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A Escola da luta pela terra

A Escola Itinerante nos
estados do Rio Grande do Sul,
Paraná, Santa Catarina, Alagoas e Piauí.

CURITIBA
2010

Ficha Catalográfica

Governo do Estado do Paraná
Roberto Requião
Secretária de Estado da Educação
Yvelise Freitas de Sousa Arco- Verde
Diretor Geral
Altevir Rocha de Andrade
Superintendente da Educação
Alayde Maria Pinto Digiovanni
Chefe do Departamento da Diversidade
Wagner Roberto do Amaral
Coordenação da Educação do Campo
Vitor de Moraes

Scheeren Sandra Luciana Dalmagro Coordenação Isabela Camini Sandra Luciana Dalmagro Colaboração Caroline Bahniuk Jeansley Lima Revisão Equipe de elaboração Nina Fidelis Diagramação Rafael Araújo Saldanha Fotos Setor de Educação do MST dos estados de PI. AL. Elaboração Adilson de Apiaim Alessandro Santos Mariano Daiane Maria Paz Débora Nunes Lino da Silva Elizabete Witcel Jurema de Fátima Knopf Isabela Camini Marcela Nunes da Cunha Marli Zimermann de Moraes Paulo Davi Johann Sandra G.EXPEDIENTE Produção Setor de Educação (MST . PR. SC e RS.PR) e Secretaria de Estado da Educação (SEED) – Departamento da Diversidade Coordenação da Educação do Campo. .

SUMÁRIO Apresentação 9 Parte I Escola Itinerante do RS: pontos e contrapontos de uma escola em Movimento 15 Escola Itinerante no Paraná: aprendendo e ensinando na luta dos Sem Terra 41 Escola Itinerante em Santa Catarina: luta e construção 59 Marli Zimermann de Moraes e Elizabete Witcel Alessandro Santos Mariano. Jurema de Fátima Knopf e Sandra G. Scheeren Daiane Maria Paz e Paulo Davi Johann A Escola Itinerante no estado de Alagoas Marcela Nunes da Cunha e Débora Nunes Lino da Silva A Escola Itinerante no Piauí Adilson de Apiaim 95 Parte II Escola Itinerante: do árduo e do belo 111 A formação dos Educadores Itinerantes 127 Anexos 139 Sandra Luciana Dalmagro Isabela Camini e Jurema de Fátima Knopf .

Paraná. Alagoas e Piauí . Santa Catarina.6 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul.

Coleção Cadernos da Escola Itinerante 7 .

Alagoas e Piauí .8 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Paraná. Santa Catarina.

RS e SC. Dessa maneira. a luta e a resistência das Escolas Itinerantes nos estados em que foram reconhecidas e legalizadas pelo sistema público de educação. sua experiência não consta neste caderno em virtude das dificuldades conjunturais que impossibilitaram a participação dos educadores do estado nas quatro oficinas de produção deste material. em meio à luta pela Reforma Agrária no Rio Grande do Sul. Ao ler o relato das experiências destas escolas do Rio Grande do Sul. Vale ressaltar que os referidos textos refletem as ideias dos seus autores. Embora o estado de Goiás tenha efetivado a Escola Itinerante por três anos (20062008). Nestes termos. apesar do amplo debate ocorrido no decorrer das oficinas. PR. obedecendo à ordem cronológica de regularização da escola. que teve início em 2003. você terá um reencontro com o início da educação do MST. frente ao crescente processo de criminalização do MST e à truculência dos ruralistas. O caderno nº 4 destacou as práticas pedagógicas voltada sespecialmente para os educadores das Escolas Itinerantes. Afinal. assume um caráter diferenciado em relação às edições anteriores desta coleção. projetos e experiências das Escolas Itinerantes do estado do Paraná. Dessa forma. Desse modo. os cadernos nº 1 e nº 2 se dedicaram a retratar a história. o presente caderno está dividido em duas partes. Assim. que teve origem nos acampamentos. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 9 . Ao ler este caderno. elas apontam as diferentes formas de apreensão do que é educação para o Movimento.no seu décimo terceiro ano de existência -. é possível observar como se aprende lutando e como se luta aprendendo.APRESENTAÇÃO C ompanheiros e Companheiras. o texto inicial deste caderno demonstra o caráter combativo das Escolas Itinerantes . o presente caderno pretende socializar com todos os militantes do MST as experiências das Escolas Itinerantes em âmbito nacional e qualificar o trabalho com a escola. Apesar das experiências aqui relatadas não refletirem a concepção de escola do MST. PI. A primeira compila os textos elaborados pelos coordenadores das Escolas Itinerantes nos estados correlatos. O contexto social e a conjuntura da luta vivenciada nos estados interferem na produção dos textos. O caderno nº 3 se ateve às variadas pesquisas sobre o tema no meio acadêmico. retrata a trajetória. Ao contrário do que se possa imaginar aqueles que leram os cadernos 1 e 2 desta coleção. os temas abordados não foram suficientes para compreender as reflexões que educadores e militantes do Paraná têm feito em torno das Escolas Itinerantes. ocorridas entre junho de 2009 e fevereiro de 2010. situa a escola neste contexto e aponta para os desafios organizacionais e políticos da escola e do MST no estado. O texto seguinte trata sobre a experiência das Escolas Itinerantes no estado do Paraná. em que percebemos as contradições do processo e as questões a serem superadas. O Caderno das Escolas Itinerantes nº 5: A escola da luta pela terra: a Escola Itinerante nos estados de AL.

a escola continua firme na sua caminhada ao lado do povo Sem Terra e sua luta. Alagoas e Piauí . No entanto. Da escola como instrumento de luta e resistência. a organização coletiva. Por conseguinte. que teve seu processo regularizado em 2004. o seu vínculo com a realidade. refletindo suas práticas e apontando perspectivas. Esta experiência reitera que a luta pela Reforma Agrária e pela educação em Alagoas e no Nordeste. Descreve a especificidade da Escola Itinerante no estado e a relação permanente de luta e resistência para mantê-la em atividade. se a luta em movimento e a relação desta escola com a realidade é o fator que as une. por outro lado. A primeira parte do caderno se encerra com o texto do Piauí. nos textos a seguir os leitores estarão diante de diferentes processos de luta e permanência da Escola Itinerante. Por sua vez. nos oferece uma descrição do processo de consolidação desta experiência.Isso demonstra a complexidade dos aspectos identificados no decorrer do processo de sistematização e a necessidade de serem aprofundados. O primeiro aborda a construção social da escola e o sentido atribuído a ela no MST. O trabalho coletivo na construção da escola é um dos caminhos apontados para a superação das dificuldades e a qualificação da atuação nas escolas do MST. em que surgem vários desafios e perspectivas. pretendemos contribuir para o avanço das Escolas Itinerantes como política pública e como contraposição à escola capitalista. a luta por escolas nos acampamentos busca superar o descaso histórico do estado e da região com a educação. O segundo texto é uma reflexão sobre a importância dos Seminários Nacionais das Escolas Itinerantes para o registro dessas experiências. o estado de Santa Catarina. se constituem um meio de reflexão e aprendizado sobre o trabalho nas escolas. É necessário atentar ainda o trabalho que o MST no Paraná tem dedicado à formação dos educadores. que a auto-organização e o vínculo com a comunidade são elementos centrais para a construção de uma escola que tem o compromisso de educar para transformar. Paraná. limites e desafios frente a estas escolas de acampamentos. reflexões. para então refletir sobre alguns limites e potencialidades da Escola Itinerante. O relato a respeito da caracterização da escola no estado remonta à relação conflituosa com o governo e aponta a dificuldade de se avançar no processo de sua consolidação. repercute na singularidade das escolas. até a sua instituição como escola pública. A segunda parte do caderno é composta por dois textos. e se constitui um elemento central para a superação das desigualdades sociais e a emancipação do seu povo. Sua principal característica é a luta convergente com as demandas de outros movimentos sociais do campo. suas especificidades e distinções temporais produzem diversificadas formas de atuação e práticas pedagógicas. como aprendizado e formação dos educadores. ao socializar a todos educadores e educandos as práticas. Logo. a dimensão geográfica e histórica de cada estado/região. Assim como identificará similaridades e objetivos comuns em torno da luta por escola. Contudo. especialmente as escolas de acampamento. Santa Catarina. Desse modo. Demonstra. Desse modo. O estado de Alagoas foi o primeiro da Região Nordeste a implementar a Escola Itinerante. Os relatos aqui publicados pretendem contribuir para a expansão das Escolas Itinerantes como experiência de educação do MST. Exemplo disso é o fato destas escolas estarem diretamente relacionada à luta pela Reforma Agrária nos estados. aliás. sem perder de vista as escolas de assentamento. O último estado a regularizar as escolas de acampamento. Essa experiência aponta um novo caminho. a diversidade sócio-cultural. avanços. perpassando por sua relação com a comunidade. 10 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. em 2008. Assim.

Os textos foram escritos pelos sujeitos que estão envolvidos no processo. o primeiro resultado almejado com este caderno é refletir sobre a atuação nas escolas de modo a transformar a realidade. pretendemos que este caderno seja objeto de estudo de toda a militância Sem Terra. O segundo seria disponibilizar e difundir essa experiência escolar.O resultado deste trabalho é fruto de elaboração e reflexão coletiva. E. mas que possa servir para ampliar a interlocução entre aqueles que comungam do projeto da Educação do Campo e da Reforma Agrária. onde foi possível ampliar a reflexão. Assim. identificando as possibilidades e os limites desta escola nos diferentes estados e em seu conjunto. B om estudo! Coletivo Nacional de Educação do MST Março de 2010 Coleção Cadernos da Escola Itinerante 11 . entendemos que a sistematização das experiências das Escolas Itinerantes do MST se constituiu em um espaço de formação. por fim. todos passaram por um amplo processo de sistematização e reflexão. contribuir para que o Coletivo de Educação do MST se apodere deste novo instrumento de ação e reflexão. Com isso. para que todos sistematizem e qualifiquem a sua atuação. Nesse sentido. Apesar dos referidos textos terem autores que o assinam.

Santa Catarina. Alagoas e Piauí .12 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Paraná.

PARTE I Escola Itinerante no Rio Grande do Sul Coleção Cadernos da Escola Itinerante 13 .

14 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Paraná. Santa Catarina. Alagoas e Piauí .

em particular. Compreender e posicionar-se em relação às práticas desenvolvidas neste percurso não é um ato simples e artificial. Com Especialização em Estudos Latinos. participando dos processos educativos. pela ação coletiva do MST. as opiniões. As vivências adquiridas nos espaços da luta vão construindo referenciais de participação efetiva dos sujeitos que fazem parte desta organização. pela UnB/ITERRA 2 Educadora do Setor de Educação MST-RS e da rede pública estadual do RS. não dá para suprirmos os sonhos. É uma exigência que nos persegue sempre. estiverem aí. doendo. São análises que demarcam claramente o campo da luta de classes e. o campo da educação como um dos componentes fundamentais dessa luta. analisamos os diversos materiais divulgados na imprensa. desafiando-nos a ser sujeitos de transformação desse contexto. 1 Educadora do Setor de Educação MST-RS e da rede Pública Estadual do RS. Buscamos significar permanentemente o processo organizativo e formativo ampliando nossa compreensão da luta de classes presente na luta pela Reforma Agrária e do enfrentamento ao latifúndio.ESCOLA ITINERANTE: PONTOS E CONTRAPONTOS DE UMA ESCOLA EM MOVIMENTO Marli Zimermann de Moraes1 Elizabete Witcel 2 Enquanto as dores. passa a exigir o posicionamento de todos. Não há neutralidade nessa luta. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 15 . Notadamente. as considerações sobre a posição dos governantes do estado do Rio Grande do Sul e as reações geradas nos trabalhadores Sem Terra. Neste contexto trazemos presente as práticas e as reflexões. os fatos abordados sobre o fechamento das Escolas Itinerantes. Essa vivência vem demonstrando que ter Escola Itinerante nos acampamentos significa reconhecer que as crianças. são protagonistas na luta organizada pelos pais. frutos da contradição do capitalismo. dos treze anos de existência desta escola. com os elementos da prática educativa.2009). que a experiência pedagógica aqui relatada apresenta. Estes desenvolvem valores humanos construídos coletivamente. o movimento. e. resgatando a trajetória da Escola Itinerante dos acampamentos no estado do Rio Grande do Sul (1996 . na condição de crianças. pela UFMG. Com Especialização em Educação do Campo e Desenvolvimento. ao mesmo tempo em que lutam por terra. as reflexões e os desafios que marcam a continuidade desta caminhada. O registro que nos propomos fazer traz a memória. Na primeira parte do texto. Paulo Freire INTRODUÇÃO Neste texto abordamos a educação e a escola no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). têm acesso à escola. no intuito de revelar a necessidade histórica almejada pelos trabalhadores: a de possuir escola para seus filhos. com avanços e limites. os desejos e as insubmissões socialistas. a educação do campo. Retomamos os fatos.

a interferência dos órgãos públicos em escolas mantidas e/ou geridas pelo MST. o Governo. tanto no aspecto pedagógico quanto na estrutura de influência externa do MST. evidentemente.116 do Conselho Superior do Ministério Público. A parte central do texto procura abordar a contextualização sobre a aprovação da escola. o MP por meio de um inquérito civil investiga várias ações dos movimentos sociais e instaura um Termo de Ajuste de Conduta (TAC). jovens e adultos nos acampamentos. no dia 18 de fevereiro de 2009.” Sugeriu-se também se necessário: .. Paraná. delegou a responsabilidade para os municípios próximos aos acampamentos em absorver a demanda escolar dos educandos das Escolas 3 4 16 Ata n º 1.” Um dos principais argumentos é que “este movimento fere os princípios democráticos” 4. A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. designando uma equipe de promotores de justiça para realizar uma investigação minuciosa.. que atendiam. com vistas a promover uma ação pública para sua dissolução. foram propostas diversas ações. assim como em marchas.para impedir a presença de crianças e adolescentes em acampamentos.o voto é pela intervenção do Ministério Público nas três ‘escolas’ referidas afim de tomar todas as medidas que serão necessárias para a readequação à legalidade. Coerente com estas ações. naquele momento.. Por fim. em entrevista ao Jornal Zero Hora. conforme Ata3 . jovens e adultos nos acampamentos de Sem Terra do RS. Em novembro de 2008. Neste sentido. declarando o fechamento dos Cursos Experimentais Itinerantes – denominadas Escolas Itinerantes –. o Conselho Superior do Ministério Público – MP do Rio Grande do Sul. já que esta foi impedida de funcionar.. percebe-se a desconsideração dos órgãos responsáveis em relação às práticas educativas realizadas pelo MST durante estes treze anos. POR QUE ENTÃO FECHAR AS ESCOLAS ITINERANTES? No ano de 2007. nitidamente contrária aos princípios contidos na Constituição Federal e que embasam o Estado Democrático de Direito. e se põe em luta. Santa Catarina. em conjunto com a Secretaria do Estado da Educação. É mais um capítulo da luta pelo direito negado à educação. apontamos os desafios e as perspectivas desta escola. Seguindo as instruções do TAC. elencamos um conjunto de atitudes e ações que foram tomadas como justificativas – por parte do poder público – para o fechamento das Escolas Itinerantes. declarou a ilegalidade do Movimento Sem Terra. para garantir escola para as crianças. E em nome da democracia a aposta é acabar com o MST.. Esta mesma Ata orientou para que fossem tomadas medidas judiciais “.Na sequência. (Ata nº 1116 p 02). Essa contextualização. Conforme o termo da Ata do referido Conselho: “. vai revelando e forjando os principais pilares da pedagogia desenvolvida na luta itinerante dos acampamentos do MST-RS. dentre elas. Mas a rebeldia do povo organizado almeja a sua continuidade. colunas ou outros deslocamentos em massa de sem-terra.. mais de 600 crianças.ocorrer o ajuizamento de ações civis públicas com vista a proteção da infância e juventude em relação às bases pedagógicas veiculadas nas escolas mantidas ou geridas pelo MST. cada vez que necessário for. Alagoas e Piauí . Fala de Gilberto Thums.

com forte colaboração da mídia. judiciário. são os crimes mais graves. O que estava antes camuflado em aparente “neutralidade”. A Escola Itinerante vinha se desenvolvendo há 12 anos. as atividades escolares no início do ano letivo. é a grande protagonista desta ofensiva. que causam maior aversão. Evidentemente que tais medidas buscam colocar na defensiva todos os movimentos sociais que se opõem ao projeto da classe dominante. Acesso em: out. a defesa dos direitos humanos. A decisão tomada pela Secretaria e o MP foi levada ao conhecimento das oito comunidades acampadas onde havia Escolas Itinerantes. em 2009. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 17 . Neste caso. e esta. No nosso entender. os instrumentos jurídicos utilizados pela classe dominante ferem os princípios da dignidade humana. tortura. inclusive. “de gravidade acentuada”. o governo pretendia encerrar. MP. a repressão e a tortura. Ou seja. Com essa determinação. No caso em questão. Colabora com o que estamos expondo. a medida vale para proibir. tem como objetivo a repressão dos trabalhadores e suas lutas. enquanto parte da superestrutura política. jurídica e ideológica. dentre eles o da educação. Como observa o ex-deputado federal. A luta pela terra. definitivamente. À frente do executivo gaúcho. Autarquias públicas estão quase sempre sintonizadas quando se trata de legitimar e garantir a propriedade privada. como parte da criminalização. passam a ser tratados como um ato criminoso. baseando-se em medidas mais extremas. precisam ser controlados. do Conselho Tutelar. A finalidade desta ofensiva é visível: criar situações adversas para desmobilizar e fragilizar o Movimento frente à sociedade. ela articula as forças repressoras do Estado (Brigada Militar. entre outros) e os meios formadores de opinião (a mídia escrita. que questionem a sua ilegalidade e existência política. cuja finalidade é impedir que os acampamentos se aproximem dos latifúndios e das grandes empresas. Portanto. entre outros. As medidas tomadas pelo MP gaúcho são uma reação à luta conduzida pelos trabalhadores organizados. Plínio de Arruda Sampaio (2008)7 quando afirma: 5 Crimes que o legislador entendeu merecer maior reprovação por parte do Estado. Do ponto de vista da criminologia sociológica. agora se mostra na defesa dos interesses econômicos e políticos dos grandes grupos transnacionais. falada e televisiva) reforçando o argumento de que os movimentos sociais são antidemocráticos e devem ser tratados como caso de polícia. acompanhado de inúmeros processos judiciais contra os trabalhadores. Pela sua atuação ficou fácil de perceber que a governadora6 do RS. 2009). Isto se expressa na agilidade nas reintegrações de posse. E por diversas vezes. São considerados crimes hediondos – tráfico ilícito de entorpecentes. 6 Yeda Crusius (gestão 2007 a 2010) 7 Entrevista realizada por telefone à IHU On-Line. com a imediata comunicação aos órgãos da Brigada Militar. classificando a ocupação de terra como um crime hediondo5 . que as famílias acampem na beira das rodovias. A intenção das medidas tomadas por este do órgão público ficam mais evidente. em 25 de julho de 2008.Itinerantes. Para protegê-la é válido o “legítimo” exercício do monopólio da violência por meio das ações truculentas nos despejos. de extremo potencial ofensivo. terrorismo. mais revoltantes. (Wikipédia. as medidas judiciais denominadas de Interditos Proibitórios. isolados e responsabilizados criminalmente por suas lutas. sedimenta e consolida as ideias da classe dominante como universais. nacionais e do latifúndio aliado do agronegócio.

Isto. sem o diálogo com as partes envolvidas no Convênio8 . revelaram à sociedade as consequências danosas ao meio ambiente e. aterrorizante. localizada no Assentamento Itapuí em Nova Santa Rita. declara que: “[. O que está havendo. e acrescentamos que esta é uma visão distorcida e preconceituosa de quem vê nos trabalhadores uma ameaça aos interesses do capital. precisa manter o seu modelo de sociedade opressora. quando na verdade ela já estava descartada do vocabulário das pessoas e das instituições democráticas. Nova Sociedade. 2009. Apóia projetos educacionais e ambientais e realizou convênios para contratação de professores para as Escolas Itinerantes. incomodada com as organizações populares.. que são a Escola Estadual de Ensino Médio Nova Sociedade . jovens e adultos. em que medida o preconceito ideológico da suspeita infundada pesa sobre os trabalhadores pobres do nosso país. dos monocultivos de eucaliptos. A conivência do Ministério Público explicitada nestas decisões declara sua posição contra os interesses da população trabalhadora e reforça a perseguição política.] o fato de se cancelar o funcionamento de tais escolas atesta. na verdade. fere os Direitos Humanos.RS. 10 Entidade jurídica sem fins lucrativos. A decisão já mencionada acima foi tomada de forma autoritária.. a educação..] O fato de haver um aumento da distância entre ricos e pobres está fazendo com que os ricos passem a considerar os pobres como seus inimigos. todos os anos era renovado o Convênio firmado entre a Secretaria de Educação e o Instituto PRESERVAR que garantia a contratação de educadores para atuar nestas escolas. [. o MP acoberta as ações do agronegócio que ferem as leis ambientais. Neste sentido. por extensão à vida humana. é uma criminalização da pobreza. que assegura o direito à educação para todos. e constituiu-se como um ato contra os direitos e as conquistas da sociedade civil. ferindo inclusive preceitos constitucionais.O discurso continua sendo o discurso rancoroso do tempo da ditadura. pertencente a 27ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE). Concordamos com Alfonsin. 9 E. As denúncias feitas pelas mulheres da Via Campesina. mais uma vez. O fechamento das Escolas Itinerantes desconsidera todo o processo pedagógico construído ao longo destes doze anos. abrindo assim um perigoso precedente jurídico que fere os direitos individuais e coletivos dos trabalhadores. que grandes grupos econômicos nacionais e internacionais adquiriram mais de 500 mil hectares de terra para o monocultivo de eucaliptos para celulose no RS. Por isso. Canoas . Paraná. para continuar dominando como classe. não pelo que eles fazem ou dizem. M.Escola Base9 e o Instituto Preservar10 . Aos olhos da classe dominante. Santa Catarina. responsável pela escolarização milhares de crianças.E. mas sim pelo que são”11 . como o fechamento das escolas e a dissolução do MST. 11 Entrevista concedida à IHU-Online.. Ela. Se por um lado são tomadas medidas judiciais duras.E. bem como outros espaços de formação da 8 Desde o início da aprovação da Escola Itinerante. para citar um exemplo. por outro. em entrevista aos meios de comunicação. faz-se necessário enfraquecer e desmobilizar as iniciativas da classe trabalhadora. a nosso ver. tenta controlar as iniciativas populares em nossa sociedade. E o que nos deixa mais assustado é ver o Ministério Público do Rio Grande do Sul usando esta linguagem.. desrespeitou a Constituição Federal. Existem várias pesquisas que demonstram os danos ambientais que essa forma de cultivo ocasiona.. Um discurso ameaçador. 18 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. O reconhecido jurista Jacques Alfonsin. Vejam. Alagoas e Piauí . quando da sua mobilização no dia internacional da mulher.

a continuidade dos processos de aprendizagem e o respeito às crianças Sem Terra. assim como a não preocupação do Estado com a formação pedagógica dos educadores itinerantes. em alguma medida. em suas resoluções. sem considerar a condição de itinerância em que vivem. define que as redes públicas escolares usuais poderiam receber essas crianças em suas escolas. Ou seja. Se ficássemos apenas nos marcos dessa legalidade. regionais e outras. do município de São Gabriel (2009). O que demonstra que estas Escolas Itinerantes não desconsideram os princípios universais da educação. mais que isso. No nosso entender não há justificativas plausíveis para legitimar o fechamento das Escolas Itinerantes. a descontinuidade do pagamento dos educadores. posteriormente. estadual. O referido TAC. Haja vista que esta escola é pública. nem possibilidade de transportar as crianças acampadas para as escolas do município. no ano de 1996. pois está sob o “controle” do MST. pois os educandos da Escola Itinerante participaram do processo de avaliação externa realizado pelo sistema de avaliação escolar . mas que não vinham sendo atendidas regularmente: falta de recursos humanos. pois não existe nenhuma garantia de cumprimento da determinação judicial por parte dos municípios e das escolas estaduais em atender a demanda escolar. o descaso com a compra de materiais didático pedagógico. a simples garantia da matrícula não resolve questões como a sociabilidade entre educandos e educadores. Outra questão alegada no TAC é de que os educadores que trabalham nas Escolas Itinerantes são pessoas que vivem nos acampamentos e indicadas pelo próprio Movimento e.SAERS e pela Prova Brasil MEC. são iniciativas controladas minuciosamente. aplicouColeção Cadernos da Escola Itinerante 19 . ocasionado pelo descompromisso da Secretaria de Educação. podemos dizer que inúmeras delas eram atribuições da própria Secretaria de Educação. da autoridade do Estado burguês e da legitimidade da dominação de classe. pois como se tratam de questões de interesses de classe. Tudo isso é feito em nome do respeito ao “estado democrático e de direito”. desconsideraram os seus próprios instrumentos legais de avaliação. É cômodo impor que a rede pública de ensino receba as crianças em suas respectivas escolas. Deste modo. o processo de ensino desenvolvido não é laico. a falta de merenda escolar. na qual os educandos das Itinerantes apresentaram desempenho similiar às demais escolas do Rio Grande do Sul. Experiências como a das Escolas Itinerantes e as práticas pedagógicas a elas vinculadas devem ser derrotadas. Entre as razões apresentadas para o fechamento das escolas. tais como a declaração do prefeito Rossano Gonçalves. questiona a qualidade das Escolas Itinerantes que se desenvolviam em precárias condições. o não acompanhamento destas escolas.consciência. Percebe-se com isto que os órgãos públicos. pois questionam e ameaçam a pedagogia da supremacia da propriedade privada. temos depoimentos que contrariam estas orientações. no ano de 2007 e 2008. veríamos que a própria Constituição Brasileira garante o direito à educação. todavia. que afirmou não ter condições de receber. reconhecida pelo Conselho Estadual de Educação. os constantes entraves no envio de materiais de infraestrutura. com as especificidades da itinerância das famílias acampadas. primeiro houve um processo de sucateamento das condições estruturais destas escolas. A mesma que. o direito a desenvolver experiências pedagógicas respeitando-se as especificidades culturais. Esta interpretação do MP não está fundamentada em nenhum instrumento legal. por isto.

ao terem escolas em suas comunidades. evitando-se os processos de nucleação de escolas e de deslocamentos das crianças”14. “Não é a questão do dinheiro. Este direito está assegurado também no Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) de 1990. reconhecida pelas pesquisas12 existentes e que atende uma população que vive em itinerância. Sucessivos governos (2003 a 2009) vinham construindo medidas no sentido de perseguir os movimentos sociais com o objetivo de desmobilizar as famílias acampadas. 20 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. seis dissertações de mestrado e uma tese de doutorado foram pesquisas realizadas sobre Escola Itinerante no período de 1998 – 2010. conforme o artigo 3 “A educação infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental serão sempre oferecidos nas próprias comunidades rurais. Paraná. Ignora que a maioria dos educadores se encontra em processos de formação em cursos profissionalizantes: ensino médio e superior . Além de serem escolas em precaríssimas condições de infraestrutura. Licenciaturas e Especialização em Educação do Campo. ainda critica a natureza da Escola Itinerante. Esta decisão desconsiderou também o projeto pedagógico desenvolvido nestas escolas e que foi aprovado pelo Conselho Estadual de Educação em 1996. Alagoas e Piauí . alegando que as crianças dos acampamentos. é dar um professor qualificado para essas crianças para que tivessem direito de um dia participar do processo de inclusão social e não receber um ensino que vai condená-las a repetir um modelo que é dos próprios pais”.se uma interpretação da lei que desconsiderou a história de doze anos de uma escola pública estadual. nas Diretrizes Operacionais da Educação Básica das Escolas do Campo (2002).Magistério. Podemos nos perguntar: por que então fechar as Escolas Itinerantes? REFLEXÕES SOBRE A ESCOLA QUE APRENDE E ENSINA NA LUTA O enfrentamento aos movimentos sociais já vem de longa data. Santa Catarina. Segundo o Promotor de Justiça13 . as chamadas escolas de lata. Esta escola está assegurada na Constituição Federal. de 28 de abril de 2008. Itinerante. em abril de 2009. na Lei de Diretrizes de Bases da Educação Nacional – LDB (96). estarão “condenadas” a seguir ao modelo de vida dos pais. deslegitimar a luta pela terra e precarizar as condições das Escolas 12 Inúmeras monografias de magistério e pedagogia. porém sabe-se que somente será concretizada a partir da luta e da prática concreta. são escolas sem projeto político e pedagógico e com deficiências na formação de educadores. 14 Resolução número 2. na luta pela Reforma Agrária. A legislação assegura o direito aos Sem Terra de terem a escola próxima de onde vivem. Entende-se que os argumentos do TAC não sustentam a decisão de encerrar as atividades escolares nos acampamentos do MST. tendo em vista que diversas escolas estaduais do estado funcionam em contêineres. O referido TAC. Pedagogia. Quando se afirma “que a escola deve estar onde o povo está!” ou ainda “que ela existe porque existem povos itinerantes” é porque ela tem essas características e especificidades. o que por si só revela o descaso com a educação dos trabalhadores. MST e diversas entidades apoiadoras da Reforma Agrária. 13 Gilberto Thums em Audiência Pública sobre a Escola Itinerante organizada por Deputados da Assembléia Legislativa.

organizar a classe trabalhadora. que tem como objetivo garantir um dos direitos fundamentais do ser humano que é o direito a educação. Em tempos anteriores. pois esta se comporta apenas como órgão fiscalizador e controlador das ações pedagógicas nos acampamentos. Por outro lado. direitos são sistematicamente negados. Estas diretrizes apontam avanços na compreensão das políticas públicas específicas para as populações do campo. a Escola Itinerante manteve suas atividades educativas. A Reforma Agrária. Como consequência deste contexto. também é negada aos trabalhadores. A Secretaria de Educação. naquelas que exigem a participação de toda a família nos processos de mobilizações e lutas para a garantia dos seus direitos fundamentais. realizaram um jejum que durou 72 horas. superada apenas pela disposição e decisão do MST de garantir a educação a todas as crianças acampadas. e apesar de todas as dificuldades. ignorou a caminhada. Não há nenhum segredo que não possa ser revelado. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 21 . esse é um momento oportuno de rearticular as forças. orientações e supervisões dos órgãos da Secretaria de Educação e outros. emitindo documentos/pareceres. definir as tarefas estratégicas e motivar a todos para continuar a luta. Essa mesma política de descaso e abandono por parte do Estado foi adotada nos anos seguintes pelos governantes. interrogando os educadores. garantindo a ampliação das séries iniciais para séries finais do ensino fundamental. quando as relações entre Movimento Sem Terra e governo estadual eram de diálogo.Itinerantes. reivindicando que o governo estadual garantisse o convênio para a Escola Itinerante e reconhecesse a proposta pedagógica. sobretudo. educação infantil e EJA fundamental. As promessas de um tempo novo para a classe trabalhadora não se realizam. verificamos nos acampamentos que o número de famílias diminuiu significativamente. a vida e o movimento pedagógico desta escola. A questão é a forma como a Secretaria vem fazendo as supervisões. que aprovou o Regimento Escolar16 e ampliou o direito à escolaridade dos acampados. a escola enfrentou enormes dificuldades para se manter. como parte das mudanças mais profundas da sociedade. Sem infraestrutura e sem remuneração dos educadores. Revelamos que os processos educacionais das Escolas Itinerantes estão abertos para pesquisas. os governos se negam a reconhecer esta escola como parte da rede pública estadual de ensino em situação de itinerância15. desaprovando a forma escolar e as práticas educativas itinerantes. Lamentavelmente. no conjunto das organizações dos trabalhadores. fazendo vistorias nas escolas. sobretudo. nos últimos anos. Já inconformados com tal situação. os educadores e representantes de pais mobilizaram-se em frente à Secretaria de Educação reivindicando melhor tratamento às Escolas Itinerantes e reconhecimento aos educadores. Não alheio a este contexto. Regimentou os Cursos Experimentais Itinerantes. dezembro de 2002. Como parte dos protestos. conjuntamente. que é uma conquista dos movimentos sociais. 15 Itinerância significa acompanhar o acampamento nas situações vividas pelas crianças acampadas. incluindo o direito à educação. construída e afinada com o projeto de educação do campo assegurado nas Diretrizes Operacionais da Educação do Campo. Passamos rapidamente para um tempo de pouco diálogo. 16 Aprovado em sessão plenária do Conselho Estadual de Educação. durante o ano de 2003. foi construído. ao contrário. em outubro de 2008. apesar das precárias condições. efetivado por meio do Parecer nº 489/2002. um processo educativo no qual a Escola Itinerante tornarase uma política pública. apatia e acomodações no conjunto da sociedade e.

assim como a garantia do direito à educação para crianças e adolescentes em seu tempo devido. é bom lembrar que a instituição escolar. A partir da conquista e ampliação garantida no Regimento Escolar.. que resulta no alto índice de analfabetismo. e quem nela não se “enquadra” sutilmente dela é excluída. passa pela democratização do acesso e 22 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. entre outras. enquanto instituição hegemônica da classe dominante. Orienta-se por uma educação popular e transformadora que garante a escolarização para a classe trabalhadora em luta por seus direitos. não foi. Conforme aponta Isabela Camini em sua tese de doutorado: [. Estas medidas.] A proposta de itinerância vista sob tantos olhares até aqui. principalmente a de tentar “engessar” a Escola Itinerante. o seu jeito próprio de funcionar. visando mudanças sociais. Paraná.. evasão escolar e baixa escolaridade da população brasileira. os governos que sucederam. na sua essência. Desta forma.174) A Escola Itinerante e a proposta de educação do MST se pautam por um projeto articulado à luta da transformação social. Porém. pode ser incluída entre as experiências pedagógicas significativas que se move em direção a uma escola diferente numa sociedade diferente. fortalece a continuidade da ideologia burguesa pelos valores repassados. historicamente. Santa Catarina. de modo geral. essa escola estimula seus sujeitos a pensar e organizar-se em diferentes situações. pois impulsiona resolver questões que vão além das atividades escolares tradicionais. as estruturas escolares capitalistas. 2009. Alagoas e Piauí . a Escola Itinerante questiona.] A educação de qualidade social. e nem está sendo hoje.Destacamos que essa ampliação foi um marco importante na história da luta pela terra e possibilitou a garantia da escolarização para muitos jovens e adultos que a ela não tiveram acesso em seus tempos de infância. Esta escola torna-se uma ameaça para o sistema escolar vigente. direito de todos e dever do estado. sendo desafiada a criar e recriar dentro das condições apresentadas pela realidade. O pano de fundo do constante entrave é que. Este sistema escolar cria normas que desconsideram as demandas educacionais e as condições reais da classe trabalhadora. p. pensada para os trabalhadores ou pelos trabalhadores e muito menos tem sido incluída em um projeto de transformação social. No nosso entendimento. tais como: a informatização escolar (INE). distanciando-a da vida e das práticas sociais que a cercam. a educação nos acampamentos começou a ser também desatendida e submetida às regras comuns da escola pública estadual convencional. dificultaram o funcionamento da Escola tendo em vista seus diferentes contextos e circunstâncias. omitiram-se a dialogar e reconhecer esta escola como parte da rede estadual de ensino. não respeitando suas características de itinerância e os sujeitos que a frequentam. impondo um conjunto de burocracias que limitaram sua funcionalidade.. a impossibilidade de mudanças no calendário escolar. O efeito da institucionalização da escola fragilizou suas condições estruturais. Conforme citação de documentos que regem a legislação educacional estadual: “[.. A escola convencional. (CAMINI. provocando diversas opiniões sobre a sua condição de escola.

garantia de permanência e aprendizagem na escola pública sem discriminação de qualquer natureza” 17.
Temos claro que se faz necessário manter a escola vinculada ao poder público, pois ela
representa uma conquista como política pública de educação. Contudo, não abrimos mão de sua essência
que é ser pensada, construída e conduzida pelo movimento da luta, da resistência, das ocupações e da
organização do povo Sem Terra. Porém, por ser desta natureza, e por não ignorar as contradições sociais
em seu entorno, esta escola provoca tensionamentos e pressões até ser fechada por aqueles que se negam
a entender a dinâmica desta forma escolar. Como podemos analisar a partir da afirmação de Bahniuk, em
sua pesquisa de mestrado sobre a Escola Itinerante do Paraná:
As escolas Itinerantes possuem potencialidades maiores em
questionar o modelo escolar vigente, pois se encontram num
espaço de contestação da ordem legal e hegemônica - que são os
acampamentos. E ainda, pautam-se em uma proposta educacional
questionadora, tendendo a nos trazer maiores elementos para
refletirmos sobre as potencialidades concretas de a escola
direcionar-se à perspectiva de emancipação humana (BAHNIUK,
2008, p.12).

Pelo contexto mencionado no Rio Grande do Sul, existem ações contrárias a forma escolar
itinerante desenvolvida pelos trabalhadores em situação de acampamento. O Estado burguês não ficou
desatento a esta realidade, desconstituindo aos poucos a autonomia desta escola em movimento, retirando
as conquistas, dificultando seu desenvolvimento e legitimando, autoritariamente, o fechamento das Escolas
Itinerantes.

AS MARCAS QUE PERSISTEM E
MANTÉM A ESCOLA FUNCIONANDO
Mesmo sendo impedida de funcionar e sem o reconhecimento do Estado, as famílias acampadas
não se omitiram em garantir a funcionalidade da Escola Itinerante nos acampamentos. Várias ações internas
foram, e estão sendo, realizadas para retomar os rumos e continuar sua prática. Os apoiadores da luta pela
Reforma Agrária, oriundos de sindicatos e outras entidades18 , também se evolveram. Quando as escolas
foram notificadas do seu fechamento, todas as famílias já estavam preparadas para dar continuidade às
atividades escolares.
Neste entendimento, foi necessário garantir a funcionalidade da escola, buscando apoios para
adquirir materiais didáticos, pedagógicos e assegurar os recursos humanos. Campanhas externas foram
realizadas com amigos, simpatizantes, organizações sociais, sindicatos, prefeituras, entre outros, com o
objetivo de garantir as aulas e para resistir à perseguição aos movimentos sociais.
No início do ano letivo de 2009, realizaram-se aulas inaugurais em frente às Coordenadorias
Regionais de Educação (CREs), que foram ministradas por apoiadores que se dispuseram a trabalhar com os
17
Princípios nº 1, temática 3 – documento elaborado sobre a Construção da Escola Democrática e Popular, 2001.
18
Sindicato dos Professores do RS (CPERS) Sindicato dos Bancários RS, Deputados/as apoiadores, Comissão Pastoral
da Terra(CPT), Associação de Educação Católica (AEC), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), entre outros.
Coleção Cadernos da Escola Itinerante

23

Sem Terrinha, tratando de temas como o ECA, enfatizando o direito à escola. Essas aulas foram realizadas
para exigir o reconhecimento da vida escolar dos educandos e a continuidade das Escolas Itinerantes.
Foram realizados os registros nos diários de classe no final de cada bimestre, sendo estes protocolados nas
CREs mais próximas aos acampamentos.
Também foi realizada uma Audiência Pública, organizada junto à Comissão de Educação da
Assembléia Legislativa, onde a presidente do Conselho Estadual de Educação, Cecília Farias19, afirmou
que “o TAC não tem base legal para sustentar o fim das Escolas Itinerantes”. Afirma também “que não
chegou nenhum pedido de fechamento desta escola a este órgão público”. Buscamos nos fundamentar no
artigo 81 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que diz: “é permitida a organização de cursos
ou instituições de ensino experimentais”. No mesmo documento, o artigo 26 orienta que “os currículos do
ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema
de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e
locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela”. Isso aponta caminhos, os quais foram seguidos
pelo processo desenvolvido nas Escolas Itinerantes, buscando ser mais próximo da sua realidade.
Segundo Wanessa Schin, representante do Ministério da Educação (MEC), na mesma
audiência pública realizada para debater o assunto, afirmou que “o artigo 28 da LDB define que “na oferta
de educação básica para a população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à
sua adequação às peculiaridades da vida rural e de cada região”. O inciso I define que poderão ser definidos
“conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos das zonas
rurais”. O inciso II fala de “organização escolar própria” e o III, em “adequação à natureza do trabalho
na zona rural”. Ou seja, estes argumentos, presentes nas leis que regem a Educação, contam a favor da
continuidade da Escola Itinerante.
Na semana da criança, no dia 13 de outubro de 2009, mais de 250 crianças, vindas dos
assentamentos da região metropolitana, manifestaram seu repúdio à determinação do MP, em frente ao
Palácio Piratini, na Praça da Matriz. Nesta manifestação, as crianças tiveram uma aula simbólica com
apoiadores da Reforma Agrária, dentre eles a educadora, amiga do MST, Nita Freire. Dela, as crianças
acampadas, ouviram a história da vida de Paulo Freire: “Paulo criou teoria embasada no entendimento de
que através da Educação se pode mudar o rumo de uma sociedade. A Educação, segundo ele, serve para
humanizar. Ele era esperançoso e acreditava que a qualidade da esperança faz parte da natureza humana”.
Em entrevista à imprensa local, ela repudiou a ação do fechamento das Escolas Itinerantes.
Embora proibidos pela determinação do poder público em continuar estudando nestas escolas,
mesmo com poucos recursos didáticos e pedagógicos, a decisão das famílias acampadas é de manter a
continuidade das atividades escolares. Portanto, as crianças, jovens e adultos continuarão estudando nos
acampamentos.
Sendo assim, a Escola Itinerante, tornou-se elemento fundamental para a garantia da
participação das famílias. Quando se pensa na formação de um novo acampamento, vem junto a preocupação
e os encaminhamentos necessários para garantir a educação dos acampados. Nosso entendimento é que a
19
Fala na audiência Pública realizada dia 07 de abril de 2009, no Plenarinho da Assembléia Legislativa do Rio Grande
do Sul.

