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Mário de Andrade
Pauliceia Desvairada
Edição comemorativa aos 70 anos da morte do escritor

Publicado originalmente em 1922.

Mário Raul de Moraes Andrade
(1893 — 1945)

“Projeto Livro Livre”
Livro 718

Poeteiro Editor Digital
PROJETO LIVRO LIVRE
São Paulo - 2016
www.poeteiro.com

PROJETO LIVRO LIVRE

Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.
Castro Alves

O “Projeto Livro Livre” é uma iniciativa que propõe o compartilhamento, de
forma livre e gratuita, de obras literárias já em domínio público ou que tenham
a sua divulgação devidamente autorizada, especialmente o livro em seu formato
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No Brasil, segundo a Lei nº 9.610, no seu artigo 41, os direitos patrimoniais do
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ao de seu falecimento. O mesmo se observa em Portugal. Segundo o Código dos
Direitos de Autor e dos Direitos Conexos, em seu capítulo IV e artigo 31º, o
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do criador intelectual, mesmo que a obra só tenha sido publicada ou divulgada
postumamente.
O nosso Projeto, que tem por único e exclusivo objetivo colaborar em prol da
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direito autoral. Todavia, caso seja encontrado algum livro que, por alguma
razão, esteja ferindo os direitos do autor, pedimos a gentileza que nos informe,
a fim de que seja devidamente suprimido de nosso acervo.
Esperamos um dia, quem sabe, que as leis que regem os direitos do autor sejam
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uma ferramenta para promover o conhecimento, em vez de um temível inibidor
ao livre acesso aos bens culturais. Assim esperamos!
Até lá, daremos nossa pequena contribuição para o desenvolvimento da
educação e da cultura, mediante o compartilhamento livre e gratuito de obras
em domínio público, como esta, do escritor brasileiro Mário de Andrade:
“Pauliceia Desvairada”.
É isso!
Iba Mendes
iba@ibamendes.com
www.poeteiro.com

ÍNDICE
A Mário de Andrade........................................................................................
Prefácio interessantíssimo...............................................................................
Inspiração.........................................................................................................
O trovador........................................................................................................
Os cortejos.......................................................................................................
A escalada........................................................................................................
Rua de São Bento............................................................................................
O rebanho.........................................................................................................
Tietê..................................................................................................................
Paisagem nº 1..................................................................................................
Ode ao burguês................................................................................................
Tristura.............................................................................................................
Domingo...........................................................................................................
O domador.......................................................................................................
Anhangabaú.....................................................................................................
A caçada...........................................................................................................
Noturno............................................................................................................
Paisagem nº 2...................................................................................................
Tu.....................................................................................................................
Paisagem nº 3...................................................................................................
Colloque sentimental.......................................................................................
Religião.............................................................................................................
Paisagem nº 4..................................................................................................
As enfibraturas do Ipiranga..............................................................................

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se me perdoareis a distância mediada entre estes poemas e vossas altíssimas lições... Permiti-me que ora vos oferte este livro que de vós me veio....PAULICEIA DESVAIRADA A MÁRIO DE ANDRADE Mestre querido. Mestre. PAULO 1 . Recebei no vosso perdão o esforço do escolhido por vós para único discípulo. o seu Mestre. Prouvera Deus! nunca vos perturbe a dúvida feroz de Adriano Sixte. mas de vossa experiência recebi a coragem da minha Verdade e o orgulho do meu Ideal. Mário de Andrade 14 de dezembro de 1921 S. daquele que neste momento de martírio muito a medo inda vos chama o seu Guia.. Nas muitas horas breves que me fizestes ganhar a vosso lado dizíeis da vossa confiança pela arte livre e sincera. o seu Senhor. Mas não sei. Não de mim.

confesso. Os arquitetos fogem do gótico como da arte nova. Diferença cabal entre nós dois: Maomé apresentava-se como profeta. Os curiosos terão prazer em descobrir minhas conclusões. mas criada pelo autor. para se apoiarem na calma construtiva de Rafael. “Este Alcorão nada mais é que uma embrulhada de sonhos confusos e incoerentes. VERHAEREN Leitor: Está fundado o Desvairismo. Não é inspiração provinda de Deus. nos volumes elementares: cubo. Na escultura Rodin é ruim. Que se apresente com algum sinal revelador do seu destino. 2 . é um homem que faz versos. Livro evidentemente impressionista. Alguns dados. inútil. e o autor deste livro seria hipócrita si pretendesse representar orientação moderna que ainda não compreende bem. como os antigos profetas". como para justificar o que escrevi. Maomé não é profeta. Para quem me rejeita trabalho perdido explicar o que. A poesia.. Daí a razão deste Prefácio Interessantíssimo. Ninguém pode se libertar duma sô vez das teorias-avós que bebeu. erro grave o Impressionismo. Os músicos desprezam Debussy. Talvez digam de mim o que disseram do criador de Alá. apesar de interessante. Penso depois: não só para corrigir. já não aceitou. Os pintores desdenham Delacroix como Whistler. antes de ler. do Greco. onde principia a seriedade. esfera. segundo modernos. para apanhar nele a humanidade”.. filiando-se. Sem conclusões. Nem eu sei. confrontando obra e dados. E. Nem todos. Aliás muito difícil nesta prosa saber onde termina a blague. “tende a despojar o homem de todos os seus aspectos contingentes e efêmeros. Sou passadista. etc. Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita. E desculpe-me por estar tão atrasado dos movimentos artísticos atuais. os imaginários africanos são bons. confesso. Ora.. para além dos tempos históricos. Sou passadista.. genuflexos diante da polifonia catedralesca de Palestrina e João Sebastião Bach.PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO "Dans mon pays de fiel et d'or j'en suis la loi”. de Ingres. Para quem me aceita são inúteis ambos. julguei mais conveniente apresentar-me como louco. Este prefácio.

Exemplo? ARTISTA O meu desejo é ser pintor — Lionardo. Era vaidoso. Podia. a cor da veneziana escola. rimei. trazendo ao fundo pardo da vida. Pensei que se discutiriam minhas ideias (que nem são minhas): discutiram minhas intenções. publicar meus versos metrificados. Andarei a vida de braços no ar. "Alguns leitores ao lerem estas frases (poesia citada) não compreenderam logo. Já agora não me calo. Tenho pontos de contacto com o futurismo. e viverei de colorir sorrisos nos lábios dos que imprecam ou que choram! Os Srs. Quando encontrar o manancial das tintas e os pincéis exaltados com que pintas. Creio mesmo que é impossível compreender inteiramente à primeira leitura 3 . cujo ideal em piedades se acrisola. Quis sair da obscuridade. como o "Indiferente" de Watteau. Meu anseio é. publicam seus versos. Não sou futurista (de Marinetti). como eles. dar tons de rosa e de ouro. que desejei a morte do mundo.Você já leu São João Evangelista? Walt Whitman? Mailarmé? Verhaeren? Perto de dez anos metrifiquei. Laurindo de Brito. Martins Fontes. Hoje tenho orgulho. errou. Disse e repito-o. Paulo Setúbal. irei morar onde as Desgraças moram. E fazem muito bem. Sabia da existência do artigo e deixei que saísse. Não me pesaria reentrar na obscuridade. Tal foi o escândalo. chamando-me de futurista.. a quanto houver de penedia ou cardo.. fazendo abrir-se ao mundo a ampla corola do sonho ilustre que em meu peito guardo. Tanto ridicularizariam meu silêncio como esta grita. Oswald de Andrade. por esmola. embora não tenham evidentemente a envergadura de Vicente de Carvalho ou de Francisca Júlia. Veronese! teus quadros e teus frisos. A culpa é minha.

