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I.

INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA
1.1 As grandes transformações no Ocidente
A Sociologia, como “ciência da sociedade”, foi construída por
vários autores que procuraram conhecer e refletir sobre a relação entre os
homens e a natureza, a partir do século XV, com as transformações
significativas que desmontaram a sociedade feudal, dando origem à
sociedade capitalista.
Estas transformações estiveram vinculadas entre si e
devem ser compreendidas como encadeamento de fatos que
transformaram a sociedade a partir do século XV: a expansão marítima,
as reformas protestantes, a formação dos Estados nacionais, as grandes
navegações e o comércio ultramarino, o desenvolvimento científico e
tecnológico. Estes acontecimentos foram primordiais para alavancar o
movimento de intelectuais que se propuseram a explicar a natureza e a
sociedade.
A expansão marítima com as grandes navegações teve papel
importante no processo de transformação social no Ocidente. Assim, com
a circunavegação do continente africano, bem como o desenvolvimento
da rota para as Índias e para a América, ampliou-se a concepção de
mundo dos povos europeus. A definição do mundo territorialmente mais
amplo, com novos povos, novas culturas, novos modos de explicar as
relações sociais e a natureza, proporcionou a reformulação no modo de
ver e de pensar dos europeus.
Na medida em que se travavam os relacionamentos entre povos e
culturas, em que os europeus instalavam colônias na África, na Ásia e na
América, expandia o comércio de novas mercadorias entre as metrópoles
e as colônias, assim como entre os países europeus. Assim, expandia o
mercado com características mundiais. Entre as principais mercadorias
que entraram na Europa com a essa expansão estiveram: sedas,
especiarias, açúcar, milho, tabaco e café.
Com a exploração de metais preciosos, principalmente na
América, e o tráfico de escravos do continente africano para suprir a mão
de obra nas colônias houve transformação no perfil do comércio, que
deixou de ficar restrito aos mercadores das cidades repúblicas (Veneza,
Florença ou Flandres), com a inserção de grandes comerciantes e até
mesmo de soberanos dos grandes Estados nacionais em formação na
Europa.
A expansão territorial e comercial acelerou o
desenvolvimento da economia monetária, com a acumulação de capitais

pela burguesia comercial, geradora do processo de industrialização da
Europa.
As mudanças nas formas de se produzir riqueza só
funcionaram com modificações na estrutura política. Até então, o sistema
político feudal restringia as tarefas administrativas, fiscais, legais e
militares, aos privilegiados da nobreza e do clero, em algumas cidades,
criando entrave para o surgimento de novas atividades econômicas.
Aos poucos, desenvolveu-se a estruturação estatal, tendo
como base a centralização da justiça, com novo sistema jurídico baseado
no Direito Romano; a centralização da força armada, com a formação de
exército permanente; e a centralização administrativa, com aparato
burocrático ordenado hierarquicamente, com sistema de cobrança de
impostos que permitiria a arrecadação permanente para manter o aparato
jurídico, militar e burocrático sob comando único. Assim, nasceu o Estado
moderno, que favoreceu a expansão das atividades vinculadas ao
desenvolvimento da produção têxtil, da mineração e da siderurgia, bem
como do comércio interno e externo.
No século XVI, o movimento da Reforma Protestante
contribuiu para a valorização do conhecimento racional, em oposição aos
princípios da Igreja Católica quanto à interpretação das Escrituras
Sagradas e relação com Deus. Além da nova maneira de relacionamento
com o sagrado, o movimento da Reforma Protestante preconizava
também nova forma de analisar o universo. A razão passa a ser elemento
essencial para o conhecimento do mundo. Assim, os homens se tornaram
livres para julgar, avaliar, pensar e emitir opiniões sem submissão à
autoridade transcendente ou divina, como defendia a Igreja Católica.
O conhecimento racional do universo e da vida dos homens
em sociedade enfrentou reação da Igreja Católica, como o Concílio de
Trento e a Inquisição, que impediam qualquer manifestação que
colocasse em dúvida a autoridade eclesiástica, tanto no campo da fé
quanto nas explicações sobre a sociedade e a natureza.
