UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA

FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS
CURSO DE DIREITO
NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter
da Silva

TÓPICOS DA AULA 5 – CLASSIFICAÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS
Questões guias para debate:
1) Qual a diferença entre a perspectiva objetiva e subjetiva dos direitos fundamentais?
2) Como se classificam os direitos fundamentais na perspectiva da doutrina tradicional, ou seja,
partindo do ideário da Revolução Francesa?
3) Como Jellinek classifica os direitos fundamentais a partir do critério da multifuncionalidade?
6. Classificação das normas de direitos fundamentais
6.1 Classificação clássica: ideário da Revolução Francesa
A doutrina dos direitos do homem já estava conformada desde o século XVII.
Entretanto, ela se expandiu no século XVIII quando se tornou elemento básico da reformulação das
instituições políticas. Como ensina Manoel Gonçalves Ferreira Filho, tal doutrina foi incorporada
pelo liberalismo, do qual é capítulo essencial. Porém, é de ter-se em mente que esta doutrina é bem
mais antiga que esta filosofia política, a qual não a construiu, mas a adotou e certamente enfatizou.1
Com efeito, no seu cerne, está o jusnaturalismo, mas a verdade é que do século das
luzes em diante, tornou-se um dos princípios sagrados do liberalismo, sendo às vezes apresentado
como o princípio liberal por excelência .
É preciso dizer que a doutrina dos direitos fundamentais revelou, e ainda hoje revela,
uma grande capacidade de incorporar desafios. Sua primeira geração enfrentou o problema do
arbítrio governamental, com as liberdades públicas2, a segunda, o dos extremos desníveis sociais,
com os direitos econômicos e sociais, a terceira, hoje, luta contra a deterioração da qualidade da
vida humana e outras mazelas, com os direitos de solidariedade.
A doutrina clássica brasileira tem destacado a classificação dos direitos fundamentais a
partir de sua concepção vinculada à história de positivação e reconhecimento desses direitos, de
forma que vai-se apresentar tal classificação, em primeiro plano, para depois avançar para as
classificações mais sofisticadas e complexas trazidas principalmente pela doutrina européia.
A tentativa de uma classificação dos direitos fundamentais, sob uma perspectiva
sistemática satisfatória, calcada em critérios objetivos e funcionais, revela-se complexa e
problemática. Complexa porque, se nem a expressão ‘direitos fundamentais’ possui um significado
unívoco para os doutrinadores especializados, imagine a confusão que se pode esperar acerca de
1

FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Direitos humanos fundamentais. São Paulo : Saraiva, 1996, p.14
Esta expressão passou a ser preferida no meio jurídico quando o jusnaturalismo cedeu lugar ao positivismo. Como
anota FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Direitos humanos fundamentais, cit., p.15, nota 15, tais liberdades
seriam prerrogativas reconhecidas e protegidas pela ordem constitucional.
2

1

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critérios de classificação, os quais, por si sós, jamais são consensuais. E problemática porque
qualquer proposta de classificação deve levar em consideração as peculiaridades dos ordenamentos
jurídicos específicos, o que acaba por relativizar a sua importância teórica e seu grau de
cientificidade, o que é assinalado por vários juristas.
A principal dificuldade decorre, entre outros aspectos, da diversidade de funções
exercidas pelos direitos fundamentais. Também a sua distinta e complexa estrutura normativa, bem
como a vinculação à técnica de sua positivação no texto constitucional, aliada às especificidades de
cada ordem constitucional, tornam difícil a classificação de tais direitos no âmbito de uma ordem
normativa.
Entretanto, é de considerar-se a existência de diversos critérios classificatórios
utilizados e que nem sempre são compatíveis entre si, além de, por vezes, não serem afinados com o
direito constitucional positivo. Ademais, ainda que não se deva supervalorizar a problemática da
classificação dos direitos fundamentais, por meio dela é possível obter não apenas uma visão global
e sistemática do conjunto dos direitos fundamentais, mas também parâmetros objetivos para sua
interpretação, enquadramento funcional e até mesmo a determinação do regime jurídico aplicável.3
O professor Ingo Sarlet anota:
“Dentre os diversos critérios classificatórios encontrados na doutrina, alguns podem ser
excluídos de plano. Este é o caso, por exemplo, da distinção efetuada entre direitos de liberdade e
igualdade, que – a despeito de sua relevância para outros aspectos da teoria dos direitos
fundamentais –, peca pela sua incompletude, já que não abrange a totalidade dos direitos
fundamentais. O agrupamento dos direitos fundamentais de acordo com as diversas gerações ou
dimensões já resiste ao critério da abrangência, mas, no mais das vezes, se revela destituído de
maior interesse prático, à semelhança do que ocorre com a distinção entre direitos civis, políticos e
sociais (sociais, econômicos e culturais), que até propicia uma visão panorâmica no que concerne à
matéria regulada pelos direitos fundamentais, mas não gera maiores benefícios quando se cuida de
uma organização que diga respeito às funções dos direitos fundamentais e à força jurídica dos
preceitos que os consagram. É nestas classificações, contudo, que se situa a maior parte das
propostas formuladas.”4

6.1.1 As liberdades públicas (direitos individuais)
Na visão contemporânea, os direitos individuais constituem o núcleo dos direitos
fundamentais. É certo que a eles se agregam os direitos econômicos e sociais, e depois os direitos
de solidariedade, mas estes outros não renegam as liberdades públicas visando, sim, completá-las.
3
4

SARLET, Ingo W. A eficácia dos direitos fundamentais, op. cit., p. 158.
SARLET, Ingo W. A eficácia dos direitos fundamentais, op. cit., p. 159.
2

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Em termos técnicos jurídicos os direitos individuais são direitos subjetivos 5, ou seja,
poderes de agir reconhecidos e protegidos pela ordem jurídica a todos os seres humanos e,
eventualmente, a entes a eles assimilados. Deve-se ressaltar que são direitos subjetivos oponíveis ao
Estado o que antes de 1789 era desconhecido do direito positivo.
O sujeito ativo das liberdades públicas é todo e qualquer um dos seres humanos. No
século XVIII, tal era justificado pela igual natureza de todos os seres humanos, atualmente preferese enfatizar a igual dignidade de todos, isso para desvincular tais direitos de sua conotação
jusnaturalista.
Como ensina Manoel Gonçalves Ferreira Filho deve-se considerar que tais direitos
podem ter como titular entes de toda espécie, desde que compatíveis em sua natureza com essa
situação.6
O sujeito passivo desses direitos são todos os indivíduos que não o seu titular, a que se
acrescentam os entes públicos ou privados, inclusive e, especialmente, o Estado. De fato, o Estado,
em 1789, era visto como o inimigo das liberdades. Hoje em dia ainda o é, ao menos potencialmente.
É o Estado que pode, na sua prática diuturna, ferir e restringir direitos individuais.
Deve ficar claro que, se por um lado, o Estado deve abster-se de perturbar o exercício
desses direitos, por outro, deve evitar que eles sejam desrespeitados, preventivamente ou
repressivamente.7
Vale lembrar que esses direitos-liberdade graças ao seu reconhecimento ganham
proteção na ordem jurídica. Eles ganham proteção do Estado, ou seja, gozam de coercibilidade e,
assim, uma vez violados cabe ao Estado restaurá-los coercitivamente.
Na verdade, o Estado contemporâneo nasce de uma filosofia política que o justifica
exatamente pela necessidade de dar proteção aos direitos fundamentais. Reza o art. 2o da Declaração
de 1789: “O fim de qualquer associação política é a conservação dos direitos naturais e
imprescritíveis do Homem.”8
E ainda mais longe: o constitucionalismo exige que o Estado seja organizado em
função dessa finalidade. Existem várias facetas dessa garantia.
Seguindo Rui Barbosa, pode-se dizer em um sentido amplíssimo que as garantias
constitucionais são as providências que, na Constituição, destinam-se a manter os poderes no jogo
harmônico das suas funções, no exercício contrabalançado de suas prerrogativas. Nesse sentido,
5

Essa é a opinião de Manoel Gonçalves Ferreira Filho seguindo a doutrina clássica. Cf. FERREIRA FILHO, Manoel
Gonçalves, Direitos humanos fundamentais, cit., p.28
6
FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves, Direitos humanos fundamentais, cit., p.29
7
FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves, Direitos humanos fundamentais, cit., p.30
8
FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves, Direitos humanos fundamentais, cit., p.31
3

direitos-garantias. Direitos humanos fundamentais.9 Vale aqui lembrar que as próprias garantias constituem determinado grupo de direitos fundamentais.45 10 4 . seja procurando-lhes trabalho. p. tradicionalmente. da vida humana e da liberdade humana. as garantias são os sistemas de proteção organizados para defesa dos direitos fundamentais. o Poder Judiciário. pois que presumem vida em sociedade e organização política.” Não é diferente na Carta brasileira de 1824: “Art. a recorrer ao judiciário. 179. garantias constitucionais são as defesas postas pela Constituição aos direitos especiais do indivíduo. p. A sociedade deve a subsistência aos cidadãos infelizes. seja assegurando os meios de existência aos que não têm condições de trabalhar.1.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva poderiam ser também chamadas de garantias-sistemas. ou melhor. Num sentido menos amplo. a não ter confiscados os bens.”11 9 FERREIRA FILHO. Direitos humanos fundamentais. p.” E continua no art. ou seja. Tais direitos foram consagrados pela Constituição alemã de 1919.. Direitos humanos fundamentais. No 32: A instrução primária é gratuita a todos os cidadãos. A sociedade deve favorecer com todo o seu poder os progressos da razão pública e pôr a instrução ao alcance de todos os cidadãos. a Constituição de Weimar. pois derivam do próprio sistema constitucional. Manoel Gonçalves. preocupações sociais já estão presentes nas próprias declarações do primeiro período. Tais são direitos subjetivos à garantia. Manoel Gonçalves.. n o 31: A Constituição também garante os socorros públicos. a Declaração francesa de 1793 afirma no seu art. Por exemplo. Manoel Gonçalves. cit.. cit.33 11 Estes dados foram retirados dos ensinamentos de FERREIRA FILHO. a impetrar mandado de segurança ou a requerer habeas corpus. 21: “Os socorros públicos são uma dívida sagrada. Em sentido restrito.10 6. 22: “A instrução é necessidade de todos. É a garantia institucional que no Brasil é. Manoel Gonçalves Ferreira Filho anota que estes direitos não são naturais. F. cit. Ao contrário do que muitos supõem.32 FERREIRA FILHO. Filho. Estado. a qual por isso ganhou imortalidade. Como essa proteção deriva de instituições não é descabido designá-las por garantias-institucionais. isso porque há um direito a não sofrer censura.2 Os direitos econômicos e sociais Ao término da Primeira Guerra Mundial novos direitos fundamentais foram reconhecidos: os direitos econômicos e sociais. consistem elas no sistema de proteção organizado pelos autores de nossa lei fundamental em segurança da pessoa humana. Como ensina Manoel G.

