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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

Introdução ao Romance

Fernanda dos Santos Gomes
8023320
Prof. Dra. Maria Elisa Cevasco

São Paulo
2016
A criação literária, desde a antiguidade, pode ser considerada um
espelho da realidade circundante, mesmo que seu objetivo principal seja negála. Ela sofre profundas influências e ao mesmo tempo influencia a sociedade na

Cada época possuiu determinadas características sociais. Freud levanta uma hipótese acerca da diferença entre escritores e pessoas comuns (não escritores). 1993.73. através da leitura das fantasias de outrem. 2 Freud. as formas como os homens vivem e se relacionam são passíveis de variações ao longo do tempo. São Paulo: Perspectiva. mas num sentido de transformação –. O meio não é estático. econômicas etc. Creative writers and day-dreaming. Sigmund. Isso explica por que certo gênero literário é hegemônico em determinada geração e menos apreciado em outra. Por conta de sua similaridade com uma língua nova e em 1 Cortázar. nossas fantasias são uma variação das brincadeiras que realizávamos na infância. 2 .. Se retirarmos a frase de seu contexto original e a inserirmos num contexto de desenvolvimento da literatura – não em sentido hierárquico. Bakhtin o compara com a completamente desenvolvida épica. da mesma forma que as fantasias sofrem mutação. é esperado que o tipo de adaptação estética que o escritor nelas opera acompanhe essa mudança. Somos altamente influenciáveis pelo meio. O day-dreaming. p. A respeito da presença da linguagem poética no romance. In: Valise de cronópio. Em “Creative writers and day-dreaming”2.qual está inserida. Julio Cortázar1 diz existir “situações que se veem e se resolvem em sua esfera verbal própria”. a frase sintetizará a questão da narrativa ao longo dos anos. Para ele. no contexto moderno. desencadeados por acontecimentos presentes. Situação do Romance. Julio. Dessa forma. temos a possibilidade de apreciar nossas próprias fantasias. A fim de distinguir e explicar o caráter “amórfico” e em constante desenvolvimento do romance. apesar de oriundo do sujeito como agente individual. e que por trás delas estão nossos desejos futuros. e assim também são nossas fantasias. o romance foi a esfera verbal na qual o homem foi capaz de resolver (ou simplesmente lidar com) as questões que o cercam. está à mercê das mudanças ocorridas na realidade exterior. livrando-nos da carga de vergonha que elas carregam consigo. In: Art and literature. Creative writers são capazes de transfigurar tais fantasias numa narrativa esteticamente atrativa.

Among genres long since completed and in part already dead. p. O romance. Porém. é determinado pela experiência. Sendo assim. [grifo meu]3 O romance tem atitude profundamente similar à era moderna.M. It is the only genre that was born and nourished in a new era of world history and therefore it is deeply akin to that era. A Revolução Industrial do século XIX também teve seu papel na construção do homem moderno. Bakhtin aponta formas literárias. pois isso só se tornou possível na sociedade moderna por conta de suas condições sociais favoráveis. Epic and novel.desenvolvimento. que serve de fonte para o impulso criativo. é possível perceber as similaridades que a sua estrutura e conteúdo possuem com a época de seu domínio. Esse ambiente no qual o homem se enxerga como indivíduo o permite narrar como indivíduo para indivíduos. através da transformação dos meios de produção e do sistema econômico. uma distância épica separa o tempo da narrativa do tempo presente. For such a theory has at its heart an object of study completely different from that which theory treats in other genres. o romance oferece inúmeras dificuldades aos teóricos que tentaram dar conta de suas singularidades. M. a concepção de tempo e espaço. absoluto e inacessível. This explains the extraordinary difficulty inherent in formulating a theory of the novel. e não o conhecimento. 3 . Em seu texto. Ela tem um passado coletivo. como a sátira menipeia. Através da relativização. The novel is not merely one genre among other genres. único. a tradição nacional é sua fonte. podemos concluir que cada gênero organiza o mundo à sua maneira em certo contexto social. por sua vez. A ruptura epistemológica do século XVII possibilitou ao indivíduo reconhecer a própria existência pensante e descobrir a razão como sua essência. In: The dialogic imagination. 4. e o relacionamento entre estes e os homens mudou completamente. Na literatura antiga é a memória. the novel is the only developing genre. 3 Bakhtin. operada por Bakthin. encontra-se na zona de máximo contato com a realidade sóciohistórica. que poderiam ser consideradas esboços do romance. as verdades universais foram postas em dúvida. ele atenta para o fato de que o romance não poderia ter desenvolvido todo o seu potencial na antiguidade. Da caracterização da épica.

