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Editoria de texto Lafayette Megale Assessoria editorial Célia Maria Delmont de Andrade Preparação de original Reny Hernandes Revisão Alexandre Gomes Camarú Rita de Cássia dos Santos Silva Uilson Martins de Oliveira Edição de arte e projeto gráfico Wilson Teodoro Garcia Fotos Eduardo Agostinho Arruda Augusto Edson Sorrentino Séspede Aloisio Sabadin de Moura Capa Wilson Teodoro Garcia Coordenação de editoração eletrônica Carlos Rizzi Reginaldo Soares Damasceno

sucessode nossa expedição deu-se graças ao apoio de poucas mas importantes pessoas e empresas que, desde o início, acreditaram nas possibilidades de nosso projeto. São elas: (PMAM); Confecções Mara (bandeiras); FAB - Correio Aéreo Nacional; Nutrimental (comida desidratada); Pantogravura (placa); STC- Construtora; Tenente Coronel Edson Faroro (PMESP); Tenente Hildomar Jaime Regis (PMAM); Tenente Edílson Matias Barbosa in memoriam Udo Krumer, da gráfica Eventos; Paulo Sérgio Varella, fotógrafo e amigo.

o

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Cârnara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Augusto, Eduardo, 1966Expedição ao Pico da Neblina / Eduardo Augusto. - São Paulo: FTD, 1993. - (Coleção diário de bordo) ISBN 85-322-0800-2 1. Arnazonas - Descrição de viagens 2. Neblina, Pico da - Descrição I. Título. 11. Série. 93-0054 CDD-918.113 índices para catálogo sisternático: 1. Neblina: Pico: Arnazonas: Descrição de viagens 918.113

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Um agradecimento especial a quem sempre acreditou em mim e me apoiou durante todos os momentos, dando-me a força necessária para prosseguir sempre confiante - minha querida esposa, Suzana Vieira Arruda Augusto.

Lutando contra a civilização

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O mundo dos ianomãmis 25 O encontro com a selva 39 O platô da serra da Neblina O preço da riqueza 73 Aos pés do gigante nebuloso

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7 Derrotados pela natureza 94

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A cartada final

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"... os nossos esforços desafiem as impossibilidades. Lembrando que as grandes proezas da História foram conquistadas do que parecia impossível. " (Char1es Chaplin)

É animador e gratificante perceber que, neste nosso mundo mesquinho e egoísta, ainda há pessoas que apresentam seu caráter moldado na dignidade, honestidade, honra e, principalmente, brio.
O tenente Eduardo Agostinho Arruda Augusto é, sem dúvida alguma, uma dessas pessoas, e mostra-nos, através de Expedição ao Pico da Neblina, a importância da audácia bem conduzida, conseguindo provar que os "obstáculos existem porque todos têm medo de ultrapassá-los". Dificilmente alguém começará a ler este livro e interromperá sua leitura sem que chegue ao seu término. O estilo ágil, fluente e simples que o tenente Eduardo Augusto apresenta cativa o leitor, transformando-o em co-participante da grande aventura, e obriga-o a devorar o conteúdo para, nele, aprender uma lição de vida: "Desistir jamais!" Enfrentando todos os obstáculos que se lhe colocaram à frente ("Infelizmente, em nosso país, quem procura andar corretamente sofre mais"), o autor demonstra-nos que "o importante é o caráter do indivíduo e sua real vontade de fazer algo". Leitor, inicie a leitura de Expedição ao Pico da Neblina prepare-se para uma aventura repleta de desafios e decisões. e

À memória do capitão Edilson Matias Barbosa, da Polícia Militar do Amazonas, que, poucos meses após nossa aventura, na qual teve papel importante, tombou heroicamente no cumprimento de sua árdua e perigosa missão.

Prof. Oswaldo Beltramini Júnior Academia de Polícia Militar do Barro Branco

Localizado no extremo norte do país, em meio à imensa floresta amazônica, que o protege da aproximação de intrusos, o pico da Neblina, com 3014 metros de altitude, é o ponto culminante do Brasil. Está totalmente em solo brasileiro, no estado do Amazonas, a 687 metros da divisa com a Venezuela. Meu desejo de atingir o pico da Neblina surgiu em agosto de 1985, quando o Brasil inteiro acompanhou pela TV a tentativa frustrada do Exército de chegar a seu cume. A expedição foi liderada pelo Batalhão de Forças Especiais, tropa de elite formada por verdadeiros "Rambos", preparados para o cumprimento das missões mais complexas. Entretanto, mesmo com o apoio de helicópteros (que foram até a base do pico) e uma infra-estrutura própria, não conseguiram cumprir a missão, vencidos pelo frio e por ventos de mais de 100 quilômetros horários. Nessas tentativas, além de uns poucos estrangeiros, apenas uma equipe brasileira possuía o mérito de ter atingido o ápice do pico da Neblina, em fevereiro de 1979. Esses pioneiros pertencem ao Clube Alpino Paulista. São eles: Adalbert KoIpatzik, Galba Athayde e Michel Bogdanovicz. O "Projeto Neblina" começou a maturar em 1987. A idéia era conseguir montar uma equipe para realizar uma expedição em dezembro do mesmo ano. Foram meses de preparação e muito estudo, pesquisando tudo sobre a região, estudando a fundo sobrevivência na selva e tudo que trouxesse informações sobre os índ ias, em especia Ios da nação ianomâm i, que vivem na região próxima à base do pico da Neblina. Foi muito difícil escolher a equipe perfeita para compor a expedição. No início procurei especialistas no assunto, pessoas de excelente porte físico e saúde de ferro. Achava muito importante um currículo extenso, repleto de cursos de sobrevivência e operações especiais. Tudo bobagem! Foi preciso quebrar a cara para chegar à conclusão de que o que realmente importa é que a pessoa, antes de mais nada, esteja muito disposta a assumir os riscos e prazeres de uma aventura desse porte. Apesar do esforço, faltou patrocínio, equipe, e o projeto não aconteceu. faltou entrosamento da

Em fevereiro de 1988, quando no serviço de ronda do policiamento na área central de São Paulo, passei pelo Quartel do Comando do Corpo de Bombeiros para rever um colega, o tenente Del Rey. Ao chegar em sua sala, ele foi logo perguntando se eu já tinha conseguido escalar o pico da Neblina. Respondi que o projeto não havia dado certo e ele, então, começou a rir e a debochar, pois toda a divulgação que eu tinha feito não dera em nada. Sei que ele não fez por maldade, mas aquilo me deixou furioso. Saí dali bufando de raiva e um sargento recém-formado, que trabalhava comigo havia apenas uma semana, perguntou-me se estava tubo bem. Olhei para ele fixamente e perguntei sem mais rodeios: Edson, vamos escalar o pico da Neblina? respondeu ele entusiasmado. Estou pronto

e~!
LUTANDO CONTRA A CIVILIZAÇÃO
[;1icw.a ~ na hrna do-~.
O saguão da Base

- Vamos embora para o que der e vier.

A partir daí os preparativos do "Projeto Neblina" recomeçaram, com a assessoria do Sargento Edson Sorrentino Séspede, uma pessoa simples, humilde, mas dotada de uma invejável força de vontade e vibração. Baixinho, com 29 anos de idade, de porte compatível à sua altura, não se destacava nas atividades físicas, sendo inclusive fraco em corrida. Para piorar era fumante. Não tinha a experiência desejável nem aptidões especiais de alpinista, mas ao longo do planejamento ele foi se revelando o companheiro ideal. Aloísio Sabadin de Moura, chegou bem depois, quando eu e Edson já estávamos pondo em prática as solicitações para o CAN, IBDF e Funai. Era o mais forte e brincalhão da equipe. Era o único que sabia nadar, embora também não fosse muito experiente. Era cabo da Polícia Militar e tinha 24 anos. Com 22 anos e um currículo que continha apenas uma formação de cinco anos na academia militar, cabia a mim aproveitar o que esses dois possuíam de melhor para, juntos, atingirmos com eficácia nosso objetivo. Sabíamos que não seria fácil e era exatamente por isso que estávamos ali - tínhamos uma grande determinação. Chegar ao cume do pico da Neblina, custasse o que custasse.

Aérea de Cumbica estava a cada minuto mais cheio. Eram militares e parentes que esperavam uma vaga no pequenino Bandeirante do Correio Aéreo Nacional. Apesar de nossas vagas já terem sido confirmadas na data anterior, nós estávamos nervosos, pois era mais que evidente que não cabia tanta gente no avião. O cabo da Aeronáutica, responsável pela triagem dos passageiros, iniciou a chamada. Pesava cada bagagem, anotava numa prancheta, colava uma etiqueta e a colocava no carrinho, chamando em seguida outro passageiro. Logo fomos chamados. Nossa bagagem: quatro mochilas grandes, uma média, uma pequena, duas bolsas médias, a bolsa com o equipamento fotográfico e dois sacos enormes, todos abarrotados: 180 quilos, exatamente o triplo permitido para nós três. Nossa bagagem foi etiquetada, mas posta de lado. Ficamos preocupados. Não podíamos deixar nada para trás. Tentamos explicar a situação ao cabo, que nos aconselhou: -Conversem com ocomandante, autorizar o embarque da bagagem. eleéo único que pode

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Após mais espera e muito nervosismo, obtivemos finalmente a permissão para embarcar com todo o nosso equipamento. O avião, um Bandeirante, era pequeno e apertado. Por ser de carga, os passageiros sentavam-se numa espécie de banco feito de fitas entrelaçadas, algo bastante rústico e pouco confortável. O comandante ligou o motor e, durante aqueles poucos minutos até levantar vôo, disputamos as janelas para as últimas despedidas. "Adeus, Suzana. Eu sei que voltarei a vê-Ia. Nós vamos conseguir ... "

Amazonas as águas vindas de Rondônia, onde fizemos a última escala. Contemplei maravilhado o encontro das águas do rio Negro, de coloração escura mas cristalina, com as do rio Solimões, de cor clara e barrenta, formando o rio mais caudaloso e cheio de vida do planeta: o Amazonas, que permanece bicolor por muitos quilômetros, visto que as águas não se misturam facilmente. Eram quase seis da tarde quando aterrissamos na Base Aérea de Manaus. Fomos recebidos por Malveira, Edílson ejosé Carlos, todos ex-colegas de academia. Foi muito bom revê-los. Era primavera. A intensa umidade do ar me sufocava. Foi muito difícil acostumar-me com aquilo. A ternperofuro era alta e o sol imperava a maior parte do tempo. E típico da região. No fim da tarde cai uma chuva forte, mas logo o sol volta impiedoso até o final do dia. Colocamos a bagagem no carro do Edílson. Meus companheiros ficaram no 4º Batalhão, e eu fui para a casa do Edílson, onde permaneceria até nosso embarque para São Gabriel da Cachoeira no dia 14 de dezembro, dali a 3 dias. Aproveitamos para conhecer Manaus. O povo de Manaus é muito Formado por uma mistura de raças, sangue indígena, são pessoas bem pouco puxados e de cabelos bem parecido com o do carioca e utilizam nordesti nos. hospitaleiro e alegre. na qual predomina o morenas, de olhos um lisos. Possuem sotaque muitas gírias e costumes

Manaus, uma escala perigosa
A viagem não foi lá muito agradável, mas me distraí fotografando. Edson cochilava, acordava, fumava um cigarro, fazia algum comentário e voltava a cochilar. Sabadin permaneceu a viagem inteira escrevendo o que houve na base aérea e descrevendo os primeiros passos de nossa aventura. Fizemos escala 'em Campo Grande, Cuiabá, Vilhena (um pequeno campo de pouso cercado de nada) e Porto Velho. Em Vilhena, atrasamos duas horas os ponteiros de nossos relógios, tendo em vista a diferença de fuso horário. Lá conversei com o comandante e seu co-piloto. Eles riram quando lhes contei sobre nosso objetivo de escalar o pico da Neblina. Duvidavam que retornássemos vivos, dizendo que isso era coisa de louco. Era sempre assim. Ou nos chamavam de loucos ou pensavam que era mentira. Praticamente ninguém acreditava e os poucos que diziam acreditar provavelmente faziam isso só para nos agradar. Algumas vezes isso me punha medo. E quando o comandante riu de nós, confesso ter suado um pouco ... de medo. Após treze horas de vôo, estávamos sobre a imensa floresta amazônica, bem próximos de Manaus. A vista era magnífica. A floresta era um tapete verde sem fim, recortado por inúmeros e tortuosos cursos d'água de tamanhos e formatos variados. Pude identificar o rio Madeira, que despeja no

Na manhã seguinte fomos ao quartel do Comando Geral. O capitão Bonates nos recebeu muito bem, levando-nos à presença do chefe do Estado-Maior, coronel Osório. Quando relatamos nosso objetivo, o coronel se assustou. Disse que era uma grande loucura e que seria impossível realizar a escalada porque na região do pico da Neblina estava havendo um sério conflito entre garimpeiros e a Polícia Federal, e poderíamos acabar morrendo no meio dessa batalha. Pacientemente, expliquei-lhe estar ciente de tudo isso e que nossa aventura fora minuciosamente preparada, fruto de

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anos de estudos e ensaios: muitos estágios, palestras, leituras e entrevistas com pessoas que conheciam a região e seus problemas. Ele, rindo zombeteiramente, perguntou que experiência de mata possuíamos. Ao responder que fazíamos treinamento na mata atlântica, seu deboche aumentou: Sua experiência em uma pequenina mata não se equipara às dificuldades de nossa floresta. Conheço-a muito bem, pois fui do C1GS (Centro de Instrução e Guerra na Selva) e sei que vocês não são páreo para ela. Além disso, como vocês já sabem, o Exército já tentou duas vezes atingir o pico da Neblina e não conseguiu nem chegar perto. Apesar de não acreditar em nossaspossibilidades, ele prometeu ajudar fazendo contato com o VII COMAR, para conhrrnor nossas passagens no vôo para São Gabriel da Cachoeira. Nas bancas de jornal as manchetes eram sempre as mesmas: "Invasão da serra da Neblina por garimpeiros", "Ianomâmis exigem providências da Funci". "Garimpeiros X Polícia", "Tensão em área ianomâmi" Na manhã do segundo dia em Manaus, pude finalmente confirmar nossos nomes no livro de passageiros do vôo para São Gabriel da Cachoeira. Havendo o vôo, embarcaríamos. Pronto. Estava tudo resolvido. Resolvemos passar no quartel do Comando Geral e verificar com o capitão Bonates o que o chefe do Estado-Maior havia acertado para nós. Lá chegando, encontramos o capitão logo na entrada e este, meio nervoso, nos conduziu rapidamen-. te para um canto dizendo: - O comandante de vocês, lá de São Paulo, exige o retorno da equipe imediatamente. O coronel Osório está atrás de vocês. Quase caí duro no chão. Mas por quê? O que fizemos?

vocês exigiu o retorno imediato para São Paulo. E mais ... Ele entrou em contato com o comandante do VII COMAR e mandou cancelar as vagas de vocês no avião. Era só o que faltava. E agora? O que fazer? - Capitão, pelo amor de Deus, o senhor não viu a gente. Deixe-nos desaparecer do mapa. Mas desistir de nosso objetivo, nunca! Ninguém vai nos fazer desistir agora. Ninguém! - Tudo bem. Eu não vi vocês. Tratem de sumir o capitão apertando minha mão. - E boa sorte. disse

Saímos rapidamente dali. Estávamos arrasados. Nem a nossa corporação acreditava em nós. Tudo era obstáculo. E eu que sempre pensei que a maior dificuldade para escalar o pico da Neblina fosse apenas a selva com seus perigos naturais. Mas não. As dificuldades estão na burocracia, no descrédito e na inveja, existentes aqui mesmo na cidade. Na selva, certamente isso não aconteceria. Lá estaríamos distantes de todos esses defeitos da civilização. De um orelhão, liguei para o 1 º Batalhão e chamei o tenente Edílson. "Por favor, venha rápido!" Em menos de 30 minutos ele chegou. Explicamos a situação para ele, que, de imediato, resolveu nos esconder em sua casa até o embarque na manhã seguinte. No caminho, passamos pelo 4º Batalhão para pegar a maior parte da bagagem, coisa que fizemos de maneira bem discreta. Da casa de Edílson, na primeira para o VII COMAR. oportunidade, liguei

, - Tenente, eu já lhe falei. Amanhã às 7. Suas vagas estão garantidas. Saindo o avião, os senhores irão com certeza. Agradeci e desliguei o telefone bem depressa, antes que ele mudasse de idéia. Eu tremia inteiro. - Será que o capitão supôs Edson. não inventou aquela história? -

- O negócio é o seguinte: ele telefonou para São Paulo e contou sobre os problemas da região. Disse que vocês estavam loucos e que morreriam aqui. Aí o comandante de

- Só pode ter acontecido uma coisa. O coronel entrou em contato diretamente com o brigadeiro. Só que ele não sabe que

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nosso pedido foi feito há mais de 2 meses, via documentação oficial. Isso porque meu comandante, o tenente-coronel Edson Faroro, destinou o pedido ao chefe do Estado-Maior do COMAR e não ao brigadeiro, que é o comandante. Portanto há uma solução. Amanhã cedo nós embarcaremos discretamente, esperando o avião escondidos num canto, sem nem passar perto do COMAR. Com um pouco de sorte, logo estaremos longe daqui. Aproveitei o telefone e liguei para a diocese salesiana de São Gabriel da Cachoeira para conversar com o bispo Dom Walter Ivan de Azevedo, que conheci em São Paulo, muito simpático e educado. Mas nossa maré de azar estava em oltc. Não sei por que motivo, ele me tratou friamente, negou alojamento dizendo que nós deveríamos procurar os quartéis do Exército e apenas nos desejou boa sorte, secamente. Aquela noite foi terrível. Ninguém conseguiu dormir.

em quase'todos os pontos do alto rio Negro, começando por São Gabriel da Cachoeira e passando depois pela Missão Salesiana de Maturacá, ponto final do nosso contato com a civilização. Pelas informações obtidas, pernoitaríamos em São Gabriel e na manhã seguinte iríamos para Maturacá. Isso melhorava muito nossa situação, pois um contato anterior na cidade poderia ser muito útil. Lá eu deveria procurar o tenente Hiltomar, delegado da cidade e amigo de Edílson e Malveira. Já eram quase duas horas da tarde, quando um soldado do CAN avisou-nos que o võo fora cancelado e que deveríamos voltar no dia seguinte. O que mais faltava acontecer? Tudo estava dando errado. Pegamos nossa bagagem e tomamos um táxi até a casa de Edílson. Ele não estava. Aproveitei para ligar ao COMAR. Falei com o cabo Paulo, que me garantiu: "Tudo bem, vou anotar aqui e amanhã os senhores não terão problemas". Até que enfim algo começou a funcionar. Quase à noite, Edílson chegou e lhe contamos nossa situação. Na manhã seguinte pegaríamos um táxi e tentaríamos outra vez. Acordamos cedo e rumamos para chamados para o saguão de embarque. aeroporto e caminhamos em direção ao uns 100 metros de distância. Só faltavam nos livrar daquela agonia. Fomos os últimos a embarcar, Expedição, avante! o aeroporto. Fomos Entramos na pista do Búfalo, que estava a poucos metros para

o difícil embarque
Às cinco e meia nos levantamos, vestimos nossos uniformes e preparamos o material que carregaríamos. Deixamos o resto para apanhar na volta da expedição. Fomos até a calçada nos levaria ao aeroporto. e ficamos esperando Edílson, que'

Edílson chegou logo e nos levou no tático móvel da PMAM. Em menos de 15 minutos já estávamos em frente ao aeroporto e, muito agradecidos, nos despedimos de Edílson, que nos disse: Eu boto fé em vocês! Sei que vão conseguir!

mas finalmente decolamos.

Escolhemos um canto para colocar nossa bagagem, que novamente nos traria problemas pelo peso, e ficamos esperando. Do lado de fora do saguão, colada numa parede, uma relação continha nossos nomes, relaxando um pouco nossa tensão. Já eram 7 horas e nada da chamada para o embarque.

Problemas em São Gabriel da Cachoeira
O vôo para São Gabriel foi magnífico. A rampa de acesso possuía um vão de pouco mais de 6 milímetros, que me proporcionou um ótimo observatório. Vi a mudança da floresta,

O tempo ia passando e nada de o avião chegar. Nós iríamos num Búfalo do Correio Aéreo Nacional, que faria escala

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da alagada para a de terra firme; observei as várias elevações isoladas que se encontram perdidas no meio daquele tapete verde e seus vários rios, todos desembocando no majestoso rio Negro. Este, de águas escuras mas transparentes, não esconde seu fundo arenoso e desenhado pela correnteza. Pena que dali não dava para fotog rafar. Foram duas horas e meia de viagem. Aterrissamos no pequenino aeroporto de Uaupés (antiga denominação da cidade), de pista já asfaltada e com uma infra-estrutura aceitável para a região. O avião partiria para Maturacá no dia seguinte, às 7 horas.Conversamos com o piloto do Búfalo e seu co-piloto. Não zombaram de nossa aventura mas reconheceram ser muito difícil nosso sucesso. Juntei-me à minha equipe no saguão do aeroporto e fomos procurar carona, pois o aeroporto de São Gabriel da Cachoeira ficava a mais de 10 quilômetros da cidade. Sabadin observava tudo e narrava para seu gravador. Naquele instante chegou uma pick-up e, dentro dela, pude identificar o bispo Dom Walter. Ele desceu rapidamente e começou a ajudar as freiras que vieram conosco a coloca rsacos e encomendas na caçamba.