24

A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Alagoas e Piauí

Escola do acampamento provoca as famílias a pensar e a cuidar da escolaridade de seus filhos.
A academia reconhece a Escola Itinerante por meio de diversas pesquisas já realizadas no
período entre 1998 e 2010. Em geral, as pesquisas apontam sinais de uma pedagogia diferente, com
limites e possibilidades. Uma educação comprometida com a classe trabalhadora. Apontam a Escola
Itinerante com germens de uma nova escola. Nosso entendimento é que essas pesquisas contribuem para a
divulgação e o reconhecimento deste projeto de escola nos acampamentos do MST.
Ao tratar sobre o tema do fechamento das Escolas Itinerantes, Jacques Alfonsin20 afirma:
[...] as suas escolas têm de ser itinerantes. O direito humano
fundamental à educação dessas crianças foi reconhecido à custa
de muitos protestos públicos, alguns reprimidos com extrema
violência, muitas reuniões com representantes da Secretaria
Estadual de Educação do Rio Grande do Sul em sucessivas gestões
públicas do Estado, dedicação cuidadosa e competente de sujeitos,
com sacrifício pessoal, às duras condições de trabalho em tais
circunstâncias.

Pelas manifestações e a luta de um conjunto de setores de nossa sociedade em defesa das
Escolas Itinerantes, se comprova que não é possível aceitar de forma pacífica esta brutalidade cometida
por governos e órgãos públicos legitimados pelo “estado democrático de direito burguês”, que impõe à
classe trabalhadora ainda maior exclusão, retirando direitos fundamentais, assim como, impedindo que se
organizem e lutem por melhores condições de vida e trabalho. Neste sentido, estes ataques sofridos pelas
famílias Sem Terra reforçam a necessidade de afirmação das políticas educacionais vinculadas com os
processos de transformação social como caminhos imprescindíveis por onde passa a emancipação humana
e a construção de um novo projeto de sociedade, justa e solidária.

A CAMINHADA HISTÓRICA E
AS LUTAS DA ESCOLA ITINERANTE
A história da Escola Itinerante começa juntamente com a retomada da luta pela terra, em 1982,
no Acampamento da Encruzilhada Natalino, no RS. A preocupação com a educação das crianças criou as
condições para realizar o debate sobre a temática entre as famílias acampadas. A necessidade de envolver as
crianças com práticas educativas possibilitou a discussão e a materialização destes espaços denominados de
“escola do acampamento” com uma “pedagogia diferente”, pois deveria atender as demandas educacionais
das crianças, jovens e adultos que ali viviam. Além disto, o trabalho educativo buscava estar articulado
com o projeto a ser construído pelos trabalhadores, contrapondo-se ao modelo de escola existente. Deste
modo, podemos dizer que a escola nasceu para atender as necessidades da própria comunidade acampada
e ela continuou sendo buscada e reivindicada em outros acampamentos que se sucederam neste estado, no
período de 1982 a 1995.
A existência desta prática educativa desenvolvida nos acampamentos garantiu a escolarização
de muitas crianças e adultos e permitiu que esta experiência fosse reconhecida pelos órgãos públicos,
20
Advogado defensor dos Direitos Humanos da OAB. Faz uma entrevista Online em defesa dos trabalhadores em vista
do fechamento das Escolas Itinerantes pelo Ministério Público Estadual.
Coleção Cadernos da Escola Itinerante

25

Desta forma. Por estar imersa e encharcada nesta realidade. 21 Sobre a história da Escola Itinerante. a proposta foi aprovada. nas marchas. nas mobilizações. muitas vezes. eram escolhidos os temas geradores. Isabela. do planejamento. da avaliação e da formação de educadores foi prioridade na Escola Itinerante. a vida real está conectada com a escola. A construção do currículo. Escola Itinerante: na fronteira de uma nova escola. Portanto. articulada com o projeto em construção pelos trabalhadores e embasada na Pedagogia do Movimento e na Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire. foram legalizadas as práticas pedagógicas em dois acampamentos22. O bom desempenho dos estudantes acampados nestas provas passou a ser incentivo ao trabalho pedagógico realizado e alimentou o sonho de buscar na legislação educacional o direito à escolarização para comunidades específicas. se aprende e se ensina ao mesmo tempo. Estas são marcas que a diferencia das demais escolas convencionais que. realizado por crianças e adolescentes no II Congresso Infanto-Juvenil do MST. fora de escolas legalizadas. por unanimidade.amparada na legislação existente. e. o Setor de Educação do MST/RS. elaborou a Proposta de Escola Itinerante. educandos e comunidade. por meio dele. Santa Catarina. 26 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. a escola se tornava um espaço favorável de vivências sociais. Por isso. São Paulo: Expressão Popular. ver CAMINI. Neste período. surge a necessidade concreta de lutar pela legalização da vida escolar dos Sem Terra. A princípio. Com eta aprovação. da Escola Itinerante. sob o Parecer nº 1313/9621. no município de Julio de Castilhos. quando um estudante saia do acampamento e buscava ingressar em uma escola regular. nas ocupações de prédios públicos e. junto com uma equipe da Secretaria da Educação. Após ser analisada e debatida pelos membros do Conselho Estadual de Educação. em todos os lugares onde os Sem Terra estavam. O trabalho na escola era desenvolvido de forma coletiva entre educadores. Desta forma. Isto acontecia. em 1995 no RS. nos acampamentos. elaborados pelo Setor de Educação do MST que tratam dessa temática. 2009. mas também nos momentos de retorno ao acampamento onde a escola se insere e retoma as atividades com estruturas mais fixas. entre outros. o que fortalece o trabalho didático e a apropriação do conhecimento historicamente produzido pela humanidade e socialmente útil. o que motivou esta busca foi o estudo do ECA. Passados alguns anos. Alagoas e Piauí . ela necessariamente precisa trabalhar conteúdos escolares que surgem da prática social que a cerca. não apenas nos períodos de marchas. mesmo que apreendidos. no município de Santo Antônio e o acampamento Julio de Castilhos. em sessão plenária deste mesmo Conselho. A presença de setenta crianças vindas de dois acampamentos da região contribuiu fortemente para a aprovação. O projeto da Escola Itinerante precisou de muitos esforços para ser construído. Paraná. segue um currículo e conteúdos distantes da vida. assim como estimula os educandos à pesquisa da realidade e a construção de um novo conhecimento. 22 Acampamento Palmeirão. Nas diferentes circunstâncias de vivências e resistências que a luta pela terra proporciona. O planejamento era construído a partir de um diagnóstico feito da realidade. no dia 19 de novembro de 1996. Esta escola se fazia nos espaços da luta pela terra. Também existem dois cadernos (1998) e (2002) da Coleção Fazendo Escola. que reconhecia o conhecimento adquirido. nesta escola. era submetido a uma prova que o classificava e indicava em qual série seria matriculado.

incentivando a participação reflexiva e a apropriação dos conhecimentos entre os sujeitos. e torna-a participante dos processos vivenciados. A escola carrega consigo as marcas da realidade. Seja na confecção de materiais que venham protegê-las dos ataques e da intoxicação. mas a pedagogia é nossa”. foi diretamente “atacada”. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 27 . Em CAMINI. das situações reais e buscando elementos para subsídio na prática. frequentes na longa trajetória dos acampamentos. com mais de 2 mil pessoas. por isso. Ações como estas. A comunidade assume a responsabilidade pelo conjunto da escola e referencia os educadores a trabalhar nela. Tudo foi interrompido naquela manhã quando. Tanto é que o fato ocorrido durante a ação realizada mostra claramente a força que a escola tem. deixam marcas profundas. 23 Educador da Escola Itinerante. além de despejarem os Sem Terras. Foi um dos momentos mais ricos da história pedagógica da Itinerante. Os educadores e educandos desenvolvem a capacidade de serem sujeitos atuantes. Neste local. transformando-se em conteúdos escolares sistematizados na escola. Somávamos mais de 500 crianças e 40 educadores. responsáveis pelos processos com os quais interagem. estudante no curso de Licenciatura em Educação do Campo. jovens e adultos estejam em processo de aprendizado. (Texto não publicado) há um registro desse fato. a Brigada Militar queimou nossa Escola . 2006. “a Escola é do Estado. no qual possam projetar o seu processo de formação. Montamos o Acampamento Sepé Tiarajú. trocamos muitas experiências pedagógicas. cumprindo uma determinação da Justiça Federal e forçando. Essa expressão amplia a visão sobre o papel da comunidade na escola. construindo novos conhecimentos por meio da pesquisa. Atualmente. é inadmissível aceitar que crianças. mas se somam nas reflexões e na análise que fazem os trabalhadores sobre a correlação de forças existente na luta contra o latifúndio e o capital. Luis Carlos Pilz23 Um acontecimento marcante na trajetória da Escola Itinerante aconteceu na manhã do dia 11 de março de 2006. convênio entre UnB e ITERRA.a Escola Itinerante participa ativamente. ampliando o entendimento sobre o mundo e a realidade. estávamos todos compenetrados no ensinar e aprender. seja no estudo dos sintomas provocados por estes produtos. pois a todo momento é provocada a refletir sobre sua existência. A Brigada Militar do RS realizou o ato de desocupação da Fazenda Coqueiros (Guerra). ela não se distancia da realidade. do estudo. No contexto da escola existe a possibilidade concreta de planejar os temas e conteúdos envolvendo o currículo escolar a ser trabalhado. município de Coqueiros do Sul. Eles queimaram a nossa escola. Tomamos como exemplo o depoimento de um dos educadores desta escola. Isabela. Foram dias em que o sonho de fazer um verdadeiro processo educativo aconteceu. causada pelo gás lacrimogêneo jogado pelos policiais entre os Sem Terra para dispersar sua mobilização. alimentou seus cães na frente das crianças com a merenda escolar e tentaram destruir nossos sonhos. construímos uma Escola Itinerante que contou com todos os educandos e educadores dos acampamentos do RS. A Escola Itinerante está diretamente envolvida em situações como estas. Como dizem os acampados. ainda que de forma tímida. Para a burguesia. os Sem Terra a deixarem a área ocupada. de forma truculenta. que além de podermos trabalhar em grupos.

Muitas reflexões foram feitas em torno das listas de conteúdos vindos dos programas curriculares para as escolas públicas. ORGANIZAÇÃO CURRICULAR DA ESCOLA A organização curricular é por etapas de ensino. são dialogadas nos momentos de estudo e planejamento coletivo. aprovada em 1996. desde a aprovação em 1996. totalizando mais de sete mil educandos entre crianças. dados de todos os acampamentos já existentes no RS. respeita os sujeitos envolvidos nesta realidade e trabalha as várias dimensões humanas de forma flexível e organizada. implementando o princípio da “realidade como ponto de partida”. Constam. Em todos os processos da Escola Itinerante. As decisões dos temas são tomadas na gestão coletiva da escola. os educadores e a comunidade. e também o avanço de etapas. isto é. conteúdos e didáticas. ou seja. Alagoas e Piauí . A avaliação como forma de garantir as metas propostas pela escola. Paraná. jovens e adultos e um número significativo de educadores que atuaram e forjaram sua formação proporcionada pela organização por meio de estudos nos cursos formais. o planejamento.O educador tem a oportunidade de dialogar sobre suas práticas e socializar os conhecimentos adquiridos nos estudos diários. Nos espaços de formação organizados no Movimento como encontros. Santa Catarina. Os componentes curriculares. Na Escola Itinerante a avaliação do processo escolar valoriza todos os momentos pedagógicos. As práticas pedagógicas nas itinerantes têm demonstrado que o que 28 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. permitindo com que as crianças ingressem na escola e avancem de etapa em qualquer época do ano letivo. seminários. Estes momentos fortalecem a compreensão sobre a educação com base concreta. mas não são exclusivos. Não existem receitas prontas. com empenho coletivo em momentos de formação na escola e pelo desafio permanente da sua prática nos espaços da mesma. levam em conta os objetivos da própria escola. tendo em vista o crescimento coletivo. a partir das responsabilidades de cada um. o conteúdo. pois as convicções pedagógicas refletidas sobre a escola direcionam os rumos que está sempre em construção e em movimento. As reflexões sobre as tensões vivenciadas no contexto da escola vão sendo desenvolvidas em forma de conteúdos nas aulas e ajudam a direcionar o trabalho pedagógico. se dá a troca das experiências entre eles. As opções do que estudar. o aprendizado escolar e a vivência social. nos registros da Escola-Base. quando e como fazer. os educandos. Nas reuniões com a comunidade pode discutir questões sobre a escola. pois suas análises sobre as práticas de educação popular ajudam nos diálogos sobre a escolha dos temas geradores. os educadores e educandos são protagonistas do ensinar e aprender. porém estas nos levam a pensar que eles devem ser considerados. congressos e nos intercâmbios com outros movimentos. O educador Paulo Freire é um dos inspiradores da Itinerante. certificando a escolaridade para fins de ingresso em outra escola. mas indicações de como fazer o processo de cada escola que se organiza no acampamento. As problemáticas colocadas são desafios a serem superados em cada realidade encontrada. o que estimula as transformações sociais e a vivência de novos valores. até os dias atuais. a metodologia. previstas na Proposta Pedagógica da Escola Itinerante.

a partir destes. Isto possibilita que ela não se afaste da vida real.é imprescindível é a vivência de um dos princípios educativos da proposta do Movimento. a escola deve viver no seio da realidade atual. desenvolvendo a criatividade e as habilidades dentro do processo vivenciado na escola. fizeram o estudo do ECA. p. Cadernos da Escola Itinerante – MST. e também como tornar o cotidiano mais leve. em frente aos órgãos públicos federais e estaduais. O desafio é buscar permanentemente o fazer coerente entre teoria e prática. As aulas concretizadas nestas situações. que contribuem nas orientações didáticas e pedagógicas a serem desenvolvidas nas Escolas Itinerantes. no meio da estrada. comunidade e escola. (Pistrak. ou nas palavras do educador russo: A escola deve educar as crianças de acordo com as concepções. construíram um livro em tamanho gigante com os direitos discutidos por eles e entregaram às autoridades presentes na audiência. maio. As crianças estavam mobilizadas na Praça da Matriz. enfocando o direito de ter escola. no qual se inventa problemas para serem resolvidos”. se ensina e aprende. humano. possibilitam momentos educativos jamais vivenciados em outros espaços. Pedagogia que se constrói na Itinerância: Orientações aos educadores. justo. em frente à Assembléia. 2000. partindo da pesquisa da realidade. 24 MST. PR. desse modo. Como dizem as próprias crianças: mesmo numa “escola sem sala e paredes” a gente aprende. Os conteúdos trazidos do contexto vivido apontam para a construção de um conjunto de ações que possibilitam a produção de conhecimentos novos. O processo educativo é constantemente reconstruído pelo coletivo da escola e comunidade. esta deve invadir a escola. Esta escola mostra que é possível construir saberes em lugares e espaços não imaginados antes pela comunidade e pelas crianças e. que é o do planejamento coletivo. A Itinerância nos põe a dar aulas debaixo das árvores. Exemplo disso. 2009. p. por estar em constante itinerância busca caminhar junto com a comunidade. Desta forma. A realidade é muito dinâmica e como nos diz Camini (2009. Ano II. porque ela invade a vida dos educandos. realizado entre educadores. na Assembléia Legislativa. em pavilhões. são referendados os Cadernos da Coleção da Escola Itinerante24 e as demais produções elaboradas sobre escola no MST. os processos de luta permanente e os desafios enfrentados.201). para que os educandos possam compreender a realidade e construir o aprendizado por meio do estudo e da pesquisa. tendo por base uma realidade que permite produzir conhecimentos sobre a vida. na beira do asfalto. Diante da necessidade de uma elaboração sistematizada que subsidie os educadores. nos parques de exposições. “é impossível ignorar esta realidade. aproximando-se da vida. As aulas. permitem uma visão politizada e significativa para o aprendizado. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 29 . nas universidades e outros espaços educativos. sobre o fechamento das Escolas Itinerantes. dos problemas e conflitos sociais enfrentados. não permitindo que se viva um mundo fictício. Curitiba. foi o que aconteceu na ocasião da Audiência Pública. se organiza aulas sobre diversos assuntos. mas invadi-la de uma forma organizada. em 07 de abril de 2009. nº 4. adaptando-se a ela e reorganizado-a ativamente. o espírito da realidade atual. sobre o mundo. Como resultado deste trabalho.32-33) A Escola Itinerante.

que é dinâmico e novo ao mesmo tempo. o coletivo de educação é desafiado a pensar e a recriar a escola. desafiando-se a continuar a formação por meio dos cursos formais organizados pelo Movimento. Os fatos 25 Maria Carlota de O. Atualmente atua em uma escola da rede pública estadual de ensino do RS. Aprendi nesses dois anos de acampamento o que não havia aprendido em todos os anos de escola. como pessoa e educadora. Posso afirmar que o confronto entre a teoria e a prática. A realidade vivida pelo acampamento aponta para outras perspectivas de educação. sentem a necessidade de fazer estudos semanais com materiais de apoio pedagógico. foi um período de extremo crescimento e aprendizagem. Santa Catarina. desde como organizar uma escola. vão além do que a escola convencional. É sempre um grande desafio formar coletivos de educação com educadores da comunidade. Esses são desafiados a desenvolver práticas pedagógicas diante das diversas situações que a realidade apresenta e. Conforme o depoimento de uma das educadoras da Escola Itinerante: Para mim. Ela se movimenta. necessitando de um processo continuado de reflexões. As situações cotidianas da escola são adversas e as condições precárias demandam muita responsabilidade com o trabalho desenvolvido pelos educadores. Nas reuniões são trabalhados elementos necessários para a organização e o funcionamento da escola. propõe. organizar o currículo.Educadora da Escola Itinerante nos primeiros anos desta escola. O “OFÍCIO” DE SER EDUCADOR DESTA ESCOLA Esta caminhada sempre contou com o trabalho de muitos educadores comprometidos com a Reforma Agrária. ao perceberem a responsabilidade que lhes cabe na condução do trabalho pedagógico desta escola. a reflexão constante em um coletivo unido e em sintonia foi com certeza a alavanca para esse crescimento25 . a avaliação. do contexto em que se encontra. entre outros. 30 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. respondendo às necessidades apresentadas. fazer o planejamento escolar. A luta social. Alagoas e Piauí . As angústias sentidas para fazer esta escola acontecer. de modo geral. Os educadores. O fazer pedagógico valoriza as questões que circulam próximas da escola e ampliam o conhecimento dos educandos e educadores para além do cotidiano vivido no acampamento. O Setor de Educação contribui neste processo organizando formações que trabalham temas relevantes à realidade. as aprendizagens construídas e os caminhos que se abrem são inesquecíveis e de grande significado para os educadores. A cada nova realidade.Este exemplo mostra a Escola Itinerante conectada com a vida. com estas. Os recursos didáticos e pedagógicos são referenciados no contexto. O exercício de fazer o planejamento coletivo garante a funcionalidade da escola. Amado . não fechada e nem gradeada. A equipe de educação escolhida pelos Núcleos de Base de cada acampamento reúne-se periodicamente para estudo e planejamento. os valores humanos e a coletividade. a depender da realidade. Paraná. o compromisso de construir a Pedagogia do MST.

Estes sem terra. (CALDART.. Os encontros locais.]. São os elementos concretos que dão base para produzir conhecimentos e tornálos significativos. A necessidade de construir e reconstruir os espaços da escola na itinerância foi mostrando ao longo da história os caminhos possíveis de construir e relacionar a caminhada da luta pela terra com os estudos escolares. estão produzindo elementos de um tipo de cultura que não corresponde aos padrões sociais e culturais hegemônicos na sociedade capitalista [. pode ser entendido também como um novo sujeito sócio cultural. com processos construídos e vivenciados pelos sujeitos que deste contexto fazem parte. ao referenciar seu trabalho interpretando a realidade. possibilita ao educando construir novas práticas sociais. momentos jamais imaginados antes. fazendo lutas e produzindo conhecimentos. dentre outros temas que ampliam as possibilidades das práticas pedagógicas e enriquecem sua vivência social. a apropriação do conhecimento. jovens e adultos. ocupam o lugar na construção de significados que referenciam aprendizados e interrogam a função social da escola. ligadas a uma luta social concreta. contribui para manter a escola conectada com a vida e com a história construída pela classe trabalhadora. a escola torna-se um espaço de referência dentro do acampamento. As vivências da luta organizada em movimento. a marca da escola se concretiza na imagem das diferentes atividades e dos muitos espaços em que ela se concretiza. Ser educador de um processo itinerante significa compartilhar com as crianças. APRENDIZADOS DA ITINERÂNCIA A Escola Itinerante marca o significado e o lugar da educação e da escola na vida das pessoas. Ao organizar os estudos da Escola na Itinerância é necessário considerar o universo de conteúdos que cada momento apresenta. Nas crianças e nos adultos. pois o sentido de viver profundamente o compromisso de educar e assumir o papel de fazer da escola um lugar de vínculo entre teoria e estudo da realidade. tendo a práxis como eixo principal da própria formação humana. e do MST.. por exemplo.26) O educador. sustentabilidade. regionais e estaduais dos educadores das Escolas Itinerantes buscam dialogar sobre a educação no MST. 2000. formado pela dinâmica da luta pela reforma agrária.que acontecem e as decisões tomadas sobre a continuidade da luta possibilitam conduzir o trabalho a partir das necessidades. ou seja. Ou seja. como a de uma marcha rumo ao latifúndio. Neste sentido. que é complementada com outros espaços de formação comunitários que ampliam o processo de ensino-aprendizagem dos educandos. por meio de exemplos concretos vivenciados constantemente. a formação humana está articulada a um projeto cultural em que as pessoas se educam dentro de um processo que contrapõe a prática individualista. realizando também trocas de experiências com outros estudantes e professores das Universidades sobre a luta pela terra. os estudos proporcionados. conduzindo sonhos. agricultura ecológica. p. uma coletividade cujas ações cotidianas. Nas “paradas” para Coleção Cadernos da Escola Itinerante 31 .

altamente discriminatório e racista. Se tu. e com isso compreendê-los e enfrentá-los. Fim aos ratos. Essa marcha durou mais que três meses e teve início em junho de 2003. superando os desafios. Se queres a paz. com mais de treze mil hectares de terra.descanso acontece a organização das estruturas do acampamento e da escola. levantavam hipóteses de quem o havia escrito. É propósito da escola dialogar sobre o assunto para entender os movimentos contraditórios que existem na dialética da luta de classes. A luta antiga pela desapropriação se concretiza ao final de 2008 com a conquista de parte da área para assentamentos. Nesta marcha refletiram o por quê marchar. nos locais de paradas. manipulada por meia dúzia de covardes que se escondem atrás de estrelinhas no peito. Também relacionavam ao debate as reportagens com a posição das autoridades de São Gabriel sobre o assunto. homens e crianças. superando as dificuldades. Os momentos de dificuldades são sempre mais complexos de serem trabalhados. cujo objetivo era pressionar a desapropriação da Fazenda Southal26. és proprietário de terra ao lado do acampamento. prepara a guerra. fortes são os remédios. Aqui é lugar de povo ordeiro. presenciavam também a crueldade explicitada pelos defensores do latifúndio. Se tu gabrielense amigo. Nós não merecemos que essa massa podre. Santa Catarina. o mais longe possível. mulheres. Na escola. Estes ratos precisam ser exterminados. enfrentando o rigor do inverno com frios e chuvas intensas. 27 Este panfleto está registrado no livro de Frei Sergio Gorgen (2004). Nossa cidade é de oportunidades para quem quer produzir e não há oportunidade para bêbados. provocou reflexões e debates nos diversos espaços de reuniões. ralé vagabundos e mendigos de aluguel. não permita que sua cidade tão bem conservada nesses anos seja agora maculada pelos pés deformados e sujos da escória humana. Este panfleto. terá agora que abrigar o que de pior existe no seio da sociedade. rumo ao coração do latifúndio. Nem sempre é fácil falar sobre a dura e árdua realidade enfrentada. formações e nos meios de comunicação. Tomemos como referência a marcha Sepé Tiarajú. a violência. denunciando o latifúndio e ampliando o diálogo sobre a Reforma Agrária com a sociedade. A bala atinge o alvo mesmo a 1200 metros de distância”. Inúmeros são os exemplos que poderíamos citar de como acontecem as intervenções pedagógicas. Em suas afirmações buscavam compreender o por quê daquilo tudo. Viva o povo gabrielense!. gabrielense amigo. são feitas discussões nos núcleos e a formação por meio de estudos com as famílias. trabalhador e produtivo. 32 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo em que os marchantes eram elogiados e acolhidos pela coragem e pela bravura de estar na marcha em condições precárias. Vai doer. Desta forma. circulavam pelas ruas da cidade um panfleto anônimo27 cujo conteúdo28 causou muita indignação aos marchantes e aos que defendem a Reforma Agrária. Na escola. possuis uma arma de caça calibre 22 atira de dentro do carro contra o acampamento. São Gabriel.Povo de São Gabriel. venham trazer o roubo. ouviam e faziam comentários sobre o conteúdo lido. Paraná. com 800 participantes. é preciso canalizar as tensões em processos educativos. e passou por várias cidades do centro sul do estado. mas para as grandes doenças. Nesta ocasião. pois as crianças liam atentamente as palavras escritas. só assim daremos exemplo ao mundo que em São Gabriel não há lugar para desocupados. o estupro. rato envenenado bebe mais água ainda. usa qualquer remédio de banhar o gado na água que eles usem para beber. E preciso correr sangue para mostrarmos a nossa bravura. Alagoas e Piauí . que nunca conviveu com a miséria. construindo saberes e aprendizados. a morte. o trabalho pedagógico é planejado e toma a dimensão de rever e registrar o que vivenciam durante a marcha. 28 “Gabrielenses e seus apoiadores dizem não à invasão . É momento de criar e recriar por meio das atividades desenvolvidas. o panfleto serviu para muitos dias de estudo e discussões. estudavam: o território 26 Fazenda localizada no município de São Gabriel fronteira sul do estado. A marcha ainda não havia chegado à cidade de São Gabriel e encontrava-se no município de Cachoeira do Sul. provocando as mais variadas reações.

Os aprendizados se multiplicam. entre outros. Entre eles. Neste contexto. reafirmamos o compromisso de construir uma educação comprometida com a classe trabalhadora e elencamos alguns elementos que apontam para esta continuidade. reconstruindo a pedagogia e a estrutura organizativa da escola. A comunidade escolar foi também se apropriando deste novo jeito de organizar a luta e a vida escolar. as culturas. pois as situações concretas fazem as pessoas se posicionarem. indo além do seu papel historicamente construído. A escola é reconhecida pela sua própria forma de funcionar e dialogar com a comunidade. As reflexões feitas apontam limitações no decorrer do processo escolar vivenciado na Escola Itinerante. o MST vem desenvolvendo um conjunto de iniciativas. tendo em vista a conjuntura social e política atual do RS. faz-se necessário retomar junto às famílias o debate permanente sobre o significado da escola. sendo elas parte significativa deste processo. pois acompanha a itinerância do acampamento e vai construindo referenciais pedagógicos que apontam perspectivas sobre o papel da escola nos movimentos sociais. Estudar os objetivos desta escola. que com sua luta e com sua esperança estão conseguindo ser eles mesmos e elas mesmas.geográfico. como esta causada pelo panfleto. o companheirismo e a cooperação. rompendo com a estrutura escolar das “quatro paredes” e reconstruindo a cada dia uma escola em movimento. porém para avançar em nosso projeto de escola. a continuidade da Escola Itinerante.” Paulo Freire Os desafios que permeiam a atualidade são muitos. Por serem trabalhados de forma criativa. envolvendo um conjunto de saberes. entre outros. DESAFIOS DA ATUALIDADE “Vivam por mim. a esperança. São aprendizados significativos construídos nas aulas e que possibilitam compreender a realidade vivenciada. já que eu não posso mais viver a alegria de trabalhar com estas crianças e estes adultos. Desde colocar outro imaginário de escola a ser construído como a forma de organizá-la e conduzi-la. A presença das crianças reafirma a continuidade da luta pela terra. se faz necessário refletir e reconstruí-la constantemente. os aprendizados e as perspectivas que a luta pela terra viabiliza. os costumes regionais. Estes limites também fazem parte da realidade da escola de modo geral. a) Continuar construindo a Escola em Movimento Diante das ofensivas sofridas pela Escola Itinerante. ajudam a amenizar as influências negativas. as características da vegetação. significando-a e construindo novos valores como a solidariedade. que ensine Coleção Cadernos da Escola Itinerante 33 . Na marcha é possível dialogar com a sociedade sobre a vida. As pesquisas apontam a Itinerante como um novo jeito de fazer educação. Considerando esta realidade. Elas ingressam no acampamento junto com suas famílias e nessa luta ampliam a sua participação em todos os espaços. nas quais reafirma a necessidade de continuar a luta pelo reconhecimento do direito à escolarização para os acampados. a quilometragem percorrida nos dias de caminhada.

pressionar os órgãos públicos para garantir a continuidade da Escola Itinerante no RS. 34 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. torna-se uma necessidade na continuidade da luta pela terra. A prática e a socialização entre os sujeitos fortalecem as vivências organizativas e a formação integral e solidária. foi iniciado um diálogo com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). tendo em vista a rotatividade. tratamento e preservação das águas. pois o que não entra na memória escrita. desenvolvendo linhas de produção agroecológicas que garantam às crianças envolver-se com o cultivo de diversos tipos de cultura ou criação de pequenos animais. Faculdade de Educação (FACED). ao mesmo tempo. Por isso. Outro aspecto de relevância neste novo contexto é o da auto-organização dos educandos. possibilitando o debate coletivo para reorganizá-la de acordo com a demanda atual. precisamos estudar as concepções de educação e reconstruir seu Projeto Político Pedagógico com a intenção de contemplar a organização do trabalho da escola em ciclos de formação humana. com o objetivo de promover a capacitação e formação de educadores para atuar na Escola Itinerante e. Sistematizar e registrar todo o processo pedagógico torna-se uma necessidade a ser resgatada na escola. aproximando a teoria e a prática. estimular a convivência coletiva. além de ter uma distribuição de responsabilidades no planejamento geral da escola. desenvolver práticas de reciclagem do lixo. b) Construir processos escolares que contemplem as demandas da atualidade Apresenta-se neste novo contexto da Escola Itinerante a reflexão sobre a estrutura da escola. em vista a alcançar os objetivos projetados pela mesma. Este tópico. Inserir a escola na participação do processo de preparação das famílias para a transição da vida do acampamento para o assentamento. e o Colégio de Aplicação (CAP). acompanham seus pais na luta por Reforma Agrária aproximadamente 500 crianças em idade escolar. a imprevisibilidade das transferências para outras escolas e ingressos de novos educandos. e que. possibilita criar espaços próprios para que eles se organizem e recriem suas próprias formas de trabalho em equipe. Nesta perspectiva. Alagoas e Piauí . tendo em vista que os acampamentos sempre serão temporários e possuem uma característica de estar em movimento. Envolver a escola no embelezamento dos locais de moradia e de lazer do acampamento. Criar métodos de trabalho que possibilitem processos concretos nas atividades escolares. é necessário ampliar os horizontes e parcerias e continuar na luta pela escola pública estadual nos acampamentos. Santa Catarina. nesse processo. Atualmente. Organizar processos de cooperação na escola. planejamento e avaliação. Paraná. garante a formação dos educandos para os processos produtivos cooperados e ampliam a visão crítica sobre as questões sociais da realidade aperfeiçoando também as habilidades técnicas. crie condições de continuar existindo.para a vida e tenha como centro de suas ações a formação humana. Melhorar os mecanismos de registro da documentação escolar dos educandos é fundamental para a organização da vida funcional da escola. Neste sentido. vivenciando os princípios da agricultura camponesa. no RS. tão logo se perde. também faz parte dos novos desafios da atualidade. bem como muitos jovens e adultos que não tiveram acesso a escolarização em seu tempo próprio.

Por isso é compromisso do educador estar sempre à frente dos processos os quais irão comandar. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 35 . Um processo escolar que contemple a formação integral de seus sujeitos depende principalmente da capacidade que os educadores desenvolvem em articular a teoria e a prática e em considerar processos já vivenciados. pois existe um fator favorável no acampamento: a facilidade de articular as famílias para reuniões. pois depende de um conjunto de questões. Estudar. neste caso.c) Avançar na formação de educadores no processo escolar Ampliar a formação política e pedagógica dos educadores que desenvolvem o trabalho nos acampamentos é uma demanda necessária para qualificar o processo de ensino-aprendizado nas Escolas Itinerantes. é pouco querer construir. d) Aprofundar o debate da Escola e seu papel formador no acampamento Se a “Escola é mais que escola na Pedagogia do Movimento”. Dialogando sobre esse papel podemos referenciar o que diz Shulgin “É pouco conhecer os ideais da classe trabalhadora. É preciso viver os ideais da classe trabalhadora. pesquisar. as quais nem sempre estão ao alcance de quem organiza as escolas. assim. A propósito disso. não é possível criar processos de ensino aprendizado na Escola Itinerante sem discutir constantemente sobre a sua função no acampamento. Devemos educar na luta e na construção de novos valores. Significa também um comprometimento maior com processos que estão sendo construídos pela classe trabalhadora. Shulgin. p. a formação dos educadores deve ser potencializada em vários momentos e de forma permanente. é necessário buscar alternativas viáveis para concretizar e ampliar a formação dos educadores. Para compreender a atualidade. Porém. 21-22). (in: A Escola-Comuna. seremos formadores de sujeitos sem perder de vista que educamos pelo exemplo. Os coletivos de educadores precisam dar exemplo no estudo. é responsabilidade de quem educa nos acampamentos. buscando construir aprendizados novos. estar sempre em movimento. Evidenciar suas contradições e nela projetar suas ações é um constante desafio. É indispensável reconhecer que este deve ser um processo internalizado pela comunidade escolar. e. é preciso poder lutar por eles é preciso poder construir”. Sabemos que esse é um trabalho complexo. a escola precisa estar entrelaçada com o movimento da qual faz parte. conversar sobre a educação. 1924. combinando melhor os processos a serem construídos junto à comunidade para que cada parte desenvolva o seu papel. A escola que forma para a vida tem como responsabilidade educar e inserir-se na luta e na defesa do projeto social da classe trabalhadora.

César de. CAMINI. UFSM. Rio de Janeiro: Vozes. PISTRAK. 264 pag. 2000. Faculdade de Educação. Santa Catarina. 162 f. CAMINI. Florianópolis. 1987. Universidade Federal de Santa Catarina. Espaços-tempos de Itinerância: interlocuções entre universidade e Escola Itinerante do MST. 2008. 2000. In: MEURER. PISTRAK (org. Petrópolis.M Fundamentos da Escola do Trabalho. 2006. Marco (org) Paulo Freire e a Educação Popular. 2009.Programa de Pós-Graduação em Educação. Ane Carine. Pedagogia do Oprimido. MELLO. Porto Alegre. 2008. Escola Itinerante dos acampamentos do MST: Um contraponto à Escola Capitalista? Porto Alegre. 2009.) A Escola-Comuna. FREIRE. Tese. Roseli Salete. Paraná. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Alagoas e Piauí . 2006. São Paulo: Expressão Popular. 2004. GÖRGEN. Espaços – tempos de Itinerância: interlocuções entre universidade e Escola Itinerante do MST. Petrópolis: Vozes. CAMINI. DAVID. 254 f. Porto Alegre IPOA: ATEMPA. Santa Maria: Ed. UFSM. p 34-43. Paz e Terra. Rio de Janeiro. (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação. Paulo.REFERÊNCIAS BAHNIUK. 104. Educadores Itinerantes e sua Formação. Faculdade de Educaçao. Santa Maria: Ed. 36 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Escola e mais que Escola na Pedagogia do Movimento Sem Terra. Isabela. Trabalho e Emancipação Humana: um estudo sobre as Escolas Itinerantes nos acampamentos do MST. 26 n. Caroline. Sérgio Antônio. DAVID. M. Dez anos de Escola Itinerante nos Acampamentos do MST-RS: qual o balanço? Boletim da AEC-RS Porto Alegre v. CALDART. São Paulo: Expressão Popular. Educação. Isabela. Marcha ao Coração do Latifúndio. Dissertação (Mestrado em Educação) . César de. 2009. 2007. Florianópolis. 2008. Isabela. 17º Ed.

Coleção Cadernos da Escola Itinerante 37 .

Paraná. Santa Catarina. Alagoas e Piauí .38 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul.

Escola Itinerante no Paraná Coleção Cadernos da Escola Itinerante 39 .

40 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Santa Catarina. Paraná. Alagoas e Piauí .

a Escola do Campo. No registro e análise do percurso de construção da Escola Itinerante nos acampamentos do Paraná.000 famílias acampadas. envolvendo. apontamos os desafios a serem enfrentados para avançarmos no projeto de Escola Itinerante. e garantindo o direito à educação a cerca de 8. trazemos uma reflexão sobre as marcas e significados desta escola que aprende e ensina acompanhando a luta dos Sem Terra. em 2009. ousa-se aprender a fazer a Escola Itinerante que de seus aprendizados pretende-se forjar a escola do assentamento. Em sua organização curricular considera as singularidades dos acampados que por meio da luta pela terra almejam viver e trabalhar no campo.500 educandos da Educação Infantil. entre tantos desafios. Por último. Ensino Fundamental e Médio. TRAJETÓRIA DA ESCOLA ITINERANTE NO PARANÁ No Paraná. articulada a um projeto de transformação social. Mariano Jurema de Fátima Knopf Sandra G.] O acampamento é o lugar do sonho. neste período. buscamos refletir os aprendizados e os desafios deste projeto de escola..” Maria Izabel Grein INTRODUÇÃO Este texto é a síntese do processo de reflexão coletiva sobre a Escola Itinerante no Paraná que. da esperança e do conflito. a legalização da Escola Itinerante se efetivou no ano de 2003 e não ocorreu de forma muito distinta dos demais estados que a conquistaram.. os quais iremos tratar nesse texto. Na segunda. Os Sem Terra neste estado também travaram 1 Membros do Setor de Educação do MST-PR e da Coordenação Pedagógica das Escolas Itinerantes.ESCOLA ITINERANTE NO PARANÁ: APRENDENDO E ENSINANDO NA LUTA DOS SEM TERRA Alessandro S. Neste contexto. aproximadamente 4. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 41 . Scheeren1 “[. A Escola Itinerante se efetivou como uma política educacional em que participam de sua gestão o Setor de Educação do MST e a Secretaria de Estado da Educação (SEED). completou seis anos de reconhecimento legal. organizado em três partes. Como se implementou e se efetivou neste estado. Esta escola tem afirmado o compromisso em realizar a formação em direção à emancipação do ser humano. graduados em Pedagogia Para Educadores do Campo na Unioeste. A primeira apresenta a trajetória histórica da Escola Itinerante.

