Estado-Guerra de Norberto Bobbio

1. Para o estudo do Estado
1.1 As disciplinas históricas
As duas principais fonte para o estudo do Estado: a) a história
das instituições políticas e b) a história das doutrinas políticas.
Bobbio expõe que para a compreensão da história e do
desenvolvimento de um Estado “primitivo” até o Estado
contemporâneo, é necessária , não somente um conhecimento
acerca dos doutrinadores e de suas formas de governo
estudadas,
como
Platão,
associando-se
seu
nome
automaticamente à idéia de República, ou do próprio
Maquiavel, mas também um estudo das engrenagens do
Estado, as instituições políticas, que, assim, poderíamos
compreender melhor algumas mudanças e como essas
estruturas políticas se adequaram ou se modificaram durante
determinado período histórico.
Existem muitas fontes para o estudo e a compreensão do
Estado, sendo interessante esse estudo ( principalmente tendo
em vista a história das instituições políticas) para se
conhecerem a fundo os mecanismos, às vezes muito complexos,
através dos quais têm vindo a ser instituídas, ou modificadas,
as relações de poder em determinado sistema político.
Tornou-se muito tendencioso se achar que para o estudo de
alguma estrutura do Estado bastaria estudar as normas
vigentes do mesmo. Sem dúvidas, as normas, são de suma
importância,
principalmente
porque
as
normas
são,
geralmente, determinadas por certos costumes e tendem a
defender certa estrutura política, determinando condutas a
serem seguidas em prol dessa estabilidade da estrutura
estatal, para que se evite mudanças, e, paralelamente, os
costumes e valores também permanecem estáticos. Mas
Bobbio sugere um estudo além dessas normas, estudando a
fundo esses mecanismos primordiais que regulam o Estado
(linha de pesquisa direcionada a um funcionamento concreto).
Questionamento: As instituições políticas ou os doutrinadores
políticos que influenciaram mais no desenvolvimento do
Estado? Estariam muitos dos doutrinadores ligados a uma
evolução do Estado, enquanto as instituições políticas seriam
reacionárias?
1.2

Filosofia e Ciência política

É interessante perceber que o Estado é uma estrutura
complexa com constante interação com outros sistemas
externos.
Bobbio considera certas distinções como algo muito
convencional, de forma que são débeis e discutíveis. Ele toma
como exemplo Hobbes, expondo a subjetividade e a
mutabilidade do tema. Hobbes ao caracterizar o que seria
philosophia civilis (conjunto de análises sobre o homem nas
suas relações sociais), entre mais algumas outras concepções,
que hoje, seriam consideradas como parte da ciência política.

Filosofia política - é fundamentada em três tipos de pesquisas:
a) Qual seria a melhor forma de governo?
b) Qual é o fundamento do Estado, se é legítimo para poder
deter o poder?
c) A discussão sobre a ética na política. A essência do político,
virtuoso, com qualidades necessárias para poder ser um
soberano justo com o povo.
Esses traços são encontradas em três obras que marcam essa
linha de pesquisa: Utopia de Moro (esboço da república ideal),
Leviatã de Hobbes (justificação racional e universal da
existência do Estado, indicando, também, razões pelas quais as
suas normas devem ser respeitadas) e O príncipe de Maquiavel
(em que consiste a essência da atividade política e sua
distinção entre a moral).
Ciência política - segue uma linha de pesquisa que procura
satisfazer estas três condições:
a) Princípio da veracidade/falsidade como critério de aceitação
dos resultados;
b) Uso de técnicas de razão;
c) Ausência de juízos de valor.
São esses os dois principais métodos para o estudo do Estado.
A Filosofia política, porém, não tem caráter validativo, se visto por
um espectro científico, pois não pretende explicar o fenômeno do
poder e sim justificá-lo, qualificando um comportamento como lícito
ou ilícito, por exemplo, o que só é possível se recorrendo à valores
(ideais de justiça, por exemplo), o que impossibilita a validação
científica.

muitas das teorias meramente jurídicas do Estado. o Estado moderno como uma estrutura dotada de um aparelho administrativo e que se faz valer do monopólio da força sobre um determinado território. uma forma de organização social e. como tal.4 Funcionalismo e marxismo Essas duas teorias são divergentes em diversos pontos. não se pode esquecer que é. O direito acaba se tornando apenas um dos elementos constitutivos da sociedade. Devido a essa proximidade.reduz a ideia de estado apenas para o ordenamento jurídico. foram abandonadas pelos próprios juristas ao longo do tempo. Como a teoria de Kelsen.explícita a diferença entre o ponto de vista jurídico e o sociológico: os juristas se ocupam em uma validade ideal. não podia ser dissociado da sociedade e das relações sociais subjacentes. 1. Max Weber . ainda. Hans Kelsen . Weber caracteriza. porém. os principais: a concepção de ciência em geral e o papel do Estado no sistema social. A concepção marxiana da sociedade pode ser dividida em duas instâncias: a base econômica e a superestrutura. entre eles. Essa distinção é muito importante já que essas duas doutrinas visam finalidades diferentes. também. é possível estudar o Estado por vários pontos de vista. enquanto os sociólogos se ocupam de uma validade empírica das normas. condenadas por formalizantes. enquanto as relações econômicas (caracterizadas em cada época por uma determinada forma de produção) é a instância determinante. antes do surgimento da sociologia como ciência não era possível fazer a distinção entre essas duas doutrinas. .3 Ponto de vista sociológico e jurídico Como já se pode ter percebido. onde o Estado é representado por essa segunda instância. direcionando-se novamente para o plano social.1. Durante muito tempo ouve a distinção entre uma doutrina sociológica e uma doutrina jurídica do Estado. O Estado passa a ser concebido como órgão de ordenamento jurídico. Nessa concepção existe uma relação recíproca entre superestrutura e base econômica. porém a base econômica é sempre determinante.