Fui cumprimentar Dom Walter, que me recebeu com educação mas frieza. Ofereceu-me de má vontade uma carona que, por instinto ou orgulho, recusei. Dirigi-me a um tenente de comunicações do Exército, que estava sentado num banco, e perguntei-lhe como iria para a cidade. Ele me informou que um caminhão [ó estava para chegar e que poderíamos aproveitar a carona. O caminhão chegou cheio de índios recrutas, de calções verdes e camisetas camufladas, que em poucos minutos carregaram todo o material trazido no Búfalo para o quartel local. Subimos na caçamba junto com aquele tenente e os recrutas e seguimos por uma estrada de terra batida muito bem-feita até São Gabriel da Cachoeira. O município de São Gabriel da Cachoeira, antiga Uaupés, está situado no alto rio Negro. Seus limites cercam uma área de grande potencial aurífero que atrai garimpeiros de todos os pontos do Brasil. Possui mais de 20 mil habitantes, na maioria índios, garimpeiros e militares.

o desembarque

em São Gabriel.

São Gabriel da Cachoeira.

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Só se pode chegar a essa cidade de avião ou de barco, após dias de navegação, para ultrapassar 1 037 quilômetros do rio Negro contra a correnteza. Fomos deixados em frente à delegacia da cidade, de frente para uma extensa praia, às margens do rio Negro. Nessa altura o rio encontra inúmeras pedras, formando corredeiras (para a região, verdadeiras cachoeiras), e daí o nome da cidade. Na delegacia encontramos apenas um cabo que nos tratou muito bem e logo nos alojou num dos cômodos. Não havia camas. Aliás, na Amazônia, cama é algo raro. "Dormir é em rede, que é muito mais fresco e confortável."CoIocamos nossas coisas num canto e atravessamos a rua, onde, bem defronte à delegacia, havia um bar em forma de quiosque. O calor estava intenso e nos afundamos em refrigerantes. O visual era magnífico. Bem distante, do outro lado do rio, à nossa esquerda, estava a serra de Curicuriari, a famosa serrada Bela Adormecida, assim chamada por seu contorno ser semelhante ao desenho de uma mulher deitada.

A cidode era linda e a visão daquela praia era uma tentação para um banho nas águas negras daquele imponente rio. - Dá vontade de pôr um calção e cair na água Sabadin. Tem carandiru Carandiru? aí,ah, ah! brincou Edson. Não é candiru, não? disse

perguntei. -

Candiru é um pequeno peixe carnívoro, fino como agulha, que penetra nos orifícios naturais do corpo, principalmente ânus e uretra. O pessoal do quiosque era bastante divertido e perguntou se estávamos fazendo turismo ou algum serviço especial. Novamente fornos alvo de risadas quando contamos nosso projeto. - O quê? Pico da Neblina? Impossível, nem mesmo as Forças Especiais conseguiram. Ninguém chega lá. Contamos-lhes das expedições tinuavam dizendo: anteriores, mas eles con-

Não é brincadeira, não. Vocês vão é pegar uma malária, lá, isso sim. Quando vocês chegarem lá para os 3000 metros, vão olhar e dizer assim: O quê, meu amigo? Toda aquela cerração, aquela nuvem assim, debaixo de vocês. Se olharem por címa, só vão ver aqueles colchões de nuvens e o vento forte soprando ... vuschhhhhh ... vuschhhhh ... Há muito misticismo criado em torno do pico da Neblina. Muitos dizem que o lugar é sagrado e que ir até lá significa desafiar os deuses.

...-::l!l •••

__

As negras águas das ••.•.•. ..I . corredeiras do rio Negro.

-

Não estamos querendo abater o moral de vocês, não ...

Nós estamos escutando isso desde São Paulo observou Edson. - Se vocês fossem os primeiros ... Ali ficamos ouvindo muitas histórias da região. Um deles nos informou que em Maturacá, onde ficava a missão do padre Galli - um mito vivo do lugar -, havia "voadeiras", ou seja, barcos de alumínio movidos a motor de popa. Calculamos que precisaríamos de mais de 300 litros de gasolina para a subida do rio Cauaburi. O pessoal do quiosque nos contou, ainda, que

Serra de Curicuriari, a Bela Adormecida.

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vários garimpeiros estavam na base do pico da Neblina, haviam conseguido fugir do cerco da Polícia Federal.

pois

Após o almoço, retornamos à delegacia e encontramos o delegado jogando dominó com seus subordinados. O tenente Hiltomar Jaime Regis, pessoa simples e educada, recebeu-nos muito bem e quis saber detalhes de nossa expedição. Por coincidência, o sargento Ferreira, que era delegado antes de Hiltomar, estava de licença e andava garimpando na serra da Neblina. Ele seria um contato muito importante, se o encontrássemos naquele inferno verde. sorte. - E de muita gasolina também o posto? disse eu. Onde fica Aventura ousada, hein? Vocês vão precisar de muita

garimpeiros estavam. Engraçado, ele achava mais fácil a fase que nossa equipe considerava de maior dificuldade: a travessia da selva amazônica. Saindo da loja, Hiltomar encontrou o chefe da Funai da cidade e, após contar-lhe nossa missão, principalmente após mostrar-lhe a autorização concedida pela Funai em Brasília, ele escreveu uma carta endereçada ao funcionário Chico e ao índio Júlio Góes, irmão dos tuxauas de Maturacá, solicitando que fôssemos bem recebidos e auxiliados para que pudéssemos reclizcr nosso objetivo. Dali retornamos ao quiosque. Daqui a pouco o capitão acertaremos o problema da gasolina. Siqueira passa aqui e

O tenente Hiltomar fez uma careta e disse: Xii! Vocês estão com um sério problema: o único posto da cidade faliu e fechou. Ouern tem carro por aqui mantém uma reserva de gasolina em casa. E que, de vez em quando, uma balsa chega com vários tambores e vende para o pessoal. Podemos tentar comprçlr gasolina do BEC - Batalhão de Engenharia e Construção. Esó conversar com o capitão Siqueira. Eleé muito meu amigo e sempre está aqui no quiosque, tomando uma cervejinha. Hiltomar chamou um táxi (incrível imaginar um táxi naquela cidade, mas havia). Era um Corcel II vermelho, todo arrebentado e enferrujado. O taxista era um tal de De Castro, um garimpeiro da região que estava meio parado. Ele possuía, amarrada num cordão no pescoço, uma pequena pepita que ele mesmo havia extraído. Fomos até o centro comercial da cidade. Hiltomar me levou até uma loja de artesanato indígena, onde funcionava, nos fundos, um comércio de ouro. Lá conversamos com Eduardo Cristo, o Grego, conhecedor da região através de cartas detalhadas e vôos de helicóptero. Ele achou impossível a idéia de escalar o pico, dizendo entretanto não ser muito difícil chegar até suo base, onde muitos -

Meia hora depois, o capitão João Marcos de Siqueira chegou, cumprimentou-nos, pediu logo uma cerveja e sentou-se à nossa mesa. Apesar de achar a idéia meio maluca, ele ficou de· arrumar o combustível. Era só passar no quartel, na manhã seguinte, e retirar com ele o vale para pagar à tesouraria. - Mas o avião decola amanhã às 7 horas! desesperado. disse eu

Tenho quase certeza de que ele fará mais de uma perna para Maturacá, pois tem uma quantidade enorme de material e muitos soldados que virão para cá amanhã, e, numa única viagem, não dá. Só não sei se ele vai querer transportar o combustível. Às 8 da noite fomos a um bar dançante, onde encontramos o comandante. Hiltomar e eu nos apresentamos e explicamos a situação. Tudo bem. Amanhã faremos duas pernas para Maturacá. A segunda será ao meio-dia. Esteja lá no horário e eu levarei o combustível. - E quanto aos meus amigos? - perguntei. ir na primeira perna com todo o equipamento? Ele respondeu que sim. Poderão

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Próxima parada: Maturacá
Acordamos antes das 6 horas e vestimos nossas fardas. Tomamos café e, pouco depois, Hiltomar chegou com um Corcel emprestado, e fomos todos naquela lata barulhenta que andava movida a muita reza, rumo ao aeroporto. No aeroporto troquei as últimas palavras com o comandante do avião, que confirmou todo o combinado e levou meus companheiros a Maturacá. De lá fomos rapidinho para o BEC. Procurei o capitão Siqueira, mas ele chegou quase às 9 horas. Providenciados todos os papéis, paguei na tesouraria os 400 litros de gasolina e algumas latas de óleo para motor dois tempos. Isso deveria ser o suficiente para o nosso gasto. Depois acertei com ele em qual caminhão levaria e onde pegaria o combustível. Antes das 1 1 horas já estávamos a caminho do aeroporto de Uaupés. A essa altura Edson e Sabadin já deveriam estar conversando com o padre e os tuxauas. Espero que estejam se saindo bem - pensei cruzando os dedos. A espera no saguão do aeroporto foi breve. Logo o Búfalo aterrissou. Embarcamos o combustível. O Búfalo estava vazio; de passageiros apenas eu e um garoto, possivelmente índio. Por volta de uma da tarde, avistamos a missão, uma clareira incrustada na floresta. Às margens do ca na I de Matu racá, afl uente do rio Cauaburi, encontramos duas aldeias ianomâmis da tribo kohoroxitari, abrigando cerca de 620 indígenas semi-aculturados. Situam-se uma de cedo lado da missão, a uma distância aproximada de 300 metros. A nossa frente erguia-se bastante imponente a serra do Imeri, um enorme maciço, onde, em algum ponto dentro daquela espessa neblina, escondia-se nosso objetivo. A serra do Imeri é uma fronteira natural entre o Brasil e a Venezuela. É dividida em três serras: Pirapucu, Baruri e Neblina. A serra da Neblina é a que possui as maiores altitudes, estando ali, além do ponto mais alto do Brasil, os picos 31 de Março e do Cardona, respectivamente o segundo e o nono na escala altimétrica do país.

I

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o MUNDO

DOS IANOMÂMIS
Muitos índios, na

4~fU1.#1.a..pUtack/.elvzakdda.
-Júlio, da expedição -

maioria crianças, rodearam o avião. Ao descer, localizei Edson e Sabadin ao lado de um índio falante. este é o tenente Eduardo Augusto, o comandante - disse Edson quando me aproximei. Ele é o

Muito prazer, tenente. Seja bem-vindo à nossa terra.

Este é Júlio Góes Edson explicou. representante da nação ianomâmi.

- Ah, sim - lembrei-me. - Tenho uma carta do chefe da Funai de São Gabriel endereçada a você. Depois fui apresentado ao tuxaua Daniel, líder da aldeia de Maturacá. Ali também estavaJosé Lima, funcionário da Funai destacado em Maturacá, para quem fiquei de mostrar as autorizações expedidas pelo governo federal. Alguma novidade, Edson? Perguntei.

- O pessoal aqui é bacana, sabe? Você precisa ver só o padre Carlos. Ele é o máximo! Você vai conhece-Io lá na missão. Fundada em junho de 1954 pelo padre sergipano Antônio Góes, que desde 1949 já mantinha contato com os ianomâmis, a Missão Salesiana de Maturacá tem como objeti-

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vo a aculturação do índio, preparando-o para a integração com a sociedade moderna. Instalada em um enorme galpão de quase 1 000 metros quadrados, de estrutura de ferro e coberto com telhas de zinco. Possui uma modesto enfermaria, um barracão com maquinário, barcos e motores de popa, um campo de pouso para o Búfalo da FAB (que mensalmente abastece a missão com produtos de sua necessidade), uma capela e uma escola, onde, além do ensino básico, proporciona um aprendizado técnico, como os métodos do preparo do solo para o cultivo e noções de nivelamento para a construção de palhoças. Hoje a missão é liderada pelo padre italiano Carlos Galli, que chegou em janeiro de 1979, vindo de lçana, outro município da região do alto rio Negro. Fomos recebidos por ele. - Como vai você? Tudo bem? - perguntou o padre num tom engraçado e com forte sotaque italiano. - Vamos arrumar um lugar para vocês se acomodarem. André! O padre chamou um índio. - Leve-os até a enfermaria e depois tragaos para comer alguma coisa.

de baile, marcas do aproximação com o civilizado. A palhoça do tuxaua e as de seus parentes possuem telha de zinco. Lá dentro, um gerador, uma vitrola e uma geladeira, utilidades que apenas os tuxauas podem dar-se ao luxo de possuir.

A aldeia de Ariabu.

Seu André era um índio tucano de meia-idade, do da missão. Era o auxiliar direto do padre.

empregaTuxaua é O líder, o chefe supremo, dono, de todas as mulheres da tribo e das vontades de seu povo. E realmente a pessoa mais respeitada de toda a aldeia; sua vontade é uma ordem e os ianomâmis a cumprem espontaneamente, sem reclamações. Joaquim é o tuxouo mais temido e respeitado de toda a nação ianomâmi. Descendente de uma linhagem de grandes líderes guerreiros, ele é constantemente procurado por lideranças de outras tribos, que via iam dias no meio da floresta em busca de seus conselhos. Após as fotos e um pequeno passeio pela á1deia, seu André nos levou até o rio Ariabu, um afluente do canal de Maturacá. Lá encontramos indiozinhos brincando na água escura e transparente. Segundo seu André e a minha leitura da carta topográfica da região, aquele rio nasce exatamente no pico da Neblina.

Na missão não víamos muitos índios. Eles ficavam nas aldeias, que dali também não conseguíamos avistar. Na primeira oportunidade meu objetivo seria, além de batalhar atrás de um guia, fotografar as aldeias, registrando os usos e costumes de um povo a respeito do qual pouco se conhece. A meu pedido, o padre determinou a seu André que nos levasse até Ariabu. A aldeia fica ao norte da missão, no rumo da cadeia de montanhas. Lá conhecemos o temido tuxaua Joaquim, que falava muito pouco nossa língua. Após pedir-lhe autorização, comecei a fotografar a aldeia. Ela tem um formato meio retangular, com as palhoças dispostas lado a lado, de frente para o centro da aldeia, fechando um enorme pátio que serve para reuniões e danças tribais. As palhoças são feitas de troncos e barro, e cobertas de sapé. No centro da aldeia há uma cantina (bazar) e um salão·

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_ Ah riozinho! Quero conhecer sua nascente - pedia Edson àquel'as águas escuras e frias, que pareciam desprezar qualquer um. Voltamos à aldeia, grande chefe, retornando agradecemos . e nos despedimos do

o padrinho dos ianomâmis
Após o jantar e um pequeno descanso na enfermaria, fomos até o pátio de terra batida na parte interna da missão. Sabadin estava sentado na cadeira de balanço e nós nos sentamos em banquetas. Uma chuva de perguntas invadiu a noite, e o padre, sem pressa, respondia a todas, a seu modo, incluindo piadas ou fazendo um pouco de suspense. Nascido em novembro de 1910, na Itália, Carlos Galli é o padrinho das crianças ianomômis que, carinhosamente, rodeiam o missionário e pedem-lhe a bênção. Seu nome é venerado em toda a Amazônia e o Nordeste, visto ter sido companheiro do maior líder espiritual que o país conheceu, o padre Cícero Romôo Batista. Ele afirmou que, antes da morte de padre Cícero, recebera das mãos dele os quatro livros secretos que contêm profecias muito importantes e interessantes para o Brasil. Ele não revelou tais segredos, alegando que o país ainda não estava preparado para isso, mas adiantou que passaríamos por uma grande transformação política, que seria inflamada em Sôo Paulo pela classe operária. Apesar de italiano, ele empunha a bandeira brasileira com muito patriotismo, inclusive espalhando cuidadosamente várias delas pela missão. Ele falou sobre os índios e seus costumes. Explicou-nos o porquê da divisão em duas aldeias ali: Maturacá e Ariabu. Simples disputa de poder entre irmãos. Um mais velho, temido e semi-aculturado, e outro mais jovem, com algum estudo. A tribo Kohoroxitari engloba três aldeias: as duas de Maturacá e a aldeia de Maiá, localizada a mais de 40 quilômetros dali. Por ser distante e incrustada na floresta, essa aldeia não mantém contato nenhum com a civilização, vivendo praticamente em estado primitivo. Para chegar lá, são necessários dias de caminhada pela selva e, segundo o padre, de tempos em tempos, sua população é dizimada pela fome.

logo à missão.

Da porta pudemos avistar algo que a neblina nã.o nos havia deixado ver antes. As serras de Pirapucu e Barurl que; imponentes, davam um visual magnífico para aquela paisagem no final de tarde. Da [onelo do lodo oposto, contemplamos a serra do Padre, uma elevação cuio per:il lembra um padre
I !

orando,
.1

com os braços abertos para o ceu. Meus filhos, hora de comer. Se não comerem ficam para o jantar. Ele era

_

fracos e não escalam pico nenhum. Era padre Carlos nos chamando realmente uma figurinha rara. Fomos até a mesa, feita ~e pa~te da fuselagem de um avião, e lá enc~n_tramos uma refelçao muito saborosa e diversificada: arroz, fellao, arara a~s?da, mutum, banana-prata, tapioca, peixe e cucura, a deliciosa uva da Amazônia.

A cucura, saboroso uva da- região amazônica.

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Perguntamos ao padre o porquê do nome Kohoroxitari, ele respondeu:

e

Comentando com ele sobre o Parque Nacional do Pico da Neblina e o que ele achava da região, padre Carlos disse: - A região é encantadora, mais bonita do Brasil. insuperável e, certamente, a

- Kohoroxitari ... - pronunciava cada sílaba pausadamente. Kohoro minhocaçu, um verme muito abu~da~te aqui na região; xii estrume; tari .... fedid? Kohoro-xi-tori ... estrume fedido do minhocaçu - explicou divertido. Esse nome continuou foi dado pelos antigos

inimigos, quando a tribo vivia às margens do i~,a~apé Tucano, onde há abundância desse anelídeo. Mas eles la tiveram outros nomes. Como Araribóia ... que significa habitante da terra das araras. E arara é o que não falta aqui. E Inhewaitere, que considero bem mais apropriado, e que significa: os grandes derramadores de sangue. Padre Carlos explicou o porquê da fama de serem eles sanguinários. Simplesmente porque eles possuem <:sse instinto. Matam sem a mínima piedade. Numa hora estao calmos e amistosos, de repente estão nervosos e são inimigos de tudo e de todos. Mudam de temperamento facilmente. Uma tribo normalmente não se dá com a outra contou ele -, sendo inclusive costume ianomâmi atacar outras tribos, matando os homens e raptando todas as mulheres. -No início não foi fácil o relacionamento com os ianomâmis, cuja língua é por demais complexa e de 9ifícil entendimento. Há muitos conflitos de idéias e interpretaçoes mal-elaboradas explicou o missionário. - Eu não imponho n?~a aos índi~s continuou eu lanço a idéia católica, sem eXlgenClas, e deixo a semente qermínor por si só; aos poucos vão surgindo as opiniões e uma certa credibilidade e convicção. Num dado instante, um indiozinho de uns 5 anos, filho de seu André, aproximou-se do padre: Padinho , me dá uma lantéina? e o -

Entretanto, a situação no parque estava bastante crítica. A região é o maior conjunto ecológico do planeta sob proteção ambiental. São 2,2 milhões de hectares do Parque Nacional do Pico da Neblina no lado brasileiro, somados a 1,3 milhão de hectares do lado venezuelano. Por ser um parque nacional, ~ uma região restrita, onde caça, pesca e coleta são proibidas. E uma área indígena, controlada pela Funai, onde o ingresso de qualquer pessoa depende de autorização do órgão. E é uma área de fronteira, sob o rigoroso controle do Exército. Portanto é bastante visada e controlada, não sendo fácil a penetração ali, pelo menos legalmente. Por causa de tudo isso, tivemos grande dificuldade em conseguir as autorizações para entrar na região. O Departamento Nacional de Parques recusava nosso pedido. As solicitações foram remetidas com mais de 3 meses de antecedência e, após muita briga, só fui receber a autorização do IBDF dois dias antes da data marcada para a viagem, e a autorização da Funai, apenas na véspera da partida. O desespero que esses papéis me causaram até me revolta quando penso que sem papel nenhum eu estaria ali da mesma forma. Meu objetivo era apenas escalar o pico da Neblina, só isso. Por que então nos impedir? Estávamos fazendo tudo dentro da lei e não prejudicaríamos ninguém. Infelizmente, em nosso país, quem procura andar corretamente sofre mais. Muitos garimpeiros estavam por lá sem autorização, devastando a mata, extraindo metais preciosos sem pagar impostos, mudando o curso de igarapés, pondo fogo na flora e,em alguns lugares, poluindo as águas com o mercúrio. Isso nos revoltava, mas tudo bem. Estávamos em Maturacá em condições de realizar nossa missão. E isso era o mais importante.

O padre emprestou-lhe a lanterna que segurava, indiozinho saiu feliz, correndo para a cozinha.

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Na aldeia do luxaua Daniel
Na manhã seguinte fomos acordados deu o toque de alvorada: _ Vamos tomar café. Tá na hora de levantar. pelo padre, que

Café, leite (em pó, pois na Amazônia leite de vaca é raridade), bolachas doce e salgada, tapioca e banana-prata. Esse era o cardápio, simples mas saboroso, principalmente levando em consideração o lugar em que estávamos. Após o café fomos dar uma volta ao redor da missão. O sol estava brilhando num céu praticamente sem nuvens; havia apenas umas poucas encobrindo um trecho da serra de Baruri. Na da aldeia leva para havia um direção da cadeia de montanhas, pudemos ver parte de Ariabu por trás das árvores. Seguindo a trilha que a aldeia de Maturacá, atingimos um ponto onde galpão de uns 200 metros quadrados. Parecia mais

Era a entrada da aldeia de Maturacá, que ficava do outro lado do canal. Aproximamo-nos e fomos até a margem. As águas eram mais escuras do que as do rio Negro, mas transparentes e cristalinas. Na outra margem, uns 30 metros adiante, índias lavavam roupas e panelas ao mesmo tempo que se banhavam. As mais idosas não usavam camisetas, deixando o busto nu. Crianças brincavam na água, pulando de grandes pedras. Acenamos e perguntamos pelo tuxaua. Logo ele apareceu no alto do barranco iunto a uma palhoça, com duas araras nos ombros. Fez um sinal e um indiozinho, remando com as mãos, levou até nós uma voadeira, atravessando o canal. Subimos na voadeira e ele nos transportou até a outra margem. Ali onde as mulheres cuidavam de suas tarefas, centenas de borboletas amarelas desfilavam em volta pousando quase todas e ao mesmo tempo numa e noutra pedra: Parecia que o local era encantado. Daniel nos levou para conhecer sua aldeia. Mais nova que Ariabu, a aldeia de Maturacá possui palhoças mais bem construídas. A disposição das mesmas é meio irregular e confusa, demonstrando uma certa desorganização. Tuxaua Daniel explicou que o motivo disso foi o grande crescimento de sua população, que forçou o avanço mais para o interior da selva, fazendo com que as antigas palhoças ficassem no interior do pátio central. O tuxaua nos mostrou o cemitério da aldeia. pequeno, com no máximo 12 sepulturas. - Todo mundo é enterrado desconfiado. aqui? Era muito

um salão de forró inacabado. Escutamos algumas risadas vindas de não muito longe. A trilha agora descia; por entre as folhas de um [ornbeiro, identificamos o canal de Maturacá e, do outro lado, índias lavando roupa e banhando-se.

