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Subjetividade e seu plano de produção 

Silvia Tedesco
Texto publicado em: Queiroz, A., Velascoe Cruz, N., (2007) Foucault, hoje? Rio de Janeiro, 7
Letras.
Proponho trazer para discussão desta mesa algumas reflexões sobre clínica,
onde o pensamento de Foucault comparece. Advirto que não se trata de uma clínica
específicamente foucaultiana, mas de uma clínica transdisciplinar, construída a partir
de múltiplas alianças téorico-práticas, entre elas algumas teses extraídas da obra
foucaultiana.
Haveria a meu ver muitos pontos a serem abordados, mas seleciono um
deles para esta exposição. Minha escolha recai sobre um conjunto de idéias
essencial para pensarmos na atualidade o tema da subjetividade, objeto desta
clínica. A partir de Foucault, somos incitados a pensar a emergência política dos
objetos do saber e de nossas práticas. Cito-o em Arqueologia do saber:
“O objeto não espera nos limbos a ordem que vai liberá-lo e
permitir-lhe que se encarne em uma visível e loquaz objetividade; ele não
pré-existe a si mesmo, retido por algum obstáculo aos primeiros
contornos da luz, mas existe sob as condições positivas de um feixe
complexo de relações.” (Foucault,1987, p. 51)
Avançando nesta direção, também somos lembrados da perigosa armadilha
de orientarmos a investigação de nosso objeto na busca da Ursprung, no
estabelecimento de uma origem nobre, de relações de continuidade, de identidades.
No lugar, Foucault, inspirado em Nietzsche, propõe a pesquisa da Herkunft, da
proveniência que “agita o que se percebia imóvel, fragmenta o que se pensava
unido, mostra a heterogeneidade do que se imaginava em conformidade consigo
mesmo”.(Foucault, 1979,p.21)
São as relações de poder, ou seja, relações de produção política que passam
a nos interessar. Neste sentido evitamos pensar a subjetividade como substância,
entidade dada desde sempre, naturalizada por leis universais que a regraria e lhe
asseguraria contornos conceituais bem delimitados e imutáveis. Diferentemente ela

comparece na clínica como um processo ininterrupto de produção. Nosso olhar
Texto publicado em: Queiroz, A., Velasco e Cruz, N., (2007) Foucault, hoje? Rio de Janeiro, 7 Letras.

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No entanto.1994). ou mesmo a estruturas subjetivas universais. produzido. para um processo mais amplo o qual denominamos de subjetividade. produtoras da forma subjetiva. figura cujos limites são delineados por regularidades garantidas por princípios gerais de funcionamento. ocorre. Portanto. de um processo de produção dirigido a geração de modos de existências. de sentir. portanto. Para além do sujeito constituído. de dizer o mundo. processos de subjetivação. o sujeito. uma fase de uma atividade contínua de produção de si” (Schérer. É analisar um processo de produção que tem a si mesmo. Afirmamos ser o plano das forças. Este plano é o real objeto da clínica. que podemos denominar sujeito. Schérer no texto "Subjetivités hors sujet".desvia-se de uma forma acabada. um momento de um processo maior. processo de construção do si mesmo. falar de subjetividade é falar de uma maquínica. circunscrita a conflitos intimistas. A clínica. A este componente da subjetividade denominaremos forma-sujeito. Falar da subjetividade como processo de produção implica em falar do plano onde este processo de produção. Neste caso precisamos considerar o caráter político. concordamos que “seria um erro não reconhecer que esta forma regular corresponde apenas a um instante único da subjetividade. E. Os impasses exprimem certa modalidade de funcionamento do plano de produção. Na clínica lidamos com processos. A subjetividade é compreendida como um plano de produções histórico-políticas a partir do qual a forma sujeito emerge como efeito. existe a subjetividade. as relações de poder que compõem este plano. as relações de forças implicadas no processo de produção. uma dimensão própria à subjetividade. 2 . então. mais do que o efeito-sujeito ou produto-sujeito. modo como denominamos seu plano de produção. Como produto reencontramos a noção de sujeito. como produto. não remete os impasses do sujeito a uma realidade essencialmente psíquica. lembrados por R. a subjetividade inclui também uma dimensão de processo. Precisamos entender a subjetividade ao mesmo tempo como processo e produto. modos de agir. ou seja. objeto de estudo das ciências humanas. Ela traz a cena o plano de forças.

