primeiras palavras que nela despertam os poderes adormecidos do pensamento.

poderiam favorecer uma saída especificamente russa. tão caras aos populistas. essas concepções foram duramente criticadas pela socialdemocracia russa. em um salto sobre o estágio capitalista em direção ao socialismo. qualquer delas desloque inteiramente a outra. o baú dos mortos foi aberto e o que era para ser — e vinha sendo — uma burocrática e enfadonha competição política . nas décadas seguintes. reinterpretada. para efeitos de uma parábola. chegou a admitir a possibilidade de que essa categoria social viesse a exercer o papel do burguês radical na revolução do seu país. Tome-se o caso russo como referência de uma passagem ao moderno em que se confrontam duas matrizes rivais a partir da segunda década do século XIX. é de observação trivial. evitando-se assim os horrores descritos na parte sétima de O capital. regidos pelas relações comunitárias em suas aldeias. ninguém duvida. mais pelo resultado de ênfases retóricas mal calculadas. uma singularidade na medida em que o campesinato e seu artesanato. menos pela intenção dos atores envolvidos. Como é sabido. O mesmo Lenin. se uma predominar em um dado momento. então. pode estar presidida pela disputa entre matrizes rivais. em um texto famoso de 1907. e a revolução de 17. e que me serve. ou. se ver compelida a admitir um elemento seu de maior ou menor relevância. nesse processo. Na Rússia de hoje. A passagem para o moderno. ou. na última década do século. aqui. Sugiro que. roupagem nova do velho populismo de alma eslava. Para a corrente eslavófila. com Lenin. a história segue seu ziguezague. pode ser sucedida mais à frente por aquela que destronou. não a regra. com o liberalismo russo mal encobrindo o seu Estado de estilo grão-russo. feita em nome dos ideais revolucionários do Ocidente. a radical exceção. a da eslavofilia e a dos ocidentalistas. somente se tornou um projeto realizável quando se incorporou a ela o programa agrário dos socialistas revolucionários. que imprimiu nova vida às formulações ocidentalistas. a formação social russa exprimiria. contrapondo uma via americana para o mundo agrário russo às idealizações românticas do camponês e da sua vida comunitária. por seus herdeiros populistas. em seu processo de modernização.393 Mas a linha reta que orientou Tocqueville para o estudo da transição ao moderno no caso americano. é. sem que. A história subseqüente ignorou a linha reta na evolução do campesinato russo. na presente sucessão brasileira.

Em meio à crise dos anos 20. já se tornou uma controvérsia relevante. não se poderia governar. Não era. não saem de cena. a sua plena hora. Sintomaticamente. uma revolução nacional-libertadora. com ele. Até lembranças de simples jingles do passado. parece insinuar que o papel das origens no destino das nações teria descoberto. a partir desses dois adversários dela — o PT e o PSDB —. Somos ibéricos e americanos. e não fosse um acidente da zoologia — uma disciplina chave para a compreensão das monarquias. talvez contassem com melhor sorte. mas que se encontram. o da tradição republicana brasileira. porém. e terão uma presença animada na Regência. com a República e com a obra de um americano convicto. Voltarão. pelo menos. podia-se chegar à América da cultura material e de suas instituições . levando-se em conta uma recomendação de Marx —. não se podendo esquecer que a floração de americanos no Brasil. antes da revolução passiva da Independência. com os temas da era Vargas — recordar que o candidato do PSDB não se comprometeu com as teses da privatização e assumiu um estilo desenvolvimentista —. “o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar”. embora nada dramática. a máscara mortuária do “pai dos pobres”. e. ecoam no “deixa o homem trabalhar”. no plano do discurso. uma vez que o imperador nos deixou um herdeiro. está aí aberto o inventário da era Vargas. vai-se perdendo a crença de que. Retorno anacrônico à Ibéria. alguém poderia dizer. sobre a natureza do nosso processo de modernização e de como levá-lo adiante. as evocações de uma relação direta entre o chefe de Estado e a massa do povo. do final dos anos 1940. uma que deu seqüência à política macroeconômica de inspiração neoliberal da outra. por mais uma dessas astúcias da razão. a Carta de 1891. pelo arsenal de recursos do liberalismo. tramava. de hoje. e a política dos governadores nos devolve ao Poder Moderador ibérico. porque com aquele “papel”. bem longe do anacronismo. Estão aí o papel do Estado e de suas empresas no desenvolvimento econômico. sem êxito.394 com temas mais vizinhos de eleições municipais. no plano simbólico. Derrotados. que surgem na história com a crítica corrosiva ao nacional-desenvolvimentismo e do que seria a natureza perversa do patrimonialismo brasileiro? O retrato atual das duas candidaturas em confronto. contudo. uma oportunidade para se manifestar. e.

porém. 1975. é a melhor metáfora de uma história que tem horror à linha reta. para o que removeu os obstáculos sociais e políticos que a travavam. como mistificação não foi o Império. os liberais. fazendo do público um lugar de promoção dos valores de mercado. como São Petersburgo. ao sindicalismo organizado dos centros urbanos. As duas matrizes rivais voltam a se confrontar na Constituinte — a da Ibéria. Suas bases permanentes que os interregnos de 1889-30 e de 34-37 apenas dissimulam — dissimulam porque neles vigem as vigas mestras da estrutura —. na ordem estatal centralizada” (Os donos do poder. mas sem deixar de atrair os americanos no seu front cultural. sem subscrever todos os seus termos. E foi assim que a revolução de uma Aliança Liberal em pouco tempo se reencontra com a Ibéria. o papel do Estado como lugar-chave da sua estratégia de modernização capitalista e como instrumento da ideologia de grandeza nacional. cada qual recorreu a um tertius: a Ibéria. 75).395 cívicas. e. Disputa dramatizada nas lutas pelo petróleo é nosso. especialmente após o AI-5. no movimento que levou ao golpe militar de 1964. 2. de outro. primeiro após a renúncia de Jânio Quadros. traduzem a realidade patrimonialista. concedeu centralidade ao projeto de expansão privada da acumulação capitalista. elementos intrínsecos às duas matrizes: de um lado. e. uma cidade. A solução de 1964 superou ambas. pelos caminhos da cooptação. aos militares. que cito. os anos seguintes serão os da cada vez mais acirrada disputa entre seus pressupostos e concepções acerca dos caminhos sobre a modernização do país: capitalismo de Estado ou capitalismo de mercado. Diante do impasse entre elas. mas conservou delas. no seu modelo de capitalismo autoritário. Francisco Campos e Agamenon Magalhães. p. governando com seus quadros mais conspícuos. desde o segundo mandato de Vargas. criada pelas mãos do Estado a fim de impor à sociedade uma ida ao Oeste que ela se recusava a fazer. Reconfigurada a Ibéria em 1945. A “viagem redonda” de Raymundo Faoro. articulando a Ibéria do Império à de Vargas dos anos 30: “o regime de 1937-45 não se explica como mistificação da cúpula. como Oliveira Vianna. encorpado. finalmente. vol. na década seguinte. mais tarde. posta em ambígua convivência com a matriz liberal. Editora da USP. na criação de Brasília. já sob a formatação democrática que lhe foi imposta pelo movimento de resistência ao . pelos trabalhadores do campo.

No entanto. mais do que cultivar a expectativa de decidir. em particular quando os atores envolvidos interpretam mal as suas circunstâncias. vaticinada por gregos e baianos a ser resolvida em primeiro turno a seu favor. e não se deixava de ouvir algo do jargão desenvolvimentista. Contudo. a inflexão. demonstrava ter optado por um mix em que cada qual se fizesse presente. aqui e ali. no meio do caminho. desde a origem. por dois princípios contraditórios vivem expostas a soluções imprevistas. Mais uma roda do destino. gestava-se. De qualquer forma. o governo. e a agenda da Ibéria será inteiramente deslocada pelo Governo Collor. ao mesmo tempo em que se descobre. encontrará má sorte nos oito anos de FHC. por trás das fortes continuidades. viesse a replicar a mesma fala do seu famoso antecessor. em boa parte. traduz uma continuidade com elas. no campo da política social. que começa seu governo sob o lema de sepultar a era Vargas. em favor de uma das alternativas em presença. casos claros no setor da energia e da construção naval. quando o tempo lhe fosse oportuno. Nem era com eles que o Presidente contava para sua campanha à reeleição. uma reanimação do papel do Estado e da dimensão do público na condução estratégica da economia. “neutra” em relação a elas. novas e inéditas fontes para a legitimação política. Preserva-se a política macroeconômica do antecessor e se afrouxam os vínculos com o movimento social organizado. É fato que. e embora recupere algo do seu alento no breve hiato Itamar. embora sob hegemonia dos compromissos que lhe vinham da sua agenda macroeconômica. tais práticas e discursos não se apresentavam como dominantes. com um programa em que revê e atualiza. ao menos imediatamente neutras quanto às suas repercussões na política econômica em curso e quanto à mobilização social. na primeira sucessão presidencial após a democratização do país. antes com reparos dissonantes. ambas encontrando expressão no novo texto constitucional. nações animadas. Haveria . Assim. a herança da tradição republicana brasileira. Antonio Palocci. a que se devia acrescentar a sua política de assistência social. apontando para uma ruptura com as práticas e concepções anteriores. havia o imprevisto dos aloprados e da sua montanha de dinheiro. se as eleições de 2002 levam ao primeiro governo de esquerda da história do país. não tendo demorado muito para que o novo ministro da Fazenda. operada logo em seus primeiros atos. Mas.396 regime ditatorial —.

condições que não recomendam a abertura de uma frente de litígio com as elites social e economicamente dominantes. o crime da rua Tonelero. Getúlio. Dessa vez. Altamente improvável. mais ou menos aggiornata. a ver quem será o Palocci da vez e o próximo cúlaque na administração do capitalismo agrário brasileiro. os votos da Heloísa Helena e do PDT de Brizola. salvo mais outro imprevisto. dois governadores de estados estratégicos. a volta não será redonda. temas sensíveis mal resolvidos. como também pela herança que recebe dele: uma oposição acirrada. que mente ao insinuar que vivemos em tempos de antagonismos schmittianos inarredáveis. Tudo e todos personagens desse marketing insuportável dos e-mails. Quase certo — nessas circunstâncias de importância política ainda mais acrescida do STF — algum Nelson Jobim para o Ministério da Justiça. é claro. além dos reajustes pragmáticos. Um Meirelles deve ficar. e. logo nós. nessas eleições. eleitos pelo principal partido adversário. Ganhando quem ganhar. variando as circunstâncias. o revivalismo da era Vargas encontra a sua hora. deve ser Lula. Nessa comédia de erros. Decerto que com mais força em um do que no outro. e. um segundo mandato descontínuo ao primeiro. São Paulo e Minas Gerais. o público versus o privado.397 segundo turno e. que conviviam às turras na Constituição. e. se o “mercado”. nele. ele que ocupou a mesma função no governo FHC. a política macroeconômica será a que aí está. . A pachorrenta revolução passiva brasileira segue seu curso. em especial quando se considera o atual estado de letargia cívica dominante na vida social. não só pelo forte motivo de que a reeleição foi ganha pela ação combinada das três pontas do seu mix. no fundo. nem delirantes devaneios podem urdir a fantasia de que ele deve ser considerado perdedor. As duas matrizes. Gregório Fortunato e a República do Galeão. foram consagradas pelos dois candidatos. Lacerda. como. A tese subsumiu por inteiro o que deveriam ser as forças da antítese. inclusive a era Vargas. até sabem os especialistas da nova política dos e-mails. o major Rubem Vaz. Afinal. em que os mortos parecem se divertir com os vivos: a nação contra o imperialismo. são dessas regiões da administração que vêm os que efetivamente mandam. Não é o caso para este revival. não foi um grande eleitor. ambos já declarados postulantes à próxima sucessão. cidadãos desta aprazível República do Centro.

