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Proslógio

Santo Anselmo de Cantuária Proslógio Edição bilíngüe Tradução: Sérgio de Carvalho Pachá .

editoraconcreta. Filosofia medieval. RS: Concreta. Proibida toda e qualquer reprodução desta edição por qualquer meio ou forma. Teologia. 3 vol. Filosofia. – Porto Alegre. 1947. 6. 2016 Títulos originais: Proslogion Quid ad haec respondeat quidam pro insipiente Quid ad haec respondeat editor ipsius libelli O texto latino utilizado nesta obra é o da S. Catolicismo.B. Anselmi Cantuariensis Archiepiscopi Opera Omnia. Santo. Os direitos desta edição pertencem à Editora Concreta Rua Barão do Gravataí.. I.com. 124p. Santo Anselmo de Cantuária © Editora Concreta.2 Reservados todos os direitos desta obra. edição crítica de Franciscus Salesius Schmitt. O. portaria – Bairro Menino Deus – CEP: 90050-330 Porto Alegre – RS – Telefone: (51) 9916-1877 – e-mail: contato@editoraconcreta. seja ela eletrônica ou mecânica.com. 2016. Thomas Nelson & Sons. Metafisica. CDD-230.br . 2.br Editor: Renan Martins dos Santos Coordenador editorial: Sidney Silveira Tradução: Sérgio de Carvalho Pachá Revisão: Emílio Costaguá Capa & Diagramação: Hugo de Santa Cruz Ficha Catalográfica Anselmo de Cantuária. Edimburgo. Cristianismo. :p&b . 16 x 23cm ISBN 978-85-68962-13-8 1. 1033-1109 A618p Proslógio [livro eletrônico] / tradução de Sérgio de Carvalho Pachá. 342. fotocópia. 7..Proslógio. 3. edição de Renan Santos. 4. Espiritualidade. www. 5.S. Título. gravação ou qualquer meio.

Constatamos isto em Descartes. Ortega y Gasset. por fim. Nietzsche. na história da filosofia –. Heiddegger. Hegel. mesmo quando nelas havia insights brilhantes. voltaria no tempo para recomeçar o seu edifício fenomenológico serve como sombrio dístico do período moderno e pós-moderno: o apartamento entre filosofia e sabedoria – entendida como arquitetura em ordem ao conhecimento das coisas mais elevadas – acabou por gerar inúmeras obras malogradas. a existência duma abóboda teológica que demarcava a latitude e a longitude dos problemas esmiuçados pela razão humana. estranha ao deparar com obras de períodos posteriores. Kant. Husserl. verdadeiros becos sem saída. . como Santo Tomás de Aquino. o extremo rigor lógico nas demonstrações. Espinoza. Schopenhauer. nos melhores. o caráter sistêmico das obras. A confissão de Edmund Husserl ao discípulo Eugen Fink de que. o notável apuro na definição de termos e conceitos. Santo Alberto Magno e outros. Duns Scot. se pudesse. ou concatenadas a partir de princípios dúbios. a clareza expositiva na apresentação das teses.C OL EÇ ÃO ESC OL Á S T IC A F oram características marcantes do período escolástico a elevação da dialética a um cume jamais superado – antes ou depois. a classificação das ciências a partir de um viés metafísico e. os quais abarcavam todos os hemisférios da ordem do ser: da materia prima a Deus. nos piores casos. Malebranche. Xavier Zubiri e vários outros autores importantes cujos princípios filosóficos geraram aporias insanáveis. O leitor familiarizado com textos de grandes autores escolásticos. Sartre. Wittgenstein. pois identifica perdas de cunho metodológico que transformaram a filosofia num enorme mosaico de idéias esparzidas a esmo.

O propósito maior deste projeto é o de apresentar ao público brasileiro obras filosóficas e teológicas pouco difundidas entre nós. em tal mundo. Santo Anselmo de Cantuária. Neste ponto. o filosofar que se foi cristalizando a partir do humanismo renascentista está para a Escolástica assim como a música dodecafônica. dando lugar à assunção da desarmonia como algo inescapável. As conseqüências desta atitude intelectual fragmentária e subjetivista. Tal lacuna começa a ser preenchida por iniciativas como esta. Guilherme de Auvergne e outros da mesma altitude filosófica. aos poucos. Que os leitores brasileiros tirem o melhor proveito possível deste tesouro. a Escolástica é uma verdadeira coleção de gênios. cujo vetor pode ser traduzido pela máxima escolástica bonum est diffusivum sui (o bem difunde-se por si mesmo). No mundo ocidental contemporâneo. Roberto Grosseteste. seja para o direito. mas não é o caso de enumerá-las neste breve texto. não pretende exacerbar um anacrônico confronto entre o pensar medieval e tudo o que se lhe seguiu. Em suma. Sidney Silveira Coordenador da Coleção Escolástica . seja para a religião. assim como nos ceticismos de todos os tipos e matizes que se lhe seguiram. mundo que se despoja de suas raízes cristãs para dar um salto civilizacional no escuro. para ser difundida. não nos custa afirmar com ênfase entusiástica o quanto este projeto foi concebido sem nenhum sentimento ambivalente. Ocorre que esta espécie de bens. mundo. o nobre intuito de harmonizar diferentes tipos de conhecimento foi. moveu-nos a certeza absoluta de que apresentar o Absoluto é um bálsamo para a desventurada terra dos relativismos. está para as polifonias sacras. Em síntese. não obstante conheçam edições críticas na grande maioria das línguas vernáculas. plasmado de maneira decisiva na longínqua dúvida cartesiana. precisa ser plantada no solo fértil dos livros bem editados.Na prática. seja para a moral. Procuraremos demonstrar isto apresentando-os em edições cujo principal cuidado será o de não lhes desfigurar o pensamento. seja para as artes. Ao contrário. por fim. vale advertir que a Coleção Escolástica. mundo no qual as certezas são apresentadas como uma espécie de acinte ou ingenuidade epistemológica. São Boaventura. seja para a política. Santo Alberto Magno. trazida à luz pela editora Concreta em edições bilíngües acuradas. desfigurado pelas abissais angústias alimentadas por filosofias caducas de nascença. de caráter atonal. Vários autores do período serão agraciados na Coleção Escolástica com edições bilíngües: Santo Tomás de Aquino. foram historicamente funestas. Alexandre de Hales. Duns Scot.

Antonio Paulo de Moraes Leme Arthur Dutra Aruan Baccaro de Freitas Assunção Medeiros Augusto Alves de Carvalho Augusto Carlos Pola Jr. A seguir. listamos aquelas que colaboraram para ter seus nomes divulgados nesta seção: Adailso Janesko Adeilton Dutra Gomes Alan de Oliveira Alex Quintas de Souza Alexandre Leme Alexandre Mariano dos Santos Rocha Allan Victor de Almeida Marandola Aluísio Dantas Álvaro Pestana Alysson Souza Moura Amanda Jheniffi Cavalcante Soares Amantino de Moura Ana Nely Castello Branco Sanches Anderson Mello de Carvalho André Arthur Costa André Augusto Custódio André Bender Granemann André Caniné de Oliveira Machado André Quinto Andrea Rocha Antônio Araújo Antonio Carlos Correia de Araújo Jr. .Agradecimentos aos colaboradores Através de campanha no website da Concreta para financiar a tradução do Proslógio. 432 pessoas fizeram sua parte para que este livro se tornasse realidade. um gesto pelo qual lhes seremos eternamente gratos.

Aulenio Júnior Aureliano Caldeira Horta França Benedito Luiz Pinheiro Moretto Bernardo Jordão Nogueira de Sá Bruno José Queiroz Ceretta Bruno Vallini Carla de Carli Carlos A. da Silva Fabio Aguilheiro Fabio Dias Fábio Kurokawa Fábio Salgado de Carvalho Fabricio Freitas Alves Felipe Aguiar Felipe Corte Lima Felipe Koller Felipe Leandro Félix Ferrà Fernando Antonio Sabino Cordeiro Fernando Cenjor Rodrigues Fernando de Oliveira Fernando Henrique Pereira Menezes Fernando Longuini Alves Fernando Luiz Ferreira de Almeida Fernando Schuind da Costa Guedes Flavio Aprigliano Filho Fortunato Baia Francisco Heládio Cunha dos Santos Francisco Igor de Souza e Silva Gabriel Henrique Knüpfer Gabriel Melati . Crusius Carlos Alexander de Souza Castro Carlos Eduardo de Aquino de Pádua Carlos Eduardo de Aquino Silva Carlos Jesus de Abreu Pereira Filho Cláudia Makia Claudia Pompein Lizardo Gomes Cleber Eduardo da Paixão Cleto Marinho de Carvalho Filho Clovis Amaral Cristiano Eulino Cristiano Mora Cristiano Nunes Laureano Cristiano Roberto Azevedo Cristina Garabini Cristoph Klug Daniel Oliveira Davi Albuquerque David Damasceno David de Carvalho Nisner Delania Gomes Vieira Diego Gonçalves de Araújo Diego Jácome Diego Luvizon Dorival Vendramini Jr. Edgar de Almeida Cabral Edilson Lins Edinho Lima Edson Bezerra Eduardo Aguiar Eduardo César Silva Eduardo Furtado da Silva Eduardo Gomes Edvaldo Ramos Elaine Cristina Moreira Batista Elisabete Miranda Elizabeth Ferreira Dias Elpídio Fonseca Ely Pinto Ely Silveira Emanuel do Rosário Santos Nonato Eric Cari Primon Érico Raoni Santos da Silva Estêvão Lúcio Sobrinho Ettore Nicolau Jose da Rocha Evandro José Ferrez Vicente Evandro Maraschin Everton S.

Giuliano Araújo Lucas de Carvalho Giuseppe Mallmann Gleydson dos Santos Teixeira Avelino Guilherme Batista Afonso Ferreira Guilherme Bomm Guilherme Mezzaroba Guilherme Pinheiro Guedes Gustavo Bertoche Gustavo de Araújo Gustavo Mendonça Rezende Gustavo Saraiva Frio Gustavo Vulpi Haberlandt Pereira Duarte Heitor Dias Antunes Pereira Hélio Angotti-Neto Hellyandro de Sousa Ferraz Henrique Miotto Hermano Zanotta Hugo Kalil Humberto Campolina Igor Silveira Santos Ivanor Bochi Jackes Douglas Pessoa Lourenço Janaina Maria Fabricio Jean Carlos Diniz Lopes Jefferson Bombachim Ribeiro Jefferson dos Santos Alves Jefferson Nascimento Jessé de Almeida Primo Joacir Souza Viana João Marcelo Crubellate João Marques da Silva Jr.Gabriel Pereira Bueno Gabriel Zavitoski Gabriela Marotta Genésio Saraiva Gilberto Luna Gio Fabiano Voltolini Jr. Nascimento Jonathan Pinheiro José Alexandre José Armando Vinagre Delarovere Jose Barboza José Bernardino Figueredo José Mauricio de Oliveira Lima Neto José Ribeiro Jr. Juliana Oliveira Julius Lima Junior Torres Bertao Kilmer Damasceno Leandro Passos Leandro Viotto Casare Leonardo Choi Leonardo Ferreira Boaski Leonardo Henrique Silva Lucas Amaral M. João Romeiro João Valdoir da Silva Santos Jonathan de Alcântara F. Gambetti de Castro Lucas Bozzi Martins Lucas Mazzardo Veloso Lucas Monachesi Rodrigues Lucia Cagido Lucio Novais Luís Felipe Cruz Luis Morais Luiz Alcides Nascimento André Luiz André Barra Couri Luiz de Carvalho Luiz Matos Lutio Henrique Lysandro Sandoval Marcelo Assiz Ricci Marcelo da Costa Sperka Marcelo Lira dos Santos Marciano Tadeu Souza Marcio Lopes Marcius Vinicius Júlio Marcos Biancardi .

Ribeiro Maximiliano Losso Bunn Mylene Carolina Moraes Pessoa Nicolas Barbieri Beoni Nikollas Ramos Nilton José dos Santos Jr.Marcos Precioso Marcos Rangel Maria Aparecida dos Anjos Carvalho Maria Auxiliadora da Cunha Meireles Maria Beatrix Azevedo Maria Rita de Aguiar Marinaldo Cavalari Mário Lucas Carbonera Marlon Rodrigo Oliveira Mateus Colombo Mateus Cruz Mateus Rauber Du Bois Matheus Ramos de Avila Mauricio Cardoso Mauro S. Oacy Junior Odilon Silveira Santos Rocha Odinei Draeger Orlando Tosetto Paulo de Tarso Gonçalves Leopoldo Paulo de Tarso Irizaga Paulo Henrique Brasil Ribeiro Paulo Lasaro de Carvalho Filho Pedro Benedetti Rafael Bassoli Rafael de Abreu Ferreira Rafael Manieri Rafael Plácido Raoni de Andrade Miaja Gomes Renan Coutinho Renato de Carvalho Munhoz Renato Elesbão Renato Lembe Ricardo Antônio Mohallem Ricardo da Costa Ricardo Luis Kummer Ricardo Rangel Rinaldo Oliveira Araújo de Faria Rodolfo Bertoli Rodrigo de Abreu Rodrigo de Menezes Rodrigo Franca Rogerio Penha Romildo Mousinho Ferreira Ronaldo Fernandes da Silva Ronaldo Teixeira Rosemberg Estevam Samuel da Silva Marcondes Sérgio Eduardo Sérgio Fernando Hennies Leite Sérgio Meneghelli Silvia Emilia de Jesus B. da Cunha Silvio Camargo Silvio José de Oliveira Tarcisio Moura Thiago Amorim Carvalho Thiago Aurélio de Freitas Brandão Thiago Batista Thiago Blaka Tiago Aurich Tiago Borem Sfredo Tiago Campos Rizzotto Tiago Toledo Tomoyuki Honda Vicente Tolezano Victor Hugo Barboza Vinicius Betini Vinícius Leonardi Vinicius P. Botelho Vitor Fonseca de Melo Vitor Hugo Pontes Butrago Wellington Lima Wellington Vieira Rios .

Wendel Cesar Giglio Ordine William Saraiva Borges Willians Alves Freitas Wilson Junior Wlamir Amós Saint Martin .

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Proslógio Prólogo  39 Capítulo 1 .Que Deus existe verdadeiramente  45 Capítulo 3 .Sumário Apresentação   I.Como o insensato disse em seu coração 49 o que não se pode pensar   Capítulo 5 .Que Deus é tudo aquilo que é melhor que exista 49 do que não exista.Preâmbulos históricos: o Século de Ferro III.Exortação à contemplação de Deus  41 Capítulo 2 . sendo o único que existe por si mesmo. e que. Uma edição para os dias de hoje 17 22 24 26 30 35 PROSLÓGIO Parte I .Que não se pode pensar que Deus não existe  47 Capítulo 4 . Esforço para harmonizar razão e fé II. O ser acima do qual nada pode pensar-se V. Adversários e seguidores VI. fez tudo do nada   . Feição teológica: um esboço da Escolástica posterior IV.

a beleza.Quais e quão grandes são os bens reservados 75 aos que gozam a visão de Deus Capítulo 26 .Como sem ferir a justiça castiga e perdoa os maus  57 Capítulo 11 . o odor.Como somente Ele é sem limites e eterno.Capítulo 6 .Como.Como é misericordioso e impassível  53 Capítulo 9 . de uma maneira inefável que lhe é própria Capítulo 18 . que é ele próprio Capítulo 19 . sendo total e soberanamente justo. o Filho 73 e o Espírito Santo. o Pai.Que não há partes em Deus nem em 67 sua eternidade. “justo é o Senhor em todos os seus caminhos” Capítulo 12 .Que este bem é. contudo.Conjectura sobre a natureza e a grandeza deste bem  75 Capítulo 25 .Como Deus é sensível.Como “todos os caminhos do Senhor são 59 misericórdia e verdade” e. perdoa 53 os maus e com justiça deles se comisera Capítulo 10 .Que Deus é a própria vida pela qual vive e que outro 59 tanto se pode dizer de seus demais atributos Capítulo 13 . e é o único necessário. embora muitas 51 coisas lhe sejam impossíveis Capítulo 8 .Que esta é “a luz inacessível que habita”  65 Capítulo 17 .Se isto é “o século do século” ou “os séculos dos séculos”  71 Capítulo 22 .Que é maior do que quanto possa ser pensado  63 Capítulo 16 .Como Deus é onipotente.Será esta alegria a “alegria plena” que promete o Senhor? 79 . 65 o sabor.Que Deus existe antes e depois de tudo 69 e até mesmo do que é eterno Capítulo 21 .Que somente Deus é o que é e Aquele que é  71 Capítulo 23 .Que em Deus se encontra a harmonia. ao mesmo tempo.Como e por que Deus é e não é visto 61 por aqueles que o buscam Capítulo 15 . a brandura.Que Deus não está num lugar nem 69 no tempo. por ser todo e exclusivamente bem Capítulo 24 . ainda que os 61 outros espíritos também sejam sem limites e eternos Capítulo 14 . mas tudo está nele Capítulo 20 . embora não seja corpo  51 Capítulo 7 .

Anselmi cantuariensis archiepiscopi Opera Omnia  121 .Parte II .Livro escrito a favor de um insensato 83 Parte III .Apologia de Santo Anselmo contra Gaunilo 95 Bibliografia citada  119 S.

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Biblioteca de Autores Cristianos (B.Apresentação Santo Anselmo: o inteligível como busca incessante SIDNEY SILVEIRA I. Mauro foi eminente classificador do pensamento de admiráveis predecessores seus. autor este considerado por notáveis historiadores como a alma do movimento cultural carolíngio. No gênero a que deu nome de Actualis estavam a física. do procedimento dialético tão caro à Escolástica. como o próprio Alcuíno.i Não muito original como filósofo. cuja noção de filosofia muito deve a Rábano Mauro (784-856). Na filosofia. mais especificamente.A.C. 1960. sem dúvida. p. 291. Cf. o da pregação missionária. Madrid.). sobretudo. Cassiodoro (490-581) e Santo Agostinho (354-430). Tomo II. a ética e a lógica. formado nas Artes Liberais por Alcuíno (730-804). ele propõe – com o rigor que será tão apreciado pelos medievais – uma divisão para a filosofia e para as ciências com o manifesto propósito de formar monges e sacerdotes cujo ofício será. uma das matrizes do que viria a ser o pensamento escolástico. No livro De universo. Esforço para harmonizar razão e fé O Renascimento Carolíngio foi. o esquema desenhado por Rábano Mauro continha dois gêneros e quatro espécies. Guillermo Fraile. i . Historia de la Filosofía.

18 Santo Anselmo de Cantuária A física (causa quaerendi) subdividia-se em: • Aritmética (numerorum scientia). e • Temperança. bem ao modo aristotélico. fruto seco duma visão de mundo que se deturpara e fora aos poucos sendo substituída. mais propriamente antropocêntrica. • Fortaleza. na Escola de Alexandria do tempo de São Panteno (?-200). Não nos custa salientar que esta divisão é caudatária do que. na mente e no coração dos homens. • Geometria (mensura locorum et magnitudinis corporum). Se tomarmos como critério de definição certo modo harmônico. era ensinado com o nome de Disciplinas Encíclicas. reinava a teologia. não será arbitrário situar a Escolástica entre os séculos IX e albores do XIV. iv Há divergências entre os historiadores quanto à duração do período escolástico. • Justiça. A partir de então. no estudo das virtudes cardeais: • Prudência. 1 (PL 111. adentramos o terreno que serve de molde à modernidade. a lógica (ratio inteligendi) era composta de duas disciplinas: • Dialética (disputatio acuta. • Astronomia (lex astrorum). pela cosmovisão humanista. historicamente. • Astrologia (astrorum ratio et natura et potestas. a ética (ordo vivendi) dividia-se. De Universo. se insere Santo Anselmo (1033-1109)iv –. Por sua vez. cujo amplíssimo escopo de ii Rábano Mauro. et modulatio canendi). • Medicina (scientia curationum). e complementar. • Mecânica (peritia fabricae artis in metallis. Entre o século XV e começos do XVI. verum distinguens a falso). o que sobrevive da Escolástica é um formalismo engessado. época em que o esforço classificatório dava por pressuposta uma hierarquizada ordenação dos saberes. caelique conversatio).iii Esta alusão a Rábano Mauro é a propósito do método de filosofar imperante no decurso de todo o período escolástico – no qual. XV. a qual deu lugar a uma atitude contemplativa fragmentária no que tange às ciências. e • Retórica (disciplina ad persuadendum quaeque idonea). e • Música (divisio sonorum et vocum varietas. iii . lignis et lapidus). com a paulatina separação entre metafísica e teologia nas principais universidades européias. de compreender a filosofia e as ciências – entre as quais se incluía a teologia –. Por fim. 414B).ii No gênero ao qual chamou de Inspectiva: contemplativa. aeterna.

Tertuliano. ainda havia quem se sentisse incomodado com a filosofia grega. então bispo de Paris. vii No dia 7 de março de 1277. II. II. sobretudo quando este se apresentava como saber autônomo com relação aos textos da Escritura. são comparados por Tertuliano a navegantes que. 10. Collationes de Decem Praeceptis. Por sua vez. ao conjunto de entes do universo.Proslógio · Apresentação investigações ia da matéria primeira a Deus. advinham diversos erros. Os filósofos. sempre havia espaço para o mistério. Stromata. embora reconhecesse que a filosofia era capaz de alcançar algumas verdades. ou seja. ser infinito inabarcável por qualquer inteligência finita. por ser superior à filosofia. I (PL 2. Étienne Tempier. além de se pautarem em referências à retórica sofística tomada como conceito unívoco com o de filosofia. De Anima. Na maior parte dos casos. subministra a plenitude da verdade. certo agostinismo deturpado criara um hiato entre as verdades da fé e as descobertas da razão. motor do múnus teológico de Anselmo. tanto no tocante à ordem criada. Neste contexto. vislumbrada como maligno nascedouro do pecado original que instaurara uma desordem entre os afetos e a inteligência. Em tal horizonte. Tertuliano. a qual não era outra coisa senão um espelho epistemológico da estrutura ontológica da realidade. do tempo de Clemente de Alexandria (150-215) e de Tertuliano (160-220). como no tocante ao Criador. tem como pano de fundo uma divisão das ciências e da filosofia de estrutura similar à descrita por Rábano Mauro. Vinha de longe. O famoso princípio fides quaerens intellectum. que mantinha uma postura de suspeita com relação a Aristóteles e a outros filósofos de cuja “audácia ímproba”. dizia que isto se devia menos ao labor dos filósofos que à natureza mesma da verdade. VII. quando acertam. muito depois do tempo em que viveu Anselmo. nn. Cf. acabando por chegar à terra por uma espécie de sorte cega (caeca felicitate). depois duma tempestade. a desconfiança dos cristãos para com o labor filosófico. segundo o seu parecer.vii v Clemente de Alexandria defendia que a fé. Em síntese. vale advertir que. visto que procede da Revelação – do Logos divino espraiado à inteligência dos homens. promulga a condenação de 219 teses filosóficas tidas por heréticas. também. 478-484). razão pela qual o mérito deles era bastante modesto. o que só viria a ser superado de maneira cabal por Santo Tomás de Aquino (1225-1274). vi São Boaventura. convém sublinhar: ainda na época de Santo Anselmo. Cf. 24-25.vi Reflexos desta aversão de importantes teólogos ao Estagirita se fariam sentir na condenação de 1277 a várias teses averroístas e tomistas. e o seu sentido difícil de penetrar era o dístico da insuficiência da razão humana e. Um bom exemplo disto é São Boaventura (1221-1274). 648C). tratava-se de teorias aristotélicas 19 . As famosas invectivas clementinas contra os filósofos partiam de certa confusão entre os âmbitos da fé e da razão. se perdem no mar e ficam à deriva. Clemente de Alexandria. Neste ponto. no século XIII. considerava-se grande atrevimento indagar acerca das verdades da fé a partir de critérios subministrados pela razão natural.v A Sacra Pagina tornou-se a fons sapientiae quase à parte de todos os outros conhecimentos. 480 (PG 9. do caráter inane da soberba.

. quem enxergasse uma conexão entre o Pseudo-Dionísio e o Arcebispo de Cantuária. cujo estudo estava eivado de desvios teoréticos perpetrados por seus seguidores – neoplatônicos ou não –. Aos interessados. a maior parte dos escritos filosóficos clássicos à mão dos intelectuais latinos se resumia à velha lógica aristotélica salpicada por atilados comentários de Porfírio (234-305) e de Boécio (480-525). Institut Supérieur de Philosophie. foi defendida por teóricos que não foram de todo fiéis ao princípio de subsidiariedade já presente em Agostinho. 998A-B). e sim de usar este último como ponto de apoio para crescer numa compreensão do cosmos a um só tempo racional e mística. Pierre Mandonnet.) os mistérios do Verbo de Deus são simples. Teologia Mística. absolutos. como. dezesseis teses tomistas entraram no bojo da famosa condenação. viii “(. Anselmo de Cantuária rompe com este preconceito mais ou menos implícito na obra de diferentes autores cristãos dos séculos XII e XIII: Monologium. Não erraria. por exemplo. L’augustinisme politique – Essai sur la formation des théories politiques du Moyen Age. 1908. expressão com que o Pseudo-Dionísio Areopagita. I. como em <https://archive. sed credo ut intelligam”. diga-se. p. indicamos o clássico livro de H. no contexto anselmiano. Proslogion e Cur Deus homo. pois. Além destas. imutáveis. pp. Neles. 44 desta edição. no atribulado século de Anselmo. fulgurantes de luz os mistérios desbordam”. séculos antes. 1955. ao passo que a autoridade teológica inquestionável era a de Santo Agostinho. influenciadas pelo averroísmo de professores da Faculdade de Artes da Universidade de Paris. 175-191. Cumpre dizer que. entre o místico que silencia perante o mistério e o teólogo que parte do mistério para melhor compreender a realidade.-X.. diante dele. o Santo de Aosta. Em meio às mais negras trevas.20 Santo Anselmo de Cantuária Em três escritos. Pseudo-Dionísio Areopagita.org/details/sigerdebrabantet01mand>. harmonizar razão e fé parecia um desafio quase insuperável.ix Este princípio – credo ut intelligam – pode ser considerado como o primeiro grande tópico representativo da harmonização teológica entre fé e razão.viii Ocorre que. depois de muitos séculos. definira a Deus. Cf. Mas não se tratava. nas trevas mais que luminosas do silêncio que mostra segredos. autor do instigante escrito teológico De casu diaboli. Siècle. Paris. informamos que diferentes edições desta obra de Mandonnet estão digitalizadas e disponíveis na internet. o Doctor Magnificus se vale da mais fina dialética para divisar o “raio de trevas luminosas”. ix “Neque enim quaero intelligere ut credam. mas creio para entender”. Louvain. x A absorção do direito natural pela justiça sobrenatural. . Para uma primeira aproximação ao tema. o que ficou conhecido pela posteridade como agostinismo político. Arquillière. de sondar a inescrutável realidade de Deus valendo-se do débil intelecto humano. Vrin. contudo. 1 (PG 3. não se amedrontou.x Num ambiente como este. 2ª éd. Siger de Brabant et l’averroïsme latin ou XIIIe.. assim como das prerrogativas civis pelos direitos da Igreja. a fé se orienta ao saber numa espécie de complementaridade metafísica: “Não busco entender para crer.

empirismo.Proslógio · Apresentação A resolução do magno problema das relações entre fé e razão. criticismo. xii Cf. com o nosso autor. diz o filósofo italiano Battista Mondin que. tinha de passar por aquilo que hoje chamaríamos de teoria do conhecimento. Ora. segundo o qual os conhecimentos já estão em nossa inteligência à espera de que a consciência os reconheça ao lembrar-se deles. in Monologium. id est cogitationem sui ad suam similitudinem quasi sua impressione formatam”.A. No caso de Anselmo. pois nunca duvidou de que a alma humana fosse dotada de luz própria suficiente para alcançar as verdades por meio de raciocínios. no ponto atinente à origem das idéias. ajuda o homem a projetar a inteligência às mais audazes investigações científicas. ele pode considerar-se o orientador no tocante a problemas teológicos espinhosos. para os que imediatamente se lhe seguiram. ou num transcendentalismo gnosiológico.). 33. não tendo lido as finas considerações de Aristóteles a respeito da memória e da reminiscência.xii Não por outro motivo.B.). Obras Completas de San Anselmo. Diz ele no Monologium: “Pensar uma coisa que recordamos é expressá-la mentalmente. inatismo. embora atue como auxiliar da inteligência. Em Anselmo. como não poderia deixar de ser. equivoca-se quem imagina que ele tenha descambado nalgum tipo de inatismo de fundo platônico. acompanhadas de suas respectivas subespécies.C. justamente por conta do rico nexo que estabeleceu entre ciência e fé. a fé não é empecilho para o conhecimento científico. Anselmo porém aprendera com Agostinho que o amor é o grande motor da memória – acólita da inteligência tanto na compreensão do mundo exterior. ao contrário. formado na semelhança dela com a ajuda da memória”. a fides encontra na ratio especulativa uma serva fiel e permite ser entrevista sob novas luzes. a memória tem aqui papel bem mais modesto do que para os teóricos inatistas. 1952. o Arcebispo de Cantuária foi tido por homens do seu tempo como um guia em questões filosóficas. Madrid. e essa expressão da coisa é o próprio pensamento. de acordo com a qual os conceitos afloram na mente do homem por influxo direto de Deus. como o da teoria agostiniana da iluminação. cum se cogitando intelligit. 94. a partir das quais as verdades da fé passam a não mais ser lidas xi “Habet igitur mens rationalis. Conforme salienta o padre Julián Alameda (O. p. e. 21 .xi Como se vê. Tomo I. secum imaginem suam ex se natam. Jamais o Arcebispo de Cantuária chegou a propor semelhantes coisas. o qual ainda hoje suscita acaloradas discussões entre filósofos de correntes as mais conflitantes entre si: intuicionismo. Biblioteca de Autores Cristianos (B. intelectualismo. abstracionismo e muitas outras. Introdución General. c.S. Julián Alameda. como na contemplação da interioridade da alma humana.

in Annales eclesiastici. Historia de la Filosofía. torpezas. no entanto. . de acordo com Fraile. Biblioteca de Autores Cristianos (B. até então centros difusores da alta cultura. Como se pode constatar. muito longe de impedir o vôo dela na inquirição das verdades. 1602.A. tom. Roma.22 Santo Anselmo de Cantuária e comentadas somente nos textos da Sagrada Escritura. Batista Mondin. estudavam-se gramática. quando foi assassinado o Papa João VIII. 2008. grazie ad Anselmo. xiv Zeferino González. X. pois. mas começam a ser estudadas em si mesmas. Tomo 2. como frisa Zeferino González numa página antológica. p. Preâmbulos históricos: o Século de Ferro As seguidas vicissitudes por que o mundo ocidental passou depois do período carolíngio ficaram conhecidas como Século de Ferro – longa era de declínio civilizacional que abrange mais de cento e cinqüenta anos: de 882.xiv II. Historia de la Filosofía. p. trova un posto e un compito distinto da quelli della esegesi biblica e della filosofia. 297. atque inopia scriptorum appellari consuevit obscurum”.xiii A teologia dava. ficando o Quadrivium completamente esquecido. e obscurum pela inépcia dos seus escritores. xvi “Saeculum quod sui ac boni sterilitate ferreum. durante o pontificado de Clemente II.C. muito longe de afogar a tendência natural da inteligência humana de assimilar imaterialmente as formas dos entes. Tomo II. traições. horrores de todos os tipos. Vol. 900.xvii Numerosas abadias xiii “Cosi la teologia. entregando-se concomitantemente a sublimes especulações teológicas. 1960. Historia de la Iglesia Católica.C. distinguindo-se da filosofia sem. deixar de se valer dela. Si può affermare che la dissociazione cosciente tra filosofia e teologia è opera di Anselmo d’Aosta”. Edad Media – la cristianidad en el mundo europeo y feudal (8001303). malique exundantis deformitate plumbeum. dialética e resquícios do Trivium. emasculação moral. Tempo de crimes. xv Llorca.xvi O renascimento filosófico carolíngio havia sido interrompido em todos os âmbitos.xv Lembra-nos a propósito Ricardo Villoslada que o cronista Barônio chama-o saeculum ferreum por sua aspereza espiritual. xvii Guillermo Fraile. plumbeum pela deformidade dos seus males. 647. 1886. Villoslada. esterilidade cultural.). até 1046. Edizione Studio Domenicano. cognominada saeculum ferreum obscurum.). 2. Esta etapa. um enorme salto com Santo Anselmo. Anselmo conduz a indagação filosófica às regiões mais elevadas da ciência do seu tempo.A. 344-345. Bologna. Tomo II. Madrid. Storia della Metafisica. não é outra coisa senão a barbárie disseminada a partir da Cidade Eterna: Roma. 112. Mesmo nos mosteiros. pp. Laboa. misérias. Madrid. Biblioteca de Autores Cristianos (B. 2009. a. Madrid. 148-153. p. Agustín Jubera. pp.

