Universidade de São Paulo

Faculdade de Direito
Departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social

Fábio Machado Pasin

Trabalho de Iniciação Científica
Projeto de Lei de Cotas para o Estado de São Paulo:
Uma construção democrática instituída por Iniciativa Popular

Orientador: Prof. Dr. Marcus Orione Gonçalves Correia

São Paulo
2015
1

Universidade de São Paulo
Programa de Iniciação Científica
Edital 2014/1015

RELATÓRIO FINAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA
2014/2015

Projeto de Lei de Cotas para o Estado de São Paulo: Uma
construção democrática instituída por Iniciativa Popular

Aluno: Fábio Machado Pasin / 7148630
Orientador: Prof. Dr. Marcus Orione Gonçalves Correia
Departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social
Área do trabalho em Direitos Humanos

São Paulo
2015
2

Índice

Introdução ...............................................................................................................................05
Objetivos

................................................................................................................................0

7
Metodologia .............................................................................................................................0
8
Resultados ...............................................................................................................................11
Análises
I. Capítulo 1: Análise das principais produções teóricas
relacionadas a questão racial no Brasil a

partir

do

Século

XX

......................................12
1.1.

Ideias

eugênicas

e

o

mito

da

democracia

e

a

Democracia

racial ..............................................................13
1.2.

Casa

Grande

&

Senzala

Racial .............................................................18
1.3. A crítica e o desvelamento da Democracia Racial
enquanto mito ......................................................................................................................23
II. Capítulo 2: Análise da desigualdade racial hoje: O mito e
a

perpetuação

do

racismo

..................................................................................................42
2.1.

Dados

sócio

econômicos

comparativos ........................................................................43
2.2. Pensamento social racista expresso nos
meios de comunicação .........................................................................................................47
III. Capítulo 3: Movimento Negro como forma
3

.........................................3............. A especificidade das Cotas Raciais no Estado de São Paulo .........3......................... O PL e seu significado na dinâmica negra ............57 3....................................................2..........71 4...............................................................81 4...........................86 Conclusão final .............................. Da sua invisibilidade à sua ressignificação ...........................88 Avaliação do Orientador ...........................................76 4...........................94 4 ..........................................................................................1...................50 3..........5..................................... As cotas raciais no Brasil: histórico e apontamentos sobre 2012 ......................................70 4.....4........................................70 4..... Do seu histórico organizativo e forma de luta em São Paulo ....................................................................de combate ao racismo .........................65 IV....................................................................... As cotas raciais na Universidades paulistas em resposta a 2012: o caso do PIMESP .....50 3....................... Da sua relação com o Direito em São Paulo: antes e hoje ............................................................86 Referências .................................................................................3.... Capítulo 4: O Projeto de Lei de Iniciativa Popular e as disputas atuais por Cotas em São Paulo ........................1 As cotas raciais no Brasil: definição e histórico ...............................................................

Introdução Vemos que ao longo da história da formação do Brasil. reproduzindo a mesma situação ainda nos dias de hoje. Com base nisso. representado pela implantação do modo de produção capitalista dependente. o Brasil apresentou sempre uma situação de conflito racial permanente. houve medidas concretas que definiram e prejudicaram sistematicamente a parcela negra da população brasileira. esse trabalho tem por pretensão mostrar. enquanto projeto de identidade nacional. ou enquanto elemento central para o sucesso “civilizatório” do país ao adentrar no mundo moderno de máquinas e trabalho assalariado. ou ainda. envolvendo desde o elemento mais básico para a implantação do modo de produção escravista que aqui imperou em mais da metade do período da formação social do país até hoje. Apesar de pouco ressaltada na historiografia tradicional. difundido mundialmente e escamoteador de desigualdades intrínsecas em nossa sociedade. em todo o período de discussão. que em meio 5 . a questão racial sempre representou uma importante discussão. Nesse sentido. a partir da análise de um objeto atual que sintetiza muito do momento atual do movimento negro paulista.

a essa situação permanente de conflito. abordaremos a reivindicação por Cotas Raciais. que propõe reserva de vagas para negros. surge o elemento articulador desse trabalho: Projeto de Lei de Cotas para o Estado de São Paulo 1.pdf>. de diferentes modos e buscando diferentes saídas. temporariamente falando. no dia 1 de agosto de 2013. Assim. da pratica do movimento negro na formação social do Brasil e. nos termos da legislação. nesse ponto. 1 Projeto de Lei em fase de coleta de assinaturas para sua posterior entrada processual na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. como objeto desse trabalho. o Projeto foi proposto pelo Movimento Negro Paulista articulado com outros setores sociais. para aprovação na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP). tentar-se-á aprofundar o significado político implícito no Projeto de Lei de Cotas a partir da análise de teorias raciais desenvolvidas no Brasil. a conjuntura política do Estado de São Paulo em torno da questão. Tal reivindicação busca sua legitimidade na utilização do instituto jurídico da Iniciativa Popular para ser implementado e. localizando nosso recorte no Estado de São Paulo e. por meio de Iniciativa Popular. Acesso em 17/05/2015. o povo negro sempre esteve resistindo. Dessa forma. em sua atual conjuntura. indígenas e deficientes. 6 . criar democraticamente uma ação afirmativa para uma população historicamente excluída e oprimida pelo instrumental jurídico. 2 Espaço de articulação que reúne os movimentos negros paulistas. buscar-se-á analisar de que maneira a proposta de Iniciativa Popular – que precede participação popular – dialoga com a necessidade de uma ação afirmativa direcionada para a população negra paulista. O conteúdo do projeto pode ser acessado por meio da seguinte página virtual: Disponível em <http://www. estudantis e sindicais comprometidos com o combate ao racismo.org/images/conteudos/PL_COTAS_MOVIMENTOS. Lançado por meio da proposta de campanha elaborada pela Frente Pró Cotas Raciais do Estado de São Paulo 2 para a coleta de 200 mil assinaturas.uneafrobrasil. por meio disso. É nesse sentido que. a partir do histórico da política de cotas raciais no país – contextualizando. também. movimentos sociais.

IV. Refletir como sua forma dialoga com o seu conteúdo. encampada pelo Movimento Negro e seus eventuais paradoxos III. II. tendo em vista os limites por trás da disputa do universo jurídico.Analisar panorama atual do Movimento Negro em São Paulo por meio de sua relação com o Projeto de Lei de Cotas.Objetivos I.Entender a peculiaridade do Projeto de Lei proposto por Movimentos sociais que tem em sua forma o instituto da iniciativa popular e. 7 .Analisar o significado da relação entre Direito e Movimento Negro.Compreender epistemologicamente a sociologia do negro brasileiro e seu processo histórico de luta. em seu conteúdo. uma ação afirmativa.

Após esse momento. buscar-se-á uma leitura atenta que situe o negro na formação do Brasil em uma perspectiva sociológica. o surgimento dessa política afirmativa no Brasil a partir da 8 . Ressalta-se que a opção política pela forma de compreender a visão sobre o negro torna-se assim. voltamos o nosso foco para a questão das cotas raciais.V. Nesse sentido. Metodologia Para a realização da presente proposta. com a finalidade de aprofundarmos no entendimento da mesma e de fundamentarmos a própria posição defendida. vimos que são divergentes as interpretações sobre esse passado. primeiramente.Compreender a importância de como um projeto de Lei de Iniciativa Popular se configura para a construção de uma democracia racial de fato. a depender de uma escolha política de quem o conta. para compreender a situação do negro no Brasil. parte de nosso objeto de análise. não se poderá analisar o contexto em que se insere o Projeto de Lei de Cotas para o Estado de São Paulo sem ter em vista um estudo aprofundado do passado que resultou o presente com o qual se depara este trabalho. sendo essa complementada pelas obras do autor Florestan Fernandes. entendendo. utilizou-se como base interpretativa fundamental a proposta construída pelo autor Clóvis Moura. Por isso. Todavia. primeiramente. especialmente no Capítulo 1 e 3 desta obra.

45). por seu próprio direito. 5 “Não deve nos surpreender a circunstância de que seja uma verdade de fato que o materialismo dialético só pode produzir conhecimentos sobre a lei que rege todo processo produtor de conhecimentos: a lei do conceito de história. há um grande acervo de materiais científicos publicados a respeito da experiência com o sistema de cotas em ambas para ser explorado. como o explicou Marx. foi possível a análise do Projeto de Lei de Cotas para o Estado de São Paulo em uma perspectiva marxista da teoria da história4 e do materialismo dialético5. analisamos como se deu a resposta política. p. no Estado de São Paulo. visto o caráter 3 Ambas as Universidades se destacam como principais pioneiras da implantação do sistema de ações afirmativas com a reserva de vagas para a população negra no Brasil. frente a esse quadro. Dado isso. a partir de uma análise histórica. como tal. 35). teoria dos diferentes modos de produção é. que é a história da produção de conhecimentos e na sua própria prática já que ele mesmo é uma disciplina que produz conhecimentos” (Ibidem. esta produção é a de um processo de reprodução e de produção que. Cabe ressaltar que a metodologia para a construção da presente proposta foi influenciada também por concepções metodológicas ligadas à denominada Pesquisa-Ação. apreendendo seu devido significado e suas possíveis reverberações no universo da organização negra paulista na disputa incessante contra o racismo. e. a ciência da “totalidade orgânica” (Marx) ou a estrutura que constitui toda formação social dependente de um modo de produção determinado. reverbera na implementação dessa política no Estado. 9 . portanto do conjunto de seus “níveis” e do tipo de articulação e de determinação que os une uns aos outros” (ALTHUSSER. Na sequência. o conjunto articulado de seus diferentes “níveis” ou “instâncias”: a infraestrutura econômica. é portanto a fórmula de existência da prática teórica em sua produção de novos conhecimentos. 4 “A teoria da história. Sendo assim. realizou-se um levantamento bibliográfico sobre o tema. desenvolvida por Michel Thiollent (1986). mediante a aplicação da teoria do materialismo a seu objeto (que é a história considerada em si mesma). 1979. sendo de grande contribuição.atuação dos Movimentos Negros. Nessa etapa. por envolver participação direta da população. Dessa maneira. A teoria da história ou materialismo histórico é a teoria da natureza específica desta “totalidade orgânica” ou estrutura. Na terceira etapa. explorou-se a peculiaridade do Projeto de Lei de Cotas para o Estado de São Paulo. cada estrutura social compreende. O que é o método na verdade? É a forma de aplicação da teoria no estudo de seu objeto. p. tem a forma de uma História. Vemos assim que o materialismo reencontra duas vezes a dialética: em seu objeto. o qual nos permitiu aprofundar a interpretação sobre o tema. dando a devida atenção aos seus efeitos concretos em universidades como a Universidade Federal de Brasília (UNB) e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)3 até chegarmos em eventos recentes como os ocorridos em 2012 relacionados à questão. Sendo assim. entendendo de que maneira o uso do instituto da Iniciativa Popular. Dizer que o método do materialismo dialético é a dialética é o mesmo que dizer que a produção de conhecimentos. a superestrutura jurídicopolítica e a superestrutura ideológica. toma necessariamente a forma de uma história cujos mecanismos revelam a dialética.

o presente projeto de pesquisa se insere nesse movimento. 8). conforme haja ou não envolvimento direto do pesquisador no cenário de aparição do fenômeno e com os fatos estudados. em particular sob forma de ação de diretrizes transformadoras (THIOLLENT. seleção de dados.interativo do objeto aqui em pesquisa6 – o que nos permitiu ir além da metodologia convencional sem abandonar o rigor científico desenvolvido pela mesma. Com efeito. especialmente para que não se confunda ou venha a se tornar mera manifestação da opinião de senso comum ou de impressão subjetiva do pesquisador-envolvido a respeito do objeto de estudo enfocado. em especial nos setores organizados em torno da pauta racial. contagem. 7 “[. amostragem representativa identificada e qualificada. sistematização de colheita de dados. Assim. em um objetivo comum. devendo sempre ser desenvolvida criteriosamente dentro dos parâmetros empíricos de observação muito bem estruturados no plano da pesquisa (definição dos objetos a serem estudados e das unidades. 1986.] a observação pode ser participante ou não participante. dispondo assim de experiências empíricas com tal projeto e. p.. p. Dessa maneira. e esta pode ser feita por um indivíduo-pesquisador ou por grupos-pesquisadores. visto a partir da articulação dos setores da sociedade civil. 6 Uma vez que o projeto de lei encontra-se em fase de coleta de assinaturas. cruzamento de dados entre pesquisadores). cabe o trecho do autor responsável pela metodologia de pesquisa-ação: “um dos principais objetivos dessas propostas consiste em dar aos pesquisadores e grupos de participantes os meios de se tornarem capazes de responderem com maior eficiência aos problemas da situação em que vivem. nos deparamos com um objeto em movimento. 2012. 209) 10 . É muito útil o recurso para pesquisas de caráter sociológico. desenvolveu-se semelhante proposta à observação participativa 7 da Campanha da coleta de assinaturas. garantindo o comprometimento com o lado que essa produção científica se propõe a estar. ao mesmo tempo. sendo de grande importância para as conclusões auferidas até o momento.” (BITTAR..

Ainda. dentro de seus limites estruturais. mas sim. capaz de viabilizar isso. concluiu-se que – diferentemente do que alguns adeptos da linha de Direito Crítico poderiam interpretar – esse diálogo se mostra enquanto um meio para se atingir um fim que não diz respeito a pretensão de mudança do atual universo jurídico. observa-se um elevado gradiente de conscientização em torno das alternativas disponíveis para a construção de uma Democracia Racial de dato. o fim específico da igualdade de poder entre a população negra e branca. Mas sim. o oposto. por trás de tal relação. representar um alto grau organizativo do movimento no presente. Na relação entre Direito e Movimento Negro. expressa pela utilização do Projeto de Lei de Cotas. resultando em nosso não aprofundamento sobre o significado da reivindicação negra para o Direito. A partir da análise do histórico organizativo da população negra brasileiro.Resultados parciais I. II. a sua utilização nada mais é do que um meio para atingir um fim que não perpassa a pretensão de modificação do Direito. 11 . chegou-se ao resultado de que a apropriação do Direito. Portanto. a partir do instrumental jurídico.

possibilidade de ascender socialmente.tal modalidade de protesto cumpre o papel de acumular forças no sentido da massificação. destinado somente para as pessoas ricas e etc. chegamos ao terceiro significado do Projeto de Lei de Cotas. Para algumas dessas pessoas. inacessível e possivelmente caro. bem vestidas. o qual se expressa como resposta ao esse diagnóstico da não massificação. pilhas de livros. salas de aula com professores e alunos e. para outras tantas.III. Ainda. . universidades e etc. de se tornarem intelectuais influentes. Com efeito. 12 . demais imagens genéricas. uma vez que em tal proposta busca-se o diálogo com a sociedade civil . Análises realizadas Capítulo 1: Análise das principais produções teóricas relacionadas a questão racial no Brasil a partir do Século XX Quais as primeiras coisas que nos vem à cabeça quando ouvimos as palavras Universidade Pública ou Ensino Superior Público? Possivelmente para muitos. surgem imagens de pessoas que “falam difícil”. mérito profissional. que “sabem das coisas”. refletindo-se assim enquanto importante ferramenta para realizar trabalho de base.a partir da coleta de assinatura nas ruas. essas imagens vem associadas ao desejo de prestígio. A depender da classe social e cor do indivíduo. em eventos. as imagens ganharão diferentes sentidos. surgem imagens de pessoas estudando. privilegiadas em um lugar distante. Ou seja. tendo em vista a ínfima representação da população pobre e não branca nos espaços universitários públicos ainda hoje. etc.

13 . Abril de 2010. Antônio David (2010)9. Portanto. que.. deste modo. citamos aqui (i) o de formar estrategistas. sem luta de classes.doc&ei=M6CDVZmqOIHigwSax4DoAw&usg=AFQjCNHzec-4kUJd35NZo4nq7KW90joGQ&sig2=nU_xXT1V904adCKSSK25JA&bvm=bv. sem delongas. Nesse sentido. Com efeito.d. 89). 9 DAVID. de que forma tal concepção ganha concretude na formulação das ideologias raciais no Brasil. o qual alimenta suas forças produtivas a partir das mesmas.br/url? sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&ved=0CCQQFjAA&url=http%3A%2F%2Fxa. (FREIRE. haveria de ser a que oferecesse ao educando instrumentos com que resistisse aos poderes do “desenraizamento” de que a civilização industrial a que nos filiamos está amplamente armada. (iv) por fim.yimg.96042044. Mesmo que armada igualmente esteja ela dos meios com os quais vem crescentemente ampliando as condições de existência do homem”. p. direta ou indiretamente. em uma sociedade de classes. Disponível em:<http://www.em especial no campo das ciências sociais – para se compreender a formação de um país construído. No que exatamente a universidade contribui com o capital e com a reprodução da ordem vigente. e o que devemos fazer para sairmos da defensiva e de fato conseguirmos acumular forças para o projeto da universidade popular. fato esse evidenciado hoje pelo grande número de instituições privadas controladas por grupos econômicos. até a primeira metade do Século XX. em 8 “Parecia-nos. (iii) o de produzir e alimentar a ideologia . entre nós. aprofunda seus papéis em quatro pontos. em especial. que. Antonio. Educação como prática de liberdade. partindo do pressuposto da não neutralidade por trás da produção de todo saber científico. (ii) o de fornecer tecnologia e informações para o capital. Importante lembrar a centralidade desse tema . das mais enfáticas preocupações de uma educação para o desenvolvimento e para a democracia. Acesso em: 10/06/2015. onde o capitalista pode investir seu capital objetivando lucros. é concebida enquanto instrumento do opressor para fazer dócil o oprimido 8.aqui disposta no sentido do mascaramento da realidade e dos conflitos existentes na realidade com o propósito de apresentar uma suposta realidade sem conflitos.google. exploraremos no Capítulo 1 o percurso histórico da ideologia produzida em torno da Questão Racial no Brasil. o de ela própria se apresentar enquanto fonte de lucros. passando por professores de educação básica até altos executivos e etc. ou seja.com. também a respeito da função da Universidade. podendo ser explicado a partir da função que tais instituições cumprem em nossa organização social. 1982. veremos no Capítulo 1.eXY >.com%2Fkq %2Fgroups%2F17805016%2F44494020%2Fname%2FANT%25C3%2594NIO%2B-%2BME%2BUniversidade %2Be%2BCapital%2C%2BTexto%2BSubs%25C3%25ADdio %2Bn1%2B5. dirigentes e operadores para o capital e para a ordem social vigente – desde juízes e economistas. o qual concebe a Universidade enquanto parte da estrutura educacional alienante que. enquanto “nicho de mercado”.O recorte sócio racial tem acompanhado as Universidades desde sua origem. nos valemos de Paulo Freire (1982).

para cumprirmos tal pretensão. http://www. É nesse momento que as ideias eugênicas começam a ganhar espaço no Brasil. 2). 1998.mais da metade de sua história. a partir da exploração do povo negro em benefício da população branca. As ideias eugênicas surgiram no último quartel do século XIX europeu. perpassando pelas contradições em torno dessas respostas e desvendando suas possíveis cargas de neutralidade. 1. vimos a intelligentia brasileira voltar suas preocupações na análise de como essas relações se reorganizariam a partir da mudança do modo de produção interno. saúde.br/bioetica/eugenia. José Roberto. Eugenia. UFRGS. Ideias eugênicas e o mito da democracia racial No início do Século XX. Acesso em 23/052015. Francis Galton .htm >. a recente desagregação do modo de produção escravista e sua consequente substituição pelo modo de produção capitalista. chegaremos à uma rápida análise de como a questão racial se situa nos debates contemporâneos.influenciado pela obra de seu primo. Por fim. O termo eugenia – “bem nascido” . Nesse sentido.postulava que as características humanas – por exemplo a 10 GOLDIM. sexualidade e nacionalismo.surge em 1883. 1998)10 Nesse sentido. Assim. apresentando-se frequentemente como um projeto biológico de regeneração racial” (SOUZA. Charles Darwin. convém realizarmos um recorte do nosso ponto de partida – sendo inúmeros os existentes – da produção da ideologia racial. temos no Brasil – assim como em outras economias submissas aos interesses da Europa já consolidada industrialmente -. 2012. gênero. Com efeito. (GALTON apud GOLDIN.1. Disponível em: < 14 . em A Origem das Espécies . criado por Francis Galton. o Capítulo 1 partirá do início do século XX – momento posterior a abolição – mostrando como a intelectualidade brasileira respondeu às possíveis mudanças sociais com esse advento.ufrgs. que o definiu como o “estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente”. com o objetivo de contextualizarmos politicamente a produção do presente trabalho. em um país onde as relações sociais e econômicas eram marcadamente organizadas a partir do critério raça/cor dos indivíduos. conceituadas como “um movimento científico e social que se relacionava ao debate sobre raça. p.

Desse modo. proclamação da República13. Clóvis. do debate sobre imigração. os principais trabalhos sobre eugenia. a intelectualidade brasileira. MOURA. se debruçava em entender quem éramos enquanto povo inseridos nessa nova ordem e quais seriam os destinos de nosso desenvolvimento14. dentre diversos acontecimentos. O desejo de retirar o Brasil do propalado atraso civilizacional conduziu um intenso debate sobre as características do país. – São Paulo: Companhia das Letras. econômicas e políticas no país. loc. cit. foram publicados especialmente nas décadas de 1910 e 1920. da emergência dos estudos sobre “cruzamentos raciais” e da implantação das leis de esterilização eugênica (SOUZA. na medida em que justificaria o sucesso civilizatório de alguns povos. (SOUZA. Vol. além da própria propaganda empreendida por meio de panfletos e artigos de jornais e revistas de grande circulação. p. 83. 12 Cf. grande parte da intelligentsia brasileira procurava construir um discurso menos pessimista sobre futuro da nação. Com efeito. em especial o europeu – partindo de uma visão eurocêntrica – dado a sua superioridade biológica. 34 de Série Fundamentos. o que possibilitou formular algumas das mais originais e bem estabelecidas idéias sobre o Brasil e a identidade nacional”.). essa teoria vem aprimorar as ideologias racistas já existentes na Europa e no mundo. Raízes do Brasil – 26. focos de industrialização e entre outros eventos que criaram um intenso clima de mudanças em nossa estrutura social. 11 Cf. estimuladas pelo contexto de expansão do racismo científico. 177 13 Ibidem. intensificação da imigração europeia11. No Brasil. percebendo essa conjuntura de mudanças. Sergio de. 176 14 “Neste momento. podemos citar: a recente passagem do escravismo para um capitalismo dependente. Com efeito. condição inata dos indivíduos ancestrais. presente na carga hereditária de sua raça. a teoria eugênica convergiu com uma conjuntura de profundas mudanças sociais. HOLANDA. urbanização12. a ideia de influência pelo ambiente para determinar características de desenvolvimento do indivíduo não eram tão relevantes para determinar sua personalidade e desenvolvimento. 2012. Assim. Ed. p. 2012. 4) 15 . 1988. 1995. p. São Paulo: Editora Ática. p. uma vez que no início do século XX.inteligência – tinham como fator determinante a hereditariedade. Sociologia do negro brasileiro.

berkeley.É nesse contexto que o pensamento acadêmico e científico brasileiro. pelo atraso econômico e político e pela falta de civilidade do seu povo.edu/history/lamarck. Vale lembrar que no início do século XX. Tal paradoxo descrito pode ser esclarecido quando analisamos a relação entre o movimento eugênico. sob influência das discussões a respeito da questão racial na Europa. Contudo. segundo um dos postulados da teoria neolamarckista. poderiam ser transmitidas às gerações futuras. 1894. sendo mencionado na introdução de sua obra Standard natural history. ao que tudo indica foi cunhado por Alpheus Packard em 1885. Para Packard. levando alguns importantes pensadores a concluírem que o principal entrave nacional para o desenvolvimento residiria na raça que constituía o país. 1976. o Brasil se apresentava como uma nação marcada pela inferioridade racial. preconizava também a miscigenação como meio de absorção das “raças” consideradas “inferiores”. Como resultado disso. a necessidade e mudança de hábitos resultando na atrofia ou desenvolvimento dos órgãos através do uso ou desuso e a transmissão hereditária dos caracteres adquiridos durante a vida do indivíduo (PACKARD. do péssimo estado de saneamento. Para muitos intelectuais estrangeiros. 2001 apud SOUZA. a eugenia no Brasil – assim como em outros países da América Latina – teria sido assimilada sob os paradigmas do lamarckismo francês. Com efeito.Casa de Oswaldo Cruz – Fiocruz 16 “O termo “neo-Lamarckismo”. Esses fatores envolveriam tanto a ação direta como a ação indireta do meio.” Disponível em: < http://www. p. as características adquiridas por uma geração. 4). originadas de mudanças do indivíduo em sua interação com o meio. o Brasil emergia aos olhos do mundo como um imenso contingente de homens incapazes e degenerados. pp. 16 . cabe a conclusão de Vanderlei Sebastião de Souza15 (2003) para compreendermos a peculiaridade do movimento das ideias eugênicas no Brasil: Para compreender o cenário em que emergiu o movimento eugênico no Brasil é necessário levar em consideração o debate que mobilizou os intelectuais em torno da questão racial. a miséria e o analfabetismo que atingia boa parte da população. conforme anunciava a tão propalada teoria do branqueamento (SKIDMORE. 2003. SCHWARCZ.html >. e mesmo para as elites nacionais e alguns eminentes intelectuais. em virtude do grande número de negros recém saídos do sistema escravista. Sobre isso. as ideias neolamarckianas16 desenvolvidas na Europa e o movimento sanitarista no Brasil. postulou-se que os negros e mestiços 15 Doutor em História das Ciências .ucmp.367-368). o termo corresponderia a uma forma moderna do Lamarckismo e designava uma série de fatores da evolução orgânica. Acesso em 20/04/2015. Segundo Nancy Stepan. da presença de uma grande parcela de mestiços e indígenas. assimilou as ideias eugênicas. em contraposição à influência do darwinismo preconizada por Francis Galton. pois ao mesmo tempo em que endossava a ideologia da inferioridade mestiça. bem como do clima tropical e da pobreza que se espalhava pelo território nacional. esse discurso se apresentava invariavelmente de forma paradoxal.