398 .

Esquerda Brasileira e Tradição Republicana (Revan. Leia trechos da entrevista em que Werneck Vianna discorre sobre os dilemas da sociedade e da vida política brasileira após o fim do regime militar e também sobre o futuro do país. A situação .Março 2006 Luiz Werneck Vianna destaca-se como um dos mais influentes cientistas políticos do país. Estudos da conjuntura Esse gênero deitou raízes entre nós desde o regime militar. na clandestinidade. reunindo seus estudos de conjuntura em uma série de livros que abordam todo o período de redemocratização. Professor do Iuperj e ex-presidente da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais). O livro surpreende não só por sua aguda capacidade de previsão mas. artigos de jornal e entrevistas que acompanham. Liberalismo e Sindicato no Brasil (ed. ancorada no conceito gramsciano de “revolução passiva”. de que é exemplo A Revolução Passiva (Revan. Sua obra desenvolveu-se como uma meditação sobre a modernização brasileira. Era imperativo compreender o terreno em que pisávamos. sobretudo. pelo poder explicativo de sua interpretação do país. em permanente diálogo com os clássicos de interpretação do Brasil. 2006) insere-se nessa linhagem. escondido na casa de Paulo Pontes e Bibi Ferreira. (Ricardo Musse) 1. Militante do PCB durante o regime militar. UFMG). Os intelectuais de esquerda fizeram da análise de conjuntura uma atividade recorrente. Werneck Vianna nunca deixou de intervir no debate político. Trata-se de uma coletânea de ensaios. até mesmo como exercício de sobrevivência. no calor da hora. em 1975. escreveu seu primeiro livro.399 Não somos indianos agachados Luiz Werneck Vianna . os momentos decisivos da era FHC-Lula. 1997).

a história e a cultura brasileira. . inclusive porque a mídia elegeu os intelectuais como intérpretes privilegiados da conjuntura política. Fernando Henrique também se manifestou em favor de uma ruptura com a era Vargas. secundada pela leitura que Simon Schwartzman fez de Os Donos do Poder [de Faoro]. 2. O eixo dominante na compreensão contemporânea do país é a interpretação de Raymundo Faoro. Sob a ditadura. Essa matriz baliza tanto o programa do PSDB como o do PT. praticávamos esse gênero com bastante assiduidade. em contraposição às concepções que valorizam a dimensão nacional.400 oscilava muito. O discurso dos tempos de formação do PT apoiou-se em argumentação semelhante e que contou com larga aceitação: a denúncia do populismo. segundo consta. A tradição permaneceu. de Faoro: a demonização do Estado. Aliás. identificado a uma herança varguista. nos círculos de resistência de que fazia parte. em discurso no Senado. A avaliação da conjuntura está ancorada nas interpretações do Brasil a partir da seguinte disjuntiva: temos que romper com nossa história — seja em uma direção liberal ou democrático-popular — ou trata-se de uma história que temos que continuardescontinuando? Esta última. Antes da primeira posse. pois o regime militar assentava-se em uma composição de forças muito heterogêneas. também deriva. é a postura na qual tento me estabelecer. o discurso de posse de Fernando Collor de Mello. como fator de desorganização das classes subalternas. a visão fatalista que avalia os 500 anos de nossa história como uma sucessão de desastres. redigido por José Guilherme Merquior. Muitos dos artigos que Fernando Henrique Cardoso publicou nas décadas de 1970 e 1980 tinham essa marca. O Estado demônio É possível detectar em cada estudo de conjuntura traços das grandes interpretações do Brasil. disseminando suas análises. em especial da classe operária. a valorização de uma cultura republicana.

uma movimentação afirmativa fantástica. pois não expressam. não existiriam como intelectuais. também o PSDB. Sem ela. Tratava-se de um liberalismo muito particular. Os intelectuais de direita que a Folha [15/2] destacou em matéria recente foram todos criados pela mídia. A ação operária foi generalizada. Os economistas exercem um verdadeiro pontificado sobre a vida política brasileira. Essa subdivisão hoje molda o PT e. com sua gramática do social. de que se aceite que devemos ser governados pelas variáveis do mercado. ancorado em uma tradição republicana que afirmava o público como uma dimensão poderosa. o PT. foi um momento de fastígio da opinião democrático-liberal: Ulysses Guimarães. . de algum modo. organicamente. como uma composição heteróclita entre a vertente republicana brasileira e os novos interesses emergentes.401 3. o da prevalência da questão nacional. Havia uma tripartição entre liberais. Temos o PT neoliberal. Tancredo Neves. e a ala esquerda que continua a pensar a questão social fora do âmbito da política. sob comando de Collor. encarnada no PMDB e no centro político. Franco Montoro. e na esquerda. A verdadeira direita. No final dos anos 1980. 4. resulta da naturalização do estado de coisas existente. com greves em categorias que se mantiveram passivas por décadas. de Luiz Gushiken [ex-ministro da Secretaria de Comunicação] e Antonio Palocci [ministro da Fazenda]. Foram mobilizados milhões de pessoas. no Brasil e no mundo. Essa marca perdurou na Constituição de 1988. A transição inacabada Na última década do regime militar houve. Direita e esquerda A sociedade brasileira perdeu nitidez. de Dilma Rousseff [Casa Civil]. os interesses das classes socialmente dominantes. o espectro político estava definido de forma bem precisa. Por outro lado. a tradição republicana. no plano social e político.

na ocupação do oeste. defendesse o território e o ideal de unidade nacional. Pregavam a reforma política. sindicatos e elite política teve êxito em encurtar a permanência da ditadura. Decerto que com o ranço autoritário de que somente agora começamos a nos desvencilhar. Mas. Podemos sentir a presença dos EUA nas razões da Independência. impostos pelo mercado. com isso. do petróleo e do aço e do avanço. com Brasília. conduzisse a modernização da economia e do país com base em um planejamento estratégico. O mercantil e o estatal A Ibéria e a América estão muito enraizadas em nossa sociedade. mais à frente. E que. como nos casos da legislação trabalhista. A esfera pública. na ação de intelectuais como Tavares Bastos. para uma intervenção reguladora na ordem econômica. Ibéria x América . as forças políticas vitoriosas se desorganizam. ao levar a idéia do moderno. Ele aceitou os limites. administrasse o Estado. com a qual nascemos. Permitiram assim que a tradição ibérica. 6. Com o governo Lula essa situação se aprofundou. No entanto o avanço do interesse mercantil. 5. do “americanismo”. com Vargas e Juscelino Kubitschek. pois lhes faltou coragem de abordar a questão agrária. Teófilo Otoni.402 A composição entre intelligentsia. Fernando Henrique Cardoso também entrou nessa armadilha. Collor tentou. encontrou a sua forma de legitimação na República brasileira. além de organizar a vida pública. nas rebeliões liberais do Nordeste. claramente. dar outro desfecho para a transição. Rui Barbosa. com o avanço da luta. nunca chegou ao plano da política com um projeto bem estatuído. mas estancaram diante da necessidade de democratizar a propriedade da terra.

etc. por meio de uma incessante mobilização das massas populares. Os novos puritanos . a criação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social — uma organização corporativa à maneira de Getúlio Vargas —. 8. no Estado. a revalorização do Estado e da questão nacional. se renovaram. nas instituições vinculadas ao direito. Os “americanos”. Desde o Império. O ideal republicano não surgiu. A tradição ibérica está exaurida. nossos representantes do mundo moderno não só se recusaram a dirigir a Ibéria como capitularam diante dos interesses da burguesia brasileira. ao contrário. como é o caso do Ministério Público. um telos. 7. sobretudo. Não sei até quando isso vai durar. não tem mais como dirigir o país. também encontram dificuldades.403 Eu imaginei. pois o mundo do mercado não cessa de ganhar terreno. sempre sob o controle das elites. A solução seria os “americanos” originários dos setores socialmente emergentes virem a conduzir os ibéricos. Na verdade. a partir do mundo mercantil. essas marcas institucionais de nossa tradição republicana não foram canceladas. como o episódio Collor demonstrou. Apesar do peso da vida econômica nas últimas três décadas. Mas a essa tradição devemos uma vida política e uma concepção do público que nunca se restringiram aos mecanismos sistêmicos do mercado. sob o controle das elites governantes e das ordens corporativas. Havia a esperança de uma releitura do tema ibérico pelas elites “americanas” oriundas do movimento sindical. e não com a antiga Ibéria que fez o país. A tradição republicana Vejo a tradição republicana brasileira como um permanente processo de incorporação. ele nasceu na esfera pública. isoladamente. concebemos a civilização como um projeto. Fernando Henrique errou na mão ao aliar-se com o atraso oligárquico. que o governo Lula promoveria um retorno da tradição republicana. o moderno dirigindo o atraso. entre nós. O preço disso foi termos liberdades sempre precárias. em 2002-2003. Havia indícios nessa direção: o discurso de posse.

com Carlos Lessa. Temos hoje uma ciência social inteiramente agachada diante do mundo. Um lado não precisava prevalecer sobre o outro de uma maneira tão fulminante como aconteceu. Não há como desconsiderar o contexto econômico. Tornou-se um saber inteiramente entregue à naturalidade da nossa sociologia e especular a ela. ao lado das fundamentais confissões tradicionalmente estabelecidas. O primeiro ano do governo Lula aparentou mostrar que seria factível combinar a ala do BNDES. a tradição mais capacitada para pensar o país está sendo desarmada. em vez de ser relegado ao limbo por preconceitos de natureza religiosa. que. com seu processo endógeno de formação de pastores. em geral oriundos do mundo popular. para a mudança política e social. Um outro mundo só será possível se levarmos em conta esse mundo como uma realidade efetiva. e a turma do Palocci. Trata-se de uma ressurgência do puritanismo. É preciso transformá-lo a partir de dentro. se floresceu antes na intelligentsia formada no auge do positivismo — Euclides da Cunha. A face visível desse fenômeno é o empreendedorismo. Esse movimento. mas poderiam ter sido abertas algumas dissidências. fruto de uma nova concepção ética do indivíduo e de uma pedagogia voltada para o trabalho. Não havia a possibilidade de uma ruptura. Um outro mundo é possível? A cena contemporânea é infernal. reverente a uma empiria cega e que se recusa a ver o estado falimentar de nossas principais instituições políticas. dessa vez se reanima no lado de baixo da escala social. Foi isso que o regime Palocci abdicou de fazer. Na universidade e na opinião pública. . 9. precisa ser mobilizado pelas forças políticas de orientação republicana.404 Uma das poucas manifestações culturais novas que percebo no Brasil de hoje é a dos pentecostais. Luiz Carlos Prestes —.

de algum modo. ele irá governar com as razões de Estado. desde os anos 1980. necessariamente. Entre Lula e o PT estabeleceu-se um cisma sem solução. que tende a agravar-se com a reeleição de Lula. novamente. com a tendência de liberar a economia dos constrangimentos políticos. a tradição republicana brasileira. São as torres gêmeas da ordem burguesa brasileira. Enfim. Ambos com uma visão negativa da tradição republicana brasileira. No entanto o PT perdeu o viço — e não foi apenas pelo decurso do tempo. Em nenhum momento o presidente mobilizou os quadros do seu partido. assentada na denúncia do Estado patrimonial. Trata-se de partidos nascidos do mundo do interesse paulista. que dominam a política brasileira. ditadas pelo mercado. mas por obra da política. Lula e o futuro do Brasil PT e PSDB repetem o quadro do Império. como o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. O PT continuará amarrado. a burocracia ganhou. Tenho destacado essa comunhão interpretativa entre os dois. Se ganhar. O foco da resistência ainda é a Constituição de 1988. O outro lado não tem feito senão avançar em seu projeto de desfazer o que ainda resta de público na sociedade brasileira. uma intervenção esclarecedora sobre o estado de coisas que assola o país. PSDB. Não será uma vitória do PT nem dos movimentos sociais. metáfora na moda: pode perder de sete que não desaparece. o caminho que tomou. A própria idéia de orçamento participativo saiu de cena.405 Cabe à intelligentsia brasileira hoje. mais uma vez. ambos aderentes à teoria que considera o populismo como uma prática que mina a autenticidade da vida social. 10. com as cláusulas de exceção. quando se dizia: nada mais parecido com um saquarema (conservador) do que um luzia (liberal) no poder. que institucionalizou. Partido é como clube de futebol. . Esse governo não precisava ter assumido. As novidades foram esvaziadas.