Qualquer impecilho a perturba e mesmo emudece. Si mostra é por vaidade. Que Arte não seja porém limpar versos de exageros coloridos. Criamô-lo para vestir com ele quem fere nosso orgulho. No que estes se tornam condenáveis é em não pensar que um autor que assina não escreve asnidades pelo simples prazer de experimentar tinta.. Entroncamento é sueto para os condenados da prisão alexandrina. João Epstein. Não há pai que. Independe do maior ou menor alvo de quem o sofre. A ama-de-leite do conto foi uma grandíssima cabotina desnaturada. consciente. acrisolado num pensamento claro ou confuso.pensamentos assim esquematizados sem uma certa prática. abandone o filho corcunda que se afoga. Perdoe-me dar algum valor a meu livro. que havia qualquer coisa por compreender". Exagero: símbolo sempre novo da vida como do sonho. não dá a medida do seu valor”. ignorância. Há neste mundo um senhor chamado Zdislas Milner. Mas você deve saber que há milhões de exageros na obra dos mestres. sendo pai. nascido no subconsciente. Nem é nisso que um poeta pode queixar-se dos seus leitores. cria frases que são versos inteiros. Há porém raro exemplo dele neste livro. de pormenores inúteis ou inexpressivos.. Por ele vida e sonho se irmanam. sob essa extravagância aparente havia um sentido porventura interessantíssimo. de sentimentalidades românticas. Arte. O ridículo é muitas vezes subjetivo. sem prejuízo de medir tantas sílabas. A inspiração é fugaz. dá Poesia. Um pouco de teoria? Acredito que o lirismo. e que. Si não mostra é por vaidade também. não consiste em prejudicar a doida carreira do estado lírico para avisá-lo das pedras e cercas de arame do caminho. mas meio legítimo de expressão. caia e se fira. "O vento senta no ombro das tuas velas!" Shakespeare. Não fujo do ridículo. Uso de cachimbo. violenta. Entretanto escreveu isto: "O fato duma obra se afastar de preceitos e regras aprendidas. Homero já escrevera que a terra mugia debaixo dos pés de homens a cavalos. somada a Lirismo. Arte é mondar mais tarde o poema de repetições fastientas. não é defeito. Todo escritor acredita na valia do que escreve. 4 . Tenho companheiros ilustres. esterilidade. para salvar o lindo herdeiro do vizinho. E. Deixe que tropece. com acentuação determinada. que.

faz obra bela. indisposições. seres e coisas. Atrai. colorida. porém. horrível.. objetivo. Arte não consegue reproduzir natureza. A percepção das coisas exteriores é fraca. de lugar. por meio de alterações sistemáticas das relações naturais entre as suas partes. convencional. Todavia comprazem-se os artistas em exprimir o singular encanto da feiúra. Ora Anita Malfatti ainda não leu Emílio Bayard: “O fim lógico dum quadro é ser agradável de ver. circunstâncias de tempo.. ora consciente (Rafael das Madonas. preconceitos. de modo a tornar essa característica mais visível e dominadora". musical. tem o poder de nos conduzir a essa idealização livre.. arte. mesmo tirando os seus temas do mundo objetivo. desenvolve-se em comparações afastadas. O belo horrível é uma escapatória criada pela dimensão da orelha de certos filósofos para justificar a atração exercida. Não sei que futurismo pode existir em quem quase perfilha a concepção estética de Fichte. Não acho mais graça nenhuma nisso da gente submeter comoções a um leito de Procusto para que obtenham. Luís Carlos. que ultrapassa a defeituosa percepção dos sentidos.Taine disse que o ideal dum artista consiste em “apresentar. Outros infiram o que quiserem. natural — tem a eternidade que a natureza tiver.. sem exatidão aparente. Rodin do Balzac. provenientes das nossas taras físicas e morais: doenças. mais que os próprios objetos. ou indica os objetos. O artista sublima tudo”. Todos os grandes artistas. ora inconscientemente (a grande maioria) foram deformadores da natureza. Já raciocinou sobre o chamado “belo horrível"? É pena. antipatias. Não me venham dizer que o artista. Só idealmente podemos conceber os objetos como os atos na sua inteireza bela ou feia. Beethoven da Pastoral. Chamar de belo o que é feio. Fujamos da natureza! Só assim a arte não se ressentirá da ridícula fraqueza da fotografia. exageradas. Esta idealização livre. Anita Malfatti falava-me outro dia no encanto sempre novo do feio. sem delimitação qualificativa nenhuma. completa e claramente qualquer característica essencial e saliente deles. Machado de Assis do Brás Cubas). prejudicada por mil véus. Donde infiro que o belo artístico será tanto mais artístico. belezas e defeitos se apresentam na sua plenitude heróica. só porque está expressado com grandeza.. Mas feio — pecado. hereditariedade. comoção. etc. reproduzindo o feio. em todos os tempos. transitório — questão de moda. Pouco me importa. é desvirtuar ou desconhecer o conceito da beleza. Belo da arte: arbitrário. número convencional de 5 .. Belo da natureza: imutável. em ritmo convencional. pelo feio sobre os artistas. O Sr. reconheço que tem o direito de citar o mesmo em defesa das suas “Colunas”. subjetiva. o horrível. tanto mais subjetivo quanto mais se afastar do belo natural. permite criar todo um ambiente de realidades ideais onde sentimentos. como um universal. ignorâncias. Nossos sentidos são frágeis. A arte que. nem este é seu Fim.

Sobre a ordem? — Repugna-me. Quem leciona História do Brasil obedecera a uma ordem que. não consiste em estudar a guerra do Paraguai antes do ilustre acaso de Pedro Álvares. são verdades. inda mais alta. guarde-o para o fim!” A turba é confusão aparente. e quem tiver o argumenta mais forte. chocando-se lindamente. Uso palavras em liberdade. falando a retórica exata das reivindicações. Homero. usei indiferentemente. associativo. na fúria desencadeada dos elementos. Existe uma ordem. Virgílio. Razão para que me insultem? Mas não desdenho baloiços dançarinos de redondilhas e decassílabos. Já. Tanto não abuso! Não pretendo obrigar ninguém a seguir-me. Acontece a comoção caber neles. Nesta questão de metros não sou aliado. das associações de imagens. A língua brasileira é das mais ricas e sonoras. Costumo andar sozinho. os diversos metros pares. Minhas reivindicações? Liberdade. 6 . não abuso. musical da palavra em liberdade. porque verdades filosóficas. Existe a ordem dos colegiais infantes que saem das escolas de mãos dadas. primeiro livro. Entram pois às vezes no cabaré rítmico dos meus versos. Acontece que o tema às vezes descaminha. Quem souber afastar-se idealmente dela. dos contatos exteriores. Uso dela. Sei embridá-la nas minhas verdades filosóficas e religiosas. o que Musset chamou: "L’art de servir à point un dénoument bien cuit". religiosas. Homero. sou como a Argentina: enriqueço-me. Marinetti foi grande quando redescobriu o poder sugestivo. Aliás: velha como Adão. e inda bebo no copo dos outros. É apenas auxiliar poderosíssimo. têm assonâncias admiráveis. certo. Adquiro outros. não usaram rima. com efeito. Agora liberto-me também desse preconceito. E possui o admirabilíssimo “ão". Existe uma ordem nos estudantes das escolas superiores que descem uma escada de quatro em quatro degraus. dois a dois. Marmetti errou: fez dela sistema. Quem canta seu subconsciente seguirá a ordem imprevista das comoções. simbólico. universal. Seria engraçadíssimo que a esta se dissesse: “Alto lá! Cada qual berre por sua vez. sem obrigação de retorno periódico. verá o imponente desenvolver-se dessa alma coletiva. não são convencionais como a Arte. Sinto que o meu copo é grande demais para mim. O impulso clama dentro de nós como turba enfurecida. Virgílio.sílabas.

como não faz parte de frase (melodia). Estética Musical.. Encontro anedota em Galli. As jogatinas. Seta. Assim: em vez de melodia (frase gramatical) temos acorde arpejado.. à espera duma frase que lhe faça adquirir significado e QUE NÃO VEM. si em vez de usar só palavras soltas.. As outras vozes fazem o mesmo. Povoar!. nas mesmas condições. a pálida Phrynea comparece ante a austera e rígida assembleia do Areópago supremo.. Mas. Esta abandonou. Assim. A bruna neva. para a nossa sensação. si em vez de unicamente usar versos melódicos horizontais: “Mnezarete.. período elíptico.. 7 . gramaticalmente. Harmonias porém inconscientes. como na lição das sinfonias de Pitágoras encontramos germe da harmonia musical.... mas harmonias. muita vez harmônico. não só criando-o mais belo. Para ajuntar à teoria: Os gênios poéticos do passado conseguiram dar maior interesse ao verso melódico. Provo inconsciência: Victor Hugo. Lutas. Ora.. A Bolsa. Exemplo: "Arroubos.. a divina. não já de palavras (notas) mas de frases (melodias). o verso harmônico: "A cainçalha.” fizermos que se sigam palavras sem ligação imediata entre si: estas palavras. esporádicas.. em Pauliceia Desvairada usam-se o verso melódico: "São Paulo é um palco de bailados russos". Chamo de verso melódico o mesmo que melodia musical: arabesco horizontal de vozes (sons) consecutivas. Si pronuncio "Arroubos”. Cantigas.. Alguns mesmo conseguiram formar harmonias.. formando. uso frases soltas: mesma sensação de superposição. A poética. por vezes ricas. "Lutas" não dá conclusão alguma a "Arroubos". Há certas figuras de retórica em que podemos ver embrião da harmonia orai... Portanto: polifonia poética. E si tão apreciada é justo porque poetas como músicos. Cada uma é frase...” e a polifonia poética (um e às vezes dois e mesmo mais versos consecutivos): "A engrenagem trepida. mais comotivo. se sobrepõem umas às outras.. e.. o regime da melodia quando muito oitavada. talvez mesmo antes do século 8. Migot.Sei construir teorias engenhosas. com rara exceção até meados do século 19 francês. Antítese — genuína dissonância. como fazendo-o mais variado. Explico melhor: Harmonia: combinação de sons simultâneos.. não fazendo esquecer a primeira palavra..” Estas palavras não se ligam. exclamou depois de ouvir o quarteto do Rigoletto: “Façam que possa combinar simultaneamente várias frases e verão de que sou capaz". reduzido ao mínimo telegráfico. para enriquecer-se com os infinitos recursos da harmonia. Que tal? Não se esqueça porém que outro virá destruir tudo isto que construí. a palavra chama a atenção para seu insulamento e fica vibrando. mais imprevisto. — o verso harmônico. harmonia... Se non é vero. contendo pensamento inteligível. foi essencialmente melódica. Quer ver? A poética está muito mais atrasada que a música. de que fala G. sempre sentiram o grande encanto da dissonância. pelo fato mesmo de se não seguirem intelectual. não mais melodias. fica vibrando com ela. Não formam enumeração.