econômico. Aqui cabe um questionamento: todas as sociedades teriam sido criadas visando essencialmente o lucro? Percebemos também. ocasionando mudanças nas suas estruturas. como um mecanismo destinado a manter o equilíbrio através de interesses concorrentes (ideal liberal). Todas as demais formas de sociedades são constituídos por acordo. Atualmente um ponto de vista bastante aceito é a teoria dos sistemas que seria a relação entre o Estado e o sistema social havendo uma interação entre ambos. os quais são igualmente essenciais e se desenvolvem para a conservação do equilíbrio social. ou por necessidade. Enquanto a primeira busca a ruptura da ordem (de passagem de uma ordem a outra. e o Estado interagindo de forma que . 1. defendendo uma espécie de ordem pré-estabelecida e as vantagens do mercado. o funcionalismo. systems. como diz Aristóteles. dar-se demasiada importância a organização política do Estado. mudanças só devem ser realizadas caso o sistema seja capaz de absorvê-las. de correspondência. entendida como a passagem de uma forma de produção à outra). que seria uma forma embrionária e imperfeita da polis.Já a concepção funcionalista concebe o sistema global no seu conjunto (âmbito político. A concepção marxista se preocupa com a mutação social e suas mudanças põem o sistema em crise. De certa forma. a segunda tem uma abordagem hobbesiana da ordem (visa manter a ordem – não existe condição pior do que o estado de natureza. etc. em certos aspectos. principalmente em momentos nos quais sofrem influências econômicas. é análoga àquela concepção contra a qual o marxismo combate.5 Estado e sociedade É interessante o processo e a mutabilidade de determinadas relações entre o Estado e a sociedade.). como é o caso da família. a relação entre essas estruturas infraestatais. são reciprocamente independentes. social. com o objetivo de atingir fins específicos. (forma input-output) que cria um processo de transformação constante de acordo com necessidades gerais. estado de guerra). porém. Em um primeiro momento. enquanto na concepção funcionalista. distinto em quatro subsistemas. mas não se ignora outras relações de poder que possam existir inclusive no âmbito infraestatal.

tem muita força devido a sua tradição. preconceituosa. havendo uma exaltação da imagem do governador e de sua importância na engrenagem do Estado (Uma ideia de soberano antes do povo). as relações entre instituições políticas e a sociedade passa a estar invertida. suas necessidades. É aí que percebemos uma mutabilidade nessas relações. de certa forma. que devido a isso. o Estado se torna um subsistema do sistema social. de toda a estrutura de poder. 1.1 (os objetos de estudo para se compreender o Estado). seus direitos. das várias formas de governo. que essa outra perspectiva tenha sido totalmente ignorada. do que se requer do com governantes.3 (diferentes pontos de vista a cerca do estado). chegando muitos pensadores a considerar. A ideia. 1. de forma que suas funções passam a ser reduzidas a termos mínimos. uma inversão dessa subserviência. ou tendenciosa. sendo o povo tratado como sujeito passivo. Esses autores clássicos tem tratado esse problema do Estado principalmente do ponto de vista dos governantes. chegar-se-á à extinção do Estado. Existem duas doutrinas políticas totalmente opostas nesse ramo de estudo que deriva de diferentes concepções acerca da relação governantes-governados e soberano-súditos. com temas abordando sobre a arte de bem governar. o ponto de vista que aborda seus interesses. da distinção entre bom governo e mau governo. mas isso só ganha força com a doutrina dos direitos naturais. 1. A partir das revoluções burguesas.4 (concepções do sistema social). de certa forma.uma permanece subserviente à outra. trazendo a ideia de que esses direitos pertencem ao individuo singular e que eles são anteriores a formação de qualquer sociedade política e.6 No que respeita a governantes e governados Uma recapitulação: 1. devido a esse mecanismo econômico que se impõe.2 (os métodos para essa compreensão). sendo que esse ponto de vista deve ser olhado tanto do ponto de vista do governado (ex parte principis) quanto dos governantes (ex parte populi). por conseguinte. pois foi abordada constantemente por grandes autores desse ramo: essa relação sendo considerada como uma relação entre superior e inferior. 1. A sociedade passa a . Não quer dizer isso. O Estado passa a ser subserviente à sociedade.

como um produto voluntário dos indivíduos (ideia de contrato social).2 Argumentos a favor da descontinuidade Já que vimos que a termologia ‘Estado’ passa a ser usada. obviamente. não havendo mais diferentes polis. religião em comum. Mas o que promoveu essa inversão de ponto de vista? Essas mudanças. na Europa. É interessante observar o contexto histórico de Maquiavel para percebermos o porque a necessidade de um novo termo que se adequasse às necessidades políticas da época.ser entendida de forma predominante. a prosperidade e a felicidade dos indivíduos e não apenas o poder do Estado.1 Origem do nome Não se sabe ao certo a origem da termologia ‘Estado’. são fortemente influenciadas por certos acontecimentos históricos. principalmente. havia um forte movimento de centralização dos poderes de diferentes reinos que tinham línguas. o direito de resistência às leis injustas e não apenas o dever de obediência. Aristóteles é um dos que acredita que o Estado existe por natureza e é anterior a cada indivíduo. passa a ser prioridade a liberdade dos cidadãos e não o poder dos governantes. o bem-estar. essa divergência de pensamentos. agora unificadas. Sendo assim. O nome e a coisa 2. a mais alta expressão dessa inversão são as Declarações dos Direitos americanas e francesas. havendo uma diferença em suas . Surgem diferentes problemas políticos. 2. conseqüências de seus movimentos revolucionários no século XVIII. Percebemos então essas duas vertentes. mas um único governo para uma grande extensão territorial. por ser ordenamento tão diferente dos ordenamentos que o haviam precedido. de forma que surgiam grandes nações. Alguns doutrinadores acreditam que essa termologia deve ser usada somente para essa nova realidade que surge. e para isso é necessária uma nova doutrina. devido a uma crise que ocorre na sociedade medieval. culturas. No período Renascença. mas sem dúvidas a influência de Maquiavel para a difusão desse termo é inquestionável. 2. A máxima organização de um grupo de indivíduos num território em conseqüência de um poder de comando. originando uma nova forma de governo.

o que só é possível. que derivam da união de mais grupos familiares. sobre relações de poder. de todos os tempos. produção do direito? Para Bobbio. seja qual for depois o nome que se dê a cada um dos vários ordenamentos. antes dos grandes estados territoriais. Então. Nobbio ainda crítica essa ideia de descontinuidade. com que se fazer começar a história do Estado moderno? Essa termologia deveria ser estrita à essa nova organização política que tem como principais características: concentração do poder num determinado território. que desse origem a um tipo de organização social e política não susceptível de comparação com as do passado. independente do momento histórico.4 Quando nasceu o Estado? O nascimento do Estado possui duas vertentes muito fortes numa interpretação histórica. é se existem analogias e diferenças entre o assim chamado Estado moderno e os ordenamentos anteriores. A) O Estado nascendo da dissolução da comunidade primitiva. 2. podemos fazer análise comparadas. num determinado momento do desenvolvimento histórico. ao ponto de ser tão impossível comparar. monopolização de alguns serviços essenciais para a manutenção da ordem interna e externa. B) O nascimento do estado representando o ponto de passagem da idade primitiva à idade civil. . 2. por razões de sobrevivência e externas (de defesa). o que é realmente interessante nessa discussão. esclarecedoras sobre os ordenamentos modernos.organizações e. que só esse merecesse o nome de ‘Estado’. não se poderia explicar. tivesse existido uma fratura tal. o que percebemos aqui é a possibilidade de comparar. podendo qualquer leitor dos dias de hoje encontrar elementos úteis de comparação com os fenômenos análogos a que sempre estiveram sujeitos os Estados no decurso da evolução história. inadequada o uso dessa termologia para períodos anteriores. fundada em laços de parentesco e pela formação de comunidades mais amplas. se. que dá a definição de ‘constituição’. estudos sobre o Estado. por isso.3 Argumentos a favor da continuidade Bobbio expõe que se pegarmos até mesmo uma obra de Aristóteles. pois. pois existem características constantes. “Terá existido uma sociedade política. que se possa chamar ‘Estado’. de certa forma. não haveriam reflexões sobre instituições antigas.