A Constituição de 1988. na cultura e.406 O cenário que temos não é muito animador. cada vez mais penetra na consciência das pessoas comuns. Vejo sinais promissores na juventude. como baliza da vida social. como as que regulam as competições eleitorais. e com corporações sólidas. na energia da vida popular brasileira. O brasileiro pobre não é um indiano agachado. Mas penso que há um horizonte mais longínquo. . como é o caso da magistratura e do Ministério Público. especialmente. Contamos também com instituições bem desenhadas.

nem ele. enquanto os que envolvem a determinação de rumos estratégicos reclamam uma justificação racional e persuasiva. tal como a que já começa a se insinuar à esquerda e à direita na cena política brasileira neste primeiro semestre de 2004. De fato. viu-se obrigado a se deslocar em direção às forças de centro. foi a da recusa às alianças e de hostilidade ao centro político. contudo. Nem é adequada a acusação dos que o entendem como um instrumento servil aos interesses da banca internacional e nacional. entre nossos recentes governantes este tem sido o governo mais sensível à agenda social dos brasileiros que se encontram em situação de marginalidade quanto à proteção de políticas públicas e ao mercado formalizado de trabalho. quando chega à vitória. partido que nasce da resistência do sindicalismo à ditadura militar e em oposição à esquerda anterior. à espera de uma conjuntura propícia a uma mudança de rumos. se a intervenção sobre o social vai se deter nos marcos assistencialistas atuais. mesmo que apenas por ensaio e erro. na última sucessão presidencial. Mais ainda: ignora-se. é de se registrar que tal sensibilidade não se tem materializado em práticas efetivas no sentido de promover melhorias nas condições de vida desses segmentos sociais. e que.407 O inferno e as boas intenções Luiz Werneck Vianna . E aí está o que vem expondo este governo à crítica: a esta altura ninguém sabe. ou se não passa de uma política emergencial.Abril 2004 Não é justa a caracterização do governo Lula como a de um inimigo do povo. de resto perfeitamente compatíveis com o programa neoliberal. Os problemas administrativos na condução das políticas sociais são contornáveis. Na verdade. se a continuidade quanto à política econômica do governo anterior se deve a uma escolha trágica feita em nome da governabilidade ou significa realmente uma conversão aos seus termos. perdendo-se as boas intenções na má operação da máquina administrativa ou mesmo no terreno das estratégias de ação. até aqui. Grande parte dessa ambigüidade se deve à própria história do PT. cuja marca. nos anos 80 e 90. . comparando bem. os de sua formação.

diante da frustração que lhes causa o atual governo. decerto que restrita. é prisioneiro dessa dualidade. contendo no seu interior. não dispondo mais da alternativa de optar claramente por um lado em detrimento do outro. dentro do governo. olhar para os céus à espera das chuvas enquanto não lhes chega o próximo herói providencial. duas políticas contrastantes: uma de fundo neoliberal. de sua base aliada e do próprio PT. desenvolvimentista. enfraquece o campo de forças que busca um caminho de transformação. e outra. malgrado as intenções do diabo doido que a maquinou. têm preferido. como tantos outros antes dele. reparando nas ainda amplas possibilidades para políticas de mudança presentes nas práticas do atual governo. mesmo porque o desgaste do seu capital político. o governo do PT ocupa uma posição muito conhecida pelos vários governos de centro que o antecederam. já reduziu a sua liberdade de movimentos. nestes poucos meses do seu segundo ano de governo. mantém abertas vias de acesso aos centros de tomada de decisão para os movimentos sociais e para os eixos que aglutinam a opinião pública favoráveis à mudança. De outro lado. que importa. referenciada basicamente à lógica do mercado e ao tipo de ação estratégica que nele predomina. a estratégia do “abril vermelho” e da “infernização do país”. pois. O debate e a disputa entre as forças que se aplicam em direção à adaptação às circunstâncias e as que visam à mudança se trava.408 Nesse sentido. a presença do Estado e de suas agências como promotoras ativas do crescimento econômico. O governo atual. . Desertar desse campo de luta. só serve para entregar de bandeja o governo às forças da conservação. identificando como inimigo o governo e sua coalizão majoritária. segundo uma larga tradição brasileira. ao invés de se deterem em uma análise madura das circunstâncias. por sempre terem acreditado em uma tal de vontade política como varinha de condão. na medida em que preservar a sua área de influência. inclusive em sua representação ministerial. É equívoca a posição dos que. na tentativa de provocar a todo transe o uso da repressão contra movimentos sociais legítimos.

que não enxerga substitutos imediatos para o partido dentro da esquerda. O processo de unificação do PT — enfatiza Vianna — vem sendo conduzido dentro dos moldes do centralismo burocrático. o PT inicia 2004 mais unido ou mais fragmentado? . o PT apenas ocupa um lugar que antes pertencia aos tucanos: “O centro no Brasil mudou de mãos. acrescentando que o PT pode se destacar como reformista capaz de unir numa mesma agenda projetos sociais e tarefas modernizantes não levadas a cabo por outros governos.. com capacidade de influência. porque o centro é capaz de unificar”. (Rodrigo Carro) Com a expulsão dos radicais. o PT não corre o risco de se desintegrar por ter abandonado suas antigas premissas. PT e PSDB estão batendo cabeça no centro político brasileiro”. mas uma esquerda afirmativa. explica o professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Vianna alerta que ainda há um embate dentro do governo entre continuístas e reformistas cujo resultado dependerá das pressões da intelligentsia e dos movimentos sociais. A afirmação é do cientista político Luiz Werneck Vianna. “com uma agenda política de centro”. Mas. afirma. já se definiu como um partido de centro.409 O PT já se definiu como partido de centro Luiz Werneck Vianna . Apesar do desencanto de muitos intelectuais que ajudaram a fundar o partido. “Isso não quer dizer que o partido vá virar pó. Nessa opção pelo centro.. “Pequenos grupos de esquerda já existem. Isso leva tempo”.Dezembro 2003 A lacuna aberta no espectro político brasileiro a partir da migração do PT da esquerda para o centro vai demorar a ser preenchida. ressalva o cientista político. Na análise de Vianna. com as controvérsias internas solucionadas pela via administrativa e não mais pelo debate democrático. A seguir os principais trechos da entrevista concedida pelo cientista político ao Valor.

como era antes. todos. O PT se tornou um partido de Estado. Luiz Pinguelli Rosa (presidente . Eles delegaram. de cima para baixo. É o governo que está pautando o PT. isso acabou acontecendo. A tendência dentro do PT. autoridade à liderança política do partido. É de reformar o que aí está. Há uma possibilidade disso.410 O partido pode até ficar mais unido. Foi a vitória eleitoral do Lula que permitiu que um grupo resolvesse tudo pela via administrativa. burocrática e não de forma horizontal. A expulsão dos radicais foi apenas a confirmação final da guinada em direção ao centro? A guinada para o centro já houve e é irreversível. que se sobrelevava sobre todas. Rumos — ele tinha o mandato implícito de todos — que ele podia pegar ao sabor das circunstâncias. sem dúvida. E esse vai ser o episódio que nós vamos assistir daqui para frente: o que vai acontecer com quadros como Dilma Rousseff (ministra das Minas e Energia). O elemento de solda agora é verticalizado. Bom. entre as que estão dentro. as controvérsias com relação à orientação. o consenso obtido nas convenções. a gente tem de pensar se essa continuidade em relação à agenda (do governo) anterior vai ser ininterrupta ou se. O que arrumava todas as tribos dentro do PT e acabou sendo a desgraça de algumas delas? Estavam todas dependentes da liderança carismática de Lula. Sobre isso. porque o centro é capaz de unificar. até 2004. algumas têm influência. está se atribuindo uma função nova que não é a de procurar um caminho novo. consensual. foram resolvidas administrativamente. democrática. é que o chamado campo majoritário continue a prevalecer? Algumas minorias estão fora e. vai se procurar um caminho mais de mudança. sem obrigá-lo a se definir quanto a rumos. colhendo o regime dos ventos e indo para onde achasse que o sopro era mais conveniente. O que não quer dizer que o partido vá virar pó. Todas as disputas que havia no PT. Só que de forma vertical. O governo e o PT. É o centralismo burocrático que prevalece hoje no PT. É do governo para o partido. ou o setor dominante no PT. num determinado momento. Mas o elemento de solda não é mais a livre opinião partidária. Essa é uma opção de centro.