3 Sem Terrinha são as crianças filhas dos Sem Terra que se encontram em luta. incluindo mortes. respeitando o lugar onde vive e garantindo sua participação. neste momento. por conseguinte. impulsionando assim a discussão da Escola Itinerante como direito para as famílias Sem Terra. obriga o Estado a reconhecer.33) na medida em que o MST pressiona os governos pela legalização da Escola Itinerante. 4 Para VIEIRA (1992) na composição do termo política social – “política” não assume no sentido estrito de atividade ou práxis humana ligada ao exercício de poder. escola para os acampamentos. Sendo realizada em um prédio abandonado. possibilitando que o Setor de Educação do MST pudesse apresentar suas demandas e. aplicou estratégias de aniquilação do Movimento. prisões de lideranças. em particular a Escola Itinerante. o MST no Paraná tinha aproximadamente quatorze mil famílias acampadas. ela é fruto da pressão que os trabalhadores fazem ao governo do estado. Como por exemplo. a conjuntura política era distinta. Nesta conjuntura. Considerando ainda que. deflagrando despejos. em abril de 2003. visando assegurar o direito do povo à educação. estes militantes também reivindicavam. Em 2003. passando a fazer parte de suas ações governamentais. projetos. a necessidade de regularizar a vida escolar de crianças que frequentavam escolas não reconhecidas pelos órgãos municipais. No período anterior (1994-2002). Segundo Maria Izabel Grein. uma das maiores ações que realizamos foi a Jornada de Lutas. 42 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. dentre elas muitas crianças que estavam fora da escola. Ou seja. Acampados em Curitiba. em julho de 1999. nos oito anos de sua gestão. bem como a deliberar. nas Diretrizes Operacionais para Educação Básica nas escolas do Campo e na Constituição Federal. já havíamos experimentado fazer escolas em acampamentos. a organização da Escola “Terra e Vida” em frente ao Palácio Iguaçu. em Curitiba. Com o intuito de afirmar as demandas dos trabalhadores. Alagoas e Piauí . Teve duração de quatorze dias e foi um marco importante na luta para garantir o reconhecimento da Escola Itinerante. pois nós não éramos reconhecidos como movimento social. é importante ressaltar que anterior à luta pelo reconhecimento da Itinerante neste estado. onde é possível identificar diretrizes relativas às áreas em questão. uma política social. são determinantes na tomada de decisão do Setor de Educação em lutar por escolas nos acampamentos do Movimento. 2 Segundo Mariano (2008. Uma educação vinculada à sua cultura e suas necessidades. entre outras pautas. o que contribuiu para avançarmos na luta pela efetivação deste tipo de política social4. que reuniu aproximadamente cinco mil integrantes do MST. pois o atual governo se recusava a dialogar com o MST e.13) Todavia. ter algumas delas atendidas. conseguimos abrir o diálogo entre MST e governo. No entanto. 2008 p.lutas com o poder público para conquistar esta escola2. programas e documentos. no início do governo Roberto Requião (PMDB). p. “no governo Lerner nem sequer alfabetização nós [MST] podíamos discutir com o governo. Nós não podíamos nem entrar na secretaria de educação. a escola atendeu a Educação Infantil. A proposta da Escola Itinerante foi enviada em agosto de 2003 para o Conselho Estadual de Educação. os anos iniciais do Ensino Fundamental e a Educação de Jovens e Adultos. referendada na Lei de Diretrizes e Bases.” (MARIANO. os movimentos sociais conquistaram a Coordenação da Educação do Campo na Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED). Paraná. a falta de vagas e em alguns casos o forte preconceito sofrido pelos Sem Terrinha3. sede do Governo Estadual. Santa Catarina. no governo Jaime Lerner (PFL). mas relaciona-se à estratégia de governo que se compõem de plano.

No entanto. com tempos e espaços educativos que ajudem a desenvolver todas as dimensões. em Rio Bonito do Iguaçu. no dia 30 de agosto de 2003. Estas envolviam cerca de 70 educadores voluntários que participaram do primeiro curso de formação de educadores da Escola Itinerante. somente em março de 2004 se legitimou. localizado no Assentamento Pontal do Tigre.direito explicitado na LDB de 1996. a apropriação do conhecimento . Como uma das estratégias para agilizar a legalização desta proposta de escola. em conjunto com as Itinerantes. Além desta. nesta ocasião. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 43 . após analisar cuidadosamente o Projeto PolíticoPedagógico da Escola Itinerante. para assumir a função de Escola Base. em 08 de dezembro de 20035. já haviam escolas com um ano de funcionamento. localizadas em assentamentos da Reforma Agrária. realizamos a inauguração da Escola Itinerante Chico Mendes. realizado no acampamento 10 de Maio. com a realização de um convênio que envolveu a Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária do Paraná (ACAP). Com a observação de que a Escola deveria ser acompanhada e avaliada durante seus dois primeiros anos. assumem o projeto educativo do Movimento e afirmam em seu trabalho pedagógico o desafio de ser uma escola do campo.que é tarefa fundamental da escola -. que passou a responder legalmente pelas Itinerantes da região noroeste e norte do estado. O Setor de Educação do MST. comprometida com a formação dos trabalhadores rurais Sem Terra. no período de 29 de setembro a 03 de outubro de 2003. entre outros. como escola pública estadual. de fato. Esta escola assume a responsabilidade legal das Escolas Itinerantes. foi oficializada a segunda Escola Base. aprovou-o. indicou o Colégio Estadual Iraci Salete Strozak. também haviam outras escolas em funcionamento. Em 2003. Em 2006. tais como: a documentação escolar. no acampamento José Abílio dos Santos. por meio do qual se efetiva o remuneração dos educadores que atuam nos anos iniciais do Ensino Fundamental da referida escola. estas escolas. no Acampamento Segunda Conquista que se localiza no município de Espigão Alto do 5 A Escola Itinerante no Paraná foi reconhecida em dezembro de 2003 pelo Conselho Estadual de Educação através do parecer n° 1012/2003 e autorizado seu funcionamento pela Secretaria de Estado da Educação resolução nº614/2004 de 17/02/2004. o Colégio Estadual Centrão. em Quedas do Iguaçu. Estas duas escolas. pela expansão territorial das Escolas Itinerantes no Paraná. as matrículas. em Querência do Norte. por unanimidade. as transferências. a parceria entre o Setor de Educação do MST e a Secretaria de Estado da Educação (SEED). tem tentado questionar a forma escolar convencional e capitalista ao buscar formas alternativas de escola com uma proposta pedagógica que contemple as diferentes dimensões do ser humano. existiram experiências de escolas nos acampamentos. junto com a Coordenação de Educação do Campo (SEED). a certificação e registro da vida escolar dos educandos. No decorrer desta trajetória. Em relação à oficialização da Escola Itinerante. O Conselho Estadual de Educação do Paraná. porém sem o reconhecimento do poder público e mantidas pelo MST. além do suprimento de merenda e materiais pedagógicos. localizado no assentamento Marcos Freire. vale ressaltar que mesmo antes da sua aprovação. e os educadores dos anos iniciais deveriam participar de um processo de formação continuada promovido pela SEED. dentre essas.

existem Escolas Itinerantes em 10 acampamentos no Paraná. mesmo com a conquista do assentamento Celso Furtado. Projetos e experiências. por meio da luta. 3) Pesquisa Sobre Escola Itinerante: Refletindo o Movimento da Escola. Em 2006. em novembro de 20079 . Além dos próprios nomes. nas matrículas dos estudantes. a Coleção compreende os seguintes Cadernos: Escola Itinerante do MST: 1) História. em General Carneiro. Ainda existem mais dois volumes que se encontram em elaboração. tais como: lona. 4) Pedagogia que se constrói na Itinerância: orientação aos Educadores 2009b. 44 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. outras duas questões também foram priorizadas: a formação de educadores e o processo de sistematização das Escolas Itinerantes. Em fevereiro de 2010. Ao final do ano de 2005. O ano de 2004 foi o período de implantação das Itinerantes nos acampamentos. em Cascavel. Dada a sua emergência. estas escolas levaram consigo os princípios de uma escola do campo vinculada a um movimento social que busca construir um novo projeto social de emancipação dos trabalhadores7. como por exemplo. decidimos sistematizar as experiências que culminaram na abertura da Coleção de Cadernos da Escola Itinerante. passando a estar no acampamento 1ª de Agosto.Colégio Estadual Iraci Salete Strozak.e assentamento .000 educandos em 77 turmas. 2008b.400 educandos. Essa situação gerou diversos transtornos. na licitação de material para construção destas escolas. 8 Esta reflexão será retomada mais adiante nesse texto. esta escola recebeu o nome de Escola Itinerante Zumbi dos Palmares com o deslocamento das famílias para a ocupação de outra parte da fazenda Complexo Cajati. que atendem aproximadamente 1. estas escolas permaneceram Itinerantes em função do município não se dispor. e no Acampamento Dorcelina Folador6. em que organizamos o trabalho de registro e escrita da história de cada escola. naquele momento. 7 Os Colégios Chico Mendes e Olga Benário continuam sob a responsabilidade do Estado do Paraná. envolvendo os coletivos de educadores na reflexão e escrita. este último foi desencadeado no Seminário Estadual de Avaliação dos três anos da Escola Itinerante no Paraná. denominado de Escola Itinerante: Trajetória. estas escolas deixam de ser Itinerantes e passam a ser escolas de assentamento. no município de Quedas do Iguaçu. 2) Itinerante: A Escola dos Sem Terra -Trajetórias e Significados. o Movimento conquista o Assentamento Celso Furtado. A partir desse registro. Santa Catarina. Nessa trajetória. Paraná. 2008a. Tudo isso exigiu pressão por parte do MST e das escolas. as Itinerantes já estavam presentes em nove locais.Iguaçu. 6 Em 2005. entre outros. 9 Atualmente. 2008a. Somente em 2007. no município Cascavel e no acampamento 1º de Maio. a partir da organização curricular em Ciclos de Formação Humana8 experimentados nos espaços de acampamentos -Escolas Itinerantes . Alagoas e Piauí . onde se localizavam duas Escolas Itinerantes: Chico Mendes e Olga Benário. Neste período. pois este formato de escola não era comum ao sistema oficial de ensino. o que provocou um estranhamento na Secretaria de Estado da Educação. madeira. Atualmente. 2009a. atendendo a 2. existem oito escolas municipais que ofertam os anos iniciais e que estão espalhadas pelas comunidades do assentamento. em maio de 2006. o esforço também se centrava na tentativa de avançar no Projeto Político e Pedagógico. porém atendendo os anos finais e Ensino Médio. Neste período. Projetos e Experiências. quadro de tamanho especial. com 180 educadores. A experiência desta escola está sistematizada no Caderno nº1 da Coleção Escola Itinerante. a se responsabilizar pelas mesmas nos anos iniciais. na distribuição da merenda. dada a lentidão na resolução desses problemas.

Em sua trajetória. nem sempre evidentes. saúde e educação. e que caracterizam as particularidades das Itinerantes neste estado. É sobre estas marcas que refletimos a seguir: A primeira marca é a escola como ferramenta de luta e resistência que está na sua origem. discussões e interações junto às comunidades Sem Terra. Nesse momento. buscamos sistematizar algumas marcas que se expressam na Pedagogia do MST e na especificidade das Escolas Itinerantes no Paraná. As marcas também revelam as contradições que emergiram nessa caminhada. e nossa tentativa de superá-las. Essas marcas são dimensões. que ganharam força na trajetória dessa escola. que caminha junto com Sem Terra na esperança de uma vida digna com terra. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 45 . construídas nos diferentes processos de lutas.1-Tabela: Dados Escolas Itinerantes no Paraná ESCOLA QUE APRENDE E ENSINA EM LUTA: MARCAS E REFLEXÕES A Escola Itinerante no Paraná tem se firmado como uma escola pública. com a participação da comunidade acampada em movimento. esta escola foi evidenciando questões as quais deveria responder para materializar outro formato de escola. Convém registrar que esse projeto de escola é fruto do acúmulo de experiências escolares desenvolvidas no decorrer dos 26 anos do MST.

a Itinerante tem se firmado como uma “ferramenta de luta”. o que exige posturas. ao formar outro acampamento. como foi o caso da Escola Che Guevara. a escola pode ser vista como uma ferramenta a favor dos trabalhadores e das transformações que estes pretendem realizar. nos acampamentos em que a luta está mais acirrada. em específico. Santa Catarina. propiciando a junção de famílias de espaços distintos. O fato de existir escola nos acampamentos. o esforço que essa escola faz é de cumprir com sua especificidade de ensinar a ler. Deste processo se expressa outra marca da escola: a relação com a comunidade acampada e a organização coletiva. O acampamento é um território de luta permanente que se configura a partir dos sujeitos e da organização coletiva que envolve os Sem Terra. Estas escolas foram alvo de desmobilização por forças da burguesia na perspectiva de enfraquecimento das famílias acampadas. desde a construção física. Estas condições têm proporcionado às Itinerantes aprendizados que a escola convencional pouco proporciona. as famílias que vivenciaram a experiência de Escola Itinerante reivindicaram a organização dela nestes territórios. Ela vem se constituindo como a escola do Sem Terra. todavia. enfim. pois ela materializa a organização comunitária e fortalece vínculos orgânicos internos. Tal questão vem sendo evidenciada nestes dois últimos anos (2008-2009). pois. os trabalhos de manutenção. Também é um espaço de aprendizado e vivência de valores humanos que unificam o grupo de famílias que lutam por objetivos comuns. a definição dos temas de estudos. a escola. a avaliação escolar. sabemos que a forma escolar capitalista não dá conta da formação que pretendemos. Neste sentido. Desta forma. A Escola Itinerante vive a dinâmica dos acampamentos e não pode ficar alheia às contradições desta prática social. calcular. 46 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Outro aprendizado importante é de que. Contribuir também para a sistematização dos saberes vividos no contexto atual e socializar práticas educativas que contribuam com a formação humana. é combatida. artístico). No entanto. fortalece a luta desses trabalhadores. por estar nesse contexto e ser gestada pelos trabalhadores. por estar nos acampamentos que questionam a propriedade privada. ações e organização. de possibilitar o acesso ao conhecimento elaborado (científico. na luta pela terra. Ao exercitar a gestão coletiva na escola.desde as primeiras Escolas Itinerantes. Alagoas e Piauí . filosófico. Paraná. por vezes. a preparação da merenda. A vida no acampamento está sujeita às circunstâncias conjunturais da própria luta pela terra. Ou pela Escola Sementes do Amanhã. entre outros. tende a contrariar alguns aspectos da sociedade capitalista. com a unificação de diferentes acampamentos do MST no Paraná. dos acampamentos onde se insere. como protagonistas da sua história. em que suas crianças foram protagonistas na resistência à tentativa de um despejo. uma vez que é uma instituição aceita por ela. Esta circunstância tem favorecido a continuidade da Escola Itinerante. A escola como resistência se expressa em alguns exemplos por nós vivenciados em acampamentos que enfrentaram conflitos mais diretos com o poder do latifúndio. essas famílias a incorporam como parte da organização dos acampamentos. que ocorre no processo de gestão que envolve a comunidade nos processos pedagógicos da escola. Por vezes. que viveu três despejos e continuou resistente aos incessantes ataques das milícias armadas. escrever. bem como é uma ação simpática diante da sociedade. que reflete e incorpora o movimento desta realidade.

todavia foi fomentada pelas famílias com crianças em idade escolar. ao se envolverem na gestão coletiva. Esse 10 A área ocupada é de 1. Entre essas ações. No caso dos Sem Terra. Nesse aspecto Knopf (2008. mais de 40 famílias se deslocaram para o município de Jacarezinho. por isso ela torna-se ainda mais estranha. as famílias foram percebendo a seriedade e a importância da escola na formação de seus filhos. Em um primeiro momento. as famílias exigiram a organização da Escola Itinerante neste espaço. Um exemplo dessa preocupação foi expressa em uma das caminhadas da Escola Itinerante Zumbi dos Palmares. Isso também ocorreu no acampamento Herdeiros da Luta de Porecatu. cursos de formação etc. Diferente do início. embora havendo estranhamento. é claro. porém.40) aponta: No acampamento. a escola retomou as marchas já realizadas pelo Movimento. mesmo a prefeitura disponibilizando transporte escolar.). com um método de ensino diferenciado. com sua efetiva participação. dão outro sentido a escola. se faz necessário o protagonismo dos sujeitos acampados. nas atividades educativas específicas como estudos e interpretação de temas. agora se inverte a lógica. no ano de 2005. pois elas. a organização da escola não foi uma das preocupações iniciais da coordenação do acampamento. Na Itinerante. Esta realidade foi estudada na escola. porém a escola tem sua especificidade. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 47 . congressos.400 hectares. que direciona um olhar a escola para além dela mesma e. podemos destacar um momento em que a Escola Itinerante Carlos Marighella propôs-se a trabalhar com o tema referente à Marcha Nacional do MST. apropriação e aperfeiçoamento da língua escrita. os exemplos apresentados demonstram que. são esses momentos que demarcam a possibilidade de construir uma concepção de escola onde os sujeitos da comunidade ajudam a pensar e conduzi-la. na primeira semana de ocupação. p. ocorre também nos demais processos organizativos da luta (mobilizações. a preocupação inicial não foi a organização da escola. historicamente não participarem efetivamente dela. ou podemos dizer ainda. por meio das seguintes questões: O que é uma marcha? Como ela se organiza? Qual o percurso dos marchantes e o que eles pretendem com ela? Nesta oportunidade. há uma necessidade real que tensiona para a construção de outro imaginário de escola. Ainda em 2008. Porém. Novamente. ao assumirem a escola como sua. por ainda não compreenderem como poderia funcionar uma escola naquele meio. a educação acontece até mesmo nas ações que o acampamento realiza na perspectiva de compreender o mundo e também. Outra marca da Escola Itinerante é o vínculo com à realidade. mais de 300 famílias ocuparam o complexo de terras improdutivas pertencentes ao grupo Atala10 . quando em outubro deste mesmo ano. A educação e a formação dos sujeitos não se dão somente na escola. Tais fatos evidenciam que a experiência vivida pelas famílias de se envolver nos processos organizativos e pedagógicos da escola tem produzido significados importantes. devido. com uma estrutura física igual aos seus barracos de moradia. em uma área de pré-assentamento. distinto daquela instituição alheia aos trabalhadores camponeses. em que famílias estranhavam a presença da escola no acampamento. na oportunidade em que o acampamento estava em mobilização para a marcha a Curitiba (PR).

criar novas possibilidades para que o educando ao passar pela escola possa se apropriar do conhecimento. outra marca que evidenciamos é a forma como a Escola Itinerante em luta se faz escola pública. afirmamos que temos o direito de acessar a escola pública. e gestada pela comunidade acampada. ainda existem questões a serem superadas e que serão retomadas adiante no texto. centrada na sala de aula.SEED. Desta forma. buscando a superação do conhecimento distante das questões atuais da vida e visando contemplar uma formação omnilateral. há muitos desagrada”. Alagoas e Piauí . tendo por base os Ciclos de Formação Humana11 . fragmentada. artísticos.como a carta elaborada pelas crianças da Escola Itinerante Ernesto Che Guevara. no dia 12 de agosto de 2008. “é uma escola teimosa. de formação humana.tema. que busque desenvolver o ser humano em suas diversas 11 O que não significa uma progressão automática e sim de fato. A carta foi lida durante o ato público de denúncia à violência sofrida pelas famílias. Outra perspectiva de trato do conhecimento. Na caminhada da escola. matemático. Santa Catarina. todavia. o que de novo. A organização por ciclos não significa apenas estruturar os educandos em agrupamentos. essa relação não ocorre sem tensões e contradições. 48 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. por meio da produção de cartas a educandos de outras escolas. Como afirma Camini (2006). financiada pelo Estado. busca-se afirmar que os movimentos sociais. luta para “ocupar” a escola pública e transformá-la em uma ferramenta da classe trabalhadora. entre outros. busca formas de trabalhar o conhecimento não fragmentando em disciplinas estanques. descritivos. conhecimento e vida. Neste campo da política pública. cabe aos trabalhadores educar a sua classe para outra postura diante das relações de submissão e exclusão vividas na escola capitalista. Ao conquistar a Escola Itinerante como política pública e propor seu projeto político pedagógico alternativo. Paraná. no município de Terra Rica. especialmente as escolas do campo. em protesto aos ataques sofridos pelas famílias do acampamento 8 de Março. dirigida pela teimosia lúcida dos trabalhadores Sem Terra que ainda exigem que este governo a financie. organizado pelo Movimento. temos buscado construir e implementar o Projeto político-pedagógico. do município de Guairaça. O qual organiza os educandos em agrupamento por idades. porém. constitui-se como um ponto forte na caminhada desta escola. Por isso. como é o caso do MST. Reconhecendo os limites da escola capitalista. Foi pela luta social que conquistamos sua legalização. a Itinerante pretende se articular à vida. geográfico. textos reivindicatórios . mas tem como referência outra concepção de avaliação. o terceiro ciclo ( 9 a 11 anos). a partir do exercício de buscar fazer uma escola comprometida com a formação dos trabalhadores. em conhecimento histórico. oriundo da organização do acampamento. o segundo ciclo (6 a 8 anos). o Movimento tem provocado a Secretaria de Educação a pensar a escola pública da forma como ela está constituída. Todavia. desdobrou-se em textos argumentativos. A necessidade desta junção. E que diferente da seriação não seja ele o culpado por seu fracasso escolar. Em relação às atividades específicas de leitura e escrita nas Escolas Itinerantes. passando a ser mantida pelo Estado . há um incentivo permanente à leitura crítica da realidade e à elaboração escrita articulada a uma função social. Concordando com essa citação. seriada. identificamos outra marca da Escola Itinerante do Paraná que são os Ciclos de Formação Humana. porque ela é a própria vida. Neste diálogo. ou seja. sendo o primeiro ciclo (4 a 5 anos). o quarto ciclo (12 a 14 anos) e o quinto ciclo (15 a 17 anos).

o desenvolvimento de diferentes emoções. Estes educadores têm a vivência da luta do acampamento e podem melhor compreender sua lógica organizativa e. Os educadores dos anos iniciais são escolhidos pela organicidade do acampamento a partir de alguns critérios12 estabelecidos junto às famílias acampadas. A maioria destes educadores aprende a planejar e ministrar aulas a partir do processo de vivência no acampamento. aprovação da indicação dos pais e da comunidade acampada. o planejamento se dá de forma coletiva. também há um programa de formação local. Por morarem próximos da escola. oficina. pedagogia. Sendo assim. o planejamento coletivo é um elemento central no pensar e prever estratégias na escola. A atuação no trabalho pedagógico é de responsabilidade do coletivo de educadores e não apenas do educador da turma. a partir das metas de aprendizagem e o plano de estudos de cada ciclo. Os tempos educativos como tempo leitura. ao mesmo tempo. entre outros são vivenciados em algumas escolas que dão. O planejamento coletivo é um ponto forte do trabalho pedagógico das Escolas Itinerantes. tais como o desenvolvimento das capacidades humanas superiores. Em sua maioria. a estes tempos prioridades diferentes. entre outros. Percebemos que. Para isso. geografia. desde a formação local e continuada. Estes coletivos possuem autonomia na definição da ordem dos temas e conteúdos. Os que são acampados com pertença ao Movimento que atuam na Educação Infantil e nos anos Iniciais do Ensino Fundamental e os que são do quadro próprio do magistério do Estado e atuam nos anos finais e Ensino Médio. dedicação ao estudo. vídeo. No processo formativo. contestada. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 49 . a vivência coletiva na organização do trabalho. por nós. Uma das formas de realizar essa formação tem sido por meio dos Tempos Educativos. reunião de núcleos. a formação dos educadores itinerantes apresenta-se como um grande desafio. trabalho. especialmente porque a formação por eles recebida está relacionada com a escola capitalista. Consideramos que para efetivar essa proposta de escola. ou seja. licenciatura. Na Educação Infantil e anos iniciais do Fundamental.dimensões. eles conseguem desenvolver e intencionalizar um processo de formação permanente. com a participação de educadores e comunidade na divisão de tarefas. diminuindo sua potencialidade educativa. metodologias e estratégias de ensino. de acordo com suas necessidades. geralmente. Passam a aprender o exercício da docência e compreender a luta dos Sem Terra por meio da escola e. Nos anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio atuam os educadores da rede Estadual 12 Ter escolaridade adequada para o exercício do Magistério. se envolvem mais com o projeto de escola. com o objetivo de formar educadores que se identifiquem com a tarefa de educar e que se comprometam organicamente com esta função. estudos e planejamentos coletivos. consideramos as especificidades dos educadores. recreio. por esta condição. ao longo do ano perdem a intencionalidade e tornam-se mecânicas. Fator este importante para conseguir relacionar os conteúdos escolares e dimensões da vida social e material dos educandos. entre outros. a relação com a arte. estes educadores não entram na escola instruídos de metodologias de prática de ensino. quando estas atividades não estão bem articuladas à totalidade da organização do trabalho. com a realização de estudos coletivos semanais que propiciam uma formação continuada. são integrados em cursos formais de educadores como: magistério.

contratados por meio do Processo Simplificado de seleção (PSS). na atualidade. É notável a rotatividade também na natureza do acampamento. Nesse texto sistematizamos alguns destes desafios que pontuamos a seguir: a) Continuar a estabelecer vínculo com a luta concreta dos acampamentos e assumir a itinerância como uma postura pedagógica A natureza da Escola Itinerante é a itinerância. Estes desafios. construirmos estratégias e formas de superá-los.de Ensino. precisam ser refletidos para. Porém. entre outros). Santa Catarina. porém essas melhorias. que emergem do processo. ocupação do Incra. também é um limite evidenciado. nas ocupações de terra. Caminhar junto com a luta. que ainda não são suficientes. bibliotecas. Paraná. inclusive melhorando suas estruturas físicas com coberturas de folhas de eternite e madeiras. bem como em questões objetivas e subjetivas ainda não evidenciadas. que em algumas vezes. não podem se constituir em um impedimento para a itinerância. entre outros. Não é nossa intenção nesse texto culpabilizar os professores de fora e nem exaltar os professores de dentro. é também colocar em movimento todo o processo educativo. na busca de realizar o ensino. a partir destes. cozinhas. geralmente. Alagoas e Piauí . vinculado a conhecimentos vivos. Essa forma de contratação do professor na Itinerante. no Paraná. sempre que a realidade exigir. nestes seis anos de existência. o que pode ocasionar o trato descontextualizado com o conhecimento. Estes educadores lidam com outra especificidade no trato com o conhecimento na escola e encontram também limites no processo. fator que prejudica a continuidade dos processos organizativos e pedagógicos. contrariam sua própria formação. não permite que o educador retorne a escola no ano seguinte. tanto os que moram e os que não moram no acampamento. e estiverem abertos a novos processos coletivos de formação. marcado pela fragmentação em que se formaram. a escola tem permanecido fixa. é de menor mobilidade. educando nas mobilizações. DESAFIOS DA ESCOLA ITINERANTE NO CONTEXTO ATUAL Ao fazer a Escola Itinerante colada à luta pela terra. ensinando e aprendendo. vários desafios e limites vêm se expressando para avançarmos nessa escola como contraponto a escola capitalista. A cada ano o trabalho na escola precisa ser retomado. Tais preocupações tem sido debatidas com a SEED na busca de superar tais dificuldades. diminuindo seu tempo de convivência com os educandos e comunidade. participando. pedágio. O desafio da escola é acompanhar este movimento de luta. possibilitando o encontro da escola com a vida. 50 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. O fato do mesmo educador trabalhar em mais de uma escola. compromisso com a escola. Como a característica dos acampamentos no Paraná é de se movimentar pouco. Entendemos que ambos podem contribuir se tiverem condições materiais para tal. O que tem sido mais recorrente são mobilizações (marchas. Assumir a postura de itinerância não significa somente acompanhar o acampamento em mobilizações. A rotatividade dos educadores é um limite nas Escolas Itinerantes. a situação dos acampamentos no Paraná.

Nosso desafio está em constituir e fortalecer os coletivos de educadores das escolas para realizarem estudos. por isso. dos programas aos planos de vida” (p. ou de estudo de conteúdos. a coordenação da escola precisa ter presente que. b) Desenvolver a formação dos educadores itinerantes colada à prática de ensino e da luta A realização da formação política pedagógica dos educadores por meio do MST. Em caso de troca de educadores. O trabalho coletivo é outro aspecto bastante relevante na formação dos educadores. no qual acontece as discussões organizativas. tem se constituído como interessante espaço formativo. na inserção nas atividades orgânicas do acampamento e também por meio dos curso formais e de formação continuada. Todos estes momentos precisam estar articulados num programa de formação refletido e debatido de forma coletiva. desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. reconhecendo o educador também como um militante. O processo de sistematização desta escola. temos o desafio de mantê-los o maior tempo possível na escola. debatida constantemente com as comunidades acampadas em cada vez mais espaços e. no sentido de percebermos os limites e possibilidades de concretizarmos a escola que anunciamos no projeto educativo do Movimento.Para isso. o mundo do trabalho. uma questão importante é que a Escola Itinerante precisa ser construída. Em relação à rotatividade dos educadores em geral. o processo pedagógico não pode ser interrompido. tendo instâncias. organização própria. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 51 . por mais revolucionários que sejam [. nestes seis anos da Escola Itinerante no Paraná. mas que se comprometam com o projeto político pedagógico da Escola. abarcando a totalidade desta escola e as especificidades e peculiaridades dos educadores conforme as diferentes modalidades de ensino. A escrita dos textos sobre as escolas tem provocado pensar e refletir sobre elas. Uma junção de assentamentos e acampamentos próximos. enfim a atualidade. Os conteúdos e os estudos precisam ser profundos e ajudar os educandos a entender a vida.. principalmente.11). promovendo a formação para a Em relação ao ensino concordamos com Pistrak (2005) quando afirma que “é preciso superar a visão de que escola é lugar apenas de ensino. devendo encontrar formas de continuidade. reunindo em média 500 famílias.. sendo um espaço ampliado de organização. planejamento e avaliações permanentes. Outro aspecto a ser considerado diz respeito à combinação constante da formação política e pedagógica e a participação dos educadores em atividades não só vinculadas a educação. junto às brigadas orgânicas13 onde elas se inserem. por meio da Coleção de Cadernos da Escola Itinerante. atualidade c) Trabalhar os conteúdos escolares vinculados à vida. Tal programa precisa considerar o conjunto dos educadores da Escola Itinerante. mas ao Movimento como um todo. formação de base. considerando as particularidades de cada acampamento. tem nos ensinado que a formação não se dá de uma única forma.] é preciso passar do ensino à educação. 13 A Brigada é uma organização territorial de famílias vinculadas ao MST. entre outros. Ela ocorre na prática de ensino. acolhendo-os independente do local onde moram.

d) Implementação do Projeto Político e Pedagógico da Escola Itinerante em Ciclos de Formação Humana O Projeto Político Pedagógico. priorizam somente os conhecimentos que tem relação mais evidente com os temas geradores. a autoorganização dos educandos. sistematizamos algumas iniciativas que temos tentado realizar nas Escolas Itinerantes e Bases para avançar nesse projeto de escola: 1) Organizar os agrupamentos de educandos nos ciclos. da sua condição de abstração do conteúdo. com tempos e espaço próprio para analisar e discutir as suas questões. deixando de fora alguns conhecimentos e saberes que são importantes para a formação humana.Colégio Estadual Centrão. 52 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. O documento tramitou por aproximadamente três anos na SEED. Alagoas e Piauí . estamos buscando aprofundar essa temática e organizar um plano de estudos que abarque os conhecimentos e saberes na organização dos Ciclos de Formação Humana. reagrupando por potencialidades e necessidades educativas. pois em algumas situações eles não têm conseguido conectar o ensino à vida. em fevereiro de 2010. Ao trabalhar os Temas Geradores encontramos alguns limites. permitindo que estas escolas reflitam as contradições existentes na vida da comunidade acampada. Santa Catarina. por idade em cada ciclo. Tendo por referência a Pedagogia do Movimento. mas a partir da maturidade do educando. O desafio se coloca em avançar na implementação desse projeto no conjunto das Escolas Itinerantes e a aprovação do Projeto da escola base . Em seguida. sempre esteve em processo de avaliação e elaboração. na conexão da atualidade com conteúdos escolares e a realidade do acampamento. O que tem ocorrido é que os problemas são discutidos na escola. Nesse processo. e outros. 2) Propiciar a auto-organização dos educandos por meio de ações intencionalizadas que consigam agregar os educandos em espaços de organização coletiva dentro dos agrupamentos. em um momento inicial. houve um esforço que envolveu a Coordenação das Escolas Itinerantes e das Escolas Bases na reelaboração do Projeto Político e Pedagógico em Ciclos de Formação Humana. Nessa direção. sendo. E organizar também outros reagrupamentos com metas pensadas não somente a partir das idades. são teorizados de forma ainda muito abstrata. para finalmente ser aprovado pelo Conselho Estadual de Educação. o que seria o ano referência. a participação efetiva da comunidade. principalmente. o que significa fazer da escola um tempo de vida e não de preparação para a vida. Na tentativa de superar esses limites. elaborar propostas e tomar as suas decisões em vista de participar da gestão democrática e da escola como um todo. e tem conseguido alguns avanços. Ou então. tendendo a uma postura espontânea. Paraná. distanciados da materialidade concreta. a Escola Itinerante foi buscando e estudando a melhor forma de desenvolver os tempos educativos. desde a implementação da Escola Itinerante em 2003. percebemos que a seriação própria da escola capitalista limitava concretizar a escola que queremos.O trabalho com os Temas Geradores tem sido uma possibilidade de aproximar a escola da vida nas Itinerantes. Sua construção teórica se deu a medida em que fomos percebendo sua efetivação na prática real.

comparação. ela só é possível se fazer outra escola quando se agrega. A escola é um espaço privilegiado para a transmissão de conhecimentos. articulada ao compromisso com o estudo e a formação não para obter notas. sem a pretensão de finalizar. por área e semestral. os limites de compreensão. tendo como referência maior o processo de apropriação do conhecimento e o desenvolvimento das suas capacidades de análise. percepção. reconhecemos a importância da existência da Escola Itinerante no atual contexto da luta dos trabalhadores rurais sem terra. mas abre brechas às contradições. Nesse sentido. independente de qual grupo político assumir o governo do Estado do Paraná nos próximos períodos. e contraditoriamente reproduz a sociedade capitalista. o maior desafio desta escola é continuar como política pública nos acampamentos e itinerante. 4) Realizar a avaliação processual e diagnóstica por meio de parecer descritivo. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 53 . E esta linguagem não é o silêncio. Sendo também um espaço de divisão do poder da instituição escolar. planejamento. Efetivar o conselho de classe participativo como espaço-tempo de realizar a avaliação dialógica. Seguindo esta reflexão. o diálogo. cabe à classe trabalhadora disputar a escola. se conecta diretamente a um projeto maior. participação. a escola não transforma a sociedade. avalia-se cada sujeito e cada instância da escola envolvida no processo educativo. no qual serão apresentados os avanços e limites do processo educativo do educando. Desta forma. Sabemos que sozinha. Enfim. raciocínio lógico e outras. síntese.3) Continuar a implementação dos conselhos de classe participativos com a intenção de ser um espaço-tempo onde os sujeitos centrais de toda ação educativa da escola (educandos. a passividade. É a voz. as contradições. que a Escola Itinerante possa se realizar aprendendo e ensinando na luta pela emancipação da classe trabalhadora. pais e educadores) tenham espaço para discutir e dar suas opiniões. daqueles que a querem a favor dos trabalhadores e daqueles que a querem a favor do capital.

Cesar de. 54 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. 2008b (Coleção Cadernos da Escola Itinerante do MST). Roseli Salete. São Paulo: Mec-Gramhill do Brasil. CAMINI. IN: MST. Francisco Beltrão. PISTRAK. Francisco Beltrão. Paraná. A Escola Itinerante Carlos Marighella no Acampamento Elias Gonçalves Meura: trajetória e função social. 1987. Currículo básico para a escola pública do Paraná. Educação brasileira contemporânea: org. 2005.1992 (Coleção polêmicas do nosso tempo). Educadores Itinerantes e sua formação. Paraná. 2008a (Coleção Cadernos da Escola Itinerante do MST) SEED. Evaldo. E. Isabel. Alessandro Santos. São Paulo: Expressão Popular. Ane Carine & DAVID. nº2. Santa Catarina. 2006. 2008 (Monografia de conclusão de curso). Walter. MARIANO. 2008 (Monografia de conclusão de curso). Escola Itinerante no Desafio da luta pela reforma agrária. nº1. Paraná. Curitiba: 1990. Marcos. GARCIA. Espaços e tempos de itinerância: interlocuções entre universidade e Escola Itinerante do MST. IN: MEUER. M. Pedagogia do Movimento Sem Terra. UFSM. Escola Itinerante dos Acampamentos do MST: Uma Ferramenta de Luta e Emancipação dos Trabalhadores Sem Terra. Fundamentos da escola do trabalho.REFERÊNCIAS CALDART. Jurema de Fatima. GREIN. GEHRKE. e funcionamento. KNOPF. M. São Paulo: Expressão Popular. Escola Itinerante do MST: história. MST. Alagoas e Piauí . M. projeto e experiências. Santa Maria: Ed. São Paulo: Cortez e Autores Associados. 2004. Democracia e Política Social. VIEIRA. Isabela. Itinerante a Escola dos Sem Terra: trajetória e significados.

Coleção Cadernos da Escola Itinerante 55 .

Alagoas e Piauí .56 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Paraná. Santa Catarina.

Escola Itinerante em Santa Catarina Coleção Cadernos da Escola Itinerante 57 .

Paraná.58 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Santa Catarina. Alagoas e Piauí .