como é o caso da família em relação ao direito à educação.1. mas. p. Segundo este autor o que tal Constituição apresenta de novidade é o nacionalismo. de uma garantia institucional. É imprescindível ressaltar que toda a evolução dos chamados direitos humanos fundamentais encontrou o seu coroamento na Declaração Universal dos Direitos do Homem. E tal auxílio é. a reforma agrária e a hostilidade em relação ao poder econômico. não sendo decorrentes. cit. principalmente. Tal declaração é uma síntese em que. enquanto expressão da coletividade organizada. mas às vezes a responsabilidade estatal é dividida com outros grupos sociais. entretanto. um elenco dos direitos do trabalhador. no sentido de que configuram poderes de exigir providências concretas por parte deste. se inscrevem os direitos fundamentais ditos de primeira geração (as liberdades) e os da segunda geração (os direitos sociais).46 13 Lição extraída do que diz FERREIRA FILHO. parecem fundados na cooperação e no socorro mútuo próprio de homens que vivem em sociedade. Direitos humanos fundamentais. é a instituição dos serviços públicos a eles correspondentes. 6. sim.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva Não faz dúvida. mas. alguns autores consideram a constituição mexicana de 1917 o marco consagrador da nova concepção de direitos fundamentais12 Como as liberdades públicas. evidentemente. pois que resta óbvio que tais direitos pressupõem sociedade. na verdade. Trata-se. Ferreira Filho não concorda com essa opinião afirmando que mesmo na América Latina a repercussão imediata da Carta mexicana foi mínima. fica fácil notar que o sujeito passivo desses direitos é o Estado (o qual é responsável pelo atendimento dos direitos sociais). tão só. Na verdade. Não obstante. Direitos humanos fundamentais. a consciência de novos desafios que dizem respeito.. p. poderes de exigir. tão mais imperativo quanto for a necessidade por que passa o semelhante13. não constituem meros poderes de agir (como é típico das liberdades públicas em geral).. da natureza humana. lado a lado. os direitos sociais são direitos subjetivos. portanto. 51 5 .3 Os novos direitos fundamentais: os direitos de solidariedade O reconhecimento dos direitos sociais não pôs fim à ampliação do rol de direitos fundamentais. Manoel Gonçalves. Não parece a melhor doutrina a daqueles que afirmam serem os direitos sociais direitos naturais. Dessa forma. As Constituições tendem a encará-los como deveres do Estado. Manoel Gonçalves. Cf. entretanto. Tal Carta Magna apresenta não propriamente um direito ao trabalho. que o principal documento da evolução dos direitos fundamentais para a consagração dos direitos econômicos e sociais foi a Constituição francesa de 1848. promulgada pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas em 1948. à 12 Manoel G. cit. sim. FERREIRA FILHO. Vale notar que a garantia que o Estado dá. Tais direitos.

eles baseiam-se em uma identidade de circunstâncias de fato. são Estados que devem respeitar estes direitos próprios de outro Estado e outro povo. Manoel Gonçalves Direitos humanos fundamentais. sem dúvida a solidariedade. o direito ao desenvolvimento.65-66. F. p. em 1979.. é de dizer-se que o fundamento maior dos direitos fundamentais de solidariedade é. nota 1. Com efeito. principalmente. ainda não se cristalizou doutrina a esse respeito. mas. Filho essa é a opinião de Celso Lafer em “A ruptura totalitária e a reconstrução dos direitos humanos”. no que diz respeito ao meio ambiente (o único expressamente previsto na Constituição de 1988) pode-se admitir seja ele efetivado por via de ação (no caso brasileiro pela ação civil pública ou ação popular.. FERREIRA FILHO. existindo muita controvérsia quanto à sua natureza e ao seu rol. Vale aqui anotar que o objeto de tais direitos é extremamente heterogêneo.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva qualidade de vida e à solidariedade entre os seres humanos de todas as raças e nações redundou no surgimento de uma nova geração de direitos fundamentais: os direitos de solidariedade. cit. Manoel G. a solidariedade entre os povos. do direito ao meio ambiente e o direito ao patrimônio comum da humanidade. ou mesmo um não fazer (direito ao meio ambiente). variando entre uma situação (direito à paz). na abertura dos cursos do Instituto Internacional dos direitos do Homem. Do ângulo do sujeito passivo está mais uma vez o Estado. Na verdade... No entanto. um exigir (direito ao desenvolvimento).15 Cumpre observar que tais direitos foram concebidos como direitos de titularidade coletiva16. Direitos humanos fundamentais. cit. p. FERREIRA FILHO. cit. um agir (direito à autodeterminação). p. Filho afirma serem quatro os principais desses direitos: o direito à paz. 64. O que se tem por certo é que foi no plano do direito internacional que se desenvolveu esta nova geração. 14 De acordo com as anotações de Manoel Gonçalves Ferreira Filho foi Karel Vasak que. chamando-os de direitos de solidariedade.) Em última palavra. 15 FERREIRA FILHO. Direitos humanos fundamentais. Manoel Gonçalves. Há mesmo quem os conteste como falsos direitos do Homem.14 Na verdade. apontou para a existência dessa terceira geração. Cf. 6 .58 16 Segundo Manoel G. cit. p. Manoel Gonçalves Direitos humanos fundamentais. ou como preferem os juristas italianos: direitos difusos. Cf. nota 22 17 Ensinamentos extraídos da lição de FERREIRA FILHO.57. um ou determinados bens (direito ao patrimônio comum). na maioria deles não cabe senão a garantia institucional (pondo-se de lado a garantia internacional). Manoel Gonçalves. F.17 No que tange à garantia desses direitos é de dizer-se que.

18 Já as normas impositivas de um dever objetivo seria uma norma que vincula um sujeito em termos objetivos ao fundamentar deveres que não estão em relação com qualquer titular concreto. 228. J. Ou seja. op. op. K. 25 CANOTILHO.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva 6. para os seus interesses. cit. 1178. 22 Cf. CANOTILHO.J.. Gomes. 138. Ingo W. J. Segundo seus ensinamentos. J. op. p. op. quer as normas garantidoras de direitos subjetivos. por um lado.. os direitos fundamentais são direitos subjetivos.J. 1177. p. p. 21 CANOTILHO. e por outro. não existe paralelismo entre regra-dimensão subjetiva e princípio-dimensão objetiva das normas consagradoras de direitos fundamentais. o direito subjetivo consagrado por uma norma de direito fundamental reconduz-se a uma relação trilateral entre o titular.. p. Gomes. HESSE. Para o professor Canotilho.19 A constatação de que os direitos fundamentais apresentam dupla perspectiva – podendo ser considerados tanto como direitos subjetivos individuais quanto como elementos objetivos fundamentais da comunidade –.21 Também o professor Alemão Konrad Hesse dedica parte de suas considerações acerca dos direitos fundamentais à questão do caráter duplo dos direitos fundamentais22. Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituição. 1176.25 Um fundamento é subjetivo quando se refere ao significado ou relevância da norma consagradora de um direito fundamental para o indivíduo. K. 23 HESSE. p.. op.. para a sua 18 CANOTILHO. 228. direitos do particular. p.. quando se fala em dimensão objetiva e dimensão subjetiva das normas consagradoras de direitos fundamentais.24 Na verdade. pretende-se salientar a existência de princípios e regras consagradores de direitos subjetivos fundamentais (dimensão subjetiva) e a existência de princípios e regras meramente objetivos (dimensão objetiva). J. Gomes. Elementos de direito constitucional da República Federal da Alemanha.J. 20 SARLET. cit. quer as normas impositivas de obrigações objetivas podem ter a natureza de princípio. cit. Hesse ensina que “nos direitos fundamentais da Lei Fundamental unem-se. O professor alemão informa que. op. p. 24 HESSE. cit. distintamente acentuadas e. A eficácia dos direitos fundamentais. Direito constitucional e teoria da Constituição.J. no âmbito da dogmática dos direitos fundamentais. cit. o destinatário e o objeto do direito. cit.. 1176. 19 7 . cit. em passagens correntes.2 Classificação por Canotilho: perspectivas subjetiva e objetiva dos direitos fundamentais Canotilho classifica as normas garantidoras de direitos fundamentais em normas garantidoras de direitos subjetivos e normas impositivas de deveres objetivos. Direito constitucional e teoria da Constituição. p. Direito constitucional e teoria da Constituição. op. muitas vezes. são elementos fundamentais da ordem objetiva da coletividade. K. várias camadas de significados”23. Elementos de direito constitucional da República Federal da Alemanha. cit.. op. constitui uma das mais relevantes formulações do direito constitucional contemporâneo. § 279.20 As dimensões subjetiva e objetiva dos direitos fundamentais não passou despercebida pelo professor Canotilho. 228-246. Elementos de direito constitucional da República Federal da Alemanha.