O governo é que está procurando encontrar escoras institucionais dentro do conselho. De um centro preocupado com o crescimento. mas uma . Acho que esse governo ainda pode cumprir um bom papel. que o centro no Brasil mudou de mãos. Acho isso ruim. não haverá espaço para os dois. o que não quer dizer que o mundo está perdido para ele. É o Estado que está organizando a posição do partido e não o inverso. PT e PSDB estão batendo cabeça no centro político brasileiro. isso depende de circunstâncias. Apenas. O PT já se definiu como um partido de centro. com uma agenda política de centro. O que vai ocorrer com esse tipo de pensamento alternativo que atua ali dentro? Ainda há espaço para esse pensamento alternativo dentro do Partido dos Trabalhadores? Ainda vejo espaço. Isso não é necessariamente esquerda. Carlos Lessa (presidente do BNDES). Há espaço para os dois? Há. Eles tenderão a se unir. entendia o partido como um caminho para uma trajetória mais desenvolta. Atualmente. na esquerda petista. Enquanto não houver uma esquerda forte. No final dos anos 70. aberto ao social. Está se constituindo numa outra coisa. Dá para arriscar quem preencheria essa lacuna? Não. quem diria que a esquerda iria sair do sindicalismo do ABC? Pequenos grupos de esquerda já existem. Aparecendo uma esquerda forte. há espaço para os dois. Isso ocorre em toda parte: o tal Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social foi criado para ser um lugar onde a sociedade pudesse se exprimir levando sua opinião para dentro do governo. a posição da esquerda. Uma posição não está ocupada. O (fato de o) PT ter ido para o centro e ali se fixado é uma tragédia para quem. partido e governo são uma só coisa? É uma correia de transmissão que está funcionando no sentido inverso: de cima para baixo. Não um papel desejado pela esquerda.411 da Eletrobrás). mas um papel de um centro democrático. A questão toda é a seguinte: quem vai ser a esquerda no Brasil? Nós estamos com um espectro político-partidário que está desfalcado.

o que não quer dizer que ele ganhe nas grandes capitais. com uma crítica feroz do que foi a história do PT. não preciso enfrentar o tema da dívida externa de maneira radical. essa é a previsão de todos. que nasce com fumaças radicais.. Tem de aparecer com uma cara nova e. Se o Serra se aventura e ganha a eleição municipal. A não ser que o Fernando (Henrique) não deixe. A máquina governamental é muito poderosa para agir nesse terreno e a maioria que o PT conseguiu montar no Congresso vai repercutir no plano municipal.. acho que não há lua-de-mel que dure. Acho que o PT vai avançar bastante. a popularidade do presidente Lula vem se sustentando. E oportunidade de vida é criação de emprego. Essa é central. O que ele (Lula) disse é o seguinte: “Eu posso ganhá-la. vai me trazer possibilidades de crescimento. sobretudo. . Seria necessário inclusive saber dela o seguinte: qual é o seu programa? Não pode ser o programa anacrônico da esquerda que passou. Perdemos 600 mil empregos este ano. Esse tipo de solda política que foi feita no Congresso vai repercutir embaixo. Agora. Mas sem alternativas de oportunidade de vida.412 esquerda afirmativa. ao cumprir sua trajetória vitoriosa em 20 anos se torna um partido de centro? Qual sua expectativa para o PT nas eleições municipais de 2004? Acho que ele vai bem. Por enquanto. com capacidade de influência. E para ganhá-la não preciso fazer ruptura de contrato. tem um efeito simbólico de apontar para a próxima sucessão. Eu acredito que o mercado. não é isso? Mas há quem esteja dentro do governo que diga: é mercado e Estado. Ele vai ser candidato à Presidência de todo jeito. Como é que um partido de esquerda. não está ganhando. Isso leva tempo. de expansão”. Essa eleição municipal vai beneficiar o partido... Esse pessoal. tenho outros modos. A jóia da coroa do PT é a Prefeitura de São Paulo. O caminho que o governo está seguindo é um caminho que aposta mais no mercado do que no Estado. essa batalha está em curso. ao se regenerar. Essa lua-de-mel com a opinião pública poderá durar muito mais? Pode ser. por hora. precisa de mais Estado. será um candidato fortíssimo à Presidência. eu penso.

Isso facilitou tudo. o que ele vai fazer com a questão agrária. É assim que o presidente o apresenta publicamente. Há indicadores para tudo isso que são muito negativos. com a universidade. ter o Palocci (Antonio Palocci. sem sustentação. também não vejo maiores dificuldades.413 Qual será a posição dominante para os anos seguintes? Nós só podemos especular. Quando o PT adere à agenda anterior. Na medida em que o governo se compromete a realizar a agenda anterior. Estão aí esses dois diagnósticos contrapostos. Pensei que ele (Palocci) fosse seguir uma linha prudencial mas com elementos de descontinuidade em relação à política anterior. Deixando de lado essa agenda. com o tema da legislação do trabalho. sua pauta política fica muito facilitada. cair num pragmatismo canhestro. que é o secretário de Trabalho da Marta Suplicy. sobram bandeiras para Lula? Temos que ver o que ele irá fazer na área de ciência e tecnologia. já formulada durante o governo Fernando Henrique. Mas ele radicalizou a agenda anterior. perder a credibilidade. E o PT barrou. Para 2004. ambos vindos do PT. não fosse a oposição do PT. Esse foi um ponto anunciado no governo anterior. O grande contraponto está entre os diagnósticos do Marcos Lisboa (secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda) e do Márcio Pochmann. PSDB e PFL já avisaram que não será tão fácil. Há uma série de indicadores que dizem que a aposta maior é mesmo no mercado. E de posições .. O governo Lula tem sido a radicalização do governo do PSDB. a vitrine principal. num oportunismo político eleitoreiro. Qual a sua análise sobre as reformas tributária e previdenciária aprovadas no Congresso? Essa reformas podiam ter sido aprovadas no governo anterior. Por exemplo. a agenda foi a deles nos dois governos anteriores. Em 2003. não. facilitou tudo porque não há um PT que faça oposição ao PT. A oposição agora ficou numa situação muito complicada porque se opor às medidas preconizadas pelo governo seria opor-se a si mesmo. ministro da Fazenda) como um emblema do governo. No tema da legislação trabalhista..

Isso é bom. O senhor considera importante o fato de o PT ter perdido o apoio de parte da intelligentsia? Perder a parada da intelligentsia no Brasil é sério. Ainda restam pontos a serem explorados pela oposição? . o (Fábio) Konder Comparato também já escreveu um manifesto severo. Mas o governo tem medo de tirar o Lessa e se render inteiramente ao outro lado. Uma parte de apoio importante para o Fernando Henrique foi a USP (Universidade de São Paulo). que é um setor formador de opinião. E é verdade que não está sendo bem atendida. Até quando a Marilena Chauí ficará? Aquele advogado lá. homens como Sérgio Buarque de Holanda. Nesse momento está havendo um embate e o Marcos Lisboa está ganhando. Essa questão das universidades está muito mal posta. Raymundo Faoro. do Francisco de Oliveira. Com a reforma da Previdência. O embate dentro do governo poder perdurar ao longo dos próximos três anos? No governo Fernando Henrique. Este não é um governo reacionário. Vai ganhar o tempo todo? Não sei. do Paulo Arantes. O quer dizer que um lado não ganha mas também não é banido. O presidente Lula já perdeu a USP. Mesmo que não aconteça (uma mudança de rumo). impõe restrições ao outro. A perda do espírito de mudança.414 governamentais: uma no plano federal e outra no plano municipal. A ação do Carlos Lessa no BNDES impõe certas restrições ao outro lado. não é um governo antidemocrático. acho que isso depende muito também de que a intelligentsia não deserte do campo. A área de ciência e tecnologia está se sentindo muito desatendida. O crescimento do PT não se deu sem esse resguardo de um setor importante da intelligentsia brasileira. Continua presente. Tanto é que tenta se fazer do Lessa um entrave a ser eliminado para que a boa política flua. durou oito. de São Paulo. um setor já foi perdido. As universidades estão à míngua e sendo objeto de projetos tenebrosos por parte de círculos governamentais. vivo. atuante e impondo restrições ao outro. Antonio Candido. Essas pessoas foram todas muito importantes na formação do PT.

415 Ciência e tecnologia é um. até a sociedade. ele com a população ou o desempenho econômico. No terreno especificamente político. como foi no governo Fernando Henrique. Esse governo. Pode ganhar a eleição como uma força de centro. sem se abrir para as grandes mudanças. Seus problemas são outros. Só vai chegar de uma forma exitosa com políticas de crescimento e políticas sociais atrativas. A questão agrária é potencialmente explosiva. O tema do crescimento é outro. Não precisa ser o espetáculo do crescimento. pode ganhar a eleição. ele vai ter que ser mais feliz no desempenho econômico. acho que o PMDB vai entrar para o governo. congressual. falta o PMDB. a sustentação política. Para isso. entre esses dois caminhos. A desgraça dos presidentes brasileiros tem sido se contrapor ao Legislativo. . qual o problema? A vinda do PMDB reforça ainda mais isso. Para isso. Nesse primeiro ano (de governo Lula). ele vai bem. O presidencialismo de coalizão que o presidente armou dá muita estabilidade política. pesa mesmo. E a questão central que se afirma sobre todas as outras é a dependência externa do país. ao Congresso. Qual o panorama para a reforma ministerial? Se o José Dirceu (ministro-chefe da Casa Civil) conta mesmo. E o que esperar das eleições de 2006? Há algum indicativo? Tudo vai depender de como essa controvérsia se resolve. sem fazer grandes alterações em si mesmo. Presidente com forte base congressual está com a vida política resolvida. Faz parte da estratégia dele ampliar ao máximo a base de sustentação política e congressual do PT. A questão é como isso chega até embaixo.

Como está o governo Lula? Venho me esforçando muito no sentido de ter uma posição prudencial. a intelligentsia oficial oscila entre o “assistencialismo feroz” e o apoio à tese neoliberal da estabilização monetária. Mas não digo que as coisas estejam ficando claras. viu nascer e se avolumar a onda vermelha que varreu as urnas. “o AI-5 dos trabalhadores é o AI-5. Em meio ao desânimo que começa a se cristalizar. Na entrevista ao Jornal do Brasil. o professor Werneck Vianna deixa no ar uma ponta de esperança. A mais complicada é a alteração de rota desacompanhada de uma justificação circunstanciada. não a CLT” —. a discussão sobre a reforma trabalhista. “Sempre achei PSDB e PT muito parecidos”.416 O PT é quase um partido liberal Luiz Werneck Vianna . por exemplo. faz o intelectual prever o drama que será. Agora. como prevê o mestre do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Ao longo de seus 65 anos. A questão do meio ambiente. na verdade. acredita que “ainda há tempo de se alterar este quadro”. As graves reflexões sobre a realidade brasileira. a pequena sala em um tranqüilo sobrado de Botafogo. que ele julgou apto a solucionar questões como a da concentração da renda. antecipa o seu ressurgimento no horizonte da reeleição. Tem algumas tendências que me parecem muito negativas. A indução para o “espetáculo do crescimento” prescinde do setor produtivo. A frase — prontamente rebatida com a certeza de que.Outubro 2003 Doutor em Sociologia. desconfia. ele ouviu de Lula que “a CLT é o AI-5 dos trabalhadores”. Naquela época. levam o professor à década de 80. desalinhados. no Congresso. em 2006. De acordo com o presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs). “recusa-se a dizer que rumos seguirá”. ano passado. O governo. o professor Luiz Jorge Werneck Vianna expressa sua preocupação quanto aos rumos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e do partido que o elegeu. amparadas por tantos séculos de política encerrados nos livros que habitam. mostra uma guinada de .

No primeiro. jamais ultrapassaria os 3% ao ano. Formulo. Mas isso. a grande lesão será a de que o único partido identificado com a idéia da mudança foi dominado pela conservação. a situação esteja mais equilibrada nas contas externas.417 rumos muito profunda. mas é uma tendência muito forte. como ente muito mais adaptado às circunstâncias do que movido pela idéia das transformações. A continuar assim. segundo os economistas válidos em nosso país. estes temas foram sucedidos pelo mercado. A expectativa deles é de que. a sociedade permanece prudente na observação do governo e o PT vence a .. Esta seria uma mudança inexorável? Inexorável não é. a pressão ceda. vai se consolidar a idéia deste partido. o papel do Estado como o grande tomador de decisões em matéria econômica. acredita que o espetáculo do crescimento não passe de um arremedo de 3%? Isso na melhor das hipóteses. a chegada dos jovens ao mercado de trabalho. vê que 3% não dá pra nada. pela inércia. Foi assim que ele venceu as eleições. Com base nas promessas de mudar o país. ao longo do próximo ano. de acordo com os próprios depoimentos deles. na verdade. Mas o PT apareceu no mundo com a idéia de mudança. A visão do público.. em especial.. Seria uma herança muito complicada de se administrar. três quadros. Quando se pega a explosão demográfica e. E o senhor. deste governo. Há outros cenários para o país? Este que acabo de cogitar é a melhor das hipóteses. os juros caiam e haja a retomada do crescimento. Dá para um certo alento na disputa da reeleição.. Caso sejam vitoriosos.