As borboletas amarelas de Matucará.

perguntou Edson

-

É-

respondeu o tuxaua. perguntei.

Não cremam mais? -

- Não. Com a chegada do padre, esse costume mudou. Agora começaram a enterrar - explicou ele. . Antes da chegada do padre Carlos, o tratamento dado aos mortos seguia a regra ianomâmi. Transformados em pó, os ossos do falecido eram misturados com mingau de banana-comprida e servidos aos parentes e amigos, que comiam sem hesitaçâo. Era a

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forma de transferir a força e a sabedoria daqueles que se foram para aqueles que continuavam no dia-a-dia a lutar peja sobrevivência, caçando, pescando e cultivando o solo. E a tradição ianomâmi, retrato de uma cultura milenar ainda presente, que mantém intactos muitos de seus usos e costumes. Dali fomos até a entrada da casa dele. Conversamos sobre os costumes da aldeia, sua subsistência, seu artesanato. Ele nos mostrou palhoça por palhoça. Mostrou uma índia tecendo rede de algodão e outra preparando a mandiocabrava para fazer o beiju. Mais ao fundo da aldeia encontramos uma das cenas mais interessantes até então: o pajé, completamente drogado, dizendo palavras sem sentido. O tuxaua nos explicou que a missão do pajé é espantar 0S maus espíritos e que a tradição deles, neste ponto, ainda é forte. Que droga ele toma para ficar assim e conversar com perguntou Sabadin. chamou Daniel nos levando até a ·No chão havia um potinho cheio de um pó marrom. Ao lado, um tubo comprido de madeira. -Isto é ebena, um extrato da planta paricá. É o pó do pajé. Vejam como funciona ... Ele deu ordens em sua língua para o pajé que se aproximou rapidamente. Ele vestia apenas uma sunga, tinha na cabeça uma cobertura feita de pele de' macaco e no braço, um arranjo de penas de arara. Venham comigo os espíritos? -

O pajé ajoelhou-se. Daniel recolheu com as mãos um pouco de ebena, colocou no tubo e encaixou a ponta deste numa das narinas do pajé. Num forte assopro, só se viu fumaça escapar pelas narinas do velho índio que quase caiu atordoado. Danie'l recarregou o tubo, encaixou na outra narina e repetiu a dose. O pajé levantou e saiu murmurando frases mágicas que o levam à presença dos deuses. Dessa forma ele entra em contato com os espíritos, parime em ianomâmi, e clama por uma colheita mais rendosa e pelo afastamento dos males que adoecem o índio.

o pajé aspira

ebena, erva alucinógena.

porta de uma das palhoças.

Os animais domésticos estavam presentes em toda a aldeia. Eram cães, gatos, galinhas, patos, periquitos, araras e papagaios. Uma indiazinha nos trouxe uma paca domesticada, mansinha e bastante delicada, que logo conquistou nossa simpatia. Uma mucura (gambá) desfilava livremente pelo aldeia, e os cães deitavam -se em qualquer lugar. Terminada a visito, otuxaua deixou-nos à margem do canal, próximo à aldeia, e agradecemos suo atenção e hospitalidade.

Família ianomâmi à porta de sua palhoça.

A paca domesticada da indiazinha ianomâmi.

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Esperando pelo guia
Na missão perguntamos pelo índio Mílton, que havia conduzido a tropa do Exército até próximo do pico em 1985. Descobrimos que ele trabalhava para o padre na missão, mas que não se encontrava no momento, pois tinha saído para caçar. O ianomãmi, quando vai caçar, costuma passar de dois a três dias no meio da floresta. Não se sabia quando Mílton voltaria. O padre insistia em que saíssemos naquele mesmo dia, procurando outro índio para nos acompanhar. Com o auxílio de seu André, padre Carlos conseguiu um guia. Era um índio jovem, de menos de 18 anos. Ele não parecia confiante e, ao perguntar-lhe se conhecia a região, respondeu que nunca tinha ido até lá, mas que poderia achar o caminho. De cara recusamos aquele guia. Decidimos partir somente com o índio Mílton. Padre Carlos estava um pouco impaciente. Perguntamos o porquê daquilo, daquela pressa. Ele explicou que os tuxauas são desconfiados e, a qualquer momento, poderiam mudar de idéia e impedir a nossa viagem. Um frio correu pela minha espinha naquele instante. Afinal estávamos nas terras deles. Era um risco real. Almoçamos um pouco tarde. Estávamos nervosos com a situação, mas não queríamos demonstrar. Após a refeição, fomos ao alojamento e iniciamos a arrumação das mochilas, preparando também a mochila camuflada poro ser usada pelo índio Mílton. Muita coisa ficaria na missão. Resolvemos passar a tarde ali, imaginando como seria a viagem pela selva. Será que nosso treinamento havia nos proporcionado condição suficiente para desbravar aquele mundo desconhecido? De toda a Amazônia, certamente aquela era a área menos explorada, temida devido à fúria ianomâmi e ao misticismo que envolve o lugar. A serra é um imenso maciço

vulcânico e uma das regiões mais belas e hostis do planeta. O grau de umidade é altíssimo, as chuvas são intensas, a temperatura é baixa e os ventos são constantes, proporcionando uma sensação térmica bastante singular. A selva, que margeia toda a base do pico, com a média de 35 graus centígrados à sombra, é superúmida e repleta de animais e insetos. O formigão tocandira, os mosquitos piuns e os mais variados tipos de doenças e males tropicais são apenas alguns dos guardiães do pico. Antes do jantar, Edson veio me chamar, eufórico: Mílton está aí. Ele acabou de chegar da floresta!

Corremos até o pátio. E lá estava ele. Mílton, o "Grande Mílton", que fizera o maior sucesso na televisão ao participar como guia da não vitoriosa expedição do Exército. Ele não falava bem o português. Mas mesmo assim confiávamos nele. Seria nosso guia. Seu André nos levaria de voadeira até a foz do igarapé Tucano, numa viagem de 41 quilômetros subindo o rio Cauaburi. Percebemos que o padre ficara mais aliviado. selhou: Saiam amanhã bem cedo. e lhe passamos sua foi Ele acon-

Levamos Mílton até o alojamento mochila.

Acertamos o horário da saída e Mílton descansar ao lado de sua família.

à aldeia

Mais tarde, padre Carlos chamou-nos para o jantar. Depois de uma maravilhosa refeição (estávamos muito animados), tivemos a honra de receber a visita do temido tuxaua Joaquim e seu filho mais velho, Miguel, que logo o substituiria no comando da aldeia. O tuxaua dirigiu a palavra a mim, enquanto seu filho e o padre traduziam o que ele tinha a dizer. Começou dizendo que não precisa ríamos ma is subi r a serra. Aquilo soou como um tiro em meu coração e logo uma taquicardia

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invadiu meu peito. Explicou que já havia mandado um mensageiro até o alto da serra e determinado que todos os garimpeiros retornassem à aldeia e posteriormente a São Gabriel, sendo portanto desnecessária nossa viagem montanha acima. Não era possível. Por incrível que pareça, aquele sábio guerreiro imaginava que estávamos ali para prender os garimpeiros que extraíam ouro no parque. Coitados de nós! Seria mais fácil eles nos assarem numa fogueira do que a gente intimar um bando de garimpeiros sedentos por ouro a desistir de seus negócios. Até padre Carlos ficou boquiaberto. De imediato, rebateu as afirmações do tuxaua, explicando nossa verdadeira intenção. Foi muito difícil, mas tudo indicava que ele finalmente havia compreendido. O tuxaua retornou a sua aldeia. Padre Carlos nos encarou preocupado: Eu não disse? Os tuxauas são muito desconfiados. Criam suas próprias preocupações. Amanhã, tratem de viajar bem cedo. -

e~3
o ENCONTRO
COM A SELVA

4~

r:t:u 6~. O céu ainda estava escuro. Tomamos o café e logo surgiu o nosso guia, vestido apenas com um calção surrado e uma camisa bem velha. Estava descalço e não trazia nem uma blusa.
Sabadin. Você não tem sapatos, Mílton? perguntou-lhe

~

- Não. - Sua résposta era direta e de uma humildade que dava até pena. - Pode deixar que nós arrumamos roupa para você disse Edson. Fizemos os acertos finais para a viagem. Padre Carlos nos auxiliava com conselhos e ordens para o índio. Ele parecia bastante aflito para nos ver partir. Às 8 horas estávamos prontos. Seu André [ó estava na voadeira, na margem do canal de Maturacá, preparando o motor para a viagem. Era um motor de 15 HP num barco de 5 metros de comprimento. Sabadin ligou seu gravador:

Dezoito de dezembro ... 8,05 h... Estamos saindo daqui da Missõo Salesiana de Maturacá ... Agora nós vamos seguir uma trilha

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aqui, pegar uma voadeira e ir até o igarapé Tucano, onde iniciaremos a ;ornada pela floresta. Ho;e é domingo, dia de missa aqui na missão. Cada um de nós está levando, aproximadamente, 22 quilos em sua mochila. O suficiente para a gente passar 10 dias no mato.
As águas do canal de Maturacá eram negros. Suas margens eram puro floresta, com enormes árvores, cujos copos cobriam o céu. Predominava o sombra, com umas poucos brechas por onde o sol conseguia passar. Muitos cipós pendiam pelo cominho, dando um aspecto sombrio e interessante 00 local. Após uns 10 minutos chegamos 00 rio Cauaburi, onde suas águas de cor barrento recebem, sem misturar, os águas negros daquele canal. Seu leito tem uns 40 metros de largura e o correnteza é bem forte, o que forçava bastante o motor do voadeira. O Cauaburi é muito traiçoeiro. Ali, segundo soubemos, poderiam ser encontrados jacarés e piranhas, mos não em abundância. Seu André conhecia cada ponto do rio e sabia onde havia pedras submersos, desviando no último instante, impedindo que o hélice do motor atingisse alguma e se partisse. Após 30 minutos de viagem, atingimos o território do aldeia Maiá" do outro lodo de uma pequeno serro, o muitos quilômetros. E o terceiro e último aldeia dos Kohoroxitaris.

São 8,31 h. Acabamos de avistar um ciemari ... ciemari ... um tipo de peixe-espada. Agora são 8,48 h. Estamos ávistando três araras. Araras amarelas ... Agora são quatro! Estão todas voando ... Mais três, são sete ... Que beleza, está cheio de araras aqui. Mais duas! Muito bonito.
t

Possamos pelo serro de Carriá, à nosso esquerdo, e, do outro lodo, sempre imponente, estava o serro do imeri, oro encoberto pelo neblina, oro mostrando parte de suo magnitude.

Subindo o rio Cauaburi.

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Eu estava curioso para saber qual era a serra da Neblina, a resposta de seu André era sempre a mesma:

mas

assim. Se a gente pergunta se ele concorda com alguma coisa, sua resposta sempre é positiva, porque ele quer agradar. Colocamos as mochilas nas costas e já sentimos que não estávamos em boa formà. Ficamos ofegantes só em ficar de pé, sem dar um único passo. Aquilo significava que iríamos ter problemas e que o sofrimento não seria pequeno. Até Mílton reclamou do peso. O índio trouxe uma espingarda emprestada do padre. Na verdade um trambolho desnecessário. Em questão de armamento estávamos razoavelmente seguros, cada um com seu revólver calibre 38 no coldre, além de uma reserva considerável de munição. Sinceramente não acreditava precisar de minha arma. Não considerava os garimpeiros uma ameaça. Antes de nossa partida selva adentro, armei a máquina fotográfico no tripé e juntei todos os presentes para uma foto. O senhor vai ficar por aqui ou já vai embora? -

- É por
daqui.

detrás da serra de Baruri, ainda não dá para ver

Agora são /0,45 h. Há alguns minutos nós vimos um pássaro, um grande pássaro preto... E copari o nome, e agora estamos vendo aqui um... como é que é o nome? ... Coró-coró, pássaro corócoró.
E assim nossa viagem prosseguia Cauaburi acima. O rio é bastante sinuoso, com muitos bancos de areia, e, a cada quilômetro, sua largura vai diminuindo, dificultando ainda mais a navegação.

São //,05 h. Estamos saindo do rio Cauaburi e entrando no igarapé Tucano... É um riozinho bem pequeno e raso. Dá para ver o fundo, as águas são clarinhas... tipo água de serra mesmo. O mato aqui chega quase a fechar o rio inteirinho... quase que forma um túnel.
Foram 3 horas de viagem. Seu André desligou o motor e, com o auxílio de alguns galhos, conduziu o barco até a margem. Era o início do caminho para o alto da serra. Ali havia um tapiri parcialmente montado, restos de fogueira e alguns indícios da civilização, como latas vazias e sacos plásticos. Era o lugar conhecido por Boca do Tucano. Ponto fjnal das mordomias. A partir daquele momento, só dependeríamos de nossas atitudes e, para conseguir qualquer coisa, teríamos que batalhar ainda mais.

perguntou Edson a seu André. Não, eu vou caçar por aqui.

- Quais as caças que tem aqui? - perguntou Sabadin que, desde São Paulo, dizia querer caçar junto com um índio. - Tem mutum, tem cujubim, porquinho, porco, queixada. Tem macaco, conhece macaco-cotá? Tem macaco-prego, tem anta, paca. Tem onça? Também aparece, mas é arisca, né? perguntou Edson,

-

É,

vi chuva -

falaram que aqui chove muito, mas até agora não comentou Sabadin reclamando do calor. Mílton, ou tem

Mílton, mais pra frente tem água? Tem, tem por aí ... -

- Aqui é o melhor lugar para acampar, mais pra frente? - perguntou Edson. Tem, tem por aí ... Então, mais pra frente é melhor, não?

com o cantil na mão. Esta era a resposta pad rão dele.

-

É-

respondeu Mílton.

Edson estava cometendo um dos piores erros na regra de conversação com índio: induzi-lo à resposta. Todo índio é

Combinamos o retorno para o dia 28 de dezembro. Seu André prometeu chegar ali dia 27 à noite e fic~r caçando. Sabadin preparou um cigarro de palha para o Md.ton e. outro para ele. Estávamos prontos para a jornada. A partir dali seria tudo ou nada.

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o primeiro

dia na mata

São 15,56 h. Chegamos aqui no acampamento. Fica ao lado do rio Tucano ... Está todo mundo cansado, fatigado ... só o índio que não. Ele nem suou, é incrível!
Ali havia um tapiri semimontado. Faltava apenas cobri-lo com folhas de palmeira. Era o local ideal para Mílton armar sua rede. Tapiri é uma espécie de abrigo feito de galhos, cipós e folhas, aproveitando tudo que a natureza possa oferecer. Abrimos as mochilas, escolhemos um ponto adequado montamos nossa barraca modelo iglu. e

Na floresta amazônica, não há como sentir-se sozinho. Cantos de pássaros de toda espécie tomam conta do ambiente, transmitindo-nos alegria e a sensação de vida. Nossa jornada pela selva começou às onze e meia da manhã. Realmente não estávamos em boa forma, realizando a primeira parada depois de apenas 10 minutos de caminhada. O caminho era por demais tortuoso e repleto de grandes raízes que, freqüentemente, derrubavam um de nós no chão. Mílton disparava na frente. Muitas vezes ele desaparecia no meio da mata e nós perdíamos a trilha, ficando completamente desorientados e alarmados. Mílton nos ensinara um modo de chamar o co~panheiro no meio do mato. Era um grito curto e agudo, parecido com o pio de uma coruja. "Uuh!" Por mais que chamássemos a atenção dele, não adiantava; mais alguns minutos de caminhada juntos e ele começava a se distanciar até sumir de vez. Fazíamos uma parada a cada 15 minutos de caminhada ..Era uma média péssima e nós não estávamos progredindo ~ratlcamente nada. Para piorar, o relevo ali era plano, não tínhornos começado a subir ainda. Estávamos a uns 350 metros em relação ao nível do mar e pretendíamos chegar até os 3014 metros de altitude! A trilha não era ruim. Era a estafa que mexia com nossos reflexos, deixando-nos lentos, e fazendo com que um ou outro tropeçasse numa raiz. Eu já estava aloprado com tudo aquilo. Nos pontos mais baixos e úmidos, havia inúmeras saliências de barro, d~menos de 10 centímetros de altura. Pareciam pequenos vulcoes. Após muita trilha, raízes, buracos, troncos e piuns, atravessamos o igarapé Tucano, que, naquele ponto, tinha uns 20 metros de largura e uma profundidade não superior a 1 metro. Do outro lado havia uma área descampada, que seria nosso primeiro acampamento na selva amazônica.

Havia ali um enorme tronco caído, um verdadeiro balcão, ponto excelente para cozinhar, e comecei logo a preparar nossa primeira refeição. Essa seria a rotina, fazia parte do planejamento. Eu cozinhava e eles se revezavam na lavagem das panelas. O cardápio seria arroz com passas, creme de ervilhas com bacon e primavera de legumes. Para refrescar, suco artificial de laranja e, de sobremesa, um delicioso curau. Enquanto preparava a comida, Sabadin tentava acender uma fogueira. Mílton havia saído para pescar, levando consigo um pedaço de linha de náilon e um anzol. Antes do anoitecer, Mílton retornou com três aracus, que foram colocados na fogueira para assar, enquanto íamos jantando. Sabadin ficou bravo com o índio por não tê-lo convidado para pescar. Com o estômago cheio, nosso ânimo melhorou. Sabadin pegou uma lanterna e saiu decidido a pegar um peixe. Comecei a me sentir um pouco melhor. Como estava calor e o céu absolutamente limpo e estrelado, retiramos a parte impermeável da barraca, deixando exposto o mosquiteiro. Dessa forma, deitados, pudemos contemplar aquele céu maravilhoso e até pedir-lhe forças para levar adiante nosso objetivo. Mal cochilamos, fomos atacados por um exército de mosquitos piuns. Os desgraçados eram tão pequeninos que passavam facilmente pelo mosquiteiro da boneco. a qual, sem a parte superior, ficou completamente exposta. Levantamo-nos

I I

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p:z

rápido, recolocamos o impermeável na barraca e nos lambuzamos de repelente. Mas o repelente não adiantou. Fomos ~brigados a nos cobrir por completo numa noite quente, que tinha tudo para proporcionar um descanso fabuloso. Mas apesar disso, dormimos bem. Ou melhor, caímos num sono profundo, dominados pelo cansaço.

Aqui os cipós são bem mais grossos do que os que tínhamos visto antes e parece que as árvores também são maiores. E nós só estamos subindo ...
Mais algumas horas de sofrimento, atravessamos novamente o Tucaninho e chegamos ao acampamento de mesmo nome.

Segundo dia: caminho errado!
Dia 19 de dezembro. São exatamente 8,05 h. Já levantamos o acampamento aqui e vamos seguir em frente, em nosso segundo dia de viagem. O azimute é de 320 graus.
Seguimos a trilha, que não diferia em nada da anterior Muitas r?í~es,. buracos e troncos caídos. A floresta possuía urno corocteristico Interessante. As árvores eram extremamente altas e es~~çadas, deixando a mata bastante transponível, ao contrario da mata atlântica, onde a gente se enrosca a todo momento em cipós e espinhos. Logo à frente, encontramos a cachoeira onde Mílton havia pescado os aracus. Tivemos que atravessá-Ia. Não foi muito fácil, pois, além do peso das mochilas, a correnteza ali era bastante forte e, naquele ponto, o rio era um pouco mais fundo. Tivemos que fazer uma corrente com as mãos e atravessar com todo o cuidado. Nem caminhamos 50 metros e atravessamos outro rio o Tucaninho, mais raso e de extensão menor. Ali paramos poro descansar. Caminhamos mais um longo percurso. Agora começamos realmente a subir. A inclinação era bem baixa mas [ó era bom sinal. '

Bem, chegamos aqui no acampamento por volta de 15,30 h. O acampamento fica às margens do, Tucaninho e, pelo ieilo, ele se encontra habitado. Vamos ver... E, realmente há três garimpeiros aqui e uma grande fogueira.
Estávamos receosos. Era o nosso primeiro contato com garimpeiros no meio da selva e não sabíamos qual seria a reação deles. Aproximamo-nos com certa precaução. A área do acampamento era pequena. Havia ali um abrigo, com cobertura de plástico, de uns 15 metros quadrados. As redes estavam estendidas e no chão, por cima de troncos cuidadosamente colocados, ficavam os mantimentos e os diversos materiais. de trabalho. Estavam todos deitados, descansando e escutando a Rádio Nacional de São Gabriel da Cachoeira. Cumprimentaram-nos e começamos a conversar. Elesestavam voltando da grota da Pepita, que, segundo eles, ficava na base do pico da Neblina. A alguns metros do abrigo, eles montaram uma fogueira enorme, onde havia um quarto de veado moqueando. Foi o garimpeiro Davi que caçou o animal com um tiro de espingarda, no dia anterior. Experimentamos a carne, já com bastante fome, pois nossa última refeição tinha sido um ralo café da manhã. O líder do grupo era Guilherme, um gari mpeí ro experiente, que já passara por muitos garimpos pelo Brasil. Fomos muito bem recebidos por eles. Montamos nossa barraca num plano mais elevado, a uns 5 metros do abrigo deles, onde Mílton conseguiu um espaço para montar sua rede. Ali ficamos conhecendo a situação do garimpo da região. Desde que o projeto Radam-Brasil detectou a presença de metais

São 13,24 h... Estamos mortos. Aqui está muito difícil. Muito mato, muito cipó. Acabei desenvolvendo minha parte selvagem ~quJ. InclUSiveeu me perdi do índio e fui seguindo o rumo por. mstmto... e estamos chegando. Esta viagem está sendo uma loucura!