Não há dicotomia sujeito-objeto ou sujeito-mundo. Neste sentido. onde tanto o sujeito quanto o mundo são já efeitos. Dito isto. então. ao falarmos das forças de produção da subjetividade estaremos tratando essencialmente de relações de produzir e ser produzido. em qualquer lugar. somos acessados. é a relação de forças de produção que faz emergir os dois termos. pois não são os termos linguagem e subjetividade. que nos permite equivocar as direções mais tradicionais da análise do vínculo entre linguagem e subjetividade. um outro conjunto de vetores para sublinhar o caráter relacional da subjetividade. portanto. somos advertidos que estes espaços são ilusoriamente vazios. Escolha em nada casual na medida em que a sociedade contemporânea faz uso especial da linguagem. exercido no confinamento das instituições. que nos interessam. O poder disciplinar. à rede de conexões que a constituem. como 3 .Referir-se à subjetividade é. que as forças só podem ser apreendidas em seu exercício. de acordo com características próprias. de processos fixos. Toda força está numa relação essencial com outra força. a qualquer instante. seja na visão da psicologia. o dizer não resulta de um conjunto de faculdades. Conectados na rede. Não tomamos a enunciação como a manifestação de um sujeito dado. um segundo termo. Ao transportar nossa análise para o plano das forças lembramos com Foucault. mas o elo. vou acentuar este entre dois. Nesta relação de produção temos esclarecido o caráter pragmático/político do elo. Não fazemos referência a um sujeito destacado dos objetos do mundo. substituise pelo exercício do controle aberto. seja na da psicanálise. A linguagem tornou-se essencial à sociedade de controle (Deleuze. que circula pelas distâncias. Vale como esclarecimento que nesta rede. Escolha recai sobre o processo da linguagem. pelos espaços vazios. o sujeito não vigora como termo preexistente que. tomados cada um isoladamente. isto. ou seja. regulados por princípios gerais. porque recobertos pela ampla rede da comunicação. em sua aliança com Nietzsche. Ao tomar a subjetividade nas relações com a linguagem. nem a uma realidade psíquica que estabeleça relações de representação com uma pretensa realidade externa dada desde sempre e dela separada. No entanto. referir-se às relações. para melhor conduzir esta exposição escolho um outro termo. 1992). O que temos é a subjetividade como um plano de forças. estabelece vínculos com o meio circundante. A subjetividade não participa da rede. ela constitui a própria rede.