p. resultado das políticas imigratórias iniciadas nas décadas anteriores: Octávio Domingues. Desse modo. o eugenista Julio Dantas entendia que do mesmo modo que se 17 Como o debate intelectual e político acerca das questões sanitárias e da saúde pública tinham conquistado a imprensa. a syflilis. estariam inferiores devido ao passado degradante que as populações negras foram submetidas. essa associação inicial da eugenia com o movimento sanitarista aqui já existente não foi fortuita e sim uma opção estratégica para impulsionar tal corrente 17. foi o fundo neolamarckista e sua convicção na transmissão dos caracteres adquiridos. 2012. mas sim.brasileiros não seriam racialmente inferiores devido à caracteres biológicos inferiores e imutáveis. os 350 anos de escravização dos negros no Brasil teriam submetido a população africana à condições tão precárias de interação com o meio desde a vida na senzala sem nenhuma estrutura digna até a exclusão de um sistema educacional oficial . No Brasil. De forma também radical. Ou seja. 1931: 4). (.. expondo explicitamente seus fundamentos racistas em um cenário onde a presença da população branca aumentava consideravelmente. tal consolidação permitiu que as ideias eugênicas brasileiras assumissem um viés mais radical a partir dos anos 30. uma vez que o país estaria “completamente infestado por inúmeras endemias como a paludica. “a preocupação máxima” deveria ser “sanear e eugenizar”. como argumentava Renato Kehl em 1920. quando não a sua inconfundível associação. por exemplo. a esterilização obrigatória e a pena de morte contribuiriam para exterminar imediatamente com os “agentes de perturbação da vida social. helmithoses. resultando em uma transmissão aos seus descendentes de caracteres inferiores. uma vez que via na falta de estrutura sanitária um dos principais males do povo.). 2012. sugeria que o controle do nascimento. Com efeito. 1920:5 apud SOUZA.. a moléstia de Chagas. permitindo que a mesma se consolidasse durante a década de 20. sua carga hereditária poderia ser mudada na medida em que se transformassem as condições do meio social em que as mesmas populações se desenvolviam.que fariam com que os caracteres se incorporassem à sua hereditariedade. 6) Assim. já que a eugenia deveria prestar-se ao aprimoramento do meio. os eugenistas entendiam que o ponto de partida de seus estudos deveria iniciar com as questões relativas às influências do meio sobre a saúde e a “raça nacional”. Tal postulado e perspectiva para se “solucionar o problema racial brasileiro” se relacionava com o que pregava o movimento sanitarista da época. e conseqüentemente de disseminadores desses desadaptados” (DOMINGUES. acarretando a degeneração rápida de nosso povo” (KEHL. o trachoma. 9) 17 . Em linhas gerais. (SOUZA. é possível afirmar que os intelectuais ligados ao discurso eugênico pegaram uma carona do movimento sanitarista com objetivo de conquistar força em prol da divulgação e da institucionalização da eugenia no Brasil. como descreve: O que possibilitava a união entre a eugenia e as idéias higiênico-sanitárias. p. a opinião pública e próprio governo.

e ainda mais. professor da Faculdade de Farmácia e Odontologia de Santos. p. como os “criminosos” e “delinqüentes”. É nesse contexto que se destaca a produção dos trabalhos de Gilberto Freyre. absolutamente.isolam os indivíduos perigosos para a sociedade. favorecendo. retomando alguns preceitos sanitaristas e buscando produzir uma concepção sobre os dilemas do homem brasileiro que se justificassem pela desnutrição. Considerando que o Brasil era visto como uma nação amplamente miscigenada. a qual previa a cota mínima de 2/3 de trabalhadores nacionais nos quadros das empresas. apesar de a eugenia ter se convertido em um discurso legitimado e amplamente corrente no meio intelectual. deveriam ser isolados os indivíduos considerados “perigosos para a raça” (DANTAS. por exemplo. sempre considerado como a raça superior. e por esse motivo deveriam ser evitados a todo custo. nem razoável nem decente”. Nesse ponto. expressa. pode-se destacar a postura assimilacionista que o Estado Varguista passava a adotar a partir de 1930 (JÚNIOR. o casamento entre indivíduos de “raças opostas” levaria fatalmente a degeneração. questionava se seria razoável o casamento do “branco” com o “preto”? “Não.. E continuava: “o branco. e ao grande rol de doenças disseminadas na população e. tendo em vista a onda de nacionalismo. Vários foram os fatores que contribuíram para que a eugenia passasse a perder sua força. chamando inclusive a atenção para o sucesso do programa de esterilização norte-americano e para a política de higiene racial alemã. 1937: 65). psíquica e moralmente” (KEHL. é nesse mesmo período que um outro grupo de intelectuais passa a afastar essa postura mais radical do movimento eugênico. uma das principais discussões que passaram a mobilizar os eugenistas brasileiros a partir dos anos 1930 dizia respeito à imigração e a formação de sua identidade racial. da raça e da nacionalidade. 254). 2012. Para Renato Kehl. seria a própria repercussão negativa dos abusos do Estado alemão nazista que se iniciavam à época. não.2). Outro. é ortognata. 1930:5). político e social da época. como seguidamente fazia Renato Kehl. p. sua força não foi suficiente para que o Estado brasileiro desse também respostas explicitamente mais radicais para a questão racial durante a década de 30 – à exemplo de como vinha fazendo a Alemanha. Do mesmo modo. não às questões ligadas estritamente à raça e à miscigenação. 2006. preteridos quando competiam no mercado de trabalho com o branco europeu (JÚNIOR. Suécia e Estados Unidos na época. 17 e 18). tem o ângulo facial apurado e o índice cefálico tão exagerado que. p. indiretamente os trabalhadores negros – em regra.). Em sua opinião.. 18 . marca o sensível afastamento das espécies inferiores (. 229). influenciados também pela onda de nacionalismo no século XX (GUIMARÃES. respondia ele por meio das páginas do Boletim de Eugenia. na valorização do trabalhador brasileiro em detrimento do imigrante18. dando origem a tipos inferiores física. 2006. Com efeito. Esse radicalismo eugênico era muitas vezes justificado em nome da ciência. O negro mora do lado oposto” (SILVA. o médico Luiz L. o analfabetismo. Silva. já estaria mais do que “provado que tais casamentos são disgênicos. sem a menor dúvida. 1931: 3 apud SOUZA. 2006. dentre eles. p. o qual revolucionaria o pensamento sobre a 18 Como foi o caso da Lei dos 2/3.

Tais críticas são recorrentes na obra. no que tange à obra. no contexto de sua 19 BANDEIRA. 11° ed.. pode ter como marco na produção acadêmica a obra de Gilberto Freyre.2. em poema intitulado Casa-grande & Senzala. Rio de Janeiro: José Olympio. a proposta de Freyre nos seguintes versos: (. exaltando a miscigenação enquanto fato benéfico e estruturando as bases do que viria a ser chamado de democracia racial brasileira (SOUZA. a irresistência à doenças e outros males. 2001. raças boas -Diz o BoasÉ coisa que passou Com o franciú Gobineau. visto que. Desse modo. Entretanto. 2012. 1. p. Estrela da vida inteira. propomos aqui as bases e o contexto de seu surgimento para. as quais atribuíam a improdutividade laboral do povo brasileiro.19). então. 1986. Raças más. (. em parte. Pois o mal do mestiço Não está nisso. p. segundo Antônio Sérgio Alfredo Guimarães (2006. 19 . p.questão racial na época.. expormos as críticas.) Que importa? É lá desgraça? Essa história de raça.19 Manuel Bandeira destaca a crítica que Gilberto Freyre faz das teses eugênicas ao se referir à Oliveira Vianna20. apesar de diversificada. Manuel Bandeira. 2). diretamente à raça. em especial sob o mito da inferioridade do mestiço. sintetiza. 2)..) A mania ariana Do Oliveira Viana Leva aqui sua lambada Bem puxada. Casa Grande & Senzala e a Democracia Racial A expressão “democracia racial brasileira”. no ano de 1933. surge entre os intelectuais brasileiros na conjuntura de 1937-1943 durante o Estado Novo de Getúlio Vargas (GUIMARÃES. Manuel. De higiene e outras que tais: Assim pensa e fala Casa-grande & senzala.. Com efeito. Casa Grande e Senzala.. Está em causas sociais. sua base intelectual e ideológica.

notabilizou-se pela péssima e deficiente alimentação. ele ressalta a nova perspectiva que o autor propõe sobre a questão racial e a identidade nacional no Brasil. assim. cheia de fidalgos e de frades. leite. para. p. Nesse ponto. Da desconstrução da inferioridade racial e da influência climática tropical Ainda sobre o poema.associado à condições precárias de saneamento – deixavam-na mais suscetível à doenças e limitações físicas quando comparados aos europeus. 1. como o observado no ponto anterior. as ideias eugênicas disfrutavam de grande espaço na intelectualidade brasileira. a elite intelectual produzia em suas teses a visão de um Brasil habitado por inúteis. professor e renomado jurista. explicar seus “comportamentos” e características. 2003. Acesso em 05/05/2015. geleias e pastéis fabricados pelas freiras nos conventos: era com que se arredondava a gordura dos frades e das sinhás-donas.2.1.produção. Ou seja. Reconhecido também pelo anti-niponismo e por frases como “os 200 milhões de hindus não valem o pequeno punhado de ingleses que os dominam”. no qual escreve: A própria Salvador da Bahia. para o fator da inferioridade das condições sociais ligadas à alimentação. Desse modo.folha. tendo como uma das explicações a subnutrição. improdutivos e que. Tudo faltava: carne fresca de boi. ao deslocar o fator inferioridade racial do povo. até então.102). a justificativa para tal situação. concluindo que: 20 Francisco José de Oliveira Vianna (1883-1951). Freyre se propõe a rebater tal tese. foi um dos principais ideólogos da eugenia racial no Brasil. Com efeito. o péssimo regime alimentar da população .htm >. quando cidade dos vice-reis. habitada por muito ricaço português e da terra.com. se dava pela inferioridade racial desse povo mestiço sem vocação para o trabalho. o autor dedicouse a descrever o regime alimentar da população durante a colônia. frutas. 20 . saneamento. doenças venéreas e outros.uol. aves. e o que aparecia era da pior qualidade ou quase em estado de putrefação. Má nos engenhos e péssima nas cidades: tal a alimentação da sociedade brasileira nos séculos XVI. analisando as condições sociais de miséria que perpassam a vida dos brasileiros. Fartura só a de doce. o autor pernambucano busca provar que tais limitações associadas à doenças e outros males físicos nada tinham a ver com a inferioridade racial do povo expressa na hereditariedade ou com a presença do clima tropical no Brasil. Disponível em: < http://www1. XVII e XVIII (FREYRE.br/fsp/mais/fs2004200804. legumes. Assim.

sacando-lhes a espontaneidade e a frescura (Ibid. mesmo entre as classes abastadas. variedades específicas a depender da acentuação climática. Com efeito. Ou seja. p. tudo atribuem aos fatores raça e clima. selecionando. não eximi por completo o fator clima. 104). outras estancadas pela monocultura. abafou-as. segundo o autor. Entretanto. Visto que. o elemento que fundaria e. nesse movimento de retificação deve ser incluída a sociedade brasileira. 1. Assim. a brasileira. a atribuição da diferença entre o povo europeu e o povo brasileiro decorrer da dieta – e não do clima tropical e da miscigenação -. junto com as qualidades químicas do solo. ao mesmo tempo. o autor não atribui a esse fator a diferença alimentar mas. exerce influência determinante na produtividade dos alimentos.2. que em vez de desenvolvê-las. sintetizaria essa relação harmônica. Gilberto Freyre desconstrói a leitura proposta por todos aqueles que creditavam sua ciência em um viés hierárquico biológico para entender a questão racial no Brasil. os povos indígenas nativos do “Novo Mundo” e os povos Africanos de diferentes nações. seria a miscigenação entre as raças: 21 . Entretanto. o autor se propõe a pensar a identidade nacional e características do povo brasileiro a partir de um viés cultural. ainda assim.. à influência econômico-social da monocultura e do latifúndio escravocrata: No caso da sociedade brasileira o que se deu foi acentuar-se. inclusive. o povo brasileiro seria o produto de uma histórica e peculiar interação harmônica entre os povos brancos portugueses. importaria os efeitos da mistura étnica-cultural e. Democracia racial propriamente dita em Casa-grande & senzala Portanto. não os efeitos biológicos em si. através do esforço agrícola regular e sistemático. É uma sociedade. sim.2. exemplo de que tanto se servem os alarmistas da mistura de raças ou da malignidade dos trópicos a favor de sua tese de degeneração do homem por efeito do clima ou da miscigenação. o clima. Muitas dessas fontes foram por assim dizer pervertidas. Cabe destacar também que. esquecendo os regimes alimentares.. 96). um dos povos modernos mais desprestigiados na sua eugenia e mais comprometidos na sua capacidade econômica pela deficiência de alimento (Ibid. que a indagação histórica revela ter sido em larga fase do seu desenvolvimento. no plano do contato entre as raças. pelo regime escravocrata e latifundiário. pela pressão de uma influência econômico-social – a monocultura – a deficiência de fontes naturais de nutrição que a policultura teria talvez atenuado ou mesmo corrigido e suprido.Já se tenta hoje retificar a antropogeografia dos que. p.

de tão adstringente. Faz-se sentir na presença viva. ativa. Suavizou-as aqui o óleo lúbrico da profunda miscigenação. quer a livre e danada. (Grifo nosso) Dentre os fatores que permitiriam a singularidade da miscigenação. de elementos com atuação criadora no desenvolvimento nacional.. tendo utilizado o termo ou não. cultural. ao sistema social europeu. e não apenas pitoresca. pois imperaria uma sociedade livre de preconceitos.” (Ibid. inassimiláveis. a sociedade brasileira é de todas da América a que se constituiu mais harmoniosamente quanto às relações de raça: dentro de um ambiente de quase reciprocidade cultural que resultou no máximo de aproveitamento dos valores e experiências dos povos atrasados pelo adiantado.A verdade é que no Brasil. desejava enxergar as relações raciais no Brasil e a formação de nosso povo. teriam as mesmas oportunidades e condições. Ou seja. o autor destaca como um deles a predisposição do português a miscigenar-se. útil. a do conquistador com a do conquistado.. continua: Híbrida desde o início. Nesse sentido. (Ibid. a democracia se aplicaria sem diferenciações e conflitos raciais. no máximo de contemporização da cultura adventícia com a nativa. ao contrário do que se observa em outros países da América e da África de recente colonização europeia. p. configurando uma verdadeira Democracia Racial. Muito menos estratificando-se em arcaísmos e curiosidades etnográficas. de povo indefinido entre a Europa e a África. Ilustração dessa pretensão pode ser observada em trechos do poema O outro Brasil que vem aí de sua autoria. independentemente de suas origens étnicas. 66). chega aos ouvidos de todos os países de colonização anglo-saxônica e protestante. que a regular e cristã sob a benção dos padres e pelo incitamento da Igreja e do Estado (Ibid. 160). Isso permitiria que a mesma se efetuasse desde o primeiro contato do explorador com o “Novo Mundo”. a conquistadora e a indígena. Com efeito. Nem as relações sociais entre as das raças. 231). É essencialmente sob essa leitura de ausência de conflitos e relações harmônicas raciais – simbolizadas na miscigenação – que permitiria afirmar um Brasil onde os indivíduos. ou antes. Assim. quando expressa: Eu vejo as vozes 22 . desde os primeiros contatos entre as raças. oriunda “em grande parte do seu passado étnico.. os quais teriam o gérmen para serem desfeitos. Cabe o destaque que era sob esse prisma que Gilberto Freyre. propõe que uma suposta relação de atrito prevista na relação antagônica de explorador – os brancos europeus – com os explorados – povos indígenas e negros escravizados – teria sido suavizada pelo óleo lúbrico da profunda miscigenação. aguçaram-se nunca em antipatia ou no ódio cujo ranger. p. secos. p. o fator raça não diferenciaria os indivíduos na sociedade brasileira. a cultura primitiva – tanto ameríndia como africana – não se vem isolando em bolões duros. indigestos.

fortalecendo assim a sua consolidação e propagação nas décadas seguintes até chocar-se com pensadores da década de 70. Gilberto Freyre. 1. 2) – foi motivada pela política de integração nacional de Getúlio Vargas durante o Estado Novo (1937 – 1944). a partir das contribuições dadas por Florestan Fernandes e Clóvis Moura. neste item analisaremos como a Democracia Racial foi contundentemente criticada na academia. por oposição ao racismo e ao totalitarismo nazi-fascistas. A crítica e o desvelamento da Democracia Racial enquanto mito Dando continuidade à linha cronológica de reconstrução do pensamento intelectual relativo à questão racial no Brasil.eu vejo as cores eu sinto os passos de outro Brasil que vem aí (.) Os homens desse Brasil em vez de cores das três raças Terão as cores das produções e dos trabalhos. Sobre a década de 50 e nosso ponto de partida 21 O outro Brasil que vem aí. 21 (Grifo nosso) 1. que acabaram vencidos na Segunda Grande Guerra”(GUIMARÃES... Com efeito.3.. todo brasileiro e não apenas o bacharel ou doutor o preto.) Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil. 9.. conforme Antônio Guimarães. os quais reduziram-na a verdadeiro mito. 23 . cabe apontar que a resposta dada pela intelectualidade da década de 30 – representada na obra de Freyre que aqui discute-se – continuou a se desenvolver e se propagar nas décadas seguintes.. A propagação da Democracia Racial entre a década de 30 e 70. o pardo.3. p. a ideia de Democracia Racial veio a ser a almejada resposta que buscávamos para fundar a nossa identidade nacional em um momento histórico de inserção do país na modernidade. 1. 2006. 10). p. Assim.3.) (Ibid.diante da conjuntura política de “inserir o Brasil no mundo livre e democrático. conforme veremos em seguida... nos atendo à década de 70 e 80.2. respectivamente. Destaca-se que tal propagação . Qualquer brasileiro poderá governar esse país Brasil (. 1926.1. o roxo e não apenas o branco e o semibranco. (.

Dessa maneira. apesar de nos atermos na década de 70.939 – 1.945). 21) 22 – O próprio Florestan Fernandes. o marco seria 1951 a partir da proposta de um projeto de pesquisa da UNESCO. 1972. tendo em vista que o mito da Democracia Racial já havia se espalhado internacionalmente. Roger Bastide. temos o gérmen da desconstrução do mito. 1972.) o que é uma democracia racial? A ausência de tensões abertas e de conflitos permanentes é.. é importante afirmar que as críticas se originam muito antes com grandes expositores 22. por volta do início da década de 50. Virginia Bicudo e outros. a partir de 70 temos a fase mais consolidada da crítica. índice de “boa” organização das relações raciais? (FERNANDES.Desse modo. dentre vários importantes . Todavia. um dos mais influentes sociólogos brasileiros. René Ribeiro. Dentre os vários artigos e reflexões nesse sentido. p. Oracy Nogueira. FERNANDES. em que o mundo se reconstruía da Segunda Guerra Mundial (1. dando continuidade as produções teóricas da década de 50. sendo ambas de igual importância compreender. enquanto. a prioridade de expor esse pensamento a partir da década de 70 – por meio da seleção de dois pensadores. nas primeiras palavras contidas no Capítulo 1 de sua obra O negro no mundo dos brancos faz questão de citar alguns autores como Alfred Métraux. O interesse de tal organismo internacional advinha do contexto da época. em 1972 publicou a obra O negro no mundo dos brancos. Aniela Ginsberg. 24 .. diferenciação necessária a se fazer é que.3. logo após o fim do Estado Novo. o resultado obtido pelos pesquisadores indicava que tal democracia não passava de um mito. a UNESCO procurou fomentar pesquisas que dessem o receituário para o mundo de como resolver tais conflitos a partir do caso brasileiro (Cf. durante o início da década de 50. Florestan Fernandes e a crítica Dado isso. em si mesma. a qual tinha como uma de suas causas conflitos raciais. o qual tinha por objetivo entender as relações raciais no Brasil.2. Nessa obra. foi um intelectual comprometido com uma visão crítica das relações raciais brasileiras.se conjuga com o objetivo deste trabalho e não por uma hierarquia de importâncias entre as mesmas. Florestan Fernandes pretendeu aprofundar o significado do que viria a ser a chamada democracia racial: (. Portanto. Dessa maneira. Segundo resgata o pesquisador Marcos Chor Maio (2000). 1. Costa Pinto. Thales de Azevedo. julgando a princípio que as mesmas poderiam servir de exemplo à outras nações no mundo. Florestan Fernandes. compilando artigos que tratavam do tema de forma consolidada. p. 21).

onde se configura a concentração racial da renda. embora tal coisa não seja reconhecida de modo aberto. Contínua disparidade racial em 1950 Florestan. Enquanto esse padrão de relação racial não for abolido.“não passa. Faz tal análise por meio de dados coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Censo de 1950. p. 41).10) 25 . no Estado de São Paulo e a nível nacional. (Ibid. inclusive hoje . ou seja. demonstra como a divisão do trabalho – após mais de seis décadas d a abolição ainda se estruturava de modo semelhante ao sistema escravista. observou-se durante a formação do Brasil recente – perpassando o sistema escravista até o momento pós abolição – um mesmo padrão de relação racial no Brasil. infelizmente.1. 1. Ainda sobre esse ponto – crucial para entendermos de onde partimos com o debate da questão racial hoje – pontua Florestan: O padrão brasileiro de relação racial. Mito esse que confunde “tolerância racial com democracia racial” (Ibid. Cor Brasil Área Bahia São Paulo 23 “Os homens desse Brasil em vez de cores das três raças / Terão as cores das produções e dos trabalhos” (FREYRE. marcado pela dominação do branco em detrimento do negro. com uma consequente distribuição isonômica do prestígio social.. para manter o negro sob a sujeição do branco. 40) Desse modo.3. p. a distância econômica. contrapondo-se à visão de Freyre em seu poema já citado.Segundo o autor. referentes às disparidades entre brancos e negros no Estado da Bahia.. p. p. 89). foi construído para uma sociedade escravista. essa tese – tão bem aceita pelas elites brancas. deveria existir igualdade social entre os diferentes grupos raciais da sociedade brasileira.” (Ibid. honesto e explícito. do prestígio social e do poder nos membros da raça branca (Ibid. p. ainda hoje dominante. Tabela 1 População por Cor 1950 – Brasil e Estados escolhidos (Bahia e São Paulo).. social e política entre o negro e o branco será grande. 40). da renda e do poder entre os mesmos. em especial. de um mito social. 2003.2. uma vez que para a existência de uma democracia de fato. “O Brasil que vem aí”23.

p.B. 30 *Foram omitidas as respostas sem declaração de posição.01% 28 178 51.87% 177 578 29.001% 291 977 100% Fontes: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Conselho Nacional de Estatística.34% 153 484 52. XX-tomo 1. (ii) Recenseamento Geral do Brasil (1°-VII-1950).75% 29 0.39% Membr o Família 83 457 28. série Regional.9% 29.55% 0. p. Serviço Gráficos do IBGE. Laboratório de Estatística do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Conselho Nacional de Estatística.58% 263 452 49.E.56% Empregado s Empregadore s Conta Própria Membr o Família 147 074 27.26% 21 0.03% 0.005% 10 0.26% 100% 11. segundo a Cor – 1950* Cor Cursos Realizados Elementar Médio Superior 26 .6% 61.6% 0. Vol. Rio de Janeiro.° 145” (elaborados por Remulo Coelho).36% 304 092 50.00% 0.6% 0. VI Recenseamento Geral do Brasil – 1950..16% 100% Fonte: Dados extraídos de (i) “Estudos Demográficos N. 1956 (Volume I.17% 85. 1955 e.64% 3.2% 100% 70.5) Tabela 2 Posição na Ocupação das Pessoas Economicamente Ativas da População da Bahia – 1950* Cor Empregado 122 704 23.Negros Brancos Amarelos Não Declarados Total 37. Rio de Janeiro.85% 4 0. Estado da Bahia.58% 5 295 9.G.40% 20 837 38. serviço gráfico do I.003% 604 085 100% 55 032 18. Tabela 3 Diplomados com 10 anos e mais na População da Bahia. Rio de Janeiro.02% 533 259 100% 54 320 100% s Brancos Mulatos Cor Negros Amarelo s Total Posição na Ocupação Empregadore Conta Própria s 122 394 20.