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paz

preciosos - em particular o ouro - na área do Parque Nacional do Pico da Neblina, em 1975, algumas pessoas passaram a estudar a fundo o relevo da região e toda a sua geologia, abrindo trilhas mata adentro e pesquisando pontos realmente longínquos. Com isso, São Gabriel da Cachoeira, a capital do alto rio Negro, passou a viver momentos de fartura. Sendo a cidade mais próxima da serra da Neblina, grupos de pessoas ali se reuniam, abastecendo-se com centenas de quilos de suprimentos para desbravar aquele mundo perdido com um único objetivo na mente: o ouro. Em decorrência disso, foram surgindo as áreas de garimpo, sendo as principais: igarapé Aliança, na serra do Padre; cabeceiras dos igarapés Anta e Tucano, no alto Cauaburi, e a mais recente e de grande potencial aurífero, o alto Ariabu, na base do pico da Neblina. Imaginar que a vida de garimpeiro é fácil é pura ilusão. As dificuldades começam pela formação do grupo, onde os fatores confiança, vigor físico e seriedade são fundamentais. Muito dinheiro é gasto (ou promissórias assinadas) na compra de suprimentos suficientes para passar cerca de 3 meses isolados naquele mundo inóspito. Com o grupo formado, devese pedir permissão aos tuxauas, que controlam toda a área. "A região é dos ianomãmis e, sem a nossa permissão, ninguém entra!", afirmava tuxaua Daniel. Para conseguir tal concessão, o preço não é nada baixo, atingindo porcentagens muito altas de todo o serviço do garimpeiro, quando não é exigido algum tipo de adiantamento. Eles também utilizam outros meios para conseguir a permissão. Dênis, um dos garimpeiros, ali presente, de apenas 19 anos, casou-se com a filha do tuxaua Daniel, tendo portanto livre acesso à área sem dever porcentagem alguma pelo produto extraído. Conseguida a permissão dos tuxauas, inicia-se a fase dura do trabalho: o transporte de centenas de quilos de ferramentas e alimentos selva adentro. Esse transporte segue o mesmo caminho que fazíamos. Vêm de voadeiras até a Boca do Tucano e, dali, tudo é carregado nas costas, numa trilha tortuosa

de mais de 35 quilômetros, em região de selva e montanha, demorando mais de 10 dias para que todo o "rancho" seja tombado montanha acima. - Vocês querem ir até o pico da Neblina? estão no caminho errado! - declarou Guilherme. Como?! Fiquei paralisado. Mas vocês

- O caminho correto sai da Cachoeira para lá. Vocês estão na trilha do garimpo, que dá a volta por trás do pico. A outra é bem mais rápida. Não era possível. Um dia inteiro de caminhada e tudo por água abaixo. Teríamos que voltar tudo e seguir a outra trilha. Uma enorme raiva apoderou-se de mim e uma vontade de estrangular Mílton quase me fez perder a cabeça. Edson e Sabadin me acalmaram. - Mílton, você não sabia que era por lá? Guilherme a ele. perguntou

-Caramba! -gritei. -Não foi por lá que você conduziu o Exército? Por que nos trouxe aqui, pelo caminho errado? Mílton tentava explicar com as poucas palavras que sabia. O problema foi que o filho do tuxaua Joaquim, Miguel, lhe disse para fazer aquele caminho. E o pior foi que ele resolveu seguir tal conselho sem nos consultar. Nós estávamos no caminho errado e teríamos de retornar. Ou seja, dois dias de viagem jogados fora e energia preciosa desperdiçada. Apesar de tudo, sabíamos que Mílton não tinha culpa. Peguei a carta da região e passei a estudá-Ia. Guilherme, apesar de não saber ler bem um mapa, ajudou-me com informaçôes sobre o relevo e as denominaçôes dadas por eles. A partir daquele momento eu estava reossurnlndo a posição de líder e guia da expedição. Mílton passaria a andar atrás, cuidando de nossa segurança, de olho nos perigos da selva, e servindo de mensageiro, ficando encarregado de voltar correndo à missão para pedir socorro, no caso de algum acidente grave conosco.

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A ajuda do garimpeiro foi muito valiosa. Nós não estávamos tão errados. A trilha era mais longa mas chegava até o pico, e isso é que interessava. Preparei o jantar: arroz, creme de champignon ao leite e passas, farinha grossa de mandioca e veado moqueado. Um semi-estrogonofe. Fui consagrado como cozinheiro, pois o jantar agradou a todos. Guilherme preparou um mapa para nós com a trilha e os pontos de acampamento e garimpo. A partir dali nosso trojeto seria mais ou menos este: subiríamos a serra do Barro, que iniciava ali mesmo no acampamento, desceríamos um pouco pela crista, atingindo a grota do Açúcar ... Continuando a trilha, atravessaríamos umas três grotas (talvegues pequenos com curso d'água) e subiríamos uma delas, atingindo o acampamento da Pica do Baiano. Sabadin Pica do Baiano? Por que esse nome? ligando o gravador. perguntou

parar para cor;ner. Desviando do Vento, à direita, está a grota do Homero. E pertinho dali. Daí você chega na s~rra da Montilla. A serra da Montilla é a mais falada por aqui. E que os índios foram para o garimpo, levaram um litro de Montilla e beberam tudo lá em cima. Por isso colocaram esse nome ... Sabadin. Esses índios são gozadores - Esses índios são fogo! mesmo comentou

- ... e deram o nome mais bonito da região: serra da Montilla. Ela fica de frente para o pico. A serra de um lado e o pico de outro. De lá você avista todo o pico. Mas 031 de Março vocês não vão conseguir ver, não. Por essa trilha, só se pode avistar o 31 de Março da base do pico da Neblina. Segundo ele, após subir a Pica do Baiano, atinge-se o platô da serra, onde a vegetação é completamente diferente. da selva. Mais alguns quilômetros adiante dali, se o tempo estiver bom, pode-se avistar o pico da Neblina, nosso tão sonhado objetivo. Fomos dormir um pouco mais esperoncosos. Precisávamos descansar bastante, pois no dia seguinte começaríamos a subir. Até ali era só plano e já estávamos bem desgastados. O dia seguinte não seria brincadeira.

Guilherme ficou sem graça. bou contcndo..

Enrolou, enrolou, mas aca-

Tem um garimpeiro aqui, o Baiano, que estava acampado lá. E aí colocaram ... os índios colocaram o nomede Pica do Baiano. - Mas por que os índios colocaram insistiu Sabadin. Dênis ajudou: esse nome? -

Serra do Barro, um martírio
São 8,05 h do dia 20 de dezembro. Agora nós vamos sair daqui do acampamento onde se encontram os garimpeiros e vamos subir a serra do Barro. Vai ser uma caminhada e tanto. A previsão é chegar daqui a 5 horas na grata do Açúcar.
Despedimo-nos de Guilherme, Davi e Dênis, e atravessamos novamente o Tucaninho, encontrando na outra margem o início da subida da serra do Barro, uma vertente bastante íngreme e escorregadia, apesar de não chover há dias na região. As mochilas pesavam mais ainda. Dávamos alguns passos e parávamos escorando o corpo numa árvore. A respiração estava ofegante e o coração batia forte e rapidamente.

- É que viram ele tomando banho. Viram ele tomando banho e se assustaram com o tamanho ...
Todos rimos. Sabadin brincou com Mílton:

. -

É que de índio deve ser pequenininho. Quero ver você

tomar banho, Mílton. Mílton riu. quê? Esse Mílton só ri ... E depois da Pica do Baiano vemo perguntou Sabadin, retomando o assunto. do Vento, mas antes onde a gente costuma

Depois vem o acampamento vocês passam pela grota da Merenda,

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Continuamos a dura jornada. O topo da serra não chegava. Muitas vezes tivemos a falsa impressão de que faltavam apenas poucos metros para chegar no alto. Mas quando chegávamos àquele ponto, víamos que faltava mais uma rampa, outra, e mais outra. Era uma subida sem fim, que estava acabando conosco. Pelo meu altímetro, estávamos a 1100 metros, após 3 horas de marcha. Depois de muita subida atingimos finalmente o alto da . serra. A trilha continuava seguindo sua crista, que era um leve declive. Ali a vegetação rasteira começou a aparecer com mais freqüência, atrapalhando a passagem de nossas mochilas em determinados pontos. Mílton de repente parou e ficou atento. Pensávamos que fosse uma onça ou outra fera e sacamos, todos, nossas armas. O índio apontou sua arma para cima e disparou. O que era, Mílton? Gavião. Gavião. perguntou Edson assustado.

sacrifício, enquanto Mílton ia retirando as penas do gavião e guardava uma por uma num saco plástico que lhe havia dado.

-

É para usar na festa da pupunha - ele dizia contente.

Todo mês de janeiro, época em que tal fruta abarrota a região de Maturacá, realiza-se a festa da pupunha, uma tradição que o padre não soube dizer quando começou, mas é considerada uma das melhores festas da tribo. Descobrimos ali o porquê daquele nome: grota do Açúcar. As evidências nos faziam pensar assim. O local estava repleto de abelhas, tendo uma, inclusive, picado a mão de Edson. Nosso jantar foi novamente engrossado com farinha de mandioca, o xibé, que Mílton conseguira com os garimpeiros. A farinha era simplesmente horrível, parecendo serragem com algumas pedrinhas no meio. Mas na situação em que nos encontrávamos e com a escassez de nossa comida, aquilo desceu como um maravilhoso banquete. O gavião só ficou pronto horas depois do jantar. Sua carne era bastante escassa e dura. Era arrancar um pedaço e ficar mascando. Mílton não quis comer. Ele matou a ave somente para retirar suas penas. Mílton armou sua rede entre duas órvores de frente para a entrada de nossa barraca, e fomos dormir bastante cansados, mas com o estômago satisfeito. No meio da noite caiu uma chuva repentina e Edson, preocupado com o índio, jogou-lhe um plástico grande. Era a primeira chuva que pegávamos na selva e, por sorte, estávamos bem protegidos dentro de nossa barraca.

- Você gastou seu único cartucho num gavião e nem ao menos acertou? - reclamou Edson. Por incrível que pareça, Mílton trouxe uma espingarda e apenas um cartucho. Era o primeiro e último tiro daquela arma, durante toda a expedição .. De repente um barulho de algo caindo próximo. Eu não podia acreditar ... ele acertou o gavião.

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Caramba, Mílton é bom de tiro. Acabou de buscar um gavião, num tiro só. O gavião demorou mais ou menos um minuto e caiu próximo de nossa posição. Eh, lasqueira! Esse índio é bom mesmo. Vamos ter gavião assado hoie
O tiro acertou na cabeça da ave. Era um gavião branco de porte médio. Seria realmente bem-vindo em nosso jantar. Após uma forte descida, alcançamos a grota do Açúcar por volta das 5 horas. Estávamos atrasados quase 4 horas em relação à previsão feita no Tucaninho. Acamparíamos ali mesmo. Armamos a barraca num ponto elevado e fui cuidar do jantar. Sabadin e Edson montaram uma fogueira com grande

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Cipó é aqui, inclusive nosso grande tenente está agora bebendo sua água cristalina.
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Não poderíamos parar ali por muito tempo. Nossa cadência era muito lenta e eu estava preocupado em chegar logo ao acampamento do Vento. Eu já tinha decorado o mapa feito pelo garimpeiro, tentando adequá-lo à carta da região e estimar melhor as distãncias a percorrer. Iniciamos a subida da Pica do Baiano. Estávamos deixando para trás a floresta latifoliada e nos aproximando dos campos de altitude da serra da Neblina. A inclinação da vertente era bem superior à da serra do Barro e, para complicar, uma forte tempestade [errou do céu, encharcando nossas roupas pela primeira vez nessa expedição. A trilha transformou-se num lamaçal que logo foi lambuzando nossas roupas. Em alguns trechos, sua inclinação era tão acentuada que os garimpeiros tinham fincado troncos para servir de degraus. Nosso ritmo diminuiu muito e, molhadas, as mochilas passaram a pesar mais. Olhando para trás, quando a neblina permitia, dava para ver a floresta, que ia ficando para baixo. Dava a impressão de que lá não chovia, parecendo até que o tempo estava bom. Mas ali no alto, a intempérie aumentava a cada metro que subíamos. Encontramos um paredão de puro barro, de uns 15 metros de altura. A chuva forte não permitia olhar para cima. Havia alguns galhos e pequenos troncos ancorados nele e muitas bromélias revestiam sua superfície. Agarrando raízes, apoiando os pés em galhos e troncos e, principalmente, sendo empurrados pelo companheiro de trás, vencemos aquele obstáculo, atingindo o alto bem fatigados. Ventava muito e, num determinado instante, parte da neblina ali dissipou-se, mostrando que nada mais havia a subir. Estávamos no platô da serra da Neblina, em seus campos de altitude, onde a visão perdia-se em infinitos horizontes.

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o PLATÔ DA SERRA DA NEBLINA

/lia ~~,

ao levantar, vi Mílton todo encolhido dentro da rede, totalmente encharcado. Sabadin também não acred.itava .no que via: o índio havia guardado o plóstico na mochila e ficara a noite inteira debaixo de chuva.

. Tomamos o café da manhã, que se resumia em pouco rnois de dOIS copos de café com leite para cada um, com algumas colheres de aveia.

São 8, 1~ h do dia 21 de dezembro. Estamos saindo agora da grota do Açucar, a caminho da Pica do Baiano. Vamos ver se dá para fazer a caminhada ho;e. Bom, nós reclamamos da chuva né Eduardo? E ela veio. Sabe a que horas?Ouas e mei; d~ madrugada
Nosso objetivo era caminhar até o acampamento do Vento, passand? dir.eto pela Pica do Baiano. A previsão, segundo os garimpeiros, seria de uma jornada de 7 horas, chegando ao Vento, portanto, lá pelas 4 horas da tarde.

o

Onze e dez. Chegamos ao acampamento da Pica do Baiano. ~stamos a 1540 metros de altitude, temperatura de 21 graus. Aqui e uma enorme clareira aberta na floresta. Muitas árvores caídas e há um enorme tapiri coberto com plástico A nascente da grota do

o

São 14,05 h. Altitude: 1850 metros. Temperatura: 25 graus. Acabamos de atingir o cume da Pica do Baiano. Muito difícil

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mesmo, dificílimo. Tivemos que agarrar nas raízes, o peso da mochila iogando a gente para trás... Muito perigoso.
Ali no chão havia alguns troncos de palmeira, postos lado a lado, formando um tipo de assoalho. Aquilo era usado pelos garimpeiros para colocar o rancho, protegendo-o do solo lamacento. Sabadin, Mílton e Edson sentaram-se ali. Ali pude ver como o coitado do Mílton sofria. Como civilizado, sempre vi o índio como um Tarzan na floresta. A imagem dos livros e filmes nem sempre é real. Eles são humanos e, como nós, sentem dor, frio e fome. Mílton estava descalço, de calção e camisa. A chuva e os ventos eram intensos e gelados, contrastando terrivelmente com a temperatura do ar. Parecia que estávamos debaixo de um forte sol recebendo um jato de água fria. A sensação era esquisita e desagradável.
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Mílton entrou por debaixo do poncho de Sabadin e ficou ali, duro como um picolé, tremendo dos pés à cabeça. Fiquei com muita pena dele. Mas não adiantava preocupar-me com isso. Os pontos de vista do índio são bastante estranhos. Edson, que era do tamanho dele, deu-lhe um uniforme camuflado completo para a viagem, entretanto ele resolveu guardar na mochila para não estragar. Vamos embora, vamos embora. A hora está passando. Estava exausto, mas

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Não sei o que se passava comigo. não queria parar.

Reiniciamos a jornada caminhando pela primeira vez naqueles campos. O solo era esponjoso, encharcado, repleto de pedras, liquens e bromélias gigantes. Caminhar ali era um martírio. Atolávamos a cada passo dado, e o perigo de quebrar uma perna ali era grande.

No platô da serra da Neblina, o solo esponjoso e encharcado mais a chuva constante dificultavam a caminhada. ill/
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. São /5,30 h. Parou de chover aqui em cima. Estamos avistando dois pICOSbem altos. Acreditamos ser um deles o pico da Neblina. De vez em quando a nuvem sai da frente e dá para enxergá-los. Agora estamos em dúvida.

-

É

ele, sim -

disse Mílton.

platô parecia um enorme vale ondulado, cercado por pequenos e grandes montes nas bordas. Toda a água da região desembocava no pequeno rio Ariabu, que ia aumentando de volume até atingir o canal de Maturacá, lá embaixo. Olhando de longe, o platô parecia um enorme gramado macio, de fácil progressão. Mas na verdade era uma esponja gigante, encharcada, cheia de pedras pontudas. Aqueles garimpeiros deviam retirar muito ouro dali. Somente muita ambição podia levar um homem a ficar meses instalado num lugar assim. Às cinco da tarde, atingimos com muito sacrifício a grota da Merenda, numa altitude de 1 740 metros. Era uma pequena grota de água gelada, onde, 20 metros adiante, havia espaço para montar acampamento. Havia uns galhos já cortados no meio da lama. Montamos uma espécie de palafita, cobrimos com folhagem de palmeira e bromélias, disfarçando um pouco aquela superfície retorcida. Armamos a barraca em cima e verificamos seu interior. Uma droga! O chão da barraca estava todo cheio de saliências e em alguns pontos cedia ao nosso peso. Com certeza aquela seria a pior noite de nossa expedição. Enquanto todos trocavam a roupa molhada, fui preparar o jantar, que só foi servido às nove e meia da noite, devido à dificuldade de se fazer qualquer coisa naquela lama. Eu ainda não tinha trocado de roupa. O uniforme

o

molhado congelou

meus ossos.

A alewia invadiu nossas almas. Começamos a brincar e a ~os,c~mprlmentar. ~st?vamos vendo o ponto mais alto do país, p~,vdeg'o que pouqurssirnos pessoas tiveram. Até fotos em livros sao raras, sendo freqüente a utilização da imagem da serra do P~dre para !epresentar o pico da Neblina. Preparei minha camera e nao economizei ~ilme. Cada nuvem que passava dava um ?:p~cto novo ao pico e era motivo para registro. Eu estava lelicissirno. Mas tínhamos de continuar a caminhada . .

Edson me ajudou a desamarrar as botas e tirar as roupas lambuzadas daquela lama preta e fedida. Vesti toda a roupa seca que tinha. Entrei em meu saco de dormir, me acomodei o melhor que pude, mas continuava a tremer sem parar. Sabadin abriu seu diário e começou a escrever os fatos do dia. Aos poucos minha tremedeira ia passando.

... A escada feita de uma árvore, foi o maior 'sacrifício para subir nela ... aliás foi o maior sacrifício fazer tudo ... Aqui em cima, um mundo de barro ... Barro para tudo quanto é lado ... e hoie ninguém tomou banho.

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Sentindo-me melhor, retirei da bolsa de equipamento fotográfico as anotações e mapas da região e comecei a estudá-los, tentando localizar nossa posição. - Se tivéssemos uma carta precisa, tudo estaria resolvido. Mas confiar num mapa manuscrito de um garimpeiro e em outro feito por um integrante do Batalhão de Forças Especiais coloca a gente numa situação incerta - desabafei. , - ~e~, se o pico está ao norte, como foi conferido pela bussola, e so seguir a direção e pronto - disse Sabadin. . - O problema, Sabadin, não é saber onde é o pico da Nebll,na. O que eu realmente quero saber é a via certa para escal.a-Io. Lembrem-se de que estamos com equipamento de alpinismo reduzido e que o vento e as chuvas não estão a nosso favor. O lado correto - continuei - é por onde o Exército havia tentado em 1985. - Mas não seria melhor escalar por outro lugar? perguntou Edson. - Assim marcaríamos pioneirismo. - Tudo bem. Mas nossa comida está no fim e, nessa marcha, logo estaremos sem nada para comer. Preciso descobrir como alcançar a trilha original. Assim nosso retorno poderá ser reduzido para, no máximo, 3 dias. Enquanto discutíamos, recomeçou a chover. As saliências do piso não deixaram ninguém dormir direito.

Nós estávamos contornando uma pequena elevação que impedia a visualização do pico. Faltava pouco para atingirmos uma linha de cumeada que dividia o rumo das águas do platô, as bacias do alto Ariabu e alto Cauaburi. Atingimos a linha de cumeada. À nossa frente, uma baixada de uns 100 metros de desnível, por onde a trilha continuava e, mais à frente, desviava para a esquerda. Paramos para um descanso. Fiquei observando o terreno, pois queria entender o porquê de a trilha descer por ali e não continuar pela crista da elevação, na direção exata do pico. A resposta veio com a saída da neblina, que descobriu uma elevação de pura rocha, não muito alta, mas bem íngreme, impedindo a progressão por ali. Uma espessa camada de neblina chegou repentinamente, com um vento fortíssimo, cobrindo toda aquela baixada e trazendo consigo uma chuva forte e gelada. A chuva, apesar de forte, não durou mais do que 2 minutos; foi-se com o vento e a neblina, deixando novamente limpa a paisagem que contemplávamos. - Vamos embora, senão não chegamos a tempo na grota do Gelo. Na grota do Homero só vamos pegar informações. De lá teremos que partir rapidamente - eu disse, sem acreditar que faríamos tanto. . Descemos a vertente com muita dificuldade. Era muito íngreme e de puro barro, o que me fez escorregar alguns metros, lambuzando ainda mais a mochila. Chegamos embaixo. Uma floresta de pequenas árvores, palmeiras, cipós e todo o tipo de plantas rasteiras formava um exército que procurava nos barrar de toda maneira. Mais à frente, a trilha subia uma vertente. Era o desvio à esquerda que tínhamos visto de lá de cima. Fomos deixando para trás e para baixo aquela floresta e, após alguns minutos, já estávamos num plano razoável. Olhei para a esquerda e ,<i a elevação escarpada, responsável pelo desvio da trilha. A direita, o terreno ia perdendo altitude aos poucos e a cobertura vegetal ia mudando de bromélias para floresta. A neblina

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Hoie é 22 de dezembro. São exatamente 9, 40 h. Já desmontamos o acampamento e pretendemos avançar mais um pouquinho.
. Aq uela noite foi horrível. Todos os ossos do corpo doía m. O pior de tu.do foi tirar o agasalho e recolocar as roupas molhadas e frias. Com o corpo ainda frio, meio duro, recomeçamos a caminhada, já atolando o pé na lama nos primeiros passos. Uma brisa forte e gélida nos acompanhava. Por vezes, um buraco mais fundo fazia um de nós afundar atéo joelhoecair, lambuzando toda a roupa. Devido às chuvas constantes, Sabadin utilizava um poncho impermeável; Edson e eu, capas de chuva amarelas, daquelas usadas por funcionários de limpeza urbana.