bem mais que isto. um sistema simbólico no qual o sujeito estaria imerso. No lugar da dicotomia entre determinante/determinado. devires. mundo da linguagem em sua organização imóvel e função organizadora das irregularidades factuais. E. estruturado como uma linguagem. A linguagem é uma prática. seja dos fatos ordinários do cotidiano dos sujeitos. Inspirados por Foucault a seguir direção diversa. propomos a transversalização destas coordenadas tradicionais de determinação. uma prática discursiva que interfere. Propomos. reciprocidade catalisadora de engendramentos mútuos. sujeito da enunciação e origem da linguagem. Em seguida. Pertencente ao plano das práticas. mas não menos real do que a realidade extradiscursiva. agente de produção e também produto. Não apostamos na simples inversão da direção imposta ao vetor de determinação. muito menos ainda falaremos da linguagem como fundamento do sujeito. O "eu falo". transforma a realidade. se não optamos por considerar o discursivo como expressão de uma consciência anterior à palavra. Cada um dos termos é. A velha dicotomia fundada na afirmação de um abismo intransponível que aparta linguagem e vida fica para traz. De um lado afirmava-se a vida. prevemos a reciprocidade entre os termos. para nós. O sujeito não é agente nem ponto de partida do dizer. seu lugar central. nos fala a psicologia. linguagem seria puro marcador de poder ordenador. elimina-se o isolamento pragmático entre linguagem e realidade. Sob este ponto de vista. a verdade ou a causa das enunciações não deve ser procurada na unidade de um sujeito. a linguagem é também exercício de 4 . de outro o universo dos representantes. do mesmo jeito rejeitamos a tese psicanalítica do sujeito constituído exclusivamente pela e na linguagem. De modo que a realidade produzida pelos discursos é de natureza lingüística. Se negamos à subjetividade a função de fonte ou origem da linguagem. isto é. nele comparecendo variações. de um sujeito do inconsciente. perde.por exemplo. como processo em perpétua transformação. marcada por relações de hierarquia ou predominância. Como diz Foucault (1987). a um só tempo. fazemos notar que orientar-se pela pragmática foucaultiana implica em não referir-se à linguagem como instrumento/processo de representação seja da verdade do mundo. emprestando continuidade homogênea à enlouquecida variação dos fatos.

ou um simples traçado de letras sobre uma folha de papel. o discursivo não se realiza. vale preservar os limites do universo discursivo. qualquer opinião. As práticas discursivas e as não discursivas recobrem a realidade e constituem-se em duas modalidades de produção. Qualquer conjunto de signos ou sinais é um dizer que. nos enunciados estabelecidos pelas convenções institucionalizadas ou informais. das visibilidades. na verdade. desde a formalização às puras positividades. O plano de produção a que fazemos referência é um plano heterogêneo. mantém-se distinta de outras práticas. ao pretender referir-se ao mundo. Constitui objetos. poderia implicar no risco de defini-lo numa relação de continuidade com toda ação ou gesto. O dizer torna-se prática. pelas hipóteses explicativas. Estas agem realizando as repartições. Algumas teses desenvolvidas principalmente na “Arqueologia do saber” (1987) e relidas por Deleuze (1988) nos autorizam a pensar o dizer a partir da noção de formação histórica e. num movimento de mútua produção. também. toda e qualquer atividade envolvida com a expressão. sua prevalência como força de determinação. Segundo Foucault. nos códigos. Foucault. Na primeira se localizam as práticas centradas no uso de signos. Porém tem eliminado seu poder hegemônico. mas não uma prática qualquer. de ordenação.realizações empíricas. a produção do mundo tem agora afinidade especial com a linguagem. Na segunda encontramos as práticas empíricas afetando diretamente corpos e coisas. presentes em qualquer esfera do cotidiano. É também o mundo posto pelas teorias. distribuições dos espaços que resultam em diferentes modalidades de confinamentos. Tal é a realidade constante nas leis. Isto porque a primeira vista. Sem o não discursivo. diluindo-o entre os fatos em geral. que percorrem todos os limiares de cientificidade de que fala M. É o plano das ações mudas. através das quais doam realidade a 5 . envolvem a linguagem no processo de produção de mundo. a empiricidade sofre a repartição em duas dimensões. cria situações novas. incluindo-se aí. deste modo. o está produzindo (Foucault. Enfim. Ao incluir a linguagem no plano das práticas é preciso estar atento para dois movimentos. 1987). a mais corriqueira. afirmar a incursão direta entre o dito e os fatos em geral. Vejamos. cada uma com a mesma força produtiva. onde práticas discursivas e não discursivas agem umas sobre as outras. Por um lado. guarda especificidade.