representavam apenas 23% do total. onde os “negros e mulatos” – segundo denominação do autor – constituíam 70% da população.21% Mulatos 78 742 37. vol. a qual constituía apenas 30% da população baiana. Com relação à posição de empregados. quando se analisava o conjunto de empregados pertencentes à este mesmo grupo.4% 31 600 7% s Brancos Posição na Ocupação Empregadore Conta Própria s Mulatos Negros Amarelo s Total 27 .6% 27 326 5. 1.29% 578 10.Brancos 115 410 54.4% 13 056 3% 238 169 11% 2 561 1. a porcentagem atingia 77%. os mesmos representavam apenas 48% do conjunto de empregadores e. Tabela 4 Posição na Ocupação das Pessoas Economicamente Ativas da População do Estado de S.02% 4 0. de modo mais alarmante.8% 1 396 0. p. apenas 10% do conjunto de diplomados em curso superior.16% 4 772 15.01 6 0. *Foram omitidas as respostas sem declaração de cor e grau de ensino Com efeito.9% 12 586 2. Paulo – 1950* Cor Empregado 1 846 445 84% 146 145 91.14% 88 1.1% Total 211 926 100% 31 209 100% 5 698 100% Fonte: Idem. 90% do número de diplomados no ensino superior.4% 31 925 7% 21 120 1% 9 179 5.56% 5 026 88.14% Negros 17 732 8.8% 28 794 5.50% Amarelos 42 0.7% 461 502 87% Membr o Família 370 225 83% 83 336 3. representava 52% das posições de empregadores e.46% 25 767 82. da mesma forma. Em contrapartida. 24.36% 666 2. analisando dados referentes à Bahia. Já a população branca.

a partir da comparação entre os dois Estados.07% 28 0.6% 7 674 2. Tabela 5 Diplomados com 10 anos e mais na População de S. Os “negros e mulatos” que representavam 11% da população paulista. ocupavam 15% do conjunto de empregados e. Estado da Bahia. nota-se que. Paulo.G. 1.8% 1 659 0.5% 674 1. 24.4% Negros 76 652 4.06% 1 793 538 100% 309 085 100% 45 529 100% Cor Sem Declaração de Cor Total Fonte: Idem. XX-tomo 1. p. também presente em São Paulo.2 189 070 100% 159 281 100% 530 208 100% 454 806 100% Fonte: Idem. tal fator não é suficiente para romper com a lógica estruturante do racismo naquela época. apesar de no Estado da Bahia a população negra apresentar dominância numérica.2% Amarelos 65 723 3. a qual concorria com 86% da população. série Regional.5% Elementar Médio Superior 2 142 0. Dessa maneira. *Foram omitidas as respostas sem declaração de grau de ensino. segundo a Cor – 1950* Cor Brancos Elementar 1 617 436 90. vol. 2.3% 1 879 0. p. Vol. 30 *Foram omitidas as respostas sem declaração de posição. em contrapartida.E. No Estado de São Paulo.B. serviço gráfico do I. apesar da composição populacional segundo a cor ser quase o inverso da população do Estado da Bahia. Já a população branca.. via-se semelhante estrutura.2% Cursos Realizados Médio Superior 297 653 44 562 96. Rio de Janeiro.1% 220 0.8% Mulatos 31 585 1.5% 170 0.5% do conjunto de empregadores.6% 95 0. apenas. 92% dos empregadores. 28 . fornecia 84% dos empregados e.3% 97.

59% Total 5 378 487 100% 985 853 100% 157 874 100% Fonte: Idem.66% 2 873 663 59.49% 1 457 496 29. Vol.36% 19 460 3. 1. Estado da Bahia.E. 24.89% 924 0.09% 503 961 10. XX-tomo 1. série Regional.93% 799 824 27.20% 3 563 2.26% 6 794 0.75% 33 991 0.56% 1 249 578 15.70% 1 912 111 23.47% 20 003 0.27% 8 136 611 100% 628 123 100% 4 869 111 100% 2 902 134 100% Mulatos Negros Amarelo s Total Fontes: Idem.B.50% 78 448 12.28% Amarelos 74 652 1.22% 96 87% Mulatos 551 410 10.39% 8 744 0. vol. Tabela 7 Diplomados com 10 anos e mais na População Brasileira. *Foram omitidas as respostas sem declaração de cor e grau de ensino 29 .31% 11 018 1.01% 1 790 529 61. segundo a cor – 1950* Cor Brancos Cursos Realizados Elementar Médio Superior 4 523 535 928 905 152 934 84.69% 448 0.83% 519 197 82.70% 36 793 1. serviço gráfico do I. p.G.10% 94. p. 30 *Foram omitidas as respostas sem declaração de posição.35% 274 988 9.Tabela 6 Posição na Ocupação das Pessoas Economicamente Ativas da População Brasileira – 1950* Cor Empregado Brancos Posição na Ocupação Empregadore Conta Própria s Membro Família s 4 949 919 60.. Rio de Janeiro.25% 41 410 4.26% Negros 228 890 4.

o que por si só já se contrapunha à ideia de que a relação de dominação dos “sinhôs” com as mulheres negras escravizadas seria o motor da democratização das relações raciais. durante séculos. ocupava 82.Com relação à análise nacional.2.3. 26) Todavia. Nesse ponto. configurando uma continuidade da distribuição ocupacional – empregados e empregadores – geração para geração. no quesito escolaridade. que a miscigenação só produz tais efeitos quando ela não se combina à nenhuma estratificação racial (FERNANDES.6% da população brasileira.. os negros e mulatos. representava 96.87% dos diplomados em curso superior no país. tal possibilidade era negada para os negros e mulatos. mas igualmente submissas – ocupadas majoritariamente pela população mestiça. apesar da presença da miscigenação – representada na figura dos “mulatos” – o polo de poder hegemônico ainda possuía a cor branca.) a miscigenação. maquiando a hegemonia branca. 1972. tendo que o acesso ao Ensino Superior significa acesso à uma parcela de poder e possibilidade de ascensão. Ascensão Social e Embranquecimento A partir dessa análise.6% da população brasileira. pontua o autor: Ora. Ainda.2.54% dos diplomados em curso superior no país. marcada pela presença da população branca no topo desta pirâmide. antes contribuiu para aumentar a massa da população escrava e para diferenciar os estratos dependentes intermediários. 38. ocupavam 15.. ao mesmo tempo. 1.58% das posições de empregadores e. Em contrapartida. a população branca representava 61. o que tivemos no Brasil foi a permanência de uma mesma estratificação racial estruturada no escravismo e mantida após a abolição.66% das posições de empregadores e 60. Ou seja. era notável que a base da pirâmide possuía posições intermediárias – mais próximas do topo. percebe-se que. p.83% das posições de empregados. tal fato era utilizado de maneira demagógica para reforçar a relação entre miscigenação e igualdade formal de oportunidades. Nesse sentido.86% das posições de empregados. as investigações antropológicas sociológicas e históricas mostraram. tendo na base os negros e mulatos. em toda parte. Segundo o autor: (. Dado isso. No quesito escolaridade. que representavam 37. representavam 2. que 30 .

Daí o paradoxo curioso. Os insucessos. p. “dando a oportunidade” para os negros e mulatos ascenderem. A mobilidade eliminou algumas barreiras e restringiu outras apenas para aquela parte da “população de cor” que aceitava o código moral e os interesses inerentes à dominação senhorial. nisso se vê como o mito da democracia racial se mostrou um artifício demagógico das elites brancas para garantir a manutenção das suas posições de poder e prestígio. eram atribuídos diretamente à incapacidade residual do “negro” de igualar-se ao “branco”. cabe o posicionamento de Florestan sobre o tema: A questão consistia. o qual tinha como principal beneficiário os membros da raça branca. (Ibid. 31 . à miscigenação corresponderam mecanismos mais ou menos eficazes de absorção do mestiço. ao contrário. 27) É nesse contexto de existência da mínima mobilidade vertical entre as posições sociais para os representantes da população negra e mestiça – em especial. à sua família e a própria ordem social existente. literalmente... em última instância. O mestiço. Os êxitos desses círculos humanos não beneficiaram o negro como tal. O essencial. Mas. Essas figuras desempenharam. a mestiça –que tratamos do embranquecimento.” (Ibid. Forneciam as evidências que demonstrariam que o domínio do negro pelo branco é em si mesmo necessário e. 26) Com isso. por sua vez. em obter a identificação desses indivíduos aos interesses e valores sociais da “raça dominante”.. tal problema foi resolvido de forma pacífica e eficiente. dessa maneira. ocasionalmente. com frequência ofereceu o contingente demográfico que permitia saturar tais posições sociais e que eram essenciais para o equilíbrio do sistema de dominação escravista. o papel completo da exceção que confirma a regra. a eficácia das técnicas de dominação racial que mantinham o equilíbrio das relações raciais e asseguravam a continuidade da ordem escravista. por ora. pois eram tidos como obra da capacidade de imitação e da “boa cepa” ou do “bom exemplo” do próprios branco. Embora essa condição pudesse ser. Tal mecanismo será trabalhado de modo mais aprofundado no decorrer do presente trabalho. o autor aponta o embranquecimento enquanto um mecanismo eficaz para neutralizar possíveis efeitos políticos. devotado ao seu senhor.para fomentar a igualdade racial. p. mas. concernentes a ocupações ou atividades que só o homem semilivre poderia realizar e que não interessariam ao homem livre dependente. 28) Ou seja. p. Sobre isso. rompida no início do processo. a miscigenação foi fator essencial para a própria manutenção do sistema escravista. (. a hegemonia da “raça dominante” – ou seja. não era nem a ascensão social de certa porção de negros e de mulatos nem a igualdade racial.) Existiam amplas zonas de diferenciação social. se fazia em benefício do próprio negro. Com o controle do início e do fim de tais mecanismos se concentravam nas mãos de representantes dessa “raça”. decorrentes desse restrito acesso.” (Ibid. atribuir a sua única e irrestrita falta de mérito. Criou-se e difundiu-se a imagem do “negro de alma branca” – protótipo do negro leal. que pudessem ameaçar a continuidade da hegemonia branca na recente sociedade de classes. e. no caso das falhas. Por isso. no funcionamento desses mecanismos. nenhum “negro” ou “mulato” poderia ter condições de circulação e de mobilidade se não correspondesse a semelhante figurino..

A liberdade de preservar os antigos ajustamentos discriminatórios e preconceituosos. se sim. tinha-se o preconceito enquanto algo que devia ser repelido. 24) Desse modo. os valores vinculados à ordem social tradicionalista eram “antes condenados no plano ideal que repelidos no plano da ação concreta e direta”.. Florestan Fernandes defendia que essa situação criava nos brasileiros o “preconceito de ter preconceito”. a partir da constatação da continuidade da desigualdade material entre os membros da população branca e os membros da população negra. p.. mas os próprios preceitos racistas – essenciais para a estratificação racial . No passado a escravidão e a dominação senhorial eram dois fatores que minavam a plena vigência dos mores cristãos (. nos questionamos se o preconceito racial persistiu após a abolição e. p. Clóvis Moura e a crítica epistemológica da visão sobre o negro 32 . vinculada à escravidão e dominação senhorial. O preconceito de ter preconceito Portanto. Sobre isso: O que há de mais evidente nas atitudes dos brasileiros diante do “preconceito de cor” é a tendência a considera-lo algo ultrajante (para quem o sofre) e degradante (para quem o pratique). Nesse ponto. concluí que O “preconceito de cor” é condenado sem reservas. o preconceito teria sido extinto no momento em que se declarou formalmente a igualdade entre os brancos e os negros. 1.24) Portanto.2. Partindo da crença da Democracia Racial. mais degradante para quem o pratique do que para quem seja sua vítima. Ou seja.3.3. nota-se que não somente a estrutura material da sociedade permaneceu respaldada nos fundamentos da sociedade escravista. maquiados confortavelmente pelo mito da democracia racial. sendo um mal em si para o bom cristão.). o desaparecimento formal da escravidão e da dominação senhorial como forma de relação racial criaram as condições para emergir.. atitudes e comportamentos mais conformes o cosmos moral do catolicismo.3. justificado pela forte presença da Igreja Católica desde o início da colonização do país.só que agora.1.” (Ibid. Essa polarização de atitudes parece ser uma consequência do ethos católico e o fato dela se manifestar com maior intensidade no presente se prende à desagregação da ordem tradicionalista. desde que se mantenha o decoro e suas manifestações possam ser encobertas ou dissimuladas. é tida como intocável. de que modo se expressava. como se constituísse um mal em si mesmo. (Ibid. Entretanto. (Ibid. porém.. 23) Assim. p. a qual maquiou e “embelezou” as contradições existentes na relação assimétrica entre as raças no Brasil.3.

gradua-se em Humanidades – Ciências Sociais e passa a trabalhar como jornalista. p.Neto de Carlota. tendo como principal foco o papel do negro na formação da nação.1. p. Concomitante à sua atuação profissional e militante.3. mas sim. Sociologia do Negro Brasileiro. mulher negra escravizada. livro que. Em 1988 é publicado pela Editora Ática. É desse modo que em 1959 publica a impactante obra Rebeliões na Senzala. 1988. aprofundando-se na teoria marxista sob os referenciais teóricos do “partidão” 24. 84). a qual o autor rechaça. p. com a necessidade 24 Expressão informal comumente atribuída ao PCB. superando o ponto de vista “culturalista” da contribuição da população negra até então majoritariamente aceito (MESQUITA. se muda com seu irmão para Salvador – BA. onde residiu de 1935 a 1942. 176). 7) e obra na qual nos referenciaremos para tecer as críticas elaboradas por Clóvis Moura às produções coniventes com o mito da democracia racial. 33 .3. 2009. a qual analisa o caráter sistêmico da luta do povo negro contra a ordem escravocrata no Brasil. MOURA. Moura não finda sua produção teórica nessa temática. sendo um dos principais integrantes do grêmio estudantil “12 de Outubro” no Colégio Santo Antônio na cidade de Natal – RN. período no qual filia-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). segundo o autor. por a esquerda brasileira ser incapaz de fazer a conexão entre a luta de classes e a questão racial naquele período -. publicado em 1988. seria a síntese de mais de 20 anos de pesquisa (Cf. no Piauí. Apesar de pouco acolhida pelo PCB – por destoar das teorias divulgadas pela III e IV Internacionais Comunistas e. Clóvis Moura pesquisava sobre a rebeldia negra e a luta de classes no período colonial. Sociologia do negro e o pensamento social subordinado Sociologia do Negro Brasileiro. Clóvis Moura nasceu em 1925 na cidade de Amarante. sendo amplas suas publicações nos anos subsequentes. 1. Em 1942. 2002. dando uma resposta direta à obra de Freyre na medida em que contrapõe a visão passiva e submissa dos negros presente em Casa Grande & Senzala (OLIVEIRA. Surge não com uma pretensão comemorativa. Desde cedo mostrou vocação para se organizar politicamente. surge no momento em que o problema do negro estava sendo nacionalmente reposicionado e questionado em face da necessidade de uma avaliação do que teriam sido os cem anos de trabalho livre para ele.

mas no nosso pensamento social do passado. por essas razões. desde o período colonial. teria abordado a questão racial até então. (MOURA. como se ele fosse apenas objeto de estudo e não sujeito dinâmico de um problema dos mais importantes para o reajustamento estrutural da sociedade brasileira. uma sociologia branca. essa visão a respeito das questões étnicas e da presença do negro na América. o pensamento intelectual produzido aqui estaria descomprometidos com a solução de problemas não relacionado aos interesses de classe da elite brasileira. p. herdeiras da antiga classe senhorial do sistema escravista. mulato. mesmo quando escrita por alguns autores negros. de modo geral. como vemos: “A sociologia do negro é. “Como país de economia reflexiva evidentemente reproduzimos o pensamento do polo metropolitano de forma sistemática. fato que se pode constatar não apenas no que diz respeito à antropologia. temos que o mito da democracia racial se manifestou enquanto exemplo de uma leitura da realidade brasileira subordinada a esses interesses específicos. dando sentido a linha da construção do pensamento em torno da questão racial. quase todo influenciado. 9) Com efeito.) o traumatismo de nascimento não é apenas da antropologia do Brasil. não neutro e afastado dos problemas reais do povo brasileiro. O pensamento social subordinado em Gilberto Freyre Assim. com o fim de atender determinados interesses de grupos sociais restritos que ocupavam o topo da pirâmide social. 13) Desse modo. 34 . não queremos dizer que o autor é negro. o autor afirma existir no Brasil um pensamento social subordinado. tendo em vista que o saber científico passa a ser desenvolvido.3. o autor destaca as limitações e a função da sociologia que. mas queremos expressar que há subjacente um conjunto conceitual branco que é aplicado sobre a realidade do negro brasileiro. 1. Desta forma (. Ou seja. de presença bem recente. em maior ou menor nível. pela ideologia do colonialismo.3. como um de seus apontamentos iniciais. E quando escrevemos branca. autoritária e dominante”. p.” (Ibidem. branco.. 35) Dessa maneira. mas do nosso pensamento social de um modo geral. 1988.. p.” (Ibidem.2.emergencial de romper o “gueto invisível que fazia do negro brasileiro ser apenas elemento consentido pela população branca e rica. correspondeu à própria condição do pensamento social aqui produzido. colocandoa como instrumento ideológico das elites.

a possibilidade de se ver o período no qual perdurou o escravismo entre nós como cheio de contradições agudas.3. sendo que a primeira e mais importante e que determinava todas as outras era a de que existia entre senhores e escravos. p. comumente utilizado por países imperialistas como justificativa da dominação em todas as esferas sociais (política. Nessa forma de pensamento.” (Ibidem. com isto. desfazendo. p. sem importância. segundo Norbert Rouland (1988) e François Laplantine (2006). essa era a principal tendência da Antropologia do século XIX. A opção pelo olhar do opressor: o etnocentrismo em Gilberto Freyre Outro exemplo na obra de Freyre da reprodução dessa linha de pensamento e da opção pelo olhar do ponto de vista das classes dominantes nas relações sociais. A antropologia evolucionista do século XIX – enquanto saber voltado ao estudo dos “povos primitivos” e baseada no pressuposto etnocêntrico de que as sociedades ocidentais (entendam-se por tais. existiria uma suposta hierarquia entre as diferentes culturas do mundo.3. como se todas evoluíssem de um modo cronologicamente linear. 344). a cultura e os valores europeus. 18) Desse modo.3. “O mito do bom senhor de Freyre é uma tentativa sistemática e deliberadamente bem montada e inteligentemente arquitetada para interpretar as contradições estruturais do escravismo como simples episódio epidérmico. Segundo o Professor Orlando Villas Bôas Filho (2009.. empaticamente harmônicos. econômica. não se deram devido a um descuido metodológico ou devido a inexistência qualificada de fontes. sobretudo. cultural). ou seja. “(. e que não chegaram a desmentir a existência dessa harmonia entre exploradores e explorados durante aquele período.) Gilberto Freyre antecipava-se na elaboração de uma interpretação social do Brasil através das categorias casa-grande e senzala. pois constituiriam o desfecho de um processo evolutivo unilinear pautado por etapas sucessivas de desenvolvimento – forneceu. comenta o autor que. o fato de essas contradições intrínsecas ao sistema serem escamoteadas.Portanto. Sobre isso. estando no grau mais avançado dessa evolução. as sociedades europeias) seriam qualitativamente superiores às demais. 18) 1. viria a ser o chamado etnocentrismo evolucionista. em um contexto onde intelectuais como Gilberto Freyre – coniventes com essa leitura subordinada – eram ainda a principal referência para se entender os problemas sócio raciais do Brasil. conforme 35 . uma justificação teórica para o exercício da dominação colonial. embasando assim sua crítica. colocando a nossa escravidão como composta de senhores bondosos e escravos submissos.” (Ibidem.. Clóvis Moura empenha-se em escancarar tais contradições. p. mas sim enquanto opção pelo olhar da classe dominante na leitura da história da formação social do país.

Com efeito. 204). 387). a boa receita para vencer a guerrilha era ter dez soldados para cada guerrilheiro. quando afirmou que “outrora. do administrador. por estarem mais próximos do referencial europeu. supondo que os sequestrados para o Brasil possuiriam “superioridade” com relação aos que foram para os Estados Unidos. Clóvis Moura também faz apontamentos da relação entre antropologia e imperialismo.Claude Rivière (2004. o “etnocentrismo não deixa de ser uma forma de preconceito” (Ibidem). p. p. 1988.este último.. a partir dela. Segundo a Professora Maria Helena Villas Bôas Concone (2011. Clare (1976.35). Que os Estados Unidos. responsável pela África do Sul (MOURA. quando transpostas dos termos de hereditariedade de família para os de raça) que as de antropologia cultural e de história social africana. o discurso antropológico não é inocente: numa determinada conjuntura colonial. Nesse momento da história que se contextualizou a frase de Michel T. 2003. esse olhar presente na obra Casa Grande e Senzala se concretiza no momento em que o autor discute as diferentes linhagens dos povos africanos escravizados.] situado na história. como é o caso dos institutos europeus East African Institute.que se enquadrariam em alguma etapa linear de evolução já superada pela mesma. 2009. destacando alguns órgãos de inteligência e segurança vinculados às nações neocolonizadoras.. (Grifos nossos) 36 . 34. p. Com efeito. 36-37). 3440) (Grifos nosso). o etnocentrismo seria uma “avaliação centralizadora da nossa própria cultura em desabono das demais”. p. hoje. Dessa maneira. p. “[. do missionário. 55). Estas é que nos parecem indicar ter sido o Brasil beneficiado com um elemento melhor de colonização africana que outros países da América. dez antropólogos para cada guerrilheiro”. Royal Antropological Institute . (FREYRE. o que em nada afeta a competência e perspicácia de alguns dentre eles. o evolucionismo de pressuposto etnocêntrico se caracterizaria enquanto a ideia de que a cultura centralizada seria a detentora da forma de homem mais próxima de seu ideal de humanidade e desenvolvimento. podendo. interessam-nos menos as diferenças de antropologia física (que ano nosso ver não explicam inferioridades ou superioridades humanas. ele é o discurso do explorador. Rhodes Livengstone Institute (África Central). por exemplo.” (BÔAS FILHO. p. analisar outras – supostamente inferiores. do jurista. Mas dentro da orientação e dos propósitos deste ensaio.

em alguma medida teria inclusive sido benéfico para os povos de cultura “inferior”. passando a exercer uma maior expressividade no campo da violência ideológica. pois ela nos inferiorizaria. p. herdeiras dos senhores escravocratas. pelo contrário. ou mesmo. pós abolição. tal perspectiva ilustra bem o pensamento social subordinado aos interesses econômicos de países imperialistas no exercício da dominação colonial e. o negro e o indígena. 1. De modo que não é o encontro de uma cultura exuberante de maturidade com outra já adolescente. expressa nos aparatos de repressão que o sistema escravista dispunha.3. ainda na primeira dentição. Mecanismos de dominação sofisticados no pós abolição..central para a continuidade da dominação do mesmo grupo social hegemônico . De acordo com o autor. constatamos também uma visão nesse sentido . 158) (Grifo nossos). diminuindo o uso direto da violência física. não queríamos aceitar a nossa realidade étnica. ainda. que aqui se verifica.Assim. temos que a obra Casa-grande & Senzala corroborou para uma visão pacífica e benéfica do contato entre o branco. Isto é. 19 37 . romantizando-a e enaltecendo o ego das nossas elites25.e a serviço do explorador quando Freyre em sua obra.” P. criando a nossa inteligência uma realidade mítica. essa visão romantizada do período escravista viria a ser um dos elementos estruturantes da visão de que. sem os ossos nem o desenvolvimento nem a resistência das grandes semi-civilizações americanas. Justificou a suposição de que a “riqueza cultural” oriunda desse contato não acarretou nenhuma dívida. (Ibid.3.. 25 Clóvis Moura complementa tal posicionamento no seguinte trecho: “(.os mecanismos de dominação se sofisticariam.4. o ego das nossas elites que se diziam representativas do nosso ethos cultural.. a colonização europeia vem surpreender nesta parte da América quase que bandos de crianças grandes. ou melhor. Conforme os trechos. dialoga com a necessidade de distorcer a historicidade das relações étnicas. uma cultura verde e incipiente. Para sustentar tal mito . pois somente ela compensaria o nosso ego nacional.) queremos destacar que esse pensamento social era subordinado a uma estrutura dependente de tal forma que os conceitos chamados científicos chegavam para inferioriza-la a partir de sua auto-análise. nenhum ponto de tensão histórico e violento nesse processo de dominação. Portanto. vigoraria entre nós uma verdadeira democracia racial. infantiliza a cultura ancestral dos povos originários que aqui estavam.