Sua elaboração constituiu-se em um desafio e um importante espaço para reflexão da caminhada de cinco anos (20052009) da Experiência Pedagógica na modalidade de Escola Itinerante nos acampamentos do MST de Santa Catarina. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 59 . A dimensão educativa das crianças do MST é mais profunda que aquela vivenciada somente no espaço da escola. na qual as atividades pedagógicas desempenhadas apontam para a formação. a mística. saber articular o próprio pensamento. com a participação da comunidade e que se vincula à construção de um projeto de sociedade socialista. a violência. sem descuidar da vinculação a um projeto de campo e de sociedade. as lutas. Neste sentido. não olhamos para a Escola Itinerante apenas como uma estrutura escolar. 2 Militante do Setor de Educação do Estado de Santa Catarina e do Coletivo de acompanhamento pedagógico das Escolas Itinerantes. que tem centralidade no ser humano.ESCOLA ITINERANTE EM SANTA CATARINA: LUTA E CONSTRUÇÃO Daiane Maria Paz 1 Paulo Davi Johann 2 INTRODUÇÃO Este texto. relacionar. reconhecendo o conjunto das dimensões humanas. e graduanda do curso de geografia (UNESP). precisa contribuir para o maior entendimento destes aprendizados e. o despejo. O significado do espaço do acampamento. vinculada ao sistema público e a um movimento de luta social pela Reforma Agrária no Brasil. analisar. aberta e capaz de responder a mobilidade dos acampamentos. neste contexto. Esta reflexão traz presente a construção do projeto de Escola Itinerante em Santa Catarina. as relações. o Projeto Político Pedagógico da Escola Itinerante propõe: Uma escola dinâmica. são componentes que possibilitam aprendizagens para as crianças. calcular. Nesta perspectiva. a Escola Itinerante se assume como Escola do MST. deve ser um espaço para a reflexão e socialização de conhecimentos. Neste sentido. parte de discussões e registros elaborados pelo setor de educação. no estado. que auxilie 1 Militante do Setor de Educação do Estado de Santa Catarina e do Coletivo de acompanhamento pedagógico das Escolas Itinerantes. interpretar. duvidar. cujos processos pedagógicos buscam levar em conta o acúmulo do MST no que se refere à escola que queremos. sentir. Uma escola que auxilie as crianças a compreenderem o momento e o espaço em que vivem.e graduado em pedagogia para educadores do campo pela UNIOESTE. ao mesmo tempo. em especial. que é a primeira publicação sobre as Escolas Itinerantes em Santa Catarina. celebrar. O conjunto das ações desenvolvidas na escola precisa contribuir para que as crianças possam aprender a ler. dialogar. A escola. A escola do MST é uma Escola do Campo. as brincadeiras. confrontar. debater.

que tenha identidade e compromisso com o projeto político das famílias acampadas. É por ter esta compreensão. O frequente deslocamento dos acampamentos de um município para outro mostrava um grande limite de inserção das crianças nas redes municipais de ensino. das lutas. Para esta reflexão. Na terceira parte realizamos uma reflexão acerca da relação do Estado e da Secretaria de Educação com a Itinerante. uma escola que seja conectada com a realidade e o desenvolvimento do campo brasileiro. quando também refletimos a formação dos educadores e a experiência pedagógica desta escola que caminha com o povo Sem Terra. Santa Catarina.no resgate da dignidade e socialização da infância. intervir e transformar. Para que este projeto se tornasse real. Alagoas e Piauí . científica e humanista já acumulados por outras experiências. Mas não qualquer educação e sim. as dificuldades e os esforços para manter viva esta experiência de educação dos trabalhadores do campo. Nessa luta nem sempre havia a garantia de construção de escolas ou a inclusão das crianças nas escolas existentes no município. A primeira traz presente a luta das famílias Sem Terra com a participação das crianças pelo reconhecimento legal das escolas dos acampamentos. houve a necessidade de mobilizar o conjunto do MST e empreender lutas para esse fim. que o MST de Santa Catarina se preocupou com a educação escolar dos filhos e filhas dos Sem Terra. O presente texto está dividido em quatro partes. é fundamental quando se acredita que a escola não tem a função de ensinar conteúdos mecânicos. do acampamento. uma educação que pudesse se desenvolver no interior dos acampamentos. 2007 p. Por último. tratamos da caracterização e organização desta escola. das pressões sofridas. 4) Compreender que a educação escolar deve partir da vivência da criança. Paraná. analisar. porque a estrutura física das escolas municipais não atendia a demanda 60 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. apontamos os desafios que permanecem ao longo destes cinco anos de construção política e pedagógica das Escolas Itinerantes dos acampamentos do MST de Santa Catarina. sem perder a qualidade pedagógica. Para que isso se tornasse realidade era necessário travar lutas. pois desde as primeiras ocupações havia a preocupação com a escolarização dos filhos e filhas dos Sem Terra. A cada município todo o processo se iniciava novamente. que o Movimento se articula e elabora um projeto de educação que viesse ao encontro com suas preocupações de uma educação numa perspectiva libertadora. A LUTA PELA ESCOLA ITINERANTE EM SANTA CATARINA A necessidade de se construir escolas nos acampamentos do MST em Santa Catarina está relacionada à sua origem.(Projeto Político Pedagógico das Escolas Itinerantes em Acampamentos do MST de Santa Catarina. onde a pedagogia a ser implementada poderia atender a esta perspectiva. mas formar a consciência de seres humanos capazes de observar. Em um primeiro momento. tomamos como base as observações feitas no acompanhamento pedagógico às Escolas Itinerantes pelo Setor de Educação do MST e estudos acadêmicos sobre o tema. Em um segundo momento. o Movimento procurava as redes municipais de educação para a criação de escolas nos acampamentos ou a inclusão das crianças nas escolas existentes no município em que se localizava o acampamento. enfim. É neste sentido.

e indagou:.e a construção de escolas levava algum tempo e. Começa então uma nova etapa de luta pela escola das comunidades itinerantes. ter gosto pelo magistério e pelo estudo e ter o maior grau de escolaridade. Nos acampamentos do MST no estado de Santa Catarina. as crianças acabavam perdendo o ano letivo. Para que as crianças Sem Terra não ficassem fora do processo educacional escolar. a Resolução nº 01/2002/CNE/CEB que trata das Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo e a Lei Complementar Estadual nº. então sou eu mesmo . as escolas eram legalizadas como extensão de uma escola da rede municipal. O projeto estava amparado na legislação vigente: a Constituição Federal e Estadual. o MST de Santa Catarina buscou nessa experiência subsídios para a elaboração do projeto de Escolas Itinerantes no estado. a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. tais como: a marcha no ano 2003. Como no Rio Grande do Sul a aprovação da Escola Itinerante é de 1996.12). Os educadores eram escolhidos pela comunidade acampada. a comunidade acampada em conjunto com o setor de educação do MST organizava a escola. 2006 p. O educador por se dispor a desenvolver atividades pedagógicas para educar as crianças do acampamento e os pais por quererem que seus filhos estudassem. em algumas situações houve uma forte pressão do poder judiciário para o fechamento delas. A elaboração do projeto para a criação dessa modalidade de escola em Santa Catarina surge da demanda de garantir a escolarização das crianças e o reconhecimento das experiências de escolas já desenvolvidas. neste primeiro momento se buscava legalizar as escolas dos acampamentos junto aos municípios em que estas se situavam. havia oito escolas em funcionamento.” (Menezes Mori. os representantes das secretarias municipais de educação argumentavam que a lei não permitia. Assim como descrito anteriormente. Para a conquista do reconhecimento legal das escolas nos acampamentos foi necessário mobilizar o conjunto do MST e empreender lutas junto ao poder público estadual. sendo que se observavam alguns critérios como: estar acampado. Um exemplo de como eram tratadas as escolas de acampamento. quando da aprovação do projeto da Escola Itinerante. No período em que funcionavam as escolas nos acampamentos sem o reconhecimento legal. em que aproximadamente oitenta Sem Terra atravessaram o estado e um dos pontos de pauta foi a aprovação das Escolas Itinerantes. onde os pais e o educador foram intimados e processados pela justiça. 170/1998. foram feitas diversas audiências com a Secretaria Estadual de Educação e com o governador do Estado Luiz Coleção Cadernos da Escola Itinerante 61 . é você o criminoso? .Se dar aula de graça for crime. foi o ocorrido no acampamento Manoel Aves Ribeiro. olhou bem. A partir desta situação se percebeu que a solução do problema não era definitiva. Nas palavras do próprio educador Cléber: “Na delegacia. com isso. Nestas oito escolas em funcionamento contava-se com 11 educadores e 252 educandos e hoje (2009). estão funcionando com 11 educadores e 144 educandos. dos pés à cabeça. As mobilizações utilizadas foram várias. localizado no município de Três Barras. mas em outros municípios.Então. Algumas destas escolas não possuíam o reconhecimento legal e outras se encontravam legalizadas pelos municípios como extensão de outras escolas municipais. mesmo sem o reconhecimento legal do Estado.respondi. Além disso. quando o delegado me chamou. Onde as administrações eram mais simpáticas à luta pela terra. o Estatuto da Criança e do Adolescente. antes da aprovação da Escola Itinerante.

por um período de dois anos. d) emitir histórico escolar do aluno. cujo projeto político pedagógico se aproxima da Pedagogia do Movimento. sob parecer 263 de 21/09/2004. tais como ajudar na formação dos educadores e no debate acerca do fortalecimento da Escola Itinerante. há. Alagoas e Piauí . portanto. à Rede Estadual de Ensino.Henrique da Silveira3. Posteriormente. b) manter organizada a escrituração e o arquivamento dos dados referentes à vida escolar dos alunos e funcional dos educadores. Os Sem Terrinha também estiveram presentes. no conjunto do Movimento. Desde o início da implementação das Escolas Itinerantes do MST em Santa Catarina. esta experiência foi prorrogada por um período de quatro anos. quando do pedido de transferência ou no final do curso do Ensino Fundamental. a decisão de que estas seriam organizadas em todos os acampamentos onde 3 Governador eleito em 2002 e reeleito em 2006. município de Lebom Régis. a partir da qualificação dos educadores e contribuir com a luta pela continuidade da existência da Escola Itinerante. embora tenha limitações devido a muitos educadores não possuírem vínculos orgânicos com o assentamento e o MST. O assentamento Rio dos Patos. aliados a uma abertura do então secretário de educação para o diálogo. Os diversos espaços e momentos de luta. c) providenciar a documentação para contratação do corpo docente. se deslocando diariamente da cidade para trabalhar nessa instituição escolar. realizado em 2004. Santa Catarina. ORGANIZAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DAS ESCOLAS A Escola Itinerante é uma escola de acampamento que tem por base legal a Escola de Ensino Fundamental 30 de Outubro. pelo Conselho Estadual de Educação. Esta escola também é uma conquista da luta dos Sem Terra assentados e por isso se tornou a Escola Base. Consta no projeto de criação da Escola Itinerante que a Escola Base assume as funções de: a) responsabilizar-se pela relação dos alunos nas turmas da Escola Itinerante com o Sistema Estadual de Registro e Informação Escolar/SERIE. no qual está localizada a escola 30 de Outubro. Esta escola é a chamada Escola Base. quando ocorreu uma audiência com o Governador do Estado e o Secretário Estadual de Educação. culminou na aprovação do projeto que autoriza o funcionamento das escolas dos acampamentos. em Florianópolis. é fruto da luta dos Sem Terra de Santa Catarina. O ano letivo teve início no dia 21 de fevereiro de 2005 em todas as escolas. que atende o ensino fundamental. Após a aprovação desse projeto foram realizadas reuniões de formação e discussão sobre a organização e funcionamento dessa escola em todos os acampamentos. A exceção foi a escola do acampamento Oziel Alves. Exemplo disso foi o 3º Encontro Estadual dos Sem Terrinha. Além das atribuições descritas acima. localizada no assentamento Rio dos Patos. portanto. 62 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. na modalidade de Escola Itinerante como experiência pedagógica. tem sido acrescidas outras tarefas para a Escola Base. Esta luta foi feita não só pelos adultos. O encaminhamento construído com as famílias foi de que todas as escolas dos acampamentos passariam a ser itinerantes e vinculadas à Escola Base 30 de Outubro e. toda a trajetória da Escola Itinerante em Santa Catarina tem acontecido neste governo. Paraná.

coletivo de pais e mães e trabalho voluntário de acampados e acampadas. o que resulta em escolas com um número pequeno de educandos e educandas. independente de série. A Escola Itinerante tem uma equipe de coordenação pedagógica formada por três pessoas4. Para a superação desta limitação tem-se buscado organizar nos acampamentos formas variadas de organização para que o trabalho coletivo se efetive como a constituição de coletivos de educação nos acampamentos. O Setor de Educação construiu uma proposta. As aulas acontecem em barracos de lona construídos pelas famílias acampadas ou em áreas onde há casas ou galpões que são destinados para a organização da escola do acampamento. fazendo com que boa parte das escolas sejam formadas por uma única turma. Das oito escolas. Pelo fato de a maioria das escolas ser formada por uma turma e apenas um educador ser contratado pelo estado. As condições para a construção da escola e sua manutenção são pensadas e executadas pela comunidade acampada. As avaliações feitas no coletivo de educadores e a prática das escolas apontam para duas constatações no que se refere à multisseriação: a) existe a possibilidade da troca de conhecimentos e experiências entre as crianças e o agrupamento por dificuldades. há dificuldade da efetivação desse princípio. Estes coletivos têm a função de acompanhar as audiências e propor pautas para as Gerências Regionais. no acompanhamento individual às crianças que é de trabalhar em contraturno. a melhor lona ou a melhor construção da área ocupada. somente duas têm mais de trinta educandos. b) tem-se a dificuldade de um acompanhamento individual das crianças devido à diversidade de níveis de aprendizado. considerando as normas da rede estadual de ensino. principalmente. Tem-se buscado construir em todos os acampamentos um coletivo de educação que recebe nomes variados: equipe de educação. coletivo de educação. Segundo o projeto de criação da Escola Itinerante. com as Gerências Regionais de educação e com a Escola 4 A coordenação pedagógica é formada por três pessoas. participar das avaliações e planejamentos das atividades das escolas. possibilitando fazer duas turmas. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 63 . no percurso de sua existência. Percebe-se a prioridade que as famílias dão ao espaço da escola. Setor de Educação. idade e séries. um dos coordenadores tem por função estabelecer relação com o Estado. Estes grupos permitem dar maior qualidade ao planejamento e à execução das atividades. agrupando as crianças segundo as dificuldades encontradas. de que o trabalho pedagógico precisa ser pensado e executado de forma coletiva. e também permitem uma avaliação mais consistente de todo o processo ensino-aprendizagem e de organização e gestão da escola. com as Gerências Regionais de educação e com a Escola Base e os outros dois de fazer o acompanhamento pedagógico aos educadores e educadoras.houvesse demanda por escola e assim tem acontecido em todos esses locais. contribuir em tarefas práticas na escola. inclusive propondo temas de estudo e de acompanhamento aos estudantes dos anos finais do ensino fundamental e ensino médio que estudam fora do acampamento. independentes das séries que antes frequentavam. APP (Associação de Pais e Professores). A partir das avaliações e constatações decorrem ações concretas que contribuem. cujas funções são: manter relação com o Estado. participar de reuniões e garantir que as discussões referentes à escola cheguem até os núcleos de base. que permite o desdobramento das turmas a partir de trinta alunos. O MST no estado de Santa Catarina caracteriza-se por acampamentos menos numerosos. destinando para esta a melhor localização do acampamento. como reparos na estrutura física e na horta.

Esta coordenação pedagógica tem ido aos acampamentos algumas vezes ao ano e acompanhado algumas aulas para observar seu desenvolvimento. Alagoas e Piauí . a orientação de que cada coordenador pudesse fazer uma visita por mês a cada escola. As atividades escolares. a condição financeira não tem possibilitado esta frequência. é necessário desenvolver maior formação com os educadores. auxiliando tanto o trabalho do educador quanto contribuindo no fortalecimento do Setor de Educação e na organização do acampamento. a maior compreensão de o porquê lutar e do que se pretende conquistar. Estas questões precisam ser refletidas no Setor de Educação do acampamento. além da compreensão da luta pela terra. Com o tempo. no Setor Educação do MST. famílias e educadores. com vistas a auxiliar os educadores na organização e no planejamento das atividades pedagógicas e nas reuniões com o coletivo de educação e pais.Base. têm potencializado a interação e socialização entre as crianças. somados ao abandono por parte do Estado. As crianças vão construindo a compreensão do que é planejar e avaliar. Paraná. Para avançarmos no trabalho destas escolas. ajudando na compreensão de que escola queremos construir. É importante indicar que a vivência no acampamento e a participação nas lutas são pedagógicas e contribuem na educação das crianças. transformando essas vivências em reflexões sistematizadas. mas também com o Setor de Educação e o acampamento. cultura e valores. Santa Catarina. trabalhar a formação dos educadores. Apesar de ter-se definido. o trabalho dos coordenadores pedagógicos é fundamental. é preciso debater sobre o trabalho pedagógico acerca dos conteúdos escolares. a escola incorpora a organicidade do acampamento. as crianças possam questionar e participar da vida do acampamento. neste contexto. Nesse sentido. quando da organização de um novo acampamento. Durante os cinco anos de atividade da Escola Itinerante. Na elaboração dos planejamentos das aulas tem-se orientado buscar a integração entre aspectos da realidade com a organização do conhecimento e atividades práticas. identificando quais conteúdos trabalhar e como é possível desenvolver a interdisciplinaridade a partir de temas do cotidiano. organizando os núcleos de crianças e dividindo tarefas. avançando para um trabalho educacional refletido e realizado coletivamente. é necessário construir com as famílias a compreensão de que o ambiente educativo não é apenas a escola. assume o papel de questionar as atitudes e valores expressos e contribui para que. aliada à grande itinerância de educandos. A escola. apesar de ser de sua responsabilidade esta atribuição. são limites à construção e implementação da proposta pedagógica da Escola Itinerante. portanto. Para avançar na prática do planejamento acima descrito. Dentre outras questões. trabalhouse na construção de metodologias que possibilitem traduzir a realidade vivida em conhecimentos. ajudar a organizar a escola no acampamento e contribuir na discussão acerca do papel da escola e da educação nos acampamentos. muitas atitudes dos adultos na vida comunitária dos acampamentos devem ser repensadas. dividem 64 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. pois o Estado não repassa os recursos para que isso possa se efetivar. a falta de recursos pedagógicos e didáticos e a ausência de uma política de formação continuada e consistente dos educadores. Observamos que o fato das escolas serem muito pequenas e com apenas um educador tem gerado dificuldades e isolamento. é possível perceber algumas limitações: a dificuldade em constituírem-se os coletivos e garantir a participação da comunidade acampada na escola. o que também se deve à distância entre elas. contribuir com o educador nas questões legais das escolas. acompanhar os educadores e educadoras no trabalho pedagógico. Desta maneira. Todos esses aspectos.

Em 2009. trabalham alguns conteúdos conjuntos com a primeira e segunda série e. No que se refere ao calendário escolar. como o registro é feito em sistema SERIE. Os educadores organizam os educandos a cada duas séries. OS EDUCADORES E O TRABALHO PEDAGÓGICO O Setor de Educação do MST em SC tem por princípio que os educadores que trabalham na Escola Itinerante sejam escolhidos entre as famílias acampadas. As aulas que eventualmente deixarem de ser dadas no período de organização da escola são repostas. respeitam-se alguns critérios como: fazer parte da Coleção Cadernos da Escola Itinerante 65 . desde que garanta às crianças a carga horária de 200 dias letivos e o mínimo de quatro horas de aula diárias. o Sistema Estadual de Ensino organizava-se por meio de notas. sendo esta uma decisão do educador/educadora juntamente com o coletivo de educação. Nos cursos de formação de educadores. adotou-se a avaliação descritiva dos educandos nos três anos iniciais do Ensino Fundamental. No que se refere a avaliação. este projeto é estudado e são anotadas as sugestões. ou seja. seria possível uma maior aproximação ao trabalho por ciclos. iniciou-se a organização do Ensino Fundamental de 9 anos. a partir da discussão na coordenação e nos Núcleos de Base. até o ano de 2008. estudo e construção no coletivo de educadores e estudo nos acampamentos. Para o processo de escolha. elaborados em processos participativos e socializados com os pais e comunidade. além dos registros de avaliação exigidos pelo estado. as Escolas Itinerantes se organizam de acordo com o calendário da Escola Base das Itinerantes. Mesmo que a organização escolar oficial do Estado impeça de organizar o processo educativo por ciclo. levando-se em conta as especificidades e necessidades das crianças. e envolve. de terceira e quarta série. ou em sábados. avaliações orais ao final de aulas ou atividades. então. As Escolas Itinerantes. reuniões de um grupo de trabalho. reunião de pais e pareceres descritivos de cada criança. o ensino. da mesma forma. A organização curricular exposta no Projeto Político Pedagógico da Escola Itinerante prevê a organização por ciclos. ou no contra turno. Independente da forma de registro adotada. como as turmas são multisseriadas. O que acontece na prática das Escolas Itinerantes é uma organização que extrapola o sistema série. buscando assim a participação e o conhecimento deste por parte dos educadores que. O Projeto Político Pedagógico das Escolas Itinerantes está em contínuo processo de construção desde a sua legalização e tem como base a construção que vem sendo feita ao longo dos anos da Pedagogia do Movimento. A metodologia de construção envolveu. a avaliação inclui aspectos como o aprendizado das crianças. A escola também participa das atividades comuns do acampamento como mutirões. no entanto. têm a tarefa de realizar as discussões com as famílias acampadas. se houvesse uma boa formação política pedagógica. cada escola tem autonomia para readequá-lo. juntamente com o Setor de Educação e coletivo de acompanhamento. conforme a realidade de cada espaço. a organização da escola e a participação da comunidade acampada. as atividades são organizadas por idade e/ou tempo de aprendizagem. este oficialmente não poderá ser feito por ciclos. organizam formas complementares e participativas de avaliação utilizando-se de instrumentos como cadernos de acompanhamento individual dos educandos. porém.tarefas e participam da execução e da avaliação sobre elas. celebrações e místicas. trabalho na horta. assembleias. Há três anos. mas ainda não é ciclo.

Porém. devido ao processo escolar brasileiro historicamente ter excluído as famílias pobres da escola. têm buscado diversas formas de garantir estes espaços/momentos de estudo e reflexão. para uma parte dos educadores. nos acampamentos do MST de SC. ensinando além de ler e escrever. Os primeiros dois acontecem na Escola Base e o terceiro em uma das escolas nos acampamentos. Desta forma. A formação dos educadores itinerantes vem sendo realizada apenas com o esforço do Movimento e da Escola Base. O primeiro momento de formação acontece antes do início das aulas. as quais não contemplam a especificidade antes apontada e seu projeto educacional. qualificar sua atuação política e pedagógica. a formação dos educadores vem sendo trabalhada sem a participação da Secretaria Estadual de Educação. faz-se uma discussão na coordenação junto com o Setor de Educação do acampamento e escolhe-se aquele que melhor preencher os critérios acima citados. a formação dos educadores deveria ser feita em parceria entre a Secretaria de Estado da Educação. entretanto não temos condições para garantir maior regularidade nos encontros de formação. A formação dos educadores e educadoras é fundamental para qualificar os processos pedagógicos e sintonizá-los com a educação emancipatória. ter o reconhecimento do acampamento. nesses acampamentos torna-se educador aquele que tiver completado o Ensino Fundamental. As frequentes requisições de formação encaminhadas pelo Setor de Educação do MST à Secretaria de Estado de Educação recebem como resposta a indicação dos cursos realizados pelas Gerências Regionais de educação. ter gosto pelo magistério. outra parte dos educadores tem clareza política ideológica de onde quer chegar. Nesse sentido. Normalmente. Há a compreensão de que a formação dos educadores. a cada ano acontecem três momentos de formação com os educadores da Escola Itinerante no período de três a cinco dias. Santa Catarina. Paraná. tem-se dificuldade em encontrar pessoas que atendam a todos os critérios expostos. ao passo que o Estado deve garantir as condições para a formação continuada destes educadores. a Escola Base e os educadores. a posição deste tem sido de omissão em relação à Escola Itinerante e de negação das condições que asseguram a especificidade desta experiência. A partir do levantamento dos nomes. Alagoas e Piauí . e que estes tenham a disponibilidade de morar nos acampamentos. os acampamentos. o Setor de Educação. em muitos acampamentos. Dessa forma. é preciso que o MST e o Setor de Educação tenham maior preocupação em formar seus educadores. Esta formação também precisa levar em conta a especificidade das Escolas Itinerantes. Segundo o projeto aprovado pelo Conselho Estadual de Educação. em que se trabalham os temas referentes à organização e o planejamento das atividades pedagógicas que serão 66 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. por outro. Isto quer dizer que buscam rever o papel do educador e da educação numa sociedade dividida em classes sociais. Observamos que a baixa escolaridade e a ausência de formação pedagógica são limites para maior qualidade do trabalho educacional.comunidade acampada. o Setor de Educação do MST e Escola Base. compreendem que a escola não pode ficar no conhecimento fracionado e que é preciso trabalhar o processo de organização dos educandos. gostar de estudar e ter a disponibilidade de continuar estudando. ter concluído pelo menos o ensino fundamental. mas partindo da realidade vivida dos educandos. Nesse sentido. compromisso com a luta e pertença ao Movimento. Como veremos no item da relação com o Estado. além de um direito. falta formação pedagógica inicial. Se de um lado. porém. é fundamental para que a experiência se firme enquanto uma proposta pedagógica que atenda às questões específicas da escola e das crianças acampadas. nesses quase cinco anos de funcionamento da Escola Itinerante.

é desenvolvido em forma de oficina e denominado de Oficina de Capacitação Pedagógica . um período de estudo teórico relacionado à Pedagogia do Movimento. conseguimos ter avanços significativos no que diz respeito à qualidade do ensino. relacionando-os com os conhecimentos científicos universais produzidos pela humanidade. associados à ampla formação humana. Em pesquisa nas Escolas Itinerantes de Santa Catarina. o acompanhamento das crianças oriundas da Escola Itinerante no momento em que ingressam na quinta série e são transferidas para outra escola (fora do acampamento) não fica aquém se comparado às crianças que tiveram seus estudos em escolas diferentes da Escola Itinerante.OCAP.desenvolvidas durante o ano. no outro período. mesmo que todas tenham relação com o tema. pois a cada aula discutem junto com os educandos algum assunto da realidade vivida pelo educando. podemos observar que as crianças da Escola Itinerante estão em condições de igualdade com as crianças que estudam Coleção Cadernos da Escola Itinerante 67 . Todos os pais entrevistados demonstraram estarem satisfeitos com a aprendizagem de seus filhos (Puhl. É preciso avançarmos na construção de uma escola capaz de formar os Sem Terrinha com conhecimentos universais. É preciso potencializar a formação para criar um corpo docente com qualificação profissional. desenvolve-se a prática em sala de aula com a avaliação dos trabalhos. No entanto. da luta pela terra e do funcionamento da sociedade. Neste sentido. Isto implica formar educadores que tenham a capacidade de trabalhar os conhecimentos da realidade próxima como ponto de partida e. ao mesmo tempo. aliados aos conhecimentos do campo.68-69) Mesmo com todos os limites encontrados em relação aos conteúdos escolares. outros trabalham a partir de temas escolhidos pelo educador. No dia a dia percebe-se que parte dos educadores trabalha com o método tradicional. Durante os quase cinco anos de desenvolvimento de atividades pedagógicas nas Escolas Itinerantes. é preciso avaliar melhor a vontade e disposição das pessoas indicadas a serem educadores e também as que são selecionadas para participar dos cursos de formação de nível médio e superior oferecidos pelo MST em parceria com o Pronera e com universidades. Em relação ao aprendizado das crianças escreve: Segundo pais e educadores. além dos trabalhos de preenchimento do diário de classe e o calendário escolar. Os que trabalham com o método tradicional não deixam de trabalhar os assuntos do cotidiano do educando. Os educadores que trabalham a partir de temas. p. que acontece em uma das escolas.76) verificou que “por falta de formação. Puhl (2008. O terceiro momento . à educação libertadora de Paulo Freire e o planejamento e. a rotatividade dos educadores ainda é um limite. muitos educadores dão mais ênfase à vida cotidiana do que aos conteúdos oficiais. pois se sentem mais seguros para tratar sobre estas questões”. O segundo momento acontece na metade do ano em que é estudado o Projeto Político Pedagógico e outros temas relacionados à Pedagogia do Movimento e a Educação do Campo. para poder intervir nela e transformá-la. política e pedagógica. como ponto de chegada. Nessa OCAP trabalha-se a teoria aliada à prática. 2008. Isto quer dizer que as disciplinas escolares são trabalhadas de forma isolada. Ou seja. p. Este é um desafio que deve ser assumido pela Escola Itinerante. Setor de Educação e o conjunto do MST. da organização do MST e do acampamento. em muitos casos não conseguem trabalhar os conteúdos das disciplinas escolares vinculados ao tema e de maneira não fragmentada.

historicamente. marchas. no mês de abril de 2005. de Abelardo Luz. por isso. o trabalho no campo. Santa Catarina.em outras escolas. à agilidade dos processos e à possibilidade de formação intencional e planejada. juntamente com o educador. aconteceu mais um momento de luta pela Reforma Agrária no município de Iriniópolis. o que falta é desenvolver melhor o vínculo entre os conteúdos das disciplinas escolares e os temas relacionados à vida concreta do educando. Outra questão que merece atenção é o envolvimento da comunidade acampada na condução dos processos pedagógicos da escola. e outros lugares. Para muitos pais basta que a criança aprenda a ler e escrever. pois a escola deve ser orgânica à comunidade e caminhar com ela rumo à emancipação humana. Alagoas e Piauí . Porém. No dia 10 de julho de 2005. que foi organizando as crianças e a escola. tivemos algumas experiências de itinerância que vêm comprovar a importância desta conquista no que diz respeito à garantia da escola. É fundamental para avançarmos na construção da Pedagogia do Movimento. pois nem sempre as condições estão dadas para o desenvolvimento do processo pedagógico. Em nosso ponto de vista. e Manuel 68 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Todas as crianças passaram a ser atendidas na escola deste acampamento e uma outra escola também se constituiu em um novo acampamento no município de Rio Negrinho. acompanhou as famílias e as vinte e cinco crianças matriculadas. Os educadores atuam em conjunto com a organização dos acampamentos e são desafiados permanentemente a construir espaços pedagógicos nas diversas situações que encontram na itinerância e que os provoca a criatividade e espírito de sacrifício. O envolvimento da comunidade acampada na definição dos meios e fins da educação escolar é um dos maiores desafios da Escola Itinerante. Por acompanhar as famílias no processo de luta em que elas se encontram as aulas da escola. especialmente na seleção de temas e conteúdos a serem abordados. Outro exemplo foi quando as famílias do acampamento no município de São Francisco saíram da área ocupada e se somaram às famílias do Pátria Livre. Por exemplo. Imediatamente discutiu-se o nome do educador. deslocaram-se para o pré-assentamento no município de Correia Pinto e a escola. a preservação da natureza. Neste período de legalização das Escolas Itinerantes. quando ocupados. esta participação está mais relacionada à construção e manutenção da escola e na preparação da merenda para os educandos do que ao trabalho pedagógico. Porém. etc. onde as famílias dos acampamentos Raízes do Futuro. Isto se deve ao fato de que. Paraná. cinquenta famílias do acampamento Pátria Livre. em Canoinhas. permanecem em situação de itinerância até que conquistem o direito de poder plantar e produzir. A ESCOLA QUE CAMINHA COM O POVO SEM TERRA A Escola Itinerante é uma escola pensada e organizada pelas famílias em situação de acampamento e tem por objetivo atender e garantir o direito à escolarização das crianças que acompanham seus pais na luta pela terra e. quando necessário. assim como apontam os acampamentos do MST. os valores humanos que devem ser cultivados. acontecem em momentos e lugares diferenciados como barracos ou galpões. para dar início às atividades. prédios públicos. na Itinerante se aprende também sobre a vida do acampamento. a educação escolar foi destinada ao educador.

que entre agosto e setembro de 2008 funcionou no prédio da superintendência do Incra em Chapecó. uma escola ia sendo organizada pelas famílias acampadas em conjunto com o Setor de Educação. do município de Mafra. no município de Santa Terezinha. O órgão havia sido ocupado pelas famílias desse acampamento como forma de luta pela desapropriação da fazenda Seringa. também participavam das formações e atividades organizadas na ocasião. E assim. pois a alimentação estava nos caminhões. As famílias ficaram das oito da manhã até as três e meia da tarde sem comunicação. Outro exemplo de escola que caminha com o povo Sem Terra foi a organizada no ano de 2009. A Escola Itinerante surge para atender a escolarização das crianças que vivem no acampamento. Nesse sentido. A escola está funcionando nesse local e as famílias aguardam o seu deslocamento para a fazenda Mato Queimado para tomarem posse da terra e assim constituírem o assentamento. ainda é momentâneo e eventual. e que poderiam em muito contribuir para um maior entendimento das crianças desta luta. se uniram e formaram o acampamento Dolcimar Brunetto. Por exemplo. Observamos que os temas trabalhados pela escola. Entretanto. Este acampamento se constitui a partir da desapropriação da Fazenda Mato Queimado. são temas de debate e estudo na escola. e no local não tinha área para comunicação.Alves Ribeiro. em Mafra. educadores. Com a mudança. Além de impedir a chegada na terra. os elementos que surgem no processo de luta dos acampamentos. nos problemas que a cerca. e as famílias excedentes do recém criado assentamento 25 de Março do município de Correia Pinto. pois não se tornou base e matéria prima permanente do trabalho escolar. a força armada do Estado e do latifúndio obrigou as famílias a descarregarem toda mudança vinda em caminhões em um posto de ferro velho perto do local. do município de Campo Erê. localizado no município de Santa Terezinha. a escola participa dessa luta na medida em que acompanha e não ignora o contexto em que se insere. como marchas e ocupações de prédios públicos. após entrarem em contato com as demais famílias. enquanto os caminhões foram encaminhados de volta ao município de origem.aliada à força paramilitar do latifúndio -. organizou-se o deslocamento de todos para uma área provisória. com seus Coleção Cadernos da Escola Itinerante 69 . sem água e comida. A existência da Escola Itinerante possibilitou que as famílias participassem da luta sem paralisar a escolarização das crianças que. Esta comunidade se formou por famílias vindas do acampamento São Roque. Ao chegarem perto do local da fazenda desapropriada. sendo impedidas de entrar na área que por lei era destinada a elas. algumas famílias do acampamento Nova Esperança. as famílias foram surpreendidas pela ação da Polícia Militar . em algumas situações. ocorre de forma isolada. a escola do acampamento Dom José Gomes. Às três e meia da tarde. gentilmente cedida pelo assentamento 25 de Maio. em conexão com os conhecimentos acumulados. Consideramos ainda que há muito por avançar para que a Escola Itinerante consiga refletir a luta pela terra. no município de Taió. Além de permitir que as famílias participem da luta. momentânea e sem estabelecer relação entre os acontecimentos do local com os determinantes mais gerais desta mesma luta. no acampamento Miguel Fortes da Silva. A escola retornou para seu local de origem no dia10 de setembro após publicação do decreto de desapropriação da área no Diário Oficial. crianças e escola se incorporaram às crianças do outro acampamento e às novas famílias que ingressavam na luta. muitas vezes. a cada novo acampamento. além de manterem-se na escola. observamos que este entranhamento da escola em sua realidade.

Dessa forma. Nas sucessivas audiências com a Secretaria de Educação em que expomos a situação das escolas. trabalhar o conhecimento já produzido e acumulado. geográficos. como desenvolver a formação das várias dimensões do ser humano. perde-se de vista o todo e se trabalha de forma fragmentada as questões do cotidiano e dos conteúdos. Nesse sentido. apresentado ao Conselho Estadual de Educação e aprovado por este como Experiência Pedagógica. como podemos. Neste sentido. as Gerências argumentam que é a Escola Base que recebe os recursos. entretanto. lona para cozinha e refeitório. Alagoas e Piauí . encaminhado pela Escola Base. seus representantes reconhecem a ausência de atendimento. Definiu-se de que os materiais seriam enviados às Regionais de Educação (GEREIS) onde estavam localizadas as escolas e que a contratação dos educadores obedeceria ao procedimento legal. compreendendo os porquês da luta. econômicos. merendeiros. Além disso. na prática. desdobramento de turmas e outros. os materiais e recursos repassados via Gerências Regionais são poucos e em algumas escolas não chegam. continuam sem respostas. estrutura física para as escolas. passados cinco anos. mas não encaminhar. o que se quer construir. os acordos e encaminhamentos não chegam a se efetivar. e pelo fornecimento de material didático e pedagógico. entre outros. dialogar. Nesse encontro percebeuse que o Estado apresentava algumas dificuldades do ponto de vista da operacionalização. se responsabiliza pela contratação dos educadores. pois estas escolas fazem parte da rede estadual de educação. envio de materiais didáticos. ou ainda. pois exige formação política e pedagógica. RELAÇÃO COM O ESTADO No projeto da criação da Escola Itinerante. Trabalhar a unidade entre os elementos do cotidiano da vida das crianças Sem Terra e os conteúdos escolares não é tarefa fácil. Paraná. coordenadores pedagógicos. Nesses casos. a partir das vivências do cotidiano. o não cumprimento dos acordos anteriores.aspectos históricos. por meio da Secretaria Estadual de Educação e das Gerencias Regionais de Educação. recursos para o deslocamento dos coordenadores pedagógicos e a merenda escolar. realizou-se audiência com a Secretaria Estadual de Educação e Inovação para discutir como ocorreria a contratação dos educadores. É necessário aprofundar esta reflexão no Setor de Educação e no conjunto do MST para avançar na construção de uma nova escola que forme sujeitos críticos capazes de compreender a situação vivida e intervir para transformá-la. Santa Catarina. coordenadores pedagógicos e merendeiros. 70 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. As alternativas que a Secretaria de Educação se propôs buscar para operacionalizar as questões pendentes. a função do Estado é de ajudar a garantir o funcionamento das Escolas Itinerantes. Logo após a aprovação da Escola Itinerante. As outras questões precisariam de maior tempo de discussão para buscar alternativas legais. formação dos educadores em parceria com o MST e Escola Base e a estruturação dessa última com telefone e internet. Além disso. que os acampamentos acontecem sem aviso e que as ações governamentais são baseadas em planejamento e orçamentos anteriores. a atuação do poder público estadual tem sido de conversar. é sua responsabilidade garantir os materiais para a estrutura física das escolas como lona especial para construção da sala de aula. contra quem se luta. está previsto que o Estado. qual a função da escola. bem como dos recursos para locomoção dos coordenadores pedagógicos. políticos.

contratandoos. Da mesma forma. em que está remuneração dos educadores se efetiva por meio de convênios e apresenta a vantagem de que. a Escola Itinerante mantém-se pela luta e organização do MST. o deslocamento dos coordenadores e outras questões já mencionadas anteriormente. que neste momento de pequenos acampamentos e de tentativa de sufocar a luta do MST empreendida pela articulação das forças conservadoras no país. a Escola Itinerante foi aprovada como experiência pedagógica. avaliamos. Em relação aos educadores. e vinculados à Escola Base. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 71 . que tais escolas se deslocam entre diferentes regiões do Estado e que tal dinâmica exige condições específicas para funcionar. este vínculo direto educador-Estado. o calendário escolar. porém com a mudança de Secretário de Educação e o fortalecimento de setores mais conservadores no governo do estado. sobrevivendo com o mínimo de amparo do então governo estadual.a indicação é de responsabilidade do MST nos acampamentos -. 5 Cabe aqui uma explicação a respeito da Descentralização. Esta forma de contratação também tem favorecido certo isolamento do trabalho do educador. por vezes. O Estado ignora que. se torna mais forte do que a relação educador-acampamento. Da parte do MST. os ciclos de formação. Com relação a isso não se enfrenta maiores problemas e os educadores têm recebido seus salários com regularidade. não temos conseguido pressionar o Estado para alterar este quadro que se perpetua desde a criação da Escola Itinerante. Avaliamos que num contexto político mais favorável. sob certos aspectos. De outro lado. estes são contratados como ACTs – Admitidos em Caráter Temporário . o poder público “assume” os educadores itinerantes. O Setor de Educação tem buscado criar uma dinâmica em que dois educadores assumam cada turma. Ao olharmos a prática educacional ligada à Educação do Campo em Santa Catarina. O Estado se esconde atrás da burocracia e da alegação de impedimentos legais para operacionalizar questões importantes que assegurem o funcionamento e a especificidade desta escola como o envio de materiais. questões específicas da Escola Itinerante precisam ser asseguradas. compreende-se que este abandono acontece com o conjunto das escolas que atendem os trabalhadores do campo. o que extrapola o modelo único que atua o sistema estadual de educação. prática de governo que prevê autonomia orçamentária e de planejamento as 30 secretarias regionais. a Escola Itinerante não se viabiliza de forma plena. desconsideram que efetivamente elas se encontram em diversos outros locais (que correspondem a outras Gerências5). Nestas secretarias funcionam as Gerências Regionais de Educação. Muitas são fechadas e algumas ainda persistem devido à luta e resistência dos camponeses. mantenedoras das Escolas Itinerantes dos acampamentos. Este quadro evidencia que a aprovação da experiência pedagógica Escolas Itinerantes em Acampamentos do MST de Santa Catarina não foi acompanhada das condições para a sua implementação. Percebemos ao longo destes anos que falta vontade política da parte deste governo em viabilizar as condições mínimas de funcionamento desta escola. Evidencia-se assim o caráter de classe (dominante) a quem o Estado serve e a quem também atende o atual governo estadual. mas continuam carecendo de todo tipo de apoio estatal.Percebe-se o descompromisso do Estado por meio da Secretaria Estadual de Educação para com as Escolas Itinerantes. Recebem salários diferenciados de acordo com a formação e conforme previsto no plano de carreira do magistério público estadual. Este procedimento é diferenciado de outros estados que possuem a Escola Itinerante. na medida em que um único professor assume a escola e não dois como seria desejável. O Estado atua na questão das matrículas realizadas e como todas as crianças da Itinerante se vinculam à Escola Base. em Santa Catarina.

Lutar para melhorar a estrutura da Escola Base e das Escolas Itinerantes. recursos para deslocamento dos coordenadores pedagógicos. Entretanto. Santa Catarina. assim como o fornecimento de material pedagógico e didático. o deslocamento de coordenadores. Fortalecer os coletivos de educação nos acampamentos e intensificar o acompanhamento pedagógico aos educadores como forma de avançarmos na construção de uma educação de qualidade. contratação de merendeiras. podemos perceber os imensos desafios que precisam ser superados e que devem ser assumidos conjuntamente pela Escola Itinerante. isso não está resolvido.Trabalhar na perspectiva de formar um grupo de educadores que possa atuar nas Escolas Itinerantes. a formação dos educadores. nenhuma criança das séries iniciais do ensino fundamental estude fora do acampamento. a mobilização das famílias para manter a escola nos acampamentos não pode ser uma forma de isentar o Estado de suas responsabilidades. ao mesmo tempo em que a estrutura do sistema estadual de educação torne-se menos enrijecida às demandas populares. Para isto tem-se a necessidade de incluir os educadores que ainda não tem formação pedagógica nos cursos de magistério ou de pedagogia. Paraná. entre outros. Ao mesmo tempo. As famílias acampadas devem se apropriar do projeto de educação e escola do MST. Alagoas e Piauí . formação e decisão. pelo Setor de Educação e pelo conjunto do MST com vistas a qualificação dessa Escola. em alguns casos. Manter a escola no acampamento é uma definição do MST de que. entre outros. apesar das dificuldades. Ao mesmo tempo. DESAFIOS QUE PERMANECEM Diante das reflexões feitas ao longo do texto. Enquanto o Estado não assume suas responsabilidades de assegurar a estrutura física da escola. é necessário buscar parcerias com as universidades públicas na criação de cursos de pedagogia para que possamos formar o máximo de educadores que possam atuar nas futuras Escolas Itinerantes e nas escolas dos assentamentos. conquistando o direito aos recursos materiais e de formação para que a escola tenha condições de desenvolver todas as potencialidades. sem improviso ou sucateamento. Estes devem ser espaços de efetivo estudo.entretanto. o 72 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. 2. evitando a excessiva rotatividade dos educadores nessas escolas. 3. Este é um dos caminhos para que a escola contribua no processo de formação humana de maneira ampla e colocá-la no rumo da construção de forma escolar articulada à luta pela transformação da sociedade.Fortalecer a organização e as instâncias dos acampamentos para potencializar a participação e a relação acampamento–Escola. Fazer com que o Estado cumpra com suas responsabilidades. com ajuda de algumas Secretarias Municipais de Educação. Precisamos ir além da garantia legal da escola. Sintetizamos estes desafios em alguns eixos: 1. as Escolas Itinerantes vêm sendo mantidas nos acampamentos com as condições que os próprios acampados e o conjunto do MST criam ou.

