O segredo que se esconde na matéria branca

Exames modernos de neuroimagem estão permitindo decifrar um dos mais antigos mistérios da humanidade: a gagueira
Por Kate Watkins *
Nos últimos anos, com o aperfeiçoamento dos métodos de neuroimageamento, cada vez mais estudos científicos começaram a descobrir diferenças físicas na organização do cérebro de pessoas que gaguejam. Até pouco tempo atrás, a grande dúvida era saber se essas diferenças eram resultado do convívio com a gagueira ou se elas já estavam presentes desde a infância. Dois estudos recentes ofereceram respostas a esta dúvida. A pesquisadora Kate Watkins, autora do texto abaixo, é a líder de um desses estudos. da gagueira, e apontaram diferenças em relação ao cérebro de adultos que gaguejam.

N

o começo de 2008, dois grupos de pesquisa sobre gagueira publicaram estudos de neuroimagem em jovens adultos, adolescentes e crianças que gaguejam. Esses estudos revelaram anormalidades funcionais e estruturais no cérebro dessas pessoas. O objetivo deles era fornecer um melhor entendimento das causas da gagueira e ajudar a explicar por que algumas crianças recuperam-se da gagueira, enquanto outras continuam a gaguejar. Considerando o resultado dos dois estudos em conjunto, estamos começando a responder estas perguntas. Em nosso artigo, publicado na revista Brain, descrevemos diferenças na organização física das conexões entre algumas áreas do cérebro em um grupo de adolescentes e pessoas jovens que gaguejam (com idade variando de 14 a 27 anos). Essas diferenças explicaram por que este grupo de pessoas exibia uma atividade reduzida em algumas regiões do córtex cerebral durante a produção de fala. Outro grupo de pesquisadores (Chang et al.) publicou descobertas muito similares na revista NeuroImage. Estudando crianças na faixa etária de 9 a 12 anos, eles descobriram que, no grupo com gagueira persistente, as conexões de matéria branca estavam rompidas na mesma região identificada em nosso estudo. Já no grupo constituído por crianças que tinham se recuperado da gagueira, a matéria branca estava íntegra. Eles também encontraram mudanças no volume da matéria cinzenta cortical, tanto em crianças com gagueira persistente quanto em crianças que tinham se recuperado

Conexões partidas querda mostra o padrão de atividade durante a produção de fa- zenta. Na superfície do Esses estudos usaram aparelhos la no grupo-controle fluente (laranja) e no grupo de pessoas jo- cérebro, a matéria cinmodernos de ressonância mag- vens que gaguejam (azul). A imagem à direita mostra as regiões zenta forma uma estreinética, que fornecem imagens subjacentes de matéria branca (em laranja) na qual pessoas que ta camada de cerca de gaguejam apresentam uma ruptura nos tratos de fibras nervomeio centímetro de esmais detalhadas da estrutura do sas logo abaixo das áreas corticais que não estão ativadas. pessura chamada córcérebro com base no movimento tex. Mais profundamente no cérebro, também endos átomos de hidrogênio das moléculas de água. contramos matéria cinzenta em regiões chamadas Tanto em nosso estudo quanto no de Chang, utili“núcleos”, como nos núcleos da base. Em nosso eszou-se um novo tipo de ressonância, conhecido tudo, além de um exame de ressonância para avacomo imageamento por tensor de difusão (DTI resliar a estrutura do cérebro (DTI ressonance), usasonance), para investigar a organização das conemos também outro tipo de ressonância, a fMRI xões de matéria branca no cérebro. A matéria (ressonância magnética funcional), para investigar branca é responsável pela conexão entre as divera atividade no cérebro enquanto as pessoas produsas áreas do sistema nervoso central. Ela é chamaziam fala. Este tipo de exame de imagem detecta da de branca porque é constituída principalmente mudanças na quantidade de oxigênio transportado por um tecido gorduroso conhecido como mielina. no sangue para o cérebro. Quando uma área do céEste revestimento gorduroso fornece isolamento rebro está ativa, ela precisa de mais oxigênio e para as fibras que conectam as diferentes regiões mais fluxo sanguíneo. A ressonância magnética do cérebro e também aumenta a velocidade de funcional mostra como esses padrões de atividade transmissão dos sinais elétricos entre essas regiões. cerebral mudam enquanto a pessoa está falando. Em razão de o tecido ser gorduroso, as moléculas Nosso estudo descobriu que, durante a produção de água não têm liberdade total de movimento na de fala, as pessoas que gaguejam mostraram ativimatéria branca. A restrição para a mobilidade das dade aumentada em áreas do cérebro que não são moléculas ocorre principalmente na direção pertipicamente usadas pelo grupo-controle formado pendicular ao feixe de fibras, e menos na direção por pessoas fluentes. Algumas dessas regiões estalongitudinal (ao longo do comprimento do feixe). vam no hemisfério direito, e outros estudos sugeAssim, ao medir os diminutos movimentos das morem que esta atividade reflete um processo de léculas de água, podemos obter imagens que moscompensação da gagueira. Também encontramos tram como as fibras estão orientadas. atividade aumentada em pessoas que gaguejam Ambos os estudos descobriram que os feixes de numa região do mesencéfalo, na altura da substânfibras normalmente bem alinhados que conectam cia negra. Os núcleos de massa cinzenta nesta reas áreas do cérebro envolvidas na produção de fala gião profunda são parte dos núcleos da base, um estavam rompidos em pessoas jovens que gagueconjunto de estruturas envolvidas no controle e na jam. Esta ruptura provavelmente reduz a eficiência iniciação do movimento. A atividade extra nesta da comunicação entre as áreas envolvidas no proregião em pessoas que gaguejam é consistente com cessamento da fala. as sugestões de estudos anteriores de que a gaMedindo a atividade gueira se deve a uma função anormal dos núcleos da base ou a quantidades anormais de dopamina. A atividade no cérebro ocorre junto aos corpos ceOutra descoberta interessante em nosso estudo lulares dos neurônios, localizados na matéria cin-