38 . da mitologia do bom senhor e de toda a sua escala de simbolização do passado para a democracia racial atual. os quais utilizavam o conceito enquanto um processo natural que se dava a partir do contato contínuo entre um grupo culturalmente superior (A) e outro. p. do outro. então. da mesma forma como não compreenderam as sutilizas do cristianismo. embranquecimento do outro -. em cima desta situação conflitante.3. Assimilação e aculturação O conceito de assimilação fora uma elaboração dos ditos “antropólogos coloniais” (Ibid. supostamente. Já não se procura mais a destruição pura e simples dos pólos de resistência como se fazia com os quilombolas. estabelecida pelas classes dominantes que substituíram a classe senhorial. deverão ser apenas toleradas diante da nova realidade social cuja mudança elas não captaram por incapacidade de compreenderem o ritmo do progresso. e do embranquecimento. o aparelho de dominação remanipula as ideologias de controle e as instituições de repressão dando-lhes uma funcionalidade dinâmica e instrumental.. Opinião. Isso pois. 55 e 56) No raciocínio de Michel T. Michel T. p.1. 36)27. 204. os mecanismos dinâmicos elaborados para tal fim. de um lado. Saímos. e. discorrer o significado desses três mecanismos citados pelo autor – assimilação e aculturação de um lado. a filosofia da assimilação e da aculturação. hoje. há uma remanipulação de certos valores secundários no julgamento do ex-escravo e do negro de um modo geral e. cabe rapidamente aqui. out. (Ibidem. tiveram por escopo neutralizar qualquer conflito racial e/ou qualquer constatação da contradição explícita na assimetria de poder entre as raças no Brasil. a boa receita para vencer a guerrilha era ter dez soldados para cada guerrilheiro. inferior (B). Rio de Janeiro. a assimilação se dava por completa quando as manifestações 26 Tal qual: “outrora. Intelectuais e universitários na contra insurreição.3.4. Com isto. 27 Expressão utilizada para designar os antropólogos relacionados aos institutos antropológicos de nações neocolonizadoras. as religiões afro-brasileiras passam a ser vistas como manifestações do passado escravista ou de grupos marginais que não tiveram condição de compreender o progresso e que. por esta razão. 1976. p. refina-se o aparelho.“Na sequência da passagem da escravidão para a mão de obra livre.888. 56) Nesse sentido. dez antropólogos para cada guerrilheiro” CLARE. em nível de ideologia. 1988. Dessa maneira. Clare – anteriormente citado 26 – o objetivo nesse momento seria o de cada vez mais o mesmo número de antropólogos neutralizar o maior número possível de “guerrilheiros em potencial”. 1. (MOURA. utilizados com o objetivo de destruir os polos de resistência negra que se expressaram após 1. mas cria-se.

culturais específicas do grupo (B) se incorporavam na “bandeja cultural” do grupo (A),
deixando assim de existir de modo específico e autônomo. O movimento de assimilação,
nessa hipótese, favoreceria, em especial, o grupo (B) na medida em que o mesmo seria
complementado por uma cultura supostamente mais adiantada que a sua. Assim, tal
movimento parte da premissa da existência de uma cultura inferior e incompleta, frente a uma
cultura superior e completa. O autor sintetiza tal processo a partir da função que o mesmo
cumpre na relação assimétrica entre os dominadores e os dominados:
O problema da assimilação, no seu aspecto lato, tem uma conotação
política. A política assimilacionista foi, sempre, aquela que metrópoles
pregavam como solução ideal para neutralizar a resistência cultural, social e
política das colônias. O chamado processo civilizatório (as metrópoles tinham
sempre um papel “civilizador”) era transformar as populações subordinadas aos
padrões culturais e valores políticos do colonizador. (Ibidem, p. 43) (Grifo nosso)

Movimento semelhante à esse é descrito quando o autor trabalha criticamente o
conceito de aculturação. Segundo tal conceito, o processo de aculturação se daria entre um
povo dominado, detentor de uma cultura inferior e; um povo dominador, detentor de uma
cultura superior. Nesse sentido, na relação entre ambos, o primeiro incorporaria os fatores
“benéficos” do segundo. Em contrapartida, o segundo também acabaria incorporando alguns
elementos culturais do primeiro, gerando um processo harmônico e enriquecedor para ambos.
Sobre isso, explica Moura:
Toda a manipulação conceitual objetivava a demonstrar como nesse contato
cultural os povos dominados sofriam a influência dos dominadores e disto resultaria
uma síntese na qual os dominados também transmitiriam parte dos seus padrões à
dominadora que os incorporaria à sua estrutura cultural básica.
Para os culturalistas, no entanto, o ato de “dar e tomar” os traços e
complexos culturais seria um todo harmônico e funcionaria como simples
acréscimos quantitativos de cada uma das culturas em contato. Os elementos de
dominação estrutural – econômico, social e político – de uma das culturas sobre a
outra ficaram diluídos porque esses contatos permanentes trocariam somente ou
basicamente o superestrutural. Religião, indumentária, culinária, organização
familiar entrariam em intercâmbio, mas, esse movimento, essa dinâmica de dar e
tomar não se estenderia às formas fundamentais de propriedade, continuando
sempre, os membros da cultura superior como dominadores e da inferior como
socialmente dominados, por manterem os membros da primeira a posse dos meios
de produção. (Ibidem, p. 45 e 46)

É nesse ponto que identificamos de que maneira esse conceito se presta para
interpretar as relações raciais no Brasil, buscando uma relação neutralizadora, que encobre as
contradições explícitas herdadas do sistema escravista. Ou seja, se as estruturas econômicas,
39

políticas e sociais encontram-se assimétricas e em conflito, é tendencioso afirmar que a troca
cultural harmoniza todas essas relações.
O culturalismo exclui a historicidade do contado, não retratando, por isto, a
situação histórico-estrutural em que cada cultura se encontra nesse processo.
(Ibidem, p. 46)

Ademais, cabe a ponderação de que o plano da troca cultura também não se exime de
estabelecer uma relação assimétrica, visto que a cultura dominante ainda é a europeia.
Na verdade as coisas acontecem de forma diferente. No Brasil o
catolicismo continua sendo a religião dominante, a indumentária continua sendo a
ocidental-européia, a culinária afro-brasileira continua sendo apenas uma cozinha
típica de uma minoria étnica e assim por diante. Isto é, nos processos de aculturação
os mecanismos de dominação econômica, social, política e cultural persistem
determinando quem é superior ou inferior. (Ibidem, p. 45)

1.3.3.4.2. Embranquecimento e identidade étnica
Outro elemento utilizado de maneira refinada seria a ideologia do embranquecimento,
já discutida anteriormente no presente trabalho ao tratar das ideias eugênicas e das políticas de
embranquecer a população brasileira desde o final do século XIX, como também no item
(1.3.2.1.) a partir das colocações de Florestan Fernandes. Entretanto, neste item
complementaremos tal questão a partir do enfoque de Clóvis Moura no tema.
O autor piauiense o desenvolve enquanto um mecanismo de violência simbólica,
desagregador da identidade étnica dos seguimentos não brancos, uma vez que os mesmos
criam a necessidade de aproximarem sua identidade étnica da figura branca – eleita como a
ideal. Sobre isso:
Essa elite de poder que se auto-identifica como branca escolheu, como tipo
ideal, representativo da superioridade étnica na nossa sociedade, o branco europeu e,
em contrapartida, como tipo negativo, inferior, étnica e culturalmente, o negro.
A identidade e a consciência étnica são, assim, penosamente escamoteadas
pela grande maioria dos brasileiros ao se auto-analisarem, procurando sempre
elementos de identificação com símbolos étinicos da camada branca dominante.
(Ibidem, p. 62)

Exemplo dessa violência foi constata pelo autor ao analisar o recenseamento de 1980,
realizado pelo IBGE, no qual os pesquisadores, ao questionarem a população não branca
sobre sua cor, obtiveram um total de 136 respostas diferentes, demonstrando a necessidade de
afastamento da identidade negra.
40

O total de 136 cores bem demonstra como o brasileiro foge da sua realidade
étnica, da sua identidade, procurando, através de simbolismos de fuga, situar-se o
mais próximo possível do modelo tido como superior.
O que significa isso em uma país que diz ser uma democracia racial?
Significa que, por mecanismos alienadores, a ideologia da elite dominadora
introjetou em vastas camadas de não brancos os seus valores fundamentais.
Significa, também, que a nossa realidade étnica, ao contrário do que se diz, não
iguala pela miscigenação, mas, pelo contrário, diferencia, hierarquiza e inferioriza
socialmente de tal maneira que esses não brancos procuram criar uma realidade
simbólica onde se refugiam, tentando escapar da inferiorização que sua cor expressa
nesse tipo de sociedade. (Ibidem, p. 63)

Portanto, esses são exemplos que demarcam mecanismos sofisticados de dominação
ideológica por meio do racismo, garantidores de privilégios de grupos específicos, em
detrimento da exploração dos seguimentos negros.
1.3.3.5.

Continuidade da estratificação racial na década de 1980
Assim como Florestan Fernandes constata no recenseamento de 1950, Clóvis Moura
reafirma – a partir da análise do recenseamento da década de 80 – de que modo o racismo
continuava a vigorar na sociedade, dando exemplos concretos do resultado desses
mecanismos trabalhados no item anterior. Da mesma forma, ilustram a assimetria econômica
e política que faz “cair por terra” o posicionamento culturalista – a exemplo de Freyre – que
corrobora para a sustentação da visão romântica presente nas, até então, atuais relações
sociais.

Tabela 8
População na ocupação principal segundo a cor – Brasil, 1980.
Cor e Posição na
principal ocupação
Total
Empregado
Autônomo
Empregador
Não-remunerado
BRANCA
Empregado
Autônomo
Empregador

Total

% sobre o total

43 796 763
28 606 051
10 666 556
1 158 590
2 270 679
24 507 289
16 633 059
5 206 605
920 416

100, 0%
65,3%
24,3%
2,6%
5,1%
100,0%
67,8%
21,2%
3,7%

41

o capítulo seguinte abordará de que maneira o paradoxo das relações raciais persiste ainda hoje.1% 5.5% 100.1% 10. a partir de sua complementação por Florestan Fernandes.1% 11. desenvolvemos no decorrer desse capítulo uma análise referente às principais teorizações sobre a questão racial brasileira.0% 60. vimos como a crítica empenhada na construção a respeito da teorização feita sobre a questão nos instrumentaliza de uma maneira profunda para entendermos as contradições raciais expressas hoje.0% 52.0% 100.9% 100.5% 1. arraigado nas estruturas básicas da nossa sociedade.4% 3. Assim.2% 25.9% 21.5% 29. 1988. demonstrando o modo como tal discussão sempre ocupou grande destaque na produção do pensamento social aqui produzido.8% Fonte: IBGE – Censo de 1980 (apud MOURA. Portanto. essa assimetria de igualdade política.0% 71.9% 0. 42 . do prestígio social e da renda nos membros autodeclarados brancos da sua população. p 73) Por fim. vimos que o racismo instrumentalizou uma concentração racial do poder. Capítulo 2: Análise da desigualdade racial hoje: O mito e a perpetuação do racismo Ao longo da formação do Brasil. econômica e cultural se expressou enquanto resultado do racismo.Não-remunerado PRETA Empregado Autônomo Empregador Não-remunerado AMARELA Empregado Autônomo Empregador Não-remunerado PARDA Empregado Autônomo Empregador Não-remunerado 1 201 458 2 874 208 2 067 326 631 516 14 104 87 368 324 280 169 291 81 487 36 077 34 072 15 993 177 9 688 790 4 724 737 186 143 941 809 4. Ou seja. com enfoque na leitura proposta por Clóvis Moura.

que em seu artigo 2°. as expressões de racismo são inúmeras. possuem ainda privilégios próprios. perverte quem o pratica.em regra . foram analisados e organizados para a produção da Revista Retratos das Desigualdades de Gênero e Raça 28. Ano Internacional dos Afrodescendentes. que se reinventa e se infiltra em diversas práticas.Assim. do IBGE. Ciência e Cultura (UNESCO) em 1978. Já de acordo com o Professor Kabengele Munanga (2005-2006).br/retrato/apresentacao. conforme temos trabalhado no presente trabalho.1.gov. analisar a existência do racismo ainda hoje no Brasil implica em analisarmos se. consequentemente. bem como a noção falaciosa de que as relações discriminatórias entre grupos são moral e cientificamente justificáveis. o racismo é uma ideologia dinâmica. II define: O racismo engloba ideologias racistas. Disponível em: < http://www. é contrário aos princípios fundamentais do direito internacional e. atitudes motivadas por preconceitos raciais. impede a cooperação internacional e dá origem a tensões políticas entre os povos. para analisar concretamente de que maneira a idealizada igualdade racial se manifesta nas diferentes esferas da realidade social brasileira. perturba seriamente a paz e a segurança internacionais.para os brasileiros pertencentes à população negra.html > Acesso em: 10/06/2015. manifesta-se através de disposições discriminatórias na legislação e regulamentos. disporemos de dados oriundos da Pesquisa Amostral por Análise de Domicílios (PNAD). levantados pelo PNAD. bem como de convicções e atos antissociais. Com efeito. projeto fruto de uma parceria entre Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). 2. disposições estruturais e práticas institucionalizadas causadoras de desigualdade racial. para questionarmos se o racismo e suas bases continuam a se perpetuar hoje. comportamentos discriminatórios.ipea. Dados sócio econômicos comparativos Os dados aqui apresentados. Desse modo. os brasileiros pertencentes ao grupo populacional autodeclarado branco. negados . compromete o desenvolvimento das suas vítimas. torna-se conveniente trazer uma definição sobre o tema. Nesse sentido. ONU Mulheres 28 A 4ª edição foi lançada em 2011. mas todas tem um fim oculto em comum: garantir a perpetuação dos privilégios históricos dos membros da população branca. 43 . contida na Declaração Sobre a Raça e os Preconceitos Raciais proclamada pela Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação. divide internamente as nações.

8 7.9 29 Apesar de o presente trabalho não aprofundar nas contradições e desigualdades presentes nas relações de gênero.2 Empregada doméstica 6. 2013.4 carteira assinada 43. segundo Sexo e Posição na Ocupação – Brasil. (Nota do autor) 44 . empenharam-se na produção e divulgação do material.(Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres).5 Conta própria 20.8 5.1 Empregado sem 14. por Cor/Raça. importante para se analisar a relação interseccional entre gênero e raça. as citadas instituições.5 carteira assinada 12. SPM (Secretaria de Políticas para as Mulheres) e SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.1.4 16.1 Outros 6.5 2. considerando a importância e a urgência de se analisarem as desigualdades atuais existentes entre raça e gênero29.4 6. Ocupação Total Brancos Negros Funcionário público militar 7. mostrando como a mulher negra encontra-se ainda mais oprimida pela vigência estrutural do machismo e racismo na mesma estrutura social.5 Empregador 3. Desse modo. endossa-se aqui a centralidade desse tema.8 19. Inclusive.5 8. sendo de grande importância para o presente trabalho. 2. tão importante quanto a análise das desigualdades raciais.2 8.1. Mercado de trabalho Tabela 9 Distribuição Percentual da População Ocupada com 16 anos ou mais de idade.6 Empregado com 40.9 37.4 4.7 5.9 21.

Amazonas.0 2.492. Pará e Amapá *** a população negra é composta por pretos e pardos **** Negra rendimento do trabalho principal deflacionado com base no INPC.517.9 Fonte: IBGE/PNAD Elaboração: IPEA/DISOC * a PNAD não foi realizada nos anos de 2000 e 2010 Branca 1. Em contrapartida.101. Cor/Raça Total Masculino Feminino Total 1. Nela.715. segundo gênero e raça. Acre.980. trabalhadores na construção para o próprio uso e trabalhadores não remunerados. reproduzindo assim um mesmo padrão racial observados anteriormente em 1. por meio da análise da Tabela 9.7 ** em 2004 a PNAD passa a contemplar a população rural de Rondônia. Da mesma forma.876. a partir da leitura de Florestan Fernandes e Clóvis Moura. vemos como a porcentagem da população negra que exerce ocupações marginalizadas e/ou mal remuneradas ainda é superior quando comparada à porcentagem da população branca que exerce essas funções.Ocupação Total Brancos Negros Total 100.58 vezes maior que a 45 .0 100. Pará e Amapá *** a população negra é composta por pretos e pardos **** Outros: trabalhadores na produção para o próprio consumo.Brasil e Regiões.256.262. segundo Cor/Raça e Localização do Domicílio . mais gritante ainda é a distância entre esses dois grupos raciais quando observamos a Tabela 10. vemos que a média salarial do homem branca chega a ser 2.9 Como vimos anteriormente. Amazonas. Roraima. a análise da situação do negro no mercado de trabalho capitalista – originado após a desagregação do sistema escravista – é central para verificar se as velhas estruturas racistas do modo de produção anterior foram superadas.5 1.4 período de referência set. Tabela 10 Rendimento Médio Mensal no Trabalho Principal da População Ocupada de 16 anos ou mais de idade.0 Fonte: IBGE/PNAD Elaboração: IPEA/DISOC * a PNAD não foi realizada nos anos de 2000 e 2010 ** em 2004 a PNAD passa a contemplar a população rural de Rondônia.950 e 1.195.927.6 1.3 1. por Sexo.0 100. a partir da inclusão igualitária do negro na sociedade de classes. Roraima. a qual analisa a renda salarial média no Brasil. Acre.0 1. 2013./2013 1.

com sua mão-de-obra. Clóvis Moura (1988). apesar de atuar satisfatória e eficientemente em setores como o manufatureiro e o artesanal. pedreiros. p. 69) 46 . artífices em prata. a população negra foi sistematicamente marginalizada no insurgente mercado de trabalho pós abolição. em pedra e madeira. considerando apenas o fator racial. sejam admiravelmente feitas por negros escravos ou livres (. pedreiros. Todas as espécies de ofícios são exercidos por homens e rapazes escravos. desde a passagem do escravismo para o capitalismo dependente. deveria passar a ser assalariada. as necessidades da sociedade brasileira em expansão. com a decomposição do modo de produção escravista: ou se marginaliza. aproximadamente. apregoa-se. marceneiros. Nesse sentido.média salarial da mulher negra. por outro lado. por extensão. são por um processo de peneiramento constante e estrategicamente bem manipulado.. Esses ourives.. Surge. É também fato corrente que imagens de santos. fabricantes de ornamentos militares. ao tentarem se reordenar na sociedade capitalista emergente. 1845/6. Elege-se o modelo branco como sendo o do trabalhador ideal e apela-se para uma política migratória sistemática e subvencionada. Nesse sentido. alfaiates. ao tempo em que se proclama a existência de uma democracia racial. em contrapartida.988. 188) Assim. com isto. joalheiros e litógrafos. considerados como mão-de-obra não-aproveitável e marginalizados. de lampiões. o mito da incapacidade do negro para o trabalho e. analisando esse processo de marginalização vigorante ainda em 1. calceteiros. a impossibilidade de se aproveitar esse enorme contingente de ex-escravos. (EWBANK. a partir de então. metalúrgicos. alegandose a necessidade de se dinamizar a nossa economia através da importação de um trabalhador superior do ponto de vista racial e cultural e capaz de suprir. integrada e estruturada em um sistema de produção.. o dobro da renda média do homem negro e da mulher negra. O preconceito de cor é assim dinamizado no contexto capitalista.). portanto. vemos que o homem branco e a mulher branca chegam a obter. impressores. Clóvis Moura concluiu que: Toda força de trabalho escrava. tanoeiros. teve que lidar com a marginalização e substituição de sua força de trabalho pelo imigrante europeu. cachaceiros. não persistentes no trabalho e. todavia. p. respectivamente. de hábitos morigerados e tendências à poupança e à estabilidade no emprego. defende – assim como Florestan (1972) – que houve. honesto. apresenta-se o trabalhador branco como o modelo perseverante. relativamente diversificada. (MOURA. em regra. Sobre isso. Ademais. desarticulou-se. 1988. De modo similar. um desengate estrutural da população negra na divisão do trabalho pós abolição. descreveu Thomas Ewbank em 1845/6: Tenho visto escravos trabalhar como carpinteiros. a mão de obra escravizada. concomitantemente. etc. construtores de móveis e de carruagens. Ou seja. pintores de tabuletas e ornamentação. não foi. O vigário fez referência outro dia a um escravo baiano que é um santeiro de primeira ordem. os elementos não-brancos passam a ser estereotipados como indolentes. ou se deteriora de forma parcial ou absoluta com a morte de grande parte dos ex-escravos.

0 100. p. 2003 e 2013 Situação de pobreza Total 2003 2013 Brancos 2003 2013 Negros 2003 2013 Extremamente Pobre 9.0 100.3 2.9 41.24 e menor que R$678.5 13.1 4.24. Não pobres – renda domiciliar per capita maior ou igual a R$ 678 (um salário mínimo de 2013) 47 . Vulneráveis – renda domiciliar per capita maior ou igual a R$ 158.0 100.6 5.9 Vulnerável 52. segundo Situação de Pobreza Definida com Base no Programa Brasil sem Miséria (1) e Localização do DomicílioBrasil e Regiões. a cor negra.9 2.1.Portanto. Pobres – renda domiciliar per capita maior ou igual a R$ 79.6 51. (Ibidem. Amazonas.3 54.3 Pobre 15./2013 (1) Extremamente pobres – renda domiciliar per capita de até R$79.9 5.7 22. escolhendo os sujeitos que estiveram historicamente fragilizados e inferiorizados.9 57.3 52.0 4.5 33.5 40. 65) 2. A cor da pobreza Reflexo da marginalização do negro no mercado de trabalho e da divisão da sociedade em classes .0 10. conforme os dados apresentados.0 100.5 30. Pará e Amapá *** a população negra é composta por pretos e pardos **** situação de pobreza calculada com base no rendimento mensal domiciliar per capita deflacionado pelo INPC.5 Não Pobre 22.0 6. como vemos: Tabela 11 Distribuição Percentual da População por Cor/Raça. exigidas pelo modelo de capitalismo dependente que substituiu o escravismo. Acre. a miséria se torna racialmente seletiva. estruturalmente montado para o povo negro ocupar essas posições marginalizadas.12.onde a pobreza é posicionada como algo estrutural para a própria sustentação do modo de produção capitalista –.6 11. vemos um padrão que persiste ao longo da história.2 49.2. Roraima. em regra. Nesse sentido.0 100.0 Fonte: IBGE/PNAD Elaboração: IPEA/DISOC * a PNAD não foi realizada nos anos de 2000 e 2010 ** em 2004 a PNAD passa a contemplar a população rural de Rondônia. período de referência set. a Tabela 3 evidencia que a pobreza no país ainda possuí.3 Total 100.12 e menor que R$ 158.

tendo por objetivo o combate dessa situação que corrobora para a contínua estruturação e reinvenção do racismo.3% eram brancos e. no que tange à políticas específicas para a população negra.3 eram pessoas negras30. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2011. atenção! Não compre escravo hoje! É que amanhã é dia de mega promoção aqui nas “Escravas Bahia”. Acessado em: ftp://ftp. extra. Pensamento social racista expresso nos meios de comunicação Exemplos não faltam de como o racismo ainda se encontra muito presente no pensamento social brasileiro. o qual constatou que no recorte de 1% da população mais rica do Brasil. reforçando e naturalizando tal estrutura. Guinés. exibido no dia 12/03/2015. 83.gov.com. observamos que muito ainda há de ser feito. Um caso recente denunciado pelo militante do Movimento Negro paulista. no item anterior. apesar de uma melhora universal significativa entre 2003 e 2013.2. após demonstramos. apenas.cartacapital. na coluna Negro Belchior. 2. de autoria do referido militante: http://negrobelchior. Portanto.com/rede-globo/ta-noar-a-tv-na-tv/t/programa/v/ta-no-ar-faz-brincadeira-com-comerciais-de-tv/3963206/ (Acesso em 24/05/2015).globo.p df ) 31 No seguinte link é possível ler a matéria na íntegra pela revista Carta Capital. principalmente.ibge. os ricos possuem uma cor bem definida. “Interrompemos esse programa para apresentar um comercial do século XIX: Extra. cabe aqui evidenciar como se dá sua expressão no plano ideológica. Douglas Belchior esteve relacionado ao programa “Tá no Ar” da Rede Globo. Cabindas. a “brincadeira” consistiu em exibir um anúncio televiso de venda de homens e mulheres escravizadas.br/Indicadores_Sociais/Sintese_de_Indicadores_Sociais_2012/pdf/padrao_vida_pdf. como vemos no estudo do IBGE. 16.Em contrapartida.31 Por tratar-se de um programa de humor. 48 . Angolas! O Feitor ficou maluco! Quer açoitar quantos? É isso mesmo! Compre dois escravos de engenho e leve uma ama de leite inteiramente grátis! Venha conhecer novas filias: Pelourinho e Pedra do Sal! Escravas Bahia: Servidão total pra você!”32 30 Fonte: IBGE. com promoções e ofertas imperdíveis para quem desejasse comprar uma pessoa nessa condição. o racismo presente na estrutura social.br/2015/02/14/rede-globo-o-racismo-ta-no-arou-quer-acoitar-quantos/ (acessado em 24/05/2015) 32 No seguinte link é possível ver o quadro do programa na íntegra: http://globotv. Portanto.