O papel do Dirceu parece ser o de garantir a governança.. do ponto de vista de quem está no poder e quer permanecer nele. Mas. O Gabeira. agora. Tudo estaria muito bem. na verdade. que não seria o pior. E quem faz o papel do Serra? O ministro José Dirceu? Isso também não está claro. O viés. Neste cenário. Agora. Há um plano B? Seria uma ingenuidade minha dizer que isso é uma impossibilidade. O próprio partido pode desandar. sob o ângulo do projeto.. não há um indicador atual que nos estimule a isso. a estabilidade política. é um caso isolado ou abriu o portão? Há possibilidade da forma como ele se comportou generalizar-se. O que se tem é o Antônio Palocci cada vez mais próximo do Pedro Malan. Se esta é a melhor das possibilidades. Pode haver um desalinhamento severo dos setores que acreditaram ser na produção a ênfase deste governo. poderia acontecer o que ocorreu na Itália. porém. enquanto que o do Palocci é o de assegurar a estabilidade econômica. estará derrotado. . O intermediário. onde Silvio Berlusconi sucedeu Massimo D’Alema. Ainda existiria situação pior do que esta? O cenário mais terrificante é a questão social voltar a se manifestar nas ruas. não suportar estas mudanças. é financeiro. e não produtivo. Vamos para um cenário que não seja o melhor. Ele saiu bem.418 reeleição.

que foram socializados nas lutas armadas. estes sim. do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. A seu ver. Como fica este amálgama de forças políticas no PT. Os sindicalistas. mas há que segurar. veio de outra banda. evidentemente. mas pode-se enfrentar sim. não é a do mercado. na época do regime militar. que Plano B seria este? O Plano B seria enfrentar o tema das dívidas interna e externa. também complicado. O PT é um mistura da Igreja.419 Ninguém iria acreditar de graça na hipótese de uma saída à esquerda. diante da guinada ao centro? A Igreja. O Dirceu. tem que se estar atento a isso. a intelligentsia. com suas preocupações com o social. com aquela história dos cubanos. Mas há um rastro anterior muito complicado. Por suposto. complicado. Capaz de encarar o FMI? Não precisa tirar carta de valente. e dos sindicalistas. Do ponto de vista da luta política democrática. certamente. que em um dado momento haverá um Plano B. Fizeram sua história de oposição ao regime militar em torno de .. baixar os juros. como a Argentina fez agora. cristãos-novos.. Com apoio dos comunistas? O PC do B admite. com o Araguaia. Da mesma forma. dos intelectuais. Com diplomacia. de onde vieram o Dirceu e o Genoino. Genoino. é de uma matriz que não é a do mercado. O passado político seria um indicativo quanto à viabilidade daquela rota alternativa? O passado teria que ser do partido. são todos adventícios. originaram-se nas grandes empresas privadas de São Paulo. É evidente que haveria alguma repercussão internacional.

O que se pode dizer é que estão sendo feitas com uma grande compaixão quanto aos setores mais desfavorecidos. O PT nasceu na dimensão privada. Com esta situação. Ora. perguntado. Em um debate em que eu estava presente. Há um envolvimento emocional que aparece nas políticas públicas de atendimento à pobreza. Não é mesmo. que acreditam ser preciso destravar para que o país vá adiante. As reformas. não se é de estranhar. Acho o PSDB e PT muito parecidos. com certa concepção liberal.420 uma agenda liberal. Depois. por exemplo. O Fome Zero. promover alterações substanciais como estas que estão comentando. Lula disse que a CLT era o AI-5 dos trabalhadores. que o Lula tenha negado ser de esquerda. primeiro são partidos paulistas. Mas também não se pode ignorar que isso é de um assistencialismo feroz. capazes de retirar do trabalhador direitos adquiridos ao longo de décadas. Sempre olhei de maneira desconfiada para este tipo de movimento. à miséria. então.. qual a perspectiva? . representam a idéia de que o perigo está no Estado. serviriam para se retirar as travas que impedem a atuação do mercado? Elas são uma confirmação disso. Retruquei muito duramente que o AI-5 dos trabalhadores era o AI-5 e não a CLT. e não no mercado. É de um assistencialismo que não há registro na história brasileira.. Como o senhor vê esta discussão? Isso vai ser um drama. Se olhar bem. isto será uma tarefa de fôlego. contra a legislação do trabalho consubstanciada na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Então. realmente. Uma destas amarras seria a legislação trabalhista.

. em um determinado momento. Se passar. Este. possa ser anunciado de repente. Não pode ficar oculto num Plano B que ninguém sabe onde está. A sociedade acreditou que a política poderia mudar o país. Por onde a sociedade vai pensar estas mudanças? Vai descrer da política. O efeito Gabeira já vai estar avançado? Não é só isso. de forma inteligente. terão dificuldades. Alguns intelectuais também acreditam em um tempo para se corrigir os rumos. . Sem democracia. A política está dizendo para a sociedade que não é capaz de fazer. será a pior pedagogia para o nosso povo. para mim. que é a descrença nas instituições democráticas. É o essencial. Não é algo que. Não é isso que está ocorrendo. No nosso caso. preservar o compromisso do governo com as mudanças.421 A de que ainda há tempo para. as mudanças são impossíveis. mudar significa mexer com interesses poderosos.. O que importa é que este compromisso seja evidenciado. E o seu tempo? Não pode passar do primeiro semestre do ano que vem. Um projeto de mudanças tem encadeamento próprio. mesmo que queiram depois. O que se precisa fazer é obrigar que o mundo das finanças sirva ao mundo da produção. Qual o preço a ser pago por um desvio de rota imenso como este que o senhor está apontando? O preço disso é o PT deixar de ser o partido das mudanças. os sistemas financeiros nacional e internacional. um dos problemas mais fundos. Caso isto se certifique. contemplando a diversidade das circunstâncias.

não é bom o ângulo de observação que apenas leve a reparar nessa esquerda os seus sinais típicos de identidade. no Chile de Salvador Allende. bandeira canônica da esquerda desde sempre. depois de ganhar o governo. E. reclamando a intervenção heróica de um novo começo. Não tanto por reconhecê-lo como alternativa legítima. resultado informe e injusto de um acúmulo de soluções desastradas. por parte da esquerda. derivou sem freios em favor de uma trajetória de revolução permanente. A ida ao centro político. o partido hegemônico na coalizão governamental nasceu do sindicalismo operário. ela se define pelo caminho que adotou para a conquista do governo em uma competição eleitoral. irrecusável que se vai começar este ano de 2003 sob o primeiro governo de esquerda da nossa história. ao contrário. trouxe consigo o momento da revisão. o nome do pau é pau.Janeiro 2003 1. e o da pedra é pedra. aliás. pois esse caminho se afastou da versão que interpretava os males do país pela ausência de uma ruptura em sua história. Aí esteve e está a novidade. condição necessária para a vitória eleitoral.422 Pacto social e generalização da representação Luiz Werneck Vianna . aqui mesmo na América Latina. de fato. é um ex-trabalhador metalúrgico. No entanto. Não há quem falte — todas as formações da esquerda se fazem nele representar. velho ponto admitido desde fins do século XIX pelos autores clássicos. do que ocorreu naquela infeliz experiência. quando a esquerda. porque. o atual presidente da República. e sua principal liderança. cada qual com a sua marca de origem e seus temas de preferência. Pacto social e generalização da representação Se. vista em chave negativa. golpe de misericórdia nos incréus. em . apropriando-se de suas questões e da própria representação da tradição republicana. mas sobretudo porque foi nele que a esquerda brasileira realizou um surpreendente e decidido movimento de conquista do centro político. A questão dominante na agenda é de desarmar eventuais objeções do cético mais curtido: a igualdade. além disso. e já trilhado com êxito. no começo dos anos 1970. por fim.

admitia a conclusão do processo de transição à democracia com a transferência do governo para as mãos das forças empenhadas no sentido da mudança social. uma das possíveis repercussões institucionais do pacto social está em ampliar os mecanismos de representação. A representação funcional. as duas grandes referências que o sustentaram e o vinham animando desde 1930. na prática. Nessa direção. firmou-se a sentença de absolvição da nossa história. como no controle da constitucionalidade das leis e nas ações civis públicas. da própria idéia de república. abandonou-se o sebastianismo de um recomeço redentor. desde então. assim. redime-se a tradição brasileira de valorização da representação funcional. caso conspícuo da Fiesp. e. ainda mais importante. embora tenha sido objeto nos últimos anos de pesada crítica. Assim. dos sindicatos de base e de suas organizações de cúpula. tem sido legitimada pelos nossos textos constitucionais. agora. como no caso do pacto social. da obra de Vargas e a de JK. estão livres de qualquer tutela e atuam em um contexto de plenas liberdades públicas e civis. inclusive como um rico inventário de experiências a ser retomado. Com esse Conselho. denunciada — e não apenas pelos que brandiam o argumento neoliberal — como cenário propício a um particularismo corporativista. sem abandonar as suas grandes linhas de continuidade. pois não podia ser desastrosa a que. cuja noção de bem-comum se viu desprestigiada por duas décadas de mobilizações em que a tônica no agir de cada ator social foi a de privilegiar o interesse próprio. foram recuperados os temas do Estado como agência indutora do desenvolvimento econômico. o banzo pela falta de uma ruptura que nunca vinha. circunstância que ainda mais a favorece no exercício de suas novas atividades no âmbito do Judiciário. da questão nacional e. é herdeira direta das estratégias de intervenção do Estado no domínio econômico dos tempos de Vargas e de JK. No caso de um governo de . A partir daí abriu-se um olhar reparador sobre nosso passado. Com essa recuperação. podendo consistir em uma barragem efetiva às eventuais tentações de uma administração de estilo decisionista que leve em conta apenas a vontade e o cálculo procedido pelo Executivo. ressalvada a diferença crucial quanto a momentos anteriores de que suas instituições.423 particular pela sua fração hegemônica petista. cuja institucionalização no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. inclusive pela Carta de 1988. volta a encontrar espaço no âmbito do Executivo. sob o governo Lula. e que. que nos vem dos anos 30.