mas mediata. Não tenho tempo para explicar: estude si quiser. O apogeu já é a decadência. Bilac.. na cena de luta. nos sentidos. monótona série de quintas medievais. completa da música. porque toda perfeição em arte significa destruição. Este todo. não se continuavam. Os psicólogos não admitirão a teoria. reduzidas ao mínimo telegráfico da palavra. verdadeiras harmonias acompanhando a melodia enérgica e larga do acontecimento.Comentário à frase de Hugo. uma evolução ascensional. porque palavras não se fundem como sons. a harmonia poética. Y — Juca — Pirama). a água e o réptil. Ele fez como os criadores do Organum medieval: aceitou harmonias de quartas e de quintas desprezando terceiras. O número das suas harmonias é muito restrito.. porque sendo estagnação não pode conter em si um progresso. As decadências não vêm depois dos apogeus. O nosso primitivismo representa uma nova fase construtiva. para a língua brasileira. a flor e a fera" dá impressão duma longa. dentro de nós. Daí. a folha e o inseto. excessiva. Volto ao poeta. leitor. a fauna e a flora. Bilac representa uma fase destrutiva da poesia. E responder lhes com o “Só-quem-ama” de Bilac. Entretanto: si você já teve por acaso na vida um acontecimento forte. Assim. A nós compete esquematizar metodizar as lições do passado. genialmente. tirar dele todas as consequências. Descobriu. o estilo novo do livro. solução. resultante de estados de consciência sucessivos. 8 . verdadeiras simultaneidades. Victor Hugo errou querendo realizar objetivamente o que se realiza subjetivamente. a pedra e o tronco. ". em parte ao menos. lendo isto. o ar e o chão. todos os demais intervalos. inútil. ressoavam. O defeito de Bilac foi não metodizar o invento. Tarde. dá a compreensão final. que assimilamos num todo final. Vibravam. amontovam-se. os ninhos e a hera. dança terminada.. sextas. é muitas vezes tentativa de harmonia poética. Explica-se historicamente seu defeito: Tarde é um apogeu. Na arte do tempo coordenamos atos de memória consecutivos. Essas ideias. fastidiosa. Imagino o seu susto. antes baralham-se tornam-se incompreensíveis. pela sucessão rapidíssima. não tinham resposta. Harmonia oral não se realiza. A compreensão das artes do tempo nunca é imediata. antes dele empregada raramente (Gonçalves Dias. incapaz de sugestionar o ouvinte e dar-lhe a sensação do crepúsculo na mata. A realização da harmonia poética efetua-se na inteligência. como a musical. sem concordância aparente — embora nascidas do mesmo acontecimento — formavam. Sem ligação. poesia. naturalmente) recorde-se do tumulto desordenado das muitas ideias que nesse momento lhe tumultuaram no cérebro. imprevisto (já teve. porque não faziam parte de frase alguma. sobrepunham-se. Ou com os versos de Heine de que Bilac tirou o "Só-quem-ama”. continuidade. a erva e o pássaro.

e bondosamente concede ao leitor a glória de colaborar nos poemas. E como Dom Lirismo é contrabandista.. De Wagner. Você está reparando de que maneira costumo andar sozinho. Amadeu Amaral. a Inteligência.. Rostand por exemplo: e. Dom Lirismo sofre mais uma visita alfandegária. graves insultos não sofre neste prefácio interessantíssimo. e não me desagrada. o sr. Não é verdade... Essa atividade consciente pode ser repartida entre poeta e leitor. Por isso poetas sinceros confessam nunca ter escrito seus milhores versos. enquanto atinge as possibilidades do músico no fundo obscuro do inconsciente”. que o alimpa dos macaquinhos e de toda e qualquer doença que possa espalhar confusão. Renan. Você perceberá com facilidade que si na minha poesia a gramática às vezes é desprezada. ao desembarcar do Eldorado do Inconsciente no cais da terra do Consciente. "A linguagem admite a forma dubitativa que o mármore não admite". não alterando o resultado. Versos: paisagem do meu eu profundo. Há no meu livro.Lirismo: estado efetivo sublime — vizinho da sublime loucura.. Mas é psicologicamente impossível livrar-me das injeções e dos tônicos. 9 . Prefácio: rojão do meu eu superior. é inspecionado pela visita médica. que a denominou Censura. Dom Lirismo. Pronomes? Escrevo brasileiro. Que quer você? Consigo passar minhas sedas sem pagar direitos. entre nós. A gramática apareceu depois de organizadas as línguas. descoberta por Freud. Acontece que meu inconsciente não sabe da existência de gramáticas. Parece que sou todo instinto. dá-me uma ortografia. nem de línguas organizadas. Sou contrabandista! E contrário à lei da vacina obrigatória. Assim aquele que não escorcha e esmiuça friamente o momento lírico. tendência pronunciadamente intelectualista. Si uso ortografia portuguesa é porque. mais ou menos. "Entre o artista plástico e o músico está o poeta. Tenho a felicidade de escrever meus milhores versos. Milhor do que isso não posso fazer. obscuridade na terrinha progressista. Preocupação de métrica e de rima prejudica a naturalidade livre do lirismo objetivado. Ribot disse algures que inspiração é telegrama cifrado transmitido pela atividade inconsciente à atividade consciente que o traduz. que se avizinha do artista plástico com a sua produção consciente..

mas não entendiam. Escritor de nome disse dos meus amigos e de mim que ou éramos gênios ou bestas. sofrimentos. ideais. Como o homem primitivo cantarei a principio só. pátria. Sei mais que pode ser moderno artista que se inspire na Grécia de Orfeu ou na Lusitânia de Nun'Álvares. Sempre hei-de achar também algum. Sentimos. esta seria por certo o “Farolismo". Pessoas houve porém que confessaram: “Entendi. elas têm nele sua razão de ser. 10 . Não quis também tentar primitivismo vesgo e insincero. me parto por essa selva selvagem da cidade. Canto da minha maneira. o mesmo estado lírico provocado em nós por alegrias. A extrema-esquerda em que nos colocamos não permite meio-termo. Nosso desejo: alumiar. Por muitos anos procurei-me a mim mesmo. asfalto. cinema. porque já descobri onde ela estava. Si gênios: indicaremos o caminho a seguir. E dentro dessas muralhas esconderemos nossa tribo. tanto eu como meu amigos. passíveis de afeiçoar pela modernidade: universo. bestas: naufrágios por evitar. Mas canto é agente simpático: faz renascer na alma dum outro predisposto ou apenas sinceramente curioso e livre. farei que as próprias pedras se reúnam em muralhas à magia do meu cantar. mas porque sendo meu livro moderno. não para reproduzir. O passado é lição para se meditar. Somos na realidade os primitivos duma era nova. Acho que tem razão. é minha.Escrever arte moderna não significa jamais para mim representar a vida atual no que tem de exterior: automóveis. ex-gozo-amargo-de-infelizes. anima viva. Esteticamente: fui buscar entre as hipóteses feitas por psicólogos. naturalistas e críticos sobre os primitivos das eras passadas.. Reconheço mais a existência de temas eternos.. Evidentemente meu livro é bom. o anseio do farol. Quando uma das poesias deste livro foi publicada. pertenceme. Os meus amigos. Nesse momento: novo Anfião moreno e caixa-d'óculos. amor e a presençados-ausentes. Si fôssemos tão carneiros a ponto de termos escola coletiva. Si estas palavras frequentamme o livro não é porque pense com elas escrever moderno. percebi mais duma vez que sentiam. muita gente me disse: "Não entendi”. Com o vário alaúde que construí. Que me importa si me não entendem? Não tenho forças bastantes para me universalizar? Paciência. expressão mais humana e livre de arte. Achei. Agora não me digam que ando à procura de originalidade. "E tu che sé costí. alguma que se embalarão à cadência libertária dos meus versos. mas não senti”. Partiti da cotesti che son morti”.