Para aquele lugar ermo. xxi José Luis Llanes. O. durante o Século de Ferro. em que se ensinavam não apenas assuntos intelectuais. o serviço do Senhor no qual ação e contemplação estavam imbricadas. entre 909 e 910. tem o sentido de “unidade perfeita destinada a cumprir certos trabalhos sob as ordens de um superior”. 14-5. com todo o rigor.B. o depauperamento político e moral foi acompanhado. sem deixar de ser homem do seu tempo. Introdução à História do Direito Canônico. ver Jean Leflon.xxi Sem estas admiráveis ilhas de reação civilizacional. no Prólogo da Regra de São Bento. termo que.. de um declínio intelectual claramente identificável na história da filosofia e da teologia. Edições Loyola. 23 . xx Dom Idelfonso Herwegen. Humanisme et chrétienté au Xe siècle. numa terra cedida pelo duque Guilherme I de Aquitânia. a Regra de São Bento a partir duma vida de clausura e de contemplação litúrgica das verdades mais elevadas. p. soube elevar-se às questões universalíssimas sem as quais a história se torna mera cronologia desprovida de bússola hermenêutica.A. 1995. aqueles homens reeducaram o Ocidente com a sua schola. mas acima de tudo o Dominicum servitium. Este.xx Cluny foi uma escola de virtudes de caráter eminentemente ascético. Sentido e Espírito da Regra de São Bento. A longevidade e a santidade dos primeiros abades de Cluny contribuíram para a fundação de uma série de mosteiros pela Europa. São Paulo. Historia de la Teología – Primera Parte. Edições Lumen Christi. 1953. e com o Século de Ferro não seria diferente. e não nos parece ocioso dizer que a latitude histórica desta desgraça enaltece ainda mais a figura do Arcebispo de Cantuária. figuras como Santo Anselmo dificilmente despontariam no horizonte da filosofia cristã. o Piedoso (875-918). É nele que começa a regeneração espiritual a partir da fundação do mosteiro de Cluny. 2004. Saint-Wandrille. xix Maurílio César de Lima. todos de grande importância para o reflorescimento que a cristandade teria. Rio de Janeiro. Biblioteca de Autores Cristianos (B. o que fez muitas escolas sapienciais simplesmente desaparecerem. 1946.xix Com austeridade e cheios de temor reverencial a Deus.Proslógio · Apresentação foram destruídas com as invasões de normandos. José Ignasi Saranyana. p.C. a partir do final do Século de Ferro. Vale ressaltar que os períodos decadentes são comumente pródigos em reações civilizacionais. húngaros e sarracenos. Observa-se então uma entressafra xviii Para uma compreensão sinóptica deste período. 87.S.xviii Perfazem estes longos anos o cenário terrífico da cristandade que precedeu o surgimento de Santo Anselmo. pp. Como era de esperar.). 43. Madrid. Éditions de Fontenelle. o abade Bernon (850-927) levou doze monges com o intuito de observar.

ano de sua morte – esteve envolvido. em que Anselmo – primaz da Inglaterra entre 1093 até 1109. Miguel Cerulário (1000-1059). Ressonâncias de várias idéias do Bispo de Hipona são bastante claras nos embates que o Doctor Magnificus travou pelos direitos da Igreja contra o poder civil. Letouzey et Ané. o Credo Niceno-Constantinopolitano enfatizara que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.xxii Estava-se em pleno século XI. Em grande parte do epistolário dirigido aos poderosos daquela conturbada época. pp. na Inglaterra de então. quando o Patriarca de Constantinopla. expulsou da sede de Constantinopla Inácio (797-877). do próprio Arcebispo de Cantuária: o Grande Cisma do Oriente. III. Dictionnaire de Théologie Catholique – L’exposé des doctrines de la théologie catholique. que dura até começar a dar frutos a reforma proposta pelos imperadores otomanos. p. ele desconhecesse o problema que acarretara o Grande Cisma do Oriente. também conhecido como Cisma de 1054. Em suma. ver A. em 1054. Vale registrar que. hoje considerado santo tanto pela Igreja Católica como pela Ortodoxa. A controvérsia atravessou vários séculos. Tome Cinquième. portanto. e isto levou os orientais a acusar os ocidentais de mudar o Símbolo da Fé. que os orientais não aceitavam. No Grande Cisma do Oriente. Feição teológica: um esboço da Escolástica posterior Não se pode negar que a teologia de Santo Anselmo bebe de fontes agostinianas. Para detalhes sobre o Filioque. com a fórmula “que procede do Pai e do Filho”. seu patriarca. os ortodoxos estavam completamente equivocados em sua querela. mas é impossível imaginar que. quando o imperador bizantino Miguel III. cit. o santo teólogo jamais deixa de lembrarxxii Op. tanto na vida civil como na religiosa. Neste ínterim. 1947. Era.xxiii que gerou a Igreja Ortodoxa e obrigou os ocidentais a aprofundar uma série de questões cristológicas para defender o papado. onde se submeteu à Regra de São Bento. 2310-2343. pois. quando a luta entre os poderes material e espiritual emerge de maneira encarniçada na disputa acerca das investiduras. Paris. portanto. pois. foi excomungado. errada a decisão de se tornarem espiritualmente bastardos. colocando-se à margem da autoridade petrina. o opúsculo de Santo Anselmo intitulado De processione Spiritu Sancti – escrito a pedido do Papa Pascoal II – demonstrou com razões suficientes que o Filioque deita raízes na Tradição apostólica. Vacant. o Ébrio (840-867). o pomo teológico da discórdia foi o Filioque. e um precedente do Cisma teve lugar no ano de 857. Mangenot et E. leurs preuves et leur histoire. outro acontecimento decisivo teve grande influência para o futuro da teologia e. Anselmo ainda não iniciara o seu noviciado na Abadia de Bec. Anos depois. Amann. xxiii . 15. parecia negar-se a fórmula grega “do Pai pelo Filho”.. ao lançar-se à vida religiosa. E.24 Santo Anselmo de Cantuária de grandes autores.

) trabalham para alijar-me. pois o que é corporal por uma de suas propriedades é racional por outra. Neste ponto do Monologium. Muita tinta já foi lançada sobre o papel no tocante à questão das investiduras.xxv A partir da consideração do caráter ontologicamente composto dos entes. humano.. reentrava magistralmente a filosofia no terreno teológico. Monologium. que. o Arcebispo de Cantuária nos leva à compreensão da necessidade racional de aceitarmos a existência de uma natureza simplicíssima. XVII. Um trecho desta obra de juventude de Anselmo demonstra-o de maneira cristalina: “Quando se diz de um homem que é corpo. aberto o caminho para o Proslogion.. que é racional. para tanto. Anselmo. A conclusão desta obra filosófico-teológica é de que existe apenas um Ente supremo. e por isso me cabe guardar a fé e não lhe acrescentar nem lhe quitar nada”. e não a partir de qualquer parte sua. eles até podiam ser senhores do tempo. Em suma. e cada uma delas. nenhuma riqueza. atua consoante todo o seu ser. Santo Anselmo. para distanciar-me da obediência devida à Santa Sé. a Ele chamamos “Deus”. Com o Monologium. não se consideram estas diversas atribuições da mesma maneira nem do mesmo ponto de vista. abre-se uma xxiv xxv Santo Anselmo.) Sou [porém] cristão. os conflitos diplomáticos e políticos de Anselmo com príncipes e reis não foram poucos. que é. em suma. nos quais as distintas formalidades não se identificam em sentido absoluto com a essência. sou bispo. A lacuna por ele divisada já estava bem assinalada no Monologium. sou monge. o qual não pode ter recebido o ser de nenhum outro. escrito quando ainda era abade de Bec. cap. 25 .Proslógio · Apresentação -lhes a dignidade do seu cargo como Arcebispo de Cantuária. diferentemente de todas as demais. nenhuma potestade humana superava a de representar a Igreja constituída pelo próprio Deus em Pessoa. não constitui este conjunto a que chamamos homem”. mas ele. (. conforme ele próprio menciona numa epístola célebre: “Todas as forças da Inglaterra (.. em separado. sem composição de nenhuma espécie. fazia-lhes ver que nenhuma glória. de métodos filosóficos apresentados pelo viés duma robusta dialética. Tratava-se de investigar a existência e a essência de Deus valendo-se. Antes nos importa apresentar Santo Anselmo como o autor que assimilou a tradição teológica católica para – entrevendo nela horizontes ainda não de todo explorados – ser-lhe absolutamente fiel. pois. e não é nosso propósito esmiuçar o tema nesta nota introdutória à presente edição do Proslogion. Epist. Estava. 94. do dinheiro e das terras..xxiv escreve a certa altura dos acontecimentos. Como se pode deduzir.

mas não como realidade imanente ao devir. como no caso da diferenciação entre tempo e eternidade.xxvi Em Anselmo.26 Santo Anselmo de Cantuária vereda metafísica para a posterior distinção entre essência e ser nos entes.xxvii Por estes exemplos colhidos de sua primeira grande obra filosófica. um lugar e um tempo onde e durante o qual não haveria nada [ubi et quando nihil omino est]. IV. haveria um lugar e um tempo em que não haveria nada – e um tempo e um lugar desprovidos de ser não são outra coisa senão absurdidade inconcebível para a filosofia. O ser acima do qual nada pode pensar-se São Boaventura. cap.. numa indisfarçada glorificação da finitude. Malebranche (1638-1715). também. Tratado de Existencialismo y Tomismo. antevia-se que o Arcebispo de Cantuária escreveria uma obra magna. “Haveria. a natureza suprema não pode estar circunscrita a um lugar e a um tempo”. conforme sucede com o ser em Heidegger (1889-1976).). p. pois. Duns Scot (1266-1308). Leibniz (1646-1716). xxvii Octavio Derisi. Baumgarten (17141762).. XX. nos legaram obras imortais. a eternidade é a realidade sem a qual o tempo é pura e simples aporia metafísica. o ser está para além do tempo. Descartes (15961650). que é tão-somente uma de suas epifanias. Graças a ela. Santo Tomás. Emecé Editores. A omnipresença divina é apresentada por ele como abarcadora de todos os tempos históricos. . Xavier Zubiri (1898-1983) e Cornelio Fabro (1911-1995) estão entre os nomes xxvi Op. feita com extraordinário rigor por Santo Tomás de Aquino.. cit. como acertadamente escrevera o tomista Octavio Derisi (1907-2002) a respeito de Heidegger e. o autor do interessante diálogo De Grammatico é considerado por muitos como o predecessor dos grandes autores escolásticos que. Buenos Aires. o nosso autor antecipava-se ao beco sem saída heideggeriano de circunscrever o ser ao tempo. O teólogo Anselmo não se detém diante de problemas em relação aos quais grandes filósofos evitaram dar pareceres categóricos. nele. do seu epígono Sartre (1905-1980). Kant (1724-1804). Com séculos de antecedência. 117. Schelling (1775-1854). 1956. e esta não foi outra senão o Proslogion. nos séculos seguintes. como isto é falso (. Se o ser de Deus não estivesse absolutamente em tudo. e sim como algo que transcende à caducidade inerente às coisas temporais. Hegel (1770-1831). cuja importância pode ser medida pelos incontáveis filósofos que a comentaram ao longo de séculos sem fim.

porque se Deus é o ser maior que qualquer intelecto pode conceber. não seria o ser perfeitíssimo. Séculos depois. todos têm de Deus. de um dos tratados filosóficos mais importantes jamais escritos. indaguemos: 27 . faltar-lhe-ia uma nota distintiva. Ora. observaremos o seguinte: a última premissa aludida acima induz a conclusão. Deus como o maior que se possa pensar. sem a menor sombra de dúvida. e ao leitor não familiarizado com o raciocínio que tornou célebre o Proslogion pode impressionar o fato de ele ser tão simples. na opinião de Anselmo. Logo. O argumento anselmiano pressupõe que Deus é o ser perfeitíssimo. Ele não seria o maior. Se esmiuçarmos o raciocínio do Arcebispo de Cantuária. e que todos – inclusive o ateu. que a existência é uma perfeição. dirá Kant. que possa ser perfeitíssimo. se concedesse que Deus existe apenas no pensamento. No dia em que concedermos que algo inexistente possa ser perfeito. Podemos resumi-lo brevemente. Mas não nos antecipemos aos fatos. porque. Sim. sem exceção. estaremos ao lado dos irracionalistas de todos os tempos e de todos os matizes. Em resumo. A partir daí. seja para acolhê-lo. mais ainda. Se. por outro lado. salta aos olhos que o ser perfeitíssimo não pode ser pensado como não-existente. ou. é preciso postular a sua existência real. numa das mais ferrenhas críticas ao argumento. Em primeiro lugar. evidentemente a inexistência não pode predicar-se da perfeição. Trata-se. se ele é o Ente perfeitíssimo que todos. sem a qual ele não seria aquele acima do qual nada pode ser pensado: a existência. com nossas próprias palavras: quando o homem pensa em Deus. mas extraiamos dela algumas considerações preliminares. Id quo maius cogitari non potest. que a existência não pode ser predicado de nenhum ente. como conceito.Proslógio · Apresentação importantes da história da filosofia que depararam com o chamado argumento ontológico de Santo Anselmo. é necessário que Deus exista como conceito em nossa inteligência e também como ser na realidade. Pois muito bem. pensa-o como o ser acima do qual nada pode ser pensado. seja para criticá-lo em parte. mas apenas em nosso pensamento. neste caso. pois isto implicaria contradição com o conceito que. ou seja: pensa n’Ele como o ser perfeitíssimo. ou seja. à guisa de procedimento dialético. aceitemos com Cornelio Fabro. o insipiens – O concebem como o ser maior que possa pensar-se. porém inexiste na realidade. se perfeito é aquilo a que não falta nada para ser o que é. se este sumo cogitável não existisse na realidade. admitem. seja para rejeitá-lo por completo como prova da existência de Deus. Esta é uma exposição sumariíssima do argumento.

ao afirmar que o quadro concebido por um pintor só pode considerar-se real depois de haver sido feito. como faz Anselmo. entre outras coisas porque n’Ele ser e pensamento co-incidem. antecipando-se a muitos dos seus críticos – a começar por Gaunilo.” Para dialéticos medievais. mas não na realidade. sem exceção. de acordo com o Arcebispo de Cantuária. mas o inaceitável para o Aquinate é dar um salto do plano do pensamento para o da realidade. devemos necessariamente concluir por sua existência real?xxviii Diz o grande tomista italiano que o argumento anselmiano é sinuoso na distinção entre esse in intellectu e intelligere rem esse. embora não aceitando que todos. intitulado L’argomento ontologico e il pensiero moderno. mas está num plano ontológico muito superior.28 Santo Anselmo de Cantuária se é assim. o pensamento se vale dos sentidos e. muitas vezes. 1967. sendo subordinado. Studium. então “B”. prótase e apódose relacionavam-se em enunciados condicionais nos quais o último componente era inferido do primeiro: se “A”. no conceito de criatura. também argutamente assinalada por Fabro. Noutras palavras. Origine e forma dell’argomento in S. não seria Ele o sumo cogitável.xxix Demos um passo além para ressaltar o seguinte: é possível conceber Deus como o maior ser pensável. O concebam assim. pois abstrai os conceitos da matéria num grau absolutamente inacessível para qualquer sentido. porém. . não pode aplicar-se a Deus. é a de que no conceito de Deus está incluído o de ser. 1. a conexão lógica entre estas duas proposições. Em síntese. cria certa expectativa com relação ao segundo. sem o ser não haveria essências. Mas esta distinção. e também aceitar que Deus não pode existir apenas em nossa mente – negando. entre o âmbito nocional e o âmbito real. Anselmo. além do fato de que se Deus. a apódose encerra o enunciado de maneira aparentemente satisfatória. ou seja. existisse só no nosso pensamento. o primeiro deles – a ordem lógica do pensamento da ordem metafísica da realidade. Santo Anselmo distingue. ele aceita a prótase (Deus é o sumo cogitável) e nega a apódose ([logo] Ele existe no pensamento e na realidade). Ora. Duas coisas podem ser concomitantes e uma delas ser inferior à outra. o próprio Santo Tomás o concede sem problemas. L’uomo e il rischio di Dio. Exemplo: “Quem desdenha (prótase). numa estrutura composta por dois membros relacionados entre si. razão pela qual estas são partícipes de algo que as transcende na realidade. Por exemplo: no homem. xxviii Ver Cornelio Fabro. quer comprar (apódose). Por sua vez. O trecho desta obra cuja leitura recomendamos enfaticamente é o apêndice IV. prótase é o que. xxix Em sintaxe. Tenhamos bem claro em nosso horizonte que concomitância cronológica não é paralelismo ontológico. inclui-se apenas o de essência. Roma. o ser perfeitíssimo. que Deus seja o ser por excelência. Outra pressuposição do argumento ontológico. opera simultaneamente com eles na apreciação da realidade.

considerando-se porém o seguinte: “Se uma inteligência pudesse conceber algo que fosse melhor do que tu. assim como certa confusão conceptual na pressuposição de que. xxxiii G.xxxii Neste ponto. na obra do Arcebispo de Cantuária.xxxiii Este problema está decerto implicado no argumento ontológico. sendo. 48. gratias tibi. nem o nada absoluto.. as provas aduzidas pela Sagrada Escritura são débeis. mas se estende a tudo que o fiel crê de Cristo (omnia quae de Christo credimus) sem apelar à autoridade da Sagrada Escritura (sine Scripturae auctoritate). sendo esta última.M. não nos afastamos um centímetro sequer da tese de que não se deve tentar demonstrar racionalmente as verdades da fé. non possim non intelligere”. a criatura xxx Cf. além de ser um procedimento filosoficamente inócuo. Cap. 29-32. Cf. embora tenha deixado o problema consignado. diminui o caráter sublime dela (“hoc enim sublimitati fidei derogaret”). seria impossível a qualquer pensamento não ser co-incidente com Ele.xxxiv No entanto. ao mistério da Santíssima Trindade. com Battista Mondin. quando.xxxi Tal intento não se limita. que Santo Anselmo abriu novas perspectivas no tocante ao tema das relações entre fé e razão.P. Manser. Filosofia Concreta. mas agora ressaltemos que ele próprio. Mário Ferreira dos Santos.. Anselmo declara que as suas considerações partem da fé e não saem do seu domínio. damos razão a Gallus Maria Manser. Deus. um dos expoentes do neotomismo no século XX. Praef. xxxi Monologium. impossível por definição. ser eterno. pp. quia quod prius credidi te donante. pois isto. São Paulo. Há laivos de racionalismo em sua teologia. 3ª ed. xxxii Cur Deus Homo. xxxiv “Gratias tibi. Madrid. é evidente que a maior parte do livro aborda a questão da existência de Deus a partir de uma visada essencialmente filosófica. está para os entes assim como o ato está para a potência e a substância para os acidentes. e não teológica. Praef. e nisto radica a similaridade entre Deus e tudo o que não é Ele. II. passível de ser concebida como inexistente. Logos.xxx Acima afirmáramos. para quem Anselmo pode perfeitamente enumerar-se entre os autores que deram resolução insatisfatória a esta questão. La Esencia del Tomismo. 1961. Teses 1 e 2. não o resolveu. De rationibus fidei. relativamente à fé. 1953. bone Domine. O pano de fundo – metafísico.Proslógio · Apresentação No caso de Deus – cuja perduração no ser se dá numa instância que transcende e abarca o tempo –. Santo Tomás de Aquino. O fundamento veríssimo da realidade é ser (esse). iam sic intelligo te illuminante. em virtude de sua indigência ontológica. pois. Como adeptos da escola tomista. p. si te esse nolim credere. O. ut. pp. 29 . no capítulo IV do Proslogion. necessário lograr demonstrações racionais concludentes. sem dúvida – é a distinção entre Criador e criatura. Não se pode pensar nenhuma coisa para além de Deus. Consejo Superior de Investigaciones Científicas. 144-5.

. E. pois ser pensado não significa a mesma coisa que ser entendido como ente real. p.xxxvi da lavra do monge beneditino Gaunilo (século XI). 47-8.. “Quid ad haec respondeat quidam insipiente”. como quem tira uma conseqüência. compreenderei facilmente suas palavras. também conhecido como “Liber pro insipiente”.30 Santo Anselmo de Cantuária se elevaria acima do Criador e viria a ser juiz do Criador. V. nas quais nada há de difícil compreensão. Adversários e seguidores A primeira grande objeção ao Proslogion recebeu-a Santo Anselmo pouco depois de ver a sua grande obra publicada. dissesse: ‘Daqui para a frente não poderás duvidar da existência dessa ilha. xxxv Cap. 83. o que quer que exista fora de ti.xxxv A súmula do raciocínio anselmiano está na premissa de que. o que é inteiramente absurdo. Gaunilo substitui o ser perfeitíssimo de Anselmo pela Ilha Perdida. Caso contrário. 6. xxxvii Não se conhecem ao certo as datas de nascimento e de morte de Gaunilo.xxxix Com efeito. ao tentar reduzir ao absurdo o argumento ontológico. 3.). se Deus está em nossa inteligência como o ser perfeitíssimo. n. xxxviii Quid ad haec respondeat quidam insipiente. Mas. não foi unânime. deve admitir-se necessariamente como existente na realidade. o autor do Proslogion identifica o ser in mente com o ser in re. eu suporia que meu interlocutor estava gracejando”. 91 desta edição. Como se pode constatar. se depois. pp. faz-se referência a uma mítica Ilha Perdida onde as delícias e riquezas são incalculáveis. e conclui – a partir da consignação de que cogitari não é o mesmo que intelligi – que o Arcebispo de Cantuária dera um salto da imaginação para a realidade.xxxviii Na prática. mas apenas o termo xxxvi . pode ser pensado como não-existente”. visto que tens uma idéia clara da mesma em teu espírito e porque existir na realidade é mais do que existir somente na inteligência’ (. ele seria reduzido ao estado “imperfeito” dos entes que só existem no plano do pensamento. “Se alguém me disser estas coisas [ou seja: se afirmar a existência da Ilha Perdida e dos bens nela existentes]. no entanto. e a atratividade do seu argumento reside sobretudo no fato de dar vazão à perene aspiração humana pelos valores supremos. na verdade. É exatamente a que trazemos nesta edição: o Livro escrito a favor de um insensato. A acolhida de seu argumento. parte II deste livro. p.xxxvii Nestas páginas de polêmica. xxxix Gaunilo nega que tenhamos na mente um conceito apropriado de Deus.

muitas coisas duvidosas e até mesmo falsas. embora conheça a Deus de maneira imperfeita. n. conforme já foi dito. afirmadas por alguém (.)”.... 2. O argumento ontológico – A existência de Deus de Anselmo a Schelling.. porque Deus não pode ser conhecido em Si mesmo nem. n. 2003. mas secundum vocem. ou seja. São Boaventura acolhe o argumento anselmiano. xlii Op. p.. contudo. p. • o homem.xli aponta para uma falha capital na crítica de Gaunilo: a objeção do monge beneditino se aplica a todo e qualquer ente. porque. I. Portanto..) ainda que nenhuma das coisas que existem possa ser concebida como não-existente. III. Glossa in quattuor libros Sententiarum.. não consegue vislumbrar que a falha não está nas premissas. todas. Sem dúvida. com certo sarcasmo: “(. a qual é uma expressão vazia. Escreve Gaunilo. xl Op. Santo Anselmo então fulmina: “(. p 87 desta edição. o nosso conhecimento de Deus não é perfeito. consideradas autonomamente. mas sim no raciocínio que não as consegue concatenar da maneira devida.. também integrante da presente edição. de modo devido. mas não Deus. parte III deste livro. deduzir a realidade que expressa”. xliv Alexandre de Hales. 4. meu espírito poderia conter. ou somente com grande dificuldade.. qualquer coisa contingente pode ser pensada como não-existente. 95. ela exista necessariamente na realidade. cit. mas não ao ser perfeitíssimo. 17.xlv “Deus” e a expressão aliquid omnibus maius (algo maior que tudo). 89 desta edição.xlii Tempos depois de Anselmo. escrevendo um pouco antes de Boaventura. em absoluto.xl A resposta de Anselmo. o fato de a questão se dar inteiramente no âmbito da fé. embora intuísse o famoso salto do plano lógico para o ontológico. p.xliv de onde extrai as seguintes conclusões: • o Deus Uno e Trino só pode ser conhecido plenamente por Ele próprio. a objeção de Gaunilo. exceto o ser que está acima de tudo”.xliii Alexandre de Hales (1185-1245). 24. xli Quid ad haec respondeat editor ipsius libelli. pelo simples fato de pensá-la. 105 desta edição. mencionara favoravelmente o argumento de Anselmo em sua glosa às Sentenças de Pedro Lombardo. entender que. Op. por meio de alguma coisa semelhante a Ele. xliii São Boaventura. cit. reiterando. de acordo com “uma palavra da qual não se pode. xlv Francesco Tomatis. Quaestiones de mysterio Trinitatis. igualmente. p. Paulus. podem ser pensadas como não-existentes. São Paulo. 31 . se for concebido como ens perfectissimum. pensando n’Ele deduz de imediato a Sua existência. com o Arcebispo de Canturária.) e não basta dizer que [algo] já existe de antemão em meu espírito no instante mesmo em que compreendo as palavras pelas quais se expressa. cit. n. Por isso.Proslógio · Apresentação alguém pode pensar a existência de uma coisa sem. sem embargo.

quia visibile]. 137-140. Diz ele no Tratado do Primeiro Princípio: “Deus. pois muitas vezes a concatenação por ele vislumbrada se dá por meio de premissas ocultas ou mencionadas em distintas passagens do livro no qual aborda um tema. ora. é ser”. pois a intenção do Doutor Sutil é provar a existência de Deus a partir da única propriedade d’Ele que o homem pode conceber com segurança: a infinitude. n. nada é maior que o ser supremo. cit. I. E dá exemplos: na Antiguidade. 9. dois nomes de peso: Santo Tomás de Aquino e Kant. contra. não necessariamente o homem pensa n’Ele como o ser acima do qual nada pode ser pensado. no clássico Itinerarium mentis in Deum. Cf. Boaventura volta a acolher o argumento anselmiano. existe uma consciência do mistério do Deus que habita uma luz inacessível. No caso de Tomás. o qual só é inteligível abstratamente. porque visível [perfectius cogitabile. o ser supremo não é o não-ser. o que é perfeitissimamente cognoscível existe”. cit. IV. defende três pontos: 1) a impossibilidade humana de duvidar razoavelmente da existência de Deus. a saber. Segundo: o que não é não-ser. Op. entre os seus objetores. a crítica começa pela constatação de que. 2) por parte do homem. identificando-as. pensado sem contradição. a partir dos dados sensíveis. diz tratar-se de uma dedução na qual estão implicados dois raciocínios. Duns Scot afasta-se de Anselmo porque afirma ser mais segura a prova a posteriori – embora não em clave tomista. o Doutor Sutil “colore” o argumento ontológico da seguinte maneira: “O que existe é um cogitável maior [do que o que não existe]. 1. sem contradição”. 1. com o princípio da não-contradição. Primo Principio. Ora. logo. C. 3) o conhecimento do Deus trinitário se dá pela fé. Ordinatio. 79. xlvii . xlix Duns Scot. é aquele em relação ao qual não se pode pensar nada maior. não é visível. Duns Scot. Op. I. portanto. IV. e. noutra ordem de considerações. “Deus est quo cogitato sine contradictione maius cogitari non potest sine contradictione”. Depois de Boaventura. o que não é incomum em Scot.xlvi E finaliza frisando que a existência de Deus é verdade primeira e imediatíssima. O que não existe em si nem aderido a um ser mais nobre. que a acolhida de Duns Scot ao argumento anselmiano se dá num vetor muito diferente do considerado pelo Arcebispo de Cantuária. Diga-se. C. a partir delas. Logo. cit. o ser supremo não é não-ser.xlviii Na mesma obra. ao que nada acrescenta. houve quem acreditasse ser Deus um corpo: xlvi Op. é mais perfeitamente cogitável.. é ser. o mais respeitável autor da escola franciscana que abrigou favoravelmente as premissas do Proslogion foi Duns Scot. Primeiro: o ser é maior que o não-ser. O grande metafísico da virada dos séculos XIII para o XIV. antes de tudo.32 Santo Anselmo de Cantuária É exatamente de Alexandre de Hales que São Boaventura acolhe as premissas anselmianas. aludindo à prova de Santo Anselmo. e. xlviii Duns Scot.xlix A trajetória do argumento ontológico teria. Embora aceite o argumento ontológico no plano da não-contradição. n. 79.xlvii Posteriormente. Conclus. Não estranhe o leitor o aparente salto entre as premissas e a conclusão. ao pensar em Deus. nn.. é mais perfeitamente cognoscível o visível que o invisível.. logo.