com que se pode iniciar mais um capítulo na história do país. a serem encaminhadas ao poder político. de que a agenda . como o representante da continuidade do governo que se despedia. fórmula esperançosa. sob o falso pretexto de que eles se constituam em obstáculos à retomada do crescimento econômico e/ou signifiquem privilégios quando confrontados com os da massa da população. tão logo se conheceram as primeiras tomadas de posição do governo Lula e se tornou patente a reversão do quadro da campanha eleitoral. uma vez que. Nela. como ainda não tivemos tempo de esquecer. infiltrado por aí. apesar dos seus veementes protestos. ele é o oposto do que disse que ia ser no curso da campanha. bem pode ser que o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social se constitua no lugar em que a democracia política e a democracia social comecem a superar a gritante distância que as separa. instituindo-se o social como dimensão orientada a dar vida e substância às instituições da democracia política. no que couber. Nesse Conselho. alarga-se a representação. 2. Com esse percurso. as forças da produção e as do associativismo da sociedade civil podem ter a oportunidade de encontrar soluções minimamente consensuais sobre um programa de retomada do crescimento econômico e de políticas sociais de caráter incorporador. enquanto a candidatura Lula — coerente com seus anos de cerrada oposição às teses e as práticas do governo do PSDB e da ampla coalizão que o sustentava — firmava-se na pregação da descontinuidade. ela pode recomeçar. ao Legislativo. denunciando a submissão da política vigente aos interesses do capital financeiro e o seu caráter antinacional e antipopular. como insistem alguns corifeus de um neoliberalismo encapuzado que ainda vaga. De uma perspectiva ainda mais geral. O que mudou Mais de um mês de governo e já é hora de se saber alguma coisa dele. depois de sua absolvição nesta última competição eleitoral. embora de difícil execução. e. Daí a constatação surpreendente.424 esquerda. Primeiro. o candidato José Serra foi caracterizado. o sucesso do modelo está intimamente associado a que não se penalizem os interesses e os direitos dos setores organizados das classes subalternas.

institui a possibilidade de uma democratização continuada da sociedade brasileira. . essa nossa Jerusalém não é feita de sonhos com o Reino de Deus. vale dizer macroeconômicas. Mudou o quê. convertendo em prática o que. e na mesma direção. não passava de declarações abstratas de princípios. cuja característica mais marcante tem sido a de admitir. Nesse sentido. processo de incorporação deles ao mundo dos direitos. a quem caberia o arremate do seu projeto de reformas. então. A sensação foi. em matéria sistêmica. e quanto. por sua vez. está sendo inteiramente preservada. se assenta e impõe sua presença de multidão já com algum treinamento obtido nestes 20 anos de democracia política. com a multidão de homens comuns chegando ao espaço público. ausente dos seus movimentos de superfície. antes orientado pelos caminhos erráticos do hinterland de Serras Peladas e de todos os Eldorados. onde. e mesmo uma boa parte dos otimistas se sentiu obrigada a concordar com os nossos céticos: mais uma vez. agora. apesar da evidência solar da continuidade entre os dois governos no principal. em meio à aparência da conservação. sem rupturas fulminantes. chega. de desalento. com o passar dos dias. nem traz consigo um projeto de direito novo — seu direito é o da Carta de 1988. A República. Entretanto. mas sempre progressivo. muda quando acolhe a multidão. no curso de muitas gerações. que. principalmente nas questões sistêmicas. o limbo sedimentado na nossa história. quando não seguindo líderes messiânicos como em Canudos do Conselheiro. para usar a feliz expressão de Maria Silvia Carvalho Franco. nada teria mudado. O povo do exílio vivido no sertão do país cumpre a sua migração para o mundo dos direitos. até então. à Cidade. O efeito desse encontro da Cidade com a multidão de homens comuns. ao concluir o lento. mobilizados pelo direito à participação eleitoral. Não faltou quem sugerisse que o governo Fernando Henrique se fazia projetar no de Lula. A longa marcha da ralé dos quatro séculos. isto é. o da Cidade para onde acorre. é a de que tudo mudou. a ponto de desqualificar a continuação do que vinha se entendendo como o principal? Mudou a República e mudaram seus personagens. e sim de uma longa trajetória do processo de criação da civilização brasileira. Decerto que esse resultado feliz não é filho de um fiat. é o de uma revolução silenciosa. no sentido de traduzir seus recursos de cidadania em instrumentos de emancipação. sempre igual a si mesmo. sem arrombar portas. e sob a influência da atividade popular.425 forte da coalizão governista anterior. a idéia que se impõe.

contemplaram a possibilidade. entre outros. que pode ter no recém-criado Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social uma de suas melhores expressões. como as de Joaquim Nabuco. e o Brasil se apresenta como o primeiro experimento efetivo da modelagem de Habermas. Nesse sentido. agora. está destinada a sofrer o seu assédio. e mesmo a institucionalização da previdência social para os trabalhadores do campo. longe de ser objeto de um ataque frontal da sociedade. de a sociedade brasileira encontrar o seu caminho democrático sem se afastar das suas balizas de fundação. no mais. Euclides da Cunha. resolve o enigma: o que ainda não mudou mudará. . agora diante de nós. tudo mudou. é contínua a ele. A precedência da sociabilidade e da política e de suas instituições. se soubermos compreender — e agirmos de acordo com esse entendimento — que. como lugares confiáveis para a operação das mudanças que a sociedade decidir empreender. por meio de uma renovada esfera pública. Gilberto Freyre. Narrativas clássicas sobre o Brasil. e não a sua refutação. tudo mudou. de que são exemplos a chamada revolução de 1930. com base em uma análise valorizadora da nossa história. o que aparentava ser o principal torna-se secundário. pois nossas instituições surgem. Porque essa revolução silenciosa que aí está é rebento ilustre da marcha do processo civilizatório brasileiro. em que a dimensão sistêmica. como regiões formadoras da vontade coletiva sobre a dimensão dura da economia.426 mudanças orientadas para uma crescente incorporação dos homens comuns. Em um passe de mágica. Sérgio Buarque. empreendida sob a ditadura militar.

e. Vem daí. que contou com a participação de Maria Alice Rezende de Carvalho. Esse é o sentido da obra de autores como Tavares Bastos. modernidade.427 história absolvida Luiz Werneck Vianna . com elementos quase orientais.Dezembro 2002 Luiz Werneck Vianna é autor de uma obra no campo das ciências sociais que gira em torno de questões caras ao Brasil contemporâneo: democracia. urgente. Uma obra polemista. recentemente. Eu vou tentar explicar por quê. sempre trabalhou com a idéia da inviabilidade do país. Uma boa parte dos nossos pensadores. justiça. Werneck Vianna fala de suas esperanças democráticas para o Brasil e debate as alternativas de construção de uma República que precisa ampliar o acesso aos frutos sociais gerados pela introdução da democracia política no país. Luiz Werneck Vianna é também coordenador do Instituto Virtual A Democracia e os Três Poderes no Brasil e presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). autocrático. da nossa imaginação histórica e política. entre tantos outros que trabalharam nesta direção. . liberdade. da nossa má formação por termos recebido como legado de Portugal um Estado atrasado. Nessa entrevista. esses autores interpretaram a trajetória brasileira como uma história sem redenção possível. Professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). fragmentada. Porque consideravam nossa sociabilidade congenitamente mal estruturada. (Entrevista concedida a Heloísa Maria Murgel Starling e a Wander Melo Miranda) Diante dos últimos acontecimentos políticos a primeira pergunta é inevitável: o que significa a eleição de Lula para o Brasil? Acho que essa eleição sobretudo absolveu a nossa história. Uma história sem povo. a de Raymundo Faoro. cujo alcance intelectual e político transformou seu autor em um importante intérprete da história e da vida política republicana brasileira. Manoel Bonfim. Capistrano de Abreu.

por exemplo. então. em particular. ao nos levarem aos excessos da imaginação e do comportamento. não rompeu com as estruturas econômicas coloniais. cuja abolição também resultaria de um movimento das elites. quer pela incompletude da sociedade nascida em meio à escravidão. sem provir de uma insurreição dos homens submetidos à escravidão. sobre o período do Estado Novo (1937-1945). portanto. Enfim. por não se escorarem em supostos realistas. que nos trouxe a moderna ordem burguesa. do excesso e da melancolia em Paulo Prado — as grandes esperanças.428 por exemplo. interpretações sempre marcadas por forte negatividade. uma frase que traduz uma desqualificação da mudança ocorrida na ordem jurídica e política que sucedeu ao Império. que. esse é o tom que prevalece na nossa imaginação social e política. saltando sobre o oceano e se instalando do lado de cá do Atlântico. o tom. fórmula recorrente com que sempre se teria impedido a sociedade de tomar o seu destino em suas mãos. início com a transferência do Estado patrimonial português. Uma Independência que. Vítima de si mesmo. o Brasil não estava destinado a entrar na história. quer pela natureza recessiva do traço original característico do seu Estado. não é mesmo? As interpretações sobre a proclamação da República nunca se esquecem de lembrar o testemunho famoso de um contemporâneo: “e o povo [a] assistiu bestializado”. se a Independência nos trouxe o liberalismo. teria criado uma história que. Nossos males teriam. E se a Abolição emancipou o trabalho. apenas reiteraria a anterior. esta idéia. E essa é uma fabulação que se repete nas interpretações sobre a República. O mesmo processo de desqualificação se repete nas análises da Revolução de 1930 e. aqui. nos deixariam no torpor da melancolia. Em grande parte. logo que se frustram. como se a alternativa política possível para o país. uma sociedade assentada sobre a ralé dos quatro séculos de que nos fala Maria Sylvia de . o seu movimento nasceria sob o estigma de ter se originado nas elites intelectuais do liberalismo. Assim. a fabulação de Manoel Bonfim sobre a Independência como uma solução por cima. na verdade. máscara que encobriria a natureza efetiva do sistema de dominação vigente. não fosse a permanência da casa de Bragança como dinastia reinante no Brasil. como a da escravidão. estaria fora de lugar. tal como no projeto de José Bonifácio. Exato.

os empresários. mas sem muita convicção ao desenhar um projeto viável de futuro para a nação brasileira. por exemplo. também. os artistas —. Embora esses homens não se entendessem em continuidade com a geração intelectual anterior. de uma intelligentsia sonhadora. negação da história empírica e efetiva em nome de um ideal de fundação a cavaleiro de uma ruptura revolucionária. de reiterá-la. Podemos fazer uma contagem a partir de 1898. . cultivando mitos carismáticos. não é? Especialmente os homens da verdadeira primeira geração republicana brasileira. foi uma ideologia que levou a uma redescoberta do Brasil e à internalização de uma espécie de equivalente funcional do ethos puritano. A própria intelligentsia faz parte ativa da cena política dessa República. milenaristas — a idéia da necessidade do ato de fundação que viesse a tornar povo a composição heteróclita da sociabilidade. Descrença em tudo. uma contagem que inclui Luis Carlos Prestes e Gilberto Freyre (1900). vítima. e embora o nascimento dessa República tenha trazido alguns personagens novos que logo marcaram a história do país com muita força. Sérgio Buarque de Hollanda. inclusive porque começam a viver suas trajetórias pessoais em descontinuidade com ela. entre nós de forte pegada social. Carlos Drummond de Andrade e Juscelino Kubitschek. eles também não deixam. Uma intelligentsia dotada do impulso de intervir na cena política. os homens nascidos na passagem do século 19 para o 20. descrença como concepção do mundo. Em suma. De certo modo. sem entender que o positivismo. e uma lista de outros nomes tão significativos ou quase tão significativos quanto esses.429 Carvalho Franco no livro Homens Livres na Ordem Escravocrata. o tenentismo sem levar em conta Euclides da Cunha. Embora Joaquim Nabuco tenha afirmado que a Abolição da escravidão já punha em perspectiva a República. a partir da qual se abandonou o intimismo “hipercivilizado” de um Machado de Assis e se foi ao encontro da esfera pública. dominante em uma importante fração da intelectualidade. que não faziam sentido entre si. de alguma forma. a nossa história era vista sempre em compartimentos isolados que não estabeleciam conexão. todos de 1902. É impossível entender. especialmente a partir dos anos de 1910 — os operários.

