Katiene Suzart

A Percepção numa Abordagem Behaviorista Radical

Salvador, Novembro de 2010.

. passando por alguns filósofos e até mesmo as pesquisas mais atuais sobre percepção tentam dar justificativas a esse fato tão intrigante e curioso: Como um mesmo objeto ou uma sensação qualquer. Essa teoria está fundamentada em uma visão mentalista da percepção. onde o mundo seria representado através de cópias mentais. p. segundo o Dicionário Prático da Língua Portuguesa (Rios. Com isso. o que é inaceitável na explicação Skinneriana. na qual. dependendo de quem o ver ou sente. a “teoria da cópia” não se torna aceitável. podem provocar interpretações tão variadas? Um mesmo fenômeno é visto de variadas maneiras e as interpretações são múltiplas. a percepção é considerada o “ato ou faculdade de perceber pelos órgãos dos sentidos”. Nesse sentido. faz-se necessário explicar um pouco sobre a “teoria da cópia”.A Percepção numa Abordagem Behaviorista Radical Katiene do Sacramento Suzart1 A forma como as pessoas percebem o mundo. de acordo com a teoria. Dessa maneira. 1998. além de se tornar mais 1 Graduanda do 3° Semestre do Curso de Psicologia pela Faculdade Social da Bahia. Nesse contexto. desconsiderar o papel que o ambiente possui na história deste. os quais existem independentemente de serem vistos ou sentidos. Desde os gregos. para Lopes e Damásio (2002). Dentre as várias possibilidades de explicação do assunto temos inicialmente a conceitual. e por sua vez bastante criticada pelo behaviorismo. Para que essa teoria tenha sentido é preciso fazer uso do conceito de mente como algo que faz parte da interioridade do organismo. Inicialmente. esclarecer como isso acontece sob o ponto de vista das variadas teorias que o explicam demandaria um trabalho árduo e extenso. perceber seria captar o que os órgãos dos sentidos nos informam. 411). nem tão pouco compreensível. e assim. Assim. essa explicação não poderia fazer usos de “cópias” uma vez que não admite a existência de um “mundo mental” de natureza especial. No que diz respeito à visão Skinneriana. visto que faz uso de atributos mentalistas para explicação do sujeito. interpretam a realidade e vivem esta realidade percebida. a qual é armazenada para que posteriormente. possa ser usada. há muito tem sido objeto de estudos e um campo de interesse de várias correntes teóricas. o presente trabalho tem como objetivo apresentar a visão Behaviorista Radical de Skinner acerca da percepção. onde o ambiente possui papel fundamental. num momento oportuno. já que parece ser uma das teorias mais comumente aceitas. quando vemos e percebemos algo criamos uma cópia mental.

dentre outros. caso na sua história ambiental as respostas dadas a estes estímulos foram afetadas por conseqüências. o estímulo presente no momento do reforço é que tem certo controle sobre a probabilidade de ocorrência da resposta. Neste caso. uma pessoa saberá discriminar algo. os paralelepípedos. a fim de entender as contingencias de reforçamento que o seu comportamento perceptivo é função. Neste caso. carros. porque o seu comportamento perceptivo já foi afetado pelas conseqüências de tal forma. ver é um comportamento respondente. manifestando-se depois privadamente. a história da mãe exerceu o controle discriminativo sobre os estímulos (buracos. Os níveis de privação e a capacidade reforçadora desempenham papel . como o perigo dos carros. que provavelmente passeava com o seu filho numa rua bastante conhecida para ela. a análise behaviorista radical trata a percepção. e que um estímulo neutro ao ser pareado com um estímulo eliciador. Quando o comportamento perceptivo ocorre sem a presença de estímulos. uma mãe passeia numa rua movimentada com seu filho pequeno. Em relação ao comportamento perceptivo. Dessa forma. Assim.incompreensível quando expandida para outros sentidos que não o da visão. foi o diferencial para que ela pudesse ver coisas. pois as respostas que ela deu a estes estímulos foram afetadas pelas conseqüências. mas como comportamento perceptivo. ou condicionada. pode ver esta porque o lugar específico serviu de estimulo para ele. Por outro lado. como um comportamento em miniatura. como “ver na ausência da coisa vista” diz que ele ocorreu através de duas explicações. onde a conseqüência dada a determinado comportamento foi tão reforçadora. o ambiente que este foi e está sendo exposto. a história de vida da mãe.). e por isso deve ser analisado levando-se em consideração a história de vida do indivíduo. que o seu filho não veria. o qual não aprendeu ainda a discriminar os estímulos num ambiente aberto e grande. perigo e etc. Uma pessoa que após o término de um namoro vai a um lugar em que costumava ir com a sua namorada. Como por exemplo. e não eliciar a resposta sem a necessidade de um estímulo antecedente. buracos. aprendido e controlado por estímulos. o olfato ou o tato. Uma é a visão respondente. que o guia e sabe muito bem o que fazer a cada momento. um comportamento privado. não como algo interior ao organismo e assim inacessível a outros. como por exemplo. isso porque mesmo sendo um evento privado esse comportamento foi obtido de maneira pública. não possui certa quantidade de conseqüências dadas ao seu comportamento perceptivo. Diferentemente da mãe. Nesse sentido. que passa a emitir. este pode manifestar-se em sua forma privada. ou seja. Outra explicação é através da visão operante. passa a partir daí a eliciar a resposta. que agora ela sabe discriminar perfeitamente o ambiente que está.