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I impedia de ver mais adiante, mas sabíamos que lá embaixo estava o rio Cauaburi e, à frente, do outro lado do pico da Neblina, a trilha que deveríamos ter tomado.

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São 12,00 h. Chegamos a um acampamento. Talvez seia o acampamento do Vento.
Edson. Não dá nem para sentar para descansar reclamou

- Aqui não dá para ficar de jeito nenhum - observei. - O que vocês acham de esperar aqui, enquanto eu e o Mílton descemos aquela trilha, para ver se encontramos a grota do Homero e os índios garimpeiros? Colocamos nossas mochilas em cima de uma pedra cheia de líquens. e então Mílton e eu prosseguimos por uma trilha que descia na direção do Cauaburi. Uns 20 metros à frente já estávamos dentro de uma mata fechada, igual à que havíamos passado minutos antes.

A destruição da grata da Mucura.

Stanislau,

O

índio garimpeiro

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[

A trilha ia avançando mata adentro, cada vez mais fechada. Era cipó para todo lado e iolhcqorn de toda espécie. Não se via nada além de 5 metros. A medida que progredíamos, a trilha ia se transformando num riacho e logo já estávamos com água acima da cintura. A chuva engrossava mais e a correnteza ia aumentando, o que dificultava ficarmos em pé. Mas, logo adiante, a trilha desviou do riacho e pisamos terra firme. Continuamos seguindo o riacho pela margem esquerda e, mais à frente, encontramos uma clareira. A trilha foi se tornando mais aberta e a vegetação, mais rala. Havia muitas árvores e galhos cortados. Mas aquilo não podia ser chamado de devastação, comparado ao que se via adiante: a floresta que margeava o riacho estava totalmente devastada, reduzida praticamente a zero. O leito do riacho fora totalmente revolvido e peneirado, sendo jogado às suas margens todo o cascalho retirado. Era uma cena de total destruição.

Boquiaberto, fui avançando naquele terreno "lunar". Mílton estava mais à frente e, de repente, começou a dar seus gritos, isto é, a usar seu código de comunicação ianomãmi, que logo foi respondido por alguém. Logo um outro índio veio em nossa direção. Mílton ficou muito feliz em vê-lo. Sua cara de contentamento era até um pouco infantil. Stanislau. Como esse índio sabe que sou tenente? Lá em São Paulo muitos me confundem com sargento, capitão, sei lá. Eaqui nesse fim de mundo, um índio ianomãmi reconhece minha patente? Essa é boa! Stanislaú era um índio culto. Estudou em São Gabriel da Cachoeira, sendo um dos poucos que sabiam escrever. Tinha 19 anos de idade e havia servido o Exército, em Manaus, no Centro de Instrução e Guerra na Selva (C1GS), o que facilitou ainda mais o nosso relacionamento. Ele estava liderando um grupo de índios, em busca de ouro. Boa tarde. Cumprimentei o índio, meio preocupado. respondeu ele. Meu nome é

Boa tarde, tenente -

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-

Vamos tomar um café, tenente -

convidou Stanislau.

Fomos até um tapiri feito de madeira e coberto por um enorme plástico azul. Lá fui apresentado a outros três índios. todos adolescentes. Apesar de muito forte e com pouco açucar, aquele café quente desceu gostoso. Mílton gostou tanto que repetiu duas vezes a dose, o que lhe custou uma bronca em ianomâmi dada por um dos índios. Já eram duas e meia da tarde. Segundo Stanislau, nâo seria muito fácil alcançar a grota do Gelo antes do anoitecer. O ideal seria pernoitar ali mesmo. Ele e outro índio voltaram conosco ao acampamento do Vento para nos ajudar a trazer o material. A chuva havia parado e a trilha estava um pouco mais transitável. Com a mochila nas costas e toda a equipe unida, retornamos à grota do Homero. Segundo Stanislau, o nome correto era grota da Mucura, devido à quantidade desses animais existente ali. Na margem contrária ao tapiri dos índios, havia uma bancada de cascalho, local ideal para montar nossa barraca. Nunca montamos a barraca com tanto carinho. Também pudera, depois de tanto desconforto, encontrar um lugar plano e perfeito como aquele, junto a uma água pura e gelada, era um privilégio digno de comemoração.

Tudo arrumado, fomos tomar banho. Na outra margem, de frente para a nossa bancada, havia uma grande bica, jorrando água da altura de um metro e meio. Foi o local ideal para um banho completo e a lavagem de nossas sofridas roupas. A água estava geladíssima, mas a sensaç-ão de estar limpo compensava aquele sacrifício. Depois de tomar banho e trocar de roupa, fomos conhecer melhor a vida no garimpo. Stanislau e seus companheiros nos levaram para ver toda a área revolvida com enxadões e picaretas e entender um pouco como aquilo funcionava. Com o acampamento montado às margens de um dos riachos da região, vem a primeira fase do trabalho propriamente dito: o teste aurífero com a cuia. Esseteste consiste em escolher pontos aleatórios do terreno, numa distância aproximad?de 1O metros um do outro, encher uma cuia de cascalho e verificar se há ouro misturado ali. Encontrados alguns grãos, vem a segunda fas.e, que consiste na quebra do cascalho do ponto em que o ouro foi detectado. Esse cascalho é jogado às margens do riacho, onde é montada uma bancada, com armação de troncos e galhos. Nessa bancada eles espalham o cascalho moído e aí vem a fase final e de maior expectativa para o garimpeiro: "a hora da cobra fumar". Consiste numa caixa, em forma de cocho, montada junto à bancada. Sobre ela é jogado todo o cascalho que escorre com o auxílio de água jogada por baldes. Esse cocho é forrado com saco de estopa preso por algumas ripas transversais, cuja função é reter a parte mais pesada do cascalho, ou seja, o esmeril e o ouro. que o garimpeiro vê se todo o seu sacrifício valeu ou não a pena. Não encontrando o ouro, ou ele tenta outro ponto do terreno, ou muda para outra grota. Via de regra nunca desistem, pois a febre do ouro é contagiosa e incurável. . A chuva já tinha parado há mais de uma hora e surgiram sinais de sol naquele final de tarde. Já estávamos começando a cuidar da comida quando Stanislau gritou de longe: Venham aqui! O pico está visível agora!

o confortável

acampamento em Mucura.

É aí

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Corremos em disparada até o outro lado da margem, de onde contemplamos um dos ângulos mais impressionantes do pico da Neblina. Comecei a fotografá-lo de todas as formas que pude imaginar. Eu estava maravilhado. Lá estava nosso objetivo, todo imponente, sozinho naquele ponto elevado, mas ainda muito distante de nós. Em linha reta, devia estar a uns 8 quilômetros. Desse ângulo, parecia realmente impossível escalá-lo. E era exatamente isso que Stanislau repetia constantemente.

- É impossível chegar lá em cima. Eu lembro quando o Exército foi até lá perto. Não dá, não.
Realmente dava medo só de olhar. Estava escurecendo e sua imagem ficava a cada minuto mais misteriosa. Sentia um frio na espinha só de pensar em estar pendurado naquele enorme paredão, debaixo de chuva e à mercê dos ventos fortíssimos que assolam a região. Um simples descuido e tudo acabado. Eu sentia que o fantasma da morte rondava o pico. Stanislau colaborou com o jantar oferecendo alguns gêneros. Depois conversamos longamente com o índio, que nos contou sobre os costumes de sua tribo e a tradição guerreira dos ianomâmis. Segundo ele, os kohoroxitaris viviam às margens do igarapé Tucano. Por volta de 1949, tiveram contato com padre Antônio Góes, que, após muita insistência, conseguiu convencer toda a tribo a se mudar para as margens do canal de Maturacá e do rio Ariabu, onde vivem até hoje. Entretanto, por motivos políticos, em meados de 1975, os irmãos Joaquim e Daniel brigaram, dividindo a aldeia em duas partes: Ariabu e Maturacá, que permanecem até hoje separadas dessa forma, mas [ó sem conflitos. Stanislau contou também que os índios se interessam por quase tudo que o homem branco traz da cidade, desde que não sejam ferramentas e máquinas para trabalhar.
"É impossível chegar lá em cima."

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- o que
e munições. -

eles querem mesmo é conforto e muitas armas Ele falava como se também não fosse um índio. no tapiri; nós ainda nossas possibilidades Tinha que haver uma trilha original. Essa era numa fria, pois nossa

Stanislau e Mílton foram dormir ficamos mais umas duas horas discutindo e estudando o velho mapa manuscrito. forma de contornar o pico e encontrar a a nossa esperança. Senão estaríamos comida já estava acabando.

pretendiam retornar da Merenda naquele mesmo dia, fazendo na metade do tempo o dobro do percurso que fizemos em quase dois dias de penosa viagem. Chamavam-se Lourival e Ivo, e seus trojes resumiam-se a um calção grosso, botas impermeáveis e camiseta, levando à mão o facão para abrir caminho. - O sargento Ferreira? Está lá conosco, sim - respondeu Lourival. Aquela notícia foi estimulante para nós. Eles seguiram viagem rumo à Merenda, e nós continuamos a dura caminhada, atolando a cada passo naquela esponja nojenta. A trilha aos poucos foi ficando mais inclinada, até se tornar uma subida íngreme e interminável. A chuva e o vento voltaram a castigar, deixando o caminho ainda mais escorregadio. A fadiga era tanta que parávamos a cada 100 metros, com a respiração ofegante e os ombros amortecidos pelo peso da mochila. Não víamos nada além de neblina. Lourival tinha dito que, mais à frente, encontraríamos formação de pedras que nos protegeria da chuva. uma

Com a altiva visão do pico da Neblina em nossas mentes, caímos no sono. Aquela imagem impressionante penetrou em meu subconsciente e encheu minha noite de sonhos estranhos e sem nexo, onde ele era sempre o protagonista.

o desafio

da serra da Montilla

Mucura. O melhor acampamento de toda a expedição, apesar de ter sido a noite mais fria da viagem. Desarmamos rapidamente a barraca sob os olhares curiosos dos índios, impressionados com o seu formato.

Dia 23 de dezembro, 8,25 h. Vamos sair daqui da grata da Mucura em direção à grata do Gelo, subindo a serra da Montilla. Será que conseguiremos? Não percam a próxima gravação! Estamos com I Ó graus agora.
Reiniciamos a caminhada voltando até o acampamento do Vento para retomar a trilha, rumo à tão comentada serra da Montilla, nosso próximo desafio. Não havíamos caminhado nem 20 minutos quando dois garimpeiros passaram por nós, cada um com uma cesta de bambu nas costas e um facão na mão. ~ - Bom dia! Como vai, tenente? - cumprimentou um deles, acertando em cheio minha patente. Eu era mais reconhecido ali do que em meu próprio bairro. Perguntamos como é que eles conseguiam andar tão bem naquela lama e ficamos assustados quando eles disseram que

Andamos muito tempo ainda até atingir uma enorme pedra. Em um de seus lados, uma pequena área seca, bem estreita, nos aguardava. Deitamos ali de mochila e tudo. A garoa foi ficando ainda mais forte e logo virou tempestade, com um vento forte e gelado. Eu estava congelando. Estava ficando impaciente de novo. Minha preocupação com o horário era uma constante, pois não queria passar novamente pela experiência de pernoitar em local impróprio, como a grota da Merenda. Com a chuva forte, inúmeros filetes de água escorriam pela pedra molhando aquele pequeno espaço que nos abrigava. Os filetes foram aumentando em número e volume, impedindo que continuássemos deitados. Em pouco tempo ficou tudo debaixo de chuva. O desespero foi geral. Nossa situação estava crítica. Ali realmente não dava mais para ficar. Mesmo debaixo de forte chuva, levantamos e prosseguimos. Nossas capas estavam bastante iudiadas. Muitos rasgos e furos, que iam molhando aos poucos

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a gandola e nosso corpo. A única vantagem era que mantinha um pouco aquecida a água ali dentro. Caminhando, o frio não incomodava muito, mas havia o cansaço, as dores nas costas, nos ombros e pés, e os passos atolados até quase o joelho. Contudo, caminhar ainda era a melhor opção, pois diminuía a distância entre nós e o pico. Na trilha, eu procurava pisar exatamente nas marcas deixadas pelos passos dos garimpeiros. Deveria ser o melhor lugar, pois caminhavam ali numa velocidade incrível e com grande performance. Num trecho do cominho encontramos enormes pedras sobrepostas que formavam um longo corredor, uma autêntica caverna. Esse era o lugar que Lourival indicou e não aquele que quase nos matou de frio. Mas não era o caso de parar novamente para descansar. Tínhamos que continuar, pois já estava ficando tarde. A chuva foi diminuindo até parar. A inclinação do caminho aumentava e, com a dissipação da neblina, pudemos avistar o cume da serra da Montilla. Embaixo ainda não se via nada, mas olhando a oeste e a noroeste voltamos a contemplar a imensidão do platô da serra da Neblina. Olhei para trás e não pude acreditar no que via. Os dois garimpeiros que haviam passado por nós há menos de 3 horas já estavam nos alcançando. Nós demoramos quase dois dias para realizar o percurso e eles menos de 3 horas! Lourival nos alcançou antes de Ivo, carregando a mochila lotada de suprimentos. Ele parecia bastante disposto. - Quantos quilos você está carregando perguntou Sabadin ao outro garimpeiro. Uns 30 quilos respondeu Ivo. caminhar tão rápido com nas costas?-

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A inclinação aumentou tanto que só nos restou à frente uma rampa de menos de 200 metros para atingir o topo. A visão era magnífica. Ao longe, alguns trechos do platô estavam ensolarados. Um bando de araras vermelhas cruzava os céus naquele instante, dando um pouco mais de vida à paisagem até então sombria e misteriosa. Os últimos 30 metros foram os piores, com muita lama e pedras, inclinação quase máxima. Tive de me agarrar em raízes e bromélias para subir. Parecia que meu coração ia sair pela boca. Edson, Sabadin e Mílton estavam todos em pé, olhando para o outro lado da serra, e nem me viram chegar. Levantei-me e, ao olhar em frente, fiquei paralisado com o que vi. Era simplesmente tenebroso. Daquele lado, a serra era um enorme abismo de mais de 300 metros de altura. Lá embaixo, um enorme vale, repleto de bromélias e outras plantas típicas dos campos de altitude. Do outro lado, alguns quilômetros adiante, uma enorme montanha se elevava bem alto, muito acima do nível em que estávamos; seu cume estava totalmente coberto por uma camada espessa de neblina. Era uma visão medonha. Apesar da distância, sua imponência era incrivelmente assustadora. Aquele era o pico da Neblina, o ponto mais alto e misterioso do país. .

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São 12,53 h. Conseguimos atingir o topo da serra da Monti//a. Muito sacrifício! Cheio de pedras! Foi praticamente uma escalada o que fizemos.
Dá para ver quase que a região inteirinha. O pico está totalmente encoberto. Altitude: 2500 metros. Temperatura: 20 graus. Os caras desceram por aqui disse-me Sabadin, apontando para a continuação da crista da serra, que descia a noroeste. - Quando cheguei deu para vê-los bem lá embaixo. Peguei os mapas para estudar a região. Tudo indicava que uma pequena serra à esquerda do pico era a serra do Ouro. Olhando com bastante atenção dava para ver o local onde garimpava a turma do Guilherme. Uma enorme lona azul

- Como vocês conseguem todo esse peso?

Os garimpeiros foram aos poucos desaparecendo pela trilha, apesar de continuarmos caminhando na mesma direção. "Esses caras são uns touros. Nem se cansam. Para tanta dedicação, deve haver muito ouro aqui em cima!"

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cobrindo o tapiri, contrastando com as cores da vegetaçãO, identificava o ponto exato da grota da Pepita. A grota do Gelo não era visível dali; só conseguiríamos avistá-Ia quando estivéssemos bem próximos. Essa era a informação dada por Guilherme e confirmada por Lourival. Muitos pontos do platô estavam queimados. Eram.enormes áreas, em forma de círculo, onde a vegetação apresentava cor amarelada e negra. Tudo indicava ser obra dos garimpeiros para facilitar a abertura de trilhas e a remoção do cascalho das grotas. Pensávamos que a partir dali seria mais fácil e rápida a progressão, pois era apenas descida. Decepção novamente. A lama era tanta e tão mais funda, que o perigo de cair montanha abaixo não era pequeno. A nossa passada era irregular. Descíamos devagar, pisando em tufos de bromélias e de um tipo diferente de capim. Escorregávamos, ou caíamos de vez na lama, ou descíamos quase que correndo montanha abaixo, procurando segurar em qualquer coisa que aparecesse. Às 4 horas da tarde, finalmente, alcançamos a grota do Gelo. Menos de 50 metros por ali e atingimos o acampamento, onde alguns garimpeiros descansavam após um dia inteiro de trabalho.

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o PREÇO DA RIQUEZA
Po.a:a/ Va.cêd. ~ ~ disse Lourival, que estava sentado em cima de uma lata. - Que caminho mais desgraçado é esse! - desabafei. Não sei como vocês conseguem caminhar aqui. A gente está acostumado respondeu ele.

Ali estavam seis garimpeiros: Lourival, Ivo, Goiano, Ferreira, Jacinto e Manoel, um índio tucano. Goiano era o líder do grupo e também o mais experiente. Seu nome era Sebastião, tinha 32 anos de idade e já havia passado por inúmeros garimpos pelo Brasil. - Eu garimpo desde 1980. Sul do Pará foi onde primeiro garimpei. No alto Tapajós, em Itaituba, Mato Grosso, Macapá, Rondônia. Já estive em Rondônia uns tempos, entende? Sabadin. Então vocês vivem disso aí, não? perguntou

- Vivo disso. Vivo de garimpo. De uns tempos pro cá minha profissão é garimpo, mesmo; e todo o tempo dentro do garimpo. Vocês passam quanto tempo no mato, assim? - Às vezes passamos 90 dias, passamos 60, ós vezes passamos mais, passamos menos. Conforme a sorte. As vezes

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a gente vem com Sl sorte boa, arruma logo o produto e vai embora, entende? As vezes chega meio ruim e a gente tem que ficar muito mais dias, entende? - Essacaminhada que nós fizemos vocês fazem com quantos quilos? começou Sabadin -,

- O normal é 30 quilos, entende? Agora tem uns que carregam 35, outros 40, entende? A média é 30, é a base de vir de lá e chegar aqui no garimpo.

Montamos nossa barraca perto do tapiri deles, bem na beira da grota do Gelo. Antes de colocar a roupa limpa e seca, resolvemos lavar a roupa sujo e tomar banho nas águas geladas doAriabu. Depois improvisamos um varal para estendera roupa molhada e fomos para junto da fogueira tomar um café bem quente. Sabadin aproveitou o resto da tarde para gravar uma entrevista com Goiano, o garimpeiro mais experiente de todo o alto rio Negro e responsável pela abertura de todas as trilhas existentes ali nas proximidades do pico da Neblina. - Goiano, como é que faz mesmo o processo lá? Vocês [oqorn o cascalho em cima da bancada e depois ... - Depois a gente vai lavar tudo. Ou seja, fazer a "cobra fumar" - disse ele. Fazer a cobra fumar?

Isso é que é vida sofrida. É muita luta. Dormem em rede, embaixo de uma tenda esticado sobre um tapiri de troncos de palmeiras. Uma fogueira para fazer a comido e esquentar as noites frias. Muita dedicação e sofrimento por um único obietivo: a riqueza!
O acampamento ficava na margem direita da grota do Gelo, desembocando num riacho maior, que, segundo Goiano, era o rio Ariabu. "Olá, Ariabu. Lembra-se de nós, lá perto da aldeia? Logo estaremos na sua nascente, bebendo de sua água límpida e cristalina, que jorra do ponto mais alto do país." Com Goiano e seus amigos pudemos entender o que era a vida de garimpeiro. José Ferreira da Silva, o ex-delegado de São Gabriel e sargento da Polícia Militar do Amazonas, estava licenciado e, em vez de procurar lazer e descanso, estava ali, naquele mundo cruel e inóspito, longe da família e dos amigos, com um único objetivo na mente: o ouro. Entretanto, todos ali foram unãnimes em dizer: "Escalar o pico é impossível. Aquilo é só paredão!" Nem por isso procuravam nos desanimar, mostrando muita boa vontade em passar as informações sobre a região. - O melhor que vocês fazem é retornar até a Mucura e pegar um desvio até a trilha tradicional. Por lá pode até ser que dê para escalar. Mas, poraqui ... nãosei, não-disseGoiano. Por causa dos problemas com nosso material, como botas e mochilas arrebentadas, resolvemos passar o dia seguinte ali, colocando tudo em ordem e recuperando um pouco as energias despendidas. Assim, enquanto arrumássemos o material, poderíamos decidir que rumo tomaríamos.

