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p3 . sendo velho. e um velho. já foi tudo aquilo que era para ser. que o consumiu e absorveu também. já é tudo o que mais nada será. Eu sou hoje o que já fui. Eram os velhos que diziam.? 1 Eram os velhos que diziam Houve uma altura que desabou em mim. E velho é tudo aquilo que ainda está para me chegar. que me fez dele e me fez. numa vida que nunca acaba mas que também nunca existe. que me consumiu e me sorveu. desabar em cima de alguém. Que me desfez sob o peso do ar imenso. não era eu. depois. Que me transformou em pó e me elevou no ar.

e assim. não era eu. nada. Eram os velhos que diziam. até que desistam de querer. diziam eles.? Eram os velhos que diziam. numa luta inglória. Eram os velhos que diziam. Eram os velhos que no fim próximo que não tem mais nada para ser sorviam golfadas de ar imensas. p4 . a não ser desaparecer. e sorverás todo o ar que couber em ti. sempre que sentiam esse fim aproximar-se. serás tu que desabarás para cima daqueles que te querem afogar. numa ideia de velho que não tem mais nada. todo o ar que precisares para viver desde hoje até amanhã. não era eu. não era eu. Pegarás nessa altura que cai para cima de ti.

E a solidão. que sentia o conforto do vazio de nada sentir. sempre a pensar no que fazer. é o que bastava para enganar a ausência das pessoas de que não preciso. para falar. e eu a pensar. mas antes a falta de mim mesmo. Um milhão de murmúrios levantam-se no ar. junto ao mar. não era a falta de alguém junto a mim. Debicam-me a existência. Sugam-me a vida. a espuma que tenta escapar. as pessoas. Era ali. assim. quando vinha. empurram-me para longe de mim. para elas. para as ouvir. flutuar. vão e voltam. um milhão de ondas que vão e que voltam. subir no ar. as pessoas. e a dizer isto e aquilo. e elas a falar. puxam-me para junto delas.? 2 Um milhão de murmúrios Nunca vivi a solidão junto ao mar. sem parar. pois não as queria. e eu sem p5 . a tentar não me largar. Vão e voltam.

agarro-me. a minha casa. Serei eu. então. não te largues. Um dia. serei eu o murmúrio das ondas que confortará o homem na escarpa que ambiciona o horizonte.? saber que palavras querem elas ouvir de volta às palavras acabaram de me entregar. o meu ponto de encontro e aconchego. hei-de ser mar sem ser eu. quero mergulhar naquelas águas fundas e não voltar. o meu seguro confidente. dois como um só. era eu e ele. Olhando do alto da escarpa. amantes. Um dia. ambos. Agarro-me. O mar é o meu companheiro e amante. olhando o círculo do horizonte que me envolvia me pertencia. Não preciso delas. p6 . Um dia.

que se aconchega.? 3 O meu caminho O mundo passa por mim. sorri e abraça-se ao namorado indiferente. A rapariga jovem da cara sarapintada vive a felicidade dos dias novos. aconchega-se. maior do que eu. Escrevo. que já passou. Vislumbro uma ideia de felicidade. escrevo para não me esquecer. pelos outros. Viro o olhar. Do outro lado. que nunca tive. Sorri. Passa à velocidade de um comboio que me transporta. adormece. indiferentes. Vislumbro uma felicidade nova e antiga. Duas filas adiante. p7 . O mundo passa por eles. para um destino. quando olho para a rapariga jovem que se reconforta. sempre foi maior do que eu.

A realidade. p8 .? A verdade. novamente. Volto para mim. volto para detrás dos meus olhos. volto para de onde nunca saí.

Sentimos as cores. os sabores e os sons de tudo aquilo que vem lá de fora. das nossas ansiedades. Tomam conta das nossas dores. p9 . dos nossos medos e das nossas alegrias.? 4 A Verdade A urgência do imediato é o fôlego que nos tira a respiração. e essas coisas todas entram sem serem convidadas. Vivemos aprisionados. não precisa de nós para nada. Vivemos aprisionados nelas. A vida orienta-se sozinha. das nossas palavras. entram e tomam conta de nós. Vivemos a vida que nos entra olhos adentro. dos nossos amores. da nossa vida.

? A urgência do imediato comanda o prisioneiro que todos os dias faz igual a ontem e que fará igual amanhã. p10 . E à força de tanto cativeiro já não sabemos viver longe da prisão.

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