2. 512-518). Noutras palavras. cujo procedimento é apriorístico. a qual vai subindo numa escala que começa nos sensíveis e culmina nos inteligíveis. Sexta Seção: Da impossibilidade de uma prova físico-teológica (pp. resp. a partir delas. se expresse o ser maior que se possa pensar. como Deus não é um cognoscível imediato para a inteligência do homem. chegar à conclusão filosófica de que “Deus é”. 2001. baseado na ordem do mundolii – o que não seria mesmo de estranhar. 507-511). 537-543). se. de que existe. li 33 . o filósofo de Königsberg rechaça o argumento cosmológico. imaterialidade pura. Lisboa. pois de fato alguns creram que Deus era corpo (quidam crediderint Deum esse corpus). Em resumo. em se tratando de um autor cujo criticismo impôs à inteligência humana rígidos limites no tocante ao conhecimento dos entes. 2. “(…) quod non est datum a ponentibus Deum non esse”. o qual não se dá por intuições pré-cognoscitivas das essências das coisas – pois raciocina abstraindo os conceitos das notas individuantes da matéria. Capítulo III: O ideal da Razão Pura. Diga-se de passagem que Kant conheceu a prova ontológica de segunda mão. Summa Theologiae. que se funda no conceito de causalidade. Ademais. lii Crítica da Razão Pura. art. Dialética Transcendental. o ontológico. inalcançável para inteligências que precisam valer-se dos sentidos para conhecer.li Santo Tomás apela às propriedades da intelecção humana. em meio às quais l Santo Tomás de Aquino. raciocinando por meio de analogias. I. mais precisamente na “Dialética Transcendental”. Terceira Seção: Dos argumentos da razão especulativa em favor da existência de um ser supremo (pp. ou seja. e o chamado por ele de físico-teológico. nas formulações cartesiana e leibniziana. Calouste Gulbenkian. Quinta Seção: Da impossibilidade de uma prova cosmológica da existência de Deus (pp. e a partir de evidências alcançadas pelos sentidos. Loc. tendo em vista o modo essencialmente humano de conhecer.Proslógio · Apresentação “É provável que quem ouve a palavra ‘Deus’ não entenda que.. todos ao pensarem em Deus O concebessem como ser perfeitíssimo. 5ª ed. 1. está implicado o rechaço de todo idealismo gnosiológico. Coube a Immanuel Kant trazer à baila uma das tentativas mais sofisticadas de refutar o argumento ontológico de Santo Anselmo. este precisa contemplar as criaturas para. captáveis pelos sentidos –. 519-529).l Na refutação tomista. os quais são mencionados pelo Doutor Comum exatamente como os que racionalmente não O aceitam. o Boi Mudo da Sicília preconiza que as únicas demonstrações aceitáveis da existência de Deus serão a posteriori. mas o foco dela é a natureza mesma de Deus. com exceção dos néscios. cit. Na Crítica da Razão Pura. não haveria ateus. com ela. Quarta Seção: Da impossibilidade de uma prova ontológica da existência de Deus (pp. q.

Dialética Transcendental. Daí a inconsistência do argumento ontológico. Quarta Seção: Da impossibilidade de uma prova ontológica da existência de Deus. lvi Op. Mas se suprimir o sujeito. II. penso um ser como realidade suprema (sem defeito).) suprimo o predicado e mantenho o sujeito. de uma existência dada em sentido geral. porque não há mais nada com que possa haver contradição. a existência só pode ser um limitadíssimo dado de experiência. segundo o criticismo kantiano. cit... falta ainda algo na relação com todo o meu estado de pensamento. não consideramos neste ponto a experiência mística nem a ação da graça eficaz na alma fiel. O mesmo se passa com o conceito de um ser absolutamente necessário. Porque. embora nada falte ao meu conceito do conteúdo real possível de uma coisa em geral. Estamos de posse de determinados conhecimentos a priori.lv E mais: “Se. p. para não fugirmos às bitolas filosóficas da critica kantiana. lv Op. não pode ser predicada de nenhum ente.34 Santo Anselmo de Cantuária pontifica: a existência não é uma realidade categorial. a saber. Se suprimis a existência. A 600-B 628. que o conhecimento desse objeto também seja possível a posteriori”. p. nunca um conceito abstrato. resulta uma contradição. Capítulo III: O ideal da Razão Pura. não é contraditório. por indução. e é por isso que digo que esse predicado convém necessariamente ao sujeito. por conseguinte. liii Op.. No caso de Deus. percebe-se que Kant raciocina tendo no horizonte a sua tese segundo a qual a experiência não dá aos juízos verdadeira universalidade. temas propriamente teológicos. 517. o que se agrava no caso de Deus. Pôr um triângulo e suprimir os seus três ângulos é contraditório. liv Evidentemente. mas existencial. não surge nenhuma contradição. 512. Noutras palavras. mas anular o triângulo. Dialética Transcendental. suprimis a própria coisa com todos os seus predicados”. mantém-se sempre o problema de saber se existe ou não. cit.. e mesmo o senso comum nunca deles é destituído. A 595-B 621. juntamente com os três ângulos. mas a dá apenas comparativamente.lvi É justamente a existência o que Kant suprime da ordem predicamental.liii Isto quer dizer que a simples análise de uma idéia não permite ao homem chegar à coisa ideada propriamente dita.. Introdução. a necessidade absoluta de Sua existência: “Se num juízo (. Aqui. pois d’Ele sequer temos experiência – no sentido próprio do termo.liv Neste contexto. B4. Quarta Seção: Da impossibilidade de uma prova ontológica da existência de Deus. a coisa agrava-se deveras porque d’Ele não podemos ter propriamente experiência. Capítulo III: O ideal da Razão Pura. acrescenta Kant ser absurdo concluir. . cit. portanto. juntamente com o predicado.

Malebranche. Baumgarten. o comentador contemplou o escrito de Santo Anselmo a partir de suas próprias doutrinas. Anselmo encontra acérrimos defensores do seu argumento entre professores de filosofia e estudiosos de diferentes escolas – cada qual buscando um aspecto em que se apoiar. justifica uma nova edição do Proslogion em língua portuguesa. Na maioria dos casos. todos eles mais ou menos afastados das premissas de que se vale o Arcebispo de Cantuária no Proslogion. Esperamos que o leitor aprecie as páginas a seguir. Leibniz. por si. Hegel. Espinosa. que a Concreta traz à luz em tradução do filólogo Sérgio de Carvalho Pachá. Schelling e outros. Mas fique consignado que. Revisitar os trechos das obras desses notáveis personagens da história da filosofia excederia em muito o propósito desta nota introdutória ao Proslogion. Wolf. ainda hoje. Isto. casos por exemplo de Descartes. no caso deste volume. acrescida da polêmica que o Arcebispo de Cantuária manteve com o monge beneditino Gaunilo.Proslógio · Apresentação VI. Uma edição para os dias de hoje Seria copioso trabalho destrinçar os comentários de vários grandes filósofos a respeito do argumento ontológico. 35 .

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Parte I Proslógio (Proslogion) .

quam inveniri esset impossibile. Sed cum illam cogitationem. subditum scripsi opusculum. sufficeret. et quo omnia indigent ut sint et ut bene sint. quod nullo alio ad se probandum quam se solo indigeret. istud vero Proslogion. et quia est summum bonum nullo alio indigens. Cum igitur quadam die vehementer eius importunitati resistendo fatigarer. impediret. in persona alicuius tacite secum ratiocinando quae nesciat investigantis edidi: considerans illud esse multorum concatenatione contextum argumentorum. Sed cum iam a pluribus cum his titulis utrumque transcriptum esset. Ad quod cum saepe studioseque cogitationem converterem. in quibus proficere possem. et quaecumque de divina credimus substantia. nominavi. si scriptum esset. Hugo nomine. atque aliquando mihi videretur iam posse capi quod quaerebam. quo aliquem. et sequens Fides quaerens intellectum diceretur. de hoc ipso et de quibusdam aliis sub persona conantis erigere mentem suam ad contemplandum Deum et quaerentis intelligere quod credit. ut studiose cogitationem amplecterer. quam sollicitus repellebam. penitus a me vellem excludere: tunc magis ac magis nolenti et defendenti se coepit cum importunitate quadem ingerere. cuius supra memini. quodam modo ad se legendum invitarent. Et quoniam nec istud nec illud. nec tamen eadem sine aliquo titulo. in ipso cogitationum conflictu sic se obtulit quod desperaveram. illud quidem Monologion. coepi mecum quaerere. ut prius Exemplum meditandi de ratione fidei. id est soliloquium. in cuius manus veniret. alicui legenti placiturum. ut nomen meum illis praescriberem. Quod ut aptius fieret. aliquando mentis aciem omnino fugeret: tandem desperans volui cessare velut ab inquisitione rei. et solum ad astruendum quia Deus vere est. et maxime reverendus archiepiscopus Lugdunensis. Aestimans igitur quod me gaudebam invenisse. id est alloquium. . dimittenda putabam: unicuique suum dedi titulum. fungens in Gallia legatione Apostolica qui mihi hoc ex Apostolica praecepit auctoritate. si forte posset inveniri unum argumentum. coegerunt me plures. ne mentem meam frustra occupando ab aliis.38 Santo Anselmo de Cantuária Prooemium Postquam opusculum quoddam velut exemplum meditandi de ratione fidei cogentibus me precibus quorundam fratrum. dignum libri nomine aut cui auctoris praeponeretur nomen iudicabam.

ou seja. escrevi. quis afastá-lo de mim de todo em todo. chamei ao primeiro Exemplo de meditação sobre os fundamentos racionais da fé e ao segundo A fé em busca de apoio na razão. no qual dou a palavra a uma pessoa que busca elevar sua alma à contemplação de Deus e se esforça por compreender o que crê. como nem o primeiro tratado nem este me parecem merecer o nome de “livros”. que não precisa de qualquer outro princípio. em seguida. parecia escapar-me para sempre. parecia-me. precisam de um título que convide a lê-los quem quer que os tenha em mãos. transcritos por muitos com esses títulos. e eu a acolhi com o mesmo empenho que pusera em rechaçá-la. e do qual todos os demais seres precisam para existir e para serem bons: que. estes pensamentos. persuadiram-me algumas pessoas a apor-lhes meu nome. sobre esse tema e alguns outros. nem são suficientemente grandes para que se lhes anteponha o nome do autor. enfim. percebi que esta obra exigia a concatenação de muitos argumentos e me pus a pensar se não seria possível encontrar um único argumento que a si mesmo bastasse e demonstrasse que em verdade Deus existe e é o Sumo Bem. pois. se fosse escrito. Para que isto se fizesse com maior facilidade. outras vezes. Assim foi que. Ao revolver. entre estas figurava o reverendíssimo arcebispo de Lião. vale dizer. Desesperando. causar o mesmo prazer a quem o lesse.Proslógio Prólogo Depois de ceder aos pedidos de alguns irmãos e dar à publicidade um opúsculo que servisse de exemplo de meditação sobre os mistérios da fé a um homem que. Mas quanto mais tentava afastá-la e menos queria dar-lhe abrigo. decidi abandonar minha busca como algo impossível de alcançar. no conflito mesmo de meus pensamentos se me ofereceu a idéia que eu já desistira de encontrar. sustentasse com sólidas razões tudo que cremos da substância divina. legado apostólico da Gália. tenta descobrir o que ignora. Temendo que esse pensamento ocupasse inutilmente meu espírito e o afastasse de outros objetos de estudo que eu poderia perseguir de maneira proveitosa. que aquilo que eu encontrara com tanto prazer poderia. certo dia em que eu estava cansado de resistir com veemência a essa importunação. por vezes. E. numa palavra. que eu alcançaria o que buscava. Pensando. “alocução”. “solilóquio”. 39 . contudo. Hugo. uma e muitas vezes. mas. que mo ordenou. com a devida atenção. com sua autoridade apostólica. sem embargo. e ao outro de Proslogion. a um chamei de Monologium. Mas como foram. mais e mais me perseguia e importunava. o opúsculo que se segue. refletindo em silêncio consigo mesmo.

totum “cor meum”. sine quo nihil felix est. Quaerere te affectat et ignorat vultum tuum.25]. Quid faciet. et invenit miseriam. Denique ad te videndum factus sum et nondum feci. requiro” [Ps 26. nunc homuncio. Domine. ubi te quaeram absentem? Si autem ubique es.6] mentis tuae. ad quod factus est! O durus et dirus casus ille! Heu. “Intra in cubiculum” [Mt 6.13]? Anhelat videre te et nimis abest illi facies tua. absconde te modicum a tumultuosis cogitationibus tuis Abice nunc onerosas curas. “Manducabat tunc homo panem angelorum”[Ps 77. quid perdidit et quid invenit. . et requiesce aliquantulum in eo. dic nunc Deo: “Quaero vultum tuum. non novi faciem tuam. Domine Deus meus. ut videam te in illa? Deinde quibus signis. quid abscessit et quid remansit! Perdidit beatitudinem. quem nunc esurit manducat nunc “panem dolorum” [Ps 126. et postpone laboriosas distentiones tuas. Eia nunc ergo tu.8]. Et ubi est lux inaccessibilis? Aut quomodo accedam ad lucem inaccessibilem? Aut quis ducet et inducet in illam. qua facie te quaeram? Numquam te vidi.16]. Domine. et “clauso ostio” [Mt 6. quod per se non nisi miserum est. exclude omnia praeter Deum et quae te iuvent ad quaerendum eum. quid faciet iste tuus longinquus exsul? Quid faciet servus tuus. vultum tuum.40 Santo Anselmo de Cantuária I Excitatio mentis ad contemplandum Deum Eia.6] quaere eum. Abscessit. quem tunc nesciebat. Accedere ad te desiderat et inaccessibilis est habitatio tua. propter quod factus sum. anxius amore tui et longe “proiectus a facie tua” [Ps 50. Tu me fecisti et refecisti et omnia bona tu mihi contulisti et nondum novi te. Domine Deus meus. et remansit. O misera sors hominis. Vaca aliquantulum Deo. Domine. doce cor meum ubi et quomodo quaerat ubi et quomodo te inveniat. Heu publicus luctus hominum. Invenire te cupit et nescit locum tuum. si hoc non es. Cur non video praesentem? Sed certe habitas “lucem inaccessibilem” [1 Tim 6. ad quam factus est. propter quod factus non est.2]. fuge paululum occupationes tuas. Dic nunc. Deus meus es et Dominus meus es et numquam te vidi. altissime Domine. cum hoc perdidit.

5 Sl 50:13. subtrai-te por um momento a tuas ocupações habituais.7 que ele sequer conhecia. Enfim. 3 Salmo 26:8. que fará este exilado tão longe de ti? Que fará este teu servo atormentado pelo amor a ti e arrojado para longe de tua presença?5 Anseia por ver-te e demasiado dista a tua face. Dize. Senhor. Que fará. Senhor altíssimo. fui feito para ver-te e ainda não alcancei a finalidade de meu nascimento. Ele.2 busca-o. dele exclui tudo que não seja Deus e o que possa ajudar-te a alcançá-lo. onde te encontrarei? Se estás em toda parte. Fizeste-me e refizeste-me. Senhor meu Deus.4 E onde está essa luz inacessível? Ou como terei acesso a essa luz inacessível? Quem me guiará e conduzirá a essa morada de luz para que nela te veja? Por meio de que sinais? Nunca te vi. Anseia por encontrar-te e ignora onde vives. que antes comia o pão dos anjos. esconde-te de teus tumultuosos pensamentos. que perdeu aquilo para que fora criado! Ó duro e diro caso! O que perdeu ele e o que achou? O que deixou escapar e o que lhe ficou? Perdeu a felicidade para a qual fora criado.6 agora tem fome e come o pão da dor. és o meu Deus e meu Senhor e jamais te vi. ensina a meu coração onde e como te encontrará. achou o infortúnio para o qual não fora criado. Deseja ter acesso a ti e tua morada é inacessível. por que não te vejo presente? Mas decerto habitas uma luz inacessível. Entra no santuário1 de tua alma. Viu afastarem-se as coisas sem as quais não há felicidade e restou-lhe apenas uma desdita inevitável. não conheço tua face. 2 Ibidem. fechada a porta. dize agora a Deus: Busco tua face. 41 . é tua face que eu quero. Se não estás em mim. Senhor meu Deus. 4 I Timóteo 6:16. meu coração.3 E agora. Gostaria de procurar-te e desconhece os traços de teu rosto. 6 Sl 77:25. Lança para longe de ti tuas pesadas preocupações. Busca a Deus por um momento. 7 Sl 126:2. por um momento nele repousa. Ó mísera sorte do homem.Proslógio Capítulo 1 Exortação à contemplação de Deus Pobre mortal. Senhor. Ó luto 1 Mateus 6:6. concedeste-me todos os bens que possuo e ainda não te conheci. afasta de ti tuas laboriosas inquietudes. onde e como há de buscar-te. se estás ausente. e. Senhor.

et heu. cum facile posset. Ille feliciter tenebat et misere deseruit nos infeliciter egemus et miserabiliter desideramus. ne recedam . ostende nobis teipsum. Jer 14. sed respirem sperando. oblivisceris nos. amaricatum est cor meum sua desolatione. Obsecro. “adiuva” nos [Ps 78. Domine. unum de aliis miseris filiis Evae elongatis a Deo! quid incepi.3] in intimis meis. unde sumus expulsi. Ps 12. usquequo? Usquequo. Domine. Miserare labores et conatus nostros ad te. Requiem quaerebam in secreto meo et “tribulationem et dolorem inveni” [Ps 114. unde densentur suspiria! Et o “tu. Obsecro. quo tam graviter careremus? Quare sic nobis obseravit lucem et obduxit nos tenebris? Ut quid nobis abstulit vitam et inflixit mortem? Aerumnosi. Domine. indulca illud tua consolatione. A iucunditate immortalitatis in amaritudinem et horrorem mortis.9]. Famelicus accessi. esuriens incepi quaerere te. illumina nos. Restitue te nobis. qui nihil valemus sine te. Ille abundabat nos mendicamus. Volebam ridere a gaudio mentis meae et cogor “rugire a gemitu cordis mei” [Ps 37.9]. Domine.4.19]! Tendebam in Deum et offendi in me ipsum.9. exaudi. Domine. in quibus suspiro? “Quaesivi bona et ecce turbatio” [Ps 121. Invita nos. grave totum! Sed heu me miserum. Obsecro. usquequo avertis faciem tuam a nobis”? Quando “respicies et exaudies” nos? Quando “illuminabis oculos” nostros et “ostendes” [Ps 6. gravis dolor.42 Santo Anselmo de Cantuária universalis planctus filiorum Adae! Ille ructabat saturitate nos suspiramus esurie. Misera mutatio! De quanto bono in quantum malum! Grave damnum. Domine. a visione Dei in caecitatem nostram. quo sumus impulsi! Unde praecipitati.1-4] nobis “faciem tuam” [Ps 79.8]? Quando restitues te nobis? Respice. ne desperem suspirando. quid effeci? Quo tendebam. vacui remanemus! Cur non nobis custodivit.4. ut bene sit nobis. quo obruti! A patria in exsilium. Sperabatur laetitia et ecce. sine quo tam male est nobis. ne desinam ieiunus de te. quo deveni? Ad quid aspirabam.

Tem piedade de nossos trabalhos e dos esforços que fazemos para chegarmos a ti. Jer 14:19. não permitas que me vá sem estar saciado. grave congérie de danos! Desgraçado de mim. estamos imersos na infelicidade e na dor. pois sem ti nada podemos. mostra-te a nós. edulcora-o com tua consolação. 43 . 13 Sl 78:9. 9 Sl 114:3. Ó mudança funesta! Que mal medonho tomou o lugar de tamanho bem! Grave perda. Senhor. Suplico-te. Tu nos convidas.Proslógio público dos homens. 12 Sl 79:4 e 8.9 Queria alegrar-me com toda a alegria de minha alma e vejo-me obrigado a gemer os gemidos de meu coração. Possuía a felicidade e tudo perdeu. Sem ti não temos senão desditas. Pobre que sou. E tu. atende aos nossos desejos para que sejamos novamente felizes. pus-me a buscar-te atormentado pela fome. como ele. Senhor. de onde fomos expulsos? Para onde fomos impelidos? De onde fomos precipitados? Onde fomos sepultados? Da pátria passamos ao desterro. ajuda-nos. até quando? Até quando nos esquecerás? Até quando apartarás de nós a tua face? Quando nos fitarás e ouvirás? Quando iluminarás os nossos olhos e nos mostrarás11 a tua face?12 Quando atenderás aos nossos desejos? Senhor. ouve-nos. O que empreendi? O que efetuei? Para onde me dirigia? Aonde cheguei? A que aspirava? Qual a razão de meus suspiros? Eu buscava a ventura e encontro a perturbação. Aproximei-me de ti famélico. volve teus olhos para nós. Por que não preservou para nós o bem cuja perda haveria de ser-nos tão dolorosa? Por que nos vedou o acesso à luz e rodeou-nos de trevas? Por que nos tirou a vida e votou-nos à morte? Desgraçados de nós. 8 Sl 121:9. nós gememos na penúria. ó pranto universal dos filhos de Adão! Nosso primeiro pai comia até fartar-se. ele tinha em abundância e nós mendigamos. Da doçura da imortalidade à amargura e ao horror da morte.8 Buscava o repouso no segredo de meu coração e lá achei tribulação e dor. não deixes que eu me afaste sem me ter alimentado. Senhor. Suplico-te.13 Suplico-te.10 Eu esperava a felicidade e eis que se me adensam meus suspiros. ilumina-nos. 10 Sl 37:9. mas respire esperando. que eu não desespere suspirando. da visão de Deus à cegueira em que nos achamos. um dentre outros desgraçados filhos de Eva apartados de Deus. 11 Sl 6:4 e 12:1-4. Senhor. nossos desejos trazem a marca de nosso sofrimento e não são satisfeitos. grave dor. meu coração está amargurado em seu desconsolo.

Inveniam amando.44 Santo Anselmo de Cantuária impastus.1]? Sed certe ipse idem insipiens. Et quidem credimus te esse aliquid quo nihil maius cogitari possit. Doce me quaerere te et ostende te quaerenti. quantum scis expedire. ne redeam vacuus et contemptus.1. Evolve me. quia nec quaerere te possum. II Quod vere sit Deus Ergo Domine. ut tui memor te cogitem. quam credit et amat cor meum. Et si “antequam comedam. sed credo ut intelligam. sed desidero aliquatenus intelligere veritatem tuam. desiderem quaerendo. intelligam. nisi te ostendas. ne “urgeat puteus” earum “os suum super me” [Ps 68. et hoc es quod credimus. nec invenire. et gratias ago. Sed sic est abolita attritione vitiorum. qui das fidei intellectum. ut possim sursum intendere. Fateor. suspiro” [Iob 3. incurvatus non possum nisi deorsum aspicere. Non tento. Nam et hoc credo: quia “nisi credidero.9]. quia nullatenus comparo illi intellectum meum. nisi tu doceas.16]. Quaeram te desiderando. non intelligam” [Is 7. vel de longe. An ergo non est aliqua talis natura. Domine. nisi tu renoves et reformes eam. exonera me. 52. Domine. Liceat mihi suspicere lucem tuam. amem inveniendo. da mihi. miser ad misericordem. quia creasti in me hanc “imaginem tuam” [Gen 1. Neque enim quaero intelligere ut credam. vel de profundo. penetrare altitudinem tuam. ad quod facta est. da vel post suspiria quod comedam. te amem. Pauper veni ad divitem. quia «dixit insipiens in corde suo: non est Deus» [Ps 13. “Iniquitates meae supergressae caput meum” obvolvunt me.24]. Domine. cum . quia es sicut credimus. sic offuscata fumo peccatorum. ut.27]. erige me.5] gravant me. ut non possit facere. “et sicut onus grave” [Ps 37.

porque o insensato disse em seu coração: Não há Deus.18 Capítulo 2 Que Deus existe verdadeiramente Tu. Reconheço. na medida de minhas forças. Encurvado como estou. 16 Sl 68:16. compreender que tu existes. 18 Is 7:9. e que és o que cremos. mostra-te a quem te busca. 15 Sl 37:5. pois. Senhor.15 Livra-me destes obstáculos. porque não posso buscar-te se não me ensinas o caminho. Minhas iniqüidades já ultrapassam minha cabeça.19 Mas quando esse 14 Jó 3:24. que dás o entendimento da fé. que eu te deseje buscando-te. Ergue-me. Senhor. portanto. rodeiam-me inteiramente e me oprimem como uma carga pesada. Mas tão destruída está ela por obra dos vícios. Que eu te busque desejando-te. penetrar tua profundidade. com efeito. concede-me. Trata-se. mas desejo. Cremos. Creio. não entenderei. Senhor. E se suspiro antes de comer. desembaraça-me deste peso. para que eu possa fitar o céu. tão escurecida pelo fumo dos pecados. depois de meus suspiros. desgraçado que sou. Não tento. a fim de que eu não seja por eles tragado. o que eu coma. de saber se tal ser existe. se não crer.Proslógio acerquei-me do rico. compreender tua verdade. pois a ela de modo algum pode comparar-se minha inteligência. Ensina-me a buscar-te. que não pode alcançar o fim a que fora destinada. que eu te ame encontrando-te. para que te ame. Não posso encontrar-te se não te mostras a mim. como pela boca de um poço. ao menos de longe.17 para que me lembre de ti.16 Seja-me permitido volver meus olhos para a tua luz. pois. com efeito. 17 Gn 1:27. e dou-te graças por teres criado em mim esta tua imagem.14 dá-me ao menos. em que crê e que ama meu coração. que acima de ti nada pode ser concebido pelo pensamento. que eu te encontre amando-te. como o cremos. acerquei-me do misericordioso. na medida em que este conhecimento pode ser-me útil. a não ser que a reformes e renoves. não posso olhar senão para baixo. mas creio para entender. Senhor. 45 . não permitas que me vá de mãos vazias e desprezado. 19 Sl 13: 1 e 52:1. ao menos do fundo de meu abismo. para que pense em ti. Pois não busco entender para crer.

quod convenire non potest. ascenderet creatura super creatorem et iudicaret de creatore. Sic ergo vere est aliquid quo maius cogitari non potest. et in intellectu et in re. ut nec cogitari possis non esse. Quare si id quo maius nequit cogitari. etiam si non intelligat illud esse. non potest esse in solo intellectu. Deus meus. habet quidem in intellectu. ut nec cogitari possit non esse. Domine Deus noster. non est id quo maius cogitari nequit. intelligit. Et hoc es tu. Existit ergo procul dubio aliquid quo maius cogitari non valet. quod valde est absurdum. potest cogitari esse et in re. Et merito. sed nondum intelligit esse quod nondum fecit. Sic ergo vere es. Domine. potest cogitari non esse: id ipsum quo maius cogitari nequit. quod maius est. et quod intelligit. et quidquid intelligitur. Aliud enim est rem esse in intellectu. est in solo intellectu: id ipsum quo maius cogitari non potest. in intellectu est. quod non possit cogitari non esse. Si enim vel in solo intellectu est. intelligit quod audit. alium intelligere rem esse. et habet in intellectu et intelligit esse quod iam fecit. Et quidem quidquid est . in intellectu eius est. quia hoc. ut nec cogitari possit non esse. cum audit. Et certe id quo maius cogitari nequit.46 Santo Anselmo de Cantuária audit hoc ipsum quod dico: ‘aliquid quo maius nihil cogitari potest’. Convincitur ergo etiam insipiens esse vel in intellectu aliquid quo nihil maius cogitari potest. Nam cum pictor praecogitat quae facturus est. Cum vero iam pinxit. Sed certe hoc esse non potest. Si enim aliqua mens posset cogitare aliquid melius te. est quo maius cogitari potest. quod maius est quam quod non esse cogitari potest. Nam potest cogitari esse aliquid. III Quod non possit cogitari non esse Quod utique sic vere est. Si ergo id quo maius cogitari non potest.