Embora se colocasse frontalmente contra o dogmatismo e
a autoridade eclesial, a razão, ou a capacidade racional do homem para
conhecer, abriu possibilidades para explicar os fatos sociais. A nova forma
de conhecimento da natureza e da sociedade, na qual a experimentação e
a observação foram fundamentais, apareceu nas obras de pensadores
como: Nicolau Maquiavel (1469-1527), Galileu Galilei (1564-1642),
Thomas Hobbes (1588-1679), Francis Bacon (1561-1626), René
Descartes (1596-1650), John Locke (1632-1704), Isaac Newton (16421727).

II. Na Europa. como o trabalho na fábrica. como aconteceu com os pensadores no século XIX. Assim. onde se dá a relação capital-trabalho que definirá. elevando o volume da produção de mercadorias. as classes sociais etc. criando conceitos com objetivo de explicar a sociedade. procurando compreender como os homens agem em sociedade. essa classe atingia todos os pontos do mundo com seus tentáculos de compra e venda de mercadorias. colocando tanto problemas teóricos quanto práticos. como a escola. Com o desenvolvimento da manufatura. Não é o homem enquanto ser isolado da história que interessa ao estudo da sociedade. havia produção de ferro e aço. há desenvolvimento da idéia de que os sujeitos são plenamente autônomos. visando produzir mais com menor número de pessoas. é o conjunto de relacionamentos que os homens estabelecem entre si na vida em sociedade. Há ainda aqueles que dão maior importância ao conjunto das práticas que definem as próprias relações entre sujeitos e sociedade. investiam nas invenções. como as pessoas obedecem a regras definidas pela sociedade e que são exteriores a elas. com ênfase diferenciada na relação sujeito e sociedade. na maioria dos países europeus. de conflito. estudaram o problema do sujeito e da ação coletiva e social. financiando a criação de máquinas para a aplicação no processo produtivo. com o fim da sociedade feudal e a constituição da sociedade capitalista. o objeto da sociologia como ciência. com o objetivo de aumentar a produtividade do trabalho. No final do século XVIII. Outros privilegiarão a sociedade e suas instituições. aumentando assim os lucros. Assim. O que interessa à sociologia não é o sujeito isolado. destaque para três que iluminaram o caminho para se compreender a sociedade atual. mas os homens enquanto seres que vivem e fazem a história. no âmbito das questões econômicas. como as ações de sujeitos diferentes se influenciam reciprocamente. a relação entre sujeito e sociedade é o problema central da sociologia. como práticas sociais definem individualidades e. Portanto. trabalhadores. grupos homogêneos. Assim. O homem passará a ser visto.No final do século XVII. isto é. a existência do mercado no qual os proprietários individuais vendem suas mercadorias criará as condições para que se pense a sociedade apenas como o conjunto de interesses individuais dos agentes privados. A consolidação do sistema capitalista na Europa. surgiram pensadores que desenvolveram reflexões sobre a sociedade de maneiras divergentes. A máquina passa a substituir o trabalho manual. mas como produto social. livre e absoluto desde o nascimento. Na sociedade capitalista. de descaroçar algodão. Uns darão ênfase ao papel ativo do sujeito na escolha das ações sociais. aumentava a organização da produção manufatureira. Essas e outras questões os sociólogos procuram compreender. a família. que lançaram as bases da sociologia como ciência. de um lado. forneceu elementos que serviram de base para o surgimento da sociologia como ciência particular. Entre os pensadores clássicos da sociologia. de interdependência etc. com a utilização do carvão mineral. como um ser autônomo. podendo ser relações de cooperação. surgem as máquinas de tecer. mas ganha destaque com o capitalismo. ao mesmo tempo. como no caso das eleições em que o que interessa é a maneira como o sujeito escolhe seu candidato com base nas escolhas dos outros eleitores. com variação entre os pensadores clássicos da sociologia no que respeita à ação individual ou à ação coletiva. europeizando o mundo. a teoria econômica consolidará