para a vida comunitária. nesse âmbito. p. constituem decisões valorativas de natureza jurídico-objetiva da Constituição. não. entretanto. tímida aplicação27. op. São Paulo : Atlas..26 A perspectiva objetiva dos direitos fundamentais encontra eco em todas as modernas teorizações sobre este tema. De tal tese resulta um corolário muito importante: o de que a proteção dos direitos fundamentais faz-se sob a forma de direito subjetivo. para os seus interesses e idéias. Márcio Iorio. apenas como garantias negativas de interesses individuais. op.. em primeira linha. tais direitos passaram a apresentar-se como um conjunto de valores objetivos fundamentais e fins diretivos da ação positiva dos poderes públicos e.J. cit. p.28 6.2. Direito constitucional e teoria da Constituição.”30 De acordo com a perspectiva objetiva dos direitos fundamentais. judiciários e executivos. por isso. para o desenvolvimento da sua personalidade. tal perspectiva ainda não foi objeto de estudos mais aprofundados. mas que.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva situação da vida.J. 1999. Por outro lado. op. J. adentrando com profundidade no tema. para o interesse público. 140. cit. A eficácia dos direitos fundamentais. Ingo W. 30 SARLET. para a sua liberdade.. 27 8 . p.29 O professor Ingo Sarlet ensina que “os direitos fundamentais não se limitam à função precípua de serem direitos subjetivos de defesa do indivíduo contra atos do poder público. No Brasil. Vale registrar. nota 308. ARANHA. falase em fundamentação objetiva quando se tem em vista o seu significado para a coletividade. 29 SARLET. além disso. Gomes. direitos individuais. A tese da subjetivação dos direitos fundamentais tem a vantagem de apontar para o dever jurídico do Estado de conformar a organização. 26 CANOTILHO.1 Perspectiva jurídico-objetiva dos direitos fundamentais O professor Ingo Sarlet justifica a opção pela terminologia ‘perspectiva’ – ao invés de ‘dimensão’ como é utilizado pela maioria dos autores – afirmando que assim o fez para evitar confusão com as gerações dos direitos fundamentais para as quais também é bastante utilizada a expressão ‘dimensão’. p. Quer significar a importância da norma para o indivíduo. 28 CANOTILHO. cit. Cf.. op. É a tese da subjetivação dos direitos fundamentais. segundo a qual tais direitos são. cit. 1178. 1179. Direito constitucional e teoria da Constituição. J. procedimento e processo de efetivação dos direitos fundamentais. com eficácia em todo o ordenamento jurídico e que fornecem diretrizes para os órgãos legislativos. 139. Canotilho anota que a doutrina defende uma presunção a favor da dimensão subjetiva dos direitos fundamentais. A eficácia dos direitos fundamentais. Interpretação constitucional e as garantias institucionais dos direitos fundamentais. de modo a que o indivíduo possa exigir algo de outrem e que este tenha o dever jurídico de satisfazer este algo. Gomes. Ingo W. a recém publicada obra do professor Márcio Iorio Aranha que cuida das garantias institucionais dos direitos fundamentais. encontrando.

35 31 SARLET. Ingo W. 32 9 . 141.34 Partindo dessa premissa pode-se afirmar que a perspectiva objetiva dos direitos fundamentais legitima não só restrições aos direitos subjetivos individuais com base no interesse comunitário prevalente. mesmo os clássicos direitos de defesa. Ingo W. p. cit. cit. cumpre destacar que a perspectiva objetiva dos direitos fundamentais constitui função axiologicamente vinculada. A eficácia dos direitos fundamentais.. Os leitores que se interessam sobre a problemática da restrição/conformação dos direitos fundamentais devem remeter-se ao capítulo IV dessa primeira parte da dissertação. ao seu reconhecimento pela comunidade na qual se encontra inserido e da qual não pode ser dissociado. todavia. por outro. por um lado. cit. podendo falar-se. nesse contexto. Por fim. uma ordem de valores fundamentais objetiva e. p. ainda que o núcleo essencial de tais direitos deva sempre ser preservado. mas também sob o ponto de vista da sociedade e da comunidade na sua inteireza. Trata-se. devem ter a sua eficácia valorada não só sob um ângulo individualista. 33 SARLET. Tanto regras quanto princípios podem ser consagradores de direitos subjetivos fundamentais como podem consagrar direitos meramente objetivos. SARLET. 143. portanto. op. O professor Ingo Sarlet afirma que todos os direitos fundamentais. de certa forma. A eficácia dos direitos fundamentais. A eficácia dos direitos fundamentais. demonstrando que o exercício dos direitos subjetivos individuais está condicionado. 141-142. Ingo W. com base na pessoa individualmente considerada e na sua posição perante o Estado.31 Há três aspectos de suma relevância para a compreensão da perspectiva objetiva dos direitos fundamentais. de uma responsabilidade comunitária dos indivíduos. A eficácia dos direitos fundamentais. cit. A eficácia dos direitos fundamentais. op. O primeiro deles é que inexiste paralelismo entre a perspectiva objetiva dos direitos fundamentais e os princípios.. 35 SARLET. aquilo que os direitos fundamentais concedem aos indivíduos em termos de autonomia decisória e de ação. 141-142 34 SARLET. A faceta objetiva significa que às normas que prevêem direitos subjetivos é outorgada uma função autônoma que transcende a perspectiva subjetiva. p. não exclui os efeitos jurídicos adicionais e autônomos inerentes à faceta objetiva.. Ingo W. op. de uma função objetiva reflexa de todo direito fundamental subjetivo. 143. cit. op.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva Lembra o professor Ingo Sarlet que a perspectiva objetiva dos direitos fundamentais não constitui um mero ‘reverso da medalha’ da perspectiva subjetiva. mas também contribui para a limitação do conteúdo e do alcance dos direitos fundamentais. o reconhecimento de efeitos jurídicos autônomos para além da perspectiva subjetiva.32 O segundo aspecto relevante que merece destaque é o de que a perspectiva objetiva expressa. op. incluída aí a existência de posições jurídicas fundamentais com normatividade restrita à perspectiva objetiva. bem como não há relação entre a perspectiva subjetiva e as regras. Ingo W.33 Na verdade. ou seja. a qual.. eles retiram objetivamente do Estado. p. p..

a qual. op. Ingo W. Trata-se da idéia de que os direitos fundamentais irradiam efeitos também para as relações privadas. Ingo W. também SARLET.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva Um outro desdobramento importante da perspectiva objetiva dos direitos fundamentais é destacado por Hesse e diz respeito à eficácia dirigente que tais direitos desencadeiam em relação aos órgãos estatais. sem dúvida. É o reconhecimento e destaque da perspectiva objetiva dos direitos fundamentais como um reforço e complementação da eficácia normativa de tais direitos. Os direitos fundamentais na Constituição portuguesa de 1976. a multiplicidade de significados inerentes aos direitos fundamentais na condição de elementos da ordem objetiva corre o risco de ser subestimada caso seja reduzida à dimensão meramente valorativa. ou seja. 37 10 . A eficácia dos direitos fundamentais. cit.40 Nesse contexto. op. A eficácia dos direitos fundamentais. Ingo W. 38 SARLET. 161. 145. Esta. VIEIRA DE ANDRADE. op. A eficácia dos direitos fundamentais. p. A eficácia dos direitos fundamentais. Um primeiro desdobramento dessa força jurídica autônoma dos direitos fundamentais diz respeito à sua eficácia irradiante. cit. a eficácia de tais direitos na esfera privada. Coimbra : Almedina. deve-se destacar a sua força jurídica autônoma. ou seja. cf. p. incumbindo-lhes da permanente função de concretização e realização de seu conteúdo essencial. cit. 144. na sua qualidade de normas de direito objetivo e independentemente de sua perspectiva subjetiva. p. 144. 145. 39 SARLET. revela-se semelhante à técnica da interpretação conforme a Constituição. servem. conforme bem lembra Ingo Sarlet. Ingo W. cit... op. como parâmetro para o controle de constitucionalidade das leis e demais atos normativos estatais. há que se considerar também as garantias institucionais. José Carlos... na condição de normas que incorporam determinados valores e decisões essenciais que caracterizam sua fundamentalidade. p. op. A eficácia dos direitos fundamentais. Ingo W. cit. os direitos fundamentais.. p. Nesse sentido cf.36 Os direitos fundamentais.37 Todos esses desdobramentos da perspectiva objetiva dos direitos fundamentais foram considerados partindo de sua acepção valorativa.39 Associada a essa eficácia irradiante encontra-se a problemática da eficácia horizontal dos direitos fundamentais. 145. não constituindo direitos oponíveis somente aos poderes públicos. na sua condição de direitos objetivos. é a faceta mais relevante de toda a problemática dos direitos fundamentais. fornecem impulsos e diretrizes para a aplicação e interpretação do direito infraconstitucional. o que aponta para a necessidade de desenvolvimento de uma interpretação conforme os direitos fundamentais. No entanto. em grande medida. nota 330. 40 SARLET. Constitui criação de Wolff e Schmitt no sentido de que existem determinadas instituições (direito público) e institutos 36 SARLET. p.38 Para além da concepção dos direitos fundamentais como uma ordem de valores objetiva. 1987.

um último e importante desdobramento da faceta objetiva dos direitos fundamentais revela a função de tais direitos como parâmetros para a criação e constituição de organizações ou instituições estatais e para o procedimento. cit.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva (direito privado) que. conferindo aos direitos fundamentais uma garantia de ordenação. ARANHA. Interpretação constitucional e as garantias institucionais dos direitos fundamentais. devem estar protegidas contra a ação erosiva do legislador. os direitos fundamentais atuam sobre o direito procedimental e as estruturas organizacionais. 169. A eficácia dos direitos fundamentais. op. p. Nesse âmbito. mas também contra agressões provindas de particulares e até mesmo de outros Estados. op. A eficácia dos direitos fundamentais. São palavras do autor: “Elas garantem os direitos fundamentais pela ordenação e dotação das esferas individuais como elementos de organização objetiva do ente estatal”. Márcio. op. como também um lado jurídico-objetivo. da incumbência de o Estado adotar medidas positivas com o objetivo de proteger de forma efetiva o exercício dos direitos fundamentais..” 42 Márcio Aranha anota que a conceituação das garantias institucionais foi uma tentativa de dotar de maior coerência a conformação objetiva dos direitos fundamentais. 146-147. A eficácia dos direitos fundamentais. Márcio I. 44 SARLET. que se relacionam mutuamente. p. op.45 41 SARLET. p.. 41 As garantias institucionais foram objeto de criterioso estudo de nosso colega Márcio Iório Aranha. Ingo W. Trata-se. que se relacionam mutuamente: “O objetivo maior da compreensão institucional dos direitos fundamentais é de tornar claro que tais direitos possuem não somente um lado jurídico-individual-subjetivo. 168. bem como para uma formatação do direito organizacional e procedimental que auxilie na efetivação da proteção a tais direitos. Interpretação constitucional e as garantias institucionais dos direitos fundamentais.. nota 2. 42 11 . Ingo W. 43 ARANHA. faces subjetivas e objetivas.43 Uma outra faceta autônoma da perspectiva objetiva dos direitos fundamentais são os chamados deveres de proteção do Estado. cit. 45 SARLET.44 Por fim. por sua importância. tem-se que ao Estado incumbe zelar pela proteção dos direitos fundamentais dos indivíduos não somente contra os poderes públicos. sustenta-se que com base no conteúdo das normas de direitos fundamentais é possível extrair conseqüências para a aplicação e interpretação das normas procedimentais. cit. cit. Assim.. tendo em vista que deu racionalidade às mudanças de conteúdo impostas pelo contexto social. 147-148. portanto. 145. Ingo W. p.. Nesse sentido. p. apresenta definição de Horst Tilch. cit. Márcio I. tentando ilustrar a afirmação de que as garantias institucionais pressupõem uma interação subjetivo-objetiva dos direitos fundamentais. op.