Estes são alguns dos desafios que apontamos e que merecem a reflexão nos acampamentos. que esteja pautada na formação das várias dimensões do ser humano.Avançar na discussão pedagógica sobre a importância da Escola Itinerante no MST na perspectiva da construção de uma nova escola ao mesmo tempo em que haja uma apropriação dos conhecimentos acumulados. Fazer o debate nos acampamentos e assentamentos sobre a continuidade das escolas do campo na transição de acampamento para assentamento. e onde predomina a solidariedade e a cooperação entre os seres humanos. conforme aponta a Pedagogia do Movimento. Organizar os acampamentos e o Setor de Educação para forçar a abrir espaços de diálogo junto ao Estado e a secretaria de educação para pautar mudanças no Sistema Estadual de Educação.acampamento deve assumir a responsabilidade de construir hortas. aproximando a escola da Pedagogia do MST e tornando orgânica a relação acampamento–MST e Escola. uma vez que as negociações com os municípios. dessa forma. demandam de lutas prolongadas e tempo para elaboração e aprovação dos projetos. na Escola Itinerante.Avançar no desenvolvimento de metodologias e instrumentos que possam auxiliar o educador para trabalhar com turmas multisseriadas. jardins. para que possamos avançar na construção de uma educação diferente. 5. 4. Estes desafios devem ser vistos como possibilidades de construirmos um processo educacional que ajude na mobilização dos acampamentos. ao trabalho. não raro. no Setor de Educação e no conjunto do MST. articulada à socialização e à produção dos conhecimentos úteis à emancipação dos trabalhadores. no fortalecimento das instâncias organizativas. com qualidade no processo pedagógico e na aprendizagem das crianças.Estudar para compreender qual a implicação pedagógica que traz a organização escolar em sistema série em relação aos ciclos de formação humana. Assim como construir ferramentas para garantir o aprendizado das crianças que chegam ao acampamento com defasagem escolar. assegurando à elas o direito de aprender. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 73 . na elevação do nível de consciência das famílias acampadas e na discussão de um novo projeto de agricultura que tenha suas bases na agroecologia. estes vistos desde sua inserção nos processos amplos de ensino e formação. espaços amplos e arejados. contribuirá na luta pela Reforma Agrária e na construção de um novo projeto de sociedade em que as pessoas terão livre acesso à terra. A educação. 7. evitando a evasão escolar comum entre as crianças que são retidas por várias vezes na mesma série. 6.

n. abril.1987 MORI. Projeto Político Pedagógico. 2006. no município de Correia Pinto no estado de Santa Catarina. 17ª. Veranópolis. 2008.º 175. 2003 . Roseli Salete. CALDART. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Escola Itinerante do MST: o Movimento da Escola na Educação do Campo. Diretrizes operacionais para a educação básica nas escolas do campo. Diário Oficial da União. BRASIL.REFERÊNCIAS BRASIL. 74 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. 2000. Pedagogia do Oprimido. Julho de 2006. Pedagogia do Movimento Sem Terra. Chapecó. Resolução CEB n. Paraná. O processo de constituição da Escola Itinerante Sepé Tiarajú do acampamento Pátria Livre. Chapecó. FREIRE. Cleber Menezes. UFSC: Florianópolis. ESCOLA ITINERANTE SANTA CATARINA. 10/09/2008 . Dissertação (Mestrado em Educação). Projeto de Criação da Escola Itinerante dos Acampamentos do Movimento Sem Terra de Santa Catarina. Rio de Janeiro: Paz e Terra. ____. ed. Monografia (Pedagogia da Terra). Paulo. Santa Catarina. PUHL. Alagoas e Piauí . Rio de Janeiro: Vozes. Raquel Inês.º 01/2002.

Coleção Cadernos da Escola Itinerante 75 .

Santa Catarina.76 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Alagoas e Piauí . Paraná.

Escola Itinerante em Alagoas Coleção Cadernos da Escola Itinerante 77 .

Paraná.78 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Santa Catarina. Alagoas e Piauí .

dos poderes públicos no trato da questão. Resgatar esta experiência. Compreender a sua formação sóciohistórica e econômica. Número bastante elevado em relação ao Brasil ou mesmo ao Nordeste.767. Alagoas figurava em segundo lugar entre os estados brasileiros que ofereciam as piores condições 1 2 Especialista em Educação de Jovens e Adultos e coordenadora pedagógica do MST de Alagoas. expostas a olhos nus. concentradora de terra.ESCOLA ITINERANTE NO ESTADO DE ALAGOAS Marcela Nunes da Cunha 1 Débora Nunes Lino da Silva 2 Abordar a trajetória de luta. Alagoas é o segundo menor espaço territorial do país: 27. São mais de um milhão de pessoas sem acesso ao processo de escolarização. com seus limites e uma série de desafios a serem enfrentados. E que estes direitos só são possíveis de serem conquistados por meio da organização e mobilização dos trabalhadores e trabalhadoras. desde a desconcentração da terra à garantia do direito básico e inegável do acesso à escola. com a exploração de grandes extensões de terra. Esse processo assumiu especificidades na configuração fundiária de Alagoas.9% dessa renda. No entanto. 2007). conferindo-lhe uma densidade demográfica de 109. A concentração de renda é um dos itens mais reveladores das condições de vida extremamente precárias da maioria da população de Alagoas. a monocultura da cana de açúcar voltada para exportação. São problemas mais graves. geradora de grande parte dos problemas sociais que parecem ter se hegemonizado.37 hab/km² (IBGE. O estado tem como base de sustentação de sua economia. 1998). se verifica que os problemas do estado de Alagoas não se limitam à sua alta densidade demográfica. de fato. e sem que haja responsabilização. de 1996. até hoje. reflexões e inquietações sobre a construção da Escola Itinerante em Alagoas. significa adentrar na história deste estado. com mais de 3 milhões de habitantes. constituídos dos mais pobres. Em relatório da Organização das Nações Unidas (ONU). permite apontar que as mudanças necessárias se fazem em diferentes frentes. ficavam com apenas 6. Socióloga e dirigente nacional do MST. que permite descobrir muitas contradições no decorrer deste processo e que influem no jeito de conceber e fazer educação no estado. de ordem econômica e social. onde os 10% mais ricos detinham 54% da renda total. ainda que embrionária.661 km2. A face mais perversa do estado de Alagoas se expressa na situação de extrema pobreza e miséria em que vive a maioria da sua população. caracterizado por sua rígida hierarquia social. enquanto 40%. social e política oligárquica persistente. levando um escritor alagoano a expressar que: “É muita gente para pouco espaço” (LIRA. renda e poder. com a conformação de uma estrutura econômica. debates. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 79 .

Este momento é o marco na trajetória histórica do MST em Alagoas. a luta e a organização como forma de garantir o direito à educação ao conjunto da sociedade. Assim.3%. enquanto o Distrito Federal apresentava o mais elevado IDH (0. O MST EM ALAGOAS: DA LUTA PELA TERRA À REIVINDICAÇÃO POR EDUCAÇÃO Em janeiro de 2005. em Maceió.. no contexto atual da vida no campo. de maneira pedagógica.. uma das estratégias fundamentais no processo de elevação da qualidade de vida das populações rurais. em meio à concentração de terra e de riquezas. na Fazenda Peba. a força dos latifundiários.).). 80 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. do judiciário e da mídia.677.456. fornecessem sementes para o plantio e cestas básicas para as famílias Adiante. Os indicadores de escolaridade da população alagoana é outro forte sintoma desse cenário de exclusão social. (. tendo à sua frente apenas o Estado do Maranhão. Paraná. Frente a isto. segundo pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) de 2005.5%. usineiros. com 0. com um IDH < 0. Alagoas e Piauí .677. realizado no Paraná. Em 1994. e sua taxa de mortalidade infantil é de 44. uma das mais elevadas do mundo. ocorreu a primeira ocupação de terra no estado. diminuindo para a atual taxa de 29. que: É inquestionável. Em contrapartida.. Em abril do mesmo ano. o Movimento ampliou seus espaços..3 por mil(Datasus. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Alagoas é de 0. a importância e a necessidade da escolarização dos camponeses (.806) do Brasil. 2002. ressalta SÁ. alto sertão alagoano. Alagoas ocupava o 2º lugar em analfabetismo entre a população de 7 a 14 anos. A partir desta ocupação. na medida em que potencializa e instrumentaliza.3%. a Pastoral Rural participou do I Congresso Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).4%. e não apenas na Reforma Agrária. em que se consolida a sua efetivação no estado. foi bastante 3 Das 26 Unidades da Federação pesquisadas pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). 2008). É este o cenário em que a Escola Itinerante cumpre importante tarefa no estado de Alagoas. por representar. Afinal. era de 17.de vida para sua população3. com uma taxa de 46. para que o MST se expandisse e se fortalecesse no âmbito nacional era necessário ocupar esta região. segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). este índice caiu para 33. Alagoas ocupava a segunda pior posição. crédito e assistência técnica. no município de Delmiro Gouveia. quando a média brasileira. a Secretaria de Agricultura do Estado.. portanto. a luta pela Reforma Agrária tomou outro caráter em Alagoas. foi para outras regiões do estado e contou com a presença de diversos militantes vindos do sul do país com a tarefa de formar e fortalecer o MST no Nordeste. Foram organizadas ações para exigir providências do governo para a questão fundiária. Em 2000. foi ocupada com o objetivo de garantir que o governo e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) desapropriassem as fazendas Peba e Lameirão. em 26 de janeiro de 1987. como a desapropriação de terra. Santa Catarina.

para discutir os rumos dos assentamentos. o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera). não iam às escolas e passavam a serem contabilizados nos indicadores de analfabetismo ou evasão escolar nos municípios e no estado. desenvolve o Projeto de Educação e Capacitação de Jovens e Adultos nas Áreas da Reforma Agrária em Alagoas (Projeral). pela Reforma Agrária e por mudanças estruturais na sociedade. E estas lutas foram se intensificando: Ainda em 1991. infra-estrutura básica. À ela. As ameaças de grupos de extermínio e dos pistoleiros eram cotidianas e a luta para consolidar o MST no estado era estratégica para a fixação do Movimento na Região. fazendas ou usinas vizinhas. na maioria das vezes. os acampados e assentados tinham que estudar nos povoados. ou irem para as cidades. Esta era uma situação que incomodava o conjunto do Movimento.42).intensa na tentativa de impedir essa consolidação. (SILVA. de forma que se fez necessário ocupar as prefeituras municipais para cobrar estas reivindicações do poder local dos municípios (. foi criado pelo Governo Federal. acatando propostas e reivindicações de movimentos. É um novo momento da luta pela terra. dentre outras reivindicações necessitadas pelas famílias. no Assentamento Lameirão. O país. Apesar da repressão. em 1987. O projeto teve como principais ações a alfabetização de jovens e adultos assentados e a complementação da escolarização. educação. devido às novas demandas.. Em âmbito nacional. merenda escolar. acontece o 1º Encontro Regional do MST. em junho. quando havia. eram comuns as prisões e torturas dos militantes. pelos assentados do Peba e do Lameirão. Nos acampamentos. Logo. não foram resolvidos. 2008:p. É nesse contexto que se inicia a luta por escola. Peba e Vitória da Conquista. por meio de uma parceria com a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e o Incra. entidades sociais e universidades brasileiras comprometidos com as lutas do campo. pela própria forma como os gestores conduziam a gestão pública. A conquista dos assentamentos. e nos assentamentos. para reivindicar professores. os problemas das famílias com relação à saúde. em nível fundamental. muitas vezes. o MST no estado. água para beber.27). as reivindicações vão se dando em nível das prefeituras. que já compreendia que a luta pela terra era insuficiente para se avançar e construir os grandes objetivos do MST: a luta pela terra. frente aos índices de analfabetismo alarmantes. praticamente não existiam escolas assistidas pelos municípios. Porém. Até meados da década de 90. é feita a primeira ocupação na prefeitura. se ressentia do autoritarismo e dos resquícios da ditadura militar. sem se ter resultados concretos e conquistas. se encontrava em estado precário. que tivessem escolas. E no mesmo ano. 2008:p. exigiu mudanças de concepção e reivindicativas do Movimento. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 81 . bem como pela forte violência com que tratavam quem reivindicava ou os questionava. nesta época. Uma vez que “mesmo com a conquista da terra.. somava-se as demandas das família assentadas. posto médico. de outros jovens e adultos também trabalhadores rurais que assumiram a função de monitores.)” (SILVA. no ano de 1998. o Movimento conquista alguns assentamentos: Lameirão. Assim. no ano de 1998. em Delmiro Gouveia. Com a preocupação da necessidade de avançar na formação e escolarização dos trabalhadores.

a Escola Itinerante entra na agenda política e na pauta de reivindicações do MST em Alagoas. Nesse processo. colocava em risco seu propósito de constituir-se como uma política de educação para o campo. Porém. tendo grande força a reivindicação por escolas. em 20 assentamentos. dá-se início a discussão da Escola Itinerante. Apud BARRETO (1983): O papel das políticas sociais no Nordeste. Alagoas e Piauí . Com o término do Projeral e frente aos problemas enfrentados em sua execução. desde as questões orçamentárias. com atraso na liberação de recursos para a realização das metas estabelecidas. Em 2002.224 jovens e adultos. Nesse momento. ESCOLA ITINERANTE PAULO FREIRE DOS PRIMEIROS PASSOS AOS DIAS ATUAIS EM ALAGOAS As primeiras negociações para o reconhecimento pelo poder público da Escola Itinerante teve 82 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. tem mais o objetivo de diminuir as tensões sociais geradas pela pobreza no campo. Já havia também. tal como propugnam as teses que fundamentam os textos básicos que delineiam a atual política de ensino no país. algumas poucas escolas foram construídas em aglomerações de assentamentos e assistidas pelo município. do que propriamente de enfrentar e resolver de modo satisfatório a questão do analfabetismo e do baixo nível de escolarização da região. o Pronera retoma suas atividades em Alagoas e é marcado pelo aprofundamento dos problemas tidos anteriormente. mais elementos na compreensão do Movimento quanto à necessidade e importância da educação para a Reforma Agrária. e em particular na área rural em que se situam os programas de educação rural.O projeto foi executado entre agosto de 1998 e dezembro de 1999. que teria como meta dar continuidade à escolarização dos trabalhadores jovens e adultos. 2002. a partir de experiências que o Movimento tinha em outros estados. já existia um grande número de famílias assentadas e se intensificava a luta por estruturas para os assentamentos. principalmente no Rio Grande do Sul. Conforme SÁ. oito municípios. Afinal. Nesse momento. os despejos eram frequentes e as crianças acampadas estavam fora da escola. Paraná. sem nenhuma preocupação ou trato com a especificidade da Educação do Campo. envolvendo um total de 1. ou de serem instrumentos de um modelo alternativo de desenvolvimento. Santa Catarina. até as precárias condições de infra-estrutura nos assentamentos. a partir dos acúmulos obtidos com as atividades relatadas. distribuídos em 55 salas de aula. Os rumos que o Programa tomava. abre-se um vácuo até a aprovação do segundo Projeto – o Projeral II. Então. não apenas como uma pauta de reivindicação de direitos. mas com elemento importante para sua própria organicidade. o que possibilita também o fortalecimento do Setor de Educação. inclusive como uma condição necessária para a permanência de toda a família morando nas comunidades. indo somente até o ano de 2004. indo da estrada de acesso à falta de cadeiras em salas de aula. Esse processo contou com uma série de entraves.

Antes mesmo de instituída. quando. formado na primeira turma de Pedagogia da Terra. foi assumido o compromisso de iniciar a construção de um projeto para atender tal reivindicação. “que o sonho começa a se concretizar”. um grupo de educadores. Em abril de 2005. Ronaldo Lessa. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 83 . composta por diversos departamentos da SEEE/ AL. foi criado. No último dia do encontro dos Sem Terrinha. foi inscrito no Programa de Formação de Educadores do MEC (Proformação). o Fórum Estadual Permanente da Educação do Campo. a partir do mês de julho. de forma que atendesse as especificidades da realidade vivenciada pelas crianças acampadas. Na oportunidade. Assim. Maceió. o Setor de Educação do MST intensifica os estudos e debates para a construção e apresentação do projeto da Escola Itinerante. que passa a se debruçar sobre a temática. pelo governador Ronaldo Lessa. Comissão Pastoral da Terra (CPT6). Neste mesmo período. Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST) e o Movimento das Mulheres Camponesas (MMC). com base na história e nas experiências de outros estados. em 10 de outubro de 2004. a Comissão já realizava reuniões para debater o projeto pedagógico da Escola Itinerante.início no mês de abril de 2002. com uma lista de reivindicações. segundo Gilberto Barden4. Foi com a instituição da Comissão Intersetorial que o debate da Escola Itinerante deixou de ser uma reivindicação apenas do MST. como o Fórum Estadual de Educação. O evento forneceu subsídios para a reunião com o 4 Pedagogo. por meio da Secretaria Estadual de Educação e Esporte – SEEE/AL. em uma audiência com o então governador do estado. vinculados ao Pronera. trazendo as experiências das Escolas Itinerantes do Rio Grande do Sul e Paraná. 6 O Setor de Educação do MST foi representado por Gilberto Barden e a CPT pela Irmã Ligia. Um dos pontos de pauta era a criação da Escola Itinerante para os acampamentos. Movimento Terra e Liberdade (MTL). e assumida pelos outros movimentos e pela própria Secretaria de Educação. Isabela Camini7 ajudou no debate sobre o que já havia sido construído no Projeto de Escola Itinerante de Alagoas. é instituída a Comissão Intersetorial para implementação do projeto de Criação da Escola Itinerante na rede pública de ensino do Estado de Alagoas. Mas é no mês de outubro. Aqui. para a capital do estado. Em maio de 2005. 7 Membro do Coletivo Nacional de Educação do MST. no intuito de percorrer os caminhos necessários para a efetivação das Escolas Itinerantes nos âmbitos da compreensão da Proposta Política Pedagógica e na esfera legal do estado. tendo a inauguração do atual palácio Republica dos Palmares em março de 2006. em Arapiraca. já se dava o processo de consolidação do Setor de Educação no Movimento Sem Terra em Alagoas. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST. em que as lideranças do MST começaram a pautar novamente a necessidade de se criar a Escola Itinerante para os acampamentos. que começou a criar corpo a cada reunião realizada. o Conselho Estadual de Educação e a Universidade Federal de Alagoas. foi realizado um seminário para iniciar a interlocução. O tema sobre a Itinerante ganha destaque em 2004. quando é realizado o 5º Encontro Estadual dos Sem Terrinha. Assim. as crianças marcharam rumo ao Palácio do Governo Marechal Floriano Peixoto5 (atual República dos Palmares). além de dialogar com outros setores. 5 O prédio do palácio Marechal Floriano Peixoto foi transformado em museu. nos dias 18 e 19. Coordenadorias Regionais de Educação (CRE´s). A audiência encerrou a Marcha Estadual. percorrendo mais de 130 quilômetros. que saiu do Acampamento Dandara.

Lagoa da Canoa. educadores das Escolas Itinerantes e representantes dos movimentos sociais envolvidos. No mês seguinte. a escola foi aprovada. Foi necessária. após a inserção no censo escolar. com pouco mais de uma dezena de famílias. Eram três turmas do MST. A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. ambos com três turmas multisseriadas. No momento. Esta foi a única escola que funcionou independente de qualquer convênio firmado com o Estado. que aconteceu em 16 de março de 2006. três educadoras e o coordenador pedagógico iriam se deslocar para aquele acampamento para dar início à organização da Escola Itinerante. deste mesmo ano. duas da CPT. a cerca de 130 quilômetros da capital. situado no município de Arapiraca. AS EXPERIÊNCIAS DAS ESCOLAS ITINERANTES EM ALAGOAS A ESCOLA ITINERANTE NO MUNICÍPIO DE ARAPIRACA O sítio Sementeira. Após muitas reuniões e debates. Na oportunidade. este grupo de educadores se desloca para o acampamento Dandara. Ao final de uma semana. a ocupação já contava com 420 famílias. dando lugar ao atual acampamento Dandara. Mesmo assim. iniciam-se as aulas. Em julho. as crianças ficaram sem merenda neste primeiro ano. então. unidade abandonada da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Alagoas – Epeal. envolvendo quatro movimentos de luta pela terra. agreste alagoano. houve uma reunião. A comunidade definiu que aquela era a Escola Itinerante Paulo Freire. em setembro de 2005. Ali fora feito uma conversa com a comunidade sobre as expectativas da mesma sobre a Escola Itinerante. em um curto espaço de tempo. coordenadores pedagógicos. da autorização do Conselho Estadual de Educação. Alagoas e Piauí . Paraná. e mais outras duas turmas de jovens e adultos. Atualmente. que passa a ser acordado somente no segundo trimestre de 2006. continuam no projeto o MST e a CPT. no local definido para o funcionamento da primeira Escola Itinerante de Alagoas: o Acampamento Dandara8. Vila 8 84 O acampamento situa-se no agreste alagoano. O governo disponibilizou material didático. que ocorreu na SEEE/AL. alguns materiais permanentes e o pagamento dos educadores e coordenadores. uma discussão com a brigada e com o acampamento para a contribuição na merenda. atendendo crianças da primeira etapa do Ensino Fundamental. por meio de um Termo técnico de cooperação entre a SEEE/AL e uma entidade parceira da Reforma Agrária. por meio do parecer 142/2005. Maceió. com um grupo de educadores do MST. junho de 2005. já que a merenda é ofertada pela Escola-Base. Alguns alimentos da cesta foram repassados e os pais e acampados contribuíam. firmou-se o compromisso de que.governo. Santa Catarina. Comissão intersetorial. foi ocupado em 02 de fevereiro de 2002. na forma de um projeto piloto. dando início à implementação da Escola Itinerante. com a presença dos diretores das escolas base. oriundas das cidades de Arapiraca. após a publicação no Diário Oficial do Estado. duas do MTL e uma do MLST. que começou com o cadastramento de todas as crianças do acampamento e um debate sobre o nome da escola.

As três cursavam o magistério pelo Pronera e. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 85 . em meio à cidade de Arapiraca.Canaã. o acampamento servia como um espaço de formação e concentração de famílias conhecidas no trabalho de base. não tendo outra para substituí-la. por meio do ensino. Desde o pensar tecnologias alternativas a uma nova matriz produtiva. sob a orientação do coordenador pedagógico do MST. Uma estrutura pouco adequada para o seu funcionamento diante do abandono que a mesma se encontrava desde a ocupação. em 2006. desenvolviam suas aulas conforme o planejamento coletivo e aprendizagens do curso. por meio de reuniões periódicas. recém-formada em magistério. motivando. em especial a fundamental. foram abertas três turmas da Escola Itinerante do MST. juntamente com a educadora Quitéria. A educadora iniciou suas aulas em março de 2008. Após algumas dificuldades enfrentadas pelo educador. O planejamento acontecia sempre junto com a educadora Quitéria. Posteriormente. Assim. de maneira oficial. como também das formações pedagógicas da escola base. com a qualificação técnica voltada para a agricultura camponesa. No início. que possa contribuir no desenvolvimento da produção nos assentamentos da Reforma Agrária do estado de Alagoas. com um calendário específico. Foi neste acampamento que. uma turma foi fechada. desde a realização de místicas ao desenvolvimento de projetos que levava a comunidade a participar da escola. em uma turma multisseriada. Sandro Roque. agora assistida pelo educador Alexandre. Situado em uma área urbana. Maria Claudevânia. define pela constituição de uma Escola Agroecológica da Reforma Agrária9 que proporcionasse a escolarização. que já ensinavam as crianças do acampamento desde 2005. com pouco mais de 30 hectares de terra. Com mais de sete anos de ocupação. para conquistar a motivação dos pais e seus educandos. no município de Girau do Ponciano. Capim e demais sítios vizinhos. e seus alunos foram transferidos para as outras duas turmas. avaliações e novos compromissos coletivos da coordenação do Movimento e das famílias acampadas. assume a turma. Foram matriculados 18 educandos do 1° ao 5° ano. E também realizar cursos não formais que permitam a abordagem 9 Este é um projeto que esta sendo discutido e construído pelo MST junto ao governo do estado e outras entidades parceiras. uma das turmas é transferida para o acampamento Mandacaru. pesquisa e extensão. Permanecendo ali. uma vez que já tinha claro que não seria para o assentamento de famílias. uma nova educadora. com a educadora Quitéria. e com as famílias descontentes com o trabalho que era desenvolvido pelo mesmo. que dispunha de seis salas com piso vermelho e pouca iluminação. além de dois banheiros. antes mesmo de sua autorização pelo Conselho Estadual de Educação. Com a mudança de residência de uma educadora. o MST concebeu melhor a finalidade desta área de pouco mais de 30 hectares. Quitéria Paixão e Vera Lúcia.o acompanhamento foi mais intenso. As educadoras da Escola Itinerante Paulo Freire eram: Áurea Cristina. Com muitas reuniões. que lecionava para 16 crianças. A Escola funcionava na “Casa Grande”. comprometendo e compartilhando permanentemente as dificuldades e necessidades da Escola com as famílias. com a saída de algumas famílias do acampamento Dandara. O planejamento continuava sendo construído mensalmente. uma espécie de escritório da empresa. . foi necessária uma nova discussão para o não fechamento da turma. apenas uma turma.

Mas está inativada. Suas aulas são dinâmicas e interativas. leitura. as quais desejam continuar na Escola Itinerante e que. A ESCOLA ITINERANTE NO MUNICÍPIO DE GIRAU DO PONCIANO Com a saída das famílias do acampamento Dandara. que por meio de mobilizações conseguiu a construção do prédio. o acampamento deixa de receber novas famílias. Atualmente. no assentamento Milton Santos. situado entre as montanhas do município. As crianças que ainda permaneceram no acampamento foram matriculadas em uma escola de tempo integral numa comunidade vizinha. distante 300 metros. mudando-se para o novo acampamento. por exemplo. Santa Catarina.teórica com a prática. cultura e formação política e pedagógica. mas também seus direitos e deveres. As reuniões e a mobilização no acampamento foram retomadas para as matrículas das crianças e pela construção da escola. As crianças. infelizmente. Alagoas e Piauí . a princípio. Reivindicam seus direitos em cada visita da SEEE. o local fica isolado. passaram a ser realizadas ali. O seu funcionamento. A educadora Quitéria acompanha a turma. que é de difícil acesso. muitas terão que ser transferidas para outra escola a fim de continuarem os estudos. Desta forma. O número de famílias que permaneceu na área foi diminuindo. 86 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Quitéria é militante do MST e está envolvida nas atividades do Setor de Educação desde 1998. pois a prefeitura do município se nega a assumir a responsabilidade de funcionamento da creche. a turma encontra-se com 18 crianças. chegando a ficar apenas 20 e não tendo crianças suficientes para continuar com a Escola Itinerante. que se consideram Sem Terrinha. A ESCOLA ITINERANTE NO MUNICÍPIO DE ATALAIA A Escola Itinerante no município de Atalaia tem início em abril de 2008. no município de Craibas. Em tempo de chuva. estaduais e regionais. Sua turma é multisseriada e teve início com 30 educandos. se dá no prédio da Creche Dorcelina Folador10. no município de Girau do Ponciano. A turma é organizada por Núcleos de Base (NB) e. As aulas tiveram início em julho de 2009. as acompanha para o acampamento Mandacaru. no Povoado Carasco. Fez o curso de magistério pelo Pronera. aprendem a ler e a escrever. na região do agreste alagoano. pois é uma estrutura que ainda estava sem funcionamento e localizava-se em meio aos dois acampamentos que seriam 10 A creche Dorcelina Folador foi uma conquista do Movimento. Paraná. foi encerrada em abril de 2009. em 2007. visto que as atividades de formação. A sala foi transferida para o acampamento Uruçu. A educadora desenvolve a mística. sob a orientação do educador João Clécio. inaugurada em 2005. a Escola Itinerante Paulo Freire. semanalmente. as crianças iniciam as aulas com a mística pensada por cada NB.

atendidos: Jaelson Melquíades11 e São José. Além das crianças destes acampamentos, a turma recebeu
crianças dos assentamentos próximos, tendo uma turma multisseriada com 25 educandos.
A Secretaria Estadual de Educação exige que os educadores tenham Ensino Médio, com
habilitação no magistério. Foi encontrado, com muitas dificuldades, no acampamento São José, um
educador que se enquadrava nas condições da Secretaria, porém pelo pouco tempo de militância, ele não
tinha conhecimento e domínio da Pedagogia do MST, necessitando de um acompanhamento mais próximo
por parte do Setor de Educação.
Dada a emissão de posse do acampamento Jaelson, e o deslocamento das famílias para os
lotes, a Escola Itinerante passou a funcionar na antiga casa grande do acampamento São José, atendendo
agora apenas as crianças desse acampamento. A casa tem vários cômodos, iluminação precária, banheiros
não equipados e, parte dela, se encontra destelhada. Mesmo assim, foi o lugar escolhido pela comunidade,
por ser grande e protegido da chuva e dos ventos.
Com o atraso na liberação das parcelas do Termo de Cooperação, firmado com o governo do
estado, e frente à necessidade de manter-se, o educador não pode continuar e desistiu de suas atividades.
Seguiu-se a dificuldade de encontrar algum educador militante com a escolaridade exigida pela SEEE/AL.
Para que a escola não fechasse, a coordenação do MST define pela indicação de uma educadora apenas
com o Ensino Médio normal. Apesar dos esforços, a educadora não conseguiu desenvolver os tempos
educativos, além de ter tido muitas dificuldades na relação com a turma.
No entanto, mesmo sem a efetiva firmação do Termo, por mais de oito meses sem renovação, e
as turmas ficando prejudicadas, as aulas não pararam. A maior dificuldade dos educadores e da coordenação
para manter o funcionamento das turmas era a falta de materiais didáticos e outros.
Atualmente, a escola funciona com a educadora Sandra, que se demonstra disposta a
desenvolver práticas dinâmicas de leitura e formação.. Desenvolve atividades com textos do MST e
projetos concomitantes junto ao acampamento, no entanto, sente dificuldades com mística e formação
considerando ser esta a sua primeira experiência em sala de aula.
A Escola Itinerante, aqui, atende apenas a primeira etapa do Ensino Fundamental. Com isso,
as crianças menores, de seis anos, ficam sem estudar e as que já passaram desta fase estudam na Escola
Municipal do Povoado Ouricuri . O acompanhamento realizado pela coordenadora do Movimento acontece
uma vez por semana, contribuindo no planejamento junto com a educadora da turma.
Apesar das dificuldades, as aulas são interativas e desenvolvidas conforme planejamento. A
educadora consegue a participação da comunidade para resolução de problemas e união com a escola.

O PAPEL DOS ENVOLVIDOS NO PROCESSO
A ESCOLA BASE

11
Dirigente Estadual da Brigada Carlos Marighella, assassinado em 29 de novembro de 2005, a mando do fazendeiro
Pedro Batista.
Coleção Cadernos da Escola Itinerante

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As Escolas Itinerantes são vinculadas à Escola-Base, que são selecionadas pela Coordenadoria
Regional de Ensino. Para cada escola de acampamento é escolhida uma escola estadual mais próxima para
arquivar toda a documentação. Sendo assim, temos duas Escolas-Base: Dr. João Carlos, em Atalaia e Dr.
José Tavares, em Arapiraca.
A Escola-Base de Atalaia fica num pequeno povoado que enfrenta muitos obstáculos, pois é
uma escola pequena, com uma péssima infra-estrutura. Não tem coordenação pedagógica, nem reuniões de
planejamento e acompanhamento. O diretor está cursando a graduação e enfrentando diversas dificuldades
para a realização de atividades de orientação de educadores. Apesar da disponibilidade do diretor em ajudar
e apoiar a EI, não há um bom desenvolvimento da tarefa, pois ele não consegue sozinho, atender tantas
demandas. Neste ano, a merenda escolar está sendo ofertada pela Escola-Base, pois as crianças foram
cadastradas no censo. Os materiais didáticos e materiais de limpeza, até o momento, não foram ofertados.
Segundo o diretor a verba para tal ainda não foi depositada.
A escola José Tavares está situada na zona urbana do município de Arapiraca. Possui mais
condições estruturais, tem diretor e coordenador pedagógico. A escola foi a primeira a desenvolver
atividades com a Escola Itinerante, sendo bastante exigente na questão documental e dando um apoio
pedagógico intenso. Mesmo com a troca de diretor, a disponibilidade dos gestores está sendo muito
favorável ao desenvolvimento da escola.

MST
O Movimento no estado está bem comprometido com a EI, tanto que, para a escola não
parar de funcionar, tem viabilizado formas dos educadores os educadores e coordenadores se manterem,
já que o novo convênio não foi aprovado. Nas mobilizações, o projeto sempre está em pauta. Apesar
das dificuldades com pessoas para acompanhar exclusivamente as Escolas Itinerantes, o Movimento está
ajudando no acompanhamento, nas reuniões e discussões dentro da SEEE e nos acampamentos.
A Direção Estadual, vendo a necessidade e a importância da escola para o estado, está
organizando a abertura de mais três turmas, para atender cerca de 20 educandos, cada uma. No entanto,
impossibilitado de sustentar as salas, pressiona a SEEE para a aprovação do atual projeto, que está parado
no setor jurídico.

SEEE
A Escola Itinerante está vinculada ao Geduc, sendo de responsabilidade do gerente de educação
do campo, José Raildo. Atualmente, o convênio está encerrado e o novo está em tramitação na SEEE, entre
idas para o setor jurídico e voltas para o Geduc. O setor jurídico da secretaria sempre tem um empecilho
para que o projeto volte. Por enquanto, a EI está legalmente funcionando, mas custeada pelo Movimento e
atendida burocraticamente pela Escola-Base.
Apesar do gerente de educação do campo lutar internamente para o avanço da educação,
principalmente com os movimentos sociais, nota-se a grande dificuldade do estado em atender as

88

A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Alagoas e Piauí

especificidades da EI. Com a troca de secretários, os desafios aumentam, pois a estrutura da secretaria é
modificada. Hoje, não existe uma atenção especial voltada para a educação do campo, sendo que até esta
gerência específica foi extinta.

Coleção Cadernos da Escola Itinerante

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Anuário Estatístico de Saúde do Brasil.R. SILVA. 90 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Maria Reneude. 2008. Dissertação (Mestrado em Educação).net/ibge/estatistica/populacao/censo2007/universo.php?tipo=31&uf=27> LIRA. Realidade. . da. SÁ. J.A. Da luta pela terra no Brasil: o MST em Alagoas. 2002.ibge. Maceió: Edufal. 1998. Paraná. Censo demográfico 2007. Rio de Janeiro – Julho de 2008. . Santa Catarina. Conhecimento letrado e escolarização: a visão de camponeses assentados da reforma agrária em Alagoas. Disponível em: http://www. Curso Teorias Sociais e Produção do Conhecimento – UFRJ/ENFF. Fernando José de.REFERÊNCIAS DATASUS. desafios e possibilidades: pensando em saídas para a crise de Alagoas. IBGE. Alagoas e Piauí .

Coleção Cadernos da Escola Itinerante 91 .

Alagoas e Piauí . Paraná.92 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Santa Catarina.

Escola Itinerante no Piauí Coleção Cadernos da Escola Itinerante 93 .

Alagoas e Piauí . Paraná.94 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Santa Catarina.

Por fim. É graduando em Licenciatura em Letras pela Universidade Federal do Pará. entendendo a educação como instrumento para fazer uma ponte de formação no que concerne aos objetivos dos quais emana a luta. construindo a Pedagogia do Movimento do Sem Terra. na segunda parte. são expostos alguns desafios e perspectivas que ao longo do processo foram surgindo diante desta experiência. na 12ª Gerência Regional de Educação. políticas e culturais profundas. pelos sertanejos. algodão e café). a Itinerante trabalha práticas educativas de ensino-aprendizagem ligadas ao social. a primeira parte deste trabalho será apontar um breve histórico da luta pela terra na região e. A RESISTÊNCIA CAMPONESA NO PIAUÍ A experiência em desenvolvimento no Piauí tem um olhar para a região do nordeste brasileiro. liderança política que se articula com o poder público para. Na terceira parte do texto. expresso no trabalho escravo e materializado na monocultura (cana de açúcar. tendo como referência pedagógica a construção curricular dos temas geradores extraído da própria realidade cotidiana do acampamento. nos processos efetivos das relações sociais. Para isso. todo e qualquer chefe político. 1 Militante do Setor de Educação do MST e responsável pelo acompanhamento político das Escolas Itinerantes do estado do Piauí. arranjar favores. iniciadas e continuadas ao longo de sua história.ESCOLA ITINERANTE NO PIAUÍ Adilson de Apiaim1 INTRODUÇÃO Este texto busca sistematizar a experiência da Escola Itinerante do estado do Piauí nos acampamentos do Movimento Sem Terra. como marcas da construção do conhecimento. na última parte. se busca refletir sobre as experiências das Escolas Itinerantes nos três acampamentos da região sul do estado do Piauí.Vocábulo cuja origem remonta aos falsos coronéis da extinta guarda nacional brasileira. conta como referência pedagógica a realidade social das famílias sem-terra. se apresentará o método de construção do Projeto Político Pedagógico da Escola Itinerante. de forma paternalista. A figura do coronel visualisa-se no fazendeiro. 1975). enxada e voto”. Desse modo. Passou-se a ser chamado também de coronel. Para isso. no período entre os anos de 2003 a 2008. no latifúndio e no coronelismo2 . Coleção Cadernos da Escola Itinerante 95 . cuja origem visa forjar um processo educativo popular da luta pela terra. os desafios e avanços. é analisada a formação dos educadores. bem como o modo de elaboração do planejamento escolar e a prática educativa em sala de aula. A proposta se consolida na luta do povo Sem Terra. em que considera as dificuldades. Isto é. benefícios para a população rural. Tendo a escola o compromisso de contribuir no processo de luta da Reforma Agrária e pela Educação do Campo. a todo e qualquer potentado. que é marcada por contradições e disparidades socioeconômicas. será apontado o processo de produção da proposta da Escola Itinerante como prática social e cultural do povo Sem Terra. na conquista da Reforma Agrária e a transformação social. numa relação da patronagem e dependência que caracteriza o espaço rural brasileiro (Victor Nunes Leal. “Coronelismo. 2 Coronelismo . Adiante.