As críticas. Tal ilustração se mostra importante no sentido em que nos evidencia o quão presente ainda estão velhas estruturas do pensamento do passado. 33 Disponível em: < http://blogueirasnegras. relacionado à conotações sexuais. (Acesso em 12/04/2015) 34 Disponível em: < http://blogueirasnegras. colocando a mulher negra no “lugar comum” de corpo objeto.org/2014/09/10/ah-branco-da-um-tempo-carta-aberta-ao-senhormiguel-falabella/ > (Acesso em 12/06/2015) 35 Disponível em: < http://www. O projeto Blogueiras Negras33.de60c3bf0d8c4a6f8a9addd396b8e741 > (Acesso em: 29/05/2015) 49 . sendo elencados aqui somente alguns poucos que conseguiram repercussão em mídias alternativas. evidenciou as contradições envolvendo o caso. apresentando uma carta aberta34. tal levantamento36 não teve a pretensão de enumerar taxativamente os casos de 2014 – visto ser impossível – mas sim.org.br/retrospectiva-2014-conheca-14-casos-que-provamque-ainda-existe-racismo-no-brasil/#gs.Apesar da lamentável exibição. ilustrar o quão presente o preconceito de cor está em nossa vida social. assinada por diversos coletivos e organizações de combate ao racismo e em defesa das mulheres. é possível citar uma extensa lista envolvendo a mesma emissora. Exemplos recentes para além desses foram levantados em uma retrospectiva de 2014 pelo Geledés . Nesse sentido. que estreou em setembro de 2014.br/o-que-e-o-geledes-instituto-da-mulhernegra/#gs. como já dito. embasaram-se no fato de o programa reproduzir um estereótipo racista e machista. bem fundamentadas.geledes. que possui uma página influente na internet.Instituto da Mulher Negra 35.geledes.org/quem-somos/ >.4be6edb9d7a9468ea53fd3ce8bf27af3 > (Acesso em 24/04/2015) 36 Disponível em: < http://www. organização que desempenha importante papel como mídia alternativa comprometida em evidenciar as contradições racistas e sexistas presente no cotidiano dos brasileiros. como por exemplo a criação do programa “Sexo e as Nega”. Obviamente que.org. dirigida por Miguel Falabella. são variados os exemplos da reprodução do racismo no pensamento social brasileiro hoje.

Desse modo. situações materiais ainda estruturam o racismo e auxiliam em sua reprodução dinâmica. Com isso. por exemplo.Com efeito. Esse fato permite a continuidade da reprodução ideológica do racismo de maneira cíclica. 50 . o de domésticas e. em contrapartida. culturais e políticos continua a se perpetuar na estrutura social brasileira. Por fim. ainda. ela se manifesta nas ruas com organização popular e empoderamento dos sujeitos históricos dessa luta: a população negra brasileira. as tabelas trazidas demonstram a disparidade de poder entre a população negra e a população branca. Portanto. a histórica concentração racial de privilégios econômicos. de que maneira esse movimento dialoga com o Direito. pretende-se entender de modo aprofundado o momento histórico em que estamos na luta pela igualdade racial. tendo por objeto a disputa em torno do acesso ao ensino superior através da política de ações afirmativas. Ou seja. sabemos que. o pensamento social racista reforça a naturalização dessa contradição intrínseca de nossa sociedade. o Capítulo 3 se prestará a entender também a dinâmica negra. sociais. nas telenovelas exibidas aqui. suas formas de organização e conquistas na formação social do Brasil e. onde os primeiros – estruturalmente falando e considerando a escala de valores da sociedade capitalista – ainda são socialmente inferiores com relação aos segundos. muito antes do avanço da pauta da questão racial se dar somente no plano teórico. Por sua vez. o dos brancos ser o de empresários ou figuras socialmente bem sucedidas. a ideia de inferioridade do negro se reforça a partir do lugar que a população negra ocupa na estrutura social racialmente dividida. tornando natural o “lugar comum” do negro ser. Ou seja.

). Invisibilidade da resistência negra na historiografia tradicional É nesse sentido que Clóvis Moura. exploraremos de que maneira tal pensamento interpretou – e em alguma medida. o conteúdo que produzia o dinamismo interno desses movimentos.1. Portanto. elidia-se a contradição fundamental que os produzia – a luta de classes no sistema escravista – para reduzi-los a um mero jogo de choques entre padrões. Com isso. tendo em vista o fato de essa obra representar na década de 50. escreve: Tirava-se com isto. auto identificadas com o grupo étnico branco-europeu. secundário e. em especial no item (1. um importante marco no rompimento com a reflexão subordinada sobre o assunto. ainda interpreta .1. até o início de suas pesquisas. da sua 51 . conforme vimos. Esta posição teórica e a sua continuação metodológica levavam a que sempre se procurasse uma interpretação culturalista para o conflito social que se desenvolvia em consequência das contradições do sistema escravista que se formara no Brasil. diz que a problemática envolvendo a resistência dos negros.1. traços e complexos culturais que os negros trouxeram da África e os da cultura ocidental que os recebeu.3. era tratada como um tema esporádico. de que modo as produções sociológicas sobre o negro brasileiro estiveram subordinadas aos interesses das classes sociais dominantes. Nesse item. esteve permanentemente articulado. quando muito. concluímos como a construção desse pensamento esteve voltada para a elaboração de um projeto de país distante do povo brasileiro.1. ao longo da formação social do Brasil. 3. Da sua invisibilidade à sua ressignificação Analisamos no Capítulo 1. O modo de produção escravista. gerador dessas contradições.1. na Introdução da 4° edição de lançamento da obra Rebeliões na Senzala. enquanto manifestações de movimentos antiaculturativos. era substituído pela visão harmônica dessa estrutura e os movimentos anticulturativos representavam apenas uma rejeição por parte do negro dos padrões culturais do senhor e não uma decorrência da sua situação de escravo.Capítulo 3: Movimento Negro como forma de combate ao racismo Enfocaremos nesta etapa do trabalho a forma como o Movimento Negro. nos valeremos de algumas colocações do autor de Rebeliões na Senzala. Tal análise será referenciada mas construções teóricas do autor Clóvis Moura sobre o tema. resistindo e modificando os rumos da história do país.as formas de luta e organização da população negra. 3. Sobre isso.

nos próprios fundamentos da cultura branca. neste como nos outros episódios. 33-34). 2014. processada no organismo da cultura europeia.a de que a aculturação escamoteava a historicidade do contato violento entre brancos europeus e negros africanos . citando como exemplo a articulada organização em torno da Revolta dos Malês ou. iria repercutir. ela reagia. integrando-se na sua substância. Os escravos e negros livres maometanos teriam se revoltado por não aceitarem a religião católica dos brancos.posição de homem desumanizado.. p. 35).) resistência material oferecida pela cultura afro-índia foi. através dos conceitos de acomodação. infiltrando-se. o qual escreveu que a (. desempenhando o papel que lhes incumbia nesse modo de produção. assim como sua crítica em Sociologia do negro brasileiro (1988) . nas modificações características sofridas pela civilização de base branca que aqui corriam” (MELO FRANCO. forjava-se uma explicação cômoda. mas foi um momento de regressão. Ou seja. insidiosamente. (.. Expoente dessa interpretação subordinado foi Afonso Arinos de Mello. justificadas pela própria condição cultural inferior intrínseca aos escravizados. 130). o autor avalia que. forçava-se a compreender as manifestações negras enquanto eventos pontuais na história. os diversos níveis de consciência social do escravo negro e sua consequente rebeldia. harmônica. Os negros que se revoltaram e criaram o reduto da Serra da Barriga não fizeram isto porque não suportavam mais a situação em que se encontravam. o autor critica o fato de as manifestações orgânicas dos escravizados serem tratadas enquanto desajustamentos do povo negro para enquadrarem-se à cultura ocidental – evidentemente. p. para o plano cultural. Com efeito.” (Op.. Transferia-se assim. pequena.” (MOURA. também. transferindo-se para o seu meio sob as formas de influência mais ou menos disfarçadas. transformado em simples coisa. esta assimilação de elementos estranhos. desumanizados até o último nível. E. p. ainda. p. Palmares teria sido outro movimento antiaculturativo. sob esse ponto de vista. ainda por reflexo da influência do mito da democracia racial. a profunda organização política. Desse modo. 34) Dessa maneira. assimilação e outros. 1936. ou sobrevivências típicas.) as insurreições urbanas do século XIX.... de volta aos padrões das culturas africanas.aqui. aculturação. eram conflitos religiosos. aclimatada ao Brasil.) tudo se ajustaria. Mas. em Salvador. econômica e cultural na República dos Palmares. com o objetivo de escamotear a dinâmica social em torno da rebeldia negra e seus efeitos concretos na história. um típico exemplo de regressão tribal. portanto.. 52 . adaptação. O conflito social era substituído pelos choques culturais (Ibidem. Cit. não fossem essas diferenças culturais. naturalmente. “(.

social e militar e influiu poderosamente para que esse tipo de trabalho entrasse em crise e fosse substituído pelo trabalho livre” (MUNANGA. o autor remonta um esquema metodológico para analisar tal questão. Desse modo.1.1. como vimos. rompendo com a leitura que distorcia a imagem do negro brasileiro . seria a premissa de que a população negra consolidou formas de resistir e atacar o modo de produção escravista desde o seu sequestro do continente africano até no cotidiano da vida nas senzalas. Quilombagem É a partir dessa concepção que trabalharemos com o conceito de quilombagem. 32-33). os rumos da história da formação do Brasil foram intrinsecamente influenciados pela organização e resistência permanente do povo negro. desde o início de sua formação. adepto da leitura realizada por Clóvis Moura: “Entendemos por quilombagem o movimento de rebeldia permanente organizado e dirigido pelos próprios escravos que se verificou durante o escravismo brasileiro em todo o território nacional.apresentando-o como um ser submisso. e mais fundamental entre elas. 2004.Esse mesmo olhar pode ser notado ainda hoje. propõe então uma releitura da visão sociológica sobre a presença do negro no Brasil. no final da Década de 1950. solapou as suas bases em diversos níveis econômico. tal posição de sujeitos da história nos 37 fora negada pelo fato de aqueles que a contam estarem subordinados a outros interesses. presas a um passado “já superado” com o advento da abolição. passivo e dócil -. partindo de algumas premissas fundamentais para entende-la. quando as reivindicações oriundas da população negra são taxadas enquanto vitimistas. p. 3. Nesse sentido. 53 .1. Movimento de mudança social provocado. Todavia. ele foi uma força de desgaste significativa ao sistema escravista.2. 3. o qual é sintetizado pelo Professor Kabengele Munanga. Quilombagem e grupos diferenciados e específicos enquanto ressignificação da resistência negra Clóvis Moura. um dos primeiros passos para a releitura não racista da história seria compreender de modo aprofundado o que teriam sido as organizações em torno dos 37 A utilização do pronome “nos” justifica-se pela auto identificação do autor enquanto pertencente ao povo negro. Desse modo.2. Com efeito. a primeira.

um grupo diferenciado constituiria “(. “formada pelos escravizados incapazes de assimilar a cultura ocidental europeia”. p. eles teriam se manifestado por todo o território nacional. Esses grupos seriam representados por quilombos – conforme dito – mas também. culturais e etc. em especial. mores e representações dos estratos superiores dessa sociedade” (Ibidem. 116-117). eles não representavam apenas uma recriação mítica da África. a partir daí. com este termo. do ponto de vista interno do grupo. Dentre esses grupos. 1973. estamos encarando a mesma realidade em outro nível de abordagem e em outra fase de desenvolvimento ideológico. os quilombos teriam representado um elemento central para o desgaste do modo de produção escravista.2. mas sim uma profunda organização política. de aceitação ou rejeição.. econômica. Dessa maneira. 54 . através de padrões. durante o regime escravista. (MOURA. caixas de alforrias.quilombos. sendo um elemento comum na sociedade colonial e temível por todos aqueles beneficiados direta ou indiretamente pela escravidão. Em outras palavras: o grupo diferenciado tem as suas diferenças aquilatadas pelos valores da sociedade de classes. 1988. importante na compreensão da forma como a resistência negra se manifestou no sistema escravista. diferentemente do que é apresentado na historiografia tradicional.2. servindo de referência à rudimentar sociedade colonial. irmandades religiosas. por uma determinada marca. p. 3. Com uma infinidade de outros exemplos. ocupando uma área de mais de 230 km de extensão (Cf. dentre diversos fatores. Procuramos. festas de reis do Congo. designar. p. sociais. por clubes conspirativos. enquanto o mesmo grupo passa a ser específico na medida em que ele próprio sente esta diferença e. FREITAS. ao longo da história. 40). é visto pela sociedade competitiva dentro de uma ótica especial. 1988. de resistência armada (militares). cantos. religiosos. durante a escravidão. candomblés. Para o autor piauiense. seria relativa aos grupos diferenciados e específicos. ao longo de 100 anos. grupos de capoeira e outros tantos. 116).1. os padrões de comportamento que são criados a partir do momento em que os seus membros se sentem considerados e avariados através da sua marca pela sociedade. musicais. ou mecanismos de integração na sociedade. Assim. os ataques sistemáticos do Estado Colonial. podemos ilustrar o sucesso organizativo dos Quilombos no fato de a República de Palmares ter.) um grupo que. grupos de lazer. Grupos diferenciados e específicos Uma segunda conceituação. Com efeito. a população negra teria desenvolvido uma diversidade considerável de grupos específicos como forma de resistir e demarcar sua presença enquanto sujeitos sociais.. cultural e militar. podemos citar. Dessa maneira. Em contrapartida. de valores. Quando nos referimos a grupos específicos. procura criar mecanismos de defesa capazes de conservá-lo específico. econômicos. resistido e vencido. batuques.

1. como a Frente Negra. Em uma sociedade de modelo capitalista (e de capitalismo dependente como a brasileira) onde o processo de peneiramento social está se agravando por uma competição cada vez mais intensa. o negro somente poderá sobreviver social e culturalmente sem se marginalizar totalmente. 227 et. o desgaste teria se dado em três âmbitos centrais. grupos teatrais ou políticos. 112-113). escolas de samba. Segundo divisão metodológico de Moura. (Ibidem. como já aconteceu em outras sociedades que possuem o modelo capitalista muito mais desenvolvido do que a nossa. especialmente em São Paulo. (i) o desgaste econômico. p. pajelancas. p. 120) 3. Protagonismo negro e desgastes do modo de produção escravista Por fim. o desgaste causado durante a vigência do escravismo. Com efeito. Por este motivo. para defender a sua condição humana. Devemos salientar. centros de religiões afro-brasileiras ou populares. como grupos específicos. os grupos específicos surgem enquanto necessidade de se preservar e resistir à estrutura social racista. xangôs. Sobre o prolongamento da contínua resistência negra ainda pós abolição. p. centros de umbanda/quimbanda. de modo sucinto. colaborando assim para sua desagregação. também.2. (Ibidem. (ii) o desgaste político e (iii) o desgaste psicológico (Cf. alguns exemplos da continuidade desses grupos teriam sido: (. Nesse sentido. Numa sociedade em que os elementos detentores do poder se julgam brancos e defendem um processo de branqueamento progressivo e ilusório. associações recreativas. 1988. justifica-se pelo fato de a população negra continuar a ser diferenciada pelo polo de poder branco. como candomblés. Seq). terreiros de macumba.) confrarias religiosas.3. os diversos órgãos de imprensa negra que tiveram papel relevante no sentido de difundir o ethos desses grupos. MOURA. quais sejam. os mores e valores das culturas africanas para se defenderem e se resguardarem do sistema compressor que tenta colocá-los nos seus últimos estratos. culturais e esportivas.Importante destacar que esse processo organizacional contínuo prolongou-se após a Abolição. a sua indumentária. em decorrência da perpetuação do antagonismo na estrutura social entre os negros marginalizados e brancos detentores de privilégios antigos. o negro somente se sente específico porque é diferenciado inicialmente pelas classes e grupos sociais brancos. agrupando-se como fez durante o tempo em que existiu a escravidão.. 55 . os grupos organizacionais negros que existem procuram conservar os seus valores e insistem em manter o seu ritual religioso afro-brasileiro. apresentamos. como forma de evidenciar a grande influência dos polos de resistência negra ao longo da história da formação social do Brasil. já com um nível de organização e grau de ideologização capazes de levá-los a participar de movimentos mais globalizadores. fato que o leva a procurar organizar-se e elaborar uma subideologia capaz de manter a consciência e a coerção grupai em vários níveis..

concentrado na população de calhambolas espalhados por esses brasis. Assim o quilombo de Campo Grande. e outros que aglutinavam dezenas. 1988.Assim. o mesmo raciocínio se verificou. com seus 2 000 calhambolas representava uma imobilização de capital da ordem de trezentos contos de réis (300:000$000). Sem contar a desvalorização no mercado do valor do rebelde. por 150$000 a "cabeça". grosso modo. recompensas a informantes etc. a quilombagem despertou na classe senhorial o receio permanente e agudo da propagação da rebeldia. p. Isto porque os negros davam demonstração na prática política (descartamos o conceito de movimentos pré-políticos) de que havia a possibilidade de uma solução alternativa possível mesmo no sistema escravista: a formação de unidades independentes nas quais o trabalho escravo não era praticado. Em idêntica ordem de raciocínio. grande perda econômica. em especial. ainda. a rebeldia negra manifestada na evasão simbolizava um negócio que oferecia grandes riscos no investimento dos senhores proprietários e. Sabia se que ali havia uma organização política que ordenava a sua economia de modo comunitário. Calculando o preço unitário de cada escravo. no Pará. conclui-se que só aquele quilombo representou acúmulo de capital inoperante da ordem de seis mil contos de réis (6. quando menos.228). os africanos eram vendidos. ao surgirem. Isso porque. pagamento a capitães-do-mato. e considerada a informação de que apenasmente nos Palmares concentravam-se em torno de 60 000 fugitivos. centenas. cabe a análise de José Alípio Goulart. Durante a existência do Quilombo do Ambrósio. ainda. abordando aspectos do desgaste econômico: Negros fugidos contavam-se aos milhares. Representando cada cabeça determinado valor monetário. pois ali. vezes até milhares de componentes (GOULART. Aquele quilombo. em Mato Grosso. correspondia a um patrimônio em si subtraído do senhor. Segundo se afirma havia "um 56 . somando-se o valor não produzido pelo tempo em que permanecia evadido (em muitos casos. da insubmissão. tomando por base o processo de quilombagem na análise econômica. valor corrente durante largo espaço de tempo. O exemplo de Palmares e a sua organização política sempre era visto com apreensão pelas autoridades coloniais e imperiais. região financeiramente pobre e onde por tal razão a incidência de escravos negros foi relativamente pequena. torna-se possível aquilatar o volumoso capital improdutivo. uma alternativa possível ao modo de produção escravista. eventuais despesas com a tentativa de captura. em 100$000. tínhamos que a ousadia da fuga do escravizado representava um ataque direto ao patrimônio do proprietário. no que tange à quilombagem. a principal questão incidia no fato de que as organizações negras. o resto de sua vida) e. da violência dos quilombolas das fazendas ou dos insurretos urbanos. Com relação ao desgaste político. Sobre isso: No particular do desgaste político. cada homem ou mulher escravizada que praticava tal ação de liberdade. Com isso. verdadeira fábula em dinheiro naquela época. muitos milhares. em Minas Gerais. apud MOURA. demonstravam na prática política. cita-se o quilombo de Trombetas.000:0005000). Nesse ponto. fossem aquilombados ou ribeirinhos.

ainda. Os negros eram divididos em grupos. assume proporções de um ato de resistência que não teve similar na América Latina. a centralidade que se dava para a destruição de Palmares e outras organizações quilombolas. Diferentemente do que a historiografia subordinada tentou distorcer – por meio do mito do bom senhor e da escravidão benigna vista na suposta harmonia entre brancos e negros – o medo da insurgência escrava era constante. Assim. mas em toda a região. Desse modo. Ou seja. a 57 . Sobre isso: Pelo contrário. (MOURA. com a República de Palmares. a síndrome do medo domina profundamente a classe senhorial e condiciona o seu comportamento. 1988). 239). (Ibidem. em pleno século XVII. superando o modo de produção escravista e a hegemonia brancoeuropeia. somada na grande variedade de grupos específicos negros e. p. evidenciava a preocupação de que essas alternativas . o “perigo de São Domingos”. A luta dos escravos da Serra da Barriga foi o centro de preocupações da Metrópole e dos senhores de engenhos não apenas na Capitania de Pernambuco à qual pertencia o território emancipado.modelo de organização e disciplina. Assim. falava-se em um desgaste sociopsicológico denominado síndrome do medo. a estrutura do Estado e as relações interpessoais na sociedade (MOURA. Palmares converge. chocando-se diretamente com o latifúndio escravista tipo plantation da Colônia. Além da histórica revolta da República de São Domingos. repetidamente mencionado na época. a República de Palmares possuía uma grande produção de excedentes de alimentos.223 e 224) Tal síndrome social possuía bases materiais bem concretas. moldando as leis. mesmo assim. quer dos senhores e do seu aparelho repressivo. Um estado de pânico permanente. efeito dessa profunda organização do trabalho.exageradamente a frente da organização social da Colônia . No Nordeste.transcendessem. para si as atenções da Metrópole. a multiplicidade de organizações quilombolas por toda sociedade escravista. p. mas. o desgaste psicológico era o mais evidente na vida social. de trabalho comunitário". tínhamos no Brasil um quadro demográfico desproporcional entre a população negra e branca. oferecendo níveis de produtividade muito mais dinâmicos e de distribuição comunitária que era a própria antítese da apropriação monopolista dos senhores de engenho (MOURA. ou setores "todos trabalhando de acordo com a sua capacidade". Por fim. essa síndrome se aguça e permanece durante quase um século. A possível revolta dos escravos estava sempre em primeiro plano quer das autoridades. p. 170). 1988. 1988.

por muitas vezes. e os seus desdobramentos posteriores na região nordestina que se prolongam até o século XIX. Por diferentes meios. observamos então que a população negra sempre esteve organizada. como podemos ver. Pelo contrário. no qual relacionaremos as diversas formas de resistência e desgaste no pós abolição. Há. também se expressou enquanto uma constante no pós abolição até os dias atuais. a quilombagem e os grupos específicos ofereceram uma constante na resistência ao modo de produção escravista e aos interesses da classe senhorial branca. na proporção em que houve exploração e opressão da sociedade branca. Portanto. mas sempre constantes. Dessa maneira. (Ibidem. salienta que: O negro brasileiro foi sempre um grande organizador. Durante o período no qual perdurou o regime escravista. radical.menor faísca poderia fazer com que aqui se tomasse os rumos revolucionários da ilha da América Central. afastado da idealização de sua docilidade e passividade. uma correspondência entre o nível de exploração e a incidência dessas revoltas. os entraves oferecidos para sua incorporação foram uma constante. frágeis e um tanto desarticuladas. servindo de grande suporte para a abolição em 1. Do seu histórico organizativo e forma de luta em São Paulo Conforme constatamos anteriormente. evidenciando o negro enquanto ser social consciente e rebelde. de confrarias religiosas. A organização de quilombos. houve a resposta combativa e. oferecendo. o pique de revoltas.888. a que já nos referimos. Nesse sentido. quando se chega ao auge da exploração aurífera e diamantífera o quilombo do Ambrósio e inúmeros mais perturbam e desgastam a harmonia social e económica da região. e. na sociedade de trabalho assalariado.888. há. dos 58 . atual Haiti.2. após a falsa abolição em 1. frente ao quadro falacioso de eugenia e democracia racial. posteriormente. um gradiente de conscientização próprio e mutável a depender da conjuntura. quando se iniciou – após a Abolição – o seu processo de marginalização. 225) Esse raciocínio será importante para compreensão do item seguinte. 3. também. a organização negra. realizando um recorte na abordagem para o Estado de São Paulo. ele se manteve organizado. Na fase colonial temos Palmares. Clóvis Moura em Brasil: Raízes do Protesto Negro. p. o oferecimento de condições mínimas para a integração do negro na sociedade de capitalismo dependente não foi estruturado. irmandades. moderna e eugênica. com organizações intermitentes. Em Minas Gerais. conforme o grupo ou organização. Dessa forma. Podemos constatar que onde há o pique do escravismo na sua primeira fase.