Há umas palavras também em João Cocteau. Quando escrevi Pauliceia Desvairada não pensei em nada disto. não vale coisíssima nenhuma. não leia Religião. Mas todo este prefácio. “Toda canção de liberdade vem do cárcere”. Quem não souber urrar não leia Ode ao Burguês. urram-se. Rui Barbosa tem sobre ela página lindíssima. Desprezar: A Escalada. Quem não souber cantar não leia Paisagem n° 1. La Noce Massacrée. E não quero discípulos. Quem não souber rezar. Jornal do Comércio. Repugna-me dar a chave de meu livro. com todo o disparate das teorias que contém. 11 . que cantei. Sofrer: Colloque Sentimental. “Desvairismo”. Poderia ter citado Gorch Fock. E está acabada a escola poética. 6 de Junho. que ri. Versos cantam-se. Próximo livro fundarei outra. não me recordo onde. um dos solos de Minha Loucura.Minha mão escreveu a respeito deste livro que “não tinha e não tem nenhuma intenção de o publicar”. Em arte: escola = imbecilidade de muitos para vaidade dum só. Quem for como eu tem essa chave. Perdoar: a cantiga do berço. Evitava o Prefácio Interessantíssimo. Garanto porém que chorei. Leia frase de Gourmont sobre contradição: 1º volume das Promenades Littéraires. das Enfibraturas do Ipiranga. Não continuo. que berrei Eu vivo! Aliás versos não se escrevem para leitura de olhos mudos. choram-se.

sem ciúmes. Forno e inverno morno. Cantabona! Cantabona! Dlorom... Arys! Bofetadas líricas no Trianon... Trajes de losangos..... Sou um tupi tangendo um alaúde! OS CORTEJOS Monotonias das minhas retinas.. Elegâncias sutis sem escândalos.... Perfumes de Paris.. Outras vezes é um doente. Arlequinal!...... As primaveras de sarcasmo intermitentemente no meu coração arlequinal.... Os meus amores são flores feitas de original!. Luz e bruma. Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria! Oh! os tumultuários das ausências! 12 ... um frio na minha alma doente como um longo som redondo.. Cinza e ouro... O TROVADOR Sentimentos em mim do asperamente dos homens das primeiras eras..... LUIS DE SOUSA São Paulo! comoção de minha vida. Algodoal!..... Todos os sempres das minhas visões! "Bon giorno.. São Paulo! comoção de minha vida.. Intermitentemente.. Horríveis as cidades! Vaidades e mais vaidades. Serpentinas de entes frementes a se desenrolar... caro".INSPIRAÇÃO "Onde ate na força do verão havia tempestades de ventos e frios de crudelíssimos inverno” FR. Galicismo a berrar nos desertos da América..

Ladeiras sem conto!.) — Alcantilações!. ta.) — E as imensidões das escadarias!. és grandíssimo. A ESCALADA (Maçonariamente.. pa... Estes homens de São Paulo.. Serpentinas de entes frementes a se desenrolar.Pauliceia — a grande boca de mil dentes. És rico. tchim!) És rei! Olha o rei nu! Que é dos teus fardos. — Tripinga-te.. pa. ra. uns macacos.. Champanhações. — Estas cadeias da virtude!. Alcançarás o sólio e o sol sonante! Cospe os fardos! Cospe os fardos! Vê que facilidade as tais asas? (Toca a banda do Fieramosca: Pa.. parecem-me uns macacos... 13 . — Não há ponto final no morro das ambições. irás a Chico-Rei! (Há fita de série no Colombo...) — Adeus lírios de Cubatão para os que andam sozinhos! (Sono tré tustune per i ragazzini.. Giram homens fracos. Estas cruzes. e os jorros dentre a língua trissulca de pus e de mais pus de distinção. quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos.. — Sossega.) Principiarás escravo.. Hermes Pança?! — Deixei-os lá nas margens das escadarias.. estas crucificações da honra!.. magros..... O Empurrão na Escuridão. todos iguais e desiguais. — Queres te assentar no píncaro mais alto? Catedral?. As bebedeiras do vinho dos aplaudires.. és monarca! Alguém agora t'os virá trazer. baixos. pum! Toca a banda da polícia: ta. Film nacional. Cospe os fardos! (São Paulo é trono. — Tripinga-te! (Os empurrões dos braços em segredo. Onde nas violetas corria o rio dos olhos de minha mãe...) — Estes mil quilos da crença!..

vê. As jogatinas.. Não tenho navios de vela para mais naufrágios! Faltam-me as forças! Falta-me o ar! Mas qual! Não há sequer um porto morto! “Can you dance the tarantella” — “Ach! Ya”. lá nos muito-ao-longes do horizonte...) RUA DE SÃO BENTO Triângulo. as minhas delícias das asfixias da alma! Há leilão. Entre estas duas ondas plúmbeas de casas plúmbeas.... 100% nt!.. São as califómias duma vida milionária numa cidade arlequinal.. 3991.. Há feira de carnes brancas. A Bolsa. Há navios de vela para os meus naufrágios! E os cantares da uiara rua de São Bento. Pobres arrozais! Pobres brisas sem pelúcias lisas a alisar! A cainçalha. Minha Loucura. Mas a desilusão dos sombrais amorosos põe majoration temporaire. 14 ...... Entre estas duas ondas plúmbeas de casas plúmbeas. O Clube Comercial. A Padaria Espiritual... chapéus altos. a sua chaminé de céu azul! O REBANHO Oh! minhas alucinações! Vi os deputados. acalma-te! Veste o water-proof dos tambéns! Nem chegarás tão cedo à fábrica de tecidos dos teus êxtases: telefone: Além. Saírem de mãos dadas do Congresso.... feito de mangas-rosas.. Sob o pálio vesperal.(E ei-lo na curul do vesgo Olho-na-Treva.

Hat Stores. Cantigas. Nos verdes esperança. Com os triângulos de madeira no pescoço... Arroubos. E a santificação da morte! Foram-se os ouros. Mudavam-se pouco a pouco em cabras! Crescem-lhes os cornos. Quina Migone. (Mais dez braçadas. sob as franjas de ouro da tarde.. descem-lhes barbinhas...... de mãos dadas. Lutas.. inteligentes. Meia de seda. Emigram os futuros noturnos.. E as gigânteas vitórias! As embarcações singravam rumo do abismal Descaminho.. Se punham a pastar Rente do Palácio do senhor presidente.... Entre o trepidar dos táxis vascolejantes... Oh! minhas alucinações! Como um possesso num aceso em meus aplausos Aos heróis do meu estado amado!... A rua Marechal Deodoro. Desciam.. verde.. Povoar! Ritmos de Brecheret!.. verde!.) Vado a pranzare con la Ruth.. Setas. E o hoje das turmalinas!....... E verde. Porém os Borbas-Gatos dos uitra-nacionais esperiamente! Havia nas manhãs cheias de Sol do entusiasmo as monções da ambição.. E vi os chapéus altos do meu estado amado. Oh! minhas alucinações! Mas os deputados chapéus altos.... — Nadador! Vamos partir pela via dum Mato-Grosso? — Io! Mai!. três projetos. Oh! minhas alucinações! TIETÊ Era uma vez um rio..Como um possesso num acesso em meus aplausos Aos salvadores do meu estado amado!..... 15 .. E as esperanças de ver tudo salvo! Duas mil reformas.

. Faz frio.PAISAGEM N° 1 Minha Londres das neblinas finas. italiano.. ODE AO BURGUÊS Eu insulto o burguês! O burguês-níquel. Passa um São Bobo... Meu coração sente-se muito alegre! Este friozinho arrebitado Dá uma vontade de sorrir! E sigo. O burguês-burguês! A digestão bem feita de São Paulo! O homem-curva! o homem-nádegas! O homem que sendo francês. A guarda-cívica! Prisão! Necessidade a prisão Para que haja civilização? Meu coração sente-se muito triste. O vento é como uma navalha Nas mãos dum espanhol.. À inquieta alacridade da invernia.. Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas Dialoga um lamento com o vento.. sob os plátanos. E vou sentindo.. Pleno verão. Daqui a duas horas queima Sol..... É sempre um cauteloso pouco-a-pouco! Eu insulto as aristocracias cautelosas! Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros! Que vivem dentro de muros sem pulos.. E a ironia das pernas das costureirinhas Parecidas com bailarinas. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.. Como um gosto de lágrimas na boca. muito frio. Há neves de perfumes no ar.. Arlequinal.. Há duas horas queimou Sol. brasileiro. 16 . Um tralalá. cantando.