esclarecida também através de seus componentes não discursivos. Deleuze. o processo de produção tende a imprimir no produto sempre uma mesma natureza. na verdade. orienta-se pela qualidade da produção. Da gênese empírica das visibilidades criam-se modos de ver e fazer ver.distintas qualificações para os corpos. no lugar de reproduzir reiteradamente um mesmo efeito. São as produções serializantes. uma função e explica-se pela relação de pressuposição mútua. A realidade empírica definida como efeito de práticas é. seu modo próprio de organização. impõe direções inesperadas às suas 6 . qual seria a modalidade de elos produzidos por esta grande rede empírica produtora de realidade? Seguir a tradição pragmática nos conduz a conceber o duplo funcionamento do elo em questão. não mais isolados. cuidado com sua fidelidade ao modelo geral. 1986. Os dois planos existem como dois aspectos de um mesmo plano mais amplo. e possuem. De um lado. Não escapam a relações de reciprocidade. cada um. esta modalidade de produção prima pela realização de cópias bem feitas. No lugar do privilégio oferecido a um dos planos no poder de organização formal surgem duas formas autônomas. ou melhor. segue direções inusitadas. já da produção das dizibilidades surgem maneiras específicas de falar e fazer falar. os atos. homogeneizantes. estabelecida como resultante de dois funtivos: o discursivo e o não discursivo ou dizibilidade e visibilidade (Foucault. na qual o processo volta-se sobre si mesmo. Porém. É no conjunto de falas e olhares que o objeto se constitui. ou melhor. de outro as ações mudas. Porém. pela qualidade da reprodução. 1988). o efeito não diverge da direção imposta pela configuração geral do processo. Vigora aí o cuidado com produto. porém. fidelidade a uma matriz que deve ser reproduzida. como processos histórico-políticos. Entendida como pura repetição. Trata-se da grande rede discursiva de que falávamos no início do trabalho. A repartição realizada acima ganha maior clareza quando os dois funtivos. instala-se como uma estranha modalidade de produção. Ao falar de produção consideramos simultaneamente dois sentidos que o termo carrega. existem momentos em que o processo de produção. E com isso o sentido de produção abala-se. realizações vinculadas às enunciações. agora. e numa estratégia de diferenciação. revelam-se como formações. A autonomia dos dois planos os mantém-se distintos. ou seja. o das empiricidades. Tal como numa fábrica.

jogos de poder cuja resultante faz emergir o objeto produzido. A arquitetura específica destes espaços. produção de produtos nos conduz às teses foucaultianas sobre a gênese histórico-política da realidade. Criam condições de visibilidade. ela mesma. Longe de se organizarem numa categoria clara. 1 O conceito de representação a que fazemos referência foi tratada em trabalho anterior. 1987. determinando o que pode ser dito. a do objeto a ser produzido. Tedesco. A linguagem institui novas realidades a serem tratadas. o pedestal que sustenta e ao mesmo tempo ressalta. doam contornos às coisas e aos corpos. Não é exatamente o mesmo objeto descrito em cada um dos discursos. garantindo o surgimento de novas regras de funcionamento para a máquina de produção. Neste caso. diferentes maneiras de ver. a ressonância entre práticas. Certa convergência entre os discursos é observada mas nada que se aproxime da identidade. o encadeamento de discursos produz as condições discursivas. O processo ocupa o lugar de produto.o que fazer. ou seja. faz ver presos. Ou melhor processo e produto são. São estratégias que especificam. ora inventa os dois termos do par. dá a ver os objetos. Deleuze. Enfim. Deleuze & Guattari. 1980). agora. Não há homogeneidade na maneira de descrevê-lo. por exemplo. a da escola. em que a engrenagem. Também no plano das visibilidades. compõe também com suas divergências. alunos. O olhar e o dizer a realidade são práticas ao mesmo tempo produzidas e produtoras daquilo que tomamos como realidade. A compreensão do primeiro movimento de produção. Esta gênese. atravessa toda o plano das empiricidades: são as práticas de discursivas e não-discursivas. Trata-se de um produto-processo. de natureza não discursiva.1988. Ou seja. passa por transformações. num conceito com contornos precisos. (Foucault. os conjuntos de falas estabelecem entre si jogos. em seu duplo funcionamento. o elo entre linguagem e subjetividade ora reproduz. indiscerníveis. A realidade do objeto abriga a dispersão entre as falas. cf. é o próprio processo que é fabricado. No caso da linguagem. A forma de visibilidade prisão. como fazer.próprias linhas de produção. com os seus regimes de vida forjados pela função dos horários e das atividades . novos objetos empíricos. resultado de formações políticas. 1999) 7 . cria formas particularizadas de visibilidade. impõe o enquadre da conversação. é da potência dos ditos apontarem numa direção comum. tal como o pensamento da representação clássica1 almejava.