p. p. Clóvis.reivindicatória ou cultural (DOMINGUES.cantos. 2007. Imprensa Negra Com o factual abandono da população negra após a Lei Áurea e a permanência do racismo. o Centro Cultural Henrique Dias (1908). 58 41 Ibidem. Entretanto. 47). Para isso. pós 1. 72 43 Doutor em História pela Universidade de São Paulo. Professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). 59 . terreiros de xangô e mesmo umbanda. independente da face preponderante . (MOURA.1. p. 102)43. são exemplos significativos. na Bahia. p. mais recentemente. p. conforme vimos no significado dos grupos específicos.2. muitas vezes incorporando faces fundamentalmente ligadas à praticas culturais de matriz africana. 1983. 59 42 Ibidem. como o Club 13 de Maio dos Homens Pretos (1902). Brasil: Raízes do Protesto Negro. a Sociedade Propugnadora 13 de Maio (1906). apresentaremos aqui um breve panorama da organização negra em São Paulo. . em 1931 39. 3. São Paulo: Global Ed. 1983. p. com o objetivo de .888. foram a Imprensa Negra38. As Escolas de Samba41 e o próprio Movimento Negro Unificado42. a 38 MOURA. Outros exemplos significativos e centrais para a organização da população negra no pós abolição que podem ser citados. 52. A Frente Negra Brasileira. p. se organizando e resistindo das formas possíveis. o Centro Literário dos Homens de Cor (1903). o negro continuou a praticar o seu “espírito associativo”. de grupos religiosos afro-brasileiros como o candomblé. em 1954. 39 Ibidem. 56 40 Ibidem. em especial no Estado de São Paulo. em 1978. Dessa maneira. Cabe pontuar neste primeiro momento que essas formas de organizações nem sempre se assumiram enquanto movimentos estritamente reivindicatórios.a partir do dimensionamento histórico de sua atuação compreendermos o momento atual de articulação da rebeldia negra paulista. A Associação Cultural do Negro40. foram criados diversos grupos negros em São Paulo. pontua Petrônio Domingues (2007) que sempre tiveram o caráter geral de movimento político de mobilização negra.

também destaca a grande diversidade de agrupamentos negros com caráter religioso atuantes nessa época. um de seus fundadores. sob a direção de José Correia Leite e Jayme Aguiar. calcula-se o surgimento de mais de 123 grupos com esse caráter. contabiliza-se a existência de. apud MOURA. 54). Moura (1983). 103). Um dos principais jornais desse período foi o Clarim da Alvorada. conforme Moura (1983. no período entre 1907 e 1937. datada de 1711 e edificada em novo templo ainda em 1905 (Cf.. o primeiro desses jornais foi A Pátria. Esses órgãos. por consequência. como foi o caso da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Sã Paulo. de 1899. em 1918. em 1920. em geral – tinham a finalidade de integrar o negro associativamente (AMARAL.Sociedade União Cívica dos Homens de Cor (1915). p. porque o negro tinha a sua comunidade: uma série de comunidades recreativas e sociedades culturais. 106). a imprensa branca não ia cuidar de dar informações sobre as atividades que essa comunidade tinha. em 1903. O Alfinete. em 1923. Dado o grande desenvolvimento da difusão da imprensa negra. MOURA. A Liberdade. p. 52). Como é natural. O Menelick. 56). p. alguns jornais avançaram no gradiente de conscientização envolvendo a desigualdade racial. caracterizado pelos escassos recursos financeiros – a base do que dispunha seus fundadores e de parte da comunidade negra.) em São Paulo. pelo menos. 1983. a Associação Protetora dos Brasileiros Pretos (1917). José Corrêa Leite. clubes ou associações (Ibid. p.. 1983. em 1915. Assim. muitos comunitariamente dentro se São Paulo. O Bandeirante. Com efeito. conquistando grande influência no pensamento da população negra nesse período. Segundo Pinto (1993. No município de Campinas. Por isto. p. tendo como subtítulo Orgão dos Homens de Cor. Todos com caráter associativo manifestado em grêmios.. 84). É em meio a essas circunstâncias que no início do Século XX começa o surto da imprensa negra independente em São Paulo. tinha necessidade de ter um veículo de informação dos acontecimentos sociais que tinham na comunidade. em 1918. (. 60 . Outros títulos também foram publicados nessa cidade: O Combate. entre outros. e O Getulino. 1983. (LEITE apud MOURA. 31 desses jornais circulando em São Paulo”. em 1918. Daí surgiu a imprensa negra. p. p. lançado em 1924. O Baluarte. 5152). ao se proporem a buscar soluções para os problemas comuns da comunidade negra e. em 1912. assumindo conotações de reivindicação racial. os jornais negros começam a se difundir. em depoimento a respeito do surgimento da imprensa negra diz que: A comunidade negra em São Paulo vivia – como uma minoria que era – com as entidades e seus clubes. Segundo o levantamento de Domingues (2007. e A Sentinela. em São Paulo. Até 1930.

34). Francisco Lucrécio.. grupo musical e teatral. 1989. p. nós íamos para a redação para protestar. desempenhando atuação central no combate ao racismo fortemente impregnado na sociedade brasileira da década de 1930. nas cidades de Ribeirão Preto. Pernambuco. além de oferecer serviço médico e odontológico. Espírito Santo. possuindo mais de 100 mil sócios (Andrea Matarazzo. op.888. a Frente ganhou proporções nacionais.. qualquer matéria tendenciosa de algum jornal. Sorocaba. Tendo em vista a crescente marginalização da população negra nos anos subsequentes a 1. 1998. a Frente Negra Brasileira cumpriu um papel articulador central em diversas medidas voltadas para beneficiar a população negra. p. enquanto expressão de um salto qualitativo no Movimento Negro pós abolição.106). Desenvolveu expressivo nível de organização para atingir esse fim. apud BARBOSA. articula se a Frente Negra Brasileira.2. 1998. cursos de formação política. apud BARBOSA. foi reconhecida por diversas instituições. “mantendo escola. uma linha de frente. cit. sem contar suas sedes nos interiores de alguns Estados. “a organização que maior influência teve no comportamento da comunidade.. na cidade de São Paulo. não apenas em São Paulo. mas em várias partes do Brasil”. time de futebol. inclusive em certos ramos do mercado de trabalho que chegavam a exigir a 61 . 3. p. Segundo ele. assim como publicar um jornal.2. Tiête e Birigui (BARBOSA. Rio Grande do Sul (DOMINGUES. Qualquer discriminação. 106). Bahia. abrindo “filiais” em diversos Estados como Rio de Janeiro. Tinha uma comissão da Frente Negra. departamento jurídico. Tinha bons oradores (. integrante histórico frentenegrino afirma que o papel da FNB ia muito além da inclusão do negro no mercado de trabalho. 2007. como o de São Paulo. Frente Negra Brasileira A Frente Negra Brasileira surgiu em 1931. 41). (LUCRÉCIO.obterem uma ofensiva ideológica do negro em São Paulo. Com essa crescente. p. p. 54) Com essa ampla atuação. Campinas. de artes e ofícios. Desse modo. a Frente se expressou enquanto meio para incorporar o negro na sociedade que seus antepassados construíram sob o regime desumano de escravização. Minas Gerais.). o A Voz da Raça” (DOMINGUES.

. com o advento do Estado Novo. porque só dessa maneira poderíamos conseguir um pedaço de chão ou a nossa identidade como brasileiros. Lucrécio afirma a importância de se identificarem enquanto brasileiros credores de uma dívida histórica da sociedade. por brancos que tratavam a questão racial de modo demagógico. Em tal expansão. Tinha uma história dos negros que vieram para cá que. reivindicando que a reparação fosse realizada aqui no Brasil. expande ainda mais seus âmbitos de atuação. segundo relatado por Lucrécio (Ibid. ela teve as suas portas fechadas. fazendo da Frente Negra também um partido político. 61-62). nos posicionávamos como nacionalistas. o qual até então era composto. vale a citação integral do trecho sobre: O referencial de luta para o negro no Brasil é a Guerra do Paraguai. nota-se uma preocupação central de buscar a representatividade da população negra no sistema político.“carteirinha” de sócio da frente negra para a contratação. Então. Ou seja. majoritariamente. todos esses movimentos são nossa referência.936. p. 62 . negros (Ibid. os interesses da população negra. onde há um acendimento na luta de classes. com organizações sindicais. 48). 40-41). a Revolta de João Candido. deixando um imenso legado para as organizações negras futuras (Andrea Matarazzo apud BARBOSA. e a referência dessas lutas não era a volta à África. sendo protagonizado diretamente por nós. Zumbi. nós achávamos que teríamos de dar sequência à essas lutas. assumir liderança do negro no Brasil. devemos nos atentar à algumas considerações a respeito da organização negra paulistana no período entre a implantação do Estado Novo (1937) até o fim da Década de 70. era para assumir o poder no Brasil.. radicais às vezes. A respeito da linha política seguida pela frente. de fato. 35). naturalmente. em 1937. movimentos sociais e estudantil. Assim. a Revolta dos Malês.. p. se colocavam como nacionalistas. Sobre isso. em 1. Com efeito. Apesar da imensurável força política conquistada.3. país construído pelo povo negro. 3. p. não iríamos perder (Ibid. Ou seja. A FNB configurou-se enquanto importante organização da rebeldia negra para a conquista de direitos e avanços no combate ao racismo. assim como os demais partidos políticos. a grande questão era visibilizar um partido que representasse. Década de 70 Antes de adentrarmos no tema envolvendo Movimento Negro em São Paulo na Década de 70.2.

conforme Domingues (2007).. 1983. 59). Observando a importância do caráter organizativo por trás desses grupos majoritariamente culturais. Ainda. Durante o ato. tais como (i) a morte do trabalhador negro Robson Silveira da Luz.) essas escolas não se esgotam na preparação para o desfile carnavalesco. originada em Porto Alegre e difundida em mais de dez Estados da federação. se resguardando assim dos desafios da sociedade racista em que ainda não tinha o seu lugar. além de bailes.. destaca a grande difusão associativa do negro em agrupamentos ligados às escolas de samba. quimbanda e candomblé. por um policial no Bairro da Lapa (Ibid. ocorridos no mês de maio. Durante o ano elas são pontos de reuniões dos negros que. (ii) expulsão de quatro atletas negras do Clube Regata Tiête e. reunindo mais de três mil negros. 73). O Ato em si foi influenciado por alguns fatos racistas da conjuntura interna da cidade de São Paulo. 1983. Com efeito. ao analisar o movimento negro paulista nesse período. Nesse dia foi convocado Ato Público. como o caso da capital paulista. houve de fato um arrefecimento do protesto negro articulado. Outro que atingiu destaque na capital seria a Associação Cultural do Negro. Dentre eles. estavam Milton Barbosa. vão ativar o seu espírito associativo e avivar a sua consciência étnica (MOURA. 63 . em São Paulo. Eduardo Oliveira e Abdias do Nascimento (Ibid. Desse modo. foi a partir do dia 18 de junho de 1978 que uma variedade de organizações negras passaram a se consolidar em torno do surgimento do Movimento Negro Unificado. p.Portanto. (. p. Dentre os oradores. destacamos aqui que sua rebeldia não deixou de ser organizada em uma variedade de outros agrupamentos. o autor concluí sobre as Escolas de Samba que (. fundada em 1954.. mais de três mil negros pararam nas escadarias do Teatro Municipal para ouvir os oradores que falavam a respeito da discriminação racial. das preterições nos empregos e.). à umbanda. podemos citar a União dos Homens de Cor. principalmente sobre a recorrente violência policial. 60). (iii) o assassinato do negro operário Nilson Lourenço. no período pós Estado novo houveram ainda o ressurgimento de alguns grupos negros. p.. Clóvis Moura. por exemplo. apesar de não atingirem a expressividade do período anterior. 72).. com “objetivos mais assistências e filantrópicos do que ideológicos” (Moura. Clóvis Moura. adentrado no período militar. após torturas executadas por policiais em uma delegacia de Guaianases. todavia. em sua obra Raízes do Protesto negro (1983). p.

o MNU ainda desempenha papel expressivo junto à outras formas de organizações negras que trataremos em breve neste trabalho. entre outros motivos. o que vemos em geral. A tônica era contestar a ordem social vigente e. Segundo Domingues. a partir da década de 1990. O objetivo era fortalecer o poder político do movimento negro. cinco dias após o ato. 3. Importante constatar também que o seu surgimento dialoga com símbolos da resistência negra norte americana da década de 1970. Com efeito. popular e dinâmica – como o surgimento do Movimento Negro Unificado e seu programa político – foram consolidadas a partir da Década de 1970. Como exemplo. Na atual conjuntura. nessa fase do Movimento Negro. desferir a denúncia pública do problema do racismo. influenciando de maneira contundente o Movimento Negro Contemporâneo. Pela primeira vez na história. Nesta nova fase. 114-115) Ou seja. é que as bases colocadas para a disputa teórica – com as produções como de Florestan Fernandes e Clóvis Moura – e as bases colocadas para a disputa prática. 2007. porque. como sua Carta de Princípios e Programa de Ação e Estatutos.Dessa maneira. devendo o seu combate estar associado também à disputa da ordem social vigente. a estratégia que prevaleceu no movimento foi a de combinar a luta do negro com a de todos os oprimidos da sociedade. Dessa maneira.3. as críticas radicais de Malcom X e. na qual foram elaborados documentos norteadores da atuação do MNU. temos a Década de 1970 enquanto importante marco na disputa em torno da questão racial. ainda a referência de organização negra marxista representada nos Panteras Negras (Ibid. na atual conjuntura. p. p. muitas das conquistas percebidas nos últimos quinze anos são reflexas de consolidações elaboradas nesse período histórico. 112). o movimento negro apregoava como uma de suas palavras de ordem a consigna: “negro no poder!”. p. tínhamos a luta pelos Direitos Civis encampada por Martin Luther King. em uma rápida análise da relação entre o posicionamento do Estado e conquistas do Movimento Negro.4. O Movimento Negro Contemporâneo Conforme o Capítulo 1 e no item anterior do presente trabalho. tal organização se prolongou até os dias atuais. em 23 de julho realizou-se a primeira Assembleia Nacional. desenvolveu-se a proposta de unificar a luta de todos os grupos e organizações anti-racistas em escala nacional. simultaneamente. Com efeito. constatou-se o forte elo entre à crítica ao racismo enquanto elemento estruturante do modo de produção capitalista. temos que. (DOMINGUES. Destaca-se também que. Guimarães (2006. O nascimento do MNU significou um marco na história do protesto negro do país. com o governo Collor e os governos do Partido da Social Democracia Brasileira 64 . 278) avalia que.

é aprovada a Lei 10. Também. cabe o destaque para os poucos – porém importantes. tal obrigatoriedade.planalto. Com efeito. que conforme analisamos. a partir do momento em que respeita e fortalece a autonomia dessas organizações (GUIMARÃES. nesse período. p.associada a pauta da necessidade do revisionismo histórico relativo ao papel incumbido ao negro no Brasil .cartacapital. a qual institui a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial da Rede de Ensino. diminuindo-se o papel do Estado na promoção de políticas públicas.br/CCivil_03/leis/2003/L10.htm > Acesso em 26/06/2015. Disponível em: < http://www. criada durante esse período. em especial.gov.639 de janeiro de 200345. é a população mais atingida historicamente nesse âmbito (Ibidem). na educação . houve a implantação de políticas neoliberais. elas dedicaram atuação em diversas áreas. previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 2006. Dado a falta da presença do Estado na garantia de determinados direitos básicos. 278). 45 Conteúdo integral da Lei disponível em: < http://www. como na saúde. resultando assim na culminação do tipo de Estado mínimo previsto para o neoliberalismo44.muitas sob um viés assistencialista.gov.br/blogs/speriferia/dez-anos-da-lei-que-obriga-o-ensino-da-historia-e-cultura-afro-eafro-brasileira-nas-escolas-e-tema-do-evento-afrobrasilidade-cultura-e-educacao-na-urbanidade-7681. sob o mesmo recorte. fruto da articulação prevista na década de 1970 .(PSDB). 46 44 Constatamos tal relação a partir da constituição e atuação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). nas moradias.portaldaigualdade. tem enfrentado barreiras para ser incorporado de fato. Nesse sentido.br/ >(Acesso em 27/06/2015). característico também desse período. passados mais de 10. 46 Todavia. No período de governo do Partido dos Trabalhadores (PT). defende o avanço político na questão racial.avanços na área da educação para a população negra. constatamos a proliferação de um grande número de ONG’s.html fazer a crítica que ela ainda encontra desafios para ser implantada. incentivadas financeiramente pelo Estado. Entretanto.639. http://www. Guimarães afirma que o PT procura absorver grande parte das reivindicações dos movimentos sociais a partir de suas incorporações no aparelho estatal. 65 .com. as voltadas para a população negra.

Acesso em 26/06/15.gov. cabe o destaque da centralidade que o Movimento Negro paulista tem dado na histórica denúncia contra a violência policial. traduzida na reivindicação de acabar com o Genocídio do Povo Negro.pdf >. conforme aprofundaremos no Capítulo 3. o Governo Federal vêm tentando responder a partir de programas como o Juventude Viva 50. a qual atingiu novo “recorde” de homicídios no primeiro trimestre de 201551. constata-se na política empregada pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo.html> .48 Tal pauta . em resposta a esse quadro denunciado à anos.gov. Ou ainda.ipea. organizado atualmente por mulheres que tiveram seus filhos assassinados pela Polícia Militar em regiões periféricas de cidades do Estado. proposto para a sociedade civil em 2014.Acesso 27/06/2015.sem adentrarmos nas questões envolvendo as políticas de extermínio do povo negro desde o período de vigência das ideias eugênicas – é justificada na atualidade a partir do fato de a cada três assassinatos ocorridos. 47 Conteúdo e esclarecimentos sobre a Lei disponível em: <http://portal.7 vezes maior quando em comparação com um adolescente branco (PRVL. dois serem de negros (Waiselfisz.br/cotas/perguntasfrequentes.br/participacao/images/pdfs/livro%20bapi_4_web. Por fim.mec. denominado Segurança Pública e Racismo Institucional.49 Dessa forma.br/articles/participatorio/0009/4790/Guia_Plano_JuvViva_Final. 2010). por exemplo. Acesso em 26/06/2015.gov. que se propõe a desenvolver um plano de prevenção à violência contra a juventude negra. 49 Os dados constam no estudo realizado pelo IPEA. pauta histórica do Movimento Negro. desempenham importante papel o Movimento Mães de Maio. no cálculo sobre a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio resultar em 3. que o programa possuí uma série de desafios dentro da própria institucionalidade para ter efetividade. 50 Informações completas sobre o programa estão disponíveis <http://juventude. publicado em 2013. em: em: 66 . destaca-se no âmbito da educação a aprovação da Lei de Cotas Raciais 12. 48 Em São Paulo.pdf >. Outra organização nesse sentido que se posiciona na atual conjuntura é o Comitê Contra o Genocídio do Povo Negro.Fruto também dessa associação.711 de agosto de 201247. Contudo. Disponível em: < http://www. realizando sistemáticas denúncias à violência descabida da polícia militarizada do Estado contra a juventude negra e periférica. 2011).

de sua superestrutura política e civil de forma a generalizar e desenvolver os conceitos e estereótipos formados ao longo da vida do negro neste país. da mitologia do bom senhor e de toda a sua escala de simbolização do passado para a democracia racial atual. adentramos também à questão proposta por Clóvis Moura. p. (MOURA. Ainda que não se possa detectar regras específicas contra a população negra ou favorecendo exclusivamente a branca. 41). segundo Dora Lúcia Bertúlio. especialmente. refina-se o aparelho.3. garantindo a continuidade da concentração racial da renda. fica evidenciada a teia de medidas institucionais e a invisibilidade com que a condição de vida do negro é tratada pelas esferas públicas. o Direito se consubstanciaria enquanto instrumental mantenedor dos contínuos privilégios estruturais concentrados nos membros autodeclarados brancos: O que vemos pois é o Direito como assegurador dos privilégios dos detentores do poder político e econômico e como mantenedor dos privilégios raciais dos brancos em nossa sociedade. Acesso em 27/06/2015. 51 Sobre o recorte de homicídios realizados pela Polícia Militar do Estado de São Paulo. Desse modo.com/sao-paulo/noticia/2015/05/letalidade-da-pm-em-sp-e-maior-nos-ultimos-12-anos-no-1trimestre. conforme Florestan Fernandes (1972.52 Assim. O Estado e o Direito brasileiros reproduzem o racismo da sociedade através. 52 Sobre o assunto já trabalhado. desde sua vinda forçada da África até os dias atuais. A realidade sócio econômica brasileira.html>. da mesma forma como não compreenderam as sutilizas do cristianismo. se “reinventaram” ao longo da história. confira em: <http://g1. as religiões afro-brasileiras passam a ser vistas como manifestações do passado escravista ou de grupos marginais que não tiveram condição de compreender o progresso e que. então. no Capítulo 1 analisamos o modo como antigas relações raciais.globo. consolidadas nos três séculos de sociedade escravocrata. p. objetiva-se compreender qual papel o Direito desempenha na contínua contradição racial constatada hoje. 55 e 56) 67 . há uma remanipulação de certos valores secundários no julgamento do ex-escravo e do negro de um modo geral e. em nível de ideologia. Movimento Negro e Direito: uma relação paradoxal? Conforme o desenvolvimento do presente trabalho. 1988. sem a pretensão de esgotar o tema. relativa à produção de um pensamento social brasileiro subordinado aos mesmos agentes. Saímos. p. e alguns registros dela nos Censos estatísticos feitos e orientados pelo mesmo Estado onde a marginalização e discriminação da população negra é constatado. por esta razão. deverão ser apenas toleradas diante da nova realidade social cuja mudança elas não captaram por incapacidade de compreenderem o ritmo do progresso. Com isto.3. no decorrer da história. estabelecida pelas classes dominantes que substituíram a classe senhorial. Com isso. estão a nos provar a orientação racista de todo o sistema estatal brasileiro (BERTULIO. do prestígio social e do poder nos brasileiros autodeclarados brancos. 11). Clóvis Moura: “Na sequência da passagem da escravidão para a mão de obra livre. 1989. nesta parte do trabalho. o aparelho de dominação remanipula as ideologias de controle e as instituições de repressão dando-lhes uma funcionalidade dinâmica e instrumental.

o art. o art. Devemos. 7°. feita logo após a abolição da escravidão e instauração da República. e entre outros. Contudo. por motivo de nascimento. preconizava em seu parágrafo 2° a igualdade entre todos os brasileiros. IV. extingue as ordens honoríficas existentes e todas as suas prerrogativas e regalias. conforme constatamos em seu Preâmbulo. 54 1. que proibiu o preconceito e qualquer outra forma de discriminação.Dessa maneira. que proíbe a diferença de salários e de critério de admissão por motivo de cor. no processo de Assembleia Constituinte após a abertura democrática da década de 1980. bem como os títulos nobiliarchicos e de conselho. A República não admite privilégio de nascimento. apesar do avanço. em 1988 a Constituição Federal promulgada esforçou-se por trazer um rol elevado de dispositivos abordando a importância da igualdade racial. Todos são iguais perante a lei. ainda que de maneira ampla. 4°. de modo similar ao constatado por Clóvis Moura sobre o pensamento social a respeito da questão racial. Entretanto. subordinado à valores racistas impregnados em nossa estrutura social. determinava a igualdade entre todos os indivíduos.5455 Ainda. principalmente pelo Movimento Negro. riqueza. raça. a Constituição de 1934. na qual. em seu artigo 71. Art. profissões próprias ou dos paes. como por exemplo. o art. portanto. a produção do Direito no Brasil estaria subordinada a determinados grupos sociais alocados no topo de nossa pirâmide social. em especial. nem distincções. situada em um contexto de grande influência das ideias eugênicas. que constituiu o repúdio ao preconceito. compreendendo-os enquanto reflexos da disputa política encampada. Resultaria disso o fato de se expressar enquanto um instrumento assegurador de privilégios.53 Da mesma forma. feita após a Revolução Constitucionalista de 1932. 68 . a qual empregava pela primeira vez a palavra raça. 55 Contudo. Incumbe à União. tal constatação seria válida desde a Constituição Federal de 1891. sexo. crenças religiosas ou ideas políticas. 138. a qual afirma a repulsa ao racismo no âmbito das relações internacionais. desconhece foros de nobreza. em seu artigo 138 determinar os órgãos da federação estimular a educação eugênica. devemos lidar com a imensa lacuna ainda existente entre a previsão legal de 53 §2° Todos são iguais perante a lei. Inclusive. era impregnado de ranços racistas. Classe social. XXX. considerar os avanços feitos. Não haverá privilégios. desse mesmo modo que. em seu artigo 113. poder-se-ia afirmar que. nos termos das leis respectivas: b) estimular a educação eugênica. em nosso ornamento jurídico. VIII. não encontramos nenhum dispositivo explicitamente discriminatório no quesito raça/cor. aos Estados e aos Municípios. 3°.