Ingo W. 48 SARLET. cit. op. SARLET. É acirrada a 46 SARLET. está-se. cit..”47 Vale destacar que a descoberta e o desenvolvimento de novas funções dos direitos fundamentais constitui problema de natureza essencialmente hermenêutica. 47 12 . A eficácia dos direitos fundamentais. p. formada entre o titular. Ingo W. acima de tudo. op.49 Vale registrar que existem numerosas variantes apontadas na doutrina sobre as possibilidades ligadas à noção de direito fundamental na condição de direito subjetivo. Ingo W.46 O professor Ingo Sarlet anota: “Esse processo de valorização dos direitos fundamentais na condição de normas de direito objetivo enquadra-se. e não apenas daqueles que garantiram para si sua independência social e o domínio de seu espaço de vida pessoal . 49 SARLET. cit. independentemente de uma eventual possibilidade de subjetivação. Desde logo transparece a idéia de que o direito subjetivo consagrado por uma norma de direito fundamental manifesta-se por meio de uma relação trilateral. p. p.. reacendendo o eterno dilema representado pela relação dinâmica e dialética entre a norma jurídica e a realidade para a qual se projeta. naquilo que foi denominado de uma autêntica mutação dos direitos fundamentais. cit.2. op. o objeto e o destinatário do Direito. 148.. 150. 149.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva Deve-se registrar que a descoberta da perspectiva jurídico-objetiva dos direitos fundamentais revela. p. que tais direitos para além de sua condição de direitos subjetivos permitem o desenvolvimento de novos conteúdos que. por meio da interpretação. como também pela conscientização da insuficiência de uma concepção dos direitos fundamentais como direitos subjetivos de defesa para a garantia de uma liberdade efetiva para todos. Ingo W. A eficácia dos direitos fundamentais. Nesse sentido. assumem papel de alta relevância na construção de um sistema eficaz e racional para sua própria efetivação. A eficácia dos direitos fundamentais.. op. serem incorporados novos conteúdos ao programa normativo dos direitos fundamentais. a partir de tal problemática. 148. de outra banda. provocada não só – mas principalmente – pela transição do modelo de Estado liberal de Direito para o do Estado social e democrático de Direito.48 6. A eficácia dos direitos fundamentais.2 Perspectiva jurídico-subjetiva dos direitos fundamentais O professor Ingo Sarlet esclarece que quando faz referência aos direitos fundamentais como direitos subjetivos tem em mente a noção de que ao titular de um direito fundamental é aberta a possibilidade de impor judicialmente seus interesses juridicamente tutelados perante o destinatário. pois encontra-se vinculado à possibilidade de.

3 Liberdades Uma outra posição jurídica fundamental é expressa pela categoria jurídico-dogmática de liberdades.2. Gomes.2 Direitos a ações positivas São direitos dos indivíduos a ações positivas do Estado.2. O princípio da proporcionalidade e o controle de constitucionalidade das leis restritivas de direitos fundamentais. BARROS.1 Direitos a atos negativos Os direitos fundamentais são garantidos como direitos a atos negativos numa tripla perspectiva: a) direito ao não impedimento por parte dos entes públicos de determinados atos.2. de movimentos. Os direitos fundamentais na Constituição portuguesa de 1976. 1180. Cf. p.2. O professor Ingo Sarlet afirma que a proposta que tem angariado a simpatia da melhor e mais atualizada doutrina. significa direito à liberdade física. suficientemente elástica para adaptar-se à noção de direito subjetivo em sentido amplo e compatível com o sistema constitucional positivo vigente no Brasil. 6. Canotilho ensina: Liberdade. Brasília : Editora Brasília Jurídica.52 6.J. Direito constitucional e teoria da Constituição. 1996. cit.51 6.2. de forma que se torna imprescindível tomar posição pessoal diante do debate. 13 . posições e relações constitutivas dos direitos subjetivos fundamentais são muito diferenciadas e se se quiser compreender o sistema estrutural das posições jurídicas fundamentais é necessária a iluminação de alguma dessas posições. 1180-1181. liberdades (negação de exigências e proibições) e poderes (competências ou autorizações). Coimbra : Almedina.50 Canotilho ensina. sendo. neste âmbito que as normas. ou seja. que edificou sua concepção de direitos fundamentais subjetivos – que chamou de sistema das posições jurídicas fundamentais – no tripé: direitos a qualquer coisa (que englobam tanto os direitos de defesa quanto os direitos a prestações positivas do Estado). o qual pode ser direito a uma ação positiva de natureza fática (direitos a prestações fáticas) e direito a um ato positivo de natureza normativa (direitos a prestações normativas). Já liberdades (liberdade de 50 Cf. 52 CANOTILHO. também VIEIRA DE ANDRADE. Tradicionalmente ligado aos direitos de defesa perante o Estado. Gomes. no sentido de direito de liberdade.2. José Carlos. SARLET.. e c) direito a não eliminação de posições jurídicas. p. 51 CANOTILHO. Direito constitucional e teoria da Constituição. p. Susana de Toledo. o conceito de liberdades aparece ainda bastante obscuro na doutrina. é a formulada por Robert Alexy.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva controvérsia nesta seara.J. op. 1987. A eficácia dos direitos fundamentais. b) direito a não intervenção dos entes públicos em situações jurídico-subjetivas. além disso. J. 151. direito de não ser fisicamente condicionado a um espaço ou impedido de se movimentar. J. Ingo W.

J. cumpre referir a existência de uma presunção em favor da prevalência da perspectiva subjetiva dos direitos fundamentais sobre a sua perspectiva objetiva.. cit. 58 Essas afirmações também foram feitas por Alexy. 1182.J. associação.57 6. Ingo W. como exemplo de uma grande conceituação e teorização jurídica. cit. Direito constitucional e teoria da Constituição. Direito constitucional e teoria da Constituição. op. op. lembra o professor Ingo Sarlet a lição de Alexy. conforme ensina o professor Canotilho. Nesse contexto. e no caráter principiológico dos direitos fundamentais. no 5º Capítulo de sua obra.. conseqüentemente.58 53 CANOTILHO. Direito constitucional e teoria da Constituição. as quais. Cf. destacando-se o fato de que o reconhecimento de um direito subjetivo significa um grau maior de realização do que a previsão de obrigações de cunho meramente objetivo. Teoria de los derechos fundamentales. 55 CANOTILHO. 57 SARLET. Robert. as posições jurídicas fundamentais. A atualidade da teoria de Jellinek é incontestável e a referência a ela está justificada não só por sua importância histórica. Gomes.2. consciência.55 As competências contribuem para a criação de alternativas ativas e a sua idéia deve estar articulada com a doutrina civilista. etc) costumam ser caracterizadas como posições fundamentais subjetivas de natureza defensiva. 54 14 . J. 1180. sob o título Derecho fundamental y estatus.J. informação. p.53 Vale registrar que as liberdades geralmente identificam-se com direitos a ações negativas. da coletividade). cit. 56 CANOTILHO.56 Por fim. 1182-1183.. cit. pois os direitos de conformação devem levar em conta a problemática teórica dos direitos fundamentais como complexos de posições jurídicas. op.4 Competências Uma outra posição jurídica que se apresenta no âmbito dos direitos fundamentais diz respeito ao poder jurídico e ao direito de conformação que é dado por determinadas normas de direitos fundamentais. 152-153.54 6. para quem a referida presunção encontra sustentação em dois argumentos: na finalidade precípua dos direitos fundamentais (proteção do indivíduo e. 1182-1183. não. cit.2. tendo em vista que consiste na possibilidade de o indivíduo praticar determinados atos jurídicos e.. A eficácia dos direitos fundamentais. pode estar em íntima conexão com o próprio exercício de direitos fundamentais. como também pelo fato de que ela segue tendo valor e importância para a classificação dos direitos fundamentais. p. por meio desses atos. Direito constitucional e teoria da Constituição. J. J..3 Classificação de Jellinek Foi Jellinek quem apresentou pela primeira vez a teoria da multifuncionalidade dos direitos fundamentais. p. cit. CANOTILHO. Gomes. op. op. p.J.. no seu conjunto e nas suas articulações formam o direito fundamental como um todo. op. 247 e ss. ALEXY. alterar. Gomes. p. p.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva expressão. O exercício de competências.J. Gomes.

A eficácia dos direitos fundamentais. op. em princípio. status negativo – é reconhecida ao indivíduo uma esfera individual de liberdade imune ao poder estatal. Porto Alegre : Livraria dos Advogados. Ingo W.. Acho interessante conferir as lições do professor Ingo Sarlet nesse particular: SARLET. de acordo com a lição de Jellinek. tendo em mente que para Jellinek as liberdades do indivíduo eram exercidas apenas no âmbito da lei.61 Jellinek.63 As principais insuficiências da teoria de Jellinek. p. 154. a qual foi enormemente utilizada pelos doutrinadores contemporâneos como referencial para a classificação dos direitos fundamentais. 61 SARLET. 155. A eficácia dos direitos fundamentais. na formulação que lhe deu Alexy. integram a perspectiva subjetiva59. Ingo W. passa a ser considerado como titular de competências que lhe garantem a possibilidade de participar ativamente da formação da vontade estatal. op.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva A teoria de Jellinek preparou o terreno para o nascimento e desenvolvimento da teoria da dupla perspectiva dos direitos fundamentais – subjetiva e objetiva – a qual informa que tais direitos exercem várias e diversificadas funções na ordem jurídica. p. 60 15 . doze funções típicas60 atualmente exercidas pelos direitos fundamentais. p. segundo a qual o indivíduo vinculado a determinado Estado pode posicionar-se perante este através de quatro situações jurídicas. o que hoje já não é mais concebível. ou quatro status conforme ensinou Jellinek: status passivo – o indivíduo está subordinado aos poderes estatais. 153-154. e status ativo – o indivíduo. como por exemplo. Ingo W. nota 362. 62 SARLET. p. 155. na visão do professor Ingo Sarlet. estando. p.. O professor Ingo Sarlet anota. A eficácia dos direitos fundamentais. quanto da circunstância de existir um leque de posições jurídico-subjetivas. à disposição do legislador infraconstitucional. e b) conceber-se o status do indivíduo garantido pelo direito fundamental não como uma situação 59 SARLET. cit. nesse contexto. considerado cidadão. status positivo – é assegurada ao indivíduo a possibilidade de utilizar-se das instituições estatais e delas exigir determinadas ações positivas. cit. 1998. Ele observa que a constatação da multifuncionalidade dos direitos fundamentais não constitui nenhuma novidade e pode ser reconduzida à teoria dos quatro status de Jellinek. desenvolvida no final do século passado. em obra intitulada Sistema dos Direitos Subjetivos Públicos (System der subjektiv öffentlichen Rechte) formulou concepção original. 1998.62 O professor Ingo Sarlet anota que. Ingo W. Ingo W. portanto. que.. A eficácia dos direitos fundamentais. com fundamento em uma síntese de diversos trabalhos. É de ter-se em mente que as liberdades e os direitos individuais em geral vinculam também o legislador. são as seguintes: a) necessidade de proceder-se a uma releitura do status negativo. o que decorre tanto das conseqüências atreladas à faceta jurídico-objetiva. 154. sendo. 63 SARLET. cit. op. A eficácia dos direitos fundamentais. o status seria uma espécie de estado ou situação na qual se encontra o indivíduo e que qualifica sua posição perante o Estado e sua relação com ele. através do direito de voto. meramente detentor de deveres. Porto Alegre : Livraria dos Advogados.