ela mesma. nesta abordagem. A linguagem. E é exatamente neste sentido que falávamos antes de sujeito ou forma sujeito. Há sempre algo visto compondo os pressupostos implícitos do dito. 1988. p. devemos entender forma a partir de seu processo de produção histórica. o próprio objeto descrito. não há como desfazê-lo. produzida e temporária. portanto. No conjunto de falas a forma-sujeito constitui-se como objeto discursivo. o selo indiscutível e irredimível de um comando. engendra. na sua atividade de descrição. 1987). assim como os ditos também incluem-se quase silenciosamente na produção do ver. Ela atua destacando. atravessam-se mutuamente. a subjetividade-produto. com um modo particular de produção de realidade. ou seja processo. uma vez pronunciada. Cada um ostenta sua forma própria. infiltram-se nas práticas lingüísticas.60). advindos dos diversos saberes e práticas. como construção empírica. tomados nas cadeias de discursos. Embora autônomos. Se os objetos visíveis e enunciáveis são gerados no entrecruzamento dos discursos e dos dispositivos de visibilidade. Ou seja. criava suas próprias formas e seu próprio movimento” (Deleuze.quando. De modo que o valor pragmático dos signos é decidido no jogo realizado entre os dois funtivos do empírico. A força de intervenção sobre o mundo adere-se à palavra e. entendida como uma formação. Sem preexistência. ao mesmo tempo. Entre as realidades produzidas no plano de produção registramos a forma subjetiva. Estas formações históricas são formas de luminosidade. Porém. nos interstícios do visível inserem-se palavras. ao mesmo tempo em que as condições do ver interferem na produção dos ditos. constantemente. disponíveis numa dada época -. ganham peso de realidade atemporal. tal como descritas pelos impressionistas. A produção de realidades processa-se na pluralidade de discursos. As divergências entre as produções dos dois planos não comprometem o entrecruzamento entre eles. ela é. A forma é. “para quem a luz era uma forma. 8 . onde – constroem os objetos do plano das visibilidades (Foucault. temas subjetivos que. Um fato subjetivo é um efeito do encadeamento de práticas diversas. Ela deixa sua marca. os dois planos apenas existem na reciprocidade de relações. ao contrário servem à montagem conjunta. um entrecruzamento de determinações enunciativas e não enunciativas.