- Sim, primeiro a gente tira o barro que tem o ouro. Às vezes tem até um pouquinho de ouro, mas não compensa a gente ficar procurando manualmente. Aí a gente quebra o cascalho com as marretas, joga o ccscolho em cima da bancada e depois a gente faz a cobra fumar. E um cocho e uma caixa. Enquanto um vai jogando o cascalho em cima do cocho, outro vai [oqondo água, com um balde. Aí você pega o produto que ficou retido pelas ripas do cocho, leva para a bateia, vai batear ele, vai limpar o ouro e depois leva co fogo. Para que queimar?

- Queimar para enxugar. É porque ele está molhado e só seca no fogo ou com sol muito quente. - Então nesse processo da cobra fumar o lance é [oqor o cascalho dentro do caixote?

fumando.

É

só jogar dentro do caixote

e passar pela cobra

- Tirando o cascalho daqui e jogando lá dentro, tudo o, que pára dentro do cocho nas ripas transversais, de pequenininho assim, é ouro?

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- Não. Nem tudo é ouro! Tem outros materiais, fica o esmeril, fica o ferro ... !

Ferro? Aqui tem ferro? Tem, sim. Ferro vem junto com o ouro? Vem junto com o ouro. Esse esmeril é igual ao ferro?

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- Não, o esmeril é um material que não vale nada e sempre acompanha o ouro, entende? Então os três mais pesados são o ouro, o esmeril e o ferro?

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É,

sendo que o ouro é o mais pesado de todos.

Ecomo vocês fazem para separar oourodoesmeril e do ferro? A gente tem ieito. A gente usa a bateia para separar os três. utiliza
Um garimpeiro mostro como achar ouro.

Para descobrir em que local existe ouro, Goiano uma cuia para o teste aurífero.

-Agente vai vendo um ponto, outro, de metro em metro. A gente vai testando. A gente vai vendo o que tem, se compensa jogar para cima, na bancada, ou se é melhor abandonar e ir para outro lugar. - Qual é o número de pessoas necessário para fazer esse processo? - No mínimo três. Mas a equipe boa mesmo é de seis. Assim trabalha bem, sem parar. O garimpeiro pegou uma cuia e um enxadão. Levou-nos até a beira do rio Ariabu; escolhemos um ponto qualquer, ele cavocou, colocando um pouco de areia dentro da cuia. Aí ele começou a mexer a cuia mergulhando-a nas águas do Ariabu, fazendo com que o material mais leve fosse levado pela correnteza. Após uns 4 minutos de operação ele nos mostrou a cuia e, dentro dela, pudemos observar algumas fagulhas de ouro junto com areia fina, esmeril e ferro.

Ficamos sabendo também que as cantinas que havia nas aldeias foram montadas por Goiano, em troca da permissão para garimpar na área. Ele gastou uma fortuna com elas e, por isso, era bastante respeitado pelos tuxauas. xibé, Naquela noite, jantamos arroz com jabá, feijão e muito refeição que nos foi oferecida pelos garimpeiros.

Fomos dormir tarde, por volta de 1 1 horas da noite, depois de muita conversa com os garimpeiros. Estávamos bem alimentados e já recuperados da fadiga. Nosso único problema era a dúvida que nos atormentava: continuar por ali ou retornar até a trilha tradicional?

Véspera de Natal
Acordamos tarde no dia seguinte, 24 de dezembro, véspera de Natal. Já eram quase 10 horas e o sol dominava um céu azul, quase sem nuvens. - Bom dia! - cumprimentou rava o café junto do fogo. Ferreira, enquanto prepa-

Goiano conseguiu tirar algumas fagulhas de ouro h Ele nos disse que deve ter uns três pontos, que não chega nem a um décimo de grama ... mas é sinàl que tem. .

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Os outros já estavam trabalhando no Ariabu, jogando ccscclho sobre uma bancada que havia na margem oposta. Ferreira preparou café com leite e nos ofereceu um saquinho de milharina (flocos de milho pré-cozido) para engrossar o leite. Eu nunca havia provado aquilo, mas era uma delícia. Colocava um punhado dentro do copo, punha um pouco mais de açúcar e parecia que eu estava comendo um delicioso bolo de fubá feito pela minha mãe. Foi o café mais gostoso desde que saímos de São Paulo. Superou até o de Manaus! Sentamos com nossas mochilas sobre os troncos de palmeira. Cada um começou a consertar suas coisas. Sabadin tinha dois grandes problemas: a alça da mochila e suas botas com as solas totalmente descosturadas. Edson se ocupava com algumas costuras de sua mochila, e eu estava ficando maluco tentando costurar a sola da minha bota. Eu estava usando a única agulha grossa que tínhamos e empurrando-a com minha faca. A sola era tão grossa que a agulha logo quebrou. Fiquei uma fera e comecei a gritar de raiva. Naquele instante aconteceu algo que me deixou perplexo. Mílton, que até então não tomava parte em nada do que fazíamos, chegou perto de mim e disse: "Calma! Calma!"; foi até o outro lado do abrigo, junto à fogueira, pegou uma lata de quitute do lixo, arrancou seu abridor e me trouxe: Agulha! Boa agulha!

Ferreira chamou para o almoço. Depois do almoço, Lourival e Ivo foram à grota da Pepita buscar alguns materiais lá deixados. Com O mapa aberto, estudamos nosso percurso. O pico estava logo à frente e isso era um ponto positivo: não havia como se perder ali. Era seguir o azimute ou, se a neblina permitisse, seguir aquela imponente elevação. O problema era descobrir por onde escalar. Outra preocupação era encontrar a trilha tradicional e voltar por ela. Resolvemos seguir até a Pepita e de lá rumar até o alto de uma linha de cumeada que une o pico da Neblina a um outro, possivelmente o do Cardona. Atingindo essa cumeada, iríamos por ela até a base do pico e lá escolheríamos o melhor ponto para escalá-lo. Quanto à volta, encontrando a trilha tradicional, voltaríamos para o Cauaburi por lá. Nossa grande preocupação, realmente, era a escassez de suprimentos. Depois de discutir nosso trajeto, fomos para perto dos garimpeiros, que trabalhavam duro. Não tinham um minuto de folga. Observamos algo curioso. Desde cedo o sol castigava toda a região. O solo continuava encharcado como sempre, mas tudo que se encontrava a mais de 10 centímetros dele já estava seco e quebradiço. Era só acender um fósforo e pronto: toda a folhagem poderia incendiar-se rapidamente. Era por isso que vimos do alto da Montilla áreas queimadas. O garimpeiro, para abrir uma clareira, apenas espera o sol sair e, algumas horas depois, com um único palito de fósforo, provoca grande destruição. . Às 4 da tarde, um vento forte, repentino, trouxe uma camada de nuvens negras. Nem um minuto decorreu e uma forte tempestade começou a cair. Parecia que o mundo ia desabar. Todos os garimpeiros abandonaram o trabalho e buscaram abrigo no tapiri. Montaram suas redes e deitaram-se rapidamente, aproveitando a folga imposta pelo temporal.

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Eu mal podia acreditar. Aquele índio, em questão de segundos, improvisou uma superagulha para costurar bota que, além de inquebrável, tinha olhai! hein? Edson! Sabadin! Olhem isto! Foi o Mílton que fez.

Poxa! Depois vê se me empresta para costurara minha, Sabadin virou para o índio: - Grande Mílton!

Durante toda a manhã, ficamos discutindo nossa situação e, após muita conversa, decidimos continuar por ali mesmo. Na manhã seguinte iríamos até a grota da Pepita e de lá seguiríamos o azimute até a base do pico.

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Meia hora depois a chuva parou e saímos da barraca. O rio Ariabu estava incrivelmente cheio, com uma correnteza tão forte que, se um de nós caísse ali, chegaria em menos de uma hora ao canal de Maturacá. A grota do Gelo estava invadindo aos poucos o chão do abrigo dos garimpeiros e a frente de nossa barraca. Aos poucos a água foi alagando tudo, chegando a atingir 5 centímetros acima das folhas de palmeira, que eram nosso colchão improvisado. Mas isso não foi o pior. A força da correnteza destruiu o trabalho de semanas dos garimpeiros. Ela levou todo o cascalho jogado às margens e, com ele, o ouro que procuravam extrair.

Acabamos rindo da situação. Ficamos imaginando o que passou pela cabeça do Guilherme e sua turma ao nos ver chegar. Deviam estar esperando um pelotão armado até os . dentes e depararam com três famintos, quase mortos de :::ansaço, e mais um índio inocente com uma espingarda enlerrujodo e um único cartucho. Fomos dormir rindo. O alarme de meu relógio disparou um pouquinho antes da meia-noite. Edson e Sabadin acordaram espantados com minha contagem regressiva: Três ... dois ... um ... Feliz Natal pra nós!

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Goiano

É, vamos ter que começar meio chateado.

tudo de novo -

disse

Aos poucos o nível da água foi descendo e, em menos de uma hora, voltou ao normal. No jantar, contamos aos garimpeiros prosseguir por ali mesmo. então? Devagar, bem devagar disse ele. E aí, Mílton? perguntei. nossa decisão de

Vamos subir a montanha,

Não compreendi o que ele quis dizer. Devagar por quê? Estaria ele cansado? Não, esse realmente não seria o motivo. Mas como entender o que se passa na cabeça de um índio? Após o jantar, Goiano contou que todos os garimpeiros da região sabiam que estávamos subindo a serra. Tuxaua Joaquim havia escrito uma carta a todos, determinando retorno imediato à aldeia, pois a Polícia Militar e a Federal estavam subindo a serra para prender todos os garimpeiros. Ele até nos mostrou a carta, trazida por um índio mensageiro. Aquilo era incrível. Fiz questão de fotografar a carta. Era por isso que todos me chamavam de tenente e nem se assustavam com nossa chegada. Estava tudo explicado. Mas também tivemos muita sorte. A carta podia ter surtido efeito contrário. Muita riqueza estava em jogo e, se nos matassem ali no meio da selva, dificilmente alguém acharia nossos corpos. Foi muita sorte.

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paredão que apontava para o rumo certo. Já não havia como perder o caminho. Nem 15 minutos tinham passado quando avistamos o pico da Neblina, enorme, magnífico, mas com uma pequena camada de neblina exatamente no seu ponto culminante. Não era à toa que tinha esse nome.

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São 9, 10 h. Novamente avistamos o pico. Desta vez temos certeza de que é ele. É dividido em duas partes, s~ndo que seu cume, daqui de nosso posição, fico mais à direito. A esquerdo há uma depressão em formo de corcunda. O pico mesmo está encoberto pelo neblina. Parece uma elevação vulcânico.

AOS PÉS DO GIGANTE NEBULOSO

IV atai. $ão-

cafezão iunto com Ferreiro e suo turma e agora vamos prosseguir. Talvez hoie chegaremos o um marco próximo 00 pico.
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8.36

k. Já tomamos

Uma de minhas suposições, ao ler a carta da região, era que, ali no alto, havia um marco da divisa Brasil-Venezuela. Era certa a existência de um entre nosso objetivo e o pico 31 de Março, que vimos pela televisão quando da tentativa do Exército. Não sabíamos ao certo se, por aquele caminho, atingiríamos o mesmo marco, mas torcíamos por isso. Os garimpeiros foram muito bacanas conosco. O que parecia ser o maior perigo transformou-se em nossa salvação. Ferreira, sabendo de nossos problemas com suprimentos, nos deu dois saquinhos de milharina, uma lata de leite em pó e mais um pouco de xibé.

Outro ângulo do pico da Neblina.

Ivo e Lourival vão nos levar até o grato do Pepita, no boca do cominho poro o base do' pico. O dia está bonito. Está um sol maravilhoso. A previsão de chegado lá é por volto dos 10, 15 h.
Ivo e Lourival caminhavam ali com extrema facilidade. Parecia que eles adivinhavam onde se podia pisar. A trilho era praticamente plana e acompanhava o curso do Ariabu. A nossa esquerda a serra do Ouro, um enorme

Olhando para aquela montanha eu sentia, ao mesmo tempo, satisfação e medo. Ela parecia tão grande e intocável que me fazia tremer. Como escalar seus paredões de pedra nas condições em que estávamos? Nem material técnico suficiente para isso a gente tinha. Alpinismo não é um esporte simples que requer apenas disposição; também implica responsabilidade.

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conhecer os limites e respeitá-los, fazendo tudo dentro das regras fundamentais de segurança. Para a escalada, dispúnhamos de uma corda de perlon de 45 metros, 6 mosquetões, 4 entaladores de tamanhos variados, 6 fitas tubulares, 3 pitons, 2 baudriers e um cordirn de 16 metros de comprimento. O tempo estava esquisito. Uma brisa um pouco mais forte trouxe de repente nuvens que, em poucos minutos, encobriram todo o céu. Parecia que ia chover. Só faltava reclamou Ivo. outro temporal igual ao de ontem! -

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A chuva começou a cair e todos corremos para debaixo de um abrigo. Ali eles eram mais bem montados que em qualquer outro lugar. Eram verdadeiras palafitas, com piso suspenso do solo uns 50 centímetros. Cobertura de lona azul, a mesma que tínhamos avistado do alto da Montilla. A linha de cumeada, nosso próximo objetivo, poderia ser descrita como um muro que une o pico da Neblina com outro à esquerda, que suspeitávamos sero do Cardona. Através dela, atingiríamos facilmente um ponto mais próximo do cume e, possivelmente, de fácil ascensão. Se fôssemos direto para o pico dali, enfrentaríamos um paredão de mais de 200 metros de altura, praticamente intransponível. A chuva havia passado; Ivo e Lourival despediram-se retornando ao Gelo. Antes, porém, nos mostraram o início de uma trilha que possivelmente nos levaria até próximo do pico. Seguimos porela. Era bem aberta e de solo firme. Naquele ritmo poderíamos chegar ao alto antes das 3 horas e talvez até fazer um reconhecimento na base do pico. Enquanto caminhávamos, o sol oporecio por uns momentos e tornava a desaparecer atrás das nuvens. As vezes uma rajada de vento mais forte trazia uma camada grossa de neblina, limitando a visibilidade. O clima ali era totalmente imprevisível. A certa altura a trilha se dividiu em 3 variantes' uma seguia em frente e as outras iam para a' direita e poro a esquerda. Pelo azimute a direção correta era a que seguia em frente, mas, por precaução, experimentamos um trecho das laterais, que apresentavam sinais de maior uso. Mas o caminho certo era mesmo aquele que obedecia ao rumo indicado pela bússola, apesar de parecer pouco freqüentado. Prosseguimos por ali; só que, 50 metros depois, a trilha desapareceu, transformou-se em puro mato, com galhos retorcidos, pedras enormes e muito espinho. Nosso ritmo diminuiu muito. As mochilas se enroscavam a todo momento. Era uma vegetação esquisita, formada por pequenas árvores, arbustos e bromélias. O solo era o mesmo de

Chegamos na grata da Pepita às 10,50 h. A grata, que é o próprio rio Ariabu, é bastante larga aqui, devido às escavações feitas pelos garimpeiros. Há um buraco enorme na grata. Eles devem ter tirado bastante ouro daqui. Estamos no sopé do pico da Neblina.

A grata da Pepita.

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toda a região, uma esponja lamacenta e malcheirosa; e agora, além das pequenas pedras submersas, apareciam outras, tão grandes que, às vezes, passávamos por baixo, como se formassem cavernas. Num trecho fomos seguindo por cima delas dezenas de metros, até chegar a um ponto de onde não havia como descer. Tivemos que voltar e contorná-Ias por baixo. Aquela tarde foi horrível. Sem trilha para seguir, tínhamos de consultar a bússola a cada minuto e corrigir o rumo. Caímos várias vezes, atolando na lama ou escorregando de cima de uma pedra. Os espinhos machucavam nossas mãos. O nervosismo foi tomando conta de todos, e tudo era motivo para xingar e gritar. Olhávamos à frente e parecia que não tínhamos progredido quase nada. Já estava entardecendo e a neblina colaborava para a escuridão cair mais cedo. Edson encontrou um lugar razoável para acampar e montamos ali a barraca, no alto de umas pedras enormes junto a algumas árvores. Desde que não ventasse muito forte, ali estaríamos protegidos.

ensolarada, quase sem nuvens. O pico da Neblina estava ali à nossa frente, completamente descoberto e brilhando à luz do sol. Sua imagem era magnífica e assim, completamente livre da neblina, não tinha nada de assustador.

Seis da tarde. Temperatura: 17 graus. Faz mais ou menos uma hora que chegamos aqui no alto, nas proximidades do pico da Neblina.
Aquele era o primeiro acampamento sem água. Sabadin e Mílton pegaram os cantis vazios e as canecas e foram procurar água. Retornaram uns 20 minutos depois, com uma água escura, um pouco suja. "Tivemos que catar do chão." Mas foi o suficiente para fazer a comida e o refresco de laranja, que nem por isso sobrou. A noite estava bem fria e uma garoa fina caía o tempo todo. Antes de dormir, Sabadin colocou em ordem seu diário. Aproveitei a luz da lanterna e, fiquei tirando os espinhos da mão. Aquele foi o Natal mais cansativo de nossas vidas.

Mais um ângulo do pico da Neblina.

Hoje é 26 de dezembro. Acordamos às 7 horas. Estamos nos preparando para mais uma caminhada em direçõo ao pico. Estamos com 16 graus. Altitude de 2300 metros, mas nõo estamos confiando muito no aparelho. Está duro de vestir a roupa molhada por causa do frio. Deveremos estar prontos lá pelas 9 horas para iniciar a caminhada. Esperamos que seja definitiva até a base do pico, para acamparmos e, amanhõ, tentar escalá-lo.
Reiniciamos nossa jornada. Uma garoa cair. Rajadas de vento deslocavam camadas traziam chuva forte e encobriam a visão. Mas logo estávamos avistando grande parte da ficando para trás. fina começou a de neblina que durou pouco, e região que ia

Primeiro contato com o pico
Acordei com uma forte claridade que ultrapassava a cobertura amarela da barraca. Lá fora estava uma manhã linda,

Faltava pouco mais de 100 metros para atingirmos a linha de cumeada. A inclinação da vertente ia diminuindo aos poucos e também a dificuldade de locomoção. À direita, cada vez mais perto, aquele enorme maciço vulcânico, coberto por

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uma camada de neblina, voltou a ter uma aparência assustadora, mas sabíamos que era só fachada para espantar os invasores. Fomos atingindo o alto. Ali havia uma pequena elevação rochosa. Contornamos pela direita e, alguns passos adiante, contemplamos uma paisagem fria, assustadora, bastante diferente da que esperávamos. A neblina impedia que víssemos muito. Estávamos sobre o enorme colo que une o pico da Neblina ao do Cardona. Do lado de lá um precipício cojo fim não dava para ver. O pico da Neblina estava logo ali à frente. Não resisti. Tinha que alcançar sua base naquele instante, não podia mais esperar. Sabadin concordou em vir comigo. A base do pico estava a uns 150 metros de distância. Era só seguir a crista e logo alcançaríamos o paredão da majestosa montanha. - O lado que o Exército tentou escalar deve ser um pouco atrás daquele - observei, apontando para o canto esquerdo do maciço. - Será que teremos de ir até lá para escalar opico?perguntou Sabadin. - Vai depender do que veremos ali à frente. Tomara que dê para escalar por aqui. Será uma conquista nova. Um pioneirismo que levará nosso nome. Ventava muito, e a neblina ia ficando cada vez mais espessa, aumentando nossa ansiedade. Será que conseguiríamos ver o local onde o helicóptero pousara em 1985? Eo marco da divisa Brasil-Venezuela? Era o que faltava para complementar meu mapa e desvendar a trilha que nos conduziria de volta, quem sabe, com menos sacrifício. Estávamos bem próximos do paredão. Um tipo de capim alto, de hastes duras como taquaras finas, forçou-nos a fazer um pequeno desvio. "Estamos chegando. Poucos metros ... Atingimos a base do pico. Era um paredão liso, por onde escorriam filetes de água, formando um chuveiro gelado.
tt

- Q,ue paredão! - exclamou Sabadin. isso aqui? E praticamente impossível!

-

Como subir

- Vamos descer à direita e ver se alcançamos aquela brecha por onde desce a nascente do Ariabu. Quem sabe por lá dá para subir. Seguimos o paredão descendo pela direita. Não sabia precisar quantos metros à frente, mas tinha absoluta certeza de que logo alcançaríamos o talvegue. No chão, um piso rochoso e repleto de liquens nos forçava a redobrar o cuidado para não escorregar. Muitas pedras e galhos barravam o caminho, diminuindo nosso ritmo e aumentando nossa aversão pelo lugar. Escutamos barulho de água correndo. Estávamos chegando à nascente do Ariabu. Ali estava ela, uma modesta grota de um metro de largura e de profundidade desprezível em sua maior parte. Dali não podia ver o talvegue, pois eu estava ao lado do paredão. Precisava avançar mais alguns metros para observar melhor, mas não estava fácil. Eu estava a mais de um metro e meio de altura em relação à água e, naquele momento, pular ali seria a última opção. Sabadin tentava dar a volta, mas a vegetação era mais fechada e embaraçada ainda. Tivemos que derrubar no peito. Atingimos o leito do Ariabu e olhamos para o interior da enorme fenda da montanha. Grande decepção! A neblina não nos permitia ver muito. Tentamos avançar pelo leito da grota, mas as pedras estavam tão escorregadias e nossos reflexos tão amortecidos que não foi possível continuar. Eu estava sentindo uma estranha ojeriza por tudo aquilo. O jeito era voltar. Contamos o que tínhamos visto. O cansaço nos venceu, e a decisão surgiu rápida e sem maiores considerações. Vamos contornar o pico pela esquerda e temor encontrar o local por onde o Exército tentou escalar e por onde a equipe do Clube Alpino Paulista conseguiu chegar. E a nossa única chance. Montamos a barraca que tínhamos contornado. bem atrás da pequena elevação

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- Bem, o cardápio de ho]e é arroz tradição com passas, estrogonofe de queijo com primavera de legumes, muito xibe e suco de abacaxi - declarei a todos. Depois de comer, as fisionomias eram sempre as mesmas. "Estou quase satisfeito!" Mas não podíamos comer mais, pois nosso estoque estava no fim. Por volta das 5 da tarde, a chuva parou de vez. Saímos da barraca e deparamos com uma das visões mais belas e impressionantes que eu já registrei. Lá embaixo estava o cânion venezuelano, uma enorme depressão em plena serra do Imeri, cercada por uma grande barreira de montanhas. Aquela depressão deveria ter mais de 1000 metros de desnível. Era impressionante e até um pouco assustador. Bem à nossa frente, uma montanha se projetava em direção ao centro do cânion. Mais à direita, uma outra, de cume ovalado e bem alto. Não havia dúvida, era o pico 31 de Março. Do pico da Neblina só se via aquele paredão. Do alto dele descia uma forte cachoeira. Parecia impossível aquilo. A parede terminava num cume ovalado e, alguns metros abaixo, como que por mágica, jorrava toda aquela água, formando uma grande cachoeira de mais de 50 metros de altura. Ela era magnífica. Nada tem a ver com o rio Ariabu, quê corre do ápice do pico da Neblina e desce a montanha mais à direita, abaixo da linha de crista em que estávamos, correndo portanto para o lado brasileiro da serra do Imeri. A cachoeira cai exatamente em cima da linha de crista, só que suas águas encontram passagem para o outro lado, escorrendo para o norte, bem ao fundo do cânion venezuelano. Se aquela cachoeira estivesse alguns metros mais à direita, toma'ria um rumo completamente diferente.

cânion venezuelano.

o

O pico 31 de março.

