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- Boletim Bibliográfico 12 - O Escritor do mês - abril de 2016 - José Saramago

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José Saramago é um autor marcante das últimas décadas do século XX, tendo tido um papel
de destaque na internacionalização da literatura portuguesa, dando-lhe palcos relevantes em
diferentes continentes. José Saramago foi um escritor invulgar
por diferentes motivos. Definiu uma escrita em moldes muito
próprios, narrando diversas vezes como se o discurso fosse do
nível oral e propondo uma longa conversa.
As suas frases longas, as suas polémicas, o seu posicionamento
político, as suas afirmações sobre a espuma dos dias deram-lhe
um carisma que atraiu fãs do mundo inteiro e afastou muitos
outros, por desconhecimento do seu real valor enquanto criador de ideias. Verificaram-se assim alguns equívocos que importa ultrapassar para que mais pessoas cheguem ao valor intrínseco da sua escrita.
O primeiro equívoco é pensá-lo como um escritor de romances
históricos, situação surgida pelo seu primeiro êxito - Memorial
do Convento.
José Saramago não escreveu romances históricos, no sentido de
devolver a respiração de uma sociedade, de um conjunto social e cultural. Memorial do Convento é uma obra de ficção sobre um tempo específico do passado, dando-lhe o autor uma
perspetiva do seu próprio conhecimento e da sua análise do presente. Memorial do Convento é uma oportunidade para conhecer o que pensa Saramago sobre a transformação das sociedades e, neste caso, a da 1ª metade do século XVIII. Em José Saramago, a História não é
apreendida como uma certeza credível, sendo muitas vezes considerada como uma fantasia,
na medida em que ela muda conforme as dimensões do tempo e perspetiva das ações concretizadas por diferentes pessoas.
Em O ano da morte de Ricardo Reis não volta a escrever um romance histórico, meditando
entre um fascínio sobre a racionalidade deste heterónimo de Pessoa e um certo desconforto
pela ideia de satisfação pelo espetáculo do mundo.
Coloca assim, o ano de 1936 como pano de fundo e procura interrogar-nos sobre a crise das
consciências e o nascimento dos autoritarismos na Europa. É uma convocação para nos interrogar, tendo como cenário a desordem humanitária dos fascismos europeus. É uma interrogação, a de verificar se ainda seria possível escrever odes sobre as quais nos sentimos sábios.
A História do Cerco de Lisboa, é o livro onde foi mais longe na interrogação do espelho da
História, e onde cruzou espaços temporais diferenciados, o século XII e o século XX. Nele, discute os limites da “verdade histórica”, numa narrativa que nos devolve o homem comum, o
que muitas vezes não se ouve nas narrativas da História.
Com A História do Cerco de Lisboa, José Saramago procurou dar-nos a discussão da possibilidade de se escrever a História do Tempo Longo e essa é uma das suas marcas como escritor.
Apresenta, num tempo conjuntural, a discussão do que é permanente nas sociedades, e de
como o que vivemos e construímos vive desta combinação, de atitudes e valores de diferentes figuras. Aquilo que José Saramago considerou ser o âmago da pedra, a carne e o sangue
por que lutamos, fê-lo evoluir para um tipo de literatura que colocou questões sobre valores
importantes, interrogando-nos sobre o que somos, que valores e preconceitos veiculamos e
porque o fazemos.
A abordagem de temas que tocavam crenças de muitas pessoas criaram-lhe dificuldades. São
romances desta fase, O Evangelho segundo Jesus Cristo, O Ensaio sobre a Cegueira ou Todos
os Nomes. No Livro das Tentações, ou em O Homem Duplicado, revemos a restauração da
ideia que nos devolve à pedra essencial de que somos feitos em estreita ligação ao mundo
material e à nossa memória.

Se olharmos as coisas de perto, na melhor das hipóteses chegaremos à conclusão de que as palavras tentam dizer o que pensámos ou sentimos, mas há motivos para suspeitar que, por muito
que procurem, não chegarão nunca a enunciar essa coisa estranha, rara e misteriosa que é um sentimento.
José Saramago. (2010). Nas Suas Palavras. Alfragide: Editorial
Caminho.

- Boletim Bibliográfico 12 - O Escritor do mês - abril de 2016 - José Saramago -

“Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado sob o côncavo do céu e a eterna interrogação dos astros. Que palavra dirá
então." (1)
As memórias com que trabalhamos o quotidiano dão-nos imagens e flashes de vivências
que tivemos e que pelo seu significado nos concedem espaços de viagem a um passado
que apenas reencontramos. Neste território, queremos habitar o olhar, as formas de brincar com os dias, desejar construir o quotidiano com a mesma forma de possíveis, mas já lá
não estamos com as mesmas atribuições de fantasia. As pequenas memórias, como espaço de infância é um território já afastado de nós, estranho à nossa dimensão de seres trabalhados no tempo e onde a viagem está já marcada por esse pó que se levanta dos dias.
Escrever da infância é sempre regressar ao milagre da descoberta dos primeiros passos,
do olhar que ficou marcado nos gestos, nos encontros, nas pessoas, nos objetos que reivindicam uma pequena imortalidade. A memória é também uma reconstrução desse tempo e nesse sentido do que foi a infância. Em Pequenas Memórias José Saramago reescreve
esse tempo, em que procurou integrar um espaço social, económico e cultural. As suas
memórias terminam na adolescência, pois a construção da infância, a emersão nesse território por onde entrou no mundo aí fazem terminar a fantasia desse olhar. Biografia, uma
biografia sua já não teria o mesmo significado. Em Pequenas Memórias, Saramago recorda
o processo de reconstrução da imagem da infância, pelo que foi, pelo que foi encontrado
de particular e de original nessa festa que é sempre a chegada de uma criança. Em Pequenas Memórias não recebemos ainda os elementos que confirmaram Saramago com um
escritor. Apesar do seu sucesso educativo como aluno, é o olhar, os ambientes, as sombras, as pessoas, os dilemas de vida que forjam as suas representações do mundo. José
Saramago descobriu-se como grande leitor mais tarde e a sua escrita conduz às palavras,
essa imaginação das possibilidades, que desde criança o colocou nesse confronto com o
quotidiano. As Pequenas Memórias explicam-no como pessoa e aproximam-nos de uma
ironia de pensamento com que povoou os seus livros. A recriação do real, a ousadia das
abordagens, as polémicas que manteve foram formas de construir as paisagens humanas,
que desde cedo conheceu e quis transformar. A memória é também em Saramago, uma
reconstrução, uma forma de possíveis. Toda a sua obra mergulha na tentativa conquistar
o real, por esse olhar que desde cedo procurou trazer uma forma mais justa e questionável de medir o horizonte dos dias.
(1) José Saramago. (2014). As Pequenas Memórias. Porto: Porto Editora.

«(...) Levantemos um punhado de
terra e apertemo-la nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável:
o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se reconhece e
viajou à roda do mundo infatigável, porque
mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem
milagres como a água, a pedra e a raiz.

Ficha Técnica
Redação: Equipa da Biblioteca
Biblioteca: Escola Secundária Rainha Dona Amélia
Periodicidade: Mensal (abril)
Distribuição/Publicitação:
(Afixação na Biblioteca / Plataformas digitais)

Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.»
José Saramago. (2014). “Na ilha por vezes habitada”, in Provavelmente Alegria. Porto: Porto Editora.