impedir que a sociedade. a primeira forma de Estado foi precedida pelo estado feroz e pelo estado das famílias. (No texto de Hobbes existe uma interpretação diferente acerca do estado de natureza onde o homem é um ser nacional. portanto. Teorias do poder . com a divisão da sociedade em classes. que é um estado social. nasce a divisão do trabalho. O Estado surgindo. influenciado pelas teorias marxistas. concepções e definições. em uma visão mais antropológica: “as sociedade primitivas conheceram e conhecem ordenamentos de convivência que podem chamar-se Estados?”. gasto. essencialmente. exclusivamente. é representado indiferentemente como um estado de isolamento puramente hipotético ou como o estado em que teriam vividos os povos primitivos e ainda vivem os selvagens.” Posteriormente. Todas essas classificações. Para evitar o uso desse termo que se torno. o Estado seria um instrumento de domínio de classe. na classe dos proprietários e na dos que nada têm.1. o que realmente importa é a análise das semelhanças e diferenças entre as várias formas de organização social. nasce o poder político. mas ainda não propriamente político. o Estado. fundada sobre o vínculo familiar. “Com o nascimento da propriedade individual. havendo posteriormente a união dos chefes das famílias por razões de segurança ou de sobrevivência. com a divisão do trabalho. Engels compreende que o Estado nasce da dissolução da sociedade gentílica. com fins econômicos. Assim. mesmo nesse estado primitivo). Uma ideia mais marxiana. Tendo. mesmo que recorrendo à força e. se transforme num estado de permanente anarquia. cuja função é. o estado e natureza. a sociedade divide-se em classes. uma interpretação exclusivamente econômica. volta-se a tocar na questão do uso da termologia Estado. dividida em classes. de certa forma. de manter o domínio de uma classe sobre a outra. E.Obs. Para Vico. para Bobbio. Em toda a tradição jusnaturalista. prefere-se falar em organização política ou sistema político. no texto de Bobbio. dependem basicamente de uma convenção inicial sobre os significados de palavras como ‘política’ e ‘Estado’. 3 O Estado e o poder 3. que precede o Estado civil. e o nascimento do Estado assinala a passagem da barbárie a civilização ( sendo vista com uma conotação negativa ).

Antes dessas discussões acerca do uso da termologia ‘Estado’. 2) Subjectivista: Locke. ‘monarquia’. 3) Relacional: no qual o poder se deve entender como uma relação entre dois sujeitos. que seria sua influência em relação aos outros. 3. entendido como qualquer coisa que serve para alcançar aquilo que é objeto de um desejo. Muitas dessas teorias voltam-se quase que completamente ao estudo dos vários poderes que competem ao soberano.2 As formas do poder e o poder político . ‘oligarquia’. entende o processo político como uma formação. No entanto. dos quais o primeiro obtém do segundo um comportamento que não teria conseguido de outra forma. é exposta a relação entre poder e liberdade. que podem ser dividas em duas. como o poder físico. distribuição e exercício do poder. ‘fisiocracia’. Por fim. a identificação entre a esfera da política e a esfera do Estado também tem importância no estudo dessas estruturas políticas que se desenvolveram ao longo dos anos. ‘poliarquia’. todas elas. entende não mais como uma coisa para se obter os desejos. ( Bobbio insiste nesse ponto de vista. O poder consiste na produção dos efeitos desejados e pode assumir diversas formas. induzindo os outros a agirem de um modo que de outra forma não agiriam. Na filosofia política existem três teorias fundamentais do poder: 1) A substancialista: o poder é concebido como uma coisa que se possui e se usa como qualquer outro bem. A teoria do Estado vista como a teoria dos três poderes. por exemplo. mas sim a capacidade de obtê-los. A) Formas de governo: ‘aristocracia’. onde o poder de um resulta na não liberdade do outro. Dentre as teorias do estado. Dentro de toda essas discussões existem certas classificações de ordens políticas já estabelecidas no tempo ou idealizadas. a mais aceita no discurso político contemporâneo é a terceira. ‘democracia’. ‘partidocracia’. psicológico (que engloba o econômico) e o mental (que seria um poder exercido a pela persuasão). que essas classificações e doutrinas dependem muito do seu ponto de vista e sua concepção a cerca do que seria Estado ou do que seria poder ) dependem da definição de ‘poder’ e da análise desse fenômeno. B) Formas de poder: ‘burocracia’.

de forma que poderíamos caracterizar. Sendo a força o meio mais decisivo para exercer o poder do homem sobre o homem. algumas dessas formas. mas será que isso pode ser garantido com um Estado que monopoliza a força ou se isso só é possível assim. por fim. o poder civil. partindo do conceito de soberania e considerando o contexto histórico do surgimento dessa ideia. alguns desses poderes seriam justificados. tendo cada um deles uma justificativa. o pacto social feito em função de um bem comum. a um amadurecimento civil e o governo despótico. quem detém o uso deste meio. no qual o soberano comporta seus súditos como um pai. passa para o plano da teoria realista do poder político. A partir dessa ideia podemos transpô-las ao âmbito do político. baseando-se em uma ideia de legitimidade. a ideia de Bobbio é diferenciar o poder político de outras relações de poder e isso se dá. principalmente. sendo a força física uma condição necessária para a definição do poder político. de fundamento natural. só o uso exclusivo desse poder (o monopólio dele) é também a sua condição suficiente (se autolegitimando). principalmente com preceitos morais. uma forma de poder diferente. como formas corruptas de governo. se auto legitimando com a força. no qual o soberano trata os súditos como escravos. dentro de determinadas fronteiras. Então. proveniente de juristas medievais.. o patronal de um direito de punir quem se tornou culpado e.Nessa parte. sendo o único proveniente de uma forma de consenso.. Por fim. de certa forma. se o uso da força e condição necessária do poder político. por exemplo) e o poder religioso se servindo de um plano psicológico. é aquele que dentro dessas fronteiras tem a soberania. Aqui cabe diversos questionamentos principalmente a cerca da legitimidade de um poder só baseado na força. Porém. que seriam: o governo patriarcal. limitando-os. alguns . ou seja. do patrão sobre os governados e dos governantes sobre os governados. o que nos permite perceber quais são as essências do poder de cada um desses. Algumas ideias sobre o estado de natureza e o contrato social. consequentemente. se identificando com o exercício da força para obter os efeitos pretendidos. Para Aristóteles existem três tipos de poder: o poder dos pais sobre os filhos. sendo o poder paternal. concedendo a si mesmo o direito de se servir da força (ai tem toda aquela ideia do monopólio do poder. percebemos que cada um possui uma forma de ação e. legitimados. por exemplo. por exemplo. diante da delimitação de competências entre o Estado e a Igreja. Já para Locke. se ele consegue ser eficaz.