5% parlamentares são negros. ou exercendo assim. a questão racial tem dialogado com o Direito de maneira obliqua.” BRASIL. No mesmo sentido. Art. inculcar cura de moléstias curáveis ou incuráveis. para fascinar e subjugar a credulidade pública. embora o art. substancia de qualquer dos reinos da natureza. No Senado. 58 “Art. Em contrapartida.157. de 11 de Outubro de 1890. o ofício do denominado curandeiro. visto a não manifestação explícita de regras específicas contra a população negra e a previsão de igualdade formal entre brancos e negros que passou a imperar pós abolição. fazendo. Decreto n° 847.folha. 58 Ou ainda. 57 Sobre o tema. 7°. Art. solidificada a partir da Década de 1940 pelo mito da democracia racial. Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem. a magia e seus sortilégios. Ilustração disso é o fato de.igualdade e a igualdade material de fato entre a população branca e não branca brasileira. a partir da análise do perfil do sujeito que representa a população brasileira no Poder Legislativo da União. curandeirismo e espiritismo na promulgação do Código Penal de 1890 (Cf. confira o levantamento realizado pela UOL. ECCLES. tais dados evidenciam a subrepresentação da população negra em instâncias centrais na produção do Direito. constatadas sob a proibição indireta de grupos específicos. XXX. ou simplesmente prescrever. Alguns marcos na legislação que nos mostraram isso ao longo da história foram a manutenção de tipos penais como a capoeiragem.57 Visto a população negra compor pouco mais da metade da população brasileira. e sob qualquer forma preparada. enfim.158. no plano material das relações. proibir a diferença de salários e de critérios de admissão por motivos de cor. onde apenas 20. no 56 Vide Tabela 10 do presente trabalho. constatamos a sub-representação da população negra na Câmara dos Deputados.1% dos 513 Deputados Federais eleitos em 2014 são negros. Praticar o espiritismo. Disponível em: 69 .br/poder/2014/10/1530993-negros-autodeclarados-sao-so-20-dos-513-deputadosfederais-eleitos. a porcentagem de brancos nessa Casa chega a 79. 1991). como meio curativo para uso interno ou externo. Ministrar.shtml>. Desse modo. a população negra ainda receber média salarial equivalente a 57%56 da média recebida pela população branca. Exemplo dessa obliquidade pode ser observado no fato de ainda existirem formas – mesmo que não explícitas .de reprimir a população negra. responsáveis pela organização de sua rebeldia.com. disponívem em: <http://www1. apenas 18. usar de talismans e cartomancias para despertar sentimentos de ódio ou amor.uol.9% dos eleitos. constatando a subordinação legislativa a determinados interesses distantes do povo negro. 402. Acesso em 27/06/2015.

Dessa maneira. o qual perpassa uma discussão aprofundada da filosofia do Direito. cabe também o apontamento de Silva Jr. Ressalta-se ainda que. paulatinamente. segundo Eccles (1991). em seus artigos 240 e 244. cabendo a análise dos significados por trás da proposta atual no Estado de São Paulo. Acesso em 27/06/2015. o campo jurídico pode ser disputado a partir da atuação popular. com a perspectiva de que. (2006).gov. Todavia.Código de Processo Penal em vigor. no Capítulo seguinte será abordada a histórica reivindicação do Movimento Negro a respeito da política de cotas raciais.1. Conclusão Portanto. sendo instrumento fundamental para garantir a perpetuação de privilégios do grupo autodeclarado branco.senado. a exigência da presença de regimes legais segregacionistas para seu funcionamento dado os fins que se prestou.br/legislacao/ListaNormas. no sentido de garantias jurídicas legais. a dinâmica negra tem conquistado posições importantes. em alguma medida. 3. capazes de legitimar e fortalecer sua luta. nesse ponto. 70 . sob esse ponto de vista. <http://legis. Portanto. é preciso considerar que. tal tema é complexo. o qual permite a abordagem policial desde que “fundada suspeita”. nos cabe as ponderações críticas realizadas até agora. a lei jamais teria sido neutra no âmbito das relações raciais.3. dado as bases de nossa sociedade. ao longo de seu desenvolvimento.action? numero=847&tipo_norma=DEC&data=18901011&link>. Com efeito. Por sua vez. isso seria um resultado de um modelo de desigualdade racial sofisticado e engenhoso que não teria. cabendo o questionamento do Movimento Negro de quem possuiria os estereótipos de suspeito. segundo o qual. entendemos o Direito enquanto espaço originalmente construído para atender interesses contrários às reivindicações de movimentos populares como o protagonizado pela população negra. não sendo prioridade no momento desse trabalho.

a qual define o conceito de cotas enquanto espécie do gênero ações afirmativas. a autora propõe uma 71 . Em contrapartida. Nesse sentido. a forma de se concretizar a ação afirmativa seria por meio da implementação da política de cotas (ou o que é chamado também de ‘objetivos’). conforme a corrente que adotarmos. nos cabe realizar algumas definições para a melhor compreensão do tema. haveria uma convergência entre o conceito de cotas raciais e o conceito de ações afirmativas. autores como Sowell (2011). Dessa maneira. Ou seja. podemos ver autoras como Moehlecke (2002). não necessariamente equivalentes.1 As cotas raciais no Brasil: definição Nesse item. Ou seja.Capítulo 4: O Projeto de Lei de Iniciativa Popular e as disputas atuais por Cotas em São Paulo 4. A primeira delas seria relativa aos conceitos de ações afirmativas e a política de cotas. tendem a definir a política de cotas enquanto expressão única de uma ação afirmativa promovida pelo Estado.

aí incluindo-se o Poder Judiciário. conforme Moehlecke. Desse modo. com relação ao posicionamento do presente trabalho. Num esforço de síntese e incorporando as diferentes contribuições.. de origem nacional e de compleição física. as ações afirmativas consistem em: (. concordamos com a segunda corrente. atuante. podemos falar em ação afirmativa como uma ação reparatória/ compensatória e/ou preventiva. durante um período limitado. expomos de modo breve sem nos aprofundarmos no debate.. que ora se apresenta no seu tradicional papel de guardião da integridade do sistema jurídico como um todo. As Cotas Raciais no Brasil: histórico e apontamentos sobre 2012 72 . mas também a discriminação de fundo cultural. de idade. sob a justificativa de que.. p. estrutural. a mais eloqüente manifestação da moderna idéia de Estado promovente. enraizada na sociedade. econômica.) políticas públicas (e também privadas) voltadas à concretização do princípio constitucional da igualdade material e à neutralização dos efeitos da discriminação racial. política e/ou cultural desses grupos. A ênfase em um ou mais desses aspectos dependerá do grupo visado e do contexto histórico e social (MOEHLECKE.interpretação latu sensu do que deveria a ser as ações afirmativas. Gomes. de gênero. 4. em especial. que busca corrigir uma situação de descriminação e desigualdade infringida a certos grupos no passado. eis que de sua concepção. elas visam a combater não somente as manifestações flagrantes de discriminação. presente ou futuro.caso o Estado se comprometa de fato à reparação das desigualdades sociais . 2002. p.) Constituem. 203). Para a presente proposta aqui desenvolvida adotamos a definição de Joaquim B. (. implantação e delimitação jurídica participam todos os órgãos estatais essenciais. por seus entes vinculados e até mesmo por entidades puramente privadas. não deixamos de defender a política pública de cotas enquanto dever central do Estado em adotar ações afirmativas voltadas para tal fim. por assim dizer. porém explicitamos que são possíveis diferentes implicações políticas a depender da interpretação. Por entendermos a importância de ambas as posições. através da valorização social.2.as ações afirmativas deverão contemplar uma série de medidas que vão muito além da reserva de vagas em universidades e concursos públicos. 06-07). ora como instituição formuladora de políticas tendentes a corrigir as distorções provocadas pela discriminação (2001. a qual se aproxima da interpretação sob um enfoque mais latu sensu. No entanto. Impostas ou sugeridas pelo Estado. enxergadas sob um ponto de vista mais amplo que a política pública de cotas raciais. Para ele. na atual conjuntura .. no Estado de São Paulo.

dado a conjuntura de tensão social e reivindicação de direitos civis. Desse momento em diante. o surgimento da Marcha Zumbi Contra o Racismo. a qual exerceu grande pressão no poder público. havia a reserva de 20% de vagas para mulheres negras e 20% para homens negros na seleção de candidatos para o serviço público. Segundo Octávio Ianni (2004). n°. procurou-se garantir a população negra mais espaços nos meios de comunicação. p. entre outras medidas. cor. Dentre as ações. Galvão (2009). 1.militante histórico da causa e orador do Ato de 1. no plano nacional para. bolsa de estudos.332. situarmos o Estado de São Paulo frente à essa conjuntura.Dado tal discussão. passemos agora ao histórico das ações afirmativas no plano internacional e. consequentemente. influenciou o que autores como Carlos Hasenbalg (1984. no tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares (1995). a lei não foi aprovada.E. havendo um maior enfoque sob a pauta nas reivindicações do Movimento Negro ao longo do território nacional. Com efeito. 73 . muitas foram as propostas elaboradas no sentido da implementação de ações afirmativas. credo ou origem nacional no mercado de trabalho. nos anos 80. teríamos a primeira formulação de um projeto de lei relacionado às ações afirmativas. incorporação da imagem da família negra ao sistema de ensino e literatura didática. resultando na política de cotas. Todavia. cujo texto determinava a adoção de uma ação estatal para assegurar que os candidatos a empregos e trabalhadores não sofressem nenhuma distinção relativa à raça. elaborada pelo Presidente Kennedy. propôs o projeto de Lei n. com a elaboração e entrega do Programa de Superação do Racismo e da Desigualdade. de 1982. Como vimos no Capítulo anterior.E’s editadas em 1968 e 1970 que as ações afirmativas passam a envolver conceitos numéricos. segundo Sabrina Moehlecke (2002. reflexo desse momento. em trabalho relata que a “certidão de nascimento” das ações afirmativas seria a Ordem Executiva O. no transporte coletivo e nas escolas por meio da adoção de ações afirmativas. Segundo o mesmo trabalho. Destaca-se por exemplo. p. é a partir de O. dado o seu passado histórico. Nesse período.925. no item seguinte. 204). o marco para a reivindicação no Brasil seria os Estados Unidos da década de 1960. toda a conjuntura da Década de 60 e 70 nos Estados Unidos. no qual havia a previsão de “ações compensatórias” para os afro-brasileiros.978 que marca a fundação do Movimento Negro Unificado -. 10. 148-149) chamaram de “renascimento” do Movimento Negro brasileiro. Abdias do Nascimento . então deputado federal. pela Cidadania e a Vida.

Nesse ponto. um total de quatrocentas e cinquenta e oito materiais foram publicadas. na qual era marcada pela “3ª Conferência Mundial contra o Racismo das Nações Unidas – CMR. Dessa forma. com destaque para a política de cotas raciais (Cf. Todavia. Contudo. 2004a. Em consequência disso. sendo poucas as implementadas. em 1995. A autoria foi do então deputado do estado. fato esse atribuído à habilidade política e influência do referido deputado na ALERJ. Nesse sentido. 102). após seminários em Salvador e Vitória. sendo que 39% das mesmas abordaram o tema a respeito de ações afirmativas. também atribuí o papel central do movimento para a aprovação de tal medida a partir do desenvolvimento histórico e recorrente de amplo debate em torno da política de cotas raciais. houve um destaque relacionado a conjuntura da época. segundo Galvão (2009. indica que a articulação de ONG’s de Mulheres Negras Brasileiras responsabilizou-se por desenvolver e administrar pesquisas a respeito da cobertura jornalista envolvendo a Conferência. 205-206). PERIA. onde poderíamos ressaltar a “capilarização de militantes do movimento negro em diversas entidades e instâncias de atuação”. 74 . p. podemos citar as 46 propostas de ações afirmativas elaboradas pelo Grupo de Trabalho Interministerial (GTI). sobre a influência exercida pela Conferência Mundial. conforme pontua Santos (2006. No âmbito das Universidades e a política pública de cotas raciais. durante o período de pesquisa. 69). estabelecemos como marco histórico da intensificação da polarização a respeito do assunto. tais propostas tiveram impacto restrito. foi-se apurado que. conforme avaliação de Moehlecke (Ibidem. em seguida. a Universidade de Brasília (UnB). p. p. Em 2001 foi proposto na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ). Assim. 54). José Amorim. p. Galvão (2009). Péria (2004).Resultado desse momento. projeto de lei que objetivava a reserva de 40% das vagas das Universidades do Estado para pretos e pardos. o qual obteve a aprovação do projeto em outubro do mesmo ano. houve uma surpreendente agilidade de tramitação e aprovação do projeto. não se pode negar o importante papel desempenhado pelo Movimento Negro para a elaboração e aprovação de tal projeto. a pioneira Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e.

o estudante entrou com recursos. concedendo-lhe os créditos relativos à matéria (Cf. sendo negado nas três primeiras instâncias. Com esse fato. a conversão em lei do projeto que instituía 40% das vagas da UERJ para a população negra 59 e parda. Não cabe aqui elencar todos os fatores que culminaram para sua aprovação. a UnB caracterizou-se por intenso debate anterior a aprovação da medida. 77). p. Todavia. Afirmase isso tendo em vista que. na quarta e última instância possível de se recorrer. os debates sobre o assunto se intensificaram nos diferentes meios de comunicação e espaços de discussão da sociedade civil. assim como expõe o caso Ari e suas implicações.999. em novembro de 2001. O contexto interno em que permitiu a elaboração desse projeto foi o fato político envolvendo o primeiro estudante negro a ingressar no Programa de Doutorado em Antropologia.youtube. 2001. deflagrou-se em 1998. na UnB. foi influenciada sobremaneira pela atuação do Movimento Negro na cena nacional. Com a criação da proposta em 1999 até sua consequente aprovação em junho de 2003. o Conselho de Ensino. em contrapartida. Dr. ambos do Departamento de Antropologia da UnB (GALVÃO. em vinte anos de sua existência. p. 2009. Disponível em: <https://www. foram mais de três anos de intensos debates e pressões. Timothy Mulholland. tanto no âmbito interno da UnB. Ariosvaldo Lima Araújo. elaborada pelo Professor José Jorge de Carvalho e pela Professora Rita Laura Segato. A proposta do sistema de cotas para a UnB é datada de 1. como intitulado na época. onde. deve-se destaca a atuação interna hábil dos Professores responsáveis pela criação da proposta da medida. 308 – 310). tornando-se ainda mais intensos após a adoção da mesma política na Universidade de Brasília (UnB). em virtude de sua reprovação no primeiro semestre em matéria obrigatório do programa. Enquanto a medida na UERJ foi caracterizada pelo curto período de tempo entre a elaboração de um projeto e sua consequente aprovação.Acesso em: 29/06/2015. apesar de ter gerado alguns debates. majoritariamente utilizado – inclusive pelo IBGE – para designar o conjunto da população preta e parda. ocorreu quase o oposto. o qual aborda o processo de implementação do Cotas Raciais na UnB. Com o aumento da visibilidade sobre o caso. pela 59 A Lei se referenciou a população “preta” a partir da utilização do termo “negro”. a troca de termos não influenciou de maneira significativa na efetividade da política. LIMA. O “caso Ari” 60. dado a incorporação expressa da população designada como “parda”. conforme veremos. quanto no âmbito externo. entretanto. o debate e polarização política em torno da adoção das cotas raciais ocorreu de modo ulterior na UERJ. 75 . 60 Documentário Raça Humana.com/watch? v=y_dbLLBPXLo>. Pesquisa e Extensão – analisando o caso pela segunda vez – concordou que o aluno havia sido injustamente reprovado. Por entender que tal medida havia sido reflexa de racismo.Dessa maneira. jamais havia ocorrido qualquer reprovação. do vice-reitor a época.

como foi na UERJ. a aprovação da medida de cotas raciais na ALERJ também surtiu efeitos para a construção do debate em Brasília. em 2003. p. observados os dados estatísticos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). em especial. Por fim. Acesso em: 27/06/2015. o Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão aprovou a instauração de Cotas Raciais.CMR. que reúne pretos e partos no grupo de negros. Disponível em: <http://portal. tivemos a declaração da constitucionalidade das cotas raciais pelo Supremo Tribunal Federal 65 – após julgar improcedente por unanimidade a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 186.br/cotas/perguntas-frequentes. 61 Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília. 2007. mobilizador de debates sobre o tema entre os estudantes. 76 . havendo dentro desse universo o recorte da porcentagem equivalente à população negra64 e indígena do estado respectivo à instituição de ensino. pela atuação do NEAB 61. Dessa maneira. professores e funcionário (SANTOS. No âmbito externo. entrando em vigor a partir do vestibular relativo ao segundo semestre de 2004 da UnB. segundo esclarecimento do Ministério da Educação.711 foi sancionada em agosto de 2012 e é regulamentada pelo Decreto nº 7. Como fator pontual que legitimou a aprovação dessa medida. 62 Coletivo Negro do Distrito Federal e Entornos 63 A Lei 12. 387388).mec. a qual estabeleceu a reserva de 50% das vagas nas 59 Universidades Federais e 38 Institutos Federais de Educação.824/2012. destacou-se a atuação de entidades pertencentes ao movimento negro do Distrito Federal – como o EnegreSer 62 e outros . 64 Segundo a classificação utilizada pelo IBGE.tanto no momento de polarização do debate sobre cotas. quanto na histórica politização da questão racial relacionada à pauta de educação desenvolvida localmente. referente às cotas raciais adotadas na Universidade de Brasília (UNB).gov. Ciência e Tecnologia aos alunos oriundos integralmente de ensino médio público.forma como conduziu o processo e. 12. a mobilização em torno da 3ª Conferência contra o Racismo das Nações Unidas . Nesse sentido.711/201263. falamos da aprovação da Lei nº. Devemos destacar também. o qual estabelece a sistemática de acompanhamento das reservas de vagas e a regra de transição para as instituições federais de ensino superior. Foi a partir desses fatos que tivemos o marco recente mais importante do processo de implementação da política de Cotas Raciais no Brasil.html>.

os ministros consideraram os meios empregados pela UnB para atingir os fins perseguidos. p. 66 CONTINS. abrindo assim um importante precedente para a constitucionalidade da política de cotas raciais nas universidades brasileiras. O Movimento Negro e a Questão da Ação 77 . (ii) a justiça distributiva e (iii) a diversidade. ainda em 1978. O ministro relator. apresentou argumentos chaves construídos ao longo da disputa em torno da pauta protagonizada pelo Movimento Negro. Marcia. julgada improcedente. Afirmativa. Inclusive. do direito universal à educação. os ministros do STF entenderam por unanimidade que haveria perfeita constitucionalidade nos preceitos da medida. avaliando que atos administrativos do CEPE da UnB. durante o julgamento da ADPF 186 no dia 25 de abril de 2012. uma linha semelhante à observada em outras partes do mundo para sua legitimação. 2013) 66. temos a Suprema Corte dos Estados o Unidos. N° 1/96. por unanimidade. podemos destacar a criação de um ambiente acadêmico representativo da sociedade de fato. afirmou anacronicamente durante o julgamento da ADPF 186 que a medida adotada na UnB poderia resultar na criação de um Estado racializado. Segundo Feres Junior. a partir do caso Regents of Universety of California versus Bakke. Ricardo Lewandowski. Exemplo disso. Dessa maneira. SANT’ANA. a análise do mérito foi levada ao Supremo onde foi. rompendo com a “harmonia racial característica de nosso país”. essas argumentações ao redor do mundo seguiriam três pilares elementares. Dentre os argumentos. a advogada do partido. Com efeito. Estudos Feministas. da igualdade e entre outros. Alguns pontos centrais para a sua argumentação seriam o desacordo com o princípio da dignidade da pessoa humana. resultando em sua inconstitucionalidade. como razoáveis e proporcionais. SANT’ANA. 65 O julgamento ocorreu nos dias 25 e 26 de abril de 2012. sendo seguido pelos demais. 1996. adotados em 2003. Após o Democratas (DEM) ajuizar a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 186 referente à política de destinação de 20% das vagas da Universidade de Brasília (UnB). Roberta Kaufmann. feriam uma série de preceitos fundamentais da constituição. Luiz Carlos. dado o caráter paliativo e a condição de serem revistas periodicamente. o qual. resultando na desigualdade material entre negros e brancos no Brasil. plural e diversificado em sua composição. do repúdio ao racismo. Da mesma forma. tais quais (i) a reparação. Importante apontarmos na argumentação do STF.O DEM ajuizou a ação em 2009. a medida teria como o objetivo a superação de distorções consolidadas historicamente. que seguiu semelhante tendência (CONTINS.

essa medida possibilitou um forte marco jurisprudencial para que a política de cotas se expandisse nacionalmente.. mas onde quer que a ação afirmativa tenha sido implantada. é possível notar que. Nem sempre os três argumentos estão presentes em um determinado momento histórico. Assim. Todavia. 46). o avanço político da questão se estagnou no tempo. em alguns locais. Como exemplo.6% na proporção do estado. ao mesmo tempo. pelo menos um desses argumentos foi usado em sua justificação pública (FERES JÚNIOR. 68 LAESER. Tal avanço. 78 . local das três melhores universidades estaduais brasileiras 68. junto com as Faculdades de Tecnologia (FATEC’s). resultando na Lei das Cotas em 2012... As cotas raciais nas Universidades paulistas em resposta a 2012: o PIMESP Vemos a partir do histórico das ações afirmativas no Brasil e. no próximo item buscaremos entender como o Estado de São Paulo se posicionou frente a essa conjuntura nacional e eventuais entraves para o avanço dessa medida já consolidada à nível nacional. temos que a declaração de sua constitucionalidade no Brasil superou todos os posicionamentos contrários que ainda atravancavam o avanço dessa medida. podemos olhar para a Universidade de São Paulo (USP). na qual. É nesse quadro que voltamos nosso foco para o estado de São Paulo. entre o perfil dos ingressantes no ano de 2013 do curso de 67 Segundo dados estatísticos da Fundação SEADE – Sistema estadual de análise de dados – referentes a 2005. lócus da maior população negra do país – aproximadamente 14. apesar de a população negra paulista representar 34. todas as quais se mantêm desde as suas criações enquanto espaços brancos da elite paulista.e. apud Justificativa do Projeto de Lei de Cotas elaborada pela Frente Pro Cotas Raciais de São Paulo em 2013. apesar do intenso debate ao longo da primeira década do Século XXI.5 milhões que se autodeclararam pretos e pardos67 . Por fim. mesmo que tardia quando comparada a outros países do mundo. 2012. um avanço importante em 2012. p. em especial. Com isso. poderse-ia afirmar ter superado os entraves políticos e institucionais para findar os séculos de inação estatal na garantia do direito à educação para o povo negro. nem sempre os argumentos presentes são equipotentes em cada discurso de justificação. 4. 2006. da implantação da política de cotas raciais.3. mantendo velhas estruturas do pensamento social ainda bem atuais.

não têm acesso aos meios adequados para provar suas qualidades.fuvest. considera merecedores os provenientes de seu seio: jovens brancos. cabe a pontual colocação do Professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). 73 Publicação no Jornal Folha de São Paulo. apenas 48 pardos ingressaram (8.Direito. representado pela figura de sua diretora superintendente. Marcus Orione 72. representada por seu presidente e Centro Paula Souza. representadas por seus reitores.br/opiniao/1213758tendenciasdebates-um-projeto-elitista-e-excludente. que cursaram os melhores colégios privados. Disponível em: <http://www1. 71 Justificativa do Projeto de Lei de Cotas elaborada pela Frente Pro Cotas Raciais de São Paulo em 2013. principalmente.2%). 70 Conselho composto pelas seguintes instituições: Universidade de São Paulo (USP).shtml>. Para além da forma como foi proposto. Disponível em:<http://www.5%). acessado em: 17/06/2015. entre pobres e negros.html? anofuv=2013&tipo=2&fase=4>. o qual ainda sustentava “o falacioso argumento da meritocracia”. Fundação UNIVESP. Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” (UNESP). 2.com. p.folha. as críticas ao programa incidiram. há pessoas que têm mais méritos. 72 Doutor e Livre-docente. contrário à proposta do Governo do Estado conjunta com o CRUESP: Colhe uma observação sobre o que a elite paulista entende por mérito.br/estat/qase. em um universo de 583 vagas. Certamente que.71 comumente utilizado na defesa dos alunos mais abastados que possuem condições de se preparar em colégios e “cursinhos” particulares voltados para o ensino de técnicas e fórmulas acríticas necessárias para o bom desempenho nos vestibulares. no rumo contrário ao quadro nacional que se apresentou em 2012 e ao quadro da pressão popular materializada na figura dos Movimentos Negros organizados no Estado de São Paulo. havendo apenas o ingresso de 4 estudantes pretos (0.uol.7%). em seu conteúdo. 79 . o Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista (PIMESP). com destaque para a questão racial. 69 Dessa maneira. 73 69 Dados Questionário Socioeconômico referente aos ingressantes de 2013 no vestibular da Fundação Universitária para o Vestibular (FUVEST). Em contrapartida. Em geral. Nesse quesito do mérito. foi proposto unilateralmente pelo Governo do Estado. em conjunto com o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais de São Paulo (CRUESP) 70. acessado em: 17/06/2015. Alijados. é professor do departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social da Faculdade de Direito da USP. 487 estudantes brancos ingressaram no mesmo ano (83.

movimentos sociais.pdf. não apenas deixa-se de corrigir desigualdades de acesso ao ensino superior.unesp.com. como também se potencializa ainda mais a exclusão. como denunciam os movimentos negros há anos e conforme demonstra diversos estudos. 35% fossem destinadas a pretos. Ademais. Acesso em: 29/06/2015. possibilitando. O que é o PIMESP?. Ou seja. com duração de dois anos. por meio de um plano de metas a ser implementado gradualmente.uneafrobrasil. mais uma vez negada sua efetiva inclusão no ensino superior por medidas protelatórias. Disponível em: http://frenteprocotasraciaissp. Negros/as já possuem uma desvantagem acumulativa no que diz respeito ao ingresso e conclusão de cursos. Sobre isso. negros/as terão. e no âmbito das Universidades.feg.pdf>. se posicionou a Frente Pró-Cotas Raciais do Estado de São Paulo75: Cabe lembrar que. Acesso em: 29/06/2015. Disponível em: http://ftp. 3. e que há uma tendência de a população negra . para contemplar de forma “maquiada” a reivindicação histórica dos movimentos e organizações sociais do estado de São Paulo pela reserva relacionada ao quesito étnico racial. 76 Ou seja. p. 80 . reserva de vagas apenas para escolas públicas tende a selecionar os mais “preparados” academicamente destes espaços. Nesse universo. evidenciou-se a indisposição das instâncias superiores de poder no Estado. 30% seriam destinadas ao preenchimento normal das vagas nas instituições e os outros 20% seriam destinadas ao Instituto Comunitário de Ensino Superior (ICES). lançado pela Frente Pro Cotas Raciais em São Paulo em 2012. o programa também previa que. além da sua capacitação. o qual funcionaria enquanto cursos-semipresenciais.br/. estudantis e sindicais comprometidos com o combate ao racismo.org/images/conteudos/JUSTIFICATIVA(1).os mais pobres entre os pobres .ocupar majoritariamente a faixa destes 20% destinado ao “college”. que 50% das vagas fossem destinadas aos estudantes que cursavam integralmente o ensino médio em escola pública. Carlos. denominado “college”. com essa política proposta na época. em matérias gerais e com o objetivo de “ampliar a formação cultural dos estudantes. Disponível em: <http://www. 75 Espaço de articulação que reúne os movimentos negros paulistas.Assim. em desconstruir os 74 VOGT. 76 Manifesto a favor das Cotas Raciais em São Paulo. Em seu blog é possível ter acesso a suas ações. Ao condicionar dois anos extras para alunos já em desvantagem. Acesso em 29/06/2015. pardos e indígenas.blogspot.br/pimesp/o_que_e_pimesp. dentro das 50% das vagas destinadas aos alunos da rede pública. a inserção na sociedade contemporânea”74. o programa propôs.