p. principalmente. p. o qual diz respeito à dimensão procedimental e organizatória dos direitos fundamentais. 157. que expressa a consagração dos direitos sociais..65 O professor Ingo Sarlet observa que as lições de Jellinek foram sendo. op. mas. é a concepção de Alexy que também é inspirado.64 Alexy afirma que não há como olvidar que a posição jurídica global do indivíduo também pode ser analisada com base numa perspectiva formal. A eficácia dos direitos fundamentais. embora parcialmente. 67 SARLET. complementadas pela doutrina. ao longo do tempo.. Outro importante referencial. assume relevância na medida em que não é apenas necessário que se questione a respeito do conteúdo das normas de direitos fundamentais que fundamentam o status individual. e SARLET.66 É relevante o fato de que a teoria dos quatro status de Jellinek. o qual não se encontra à disposição ilimitada nem do indivíduo nem dos poderes públicos. que. cit. Ingo W. Robert. econômicos e culturais de natureza prestacional. op. 66 SARLET. por outro lado. com conteúdo concreto e determinado. op. Em Portugal.. 263-264. mas. o professor Canotilho e Vieira de Andrade seguiram a formulação que será aqui 64 SARLET. não obstante as críticas e reparos que sofreu ao longo do tempo. Teoria de los derechos fundamentales. além de constitucionalmente adequada. cit. p. Assim.. 157. sobre a estrutura jurídico-formal que as normas devem possuir para exercerem essa função. cit. além da já sugerida releitura do status negativo. nas lições de Jellinek.. como um status jurídico material. Ingo W. foi mantida viva mediante um contínuo processo de redescoberta pela teoria constitucional. na qualidade de parâmetro para a classificação dos direitos fundamentais. cit. 156-157. sim. o professor Ingo Sarlet sustenta que a doutrina de Jellinek é a que apresenta uma das vertentes mais férteis para a obtenção de uma proposta de classificação dos direitos fundamentais cientificamente resistente. cumpre observar que o status ativo foi alargado para que nele também pudesse ser integrado o status ativo processual de Peter Häberle. além de não ser incompatível com uma concepção material.67 Diante das diversas possibilidades classificatórias. nota 375. que a adaptou às funções que atualmente são atribuídas aos direitos fundamentais e que não correspondem mais ao ambiente no qual foi desenvolvida a teoria dos quatro status. não exclui a correta observação de que mediante as normas de direitos fundamentais o indivíduo é conduzido a status jurídicos com determinado conteúdo. status jurídico-material. A eficácia dos direitos fundamentais. Ingo W. Merece destaque também o status positivo social. A eficácia dos direitos fundamentais. p. op.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva meramente formal. 65 16 . ou seja. sim. A eficácia dos direitos fundamentais. Este autor aponta para a circunstância de que o objeto da teoria de Jellinek é a estrutura formal das posições jurídicas fundamentais do indivíduo e que tal perspectiva. op. conforme anota o professor gaúcho. relativa ao indivíduo abstrato. p. ALEXY. Ingo W. 157. Cf. cit.

cit. 161.68 O professor Ingo Sarlet propõe uma classificação dos direitos fundamentais. op. cit. Isso porque também a democracia social necessita de direitos de defesa que coíba o abuso de poder e excesso de poder dos agentes estatais.1 Os direitos fundamentais como direitos de defesa Vinculam-se diretamente à concepção liberal do Estado de Direito. a sua concepção original ainda toma dimensão relevante no contexto da dogmática dos direitos fundamentais. São os clássicos direitos fundamentais. além e acima de tudo. os direitos fundamentais objetivam limitar o poder estatal. O segundo grupo divide-se. op. normas de competência negativa para os poderes públicos. o poder de exercer positivamente 68 SARLET.”70 O professor Canotilho ensina que os direitos fundamentais cumprem a função de direitos de defesa. 70 SARLET. tendo como ponto de partida as funções exercidas por estes direitos. Ingo W. garantem ao indivíduo proteção diante das ingerências do Estado em sua liberdade pessoal e propriedade. os quais. sob uma dupla perspectiva: 1) constituem. 166-167. 2) implicam. num plano jurídico-objetivo. em primeiro plano.. pois. em que pese o reconhecimento de diversas outras funções dos direitos fundamentais. 69 17 . op. por meio da omissão de ingerências ou pela intervenção na esfera de liberdade pessoal apenas em determinadas hipóteses e sob certas condições. implicando para estes um dever de respeito a determinados interesses individuais. p.3. a qual considera constitucionalmente adequada. Ademais. Ingo W. Mesmo já tendo passado mais de duzentos anos de história dos direitos fundamentais. 167-168. em dois subgrupos: o dos direitos a prestações em sentido amplo (direitos de proteção e direitos à participação na organização e procedimento) e os direitos a prestações em sentido estrito (direitos a prestações materiais sociais). cit. O professor Ingo Sarlet define os direitos fundamentais de defesa como aqueles que impõem “uma obrigação de abstenção por parte dos poderes públicos. a sua condição de direito de defesa continua ocupando um lugar de destaque. A classificação mais adequada na minha concepção é a apresentada por SARLET. Tal classificação parte de dois grandes grupos: os direitos fundamentais na condição de direitos de defesa e os direitos fundamentais como direitos a prestações (de natureza fática e jurídica).. Ingo W. assegurando ao indivíduo uma esfera de liberdade e lhe outorgando um direito subjetivo de igualdade. A eficácia dos direitos fundamentais. p. num plano jurídico-objetivo. proibindo fundamentalmente a ingerências destes na esfera individual.69 6.. p.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva apresentada: uma proposta classificatória que leva em consideração o critério funcional dos direitos fundamentais. A eficácia dos direitos fundamentais. A eficácia dos direitos fundamentais. igualmente.

73 Vale registrar que há alguns trabalhos sobre o tema já na bibliografia jurídica brasileira. cit. Gomes. Direitos fundamentais e direito privado: algumas considerações em torno da vinculação dos particulares aos direitos fundamentais. Na Constituição brasileira de 1988. tópico 2. de forma a evitar agressões lesivas por parte dos mesmos.. direitos sociais.3. J. 2000. Ingo W. direitos individuais de expressão coletiva. p. abrangendo também as mais diversas posições jurídicas que os direitos fundamentais intentam proteger contra ingerências dos poderes públicos. 1178-1183.1. p. A relevância dessa distinção se manifesta não somente no que diz com os aspectos procedimentais ligados a efetivação dos direitos individuais e coletivos. garantindo-lhe a manifestação e proteção de sua personalidade em todos os seus aspectos e perante os demais indivíduos da comunidade. e último aspecto. de eficácia privada (ou horizontal) dos direitos fundamentais. 170. direitos coletivos. op.. os direitos de defesa são encontrados sob diversos títulos: direitos individuais. Porto Alegre : Livraria do Advogado. cit. mas pode assumir real importância no que tange à sua interpretação.4. in AConstituição concretizada: construindo pontes com o público e o privado.J. A eficácia dos direitos fundamentais. Ingo W. direitos à nacionalidade e à cidadania e garantias fundamentais. p. op.1 Os direitos individuais e coletivos no âmbito dos direitos de defesa. A eficácia dos direitos fundamentais. Cf.1. 169. o segundo se relaciona com a identificação dos direitos que efetivamente podem ser qualificados como direitos coletivos e o terceiro..UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva direitos fundamentais (liberdade positiva) e de exigir omissões dos poderes públicos. CANOTILHO. 72 SARLET. cit. São três os aspectos que devem ser considerados quanto à referida distinção: o primeiro diz respeito a diferenciação entre direitos e garantias individuais e direitos coletivos propriamente ditos. Ingo W. 6. 74 SARLET. diz respeito à relação e correspondência entre os direitos individuais e coletivos e os direitos de defesa. op. e ainda pouco estudada 73. a qual vem corroborar a idéia de que existe uma esfera de autodeterminação (autonomia) do indivíduo que é intangível. Por todos vide: SARLET. 107-163.71 O professor Ingo Sarlet anota que os direitos de defesa não se limitam às liberdades e ao direito de igualdade. Direito constitucional e teoria da constituição. deve-se rechaçar toda e qualquer intenção de fazer corresponder a função de direito de defesa com qualquer um destes títulos . 18 .74 71 Tais considerações já foram explicitadas no capítulo II da Parte I. A distinção que o constituinte de 1988 tentou traçar entre direitos e garantias individuais e direitos coletivos revela-se uma novidade do direito constitucional brasileiro. 72 E aqui vale lembrar que há também a perspectiva recente. p. Assim sendo.

