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Extraído do livro: MACIEL, Maria Esther (org.

) Pensar/escrever o animal – ensaios de zoopoética e
biopolítica. Florianópolis: Editora da UFSC, 2011, p. 85-101.

POÉTICAS DO ANIMAL

Maria Esther Maciel
(Universidade Federal de Minas Gerais/CNPq)

Os paradoxos do outro

Os animais, sob o olhar humano, são signos vivos daquilo que sempre escapa à
nossa compreensão. Radicalmente outros, mas também nossos semelhantes, distantes e
próximos de nós, fascinam-nos ao mesmo tempo em que nos assombram e desafiam
nossa razão. Temidos, subjugados, amados, marginalizados, admirados, confinados,
comidos, torturados, classificados, humanizados, eles não se deixam, paradoxalmente,
ser capturados na sua alteridade radical. Como diz John Berger, “quanto mais julgamos
saber sobre eles”, “mais distantes eles ficam”.1 Mas essa estranheza, por outro lado,
provoca o lado animal que trazemos dentro de nós, lá onde não conseguimos definir
com precisão.
Mas o que é o humano e o que é o animal? Se a ciência e a filosofia ocidentais se
arrogaram a responder tais perguntas a partir de critérios forjados em nome da
racionalidade e a serviço do que Agamben chamou de “máquina antropológica do
humanismo”,2 outras vias de acesso a possíveis respostas podem ser identificadas nos
vários campos do saber e do imaginário humanos. No que tange à literatura, por
exemplo, pode-se afirmar que as tentativas de sondagem da outridade animal nunca
deixaram de instigar a imaginação e a escrita de poetas e escritores de diferentes épocas
e procedências, seja pelos artifícios da representação e da metáfora, seja pela evocação
conscienciosa desses outros, seja pela investigação das complexas relações entre
humano e não humano, entre humanidade e animalidade. Tal esforço indica tanto uma
necessidade de apreender algo deles quanto um desejo de recuperar nossa própria
animalidade perdida ou recalcada, contra a qual foi sendo construído, ao longo dos
séculos, um conceito de humano e de humanidade. Afinal, foi precisamente através da
negação da animalidade que se forjou uma definição de humano, não obstante a espécie
humana seja fundamentalmente animal.

nos séculos anteriores. teve seu ponto crucial na era moderna. Foucault chega mesmo a apontar uma certa resistência. Visto como máquina. uma vez manifesta. ela foi confinada aos territórios do mal. permite-nos dizer que tal afirmação já não parece proceder inteiramente. não tenha havido uma recusa da animalidade. mais especificamente. em pleno século XX. Como explica Michel Foucault ao tratar dessa dimensão negativa da animalidade na cultura ocidental e. através da proliferação de seres híbridos e das metamorfoses diabólicas na literatura e nas artes. o que se refletiu na própria produção simbólica do tempo. 4 E mesmo em períodos de repressão bem posteriores. Para os adeptos dessa demonização. como na era vitoriana. como os de Lineu. Basta uma menção. sob a designação de bestialidade.. conduzindoo ao grau zero de sua própria natureza. desenlaça a razão na violência e a verdade no furor do insano”. de repente. um mero corpo automatizado e sem alma.Cabe lembrar que a cisão entre homem e animal. afirmando que. entretanto. sob o influxo das ciências de observação e experimentação que precederam o surgimento dos zoológicos na Europa. despojaria o homem de sua humanidade. advindos de uma nova relação dos escritores e artistas não apenas com os animais.. Ou seja. mas . à demonização por que esta passou sob o peso do cristianismo ao longo da Idade Média. no contexto medieval (quando “o relacionamento entre o ser o humano e a animalidade foi o relacionamento imaginário do homem com os poderes subterrâneos do mal”). mais especificamente a partir do século XVIII. quando a parte animal que constitui a existência humana foi instituída como o lugar de todos os perigos. o animal passou então a ser esquadrinhado a partir de critérios taxonômicos bem definidos. da violência. com o triunfo do pensamento cartesiano. humanidade e animalidade.] talvez não tenha ainda penetrado de modo profundo nos espaços subterrâneos da imaginação”. a parte animal. uma vez que as narrativas voltadas para as relações entre o humano e o não humano passam a ser reconfiguradas a partir de outros enfoques.5 Um olhar sobre o horizonte cultural das últimas décadas do século XX e da primeira do século XXI. embora a relação entre humano e animal tenha adquirido no nosso tempo uma positividade natural. que.3 ela representava para o homem “o abafado perigo de uma animalidade em vigília. O que não significa que. Aliás. a aceitação do animal como um ser que “participa da plenitude da natureza. por exemplo. deslocada para fora do humano. à aceitação positiva do animal. da luxúria e da loucura. a associação da parte animal do humano aos poderes do mal foi explícita. de sua sabedoria e de sua ordem [.