. Cheirando religião e que não crê em Deus! Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico! Ódio fundamento. Sempiternamente as mesmices convencionais! De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia! Dois a dois! Primeira posição! Marcha! Todos para a Central do meu rancor inebriante Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio! Morte ao burguês de giolhos.. sem perdão! Fora! Fu! Fora o bom burguês!. que te darei pelos teus anos? — Um colar. dono das tradições! Fora os que algarismam os amanhãs! Olha a vida dos nossos setembros! Fará Sol? Choverá? Arlequinal! Mas à chuva dos rosais O êxtase fará sempre Sol! Morte à gordura! Morte às adiposidades cerebrais! Morte ao burguês-mensal! Ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi! Padaria Suíça! Morte viva ao Adriano! "— Ai. — Conto e quinhentos!!! Mas nós morremos de fome!" Come! Come-te a ti mesmo. oh! gelatina pasma! Oh! purée de batatas morais! Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas! Ódio aos temperamentos regulares Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia! Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados! Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos.E gemem sangues de alguns milréis fracos Para dizerem que as filhas da senhora falam o francês E tocam o Printemps com as unhas! Eu insulto o burguês-funesto! O indigesto feijão com toucinho.. filha. TRISTURA 17 ..

. Tantos telégrafos sem fio!.... Mas Jesus Cristo nos desertos. Registei-a no cartório da Consolação. E dizem que os polichinelos são alegres! Eu nunca em guisos nos meus interiores arlequinais!. Pobres cabelos cortados da nossa monja! DOMINGO Missas de chegar tarde.... Batismos do sr. Mas há rendez-vous na meia-noite do Armenonville. Para o Jardim América das rosas e dos ponta-pés! Friedenreich fez goal! Corner! Que juiz! Gostar de Bianco? Adoro... Santa Cecília regorgita de corpos lavados e de sacrilégios picturais... Chamei-a Solitude das Plebes. mas o sacerdote no "Confiteor"...... Imundo meu coração. Hoje quem joga?... minha noiva... uma só........ civilização. Os vícios viciaram-me na bajulação sem sacrifícios. Ninguém os assistirá nos jamais! As permanências de ser um na febre! Nunca nos encontramos.. Há matrimônios assim.. O Paulistano.. 18 . Olha o edifício: Matadouros da Continental. Contrastar! — Futilidade."Une rose dans les ténèbres” MALLARMÉ Profundo.. e dos olhares acrobáticos.. Pauliceia. cura Bruma. E o meu xará maravilhoso!.. Minha alma corcunda como a avenida São João.. E tivemos uma filha. Qual Bartô... em rendas... água-benta das garoas monótonas.

... Mário. As romas de Petrônio.. Figuras imóveis. Vastos. Drama de adultério. Ir ao corso é lei. Mornamente em gasolinas. — Futilidade... Futilidade. Trinta e cinco contos! Tens dez milréis? Vamos ao corso..... Bonde 3.. Gritos de goticismo. Enterro. As meninas mordem os beiços pensando em fita alemã. civilização. Tiros. altos repuxos de poeira Sob o arlequinal do céu ouro-rosa-verde... Tom Mix! Amanhã fita alemã. civilização. Central. Calvícies de Pensilvânia. de beiços. O bocejo do luxo.. Os anjos. E o leito virginal... Lânguidos boticellis a ler Henry Bordeaux Nas clausuras sem dragões dos torreões... topázios e rubis. Fugas.— Futilidade. Na frente o tram da irrigação.... paga os duzentos réis...... São cinco no banco: um branco. Asfaltos. Tudo azul e branco! Descansar. Imaculado! As meninas sonham masculinidades..... A Bertini arranca os cabelos e morre.. entre os convenientes perenemente. E filar cigarros a quinzena inteira. E também as famílias dominicais por atacado.. Viste Marília? E Filis? Que vestido: pele só! Automóveis fechados.... civilização... Um cinzento de tísica e Mário... Um noite... Filets de manuelino. Onde um Sol bruxo se dispersa Num triunfo persa de esmeraldas.. um ouro. As sujidades implexas do urbanismo.. O DOMADOR Alturas da Avenida. 19 ..

contando histórias aos sacis?." Onde as tuas bananeiras? Onde o teu rio frio encanecido pelos nevoeiros. oh meus olhos saudosos dos ontens Esse espetáculo encantado da Avenida! Revivei.. cambucá e tangerina! Guardate! Aos aplausos do esfusiante clown. E o contraste boçal do lavrador que sem amor afia a foice. Estátuas de bronze nu correndo eternamente.. — Foi. olhai... A CAÇADA 20 . Prurido de estesias perfumando em rosais o esqueleto trêmulo do morcego.. Oh larguezas dos meus itinerários.. nada de alegrias!. — Não foi.. laranja da China! Abacate... Meu querido palimpsesto sem valor! Crônica em mau latim cobrindo uma écloga que não seja de Virgílio!...... oh gaúchos Paulistas ancestremente! E oh cavalos de cólera sanguínea! Laranja da China.. onde as mágoas dos teus sapos? “Meu pai foi rei! — Foi..Solicitudes! Solicitudes! Mas.. onde as tuas águas. Estes meus parques do Anhangabaú ou de Paris. num parado desdém pelas velocidades.. Nada de poesia. O carvalho votivo escondido nos orgulhos do bicho de mármore parido no Salon.. — Não foi. Passa galhardo um filho de imigrante. laranja da China.. Louramente domando um automóvel! ANHANGABAÚ Parques do Anhangabaú nos fogaréus da aurora. Heróico sucessor da raça heril dos bandeirantes.

a glória.. Malfadada! Em breve não será mais virgem nem desamparada! Terá o amparo de todos os desamparos! Tossem: O Diário! A Platea. Uma síncope: a sereia da polícia que vai prender um bêbedo no Piques. A engrenagem trepida.. A velhice e a riqueza têm as mesmas cãs... Clamor de vitórias e dolos.. Viva virgem vaga desamparada. O vento gela.. em lama.. Abandonos! Ideais pálidos! 21 ... Os cinismos plantando o estandarte. no crepúsculo. Viver os respeitosamente.. Mais um crime na Moóca! Os jornais estampam as aparências dos grandes que fazem anos.. Os Abéis quase todos muito ruins a escalar.. Vencer. Monte São Bernardo sem cães para os alvíssimos! Cataclismos de heroísmos..... Honra ao mérito! Os virtusosos hão-de sempre ser louvados e retratificados. Tripudiares gaios!.. Fermentação de ódios egoísmos para a caninha-do-Ó dos progredires.. Cospe os fardos! Mas sobre a turba adejam os cartazes de Papel e Tinta como grandes mariposas de sonho queimando-se na luz....A bruma neva. O vento gela.. Lívidos doze-anos por um tostão Também quero ler o aniversário dos reis.... dos criminosos que fazem danos... enviando para todo o universo novas cartas-de-Vaz-Caminha!.. Não há mais lugares no boa-vista triangular.. A bruma neva. Os quarenta-graus das riquezas! O vento gela.. Formigueiro onde todos se mordem e devoram.. Roubar. E o maxixe do crime puladinho na eternização dos três dias.................

.... Num perfume de heliotrópios e de poças Gira uma flor-do-mal..Perdidos os poetas... os moços.. Rumorejando na epiderme das árvores." Um cheiro pesado de baunilhas Oscila. Ondula no ar a nostalgia das Baías.. Veio do Turquestã.. Com cabeleira feita de alianças polidas.. 22 .. Calor.. Sapateando nos trilhos... E as nuvens baixas muito grossas... E traz olheiras que escurecem almas. os loucos! Nada de asas! nada de poesia! nada de alegria! A bruma neva. Feitas de corpos de mariposas... E os bondes passam como um fogo de artifício. Sapateando nos trilhos. Feitas de corpos de mariposas. na Cadillac mansa e glauca da ilusão... Gingam os bondes como um fogo de artifício. tomba e rola no chão. Violão.. "Quando eu morrer. Um mulato cor de ouro. Fundiu esterlinas entre as unhas roxas Nos oscilantes de Ribeirão Preto....... Calor!. E as nuvens baixas muito grossas.. Cuspindo um orifício na treva cor de cal.. Luzes do Cambuci pelas noites de crime!. Arlequinal! Mas viva o Ideal! God save the poetry! — Abade Liszt da minha filha monja.. NOTURNO Luzes do Cambuci pelas noites de crime... Rumorejando na epiderme das árvores. — Batat’ assat'ô furnn!. passa o Oswald de Andrade mariscando gênios entre a multidão!. Ferindo um orifício na treva cor de cal....