decidida nos pressupostos implícitos do dito. p. responde pela variação do ser que o libera da identidade. O processo em seu todo tem seu início num conjunto de dizeres heterogêneos porém alinhados e redundando no isolamento do enunciado e na produção de um si mesmo como pretenso agente da enunciação. Os meios de comunicação. Por exemplo. Uma vez 9 . Esta dimensão. ao mesmo tempo distante da formalização da linguagem e do sujeito. aliados aos discursos da polícia. 1994. Este movimento alimenta-se da experiência que em 1966 Foucault escolheu nomear como experiência do fora. como exterior a nossa interioridade” (Foucault. A forma-sujeito surge então em sua homogeneidade forjada. mais afeitas à criminalidade precoce. liga-se à ruptura dos estados. da sociologia e da pedagogia. Mas. a psiquiatria e a psicanálise são autorizadas a discorrer sobre estruturas subjetivas.Um conjunto de discursos fazem os corpos comportarem-se como se eles se acreditassem. seus efeitos desviam-se da rota esperada e. São momentos em que a produção bifurca. produção do próprio processo.522). no encadeamento de discursos produziuse um novo tipo de criminalidade que provavelmente justificará mudanças no discurso da psicologia. num determinado momento passou-se a falar nos "meninos de rua". no entanto. dotado de uma natureza geral regida por princípios constantes. Por exemplo. participantes deste movimento. Ou seja. existe no elo com a linguagem uma segunda modalidade de produção. enquanto anteriormente dominava a denominação “menor abandonado”. poros. a psicologia. A produção de si mesmo. geram realidades ainda desconhecidas. mas não deixam dúvida. Para isto criam-se categorias conceituais novas que imperiosamente naturalizam as relações entre juventude e criminalidade. sobre o aparecimento de um novo modo de delinqüência não existente há algum tempo antes. dos centros de tratamento do menor e da população em geral. estão constantemente produzindo enunciados sobre o tema. estrangeira. sempre prestes a romper a ordenação dos sistemas sem. Pensemos no fora como poros da realidade pretensamente contínua e efeito do plano de produção. abandonar a superfície a que pertencem. na estranheza desta ruptura. com alto grau de indeterminação. do direito civil e penal. “experiência flutuante. como afirmamos antes. se vissem como sujeito. Os diferentes discursos nem sempre concordam sobre o modo como tratar essas crianças. o modo como resolver o problema e mesmo sobre algumas das características atribuídas a elas.

onde componentes lingüísticos se agridem. produtos existenciais até então. por sua operação. Nesta outra modalidade de realização do processo. esclarecendo o caráter autônomo do processo. construindo sentidos sempre divergentes. Isto nos permite dizer que o processo de subjetivação singularizante instaura na subjetividade modos de funcionamento 2 Sobre modalidades dispersanrtes da linguagem cf. carregados de variação irredutível à qualquer forma unificada. resistentes a unificação. Tedesco. Elas lidam com zonas de indiscernibilidade. serializantes. Tal composição doa ao processo características automodelizantes. nas quais o estabelecimento de limites precisos está excluído (Deleuze & Guattari.afetado pelo fora. O sentido bifurcante dos signos faz proliferar modos de subjetivação singularizantes ( Rolnik. com ele. No contato com a heterogeneidade da linguagem a unidade fictícia do eu fragmenta-se. 1980). No domínio da linguagem . 1996) É também na relação com a linguagem que a subjetividade ganha velocidade de variação. Ou seja. Revelam-se como fenômenos mistos de linguagem. fortemente articulados. mantêm-se solidários. 2003. como efeito do conjunto paradoxal de dizeres é dado à subjetividade viver variadas modalidades de pensar. engajada na criação de novos sentidos. a desestabilização da ordem da linguagem pode servir à dissolução das figuras subjetivas.vemos certas construções lingüísticas definirem-se por sua condição paradoxal 2. novas normas de funcionamento maquínico e. Desse modo. que os contornos da figura sujeito são desfeitos e geram-se focos mutantes de subjetivação. a relação entre os componentes não é da ordem da repetição. As relações não produzem unificação. de sentir. 10 . desconhecidos. suas próprias regras de funcionamento no lugar de serem controlados por regras extrínsecas. Um intervalo qualitativo (distância) separa esses componentes. significância e subjetivação. 1999. o processo de produção da subjetividade escapa à serialização para gerar. como vimos. São construções marcadas por diversidade interna. de viver no mundo. As propriedades automodelizantes podem ser aproximadas ao que Varela (1989). Um sistema é autônomo quando cria. na biologia. Os dois processos. para ativar seu caráter de deriva.na arte literária ou em modalidades linguajeiras do cotidiano que escapam a regularidade do idioma padrão . chama de autonomia de um sistema. abandona as modalidades subjetivas repetidoras. na construção de novos modos de dizer e também de experimentar a vida. existentes como disparidades.