No que se refere especialmente à esfera poética como o espaço privilegiado para a apreensão da chamada animalidade. tarefa atribuída. à apropriação figurativa. É também o que me está mais longinquamente escamoteado.7 Nesse caso. ela pode nos levar também. pela linguagem. Isso porque. é impossível que sejam mantidas. nesse caso. Essa profundidade. Nele. vale lembrar as considerações de Georges Bataille sobre a questão.também com as conjunções/disjunções entre humanidade e animalidade. mas como uma espécie de conhecimento. à poesia. concebida não como uma mera afirmação contrária ao que se chama de verdade para induzir ao erro. que vão do esforço figurativo (mais comum à narrativa) ao gesto de apreensão. o autor sugere que. visto que os humanos precisam se reconhecer animais para se tornar humanos. ao mundo incógnito da animalidade. no livro Teoria da religião. já não há como lidar com tais fronteiras senão pela via do paradoxo: ao mesmo tempo em que são e devem ser mantidas – graças às inegáveis diferenças que distinguem os animais humanos dos não humanos –. o que merece esse nome de profundidade que quer dizer com precisão o que me escapa. . As tentativas literárias de recuperar o elo intrínseco entre o ser humano e o não humano afirmam-se. um saber alternativo (e plausível) sobre o que escapa à representação. um conhecimento que se aloja na ordem dos sentidos (ou das sensações) e que desafia a nossa capacidade de circunscrevê-lo em categorias do pensamento. São formas um tanto variadas. como formas criativas de acesso ao outro lado da fronteira que nos separa do animal e da animalidade. Mas assim é também a poesia. pela via da mentira (ou falácia) poética. sobretudo. ela também viabiliza um encontro. em nosso tempo. Hoje. obviamente. se a poesia propicia uma inscrição possível da animalidade no corpo da escrita. assim. de uma possível subjetividade animal.6 Mas a mentira. em certo sentido. Nas palavras de Bataille: O animal abre diante de mim uma profundidade que me atrai e me é familiar. o que é supostamente comunicado no encontro com o animal e a animalidade através do fingimento poético (no sentido dado à expressão por Fernando Pessoa) seria. entre o humano e sua própria outridade animal. ainda que fictício. portanto. a conheço: é a minha. se a poesia nos leva ao não sabido.

em alguns textos. pelo fato de ser privado de logos. que. como em uma floresta virgem. Nas suas palavras: Neste conceito que serve para qualquer coisa. Kant. sob o título “O animal que logo sou (a seguir)”. o esquilo do tigre ou o elefante do gato. o uso. o camelo da águia. no singular da palavra animal. nos discursos desses pensadores. o papagaio do chimpanzé. as formigas do bicho-da-seda ou o ouriço da equidna. proferida em Cerisy-la-Salle em 1997 e publicada parcialmente no Brasil em 1999. usaram o animal enquanto mero teorema para justificar a racionalidade e a linguagem humanas como propriedades diferenciais (e superiores) em relação aos outros viventes.9 Daí a proposta do filósofo de substituir a palavra “animal” pelo neologismo (uma palavra-valise) “animot”. um espaço de domesticação. na forma de ensaio. à sondagem da poesia como o espaço privilegiado para abordar o animal. um nome forjado pela razão. inclusive. já que todo conceito de animal ou de animais é sempre uma construção humana.Derrida. como Heidegger. através do qual questiona também toda uma linhagem de filósofos como Descartes. Lévinas e Lacan. num conceito único e homogeneizante é tanto uma falta contra os rigores do pensamento quanto um crime contra os animais. o tubarão do carneiro. Afinal. O filósofo questiona. no singular genérico. o que se vê sobretudo na conferência “L’animal que donc je suis”.8 Nesse texto. um território de caça ou de pesca. fora o homem. um parque zoológico. todos os viventes que o homem não reconheceria como seus semelhantes. um viveiro ou um abatedouro. o que realmente . a partir da crítica a essa afirmação. no vasto campo do animal. o autor não apenas confronta a assertiva de Heidegger segundo a qual “o animal é pobre de mundo”. E isso apesar dos espaços infinitos que separam o lagarto do cão. no estrito fechamento deste artigo definido (“O animal “e não “animais”). por acreditar que o confinamento de todos os viventes. o protozoário do golfinho. ou uma quimera. da palavra “animal” no singular genérico. seus próximos ou seus irmãos. seriam encerrados. um processo de desconstrução do humanismo logocêntrico do Ocidente. o plural “animais” e mostrar como a linguagem afeta o nosso acesso à complexidade do mundo não humano. os animais e a poesia Jacques Derrida também se dedicou. como forma de fazer ouvir. mas realiza. Isso mesmo sabendo que o termo não passa de um artifício.