levando em consideração as idiossincrasias. É. logo. percebemos o que somos ensinados a perceber. a pessoa estaria num nível de privação tão grande da namorada. e da cultura. aliado ao papel reforçador que ela possuía. que diz respeito à história ambiental atual do indivíduo. pela simples questão de não compartilharem das mesmas contingências. que são produtos de histórias de reforçamento diferentes. como sugere a “teoria da cópia”. sentir. comportamentos perceptivos que envolvem a sensação são comportamentos aprendidos. Assim. A percepção. o ato de perceber é fruto tanto da filogênese.. ou seja. a perceber determinadas coisas que outras. e não ao comportamento de ver em si. cheirar. o comportamento de vê-lo pode tornar-se tão forte que ocorre na ausência desse objeto. Mas essa aprendizagem diz respeito ao conteúdo destes comportamentos. possivelmente pôde se livrar de predadores e garantir a transmissão dessa característica. “quando um objeto é automaticamente reforçador. o qual é aprendido de acordo com as contingências de reforçamento que o sujeito foi exposto. aquilo que ele aprende a discriminar. baseada numa visão mentalista do sujeito. deve ser tratado não como algo que está interno ao indivíduo. enfim. é o resultado de um processo evolutivo da espécie quando provavelmente o comportamento perceptivo teve alguma função na sobrevivência da espécie. referente à espécie e já retratada acima. portanto. determinadas pessoas aprendem a discriminar o ambiente. quanto da ontogênese. contudo. O ver. . torna-se até bastante compreensível o fato de o comportamento perceptivo ter sido mantido pela seleção natural. Dessa maneira.significante. e sim deve ser analisado como fruto das histórias específicas de cada um. 2000). a qual é responsável pelas conseqüências dadas ao grupo de indivíduos.. aprendido quando o objeto está presente. o qual é definido através da história ambiental.” (p. Assim. Este. por exemplo. o material que cada um compõe a sua percepção. ainda usando o exemplo acima. é analisada pelo Behaviorismo Radical como comportamento perceptivo. O homem caçador daquele período deve ter encontrado boas conseqüências ao perceber o ambiente. em sonhos. ouvir. citado por Silva. que pode vê-la sem mesmo precisar estar num lugar onde ambos costumavam ir juntos. Conforme proposto por Skinner (1968/1972. O ato de perceber. 118). enfim. Aqui. podendo ver a namorada.

Inf. Sobre o Behaviorismo. LOPES. F. F. Cap.2 Brasília maio/ago. Teoria da Percepção no Behaviorismo Radical. C. 11. p. p. B. R. A. 1998. Dicionário Prático da Língua Portuguesa. RIOS. São Paulo: Martins Fontes. F. D. Uma Análise Behaviorista dos Sonhos. pp. J. SKINNER. Vll. V. São Paulo: Cultrix. 2006. 2002. D.18 n. B. M. in: Ci. São Paulo: Difusão Cultural do Livro. Psicologia: Reflexão e Crítica.. Ciência e Comportamento Humano. E. 435-449. 118-141. v. ABIB. 65-77. SILVA. .Referências SKNNER. 2003. 10. 2000. 13(3). Psicologia: Teoria e Pesquisa. Cap.ed.ed.