Porque uma coisa é ter a idéia de um objeto qualquer. nem no pensamento nem na realidade. de fato. que não se pode sequer pensar que não o seja. Quando um pintor pensa de antemão naquilo que vai pintar. tal que haveria algo acima dele. já pintou. e de tal sorte que nem sequer pode ser pensado como não-existente. ainda que não creia que existe o objeto desse pensamento. conclusão esta que não seria legítima. na verdade. mas sabe que ainda não existe. se uma inteligência pudesse conceber algo que fosse melhor do que tu. sem dúvida alguma. ele entende o que ouve. o que quer que exista fora de ti. Capítulo 3 Que não se pode pensar que Deus não existe Isto. decerto tem aquilo no intelecto. Existe. se assim fosse. e outra é crer em sua existência. Existe. um ser acima do qual não se pode pensar o que quer que seja. porque. que não se pode sequer pensar que não existes. necessariamente. E este ser és tu. que existe também na realidade. verdadeiramente. nova condição que faria um ser maior do que aquele que não tem existência senão no puro e simples pensamento. a criatura se elevaria acima do Criador e viria a ser juiz do Criador. porque quando ouve enunciar este pensamento entende-o. é maior do que aquele cuja idéia não implica. Portanto. um ser acima do qual não podemos erigir um outro. é tão verdadeiro. portanto. a existência. e qualquer coisa que se entenda está no intelecto. Senhor meu Deus. se o ser acima do qual não se pode pensar nada maior pode ser considerado não-existente. mas também sabe que o fez. Por isso. E. o que é inteiramente absurdo. não existe somente na inteligência. o que é uma conclusão necessariamente contraditória. o pensamento está em sua inteligência. pelo menos. porém. E tão verdadeiramente existes. poder-se-ia supor. seria. visto que ainda não o fez.Proslógio mesmo insensato ouve-me dizer que há um ser acima do qual nada maior podemos pensar. E. não somente o tem no espírito. por conseguinte. Senhor nosso Deus. esse objeto acima do qual não se pode pensar nada maior. pode 47 . O insensato tem de convir que tem no intelecto a idéia de um ser acima do qual não se pode pensar nada maior. Quando. sem sombra de dúvida. segue-se que este ser que não tinha igual já não é aquele acima do qual nada maior se possa conceber. portanto. se esse objeto acima do qual não há nada maior estivesse somente na inteligência. Porque se pode conceber um ser tal que não possa ser pensado como não existente na realidade e que. e com razão: pois. sem embargo.

nisi quia stultus et insipiens? IV Quomodo insipiens dixit in corde. Sed hoc de te cogitari non potest. quia quidquid aliud est. gratias tibi. omnia alia fecit de nihilo? Quidquid enim hoc non est. aut quomodo cogitare non potuit quod dixit in corde. Cur itaque “dixit insipiens in corde suo: non est Deus” [Ps 13. quo nil maius valet cogitari? Sed quid es. Quod ergo bonum deest summo . ut. quod cogitari non potest Verum quomodo dixit in corde quod cogitare non potuit. quia cogitare non potuit: non uno tantum modo dicitur aliquid in corde et cogitatur. Deus enim est id quo maius cogitari non potest. quia quod prius credidi te donante. cum tam in promptu sit rationali menti te maxime omnium esse? Cur. Solus igitur verissime omnium et ideo maxime omnium habes esse. potest cogitari non esse. nisi id quod summum omnium solum existens per seipsum. et non dixit in corde. immo quia vere et cogitavit. non possim non intelligere. 52.1]. licet haec verba dicat in corde. aliter cum id ipsum quod res est intelligitur. ut nec cogitatione queat non esse. bone Domine. quia dixit in corde. nequit eum non esse cogitare. iam sic intelligo te illuminante. cum idem sit dicere in corde et cogitare? Quod si vere. minus est quam cogitari possit. Illo itaque modo potest cogitari Deus non esse. Domine Deus. si te esse nolim credere. non sic vere. isto vero minime. Aliter enim cogitatur re. utique intelligit id ipsum sic esse. potest cogitare quia Deus non est. Qui ergo intelligit sic esse Deum.1. cum vox eam significans cogitatur. Quod qui bene intelligit. Gratias tibi.48 Santo Anselmo de Cantuária aliud praeter te solum. et idcirco minus habet esse. aut sine ulla aut cum aliqua extranea significatione. Nullus quippe intelligens id quod Deus est. V Quod Deus sit quidquid melius est esse quam non esse: et solus existens per se omnia alia faciat de nihilo Quid igitur es.

quer sem lhes atribuir sentido algum. graças te sejam dadas. Mas isto não pode ser pensado de ti. ainda que profira estas palavras em seu coração. e. Quem compreende isto bem. outra coisa é a inteligência entender o que aquilo é. Graças te sejam dadas. pois. eu compreendo agora graças à luz com que me iluminas. Somente a ti pertence a qualidade de existir verdadeiramente e no mais alto grau. pois. porque Deus é um ser tal que não se pode conceber nada maior do que Ele. sendo o único que existe por si mesmo. não. compreende ao mesmo tempo que tal ser não pode ser pensado sem existir de fato. quando é tão fácil a uma mente racional compreender que existes em grau maior do que todas as coisas? Por que. eu não poderia pensá-lo. porque aquilo que. se é possível dizer verdadeiramente o que pensou. uma vez que foi dito em seu coração. ou como não pôde pensar o que disse em seu coração. fez tudo do nada Quem és. existindo sozinho acima de todos por si mesmo. ao mesmo tempo. Uma coisa é pensar em algo quando se pensa na palavra que o designa. que possa compreender o que Deus é pode pensar que Deus não existe. não o ter dito em seu coração porque não pôde pensá-lo. No primeiro sentido. quer atribuindo-lhes um outro significado. e que. Ninguém. no segundo. cumpre admitir que há mais de uma maneira de dizer em seu coração ou de pensar. falta ao Sumo Bem. portanto. e ainda que eu não quisesse crer que existes.Proslógio ser pensado como não-existente. com efeito. tudo o mais fez a partir do nada? Porque tudo que não é esse poder. disse o insensato em seu coração: Não há Deus. acima de quem não se pode pensar nada maior? E quem podes ser senão aquele que. eu cri pelo dom com que me agraciaste. senão por ser insensato e sem inteligência? Capítulo 4 Como o insensato disse em seu coração o que não se pode pensar Mas como o insensato disse em seu coração o que não pôde pensar. Por que. é inferior ao que pode ser pensado por nós. uma vez que dizer em seu coração e pensar são a mesma coisa? E. Capítulo 5 Que Deus é tudo aquilo que é melhor que exista do que não exista. no princípio. do 49 . Que bem. Senhor meu Deus. pode-se pensar que Deus não existe. Senhor.

si omnia non potes? Aut si non potes corrumpi nec mentiri nec facere verum esse falsum. sive aliquo alio genere loquendi. sed impotentia. et quidquid melius est esse quam non esse. sentire quidquid aliquo modo cognoscit. Nam saepe dicimus ei. sed quia sua impotentia facit aliud in se posse. vere tamen eo modo summe sensibilis es. non potentia potest. Melius namque est esse iustum quam non iustum. cum multa non possit Sed et omnipotens quomodo es. Domine. aut pro ‘nihil facere’. Ut cum ponimus ‘esse’ pro ‘non esse’. VI Quomodo sit sensibilis. aut omnipotens. sed summus spiritus. quo summe omnia cognoscis. Ergo. si non es corpus. cum non sit corpus Verum cum melius sit esse sensibilem. Qui ergo sic potest. si omnia non potes. sed impotentia? Nam qui haec potest quod sibi non expedit et quod non debet potest. omnipotentem. quemadmodum dicis esse. misericordem. et plura similiter: quomodo potes omnia? An haec posse non est potentia. ut quod factum est non esse factum. qui rem aliquam esse negat: sic est. quamvis non sis corpus. sicut multa improprie dicuntur. verax. ut per visum colores. Quae quanto magis potest. per quod est omne bonum? Tu es itaque iustus. per gustum sapores : non inconvenienter dicitur aliquo modo. non quo animal corporeo sensu cognoscit.50 Santo Anselmo de Cantuária bono. VII Quomodo sit omnipotens. et ‘facere’ pro eo quod est ‘non facere’. beatus. cum magis proprie videatur dici: sic non . quoniam sensus circa corpus et in corpore sunt: quomodo es sensibilis. impassibilem quam non esse: quomodo es sensibilis. aut misericors simul et impassibilis? Nam si sola corporea sunt sensibilia. quia ipse possit. qui corpore melior est? Sed si sentire non nisi cognoscere aut non nisi ad cognoscendum est qui enim sentit cognoscit secundum sensuum proprietatem. beatum quam non beatum. Non enim ideo dicitur posse. cum non sis corpus. tanto magis adversitas et perversitas possunt in illum et ipse minus contra illas.

embora fosse mais próprio dizer na verdade a coisa não é como dizes 51 . como podes tudo? Ou. Senhor. sendo melhor seres sensível. Pois é melhor ser justo do que não justo. Capítulo 7 Como Deus é onipotente. impassível? Visto que somente os seres corpóreos são sensíveis. e outras coisas semelhantes. E. portanto. onipotente. mas impotência. Capítulo 6 Como Deus é sensível. É um modo de falar impróprio. do que careceres de todos estes atributos. como muitas outras coisas que se dizem. visto que conheces todas as coisas em seu próprio ser. embora muitas coisas lhe sejam impossíveis Mas como és onipotente se não podes tudo? Se não podes corromper-te. como as cores pela vista. porque os sentidos se estendem pelo corpo e fazem parte dele. a alguém que nega algo. porventura. que as conhece apenas por seus sentidos corporais. ou mentir. Dizemos freqüentemente. ou cheio de misericórdia. poder estas coisas não é potência. semelhante faculdade [de fazer o mal] não é poder. sem embargo. embora não sejas corpo. mas espírito supremo e. os sabores pelo paladar. não é impróprio dizer que todo ser que conhece. soberanamente sensível. por isso mesmo. se sentir é conhecer ou algo orientado para o conhecimento. misericordioso. tanto mais poder tem sobre ele a adversidade e o mal e menos poder tem ele contra uma e outro. e tudo que é melhor ser do que não ser. és. e não como um animal. melhor do que o corpo? Mas. mas que a sua impotência faz com que outros tenham poder sobre ele. feliz. quanto mais poderoso é alguém desta maneira. mas sim impotência? Porque o que pode fazer tais coisas pode fazer o que é funesto ou vai contra seu dever. E por isso não se diz que ele próprio possui o poder. embora não seja corpo Mas. é como dizes. como podes ser sensível. Logo. feliz do que não feliz. justo. por exemplo. impassível.Proslógio qual emana todo bem? És. Deste modo. nem fazer com que o verdadeiro seja falso ou que o feito seja não feito. portanto. Usamos. como és sensível se não tens corpo. se não és corpo. Ora. e. verdadeiro. ser por não ser e fazer para exprimir não fazer ou não fazer nada. ao mesmo tempo. o que sente conhece segundo as propriedades dos sentidos. ou todo poderoso se não podes tudo. sente.

non est tibi miserum cor ex compassione miseri. non compateris.52 Santo Anselmo de Cantuária est quemadmodum dicis non esse. eo adversitas et perversitas in illum sunt potentiores. aut: iste quiescit. latet hoc in «luce inaccessibili quam habitas» [1 Tim 6. Item dicimus: iste sedet. At si non es misericors. Domine. Domine Deus. et non es secundum tuum. cum dicitur habere potentiam faciendi aut patiendi quod sibi non expedit aut quod non debet.16]? Vere in altissimo et secretissimo bonitatis . quod est esse misericordem. unde tibi salvare malos. Etenim cum tu respicis nos miseros. nos sentimus misericordis effectum. et nihil potest contra te. inde verius et omnipotens. si hoc non est iustum. sicut ille facit. quia nihil potes per impotentiam. impotentia intelligitur per potentiam. cum ‘sedere’ sit quiddam non facere et ‘quiescere’ sit nihil facere. bone Deus. Sic itaque. quia quo plus habet hanc potentiam. et non es secundum te? Es quippe secundum nostrum sensum. et tu facis aliquid non iustum? An quia bonitas tua est incomprehensibilis. quia nulla miseriae compassione afficeris. et misericors non es. IX Quomodo totus iustus es et summe iustus parcat malis. unde miseris est tanta consolatio? Quomodo ergo es et non es misericors. si es totus iustus et summe iustus? Quomodo enim totus et summe iustus facit aliquid non iustum? Aut quae iustitia est merenti mortem aeternam dare vitam sempiternam? Unde ergo. sicut ille facit. VIII Quomodo sit misericors et impassibilis Sed et misericors simul et impassibilis quomodo es? Nam si es impassibilis. si non compateris. Et misericors es igitur. bone bonis et malis. nisi quia es misericors secundum nos. et ille contra eas impotentior. quia misericors salvas et peccatoribus tuis parcis. tu non sentis affectum. et quod iuste misereatur malis Verum malis quomodo parcis. Ergo.

e se não os compartes. de onde provém a consolação que proporcionas aos desgraçados? Como. Capítulo 8 Como é misericordioso e impassível Mas como és. senão sendo-o de acordo com o nosso modo de ser. se não és misericordioso. e não o és porque não podes ser afetado pela compaixão de nossas misérias. pois. Senhor nosso Deus. porque nada podes no que é fruto da impotência e nada pode contra ti. sentimos o efeito da tua misericórdia. perdoa os maus e com justiça deles se comisera Mas se és absoluta e soberanamente justo. tu és verdadeiramente onipotente. com efeito. Assim. bom para os bons e para os maus. de onde vem que salves os maus. e tanto mais ele é fraco contra elas. pois. Também dizemos este se senta como aquele ou este descansa como o faz aqueloutro. misericordioso porque salvas os desgraçados e perdoas os pecadores. misericordioso e impassível? Pois. és e não és misericordioso. como perdoas os maus? Sendo absoluta e soberanamente justo. Assim. ainda que se empregue a palavra potência. És. não compartes nossos padecimentos. embora por sentar-se entendamos não fazer algo e por descansar entendamos não fazer nada. porque quanto mais poderoso é neste sentido. portanto. simultaneamente. tanto mais fortes são contra ele o infortúnio e a perversidade. Na verdade. pois é nisto que consiste o ser misericordioso. mas não sentes o sofrimento causado pela vista delas. isto fi-ca oculto na luz inacessível em que habitas? Verdadeiramente é no altíssimo e 53 . Mas. mas não para que os experimentes. quando se diz de alguém que tem o poder de fazer ou sofrer algo que não lhe convém ou que não deve fazer. sendo total e soberanamente justo. não tens um coração misericordioso que se compadeça do miserável. como fazes algo injusto? Ou que justiça há em dar a vida eterna a quem merece a morte eterna? De onde vem. Deus bom. Capítulo 9 Como. para que te compadeças de nossos sofrimentos. e não com o teu? Tu o és. quando volves teus olhos para as nossas misérias. sendo a tua bondade incompreensível. entende-se que se trata de impotência. se és impassível. Senhor. se isto não é justo e não podes fazer nada injusto? Acaso isto acontece porque. portanto.Proslógio que não é.

istos mala. necessarium tamen est credere. et in altitudine bonitatis latet. Melior est enim qui et bonis et malis bonus est. qua ratione hoc es. Et melior est. et non perspicitur fons. Etenim licet bonis bona et malis mala ex bonitate retribuas. quae sic omnem intellectum excedis. unde manat fluvius misericordiae tuae. quam qui bonis tantum est bonus. quia totus et summe bonus es. istos vero liberas iustitia damnante. et non pervidetur. O altitudo bonitatis tuae. Parce per clementiam. Ideo ergo misericors es. unde nascatur. ne ulciscaris per iustitiam. cognoscendo. quae profluit de te. illud certe penitus est mirandum. unde flumen manat. tamen idcirco etiam malis benignus es. quo affectu amanda es peccatoribus!  Iustos enim salvas iustitia comitante. Nam cum totus et summe iustus sis.54 Santo Anselmo de Cantuária tuae latet fons. unde sis misericors. Illos meritis adiuvantibus  istos meritis repugnantibus. et mirum est. cur bonis bona et malis mala retribuas. quae de tanta opulentia tui procedit! Influat in me. O misericordia. quomodo misericordia tua non absit a tua iustitia. Et cum forsitan videatur. quia totus summe bonus es. ignoscendo. O immensa bonitas. quae dedisti. Deus! et videtur. cur summe iustus hoc velle potuit. Nam etsi difficile sit intelligere. quae odisti. quia nequamquam adversatur quod exun- . quam qui puniendo tantum. veniat super me misericordia illa. Illos bona. Cum vero malis bona tribuis: et scitur. ratio tamen iustitiae hoc postulare videtur. qui malis et puniendo et parcendo est bonus. quia summe bonus hoc facere voluit. si nulli malo esses benignus. de quam opulenta dulcedine et dulci opulentia nobis profluis! O immensitas bonitatis Dei. Nam et de plenitudine bonitatis est. cur tu totus iustus et nullo egens malis et reis tuis bona tribuas. Cernitur. Minus namque bonus esses. quia peccatoribus tuis pius es.

esta distribuição é também conseqüência da tua justiça. livras os pecadores ainda quando a justiça os condena. embora seja difícil compreender como a tua misericórdia não se aparta da tua justiça. misericordioso. Ó misericórdia. que aquilo que extravasa da superabundância de tua bondade de modo algum contraria a justiça. Porque aquele que é bom para os bons e para os maus é melhor do que aquele que o é somente para os bons. merecer o céu. [N. que não precisas do auxílio de ninguém. Mas quando concedes um bem aos maus. mas nosso olhar não vai mais além. És. Ó profundeza da bondade tua. absolutamente justo. Uns por conheceres os bens que lhes deste. a qual foi desenvolvida tempos depois por Santo Tomás de Aquino e acolhida pelo Magistério da Igreja. mas ainda assim nos espantamos de que tua soberana justiça tenha podido querê-lo. O tema da predestinação. por esforços próprios. sabemos que tua bondade o quis. Em resumo: ninguém se salva por méritos próprios. mas a razão deste amor está na profundeza da tua bondade. Perdoa-me por tua clemência. Ó bondade imensa. Pois. inclinas-te a fazer bem aos maus. e sim pelo mérito do sangue de Cristo vertido na cruz. mas por uma dileção eterna. Porque. por outro lado. e aquele que é bom castigando e perdoando os maus é melhor do que aquele que não é bom senão castigando-os. mas também nos períodos que se lhe seguiram. pois. a ti. Mesmo o justo não é capaz de. é necessário crer. com que grande amor deves ser amada pelos pecadores! Salvas os justos em nome da justiça.] 55 .20 outros a alcançam apesar de seus deméritos. dar teus bens aos maus e aos culpados. embora recompenses os bons e castigues os maus movido por tua bondade. com que abundante doçura e com que doce abundância fluis até nós! Ó imensidão da bondade divina. que ultrapassa todo pensamento! Caia sobre mim aquela misericórdia que promana de tua opulência! Que aquilo que de ti promana chegue até mim. e como. serias menos bom se não fosses bom para alguém mau. Uns devem a salvação a seus méritos. contudo.C. Porque. meu Deus! Vemos de onde promana tua misericórdia. absolutamente misteriosa.Proslógio secretíssimo âmago de tua bondade que está oculta a fonte de onde flui o rio da tua misericórdia. mas não distinguimos a fonte de onde nasce. Com efeito. ainda que sejas absoluta e soberanamente justo. porque és absoluta e soberanamente bom. Coloquemos em termos tomistas: Deus não salva uma pessoa em previsão dos méritos que ela presumivelmente terá neste mundo. é fácil ver por que dás o prêmio aos bons e o castigo aos maus. não te vingues por tua justiça. outros por neles perdoares o mal que odeias. com boas razões nos admiramos profundamente ao vermos a ti. porque essa bondade não 20 Aqui se vê como faz falta a Santo Anselmo a noção analógica de mérito. suscitou grandes discussões não apenas na Escolástica. Tiras o teu amor para com o pecador da plenitude de tua bondade. Vemos de onde promana o rio. a propósito. porque és absoluta e soberanamente bom.

quia es summe bonus. quia iustus. non debet fieri. si esses bonus tantum retribuendo et non parcendo. iustum est. ut malos punias. Nam parcendo malis ita iustus es secundum te et non secundum nos. et si faceres de non bonis tantum bonos et non etiam de malis. et alio modo iuste parcis malis? Cum enim punis malos. iniuste fit.56 Santo Anselmo de Cantuária dat ex bonitate. non debes misereri. Vere ergo ideo misericors es. et summe bonus non es. cuius lucem quaero. Ergone misericordia tua nascitur ex iustitia tua? Ergone parcis malis ex iustitia? Si sic est. sicut misericors es secundum nos et non secundum te. non quia nobis reddas debitum. ut nequeas intelligi melior. iustum est. . et ut facias bonos de malis. Quid namque iustius. non quia tu sentias affectum. doce me quomodo est. sicut misericors es. et quod non debet fieri. An quia iustum est te sic esse bonum. iuste et misericors Deus. ut non possis cogitari potentius? Quid enim hoc iustius? Hoc utique non fieret. cum vero parcis malis. adiuva me. quos iuste perderes. et iustum est ut malis parcas? An alio modo iuste punis malos. sed quia nos sentimus effectum: ita iustus es. nisi quia es summe iustus: vere idcirco es misericors. Domine. quia summe iustus es. quae nulla est sine iustitia. fas est credere te iuste misereri malis. ut intelligam quod dico. iniuste misereris. et sic potenter operari. si sic est. quia illorum meritis convenit. Quod si nefas est dicere. sed quia bonitati tuae condecens est. non quia illorum meritis. Denique quod non iuste fit. X Quomodo iuste puniat et iuste parcat malis Sed iustum est. Si ergo non iuste malis misereris. Adiuva me. et si non debes misereri. Quoniam salvando nos. Nempe si misericors es. quam ut boni bona et mali mala recipiant? Quomodo ergo et iustum est ut malos punias. Hoc itaque modo iustum est ut parcas malis. sed quia facis quod decet te summe bonum. immo vere concordat iustitiae. Sic itaque sine repugnantia iuste punis et iuste parcis.

e não com os merecimentos deles. mas não perdoando. e não de acordo com as nossas obras. Pois quando nos salvas a nós. cuja luz eu busco. [N. sumamente bom. acaso. se dizê-lo é algo nefando. quando os perdoas. com efeito. É por seres justo que és bom a ponto de não poderes ser pensado melhor e obras com tal poder que não podes ser pensado mais poderoso? Que haverá. portanto. Assim. Do mesmo modo és justo. pelo contrário.Proslógio pode existir sem a justiça. verdadeiramente misericordioso porque verdadeiramente justo. a quem com justiça deverias condenar. e. Se. portanto. e o que não deve ser feito é feito injustamente. e se fizesses bons somente os que não o são. mais justo que receberem os justos um prêmio e os maus um castigo? Como. és misericordioso não porque sintas um afeto alheio a tua natureza. mais justo do que Deus? Não seria assim. C. ajuda-me para que eu compreenda o que digo. Assim. mas porque fazes o que compete a ti. Então a tua misericórdia nasce da tua justiça? Então a tua justiça perdoa os pecadores? Se assim é. se assim é. compadeces-te injustamente. se é certo que és misericordioso por seres sumamente bom. com efeito. justamente castigas e recompensas. temos de crer que com toda a justiça te compadeces dos maus. 21 Santo Anselmo aqui faz uma distinção entre os que não são bons nem maus e os que são maus. uma justiça que os castiga e outra que os perdoa? Quando castigas os maus é justo que o faças. Ajuda-me. mas não [fizesses também bons] os maus. porque mereceram a punição. a ela está estreitamente unida. e. Senhor. Capítulo 10 Como sem ferir a justiça castiga e perdoa os maus Mas também é justo que castigues os maus. também és justo. aquilo que não é feito com justiça não deve ser feito. assim como és misericordioso segundo aquilo que somos. Ao perdoares os maus és justo segundo a tua justiça. Deus justo e misericordioso. e não és sumamente bom senão porque és sumamente justo. ensina-me como é. Que haverá. portanto. se fosses bom somente retribuindo. Mas. compadeces-te dos maus injustamente.21 Enfim. porque tua vontade se conforma com tua bondade. será justo que aos maus castigues e perdoes? Haverá. e não segundo aquilo que és. com efeito. sem que nisto vá qualquer contradição. mas. mas porque nós sentimos o efeito de tua bondade.] 57 . não porque nos dês algo a nós devido. se não deves compadecer-te. pois. daí se segue que tua suma misericórdia é conseqüência de tua suma justiça. És. não deves compadecer-te.

et illos magis damnes quam istos per summam iustitiam. Iustior enim est qui et bonis et malis. Iustum igitur est secundum te. XII Quod Deus sit ipsa vita qua vivit. bonus.10. et quidem melius esse quam non esse. Sed si utcumque capi potest. Sic ergo nascitur de iustitia tua misericordia tua. et bonitas ipsa qua bonis et malis bonus es. Et utique sine repugnantia. si tantum bonis bona et non malis mala redderes. cur de similibus malis hos magis salves quam illos per summam bonitatem. et cum punis et cum parcis. cur malos potes velle salvare: illud certe nulla ratione comprehendi potest. non est iustum damnari. et sapientia qua sapis. omnipotens. Et hoc est forsitan. Nam id solum iustum est quod vis et non iustum quod non vis. et ita de similibus. non per aliud es quam per teipsum. Quod nequaquam esses. Tu es igitur ipsa vita qua vivis. ut et parcendo sis bonus. et tamen iustus Dominus in omnibus viis suis Sed numquid etiam non est iustum secundum te.58 Santo Anselmo de Cantuária XI Quomodo universae viae Domini misericordia et veritas. non est iustum salvari. iuste et benigne Deus. beatus. et sic de similibus Sed certe quidquid es. quam qui bonis tantum merita retribuit. ut malos punias? Iustum quippe est te sic esse iustum.17]. et quibus vis parcere. misericors et impassibilis. Sic ergo vere es sensibilis. quia quos vis punire. cur summe iustus potest velle bona malis. . 144. sapiens. quemadmodum vivens. quia iustum est te sic esse bonum. Domine. ut iustior nequeas cogitari. Vere igitur «universae viae Domini misericordia et veritas» et tamen «iustus Dominus in omnibus viis suis» [Ps 22. aeternus.

23 e estas duas verdades não estão em contradição. a bondade pela qual és bom para com os bons e os maus. senão por ti mesmo. e assim por diante com os demais atributos. pois. a própria vida pela qual vives. tua misericórdia nasce de tua justiça. É portanto verdade que todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade 22 e. feliz. que castigasses também os maus? Justo é. se é possível compreender por que possas querer salvar os maus. com efeito. Deus justo e benigno. 59 . E talvez por isso o que é soberanamente bom pode querer o bem dos que são maus. 22 Sl 24:10. és verdadeiramente sensível. salves a uns. Porque somente é justo o que queres e injusto o que não queres. verdade é também que o Senhor é justo em todos os seus caminhos. que castigues e perdoes. mais do que a outros. por obra de tua suprema justiça. por obra de tua suprema bondade. pois. sem embargo. Assim. porque é justo que sejas bom até o ponto de perdoares. E tal não serias se apenas recompensasses os bons e não punisses os maus. Assim. 23 Sl 144:1. pois. Capítulo 12 Que Deus é a própria vida pela qual vive e que outro tanto se pode dizer de seus demais atributos Tudo que és não o és por outro. porventura não seria justo. entre seres igualmente maus. porque não é justo que se salvem aqueles a quem queres castigar e que sejam condenados aqueles a quem queres salvar. eterno e tudo que é melhor que exista do que não exista. mais que a outros. e em conformidade com as tuas perfeições. É portanto justo e conforme à tua natureza. misericordioso e impassível. contudo. sábio. o seres justo a tal ponto que nada mais justo do que tu possa ser pensado. “justo é o Senhor em todos os seus caminhos” Mas. também. a sabedoria pela qual és sábio. nem por isso parece impossível compreender por que. do mesmo modo que és vivente.Proslógio Capítulo 11 Como “todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade” e. e condenes a uns. onipotente. bom. Mas. És. Senhor. Pois mais justo é aquele que retribui segundo seus méritos os bons e os maus do que aquele que recompensa apenas os bons.

et tamen et alii spiritus sunt incircumscripti et aeterni. quod de creatis spiritibus cognoscitur. Incircumscriptum vero. Si enim non esset anima tota in singulis membris sui corporis. XIV Quomodo et cur videtur et non videtur Deus a quaerentibus eum An invenisti. quod de te solo intelligitur. non potest simul esse alibi. tu solus incircumscriptus es et aeternus. nullus locus aut tempus te cohibet. quod cum alicubi totum est. sicut non desinis. quod de solis corporeis cernitur. cum alii spiritus sint incircumscripti et aeterni Sed omne quod clauditur aliquatenus loco et tempore. Circumscriptum autem simul et incircumscriptum est. Quod quia de te solo dici potest. non sentiret tota in singulis. quod simul est ubique totum. sic non incipis esse. non tamen ubique. quo nihil melius cogitari . Tu ergo. quod quaerebas? Quaerebas Deum et invenisti eum esse quiddam summum omnium. cum alicubi sit totum. domine. Sed solus quomodo es incircumscriptus? An creatus spiritus ad te collatus est circumscriptus. minus est quam nulla lex loci aut temporis coercet. quod.60 Santo Anselmo de Cantuária XIII Quomodo solus sit incircumscriptus et aeternus. Quoniam ergo maius te nihil est. sed ubique et semper es. potest simul esse totum alibi. singulariter es incircumscriptus et aeternus. Quomodo igitur dicuntur et alii spiritus incircumscripti et aeterni? Et quidem solus es aeternus. ad corpus vero incircumscriptus? Nempe omnino circumscriptum est. quia solus omnium. anima mea.

a não ser por efeito de tua luz e tua verdade? E.’ (.) Vejamos o valor deste argumento.Proslógio Capítulo 13 Como somente Ele é sem limites e eterno. O.: “Os ontologistas apóiam-se integralmente neste capítulo para atribuir a Santo Anselmo sua doutrina. uma condição que só se observa nos corpos. Mas o estar ao mesmo tempo inteiro em toda a parte é próprio apenas de ti.. comparado a ti. ‘Como pôde minha alma compreender isto. cit. não sentiria inteira as impressões que recebe em cada um deles. ao mesmo tempo.B. mas sempre estás em toda a parte. e. Já os seres que. desde que nada existe maior do que tu. são. assim também não tiveste começo. pelas quais se percebe todo o inteligível. foi a ti que ela viu. porque eu não podia ver o que vi. op. também estão inteiramente em outra. apesar de tê-lo encontrado. Santo Anselmo começa por dizer que a alma encontrou a Deus pela reflexão e. mas não em toda a parte. vê-la sem sombra.” 61 . porque se a alma não estivesse inteira em cada membro do corpo. se diz que os outros espíritos também são ilimitados e eternos? Somente tu. está circunscrito pelo tempo e pelo lugar é menor do que aquilo que não está submetido nem à lei do tempo nem à do espaço. como os espíritos criados. Como. de uma ou de outra maneira. Julián Alameda. És portanto. o espírito criado é circunscrito e. estando inteiramente numa parte. pois. somente tu és sem limites e eterno. se não te viu a ti. na verdade. assim como não terás fim. ‘Por que não te vê minha alma. Senhor Deus. segundo a qual podemos ver a Deus diretamente. comparado ao corpo. não o vê. circunscritos e sem limites. não viu nem a luz nem a verdade. está circunscrito o que está inteiramente num lugar e não pode estar ao mesmo tempo em outro. ainda que os demais espíritos também sejam eternos e sem limites. se ela viu a luz e a verdade. E como isto só pode ser afirmado acerca de ti. face a face. nenhum lugar te encerra e nenhum tempo. Senhor.S. que equivale a compreendê-la tal qual é em si mesma. Por via de conseqüência.. o único sem limites e o único eterno. és eterno. se minha alma te encontrou?’ Por aqui se vê que Santo Anselmo estabelece uma grande diferença entre conhecer uma coisa e vê-la intelectualmente. Capítulo 14 Como e por que Deus é e não é visto por aqueles que o buscam24 Ó minh’alma! Encontraste o que buscavas? Buscavas a Deus e chegaste a conhecer o que está acima de todas as coisas.. ainda que os outros espíritos também sejam sem limites e eternos Tudo o que. Raciocina o Santo da seguinte maneira: a inteligência fez-me encontrar a luz e a verdade encontrando a Deus. Mas como se explica que somente tu não tens limites? Será porque. pois entre todos és o único que. maior do que aquilo que nosso 24 Cf. a não ser vendo a luz e a verdade? Pôde compreender verdadeiramente algo de ti. senão vendo a luz e a verdade. não o é? Com efeito.