justificada pela ideia de logos. por essência. o filósofo não apenas defende uma aproximação corporal. um animal de carne e osso. em direção ao “animal em si. diante do olhar de seu gato. ele parte de uma experiência pessoal: a de ter-se surpreendido. e é disso que a filosofia. visto que. inclusive. eis aí uma tese. tomada como uma recusa do conhecimento exclusivamente racional. quando essa verdade me dá a ver nos olhos do outro. Derrida aponta duas grandes “situações de saber” sobre os animais: a que reduz o animal a uma coisa. A primeira estaria assentada na cisão abissal entre humanidade e animalidade. É a diferença entre um saber filosófico e um pensamento poético”.12 Cito um fragmento: Que me dá a ver esse olhar sem fundo? Que me “diz” ele que manifesta em suma a verdade nua de todo olhar. em . segundo Berger. entre a espécie humana e as demais. Para tanto. e assim é um índice que nos separa deles”?10 O saber que os homens julgam possuir se aloja. Sob esse prisma. nos olhos vendo e não apenas vistos pelo outro? Penso aqui nesses olhos que veem ou nesses olhos de vidente cuja cor seria ao mesmo tempo ver e esquecer. sensível. por exemplo. “os confins do homem”. assim. A segunda. incluindo os de língua portuguesa. fora dos artifícios do conceito e da metáfora. no enquadramento específico de uma percepção instituída. para justificar os processos de marginalização e coisificação desses outros. como também confere a cada animal (aqui no singular particular) o estatuto do que chamamos de sujeito. Derrida formula uma proposição: “Pois o pensamento do animal. foi exatamente essa consciência de se ver observado por um “olhar animal” que lhe possibilitou enxergar “o limite abissal do humano”. Herberto Helder. nos limites do conhecimento racional. cabe à poesia. Para o filósofo. “uma coisa vista mas que não vê”. adviria do desejo de apreender o outro também pelos sentidos e pelo coração. “o que sabemos sobre os animais é um índice de nosso poder. nu e em silêncio. teve de se privar. A partir dessas duas possibilidades humanas de conhecer os viventes não humanos.sabemos sobre esses radicalmente outros. servindo. levando-o ao trespassamento das fronteiras entre o humano e o não humano.11 Ao priorizar a troca de olhares no ato de apreensão da alteridade animal. se pensamento houver. ao animal em mim e ao animal na falta de si-mesmo”. e a que se sustenta na troca de olhares com ele.13 Interessante observar como esse tema do olhar animal tem instigado vários poetas contemporâneos.

o encontro com o réptil se dá num jardim. E o “tudo” desse saber também se inscreve numa outra ordem que. concentra-se no que de fato conta ou importa em tal experiência: a constatação da outridade radical (e insondável) da serpente e. que mistura sensação e alento de uma forma que ninguém jamais explicou. não deixa de suscitar algumas indagações: Que saber é esse? Que tudo é esse? É realmente possível saber tudo sobre esse “outro mais outro que qualquer outro”? O que o poema de Helder nos sugere é que o saber advindo da troca de olhares com a serpente não pode ser reduzido a conceitos e tampouco nos leva ao conhecimento da intimidade da serpente. graças “ao processo chamado de invenção poética. No caso da poeta brasileira. 15 E é dessa maneira que eles podem trazer à vida. nem explicará”. ao final. sobre o ato de encarar os olhos de uma serpente. longe de apontar para a ideia de totalidade. o que ela registra é um sobressalto. ao evocar uma cena. Sensação de asco me percorrendo inteira . essa instância nebulosa que resiste à apreensão pela linguagem verbal. Como diria Elisabeth Costello – personagem-dublê do escritor sul-africano John Coetzee –. por vias transversas. Em vez de terror. Isso porque esse saber se manifesta numa zona de indeterminação e dura apenas enquanto dura o arrepio. que abre o humano a formas híbridas de existência. O que corrobora a proposição de Derrida quanto à potencialidade da poesia em se tornar tanto um espaço de aproximação possível com a outridade animal quanto um tópos de travessia para o que chamamos de animalidade. o reconhecimento da animalidade que com ela se pode compartilhar através da poesia. de 2006. similar à de Helder. os poetas nos ensinam mais do que sabem.”14 Este último verso.um dos poemas do livro A última ciência. Isso é o que evidencia também Astrid Cabral em um de seus poemas do livro Jaula. propiciando um trespassamento de fronteiras. mesclado ao asco e à sensação de estranheza: Olhei-a frente a frente: sua cabeça erguida em talo eu entalada o colo em sobressalto. em consonância com a proposição de Derrida sobre a poesia. paradoxalmente. diz: “Sabes tudo.” E. fala da perturbadora experiência de olhar uma serpente nos olhos: “sentes como a inocência/ é insondável e o terror é um arrepio/ lírico. o corpo vivo do animal dentro de nós mesmos.