à luta pela Escola Itinerante no estado do Piauí. em ocupações e acampamentos. as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR). que respeitasse a realidade social de seus sujeitos como ponto de partida no processo de formação e educação do povo acampado. Todavia. se expressa nas ações dos movimentos sociais do campo mediante a mobilização dos Quilombolas. no município de São João do Piauí. 120 famílias derrubaram as primeiras cercas de um latifúndio. Portanto. Por intermédio das ocupações de terra denuncia a concentração do latifúndio. Paraná. Proposta esta que está de acordo com a realidade sócio-cultural desta população e busca transformar a sua realidade social. No estado do Piauí. Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). Tal projeto tomou como base as experiências de mesma natureza de outros estados brasileiros e a Legislação do Sistema Público de Ensino. como a Comissão Pastoral da Terra (CPT). território em que perdura ainda a falta de acesso às políticas públicas para os camponeses. vem contribuindo com a conquista de vários assentamentos pelo interior do país. Canudos. Participam também dessa luta diversas entidades sociais. O MST. em especial. a história da luta pela terra e a Reforma Agrária no estado do Piauí se constrói junto a essas organizações do campo. Uma escola que pudesse atender às especificidades do campo e. mais especificamente na região sul do Estado do Piauí. historicamente. então. no final de 2003. Atualmente. Em 1989. a 34 quilômetros da sede do município. a grilagem e a posse de terras públicas ilegais. o debate em torno da educação no estado toma consistência com o início das discussões no Setor de Educação do MST. A HISTÓRIA DA LUTA PELA ESCOLA ITINERANTE NO PIAUÍ O projeto pedagógico da Escola Itinerante foi apresentado à Secretaria de Educação e Cultura (Seduc) do estado do Piauí como alternativa de educação aos acampamentos da Reforma Agrária organizados pelo MST. os oprimidos constituíram formas de organização e resistência coletiva. Santa Catarina. Simultaneamente à luta pela terra. Dando início. que elabora um Projeto Político Pedagógico de educação voltado ao atendimento dos camponeses em áreas de acampamentos da Reforma Agrária. na fazenda Marrecas. Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB). se iniciava o debate pelo direito à educação.Dado o contexto de desigualdade social e as condições de baixa qualidade de vida da maioria da população. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e outros. a luta dos movimentos sociais do campo pela realização da Reforma Agrária no país e. a primeira ocupação de terra ocorreu na Região do Semi-Árido. território geográfico conhecido hoje em dia como Região da Serra da Capivara. o MST nos últimos 25 anos vem se consolidando como principal movimento de resistência dos camponeses. recuperada da experiência de luta popular do passado histórico: Quilombos. como as Diretrizes Operacionais para a Educação 96 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Alagoas e Piauí . Dessa maneira. Ligas Camponesas e a Guerra do Jenipapo no Piauí. o nordeste é também um lugar que.

que possibilita entre outras coisas. Afinal. em Teresina. vinculando-se ao tempo e ao espaço dos educandos como sujeitos. A cada dia ela se cria e recria entre educandos. sociedade. Resistência Camponesa e 17 de Abril. junto com a comunidade. Os autos do processo protocolado sob o nº 306/2008. significa a síntese de uma luta que não tem tréguas. e o acampamento tt.Básica das Escolas do Campo. Nesses acampamentos. encontram-se instruídos satisfatoriamente para os fins a que se destinam. haviam cinco acampamentos no Estado: 1º de Maio. em especial nas áreas de Reforma Agrária. Notadamente. entretanto. Desta forma. cada um deles. desde a origem do MST e no decorrer dos seus 20 anos de história no estado. no município de Luzilândia. A Escola Itinerante nasce da necessidade do acesso à escola. inicia-se a partir de um conjunto de elaborações coletivas e nos debates nos quais a comunidade acampada se insere. localizada em São João do Piauí. educadores e comunidade na prática social e. tendo a aprovação como experiência educacional reconhecida pelo Estado somente no dia 04 de agosto de 2008. Em 1989. no Município de José de Freitas. mundo e. Alguns dos pontos principais desta caminhada serão delineados neste trabalho e. resultado da mobilização do MST e dos demais movimentos sociais do campo. Na elaboração da proposta pedagógica compreendemos que é possível construir uma escola vinculada à vida política. avanços e retrocessos. até a apreciação e aprovação pelo Conselho Estadual de Educação. por isso. nem sempre era atendida pelos gestores municipais e a possibilidade iminente de mudança espacial do 3 Este parecer tem por objeto o Ofício SUPEN nº 51/08 no qual a Superintendente de Ensino da Secretaria Estadual de Educação e Cultura (Seduc) solicita autorização deste Conselho para a implementação do Projeto Escola Itinerante a ser assumido institucionalmente pela Escola Paulo Freire. isto é. as escolas nos acampamentos eram vinculadas administrativamente às prefeituras municipais. objetivos e valores que orientam a ação pedagógica no cotidiano da escola. foi apresentada a primeira proposta à Secretaria Estadual de Educação. o ano em que o MST começa a ser implantado no Piauí. Neste período. que regulariza a oferta de escolarização aos acampados. deve ser refletida. não basta ter a Escola Itinerante regularizada. Neste ano. Esta supervisão tem o papel de acompanhar a educação do campo. ainda que não de direito. após diligências promovidas pela relatoria. este projeto político-pedagógico não nasce fora da realidade de seu povo. com aproximadamente quatrocentos educandos em período escolar nas séries iniciais. especialmente das crianças em áreas de acampamentos. há uma ‘escola de fato’. com uma intensiva luta pela legalização. a educação ao povo Sem Terra em situação de itinerância.º 306/20083. no assentamento Marrecas. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 97 . A Itinerante representa um novo ideário de escola. social e cultural das famílias em movimento. Esse percurso de elaboração da proposta de escola durou cinco anos. o Conselho Estadual de Educação do estado do Piauí aprovou a Escola Itinerante por meio do Processo CEE/PI. mas com um trabalho pedagógico realizado pela própria militância do Movimento. n. Francisca Trindade. busca alterar o contexto social que se insere. Ou seja. entre 2003 e 2008. juntamente com os responsáveis pela Supervisão de Educação do Campo (SEC) um departamento recentemente criado. A demanda por escola. nas organizações populares toda a população participa e assume a responsabilidade de construir os princípios. Esse momento de construção da Escola Itinerante representou uma longa história de idas e vindas. em 2003.

reflexão e mobilização para pressionar a Secretaria de Educação Estadual a cumprir seu compromisso com a população acampada. a luta pela escola não obteve resultado prático. Alagoas e Piauí . para funcionar como suporte institucional do Projeto Escola Itinerante nos acampamentos dos Sem Terra. PROCESSO CEE/PI Nº: 306/2008. aprovando a Escola Itinerante como experiência pedagógica. 2008. Assim. Então. Paraná. c) realizar encontros de capacitação e formação permanente dos educadores. foi elaborado a proposta pedagógica da Escola Itinerante. Assim. foi um período de maturação.acampamento para outro município impedia a permanência das crianças nas escolas. muitas vezes. APROVADO: 04/08/2008. Paralelamente. acima descrita. Na avaliação do Movimento. elaboração teórica. localizada em São João do Piauí. b) contratar o quadro pessoal para estas escolas. Santa Catarina. o MST se contrapôs à forma de educar do município e elaborou uma nova forma de perceber e realizar a educação no acampamento. o que acarretava a subordinação da atividade pedagógica aos interesses políticos dos gestores locais. Deste modo. acarretou diversos prejuízos para o avanço da proposta de educação do MST. em 2003. Diogo José Ayrimoraes Soares. Estado do Piauí. Antonio José Castelo Branco Medeiros e do Conselho de Educação do Estado. No início de 2007. esta deixava de ser uma responsabilidade do seu gestor e passa a ser do prefeito no município em que se encontra a nova sede do acampamento. Opina favoravelmente pela autorização da Escola Paulo Freire da rede estadual de ensino. Estas situações fizeram da educação escolar nos acampamentos o “calcanhar de Aquiles” dos acampados. d) garantir infra-estrutura da escola. em nome de Diogo José Ayrimoraes Soares4. 98 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. geralmente. tem início a consolidação dessa proposta. o que levou a uma reivindicação política do Movimento por uma escola pública estadual em áreas de acampamento da Reforma Agrária. Porém. gerando divergências e desgastes políticos na luta pela terra. materiais pedagógico. sob a coordenação da Secretaria Municipal de Educação. as aulas aconteciam de forma localizada nos acampamentos e. concreto e legal. como projetos de experiências-piloto durante dois anos. didático e permanente. na região sul do estado. formamos duas turmas de Magistério pelo Programa Nacional de Educação da Reforma Agrária (Pronera). INTERESSADO: Secretaria Estadual de Educação e Cultura. Nesse período. ASSUNTO: Autorização de curso em regime experimental. no período de 2003 a 2007. a demanda da Escola Itinerante foi apresentada ao governo do Piauí. somando 84 educadores para atuar nas séries iniciais e na escolarização de jovens e adultos. Isto acabava por tirar a autonomia do Movimento de realizar o método de ensino já construído em sua pedagogia. Entre os anos de 1989 e 2003. a dimensão educativa do Movimento está presente no cotidiano do próprio movimento social e na dinâmica de organização e mobilidade do acampamento. para o cumprimento da infra-estrutura e consolidação das metas a seguir: a) organizar três Escolas Itinerantes no estado. Conselho Estadual de Educação. em 2008. Esse documento 4 Parecer CEE/PI nº 142/2008. o Movimento iniciava a formação e capacitação dos educadores juntamente com a Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da Agricultura Familiar (Fetraf) e o Incra. RELATOR: Cons. Ou seja. de forma a atender a demanda de educadores em áreas de assentamento. por meio da Escola Estadual de Ensino Médio Paulo Freire. com o objetivo de fazer valer a obrigatoriedade e responsabilidade da Secretaria Estadual de Educação. À medida que a escola muda de município. a relação com os municípios. Somente em 2008 saiu o parecer do Secretário de Educação e Cultura do Estado do Piauí.

08 de outubro. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 99 . A estratégia era intensificar a organização do MST na Serra da Capivara e lutar contra a política assistencialista de assentamento do governo do estado. Assim. em especial em garantir: a remuneração e capacitação dos educadores e a liberação de materiais permanentes e didáticos para a demanda apresentada. formando assim o acampamento Ernesto Che Guevara. os educandos dos três acampamentos foram matriculados na Escola Paulo Freire. se comprometeu com a efetivação da Escola Itinerante. e também três trabalhadores para serviços gerais. A demanda realizada cumpre o intuito de exigir o compromisso do Estado na contratação de 10 educadores para compor o quadro docente. Maria Marinalva de Araújo. localizado a 11 quilômetros do município de Nova Santa Rita. em audiência com representantes do MST. Fruto desta luta. A seguir. A área possui 1. Compondo. apresentamos os primeiros e importantes passos desta experiência em curso no estado do Piauí. Portanto. como garantia de seus direitos constitucionais. em outubro de 2005.reconhece e aprova a realização das primeiras experiências educacionais nos acampamentos da regional sul.foi realizada no mesmo dia. Pedro Laurentino e Nova Santa Rita. estudar e aprofundar a prática pedagógica. no município de São João do Piauí. sendo três educadores do acampamento e sete educadores de assentamentos. Outra ocupação da fazenda Pajeú . Houve também a proposta de liberação de um coordenador pedagógico para acompanhar a experiência.latifúndio que “pertencia” ao senhor Dandau . desta forma. Fora previsto que a cada dois meses de trabalho nas escolas. ocupam um lugar central na constituição e legitimação da luta pela terra e Reforma Agrária e.118 hectares e está localizada no município de 5 Coordenadora Pedagógica da Escola Paulo Freire e das três Escolas Itinerantes dos acampamentos que compõem a 12ª GRE. mas o governo não autorizou. Mesmo assim. foram realizadas três ocupações de latifúndios improdutivos na região de São João do Piauí. na luta por melhores condições de vida. O referido Secretário de Educação do Estado. os educadores fariam uma atividade de formação. desde o início da construção do MST. com aproximadamente duzentas famílias de agricultores sem-terra. na ocupação da fazenda São José. via Crédito Fundiário. com 40 horas de duração. a Escola Paulo Freire permaneceu sobrecarregada com uma coordenadora pedagógica para acompanhar o Ensino Médio no assentamento e também as três Escolas Itinerantes nos três acampamentos5. o projeto da Escola Itinerante é uma construção social e pedagógica que contempla as pessoas dos acampamentos do MST que lutam pela posse da terra. no começo de 2008. ESCOLAS ITINERANTES: UMA EXPERIÊNCIA EM PROCESSO NOS ACAMPAMENTOS As famílias. o acampamento Herdeiros de Che. e tem como objetivo a conquista de uma educação digna. reuniu 150 famílias das regiões próximas como São Pedro do Piauí. para refletir. o quadro pessoal de 13 trabalhadores com contrato temporário e remuneração de 20 horas cada. Com o objetivo de massificar a luta no estado. acompanhada pela 12ª Gerência Regional de Ensino (GRE). acima de tudo.

Se alojaram debaixo de árvores e ficaram totalmente sujeitas às intempéries. Todas as discussões e encaminhamentos referentes à luta e à organização do acampamento passa por esses grupos de famílias. Ressaltamos que o MST. ao se convenceram da necessidade de instituir uma escola nos respectivos acampamentos. deliberaram que a escola iria funcionar em um barraco desocupado no acampamento. com todas essas dificuldades. realizada por esse conjunto de mobilizações de camponeses sem-terra no estado. AS ESCOLAS ITINERANTES A conquista da escola dos acampamentos se configura como um processo coletivo de organização e participação da comunidade acampada na vida da escola. e formou o acampamento Barras6. antes de iniciar o processo. ou seja. até chegar à quantidade necessária para levantar a escola. para manter-se nessa luta e resistir. as famílias resistem acampadas e é ali que se realiza a experiência pedagógica das Escolas Itinerantes no Piauí. como 6 Desta ocupação não temos ainda o levantamento dos dados da fazenda. pois a inoperância do INCRA não permitiu contabilizar a área depois de quase quatro anos de ocupação. mas com um viés artesanal que tem a mesma função do tijolo mássico na construção de casas de material. A lição extraída durante a fabricação dos adobes e a reforma da escola fortaleceu os valores defendidos pelo Movimento: o companheirismo e a solidariedade. Alagoas e Piauí . iniciaram os mutirões para a construção das mesmas. aconteceu no dia 03 de novembro do mesmo ano. Santa Catarina. A comunidade Nova Santa Rita reuniu o acampamento Herdeiro de Che e decidiu em coletivo a distribuição de tarefas para cada Núcleo de Base na construção da escola. Paraná. Assim. e cada um possui um coordenador e uma coordenadora e mais uma secretaria. a 46 quilômetros do município de São João do Piauí. além de muita salinização em um dos acampamentos. Cada companheiro. tinha uma quantidade de adobes a ser fabricado. 7 Núcleo de família ou Núcleo de Base é um termo usado pelo MST para organizar o acampamento. 8 Material de barro utilizado na fabricação do tijolo. Nos últimos três anos de ocupação as famílias enfrentaram várias dificuldades. desde sua origem. A cada semana um núcleo fabricava uma quantidade de adobes e. procura educar e escolarizar os filhos da terra pra compreenderem melhor a realidade que enfrentam. pois a falta de agilidade do INCRA não permitiu contabilizar a área depois de quase quatro anos de ocupação. A disponibilidade e a força de vontade entre os acampados em alterar a realidade coletivamente fortalecem a luta pela transformação social. A terceira ocupação. Para isso. cada núcleo de família ficou responsável por uma parte da reforma da escola7. sem condições básicas de higiene. ele seria reformado. A primeira necessidade dos camponeses é a conquista da terra e. em seguida. a 70 quilômetros da sede Regional de Educação. o Núcleo de Base é a célula organizativa do Movimento Sem Terra. foi preciso também a compreensão do papel da educação. outro núcleo com o mesmo espaço. Uma das atividades foi comum a todos: a fabricação de adobes8. dentro de seu núcleo.João Costa do Piauí. As comunidades dos acampamentos. Contudo. tempo e as mesmas ferramentas dava continuidade na fabricação. A água é de difícil acesso até os dias atuais. no município de Ribeira do Piauí. ocupação não temos ainda o levantamento dos dados da fazenda. No entanto. 100 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Esse grupo varia de 10 a 15 famílias.

para levar o material didático até as Escolas Itinerantes. ao afirmar que “só coletivamente seremos capazes de resistir a todas essas dificuldades”. Essa proposição vem da necessidade de obstruir a concentração da propriedade. com o objetivo de solicitar materiais permanentes. foi necessário um bom diálogo com todas as famílias acampadas para reverter este problema e garantir a matrícula dos educandos no sistema estadual de educação. Estrategicamente. O pouco que se conseguiu da Seduc foi distribuído pela Escola-Base Paulo Freire. no assentamento Marrecas. Nesse sentido. Adiante. os pais que tinham seus filhos matriculados nas escolas do município ficaram receosos de perder o ano letivo e inicialmente resistiram em transferir seus filhos para as escolas do estado recém instituídas. A reforma foi realizada e deu-se início às aulas. Outra dificuldade enfrentada foi a falta de material didático. Diante deste limite. que acontece toda segunda-feira no município de São João do Piauí. as comunidades com mais tempo disponível começaram a construir a escola com uma estrutura mais sólida. as comunidades escolares precisavam de carteiras. O que mais encanta são os aprendizados que vêm dos próprios sujeitos da organização. as famílias do acampamento temiam perder o benefício do Programa Bolsa Família. Com o tempo. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 101 . já que um dos pré-requisitos para receber tal contribuição é manter as crianças na escola. uma dispensa para a cozinha. moradia e acesso à educação. fez uso deste transporte. Assim. onde cada membro da comunidade assume uma responsabilidade na consolidação do referido espaço formativo. gás para o funcionamento das aulas de EJA no turno da noite e fogões para fazer a merenda escolar. para a consolidação deste ambiente educativo. a Escola Itinerante se constituiu uma conquista de toda comunidade acampada. a direção da Escola-Base Paulo Freire. o que simboliza grande avanço entre os processos formais de escolarização e as relações sociais de convivência. a comunidade do acampamento construiu uma escola em todas as áreas de ocupações. após a aprovação do projeto das Escolas Itinerantes em 2008. e não havia como comprovar que as crianças estavam matriculadas e também sua frequência escolar. foram feitas as transferências. a dificuldade inicial se ateve à matrícula das crianças nas Escolas Itinerantes. utilizado na feira dos pequenos agricultores. Atingido o mínimo necessário para começar as aulas. da riqueza e do conhecimento. A distribuição deste material foi realizada pelos caminhões de “pau de arara”. do Projeto de Escolarização e de outras entidades. o próprio Movimento constrói conhecimento e a escola. Além dessa estrutura.ressaltou o educador João Batista Gonçalves. Devido à carência desses materiais. Como a Secretaria de Educação não havia lançado no sistema a matrícula dos educandos. formou-se uma comissão para negociar e participar de audiências com secretários de educação dos municípios. que retorna com os produtores às suas comunidades. o telhado. as paredes. quadro de giz. trabalho. Por conseguinte. É uma obra construída coletivamente. Os acervos que as escolas possuíam eram doações do Banco do Brasil. e o piso foram reformados. na busca de empregos. O nome Itinerante agora tem significado próprio para o povo. ou seja. Foram criados núcleos para discutir a organicidade e funcionamento da escola nas três áreas de acampamento. o que não acarretou nenhum prejuízo à população pelo contrário. as portas foram colocadas o reboco feito e as madeiras substituídas.

Compreende-se que educação do campo pressupõe o jeito pelo qual o ser humano se enraíza. Santa Catarina. os saberes empíricos (a roça. b) a dificuldade de acesso à assistência médica. o papel e a importância da prática pedagógica emancipatória na vida dos camponeses. OS EDUCADORES E A SUA FORMAÇÃO A proposta de formação dos educadores na Escola Itinerante reflete sobre o significado. sobretudo o papel social que ela representa na alfabetização e escolarização do sujeito Sem Terra. Trabalhar a realidade de um currículo que une o conhecimento humano. a partir dessa relação. social e cultural. A formação e educação se lançam no desafio de construir um processo de qualificação 102 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. político. Na formação e escolarização da Escola Itinerante. é uma das tarefas primordiais dos educadores. conhecimentos necessários para intervir na realidade com mais qualidade. c) a falta de incentivo na produção. Alagoas e Piauí . Paraná. todo esse processo de lutas e conquistas não foi o suficiente para garantir a permanência das famílias no acampamento. o manuseio das ferramentas de trabalho. principalmente. produz existência na terra e constrói.Entretanto. O número de educandos nas Escolas Itinerantes vem gradativamente diminuindo devido. Nesse sentido. atualmente temos o seguinte cenário nas Escolas Itinerantes no estado do Piauí: Portanto. Hoje é possível dizer que ela é reconhecida pelo sistema público de ensino em virtude do empenho de toda a comunidade acampada. a convivência com os animais e a natureza) são elementos necessários para a construção das aulas e das reais necessidades dos camponeses como protagonistas da história. Todos esses fatores contribuem para a desmobilização das famílias acampadas e se constituem em obstáculos para os acampados. e) a lentidão na implementação do projeto de assentamento do Crédito Fundiário na região. que intensifica sua ação em torno da luta pela educação. d) a inexistência de uma infra-estrutura para a construção das barracas. esses obstáculos interpostos a todo o momento demonstram que a consolidação desta escola vem do próprio esforço do MST. aos seguintes fatores: a) o atraso no repasse da cesta básica para a alimentação das famílias.

junto às instituições competentes. o responsável pela coordenação pedagógica da Escola Itinerante. 12 educadores da Escola Itinerante. nós temos a função de ajudar na prática do dia a dia do acampamento. Ed. estudar e elaborar o Projeto Político Pedagógico das Escolas Itinerantes em cada acampamento. Como na escola. dirigentes do Setor de Educação do MST. Ou seja. O educador assume uma tarefa fundamental na formação do conjunto da organização do acampamento e da escola: Para além dos planos de aula. ele assume a identidade e o compromisso social de modificar o que está estabelecido pelo sistema de ensino tradicional. (Samara Pereira de Oliveira. A capacitação se ateve ao compromisso de formar educadores com visão crítica. Assim. sendo filhos de pais assentados. nós somos meio tudo. Entre 24 e 27 de abril de 2008. São Paulo. o Movimento compreende que não basta conquistar a escola. 1891-1937. ajudar a organizar o acampamento e a resolver os problemas da vida que vai surgindo. O trabalho de formação foi realizado na perspectiva que a educação precisa emancipar o sujeito. além de se inserirem no acampamento e conquistar a educação como espaço de transformação social. pesquisador e estudante. para que cada educador assuma uma prática coerente e que aspire concepções coesas com o ideário de classe que pertence. construir um processo de capacitação inicial com o objetivo de formar os educadores para atuar nas áreas de Educação Infantil. e em tudo que é possível ajudar. Constata-se que o pertencimento do educador como integrante da comunidade é essencial para o trabalho coletivo de ensino e aprendizagem dos educandos. formar educandos e educadores críticos e reflexivos. Como força tarefa. Nesse primeiro momento. realizou-se o I Encontro de Capacitação e Formação de Educadores das Escolas Itinerantes. 2008) No entanto. 10 Ver Antônio Gramsci. que assumem o compromisso com a Pedagogia do Movimento. nas reuniões. somos um educador/militante. Os intelectuais. voltada para realidade cotidiana da escola e comunidade. Ensino Fundamental (séries iniciais) e Educação de Jovens e Adultos. segundo. Uma lição a extrair desse processo. 2005. 4ª ed. Nesta perspectiva. Os educadores são filhos de famílias assentadas da Reforma Agrária. Supervisão de Educação do Campo da Seduc. Volume 2. no município de São João do Piauí. tendo em vista que a educação reproduz ideologia. Cadernos do Cárcere. Coordenação do Centro de Formação da Escola Agrotécnica Francisca Trindade. educador. é a responsabilidade que os educadores assumem no acampamento. Assim está sendo a construção da Escola Itinerante no estado. os educadores envolvidos na construção de uma nova pedagogia para e pelos camponeses se sentem parte integrante no processo formativo. Ver Pistrak. é preciso também. os educadores se reúnem para dialogar e 9 Corpo docente da Escola-Base Paulo Freire. trabalho coletivo. formar seus educadores 10. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 103 . Educadora da Itinerante. os educadores sistematizam as próprias práticas pedagógicas e constroem conhecimento em respeito à dinâmica social de luta da comunidade acampada. com a presença de vários segmentos envolvidos na experiência . A cada dois meses de atividades em sala de aula. Formar pessoas realmente ativas na pedagogia social 9. Fundamentos da Escola do Trabalho. não tecnicista e mecânica. Jornalismo. Expressão Popular.contínua e coletiva. de residirem junto às famílias acampadas. assembleias. dois desafios tornaram-se fundamentais. O principio educativo. Primeiro. nos mutirões. da secretaria e do planejamento. com uma visão dialética da realidade.

limites e desafios e. ou na própria sede da Escola-Base Paulo Freire. Dessa maneira. baseado nos temas geradores. GRAMSCI. e elaboram intervenções por meio da capacitação. há uma proposta clara de educação no campo nas Escolas Itinerantes. Santa Catarina. em diálogo com os conhecimentos científicos sistematizados pela humanidade. 33). Nesse espaço. Paraná. PLANEJAMENTO: UMA NOVA FORMA DE VER A ESCOLA E CONSTRUIR O SABER A educação no Movimento Sem Terra diz respeito à dimensão cultural presente no cotidiano da vida social de seus sujeitos. Alagoas e Piauí . todos ajudam a elaborar cada prática em sala de aula. é problematizado o fazer cotidiano de cada educador e. construção e transformação do conteúdo em ação. seguida dos estudos de alguns textos de pensadores que compactuam com a proposta destacada11. logo. Essas atividades são construídas na Escola Agrotécnica Francisca Trindade . o espírito da realidade atual. o currículo tem a função de qualificar o ser humano na produção da existência na terra. na maneira pela qual se organiza. no qual todos se organizam para discutir a prática pedagógica realizada nas escolas. junto com todos os responsáveis políticos da organização do projeto e da Supervisão de Educação do Campo. entendendo que o próprio Movimento. Depois. e o planejamento. conforme orientações da educação popular. adaptando-se a ela e reorganizando-a ativamente” (Pistrak. dos limites e desafios da escola. já demonstra na experiência histórica seu processo de educação.. os educadores se reúnem semanalmente ou mensalmente para discutir. MAKARENKO. A convicção construída na proposta da Escola Itinerante é assumir o compromisso e realizar uma nova forma de educar. a coordenação pedagógica da Escola-Base Paulo Freire e representantes da Instituição Estadual de Educação. Para consolidar a educação. realizam o diagnóstico das dificuldades. a escola deve educar as crianças de acordo com as concepções. FREIRE. é construído um planejamento escolar. Os elementos elaborados na proposta de capacitação e formação propõem refletir a materialidade da metodologia de ensino na escola.EAFT. Tendo a realidade como base concreta de estudo. Essa dinâmica de formação foi realizada em quatro tempos de cinco dias cada. construindo conhecimentos necessários para intervir com qualidade e dignidade. em que: “. A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. traçar as 11 104 Ver estudos dos materiais de formação nos escritos de CALDART. debater e identificar os avanços. área do conhecimento ou segmento escolar. 2005 p.planejar sobre todos os aspectos que envolvem a prática docente no acampamento. A cada encontro são quarenta horas de capacitação (com interstício de dois meses). um dos responsáveis pelo Setor de Educação.. Isto é. realidade. que tem como princípio a realidade e a metodologia de ensino. na discussão. foi preciso partir da execução de um planejamento escolar que responda as necessidades em que se encontra: que plano de aula é possível construir na prática pedagógica? Que conteúdos são socialmente úteis à vida desses educandos? Que currículo possibilita à ação próxima a realidade? Se o currículo é movimento. devem respeitar a dinamicidade que é construída na coletividade. por fim. PISTRAK. A elaboração e ação do plano de aula. Procura valorizar as múltiplas relações humanas que a comunidade acampada ou assentada se insere. Antes de realizar o encontro.

na oração e na animação dos cânticos. (Percina dos Santos. os educadores cuidaram do almoço comunitário e todas as famílias se responsabilizam pela confraternização do acampamento. Dentre os desafios do Movimento na escolarização em acampamentos estão a mobilização da comunidade em torno da luta pela Reforma Agrária. envolveu toda a comunidade acampada com as seguintes atividades: recolher o lixo. Precisamos então trabalhar na escola um plano de aula onde as pessoas se sintam responsáveis: sentem. Em seguida.diretrizes para as próximas práticas em sala de aula. por meio do trabalho interdisciplinar. portanto. organizar as famílias para o trabalho coletivo e cooperado. foi debatida a trajetória da vida e os valores de Ernesto Che Guevara. Ao término da pesquisa de campo na. transformando a realidade em conteúdo socialmente útil à vida de cada sujeito que dela faz parte. dos pedidos de benção. Todavia. vividas nos acampamentos. que. inventar e reinventar a própria vida no acampamento. 2009). a comunidade assistiu a um filme. Esse processo é significativo para as reflexões sobre o currículo e na elaboração dos planos de aula . Por outro lado. A lição extraída é de que é possível a comunidade fazer parte do processo de ensino e aprendizagem. mudar. e com a comunidade pelos educadores. aos poucos. Segundo uma das educadoras: “Entender a realidade não é um ato de passar a mão para alguns problemas que vão surgindo na vida do acampamento. desenhar e pintar. No dia seguinte. em uma dinâmica de respeito à cultura como fonte de produção do conhecimento. varrer o pátio dos encontros e assembleias. conhecem. a escola promoveu uma celebração religiosa em que as crianças participaram da leitura de trechos da Bíblia. o currículo tem função de construir o conhecimento com os educandos a partir da realidade. A discussão foi mediada e problematizada pelos educadores da escola. É através do interesse de entender essa realidade que vamos. no acampamento de Barras. Já no período da noite. pensam e fazem parte do que lhes são de interesse”. é extraída uma questão problema e. e pressionar o Estado para que viabilize as condições materiais para o funcionamento da escola e a formação permanente dos educadores. a aula na Escola Itinerante é mais que ler e escrever. reiterar a mística em torno da educação da sua base. outra prática pedagógica é planejada e executada a partir do social: a fabricação de medicamentos caseiros. busca refletir as relações sociais e a vida no acampamento. Ou seja. fazer o embelezamento e a ornamentação dos espaços e podar árvores. Os educandos Coleção Cadernos da Escola Itinerante 105 . Na parte da tarde. se realizam momentos de socialização com análise e debate dos dados levantados. Na Escola Itinerante no Piauí. se elabora o eixo temático. ao promover um mutirão de limpeza. a comunidade se reuniu para estudar os princípios éticos que norteiam o acampamento e o MST. seguido de um churrasco comunitário. A partir da sistematização dos dados coletados na pesquisa. para propor os conteúdos que serão abordados na comunidade e na escola. O exemplo de uma prática social na formação e escolarização ocorreu na comunidade Herdeiros de Che. e colocar a situação de nossa prática no acampamento para dentro da sala de aula. brincar. Acampamento Herdeiros de Che. É criar e recriar o mundo. Na Escola Itinerante Odair Carvalho de Sousa. por meio de orientação. É entender da vida dos alunos que se dá com a nossa relação que temos com a prática social. que dá nome ao acampamento. calcular.

a Itinerante foi pensada e projetada no MST pelo conjunto da comunidade acampada. A pesquisa de campo é uma importante atividade prática. A Escola Itinerante propõe realizar ações novas. Desta forma. mas a partir do método dialético que relaciona teoria e prática. DESAFIOS E PERSPECTIVAS Desde sua origem. E o confronto com a realidade aponta para os limites da escola e do acampamento. se a prática social não mostrar a diferença. contamos com a participação do representante da Associação de Produtores de Remédio Caseiros do Assentamento Marrecas (Grecam). Santa Catarina. o meio ambiente de modo geral. não mecanicistas. se a vida cotidiana não mudar. 2008). Não podemos ser ingênuos de imaginar que nesta experiência não existem limites e desafios. numa relação dialógica entre educando. Para melhor entendimento da função de cada planta. Afinal. nunca trabalhamos dessa forma antes. a escola. enfim. O primeiro desafio das Escolas Itinerantes do estado do Piauí é intensificar a relação de 106 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Não se transforma o mundo. os rios. Educadora da Escola Itinerante. precisamos explicar e construir as aulas a partir da vida dos trabalhadores. por que. expressa por uma educadora: A Itinerante é um projeto novo. pois a função de cada planta virou conteúdo de sistematização do conhecimento dos educandos. isto é. Enfim. (Djanete Oliveira Araújo. para realizar uma oficina de composição dessas plantas. o currículo presente no planejamento ratifica um diálogo com a estrutura prevista na filosofia da Escola Itinerante. educador e mundo social. Mas desenvolver as atividades como tem que ser feitas é muito difícil. fazendo com que a vida da comunidade se insira no contexto escolar. as pessoas se educam e se humanizam exercitando escolhas sobre o processo na vida em que estão inseridos. o espaço geográfico. para melhor compreender as relações sociais. tendo a necessidade de se refletir e avançar no processo de luta pela Reforma Agrária. a educação e o cotidiano. é uma experiência muito boa. Isso constrói uma aprendizagem com mais facilidade e mais rápido. é uma nova forma de educar trabalhando a vida dos educandos. e a escola que fomos formados é tradicional. Os educandos produziram alguns medicamentos que ficaram disponíveis para o conjunto da comunidade acampada. agora sabemos que é possível com a prática. e se puserem a agir. e refletem sobre sua relação e da comunidade com a natureza.pesquisam os tipos de plantas medicinais existentes no território do acampamento e as receitas caseiras para cada tipo de enfermidade e prevenção. Alagoas e Piauí . a vegetação. caso contrário. mudam se os sujeitos determinarem que eles precisem mudar. tudo ficará à mercê dessa sociedade a qual estamos submetidos. Todo o processo da pesquisa teve continuidade em sala de aula. na qual os educandos observam o solo. A educação não pode ser revolucionária se não conseguir projetar a revolução cotidiana na comunidade. Paraná. Este é um exemplo concreto de que é possível a realidade virar conteúdo de alfabetização e escolarização. Portanto. todos organizam os recursos recolhidos na escola e explicam o que descobriram. Após a coleta de sementes e das plantas medicinais.

Afinal. a mística e a difusão dos princípios e valores éticos da organização. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 107 . ajudar na organização política do acampamento e na organicidade do Movimento. em princípio. mas que contemple as áreas do conhecimento sem fragmentar os conteúdos. a Escola Itinerante surge da luta pela terra. nela se consolida e se forja novos aprendizados. no intuito de responder a seguinte questão: como a escola pode ajudar a avançar nas relações sociais e na vida da comunidade? Desse modo. esteja integrada à participação da comunidade.proximidade entre a escola e a comunidade. Isso consiste em avançar em uma formação não seriada. O quarto desafio proposto é trabalhar a interdisciplinaridade. E assim. A formação permanente dos educadores é o terceiro desafio para as Escolas Itinerantes. a elaboração dos planos de aula e dos conteúdos. O desafio seguinte consiste em criar o coletivo de educadores para que o processo de ensinoaprendizagem. a organização da escola. a escola deve continuar sendo pensada e planejada pelo conjunto das famílias acampadas. Para isso. os acampados podem refletir sobre as condições materiais da vossa realidade e elaborar estratégias de ações coletivas que busquem um aprendizado contínuo que conteste e altere a vida material do acampamento. O MST deve buscar alternativas para avançar na qualificação dos educadores para que eles possam. a Escola Itinerante se institui como unidade de resistência e símbolo da luta dos Sem Terra no acampamento. a comunidade acampada tem que se manter mobilizada. Para isso. alheios às condições materiais dos acampados. O último desafio pretende fortalecer as Escolas Itinerantes como experiência pedagógica do MST. por conseguinte. contribuir para o avanço da escolaridade no acampamento e. reforçando os vínculos da solidariedade e do trabalho coletivo como instrumentos de luta pela Reforma Agrária.

PISTRAK. 2. Pedagogia do oprimido. Petrópolis. Antônio. ed. 6v. Rio de Janeiro: Paz e Terra. São Paulo: Alfa-Ômega. 1999-2002. Alagoas e Piauí .REFERÊNCIAS CALDART. Fundamentos da Escola do Trabalho. 2ª ed. Paraná. Pedagogia do Movimento Sem Terra: escola é mais do que escola. GRAMSCI. Pedagogia da Autonomia. Anton. São Paulo. Paulo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.M. Cadernos do Cárcere. São Paulo: Expressão Popular. MAKARENKO.M. LEAL. Roseli Salete. enxada e voto. Coronelismo. Santa Catarina. 1975. 2002. 1987. 108 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. ed. M. São Paulo: Paz e Terra. Victor Nunes. 17ª. Vida e Obra. 2005. Expressão Popular. Paulo. FREIRE. Ed. FREIRE. 4ª ed. RJ: Vozes 2000. 1983.

Coleção Cadernos da Escola Itinerante 109 .

110 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Paraná. Santa Catarina. Alagoas e Piauí .

em torno do século XVII a. portanto. um papel a desempenhar. Entretanto. um sentido social. em vista de melhor conhecermos este espaço do qual muito se fala. este texto se divide em três momentos. considerando-se sua condição de escola em um movimento social que luta por transformação. Seus primeiros sinais podem ser encontrados no Egito Antigo.C. segundo Manacorda (2000). terá o sentido de afirmar que a instituição escolar. busca identificar um sentido (direção) à Escola Itinerante. cujo antagonismo de interesses gera oposições no papel atribuído à escola. São diferenças e antagonismos que decorrem de distintas formas de entendimento do mundo e especialmente da luta de classes. bem como as características que ela foi assumindo ao longo do desenvolvimento histórico. o que há em comum nas diferentes sociedades. tem uma especificidade. trouxemos algumas reflexões sobre a proposta de escola formulada no MST. tendo como pano de fundo a luta do Movimento e as possibilidades da escola. e portanto também a Escola Itinerante. Este texto. considerando-se a atualidade da luta de classes. No primeiro. eram diferentes da escola que conhecemos hoje. O papel ou o sentido social da escola não tem sido consensual entre os filósofos e historiadores da educação e nem tem sido iguais os papéis atribuídos à escola na atualidade. indicamos alguns elementos em torno da constituição histórica da escola. na terceira parte. Para tanto. PARTE II ESCOLA ITINERANTE: DO ÁRDUO E DO BELO Sandra Luciana Dalmagro1 INTRODUÇÃO O objetivo deste texto é refletir sobre o papel da Escola Itinerante do MST. este “embrião” de escola. da qual o MST é uma parte importante. 1 Do Setor de Educação do MST e doutoranda em Educação pela UFSC.. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 111 . Mesmo a forma de denominála variava em diferentes épocas e regiões. UM POUCO DE TEORIA E HISTÓRIA Os primórdios da escola que conhecemos hoje remontam longe na história. mas pouco se aprofunda. Por fim. refletimos algumas potencialidades e dificuldades da Escola Itinerante no processo de sua constituição. no segundo momento. Entretanto. O termo papel/função da escola não será utilizado aqui com uma conotação meramente funcionalista. considerando-se o acúmulo existente nestes 20 anos do Setor de Educação. enquanto uma experiência importante para a classe trabalhadora.

mas sem dúvida guarda muitas relações com o mundo do trabalho e as aprendizagens a ele necessárias. que significa ócio. portanto. Todo trabalho. Vê-se que não falamos de um trabalho/profissão específicos. e. Paraná. concreto. é dispêndio de força humana de trabalho. nessa qualidade de trabalho útil. aponta Marx (1999). O excedente social se acumulou de tal forma. mas em lugar separado. quando o aprendizado não acontece no mesmo tempo e espaço do trabalho. do trabalho de outros. A origem e desenvolvimento da escola também se ligam à certa separação entre ensino e trabalho. das letras e das ciências. Marilena Chauí (2000) indica que. sob forma especial. em seus primórdios. para adaptar-se aos novos processos produtivos e com eles operar. ou seja. 112 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. igual e social. a máquina simplifica ao máximo sua execução. ou seja. constituindo-se uma grande revolução em relação à forma de produção artesanal do feudalismo. que hoje “todos” podem passar algum tempo na escola. do trabalho abstrato2. é que este lugar. ou seja. significava que deveria haver certo excedente social. química. dispêndio de força humana de trabalho. e os mais pobres precisam trabalhar para sobreviver e. como o excedente produzido social e coletivamente é apropriado de forma privada. estas habilidades manuais foram. os trabalhadores precisam dispor de uma formação básica.épocas e contextos. e. Entretanto. 68). usurpadas dos trabalhadores e incorporadas nas máquinas. escola é scholé. a escola era o lugar do não trabalho. as classes dominantes podem passar mais tempo na escola. Santa Catarina. anotar. nessa qualidade de trabalho humano igual ou abstrato. Por isso. os trabalhadores tornam-se apêndice da máquina. relaciona-se com o aprendizado da língua escrita e a apropriação de conhecimentos que demandavam um tempo maior para assimilação. Aprender a ler e a escrever torna-se algo fundamental para o trabalho da fábrica e com a dinâmica de vida urbana. Com o advento do capitalismo é que a escola passa a ser entendida como uma necessidade para todos. o conteúdo passa por diversos filtros e mediações e. permitindo que praticamente qualquer um possa fazê-lo (igual). por isso. base de diversos ramos da indústria. pedreiros. mas cujas condições são criadas pelo conjunto/totalidade do trabalho humano (social). permite-se que alguns de seus membros possam não estar batalhando pela sobrevivência imediata. produz valores de uso (MARX. no sentido fisiológico. Alagoas e Piauí . estando asseguradas as necessidades fundamentais de sobrevivência de uma sociedade. ler instruções e manuais. a escola era um “luxo” destinado há poucos membros da classe dominante. O trabalho. ocorreu uma grande mudança nos processos produtivos. na roça dos camponeses). Trata-se. de um lado. para um determinado fim. 1999. O conhecimento aprendido na escola nem sempre se relaciona diretamente com as necessidades da fábrica.). em grego. Neste. desconecta-se da materialidade da qual ela se origina. e o aprendizado consistia basicamente em adquirir habilidades manuais (ainda muito utilizadas pelos sapateiros. por outro lado.. falamos da forma de trabalho capitalista generalizada. e ainda são. ter noções de proporção. na escola capitalista. p. entretanto. Para que isso fosse possível. a escola inaugura um tempo e um espaço próprios para ensinar e aprender. tendo que trabalhar ditados por seu ritmo e estrutura. hoje conhecido como escola. Com a aplicação direta da ciência nos processos produtivos e uma revolução tecnológica permanente. 2 Todo trabalho é. cria o valor das mercadorias. o aprendizado para o trabalho ocorria no próprio local de trabalho (oficinas dos artesãos. bordadeiras. fragmentase. torna-se simples. de quem podia viver no ócio.. isto é. Para chegar à escola. rudimentar. Por exemplo. Por que isso acontece? Porque. Com a fábrica capitalista. física e biologia. com o capitalismo. podem ficar menos tempo estudando.

Sobre isso ver: Freitas. No contexto europeu. semi-qualificados. em cada país se travou uma batalha específica para que a escola se instituísse para todos. precisamos compreender melhor esta questão. mas pelo autoritarismo. porém “em doses homeopáticas”. Aponta-se que a escola também se estruturou para adaptar as crianças ao trabalho fabril e à sociabilidade capitalista. Crítica da Organização do Trabalho Pedagógico e da Didática. repassado não apenas pelas matérias. representados na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). a escola forma para a sociabilidade burguesa. nos locais de trabalho. somente a partir de 1930. Adam Smith. Então. a ordem e disciplina próprias desta forma social. é que iniciamos a constituição de um sistema nacional de educação. Entretanto. centralização. necessária para o trabalho e a sociabilidade burguesa. vemos que o ensino fundamental tem sido insuficiente. na fábrica. Entretanto. Agora. pois nossas experiências de escola demonstram como é difícil romper com o formato e o conteúdo da escola capitalista. Outra questão importante é que a formação “mínima” necessária para o mercado de trabalho capitalista varia muito de acordo com as funções. Assim. a escola não oferece apenas uma formação cognitiva. e é indispensável para cada situação concreta. que tem sofrido grandes mudanças. este “patamar mínimo” da formação tende a se elevar. com a industrialização. o mínimo é o nível médio (este tende a se tornar obrigatório) e até mesmo cursos 3 2005. Estas alterações decorrem das citadas mudanças nos processos produtivos e na luta de classes. atualizando a escola aos novos tempos. Ao contrário. não significa que a escola realiza toda a formação para o trabalho. Entretanto. especialistas. sugeriu que o conhecimento deveria estar na escola. no Brasil. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 113 . mas apenas aquele estritamente necessário para a produção e consumo nos limites do capital. com a crescente complexificação do processo produtivo. em cursos profissionalizantes e de aperfeiçoamento específicos. isto é. diferente do que foi outrora. exigindo “maior qualidade” na educação. famoso teórico liberal e economista clássico inglês. não significa dizer que ela foi desejada e saudada por toda a classe burguesa. não apenas no conteúdo que transmite. etc. ética e política. ao dizermos acima que a escola tornou-se uma necessidade deste modo de produção. como os chamados trabalhadores qualificados. os sistemas nacionais de ensino remontam aos anos de 1800. mas também comportamental. não se deveria ensinar todo o conhecimento existente. que poderia instruir demasiadamente os trabalhadores ao ponto em que estes se revoltassem e não aceitassem mais sua condição de miséria e submissão. Frente às divergências na classe dominante apontadas acima. mas também na forma como se estrutura3. Se acompanharmos o que se passa no mercado de trabalho capitalista. Esta ocorre também na empresa. etc. Recentemente. Ou seja. Campinas: Papirus. O que eles exigem é que a escola se ligue mais às novas necessidades do mercado de trabalho. Portanto. C.Retomando aos primórdios do capitalismo. a escola é o local onde a população vai adquirir esta formação básica. ela foi combatida por muitos deles e vista como perigosa. No Brasil. Frente a esta polêmica. homogeneização. tanto adestrando o corpo – imobilizado e contido nos longos períodos na escola para mais facilmente adaptar-se à fabrica – quanto promovendo comportamentos e valores como a obediência. Como dissemos. L. vimos os empresários. o tempo que os trabalhadores destes respectivos setores passam na escola e a qualidade da formação recebida pode ser muito diferente. Estes sistemas passam por constantes reformas em sua organização geral e em seus métodos pedagógicos. 7ª ed. No MST discutimos bastante o conteúdo político da escola.