se comparado a outras formas literárias. existiam condições literárias e sociais favoráveis para a ocorrência de tal fenômeno. In: The rise of the novel. “The novel’s realism do not reside in the kind of life it presents. Watt aponta que o surgimento de três romancistas ingleses – Defoe. Para ele.11. as semelhanças devem ser encaradas como respostas 4 Watt. mas por retratá-la de um modo específico.Julio Cortazar. 5 Idem p. e quando comparamos os romances entre si. Porém. 4 . se comparado à épica ou à tragédia pode ser considerado amórfico. o romance procura. porém há uma característica que lhe concede unidade: a exploração do homem como objeto. O romance. Faz-se necessária distinguir o termo de seu uso comum. não segue nenhuma fórmula pré-estabelecida. o romance. em “Situação do Romance”. através da narrativa. porém Watt acredita que o romance não é realista por retratar a vida pelo seu lado sórdido. Watt se detém ao realismo filosófico e se preocupa em explicitar em que sentido específico promove o uso da palavra para caracterizar o romance. é a principal característica que nos permite diferenciar o romance do início do século XVII da ficção anterior. que o autor compara à gnosiologia. Watt se preocupa em esclarecer que comparar as inovações filosóficas às literárias não é uma tentativa de estabelecer uma relação de mútua ou unilateral influências. faz um cotejo entre a evolução da forma romance e a evolução da filosofia. conhecer e apoderar-se do comportamento psicológico humano. coloca de forma mais aparente a correspondência entre a obra e a realidade que ele imita. Em sua etapa mais moderna. O texto de Cortazar e o de Ian Watt4 são semelhantes na medida em que comparam a evolução do romance e do pensamento filosófico. muitos críticos classificavam obras como a de Flaubert como realistas por conterem temas vulgares e tendências imorais. Richardson e Fielding – em uma mesma geração não foi mera coincidência. não os acontecimentos causais do comportamento humano. nos deparamos com uma diversidade imensa de temas e formas. Realism and the novel form. Este é o foco do romance. neste último sentido. but in the way it presents it”5. O realismo. Ian.

O romance existencial. de eventos que entraram para história e nela permaneceram. O récit é irrevocável. ou roman. The twin sources of realism: the narrative impulse. esse realismo é abordado pela perspectiva dialética na qual não se é possível definir se a forma realista simplesmente registra o estágio avançado da sociedade. ou se conscientiza essa sociedade de suas potencialidades. assim como Watt. e se faz necessária uma relativização das ideias. Tale. roman ou showing permite ao leitor. reestabelece a liberdade do “open present” no qual nossos atos presentes reescrevem e modificam o passado. uma vez que os acontecimentos são explicitados da maneira em que ocorreram. In: The antinomies of realism. há uma exposição dos fatos. residiria naquela entre showing e telling. não deixa espaço para os dilemas do protagonista. Jameson utiliza a perspectiva sartreana que é mais filosófica e ideológica. récit ou telling organiza a experiência através de significados e valores compartilhados por uma comunidade. apesar de modificado pelas novas relações sociais. uma valoração e certa perspectiva imposta ao leitor. Novel. Ele chama esse impulso de tale. 7 A explicação que o parágrafo contém foi usada com uma intenção exemplificadora. porém. ou lhe dá a ilusão de fazer seus próprios juízos de valor. 6 Jameson. está preocupado com a presença do realismo no romance como característica formal. 2013. orientada por termos temporais. Frederic. aquele passado não passível de mudança. há uma autoridade por trás disso narrando os acontecimentos e impondo o seu ponto de vista. para retomar o termo francês. a mudança ocorrida na sociedade que fez com que a autoridade cedesse lugar à incerteza. em oposição à novel. London: Verso.paralelas a uma mudança mais ampla: aquela ocorrida na sociedade desde o Renascimento. Para opor os termos. o tempo do récit é o passado em sua concepção mais excêntrica. A oposição entre tale e novel. e agora para finalizar. uma vez que todo texto apresenta de forma mais ou menos intensa. o autor se mostra preocupado com o impulso narrativo anterior à formação do romance realista e que ainda se faz presente em sua forma moderna. para Henry James. 7 Retomo mais uma vez. 5 . No início do texto. Jameson6. por sua vez. Para Sartre. omite o presente e transforma o futuro “into a dead future”. ou récit.

não como um fator externo que nos permite identificar costumes e modos de vida referentes à determinada sociedade. 6 . é totalmente interno (forma). mas sim como fator estruturante da obra. que apesar de ser externo (social). intervendo em sua forma. possibilitando o florescimento do romance.transformando o telling em showing. simplesmente como tema ou conteúdo.