Quanta namque est lux illa. Domine Deus. quod non sentis quod invenisti? Cur non te sentit.5]. nisi tenebras. Utique et obscuratur sua brevitate. quae uno intuitu videt.3]? Si ergo vidit lucem et veritatem. et quod illum tam certa veritate et vera certitudine intellexisti? Si vero invenisti: quid est. Si non vidit te. Intendit se ut plus videat. sed non vidit te «sicuti es» [1 Joh 3. quaecumque facta sunt. non solum es quo maius cogitari nequit. quam quod vidit. in qua est omne quod verum est et extra quam non nisi nihil et falsum est! Quam immensa est. immo non videt «tenebras. XV Quod maior sit quam cogitari possit Ergo. et tamen nondum te vidit. et reverberatur a te. vidit te. ut pure videat quod desiderat. Nam si non invenisti Deum tuum: quomodo est ille hoc quod invenisti. Quoniam namque valet cogitari esse . Domine cur hoc? Tenebratur oculus eius infirmitate sua. aut reverberatur fulgore tuo? Sed certe et tenebratur in se. Cur hoc. quid aliud es. formator et reformator meus. dic desideranti animae meae. anima mea.62 Santo Anselmo de Cantuária potest. quem invenit esse lucem et veritatem? Quomodo namque intellexit hoc. quid certitudinis et splendoris ibi est! Certe plus quam a creatura valeat intelligi. Domine. et nihil videt ultra hoc quod vidit. et vincitur amplitudine tua. sed es quiddam maius quam cogitari possit. sed videt se non plus posse videre propter tenebras suas. nisi per «lucem tuam et veritatem tuam» [Ps 42. et obruitur tua immensitate. non vidit lucem nec veritatem. quae nullae sunt in te» [1 Joh 1. An et veritas et lux est quod vidit. quod rationali menti lucet! Quam ampla est illa veritas. bonitatem. si invenit te? An non invenit. et hoc esse ubique et semper. lucem. nisi videndo lucem et veritatem? Aut potuit omnino aliquid intelligere de te. et a quo et per quem et quomodo de nihilo facta sunt! Quid puritatis. quid simplicitatis. et hoc esse ipsam vitam. aeternam beatitudinem et beatam aeternitatem. de qua micat omne verum.2]? Domine Deus meus. Vere et contrahitur angustia sua. quia vidit te aliquatenus. sapientiam.

Ou. Por quê. mas não tal qual és?26 Senhor meu Deus. que é a vida. porque em ti não as há. com efeito. se te encontrou? Porventura não te terá encontrado quando supunha compreender que és luz e verdade? Terá ela podido compreender isto a não ser vendo a luz e a verdade? Terá podido compreender algo de tua essência. por quê? Seu olho está entenebrecido por sua debilidade ou deslumbrado por teu esplendor? Sim. pois. dize a minh’alma cheia de desejos. ela te viu. Porque. Sua pequenez a cega e se perde em tua imensidão. Senhor meu Deus. a sabedoria. a bondade. portanto. que certeza. Senhor. Senhor. se não encontraste o teu Deus. do que a criatura pode compreender. és maior do que tudo que se possa pensar. formador e reformador de meu ser. Capítulo 15 Que é maior do que quanto possa ser pensado Assim. Como crer. não viu a luz e a verdade. por que poder e de que maneira foi feito do nada! Que pureza. a bem-aventurança eterna e a eternidade bem-aventurada. não te viu. ela que num único olhar vê tudo que existe. a partir de que. minh’alma não te sente. não vê trevas.27 mas vê que não pode ver mais. e. 27 I Jo 1:5. 63 . que viu a luz e a verdade e. se ela não te viu.Proslógio pensamento pode conceber. pelo contrário. somente trevas. como é o ser que encontraste e como compreendeste com verdade tão firme e tão verdadeira firmeza que o objeto que acabaras de alcançar era Deus? Se. o encontraste. decerto. enfim. a luz. na qual tudo está que é verdadeiro e fora da qual só há o nada e a mentira! Quão imensa é. apesar disso. Intensamente esforça-se por ver mais e nada vê além do que já viu. Quão vasta é aquela verdade. a não ser por tua luz e tua verdade?25 Se. por causa de suas próprias trevas. como é possível que não sintas o que encontraste? Por que. que simplicidade. que esplendor ali se encontra! Muito mais. a menos que te tenha visto de certo modo. ela viu a luz e a verdade. 25 Sl 42:3. melhor dizendo. para que. seu olho está obscurecido por suas trevas e deslumbrado pela tua luz. que está em toda a parte e sempre. dize-lhe que és diferente daquele que ela viu. veja sem véu o que aspira a ver. Não só: és demasiadamente grande para que o nosso pensamento possa sequer conceber-te. 26 I Jo 3:2.

Intra me et circa me es et non te sentio. sicut infirmus oculus quod videt. quod fieri nequit. o tota et beata veritas. haec est «lux inaccessibilis.64 Santo Anselmo de Cantuária aliquid huiusmodi: si tu non es hoc ipsum. Non potest intellectus meus ad illam. vincitur amplitudine.16]. XVII Quod in Deo sit harmonia. quam in ipso sole nequit aspicere. Domine. XVI Quod haec sit lux inaccessibilis. quam longe es a me. Vere ideo hanc non video. animam meam in luce et beatitudine tua. obruitur immensitate. pulchritudo suo ineffabili modo Adhuc lates. lenitas. potest cogitari aliquid maius te. quia nimia mihi est. qui tam prope tibi sum! Quam remota es a conspectu meo. Circumspicit enim . Nimis fulget. O summa et inaccessibilis lux. confunditur capacitate. Reverberatur fulgore. qui sic praesens sum conspectui tuo! Ubique es tota praesens et non te video.28] et ad te non possum accedere. ut ibi te pervideat. Vere enim non est aliud quod hanc penetret. odor. per lucem solis videt. per illam video. in qua habitas» [1 Tim 6. nec suffert oculus animae meae diu intendere in illam. sapor. Domine. et idcirco versatur illa adhuc in tenebris et miseria sua. quam inhabitat Vere. «In te moveor et in te sum» [Apg 17. non capit illam. et tamen quidquid video.

sua grandeza os supera. Capítulo 16 Que esta é “a luz inacessível que habita” 28 Verdadeiramente. é porque é excessiva para mim. porque verdadeiramente ninguém nela pode penetrar para ver-te com claridade. a luz em que habitas. Senhor. como o Santo as definiu no capítulo 2. e. sua imensidão os oprime. os olhos de minh’alma não podem fitá-la por muito tempo nem suportar sua luz. quão longe estás de mim. a beleza. Ó luz suprema e inacessível. o sabor. de uma maneira inefável que lhe é própria Ainda estás oculto a minh’alma. e eu não te vejo. Não obstante. no entanto. e por isso ainda está ela em sua treva e sua miséria.S. Movo-me em ti. mas Deus é luz e verdade. estou em ti e não posso chegar a ti. se esse ser não for tu mesmo. ainda que seja possível pensar que existe tal ser. seria possível pensar em algo maior do que tu. como dizem os ontologistas. por conseguinte. Tu estás em mim. Seu brilho os deslumbra. que tão próximo estou de ti! Quão distante estás de minha presença. 65 . e eu não te sinto.. ela difunde um esplendor demasiado vivo que não se pode suportar.Proslógio Porque. mas não pode vê-la diretamente em sua fonte’. ó verdade profunda e feliz. esta é a luz inacessível que habitas.” 29 I Tm 6:16. E se eu não a vejo. por ela vejo tudo o que vejo. Mas como chegou a alma a ver a Deus? Pela luz e pela verdade abstrata. Meu entendimento não pode alcançar essa luz. sua extensão os confunde. O mesmo ocorre com o olho enfermo. assim como nossos olhos débeis vêem o que vêem graças à luz do sol. não vê essa verdade senão através das trevas.: “A alma chegou a ver a Deus.B. a brandura. a alma vê pela luz de Deus. além de ti. oculto em tua luz e bem-aventurança. mas não vê a luz em Deus. em seu reflexo nas criaturas: Quia vidit te aliquatenus. Por conseguinte. No capítulo 16 completa nosso Santo seu pensamento de uma maneira muito clara: ‘É verdadeiramente inacessível. que vê pela luz do sol o que vê. Por conseguinte. algo que é inteiramente impossível.29 porque ninguém. sem embargo. Senhor. Senhor. e. o odor. tudo que vejo eu vejo graças a ela. que não podem contemplar diretamente. Capítulo 17 Que em Deus se encontra a harmonia. penetra bastante sua profundidade para nela claramente contemplar-te. a alma chegou a ver a luz e a verdade: Si ergo vidit lucem et veritatem vidit te. op. cit. sed non vidit te sicuti es. enquanto eu estou continuamente na tua! Em toda parte estás presente e inteiro. O. Ela olha ao redor de 28 Julián Alameda. ao redor de mim. porque seu fulgor é demasiado para meus olhos. Já não a vejo. é pela luz criada que a alma se eleva até ver a luz primeira e a verdade incriada.

aeternitas es. Gustat et non cognoscit saporem tuum. Domine» [Ps 24. Domine Deus. et toto intellectu iterum intendat in te. Habes enim haec. Olim certe in illo omnes cecidimus. non invenimus. requiram. Domine. Ante cecidi. cum invenimus. Auscultat et non audit harmoniam tuam. quaerere nescimus. Immo non modo cecidi in eas. qui ea dedisti rebus a te creatis suo sensibili modo. non potest angustus intellectus meus tot uno . et omne verum bonum es. Palpat et non sentit lenitatem tuam. nullae sint partes Et iterum «ecce turbatio» [Jer 14. bonitas es.19] ecce iterum obviat maeror et luctus quaerenti «gaudium et laetitiam» [Ps 50. sana. In illo omnes perdidimus.4] oculum mentis meae. «illumina»[Ps 12. Adiuva me tu «propter bonitatem tuam. sed obriguerunt. Releva me de me ad te.7]. «ut intueatur te» [Hld 6. XVIII Quod in Deo nec in aeternitate eius. in te tuo ineffabili modo. sed sentio me involutum in eis. sed obstructi sunt sensus animae meae vetusto languore peccati. quam «conciperet me mater mea». quid es. quae ipse est. sed obstupuerunt.8f ].12]. beatitudo es. Domine. Certe in illis «conceptus sum» [Ps 50. cum quaerimus. Multa sunt haec. non est quod quaerimus. Olfacit et non percipit odorem tuum. et cum earum obvolutione natus sum. Quid es. Domine. qui facile tenebat et male sibi et nobis perdidit. ne avertas faciem tuam a me» [Ps 26.66 Santo Anselmo de Cantuária et non videt pulchritudinem tuam. Recolligat vires suas anima mea. quod cum volumus. sapientia es. quid te intelliget cor meum? Certe vita es. veritas es. «Quaesivi vultum tuum. vultum tuum.7].12]. «in quo omnes peccavimus» [Röm 5. Munda.10]! Sperabat iam anima mea satietatem et ecce iterum obruitur egestate! Affectebam iam comedere et ecce magis esurire! Conabar assurgere ad lucem Dei et recidi in tenebras meas. acue.

pois. 33 Romanos 5:12. para que possa enfim contemplar-te. de maneira sensível.30 outra pena. e. Estas perfeições são numerosas. minha inteligência. és tudo o que constitui o verdadeiro bem. 2049). Quando buscamos não o encontramos. não apartes de mim a tua face. É certo que nelas fui concebido32 e foi rodeado por elas que nasci. Senhor. és a verdade. 31 Sl 50:10. a eternidade. estreita e cativa. Limpa. 35 Sl 26:8. Esforçava-me por chegar à luz divina e voltei a cair em minhas trevas. que é ele próprio Mas eis uma nova preocupação. 37 Santo Agostinho. Nelas caí antes que minha mãe me concebesse. Ajuda-me.37 Que ela recolha todas as suas forças e com toda sua inteligência vá novamente para ti. Senhor. Senhor! Quem és. Aplica o ouvido e não ouve tua harmonia. qualidades que. adormentar e obstruir pela inveterada languidez do pecado. 36 Sl 12:4. 32 Sl 50:7. deste a tuas criaturas.35 Levanta-me de mim mesmo. perdeu-o para si e para nós. ergue-me em direção a ti. É certo que outrora caímos todos na pessoa daquele em quem todos pecamos. outra aflição para quem busca o contentamento e a alegria. Tens decerto. não pode vê-las todas num 30 Jer 14:19. aguça36 o olho de minh’alma. és a sabedoria. cura. és a bondade. Senhor.31 Já esperava minh’alma ser saciada e eis que de novo a oprime a pobreza! Já me dispunha a comer e eis que me ponho a sentir mais fome. 67 . quando queremos buscá-lo. da maneira inefável que te é própria. Aspira e não sente teu odor. e quando achamos não é o que buscávamos. Apalpa e não sente a tua suavidade. teu rosto buscarei. Prova e não sente o teu sabor. Mas os sentidos de minh’alma se deixaram endurecer. quem és? Como te compreenderá meu coração? Certamente és a vida. mas sinto que me envolvem por todos os lados. E não somente recaí nelas.33 Aquele que tão facilmente possuía esse bem ideal. Senhor meu Deus. In Epistolam Ioannis ad Parthos (PL 35. por tua bondade. Capítulo 18 Que não há partes em Deus nem em sua eternidade. a bem-aventurança.34 Busquei o teu rosto. não sabemos por onde.Proslógio si e não vê tua beleza. 34 Sl 24:7.

nec es plura. immo tu es ipsa unitas. sed simpliciter es extra omne tempus. Domine. sed ubique totus es. nec aliquid futurum est. sed omnia sint in illo Sed si per aeternitatem tuam fuisti et es et eris. sed heri et hodie et cras es. quasi nondum sit? Non ergo fuisti heri aut eris cras. Ergo vita et sapientia et reliqua non sunt partes tui. ut omnibus simul delectetur. tu autem. Nam nihil aliud est heri et hodie et cras quam in tempore. et quod sunt reliqua omnia. sed quodam modo plura et diversum a seipso. licet nihil sit sine te. Nullae igitur partes sunt in te. Et quidem ante omnia es.2] Ultra omnia vero quomodo es? Qualiter enim es ultra ea quae finem non habebunt? . et fuisse non es futurum esse et esse non est fuisse vel futurum esse: quomodo aeternitas tua tota est semper? An de aeternitate tua nihil praeterit. quia «antequam fierent. et aeternitas tua tota est semper. XX Quod sit ante et ultra omnia etiam aeterna Tu ergo imples et complecteris omnia. sed sic es unum quiddam et idem tibi ipsi. Domine.68 Santo Anselmo de Cantuária simul intuitu videre. quo nihil melius cogitari potest. et unumquodque horum est totum quod es. tu es» [Ps 89. non est omnino unum. ut in nullo tibi ipsi sis dissimilis. ut iam non sit. et vel actu vel intellectu dissolvi potest. Nihil enim te continet. quae aliena sunt a te. tu es ante et ultra omnia. aut potius unumquodque horum est totum quod es? Nam quidquid partibus est iunctum. nullo intellectu divisibilis. Quomodo ergo. quae tu es: nusquam et numquam est pars tua aut aeternitatis tuae. Quoniam ergo nec tu habes partes nec tua aeternitas. XIX Quod non sit in loco aut in tempore. Immo nec heri nec hodie nec cras es. es omnia haec? An sunt partes tui. sed omnia sunt unum. non es tamen in loco aut tempore. sed omnia sunt in te. sed tu contines omnia.

assim como não tens partes. simplesmente. és posterior aos seres que não terão fim? 38 Sl 89:2. não estás nem em algum lugar nem no tempo. pelo contrário. pelo contrário. nem nela há nada que haja de vir a ser. ainda que nada exista sem ti. e tudo mais que enumeramos não são parte de teu ser. coisas estas que são estranhas à tua natureza. Ontem. então. Capítulo 19 Que Deus não está num lugar nem no tempo. E. mas ontem. Nada te contém e tu conténs a totalidade do que existe. Como. e se ter sido não é haver de ser. mas tudo está nele Mas se. mas existes. constituem uma única coisa. Portanto. não é nunca nem em lugar algum uma parte de ti ou de tua eternidade. mas. és e serás. mas tudo está em ti. de certo modo. Senhor. efetivamente. e cada uma dessas coisas é aquilo que és e o que são todas as demais.Proslógio relance e gozá-las todas de uma só vez. de tal modo és uno e idêntico a ti mesmo que em nada te diferencias de ti mesmo. Senhor. hoje e amanhã existes. fora de qualquer tempo. todas juntas. Capítulo 20 Que Deus existe antes e depois de tudo e até mesmo do que é eterno Daí se segue que enches e abarcas todas as coisas. de sorte que já não seja.38 Mas como existes depois? Como. mas. por ato ou pensamento. pode ser separado. és tudo isso? São diversas partes de ti ou cada uma delas é tudo que és? Pois tudo que se compõe de partes não é. como é que a tua eternidade está sempre inteira? Será que da tua eternidade nada passa. um. não exististe ontem nem existirás amanhã. mas. Não há. que és tu mesmo. Pelo contrário: és a unidade mesma. a vida e a sabedoria. porque existes desde antes que fossem criadas. Não és múltiplo. hoje e amanhã não existem senão no tempo. que nenhum intelecto pode dividir. partes em ti. Existes antes de tudo. como se ainda não existisse? Portanto. existes antes e depois de tudo. propriamente. foste. portanto. mas estás inteiro onde quer que estejas e a tua eternidade está sempre inteira. tu. hoje e amanhã. é múltiplo e diverso de si mesmo e. assim também tua eternidade. acima da qual nada pode pensar-se. por tua eternidade. Mais do que isso: não existes ontem. 69 .

Et certe quod nullo modo habet finem. nisi per aliud subsistat. tu vero nullo modo. non omnino est quod est. sicut iam non habent quod praeteritum est? Sic quippe semper es ultra illa. tu autem nullo modo minus es. XXII Quod solus sis quod est et qui est Tu solus ergo. es quod es. Quae saeculum quidem est propter indivisibilem unitatem. XXI An hoc sit saeculum saeculi sive saecula saeculorum An ergo hoc est saeculum saeculi sive saecula saeculorum? Sicut enim saeculum temporum continet omnia temporalia. ultra est quod aliquo modo finitur. et tu es qui es. Et quod incepit a non esse et potest cogitari non esse et. Domine. quia quidquid aliquando aut aliquo modo es. An etiam. Nam quod aliud est in toto et aliud in partibus. Et vita es et lux et sapientia et beatitudo et aeternitas et multa huiusmodi . An hoc quoque modo transis omnia etiam aeterna. Et tu es qui proprie et simpliciter es.70 Santo Anselmo de Cantuária An quia illa sine te nullatenus esse possunt. cum semper tibi sis praesens. ad quod illa nondum pervenerunt. cum illa nondum habeant de sua aeternitate quod venturum est. et in quo aliquid est mutabile. tu vero nequaquam? Nam sic illa quidem finem quodam modo. quia nec habes fuisse aut futurum esse. quia tua et illorum aeternitas tota tibi praesens est. Tu vero es quod es. nec potes cogitari aliquando non esse. redit in non esse. et futurum esse quod nondum est: id non est proprie et absolute. sed tantum praesens esse. ut nec medium nec dimidium nec ulla pars sit in te. et quod habet fuisse quod iam non est. hoc totus et semper es. Domine. sic tua aeternitas continet etiam ipsa saecula temporum. Et quamvis ita sis magnus. quia illa cogitari possunt habere finem. ut omnia sint te plena et sint in te: sic tamen es sine omni spatio. etiam si illa redeunt in nihilum? Sic enim quodam modo es ultra illa. seu cum illud semper tibi praesens. saecula vero propter interminabilem immensitatem.

E certamente aquilo que não tem fim de forma alguma. E és a vida e a luz. assim também a tua eternidade contém os próprios séculos do tempo. Senhor. és o que és. ao passo que elas. de algum modo haverão de ter fim. própria e absolutamente falando. Será que te estendes até mesmo para além das coisas eternas. em sua eternidade. porém. e de séculos por causa de sua interminável imensidão. ou. Capítulo 21 Se isto é “o século do século” ou “os séculos dos séculos” Esse modo de existir é o que se chama de o século do século ou os séculos dos séculos? Assim como o século dos tempos contém todas as coisas temporais. de tal modo fora do espaço que em ti não há meio nem metade nem parte alguma. uma vez que sempre estás presente onde elas ainda não chegaram. de modo algum. ao passo que não serias menos do que és. porque tudo que és alguma vez e de algum modo. de certa maneira. e. não possuem nem o que passou nem o que está por vir? Assim. e não se pode supor por um momento que não existas. É chamada de século por causa de sua indivisível unidade. sempre te estendes para além delas. porém. não pode ser de modo algum o que é. porque a tua eternidade e a delas para ti estão sempre e inteiramente presentes. vive e se estende além daquilo que de algum modo tem fim. Tu. Capítulo 22 Que somente Deus é o que é e Aquele que é Por conseguinte. tu. se não subsiste pelo poder de outro.Proslógio Porventura porque sem ti não podem existir de modo algum. Será também porque se pode imaginar que essas coisas haverão de ter fim. e a eternidade e 71 . porque não tens passado nem futuro. somente tu és o que és e Aquele que é. ainda quando tudo voltasse ao nada? Assim. o és inteiro e sempre. o ser sujeito a mudança em algum ponto. O que começou a partir do nada pode ser concebido como não-existente. volta ao nada. cujo futuro ainda não é. mas apenas um presente. Senhor. E ainda que tu. sem embargo. porque isso te está sempre presente. E tu existes verdadeira e simplesmente. estás. na verdade. porque o ser que não é o mesmo no todo e em suas partes. melhor dizendo. não existe. a sabedoria e a bem-aventurança. és posterior a tudo. sejas tão grande que tudo está cheio de ti. pois. ao passo que é impossível imaginar o mesmo em relação a ti? Pois essas coisas. Aquele cujo passado não existe.

Hoc ipsum est Amor unus et communis tibi et Filio tuo. id est Sanctus Spiritus ab utroque procedens.42]. quam quod est de quo procedit. id est Filius tuus. ut de te non possit nasci aliud quam quod tu es. et tamen non es nisi unum et summum bonum. quoniam singulus quisque non est aliud quam summe simplex unitas et summe una simplicitas. et idcirco est ipsa Veritas sicut tu. et ut bene sint. aut aliquid maius vel minus te esse in Verbo. hoc est Verbum tuum. Nam idem Amor non est impar tibi aut Filio tuo. XXIII Quod hoc bonum sit pariter Pater et Filius et Spiritus Sanctus: et hoc sit unum necessarium. Deus Pater. Quod autem est singulus quisque. quae nec multiplicari nec aliud et aliud esse potest. Porro hoc . quia tantum amas te et illum. tu.72 Santo Anselmo de Cantuária bona. Pater et Filius et Spiritus Sanctus. quod est omne et totum et solum bonum Hoc bonum es tu. et sic es tu simplex. non alia quam tu. quomodo tu verax. hoc est tota Trinitas simul. nullo indigens. quod dispar non est tibi illi. quantus es tu et ille. tibi omnino sufficiens. nec de summa simplicitate potest procedere aliud. quo omnia indigent ut sint. Etenim non potest aliud quam quod es. quo te ipsum dicis. «Porro unum est necessarium» [Lc 10. et ille te et seipsum. quoniam Verbum tuum sic est verum. nec est aliud a te et ab illo.

este Amor se identifica essencialmente com o Pai e o Filho. seu Verbo é Deus. Este bem é o amor uno e mútuo entre ti e teu Filho. em primeiro lugar. Porque. isto é. Filho e Espírito Santo. o que é cada uma dessas Pessoas também o é.” 73 . pois cada Pessoa não é senão a unidade soberanamente simples e a simplicidade soberanamente una. ora bem: nada há em Deus senão Deus. no entanto. Acerca do Espírito Santo. Deus Pai! Teu Verbo. simultaneamente. porque então haveria algo superior ao Verbo e. passa neste a demonstrar a Santíssima Trindade. e é o único necessário. porque amas a ele e a ti mesmo tanto quanto ele te ama e ama a si mesmo. o Pai. Portanto. cit. e. o Espírito Santo é Deus. discorre Santo Anselmo de modo parecido. teu Filho. difere igualmente dele e de ti. E. maior ou menor. a Trindade inteira. se Deus Pai se expressasse a si mesmo por uma palavra que não fosse Ele mesmo. Deus é a suma unidade e simplicidade. que a ti mesmo te bastas e de nada careces. Este amor não é inferior a ti nem a teu Filho. vale dizer. logo. Da simplicidade suprema não pode sair nada diferente do princípio de que procede. ao mesmo tempo. Ora. como tu. pois. porque no Verbo. que não pode multiplicar-se nem ser uma coisa ou outra. à felicidade do homem na posse de Deus. por isso mesmo. o Verbo não seria Deus. Assim. é um mesmo Deus com Ele. pelo qual tu te dizes a ti mesmo. como todo verbo da mente. diz ele. ficaria manifesto que está carente de algo. nos capítulos anteriores.Proslógio todos os demais bens que existam.: “Depois de ter provado. Pois bem: não há mais que um 39 Julián Alameda. Capítulo 23 Que este bem é. não pode multiplicar-se nem propagar-se com a multiplicação de sua natureza. também é este bem. ambos são um só Deus. vale dizer. Pai. que o Pai e o Filho são a mesma e única substância ou natureza. o Verbo de Deus é aquele pelo qual Deus pai se expressa a si mesmo perfeitamente. tudo que difere de ti ou dele. por isso mesmo. Além disso. porque não se pode conceber nada superior a Deus. o Filho e o Espírito Santo. e. a natureza do Pai não pode ser diferente da do Filho. pois o teu Verbo é verdadeiro como tu também o és. que procede de um e do outro. não és senão o bem único e supremo. Com este capítulo termina o que se refere à teologia especulativa. O mesmo argumento tira Santo Anselmo da consideração da veracidade de Deus e de sua simplicidade. sendo tu simples. nem maior. nem menor. e. Logo. o que repugna à razão. de ti não pode nascer nada diferente do que és. op. do qual todos os demais seres precisam para existir e bem existir. Os que se seguem são consagrados à teologia prática. tudo que se refere à unidade de Deus. já que se estende tanto quanto são Eles. logo. porque é igual a eles. porque o Verbo pelo qual o Pai se expressa a si mesmo permanece em Deus Pai. por ser todo e exclusivamente bem 39 Tu és este bem. O Espírito Santo é aquele amor com que se amam mutuamente o Pai e o Filho. mas não outra verdade diferente de ti. mas outra coisa. Logo. o Espírito Santo. Ele é. não pode haver nada maior ou menor do que tu. a verdade.

quod continet iucunditatem omnium bonorum. Si enim singula bona delectabilia sunt. caro mea. et quod nolet non erit. qui fecit ipsa delectabilia? XXV Quae et quanta bona sit fruentibus eo O. et cogita. Cur ergo per multa vagaris. quidquid desideratis. homuncio. cogita intente quam delectabile sit illud bonum. erit. quale et quantum sit illud bonum. in quo est omne bonum. quod est omne bonum et satis est. quae facit omnem salutem? Si amabilis est sapientia in cognitione rerum conditarum: quam amabilis est sapientia. et erige totum intellectum tuum. Desidera simplex bonum.9] cogitavit.43] Si velocitas aut fortitudo aut libertas corporis. Ibi quippe erunt bona corporis et animae. Si delectat pulchritudo: «fulgebunt iusti sicut sol» [Mt 13. Si enim bona est vita creata: quam bona est vita creatrix? Sic iucunda est salus facta: quam iucunda est salus. XXIV Coniectatio. quid desideras. quaerendo bona animae tuae et corporis tui? Ama unum bonum. et non qualem in rebus creatis sumus experti. ibi est quidquid amatis. quanto differt creator a creatura. qualia «nec oculus vidit nec auris audivit nec cor hominis» [1 Kor 2. quantum potes. quae omnia condidit ex nihilo? Denique si multae et magnae delectatione sunt in rebus delectabilibus: qualis et quanta delectatio est in illo. anima mea? Ibi est. cui nihil obsistere possit: «erunt . Quid enim amas. in quo sunt omnia bona et sufficit. anima mea. qui hoc bono fruetur: quid illi erit et quid illi non erit! Certe quidquid volet. quale et quantum sit hoc bonum Excita nunc. immo quod est omne et unum et totum et solum bonum.74 Santo Anselmo de Cantuária est illud unum necessarium. sed tanto differentem.