O primeiro contato entre as duas ocorre também através do olhar: a mulher vê a barata. sem nojo. inclusive. tudo se passa no interior da narradora/personagem. na ordem da abjeção e do fascínio ao mesmo tempo. a mulher toca a serpente fraternalmente. é dela nela mesma. Ela entra em crise com sua própria humanidade. finalmente. sem medo.H. reconhece que desejar o inumano dentro da pessoa não é perigoso e encontra no ato de comer a barata a revelação da vida.19 A experiência da personagem. digamos. observar diretamente a barata. A paixão segundo G. Desviei rapidamente os olhos. É que eu olhara a barata viva e nela descobria a identidade de minha vida mais profunda. monstruosa de uma barata. E nesse cruzamento de olhos. nos remeter obliquamente à cena da barata (sem dúvida. Em derrocada difícil. radicalizada no gesto final de comer a barata. Nesse processo. bem mais ousada e radical) do romance mais poético de Clarice Lispector. fecha os olhos de pavor. abre-os e se perturba pelo olhar do inseto: “Viva e olhando para mim. Ambas coincidentes no tempo”. levando esse enfrentamento a um processo de interação visceral com o inseto. e a metamorfose.H. . O que se sucede é a seguinte constatação: “o que eu via era a vida me olhando”. como ocorre com Gregor Samsa em A metamorfose. E nesse reconhecimento da afinidade. como diz a própria narradora/personagem do romance..”18 A atração. embora não esteja associada propriamente a uma transformação literal da mulher na barata. de Kafka. assim. “Ambas inquilinas do mesmo solo. inscreve-se. e se confunde com ela. o horror se transforma em claridade. em que a mulher enfrenta a outridade. identificando-lhe os traços e a compacidade do corpo. diz a autora. a mulher experimenta a travessia dos limites de sua própria humanidade. no poema de Astrid Cabral poderia.17 A passagem da mulher que toca a serpente.16 Irrompe desse encontro súbito da mulher com a serpente a revelação de um segredo que as une e que “dá cabo do medo”: o veneno e a inaptidão para o voo.tamanha a estranheza de cores e contornos postos em confronto. rumo à vida em estado de nudez: Era isso – era isso então. numa espécie de devir-animal. em repulsa violenta.. leva a mulher a suportar a repugnância e. Em A paixão segundo G. contudo. abriam-se dentro de mim passagens duras e estreitas.

podemos retomar Bataille e dizer que se a poesia conduz ao mundo espinhoso da animalidade. mas que resta no corpo como incisão. lá onde a .22 ou seja. De uma só vez. não há poema que não se abra como uma ferida e também abra uma ferida”.” Nas palavras do filósofo: Assim desperta em ti o sonho de aprender de cor. se expõe e se retrai”. imaginar e escrever o animal só pode ser compreendido como uma experiência que se aloja nos limites da linguagem. nesse contexto. ele se protege.Tanto no caso de Clarice quanto no de Astrid – não obstante a referência simbólica desta autora ao mito bíblico da serpente –. desarmar a cultura. não se confunde com “o coração arquivado em eletrocardiogramas. enrolando-se. de acordo com Derrida. Uma experiência que passa. outro escrito derridiano voltado para a poesia. no qual o filósofo elege como eixo da discussão uma imagem animal: a do ouriço que se enovela sobre si mesmo ao ser lançado. fingimento poético. isso é a experiência poemática. de 1988. ferida ou segredo. esquecer o saber. entrar no registro da poesia. Vale trazer. incendiar a biblioteca das poéticas”. nesse caso. numa rodovia.23 Por outro lado. enfim aquilo que a palavra coração parece querer dizer e que na minha língua mal distingo da palavra coração. simultaneamente. De deixares que o coração te seja atravessado pelo ditado. Chamo poema àquilo que ensina o coração. fechar-se sobre si e se expor ao mundo é. o estado do próprio poema. exposto à sorte. então a escrita de tal coisa só pode se manifestar enquanto ficção. e isso é o impossível. faz-se necessário. E essa condição paradoxal do animal de. mas um trespassamento íntimo de fronteiras. Mas o coração. afirma ele. que abre o humano para formas híbridas de existência. Por esta experiência e por esta expressão. objeto de saberes e técnicas. o encontro/identificação com o animal aponta para um movimento que não é necessariamente o da imitação. Tratase de um breve artigo intitulado “Che cós’è la poesia?”. à experiência do “pegar e largar”. assim. “Não há poema sem acidente. que inventa o coração. que nos permitamos “desamparar a memória.20 Exposto aos acidentes da estrada. Do que se conclui que pensar. “essa coisa que. como uma bola de espinhos. ou poema. Não conhecias ainda o coração. pelo desejo de aprender par coeur.21 O ouriço jogado na estrada incitanos. do toque que se retrai ao contato do espinho. solitário. o da alegoria ou o da transformação física do humano em animal não humano. segundo o filósofo. assim o aprendes. ao mesmo tempo. pelo coração. ao mesmo tempo em que se abre como perigo para quem ousa tocá-lo. E para que se possa definir esse pequeno animal. como o poema.