. Rumorejando na epiderme das árvores.. Os diabos andam no ar Corpos de nuas carregando......— Batat' assat’ô furnn!... Balcões na cautela latejante.. Jorrando um orifício na treva cor de cal.. O céu é toda uma batalha convencional de confetti brancos. Marasmos.. E os bondes riscam como um fogo de artifício. Estas minhas grades em girândolas de jasmins.. Enquanto as travessas do Cambuci nos livres Da liberdade dos lábios entreabertos!.... Brancos. Mas sobre estas minhas grades em girândolas de jasmins. ninguém se importa! Todos embarcam na Alameda dos Beijos da Aventura! Mas eu. E o ciúme universal às fanfarras gloriosas De saias cor-de-rosa e gravatas cor-de-rosa!... onde florem Iracemas Para os encontros dos guerreiros brancos. Sapateando nos trilhos. Oh! para além vivem as primaveras eternas! 23 . ninguém. Arlequinal! Arlequinal! As nuvens baixas muito grossas. Feitas de corpos de mariposas. O estelário delira em carnagens de luz.. PAISAGEM Nº 2 Escuridão dum meio-dia de invernia. e as onças pardas das montanhas no longe... Estremeções.. E meu céu é todo um rojão de lágrimas!... — Batat' assat’ô furnn!.... Calor!.... Brancos? E que os cães latam nos jardins! Ninguém.. As lassitudes dos sempres imprevistos! E as almas acordando às mãos dos enlaçados! Idílios sob os plátanos!....

As casas adormecidas parecem teatrais gestos dum explorador do polo que o gelo parou no frio. Os invernos de Pauliceia são como enterros de virgem.. toma al tuo paese! Lembras-te? As barcarolas dos céus azuis nas águas verdes.... as invejas. quá! Vamos dançar o fox-trot da desesperança... a rir dos nossos desiguais! TU Morrente chama esgalga.. Sarabandam a tísica.. Que vive dum bocejo entre dois galanteios E de longe em longe uma chávena da treva bem forte! 24 .. os crimes e também as apoteoses da ilusão. Italianinha.. a ambição. as doenças jocotoam em redor. E rodando num bando nefário. Todos os estiolados são muito brancos. Mais morta inda no espírito! Espírito de fidalga. vestidas de eletricidade e gasolina.... Oh! para além vivem as primaveras eternas!. minha Karsavina! Quá. Grande função ao ar livre! Bailado de Cocteau com os barulhadores de Russolo! Opus 1921 São Paulo é um palco de bailados russos.. Verde — cor dos olhos dos loucos! As cascatas das violetas para os lagos.. Mas o Nijinsky sou eu! E vem a Morte... Mas os homens passam sonambulando. a rir.. Lá para as bandas da Ipiranga as oficinas tossem. Primaveral — cor dos olhos dos loucos! Deus recortou a alma de Pauliceia num cor de cinza sem odor. quá.

Crepusculares e por isso mais ardentes.Mulher mais longa Que os pasmos alucinados Das torres de São Bento! Mulher feita de asfalto e de lamas de várzea. Materialização da Canaã do meu Poe. Meio fidalga. Ítalo-franco-luso-brasílico-saxônica. Toda convite nessa boca louca de rubores! Costureirinha de São Paulo.. Never more! Emílio de Menezes insultou a memória do meu Poe. meio barregã. Pura neblina da manhã! Mulher que és minha madrasta e minha mãe! Trituração ascencional dos meus sentidos! Risco de aeroplano entre Mogi e Paris! Pura neblina da manhã! Gosto dos teus desejos de crime turco E das tuas ambições retorcidas como roubos! Amo-te de pesadelos taciturnos. As alucinações crucificantes De todas as auroras do meu jardim! PAISAGEM Nº 3 Chove? Sorri uma garoa cor de cinza... Bandeirantemente! Lady Macbeth feita de névoa fina.. Oh! Incendiária dos meus aléns sonoros! Tu és o meu gato preto! Tu me esmagaste nas paredes do meu sonho! Este sonho medonho! E serás sempre. Gosto dos seus crepusculares. 25 . morrente chama esgalga. Toda insultos nos olhos.

. como um tristemente longo.. Exércitos de casacas eruditamente bem talhadas. tens razão. Sabe que existe um Brás.. O jazz-band da cor.. O arco-íris dos perfumes. Higienópolis!... A casa Kosmos não tem impermeáveis em liquidação. As rolas da Normal Esvoaçam entre os dedos da garoa. Sem crimes. — Sou conde! — Perdão. E o rouge — cogumelo das podridões. Si não fosse o talco adeus sacos de farinha! Impiedosamente... sem roubos o carnaval dos títulos.. Mas a noite é toda um véu-de-noiva ao luar! A preamar dos brilhos das mansões.... As Babilônias dos meus desejos baixos..) De repente Um raio de Sol arisco Risca o chuvisco ao meio. COLLOQUE SENTIMENTAL Tenho os pés chagados nos espinhos das calçadas. Ali em frente.. — Cavalheiro.. minha Loucura. — Mário. Os homens passam encharcados..... Pensei que era pedido. Casas nobres de estilo... Este lírico plátano de rendas mar...... ombros nus.. Enriqueceres em tragédias..... Ombros nus. Mas neste largo do Arouche Posso abrir meu guarda-chuva paradoxal. Só conheço Paris! 26 . Os reflexos dos vultos curtos Mancham o petit-pavé.Muito triste... põe a máscara! — Tens razão.. lábios pesados de adultério... O rei de Tule jogou a taça ao mar........ (E si pusesse um verso de Crisfal No De Profundis?.... um Bom Retiro? — Apre! respiro. O clamor dos cofres abarrotados de vidas.....

.. a escorrer.— Venha comigo então.... Mas eu sou conde! — Vê? Estas paragens trevas de silêncio.. — Deixe-me por o lenço no nariz.. Nada de asas.. hein! Dou-lhe gorgeta e cale-se.... O sultão tem dez mil... a escorrer... No poço das minhas erronias vi que reluzia a Lua dos teus perdoares!. em baixo das portas. — Para os esgotos! Para os esgotos! —.. — Percebeu.. A rua toda nua.. A Lua... Tenho todos os perfumes de Paris! — Mas olhe.. Esqueça um pouco os braços da vizinha.. As casas sem luzes. e os mações.. 27 . e que nem sabem ser Pecado! Ohl minhas culpas e meus tresvarios! E as nobilitações dos meus arrependimentos chovendo para a fecundação das Palestinas! Confessar!. Porque a recebi das mãos dos que viveram as iluminações! Catolicismo! sem pinturas de Calixto!.. que são pecados vivos. Um fio de lágrimas sem nome!. E a mirra dos martírios inconscientes.. nada de alegria... As humildades.. RELIGIÃO Deus! creio em Ti! Creio na tua Bíblia! Não que a explicasse eu mesmo. Rio-me dos Luteros parasitais e dos orgulhos soezes que não sabem ser orgulhosos da Verdade...

Rumor surdo e rouco. 28 .... estalidos. Muito ao longe o Brasil com seus braços cruzados.Noturno em sangue do Jardim das Oliveiras!. Oh! as indiferenças maternais!.. Mas as ventaneiras da desilusão! a baixa do café!.. venho depositar aos vossos pés verdes a coroa de luz da minha loucura! Alcançai para mim a Hospedaria dos Jamais Iluminados! PAISAGEM Nº 4 Os caminhões rodando... Cincinato Braga!.. os meus joelhos criaram escudos de defesa contra vós! Cantai como me arrastei por vós! Dizei como me debrucei sobre vós! Mas dos longínquos veio o Redentor! E no poço sem fundo das minhas erronias vi que reluzia a Lua dos seus perdoares!.. estalidos. estrépitos.... Rápidas as ruas se desenrolando... dar-lhe-ia os meus dinheiros e minhas mãos também! Santa Maria dos olhos verdes. “Santa Maria.. as carroças rodando. Naves de Santa Efigênia. Lutar! A vitória de todos os sozinhos!... Rumor surdo e rouco. mãe de Deus. E o largo coro de ouro das sacas de café!. as ameaças. verdes.. as carroças rodando.. Os caminhões rodando. estrépitos.. As quebras. Na confluência o grito inglês da São Paulo Railway.. Fogem os fazendeiros para o lar!. as audácias superfinas!.... E o largo coro de ouro das sacas de café!....” A minha mãe-da-terra é toda os meus entusiasmos. Rápidas as ruas se desenrolando....