seus modelos com base nas ações individuais. Naquele contexto. comerciantes e banqueiros constituíram a classe com poder devido às ligações que mantinham com os monarcas. do outro. capitalistas. do ponto de vista sociológico. a partir de sua inserção na sociedade e nos grupos sociais que a constituem. bem como a aplicação industrial da máquina a vapor e outros progressos. . Esse individualismo tem suas raízes em momentos anteriores da história européia. não dependentes da coletividade a que pertencem. A sociologia nasceu no século XIX como reação ao individualismo predominante. porém. OS PENSADORES CLÁSSICOS: RELAÇÃO SUJEITO E SOCIEDADE A sociologia não trata o sujeito como um dado da natureza. Ao mesmo tempo em que crescia o comércio. no século XIX. mas inter-relacionado com os diferentes grupos sociais dos quais faz parte. Além de sustentar o comércio entre os países europeus. Todos. A compra de matérias primas e o crescimento da produção por meio do trabalho domiciliar e oficinas proporcionavam o desenvolvimento de novo processo produtivo em oposição ao das corporações de ofício. contrapondo à ação individual. que obrigam os sujeitos a incorporar regras exteriores definidas e que as pessoas devem seguir como acontece na escola. os organizadores da produção passaram a se interessar cada vez mais pelo aperfeiçoamento das técnicas de produção. Com isso.

escolhe por razões afetivas. portanto. Só há ação social quando o sujeito tenta estabelecer comunicação. na vida em sociedade o homem defronta com regras de conduta que não foram diretamente criadas por ele. Para Weber. Exteriores porque foram criadas pela coletividade e existem fora do homem quando nascem. os homens para viver precisam. isoladamente. Sendo assim. Com origem na sociedade e não na natureza. toda vez que se estabelecer uma relação significativa. 4. Essas relações sociais de produção constituem a base que condiciona a sociedade. essa ação só é compreensível se houver a percepção de que a escolha individual tem como referência o conjunto dos demais eleitores. Exemplo nesse sentido preferido por Durkheim é a educação como fato social. Para este sociólogo francês. considerando também o preço mais acessível. que exemplificaremos com a compra de tênis em uma loja. Os homens em coletividade criam e modificam as leis. as normas e regras sociais são o resultado do conjunto de ações individuais. ou seja.. Coercitivos porque devem ser seguidas pelos membros da sociedade e implica punição. Assim. a sociedade pode ser compreendida a partir do conjunto das ações individuais reciprocamente referidas.a) Émile Durkheim (1858-1917). Na sua concepção. Adquire o tênis que compra tradicionalmente. Família etc. estabelecendo relações sociais mantidas continuamente pelas ações individuais. Compra o tênis que mais gosta. as religiões. a sociedade prevalece sobre o sujeito. portanto. Durkheim propôs método para a sociologia. os fatos sociais à luz da sociologia são diferentes dos fatos estudados por outras ciências. como a psicologia. A instituição é outro conceito importante para Durkheim. Assim. Ação afetiva – determinada por afeto ou sentimento. ou seja. porque socializa o sujeito e faz com que ele assimile as regras e normas necessárias à vida comum. decretos. para jogar tênis ou realizar corrida. . a ação do eleitor. pois os sujeitos escolhem formas de conduta. sem o que não existiriam como seres vivos. Assim. como analisar os fatos sociais como se fossem objetos que existem independentemente de idéias e vontades. que define seu voto pela ação dos demais eleitores. pois o sujeito não nasce sabendo as normas de conduta necessárias para a vida em sociedade. Para estudar a sociedade. aceita as leis e a violação das mesmas pode acarretar punições. comer. Exército. ou seja. há então relações sociais. Sem essas regras. o que o sujeito faz orientando-se pela ação de outros sujeitos. definiu como objeto da sociologia a ação social. estabeleceu quatro tipos de ação social. até mesmo as que contemplam o homem. Duas características básicas permitem a identificação dos fatos sociais na