O professor Ingo Sarlet afirma que nos direitos de terceira dimensão a faceta coletiva assume características preeminentes e bem diversas das que se aplicam aos direitos individuais de expressão coletiva constantes do catálogo de direitos fundamentais da Constituição de 1988. A eficácia dos direitos fundamentais. p. para este autor os direitos individuais são aqueles que reconhecem autonomia aos particulares. não lhes retira a qualidade de direitos individuais. A eficácia dos direitos fundamentais. cit. o direito ao desenvolvimento.. 171. Isso porque se trata de direitos individuais que necessitam da coletividade como sujeito. 171. no âmbito da tradição liberal. Ou seja. VIEIRA DE ANDRADE. . na verdade. à pessoa individual. a coletividade passa a ser apenas um instrumento para o exercício do respectivo direito coletivo. José Carlos. p. SARLET. Coimbra : Almedina.78 Ingo Sarlet conclui que os direitos individuais e coletivos. ou seja. nota 399. 77 Cf. p. cit. dos direitos fundamentais cuja titularidade foi outorgada à coletividade.76 A existência de direitos coletivos típicos e o que isto significa para o direito constitucional pátrio não ficou. Os direitos fundamentais na Constituição portuguesa de 1976. Curso de Direito Constitucional positivo. José Afonso da. porque pressupõe uma atuação conjunta de mais de uma pessoa individual. op. e. Ingo W. p. 2001.. 5º e incisos. Ingo W. São Paulo : Malheiros.77 Vale ressaltar e não confundir os direitos individuais de expressão coletiva com os direitos de terceira dimensão. para quem os direitos individuais constituem direitos fundamentais do homem-indivíduo75. A grande maioria dos dispositivos elencados sob o título de coletivos são. porém. op. 76 19 . os direitos fundamentais da primeira dimensão. 174.. o direito à autodeterminação dos povos e o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. citado por SARLET. direitos tipicamente individuais. garantindo-lhes a iniciativa e independência diante dos demais membros da sociedade política e do próprio Estado. Ingo W. ou seja. ainda que de expressão coletiva. 75 SILVA. José Carlos Vieira de Andrade ensina que a circunstância de que os direitos coletivos não poderem ser usufruídos pelo indivíduo isoladamente. aos clássicos direitos de liberdade. 170. cit. 1987. claro. Já os direitos coletivos são aqueles direitos fundamentais do homem-membro de uma coletividade. da Constituição de 1988. juntamente com os direitos individuais propriamente ditos. 78 SARLET. De plano.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva Como ponto de partida para a distinção entre direitos e garantias individuais e coletivos pode-se tomar a lição de José Afonso da Silva. correspondem. na verdade. é possível verificar que o constituinte de 1988 não deixou transparecer uma definição precisa e definitiva do que seriam os direitos coletivos. São exemplos dos direitos de terceira dimensão: o direito à paz. tais como arrolados no art. op. não. Diversos direitos individuais de expressão coletiva integram. A eficácia dos direitos fundamentais. p. em princípio.

op. ou mesmo. A eficácia dos direitos fundamentais. Ingo W.). p. apesar da denominação de direito social. não apenas pelo fato de negligenciar a dimensão individual dos demais direitos individuais.3 Os direitos fundamentais da nacionalidade e cidadania como direitos de defesa Os direitos fundamentais de nacionalidade e cidadania constituem posições jurídicas fundamentais caracterizadoras do status activus de Jellinek.84 Verifica-se que a grande maioria desses direitos constituem típicos direitos de defesa. como leciona a melhor doutrina sobre o assunto. nesse sentido a obra de FARIAS. 84 Cf. op.. também direitos individuais com acentuada dimensão social (como o direito de propriedade). cit. 81 SARLET. 83 SARLET. 80 20 . ainda que não se possa ocultar a inserção de novas liberdades e garantias. A eficácia dos direitos fundamentais. Ingo W. 80 A partir dessa constatação. p.81 6. 174. também no catálogo do art.3. primordialmente a função de direitos de defesa. Porto Alegre : Sérgio Antonio Fabris. SARLET. desde logo. em última análise. conforme já explicitado. 1996.2 Os direitos fundamentais sociais como direitos de defesa Os direitos fundamentais sociais da Constituição de 1988 abrangem tanto aqueles direitos que expressam posições jurídicas tipicamente prestacionais (como o direito à saúde. op. utilizada pelo legislador constituinte de 1988. p. Edilson Pereira de. Ingo W. p. cit. percebese. 173. cit.83 6. 79 SARLET.. 92. op. A eficácia dos direitos fundamentais. 172-173. consistem em direitos de não-intervenção do Estado no poder-dever de atuar na conformação da vontade política. 174. à assistência social. tais dispositivos contêm típicos direitos de defesa.. além de uma absoluta maioria de direitos de defesa.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva exercendo.. tendo em vista que. no âmbito das denominadas liberdades sociais.82 Impende ressaltar que. O professor Ingo Sarlet afirma que uma boa parte dos direitos dos trabalhadores positivados nos arts. independentemente da possibilidade de enquadrarmos a maior parte dos direitos ali expressos neste grupo. situando-se. 172. mas também por ter gerado uma equivocada equiparação entre o conceito de direitos individuais e o de direitos de defesa (liberdade).. encontram-se. 82 SARLET. e até mesmo direitos a prestações (como por exemplo o direito de acesso à justiça). na doutrina brasileira mais atualizada a denominação de direitos de participação. concretizações do direito de liberdade e do princípio da igualdade. 5º.1. cit.3. A eficácia dos direitos fundamentais. posições jurídicas dirigidas a uma proteção contra ingerências por parte dos poderes públicos e entidades privadas.79 Deve-se salientar ainda que. p. op. Ingo W.1. p. Colisão de direitos. a inadequação da terminologia ‘direitos e garantias individuais e coletivos’. à educação. quanto uma gama diversa de direitos de defesa. na verdade. Ingo W. 7º a 11 da Constituição são. recebendo. A eficácia dos direitos fundamentais. cit. etc. da Constituição.

Assim sendo. tornando-o membro da comunidade política. op. A nacionalidade. 175. 14 a 16 da CF/88) e as normas que disciplinam os partidos políticos (art. associação. manifestando-se por meio de uma íntima vinculação entre os direitos políticos e as liberdades de reunião. os direitos políticos (arts. os direitos da nacionalidade (art. 176. op. cit. é o vínculo jurídico e político que une um indivíduo a determinado Estado. constata-se que o direito de cidadania (direitos políticos) é de abrangência mais restrita que os de nacionalidade. de acordo com a lição do professor Ingo Sarlet. os quais são igualmente fundamentais para a ordem democrática.86 A partir do momento que os direitos de cidadania são considerados direitos de participação na atividade estatal e na condução do interesse público. existe uma estreita conexão entre os direitos de nacionalidade (arts.. A eficácia dos direitos fundamentais. Ingo W. agrupados sob a denominação de direitos da cidadania.. 86 21 . p. de imprensa e comunicação em geral. na condição de posição jurídica fundamental..87 O professor Ingo Sarlet. Ingo W. A eficácia dos direitos fundamentais. p. 178.88 85 SARLET. cit.. cit. Já a cidadania constitui a possibilidade de o indivíduo ser titular de direitos políticos. p. contudo. tendo em vista que formam. Ingo W. apoiado em Hesse e Klaus Stern. 87 SARLET. 12 da CF/88) regulam basicamente os pressupostos que o indivíduo deve preencher para alcançar a nacionalidade brasileira. 12 e 13 da CF/88). uma espécie de status global da liberdade. Uma conseqüência importante disso reside no fato de que os direitos políticos do status civitatis podem ser enquadrados tanto no grupo funcional dos direitos de defesa. mas apenas dos que atendem aos requisitos constitucionais. Segundo o professor gaúcho. informação. de modo que a aquisição de nacionalidade. 88 SARLET. cit. op. juntamente com estes. p. A eficácia dos direitos fundamentais. eles podem ser enquadrados no status civitatis de Jellinek. formado pelos nacionais e cidadãos. Ingo W. 17 da CF/88). IV e V da Constituição. A eficácia dos direitos fundamentais.85 Nesse contexto.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva Ingo Sarlet defende que uma abordagem apropriada dos direitos de cidadania seria aquela em que se conjugariam os direitos fundamentais. como no grupo dos direitos prestacionais (como sugere expressamente Alexy com a denominação direitos à participação na organização e procedimento). não pode ser considerada como sendo direito de todos. SARLET. Não se pode olvidar que os direitos de cidadania têm sua titularidade atribuída a um específico grupo de pessoas. Ora. sustenta que os direitos políticos não podem ser desvinculados dos direitos pessoais de liberdade. revela-se importante distinguir a nacionalidade da cidadania. 178. elencados nos capítulos III. op.

92 SARLET. Ingo W. SARLET. p. Segundo Ingo Sarlet. os quais asseguram ao indivíduo a possibilidade de exigir dos poderes públicos o respeito e a efetivação dos direitos fundamentais. p. atentando-se para o critério da predominância desta função. cit. além de legitimarem ações estatais para defesa dos direitos fundamentais. A eficácia dos direitos fundamentais. no caso a de direitos de defesa.3. Ingo W. embora não se tenha como negar que a imprecisa terminologia ‘garantias constitucionais’ acabou por gerar uma série de equívocos e que as garantias da Constituição também podem ser consideradas. quanto pelo status positivus. ressaltando-se a opção de Ingo Sarlet pelo enquadramento dos direitos políticos no grupo dos direitos de defesa. além de conterem garantias.89 6. por óbvio. op. como garantias dos direitos fundamentais.2 As garantias fundamentais (direitos-garantias e garantias institucionais) As garantias fundamentais não se confundem com as garantias da Constituição. 180. é neste sentido que também se fala de direitos-garantias.90 Na concepção de Ruy Barbosa. autênticos direitos subjetivos. op.. É importante ressaltar que as garantias fundamentais são. 177. ao mesmo tempo. podem.92 89 SARLET. que os seus desdobramentos de natureza prestacional sejam reconhecidos a essa categoria. op.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva A utilização do critério da função preponderante. O enquadramento dos direitos políticos nos direitos de defesa não exclui.. A eficácia dos direitos fundamentais. em sentido amplo. Na doutrina constitucional advinda com a carta de 1988. para efeitos de uma classificação sob o ângulo funcional. Ingo W. Em última análise. na verdade. as garantias podem ser consideradas como as formalidades que cercam os direitos com a finalidade de protegê-los contra o abuso de poder 91. 178-179. 91 Apud SARLET. já que estes dispositivos. defende-se que as garantias fundamentais apresentam papel instrumental em relação aos direitos fundamentais. 179.. A eficácia dos direitos fundamentais. cit. 90 22 . fundamentar posições jurídicas subjetivas individuais e autônomas. servindo como instrumentos de efetivação dos direitos por elas protegidos. Ingo W. cit. p. ser absorvido tanto pelo status negativus e libertatis. normas de competência ou regras para uma atuação estatal com vista a proteção de outros direitos. justifica-se também pelo fato de que a dimensão prestacional dos direitos políticos assumem caráter apenas indireto. cit. já que estão umbilicalmente ligadas aos direitos fundamentais. p.. verifica-se que o status activus de Jellinek pode. op. A eficácia dos direitos fundamentais.