3 As três formas de poder A definição de que poder político é o poder que está em condições. acreditam ser. justamente pelo fato de possuí-los. absolutamente necessário o monopólio do poder. 3. ideológico e político. ou não realizar uma ação. ou mesmo códigos de conduta. muitas vezes com o uso de recursos psicológicos. em que existam proprietários e não proprietários. 3) O poder político já foi citado e se trata do monopólio do poder e uso dele para determinar condutas. doutrinas e até apenas informações. é uma definição bastante comum a diversos autores. induzindo-os a determinada conduta. conseqüentemente. Todas essas três formas de poder contribuem conjuntamente para instituir e manter sociedades desiguais. 2) Poder Ideológico é o que se vale da posse de determinadas formas de saber. o que lhe permite conseguir que o não proprietário trabalhe para ele e nas condições por ele determinadas. do saber e da força. A religião usaria essa forma de poder. As formas como eles agem. para exercer uma influencia sobre o comportamento de outrem e induzir os membros do grupo a realizar. respectivamente.pensadores como Kelsen. Em qualquer sociedade. Genericamente. em última instância. em superiores e inferiores. em ricos e pobres. o ordenamento social. em cultos e ignorantes. Existe essa distinção entre três grandes poderes de influencia social: o econômico. porém é importante perceber diferentes tipos de poder que podem influenciar no poder político e no seu monopólio. o controle desse aparelho coercitivo para regular o ordenamento jurídico e . o poder do proprietário deriva dessa exclusividade. e isso só é possível porque possui o monopólio dela. 1) Poder econômico é o que se vale da posse de certos bens e. da riqueza. a recorrer a força. faz o uso dessa exclusividade para ter influências sobre os não possuidores. ou então a ideia de que esses poderes são formas conservadoras que não permitem mudanças pois estão ligadas a interesses dos dominadores dessas grandes ferramentas . divididas em fortes e fracos.

sendo a superestrutura uma ferramenta para que se torne possível e continue havendo as relações de produção. é o poder econômico o poder principal. na teoria marxista. sem se vincular com impedimentos de outra natureza. o poder principal é o poder político. Para Hobbes. Independente desses aspectos. fazendo com que se seja obrigado a ter em conta os preceitos morais. o controle do estado natural. A teoria marxista que fala sobre a organização política e social e as formas como as relações de poder se dão se torna mais clara agora: SUPERESTRUTURA sistema jurídico-político sistema ideológico (sistema burocrático / instituições) BASE ECONOMICA poder econômico Onde todas essas formas de poder se mantêm ligadas para que haja o funcionamento do Estado. ou seja. 3. são questionamentos interessantes. sem manter vínculos que atrapalhem seu governo. entronizado. Nessa ideia podemos fazer uma ligação a ideia do príncipe virtuoso de Maquiavel. subordinando a ação política às leis morais. que é justamente o rompimento. como o econômico.4 O primado da política Essa tendência de dispor os diferentes tipos de poder em uma ordem hierárquica é uma grande tendência seguida por pensadores políticos ao longo dos tempos. acima de todo. através do monopólio dessas forças se dá a estabilidade de tal estrutura. considerado o mais importante. controlando tanto o poder espiritual. Porém. o primado do poder econômico. Sendo em diferentes momentos históricos esses poderes dispostos hierarquicamente de maneiras diferentes. sendo o mais importante dentre os outros poderes ou o determinante. por exemplo. mas garantindo. de guerra. que tem justamente essa capacidade de ser amoral quando necessário.determinadoras de condutas. a independência do primado da política para com os outros primados. O primado político rompe com essas dependências para que a ação política seja necessariamente imoral. . principalmente com o primado espiritual que valoriza a moral. existe a doutrina da razão do Estado.

“Se alguém se limita a funda o poder exclusivamente sobre a força. Bobbio acredita que essa pergunta pode ter duas respostas. o poder político. também deve ter uma justificação ética. a História. independente do fato de que esteja em condições de durar. possa ser legítimo. a partir de três grande princípios: a Vontade. não se justificando exclusivamente o seu poder só com a posse dele.4.1 O problema da legitimidade “Admitindo que o poder político seja o poder que dispõe do uso exclusivo da força num determinado grupo social. é rejeitada a ideia do direito do mais forte. 4. que partem da vontade voluntária do povo se opõem as doutrinas naturalistas. que deram origem às várias formas de direito natural. segundo alguns pensadores. basta a força para o fazer aceitar daquele sobre quem se exerce. para funda o poder. que o direito de comandar de uns e o dever de obedecer de outros derivam do fato inelutável de que existe essa relação . 2) A natureza: dessa outra forma de legitimidade. de fato. Fazer apelo à natureza significa. mas tentar dar-lhe uma base moral e mesmo legal. de fato. a Natureza. Os vários princípios de legitimidade Durante a história as diversas formas de governo conseguiram se legitimar. Sendo assim. ou como ele deveria ser. A filosofia política clássica nega que um poder apenas forte. dependendo da forma que for interpretada. 1) A vontade: O poder pode ser legitimado quando os governantes recebem o seu poder ou da vontade de Deus ou da vontade do povo. para induzir os seus destinatários a obedecer-lhe?” Como já era de se esperar. Aqui percebemos uma ideia conflitante em relação aos primados político e espiritual.2. e respeitar certos princípios de legitimidade. considerando o que é o poder. como se consegue distinguir o poder do de um bando de ladrões?” Esse debate sobre a relação entre a justiça e a força. possa ser justificado. Fundamentos do poder 4. temos a natureza como força originária e a natureza como ordem nacional. As doutrinas voluntaristas. principalmente. a legitimidade simplesmente pela força.