É um tutti formidando. sempre tenores! Que o diga Walter von Stolzing! MINHA LOUCURA — Soprano ligeiro. Nos coros dos ORIENTALISMOS CONVENCIONAIS a banda juntase à orquestra. São perto de cinos mui instrumentistas dirigidos por maestros. see what I see!" SHAKESPEARE Distribuição das vozes: OS ORIENTALISMOS CONVENCIONAIS — (escritores e demais artífices elogiáveis) — Largo. 29 . imponente coro afinadíssimo de sopranos. Local de execução: A esplanada do Teatro Municipal. para trás! Ponhamos os (Vitória!) colares de presas inimigas! Enguirlandemo-nos de café-cereja! Taratá! e o pean de escárnio para o mundo! Oh! este orgulho máximo de ser paulistamente!!! AS ENFIBRATURAS DO IPIRANGA (ORATÓRIO PROFANO) “O. E.. Hostilizar!... vindos do estrangeiro...As bandeiras e os clarins nos armazéns abarrotados. AS SENECTUDES TREMULINAS — (milionários e burgueses) — Coro de sopranistas. barítonos. Banda e orquestra colocadas no terrapleno que tomba sobre os jardins. Acompanhamento de orquestra e banda. Quando a solista canta há silêncio orquestral — salvo nos casos propositadamente mencionados. OS SANDAPILÁRIOS INDIFERENTES — (operariado. woe is me To have seen what I have seen. baixos. os instrumentos que então ressoam. Mas as ventaneiras dos largos cruzados!. mesmo assim. contraltos... AS JUVENILIDADES AURIVERDES — (nós) — Tenores. E a coroação com os próprios dedos! Mutismos presidenciais. Solista.. gente pobre) — Barítonos e baixos. fazem-no a contragosto dos maestros.

nos parques do Anhangabaú. Alguns desafinam. clarins. da Prefeitura. enquanto os borés. Nós somos as Juvenilidades Auriverdes! As forças vivas do torrão natal. Todos para a fraterna música do Universal! 30 . MINHA LOUCURA no meio delas. com os pés enterrados no solo." E começa o oratório profano. os cajus Almejam localizar-se triunfantemente. ao longe. da Tipografia Weisflog. Na fremente celebração do Universal!. Outros partem as cordas. flautas. OS ORIENTALISMOS CONVENCIONAIS estão nas janelas e terraços do Teatro Municipal. o órgão. As SENECTUDES TREMULINAS disseminaram-se pelas sacadas do Automóvel Clube. do Hotel Carlton e mesmo da Livraria Alves. as trompas. cada timbre por sua vez.Quando cantam as JUVENILIDADES AURIVERDES (há naturalmente falta de ensaios) muitos instrumentos silenciam.000 cantores concertam apressadamente as gargantas e tomam fôlego com exagero. Os novos sóis luscofuscolares Entre os sublimes das dedicações!. Os SANDAPILÁRIOS INDIFERENTES berram do Viaduto do Chá. As esmeraldas das araras. Os lirismos dos sabiás e das jandaias. As ignorâncias iluminadas. que teve por nome AS ENFIBRATURAS DO IPIRANGA. da Rôtisserie. Todos os 550. a bateria e mais borés e maracás. entre largos silêncios reflexivos. Mas as JUVENILIDADES AURIVERDES estão em baixo. as mangas. Os rubis dos colibris. AS JUVENILIDADES AURIVERDES (PIANÍSSIMO) Nós somos as Juvenilidades Auriverdes! As franjadas flâmulas das bananeiras. Os abacaxis. Só aguentam o rubato lancinante violinos. nem harmonização o tema: "Utilius est saepe et securius quos non habeat multas consolationes in hac vita.. enunciam.... NA AURORA DO NOVO DIA PRELÚDIO As caixas anunciam a arraiada. sem desenvolvimento.

Nós somos as Juvenilidades Auriverdes! OS SANDAPILÁRIOS INDIFERENTES (NUM ESTAMPIDO PRETO) Vá de rumor! Vá de rumor! Esta gente não nos deixa mais dormir! Antes “E lucevan le stelle” de Puccini! Oh! pé de anjo. pé de anjo! Fora! Fora o que é de despertar! (A orquestra num crescendo cromático de contrabaixos anuncia. Per omnia saecula saeculorum moinhos terão mó! Anualmente de sobrecasaca. não de paletó. doutrina de cipó! Usamos capas de seda. é só escovar o pó! Diariamente à mesa temos mocotó!. Vamos visitar o esqueleto de nossa grande avó! Glória aos iguais! Um é todos! Todos são um só! Somos os Orientalismos Convencionais! 31 ...) OS ORIENTALISMOS CONVENCIONAIS Somos os Orientalismos Convencionais! Os alicerces não devem cair mais! Nada de subidas ou de verticais! Amamos as chatezas horizontais! Abatemos perobas de ramos desiguais! Odiamos as matinadas arlequinais! Viva a Limpeza Pública e os hábitos morais! Somos os Orientalismos Convencionais! Deve haver Von Iherings para todos os tatus! Deve haver Vitais Brasis para os urutus! Mesmo peso de feijão em todos os tutus! Só é nobre o passo dos jaburus! Há estilos consagrados para Pacaembus! Que os nossos antepassados foram homens de truz! Não lhe bastam velas? Para que mais luz! Temos nossos coros só no tom de dó! Para os desafinados.

aos raios do maior solar!.AS JUVENILIDADES AURIVERDES (PERTURBADAS COM O FABORDÃO. Apelos do estelário visível aos alguéns... INCERTAS) Magia das alvoradas entre magnólias e rosas.... Das nossas poltronas Maiores menores Olhamos as estátuas Maiores menores Do signor Ximenes — O grande escultor Só admiramos os célebres E os recomendados também! Quem tem galeria Terá um Bouguereau! Assinar o Lírico? Elegância de preceito! Mas que paulificância Maiores menores O Tristão e Isolda Maiores menores Preferimos os coros 32 .. RECOMEÇAM MAIS ALTO. Sobracemos as muralhas! Investe com os cardos! Rasga-te nos acúleos! Tomba sobre o chão! Hão-de vir valquírias para os olhos-fechados! Anda! Não pares nunca! Aliena o duvidar E as vacilações perpetuamente! AS SENECTUDES TREMULINAS (TEMPO DE MINUETE) Quem são estes homens? Maiores menores Como é bom ser rico! Maiores menores. — Pão de ícaros sobre a toalha extática do azul! Os tuins esperanças das nossas ilusões! Suaviloquências entre as deliquescências Dos sáfaros.

Estas marés da espuma branca E a onipotência intransponível dos rochedos! Intransponivelmente! Oh!. Os cérebros das cascatas marulhantes E o benefício das manhãs serenas do Brasil! (grandes glissandos de harpa) Estas nuvens da tempestade branca E os telhados que não deixam à chuva batizar! Propositadamente! Oh!..Dos Orientalis — mos Convencionais! Depois os sanchismos (Ai! gentes.... A minha voz tem dedos muito claros Que vão roçar nos lábios do Senhor. Os meus olhos têm beijos muito verdes 33 .. E as instituições? Não pode! Não pode! Maiores menores Mas não há quem diga Maiores menores Quem são esses homens Que cantam do chão? (a orquestra súbito emudece. que bom!) Da alta madrugada No largo do Paissandu! Alargar as ruas.... depois duma grande gargalhada de Timbales) MINHA LOUCURA (RECITATIVO E BALADA) Dramas da luz do luar no segredo das frestas Perquirindo as escuridões. A traição das mordaças! E a paixão oriental dissolvida no mel!... Mas as minhas tranças muito negras Emaranharam-se nas raízes do jacarandá...

Mas as minhas mãos muito frágeis Apoiaram-se nas faldas do Cubatão. órgão) AS SENECTUDES TREMULINAS (INICIANDO UMA GAVOTA) Quem é essa mulher! É louca.. E a pátria simples..Que vão cair às plantas do Senhor.. As lições dos maiores!. invejas. Os cérebros das cascatas marulhantes E o beneficio das manhãs solenes do Brasil (notas longas de trompas) Estas espigas da colheita branca E os escalrachos roubando a uberdade! Enredadamente! Oh!... Os meus joelhos têm quedas muito crentes Que vão bater no peito do Senhor.. intangivelmente Partindo para a celebração do Universal! 34 . mas louca Pois anda no chão! AS JUVENILIDADES AURIVERDES (NUM CRESCENDO FANTÁSTICO) Ódios. trompas. una.. infelicidades!.... Crenças sem Deus! Patriotismos diplomáticos! Cegar! Desvalorização das lágrimas lustrais! Nós não queremos mascaradas! E ainda menos Cordões “Flor-do-abacate” das superfluidades! Os tumultos da luz!.. E a integralização da vida no Universal! As estradas correndo todas para o mesmo final!. Os cérebros das cascatas marulhantes E o benefício das manhãs gloriosas do Brasil! (harpas. Mas os meus suspiros muito louros Entreteceram-se com a rama dos cafezais..

aos menores: o salto. refletidas... E os perenementes da ligação mensal.. E a glorificação das nossas ovações! AS JUVENILIDADES AURIVERDES (NUM CLAMOR) Somos as Juvenilidades Auriverdes! A passiflora! o espanto! a loucura! o desejo! Cravos! mais cravos para nossa cruz! OS ORIENTALISMOS CONVENCIONAIS (A TEMPO) Para que cravos? Para que cruzes? Submetei-vos à poda! Para que as artes vivam e revivam Use-se o regime do quartel! É a riqueza! O nosso anel de matrimônio! E as fecundidades regulares.. O CRESCENDO É RESOLVIDO NUMA SOLENE MARCHA FÚNEBRE) Para que escravos? Para que cruzes? Submetei-vos à metrificação! A verdadeira luz está nas corporações! Aos maiores: serrote..Ventem nossos desvarios fervorosos! Fulgurem nossos pensamentos dadivosos! Clangorem nossas palavras proféticas Na grande profecia virginal! Somos as Juvenilidades Auriverdes! A passiflora! o espanto! a loucura! o desejo! Cravos! mais cravos para nossa cruz! OS ORIENTALISMOS CONVENCIONAIS (TUTTI. AS SENECTUDES TREMULINAS (AOS MIADOS DE FLAUTIM IMPOTENTE) Bravíssimo! Bem dito! Sai azar! 35 ..