Proslógio único ser necessário. os justos brilharão como o sol. Se todos os bens são deleitáveis. Se a vida criada é boa. Ama o bem simples por excelência. Se é a beleza que vos encanta. a que é todo bem. aquele em que estão todos os demais bens. meu corpo. Ali se oferecerão os bens do corpo e da alma. pensa atentamente em que alto grau este há de ser. se podes. e não na proporção que conhecemos nas coisas criadas. infeliz. buscando o bem de tua alma e de teu corpo? Ama o único bem. quanto mais não o será a vida que preserva as outras? Se é amável a sabedoria no conhecimento das coisas criadas. o único. pois. se grandes e numerosos são os deleites inerentes às coisas deleitáveis. desejas o quê. o ouvido não ouviu nem o coração do homem sentiu. qual e quão grande não há de ser a deleitação n’Aquele que fez todas as coisas deleitosas? Capítulo 25 Quais e quão grandes são os bens reservados aos que gozam a visão de Deus Ó quem gozará este bem! O que possuirá e o que não possuirá! Certamente tudo o que quiser será e tudo que não quiser não será. Pois desejas o quê. que sozinho vale por todos os bens e sozinho nos satisfaz.41 Por que. no meio de tantas coisas diferentes. uma vez que nele se contém tudo que é deleitoso nos outros bens. melhor dizendo. minh’alma. 41 I Cor 2:9. mas tanto quanto difere o Criador da criatura. tais como o olho não viu. 75 . imagina. tua inteligência. quanto mais amável não será a sabedoria que tudo criou a partir do nada? Enfim.42 Se vos comprazeis na velocidade. quanto mais não será a vida criadora? Se a preservação da vida é deleitável. ou. total e indivisível bem. tantas voltas dás. 42 Mt 13:43. minh’alma? Somente ali se encontra o que amais e tudo que desejais.40 e esta única coisa necessária é aquela na qual está todo o bem. e isto basta. qual seja e quão grande seja este bem. no vigor ou numa liberdade do corpo a que obstáculo 40 Lucas 10:42. Capítulo 24 Conjectura sobre a natureza e a grandeza deste bem Eleva e excita agora.

Si longa et salubris vita: ibi est sana aeternitas et aeterna sanitas.44]. quia illi illum et se et incivem per illum.15] Si ebrietas: «inebriabuntur ab ubertate domus Dei». ibi erunt et illi. ita poterunt illi quod volent. et quod ille volet. et surget corpus spirituale» [1 Kor 15. Röm 8. Si sapientia: ipsa Dei sapientia ostendet eius seipsam. et ille se et illos per seipsum.30]. immo «filii Dei» et dii «vocabuntur» [Mt 5. Si vera securitas: certe ita certi erunt numquam et nullatenus ista vel potius bonum sibi defuturum. quia sicut illi non aliud volent quam quod ille. per seipsum. et ubi erit Filius eius. Si potestas: omnipotentes erunt suae voluntatis. Si melodia: ibi angelorum chori concinunt sine fine Deo. nec dilectorem Deum illud dilectoribus suis invitis ablaturum. Si honor et divitiae: Deus suos «servos bonos et fideles supra multa constituet» [Mt 25. nec aliquid Deo potentius invitos Deum et illos separaturum.9] Deus.39] Si satietas: satiabuntur.23]. per illum.76 Santo Anselmo de Cantuária similes angelis dei» [Mt 22.9] et erunt. «haeredes quidem Dei. sicut certi erunt se non sua sponte illud amissuros. . et invicem tamquam seipsos. quia nulla illis erit nisi sola Dei voluntas. cohaeredes autem Christi» [Ps 81. non poterit non esse. Si amicitia: diligent Deum plus quam seipsos. Nam sicut poterit Deus quod volet. et Deus illos plus quam illi seipsos. Si quaelibet non immunda. ut Deus suae.17].6.21. quia «seminatur corpus animale. ita ille volet quidquid illi volent. potestate utique. non natura. «cum apparuerit gloria Dei» [Ps 16. sed munda voluptas: «torrente voluptatis suae potabit eos» [Ps 35. quia «iusti in perpetuum vivent et salus iustorum a Domino» [Ps 36. Si concordia: omnibus illis erit una voluntas.

Proslógio

algum poderá se opor, serão semelhantes aos anjos de Deus,43 porque o corpo
animal é semeado e germina um corpo espiritual,44 pelo poder divino, e não pela
natureza. Se quereis uma vida longa e saudável, ali a eternidade será sã e a sanidade será eterna, pois os justos viverão eternamente,45 e também porque a saúde
vem do Senhor.46 Se quereis ser saciados, serão saciados quando aparecer a glória
do Senhor.47 Se quereis inebriar-vos, inebriar-se-ão com a abundância da casa do
Senhor.48 Se a música vos atrai, ali os coros dos anjos cantam sem fim diante de
Deus. Se buscais um prazer qualquer que não seja imundo, mas puro: Senhor,
tu os saciarás com a torrente de teu prazer.49
Se a sabedoria vos atrai, a sabedoria mesma de Deus se oferecerá a vossos
desejos. Se é a amizade, os justos amarão a Deus mais do que a si mesmos; Deus
os amará mais do que eles se amam; porque o amarão, se amarão a si mesmos e
aos outros por Ele, e Ele os amará e se amará por si mesmo. Se é a concórdia o
que buscais, não terão todos senão uma vontade, que será a vontade de Deus.
Se é o poder, sua vontade será onipotente como a de Deus. Porque, assim como
Deus podia o que quer por si mesmo, por Ele poderão o que quiserem.50 Da
mesma maneira, Ele não quererá senão o que eles queiram, e o que Ele quiser
não poderá não ser. Se as honras e riquezas despertam vossos desejos, Deus estabelecerá sobre numerosos tesouros seus servos bons e fiéis.51 Mais até: serão chamados
e serão filhos de Deus e deuses;52 estarão onde estiver seu Filho, e serão, também
eles, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo.53 Se desejais segurança, ali decerto
os justos terão a certeza de que estes bens, ou melhor dizendo, de que este bem
supremo nunca e em lugar algum lhes faltará, assim como estarão certos de que
não o perderão por vontade própria, nem Deus, que os ama, tirará aos que o
amam este bem, contra a vontade deles; e saberão, enfim, que nada mais poderoso que Deus poderia, contra a vontade deles, separá-los de Deus.
43 Mt 22:30.
44 I Cor 15:44.
45 Sab 5:15.
46 Sl 36:39.
47 Sl 16:17.
48 Sl 35:9.
49 Ibidem.
50 Evidentemente, somente por uma analogia se pode dizer que uma vontade que não a divina seja
onipotente. [N. C.]
51 Mt 25:21-23.
52 Mt 5:9 e Rom 8:16.
53 Sl 81:6 e Rom 8:17.

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Santo Anselmo de Cantuária

Gaudium vero quale aut quantum est, ubi tale ac tantum bonum est?
Cor humanum, cor indigens, cor expertum aerumnas, immo obrutum aerumnis: quantum gauderes, si his omnibus abundares? Interroga intima tua,
si capere possint gaudium suum de tanta beatitudine sua. Sed certe, si quis
alius, quem omnino sicut teipsum diligeres, eandem beatitudinem haberet,
duplicaretur gaudium tuum, quia non minus gauderes pro eo quam pro
teipso. Si vero duo vel tres vel multo plures idipsum haberent, tantundem
pro singulis quantum pro teipso gauderes, si singulos sicut teipsum amares.
Ergo in illa perfecta caritate innumerabilium beatorum angelorum et hominum, ubi nullus minus diliget alium quam seipsum, non aliter gaudebit
quisque pro singulis aliis quam pro seipso. Si ergo cor hominis de tanto
suo bono vix capiet gaudium suum: quomodo capax erit tot et tantorum
gaudiorum? Et utique, quoniam quantum quidque diligit aliquem, tantum
de bono eius gaudet: sicut in illa perfecta felicitate unusquisque plus amabit
sine comparatione Deum quam se et omnes alios secum, ita plus gaudebit absque existimatione de felicitate Dei quam de sua et omnium aliorum
secum. Sed si Deum sic diligent «toto corde, tota mente, tota anima» [Mt
22,37], ut tamen totum cor, tota mens, tota anima non sufficiat dignitate
dilectionis: profecto sic gaudebunt «toto corde, tota mente, tota anima», ut
totum cor, tota mens, tota anima non sufficiat plenitudini gaudii.

XXVI
An hoc sit gaudium plenum quod promittit Dominus
Deus meus et Dominus meus, spes mea et gaudium cordis mei, dic
animae meae, si hoc est gaudium, de quo nobis dicis per Filium tuum:
«Petite et accipietis, ut gaudium vestrum sit plenum» [Joh 16,24] Inveni
namque gaudium quoddam plenum, et plus quam plenum. Pleno quippe
corde, plena mente, plena anima, pleno toto homine gaudio illo: adhuc
supra modum superit gaudium. Non ergo totum illud gaudium intrabit
in gaudentes, sed toti gaudentes intrabunt in gaudium. Dic, Domine, dic
servo tuo intus in corde suo, si hoc est gaudium in quod intrabunt servi

Proslógio

Ó quão grande não há de ser a alegria lá onde se está tão grande bem! Coração humano, coração indigente, coração não só ferido senão também sobrecarregado de tantas tribulações, como não haverias de alegrar-te se possuísses
em abundância todos estes bens? Interroga o âmago de tua alma: caberia nela
uma felicidade tão grande? Se amasses a outro como a ti próprio e esta pessoa
gozasse da mesma felicidade que tu, tua felicidade seria dobrada, porque a felicidade dela duplicaria a tua. Mas se dois, três ou muitos mais compartilhassem
a mesma felicidade e amasses a cada um deles como a ti mesmo, alegrar-te-ias
por cada um tanto quanto por ti. Assim, nessa caridade perfeita, no seio da
ventura de inúmeros anjos e homens, entre os quais nenhum ama o outro
menos do que a si mesmo, cada um será feliz com a felicidade dos outros tanto
quanto com a sua própria felicidade. Daí se seque que, se o coração humano
mal pode conter sua ventura particular, como será capaz de conter tantas e tão
grandes alegrias? E, sabendo nós que, quanto mais amamos alguém, mais nos
comprazemos em sua felicidade, sabemos também que nesta felicidade completa cada qual amará a Deus sem comparação mais do que a si mesmo e aos
outros sem medida, e do mesmo modo se alegrará sem medida da felicidade
de Deus, mais do que da sua e da de todos os demais juntos. Mas se amam a
Deus com todo seu coração, com todo seu espírito, com toda sua alma,54 de modo,
não obstante, que todo seu coração, todo seu espírito, toda sua alma não podem bastar à grandeza deste amor, não padece dúvida que todo seu coração,
todo seu espírito, toda sua alma se encherão de uma alegria tal que não serão
bastantes para conter a plenitude de tanta felicidade.

Capítulo 26
Será esta alegria a “alegria plena” que promete o Senhor?
Meu Senhor e meu Deus, esperança e alegria de meu coração, dize a
minh’alma se é essa a alegria de que nos falas pelas palavras de teu Filho:
Pedi e recebereis, a fim de que vossa alegria seja plena,55 porque encontrei uma
alegria plena e mais que plena. Cheio dela o coração, cheia a mente, cheia
a alma, cheio todo o homem dessa alegria, ela ainda sobrará além de toda a
medida. Esta alegria não entrará inteiramente naqueles que a desfrutam, mas
estes é que entrarão na alegria. Dize, Senhor, dize a teu servo no fundo de sua
54 Mt 22:37.
55 Jo 16:24.

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nec auris audivit. Amet illud cor meum. usque dum veniat illud ad plenum. Utique tantum gaudebunt. ut gaudeam de te. Peto. crescat amor tuus et ibi sit plenus.25]. quod consulis «per admirabilem consiliarium» [Jes 9. «ut gaudium nostrum plenum sit» [Joh 16. Meditetur interim inde mens mea. desideret tota substantia mea. qui intrabunt «in gaudium Domini sui» [Mt 25.21]. Domine. et ibi sit in re plenum. quantum gaudebunt illi beati tui.6] nostrum. ut hic gaudium meum sit in spe magnum. sitiat caro mea.9] Nondum ergo dixi et cogitavi. . Esuriat illud omnia mea. nec in cor hominis ascendit» [1 Kor 2.21]. amem te. loquatur inde lingua mea. tunc. «nec oculus vidit. donec «intrem in gaudium Domini mei» [Mt 25.24]. Quantum te cognoscent. vel proficiam in dies.80 Santo Anselmo de Cantuária tui. quantum te cognoscent et amabunt in illa vita.9] in hac vita. Sed gaudium illud certe. per Filium tuum iubes. «ut gaudium meum plenum sit» [Joh 16. qui est trinus et unus Deus «benedictus in saecula. Proficiat hic in me notitia tui et ibi fiat plena. Domine. Deus. quo gaudebunt electi tui.24]. peto accipiam.24]. quod promittis per veritatem tuam. nec in cor hominis ascendit» [1 Kor 2. Deus verax. Domine. Amen» [Röm 1. nec auris audivit. tantum amabunt. Oro. et quantum amabunt? Certe «nec oculus vidit. Et si non possum in hac vita ad plenum. sermonicetur os meum. accipiam. Domine. quantum amabunt. quantum cognoscent. «ut gaudium meum plenum sit» [Joh 16. cognoscam te. immo consulis petere et promittis accipere.

Em que medida te conhecerão então. nem o ouvido ouviu. Esta alegria de que certamente gozarão teus eleitos. se é esta a felicidade do Senhor. 60 Rom 1:25. a fim de que nosso gozo seja perfeito. Senhor. Senhor. Sua alegria. não a viu o olho nem o ouvido a ouviu. com que eu te ame. e aí seja plena junto a ti. Que seja este o objeto das meditações de minha alma e das palavras de minha língua. decerto. Eu te suplico.58 Peço-te. 58 Jo 16:24. nos aconselhas a que peçamos e prometes que receberemos. nem o coração do homem compreendeu em que medida te conhecerão e amarão na outra vida. que minha carne disso tenha sede. portanto. como no-lo aconselhas pela boca do Mestre admirável 59 que nos deste: que eu receba.Proslógio alma. Amém.57 Ainda não disse. a fim de que aqui a minha alegria na esperança seja sempre maior. bendito por todos os séculos. nem jamais entrou no coração do homem. Que seja este o objeto do amor de meu coração e das palavras de minha boca. E se neste mundo não posso alcançar a plenitude dessas coisas. antes. será igual ao seu amor. ou. Peço-te.56 na qual entrarão aqueles de teus servos que são chamados. Que neste mundo cada instante me eleve mais ao conhecimento de ti. Senhor. por intermédio de teu Filho nos ordenas. até que entre no gozo de seu Senhor. Senhor: faz com que eu te conheça. nem pensei em quanto se alegrarão estes bem-aventurados. Que meu amor por ti aumente nesta vida e na outra atinja a plenitude. para que a minha alegria seja plena. e seu amor ao seu conhecimento. e quanto te amarão? É certo que o olho não viu nesta vida. como prometes por tua verdade. Que minha alma disso tenha fome. 59 Is 9:6. 57 I Cor 2:9 e Is 64:4. Deus veraz: faz com que eu receba. 81 . que ao menos elas cresçam em mim a cada dia até alcançarem a plenitude.60 56 Mt 25:21. que minha substância inteira o deseje. a fim de que eu encontre em ti toda a minha alegria. Deus uno e trino. até chegar o momento de sua plenitude. Senhor. para que a minha alegria seja plena.

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por Gaunilo. monge de Marmoutier (Quid ad haec respondeat quidam pro insipiente) .Parte II Livro escrito a favor de um insensato contra o argumento contido no Proslógio de Santo Anselmo.

deinde quia. utrum sit. quod utique repugnat. quod dicitur. deinde in opere. quod dicitur. tota ista disputatio est assumpta? Postremo. cum audiens illam dici id. ut non possit nisi mox cogita- . maius illo erit. et si illud in solo est intellectu. vel neganti. haberi possit in cogitatione. quod sit aliqua talis natura. ut non in solo intellectu. ac sic «maius omnibus» minus erit aliquo et non erit «maius omnibus». quaecumque ille diceret. ego intelligerem? Nisi forte tale illud constat esse. re ipsa illud existere. non eo modo posse cogitari non esse. quia maius est esse et in re quam in solo intellectu.84 Santo Anselmo de Cantuária 1. respondere forsan potest: 2. ut fit de pictura. ut «maius omnibus». quod intelligit. sed intelligere et in intellectu habere. quidquid etiam in re fuerit. quae prius est in animo pictoris. quia scilicet non possim hoc aliter cogitare nisi intelligendo. «qua nihil maius cogitari possit». quod esse iam probatum est in intellectu. quod sit aliqua talis natura. cum dictum et auditum fuerit istud. quo etiam potest non esse deus. nisi quia id. et ideo non dicor illud auditum cogitare vel in cogitatione habere. sed etiam in re sit – et hoc ita probatur. cum ea dicente aliquo. quoniam aliter «maius omnibus» esse non poterit –. quod tale sit illud. primo quidem non hic erit iam aliud idemque tempore praecedens habere rem in intellectu et aliud idque tempore sequens intelligere rem esse. intelligit. Deinde vix umquam poterit esse credibile. id est scientia comprehendendo. Quod hoc iam esse dicitur in intellectu meo non ob aliud. Sed si hoc est. necesse est. quod ipse negans vel ambigens de illa iam habeat eam in intellectu. quo etiam falsa quaeque vel dubia. non in solo intellectu. et ideo necesse est. sed et in re sit. intelligo: Nonne et quaecumque falsa ac nullo prorsus modo in se ipsis existentia in intellectu habere similiter dici possem. cum esse illam hinc dicitur primo probari. ut non eo modo. Nam si non potest – cur contra negantem aut dubitantem. Dubitanti.

e por isso não seria o maior de todos. visto que com ouvir estas palavras pronunciadas já compreende o seu sentido. é maior que qualquer outro. dificilmente se fará crer que. 61 É evidente que aqui Gaunilo distingue entre o simples entendimento das palavras e o entendimento do objeto mesmo. cujo conteúdo está primeiro na mente do pintor e.61 Se assim fosse. se o objeto que buscamos está somente na inteligência. implicaria sua existência. [N. Daqui se segue. segundo ele. mas também na realidade. visto que também as compreendo ao ouvi-las descrever ou nomear. visto que. [N. seu objeto. no sentido de que não apenas compreendo as palavras que as expressam. duvidam que haja uma natureza superior? Enfim. mediante uma prova incontestável. a seu ver. 2. será menor do que aquele que existe ao mesmo tempo na inteligência e na realidade. como algo necessário. mas passe a ser uma realidade. o ser que. Pela mesma razão. é necessário demonstrar. quando se ouve enunciar a idéia desse ser. de outra maneira. está em minha inteligência. mas também que seu sentido. Para quem duvide ou negue que há uma natureza maior do que tudo que se possa pensar. C. Esta razão me parece sólida. a que vem toda esta discussão ou argumentação contra aqueles que negam. caso este em que eu não poderia pensá-lo senão compreendendo que existe. não seja tão possível pensar que não existe como o é pensar que Deus não existe. A prova que dá é esta: existir na inteligência e na realidade é mais do que existir somente na inteligência. portanto. o simples fato de negá-la ou pôr em dúvida sua existência já implica que ela está presente na inteligência de quem a nega. em seguida. A isto se pode responder que. passa à realidade. o mesmo cumpriria dizer de muitas coisas falsas e inexistentes.62 Porque. um em que se compreendesse a idéia do objeto e outro [no qual se desse] a existência desse mesmo objeto. de fato seria menor que outro ser existente. Pois bem: se compreende seu sentido.] 62 Para bem compreender esta distinção cumpre notar que no Proslógio Santo Anselmo não nomeia Deus. ou. mas o designa como aquele que está acima de todos os seres. a menos que o objeto de que se trata não esteja nas mesmas condições das coisas falsas. simplesmente.] 85 . se não se pode desconhecer a existência deste ser. que.Proslógio 1. se um objeto está em meu espírito apenas pelo fato de eu compreender as palavras que o expressam. C. Aconteceria o contrário do que sucede num quadro. o autor do Proslógio chega à conclusão de que ela existe porque. não haveria na inteligência dois momentos. hipoteticamente. que o que é maior que tudo mais e cuja idéia está na inteligência (como já foi provado) não se detém nela. seu objeto tem de estar necessariamente não só na inteligência. o que contradiz o conceito que dele temos. Além disso. não seria o maior de todos.

tam ego secundum rem vel ex specie mihi vel ex genere notam cogitare auditum vel in intellectu habere non possum quam nec ipsum deum. iam in intellectu habente satis potest huic argumento congruere. aliud sine dubio est verum illud. de illo quo- . vita est. arca. quo capitur. et insuper magis. quia scilicet illud «omnibus. per illam specialem generalemve notitiam. cuius verba intelligerem. Unde nec illud exemplum de pictore picturam. curn auditum intelligo. qui istud nondum credo. 3. quod nihil aliud posse esse dicitur quam ipse deus. quae cogitari possint. et tale quippiam in arte artificis alicuius nihil est aliud quam pars quaedam intelligentiae ipsius. quae fit in opere. in quo similiter esse posse quaecumque alia incerta vel etiam falsa ab aliquo. aut auditum aut excogitatum intellectu percipitur verum. maius». Ut quid enim in vivente artificis anima vita sunt ista. antequam proferantur». si illa deceptus. in ipsa pictoris arte habetur. quia et. qua. Neque enim aut rem ipsam novi aut ex alia possum conicere simili. «quo maius quicquam nequeat cogitari». novi. Huc accedit illud. crederem. quia vivit anima artificis. sicut sanctus Augustinus ait. quae ad ipsam mentis noscuntur pertinere naturam. quem utique ob hoc ipsum etiam non esse cogitare possum. Quocirca etiamsi verum sit esse aliquid. ut saepe fit. non est vita. quam facturus est. antequam fiat. arca. nisi quia nil sunt aliud quam scientia vel intelligentia animae ipsius? At vero quidquid extra illa. qualis nondum facta pictura in intellectu pictoris. quem etiam esse nescirem. quandoquidem et tu talem asseris illam. non autem isto. non tamen hoc auditum et intellectum tale est. in qua sunt ista omnia. quod iam sit hoc in intellectu meo. «cum faber arcam facturus in opere prius habet illam in arte.86 Santo Anselmo de Cantuária tum indubitabilis existentiae suae certo percipi intellectu. aliud intellectus ipse. indubio aliquo probandum mihi est argumento. quid sit homo vel homines. ut esse non possit simile quicquam. dici tamen aliquid audirem. dicta adhuc puto. quae est in arte. 4. quod praetaxatum est superius. Nam si de homine aliquo mihi prorsus ignoto. Illa enim pictura.

C. imaginá-lo como um ser real. Se ouço falar de um homem que me é desconhecido e cuja existência desconheço. de acordo 63 Gaunilo refere-se aqui ao fato de que não crê na veracidade do argumento anselmiano. como não conheço Deus. igualmente.Proslógio que esse objeto é tal que a inteligência não pode estar menos do que certa de sua existência indubitável. ser compreendido por minha inteligência como algo que se possa referir a uma espécie ou a um gênero conhecidos. ou seja. I. na qual residem todas as suas criações. conforme já foi dito. e não basta dizer que já existe de antemão em meu espírito no instante mesmo em que compreendo as palavras pelas quais se expressa. eu que nelas não creio. não posso tampouco concluir por sua existência. meu espírito poderia conter. como ocorre com freqüência. vive na alma do artífice. não obstante. tampouco. por isso mesmo.] 64 Santo Agostinho. In Ioannis evangelium tract. com exceção daquilo que nasce da própria mente. tal objeto falado e compreendido não se assemelha a um quadro não executado e que ainda se encontra na inteligência do pintor. esta existe primeiro em seu espírito. Por isso mesmo. e ainda mais se. Daí se segue que o exemplo do pintor que tem em seu espírito o quadro que há de pintar nem sempre se casa com este argumento. porque. assim como não posso. como as criações do artífice. antes de ser executado.  posso. A vida não está na arca realizada. A isto cabe acrescentar o que foi dito anteriormente. uma coisa é a verdade conhecida. “quando um artífice se propõe a fazer uma arca. já que afirmas que ele é tal que nada pode a ele assemelhar-se.64 Pois bem: de onde vem a vida a essas idéias senão do fato de serem a inteligência e a ciência da alma dele? Não obstante. não pode. faz parte de sua inteligência. afirmadas por alguém. que não é outro senão o próprio Deus. pode a alma adquirir verdades. Com razão diz Santo Agostinho que. mas está na idéia da arca antes de realizar-se. enganado. Porque. desde o momento mesmo em que é pensado. seja a partir de outros. desde o momento mesmo em que compreendesse suas palavras [correspondentes]. porque. através do ouvido. 4. por via de reflexão. antes de se manifestarem à luz”. pela mesma razão. [N. chegasse a crer nessas coisas. e outra é o intelecto que a conhece.. Em ambos os casos. o maior de quantos se possam pensar. está na própria arte do pintor e. muitas coisas duvidosas e até mesmo falsas. Porque esse quadro. ao pronunciar-se seu nome. 87 . que este ser. baseando-me na analogia de algo que lhe seja semelhante. então. seja a partir de si mesma. compreender a Deus e. posso duvidar de sua existência.63 3. 17 (PL 35. 1387). ainda quando haja algo acima do qual nada maior possa ser concebido.

cum. quae valeant cogitari». cum audio intelligoque dicentem esse aliquid «maius omnibus. ut mentiente illo. habere possum illud. illud ei esse adhuc penitus non concedo. non quae esset ille homo. Siquidem cum ita cogitatur. Et tamen fieri posset. Quod autem et in re necessario esse inde mihi probatur. secundum quam solam aut vix aut numquam potest ullum cogitari verum. a quo scilicet cogitatur secundum rem vel in sola cogitatione veram. cogitare possem. quam vocis auditae significatio cogitetur. hoc est litterarum sonus vel syllabarum. quod «maius omnibus» aliter non erit «omnibus maius». si umquam rei veritate potuerit. qui diceret. cogitarem. non satis attendit. Ita ergo nec prorsus aliter adhuc in intellectu meo constat illud haberi. cui loquatur.88 Santo Anselmo de Cantuária que secundum rem ipsam. maius illa erit ac per hoc non erit illud «maius omnibus». quousque mihi argumento probetur indubio. et hoc in meo sic esse non denego. cum tamen ego de illo secundum veram nihilominus rem. quod summa illa natura iam esse dicitur in intellectu meo! 5. quid ea soleat voce significari. sed non ita. quae est homo. nec aliud ei esse concedo quam illud – si dicendum est «esse» –. ipse. Ego enim nondum dico. quem cogitarem. cum secundum vo- . quae res est utique vera. verum ut ab eo. nisi fuerit. cum audio dici «deus» aut «aliquid omnibus maius». ut ab illo. istud omnino nequeam nisi tantum secundum vocem. quidquid est in re. ut haberem falsum istud in cogitatione vel in intellectu. quando illud secundum rem veram mihique notam cogitare possem. immo etiam nego vel dubito ulla re vera esse «maius» illud. non tam vox ipsa. Quod qui esse dicit hoc. sed quae est homo quilibet. qui novit. quia. ad hoc respondeo: Si esse dicendum est in intellectu. quod utique iam esse probatum est in intellectu. Quod mirum est. homo non esset. quod secundum veritatem cuiusquam rei nequit saltem cogitari. qui illud non novit et solummodo cogitat secundum animi motum illius auditu vocis effectum significationemque perceptae vocis conantem effingere sibi. Haec de eo. Sed quia per hoc esse quoque in re non potest ullatenus obtinere. nec sic igitur.