além de sua efetividade. Legitimidade e efetividade Com o advento do positivismo jurídico. portanto. o revolucionário tem uma concepção dinâmica. tendo assim. uma etapa necessária. Apelando a história passada. Já numa ordem racional. como anteriormente vimos. o seu poder seria legitimado por estar sendo construída uma nova etapa do curso histórico. para o revolucionário. Obviamente esses critérios não se limitam a isso. o poder. um ordenamento continuaria a ser legítimo. o poder ele é fundado nas capacidade de o soberano identificar e aplicar as leis naturais. mas a compreensão de todas as razões pelas quais vem a formar em determinada sociedade uma relação estável e continua de comando-obediência. sendo que a obediência só é devida apenas ao comando do poder legítimo. Enquanto. baseando-se na força da tradição. Weber não propõe as simples distinções entre essas diferentes formas de poder político. poder legal-racional. Para o positivismo basta a efetividade para que o poder se torne efetivo. O direito de resistência ou de revolução é justificado ora através do apelo à vontade popular oprimida e portanto.3. para ser legítimo. independentemente da vontade humana é naturalmente determinada essas relações de poder. à necessidade de um novo contrato social. que são as leis da razão. justificando o poder do rei contra as pretendidas destruições de uma revolução. Enquanto esse é um ponto de vista conservador. deve ter uma justificação ética. Tese Weberiana. 3) A história: essa também pode ser dividida de duas formas. os súditos direito a resistência. onde existem três tipos puros ou ideais do poder político: poder tradicional. poder carismático. a questão da legitimidade está estreitamente ligado ao da obrigação política. Também existem referências à uma legitimação tendo em vista a história futura. o problema da legitimidade foi completamente invertido. No poder . Tendo o conservador uma concepção estática. até que a ineficácia chegasse a tal ponto que tornasse provável ou previsível a eficácia de um ordenamento alternativo. 4.naturalmente e . por exemplo.

do costume. pelo fato de um poder sempre ter existido. mas uma amplamente aceita. quer a racionalidade do poder são tanto um motivo de obediência quanto um princípio de legitimação. distantes dos valores. principalmente. Como essas leis positivas se fundamentariam? Através de leis naturais e das leis consuetudinárias (provenientes do costume) ou pelo bom legislador. fazendo com que os próprios sujeitos participem no processo. O poder soberano passa a ser aquele que cria e aplica o direito. sendo assim. Estado e direito 5. No poder racional (b) o motivo da obediência provêm da crença na racionalidade do ordenamento e de toda sua estrutura. legítima do Estado positivado. Se coloca em debate recente. que concluíram o processo de positivação do direito. de acordo com uma idéia mais positivista.2. das normas. No poder carismático (c) a obediência se dá pela crença de dotes extraordinários do chefe. terá de obedecer às leis naturais que são universais e imutáveis. Esse controle interno do poder do soberano . que só assim seria possível. das paixões. imparcial. mas da aplicação de certos procedimentos instituídos para produzir decisões vinculativas. O poder do soberano não se estende ao ponto de invadir a esfera do direito privado. exercendo o poder soberano sobre um dado território. etc. 5. não há razão para mudar. praticamente.”Quer a tradição. Os próprios soberanos devem estar sujeitos a essas leis.1 Os elementos constitutivos do Estado A idéia de Estado pode ser apresentada de diversas formas. passa a fazer parte. inclusive. As leis sendo superiores ao governador e regentes em todo o Estado. pelos juristas é a de Estado abrangendo povo. de certa forma. legitimando seu poder através desse sistema (ideia do Estado Democrático de direito). pois. embora dentro de certos limites. território e soberania. e é difícil estabelecer onde acaba um e começa o outro. Caso o soberano desrespeitar essas leis naturais. Que as leis seriam tão perfeitas. Estado é um ordenamento jurídico com objetivos gerais. de fato. aos legisladores. a legitimidade é o resultado não da referência a valores.3 Os limites internos O soberano pode não se submeter ao ordenamento positivo. que em sociedades complexas. 5. ao qual estão subordinados de modo necessário os sujeitos pertencentes aquele. mas. foram por ele próprio criadas. 5. será considerado um tirano. inevitavelmente. um governo ser bom.tradicional (a). O governo das leis A discussão sobre essa visão.

nem sempre muito nítidas.pode se dar através de corpos médios nessa estrutura política. havendo uma separação dos poderes para que essa usurpação de direitos.4 Limites externos. por parte do soberano.Governados ) e as relações externas entre diferentes Estados são ligadas diretamente e constantemente influenciadas por fatores de unificação e desintegração. 6. Maquiavel e Montesquieu. as repúblicas podem ser consideras ou aristocráticas ou democráticas. monarquia. demarcam as formas de governos dos tipos de Estado. a virtude na república e o medo no despotismo. Dessas formas estão anexas suas formas corruptas. que. que é justamente a idéia de Montesquieu. distinguindo os vários comportamentos possíveis dos governos frente aos governantes. é preciso que. essa classificação se reduz a duas: a monarquia e a república. Esses critérios fazem lembrar a ideia de legitimidade. 5. que a diferença principal se percebe se o governo é governado por um só ou por um corpo coletivo. A ideia de limites externos gira em torno de que o Estado deve respeitar não só os limites territoriais. As formas de governo 6. também distingue os vários tipos de poder. não considerando muito relevante a diferença entre o corpo coletivo dessas diferentes formas de república. governo de poucos e democracia. aristocracia. . mas também à soberania. Este. “Para que não se possa abusar do poder. governo de um. governo de muitos. não aconteça. pela disposição das coisas.Para Maquiavel.” Costuma-se chamar constitucionalismo à teoria e à prática dos limites do poder. Sendo ainda. Algumas tipologias clássicas das formas de governo podem ser encontradas em três autores: Aristóteles. segundo Weber. o poder trave o poder. no Príncipe. Na Política de Aristóteles a classificação é feita com base no número de governantes. a monarquia degenera em tirania. a aristocracia em oligarquia e a politeia em democracia. porque não está sozinho em relação a essa extensão material.1 Tipologias clássicas Na teoria geral do Estado ocorrem classificações que. Montesquieu estabelece essas classificações se baseando na forma como os governantes induzem os sujeitos a obedecer: a honra na monarquia. As relações internas do Estado ( Governante.