Daí resultou que uma lavoura de subsistência. Sua posição no contexto da economia colonial impedia o florescimento das formas de dominação patrimonialista associadas à economia agrária exportadora. compreender como se deu esse processo aqui. 154). reconhecido pela extensa obra que aborda a questão racial no Brasil..muros que ainda cercam as grandes e renomadas instituições de ensino do estado de São Paulo. A especificidade das Cotas Raciais no Estado de São Paulo. p.. em estagnação e imbricada numa tosca economia de troca apenas parcialmente monetária. inclusive no seio das bandeiras e da economia de subsistência aqui existente. viu-se subitamente “enriquecida” (Ibid. 77 Sociólogo e político brasileiro. Entretanto.4. estruturalmente construídos para e pela elite branca paulista. 81 . da sociedade e da cultura tiveram vigência universal no mundo criado pela colonização portuguesa no Brasil. 4. com o objetivo de entendermos a posição paradoxal do Estado frente ao quadro nacional da medida. Dessa maneira. p. Desse modo. antes. cabe de modo preliminar. São Paulo participou desse mundo de forma peculiar. Veremos no seguimento do presente trabalho qual foi a resposta dada pelo Movimento Negro paulista. 168). embora existam documentos que atestem a presença precoce do negro em terras paulistas. trabalharemos no próximo item algumas especificidades históricas da formação social do Estado de São Paulo e a sua relação com o debate racial. “sob o marco da independência e em conjunção com a constituição de um Estado Nacional” (Ibid. 153). a economia agrária exportadora só passaria a ser assimilada em São Paulo no momento posterior ao fim do ciclo da mineração. trabalhando assim o objeto central de nosso trabalho. As especificidades importantes que nos cabem ressaltar resultam de formações atípicas e históricas do Estado de São Paulo e da sua relação com a população negra. ela só se tornou numerosa e marcante a partir do ciclo de mineração (1972. Não obstante. pontua Florestan sobre a passagem da aventura aurífera para a economia agrária exportadora uma importante relação: A riqueza acumulada pelos paulistas objetivou-se principalmente numa volumosa escravaria. Segundo Florestan Fernandes77: As investigações históricas e sociológicas recentes mostram que certos padrões de organização da economia. que precisou ser transferida para localidades em que residiam os seus senhores. Em consequência. Sobre isso.

posteriormente. Essa transferência desembocou na questão do que fazer com essa riqueza em potencial. Com efeito. a própria Federação e a República mergulham suas raízes profundas neste solo fecundo onde vicejou o último soberano.. Quase todos os maiores fatos econômicos sociais e políticos do Brasil. o processo de industrialização já se encontrava em fase de consolidação. não havendo nenhum tipo de política inclusiva para o negro nesse momento de pico competitivo – pelo contrário -. Junior. se desenrolam em função da lavoura cafeeira: foi assim com o deslocamento de populações de todas as partes do país. até data muito recente. [. defendendo que “não basta acabar com a escravidão. e na vanguarda deste movimento de ascensão. que lhe tinham ocupado o lugar no passado”. ao ser liberto. ou veriam perecer a sua riqueza. 82 . sempre ficava em segundo plano. p. transferiram-se os trabalhadores escravizados das minas para as áreas de residência dos “seus senhores”. com a economia de subsistência.] os senhores tiveram de escolher. a obra ideológica da escravidão persistiu. nos moldes do liberalismo econômico. até chegar à sua liderança efetiva. Nele. o negro. p. 169). como dispunham desse agente. mas em particular do Norte.. viria a desembocar na “evolução” industrial de São Paulo. foi pontual a argumentação de Joaquim Nabuco na fase abolicionista. apontando para o fim do período servil78. destronador do açúcar. para o Sul. contavam com o principal requisito econômico para tentar as sucessivas experiências que levariam à seleção dos produtos-chave e. São Paulo se sobressai como pioneiro na industrialização nacional. do algodão. desde meados do século passado até o terceiro decênio do atual. o mesmo com a maciça imigração européia e a abolição da escravidão. à constituição de uma infraestrutura econômica que asseguraria a implantação da grande lavoura exportadora no Oeste paulista” (Ibid. Doutro lado. 123). pois foi ele o determinante para que se desse início no Estado de São Paulo ao “ciclo do café”. É preciso destruir a sua obra”. na qual. É nesse contexto que.Com efeito. entre ele e o branco imigrante. Sobre isso. PRADO C.. por fim. gerando precocemente uma sociedade competitiva. Formação Econômica do Brasil. Cabe ressaltar esse momento. do ouro e diamantes. representada na figura de homens e mulheres escravizados. (Cf. Ou superavam a estagnação econômica e rompiam. dado a agricultura de subsistência até então desenvolvida no local. colaborando-se assim de forma ainda maior para que o desengate social sofrido pelo negro 78 “O grande papel que São Paulo foi conquistando no cenário político do Brasil. por causa mesmo da massa de escravos relativamente alta que possuíam. marcham os fazendeiros e seus interesses. é possível mostrar o papel central que o agente escravo desempenhou e que. do Brasil econômico: o rei café. assim. entre a ação econômica criadora e a ruína. Com o advento da abolição. e impulsionando-o. imobilizada no agente de trabalho escravo. o qual teria em seu marco a reestruturação econômica a nível nacional e a vinda massiva do imigrante. Todavia. deparou-se com uma sociedade em níveis de competição ainda mais elevados em São Paulo. com o capital acumulado pelo setor cafeeiro. e São Paulo especialmente. se fez à custa do café. mão de obra assalariada.

4. a reserva de vagas para estudantes pertencentes aos grupos sociais (i) de negros e indígenas. criou-se ambiente fecundo para a reprodução dessa “obra” – construída para legitimar mais de 350 anos de exploração humana . nos termos da legislação em vigor. O movimento negro. 4. junto com o CRUESP. após o ato de discricionariedade do Governo do Estado. representada no Projeto de Lei de Iniciativa Popular de Cotas para o Estado de São Paulo79. 83 . organizados na Frente Pró Cotas Raciais de São Paulo. surgiu o objeto deste trabalho. Ademais. como vimos (FERNANDES.paulista na época se tornasse estrutural. construíram uma nova proposta para a implementação de cotas em São Paulo. riqueza essa produzida que – a depender de suas arcaicas estruturas de poder – é distribuída em moldes similares aos vigentes até o fim do século XIX brasileiro. junto com movimentos sociais e apoiadores. acessado em: 17/10/2013. tratando a questão de forma espontânea e “neutra”.5. determina o Artigo 3º do Projeto de Lei: 79 O conteúdo do projeto está disponível na seguinte página virtual: <http://www. 1972. Contudo. p. é comumente conhecido como referência econômica e símbolo de produção de riqueza para a federação. com a promoção de um amplo debate no seio das universidades e da sociedade. o Estado de São Paulo hoje. 89). sendo o primeiro relativo ao seu conteúdo e. ilustrado na proposta do PIMESP. Nesse sentido. do prestígio social e do poder. conforme se posterga ainda hoje. Com relação ao seu conteúdo No Projeto de Iniciativa Popular para Cotas no Estado de São Paulo está previsto. buscaremos entender o significado impresso a partir de tal análise. o enfoque relativo a sua forma. O PL e seu significado na dinâmica negra Em resposta ao quadro que se apresentou nacionalmente em 2012 e. secundariamente. Nos cabe assim analisar tal projeto sob dois enfoques. Assim. (ii) de alunos oriundos da rede pública de ensino e (iii) de pessoas com deficiência. por dez anos.pdf>.1. Com efeito.fomentando assim a concentração racial da renda.org/images/conteudos/PL_COTAS_MOVIMENTOS.uneafrobrasil.5. devido a esse processo histórico de industrialização desencadeado graças a força de trabalho negra.

com o escopo de impedir a discriminação negativa de determinados grupos de pessoas. os seguintes percentuais: I – 25% (vinte e cinco por cento) para candidatos autodeclarados negros e indígenas. na graduação nas universidades públicas estaduais e demais instituições de ensino superior mantidas pelo Estado de São Paulo obedecerão. partindo do conceito de raça. Nesse ponto destacou o Ministro Enrique Ricardo Lewandowski em seu voto a favor da Lei 12.). reversíveis.As vagas reservadas para ingresso. Portanto. da discriminação positiva com vistas a estimular a inclusão social de grupos tradicionalmente excluídos. Iniciativa Popular enquanto forma de disputa no campo jurídico. em um primeiro momento. situada no âmbito de uma sociedade marcada por mais de 350 anos de escravidão. mas enquanto categoria histórico-social.5. Dessa maneira. pelo Estado. nos termos da legislação em vigor.2. enquanto uma ação afirmativa do Estado implementada por meio da política de Cotas.5 salário-mínimo (um saláriomínimo e meio). 4. sendo que deste percentual. com a configuração de uma postura positiva do Estado. conforme conceituado no item (4.5% será reservado para estudantes cuja renda familiar per capta seja igual ou inferior a 1.Artigo 3º. assim também é possível empregar essa mesma lógica para autorizar a utilização. III – 5% (cinco por cento) para candidatos com deficiência. 12. Assim. respectivamente. frente ao problema que se apresenta. 84 . a base material factualmente perceptível de desigualdade racial na população paulista não é um evento espontâneo da contemporaneidade e sim resultado de uma construção histórica. II – 25% (vinte e cinco por cento) para candidatos oriundos da rede pública de ensino. conforme visto. se aprovado. O Projeto para Cotas no Estado de São Paulo proposto em 2013 tem em sua forma o instituto da Iniciativa Popular. Dado isso. formalmente. torna-se importante ressaltar qual o significado dessa opção feita pelo movimento negro e demais organizações para viabilizar e legitimar o Projeto de Cotas para o Estado.1. podemos classificar tal projeto de lei. rompendo assim a inércia da inação conivente. não como fato biológico. tal como os constituintes de 1988 qualificaram de inafiançável o crime de racismo.711/2012: Ora. a justificativa da necessidade de concretização por ação estatal de “igualdade material e neutralização dos efeitos da discriminação racial” sofrida pela população negra paulista encontra bases estruturais peculiares no Estado de São Paulo.

Geralmente. a lei elaborada pelo Parlamento adquire força obrigatória. conforme disposto no artigo 24. exercido indiretamente por meio da eleição de representantes ou diretamente.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. do artigo primeiro de nossa Carta Maior. Pelo referendum. juntamente com o Plebiscito e o Referendo. 224).plebiscito. por meio de tais institutos 80 e. II . uma democracia semidireta81. possibilitando a participação direta da população paulista no processo legislativo estadual. o disposto no parágrafo único. o Parlamento fica juridicamente obrigado a discuti-la e votá-la. pela iniciativa popular. Parágrafo único. a lei votada pelo Parlamento em consequência da iniciativa popular é submetida ainda a referendum”. no mínimo. p. assim. cinco décimos de unidade por cento do eleitorado do Estado. Art. III .a dignidade da pessoa humana. onde se afirma o povo enquanto detentor de todo o poder do Estado Democrático de Direito. 85 . que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. constitui-se em Estado democrático de direito e tem como fundamentos:I . A Constituição Estadual de São Paulo determina. Se um certo número de eleitores se manifesta pela necessidade de uma certa lei. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto.a iniciativa popular pode ser exercida pela apresentação de projeto de lei subscrito por. V . a Constituição Estadual de São Paulo também incorporou o mesmo instituto.a soberania. e. nos termos desta Constituição. o Parlamento é obrigado a elaborar uma determinada lei. possibilitando. assegurada a defesa do projeto por representantes 80 Constituição Federal de 1988. § 3º.o pluralismo político.referendo. em sua Teoria Geral do Estado. II . surge na Constituição Federal de 1988 enquanto um dos três instrumentos que possibilitam a participação direta do povo no processo legislativo. 14 da Constituição Federal: Art. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal.Esse instituto. destaca que: “A iniciativa popular aproxima-se ainda mais da democracia direta. com valor igual para todos. ainda que no plano formal. materializando assim. Ela está prevista no Art. que: O exercício direto da soberania popular realizar-se-á da seguinte forma: 1. mediante: I . III . Todo o poder emana do povo. 1º A República Federativa do Brasil.a cidadania. em conformidade com a Constituição Federal. IV . 81 Darcy Azambuja (1941.iniciativa popular. Dessa maneira. 14. nos termos da lei.

Nesse sentido. uma “peça” pode se autorreferenciar no outro? Esse processo de desumanização. 5. São Paulo. busca.. 86 .] 4. 41. antes de ser indivíduo. orientando-se pela Constituição Estadual de São Paulo.5%. [. no mínimo 0. Primeiramente. na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.. implementar democraticamente um direito seu até então negado. 1999. Pulsional ver. esquecido até então pela democracia representativa paulista quando analisamos o cenário das demandas da população negra e as respostas do Estado. à medida que bloqueia a possibilidade de identificação com os outros nas relações sociais. por meio da apropriação do Direito. do prestígio 82 Campanha lançada no dia 01 de agosto de 2013. I. 135. 83 “Se. tem como consequência bloquear o processo de constituição da individuação. tem por finalidade o equivalente a 200 mil assinaturas até o dia 20 de novembro de 2013. a população herdeira dos signos impressos em seu corpo e em sua cultura. ano XIII. o Projeto de Iniciativa Popular de Cotas parte da proposta de colher assinaturas na quantidade de. pelo menos. vemos que a proposta de tal campanha materializa o exercício da soberania popular. pelo qual passou o negro. cinco dentre os quinze maiores Municípios com não menos que dois décimos de unidade por cento de eleitores em cada um deles. Com efeito.não serão suscetíveis de iniciativa popular matérias de iniciativa exclusiva.dos respectivos responsáveis. Nessa perspectiva. definidas nesta Constituição. o homem é um ser entre semelhantes. B. que se relaciona com os outros enquanto seres iguais. 83 organizada e com um histórico de lutas vivo em cada edificação paulista. 82 Tendo em vista os objetivos do trabalho que aqui se propõe realizar. com o objetivo de anunciar o início da coleta das assinaturas para o projeto que. O corpo da mulher negra. perante as Comissões pelas quais tramitar. que remetem ao passado histórico de desumanização e exploração da escravidão. do eleitorado do Estado. partindo do fundamento de nossa Carta Maior de que todo poder emana do povo. dar a entrada processual na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP). Justifica-se assim a Campanha lançada no dia 01 de agosto de 2013 pela Frente Pró Cotas Raciais de São Paulo para a coleta de 200 mil assinaturas com o objetivo de. p.” NOGUEIRA. Psicanál. em que condições uma mercadoria. tendo em vista o Direito enquanto instrumento de dominação social e expressão do status quo. já que produzido pela mesma elite herdeira e detentora da renda.o eleitorado referido nos itens anteriores deverá estar distribuído em. antes de se referir a si mesmo. posteriormente. n.. torna-se importante a reflexão do significado por trás do Projeto de Iniciativa Popular de Cotas para o Estado de São Paulo.

como exemplo da Frente Pró Cotas Raciais do Estado de São Paulo. O primeiro deles estaria relacionado a disputa que o movimento negro paulista procura encampar dentro do universo jurídico. o grau organizativo não é acompanhado pela massificação na mobilização. constatamos a complexidade e riqueza organizativa do movimento negro ao longo da história. O Direito. apesar de ser utilizado. O Direito pode ser usado para auferir conquistas políticas importantes para populações oprimidas. 1972. FERNANDES. mas sim. entendemos nesse caso. o da igualdade de poder entre a população negra e branca. a importância do trabalho de base torna-se central. constata-se a sua distância em ser considerado um movimento de massas – da maneira como foi. Todavia. a sua utilização é tida enquanto recurso instrumental. Cabe a ressalva de que. A partir do Capítulo 2 do presente trabalho. Temos como segundo ponto. o fato de essa apropriação do instrumental jurídico representar um alto grau organizativo do movimento. a Frente Negra Brasileira. através do chamado uso crítico do Direito por operadores jurídicos conscientes do ideário político por detrás das regras aparentemente neutras (2005. o Direito é um espaço de luta hegemônica. se empoderando desse instrumento para atender às suas reivindicações.social e do poder (Cf. na atual conjuntura organizativa do Movimento Negro em São Paulo. conforme vimos. Com efeito. 89). como instrumento de dominação social pode desenvolver um importante papel na luta contra-hegemônica. conforme aponta Furman: Por fim. Nesse sentido. p. Portanto. levando ao terceiro significado por trás do Projeto instituído por iniciativa popular. inclusive a partir de articulações mais amplas. observamos uma interessante relação crítica entre o Direito e a população negra historicamente oprimida. o que nos leva ao segundo significado por trás dessa relação. contando para isso com a participação democrática de toda a população paulista. 2). Nesse 87 . confrontado com elevado grau organizativo e profundidade em sua linha política de atuação. que a apropriação do Direito se mostra enquanto meio para se atingir um fim que não diz respeito à mudança do atual universo jurídico. esse grau organizativo permite maior influência nas instâncias de poder colocadas enquanto entraves para o avanço da política de Cotas no Estado. via de regra. Com efeito. p. no atual cenário da Campanha para a coleta das 200 mil assinaturas configura-se em alguns significados concluídos no presente trabalho. Com efeito. alcançando.

a partir da coleta de assinatura nas ruas.930.920.tal modalidade de protesto cumpre o papel de acumular forças no sentido da massificação do movimento pelo Estado de São Paulo. 88 . 122). Conclusão final Vimos no Capítulo 1 o desenvolvimento da teorização à respeito da questão racial brasileira. com as Ideias Eugênicas e sua consequente substituição. No Capítulo 2. Com efeito. Partimos da década de 1. o qual se expressa como resposta a esse diagnóstico da não massificação. qual seja.970. não apenas com o Estado. refletindo-se assim enquanto importante ferramenta para realizar trabalho de base. Com efeito. chegamos ao terceiro significado do Projeto de Lei de Cotas. Ou seja. Ambas com papel bem definido pelas classes dominantes autodeclaradas brancas. é a partir do reflexo dessa associação que. como por exemplo. recentemente. p. Petrônio Domingues pontua: É por intermédio das múltiplas modalidades de protesto e mobilização que o movimento negro vem dialogando.888. mas principalmente com a sociedade brasileira (DOMINGUES. já na década de 1. analisamos quão presente o racismo se faz contemporaneamente. universidades e etc. a criação de políticas específicas para o povo negro em âmbito nacional na área da educação. 2007. desconstruídos.ponto. a partir da década de 1. expresso na estrutura e pensamento social. Foi a partir dessa década que o mito da democracia racial e suas contradições passam a ser. Razão central disso. a respeito de uma característica histórica da forma organizativa negra. a manutenção de seus privilégios políticos e sócio econômicos após a abolição em 1. foi a associação entre a teoria racial crítica consolidada – como já vimos . o de instrumentalizar. . pela invenção da Democracia Racial. tivemos alguns avanços.e a militância negra organizada. uma vez que em tal proposta busca-se o diálogo com a sociedade civil . Nesse sentido. principalmente. analisamos também como essas contradições foram escancaradas a partir de críticas consolidadas. em eventos. com base nas tabelas sócio econômicas e denúncia de casos explicitamente racistas cotidianamente exibidos na mídia tradicional. paulatinamente. no plano teórico.

com relação às conclusões a respeito do Projeto de lei. Nesse sentido. foi possível obtermos um panorama do momento histórico atual relativo à luta pela igualdade racial. assim como os entraves para sua implantação no Estado de São Paulo. 89 . de que maneira esse movimento dialogou com o Direito. tornando-se um instrumento que é capaz de ir além de sua reivindicação central em si. o Capítulo 3 se prestou a analisar a dinâmica negra. observamos como sua forma – auferida mediante iniciativa popular . Desse modo. sintetiza uma relação dialética entre sua forma e o objetivo de seu conteúdo. quanto no plano externo a partir do convencimento da sociedade civil – e a pressão popular para que o conteúdo da medida fosse aprovado. tratamos da redistribuição do poder historicamente concentrado nos membros autodeclarados como brancos. no Capítulo 4 adentramos ao objeto que motivou a elaboração deste trabalho: o Projeto de Lei de Iniciativa Popular de Cotas Raciais para o Estado de São Paulo. Nesse sentido. Na mesma análise foi possível verificar os diferentes significados do Projeto de Lei para o movimento negro. suas formas de organização e conquistas na formação social do Brasil e. cria condições materiais para o aumento do poder político da população negra.dialoga com o seu conteúdo – enquanto uma ação afirmativa. ainda. Portanto. Nessa etapa do trabalho analisamos a definição e histórico da política de cotas raciais. tendo em vista seu histórico e seu momento atual. Com base nessa análise. o Projeto de Lei representa um mecanismo na dinâmica negra que. o significado por trás da escolha de mobilizar esforços do movimento para colher aproximadamente duzentas mil assinaturas seria uma escolha política que teria por finalidades principais o trabalho de base – tanto no plano interno do movimento negro. quando falamos em ações afirmativas mediante a política de cotas raciais. Nesse sentido.Na sequência. concluímos que. Por fim. para atingir seu objetivo.

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Avaliação do Orientador

Avaliação do Orientador sobre desempenho do bolsista (até 10 linhas)

Conclusão final

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São Paulo. Marcus Orione Gonçalves Correia Nome do aluno: Fábio Machado Pasin 97 . 30 de junho de 2015 Nome do orientador: Prof. Dr.