na realidade. operários. não é isso? É. como Mário de Andrade e Villa-Lobos. ampliação autoritária da República: em 1937 o Estado realiza o moderno em composição com o atraso. O Rio de Janeiro foi um laboratório do moderno em que uma emergente sociedade de massas ensaia seus primeiros passos na esfera pública. no sentido de que ele perde na política e vence no campo das idéias. onde. quando o moderno “sai” da sociedade e se deixa capturar pelo Estado. a esfera dominante já era a do mercado. com a apropriação do seu inventário de idéias a partir da década de 1930. embora ainda inorgânico. no centro do Rio de Janeiro. que percorrem em armas o hinterland. Como ocorre em São Paulo. sanitaristas. então Capital Federal. Ampliação da República. muito especialmente a partir do Estado Novo. É o momento em que uma grande onda de inovação varre especialmente o Rio de Janeiro. e é preciso pensar no que foi o Rio de Janeiro como laboratório do moderno no Brasil. como os tenentes da Coluna Prestes. Há nesse processo que teria ocorrido de 1937 uma “ampliação da República”. artistas e intelectuais tem um desenlace ambíguo. em fins do século 19. instalado antes que a modernização econômica tratasse de demarcar as posições dos diferentes atores a partir dos imperativos de racionalização da vida social. um processo clássico de decapitação de lideranças de um movimento democrático. empresários. indianistas como Rondon. Um laboratório intelectual e político em que se adensou a noção do público. descobriu o sertão de Euclides da Cunha.430 Descobriu que o Brasil não terminava na rua do Ouvidor. são musicólogos. O exemplo maior . Redescobriram o Brasil no sertão. São esses homens que vão fazer seus vinte e poucos anos na década de 1920. homens que vão fazer uma “guerra de movimento” em busca das raízes da vida popular e do sentido oculto da nacionalidade. em 1937. São militares. antes que o processo de racionalização tivesse tocado o Brasil a partir de São Paulo. O Brasil se pensa e se repensa no Rio de Janeiro com extraordinária liberdade durante os anos de 1920 e no começo dos anos 30. complicado. pelas novas elites estatais. Esse importantíssimo movimento de militares. Foi. Eu chamo ampliação.

E Rodrigo Melo Franco de Andrade. de modernização por cima. veio também com essa pesada hipoteca: o moderno não nos trouxe a liberdade. Sempre a idéia da ausência de uma idéia: a da refundação. a criação da República. Mas você disse que o desenlace foi ambíguo. Há pouco um sociólogo falou sobre uma metáfora que me pareceu muito interessante: a presença do mito do sebastianismo na sociedade brasileira. Basta se pensar no papel desempenhado pelas elites mineiras na composição desse moderno: Gustavo Capanema. As mercadorias de consumo popular encontram no rádio seu veículo ideal. a emancipação da população servil. na verdade. Estamos .431 dessa composição foi a legislação social brasileira. pelo excesso de controle que exercia sobre a vida social. estilos e também em publicidade. sem encontrar. tudo isso. ambos intelectuais “orgânicos” do Estado Novo e egressos do mundo da tradição. em momentos de perturbação. guardava. e que viesse a lhe servir de âncora em tempos de crise. de mudanças. por exemplo. Francisco Campos. não foi estendida ao mundo rural. a industrialização. também. Desmoralização que lhe veio pelo autoritarismo. esses setores da emergente modernidade brasileira dos anos de 1920. De modo que esse grande momento de êxito. Em cada um desses momentos o que nossa intelligentsia procurava. Esse processo de modernização conservadora autoritária. e através dele se institui uma sociedade de massas em termos de comunicação. De modo que os melhores resultados produzidos pelo moderno ao longo do tempo. gostos. Certamente. a idéia da negatividade. um marco inaugural para o recomeço da sua história. as conquistas dos direitos sociais. Tal foi o resultado da celebração do acordo entre as elites modernas e as elites oligárquicas na passagem para a modernidade industrial de massas no país — já se pode falar de massas porque o rádio já está operando. que teve a sua eficácia confinada ao mundo urbano. como. em momentos de inquietação. manteve a igualdade a conta gotas e ao mesmo tempo preservou o que havia de atrasado na sociedade brasileira. acabando por desmoralizar a própria instância estatal que o deflagrou. era a construção de um marco fundacional. a despeito da positividade que lhe é intrínseca. trouxe para dentro de si e incorporou esses segmentos sociais.

como ocorre na teoria do populismo. se avizinhava. O ator do pré-64 se via mais confortável com a sua história do que o que vai emergir no período pós-64. . então. um corte que aprofundou aquele diagnóstico com o qual eu comecei a narrar esse dissídio entre nós e a nossa história. a partir de 1964. sobre as relações do Estado com a sociedade. sobretudo porque a questão nacional era uma questão forte na sociedade e nucleava grande parte da sua intelligentsia e dos atores sociais mais relevantes. Todos eles se referenciavam pela questão nacional. a percepção que se tinha do Estado que foi formado no Império. a porta de entrada nesse diagnóstico negativo sobre o Estado. na percepção da época. mas. um livro escrito em 1958. O golpe militar de 1964 rompeu com essa continuidade ao promover um esgotamento do projeto nacional de passagem para o moderno? 1964 representou um corte muito grande nesse movimento. a grande versão interpretativa sobre o Brasil. percebida em chave positiva. Também não é à toa que vão surgir. vai se tornar. e sua conclusão lógica deveria ser a da revolução nacional-popular. que antes de 1964 havia um ajustamento melhor entre o ator e a sua história. de Raymundo Faoro. do Estado de 1930 e até do Estado Novo. bovarista. É assim que temos vivido uma história em que nós não nos reconhecemos e não gostamos que seja a nossa. e Luís Carlos Prestes. Os grandes personagens evocados ou as duas grandes tradições evocadas compatibilizavam isso: Getúlio Vargas. que. É verdade. Não é à toa que Os donos do poder. teoria que abasteceu o primeiro núcleo de intelectuais formador do PT. por exemplo. porém. Uma história bovarista como indicou Sérgio Buarque de Hollanda? Sim. a esperança metafísica anunciando a incompletude da hora presente. Com isso era possível pacificar a percepção que se tinha do Estado — sobretudo. preferencialmente. interpretações negativas não só sobre o Estado. cabia centralidade ao papel do Estado.432 sempre projetados para uma saída utópica. como o sindicalismo. e que surge sem maiores repercussões no debate público e mesmo no debate acadêmico do período. Essa linha de continuidade era. nos anos pós-64. de um lado. do outro. e nessa. obviamente. progressivamente.

imediatamente antes dela. Foi um verdadeiro processo de conversão de uma legião de descrentes em nossa história e em nossas instituições! E vejam: esse processo de conversão é feito em uma velocidade extraordinária. ao sindicato. ou mesmo aquela destinada às escolas elementares: encontra-se lá a visão corrosiva sobre a nossa história. um homem vindo de um partido de trabalhadores. Tudo isso sem rupturas com a ordem democrática. o abismo que começou a separar a nossa sociedade. A formação do PT — e. o novo sindicalismo do final da década de 1970. Os exemplos mais comuns são encontrados na bibliografia que esse grupo criou. de onde saiu Luís Inácio Lula da Silva — expressa. mais do que qualquer outro indicativo. o Partido dos Trabalhadores não teria surgido também na sua origem com uma proposta de refundação. essa sociedade. sobretudo no que diz respeito às relações entre a sociedade e o Estado? Esse dissídio entre nós e a nossa história não faz senão se agravar nas décadas seguintes ao golpe de 1964. o Brasil tem a sua história absolvida: era possível um homem de extração popular chegar à presidência da República. uma nova República. especialmente aquela destinada ao público de massas. .433 Mas o PT. de sua história. encontrou o caminho de levar ao governo um partido de esquerda. e aí está a grande novidade em 2002. com a realização dessa pedagogia. Contudo. a essa altura uma sociedade de massas. vai tirando da sua frente e de dentro de si os obstáculos que se antepunham à sua vitória. salvo a partir de rupturas revolucionárias. sobre as nossas instituições. E massivo. Encontra-se também a idéia da impotência para mudar. particularmente a sua esquerda organizada. mas que parecia reclamar décadas! Com isso. sempre desajustada da história do país. um homem do mundo sindical. Tudo estaria então por refazer: uma nova Abolição. em poucos meses se fez todo um processo pedagógico. E o que faz para vencer? Para vencer. vai ser por dentro das instituições que essa sociedade. um novo Estado. Massivo.

continue sendo bastante melhor do que a nossa. A história teve êxito. a República. afinal. admite a mudança afortunada. a situação da Argentina. A Constituição de 1988. Ao contrário do que está ocorrendo nesse momento com a história da Argentina. do ponto de vista da percepção. inclusive de massas. a luz. olhando bem e com cuidado. o Estado Novo. Se olharmos o Brasil e a Argentina por esse ângulo. e Lula. sem abandonar a sua linha de continuidade. Esse era o grande divórcio que paralisava a sociedade brasileira. essa é uma história de acumulações. os tons sombrios — embora. a luz alegre da primavera. A situação brasileira é melhor apenas do ponto de vista da interpretação.. se dissociava. A grande virada se deu quando a democracia social foi obrigada a se casar com a democracia política. Ao contrário do que se apontava. a Abolição. em muitos aspectos. Sem dúvida.434 Sem rupturas. estabeleceu-se consenso. paisagens de uma coloração inteiramente diversa. a presidência de Juscelino Kubitschek.. a conquista do Oeste. A conclusão absolveu o processo — uma história interpretada como desastre. houve no Brasil uma mudança extraordinária protagonizada pelo setor que vem de baixo da sociedade e por uma esquerda que se descasava. A história está absolvida. revendo-se com um olhar reparador a Independência. dessa sociedade. lá. Acumulações progressivas? Progressivas. Aqui. a própria expansão das forças produtivas durante a ditadura militar. descortinam-se paisagens opostas. Do ponto de vista da cognição. . e foi sobre isso que. esta última objeto de uma clara referência positiva por parte do candidato Lula.

um tema que não necessariamente precisa se cumprir na sua arquitetura ideal. tal como ela se deu. um sentido que antes era negado a ela.435 É esse acúmulo que vai permitir. Sem estigmas. apesar dessa história cumulativa. a permanência de propostas que estavam sendo de alguma maneira desenhadas ao final da ditadura militar por alguns intelectuais como você. Esses mundos já se aproximaram com Getúlio Vargas nos anos de 1930. mas que está se cumprindo. não creio. Repare bem: esses momentos deixaram de ser demonizados por nós hoje e isso acontece porque a história ganhou um sentido que ela não tinha antes. e isso vai ser realizado. Isso é começo! Mas é começo de quê? Na sua opinião isso é o começo de alguma coisa diferente. existem as dificuldades da hora presente que são muito poderosas. Mas esse não poderia ser o nacional-popular entrando em cena de novo? Não. Evidentemente. a névoa que nos vinha do passado e prejudicava a nossa visão se dissipou. no discurso do PT. de algum modo. tendo a sociedade absolvido essa história. Apenas estou tentando ver o que se passou. hoje. A história não conhece créditos nem cobrança. Não creio. . do mundo do capital e do mundo do trabalho. Não sabemos se isso é o começo do que se passou ou se é o fim. ao aproximar os personagens do mundo da produção. hoje. mais uma vez. Mas é começo de quê? Eu acho que. no interior do Estado. por exemplo. um sentido trazido pela vitória de Lula. como ocorre com o tema do pacto social. e por uma estrutura que vem da esquerda do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB)? Eu não tenho crédito. sem manifestações idiossincráticas. tal como foi realizado no contexto histórico de Vargas e de Juscelino Kubitschek. mas percursos que antes foram realizados sem sucesso podem ser retomados agora.