“a transformação 114 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Como dissemos. Porém. cujas alterações vão exigindo mudanças nos processos educativos das mais diversas ordens. O que temos hoje é em nome de um discurso democrático de respeito às diferenças. “justamente porque o domínio da cultura constitui instrumento indispensável para a participação política das massas” (p. e ainda mais a escola de qualidade. como o capitalismo aparenta ser uma forma de sociedade democrática.. para quem a transmissão de conteúdos significativos e relevantes. o conhecimento na escola vai sendo ainda mais precarizado. a escola. por exemplo. 2001). é fundamental. em sua realidade local. fornece instrumentos elementares de formação para o trabalho e para a vida nesta forma de sociedade. Portanto. Na atualidade. hoje. a negligência da escola em oferecer aquilo que é uma condição para a efetiva inserção social e. explorados e submetidos à esta lógica. imposto e decorado. Para ele. Entretanto. mas para estes. com isso. desde seus primórdios na sociedade burguesa. Ele oferece uma escola de péssima qualidade para a maior parte dos trabalhadores. e que não devam ser buscadas mediações com a realidade da criança. a cultura popular e o conhecimento que a criança já possui é ponto de partida da escola.profissionalizantes. mas não sabem interpretar um texto e fazer contas elementares (INEP. se reveste com uma falácia democrática: a de que os conteúdos são autoritários. somos levados a concordar com Saviani (1999). da importância de respeitar sua cultura. São semialfabetizados. o que propõem é a valorização do local. a escola. Portanto. Nas mais diversas áreas. o capitalismo arranjou uma alternativa para este problema. Isso mostraria o quanto esta sociedade não é igualitária (veja entretanto que o ensino médio não é disponível para todos). com isso evidenciase o quanto a escola se relaciona com o mundo (e o mercado) de trabalho. cujo embate resulta a educação que temos: hegemonicamente burguesa devido à forma de produção da vida se dar sob tais parâmetros. Ora. por exemplo. até tornar-se quase um “faz de conta”. a ausência de conhecimento elaborado e profundo na escola. Diferentemente das perspectivas conservadoras. Santa Catarina. ele não pode deixar uma parcela da população sem escola. Com o crescimento do excedente de trabalhadores (exército industrial de reserva ou desempregados). o domínio da computação é essencial. mas não aprende. os dados alarmantes que indicam que milhares de estudantes concluem a 8ª série. Estas questões também são objeto de crítica à escola tradicional feita por educadores progressistas. Paraná. não necessita estar disponível para todos. Mas há tempos. mas que jamais poderia ficar apenas nisso. ou seja. etc. Kuenzer (2004) denominou de inclusão excludente. a criança está na escola. É claro que a sociedade dividida em classes desenvolve suas contradições em todas as esferas da vida social. Alagoas e Piauí . do ponto de vista do capital. Tome-se. 66). desligados da realidade da criança. Isso não quer dizer que este conhecimento elaborado deva ser ensinado de qualquer maneira. dos conhecimentos que as crianças já possuem. se é para ficar naquilo que a criança já possui. que não estão acessíveis espontaneamente para o estudante. como se coloca a escola em face do crescente desemprego? Ela deve formar para o trabalho ou para o desemprego? Sem dúvida. Oferece o necessário para que a maior parte das pessoas se reproduza na condição de trabalhadores. este discurso é utilizado para esvaziar a escola de uma de suas funções essenciais – a socialização de conhecimentos significativos. não precisa ir à escola: a criança já possui! A escola precisa oferecer o conhecimento e a cultura elaborados. À isso. a manutenção das diferenças que viram desigualdade. travestidas de novidade educacional. A educação e a escola também são espaços de disputa e de projetos educacionais distintos.

é preciso despertar para a importância da história e da ciência de que muito precisam os trabalhadores. promovendo a competitividade. A educação é um processo complexo e não homogêneo. Estas questões são complexas e exigem nossa atenção permanente. Isso está embutido de forma implícita ou explícita. também contraditórias. Não é possível compreender a educação e a escola fora do contexto que as demanda (Figueira. Ou seja. 1992). dinâmicos e concretos” (p. portanto. A ESCOLA NO MST Um movimento social como o MST. De modo que as formas e os objetivos educacionais de qualquer sociedade se encontram sempre em relação íntima com seu modo de vida.da igualdade formal em igualdade real está associada à transformação dos conteúdos formais. entre toda a humanidade. O MST. Enfim. ao organizar os Sem Terra para lutar por terra. entretanto. resultante das estruturas e práticas sociais. fixos e abstratos [por exemplo. já temos um bom acúmulo neste sentido e é preciso que avancemos na construção de uma nova forma escolar. No MST. precisa elaborar formas de educação que ajudem a alcançar seus objetivos. 2000). que tem por objetivo formar o homem para determinada forma de vida social. sendo elitista e excludente. Enfim. da qual a escola é apenas uma parte. que uma escola articulada aos interesses dos trabalhadores não deverá somente rever a forma de trabalho com o conhecimento escolar. da escola tradicional]. trabalho. como apontou Mészáros (2005). aprendem muitas coisas: que não dá pra ficar Coleção Cadernos da Escola Itinerante 115 . Não há dúvida. a escola forma para os papéis sociais que diferentes setores e classes sociais desempenham. deve educar para novos valores éticos e padrões de comportamento condizentes com a sociedade que se pretende construir. assistência técnica. descolados da realidade concreta em que vivemos. de trabalho e de cultura. a escola não ensina apenas estes. constitui uma estrutura de internalização dos valores e aprendizados necessários à esta sociedade. Como afirmou Mészáros “nenhuma sociedade pode perdurar sem seu sistema próprio de educação” (2006. A escola que interessa para os trabalhadores deve eliminar este conteúdo que forma uns para dominar e outros para serem dominados. que eles não sejam ministrados de maneira fragmentada. em conteúdos reais. Estes. 1985). que se propõe a transformar a sociedade e construir o socialismo. O capitalismo. Para isso. valorativos e éticos. a resignação e o medo. o respeito. O ensino deve “partir da prática e levar ao conhecimento científico da realidade” (MST. estudo e experimentação prática. afinal. desenvolvendo o autoritarismo e a submissão. moradia. Na proposta de educação do MST. e. Estes conteúdos também estão presentes na escola que serve ao capitalismo no sentido de formar para esta perspectiva. e eles são requisitados pelos processos de luta. sociais. mas também os conteúdos políticos. etc. em luta. 263). e promover a igualdade social. com suas relações de produção e de trabalho. precisa rever toda sua forma de organização e formar para saber comandar e ser comandado. Não será com uma escola autoritária e esvaziada de conteúdos amplos e profundos que o MST chegará lá. para a organização coletiva e à auto-organização (Pistrak. para a participação efetiva. p. a solidariedade e a cooperação. o conhecimento elaborado é de fundamental importância para entender a realidade que nos cerca e o mundo em que vivemos. 74). também está educando quem dele participa. se os conhecimentos elaborados são relevantes e de igual importância.

Ainda que isso não seja fácil nem rápido. a definição de objetivos pontuais. queira ou não.1. mas nunca resumindo a educação à ela e nem a educação política. em primeiro plano. as imensas contradições e o antagonismo desta sociedade. da luta. seja para incorporá-las ou rejeitá-las. a escola tem sido repensada e articulada com cada um desses momentos. podemos sintetizar os objetivos/pilares da escola no MST em três: “o trabalho agropecuário. talvez hoje. Paraná. Por exemplo. como dissemos. a escola se tornou um espaço que deve contribuir com o MST em seus objetivos. que somente uma organização que luta para mudar o mundo pode oferecer. a acentuação de um deles. “amor pela luta”. constitua formas educacionais próprias. É necessário estar atento às formas novas de produção que vão surgindo como a cooperação e a agroecologia. que só poderá sair das mãos dos oprimidos. Estes aprendizados são obtidos na luta. alguns termos podem ter sido mais ou menos substituídos. A escola está. ampliando. entendemos como fundamental que a escola conheça e problematize as formas existentes de produção. Ela é incorporada no MST como um espaço que deve auxiliar na formação almejada. técnicas e científicas. p. À medida que o MST foi crescendo. tais pilares cabem perfeitamente às escolas de acampamento e à Escola Itinerante. eles podem ser desta forma resumidos. com funções específicas. rumo à produção e socialização coletiva 116 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. presente desde o início do MST. Vemos assim que: 1) o MST não é. Em relação à formação para o trabalho do campo. buscando uma atualização de seu conteúdo. tomar a escola como uma bandeira. como apontamos acima. mas. 1992. considerando-se o conjunto da proposta. na organização coletiva. 3) a escola é uma parte deste processo educacional. não os objetivos fundamentais. Em minha opinião. Há ainda dois detalhes. MST. ele torna-se profundamente educativo. Veja que o texto é escrito em 1992. o que muda são as condições concretas. É preciso analisar o sentido em que elas se colocam e sob o que se sustentam. A escola. O que o MST propõe é que ela auxilie na superação da forma de produção capitalista e artesanal. que para os pobres e trabalhadores apenas a organização e luta traz conquistas efetivas. Se é curioso um movimento de camponeses.parado esperando as soluções. 2) em sua luta e organização. alterando as formas de luta e seu público. mas seu conteúdo permanece. como depois desenvolveremos melhor. estudando-as em suas várias dimensões: econômicas. Santa Catarina. em síntese. assim. sociais. Considerando-se o conjunto da produção do MST sobre educação e escola. desde as artesanais e manuais até as mais complexas e de ponta. Podem existir diversas variações destes objetivos. incorporando novas bandeiras. Aprendem que o capitalismo está impossibilitado de oferecer condições dignas de vida para todos. o conhecimento científico da realidade e o amor pela luta” (Boletim de Educação n. é algo “normal” e necessário. Seja decorrente de uma necessidade objetiva (escola para as crianças em idade própria) ou por motivos de formação política. como demonstrou Caldart em Pedagogia do Movimento Sem Terra (Expressão Popular. no aprofundamento teórico. Vejamos rapidamente cada um deles. Aprendem que precisam construir outra forma de vida social. mas por Reforma Agrária e transformação social. 2). se denomine mais como formação de militantes (que por definição devem ter amor à luta). formará para algum padrão produtivo. de uma forma ou de outra. avançando no sentido de dominar a tecnologia e a ciência embutidas nos processos produtivos. pode ser restrita à escola. Alagoas e Piauí . que um movimento com uma perspectiva social distinta. um movimento por educação. A segunda questão é que o texto refere-se aos “três pilares das escolas de assentamento”. agricultores. 2004).

fragmentados e “puros”. então. elas dão melhores resultados quando nós consideramos bem a situação. o conhecimento por si mesmo. Não estamos de forma nenhuma ignorando ou desprezando os conteúdos. se ela for às bases desta forma de trabalho. Isso não é fácil. o ensino deve “partir da prática e levar ao conhecimento científico da realidade”. Poderíamos dizer que um bom militante no MST é aquele que conhece os desafios do trabalho no campo. preservando. se entendemos que a forma como produzimos nossa existência é que nos educa. a ciência. a escola não pode ater-se estritamente à formação para o trabalho no campo. o altruísmo. busca compreender a realidade de modo profundo e possui valores e ações coerentes com o projeto do Movimento. 61). entretanto. A ciência. Educar para a transformação social significa que a formação para o trabalho não é o trabalho no capitalismo. quando organizamos uma ocupação ou uma atividade no acampamento. e cuja relação muitas vezes não é tão direta e explícita. chama atenção para a formação de novos valores como a cooperação. verá que ela guarda muitas relações com o trabalho urbano e industrial. não muda o mundo. A ciência ou o conteúdo na escola não são vistos como fins em si mesmos. pois. a formação para o trabalho e o conhecimento científico. a da formação de militantes. Em nosso ponto de vista. torna-se fundamental que a humanidade crie novas bases produtivas para nos educarmos de um jeito inteiramente novo. de uma ligação imediatista e superficial destes vínculos. É educar para a ação revolucionária e para as diversas dimensões que ela exige. Vemos então a importância do conhecimento científico. A formação para o trabalho é um tema muito complexo que precisa ser aprofundado em nossos estudos. já apontam nesta direção. A escola pode ajudar nisso. que devam entrar desconectados da realidade. porque a complexidade do trabalho e da luta por transformação social exige conhecimentos amplos e elaborados. mas não qualquer ação. conhecer cientificamente a realidade coloca-se como auxiliar para poder mudá-la. é preciso ação. Esta dimensão. mas estes não são isentos de uma contribuição nesta direção. crescentemente aproximativos. Vimos que os dois itens acima. Por exemplo. coletiva. mas a busca por superá-lo. estamos colocando os conteúdos no seu verdadeiro lugar como instrumentos para a construção do conhecimento da realidade e não como fins em si mesmos” (MST. é menos eficaz. De outro lado. 2005. p. Os três pilares estão. nem cabe unicamente ao MST e nem à escola. isenta de conhecimento profundo e amplo. o segundo pilar da escola do MST. Vemos então que a ciência é indispensável para o estudo da realidade e para a atuação nela. Ou seja. entretanto. é educar também para a ação. algumas diferenças. profundamente interligados. ao que a literatura crítica indica. a autonomia. Também se pode questionar até que ponto o trabalho do campo é essencialmente diferente do da cidade. Este pilar deixa muito claro que a intenção do MST é buscar a transformação social. Eles são instrumentos imprescindíveis na compreensão e transformação da realidade. Atenta que as pessoas são uma totalidade Coleção Cadernos da Escola Itinerante 117 . mas esta. Muito pelo contrário. a teoria. Então. a solidariedade. quando busca a superação da divisão entre trabalho manual e intelectual e evita a inferiorização do trabalho do campo.da riqueza. mas para uma planejada. Entendemos que a escola auxilia neste processo quando problematiza e conhece em profundidade os processos produtivos nos seus diversos aspectos. A ação só poderá ser revolucionária se capta corretamente a realidade. coerente e fundamentada. Não se trata. o amor à luta ou a formação de militantes. não é verdade? O conhecimento elaborado e científico na escola do Movimento não pode colocar-se desvinculado da formação para o trabalho e a transformação social que busca o MST. Por fim.

filosófico.mas de forma tão mecânica e fragmentada que não significa deixar-nos mais inteligentes. a seu modo. isto é. clássico. artística.e a escola deve formá-las como seres integrais. o conhecimento erudito. a formação dos educadores. Alagoas e Piauí . Como temos apontado. Aí então. artístico. buscando a construção de uma escola inteiramente nova e comprometida com a emancipação da classe trabalhadora. daí os “tempos educativos” elaborados na proposta do Movimento. de seus problemas e potencialidades. avançar do senso comum em direção ao pensamento elaborado. ao contrário. em sua essência. eles nunca chegarão.. afetiva. acontece num lugar especial. mas não quer dizer que aumente nossa compreensão de mundo. compondo sua proposta de escola. Seus objetivos e princípios são os mesmos. Não ao otimismo ingênuo nem ao pessimismo imobilista. a escola sozinha não conseguirá formar seres integrais numa sociedade que fragmenta. por terra. Paraná. antagônicas. ela encontra-se num tempo e num lugar específicos. ética. os tempos educativos. Expressa. que pode construir outro futuro. por trabalho e moradia. a escola deve nos formar como totalidade de múltiplas dimensões: cognitiva. a relação educador-educando. como as demais escolas de acampamento. indicamos a gestão da escola. O acampamento é sem dúvida um espaço onde se encontram pessoas em luta pela vida. Newton Duarte (2007) indica que a escola deve ir do cotidiano ao não cotidiano. entre outras. Entretanto. social. para ligar com o que dissemos acima e evitar um problema frequente. É preciso que saibamos disso para não cairmos em desânimo. Um lugar que expressa 118 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. a afetividade (e não o romantismo). se não agirmos agora para a construção da nova sociedade e de novas mulheres e homens. No MST e nas experiências socialistas. O capitalismo acentua o trabalhador braçal. como questões importantes de serem estudadas e exercitadas na prática. Também traz em si o acúmulo do Setor de Educação do MST.. Poderíamos dizer que a Escola Itinerante. não é diferente da escola de assentamento ou das demais escolas do MST. que todavia. a auto-organização dos estudantes. A articulação dos três pilares indicados pelo Movimento pode ser um bom exercício. Então. esperamos que elas não sejam desconsideradas. se aplicam de um modo determinado a depender da situação concreta. Como toda escola. dizer isso não quer dizer que qualquer ação é inválida. mas alcançando a cultura elaborada. não no senso comum. A formação de seres humanos completamente novos não é possível no capitalismo. Santa Catarina. a avaliação. manual. a escola tradicional acentua nossa formação cognitiva . Ela nos enche de “conteúdos”. A Escola Itinerante. o planejamento. científico. a luta social. diminuindo nossa capacidade de pensar. a ética (e não o moralismo). a Escola Itinerante expressa embates de formas escolares distintas. com clareza do horizonte que almejamos. seres éticos e coerentes numa sociedade que se pauta na exploração e degenera as pessoas.. Entretanto. É nossa ação. Há diversas outras questões importantes na proposta de educação do MST que não foram aqui abordadas. A ESCOLA ITINERANTE A Escola Itinerante é entendida como um espaço que traz em si a carga histórica da instituição escolar. efetivamente formará para a arte (e não sua banalização). física. Apenas para mencionar algumas. é preciso dizer que estas dimensões não devem ser trabalhadas na escola de qualquer jeito. Como elas se encontram mais desenvolvidas nos Cadernos e Boletins da Educação.. Pode até partir dele. dentro dos limites possíveis do hoje.

a incapacidade do capital em garantir a vida digna para todos. Por isso, o acampamento é o lugar que
expressa a força e a fraqueza do capital. Força, já que mesmo com tantas contradições explosivas, mortes,
miséria, desumanização, ele ainda se mantém. E fraqueza, porque na medida em que não garante que
muitas mulheres e homens vivam sob sua forma típica, força-os a buscar outras formas de se organizar em
sociedade. Acredito que a força e a beleza de um acampamento – dentre suas enormes dificuldades – está
em revelar a busca dos Sem Terra por uma nova forma de vida social.
Claro que esta consciência não necessariamente é a de todo sem-terra que vai para um
acampamento ou passa por ele. Mas, queira ou não, ele está “metido” nisso e nós queremos que sua
consciência seja ampliada até ele perceber as muitas implicações daquilo em que ele se envolve. A Escola
Itinerante está neste lugar!
O acampamento é, então, um espaço onde a luta de classes, a luta pela sobrevivência, a
possibilidade de construir algo novo, está mais forte, mais evidente. É um lugar propício à contestação,
à desestruturação daquilo que é arcaico. As relações de poder autoritárias se enfraquecem, favorecendo
emergirem relações sob novos parâmetros. Entendemos que este é o pano de fundo daquilo que o professor
Luis Carlos de Freitas tem indicado: a Escola Itinerante é um lugar propício à emergência, ao ensaio de
uma nova forma de escola. Segundo ele, no acampamento, por tudo que falamos, a escola (lembremos que
ela é uma instituição do Estado burguês) está mais livre das amarras do Estado, da burocracia e deste peso
que traz a instituição escolar4.
Penso que os educadores itinerantes reconhecerão isto, pois tem sido muito comum eles se
referirem que “quando o acampamento vai bem a escola está bem”. Dizem ainda que quando o acampamento
está bem organizado, a coordenação e as equipes funcionando, com unidade e perspectiva, a escola
funciona melhor, o acampamento se envolve e contribui mais com a escola, e a proposta de educação do
Movimento acontece5. Já quando as coisas não vão tão bem no acampamento, na escola também tendem
a decair; os educadores, mães e pais “se acomodam”, cria-se uma rotina e uma apatia pouco produtivas.
Por estes depoimentos, podemos refletir o quanto a organização coletiva e a clareza na luta são educativas,
motivam o que está ao redor, e são forças capazes de dar um horizonte à escola, fazê-la se aproximar da
escola que queremos. Vemos assim que a escola não está isolada, e nem deve estar (nem pode estar). Mas
esta tendência da escola acompanhar a dinâmica do acampamento não pode nos autorizar a desanimar
quando o acampamento vai mal e a relaxar com os trabalhos na escola. É nesta hora que temos que agir
com profissionalismo e militância.
Os estudos de Bahniuk (2008) e Camini (2009) comprovam a indicação de Freitas, mostrando
diversos avanços que a Escola Itinerante apresenta rumo à Escola Socialista. Poderíamos dizer que a
Itinerante é um embrião da Escola Socialista, mas que, para se desenvolver, precisa ser cuidada e superar
muitas dificuldades e limitações que as autoras evidenciaram em suas pesquisas. Isso indica que há pontos
fracos na Itinerante que precisam ser observados. É sobre estas potencialidades e estas dificuldades que
queremos refletir:
1) Dizer que a Escola Itinerante (EI) está num lugar “especial”, que favorece experimentar
4
5

Síntese pessoal da fala do professor durante encontros e atividades do MST onde ele tem participado.
Fala recorrente entre os educadores no processo de sistematização da Escola Itinerante no Paraná.
Coleção Cadernos da Escola Itinerante

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a construção da Escola Socialista, não quer dizer, em hipótese alguma, que “naturalmente” por estar no
acampamento a escola será melhor, que esta forma nova vai surgindo. Se não houver um longo trabalho,
muito estudo e ação (coletivos), ficamos na mesma.
2) Por estar num acampamento, a EI enfrenta dificuldades que outras escolas não enfrentam
nas mesmas proporções (de infra-estrutura física e pedagógica, de formação dos educadores...). Estas
dificuldades, se por um lado podem operar como motivação para criar alternativas, no sentido que Freitas
indica, de outro lado, não pode fazer-nos pensar que a miséria é boa, que para pobre “pode ser assim
mesmo”, ou que a escola nova, a sociedade nova, se faz com poucos recursos. Considero importantes os
“ensaios” que temos feito nas EI, mas sonho que todas as crianças possam ter escolas bem equipadas, com
biblioteca e laboratórios, boa alimentação, educadores bem formados, etc.
3) A EI tem sido apontada como inovadora por ser uma escola que “vai onde o povo está”,
ou seja, é uma escola que rompe com uma concepção tradicional de que escola é um “prédio”, e que,
portanto, é imóvel e que as pessoas precisam se deslocar até ela. Considero um avanço da Escola
Itinerante mostrar que a escola precisa se adaptar (em parte) às condições específicas de seu público. O
que, aliás, é indicado na atual LDB 9394/96, ao dizer que a escola pode/deve se adaptar às condições
locais, de trabalho, de clima, etc., mas que não pode abrir mão de uma série de outras coisas. Então, a
Itinerante inova, pois para as concepções mais tradicionais, como aponta Camini (2009), é difícil conceber
uma escola sem endereço fixo, que se move! Isso tem uma repercussão em nossa concepção de escola
importante, pois, se a ela pode romper com um padrão de estrutura física, parece nos permitir romper
com padrões pedagógicos. Aí a Itinerante pode se tornar muito perigosa, como sabem alguns... Veja que
estamos no campo das possibilidades. Entrando no campo concreto das dificuldades, a experiência destas
escolas mostra uma inversão curiosa: parece que alteramos mais a estrutura física, em muitos locais, do
que as questões pedagógicas, conforme já indicaram Grein e Gehrke (2008). Ou seja, muitas vezes a
EI parece ser muito diferente, inovadora, mas quando olhamos para o que acontece em seu interior, no
processo pedagógico, vemos que reproduzimos muitas coisas que precisamos superar, como a falta de
planejamento ou o planejamento “solto”, a falta de estudo e domínio de conteúdo do professor, relações
autoritárias, descaso com a escola, avaliação classificatória, etc. Reafirmando: não é por estar numa EI que
naturalmente estaremos construindo uma nova escola. Para isso é preciso muito trabalho, estudo, dedicação
e organização coletiva. Neste item, também quero registrar algo que tem sido dito pelos educadores e
coordenadores itinerantes. A participação da escola em marchas, mobilizações, saídas do acampamento,
dá um grande ânimo para a escola, faz o trabalho pedagógico ficar mais vivo, ligado à realidade, reflexivo,
e as crianças participam mais. Mas às vezes, um tempo depois, é comum voltar-se às velhas formas. Ou
ao contrário, nas escolas onde se sai muito do acampamento, reclama-se de que não dá pra amadurecer as
questões, que precisam ficar um tempo “paradas” para aprofundar os assuntos. Então, nos dois casos, o
que se mostra é que a Escola Itinerante precisa fortalecer sua proposta, consolidá-la. Não poderá ser “um
vento mais pra lá ou pra cá” que poderá revirar todo nosso trabalho. Nós precisamos ter clareza para onde
queremos ir e avançar no entendimento da forma, dos métodos para chegarmos lá. Precisamos avançar na
formação de educadores e dos coletivos de educação, compreendendo melhor como a escola deve se ligar
à vida. Como superar a velha forma escola e construir uma nova e como é possível construirmos isso nas

120

A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Alagoas e Piauí

condições que temos.
4) Nas questões relativas ao ensino das disciplinas na escola, o que refletimos acima já indica
o caminho. Há uma dupla questão a se considerar: a) o conhecimento escolar precisa ser significativo, é
preciso estabelecer relações com a realidade do estudante6. Veja que dissemos relações. Quanto menor a
criança, esta relação precisa ser mais concreta e, com o passar dos anos, pode-se avançar na abstração,
sem que a todo o momento se refira a uma circunstância ou objeto pontual. Entretanto, mesmo os níveis
mais elevados de abstração, sempre possuem relações com o mundo concreto. Em Marx, partimos do
concreto (caótico) ao abstrato (reflexão, fragmentação), depois novamente ao concreto, que ao fim do
processo aparece como uma totalidade rica. Para Marx (1996), o conhecimento deslocado da prática
não tem sentido, é a prática que, em última instância, diz se um conhecimento é verdadeiro – isso não
quer dizer prática imediata e nem relativismo. Os complexos de que fala Pistrak (2000), ou os temas
geradores de Paulo Freire (1983), são bons exemplos de como o conhecimento pode estar na escola. Ele
não aparece isolado, “morto”, fragmentado, mas vem em função de uma situação-problema, de um tema
atual, candente. A escola organiza seu trabalho para entender o mundo em suas múltiplas relações e em
profundidade. Então, o conhecimento surge como uma necessidade da vida humana, que tem relações
múltiplas e complexas. Por isso, o novo patamar alcançado no entendimento do tema/complexo deve
voltar à realidade para ajudar a transformá-la. b) Pelo que foi dito, parece ficar claro que o conhecimento
elaborado é de grande importância para a classe trabalhadora, e que a mudança na forma de abordá-lo não
o nega, não o retira da escola, mas o coloca de um novo jeito, valorizando-o. As experiências demonstram
que esta questão precisa ser aprofundada, avançando no método de trabalho que não negue o conhecimento
acumulado e o coloque em função das questões do tempo histórico atual.
Neste caderno, estão expostos cinco textos dos estados que possuem Escola Itinerante. Vemos
que são experiências bastante diferentes sob vários aspectos: no tempo de existência (no RS há doze anos,
no PI há um ano), no tamanho das escolas, na quantidade de educandos, no jeito de acompanhar as escolas
e fazer a formação dos educadores, na relação com o Estado, na organização das turmas, etc. Nos próprios
textos, pode-se ver a avaliação feita, os pontos positivos e negativos, como prosseguir, em que avançar.
Estas diferenças indicam tanto a riqueza e a diversidade que a EI comporta, quanto a dificuldade em se
estabelecer diretrizes políticas e pedagógicas comuns, bem como fragilidades próprias à sua conformação
em cada estado. Entretanto, apesar das diferenças, é possível falarmos da EI do MST, ou seja, é possível
identificar um projeto comum, afinidades, unidade na proposta e na ação e dificuldades compartilhadas.
Vejamos algumas delas:
a) A EI é uma experiência de escola (um projeto e uma prática) que se origina
das condições da luta pela terra. É uma escola que se adapta a estas condições e se compromete
com as famílias em luta. Este compromisso se dá em dois planos, pelo menos. O primeiro, por
estar onde está o povo, deslocar-se com ele, acompanhá-lo no acampamento, na reocupação,
6
A experiência escolar coordenada por Pistrak avança ainda mais desta perspectiva. Para ele, como aponta Freitas
(2009), a escola não se estrutura a partir do conhecimento elaborado para então se estabelecer relações com a realidade, mas o
inverso. Parte-se da realidade atual, do mundo em sua totalidade que para ser entendido demanda o conhecimento elaborado,
culto. A proposta educacional do MST compartilha desta perspectiva, como apontamos anteriormente.
Coleção Cadernos da Escola Itinerante

121

reflete esta diferença de fundo entre uma escola construída pelo povo em luta e a escola proposta pelo Estado burguês. cada vez mais engessa o sistema. E ainda mais. Esta situação de enfrentamento chegou a tal ponto que. Por isso. Esta escola é intolerável para aqueles que sempre tiveram o Estado a seu serviço e não estão dispostos a abrir mão disso. tornam-se professores. no RS. tendendo à padronização e homogeneização. de pressão por parte dos dois lados. que o MST se apropria e desenvolve. muito inusitadas. o que implica. Paraná. podemos dizer que a formação dos educadores de escolas de acampamento e das EI revela uma potência de crítica e de experimentação de uma nova forma de escola. ensinam. aprendendo com a luta e com a escola do MST. A experiência das Itinerantes revela o Estado de classe e também a necessária relação dos trabalhadores em luta com/contra o Estado burguês. outro educador. pagamento dos educadores. precisam aprender a ensinar. seguidamente. a EI foi fechada. nas mobilizações. Então. traz uma nova pedagogia. com um governo truculento como o de Yeda Crusius. do PSDB. de forma inesperada. O Estado não apenas possui um padrão de escola como. como o envio de materiais para as escolas. c) A Itinerante também tem se revelado um potencial laboratório de formação de educadores para a nova escola. mas de maneira geral. Tornam-se educadores em uma escola plena de luta. É inovadora sob muitos aspectos e por isso o embate permanente com o Estado. pois assegura a escolarização das crianças e jovens onde estes se encontram. As longas e árduas lutas para conquistá-la e mantê-la. e nas condições de luta e conflito. e. Nem tudo tem sido desejável. É efetivamente uma escola do acampamento. Tem especial dificuldade com a Escola Itinerante. se refere à dimensão da presença física. Para o Estado burguês. pois esta não é apenas “diferente”. mas para o sentido do trabalho educacional que a escola desenvolve. em cada um dos cinco estados. Em geral. Quando os educadores se reconhecem como sujeitos ativos no processo de luta 122 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. b) Por estas questões. por parte do Estado tem sido o de cumprimento mínimo de obrigações. Isso sem falar da maior parte dos estados do Brasil cujas escolas de acampamentos não são reconhecidas legalmente pelo Estado. é tão difícil (ou mesmo impossível) para o Estado aceitar esta escola como ela é. ou mesmo de não cumprimento de funções elementares.. As condições objetivas com as quais se deparam são. em certo sentido. Alagoas e Piauí .nas marchas.. Tornam-se professores na dinâmica vida dos acampamentos. etc. mas liga-se à luta pela transformação social. Esta questão já está indicada neste texto e nos cinco textos dos estados. fortalecê-la. de disputas entre formas de escola e perfis de educadores. em seu conteúdo e forma. que é muito importante. A relação estabelecida tem sido tensa. nestes embates difíceis e complexos. Santa Catarina. a EI afronta os padrões rígidos de escola existente. aceitar a EI é de alguma forma aceitar a luta dos Sem Terra. Muitos. A segunda dimensão é a do compromisso político e pedagógico que aponta para além da presença física. ela é uma escola gestada nesta luta e. inevitavelmente. e assim. precisam estudar e fazer uma escola bem diferente daquela que tinham como referência.

no sentido de que a auxilia a sair da “mesmice”. sem os quais não se aprende certas coisas. guardadas as particularidades. Por fim. Maior aprofundamento se encontra em autores/ educadores que já se debruçaram com mais afinco nesta experiência de escola. reafirmamos que este texto não pretendeu dar conta das diversas indicações acerca da EI que têm sido evidenciadas nas produções existentes. Vemos ainda que. em movimento. demanda movimento. mas a escola prescinde de tempos e processos longos. de um trabalho educacional cristalizado e inconveniente para um trabalho voltado para a classe trabalhadora. seguidamente também. homens e escolas. Esperamos que elas possam ser frutíferas. a escola é de estrutura mais lenta e processos mais longos. eles sentem-se motivados. pois os acampamentos e o MST são por natureza dinâmicos. Neste sentido. o Movimento. Veja neste caderno o texto específico sobre a formação de educadores. Pretendemos sim. É conflituoso e educativo quando estes tempos distintos se encontram. o que pode ser dinâmico e espontâneo e o que precisa ser planejado e estruturado. Mas nestes anos todos. trazer um veio de análise de questões consideradas pertinentes e no calor dos debates realizados ao longo da produção da referida Coleção. tem pressa. permanecendo fechada em si mesma. preparar-se para ela (já que continuará acontecendo).em que se pretende construir outra sociedade. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 123 . promovendo a aproximação e a participação do acampamento na escola. em muitas ocasiões. garra e. como é a velha escola que tanto criticamos. Não seria por acaso que estas são as características mais frequentes nos educadores itinerantes. fortes e orgulhosos. A síntese que o MST tem feito é de que um tem aprendido e precisa aprender com o outro. é preciso continuidades no processo pedagógico. Forçando a escola a abrir-se e conectar-se à realidade concreta que a circunda. luta. física e politicamente. Neste sentido é que a relação escola e acampamento/MST é educativa nas duas direções. tal instabilidade pode ser positiva para a escola. Assim como na Coleção Cadernos da Escola Itinerante pode-se acompanhar esta trajetória e experiência com maior detalhamento. Quer dizer apenas que não podemos mais recomeçar sempre. d) Deste acúmulo de mais de doze anos de EI. aprendemos que a escola precisa aprender a lidar com esta instabilidade. por sua vez. Isso não significa dizer que a escola não sentirá as mudanças que acontecem em seu entorno ou ignorará tudo que acontece. evidencia-se que esta escola encontra-se num lugar instável. parece que precisamos distinguir entre o que podemos abrir mão e o que não.

SP: Autores Associados. Educação. PISTRAK. CAMINI. Educação escolar. teoria do cotidiano e a escola de Vigotski. São Paulo: Expressão Popular. (Publicado originalmente em 1992). Livro 1. Exclusão includente e inclusão excludente: a nova forma de dualidade estrutural que objetiva as novas relações entre educação e trabalho. Marilena. Fundamentos da Escola do Trabalho. ____. Escola Itinerante no desafio da luta pela Reforma Agrária. L. KUENZER.. São Paulo. P.um contraponto à escola capitalista? Porto Alegre: UFRGS. Campinas. C. Dissertação de Mestrado (Educação). IN: CADERNOS DA ESCOLA ITINERANTE.. Newton. Escola e Democracia. 1983. trabalho e educação. O Direito à Preguiça. ano I. 6 ed. A educação para além do capital.). IN: LAFARGUE. 1999.. Para a Crítica da Economia Política.º 1. Trabalho e Emancipação Humana: um estudo sobre as Escolas Itinerantes dos acampamentos do MST. GREIN. Itinerante: a Escola dos Sem Terra: trajetórias e significados. 1 São Paulo. Marcos. INEP/MEC. Como deve ser a escola de um assentamento. Campinas: Autores Associados. ____. 2005. INEP. Caderno de Educação n. 1999. MÉSZÁROS. 3 ed. ____. Campo Grande. 14ª ed. 2000. Moisey M. Moisey M. São Paulo: Boitempo Editorial. Maria Izabel e GEHRKE. 1996. Campinas: Autores Associados. IN: Caderno de Educação n. Introdução. Caroline. Roseli. A luta por uma pedagogia do meio: revisitando o conceito. Acázia Z. 124 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. 17ª ed. Demerval. Cortez/ Autores Associados. 4ª ed. In: LOMBARDI. 1.. 2009. SAVIANI. SANFELICE. MARX. J. Como fazer a escola que queremos.13 Edição Especial. 1997.REFERÊNCIAS BAHNIUK. 1. 2004. ____. 1999. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. outubro de 2008. Santa Catarina. (Orgs. 2. Florianópolis: UFSC. MST. São Paulo. vol. 2000. J. Boletim da Educação n. (org. HISTEDBR. n. Pedagogia do Oprimido. 2008. 2001. 2. Isabela. D. 1992. Pedagogia do Movimento Sem Terra. História da Educação: da antiguidade aos nossos dias. IN: PISTRAK. Tese de Doutorado (Educação). A teoria da alienação em Marx. 2007. CHAUÌ. Alagoas e Piauí . DUARTE. Mario A. FREIRE. 2008. Pedro de A. São Paulo: Boitempo Editorial. Pedagogia Histórico-crítica: primeiras aproximações. vol. Capitalismo. O Capital. A educação de um ponto de vista histórico. Paul. Curitiba. Unesp. 2005. 32 ed.. Escola Itinerante dos acampamentos do MST . MANACORDA. São Paulo: Expressão Popular.) A Escola-Comuna. Rio de Janeiro: Paz e Terra. FIGUEIRA. 2004. 1. n. IN: INTERMEIO – Revista do Mestrado em Educação – UFMS. São Paulo: Nova Cultural. ed. István. Karl. São Paulo: Hucitec. 1985. Estudos de Avaliação da Educação – PISA. IN: Os Pensadores. FREITAS. 2006. Campinas: Autores Associados. São Paulo: Expressão Popular. SAVIANI. Paraná. Luis Carlos de. CALDART.

Coleção Cadernos da Escola Itinerante 125 .