ou somente com grande dificuldade. ele já não seria o maior de todos. Com efeito. mas sim como o seria por alguém que não conhece o objeto e cujo pensamento se determina unicamente pela palavra que ouviu e cujo sentido se esforça por descobrir. em absoluto. como represento o homem de que falei há pouco e que. se é lícito chamá-la assim. Naquele caso eu podia pensar num homem como um ser concreto e verdadeiro porque a idéia de homem me é familiar. pelo menos. que seja efetivamente maior que qualquer outro objeto real. contudo. quando ouço e compreendo alguém que diz que existe um ser maior do que todas as coisas que se podem pensar. por obra de uma mentira daquele a quem ouço falar. era. Mas como desta maneira de existência ideal não se segue. suceder que. cumpre notar. se não era aquele homem em particular. de toda maneira. quando se diz que esta suma natureza já está em minha inteligência. a menos que seja demonstrada por uma prova irrefutável. Poderia. não se dá bastante conta do espírito de seu interlocutor. deduzir a realidade que expressa.Proslógio com a idéia que temos do que seja um homem. que exista na realidade. Conste. tudo quanto existe seria maior do que ele. sendo muito duvidoso que venha a descobri-lo por completo. não obstante – e isto não padece dúvida – que. se assim não fosse. porque. Quanto à afirmação de que este ser não só está em meu pensamento. não o nego. que somente desta maneira este ser se acha em minha inteligência. 5. partindo do princípio de que. não seria o maior de todos. que. que neste caso seu significado é compreendido não como o seria por alguém que conhece o que essa palavra expressa. 89 . quando ouço alguém referir-se a Deus ou ao ser maior que todos os seres. e não lhe concedo mais existência. ainda que eu já o tivesse imaginado sob os traços de algo verdadeiro. Se é certo. mais do que a própria palavra. não somente eu não afirmo sua existência. o objeto do pensamento é o significado da palavra. Isto é o que cabe responder. mas também na realidade. e que representa o ser mesmo e o pensamento verdadeiro. no entanto. mas aqui não posso pensar em Deus senão por meio de uma palavra da qual não se pode. quando se pensa desta forma e sob esta condição. não concedo essa existência. se não existisse. por isso mesmo. respondo: se se quer considerar como existente no intelecto algo que o pensamento não logra representar sob a forma de um ser real qualquer. porque o que conclui a favor da existência desse ser. sem embargo. senão também a nego ou duvido. Por conseguinte. não existe. um verdadeiro homem em geral. pois. necessariamente. e. não consigo tê-lo na inteligência ou no pensamento de uma maneira fácil. esse homem não existisse.

quia constet illud maius omnibus esse. Haec interim ad obiecta insipiens ille responderit. ut ne in intellectu quidem vel cogitatione mea eo saltem modo maius ipsum esse dicam. et hoc rursus non aliunde probatur quam eo ipso. quod non est. ideo sic eam necesse est esse. et ego facile dictum. per haec ille mihi velit astruere de insula illa. dixi. hoc est «maius omnibus». nisi prius ipsam praestantiam eius solummodo sicut rem vere atque indubie existentem nec ullatenus sicut falsum aut incertum aliquid in intellectu meo esse docuerit. utrum me. quaecumque alia in re est terra. idem ipsum possit referre responsurn et dicere: Quando enim ego rei veritate esse tale aliquid. sed etiam esse in re. Quomodo igitur inde mihi probatur «maius» illud rei veritate subsistere. si se putet aliqua certitudine insulae illius essentiam astruxisse. quem stultiorem debeam reputare. cum id ego eo usque negem adhuc dubitemve constare. an illum. quod vere sit. ut ex hoc mihi debeat probari in tantum etiam re ipsa id esse. quibus necesse est . 6. praestantior illa erit. intelligam. ac sic ipsa iam a te praestantior intellecta praestantior non erit – si. quam de fortunatis insulis fertur. et quia praestantius est non in intellectu solo. Cui cum deinceps asseritur tale esse «maius» illud. aut nescio. quam et in intellectu tuo non ambigis esse. ut nec sola cogitatione valeat non esse. Exempli gratia: Aiunt quidam alicubi oceani esse insulam. ut ex hoc alia iam possimus omnia comprobare. aut iocari illum credam. Hoc ita esse dicat mihi quispiam. quas incolunt homines. cognominant aliqui «perditam» quamque fabulantur multo amplius. quod aliter non erit «omnibus maius». inquam. ut nec possit cogitari non esse? Quapropter certissimo primitus aliquo probandum est argumento aliquam superiorem.90 Santo Anselmo de Cantuária cem tantum auditam rem prorsus ignotam sibi conatur animus effingere. terris possidendorum redundantia usquequaque praestare. si ei concedam. nisi fuerit. in quo nihil est difficultatis. quod maius est omnibus. ambigendum ultra non esse. in se ipso quoque subsistere non erit ambiguum. divitiarum deliciarumque omnium inaestimabili ubertate pollere nulloque possessore aut habitatore universis aliis. At si tunc velut consequenter adiungat ac dicat: Non potes ultra dubitare insulam illam terris omnibus praestantiorem vere esse alicubi in re. quo dubia etiam multa sunt et incerta? Prius enim certum mihi necesse est fiat re vera esse alicubi «maius» ipsum. esse naturam. quia. quae sunt. hoc est maiorem ac meliorem omnium. quam ex difficultate vel potius impossibilitate inveniendi. et tum demum ex eo. 7.

compreenderei facilmente suas palavras. o ponho em dúvida? E quando este ser maior do que qualquer outro não está em minha inteligência ou em meu pensamento. Quando ele afirma que esse ser supremo não pode existir apenas no pensamento. por causa da dificuldade. antes de mais nada. realmente. e acrescenta-se que. se me demonstrará que existe este ser maior do que todos os demais. se cresse ter assentado a existência dessa ilha em bases inabaláveis. já que não existe. 6. pois. ainda em maior abundância que às ilhas Afortunadas. quando eu o nego ou. é preciso provar. pelo menos. para que dessa maneira possamos demonstrar a existência das outras coisas que se 91 . qualquer outra terra existente será. se tente demonstrar-me a realidade de sua existência. da impossibilidade de encontrá-la. eu posso opor a mesma resposta e dizer: quando foi que admiti que exista. necessário.Proslógio que a que lhe dá o esforço de meu espírito para representar uma coisa que não conhece senão pela palavra que ouviu. ao invés de apresentá-la como um conceito falso ou. portanto. Isto é o que responde o insensato às objeções do autor. salvo a de que já não seria supremo se existisse apenas no pensamento. ou melhor. duvidoso para o meu espírito. de fato. até o ponto em que não se possa. mediante um argumento sólido. sequer. Como. eu suporia que meu interlocutor estava gracejando. ele dissesse: “Daqui para a frente não poderás duvidar da existência dessa ilha. por admitir semelhantes provas. pois. livre de donos ou habitantes. sem apresentar outras provas. Por exemplo: afirma-se que em algum lugar do oceano há uma ilha chamada Perdida. que existe uma natureza superior. ou ele. antes de mais nada. Se alguém me disser estas coisas. apoiando-se nessa confissão. excede em produtos todas as terras habitadas por homens. como muitas outras coisas duvidosas ou incertas? É. como quem tira uma conseqüência. por esse simples fato. ou não saberia dizer qual de nós dois era o mais insensato: eu. Atribuem-se-lhe riquezas e delícias incalculáveis. antes de ter provado sua superioridade como algo existente. nas quais nada há de difícil compreensão. pensar que não existe? Eis por que. se com semelhantes argumentos ele quisesse fazer-me admitir a existência dessa ilha. Mas se depois. e então restará para mim. do contrário. para que. quando menos. que eu tenha a certeza de que este ser supremo existe. visto que tens uma idéia clara da mesma em teu espírito e porque existir na realidade é mais do que existir somente na inteligência. esse ser supremo. [admitir] que subsiste por si mesmo. apenas por ser tal. mais importante que ela”. fora de qualquer dúvida. 7.

ac sic omnia cum ingenti veneratione et laude suscipienda. scilicet deus. et esse et non esse non posse indubitanter intelligo. Cetera libelli illius tam veraciter et tam praeclare sunt magnificeque disserta. cur non et quidquid aliud eadem certitudine scio? Si autem non possum. sed et posse non esse nihilominus scio. utrum possim. quod non esse aut etiam posse non esse non possit intelligi. quae in initiis recte quidem sensa. non erit iam istud proprium deo. ista sint contemnenda. . ut nullo modo propter illa. nescio. tanta denique referta utilitate et pii ac sancti affectus intimo quodam odore fragrantia. Et me quoque esse certissime scio. quod maius ac rnelius est omnibus. Sed si possum. Nam secundum proprietatem verbi istius falsa nequeunt intelligi. quae possunt utique eo modo cogitari. non carere. quod est. sed minus firmiter argumentata sunt. Cogitare autem me non esse. quo deum non esse insipiens cogitavit. rnelius fortasse diceretur.92 Santo Anselmo de Cantuária illud. quamdiu esse certissime scio. quod summa res ista non esse nequeat cogitari. Summum vero illud. sed illa potius argumentanda robustius. Cum autem dicitur.

quando sei. por que não ocorreria o mesmo em relação a tudo mais que eu conheço com a mesma certeza? E se. pensadas com exatidão. tanta clareza e magnificência. robustecer essa argumentação para tudo aceitar com grande veneração e o devido louvor. mas. compreendo sem hesitar que existe e que não pode não existir. com maior razão ainda se diria que não se pode compreender que não exista o que pode não existir. Tenho a certeza de que existo. pelo contrário. pois. se alguém diz que não se pode sequer supor sua existência. se achem demonstradas com menos firmeza. ou não. devem ser tomadas em conta. de acordo com o sentido exato do verbo compreender. 93 . porque. positivamente. o contrário. Quanto a pensar que eu não existo. tão úteis e cheias de um perfume íntimo de afeto piedoso e santo. ignoro se me é. embora saiba que poderia não existir. essa necessidade de crer não se aplica somente à existência de Deus. embora as verdades que se encontram no princípio. as coisas falsas não podem ser compreendidas. não o posso. cumpre. Mas. ainda que possam ser pensadas. E quanto a esse ser supremo que é Deus. As coisas expostas no restante do livro com tanta veracidade. do mesmo modo que o insensato pôde pensar que Deus não existe.Proslógio devem atribuir a esse ser. possível. se o posso.

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Parte III Apologia de Santo Anselmo contra Gaunilo (Quid ad haec respondeat editor ipsius libelli) .

Nam ‘quo maius cogitari nequit’ non potest cogitari esse nisi sine initio. audiens eam non ambigit in intellectu suo esse. Quod autem putas ex eo quia intelligitur aliquid quo maius cogitari nequit. contra quem sum locutus in meo opusculo sed quidam non insipiens et catholicus pro insipiente: sufficere mihi potest respondere catholico. Quidquid autem potest cogitari esse et non est. Ergo ‘quo maius cogitari non potest’ uere intelligitur et cogitatur et est in intellectu et cogitatione. aut ex eis non consequitur quod te consequenter opinaris concludere. Quod quam falsum sit. aut non intelligitur uel cogitatur et non est in intellectu uel cogitatione. non consequi illud esse in intellectu. Ego uero dico: Si ‘quo maius cogitari non potest’ non intelligitur uel cogitatur nec est in intellectu uel cogitatione: profecto deus aut non est quo maius cogitari non possit.96 Santo Anselmo de Cantuária Quoniam non me reprehendit in his dictis ille ‘insipiens’. et quia non magis consequitur hoc quod dico ‘quo maius cogitari non possit’ ex eo quia est in intellectu esse et in re. nec si est in intellectu ideo esse in re: certe ego dico: si uel cogitari potest esse. aliter quam quod secundum ueritatem cuiusquam rei nequit saltem cogitari. Quare aut uera non sunt quibus contra conaris probare. fide et conscientia tua pro firmissimo utor argumento. per initium potest cogitari . quam perditam insulam certissime existere ex eo quia cum describitur uerbis. necesse est illud esse. [1] Dicis quidem quicumque es qui dicis haec posse dicere insipientem: quia non est in intellectu aliquid quo maius cogitari non possit.

outro maior existe também na realidade.68 Portanto. se tenha de admitir sua realidade. ou os argumentos em que apóias teus ataques não são verdadeiros. e que. compreendemos e concebemos. isto é. existe necessariamente. C.” 66 Julián Alameda. ou não é nem compreendido pela inteligência nem concebido pelo pensamento. contudo. Quem66 quer que sejas tu que emprestas essa linguagem a um insensato. 65 Julián Alameda. I.B. o que a ouve não duvida de que tem sua idéia no espírito. atamos. ele não está nela de tal maneira que. op. certamente será preciso dizer ou que Deus não é o ser acima do qual não se pode supor nada. como meu adversário é um escritor não insensato e católico. O. mas. na inteligência.: “Neste capítulo. a bem da clareza. ou as conclusões que deles tiras não são legítimas. desde o momento que pode ser pensado. se há na inteligência um ser tal que não se possa conceber outro maior. cuja pena se faz intérprete desse insensato. quando se faz sua descrição. procedimento que dois séculos depois será apontado por Santo Tomás de Aquino como indevido. nem sequer imaginado.B.. Tampouco figura na edição crítica a divisão em capítulos.S. cit. temos na inteligência e no pensamento algo que estimamos mais que qualquer outra coisa.” 67 V. Ora bem: que isto seja falso demonstram-no com inteira certeza tua fé e tua consciência. por isso.: “O título da edição crítica é o seguinte: Que responde a isto o autor do livro.Proslógio Como65 minhas palavras não foram repreendidas pelo insensato de que falei no Proslógio. nada obstante. adotamo-la. Por isso mesmo. não existe..67 A isto repondo que. Porque o ser acima do qual não se pode pensar nenhum outro necessariamente tem de ser representado como carecendo de princípio [no tempo]. quando eu digo que é necessário que uma coisa exista verdadeiramente quando é ideada pelo pensamento como superior a tudo. como tampouco o seria concluir que a Ilha Perdida existe só pelo fato de que. [N. O. pelo contrário.] 97 . nem sequer concebido pelo pensamento. afirmas que. bastar-me-á responder ao católico.S. afirmo com inteira certeza que esse algo. Não obstante. por mais expressivo. 68 Como é claro nesta passagem. pode. esta demonstração não é legítima. Quanto ao que opinas que do fato de pensar uma coisa acima da qual não se possa conceber nada maior não se segue que esse algo esteja na inteligência. refuta-se o argumento de Gaunilo e tenta-se provar que o ser que é tal que não se pode conceber. o opúsculo de Gaunilo. cit. e que do fato de que esteja na inteligência não se segue necessariamente que exista na realidade. op. o que se lê acima. Pois bem: todo aquele cuja existência pode considerar-se como possível e que. se o ser acima do qual nada se pode pensar não é compreendido pela inteligência. o pressuposto fundamental do argumento de Santo Anselmo é a fé.

nec actu nec intellectu posset non esse. necesse est illud esse. Procul dubio quidquid alicubi aut aliquando non est: etiam si est alicubi aut aliquando. non esset ‘quo maius cogitari non possit’. Plus aliquid dicam. non potest non esse ‘quo maius cogitari nequit’. si uel cogitari potest. Quare si uel cogitari potest. Nullus enim negans aut dubitans esse aliquid quo maius cogitari non possit. Si utique uel cogitari potest. non tamen illud totum semper aut iste totus est ubique. Multo itaque magis. Sed et . Similiter cuius partes singulae non sunt. non esset quo maius cogitari non possit. Nam et si dicatur tempus semper esse et mundus ubique. Et singulae mundi partes. Nam quod heri non fuit et hodie est: sicut heri non fuisse intelligitur. posset uel actu UEL intellectu non esse. ex necessitate est. ita subintelligi possunt nusquam esse. si intelligi et in intellectu esse potest. Si ergo esset ‘quo maius cogitari non possit’. Falsum est igitur non esse aliquid quo maius cogitari non possit. sicut non sunt. ita numquam esse subintelligi potest. Si ergo cogitari potest esse. si uel cogitari ualet. Sed ponamus non esse. ubi aliae sunt. eIus omnes partes et ideo ipsum totum possunt cogitari numquam aut nusquam esse. quod nimis est absurdum. negat uel dubitat quia si esset. Et sicut singulae partes temporis non sunt quando aliae sunt.98 Santo Anselmo de Cantuária esse. At quidquid cogitari potest et non est: si esset. Sed quidquid cogitari potest et non est: si esset. ita potest cogitari nusquam esse. potest tamen cogitari numquam et nusquam esse. ubi aut quando sunt aliae partes. sicut non est alicubi aut aliquando. Amplius. ita possunt numquam esse cogitari. Non ergo ‘quo maius cogitari nequit’ cogitari potest esse et non est. Aliter namque non esset quo maius cogitari non posset. Et quod hic non est et alibi est: sicut non est hic.

Porque o que nega e o que duvida haver algo acima do qual não se possa conceber nada. com relação a todas as suas partes e. ainda que existisse. 99 . Portanto. pode-se pensar que nenhuma delas existe. Sem dúvida alguma. ainda assim o tempo não existe inteiro sempre. o que não existe em determinado tempo e lugar. Suponhamos. não nega nem duvida que. nem o universo existe inteiro onde quer que seja. ainda que possa ser pensado. ser concebido como não existente em parte alguma. se tal objeto existisse. É. ele existe necessariamente. se este objeto fosse o ser acima do qual nada se pode pensar. tudo que pode ser pensado e não existe realmente. E o que não existe aqui mas existe em outro lugar pode ser concebido como não existente em parte alguma. podem ser pensadas como não existentes em parte alguma. visto que não existe aqui. Pode ser considerado como não existente em parte alguma e em tempo algum. O mesmo ocorre com um objeto cujas partes não ocupam todas o mesmo lugar ou não existem no mesmo tempo. Acrescento que. portanto. e tudo que pode ser pensado e não existe poderia. esse objeto acima do qual não há nada. Por esta razão. nem por isso sua existência é menos certa. Logo. não existir na realidade nem na inteligência. que não se pode imaginar coisa mais perfeita. e. ainda que se diga que o tempo existe sempre e o universo existe em toda a parte. Acrescentarei algo mais. o que é tal. poderia existir ao mesmo tempo na realidade e no pensamento. O que não existia ontem e existe hoje poderia não ter existido nunca.Proslógio começando a existir. se pudesse ser compreendido e estivesse na inteligência. uma contradição de todo absurda. De outra maneira não seria um ser acima do qual não se pode imaginar nada maior. ainda que exista em outro tempo e lugar. falso que não haja algo real acima do qual não se pode conceber nada. não seria o ser sobre o qual nada se pode conceber. vir a ser. portanto. com efeito. que esse ser não exista. pode. ainda quando o objeto fosse percebido apenas pelo pensamento. com maior razão. existe necessariamente pelo simples fato de poder ser pensado. ao seu todo. se o pensamento pode admitir sua existência. não pode ser considerado possível sem que o seja realmente. decerto. por conseguinte. se viesse a existir não seria. aquele que é tal que não se pode imaginar nada superior. Porque. ainda quando ele seja concebido apenas pelo pensamento. como de fato não existia ontem. Numa palavra. do mesmo modo que não existe em certo lugar e tempo. Pela mesma razão. Como algumas das partes do tempo não existem ainda quando outras já existem. e como as diversas partes do universo não ocupam o mesmo lugar que outras. sem embargo.

ut haec de eo intelligantur. potest cogitari-esse et in re. est in intellectu. scilicet ‘quo maius non potest cogitari’. quae non est nisi lux solis. Deinde dixi quia si intelligitur. cogitatione cogitatur. Rogo quid consequentius? An enim si est uel in solo intellectu. cogitatione dissolui et non esse potest. non uidet lucem dici. ex eo quia intelligitur. Vide quia consequitur esse in intellectu. quod non conuenit. Quid hoc planius? Postea dixi quia si est uel in solo intellectu. quod maius est. Quare quidquid alicubi aut aliquando totum non est: etiam si est. Nullatenus ergo alicubi aut aliquando totum non est sed semper et ubique totum est. quod necessario in rei ueritate esse monstratum est? Sed dices quia etsi est in intellectu. sicut cogitatur sic est in cogitatione: ita quod intelligitur intellectu intelligitur. Certe uel hactenus intelligitur et est in intellectu ‘quo maius cogitari nequit’. non tamen consequitur quia intelligitur. non est quo maius cogitari non possit. quod audit. At ‘quo maius nequit cogitari’: si est. intelligit. aut nullum aut nimis obrutum habet intellectum. Sicut enim quod cogitatur. non potest cogitari non esse. et quod intellectu intelligitur. An est in nullo intellectu. est quo maius cogitari potest. Alioquin si est. non potest cogitari esse et in re? . Quod si dicis non intelligi et non esse in intellectu quod non penitus intelligitur: dic quia qui non potest intueri purissimam lucem solis. [2] Dixi itaque in argumentatione quam reprehendis quia cum insipiens audit proferri ‘quo maius cogitari non potest’. Si ergo in solo est intellectu: idipsum. Putasne aliquatenus posse cogitari uel intelligi aut esse in cogitatione uel intellectu. de quo haec intelliguntur? Si enim non potest. Utique qui non intelligit si nota lingua dicitur. et quod cogitatione cogitatur. non de eo possunt haec intelligi. sicut intelligitur ita est in intellectu.100 Santo Anselmo de Cantuária quod partibus coninactum est. potest cogitari non esse.

ainda. Portanto. com efeito. com todo o conhecimento. ele existe na inteligência. mas inteiro em todas as partes e sempre. e isto se acha na inteligência da mesma maneira como é compreendido por ela. Por isso. se o ser acima do qual nada maior pode ser concebido estivesse apenas na inteligência. portanto. o adversário. Pensas que o ser a que atribuímos essas propriedades possa ser pensado e compreendido existir no pensamento e na inteligência? Se não pode ser concebido. se esse pensamento é compreendido.Proslógio todo objeto composto de partes pode ser decomposto e concebido como inexistente pelo pensamento. se existe. Na argumentação que atacaste eu disse que até um insensato. Que pode haver de mais simples? Digo. mas não em conseqüência de ser compreendida. em todos os casos. inteiro em parte alguma nem em algum tempo. notamos que está na inteligência precisamente porque é compreendida. seria um ser acima do qual se poderia pensar algo maior. não seria o ser acima do qual nada se pode conceber. que se este ser se acha somente na inteligência. talvez. que está na inteligência. Quem pode duvidar que até o presente não compreendemos nem temos na inteligência a idéia de um ser acima do qual não se pode imaginar nenhum outro. o que é ainda mais. Quanto a nós. pretender que uma coisa cuja verdade é demonstrada de modo necessário não existe em nenhuma inteligência? Dirá. Mas o ser acima do qual nada se pode pensar. Não está. supor-se inexistente. E se dizes que não se pode ter na inteligência o que não pode ser inteiramente concebido ou compreendido. o que não existe inteiro em toda a parte e sempre pode. Se esta proposição é formulada numa língua conhecida do ouvinte e este não a compreende. o que não convém. Porque como o que é pensado é pensado pelo pensamento. pode-se concebê-lo como ser existente [também] na realidade. seria o mesmo que dissesses que aquele que não pode suportar o brilho da luz do sol não vê a claridade do dia. Acrescentei que. as qualidades já muitas vezes mencionadas? II. quando ouve nomear um ser tão grande que não se pode pensar outro maior. Pode-se. não pode ser concebido como não-existente. de outro modo. Pergunto eu: não é rigorosa a conseqüência? Porque se está somente na inteligência. pelo contrário. ou carece totalmente de inteligência ou seu espírito é demasiado obtuso. não 101 . tampouco podem atribuir-se-lhe essas propriedades. um ser tal que possamos atribuir-lhe. compreende o que ouve. igualmente o que é compreendido é compreendido pela inteligência. e este existe no pensamento da mesma maneira como é pensado. que mais não é que a luz desse astro.

si est in solo intellectu? Quid igitur consequentius. Alioquin cogitat quod cogitari non potest. . Si uero cogitat. quae difficultate immo impossibilitate inueniendi quod non est. inquis. Hoc uero qui cogitat. none qui hoc cogitat. aut non cogitat. est quo maius cogitari potest. non cogitat idipsum non esse. quod non conuenit. Si enim posset cogitari non esse. ac si aliquis insulam oceani omnes terras sua fertilitate uincentem. dico quia cum hoc cogitat. quod tam certa ratione ueritatis existit. idem esse quo maius cogitari possit? Sed utique ‘quo maius cogitari potest’. Sed hoc non potest. Non igitur potest cogitari non esse ‘quo maius nequit cogitari’. aliquid cogitat quod nec cogitari non esse possit. Aliter enim nullatenus existeret. quam si ‘quo maius cogitari nequit’ est in solo intellectu. si est in ullo intellectu. utique cogitat aliquid quod nec cogitari possit non esse. quia uerois descriptam facile quis intelligit. An ergo non consequitur ‘quo maius cogitari nequit’. Fidens loquor. dicat idcirco non posse dubitari uere esse in re. aut cogitat aliquid quo maius cogitari non possit. Si non cogitat. cui aptare ualeat conexionem huius meae argumentationis: inueniam et dabo illi perditam insulam amplius non perdendam. ‘perdita’ nominatur. Qui ergo illud cogitat. Denique si quis dicit se cogitare illud non esse. [3] Sed tale est. non cogitat non esse quod non cogitat. in nullo intellectu est ‘quo maius cogitari non possit’.102 Santo Anselmo de Cantuária Aut si potest. quia si quis inuenerit mihi aut re ipsa aut sola cogitatione existens praeter ‘quo maius cogitari non possit’. aliquid cogitat maius eo. Palam autem iam uidetur ‘quo non ualet cogitari maius’ non posse cogitari non esse. cogitari posset habere principium et finem. non esse in solo intellectu? Si enim est in solo intellectu.

Se não pensa neste objeto tão grande. Digo confiadamente: se alguém encontra uma coisa. da impossibilidade de encontrá-la. ou se representa algo acima do qual nada existe. Por conseguinte. pelo contrário. se. se não está senão na inteligência. o maior que se possa conceber. o maior que se pode conceber –. porque existe em virtude de uma razão segura e verdadeira. respondo que. algo acima do qual se poderia pensar algo maior? Mas não há dúvida que este ser acima do qual é possível pensar algo maior não está em nenhuma inteligência como algo acima do qual não é possível pensar algo maior.” 103 . necessariamente. III. pois bem. O mesmo69 ocorreria. Portanto. se ele não existisse senão na inteligência? Que coisa haverá mais lógica que. dizes tu. o que pensa este ser pensa algo que é impossível pensar como não-existente. que este ser. ou não existente senão no pensamento – exceto esse ser. então. Porque. uma ilha chamada Perdida por causa da dificuldade. não pode conceber que não existe. mas isto é impossível. à qual se possa aplicar legitimamente a conseqüência do raciocínio que expus. cit.B.: “Responde Santo Anselmo à objeção do adversário de que a ilha suposta existe necessariamente. quando esse pensamento o ocupa. o tem no pensamento. se pode sê-lo. ou. se alguém. comprometo-me a encontrar essa ilha perdida e a dar-lha. Finalmente. se alguém me diz que pensa que este ser não existe. o que não convém. de outro modo não existiria. o ser acima do qual não se pode conceber nada maior não pode ser representado como não-existente. se aquele acima do qual não se pode pensar nada maior não estivesse senão na inteligência.Proslógio pode também ser pensado como existente na realidade? E. do contrário. de sorte que jamais a perca. existiria. ou não o representa.. O. se existe na inteligência.S. pode-se imaginar um maior do que ele. concebe. 69 Julián Alameda. supondo uma ilha que sobrepuje todas as terras por sua fecundidade. um ser cuja não-existência não se pode supor. se pudesse ser pensado. melhor dizendo. Mas é evidente que o que é tal que não se pode pensar coisa maior não pode ser suposto como inexistente. não é certo que o que pensa assim pensa em algo maior do que ele. pela mesma razão. poderia ser pensado como algo que tem um princípio e um fim. visto que é conhecida no pensamento. ou existente de fato. pensaria algo que não se pode pensar. Daí não se segue. pois facilmente se compreende sua descrição. o que pensa este ser não pensa. não pode estar somente na inteligência? Porque. acrescentasse que não se pode duvidar de sua existência. certamente. op. que este mesmo ser não existe.

intelliget nihil. fortasse tu ipse. Illud uero solum non potest cogitari non esse. quae initium aut finem aut partium habent coniunctionem. et quod non nisi semper et ubique totum ulla inuenit cogitatio. quia secundum proprietatem uerbi istius falsa nequeunt intelligi. Falsum est enim non esse quod est. in quo nec initium nec finem nec partium coniunctionem. Et quidem possumus cogitare aliquid non esse. Nam et si nulla quae sunt possint intelligi non esse. quamdiu scimus esse. quamdiu scimus esse. quidquid alicubi aut aliquando totum non est.104 Santo Anselmo de Cantuária [4] Quod autem dicis. obiceres nihil quod est posse intelligi non esse. Si quis igitur sic distinguat huius prolationis has duas sententias. similiter et alia certa non esse posse intelligi. Sed hoc utique non potest obici de cogitatione. non existimando sed fingendo ita esse ut cogitamus. omnia tamen possum cogitari non esse. qui dicis. quamdiu esse scitur. quod summa res ista non esse nequeat cogitari. praeter id quod summe est. si bene consideretur. Et non possumus cogitare non esse. Scito igitur quia poses cogitare te non esse. Multa namque cogitamus non esse quae scimus esse. quamdiu esse certissime scis. quia non possumus cogitare esse simul et non esse. Illa quippe omnia et sola possum cogitari non esse. posse . quia simul et illud possumus et istud scimus. melius fortasse diceretur quod non esse aut etiam posse non esse non possit intelligi: potius dicendum fuit non posse cogitari. Quare non esse proprium deo non posse intelligi non esse. quod te miror dixisse nescire. Quod si aliquid eorum quae certissime sunt potest intelligi non esse. et multa esse quae non esse scimus. Si enim dixissem rem ipsam non posse intelligi non esse. et sicut iam dixi. quia cum dicitur.