contudo.25 Quando a poeta Astrid Cabral tenta falar de um pássaro e escreve “conheço-lhe o passarês/ sem jamais decifrar-lhe a voz”.26 ela admite que os atos de falar e pensar não dão conta desse dizer desprovido de palavras. pela “intrusão clandestina” do advérbio.28 O animal como sujeito . um compromisso: não reduzir o animal (nem o poema) a mero construto. no chiado do leão sem dentes que segue de longe a própria matilha sem ouvir o ó crescente das hienas que comem. Já Nuno Ramos reduz essa escrita a um “Ó” sonoro e redondo. diria de novo Herberto Helder. na lã das mariposas e das taturanas. não está isento – no pensamento derridiano – de um compromisso ético do poeta com esse outro. seriam aqueles que conseguem pensar e poetizar os animais – para isso explorando as potencialidades da linguagem verbal – sem colonizálos nem colocá-los a serviço da soberania humana. no pelo dos ursos. nas colmeias. apesar de eles não compartilharem um registro comum de signos. cabe ao poeta uma responsabilidade. como mostrou Derrida. o que está implícito nesse sintagma. nesse sentido. Se o poema é o tópos privilegiado para escrever o animal. a ausência do lobo onde seu passo furtivo se inscreve). cabe aos poetas escrevê-lo “à pas de loup”. Mas. mesmo assim. a poesia deixa sempre um resto. a uma coisa a ser manipulada para atender a propósitos exclusivamente estéticos ou a boas intenções ecológicas. à astúcia entocada. Em outras palavras. essa expressão traz no vocábulo “pas” tanto o substantivo “passo” quanto o advérbio “não” (este indicando uma ausência. um ó aos ratos. Já que não é possível traduzir inteiramente em palavras um lobo em sua singularidade animal. uma vez que. lugar onde a linguagem se inscreve menos como fala do que como voz. Os poetas mais instigantes. que está fora e dentro de nós mesmos. comem neste momento o seu próprio cadáver. ao espinho na pata. um rastro de saber sobre ele.27 Esse gesto de poetizar o animal. em La bête et le souverain. é que o lobo não está lá.24 E ainda que falhe tal experiência de traduzir esse “outro mais outro que qualquer outro”.aproximação entre os mundos humano e não humano se torna viável. Há que se pensar com delicadeza/ imaginar com ferocidade. insiste em escrevê-lo. uma microfonia que cresce nos bichos.