cuja importância a Constituição reconhece como fundamental para a sociedade. integrando a categoria dos direitos à participação na organização e no procedimento. como o professor Paulo Bonavides. considerando o relevante papel que elas exercem na preservação do núcleo essencial dos direitos fundamentais contra restrições do legislador ordinário. cit. a possibilidade de se defender de ingerências indevidas em sua esfera privada. nega a importância das garantias institucionais. ainda é discutível na doutrina jurídica pátria e estrangeira. encontram-se. seja brasileiro ou estrangeiro. op. que. no catálogo dos direitos fundamentais da constituição de 1988. naquilo que compõe a sua identidade... o que se aplica principalmente às garantias de cunho processual. cit.. A importância das garantias fundamentais. há autores. das garantias fundamentais. Ingo W. p. A eficácia dos direitos fundamentais. op. nenhum autor. p. agressões a seus direitos. também algumas garantias institucionais típicas. A eficácia dos direitos fundamentais. Apesar de os portugueses insistirem na necessidade de não se confundirem os direitos fundamentais e as garantias institucionais. Ingo W. Entre eles destacam-se os denominados remédios constitucionais. A função primordial das garantias institucionais é a de preservar a permanência da instituição no que diz com seus traços essenciais. portanto. inclusive na condição de integrante de uma coletividade. cit. Contudo.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva É importante observar que a maior parte dos dispositivos que integra o capítulo dos direitos individuais e coletivos está enquadrada na categoria dos direitos-garantias. protegendo-se contra abuso de poder. Ingo W. A eficácia dos direitos fundamentais. além de viabilizar a efetivação dos direitos e garantias fundamentais em geral. op.95 As garantias institucionais podem ser consideradas espécies do gênero garantias fundamentais. ou seja. 180. 95 SARLET. que. ou seja. na sua maioria. p. da mesma dignidade daqueles em nossa ordem 93 SARLET. assume o caráter de direitos-garantias. As garantias institucionais são aquelas que conferem proteção a algumas instituições.94 Importa salientar que os direitos fundamentais na condição de garantias institucionais protegem o núcleo essencial de determinados institutos jurídico-privados (garantias de institutos) e jurídico-públicos (garantias institucionais). Ao lado de uma grande maioria de direitos e garantias. que afirmam que tal distinção não deve ser interpretada como absoluta. 94 23 . SARLET. gozando. 183. 181. nessas suas duas dimensões. além de sua função instrumental (assecuratória e protetiva) podem ser consideradas como autênticos direitos subjetivos.93 Diversos desses direitos-garantias podem ser importados para o status activus processualis de Peter Häberle. que constituem procedimentos de matriz constitucional os quais outorgam ao indivíduo. Vale ressaltar que as garantias fundamentais não possuem regime jurídico distinto dos direitos fundamentais propriamente ditos.

186. ou não.3 Direitos fundamentais como direitos a prestações Os direitos a prestações. 185. no âmbito da proposta classificatória por ele implementada. partindo da premissa de que o indivíduo. ao indivíduo um direito subjetivo. para poder desenvolver e gozar plenamente de seus direitos fundamentais. Para o professor gaúcho. p. preferiu-se colocá-las como uma categoria a parte. e não entre os direitos a prestações. a uma posição de respeito e abstenção por parte dos poderes públicos. A eficácia dos direitos fundamentais. muitas vezes. implicam uma postura ativa do Estado. inserem-se ao lado dos direitos-garantias.se no contexto dos direitos de defesa. A eficácia dos direitos fundamentais. cit. op. 99 SARLET. A eficácia dos direitos fundamentais. A eficácia dos direitos fundamentais. para dar destaque a sua importância e para demonstrá-la como um terceiro gênero entre direito de defesa e direito a prestações. depende de uma postura ativa dos poderes públicos.. Ingo W. enquadrando.3. mas também da liberdade por intermédio do Estado. op. 184. correspondendo à evolução do Estado de Direito liberal para o Estado de Direito democrático e social. 97 24 . A importância das garantias institucionais reside na constatação de que. os direitos a prestações. e ressalvados os avanços registrados ao longo do tempo. p.97 Neste estudo.. de modo geral. são aqueles que impõem ao Estado a tarefa de colocar à disposição dos indivíduos os meios materiais que possibilitem o efetivo exercício das liberdades fundamentais. podem ser reconduzidos ao status positivus de Jellinek. Assinala o professor Ingo: “Enquanto os direitos de defesa (status libertatis e status negativus) se dirigem.”99 Os direitos fundamentais a prestações enquadram-se nos direitos da segunda dimensão. inclusive. cit.96 O professor Ingo Sarlet defende que as garantias institucionais. Ingo Sarlet anota que na Constituição brasileira de 1988. 96 SARLET. sua identidade e permanência se encontram. para além de outorgarem. resultando. 98 SARLET. Ingo W. no sentido de que este se encontra obrigado a colocar à disposição dos indivíduos prestações de natureza jurídica e materialfática. op. cit.98 Tais direitos objetivam a garantia não apenas da liberdadeautonomia (liberdade perante o Estado). a função principal das garantias institucionais é de reforçar a proteção de determinadas instituições contra a erosão que possa vir do legislador ordinário.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva constitucional. SARLET. em princípio. cit. por sua vez. p. de qualquer modo. os direitos a prestações encontraram uma receptividade sem precedentes no constitucionalismo pátrio. na visão de Ingo Sarlet... Ingo W. p. op. que. Ingo W. 185. o que ressalta sua dimensão preponderantemente defensiva. resguardadas contra o legislador infra-constitucional. 6.

O autor utiliza-se da definição dada pelo professor português Canotilho. sim. op. 101 25 . por sua vez. podem distinguir-se grupos específicos de posições jurídicas fundamentais. que. 190. 190. A eficácia dos direitos fundamentais. p. o qual. A eficácia dos direitos fundamentais. op. 106 SARLET.102 Os direitos derivados a prestações seriam aquelas posições jurídico-subjetivas deduzidas não diretamente das normas constitucionais definidoras de direitos fundamentais a prestações.”105 Os direitos a prestações em sentido amplo. A eficácia dos direitos fundamentais.. p.. 189. 104 SARLET. p. A eficácia dos direitos fundamentais. o professor Ingo Sarlet afirma: “Os direitos a prestações de modo geral (em sentido amplo e sentido estrito) se encontram a serviço de uma concepção globalizante complexa do ser humano e de sua posição no e perante o Estado. p. justamente parte do pressuposto de que a proteção da igualdade e liberdade apenas faz sentido quando não limitada a uma dimensão meramente jurídico-formal. de direitos que podem ser deduzidos diretamente das normas constitucionais que os consagram. Insiste em uma dupla concepção dos direitos a prestações: os direitos a prestações em sentido amplo e os direitos a prestações em sentido estrito. mas. op. seu destinatário e mesmo quanto à sua estrutura jurídico-positiva. A eficácia dos direitos fundamentais. Dessa forma. 190-191. cit. cit. A eficácia dos direitos fundamentais. mas. direitos originários a prestações. ou seja. Alexy 106.. busca inspiração na doutrina de matriz germânica. que podem variar quanto a seu objeto. Ingo W. 188. com reflexos na sua eficácia e efetivação. op. p. sob a rubrica genérica de direitos a prestações. cit.100 A preferência pela terminologia ‘direitos a prestações’ – em contrapartida com a terminologia alemã: direitos de participação ou direitos a quota-parte – justifica-se pelo fato de que os direitos a prestações abrangem um feixe complexo e não necessariamente uniforme de posições jurídicas. 188-204. p. 103 SARLET. Ingo W. e direitos derivados a prestações. cit. enquanto concebida como igualdade de oportunidades e liberdade real de exercício da autonomia individual e de efetiva possibilidade de participação na formação da vontade estatal e nos recursos colocados à disposição da comunidade. cit. sim. Ingo W. Ingo W. 102 SARLET. op.. Ingo W. SARLET. direitos a prestações fáticas ou materiais.. Já os direitos originários a prestações são aqueles direitos dos cidadãos ao fornecimento de prestações estatais. 105 SARLET.104 Por fim.101 O professor Ingo Sarlet ensina que os direitos a prestações podem ser: direitos a prestações jurídicas. cit. no que toma como parâmetro o conceito amplo de direitos fundamentais formulado por R. A eficácia dos direitos fundamentais. Ingo W. independentemente da existência de um sistema prévio de oferta destes bens e/ou serviços por parte do Estado. p. cit. op. 186. são todos aqueles 100 SARLET. nota 474. para o professor Ingo Sarlet.. op. Ingo W.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva na abertura de um capítulo especialmente dedicado aos direitos sociais no catálogo dos direitos e garantias fundamentais. da concretização de tais normas pelo legislador ordinário103..

a fruição dos direitos fundamentais. Ao Estado incumbe a tarefa de zelar pela proteção dos direitos fundamentais dos indivíduos. A eficácia dos direitos fundamentais..109 O direito à proteção realiza-se de múltiplos modos. cit. portanto. op. que a definição de direitos a prestações em sentido amplo possui natureza residual. SARLET. 107 SARLET. dirigido principalmente à proteção da liberdade e igualdade na sua dimensão defensiva . de atos administrativos e até mesmo por uma atuação concreta dos poderes públicos. Ingo W. p. ou seja. Ingo W. poderia também obter de particulares. não só contra ingerências indevidas por parte dos poderes públicos. Por outro lado. os direitos a prestações em sentido amplo (que englobam os direitos de proteção e de participação na organização e no procedimento) dizem respeito às funções do Estado de Direito de matriz liberal. O reconhecimento de direitos a proteção reconduz ao desenvolvimento decorrente da perspectiva jurídico-objetiva dos direitos fundamentais. o professor Ingo Sarlet salienta: “A distinção entre direitos a prestações em sentido amplo e estrito ainda encontra fundamento no argumento de que. enquanto os direitos a prestações em sentido estrito podem ser reportados à atuação dos poderes públicos como expressão do Estado Social (no sentido de criação. por meio de normas penais.1 Direitos à proteção Alexy ensina que o direitos a proteção podem ser conceituados como posições jurídicas fundamentais que outorgam ao indivíduo o direito de exigir do Estado que este os proteja contra ingerências de terceiros em determinados bens pessoais. como também contra agressões provindas de particulares e até mesmo de outros Estados. 191.”108 Conclui-se.3.. Este dever desemboca na obrigação de adotar medidas positivas com o objetivo de garantir e proteger. 6. os direitos fundamentais a prestações em sentido estrito constituem os direitos fundamentais a prestações fáticas que o indivíduo. 108 26 . fornecimento. de normas procedimentais. de forma efetiva.3. mas também da distribuição de prestações materiais já existentes). cit.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva direitos fundamentais de natureza típica ou predominantemente prestacional que não se enquadram na categoria dos direitos de defesa.. 190-191. op. ou seja abrange todas as posições jurídicas fundamentais prestacionais nãofáticas. p. acaso dispusesse dos recursos financeiros necessários e em existindo oferta disponível no mercado. Ingo W. op. A eficácia dos direitos fundamentais.107 Nesse contexto. 109 SARLET. A eficácia dos direitos fundamentais. p. cit. 192.