Uma cachoeira de mais de cinqüenta metros de altura.

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Voltando à barraca, peguei o mapa da região, que copiei de uma revista do Batalhão de Forças Especiais do Exército, num artigo que citava a tentativa de escalada do pico em 1985. Era o único mapa em que constava com mais clareza o pico da Neblina, mas tudo indicava ter sido desenhado a olho, desconsiderando detalhes, o que me impedia de identificar com exatidão o ponto onde estávamos. Não estava mencionada no mapa, por exemplo, a direção exata do norte magnético. As curvas de nível descreviam uma montanha bastante regular, em nada parecida com o pico, que praticamente se divide em duas montanhas, cortado pelo talvegue nascente do rio Ariabu. Isso nos colocava em eterna dúvida quanto à localização da outra trilha por onde precisaríamos voltar. Eu supunha que, contornando a montanha à esquerda, alcançaríamos a face tradicional e o marco da divisa BrasilVenezuela, situada a 687 metros do pico, entre este e o 31 de Março. E minha suposição fazia sentido, pois o 31 de Março estava logo ali à frente. Restava saber se o trajeto era possível. - Afinal, nós estamos na Venezuela perguntou Sabadin. ou no Brasil? -

T

- O marco fica exatamente no ponto em que as duas linhas se unem. Isto é, dali partem duas linhas formando um ângulo agudo, uma em direção ao cume do Cardona e outra em direção àquela outra montanha, que vimos aqui à frente. Tanto o pico da Neblina como o 31 de Março ficam totalmente em solo brasileiro. E aqui onde estamos, podem conferir, também é o Brasil. A linha divisória deve passar a mais ou menos 1 quilômetro à frente, bem por cima dessa enorme depressão. Mas o mapa desenhado só fazia aumentar nossas dúvidas. O pico do Cardona não era citado, e toda a região por onde tínhamos passado nem constava no mapa, que descrevia apenas o outro lado do igarapé Tucano, por onde passa a trilha tradicional. Fazendo a triangulação do terreno com a bússola, aproveitando que o 31 de Março era visível e constava no mapa, eu chegava à conclusão de que ele tinha sido feito apenas para uma noção geral. Baseando-se nele nossa posição estaria bem no meio do cânion. No dia seguinte, porém, tudo ficaria esclarecido. Contornaríamos o pico pela esquerda, encontraríamos sua face tradicional de escalada e lá armaríamos acampamento. Na manhã do outro dia, com o mínimo necessário para executar a ascensão do cume, partiríamos para a batalha final. Não havia como errar. Contornando o pico, encontraríamos o marco da divisa e de lá só teríamos de seguiros mesmos passos da equipe do CAP e da tropa do Exército. Tudo parecia ter ficado mais fácil e a esperança de chegar embalou nosso sono.

- Estamos no Brasil. Lembram-se daquela montanha que não sabíamos dizer se era o 31 de Março ou o Cardona ou outra qualquer? - Agora tenho certeza de que aquele é o pico do Cardona. Bem no ápice dele há um marco da divisa BrasilVenezuela, sendo portanto um pico binacional. Aquela outra montanha que vimos bem aqui à frente, que se projeta pelo cânion adentro, deve ter também um marco de divisa internacional. Portanto, se unirmos os marcos com uma linha reta veremos que a Venezuela fica mais à esquerda, dorninondo todo o cânion. Só uma pequena faixa, em forma de bico, que invade a sudoeste até um ponto entre o pico da Neblina e 031 de Março é território venezuelano. - Não entendi - disse Edson. - Então o marco que vimos na televisão não fica sobre uma linha reta, como eles disseram?

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Iniciamos o contorno do paredão. Nos primeiros metros tudo parecia fácil, mas logo as dificuldades foram aparecendo. O relevo nos forçava a subir, não havendo como contorná-lo num mesmo nível. A neblina estava ainda muito forte e deslocava-se ao sabor do vento. De repente não podíamos ver um palmo diante do nariz. E a chuva caía. Foram muitos tombos e tropeços em pedras e raízes. Nosso ritmo de progressão foi diminuindo muito, chegando ao extremo de ficarmos mais tempo parados do que andando. O desespero começou a invadir nossa equipe, eram os primeiros sintomas. Descansamos um pouco, sentados no chão encharcado. - Vamos continuar, gente, é nossa única chance. Vocês vão ver, nós vamos conseguir - disse, sem acreditar em minhas próprias palavras. Levantamo-nos. Sabadin me ajudou a escalar outra pedra. Minha bota estava com a sola totalmente solta, causando um grande incômodo. As mãos doloridas e o excesso de umidade dificultavam a escalada. Mas o principal estorvo era mesmo a mochila, que desequilibrava o corpo aumentando o risco de queda. Quanto mais subíamos, menores eram as possibilidades de desvios, e o espaço ia ficando mais estreito. A inclinação da encosta do cãnion aumentava à medida que continuávamos, e o medo se agravava na mesma proporção. Escalando uma pedra, Gritei amaldiçoando tudo. gente. escorreguei batendo o queixo. a

DERROTADOS PELA NATUREZA

dlGje é 27 de~,

8,40 h. O pico continua encoberto. Nós vamos tentar contorná-lo, iunto ao paredão. Está muito frio e daqui dá para ver o grande cânion venezuelano. Vamos ver se conseguimos uma vitória hoie.

Estava chuviscando. Colocamos as roupas molhadas e geladas, socamos todo o material na mochila e saímos. Como choveu pouco durante a noite, a cachoeira voltou a ser uns poucos filetes de água escorrendo do alto da montanha. Não parecia ser muito difícil contornar aquela elevação. - Vejamos ... Eu calculo meia hora de caminhada. da Neblina, aí vamos nós! Pico

Calma, calma! disse Mílton, Vamos devagar. Bem devagar ...

surpreendendo

Uma espessa camada de neblina chegou encobrindo tudo. Mal dava para ver o companheiro da frente. Com muito sacrifício atingimos a cachoeira. Nossos cantis estavam vazios e, no chão, a água escorria por baixo de líquens. não sendo recomendável pegá-Ia dali. Sabadin foi para debaixo da cachoeira e, com as mãos por dentro do poncho, improvisou uma canaleta, por onde a água caía como numa bica. Edson pegou sua caneca e com ela encheu todos os cantis.

Mílton nunca nos dirigia a palavra. Ele apenas respondia às nossas perguntas. Era a segunda vez que ele interferia. Estávamos com os nervos à flor da pele. Nosso amigo índio nos acalmou: Calma. machucar. Vamos bem devagar. Ninguém deve se

Então eu vou subir sem a mochila. passam todas para mim - sugeri.

Depois vocês

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- Vamos lá. ajudó-Io a subir.

Sabadin

tomou a iniciativa.

-

Vou

-

Eduardo! Aconteceu

alguma coisa?

Eu estava convicto de que, subindo por ali, atingiria a linha de crista do outro colo, que unia o pico da Neblina ao 31 de Março. Apesar de toda a tensão, a esperança de confirmar minha suposição e visualizar o tão desejado objetivo me empurrava para cima. Não havia em que segurar além de umas frágeis bromélias. Mas, sem o peso da mochila e utilizando as técnicas de alpinismo, alcancei o alto. A neblina estava bastante forte e caía uma garoa fina e irritante. Fiquei em pé e avancei alguns metros; O paredão à minha direita continuava enorme e invencível. A esquerda, o perigoso precipício do cânion e por todo lado o cinzento da neblina. Mais alguns metros, mais outra pedra. No alto, vi algo em que não queria crer. Aquele era o ponto final. Eu estava sobre uma pedra em forma de mirante. Um passo a mais e eu despencaria num abismo. O paredão do pico descia por ele, em pura pedra, totalmente lisa. Não havia como prosseguir. Estava tudo perdido. A missão fracassara. Eu estava arrasado. Admitir que todos estavam certos em duvidar de nossas possibilidades era por demais doloroso. Mas era verdade. Nós fracassamos e teríamos que carregar essa frustração para sempre. Tanta gente nos aconselhou a abandonar o projeto. Era loucura. Tinham razão, nós não éramos páreo para tanto. Subestimamos a natureza e, por isso, recebíamos o castigo. Meus pensamentos viajavam para longe, na velocidade da luz. Vi toda a retrospectiva do Projeto Neblina, imagem por imagem, situação por situação, sofrimento por sofrimento. Foram muitos estudos, pesquisas, dias e noites de dedicação. Também foram muitas as pessoas que riram de nós, chamando a gente de malucos, desmiolados. Que droga! Estava mesmo tudo perdido. Eu não devia satisfações a ninguém. Ao inferno todos! Riam quanto quiserem, mas saibam que nós tentamos até o último minuto.

Olhei pela última vez para aquele precipício e para o paredão do pico. Fiz meia-volta, despedindo-me friamente do ponto final da expedição. Na beirada da pedra onde meus amigos me esperavam, parei e fiquei olhando para eles, mudo. - Vamos voltar para São Paulo Vamos voltar. Falhamos. murmurei a custo. -

Impossível descrever a fisionomia de cada um ao ouvir a notícia. Só Mílton não se alterou muito, apesar de um certo ar de compaixão. Edson se sentou de novo no chão e enrolou mais um cigarro. O silêncio durou um momento eterno. Até o vento silenciou. Meus pensamentos continuavam a perambular pelo passado, trazendo-me à mente todos os fatos relacionados com a expedição. A Funai não queria autorizar nossa passagem pela área ianomâmi, o IBDF não permitia nossa entrada no Parque Nacional, meu comandante fez de tudo para me dissuadir da aventura. Lembrei-me em detalhes da última reunião de oficiais Q do 2 Batalhão de Polícia de Choque, onde fizeram a minha despedida. Meu comandante desejondo-me boa sorte, apesar de dizer que, se eu fosse seu filho, não me deixaria ir por nada deste mundo. Outros oficiais diziam que eu não retornaria. Naquele dia, só uma pessoa me encorajou e me fez sentir orgulhoso: o major Getúlio Gracelli. Meu comandante perguntou-lhe se ele me deixaria seguir adiante, se eu fosse seu filho. O major surpreendeu a todos levantando-se da poltrona e dizendo, entusiasmado: "Se fosse meu filho, não só deixaria, como faria questão de ir junto! Augusto, boa sorte! Sei que conseg uirão!"

É bem verdade que, durante todo o planejamento e preparação, houve muitos momentos de alegria. Nem todos procuravam nos ridicularizar. Muitos nos ajudaram com bastante satisfação. O Dr. João Luiz, diretor do Hospital Vital Brasil, e o Dr. Álvaro, venezuelano que estagiava naquele hospital, foram alguns dos que se dedicaram de boa vontade à nossa causa. O tenente Edílson, nosso grande amigo, também não

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poupou esforços. Lembro-me exatamente das suas palavras quando nos deixou no aeroporto: "Eu boto fé em vocês! Sei que vão conseguir!" -Nãodá mesmo para continuar?-perguntou Sabadin.

mo, na Pepita. Chegaremos tarde e supercansados. E, no próximo dia, teremos que parar obrigatoriamente no Gelo, pois da Pepita até a Mucura é impossível ir direto, por causa da serra da Montilla, que é terrível.

Expliquei-lhes o que havia visto. Sentei-me num canto e calei-me. - Vamos voltar - disse Edson. - Vamos voltar até São Gabriel da Cachoeira, comprar mais mantimentos e retornar para cá pelo caminho correto. Voltar para São Paulo, sem escalar o pico, nunca! Eu estava abatido demais. Tudo de novo? Só de imaginar sentia o corpo todo doer. Eu estava me sentindo muito mal. O retorno foi ainda mais penoso. Vamos voltar até a grota da Pepita disse Edson.

- É verdade, Sabadin - disse Edson. - Continuar hoje não vai adiantar nada. De qualquer maneira estaremos no Gelo amanhã à tarde. O ideal é ficar aqui e descansar bastante.
Sabadin concordou meio a contragosto. Mílton parecia ter ficado mais contente. O coitado também devia estar bastante cansado e com muito frio, tremendo sem parar com os braços cruzados e as pernas bem juntas.

Grota da Pepita. Lá embaixo,

bem lá embaixo.

É, não conseguimos ... No final do paredão, tinha uma subido enorme em puro rocha. Conseguimos escolar até um certo ponto dela. Lá em cimo, Eduardo verificou que não era possível continuar por ali. Voltamos poro o mesmo acampamento em que estávamos. Amanhã, o gente verá o que vai fazer.
Armamos a barraca no mesmo local. Como era cedo, preparamos melhor o chão com folhas de bromélias. Precisávamos do máximo conforto naquela noite. Toda a região estava coberta pela neblina, não dava para ver nem a cachoeira do pico, que continuava a jorrar incessantemente. Ventava um pouco e a ga roa voltava a ca ir. Mal terminamos de ojeitor as coisas dentro da barraca e, por volta de meio-dia, caímos num sono profundo, de puro cansaço.

- Não seria melhor acampar no mesmo lugar de ontem? - perguntei. - Acho que não dá tempo de chegar à Pepita. Dessa forma amanhã podemos seguir direto para o Gelo, se sairmos bem cedo daqui. Negativo. Vamos embora daqui - disse Sabadin nervoso. - Vamos até a Pepita, custe o que custar. O nervosismo impunha aspereza em todas as falas. Qualquer coisa era motivo para discutirmos. Mílton estava preocupado conosco: Calma! Calma! Vamos bem devagar ... estava bem mais difícil,

O trajeto junto ao paredão devido ao nosso baixo moral. Atingimos acampamento. a pequena

elevação,

local de nosso último

- Sabadin, vamos raciocinar juntos - disse-lhe impondo uma falsa calma. - Se acamparmos aqui, teremos hoje a tarde inteira para descansar e recuperar as energias. Assim, amanhã podemos ir diretamente para a grota do Gelo. - Fiz uma pausa. - Se prosseguirmos hoje. chegaremos, no máxi-

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preparar nossa refeição. Caprichei, pontinho de luz no fundo do túnel.

pois começava

a ver um

. Após o jantar, combinamos de levantar às 5,30 da manhã seguinte, para, antes das 7, começar a última tentativa de escalar o pico.

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A CARTADA FINAL
Tive pesadelos horríveis. Acordei agitado, com o coração batendo rápido. Os outros ainda dormiam. Voltei a fechar os olhos e fiquei pensando na possibilidade de uma última tentativa de salvar a expedição. Lembrei-me da manhã do dia anterior, quando fotografei o pico, completamente limpo da neblina, debaixo de um sol maravilhoso. Daquele ângulo, o talvegue por onde corriam as primeiras águas do Ariabu parecia ser de pouca inclinação e sem obstáculos maiores. Será que não conseguiríamos escalar por aquele caminho? Não parecia má idéia. No dia anterior, quando fui com Sabadin até o início do talvegue, podíamos ter avaliado mal aquela área, devido ao nosso estado emocional. - O que vocês acham da minha idéia? - comecei. Já estamos aqui mesmo, junto do pico da Neblina, após 9 dias de sofrimento. Vocês não acham que, antes de voltar, a gente podia dar uma cartada final? Vamos tentar escalar o pico através da nascente do rio Ariabu. Lembram-se de ontem de manhã? Não parecia tão difícil. Embora sem muita esperança, eles concordaram. Dormimos mais um pouco e, por volta das 4 horas, acordei e fui

Durante a noite, acordei várias vezes, preocupado com o tempo. Como eu dormia no fundo da barraca, não havia como abrir o zíper da entrada e olhar para fora. Mas o barulho do teto continuava. Chovia ainda bastante. Piimmmmmm, piimmmmm, piimmmmm ... Acordei num sobressalto. Era o alarme do relógio. Cinco e meia. Desligueio e percebi que ainda estava escuro e que chovia. Olhei para o lado: todos dormindo. Acertei o alarme para 5,50 h e voltei a dormir. Cinco e cinqüenta: mesma situação. Seis horas: mesma situação. Seis e dez: o dia clareava aos f?oucos, mas o som da chuva continuava. Seis e meia: chega! E agora ou nunca! Acordei um por um. Era incrível a cara de desânimo de todos. Ao abrir a barraca percebi meu engano em relação ao tempo. Não estava chovendo. A umidade da elevação, junto de onde montamos a barraca, escorria e pingava bem em cima do teto, dando a impressão de que chovia. E o barulho que eu ouvia era da cachoeira do pico, que continuava jorrando. A neblina ainda dominava, mas já dava para ver a cachoeira e o paredão que nos derrotara no dia anterior. Preparei o café. Já passava das 7 horas. O primeiro furo do dia, sair com atraso. Sorte que não precisaríamos desmontar a barraca nem preparar as mochilas. Faríamos a escalada com o mínimo necessário: material de alpinismo e equipamento fotográfico. - Hoje é 28 de dezembro. Seu André deve estar lá n~ Boca do Tucano esperando a gente - disse eu. - Que sera que ele está pensando que aconteceu com a gente? Separei o material que iríamos levar: uma placa comemorativa dos 157 anos de existência da Polícia Militar do Estado

:J)~~epteatvu1eioda.

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de São Paulo, a Bandeira Nacional e os Estandartes do 2º Batalhão de Polícia de Choque (minha unidade) e do 7º Batalhão Policiai Militar Metropolitano (unidade de Edson e Sabadin). Separei também o material de alpinismo que eu considerava mais importante: uma corda de perlon, o cordim de 16 metros, 2 mosquetões e uma fita tubular para cada um, um freio 8 e 2 entaladores. Eu e Edson iríamos com nossos baudriers e Sabadin usaria uma cadeirinha improvisada com fita. Mílton não Iria conosco. Muitos dizem que os ianomãmis têm medo da montanha, pois acreditam que lá é a morada do deus Poré. Às 9,30 h nos despedimos de Mílton e tomamos nosso rumo. Atingimos a cachoeira. Paramos para encher os cantis. Foi mais fácil do que no dia anterior. Contemplamos a imponência do paredão - o que me fez sentir um arrepio profundo - e viramos à direita, acompanhando a base da montanha. Era o mesmo caminho que eu e Sabadin havíamos feito dois dias antes. Algumas pedras no caminho, muitos cipós, taquaras e um desvio à direita, por dentro do capim. Atingimos a nascente do Ariabu. . Desta vez, deixei de lado as frescuras e já pisei direto dentro d'água. Avançamos um pouco mais e olhamos para dentro daquela enorme fenda. A neblina estava fraca e podíamos ver bem adiante. Eram duas elevações separadas por um talvegue não muito pronunciado. Somente ali no início havia aqueles enormes paredões, tanto à esquerda como à direita do talvegue, formando um enorme portal, barreira contra invasores.

De repente me lembrei das palavras de uma amiga da família de minha noiva, dona Francisca, uma senhora muito alegre, da Igreja Seicho-No-Ie. Ao contar-lhe sobre a expedição, na festa de despedida, ela me disse: "Ao chegar perto da montanha, peça licença a Deus. Peça licença também a Poré, o deus dos índios. Peça licença à natureza e também à própria montanha. Assim eu sei que vocês conseguirão passar". Nunca fui muito religioso nem ligava para crendices ou superstições. Mas, por tudo que tínhamos passado, senti que devia fazer aquilo e, olhando diretamente para o cume, murmurei várias vezes: - Com licença, subir, por favor ... Deus, com licença, Poré ... Deixem-nos

Progredimos pelo leito do Ariabu, cuja largura variava de 1 a 2 metros. Deparamos com uma cachoeira de 2 metros de altura, que não apresentou muita dificuldade para ser transposta. Eu subi primeiro, depois ajudei Sabadin estendendo-lhe a mão. Edson subiu por último, com grande performance. À medida que subíamos, os paredões que nos rodeavam iam diminuindo de altura. Passamos por outras cachoeiras. Uma delas deu bastante trabalho pois, além de alta, estava toda coberta de lodo, e escorregava muito. Quando consegui subir, joguei o cordirn para que Edson e Sabadin subissem sem perder mais tempo, pois não sabíamos precisar a duração daquela escalada. Por incrível que pareça, o tempo começou a melhorar. Olhando para trás, por entre os dois paredões, víamos a serra do Ouro inteira. A neblina estava se dissipando e dando lugar a um tempo bonito e ensolarado. A ansiedade e a emoção começaram a transformar nossas fisionomias. Será que finalmente estaríamos chegando? Parecia que sim. Olhando para cima, víamos o cume, ou algo próximo dele. Não parecia difícil chegar lá. Nós vamos conseguir! Nós vamos conseguir!