Alagoas e Piauí .126 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Paraná. Santa Catarina.

porque estará realizando uma tarefa em que não acredita verdadeiramente e que. 1996. havia a intenção de formar seus próprios professores para atuarem nas escolas de acampamentos e assentamentos. Pedagogia da Terra. ver: Princípios da Educação no MST. além dos significativos processos formativos que acontecem nas escolas. possibilitando-os também a continuarem seus estudos. mais tarde denominado de Instittuto de Educação Josué de Castro (IEJC). constatamos que. em Braga. funcionando em vários estados do país e realizados em parceria com Universidades Federais e Estaduais. em vários estados onde o MST está organizado. 3 Compreendido aqui como um processo permanente de formação que se inicia com o nascimento e conclui-se com a morte. forjam processos formativos. têm se dado de forma mais intensa e permanente . em 1990. RS.por meio de cursos formais e/ou não formais. que atuam no Setor de Educação ou nas escolas. por exemplo. Outra iniciativa importante. desde o início. o MST tem Cursos de Magistério. a realidade que cerca a escola. a sua formação recebeu atenção especial. Porto Alegre. Eles são um 1 Educadora do Setor de Educação do MST. tanto dos educadores quanto dos educandos. Olhando para a trajetória histórica de formação de educadores neste Movimento.A FORMAÇÃO DOS EDUCADORES ITINERANTES Isabela Camini1 Jurema de Fátima Knopf2 INTRODUÇÃO A formação humana3 dos sujeitos Sem Terra. Sobre isso. já na turma seis. o Curso foi transferido para a Escola Josué de Castro em Veranópolis/RS. os processos de formação humana. 2 Educadora do Setor de Educação do MST . Licenciaturas e algumas especializações. social e política.Paraná. educam-se e são educadas. Em nosso entender. será vã”. que se prolonga até os dias atuais. vai reeducando. atualmente. pois. vinculada à luta pela Reforma Agrária. Caderno de Educação nº 8. Mestre e Doutora em Educação pela UFRGS. educar e formar as novas gerações que frequentam as escolas de ensino fundamental e ensino médio nas áreas de Reforma Agrária. pedagógica. humanos e pedagógicos. No que diz respeito aos educadores. Esta iniciativa. no Departamento de Educação Rural (DER). no sentido mais amplo. No que diz respeito aos cursos formais. Pedagoga e estudante no Curso de Especialização em Ciências Humanas e Sociais/CHS . é sua preocupação com a formação de educadores por meio de seminários e encontros estaduais e nacionais. sempre ocupou espaço importante na trajetória que constituiu o MST. E. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 127 . nos permitiu formar centenas de educadores que atuam em escolas do campo. em 1997.Convênio firmado entre UFSC e ITERRA. O contexto social onde se encontram as Escolas Itinerantes. ensinando e formando os educadores militantes. tiveram início as duas primeiras turmas de Magistério do MST. Quem não acreditar nisso não pode ser educador/a. num processo que só termina com a morte. portanto. que vem acompanhando as ações do Setor de Educação do MST. Para os educadores que se dedicam à educação e têm a responsabilidade de ensinar. “As pessoas mudam. as diferentes situações de enfrentamento na luta de classes e a dinâmica do Movimento Social.

refletir sobre o papel dos educadores que atuam nessas escolas. considerando a especificidade de sua forma escolar e as circunstâncias que a dinamizam. atualmente presente em seis estados da federação. Inaugurou a possiblidade de 128 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. vemos que a formação dos educadores sempre foi um desafio enfrentado pelo Setor de Educação. pois de outro modo. Se retomarmos a história da Escola Itinerante (1996 – 2009). E. mesmo que estivessem frequentando algum curso de nível médio ou superior. de educar na itinerância. O encontro contou com a presença de 70 educadores que atuam nas Escolas Itinerantes dos estados do Rio Grande do Sul. com sua complexidade na forma de atuar nos diversos espaços da luta pela terra. Alagoas e Piauí . (RS. sem perder a seriedade que cabe a ela na formação dos trabalhadores em um contexto de luta de classe. reencontro e alegria. no Institudo de Educação José de Castro –(IEJC). A programação intensa que priorizou o estudo da história da educação do MST. não descuidou de oferecer oportunidades de formação a estes educadores. realizou-se o I Seminário de Educadores Itinerantes da Região Sul. Considerando o espaço e o número de educadores reunidos. Este primeiro seminário nacional de educadores itinerantes teve como objetivos socializar as práticas pedagógicas construídas nas Escolas Itinerantes da Região Sul. Paraná. já reconhecida. refletir e analisar os limites e as possibilidades de atuação nestas escolas. reafirmar a necessidade de construir um referencial pedagógico metodológico que possibilite avançar na construção curricular. o Setor de Educação nos estados onde existe a Itinerante aprovada e legalizada pelo poder público. as Diretrizes Operacionais para as Escolas do Campo e o Estatuto da Criança e do Adolescente. GO. tomou espaço e animou os participantes. veio esclarecer o papel dos movimentos sociais no que diz respeito a ampliar a política pública de educação nos acampamentos e assentamentos da Reforma Agrária. pois muitos destes educadores haviam estudado no IEJC e esta era a oportunidade de retornar ao Instituto e reencontrar os colegas de turma. planejar ações conjuntas e projetar o jeito de fazer a Escola Itinerante do MST em cada situação de acampamento onde ela é organizada. sua participação em outros espaços formativos (não formais) foi fundamental. O PRIMEIRO SEMINÁRIO NACIONAL Em fevereiro de 2005. Santa Catarina e Paraná. visualizar o que compete ao Estado construir como política pública educacional e qual é o papel do Movimento Sem Terra frente a esta demanda colocada pelas Escolas Itinerantes. Ou seja. Mas não só isso. da história da Escola Itinerante. SC. Santa Catarina. Podemos dizer que este Seminário teve marcas importantes. a fim de trocar experiências. A própria expansão desta forma escolar. PR. neste sentido. AL e PI). o clima do seminário foi de estudo. Passaremos agora a refletir sobre os processos de formação por meio dos Seminários Nacionais de Educadores Itinerantes realizados nos últimos anos. assim como a troca de experiências pedagógicas construídas nessas escolas. O estudo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. além de representantes do Setor de Educação do MST dos estados de Goiás e Mato Grosso. Veranópolis – RS. forjou o Setor de Educação a buscar formas de reunir os sujeitos que atuam nestas escolas. avaliar a caminhada.contingente da juventude que estão fazendo a diferença nas diversas Escolas Itinerantes do MST no Brasil. bem como. a Escola Itinerante não teria construído a experiência.

em agosto de 2006. que visam levar nossos educandos para estudar nas cidades. valorizada. que constrõem experiências pedagógicas importantes. nos deu a certeza de que as nossas crianças precisam ter espaços próprios de auto-organização. pois são estes jovens. Por isso mesmo não devem guardá-las só para si. na cidade de Curitiba (PR). para grandes homens e mulheres! Em um texto sobre os educadores e sua formaçao. vez e voz. contrariando propostas. nem por eles mesmos. nos confiou um ofício. e em como a Escola Itinerante dos acampamentos. O que Coleção Cadernos da Escola Itinerante 129 . são educadores em situações. PR. PE eBA. 34). O SEGUNDO SEMINÁRIO NACIONAL No intuito de dar continuidade aos encontros de formação dos educadores itinerantes. e de como vai se construindo essa identidade no processo de luta pela terra. Tarefa. ou deixálas cair no esquecimento. escrevê-las. Desta vez. um sonho. diríamos. p. foi realizado um balanço dos 10 anos da Escola Itinerante dos acampamentos do MST. O estudo e o aprofundamento do Projeto Político Pedagógico desta escola foram fundamentais para a decisão do MST de continuar forjando políticas públicas de Escolas Itinerantes nos acampamentos. uma identidade nos resgatou. SC. talvez. A intenção foi fazer a relação entre projeto de sociedade e projeto de educação. 34) . por isso precisa ser respeitada. O estudo sobre o tema “Educação do Campo. Escola e Infância. seguramente a nossa responsabilidade é maior. GO. Continua no texto afirmando o que dizem esses educadores. Princípio que comunga com o Projeto de Educação do Campo. o fato de reunir pela primeira vez os educadores dedicados à ensinar e educar na itinerância é muito significativo para o MST. Por fim. em condições estruturais muitas vezes desfavoráveis. que vem educando nossa infância. realizou-se o II Seminário Nacional das Escolas Itinerantes do MST. com 120 participantes dos estados do RS. tampouco por suas famílias” (CAMINI. nos chamou para sermos sujeitos” (p. em construção desde 1998. nunca imaginadas. Nem por nós. ”Somos hoje educadores. o MST na construção de um novo projeto de sociedade: implicações para a Escola Itinerante” nos deu elementos para o debate. Se considerarmos que estas crianças e adolescentes têm sua primeira experiência no Movimento frequentando a Escola Itinerante. poder dizer a sua palavra na escola e comunidade.construirmos um processo conjunto de formação de educadores que atuam em Escolas Itinerantes nos estados onde já a legalizaram. sistematizá-las. o encontro também contribuiu para avançamos na compreensão da construção e elaboração do Projeto Político e Pedagógico dessas Escolas. ainda muito jovens. está envolvida e precisa deixar se envolver. mas ricas em materialidade. uma mística. municipais ou estaduais. O estudo sobre a Infância Sem Terra. 2006. Isabela Camini sintetiza de forma precisa os diferentes sentimentos que demarcam esta vivência: “Todos foram chamados a uma luta maior num Movimento maior. articulado ao projeto de Educação do Movimento. Em um clima de grande empolgação. Também. O desafio é socializá-las. em escolas fincadas no chão do acampamento. A infância é uma das fases mais bonitas e importantes no processo de formação da personalidade. Hoje. tomando por base as experiências em curso há mais tempo do Rio Grande do Sul e Paraná.

a Pedagogia do Movimento. nossa mística. de nível médio. expressando a sua compreensão sobre a escola. a escola onde é possível trabalhar com mais liberdade. enquanto espaço e tempo onde se educam e se reeducam as crianças. Em seus depoimentos ficou evidente a necessidade de não afastá-la das instâncias organizativas do Movimento. O que queremos e precisamos para frente? Qual o papel estratégico da escola. longe do controle do Sistema Escolar. a trajetória de luta pelo reconhecimento da Escola Itinerante. Neste segundo seminário. É uma escola capaz de fazer o “contraponto” à escola hegemônica. e onde se encontra uma escola conectada com a luta social dos 130 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. as contradições sociais. Santa Catarina. b) Organização Curricular. Alagoas e Piauí . tendo por base a prática vivenciada nas diferentes Escolas Itinerantes. por isso mesmo.significa fazer escola na perspectiva de um novo projeto. abordou-se a Organização Curricular. Paraná. superior e especialização. Queremos deixar claro que a Escola apresentada no Manifesto é a escola do Sem Terra. ela precisa de seu reconhecimento e respeito. e que possibilidades há de ela ser diferente da escola capitalista? E quando falamos no diferente. No primeiro. Ou seja. por suas importâncias na construção da escola que queremos: a) Gestão democrática. tomou-se a decisão de continuar realizando encontros estaduais e nacionais que visem a formação de educadores itinerantes. foi escrito um documento denominado . como são trabalhadas em nossas escolas? O trabalho faz parte do currículo? Que formas de trabalho existem em nossas escolas? O terceiro tema estudado foi o Perfil dos Educadores e educadoras: Qual o perfil necessário para ser educador das Escolas Itinerantes? Quais têm sido os limites na formação de educadores. Ele sintetiza. discutiu-se a Gestão Escolar. a presença de alguns dirigentes. foi fundamental. c) Perfil dos educadores itinerantes. assim como da importância de darmos continuidade e criarmos novos espaços de formação permanente. serão trazidos em forma de questionamentos. Há gestão democrática em nossas escolas? Quem dela participa? A comunidade escolar participa do dia a dia da escola? Há espaço para os educandos se organizarem? Nossa escola está organizada em tempos educativos? Quais? No segundo. incluindo a maioria dos jovens itinerantes em cursos formais do Movimento. garantindo unidade da proposta pedagógica destas escolas. e como isso pode ser na escola da infância. e como temos selecionado e incorporado estes na escola? Que programas de formação nós temos.Manifesto dos educadores . tem inspirado a organização de escola? Quais conteúdos/conhecimentos historicamente acumulados são trabalhados em nossas escolas? Que conhecimentos novos construímos no dia a dia da escola? Trabalhamos com temas geradores? E as práticas sociais. Como e porque organizamos o ensino em ciclos. Estes temas foram estudados em grandes grupos. em etapas? A forma como o Movimento se organiza. nossa escola é diferente em quê? Outros três temas foram tomados para o estudo. assim como do projeto de sociedade que defendemos. Neste sentido.que constará em anexo neste Caderno. pois compreendem que essa prática educativa em acampamentos é a que mais se aproxima da Pedagogia do Movimento. e o que é fundamental garantir nestes programas? Considerando a riqueza e os aprendizados obtidos neste seminário. em boa parte. nossos símbolos. Este encontro foi um momento oportuno de demarcar a importância de a Itinerante ser mais compreendida e assumida como escola do Movimento. nossa pedagogia. Aqui. os jovens e os adultos Sem Terra.

Também foi espaço de fortalecer a importância do registro das práticas vividas no Movimento e da produção literária para as crianças Sem Terra. entre os dias 05 e 09 de maio de 2008. GO.sujeitos que a criaram e que se mantém presente na luta. PE. Isto se deve ao momento histórico em que se encontra a EI. e a forma como as ações de enfrentamento do MST mexem com a Itinerante. precisamos garantir sim o seu reconhecimento pelo Estado. havendo representantes de AL. PA. os educadores demonstraram a alegria de juntos poderem afirmar mais uma vez a escola como parte da trajetória do Movimento. fortalecer os vínculos desta Escola com o Movimento. compreender a atual conjuntura de luta pela Reforma Agrária. Todavia. PR. tendo em vista que a Escola Itinerante. PI. quando se torna uma escola de assentamento. Diferente dos encontros anteriores. trouxe como lema os “12 anos de Escola Itinerante no MST”. SC e SP. RS. o seminário teve como objetivos socializar e refletir sobre as práticas pedagógicas e os estudos realizados sobre as Escolas Itinerantes dos acampamentos do MST no período de 1996 a 2008. Mesmo diante de uma conjuntura complexa. Projeto e Experiências (2008). Num clima de verdadeiro encontro e reencontro de pessoas que comungam do mesmo projeto social. o que expressa uma contradição. houve neste seminário um salto de qualidade no que diz respeito a participação de educadores itinerantes e de representantes de várias entidades. mesmo estando num espaço de disputa. Paraná. MA. da Expressão Popular. uma escola que não se fixa em lugar nenhum. fortalecer o vínculo e a pertença dos educadores itinerantes ao projeto de educação do MST e comemorar os 12 anos de existência desta Escola. também por enfatizar o contexto de luta de cada estado onde há Itinerantes legalizadas. colada à luta pela terra e à emancipação da classe trabalhadora. sendo reconhecida e valorizada pelas instâncias públicas como uma escola que atua em diferentes espaços e tempos. sujeitos dessa conquista. Momentos de estudo. espaços encharcados de práticas sociais que perpassam o cotidiano da escola. destaca-se a preocupação com o institucional. ainda é preciso aprender a mexer com a “coisa pública” sem perder a autonomia que nos afirma enquanto movimento social de luta pela terra e pela Reforma Agrária. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 131 . distancia-se da Pedagogia do Movimento. Portanto. Dentre os estudos realizados no decorrer do seminário. e outras autoridades convidadas. no entanto. vem adquirindo um maior reconhecimento legal. dada sua função social de acompanhar aqueles que estão na luta pela Reforma Agrária. DF. MS. realizado em Faxinal do Céu. reflexão. debate e comemorações perpassaram todos os dias do encontro e contribuíram para indicar as possíveis projeções referentes à organização da Escola Itinerante. O TERCEIRO SEMINÁRIO NACIONAL Este Seminário. houve o lançamento do primeiro caderno da Coleção de Cadernos da Escola Itinerante do MST. Foi um momento forte. BA. por estar diretamente vinculada aos acampamentos. e o livro Semente de letra (2009). sendo eles. ou seja. Teve aparticipação de 400 educadores de 13 estados da federação. em especial. Na oportunidade. com o título: Escola Itinerante do MST: História.

livre das amarras da escola capitalista. são questões que devem nos acompanhar sempre. Desafios que. a atualidade visava a necessidade de se construir o socialismo. negando a forma escolar capitalista à medida que vamos construindo outra e nova escola. afastar-se da vida implica em não questionar a realidade vivida. trabalhadores Sem Terra. foi o debate em torno das pesquisas . Neste exercício cotidiano. que não podemos deixar passar longe da escola? Na escola capitalista. as contradições sociais. trazer a vida para a escola implica em questionar a vida para atuar sobre ela. na perspectiva da educação socialista. Convencido de que precisamos estudar profundamente a história da escola capitalista. Abordagens feitas sob vários aspectos desta forma escolar são pesquisas que levam 132 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Santa Catarina. ou seja. na Rússia. às vezes serem dirigidas. qual a nossa atualidade? Quais as práticas. o poder excessivo do professor em da sala de aula. sem que haja opressão de umas sobre as outras. e a auto-organização dos educandos. da Unicamp. entendemos que. É um espaço. a relação estabelecida entre educador e educando e a matriz formadora conteudista que desconsidera as diversas dimensões do ser humano. Quando nos referimos à atualidade.Podemos dizer que o III seminário avançou significativamente em relação aos anteriores. ajudou-nos a refletir sobre importância de darmos passos para frente. Neste sentido.dissertações e tese . A atualidade na escola implica em uma análise crítica da realidade social para atuar sobre ela. com o tema “A construção histórica da escola capitalista e a perspectiva da escola socialista”. no Rio Grande do Sul. a possibilidade de mudanças é maior do que quando se tem todos os recursos disponíveis. Algo novo. embora já estejam sendo enfrentados pela Escola Itinerante. abrir espaços para que elas aprendam a conviver de forma coletiva. E para nós. A escola de lona representa a liberdade. destacamos a palestra do professor Luiz Carlos de Freitas. Na escola socialista. pois são princípios que embasam a Pedagogia do Movimento e perpassam todo o seu projeto educativo. trazido para este seminário.construídas sobre Escola Itinerante do MST. estas são questões que demandam mais estudos e continuidade na reflexão desde a prática concreta das itinerantes. a realidade e as contradições que cercam a escola. o que não nega a importância de exigir os direitos que temos. Paraná. Precisamos ter coragem de interrogar o sistema de avaliação classificatório e excludente. Quando se ensina em espaços de acampamentos. principalmente pela qualidade dos debates e reflexões que ajudam a construir a escola que queremos. próximas e mais distantes. Estimulou-nos ainda. entendemos que a escola é um espaço fértil para estimular as crianças para uma nova vida. se queremos interrogá-la e contrariá-la no dia a dia da Escola Itinerante. às vezes dirigir processos e. o planejamento de cima para baixo. Santa Catarina e Paraná. com segurança. ao longo dos 12 anos. momento privilegiado para construir a escola que queremos. Desta forma. Enfim. No que diz respeito à Auto-organização. a avançarmos na compreensão de duas categorias fundamentais da educação socialista: a atualidade – relação da escola com a prática social –. elas entenderão a importância de. Alagoas e Piauí .

estaduais e regionais. Embora dêem muito trabalho. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 133 . entendemos que o Movimento Sem Terra e as universidades têm dado passos importantes na compreensão da necessidade de haver pesquisas e pesquisadores intimamente ligados com as práticas sociais pesquisadas. porque comungam os mesmos objetivos. apresentando-a como um germe de uma escola contra-hegemônica. E este esforço tem sido feito e expressado em depoimentos por muitos educadores. de partilhar saberes. se consideradas as distâncias geográficas. na EI temos muitas coisas que nos unem e que são comuns entre nós. da classe trabalhadora. sobretudo. todos os educadores do MST. Eles se apóiam uns nos outros. . Temos claro que atuamos em uma escola do MST. Como exemplo do Manifesto dos Educadores. nesse encontro. Embora reconhecida e atuando em regiões bem diferentes do estado brasileiro. Há consenso entre os Sem Terra de que a escola deve estar onde o povo está! Os educadores itinerantes. Além de abrirem caminhos para novas investigações e pesquisas que venham contribuir na construção de uma nova escola e de um projeto educativo articulado a transformação social. eles ajudam a manter viva a ideia de continuarmos lutando pela escola em condições de itinerância. QUAIS APRENDIZADOS TIVEMOS NESSE PROCESSO? Neste percurso de encontros maiores de formação de educadores que acompanham a construção e expansão da Escola Itinerante. construído e aprovado pelos participantes do II Seminário em 2006. Todos têm acesso às teorias pedagógicas que embasam o projeto educativo do Movimento. Por isso mesmo precisamos colocar todo o nosso esforço para transformála. principalmente quando se encontram em processos de formação e em cursos mais prolongados. podemos apontar aprendizados importantes que se afirmam na trajetória dessa forma de fazer a escola do Sem Terra.Pesquisas sobre a Escola Itinerante: refletindo o movimento da escola. conforme podemos verificar no Caderno nº 3. Em primeiro lugar. Ela foi lida e aprovada em plenária pelos próprios educadores. e. Podemos dizer que a formação destes educadores também tem sido uma marca da Escola Itinerante. 2009. dada à realidade e o contexto social onde está inserida. dando-lhe novo sentido e significado. gostam muito de se encontrar. quanto para fora deles e a dar sentido ao ser educador desta escola. Em segundo lugar. dizer que são momentos/seminários que tem valido a pena realizá-los. e consta em anexo neste material. Estes seminários têm ajudado a criar e a disseminar a identidade da Escola Itinerante do MST. a reflexão. o mesmo projeto educativo e social. Juntos. as condições econômicas e outras tantas questões. Não há como ser o mesmo educador após ter passado por uma experiência de EI. podem contribuir com a análise. Ela força processos de formação. a formação dos educadores não se esgota nos seminários e encontros regionais. foi construída uma Carta pelos Educadores Itinerantes. de trocar ideias. tanto para dentro. com a disseminação destas experiências. Pela leitura e pelo debate em torno das pesquisas apresentadas.reflexões importantes sobre Escola Itinerante para o interior da academia.

Os debates. e apontado a possibilidade de se educar em luta e em luta se educar. afirmam aspectos da Itinerante como o vínculo com a vida e com a luta. a desistência das famílias tem se tornado menor. por estar fisicamente no contexto dos acampamentos e em luta. 134 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. a luta e a realidade como dimensão formadora. realizados nos seminários e suscitados pelo estudo em torno do papel da escola no MST. esteja onde estiver. refletindo a organicidade. Estes três grandes momentos de formação. à medida que se evidencia a importância de contrariar a lógica da escola capitalista. o desafio a ser enfrentado por nós. já estudada por nós como a escola que não atende às necessidades da classe trabalhadora. Nos acampamentos onde ela é pensada e planejada pelo conjunto da comunidade. que tem educadores comprometidos e educandos que gostam de sua escola. Alagoas e Piauí . que está bem organizada e articulada à Pedagogia do Movimento. Estas não podem passar ao largo da escola. realizados ao longo de 13 anos de Escola Itinerante. Paraná. a cada dia um pouco. é ter presente que esta escola foi uma conquista dos Sem Terra e. é um espaço privilegiado de gestação da escola que queremos. Esta Escola tem desconstruído a idéia da luta como sacrifício. Todavia. Santa Catarina. ajuda a dinamizar os acampamentos e o próprio Movimento. nos fazem entender que a EI.

CAMINI. maio. DALMAGRO. 2006. Educadores Itinerantes e sua formação. CAMINI. 2007. 2006. 1996. Isabela. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 135 . Isabela (Orgs). Princípios da Educação do MST. Projeto e Experiências. CAMINI. ISBN 85-7391-076. Abril/ 2008. MST. 2009. Sandra. Márcia. Ano XXVII. Cadernos da Escola Itinerante – MST. Pesquisas sobre a Escola Itinerante: refletindo o movimento da escola. pp. 2007. MEURER. 34-43. 104. Expressão Popular. nº. Isabela.) Escola Itinerante do MST: História. nº. Interlocução Entre Universidade e Escola Itinerante do MST. DAVID. Curitiba. Cadernos da Escola Itinerante – MST. nº 3. Porto Alegre. CAMINI. São Paulo. 1. Porto Alegre. PR. Ano VIII. (Org. DAVID. Semente de letra. Ane Carine. Ano II. Ane Carine. Isabela. UFSM. In: MEURER.REFERÊNCIAS CAMARGOS. PR. Curitiba. César de. Espaços-tempos de Itinerância: interlocuções entre Universidade e Escola Itinerante do MST: Santa Maria: Editora da UFSM. Santa Maria: Ed. Dez anos de Escola Itinerante nos Acampamentos do MST/RS: Qual o Balanço? Boletim da AEC-RS. de César (Orgs).

Paraná.136 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Santa Catarina. Alagoas e Piauí .

Coleção Cadernos da Escola Itinerante 137 .

138 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Santa Catarina. Alagoas e Piauí . Paraná.

“São verdadeiramente poucos aqueles que refletem e ao mesmo tempo são capazes de agir. mas debilita. (Goethe) MANIFESTO DOS EDUCADORES E EDUCADORAS Entre os dias 21 a 26 de agosto de 2006. Santa Catarina.984 educandos envolvidos num processo educativo permanente visando ao mesmo tempo à garantia do direito à educação. 21 a 26 de agosto de 2006. sendo Rio Grande do Sul. A ação revigora. 277 educadores e 2. Goiás e Alagoas e dois Estados em processo de legalização – Pernambuco e Piauí. mas limita”. São 32 escolas. Entre os vinte e quatro Estados onde fazemos a luta pela Reforma Agrária. (2) refletir sobre a escola que estamos construindo por meio da Escola Itinerante. Os objetivos do seminário foram (1) realizar um balanço político e pedagógico dos 10 anos das escolas Itinerantes do MST. Santa Catarina. representantes das Secretarias Estaduais de Educação do PR e PE e educadores convidados. a elevação da escolaridade e a elevação do nível cultural da população acampada. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 139 . e (3) projetar o próximo período tendo por base o acúmulo construído até aqui em relação aos desafios colocados pelo MST no âmbito da educação das famílias acampadas. Goiás e Pernambuco. Paraná. A reflexão amplia. Escolas Base. dirigentes do Setor de Educação e Frente de Massa do MST. Rio Grande do Sul. reunimo-nos em Curitiba. temos Escolas Itinerantes legalmente aprovadas e reconhecidas pelo Conselho Estadual de Educação em cinco deles. PR no II Seminário Nacional das Escolas Itinerantes dos Acampamentos do MST. 113 educadores e educadoras representantes das escolas itinerantes dos acampamentos do MST dos Estados do Paraná.ANEXOS II SEMINÁRIO NACIONAL DAS ESCOLAS ITINERANTES DOS ACAMPAMENTOS DO MST Curitiba-PR.

um/a jovem e um/a adulto/a? Que formação de educadores dará conta destes desafios? Tais desafios têm provocado. Organiza os tempos educativos de acordo com as circunstâncias da luta do acampamento. Onde o acampamento está bem organizado. nos seus aspectos organizativos. Ao mesmo tempo. fator mobilizador das famílias para participar da ocupação. mantivemos um nível de diálogo que se estabelece entre demandantes e proponentes como sujeitos de direitos. por conseguinte. Alagoas e Piauí . uma nova realidade se expressa: a escola não é apenas elemento de luta. na relação com o poder público . como condição de auto-estima e dignidade. Uma vez consolidado este processo da organização da escola e do reconhecimento pelo Estado. embaixo das árvores. e detentores dos 140 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Tanto é verdade que constatamos que os avanços da escola estão diretamente ligados ao avanço da organização do acampamento. os educadores. esta organização se reflete na escola. As organizações que respondem no cotidiano pela escola itinerante são os acampamentos. ciclo básico e por classes multisseriadas. Há que se registrar que nenhuma escola foi concedida gratuitamente pelo Estado. nas marchas. Isto revela. organizativa. matrícula.no que se refere ao reconhecimento das nossas iniciativas. luta e resistência para uma criança. Aí. para permanecer nos acampamentos e no campo pedagógico. por um lado. nos Encontros. pedagógica ao mesmo tempo em que impõem uma nova qualidade ao debate sobre a educação nas áreas de Reforma Agrária e maior valorização da escola para a população acampada e mesmo para o conjunto do MST nestes Estados. nas lutas. nas ocupações. como: que escola para dar conta dos intensos desafios colocados pela situação de acampamento. A escola nos acampamentos é uma ferramenta de luta. cada um exercendo papéis distintos e complementares. A Escola Itinerante é uma escola pública estadual e está onde está o povo em luta . nos Congressos. aí está a Escola Itinerante. na beira do rio. Paraná. Ao par disso. etc. Santa Catarina. mas conquistadas pelos Sem Terra por fortes pressões e mobilizações. por meio do Regimento Interno. uma grande valorização da certificação escolar para o nosso povo. Talvez esta nova realidade indique que a cultura do direito à escola esteja a tal ponto instituído a ponto de vivermos um contexto em que a própria base exige a organização da escola já nos primeiros dias de acampamento. registro da avaliação. ela é sementeira da escola que estamos construindo. pois o direito à escola está assegurado. outro olhar sobre a escola e sua dimensão política. a Escola Base e o Estado. ganham importância outros elementos. o MST. controle de freqüência. se impõe a necessidade de observar os mecanismos de certificação e validação do tempo escolar.no acampamento.BALANÇO E PERSPECTIVAS DOS 10 ANOS DA ESCOLA ITINERANTE DOS ACAMPAMENTOS DO MST As escolas itinerantes se caracterizam pelo seu forte vínculo com a luta pela Reforma Agrária. nas beiras das estradas. a escola itinerante é uma antecipação da escola do assentamento. enfim. Seus educadores e educadoras são do acampamento e formados pelo MST. Organiza o processo educativo de diversas formas – por etapas. por ciclos. políticos e pedagógicos. De certa maneira. nas várias situações em que o MST se encontra. nos acampamentos onde se organiza a Escola Itinerante.

enfim. concluímos pela importância de manifestar ao conjunto do MST. nas igrejas. Temos articulado todas as formas de luta e pressão sobre o Estado. Conhecer o funcionamento do sistema educacional assim como as atribuições e competências de cada nível e esfera de governo. na condição de escola pública. a instalação da infra-estrutura necessária ao bom desenvolvimento do trabalho pedagógico. exerce uma potencialidade sobre o processo de formação dos lutadores e lutadoras. nós sabemos que em se tratando de educação dos camponeses e camponesas em luta há que se mobilizar permanentemente. Para tanto. por outro. pela sua trajetória e pelos avanços conquistados nestes 10 anos. movimenta-se com autonomia sobre a organização e o processo pedagógico. A Escola Itinerante se legitima e ganha importância na nossa organização por 10 razões: a. d. Já compreendemos também que para qualificar esta relação. por meio da Pedagogia do MST – os protagonistas são os Sem Terra e têm o direito de pensar. Neste particular. os recursos para merenda escolar. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB e Diretrizes Operacionais da Educação Básica nas Escolas do Campo). mas não será implementada de forma mecânica. depois a elevação do nível de escolaridade. ampliam o debate sobre a nossa luta no intuito de conquistar apoios na comunidade local. quando acampados. é necessário conhecer a Legislação Brasileira (Constituição Federal. Cada Estado pode organizá-la de acordo com suas necessidades e compreensão da concepção de educação nas escolas itinerantes. sobre os tempos educativos e mobiliza especialmente as energias da juventude. nos diversos espaços onde a sociedade se organiza. 2. uma exigência se manifesta: reafirmar a importância da nossa autonomia pedagógica. precisamos do reconhecimento do poder público por meio da contratação de educadores. Necessário também conhecer a organização. E ter este direito respeitado pelo Estado. que junto com as famílias acampadas. biblioteca e aquisição de materiais didático-pedagógicos. Neste sentido. nos parlamentos. é uma prática recomendada para todos os acampamentos do País. o que segue: 1.instrumentos necessários à sua efetivação. Embora o direito à educação esteja legitimado pela trajetória da sociedade. Os jovens estão Coleção Cadernos da Escola Itinerante 141 . c. Uma relação necessária à realização dos nossos objetivos. b. assegurado pela LDB. assim como as brechas ali presentes que nos permitem avançar. quais sejam em primeiro lugar assegurar a efetivação do direito à escola. envolvendo as crianças e a juventude como protagonistas da luta pela educação. é um instrumento de resistência da classe trabalhadora e mobiliza os acampamentos. estrutura e funcionamento da escola – os processos administrativos que cuidam da vida escolar dos educandos. propor e executar o seu projeto político-pedagógico. A Escola Itinerante. organizar bem a documentação dos educandos e lutar pelo direito à documentação para aqueles que não a possuem. militantes e dirigentes do futuro. jovens e adultos acampados/ as. a garantia do direito ao acesso à escola para as crianças.

reúne a família e contribui para a afirmação da comunidade acampada como forma por excelência de pressão pela Reforma Agrária. A composição de um quadro de educadores formados e firmados na tarefa de conduzir o processo educativo. i. À essas condições. ou seja. sistematização e teorização das práticas. mobilizando os instrumentos necessários à esta dinâmica.assumindo a tarefa de educadores e a organização deve preocupar-se com sua formação. Santa Catarina. Tendo como base a pesquisa da realidade. atua no resgate de valores imprescindíveis à formação do novo sujeito social para uma nova sociedade e se reflete na vida da comunidade acampada. g. quebrando paradigmas pré-estabelecidos na educação. responsável institucionalmente pela documentação escolar dos educandos em situação de acampamento. componente essencial da qualidade na educação. pois o território da escola itinerante é estadual. as crianças que convivem e participam deste processo percebem sentido na educação neste contexto. 5. h. Para tal intento. ganha importância a formação permanente dos educadores como forma de qualificar a prática no confronto com as teorias pedagógicas. numa escola do campo e de âmbito estadual. pois assegura a identidade camponesa e Sem Terra. 4. 3. que a nossa escola esteja no campo. como é a educação. A Escola Base. afirmando o princípio organizativo do profissionalismo no desenvolvimento de tarefas que exigem especialização. e. se associa a organização coletiva dos educadores – grupos de estudo. jovens e adultos acampados que desafiam permanentemente o conhecimento historicamente acumulado pela humanidade. Paraná. deve estar localizada num assentamento. a pesquisa dos sujeitos e a intervenção refletida na realidade. a elevação do nível de consciência e de criticidade das crianças contribui no processo da organicidade do acampamento e da escola e sinaliza para a consciência das famílias a importância da Educação do Campo. A Escola Itinerante deve caminhar na perspectiva da formação humana. Os conteúdos devem orientar-se pelos componentes da vida das crianças. 142 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Os educadores conhecem e participam do processo histórico das famílias e da comunidade. no campo. A Escola Itinerante é um direito que se institui em movimento. Alagoas e Piauí . f. Uma escola organizada no acampamento pela iniciativa do MST dá vida e impõe outra dinâmica ao acampamento. E ganha importância fundamental a nossa luta por um Plano Nacional de Formação de Educadores/as do campo. é um requisito fundamental. por meio de núcleos de estudo nos acampamentos. j. a ocupação do latifúndio do conhecimento junto com a ocupação do latifúndio da terra. porque mobiliza forças. Deve ter uma posição política e pedagógica do MST e um Regimento que contemple as necessidades da comunidade acampada.

A gestão da Escola Itinerante deve estar em acordo com os princípios organizativos do MST. concursos nacionais ou estaduais para divulgar o trabalho realizado com as crianças acampadas na Escola Itinerante. 10. Poder estudar nela. Curitiba. Divulgação sobre as nossas práticas e o nosso jeito de educar – por meio de palestras. 26 de agosto de 2006. em todos os momentos de formação dos educadores do MST. como forma de efetivar a prática nesse processo de construção da Escola Itinerante. como forma de contribuirmos generosamente com a implementação nos Estados que estão em fase inicial de organização.6. livros. e pelas diversas formas de expressão artística. PR. Para tanto. 7. “Escola Itinerante. que se faz por meio das instâncias e coletivos. Criar a mística da Brigada da Escola Itinerante. tempos educativos e ações culturais coerentes com a perspectiva da formação humana. 8. na teoria e na prática. Nossa ousadia em romper com o desenho do latifúndio na terra deve se expressar da mesma forma na ousadia em romper com o tradicional desenho da escola proposta pelo capitalismo. um marco na história. Coleção Cadernos da Escola Itinerante 143 . para nós é uma vitória”. cartilhas. vídeos. Assegurar a concepção sistemática de registro nos diversos momentos pedagógicos. 9. devemos organizar a escola – currículo.

Neste sentido. Companheiros e Companheiras. PI. CONTEXTO A Escola Itinerante vem se consolidando como a escola dos acampamentos do MST. em agosto de 2006. entre outros convidados. Frente de Massa e da Direção Nacional do MST. pesquisadores e assessores. integrantes do Coletivo Nacional de Educação. dentre os 24 estados da federação em que o MST está organizado. Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Ademais. Paraná. RS. associada à luta pela Reforma Agrária. Piauí. Atualmente. SC e SP. PE. no III Seminário Nacional das Escolas Itinerantes dos acampamentos das áreas de reforma agrária. fortalecer os vínculos desta Escola com o Movimento. com o apoio do Governo do Estado do Paraná e da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE. PR. BA. MA. representantes das Secretarias de Estado da Educação. reafirmamos o Manifesto dos Educadores e Educadoras da Escola Itinerante do MST. O III Seminário Nacional acontece em um momento em que se amplia o número de estados que possuem Escolas Itinerantes legalizadas. envolvendo 3600 educandos com 348 educadores. DF. o que exige ampliar o diálogo entre estes estados a fim de qualificar a proposta pedagógica da mesma. a Escola Itinerante precisa fortalecer os seus 144 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. as Escolas Bases das Itinerantes. assumido no II Seminário. Reunimos entre os dias 05 a 09 de Maio de 2008. procurando dar seqüência ao debate/estudo sobre a Escola Itinerante. Dados ainda insignificantes diante do grande número de acampamentos de sem terras existentes no Brasil. realizado em Curitiba. Teve como objetivos a socialização e reflexão das práticas pedagógicas e dos estudos realizados sobre as Escolas Itinerantes dos acampamentos do MST. a Coordenação de Educação do Campo do MEC.Paraná. PA. a Escola Itinerante é reconhecida pelo poder público em seis deles: Alagoas. buscando ampliar a capacidade crítica e organizativa dos seus sujeitos. O Seminário foi organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e a Secretaria de Educação do Estado do Paraná. 09 de Maio de 2008. MS. Santa Catarina. em Faxinal do Céu . 400 educadores de 13 estados da federação: AL. construindo novas relações sociais. Dentre os participantes se encontram os educadores das escolas itinerantes. em cerca de 37 acampamentos das áreas de Reforma Agrária. educadores das Redes Estaduais de Educação.CARTA DOS/AS EDUCADORES/AS DAS ESCOLAS ITINERANTES DOS ACAMPAMENTOS DO MST Faxinal do Céu – PR. GO. Este Seminário é continuidade dos dois anteriores. Contamos hoje com aproximadamente 37 escolas itinerantes. compreender a atual conjuntura de luta pela Reforma Agrária e comemorar os 12 anos da Escola Itinerante. Paraná. Goiás. Alagoas e Piauí .

sabemos que a forma de organização das Escolas Itinerantes é diferenciada de um estado para outro.vínculos com os desafios maiores do MST. os processos avaliativos. A auto-organização dos educandos. Nessa transição há uma tendência para perder a riqueza do trabalho pedagógico desenvolvido nas Itinerantes. Identificamos ainda. uma vez que encontra-se em um espaço privilegiado que favorece a construção de uma escola que atenda os interesses da classe trabalhadora. que no decorrer do tempo. Compreendemos que isso se deve. avançar na construção da Escola Itinerante do MST. entretanto coloca-se o desafio de. além de sua capacidade pedagógica em formar política e organizativamente os trabalhadores rurais sem terra. Todavia. muita atenção para evitarmos cair nesta armadilha. provocando a desmotivação dos educadores e a descontinuidade do processo pedagógico. os conteúdos socialmente úteis e a relação da escola com a prática social são indícios da escola que queremos. resguardando os princípios da educação e a Pedagogia do Movimento. Isto acentua a necessidade de formação. assumindo a lógica do Estado. Entendemos que os acampamentos são territórios potenciais para a materialização de uma nova forma escolar. tende-se à acomodação: diminuindo os vínculos orgânicos entre escola e acampamento. pois percebe-se que a prática pedagógica das Escolas Itinerantes é fortalecida pela dinâmica da luta presente no acampamento. que compartilhe os princípios e a Coleção Cadernos da Escola Itinerante 145 . a gestão democrática. É necessária. que aponte para a superação da escola capitalista. em parte. às dificuldades encontradas na produção e organização dos assentamentos. considerando-se a particularidade dos acampamentos. Outro ponto crítico encontrado diz respeito à descontinuidade existente entre a escola do acampamento e do assentamento. porém. os ciclos de formação. considerando a dinâmica de organização do Movimento em cada estado. Um limite destacado nas Escolas Itinerantes diz respeito à tendência de institucionalização das práticas pedagógicas. O balanço realizado neste seminário apontou para os avanços que obtivemos e desafios que persistem. com maior adesão acrítica ao sistema escolar vigente. a falta de um coletivo permanente de educadores itinerantes dificulta o processo de consolidação da proposta pedagógica desta escola. a organização coletiva dos educadores. os temas geradores. Por sua própria lógica a Escola Itinerante tem como característica a rotatividade dos educadores. Ressaltamos que vêm crescendo no MST a importância desta escola. que permita compreender as questões maiores da Pedagogia e da educação no MST. PROPOSIÇÕES Avançar na compreensão da Escola Itinerante do MST. Entretanto. dado seu papel social na formação das novas gerações. Isto ocorre no momento em que a escola deixa de atuar para a emancipação da classe trabalhadora. porém precisam ser compreendidos com profundidade a fim de avançarmos na construção da escola socialista.

Santa Catarina. Produzir material de apoio pedagógico ao trabalho dos educadores e ao conjunto do acampamento. 146 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul. Buscar apoio junto ao MEC para agilizar a legalização de Escolas Itinerantes em outros estados. Consolidar um coletivo de educadores para atuar nas Escolas Itinerantes.Pedagogia do Movimento. no sentido de construir um programa de formação para os educadores. Educadores e Educadoras das Escolas Itinerantes Faxinal do Céu – PR. devidamente apoiados. entre outras tantas temáticas relacionadas com a nova forma escolar. para a sistematização do trabalho desenvolvido. a organização do trabalho escolar e pedagógico. respeitando a dinâmica e a itinerância dos acampamentos e as particularidades de cada estado. 2008. que abordem a relação escola – comunidade. com o intuito de assegurar as conquistas e avançar na experiência. tanto no sentido de a escola estar em sintonia com a realidade social quanto de a comunidade assumir a escola como sendo sua. Fortalecer a luta para que a Escola Itinerante seja ampliada para os estados que tiverem condições. Isto permite a continuidade desta escola no assentamento. Paraná. o processo de avaliação. articulado junto ao Coletivo Nacional de Educação. Fortalecer os vínculos desta escola com a comunidade acampada. apoio para formação de educadores. a escolha dos temas geradores. Alagoas e Piauí . infra-estrutura. assegurando-se que a proposta pedagógica esteja coerente com os princípios da educação no MST. Ampliar o diálogo entre os estados que possuem Escola Itinerante. a construção da estrutura física da escola. sistematização e material didático.

Coleção Cadernos da Escola Itinerante 147 .

Alagoas e Piauí . Paraná. Santa Catarina.148 A Escola Itinerante nos estados do Rio Grande do Sul.