não é mais um personagem apenas da sua história — é um personagem. um processo que opera com uma base de critérios. do nosso continente e é um personagem do mundo. Mas não tem algo como a volta do nacional-popular? Não creio. Mas acho que essa importância se expressa também pelo mercado. inclusive os que pareciam intransponíveis. nesse caso. tal como já está. em primeiro lugar.436 Evidentemente. o Brasil também precisa jogar no contexto americano e. nos acena com a importância cultural do Brasil. nossa indústria é uma indústria sofisticada e. Mas. é. Mas é difícil pensar sobre isso. um aceno que não é acidental. que não deriva apenas da história pessoal do autor. E esses obstáculos foram removidos num processo de criação política sem paralelo na história. valores e dimensões universalistas. É preciso que o Brasil seja capaz de realizar uma influência benfazeja na condução da forma como deva se processar nossa . Parece grandiloqüente mas eu acho que não é. pois já indica um reconhecimento da nossa projeção no mundo. O Brasil reintegrado na sua história. o que faz com que haja uma possibilidade de jogo. O Brasil é um dos grandes produtores de grãos do mundo. pela política e pela economia — uma só moeda para toda a Europa. essa é uma retomada difícil em virtude do contexto de globalização em que vivemos. no momento de sua constituição tratou de remover todos os obstáculos. muito especialmente. A União Européia tem percebido o papel que nós podemos desempenhar. E como o Brasil se transforma em jogador relevante nesse cenário? O Brasil está entre dois mundos. Mas você acredita que esse aceno vem em conseqüência do campo cultural? O Brasil tem essa importância continental e mundial por conta de sua produção cultural? Acho que também por isso. o Brasil é jogador. A União Européia realizou a obra de Napoleão: a Europa foi unificada sem guerra. um filme belíssimo por sinal. mas é algo que existe independentemente dele. também. no contexto sul-americano. Veja: a União Européia. pela diplomacia. hoje um jogador extraordinariamente relevante. Ao mesmo tempo em que esse é um processo que se dá no interior de uma fronteira nacional e no interior de um território muito circunscrito. Fale com Ela. O mais novo filme do Almodóvar. para que isso aconteça.

Eu acredito que confrontar não é bem o caso. O Brasil é a grande liderança ibero-americana no mundo. Evidentemente. mas desconfio das intenções dos que afirmam a prevalência do tema da desigualdade sobre o da pobreza. O tema da desigualdade importa uma leitura da nossa história em chave oposta a esta que formulei ao longo da nossa conversa. atacar os interesses dos setores organizados. Recentemente. brasileira. mas essa liderança pode ser limitada ou confrontada pela condução atual da política norte-americana de segurança nacional. mas também porque é do interesse do sistema internacional. para ser uma questão continental e mundial. que são acusados de privilegiados. e de sua capacidade de abrir e encontrar espaços. tudo isso que estamos conversando vai depender da orientação diplomática que se inicia agora. base de suporte da esquerda. Sim. É claro que o crescimento econômico. Então qual o grande desafio do Brasil agora? Eu diria que não é tanto. a integração do nosso continente ibero-americano no mundo. mas atua logo de modo altamente positivo sobre a diminuição da pobreza. o grande objetivo. Abordá-lo como um desafio da hora presente importa. Acho muito difícil que o Brasil não vá à Alca — acredito que o Brasil irá. e negligenciar a agenda da retomada do desenvolvimento econômico. por si só. para mim. Mas ele irá negociando. . Eu só queria lembrar que a questão da fome e da pobreza é também uma questão mundial. A política norte-americana atual tem condições de impor limites. que o Brasil seja mais jogador. não erradica a desigualdade. Eu sei. de uma política social no país. é certo. nas condições dadas. especialmente da União Européia. digamos. deixou de ser uma questão. local. como insistem alguns. o tema da desigualdade. o desafio hoje está no tema da pobreza. não só porque exerce liderança subcontinental importante.437 integração no mundo. com o governo Lula. que é. entre outras coisas negativas. um diretor do Banco Mundial afirmou que esse problema deixou de ser periférico.

nosso herói. enfim. no enterro cívico de Tancredo Neves. agora estamos assistindo uma ampliação democrática da República. Como é que o Brasil avança? Avança por movimentos que apertam. a porca do parafuso. No filme. o que significa fazê-la passar pelo sistema da representação. Mas o que ganhou contra essa percepção do cronicamente inviável foi o cronicamente viável — ganhou o Sérgio Buarque de Raízes do Brasil. A nossa Bastilha? Qual Bastilha? A de 1789? A fabulação dos nossos utopistas não ousa tanto. no impeachment de Collor e. a política e a funcional. Agora. não é capaz de levar à frente a absolvição da nossa história. como é o caso dessas instituições novas presentes na nossa institucionalidade. uma sociedade onde o experimento político democrático encontra sérias dificuldades para se enraizar no cotidiano das pessoas. com uma leitura sobre o Brasil na contramão do que nós estamos conversando? Muito resumidamente. agora. O que você entende por representação funcional e como ela pode dar passagem à questão social? . Chegamos à Bastilha de 1981. quer dizer. anônimo. um filme produzido já no final governo Fernando Henrique Cardoso. como nas greves sindicais de fins dos anos 1970. Se sobre 1937 podemos falar de ampliação autoritária da República. em mais uma ranhura. a questão social se impõe a todos os personagens da vida brasileira e o desafio está em saber encaminhá-la no contexto de uma república democrática. feito em São Paulo. o homem comum. Fizemos rodar a porca mais uma vez na ranhura do parafuso. nesse dia da comemoração da vitória da esquerda brasileira.438 Você viu um filme. o filme vai concluir que o Brasil é cronicamente um país inviável. somos... como a ação civil pública. Hoje. de Mitterand. Cronicamente Inviável. Esses são os temas que estão saindo vencedores dessa agenda. Não vi. na luta pelas diretas já. cronicamente viáveis. nosso problema é pensar como o Brasil avança. um movimento progressivo e em espiral. ganhou o tema da democracia racial em Gilberto Freyre. Cada movimento nesse apertar da porca do parafuso tem-se feito acompanhar por grandes manifestações massivas.

Lula trouxe o sindicalismo para o contexto republicano. que eles têm de trazer para a sua lógica sindical a lógica da ação republicana. embora seu partido tenha nascido fora desse contexto. na tentativa de realizar o que a literatura chama de representação generalizada. Esse vai ser um processo de seleção natural. em certo sentido. uma articulação entre o social. que eles são parte do governo. Entretanto. como nos casos da ação civil pública e da ação popular. Gostaríamos que você esclarecesse mais a questão do encontro de Lula com os governadores. podem ser complementares em um processo de mútuo reforço. capazes de levar em conta a pluralidade dos interesses existentes. Em princípio. tal como já se comprova na experiência brasileira. impondo a procura de soluções mais generosas. Penso que nessa equação está a possibilidade de nós conseguirmos desbravar um caminho novo. não se demonstrarão à altura das circunstâncias e vão ser afastados. os arquitetos dessa saída ainda não são conhecidos e não necessariamente são os homens que estão aí. e. O encontro na cidade mineira de Araxá entre Lula e os governadores eleitos pelo Partido da Socialdemocracia Brasileira (PSDB). eu quero dizer que nós estamos no limiar de construirmos uma socialdemocracia. contrário a ele. muitos aparecerão. de fato. Nessa reunião. A reunião do Lula com os dirigentes sindicais também foi muito interessante: uma reunião em que Lula diz para as diferentes centrais sindicais do país e de São Paulo. no Brasil. especialmente por meio dos novos institutos que permitem a cidadania adquirir e defender direitos contra o Estado e as empresas. que é o tema da economia mesmo. A ação combinada delas pode aumentar a pressão da sociedade sobre o mundo sistêmico. foi uma demonstração clara do potencial contido nesse caminho. em particular. e não como simples força social do mercado. Para tornar essa discussão mais empiricamente referida.439 A representação funcional é aquela que se exerce no cenário do Poder Judiciário. Aí está o sindicalismo como personagem da vida republicana. isto é. o político. essa forma de representação não colide com a da representação política. o partido derrotado nas eleições presidenciais. o econômico. Enfim. Esse é o começo de que você falava? Claro. que encontre o seu vetor naquele primeiro termo. mais inclusivas. e. tudo isso resulta em muita inovação. em particular os dos setores subalternos. Por que o encontro tem essa importância? .

Digamos que essa vitória popular não tivesse as características de “absolvição” da história do país que procurei narrar aqui. mais que isso. É aberta. mas não só . não é travada. É esse o movimento por que estamos passando. porque sempre se recompõe. como aparece tão claramente na questão racial — o grande laboratório pelo qual passamos para instalar a dialética no centro da nossa vida. Não. e creio. não apenas pela ótica da governabilidade. extraordinário não apenas para a jovem geração da intelligentsia. Isso leva a um movimento muito interessante: a natureza cognitiva básica. Essa possibilidade de encontro é bem-vinda. que não pode conhecer a síntese. e. Para que essa porca pudesse girar. que vem construindo sua identidade por meio desse recurso metafísico. O que se impôs aqui foi a dialética como a categoria básica do brasileiro.440 O que eles trataram ali foi do tema da governabilidade e também da convergência de interesses. É um momento pedagógico. Porque ele tem sempre que negociar. ele tem sempre que resolver antinomias. fundamental. numa espiral. porque os seus termos sempre se repõem. pois há evidentes vizinhanças entre a socialdemocracia do PSDB e a do PT. como está acontecendo agora com a reanimação da nossa história por forças políticas que antes descriam dela. Nós não tivemos um movimento fundacional. comprometido com a idéia de refundação. Muito importante para ela. a erupção agressiva de uma nova identidade no mundo. embora sempre de forma cada vez mais rica. Qual a lógica desse processo? O quadro que eu venho tentando expor aqui pode ser exposto a uma demonstração pela lógica do absurdo. houve a necessidade da conversão a que aludi. É uma dialética que sabemos que não conhece a síntese. contradições que vão fazendo com que ele seja um outro e vá mudando no curso da negociação. porque ele não pode realizar nenhum movimento que obedeça à mesma lógica da inspiração originária. É uma dialética travada. Se o presidente chegasse com uma visão negadora e negativa da tradição do passado. da sociedade brasileira se expressa através da dialética. O brasileiro não pode viver sem a dialética. onde estaríamos? Numa impossibilidade absoluta.

que votou no Lula e quis o Lula. que sabe a que constrangimentos ele se encontra subordinado. É importante para o homem comum. que entende esses constrangimentos e espera que sejam superados porque já começa a acreditar nas instituições da democracia brasileira e a reconhecer que elas admitem a sua influência.441 para ela. .