A eficácia dos direitos fundamentais. 194. p. o qual justamente se refere a dimensão procedimental dos direitos fundamentais.110 Nesse mesmo sentido. servindo como diretrizes para aplicação e interpretação das normas procedimentais. dependentes da organização e do procedimento. e partindo-se de um "casamento" do status activus processualis com a perspectiva jurídico-subjetiva dos direitos fundamentais e de sua função como direitos a prestações (status positivus).112 Segundo Alexy.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva 6. Ingo Sarlet anota que "com uma conseqüência desta concepção. o que uma acabou por gerar uma relativa imprecisão técnica no uso das expressões ‘organização e procedimento’ na doutrina e jurisprudência. os direitos de participação na organização e procedimento tanto podem ser considerados como direitos à emissão de determinadas normas procedimentais. A eficácia dos direitos fundamentais. tais como a participação nos colegiados das instituições de ensino superior.. dentre outros aspectos.3. Se os direitos fundamentais são. assegurando a sua plena eficácia. op. op. cit. sobre eles também é exercida uma influência que. cit. p. A eficácia dos direitos fundamentais. a qual também pode ser qualificada como um autêntico devido processo dos direitos fundamentais. A interpenetração entre direitos fundamentais. de certa forma. chegou-se a conceber a existência até mesmo de autênticos direitos subjetivos fundamentais de proteção por meio da participação na organização e no procedimento". Ingo W.. Hesse sustentou que a organização e o procedimento podem ser considerados como único meio para alcançar um resultado conforme os direitos fundamentais. 111 27 . 194. 112 SARLET. Ingo W. que variam desde um direito a proteção judiciária efetiva até direitos a medidas estatais na esfera organizatória. SARLET..111 Uma das maiores dificuldades nesta seara reside na identificação do objeto dos direitos à organização e procedimento. cit. Esta imprecisão foi alimentada principalmente pelo amplo espectro de posições jurídicas que podem estar incluída sob a rubrica ‘organização e procedimento’. se manifesta na medida em que os direitos fundamentais podem ser considerados como parâmetro para a formatação das estruturas organizatórias e dos procedimentos. 194. p. quanto direitos a 110 SARLET.3. op. agregou ao status activus aquilo que denominou de status activus processualis. procedendo a uma releitura da teoria dos quatro status de Jellinek. organização e procedimento é tão relevante que Peter Häberle.2 Direitos à participação na organização e no procedimento O reconhecimento da existência de direitos fundamentais de participação na organização e procedimento encontra-se vinculado aos desdobramentos da perspectiva jurídico-objetiva dos direitos fundamentais. Ingo W.

op. na medida em que se encontram a serviço dos direitos fundamentais e. podem ser considerados até mesmo como uma das condições de efetivação destes direitos. Ingo W. ser considerados uma categoria 113 SARLET.. 196. de modo especial do legislador. A eficácia dos direitos fundamentais. A eficácia dos direitos fundamentais. organização e procedimento. cit. portanto. A eficácia dos direitos fundamentais. distinguir entre direitos sociais dos trabalhadores e os direitos sociais em geral. revela-se extremamente controversa e.3.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva determinada interpretação e aplicação das normas sobre procedimento. criar as estruturas organizacionais e estabelecer os procedimentos que são reclamados. op. a emissão de atos legislativos e administrativos destinados a criar órgãos e estabelecer procedimentos. p. 116 SARLET. Ingo W. op. 195. Ingo W. ou seja. que é quem vai. Assim sendo. a problemática dos direitos de participação na organização procedimento centra-se na possibilidade de exigir-se do Estado. a doutrina e a jurisprudência constitucionais germânicas. nesse sentido. pelos direitos fundamentais. recalcitrante. Ingo W. em princípio. preponderantemente. p. salientando-se que.. 117 6. que segundo deflui da exposição acaba por desembocar na mediação do legislador. em última análise.. A eficácia dos direitos fundamentais. op. Assim.115 Ingo Sarlet afirma que. p. p. Deve-se. também são denominados direitos fundamentais sociais aqueles diretamente vinculados ao Direito do Trabalho.113 Segundo essa concepção é importante ressaltar que os direitos à participação na organização e procedimento podem ter duas acepções: a de participação na organização e no procedimento propriamente dito. no âmbito dos direitos prestacionais. 117 SARLET. SARLET. 197. 197. já que os primeiros podem. cit. nesta seara. cit. 115 SARLET. ou o direito à criação de estruturas organizacionais e emissão de normas procedimentais. apenas a primeira categoria assume relevância..3 Direitos a prestações em sentido estrito De acordo com a tradição do constitucionalismo brasileiro desde a Constituição de 1934.. ressaltando-se o caráter prestacional típico do segundo grupo. cit.3. op. 114 Os direitos à participação na organização e procedimento têm relevância na qualidade de posições jurídico-prestacionais fundamentais. apenas parte da problemática relativa à dimensão procedimental e organizatória dos direitos fundamentais pode ser reportada ao status positivus.116 Canotilho apresenta uma sinopse das diversas facetas que assume a problemática da interação entre direitos fundamentais. A eficácia dos direitos fundamentais. de forma direta ou indireta. Ingo W. p. 114 28 . ou medidas que objetivem garantir aos indivíduos a participação efetiva na organização e no procedimento das atividades do Estado. 195. cit. em que pese o reconhecimento praticamente uniforme da importância da dimensão organizatória e procedimental dos direitos fundamentais.

200. os empregadores. distribuição. 120 SARLET.UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva específica dos direitos sociais em geral e. Ingo W. considerados em sentido amplo. de forma que os direitos sociais podem ser considerados.120 A tarefa dos direitos sociais. cit. podem ser tidos como parte integrante da liberdade real indivíduo. e. ocorre em Portugal.. excludente. de inegável importância para a 118 SARLET. cit. serviços e instituições existentes. não. é de elemento de realização da igualdade e liberdade reais. não se pode falar de diferenças de eficácia entre direitos a prestações materiais e direitos de defesa119. não há como falar de uma dicotomia ou de um dualismo absoluto entre os direitos de defesa e os direitos sociais prestacionais. Nesse contexto. p. para diferenciá-los dos direitos a prestações em sentido estrito. 122 SARLET.. cit. Deve-se lembrar que a distinção traçada entre direitos derivados e originários a prestações. sob o aspecto de expressão da atividade do Estado na sua condição de Estado Social de Direito. fornecimento. p. na condição de direitos a prestações. têm como destinatários principais as entidades privadas. que dizem com as tarefas tradicionais do Estado Liberal de Direito. op. no âmbito dos direitos sociais. de tal sorte que o Estado é considerado como destinatário de uma pretensão de fornecimento. corretivo e limite do Estado Liberal de Direito e dos clássicos direitos de defesa de matriz liberal burguesa. sociais e culturais do Título III da Constituição Portuguesa. 202. 199. encontram-se vinculados a um conceito estrito de prestações. 121 SARLET.. A eficácia dos direitos fundamentais. cit. ou seja. já que ambos compartilham a mesma dignidade como direitos fundamentais. por outro lado. verifica-se a necessidade de se destacarem. 202. Ingo W. Ingo W.118 O professor Ingo Sarlet afirma que. os direitos sociais. na ordem constitucional brasileira. razão pela qual devem ser reconduzidos ao status activus libertatis. Ingo W. p. como produto. complemento. Ora. os direitos a prestações em sentido amplo. inaugurada em 1988. ou mesmo com a melhoria e redistribuição dos bens materiais. o qual tenta zelar por uma adequada e justa distribuição dos bens existentes. os direitos do status positivus socialis.122 Assim.121 Os direitos sociais prestacionais encontram-se intimamente vinculados às tarefas exercidas pelo Estado na condição de Estado social de Direito. op. A eficácia dos direitos fundamentais. O Estado Social de Direito distingue-se justamente por ter avocado para si a tarefa de realização da justiça social. op. no sentido de um antagonismo absoluto. por exemplo. A eficácia dos direitos fundamentais. assumindo caráter nitidamente complementar. onde o constituinte expressamente deu aos direitos de defesa de cunho negativo uma força jurídica reforçada em relação aos direitos econômicos. p. simultaneamente.. A eficácia dos direitos fundamentais. além de direitos a prestações fáticas do Estado. O contrário. Assim. e não com a criação. podendo ser considerados como fatores de consecução da justiça social. 119 29 . na medida em que sua titularidade é restrita à classe dos trabalhadores. na medida em que se encontram ligados à obrigação da comunidade para com o bem estar da pessoa humana. em nosso ordenamento jurídico constitucional. op.

UniCeub – CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE ESTUDOS CONSTITUCIONAIS Professora: Christine Oliveira Peter da Silva problemática da eficácia dos direitos fundamentais prestacionais. constituindo posições jurídicas deduzidas de forma direta e autônoma das normas constitucionais que consagram direitos sociais. cit. é de ser levada em consideração. p.. Ingo W.123 123 SARLET. 30 . 203. op. com a consciência de que os direitos derivados remontam a uma igualdade de acesso e os direitos originários dizem respeito aos direitos prestacionais propriamente ditos. A eficácia dos direitos fundamentais.