.. de Herberto Helder. por exemplo.. onde lemos: [. de Carlos Drummond de Andrade que.] Que nos pergunta o boi desde o silêncio e sobre este seu estrume. as margens do humano e do não humano se confundem e provocam novas (e silenciosas) indagações: onde termina uma margem e começa a outra? Na “fome bestial” do homem? No sinal de interrogação do boi? Essa interação entre o sujeito poético e outras criaturas animais se dá a ver ainda na parte IV do longo poema “Poemacto”. o “eu” dos animais não humanos. como se dele fôramos o seu mistério. diante de um “eu” que tenta converter a cena em paisagem de palavras.Outra questão que se coloca nesse contexto é o esforço de vários poetas em apreender. pondo em xeque a capacidade dos homens em entender outros mundos que não o amparado pela consciência.32 Os versos que encerram o poema são incisivos e irônicos: “O boi não nos decifra.. encena a voz de um “eu-bovino” que rumina seu próprio conhecimento sobre a vida e a espécie humana. esse ./ Nós devoramos o boi. Munido e consciente dos poderes da linguagem verbal..29 Esse é o caso.. pela palavra articulada.30 Um recurso também adotado por Eucanaã Ferraz no poema “Fado do boi”. entrar na pele deles.33 no qual vacas dormem em “campos abandonados pelo silêncio”. conjeturar sobre seus saberes acerca do mundo e da humanidade. espécie de recriação interrogativa do poema drummondiano. cerne hostil de sua compreensão do mundo e de si mesmo.” Desta forma.] Interroga sobre nós talvez. seu espaço. flor extrema? Que nos pergunta em sua Ronda infinita desde O dorso de um vaso Sua pergunta redonda desde O afresco em ruínas desabando [. encarnar uma subjetividade possível (ainda que inventada) desses outros. no poema “Um boi vê os homens”. seu tempo. imaginar o que eles diriam se tivessem o domínio da linguagem humana.]31 Mais adiante. o poeta lança uma possível resposta: [.

quem os submete ao sacrifício. inclusive. no seu dizer. renegados à condição de outros de nossa cultura e potencialmente não merecedores de consideração legal e moral. tanto em termos linguísticos quanto ético-políticos. Se “tudo dorme nas vacas”. razão. consciência. Do que o poeta conclui: “Criar é delicado.34 Percebe-se. Até que ponto se pode falar propriamente de uma subjetividade animal? O que vem a ser subjetividade? É uma instância reservada apenas àqueles que se enquadram nas categorias de eu. esse “eu” busca mergulhar “no que é o obscuro/ de uma vaca dormindo”. como se a palavra pudesse efetivamente eliminar a distância que o separa da enigmática intimidade da vaca e o conduzir à experiência da outridade. dedicada a Lacan e não incluída na edição brasileira. usada cartesianamente pelo psicanalista francês para marcar o . uma vez que não apenas os animais são impedidos do acesso ao “quem”. ego. de reconduzir à questão do sujeito e da subjetividade./ Criar é uma grande brutalidade”.35 Tais tentativas poéticas de encarnar uma suposta subjetividade animal não deixam.37 Além de estar determinada por uma concepção genérica de “humano” e excluir todos os viventes não humanos. justificou por que raramente usava os termos “sujeito” e “subjetividade”. quem decide a vida ou a morte dos não sujeitos.36 Sob esse prisma. o texto se concentra na análise da oposição entre “reação” e “resposta”. Esse “quem” é. Daí ele concluir que o conceito de sujeito construído historicamente se configura como uma rede de exclusões. Intitulado “Et si l'animal repondait?”.sujeito expõe sua própria capacidade de “meter um nome na intimidade de uma coisa/ e recomeçar o talento de existir”. mesmo sabendo que esse gesto de invadir com a palavra o território reservado ao outro. não deixa de ser uma forma de violência. Tal discussão se apresenta especialmente profícua na segunda parte da palestra “O animal que logo sou”. personalidade. decorrente de uma “inteligência cruel”. como também vários grupos de seres humanos considerados não sujeitos. por ser uma categoria restrita “à gramática do que chamamos gramática ocidental e limitada pelo que acreditamos ser a própria humanidade da linguagem”. ele afirma. contudo. preferindo falar de “um efeito de subjetividade”: “Porque o discurso sobre o sujeito continua vinculando a subjetividade ao humano”. vontade e intencionalidade? Derrida. numa entrevista concedida a Jean-Luc Nancy. da natureza. o desejo de se reinventar a partir da nomeação do mundo. a questão do “Quem” emerge para o filósofo como extremamente problemática. desejo. de desentranhar o sono do animal que dorme.