realidade: são exteriores e coercitivos. sem deixar que suas idéias e opiniões interfiram na observação dos fatos sociais. transformar a natureza. caso não seja seguido pelo sujeito individualmente. isto é. Por exemplo. independentemente da utilidade ou do preço do artigo. deve descrever a realidade social. os fatos sociais como objeto de estudo da sociologia são essas regras e normas coletivas que orientam a vida dos sujeitos em sociedade. a sociedade não existiria e por isso devem ser obedecidas. Ação racional com relação a valores – determinada pela crença consciente em um valor considerado importante. sentido entre várias ações sociais. ou seja. independentemente desse valor na realidade. utensílios etc. As idéias coletivas. enfatiza a neutralidade e objetividade que o pesquisador deve ter em relação à sociedade. b) Max Weber (1864-1920) – sociólogo alemão que propôs a análise da sociedade centrada nos atores e em suas ações. Assim. Ação tradicional – determinada por costume ou hábito arraigado. 2. como o Estado. que são transmitidas para gerações futuras na forma de códigos. O homem. toda sociedade precisa educar seus membros. Assim. mas que existem e são aceitas na vida em sociedade. Para Durkheim. inicialmente. Ação racional com relação a fins – determinada pelo cálculo racional que coloca fins e organiza os meios necessários. Entre os exemplos de instituições: Igreja. Para Weber. o mercado econômico. Regras que são transmitidas às gerações futuras. Compra o tênis que estiver de acordo com o fim proposto. 1. Na sua concepção. 3. o estudo de qualquer sociedade deveria partir das relações sociais que os homens estabelecem entre si para utilizar os meios de produção e transformar a natureza. devendo ser seguidas por todos. só existem porque muitos sujeitos orientam reciprocamente suas ações em um determinado sentido. fazendo com que aprendam as regras necessárias à organização da vida social. um dos exemplos no raciocínio de Durkheim são as leis que existem em toda sociedade e organizam a vida em conjunto. c) Karl Marx (1818-1883) – pensador alemão que considerou as condições materiais da sociedade condicionadas às demais relações sociais. Na sua concepção. construir abrigos. Nesse sentido. a partir de suas ações com os demais. que todos na sua família estão acostumados a comprar. constituições etc. Compra o tênis pela marca como valor.

esse tipo de relação promove a exploração do trabalhador pelo capitalista. Interessados em pensar a relação entre sujeito e sociedade no mundo moderno. Na visão de Marx. ao mostrar as possibilidades de transformação da realidade social. os capitalistas. chamados no seu conjunto de proletariado. os trabalhadores. Marx considerou que a ciência deve ter papel político crítico em relação à sociedade capitalista. tomando partido da classe trabalhadora. do outro. devendo ser instrumento não só de compreensão. Assim. a sociedade capitalista. Em sua concepção. dependendo do que foi estabelecido como central: se o sujeito. ferramentas. na sociedade capitalista as relações sociais de produção definem dois grandes grupos na sociedade: de um lado. determinadas nas relações de produção. As explicações a que chegaram são diferentes. o cientista social pode desempenhar papel político revolucionário. A produção na sociedade capitalista só se realiza porque há relação entre capitalistas e trabalhadores. a não ser o seu corpo e a sua disposição para trabalhar. detentores dos meios de produção (máquinas. a produção é a raiz de toda a estrutura social.) necessários para transformar a natureza e produzir mercadorias. o capitalista fica com o lucro no final da produção. Mesmo pagando salário ao trabalhador. considerava que havia permanente conflito entre essas duas classes na sociedade capitalista. mas também de transformação da realidade. seu objetivo foi estudar a sociedade de seu tempo. Por isso. Para Marx. esses três autores elaboraram e utilizaram conceitos como os de fato social.Para Marx. . aqueles que não possuem. se a sociedade ou se a relação entre ambos. Portanto. ação social e classe social. capital etc.