1I

Uma força interior me fazia subir aquela montanha numa velocidade incrível. Eu disparava na frente e parava para

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fotografar a paisagem que, a. cada metro que subíamos, tornava-se mais ampla. Eu esperava Edson e Sabadin me alcançarem e novamente disparava na frente, parando dezenas de metros adiante. . Uma brisa suave trazia e levava pequenas camadas de neblina. Com isso, o sol surgia e sumia em questão de segundos. Olhando para o alto, surgia uma dúvida: o pico da Neblina seria o da esquerda ou o da direita? Tentei me lembrar do pico visto do penúltimo acampamento. De lá parecia ser o da direita. Mas eu não tinha muita certeza. Edson e Sabadin me alcançaram e sentaram nas pedras. Estavam bastante cansados, por causa do ritmo que eu estava impondo. Focalizei-os com minha câmera e registrei, na mesma foto, a grota da Pepita, bem pequenina no canto direito. correrf Vamos mais devagar - pediu Edson. - Para que Vamos chegar todos juntos! - advertiu Edson.

-

Se descobri rmos que é o outro, a gente va i até lá e pronto.

Recomeçamos a escalada. As dificuldades começaram a surgir. Tivemos que abandonar o talvegue e subir por uma encosta de pura pedra de inclinação superior a.45 graus. Retiramos a corda de perlon da mochila, encordamo-nos e fui guiando a cordada. A encosta não apresentava muita dificuldade técnica, mas, se algum de nós caísse, sem estar devidamente encordado, sem observar as regras básicas de segurança, encontraria a morte com certeza. Em alguns trechos, nossa progressão foi muito rápida. De tudo que fizemos durante a expedição, aquele estava sendo o dia mais fácil e emocionante de todos. A paisagem vista dali era magnífica. A serra da Montilla, a serra do Ouro, o pico do Cardona, o cânion venezuelano e a nossa própria barraca, um minúsculo ponto amarelo, perdido naqueles imensos campos de altitude. Do outro lado do cânion, em solo venezuelano, enormes elevações e cachoeiras altíssimas, de centenas de metros. Por trás dessas elevações era possível visualizar a floresta latifoliada do vale do Orenoco, a floresta amazônica da ·Venezuela. Um panorama lindíssimo, privilégio de poucos.

Discutimos sobre qual dos dois cumes seria o pico da Neblina. Fomos unânimes em dizer que eroo da direita, mas todos com uma pontinha de dúvida.

A difícil escalada.

o cânion venezuelano

- detalhe do fundo da depressão.

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- Edson! Sabadin! Olhem ali o alto. - Aquilo não é um mastro?

disse apontando

para

Assim como eu, eles ficaram paralisados e tremendo de euforia e emoção. Os olhos começaram a marejar. A compensação estava chegando, a vitória estava a poucos passos, vamos vencer ...

São 1223 h do dia 28 de dezembro de 1988. Estamos aqui, quase que no alto do pico da Neblina, após uma escalada muito louca mesmo, cheia de pedras, cachoeiras, tudo que podíamos imaginar à nossa frente. E, agora, estamos aqui, a quase 10 metros do pico ... Nós vamos agora chegar e cada um vai gritar aquilo que vier na cabeça ...
lá embaixo, a nossa barraca: um minúsculo ponto amarelo.

Ao longe, por trás da serra da Montilla, a serra de Baruri e a de Pirapucu e, mais à esquerda, bem pequenina, a serra do Padre, que continuava a rezar pelo nosso destino. Eu estava maravilhado com tanta beleza. Descrever as emoções que senti, por mais que tentasse, não denotaria nem parte do estado emocional em que me encontrava. Olhando à esquerda, pude confirmar que o outro cume não era o ápice, pois eu já me encontrava acima de seu nível. "Oba! Estamos no caminho certo! Agora nada mais segura a gente!" Olhei para o alto e percebi que o pico ficava a pouco mais de 20 metros. Continuamos a progressão, mas, chegando mais perto, vimos que aquilo era apenas uma saliência. O pico ficava mais adiante .. O sol estava abrasador e o tempo totalmente aberto, proporcionando uma das visões mais amplas que eu já tivera. O cume do outro lado já estava bem abaixo de nós, derrubando todas a dúvidas sobre qual seria o verdadeiro pico. Atingi uma saliência de pedra bem grande e, ao ultrapassá-Ia, vi, poucos metros adiante, uma haste. Ou melhor, era um mastro! Parei e, com o coração a mil por hora, sentei-me esperando meus companheiros.

Apesar de tudo de ruim que aconteceu, da tensão que, por vezes, nos fez gritar ~ xingar um ao outro, naquele momento estava tudo esquecido. Eramos a equipe; a vitória final suplantou tudo. Passo a passo, bem lentamente, fomos caminhando em direção ao ponto culminante de nosso país. Seríamos a segunda equipe brasileira e a primeira militar a realizar tal façanha. O mastro foi aumentando de tamanho e, abaixo dele, foi surgindo um amontoado de rochas que o firmavam na posição. Cinco metros ... quatro metros ... três... apenas dois metros ... um. Estávamos lá. Ao pisar o pico da Neblina, cada um de nós gritou extravasando sua emoção e dedicando a vitória a seus entes mais queridos.

Conseguiiiimos! luupiiiii! laauuu! O sonho tornou-se realidade! Braaasil!!! Nossa, que loucura! Isto aqui é super-emocionante, impressionante! Nós estamos no ponto mais alto do Brasil: no pico da Nebliiina!
Eu ainda não estava acreditando. O pico da Neblina sem neblina alguma, totalmente limpo, proporcionando a plena visão do panorama completo da região. Pela primeira vez pudemos apreciar o vale do alto Cauaburi e toda a flore~ta que o margeia. Um imenso tapete verde que se perde no horizonte ..

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A nordeste, o 31 de Março, quase escondido atrás do cume menor do pico da Neblina. Daquele lado estava a outra trilha, mas já não nos interessava mais. O pico da Neblina poderia ser descrito como um pequenino platô, de forma mais ou menos retangular, de uns 200 metros quadrados. No centro, uma formação rochosa de pouco mais de um metro e meio de altura. Ao redor, outras pedras pouco menores, de formatos variados. Seu formato retangular acompanha a linha de crista que o une ao cume menor, distante pouco mais de 500 metros. A face pela qual efetuamos a ascensão é a menos íngreme. A face leste e a sul constituem um enorme precipício de pura rocha, que termina já dentro da floresta equatorial lotifoliodo, centenas de metros abaixo, sendo portanto de conquista praticamente impossível. Caramba! Aqui é um abismo disse Sabadin.

nem vestígios de que ali fora deixada alguma. A umidade e os ventos constantes se encarregaram de sumir com as provas. Por baixo das pedras onde estava o mastro, Edson encontrou um pote de plástico e, em seu interior, um lápis e um caderno. Olhem o que eu encontrei! gritou ele.

Retirou o caderno para ler:

do pote e abriu. Sentamo-nos juntos

"Pico da Neblina, 3014 metros, Amazonas, Brasil. Este caderno destina-se ao registro dos nomes de pessoas que, como nós, tiveram o prazer e a glória de atingir o ponto culminante do Brasil. Solicitamos ao montanhista que preencher a última folha a restituição deste caderno para o endereço de qualquer um dos membros da expedição austríaca, relacionados na primeira folha. Gratos." Aquilo estava escrito na contracapa. Virei o caderno e comecei a ler a primeira página. Ventava forte e o barulho era intenso. "Expedição austríaca ao pico da Neblina - 1988, 14 de janeiro, 15h30. Georg Zens, Alois Indrich, Franz Weiss, Ewald Rossback. Muito obrigado, capitão Delphino, de Serac 7." Registrei ali a nossa conquista, realizada exatamente às 12 horas e 30 minutos, aos vinte e oito dias do mês de dezembro do ano de 1988. Registrei os nomes dos integrantes, batizei a via escalada de Via Garimpo e reservei uma página para cada um registrar aquilo que achasse conveniente. Era tanta a alegria que não me ocorriam as palavras. Só consegui escrever, após meu nome e endereço: "Dedico a todos que colaboraram: Suzana, família etc. E também a todos que não acreditaram. Obrigado". E assinei embaixo. Retiramos a placa e as bandeiras da mochila e posamos para inúmeras fotos, junto ao mastro. Para garantir que as bandeiras não fossem arrancadas facilmente pelo vento, tratei de cortar um pedaço de cordim e

Numa pedra havia restos de cimento que fixara por muito tempo uma placa, que não encontramos. Na formação principal, ao centro, uma placa de metal comemorativa da Força Aérea, com os seguintes dizeres: "Pico da Neblina, fevereiro de 1986. 13º aniversário dos falcões. Voar na Amazônia é uma opção de coragem e determinação. E aqui estamos nós sempre. Força Aérea Brasileira. 1º/8º GAV - Esquadrão Falcão". aqui? Então nós não somos os primeiros militares a chegar perguntou Sabadin um pouco desapontado. Espere um pouco ... disse eu.

No chão, próximo a uma outra pedra, havia duas enormes latas, bem enferrujadas e, em seu interior, alguns rojões já queimados e bastante destruídos pelo tempo. Sinais de festa. Era evidente que os responsáveis pela fixação daquela placa comemorativa não escalaram o pico, mas sim foram ali deixados e depois resgatados por helicópteros. O pioneirismo era realmente nosso. - Soltaram rojões aqui. E ninguém escalaria uma montanha com latas tão grandes. Usaram helicópteros, com certeza. O mastro era de alumínio, de pouco mais de 1 metro, inclinado em relação ao solo. Não havia nele resto de bandeira

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efetuei inúmeros nós nos ilhoses, de forma que pelo menos estes sobrassem fixos ao mastro. A poucos metros do mastro, havia uma grande pedra que se encaixava perfeitamente para fixar nossa placa. Uma placa bastante modesta, mas muito significativa para nós. Ali ela seria visível até do alto, por helicóptero. Com o cordim, efetuei amarras em volta da pedra também. Assim prestamos nossa homenagem à Polícia Militar de São Paulo.

A emoção de um sonho coroado de êxito.

São 13,40 h. Já tiramos muitas fotos. Aqui tá ventando muito, a neblina está cobrindo tudo temporariamente e nós vamos fazer um lanche. Vamos ver o que temos aqui.
Sentamo-nos no chão e Sabadin retirou da mochila uma enorme barra de chocolate, que fora reservada desde o início para a comemoração da vitória. Balas de caramelo e bananada também foram guardadas para aquele momento.
Emocionados no topo. Da esquerda para a direita: Eduardo, Sabadin e Edson.

Camadas de neblina encobriam temporariamente trechos da região. Os ventos iam e vinham. Olhei para o mastro e vi as bandeiras tremulando, marcando a presença de nossa corporação num dos lugares mais bonitos e inacessíveis do planeta. Contemplamos uma das visões mais belas que o homem pode ter: ver o Brasil de seu ponto mais alto, ver o horizonte infinito desta grande nação e sentir no peito a emoção de um sonho realizado. Nossa barraca era um pontinho amarelo perdido lá embaixo. Mílton deveria estar dormindo. Ou estaria olhando para cima para ver nossa vitória? IIMílton! Grande Mílton! Vencemos!"

Observando o cume menor da Neblina, uma dúvida me ocorreu. A equipe do CAP, antecessora nossa na conquista do pico, ao relatar sua aventura à Revista Geográfica Universal (páginas 74 a 87 da publicação de agosto de 1979), narrou o seguinte:

110 relógio [ó marcava 15 horas e, segundo o altímetro, faltavam ainda 150 metros para atingirmos o cume. A neblina não nos permitia enxergar além de 30 metros. Apressamos a subida, nervosos por não encontrar o paredão. De repente, chegamos a um ponto onde [ó não havia mais o que escalar. A neblina se abrira e, ao olharmos em torno, fomos tomados de uma alegria irreprimível. Estávamos no topo da mais alta montanha do Brasil - o pico da Neblina, com seus 3014 metros de altitude."
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Subindo pela face tradicional, o alpinista fatalmente atingiria o cume menor da Neblina, necessitando seguir a linha de crista até o cume maior, caminhando uns 200 metros em declive e mais uns 400 em aclive bem suave. Eu calculava que o cume menor estava a uns 80 metros de desnível em relação ao pico, ou seja, mais abaixo ainda que o 31 de Março. Além disso, a foto deles ao lado da bandeira mostrava um chão quase sem pedra, enquanto no pico verdadeiro havia aquela formação bem nítida e destacada no terreno. -Acho que eles se enganaram -supôs Edson. - Tenho quase certeza de que eles subiram e atingiram apenas aquele cume. Se a história fOi'a que eles contaram mesmo, com certeza não chegaram aqui. Mas, ainda assim, eles são vitoriosos. Vieram para cá em 1979, quando aqui era menos explorado ainda. - Lá deve haver algumas placas de outras equipes que se enganaram - disse Edson. - Será que não daria para ir até lá? - Já são duas e dez. Acho que não daria tempo. Não convém arriscar. Padre Carlos lembrava-se muito bem da equipe do Clube Alpino Paulista com seus três integrantes. Falava deles com muito carinho, pois, segundo ele, um dos alpinistas tinha sido batizado pelo Papa João Paulo 11. Eles realmente foram uns heróis, mesmo que não tivessem atingido o ponto culminante do país. A visão global dali me permitiu redesenhar o mapa da região, com uma precisão bem maior, corrigindo as falhas e adicionando informações complementares. Edson. Gastaremos uns 5 dias para voltar, não? respondi. perguntou

mandar Mílton pela trilha que liga o Tucaninho a Maturacá. Ele chega lá rapidinho, enquanto a gente continua até a Boca do Tucano. Três da tarde. Preparamos o equipamento, contemplamos pela última vez aquela belíssima paisagem e nos despedimos das bandeiras e da placa. Hora de partir. Missão cumprida.

- É possível.

Só para notificar, nós subimos o pico em 3 horas e 20 minutos e realizamos a descida em 2 horas e 10 minutos. Agora estamos quase chegando ao nosso acampamento, onde deixamos Mílton vigiando. Vamos gravar nossa chegada. Agora sôo 17, 45 h. Estamos nos aproximando do acampamento, vamos ver a reaçõo do índio ao contar-lhe que conseguimos ... Pico da Neblina, uma subida bastante interessante. Subimos por uma cachoeira até metade do caminho. Pedras lisas... No caminho muitas árvores pequenininhas, algumas bromélias, lama e alguns lugares muito perigosos. Droga! Acabei de afundar o pé na lama!
- Acorda, Mílton! Nós conseguimos! Vamos comemorar, Mílton. Nós conseguimos! Poré deixou a gente passar Sabadin dizia todo contente. Abraçamos o índio, que também demonstrou alegria pelo nosso sucesso. Ele sorria e dizia: "Pois, é". Aquele final de tarde foi o mais belo que presenciamos desde o início da aventura. O pico estava totalmente limpo, imponente e nos proporcionou fotos muito bonitas. A noite foi avançando, noite de lua cheia. E como se já não bastasse toda a maravilha vista durante o dia, a Lua foi postar-se bem atrás do ápice de nosso protagonista, criando um contorno luminoso, que nos oferecia uma imagem de beleza indescritível. Ficamos horas apreciando aquele troféu oferecido pela natureza. Durante a madrugada, ao olhar para fora, vi o céu completamente estrelado, sem luar. Nosso protagonista continuava em evidência, cercado por inúmeras e brilhantes estrelas. Acordei Edson, Sabadin e até Mílton para ver aquilo. Todos ficaram maravilhados com o espetáculo. Foi a nossa despedida do pico.

- Mais ou menos estará pensando?

E seu André?

O que

- Sei lá. Precisamos pensar numa forma de avisá-lo Rara nos apanhar na Boca do Tucano - disse Sabadin. - E só

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o retorno à aldeia
Ho;e é dia 29, quinta-feira. Acordamos às 7 horas, levantamos rapidamente o acampamento e descemos a vertente até a grota da Pepita. O caminho foi muito difícil porque nossa trilha havia sumido. Muitas pedras, lama, espinhos, galhos, chuva, mas com muito custo, conseguimos chegar à Pepita. De lá, pegamos a trilha dos garimpeiros até aqui na grata do Gelo, onde está a turma do Goiano. Chegamos aqui por volta das /7,45 h. Eles se encontram por aqui ainda e vieram mais quatro garimpeiros. Aumentou a família. Jantamos com eles e amanhã seguiremos o nosso caminho de volta. Dia 30 de dezembro. Saímos às 9,40 h da grota do Gelo, seguimos subindo a serra da Montilla e em duas horas conseguimos atingir seu cume. Descemos pelo outro lado da serra, e uma chuva muito forte nos pegou pelo caminho. Alagou tudo. Viemos atolados até o ;oelho na água, na lama. No caminho, Mílton recuperou sua espingarda. Agora são 5 horas e estamos aqui na Mucura, grota da Mucura. Stanislau e sua turma não estão mais aqui. Está tudo deserto. Saímos da grota da Mucura às 10,50 h e fomos até a Pica do Baiano. No caminho a chuva e o sol revezavam-se, castigando-nos ora um, ora outro. Num determinado ponto a última visão do pico, que logo foi coberto pela neblina. Do alto da Pica do Baiano, descemos livrando-nos das bromélias, e atingimos a floresta. Foi a maior alegria encontrar a mata e estamos agora no acampamento da Pica do Baiano, onde chegamos às 5 da tarde. O tempo está bom e ho;e é 3 / de dezembro, último dia do ano. Primeiro de ;aneiro de /989. Passamos o réveillon acordados Esperamos a meia-noite e simulamos uma festinha, estourando um champanhe fictício, fingindo tomar e comer alguma coisa. Foi divertido. Eu não consegui dormir, chamei Edson para fazer um café e ficamos batendo papo ao redor da fogueira até por volta das quatro e meia da madrugada, quando resolvemos descansar. Cozinhamos também fei;ão numa latinha e coamos o café num lenço. Não foi um dos melhores réveillons de minha vida, mas foi gostoso. Pelo menos estávamos tranqüilos, longe das bromélias e longe das chuvas. Durante a noite quase ocorreu uma tragédia. Enquanto eu e Edson fazíamos o café, um galho enorme caiu do alto de uma árvore, atingindo o chão a poucos centímetros da barraca,

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onde Eduardo estava. Aquilo foi por um triz. Hoje acordamos por volta das 6,30 h, levantamos acampamento e saímos às 8,30 h. Caminhamos sem parar um longo trecho, descendo pela grota do Cipó, com inúmeras pedras lisas. Levei uns três escorregões, mas tudo bem, não me machuquei. Atingimos a grota do Açúcar e, após um breve descanso, subimos a crista da serra do Barro. Não foi muito difícil desta vez, visto que já conhecíamos o caminho e sua extensão. Logo atingimos o alto da serra e descemos pela outra vertente, que na ida foi para nós um dos piores martírios. Após horas de descida, atingimos o acampamento do Tucaninho. Era por volta das 4 horas. Aqui encontramos sete garimpeiros que estão a caminho da Pepita. Foram muito gentis conosco e daqui a pouco vamos bater um papo com eles. Dois de janeiro. Saímos do Tucaninho às 9,25 h. Estamos sozinhos, pois Mílton seguiu pela outra trilha até Maturacá. Após bastante tempa de uma caminhada leve, devido ao relevo plano e trilha bem aberta, atingimos o acampamento da Cachoeira. Nas proximidades, encontramos mais alguns garimpeiros com bastante comida, e Eduardo conseguiu alguns gêneros. Chegamos às 2,30 h. Fui pescar, peguei seis peixes, quatro lambaris e dois carás, e, com o mantimento que o Eduardo conseguiu, tivemos um belo almoço. Três de janeiro. Refeição matinal: cappuccino com bolo de milho e muita bolacha. E agora, às 8, 15 h, estamos de saída em direção à Boca do Tucano, onde esperamos encontrar seu André para que possamos ir até Maturacá, final da expedição. Depois de sairmos do acampamento da Cachoeira, perdemos a trilha. Seguimos o azimute por quase uma hora até atingir um igarapezinho. Descemos pelo igarapé, af/uente do Tucano, e encontramos mais à frente a trilha novamente. Agora são 13, 15 h. Chegamos à Boca do Tucano, local onde a voadeira nos deixou 16 dias atrás. AqUi começou nossa jornada a pé e aqui também, acredito, ela vai terminar. Até o momento seu André ainda não chegou. Nós mandamos Mílton na frente dar o recado para que viessem buscar a gente hoje cedo. Estamos descansando. Já estamos nos sentindo praticamente em casa. São 14,35 h. Nossa voadeira chegou. Mílton está junto e trouxe um cacho de bananas, como Eduardo havia pedido. Agora a gente vai para Maturacá. Terminou nossa caminhada.
Amazonas

OCEANO ATLÂNTICO

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Eduardo Agostinho Arruda Augusto nasceu em 26 de agosto de 1966. Formado pela Academia de Polícia Militar do Barro Branca, hoje ele é: • Oficial da Policio Militar do Estado de São Paulo • Oficial supervisor do Grupo de Operaçães Especiais do APMBB • Ostento a láureo de mérito pessoal em Primeira Grau • Cursos que realizou: Curso Preparatário de Formação de Oficiais Curso de Formação de Oficiais Graduando em Administração de Empresas pelo Instituto Mockenzie Salvamento em Montanha pelo Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeira (lo. colocado) Direção Defensiva (10. colocado) liderança Politica, pelo Instituto de Estudos Contempôraneos - Espaço liberal Ofidismo - Herpetologio e Soroteropia pelo Instituto Butontan Fotografia 35 mm pelo Kodok Curso básico de Sobrevivência e Orientação em Matas (do qual foi instrutor) • Integrante do Clube Alpino Paulista Alpinista Guia de Montanha, pelo Clube Alpino Paulista e pelo Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Joneira Realizou mais de BOescaladas, tendo superado o 50. grau de dificuldade • Conhecimentos práticos: Topografío e Orientação em Matas Técnicos de Primeiros Socorros Técnicas de Resgate em Matas e Montanhas Salvamento em Altura Sobrevivência no Selva liderança e Chefio Está se preparando para, entre dezembro de 1992 e janeiro de 1993, realizar a escalada do Aconcágua, ponto culminante dos Américas.

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