Proslógio

IV. Quanto70 ao que diz o adversário, a saber, que, quando se afirma que este
ser supremo não pode ser pensado como não-existente, seria melhor dizer que
não pode ser crido ou julgado sem existência, ou, ainda que possa não existir,
persisto em crer que é mais exato dizer: não pode ser pensado. Porque, se eu
tivesse dito que este ser não pode ser julgado como não-existente, talvez tu,
que afirmas que, segundo o sentido próprio desta palavra, as coisas falsas não
podem ser compreendidas, objetarias que nada do que existe pode ser entendido como não-existente, porque é falso que o que existe não exista. Daqui se
segue que não seria exclusivamente próprio de Deus não poder ser concebido
sem existência. E se alguma das coisas que existem com certeza pode ser concebida como não-existente, do mesmo modo muitas outras coisas não menos
certas podem ser concebidas como podendo não existir. Mas esta observação
não pode ser feita relativamente à expressão pensar, se se considera atentamente seu sentido. Porque, ainda que nenhuma das coisas que existem possa ser
concebida como não-existente, todas, sem embargo, podem ser pensadas como
não-existentes, exceto o ser que está acima de tudo. Porque as coisas, todas ou
cada uma em particular, que têm um princípio e um fim, que são formadas de
partes, numa palavra, como já foi dito, tudo que não está inteiro num ponto
determinado do tempo e do espaço pode ser pensado como não-existente.
Mas apenas não pode ser pensado como não-existente aquele que não tem
princípio nem fim, que não é composto de partes reunidas e que sempre e em
toda parte é encontrado inteiro pelo pensamento.
Nota, pois, embora me espante a tua dúvida a respeito disto, que podes
pensar que não existes, ainda que saibas com toda a certeza que existes, porque destruímos com o pensamento muitas coisas que sabemos existir, e, pelo
contrário, supomos a existência de muitas outras que sabemos não existir; não
porque creiamos que as coisas sejam assim, mas porque gostamos de imaginá-las tais como as pensamos. Podemos pensar que uma coisa não existe, ainda
quando sabemos que existe, porque podemos ter este pensamento ao mesmo
tempo que conhecemos a existência do objeto; e, por outro lado, não podemos
pensar que uma coisa não existe ao mesmo tempo que sabemos que existe, porque não podemos pensar que existe e não existe ao mesmo tempo. Se alguém,
pois, distingue desta maneira as duas proposições que compõem o que acabo
de dizer, compreenderá que nada, durante o tempo de sua existência, pode ser
70 Julián Alameda, O.S.B., op. cit.: “Neste capítulo estabelece o autor a diferença entre as expressões
poder ser pensado e poder ser concebido como não existente. Diz que uma coisa é imaginar ou pensar algo
que não exista, e outra é julgar, crer, convencer-se de que não existe.”

105

106 Santo Anselmo de Cantuária

cogitari non esse, et quidquid est praeter id quo maius cogitari nequit,
etiam cum scitur esse, posse non esse cogitari. Sic igitur et proprium est
deo non posse cogitari non esse, et tamen multa non possum cogitari,
quamdiu sunt, non esse. Quomodo tamen dicatur cogitari deus non esse,
in ipso libello puto sufficienter esse dictum.
[5] Qualia uero sint et alia quae mihi obicis pro insipiente, facile est deprehendere uel parum sapienti, et ideo id ostendere supersedendum existimaueram. Sed quondam audio quibusdam ea legentibus aliquid contra
me ualere uideri, paucis de illis commemorabo.
Primum, quod saepe repetis me dicere, quia quod est maius omnibus
est in intellectu, si est in intellectu est et in re -- aliter enim omnibus
maius non esset omnibus maius -- nusquam in omnibus dictis meis
inuenitur talis probatio. Non enim idem ualet quod dicitur ‘maius omnibus’ et ‘quo maIus cogitari nequit’, ad probandum quia est in re quod
dicitur. Si quis enim dicat ‘quo maius cogitari non possit’ non esse aliquid in re aut posse non esse aut uel non esse posse cogitari, facile refelli
potest. Nam quod non est, potest non esse; et quod non esse potest,
cogitari potest non esse. Quidquid autem cogitari potest non esse: si est,
non est quo maius cogitari non possit. Quod si non est: utique si esset,
non esset quo maius non possit cogitari. Sed dici non potest, quia ‘quo
maius non possit cogitari’ si est, non est quo maius cogitari non possib
aut si esset, non esset quo non possit cogitari maius. Patet ergo quia nec
non est nec potest non esse aut cogitari non esse. Aliter enim si est, non
est quod dicitur; et si esset, non esset.
Hoc autem non tam facile probari posse uidetur de eo quod maius
dicitur omnibus. Non enim ita pates quia quod non esse cogitari potest, non est maius omnibus quae sunt, sicut quia non est quo maius

Proslógio

pensado como não-existente, e que, não obstante, excetuado o ser acima do
qual nada se pode pensar, tudo mais, ainda quando se sabe que existe, pode
ser pensado como inexistente. É, portanto, próprio de Deus que não se possa
julgar que não existe, e, sem embargo, muitas coisas não podem ser pensadas
como não-existentes enquanto existem. Contudo, quanto à maneira como se
pode dizer que é possível pensar que Deus não existe, creio havê-lo exposto em
meu livro.71
V. Quanto72 às objeções que me fazes, em nome de um insensato, é fácil apreciar seu pouco valor, mesmo para um homem de ciência medíocre. Por isso
eu decidira deixar o exame delas para outra ocasião. Mas, como eu soube que
impressionaram a mais de um leitor, direi uma palavra sobre ela.
Em primeiro lugar, freqüentemente repetes o que eu disse: o que é maior
que tudo o mais está na inteligência; se está na inteligência, está também na
realidade, porque, de outro modo, este ser maior que todos não o seria. Pois
bem: em parte alguma, em nenhuma de minhas palavras se encontra semelhante raciocínio. Porque para provar que um ser existe na realidade, não é
pois concludente dizer que é maior que todos, ou que é tal que o pensamento
não pode formar um mais perfeito. Realmente, se alguém afirma que o ser
acima do qual o pensamento não pode conceber nada maior não é um ser real,
ou pode não existir, ou pode ser pensado como não-existente, é fácil refutá-lo.
O que não existe pode, efetivamente, não existir, e o que pode não existir pode
ser pensado como não-existente. Ora bem, tudo que pode ser pensado como
não-existente, se existe, não é aquele acima do qual não se pode pensar em
nada maior. E se não existe, não é menos certo que, se existisse, não seria este
ser acima do qual é impossível pensar em algo maior. Mas não se pode dizer
do ser acima do qual é impossível pensar em algo maior que, se existe, não é
aquele acima do qual é impossível pensar em algo maior, ou que, se existisse,
não seria aquele acima do qual é impossível pensar em algo maior. É, portanto, falso que não existe, que pode não existir ou que pode ser pensado como
não-existente, porque, do contrário, se existe, não é o que se diz que é, e, se
existisse, não seria o que se diz que é.
Mas parece-me que não é tão fácil provar isso do ser maior do que todas
as coisas. Porque não é tão evidente que aquilo que pode ser pensado como
não-existente não é maior do que todas as coisas que existem, como é evidente
71 Proslógio, capítulo 3, pp 47-9 desta edição.
72 Examinam-se em particular diversas palavras do adversário, que reproduziu de maneira infiel o
raciocínio que combate. [N. C.]

107

Sicut ergo ‘quo maius cogitari nequit’ intelligitur et est in intellectu. quomodo certum est de eo quod dicitur ‘quo maius cogitari nequit’. quam recte me comparasti stulto illi. intelligi et esse in intellectu. nec sic est indubitabile quia. in isto uero non est opus alio quam hoc ipso quod sonat ‘quo maius cogitari non possit’. si est aliquid ‘maius omnibus’. qui hoc solo quod descripta intelligeretur. cum tantum differat ab eo quod dixi. nec sic me debuisti reprehendere dixisse quod probari potest. et ideo esse in rei ueritate asseritur: sic quod maius dicitur omnibus. Si uero uel post aliud argumentum potest. perditam insulam esse uellet asserere? [6] Quod autem obicis quaelibet falsa uel dubia similiter posse intelligi et esse in intellectu. Ergo si non similiter potest probari de eo quod ‘maius omnibus’ dicitur. posse tamen cogitari? Na hic sic aperte inferri potest: non est ergo maius omnibus quae sunt. sicut ibi apertissime diceretur: ergo non est quo maius cogitari nequit? Illud namque alio indiget argumento quam hoc quod dicitur ‘omnibus maius’. et aliquid maius eo etiam si non sit. non esset similiter aliud. et idipsum tamen posse cogitari non esse. Utrum autem possit. quemadmodum illud quod dicebam: miror quid hic . Quid enim si quis dicat esse aliquid maius omnibus quae sunt. aut si esset. Nullatenus enim potest intelligi ‘quo maius cogitari non possit’ nisi id quod solum omnibus est maius. non est aliud quam ‘quo maius non possit cogitari’. Vides ergo. et idcirco re ipsa esse ex necessitate concluditur.108 Santo Anselmo de Cantuária cogitari non possit. facile perpendit. quod de se per seipsum probat ‘quo maius nequit cogitari’: iniuste me reprehendisti dixisse quod non dixi. qui hoc posse ‘quo maius cogitari nequit’ cognoscit.

Pois bem. partindo do que é maior do que tudo. o que sabe que isto pode ser demonstrado pelo argumento acerca daquele acima do qual não se pode pensar em nada maior vê facilmente se é possível prová-lo. Portanto. ainda que não haja nada maior do que ele. a saber. não obstante. não há outra igual. que todas as coisas falsas ou duvidosas podem ser compreendidas e permanecer na inteligência da mesma maneira 73 Anselmo discute neste capítulo o que o adversário afirma no segundo parágrafo: que. Quanto73 ao que me objetas. nem é tão indubitável [o fato de] que. portanto. e. tampouco. VI. e que. se partindo do que é maior que tudo. nem é tão certo igualmente que.Proslógio que não é aquele acima do qual não se pode pensar em coisa maior. como é certo isto mesmo a respeito daquele de que é impossível pensar em algo maior. pode ser pensado como não-existente. Porque. poder-se-ia concluir com boas razões que esse ser não é maior do que todas as coisas que existem. porque não se pode. faria falta outro argumento.] 109 . segundo os princípios do Proslógio. sua existência é afirmada com verdade. esse ser acima do qual não se pode supor outro. Porque se alguém afirma que há algo maior do que tudo que existe. como é indubitável a respeito daquilo acima do qual não é possível pensar nada maior. necessariamente pelo mesmo motivo. e que. como se acrescentaria com a maior evidência que não é. Vês. se houvesse um ser maior que todos. existe na realidade. assim também o que é maior do que tudo é compreendido por nossa inteligência e nela permanece e. para poder concluir legitimamente. por causa disso. simplesmente por compreender sua descrição. C. sem embargo. se se toma por ponto de partida aquele acima do qual não se pode pensar nada. assim como aquilo acima do qual nada se pode conceber é compreendido por nós e está em nossa inteligência. Portanto. com que razão me comparaste a esse insensato que pretendia afirmar a existência da Ilha Perdida. pensar em algo maior. conceber que aquilo acima do qual não se possa pensar em nada seja diverso deste que é o único maior do que todas as coisas. todas as coisas falsas que podem ser imaginadas existem realmente. se há algo maior que todas as coisas. injustamente me corriges por eu ter dito o que não disse. já que minhas palavras são muito diferentes das que me atribuis. não haveria outro semelhante. pode-se. não se pode demonstrar bem o que demonstra de si mesmo e por si mesmo o ser acima do qual não se pode pensar nada maior. de modo algum. E se a existência do que é maior do que todas as coisas pode demonstrar-se mediante outra prova. não devias ter-me repreendido por eu ter dito o que pode ser provado. que não é necessário. tudo isso. [N.

ut idcirco neget aliquis quod intelligit. quod ideo negat quia non intelligit? Aut si aliquando negatur. quam de eo quod in nullo est intellectu? Quare nec credibile potest esse idcirco quemlibet negare ‘quo maius cogitari nequit’. quia cum dicuntur. ut quolibet modo illud intelligi et esse in intellectu ostenderem. quia non omnino . quia dixi ‘quo maius cogitari non possit’ intelligi et in intellectu esse. non diceris auditum cogitare aut in cogitatione habere sed intelligere et in intellectu habere. quod dicis quia falsa dicente aliquo quaecumque ille diceret intelligeres. et idem est illi quod nullatenus intelligitur: nonne facilius probatur quod dubium est de illo quod in aliquo. audiens intelligit quid dicens significet.110 Santo Anselmo de Cantuária sensisti contra me dubium probare uolentem. nihil prohibet quod dixi intelligi et esse in intellectu. Quomodo autem sibi conueniant. uelut falsa. tu uideris. cum dictum et auditum fuerit istud. id est scientia comprehendendo re ipsa illud existere. et quia illud quod non eo modo quo etiam falsa habetur in cogitatione. etiam antequam certum esset re ipsa illud existere. cuius sensum nullo modo cogitat. cui primum hoc sat erat. quia scilicet non possis hoc aliter cogitare nisi intelligendo. [7] Deinde quod dicis uix umquam posse esse credibile. quatenus consequenter consideraretur. ut uera. quod auditum aliquatenus intelligit: quia negat deum. et non omnis sed cuiusdam intellectus est haec definitio: non debui reprehendi. Quodsi et falsa aliquo modo intelliguntur. quod aliquatenus intelligitur. non eo modo posse cogitari non esse quo etiam potest cogitari non esse deus: respondeant pro me. an et in re. quomodo inquam conueniant et falsa intelligi et intelligere esse scientia comprehendere existere aliquid: nil ad me. qui uel paruam scientiam disputandi argumentandique attigerunt. utrum esset in solo intellectu. quia esse dicitur id. Aut si et illud. Nam si falsa et dubia hoc modo intelliguntur et sunt in intellectu. An enim rationabile est.

razoável que alguém negue o que concebe porque se afirma a existência do que nega porque não o concebe? Ou se se nega. o que as ouve compreende o que fala. e se uma coisa pode estar na inteligência de diversas maneiras. concebido por ela de alguma maneira. segundo dizes. porque nega a Deus. a fim de examinar depois se está somente na inteligência – como podem estar as coisas falsas –. e a segunda. [N. do que o que se refere a um objeto que não existe em nenhuma? Por isso não é sequer passível de ser acreditado que alguém negue o ser acima do qual não se possa pensar em nenhum outro.Proslógio que o ser que defini. ainda que falsas. C. Não sou eu que tenho de te responder. que concebê-las mais não é que perceber pelo intelecto que existem. o que é concebido até certo ponto como o que não é concebido de modo algum. com efeito. cujo pensamento não lhe 74 Refuta-se uma palavra do adversário no mesmo parágrafo em que afirma que o ser soberanamente grande pode ser concebido como não existente. compreender estas coisas é ter a idéia e saber. não é mais fácil provar o que é duvidoso em relação a um objeto que existe em alguma inteligência. Dizes74 também que não se pode crer que alguém tenha podido dizer e entender que o ser que definimos não possa ser pensado como não-existente. está também na realidade – como estão as coisas verdadeiras. e que. Mas como pôr de acordo as diversas opiniões que estabeleces quando dizes que concebes as coisas. que não queria senão provar uma coisa ainda problemática e que me contentava com demonstrar primeiro que este algo superior a tudo estava na inteligência. e cujo enunciado compreende até certo ponto. Respondam por mim os que possuem mesmo a mínima ciência da controvérsia e da argumentação. no sentido de que. causa-me estranheza o sentimento que te moveu contra mim. cabe-te a ti resolver estas dificuldades. da mesma maneira que se pode pensar que Deus não existe.] 111 . porque. Será. E se mesmo as coisas falsas são. quando são enunciadas. não mereço ser repreendido por dizer que o ser acima do qual nada se pode pensar pode ser concebido e existe na inteligência antes mesmo que seja certo que existe na realidade. nada obstante. que existem? Como pôr de acordo estas duas assertivas? A primeira diz que as coisas falsas são concebidas. concebidas. além disso. ou se. ademais. nada impede que o que eu disse seja compreendido pela inteligência e nela permaneça. como o insensato que concebe que Deus não existe. pretendes que o que existe não é compreendido por teu pensamento e não está na inteligência da mesma maneira que o que não existe. VII. alguma vez. de certo modo. Porque se as coisas falsas ou duvidosas são compreendidas pela inteligência e nela permanecem. que alguém expressa diante de ti.

nec eam ex alia simili potes conicere: palam est rem aliter sese habere. quod esse non intelligeretur. istud aliquo modo intelligeret. et sicut istud illo melius est. Quis enim uerbi gratia uel hoc cogitare non potest. Quoniam namque omne minus bonum in tantum est simile maiori bono inquantum est bonum: patet cuilibet rationabili menti. aut aliquid hoc maius cogitari potest? Aut non est hoc ex iis quibus maius cogitari ualet. possem ostendere. quam id quod nullo modo intelligitur probatur? Non ergo irrationabiliter contra insipientem ad probandum deum esse attuli ‘quo maius cogitari non possit’. et siue sit in re aliquid huiusmodi siue non sit. ualde tamen eo melius esse id quod nullo modo indiget uel cogitur mutari uel moueri? An hoc cogitari non potest. ita isto esse melius illud quod nec finem habet nec initium. quoniam nec ipsam rem nosti. multum possumus conicere illud quo nihil potest maius cogitari. Item quod dicis ‘quo maius cogitari nequit’ secundum rem uel ex genere tibi uel ex specie notam te cogitare auditum uel in intellectu habere non posse.112 Santo Anselmo de Cantuária intelligitur negatur: nonne tamen facilius id quod aliquo modo. conicere id quo maius cogitari nequit? Est igitur unde possit conici ‘quo . quod licet incipiat non tamen desinit. multo melius esse bonum. etiam si non credat in re esse quod cogitat. scilicet si bonum est aliquid quod initium et finem habet. cum illud nullo modo. quia de bonis minoribus ad maiora conscendendo ex iis quibus aliquid maius cogitari potest. Non enim ad hoc protuli picturam praecogitatam. etiam si semper de praeterito per praesens transeat ad futurum. [8] Quod uero tam studiose probas ‘quo maius cogitari nequit’ non tale esse qualis nondum facta pictura in intellectu pictoris: sine causa fit. ut tale illud de quo agebatur uellem asserere sed tantum ut aliquid esse in intellectu.

porque não o conheces nem tampouco podes conhecê-lo por alguma outra coisa semelhante. do mesmo modo é melhor que este um bem que não tem princípio nem fim. que se há algo bom que tem princípio e fim. partindo de uma coisa conhecida no gênero ou espécie. no parágrafo terceiro. as coisas são totalmente outras. E quanto a dizeres que não podes pensar nem conceber. no parágrafo quarto. querendo provar a existência de Deus a um insensato. portanto. a saber. porque compreendia esta definição de alguma maneira. apresentei-o na definição do ser acima do qual não se pode conceber nenhum outro.] 113 . portanto. ao passo que não compreendia Deus de maneira alguma. este ser acima do qual não há nada maior. podemos. Porque. e de que princípios se pode concluir sobre a existência do ser soberanamente grande. do qual se pode deduzir de maneira provável o que é aquilo acima do qual não se pode 75 Examina o autor a comparação tomada à pintura. ainda quando mudasse. quando o ouves nomear.Proslógio apresenta nenhuma imagem sensível. é evidente a qualquer inteligência razoável que. em resposta às questões do adversário. C. [N. Sem75 razão alguma te esforças por demonstrar que o ser acima do qual não se concebe nada maior não é como uma pintura na inteligência do artista. a mudar ou mover-se é muito melhor que este último? Será que isto não pode ser pensado? [Indaguemos:] Ou se pode pensar em algo maior do que isso? Ou não é este um dos seres acima dos quais se pode pensar em algo maior e dos quais se pode conjecturar o que é aquilo acima do qual não se pode pensar nada maior? Existe algo. concebendo essas coisas acima das quais é possível pensar algo maior. conjecturar muito daquele acima do qual não se pode pensar nada maior. VIII. não pode pensar ao menos isto – mesmo quando não creia que o que pensa existe realmente –. nem imaginar. segundo a qual podes julgar. é melhor um bem que tenha princípio mas não tenha fim. ou então – exista ou não algo semelhante – aquilo que não tem necessidade nem se vê obrigado. passando sempre do passado pelo presente ao futuro. de modo algum. subindo dos bens inferiores aos bens superiores. por exemplo. Com efeito: quem. como este é melhor que o primeiro. Não me servi do exemplo de um quadro para demonstrar que tal era o ser buscado. Não tive outro objetivo senão mostrar que podia haver na inteligência algo que facilmente fosse concebível como não existente. Ou se o nega porque não o compreende inteiramente. e. não é mais certo que se provará inteiramente o que é compreendido até certo ponto do que aquilo que não é compreendido de modo algum? Com razão. visto que tudo que é menos bom se parece ao que é melhor pelo bem que têm em comum.

114 Santo Anselmo de Cantuária

maius cogitari nequeat’. Sic itaque facile refelli potest insipiens qui sacram
auctoritatem non recipit, si negat ‘quo maius cogitari non ualet’ ex aliis
rebus conici posse. At si quis catholicus hoc neget, meminerit quia “inuisibilia” dei “a creatura mundi per ea, quae facta sunt, intellecta conspicinntur, sempiterna quoque eius uirtus et diuinitas”.
[9] Sed et si uerum esset non posse cogitari uel intelligi illud quo maius
nequit cogitari, non tamen falsum esset ‘quo maius cogitari nequit’ cogitari
posse et intelligi. Sicut enim nil prohibet dici ‘ineffabile’, licet illud dici non
possit quod ‘ineffabile’ dicitur; et quemadmodum cogitari potest ‘non cogitabile’, quamuis illud cogitari non possit cui conuenit ‘non cogitabile’ dici:
ita cum dicitur ‘quo nil maius ualet cogitari’, procul dubio quod auditur
cogitari et intelligi potest, etiam si res illa cogitari non ualeat aut intelligi,
qua maius cogitari nequit. Nam etsi quisquam est tam insipiens, ut dicat
non esse aliquid quo maius non possit cogitari: non tamen ita erit impudens, ut dicat se non posse intelligere aut cogitare quid dicat. Aut si quis
talis inuenitur, non modo sermo eius est respuendus sed et ipse conspuendus. Quisquis igitur negat aliquid esse quo maius nequeat cogitari: utique
intelligit et cogitat negationem quam facit. Quam negationem intelligere
aut cogitare non potest sine partibus eius. Pars autem eius est ‘quo maius
cogitari non potest’. Quicumque igitur hoc negat, intelligit et cogitat ‘quo
maius cogitari nequit’. Palam autem est quia similiter potest cogitari et intelligi, quod non potest non esse. Maius uero cogitat qui hoc cogitat, quam
qui cogitat quod possit non; esse. Dum ergo cogitator quo maius non possit cogitari: si cogitatur quod possit non esse, non cogitatur quo non possit
cogitari maius. Sed nequit idem simul cogitari et non cogitari. Quare qui

Proslógio

pensar em nada maior. É assim que se pode refutar facilmente o insensato
que não admite a autoridade sagrada, se ele negar que aquilo acima do qual é
impossível pensar algo maior possa ser conhecido a partir de outros seres. Mas
se um católico o negasse, deveria lembrar-se de que desde a criação do mundo
as perfeições invisíveis de Deus e ainda seu poder eterno e sua divindade se fizeram
visíveis pelo conhecimento que essas criaturas nos dão.76
IX. Mas77 ainda quando fosse certo que não se pode pensar e conceber um
ser acima do qual não se possa imaginar outro, seria verdadeiro, sem embargo, que se pode pensar e conceber uma coisa que esteja acima de todas as
demais. Diz-se de uma coisa que é inefável embora não se possa falar, com
rigor, do que se designa como inefável; e pode pensar-se numa coisa enunciada como inconcebível, ainda que esta qualificação não possa realmente
convir senão a uma coisa que não pode ser pensada. Da mesma maneira,
quando se diz o ser acima do qual não se pode conceber nada, sem dúvida
o que desta maneira se expressa pode ser pensado e compreendido, ainda
que o ser acima do qual não se pode pensar outro não possa ser pensado e
concebido. Porque, ainda que se possam encontrar homens suficientemente
néscios para negar a existência de um ser acima do qual não se pode conceber outro, sem embargo sua impudência não chegaria ao ponto de sustentar
que não compreende o sentido das expressões pelas quais se designa este ser;
e se algum deles fosse capaz de afirmá-lo, cumpriria repudiar com desprezo
suas palavras e até mesmo sua pessoa. Portanto, todo homem que nega que
existe um ser acima do qual nada se pode pensar compreende, pelo menos,
o sentido da negação que expressa; negação esta que não pode ser compreendida sem que suas diversas partes o sejam igualmente. Pois bem: uma dessas
partes é o ser tal que nada maior do que ele pode ser concebido. Assim, o que
expressa essa negação, seja ele quem for, compreende e pensa no sentido
dessas palavras: nada maior pode conceber-se. Mas é claro que se pode igualmente pensar e conceber que este ser não pode não existir; pois bem, quem
tem este último pensamento concebe um ser maior que aquele e supõe que
o objeto de seu pensamento poderia muito bem não existir na realidade. Por
conseguinte, quando se pensa numa coisa acima da qual não se pode conceber outra maior, se se crê que possa não existir, não é já uma coisa tal que não
se possa conceber outra maior. Mas o mesmo objeto não pode ser, ao mesmo
76 Rom 1: 20.
77 Sustenta o autor que se pode pensar e conceber um bem supremo. Confirma-se o argumento
contra o insensato. [N. C.]

115

116 Santo Anselmo de Cantuária

cogitat quo maius non posit cogitari: non cogitat quod possit sed quod non
possit non esse. Quapropter necesse est esse quod cogitat, quia quidquid
non esse potest, non est quod cogitat.
[10] Puto quia monstraui me non infirma sed satis necessaria argumentatione probasse in praefato libello re ipsa existere aliquid, quo maius cogitari non possit; nec eam alicuius obiectionis infirmari firmitate. Tantam
enim uim huius prolationis in se continet significatio, ut hoc ipsum quod
dicitur, ex necessitate eo ipso quod intelligitur uel cogitatur, et reuera probetur existere, et id ipsum esse quidquid de diuina substantia oportet credere. Credimus namque de diuina substantia quidquid absolute cogitari
potest melius esse quam non esse. Verbi gratia: melius est esse aeternum
quam non aeternum, bonum quam non bonum, immo bonitatem ipsam
quam non ipsam bonitatem. Nihil autem huiusmodi non esse potest, quo
maius aliquid cogitari non potest. Necesse igitur est ‘quo maius cogitari
non potest’ esse, quidquid de diuina essentia credi oportet.
Gratias ago benignitati tuae et in reprehensione et in laude mei opusculi. Cum enim ea quae tibi digna susceptione uidentur, tanta laude extulisti: satis apparet quia quae tibi infirma uisa sunt, beneuolentia non
maleuolentia reprehendisti.

pensado e não pensado. é. cremos. Segue-se também que é tudo que devemos crer da substância divina.Proslógio tempo. não pensa no que pode existir. X. ser eterno que não o ser. Por isso. e creio que não mediante provas débeis. necessariamente. pois. mas sim por meio de um argumento necessário. Não há nada que possa diminuir a força das razões que apresentei. tanto no louvor quanto na repreensão com que recebeste meu livro. mas sim no que não pode não existir. ser bom que não o ser. realmente. com efeito. tudo que se deve crer da substância divina. quanto a esta substância. necessariamente. se acha necessariamente demonstrada. por exemplo. Agradeço-te a benignidade. porque tudo que pode não existir já não é aquilo em que ele pensa: um ser tal que maior não pode ser concebido. Vale mais. aquele que pensa num ser acima do qual não há nada maior. que existe. pelo simples fato de ser ele compreendido ou pensado. necessariamente. ser a bondade mesma que não o ser. um ser acima do qual não se pode conceber nada maior. Portanto. porque o sentido desta prova contém em si uma força tão grande que a existência do objeto de que se trata. tudo aquilo cuja existência é melhor que sua inexistência. todas essas coisas. 117 . Aquilo em que pensa existe. Pois bem: o ser acima do qual não se pode pensar nada maior é. Os elogios tão grandes que fizeste àquele que te pareceu digno de consideração são a garantia de que a malevolência não teve parte em tuas reflexões e que criticaste com bondade o que te pareceu digno de correção. Penso que demonstrei.

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ex Acherii Spicilegio .S. Anselmi cantuariensis archiepiscopi Opera Omnia I) Obras dogmáticas Monologium Proslogion Quid ad haec respondeat editor ipsius libelli De fide Trinitatis et de incarnatione Verbi De processione Spiritus sancti contra Graecos Dialogus de casu diaboli Cur Deus homo Liber de conceptu virginali et originali peccato Dialogus de veritate Liber de voluntate Dialogus de libero arbitrio De concordia praescientiae et praedestinationis De azymo et fermentato De sacramentorum diversitate Responsio ad Waleranni querelas Offendiculum sacerdotum De nuptiis consanguineorum Dialogus de grammatico Liber de voluntate Dei I) Obras ascéticas e parenéticas Homiliae et Exhortationes Sermo de passione Domini Exhortatio ad contemptum desiderium aeternorum Admonitio morienti Carmen de contemptu mundi Liber Meditationum et Orationum Meditatio super Miserere De pace et concordia Tractatus asceticus.

ex Marten. Ampliss. collect. Anselmi . Quaedam dicta utilia ex dictis S.122 Santo Anselmo de Cantuária Oratio dicenda ante perceptionem corporis et sanguinis Domini Salutio ad Jesum Christum ex Anecdotis sacris De Levis Hymni et psalterium de S. Maria Versus de Lanfranco De verbis Anselmi.

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.Esta obra foi composta em Adobe Garamond Pro e impressa pela Gráfica Pallotti em offset sobre papel Pólen Soft 80g para a Editora Concreta em março de 2016.