Enfim. Trata-se da invenção de novas possibilidades de vida. O sujeito. o sujeito. é dita ocupar este lugar. 11 .próprios. no seu movimento convergente de produção de realidade. Quando determinada configuração da rede discursiva/não discursiva. p. regidos por princípios sempre inventados e transitórios. a clínica comparece na interrogação da paralisia do processo. fugidios. da produção do si autônomo. neste caso. individuação pessoal e regular. Surgidas dos limites da forma-sujeito. Se “a escolha ético-política que temos que fazer a cada dia é determinar qual é o perigo principal” (Foucault. figura definível por coordenadas pessoais. a subjetividade é pensada como maquínica de subjetivação híbrida. cuja resultante principal é a forma sujeito com seus contornos facultativos e temporários. plural e impessoal. é levado a abandonar os complexos intrapsíquicos. Vemos claramente que aqui a subjetivação tem pouco a ver com sujeito. a naturalização da realidade psíquica.44). o processo de subjetivação bifurcante distancia-se das determinações subjetivas estabilizadas para criar novas experiências de mundo. na descrença nos referenciais absolutos de julgamento da subjetividade para recolocá-la a caminho de outras formas ainda impensáveis. da sua sensibilidade ao diverso. atitudes não repertoriáveis e sempre desconcertantes para a figura subjetiva. obstaculiza o nomadismo da subjetividade. caberia a intervenção clínica reenviar o sujeito ao seu plano de produção e deste modo incitar a maquínica a retomar seu movimento. neste contexto. e se. cômodo referencial homogeneizante para as iniciativas de normalização. 1984. De um lado. dispositivos heterogêneos. pelo qual reconhecemos o caráter cambiante da subjetividade. produto dos jogos de poder emergentes na rede formada pelo discursivo e pelo não discursivo. A tarefa clínica. para fazê-la afirmar-se como real inventora de si. de outro o a-subjetivo. funcionando no entrelaçamento das duas faces distintas do movimento. as tentativas de unificação. se cumpriria no zelo pelo duplo movimento. No limite entre as duas tendências definimos a subjetividade como processo incansável de produção. em nome da invenção de outras normas de regulação do si.

G. (2003) Las políticas del decir en la production de la violencia.H. São Paulo. tese de doutorado. FOUCAULT. M.” IN: Conversações. Rio de Janeiro. 12 . (1980) Mille Plateaux. (1992) “Controle e devir. O Dossier – últimas entrevistas. (1999) Estilo-subjetividade: considerações a partir do estudo da linguagem. Minuit. M. DELEUZE. (1987) A arqueologia do saber. FOUCAULT.). Paris. H. IN: Dits et écrits. ROLNIK. PUC-SP. S. (1994) “La pensée du Dehors”. C. & GUATTARI.(1996) Esquizonálise e antropofagia. VARELA. Rio de janeiro.. M. São Paulo..(1989) Autonomie et connaissance. Rio de Janeiro. Paris. TEDESCO. Brasiliense. Santiago de Cuba (101) 101-106. F. (1984) Sobre a genealogia da Ética in: Escobar. DELEUZE. F. (org. Graal. (1979) Microfísica do poder. Gallimard. (2000) Subjetivités hors sujet. 1. S. SCHÉRER. S. (1988) Foucault.(4) 8394. TEDESCO. FOUCAULT. G. R. G. Seuil. V.Referências bibliográficas: DELEUZE. M. Rio de janeiro.. Paris. FOUCAULT. Forense.. Cadernos de subjetividade. Paris. Santiago. Graal. IN: Regards sur Deleuze. Kimé. Taurus. Ed.. 34.