esses possíveis. radicalmente. não tem inconsciente. uma privação. para além da condição neutra do pronome it. seja pela tentativa ilusória de figuração ou de incorporação de um “eu” alheio. ou seja. as supostas propriedades (ou faculdades) que. coisas que não conseguimos imitar e que nossa imaginação não nos permite sequer conceber”. eles não terem a capacidade de apagar os próprios rastros pode ser considerado um critério convincente para sua exclusão da esfera da subjetividade. não acede ao simbólico (por estar confinado no imaginário). supostamente.limite entre o “humano” e o “animal”. Ninguém. por sua vez. impedidos de pensar. que a cada um deles pertence. não pode ser alçado ao status de sujeito.39 Mesmo que tais dizeres de Montaigne já encontrem amparo científico nas recentes descobertas da etologia contemporânea. “fazem coisas que ultrapassam de muito aquilo de que somos capazes. não apaga seus próprios traços e. a poesia continua existindo. na ordem da invenção. imagens. ou se pensam. o animal que esta faz advir através de sons. Acrescente-se a isso o fato de que ninguém pode garantir que um boi. numa espécie de “logos” particular. chamou a atenção para a complexidade da vida animal. ao mostrar que os bichos. Ninguém pode saber ao certo se eles estão. Derrida. seja homem ou não. entre outras coisas. tem o poder de. com os olhos e o coração. não se furta aos recursos da poesia para tentar desconstruir os chamados “próprios do homem”. uma águia ou um gato não tenham uma visão de mundo. E aqui vale lembrar Montaigne que. A reação (ou resposta) de Derrida a tal proposição de Lacan é intensa e extensa. Mas longe de querer persuadir seus leitores quanto a possíveis habilidades linguísticas dos animais. um eu. afirma Lacan. apagar seus próprios rastros ou traços. para que possamos imaginar. realmente. dotados de variadas faculdades. um olhar único. Se os poetas têm se empenhado em sondar essas possibilidades. Levando-nos também ao reconhecimento da animalidade que nos habita. 38 O animal não responde. movimento e silêncio pode ser dado a ver. argumenta Derrida. ainda no século XVI. Um rastro não é algo que se possa apagar ou cobrir. como um ele. seja através do pacto e da aliança. Não obstante a subjetividade animal engendrada pela linguagem poética esteja. Tampouco o fato de. ambos no singular genérico. uma serpente. portanto. o filósofo está mais interessado em mostrar que a falta de linguagem humana entre os bichos não é de fato uma falta. segundo a tradição filosófica de feição cartesiana. ainda que de uma forma muito diferente da nossa. um ela. como foi dito. Ninguém pode assegurar que eles não tenham uma voz que se inscreve num tipo ignorado de linguagem. os homens .

sob o título “Eating well. Trad. consciência da morte. é oriundo da noção de besta. Edited by Elisabeth Weber. a máquina funciona necessariamente mediante uma exclusão (que é também e sempre já uma captura) e uma exclusão (que é também e sempre já uma exclusão)”. 2003. 2 Agamben desenvolve o conceito de “máquina antropológica” no livro L’Aperto . Por que olhar os animais? In: ______. nesse período revela esse assombro causado pelas manifestações da animalidade no humano. obliquamente. p.l‘uomo e l’animale.. 2005. 37 3 A proliferação de seres teratológicos. riso. da qual derivou a de bestialidade. 154. p. híbridos. DERRIDA. 9 DERRIDA. 7 Ibid. de 2002. Assim. Barcelona. lágrimas. Jacques. 1974-1994. humano/inumano. Cf.. pensamento. Jacques. 6 BATAILLE. uma vez que os humanos precisam se aceitar como animais para se tornarem humanos. Trad. Cf. ao mesmo tempo. e a entrevista concedida a Jean-Luc Nancy e primeiramente publicada em inglês. . Teoria da religião. São Paulo: Ática. Tradução minha da edição em inglês. 2004. São Paulo: Editora UNESP. Giorgio.. de 1987. 153. Propriedades que. Sobre o olhar. as diferenças que distinguem os homens dos outros animais e a impossibilidade de essas diferenças serem mantidas como instâncias excludentes. Georges. José Teixeira Coelho Neto. em 1989. mentir e apagar os próprios rastros. Trad. gênero instituído na época medieval. Segundo ele. 22. Michel. John. História da loucura. The open: man and animal. 64-65. como também para a legitimação das práticas humanas de violência e assujeitamento dos demais viventes. através da poesia: que a travessia das fronteiras entre as esferas humana e não humana consiste em reconhecer. a exemplo do sexto capítulo do livro D’esprit: Heidegger et la question. * NOTAS 1 BERGER. São Paulo: Perspectiva. or the Calculation of the Subject”. como linguagem. p. Gustavo Gili. pela via do paradoxo e da transversalidade. 2002. Fábio Landa. tendo também aparecido esparsamente em alguns de seus trabalhos anteriores. 5 Ibid. Stanford: Stanford University Press. 4 FOUCAULT. O animal que logo sou. 26 8 Vale lembrar que outras discussões relativas à questão dos animais e dos limites do humano foram uma constante nos últimos anos de vida de Derrida. fala. Derrida vem evidenciar o que muitos poetas já disseram. p. Lya Luft. Sérgio Goes de Paula e Viviane de Lamare. uso de utensílios.Interviews. Points. Stanford: Stanford University Press. Trad. 19-49. O próprio conceito de bestiário.. como vimos. Trad. 1993. “na medida em que nela está em jogo a produção do humano mediante a oposição homem/animal. p. serviram não apenas para o estabelecimento da cisão radical entre humanidade e animalidade. Kevin Attell. 1995. p. p. AGAMBEN. Datam de meados dos anos 1980 suas primeiras reflexões mais densas sobre o tema.possuiriam e os outros animais não. nudez. capacidade de responder.