o governo de uma assembléia. Sendo as únicas formas possíveis de governo duas: o ordenamento jurídico podendo ser criado por cima. Kelsen posteriormente critica a visão de aristotélica. qualquer relevo e perde-a porque perde o seu significado original. acreditam que a monarquia representa a forma de governo dos modernos. Quando Maquiavel fazia a distinção entre as diferentes formas de Estado. principalmente pelo fato da mutabilidade da . transforma-se numa forma de governo distinta daquela pela qual a palavra foi criada. no sentido maquiaveliano. pois corresponde cada vez menos à nossa realidade histórica. foi a de Maquiavel. quando participam (democracia). com sua definição de Estado como ordenamento jurídico. Alguns pensadores modernos. metade monarquia. A república federal das treze colônias americanas. fazia uma afirmação que correspondia a realidade do seu tempo e distinguia aquilo que era realmente distinto. originalmente. como Vico.2 Monarquia e República A distinção entre essas duas formas de governo. quando surgem monarquia onde se muda do rei par ao parlamento. para passar. uma foram mista. então.Pensando em uma linha cronológica. quando os destinatários das normas não participam do processo (autocracia). fazendo uma classificação baseando-se em números e. e a república. através da época das repúblicas e acabar com as monarquias cristãsgermânicas que caracterizaram a Idade moderna. sendo assim. Sendo. percebe-se que a distinção entre monarquia e república perde. atribui-se uma constituição que é concebido à imagem e semelhança de uma constituição monárquica. Mas hoje. com a queda da maior parte dos governos monárquicos. metade república. apesar da denominação república. essa distinção se tornou gasta. a mais aceita e a que mais resistiu. distingue as diversas tipologias de acordo com a forma que o governo regula a produção do ordenamento jurídico. onde havia o despotismo. a dos antigos ou a forma de governo adequada só aos pequenos estados. pouco a pouco. no século XIX. o povo que legisla para si próprio (ideia da república rousseauniana também). Hegel monta o percurso histórico da humanidade baseando-se nessas diferentes tipologias de governo. Montesquieu e Hegel. sendo que a humanidade tinha passado de uma fase primitiva. constituindo-se assim uma monarquia parlamentarista. ou por baixo. monarquia o governo de um só e república. porém. classificando-as de República e Principados. distingue-se aquilo que não é facilmente distinguível. 6.

acreditando-se que a melhor forma de governo é a que resulta de uma combinação de três ou de duas formas de governo puras. Aristóteles também diz: “a . avaliamos novas tipologias tendo como ponto de vista essas elites do poder. nenhuma tipologia das formas de governo pode ignorar a importância do sistemas de partidos. Já no sistema monopartidário. existe o monopólio do governo por uma única elite e nesse ponto. agora. seria até comum a ideia partidária. Outras tipologias Se. o governo presidencial seria aquele em que há a separação nítida entre poderes do governo e poderes de fazer leis. pois todas são oligarquias. 6. podendo ter ou não participação no governo 6. dependendo da posição assumida pelos partidos. ocorre uma rotação de poder por esses partidos. quem detém o poder é uma minoria. Nos dias de hoje. várias elites concorrem entre si para ascender ao governo. poderemos achar novas tipologias. ocorre o monopólio do poder por esse único partido. considerando-se as relações internas dos poderes do governo. a elite do poder. Também existe a tipologia que tem como ponto de referência as formas de sistema político (1. Desta forma. essas distinções são feitas de formas diferentes. Platão dizia: “é conveniente e necessário participar de ambas. Se admitirmos que em todos os governos. sendo essa a principal distinção entre despotismo e democracia nos dias atuais. por exemplo. em um governo democrático.4 O governo misto A ideia de uma forma de governo mista é bem aceita. ao invés de considerarmos partidos. pode haver uma classificação diferente da forma de governo. : idéias do funcionalismo. por exemplo. por exemplo.3. marxismo e da teoria dos sistemas) considerando as relações internas do governo entre os subsistemas ou systems da sociedade. o governo parlamentar é um complexo jogo de poderes recíprocos entre governo e parlamento. de suas concepções de elite e partido. ou multipartidário. Hoje. É óbvio que mesmo nos sistemas multipartidários. considerarmos as classes políticas que efetivamente detêm o poder. de certa forma. se se tiver de exercer a liberdade e a concórdia”. dependendo.nossa realidade se compara a do tempo desses pensadores. novamente.4. então o velho critério que distingue as formas de governo a partir do número de governantes não pode ser usado. O sistema bipartidário. construída sobre os mecanismos com os quais deveria funcionar o sistema dos poderes. enquanto em governos autocráticos.

a formação dessas diferentes classes. 7. Estado absoluto. de forma que ficam. Porém. 7. Uma dessas tipologias que merece atenção é o Estado de classes. assim: O Estado feudal. exatamente a instabilidade que Políbio acreditava ser característica comum ás formas de governo puras. Para melhor compreender essas classificações. que não conheceram entidades intermediárias. os governos mistos. as quais. temos. o clero.1. que seria um período transitório entre o feudal e o absoluto. intervindo no poder do soberano. As formas de Estado Formas históricas Como vimos. por exemplo. Gaetano Mosca entende que os regimes que tiveram maior duração são. Essa ideia origina a . dependendo da relação entre o governo e a sociedade. a nobreza. como Bodin e Hobbes.melhor constituição deve ser uma combinação de todas as constituições”. constantemente. Estado de classes. originando-se assim classes. Nenhuma monarquia seria tão absoluta. no fato de que cada órgão pode impedir os outros ou colaborar com eles e nenhuma das partes excede a sua competência nem ultrapassa a medida”. são muitas as formas de Estado e isso é muito relativo. Já alguns teóricos. acreditam que tal forma de governo conduziriam o estado à ruína. mas também aqueles em que o poder religioso está separado do poder laico e o poder econômico do poder político. e a burguesia. devemos obviamente ligálas aos seus contextos históricos. Políbio também expõe sua teoria acerca dos governos mistos: “A razão pela qual o governo misto é superior a todos os outros está. justamente. das várias finalidades do poder político e dos diferentes contextos históricos aos quais pertenceram. cada uma dessas classes tinham seus direitos diferentemente distribuídos. para tanto seria necessário suprimir todas as classes. Estado representativo. devido a seu contexto histórico. reunindo indivíduos tendo as mesmas posições sociais. Agora vamos dar atenção especial às tipologias com base em um critério histórico. estando dentro dessas classes. também a ideia da teoria do equilíbrio dos poderes. ou até mesmo revoluções. pois seria incapaz de suprimir totalmente todas as formas de poder intermediário. a instabilidade. com seus interesses servem de barreira ao poder do príncipe. não apenas aqueles que contemplam os vários princípios. no qual surgem órgãos colegiais. temos aqui então. provocando mudança.