Na música Verdi. outono. E o banho semanal com sabão de cinza.. verão. Para que estações? AS JUVENILIDADES AURIVERDES (JÁ VOCIFERANTES) Cães! Piores que cães! Somos as Juvenilidades Auriverdes! Vós.. 36 . Vivam as maleitas! Intermitências de polegadas certas! Nas arquiteturas renascença gálica.. na escultura Fídias. burros! malditos! cães! piores que cães! OS ORIENTALISMOS CONVENCIONAIS (SEMPRE MARCHA FÚNEBRE. deitar às vinte e meia. inverno. calmando das erupções.. CADA VEZ MAIS FORTE PORÉM) Para que burros? Para que cães? Produtividades regulares. Primavera.. Limpando da terra.Os perenementes da ligação anual! AS JUVENILIDADES AURIVERDES (BERRANDO) Somos as Juvenilidades Auriverdes! A passiflora! o espanto! a loucura! o desejo! Cravos! mais cravos para nossa cruz! OS ORIENTALISMOS CONVENCIONAIS (DA CAPO) Para que cravos? Para que cruzes? Universalizai-vos no senso comum! Senti sentimentos de vossos pais e avós! Para as almas sempres torresmos cerebrais! E a sesta na rede pelos meios-dias! Acordar às seis.. E a dignificação bocejal do mundo sem estações!.

malditos! boçais! OS ORIENTALISMOS CONVENCIONAIS (FFF) ......... cidades..... eternamente eterna.. Vós...... e mil... OS ORIENTALISMOS CONVENCIONAIS (FFFFF) ..... as. SUBLIMES.. cidades..... Na prosa Macedo.. Ao fim das idades sem desigualdades Quem há-de. o noivo... o chá no Trianon. mulher. Das antiguidades às atualidades. as filhas.... AS JUVENILIDADES AURIVERDES (FFFF) Seus borras! Seus bêbedos! Infames! Malditos! A passiflora! o espanto! a loucura! o d. Valsas de Godard no piano alemão. E as..Corot na pintura. Concertos de meia à luz do lampeão... as... D’Annunzio e Bourget! E na vida enfim. nos versos Leconte.. AS JUVENILIDADES AURIVERDES (NUMA GRITA DESCOMPASSADA) Malditos! Boçais! Cães! Piores que cães! Somos as Juvenilidades Auriverdes! A passiflora!.. AS JUVENILIDADES AURIVERDES (LOUCOS...... Marido...... as... cidades.. O corso aos domingos.. TOMBANDO EXAUSTOS) 37 .. e as perpetuidades Das celebridades das nossas vaidades. cidades.. cidades.

... Os maestri sucumbiram.. Mas em vinte anos se abrirão as searas! Virão os setembros das floradas virginais! Virão os dezembros do Sol pojando os grânulos! Virão os fevereiros do café-cereja! Virão os marços das maturações! Virão os abris dos preparativos festivais! 38 .. Ondular do vai-vem! Embalar do vai-vem! Para a restauração o vinho dos noturnos!.. para. vossas lágrimas primeiras Para a branca fecundação! Espalhai vossas almas sobre o verde! Guardai nos mantos de sombra dos manacás Os vossos vaga-lumes interiores! Inda serão um Sol nos ouros do amanhã! Chorai! Depois dormi! A mansa noite com seus dedos estelares Fechará nossas pálpebras......... bem como as SENECTUDES TREMULINAS e os SANDAPILÁRIOS INDIFERENTES fugiram e se esconderam... MINHA LOUCURA (SUAVEMENTE ENTOA A CANTIGA DE ADORMENTAR) Chorai! Chorai! Depois dormi! Venham os descansos veludosos Vestir os vossos membros... Cravos!........ Mais cravos.. a nossa...... Silêncio.. a loucura! o desejo!....... e na solidão da noite das mil estrelas as JUVENILIDADES AURIVERDES.. Descansai! Ponde os lábios na terra! Ponde os olhos na terra! Vossos beijos finais.. chorando o arrependimento do tresvario final.. aliás.. tapando os ouvidos à grande. A orquestra evaporou-se.. tombadas no solo..... chorando.. As vésperas do azul.. à máxima Verdade.Seus. Os ORIENTALISMOS CONVENCIONAIS. espavorida. As milhores vozes para vosso adormentar! Mas o Cruzeiro do Sul e a saudade dos martírios.!!! (A maior palavra feia que o leitor conhecer) Nós somos as Juvenilidades Auriverdes! A passiflora! o espanto!... Caiu a noite.

(As JUVENILIDADES AURIVERDES e MINHA LOUCURA adormecem eternamente surdas. Digo-vos eu nos mansos Oh! Juvenilidades Auriverdes... hotéis — escancaradas.. (Chorai!) Das florestas sem traições de guaranis (Depois dormi!) Que vos sepulte a Paz Invulnerável! Venham os descansos veludosos Vestir os vossos membros. a maldição. Tereis a cultura da recordação! Que o Cruzeiro do Sul e a saudade dos martírios Plantem-se na tumba da noite em que sonhais....... Bimbalhadas.. As graças vertidas... O todo-dia dos imolados sem razão.. patadas... Os orvalhos.. Descansai! Diuturnamente cantareis e tombareis. enquanto das janelas de palácios.. (Chorai!) Das praias sem borrascas. Descansai! (quase a sorrir... mas cegas — cresce uma enorme vaia de assovios.. os desertos. Os votivos. tipografias.E nos vinte anos se abrirão as searas! E virão os maios! E virão os maios! Rezas de Maria..) LAUS DEO 39 ... Importa?!... zurros.... teatros. meus irmãos: Chorai! Chorai! Depois dormi! Venham os descansos veludosos Vestir os vossos membros!. dormindo) Eu.. As preces subidas. As rosas... os Caíns... As borboletas.. Fechai vossos peitos! Que a noite venha depor seus cabelos aléns Nas feridas de ardor dos cutilados! E enfim no luto em luz.

Mário de Andrade foi também o fundador da Sociedade de Etnografia e Folclore e um dos organizadores do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. a 25 de fevereiro de 1945. marco dos mais importantes na história da poesia brasileira. setor da vida intelectual brasileira que seu espírito ágil e original não tenha deixado a marca. --Fonte: "Panorama do Conto Brasileiro: O Conto Paulista". criador de escolas. poeta. musicógrafo. e dos volumes de contos “Primeiro Andar”. 1959. Em seguida Mário de Andrade enveredou pelo ensaio. sem dizer. destruidor de preconceitos e tabus. organizou a Discoteca Pública Municipal. Como ficcionista é autor de “Macunaíma”. criou o curso de Etnografia e Folclore. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal. adeus às musas. jornalista. de São Paulo. professor. do qual foi diretor. . além de inúmeras outras realizações de vital importância para o desenvolvimento da vida cultural brasileira. Ao lado dos volumes que deixou — e suas obras completas formam um sólido conjunto de 20 livros — é indispensável ressaltar a sua atuação como criador do primeiro Departamento de Cultura.” Mas cinco anos depois publica “Paulicdia Desvairada”. ele fez. romance. que entre tantas outras realizações culturais. depois. “Belazarte” e “Contos Novos”. muito mais do que algumas academias e conservatórios reunidos. em verdade. Não há. “Amar.NOTAS BIOGRÁFICAS Romancista. autêntico estopim deflagrador de novas correntes estéticas. no entanto. pesquisador. Cursou. pelo desenvolvimento cultural e artístico da nossa gente. cronista. crítico. a 9 de outubro de 1893. tendo ainda regido a cadeira de Filosofia de Arte. Verbo Intransitivo”. promoveu o primeiro congresso de Língua Nacional Cantada. e faleceu aqui mesmo. com um indeciso livrinho de poemas — “Há uma gota de sangue em cada poema. Estreou em 1917. conferencista. Mário Raul de Morais Andrade nasceu em São Paulo. conto. o “Conservatório Dramático e Musical”. que se enfileiram entre os que de melhor produziu o gênero entre nós. sozinho. e sabe-se lá que ângulos mais oferece a complexa e extraordinária personalidade artística de Mário de Andrade! Divulgador e agitador de idéias. ensaísta. contista. Seleção e notas de Edgard Cavalheiro. Fez os primeiros estudos no ginásio “Nossa Senhora do Carmo”.