Imagens obtidas pelo estudo de Watkins. A imagem à es-

foi que pessoas que gaguejam apresentam uma atividade reduzida em uma parte importante do sistema normal de produção de fala. Esta região – o córtex pré-motor ventral – fica imediatamente acima da área em que fibras de matéria branca estão rompidas, conforme revelado pelo estudo de difusão. É provável que a atividade na região esteja reduzida devido a um rompimento da conectividade normal e da comunicação eficiente com outras regiões do cérebro que são importantes para a produção de fala fluente.

Matéria cinzenta
Chang e seus parceiros de pesquisa também encontraram diferenças no volume da matéria cinzenta em partes do córtex envolvidas na produção e percepção da fala em crianças que gaguejam. Eles encontraram menos matéria cinzenta perto do córtex pré-motor ventral, onde havíamos detectado uma atividade reduzida. Além disso, também encontraram menos matéria cinzenta em regiões que são normalmente ativadas quando se escuta a fala (os lobos temporais). Essas diferenças em volume de matéria cinzenta estavam presentes até mesmo em crianças que tinham se recuperado da gagueira. [N.T.: ou seja, ao contrário das diferenças na matéria branca, que são diacríticas para a gagueira persistente, as diferenças no volume de matéria cinzenta não são um bom prognosticador para a persistência ou remissão da gagueira em crianças]. Ao contrário dos estudos feitos em adultos que gaguejam, nenhum aumento na matéria cinzenta foi encontrado no hemisfério direito das crianças. Isso sugere que, em adultos que gaguejam, algumas das diferenças verificadas podem ser conseqüência do longo convívio com a gagueira. É importante entender mais sobre as causas das diferenças na estrutura e função cerebral associadas à gagueira. Algumas dessas diferenças podem refletir estratégias compensatórias que fazem uso

de uma outra função para controlar a fala, ou que usam regiões do cérebro fora do sistema desconectado pelos feixes rompidos de matéria branca, e que não são normalmente usadas no cérebro de pessoas fluentes. Esta idéia é apoiada pelas descobertas sobre o volume da matéria cinzenta, no estudo de Chang. Por outro lado, algumas diferenças poderiam ser de fato a causa fundamental da gagueira e podem estar relacionadas a variações genéticas ou incidentes ao longo do desenvolvimento. Pesquisas adicionais, particularmente estudos longitudinais, começando nos primeiros anos de vida, podem ajudar a lançar luz sobre essas questões.
* Kate Watkins é professora de psicologia experimental na Universidade de Oxford e pesquisadora do Centre for Functional Magnetic Imaging of the Brain (FMRIB).

Referências
Chang, SE et al (2008). Brain anatomy differences in childhood stuttering, NeuroImage 39(3):1333-44. [Link] Watkins, KE et al (2008). Structural and functional abnormalities of the motor system in developmental stuttering. Brain 131(Pt 1):50-9. [Link] Sobre núcleos da base e dopamina, veja p.ex. http://www.gagueira.org.br/nucleosdabase.pdf

Traduzido por Hugo Silva para o Instituto Brasileiro de Fluência (www.gagueira.org.br). O artigo original, em inglês, pode ser encontrado na edição de março de 2008 da revista Speaking Out, publicação da British Stammering Association (p. 14-15).

www.gagueira.org.br

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