Max diz. a ideia de Monstequieu. o Estado representativo surge das ruínas do absolutismo monárquico. é que no segundo se reconhece os direitos naturais do indivíduo. por exemplo. Max Weber expõe uma crítica a essa ideia do Estado representativo. sob a forma de monarquia e no Estados Unidos da América. existe primeiro que o Estado. de forma que o governo é contrabalanceado por corpos intermédios. que tem sua imagem refletida na ideia do Estado democrático seguindo a vontade da maioria. assim. Bobbio expõem como as formas futuras de governo estão estritamente ligadas ao processo histórico. se legitimando em um primeiro momento. dessas classes. ou seja. No resto do texto. Sendo o processo da negociação mais justo do que o processo de formação da vontade coletiva através da regra da maioria.4) será tratada das formas de Estado no que se refere à maior ou menor expansão do Estado nos cuidados da sociedade ( inclusive aqueles fundados em ideologias). direitos esses pertencentes a qualquer indivíduo não sendo preciso conquistá-los. o procedimento normal para se conseguirem decisões coletivas é o compromisso entre as partes e não a regra da maioria. Posteriormente (7. principalmente nas nossas sociedades. como esse processo de formação de classes. O indivíduo. sugere a desestruturação do poder em diferentes instituições para que ocorra o mesmo contrabalanceamento. não se limitando assim essas classificações à um critério histórico. colaborou para a formação de um poder absoluto posteriormente.teoria de que a monarquia é controlada pelo poder das ordens.2 O Estado representativo O aparecimento do Estado representativo se dá por diversas formas. que quando estão em confronto grupos de interesses. O indivíduo não existe para o Estado. por exemplo. A diferença entre o Estado de classes e esse Estado representativo. sendo que no primeiro. Uma característica constante desse Estado absoluto seria uma centralização do poder. fazendo valer da desobediência civil e da resistência. Com a regra da maioria divide-se os grupos sociais em vencedores e vencidos. principalmente por um consenso. Na França. podendo agora. 7. de forma análoga. sob a forma de uma república presidencial. havia uma diferenciação entre o direito das diferentes classes. principalmente após as revoluções burguesas. só . Com esse sistema de negociação é possível manter um equilíbrio do sistema social. mas o Estado para o indivíduo. todo indivíduo recorrer ao Estado. na Inglaterra.

Os Estados que se afastam desses princípios. 7. a minoria passa ela própria à maioria. como seria o caso das ditaduras no Brasil. para superar um período transitório de anarquia. não havendo espaço par ao não-Estado. por exemplo. a legitimidade do soberano derivava de ser o único interprete autêntico da doutrina (semelhante ao princípio de legitimidade usado pelas Igrejas). como um governo provisório em estado de emergência. entre as constituições formais e as materiais. Mas o que de fato podemos afirmar. seriam os que nós poderíamos considerar de socialistas. estendendo seu controle a todo o comportamento humano.4. porém o que se dá é uma mal aplicação delas ou são até mesmo suspensas. mas a URSS. são formas de governo que justificam o seu próprio poder como temporariamente necessários para restabelecer a ordem alterada.3. Mesmo dentro dos Estados socialistas podems e originar diversas classificações. A análise dos Estados de partido único. Por exemplo.sendo possível o reequilíbrio do sistema quando. toda a sociedade se dissolve no Estado. não deixando qualquer interstício dos indivíduos e dos grupos. . que se foram afirmando nessas últimas décadas. assim. Uma outra forma que nos é mais familiar. deu origem à figura do Estado totalitário. Estado e não-Estado Nesse trecho do texto. é que os Estados representativos são perfeitos para as constituições escritas. No Estado totalitário. Os estados socialistas É impossível descrever todas as formas de governos possíveis hoje existentes. havendo uma suspensão temporária e sem previsões de um regresso à ‘normalidade’. alguns de seus membros a consideravam um Estado burocrático. segundo Bobbio. mesmo tendo em vista que é muito grande a diferença entre os princípios constitucionais oficialmente proclamados e a realidade de ato. o poder político reúne em si o poder ideológico e o poder econômico. 7. Na realidade deles. mas é bom ter essa noção de quão vastas e intermináveis poderiam ser essas classificações. que era detentor do poder político e ideológico e nessa ideia. havia um único partido. fazendo-se passar por justo. por sua vez. será abordada as diferente relações entre o Estado e o não-Estado ao longo do tempo.

observamos que com a sociedade civil-burguesa. Não se deve confundir. essa sociedade pretende destacar-se do abraço mortal do Estado. ou neutro. imprimindo uma direção ao conjunto de atividades econômicas do país. controlando assim suas opiniões. o limite que o Estado recebe da presença mais ou menos forte do nãoEstado. são limites do poder político. Ou seja. ainda. seria ela absolutamente necessária para que se possa obter uma organização social estável? O simples fato do não-Estado existir sempre estabeleceu um limite para a expansão do Estado. uma ordem (ideia de mão invisível de Adam Smith). seus atos. Na esfera econômica encontramos a figura do Estado intervencionista (regula a produção de bens ou a distribuição de riqueza. . no entanto. acreditando. assim. exigindo agora direitos. Na esfera religiosa encontramos o reflexo desses dois estados no Estado confessional (se preocupa com o comportamento religioso dos seus súditos. a mais ampla liberdade econômica). impedindo todas as manifestações de divergência e perseguindo dissidentes) e no Estado laico. são limites ao poder político. não tendo outro objetivo se não o de garantir juridicamente o desenvolvimento o mais autônomo possível das duas esferas. Dessa forma o não-Estado reduz a esfera de atuação do Estado. que seria o Estado liberal e é chamado também de Estado de direito (são estados que tanto na esfera econômica como na religiosa não intervêm. Como já vimos em discussão. o poder econômico. o Estado pode assumir tarefas que o não-Estado na sua pretensão reivindica para si e o Estado indiferente. Porém. as relações com o não-Estado variam segundo a maior ou menor expressão do primeiro em relação ao segundo. ou melhor. ocorre de forma análoga aos governantes que de certa forma se emancipam do Estado. com limites jurídicos do poder político.Em muitas outras formas de Estado essa relação é muitas vezes conflitante e aqui cabe um questionamento. 7. direitos esses que são garantidos por uma ordem natural e anteriores à formação do Estado. torna-se nitidamente distinto do poder político e no fim desse processo o nãoEstado passa a se afirmar como superior ao Estado. por si só.5 Estado máximo e mínimo Do ponto de vista do Estado. Sendo que tanto o Estado que intervém no âmbito econômico como o Estado que intervém no âmbito religioso pode ser considerado um Estado eudemonológico) e a do Estado abstencionista. anterior. facilita certas atividades e levanta obstáculos a outras. que o desenvolvimento econômico é capaz de garantir.