O animal escrito: um olhar sobre a zooliteratura contemporânea. até tangenciar a matilha sublime de lobos do devir-animal de Deleuze e Guattari. 24 HELDER. p. p. 19 Ibid. Rio de Janeiro: Ed. p.. M. Partindo do “animal político” de Aristóteles. New York: Palgrave Macmillan. p. p. op. p. devir-imperceptível. Trad. 5. da polis. Che cos’è la poesia? Lisboa: Cotovia. 8. p. do corpo social. In: ______.119. 432. em Paris. p. 116-119. J. op. Jacques. Eucanaã. um conceito que designa não uma relação mimética. op.. que reúne as sessões de seu último seminário. Nuno. 11. cit. GUATTARI. com propósitos desconstrucionistas. p. 30 Poema incluído no livro Claro enigma.I. Herberto. MALAMUD. p. Ó. Suely Rolnik.. 110. Ibid. o loup-garou de Rousseau. pelo homo homini lupus de Hobbes e Lacan. 25 Com a expressão “a passo de lobo” (à pas de loup). 16 CABRAL. ministrado entre 2001 e 2003. 50. São Paulo: Cia. 11 DERRIDA. Jacques. 13 Ibid.. 21 Ibid. DERRIDA. p. Poesia e prosa. 34. São Paulo: A Girafa. Poetic animal and animal soul. A paixão segundo G. 2008. 1979. 266. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. 2008. 60. HELDER. José Rubens Siqueira. 4. DELEUZE. São Paulo: Lumme. 1995. 2002. Astrid. Cf. 22. 63. Cinemateca. Carlos Drummond de.. p.cit. 2006.10 BERGER. Paris: Galilée. p. Clarice. A vida dos animais. 2008. Félix. cit. Gilles. p. 15 COETZEE. Ibid. o homem dos lobos de Freud. Ou o poema contínuo. São Paulo: Iluminuras. 2003. 53.. 110. 22. São Paulo: Companhia das Letras.cit. p. p. 2003. o filósofo analisa.. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. ver o excelente estudo de Randy Malamud intitulado: Poetic animal and animal soul. p. Trad. La bête et la souverain –vol.. 22 Ibid. Devir-intenso. as complexas relações entre homem e animal (bem como seus desdobramentos éticopolíticos) no contexto do Estado. 29 Uma abordagem mais detalhada sobre isso pode ser verificada em: MACIEL. Maria Esther. Brasília: Thesaurus. Randy. v. p. 23 Ibid. . 28 Sobre essa questão. 27 RAMOS. Derrida inicia o seu seminário La bête et le souverain. das Letras. 12 Ibid. 18 LISPECTOR. 26 CABRAL. Antologia pessoal. 30 14 HELDER.. 2008. p. 5. p. a partir da figura zoopolítica do lobo.. 44.. 20 DERRIDA. numa “composição de velocidades e de afetos entre indivíduos inteiramente diferentes”. 1979.. p. mas um movimento entre o homem e o animal. 2008. devir-animal. op. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. ANDRADE. op. Nele. 17 Reporto-me ao que Deleuze e Guattari chamaram de “devir-animal”. de La Fontaine. passando pela lei do mais forte na fábula “O lobo e o cordeiro”. 31 32 33 34 FERRAZ. em que aquele trespassa o limiar de sua humanidade. 117.H. 15. das leis e das filosofias humanistas do Ocidente. 110. Cf. cit.

. São Paulo: Abril Cultural. . p. 277. 83. Michel de.268. Cahier de L’Herne .. n. p. 39 MONTAIGNE. Points. p.. DERRIDA. 118.35 36 37 Ibid.Derrida. Sérgio Milliet. 1974-1994. 38 Essa discussão em torno de Lacan encontra-se também em La bête et le souverain. 119. 1980.). Marie-Louise e MICHAUD. Apologia de Raymond Sebond: ensaios II.. Trad. 2004. Ibid. Ginette (dir. Jacques. 117-129. O texto original foi publicado em MALLET. Éditions de L’Herne. p. p. interviews. Paris.