Aparece também uma nova forma de o Estado assumir a tarefa de dirigir a economia. mas é importante distinguir o que seria o fim do Estado das crises do Estado. onde o governo já não consegue fazer frente às solicitações vindas da sociedade civil. autores conservadores entendem como crise do Estado democrático . 8. Para os autores marxistas. a crise dos Estados capitalistas se dá porque esse não consegue dominar o poder dos grandes grupos de interesses. um sistema de poder que se serve do capital para poder sobreviver e continuar prosperando. que culminou nas Revoluções Burguesas. a ingovernabilidade dessas sociedades tão complexas. ou da emancipação do Estado do cuidado de assuntos religiosos e econômicos se deu devido à crise da concepção paternalista do poder. O fim do Estado 8. quando não tiverem mais cabimento as causas que o originaram. Mesmo após esse processo de desenvolvimento do Estado. o Estado doutrinal. encontramos ainda o Estado confessional sob uma nova forma. Com a crise do Estado pode-se originar uma nova forma de ordem social. para o Estado. proveniente do iluminismo.O processo de secularização. terá um fim e acabará. Entrando em conflito com o Estado capitalista.posteriormente. como é o caso da política de assistência social do New Deal na maior potência mundial e . uma nova forma de governo e não o fim dos ordenamentos políticos. como por exemplo o caso do marxismo-leninismo. exclusivamente para garantir essa liberdade e os direitos dos homens. Resta. através dos Estados socialistas. ou seja. enquanto Estado for. com a crise do Estado se sugere a criação de um novo contrato social. adotado nas grandes potências européias. o monopólio da força. assim. Dessa forma. esquerdistas tiveram como resultado o surgimento de um Estado assistencial. que concorrem entre si.1 A concepção positiva do Estado Uma tese muito conhecida de Engels é a de que como o Estado teve uma origem. . por exemplo.

com serenidade e júbilo. o Estado.” 2) Sem ser no ponto de vista religioso. caso o façam. por isso. tendo como base uma antropologia pessimista. Em todas essas concepções eles consideram o Estado como um mal. 8. o segundo. se não o máximo bem. mas de conduzir à plena realização desse Estado ideal. Não se pode propor o fim do Estado por não ter uma eficácia tão desejável. não será de destruir.Existem concepções. “Deus imos aos outros. ocorre um pensamento político realista. um estado de guerra de todos contra todos que. domando nossos vícios. como forma organizada de convivência civil. de modo a que não possa morder. exatamente como com laços e cadeias se ata um animal selvagem e feroz. “A sociedade é um produto das nossas necessidades e o governo das nossas perversidades. não possam exercitar a sua maldade e. No pensamento cristão primitivo. mesmo que gostasse de o fazer. mesmo que voluntariamente. uma visão pessimista do homem. de tal modo que. Ainda existe uma concepção como a de Hobbes. ou dos interesses antagônicos e inconciliáveis e que o homem só possa realizar a sua própria vida de homem racional sob a proteção do Estado. pelo menos uma instituição favorável ao desenvolvimento das faculdades humanas. o Estado é necessário pois a multidão é perversa e deve ser refreada pelo medo. mas antes o Estado que a anarquia. além do reino de Deus. ele está em constante desenvolvimento e tem como projetos as repúblicas ideais.” . negativamente. inclusive. não seja sem medo. Todos os Estados existentes são imperfeitos. o primeiro promove a nossa felicidade positivamente. há o mundo das paixões desenfreadas. Espinosa e Rousseau: fora do Estado. Com a sociedade de livre mercado. 1) Ponto de vista não-Estado – Igreja. Como Maquiavel derivou a imagem da face demoníaca do poder e Hobbes. um outro governo e pô-los sob a espada. de uma Estado positivo e de um Estado negativo. como se pode imaginar. mas susceptíveis a aperfeiçoamento e.2 O Estado como mal necessário A concepção do Estado como um mal necessária surge na história do pensamento política a partir de dois pontos de vista. unindo os nossos afetos. ao progresso civil. avança a pretensão de restringir os poderes do Estado ao mínimo necessário. nem soltar-se de acordo com o seu instinto. estamos sujeitos a sempre voltar a cair nesse estado. Os que emitem um juízo positivo sobre o Estado crêem que o Estado seja.

que culminaria no fim do Estado. A ideia marxista para uma o legítimo surgimento de uma sociedade sem Estado segue a seguinte linha de raciocínio: o Estado só nasceu para garantir a divisão da sociedade em classes opostas. surgiria uma sociedade que pode sobrevier e prosperar sem a necessidade de um aparelho de coação. o anarquismo tem como base a espontânea e voluntária cooperação dos indivíduos associados. Esse processo se daria com a emancipação do não-Estado do Estado. que detém o monopólio da força. de uma comunidade capaz de viver em conformidade com os preceitos evangélicos. Assim. tendo raízes numa concepção otimista do homem. diametralmente oposto à que invoca o Estado forte para domar a “besta selvagem”. representam o ideal. no respeite de uns pelos outros e iguais entre si. respectivamente livre. por exemplo?). e continua existindo para garantir o domínio de uma classe sobre a outra. política e econômica e vendo no Estado o instrumento máximo de opressão do homem. ele deve governar o menos possível. ocorre ao longo do tempo a perda dessas formas de poder. para evitar o estado de anarquia e para evitar um Estado que intervenha em outras relações se não as básicas. com a ditadura do proletariado e com a extinção das classes sociais não seria mais necessária a existência do Estado. religiosa. de uma sociedade sem oprimidos. Dessa forma. Existem também idéias teológicas a respeito disso. um bom Estado. sempre renovado. nem opressores.Logo. depois o poder econômico e por fim o poder coercitivo. 8. primeiramente o Estado domina todas as formas de poder. libertando-se de todas as formas de autoridade. Os movimentos anarquistas. para permitir que a sociedade burguesa se expanda e triunfe. não tendo necessidade das instituições políticas (mas não seriam esses preceitos uma forma de poder ideológico. de fato. no fundo. defende-se a ideia de um Estado mínimo. primeiramente o poder ideológico.3 O Estado como mal não necessário Tendo em vista toda aquela ideia do Estado sendo um aparelho coercitivo. para que o Estado possa ser. então. apenas o necessário. . com o fim do Estado.