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QUEM VIGIARÁ OS VIGILANTES?

Luiz Felipe Alves Ribeiro1

RESUMO: O presente artigo tem como objetivo fazer um paralelo entre o livro: “ O alienista” de
Machado de Assis e a disciplina: Psicopatologia do curso de Psicologia da Universidade Federal do
Maranhão e assim entender como o conceito do que é dito “normal”, bem como o que é
“patológico” acaba por sofrer tantas mudanças bruscas. Fazendo uso das discussões levantadas por
Michel Foucault no livro “ A história da loucura”, bem como toda a discussão desenvolvida por
Edmund Husserl acerca da fenomenologia e sua crítica ao modo de naturalização da existência
imposta pelos moldes vindos das ciências naturais.
A LOUCURA DA LOUCURA
“Quem vigiará os vigilantes”, frase do poeta romano Décimo Júnio Juvenal questiona quem
iria guardar o povo dos que “ deveriam guardar o povo”? Ou seja, quem guardará o povo dos
guardas? Com isso problematiza a ideia de que aqueles que detém algum poder dado ao povo,
podem cair em um estado tirânico e assim como o povo poderia se defender desses a quem deu
poder?
A questão da tirania daqueles a quem o povo incubiu funções e com isto poder, é bem
retratada no livro: “ O alienista” de Machado de Assis. No livro é possível ver a história de Simão
Bacamarte, o alienista, que decidido a estudar e “curar” a loucura decide abrir uma casa de orates
(manicômio) em Itaguaí.
O percurso percorrido pelo personagem Simão Bacamarte é bem parecido com o próprio
percurso que a humanidade tomou para cuidar dos seus “loucos”, como bem retrata Michel
Foucault em seu livro “A história da loucura”. Primeiramente, não havia um lugar específico na
sociedade moderna para os “loucos”, nem para o seu tratamento, nem para o seu “confinamento”, o
próprio livro de Machado de Assis trabalha isso quando diz: “ assim é que cada louco furioso era
trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha
defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. ”2 Como já foi dito, essas
pessoas não possuíam tratamento algum, nem um lugar específico para que ficassem sobre os
1 Aluno da graduação em psicologia. Universidade Federal do Maranhão.
luizfelipeeing@outlook.com
2 ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.
P.2

monomanias. libertinos. No livro de Machado de Assis. 4 . Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade”4. Machado de. entre outros. como o Foucault trabalha. Como também se trata no livro de Machado de Assis. Machado de Assis nos deixa isso claro no seu livro também quando nos diz: “ Como fosse grande arabista. “Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos.”5 Dividir as pessoas em classes foi o primeiro passo para tentar “entender” como se dava aquele estado. achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos. bem como futuramente. leprosos. havia a necessidade de um saber sobre a “loucura”. delírios. II. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. P. desde a época em que o “louco” era visto como mensageiro dos deuses (como era visto na Grécia antiga) até o momento em que era visto como alguém que deveria ser enclausurado. v. Machado de. mostrando assim que em uma cultura diferente e em uma época diferente a “loucura” era vista de outra forma. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. mas sim excluí-los do convívio e com eles também os sifilíticos.Assim. seu objetivo não era de fato “tratar” os “doentes”. alucinações diversas. prostitutas. O objetivo primário da criação do espaço era o controle social (exclusão) e não para o “tratamento” dessas pessoas. após começar as internações fez-se necessário dividir em “tipos” para melhor estudo e tentativa de intervenção. o que ficou conhecido como: “A Grande Internação”. havia uma necessidade de uma intermediação da “Razão sobre a Loucura”. II. Assim. como bem é retratado pelo autor quando ele diz: “descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Simão Bacamarte convence toda a cidade sobre a necessidade da construção da “Casa Verde” e do tratamento daquelas pessoas. Com a necessidade de um lugar para guardar os “marginais” (aqueles que estão a margem) da sociedade fez-se necessário o estabelecimento de tal lugar. pobres.cuidados de alguém. Foucault em seu livro nos mostra como os conceitos sobre o que é “normal” e o que é “patológico” perpassam toda a história do homem. tratar dela. pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem”3. Surge então a necessidade de um “saber/poder” sobre essas pessoas que estavam internadas. já que se apresentavam 3 ASSIS. v. como “curar” os casos. daí passou às subclasses. alguns bandidos. P. Obra Completa. Obra Completa. Este é o mistério do meu coração. Cabendo assim a essa Razão delimitar os limites dessa Loucura. 3 4 ASSIS.

Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. sendo um homem frio pela ciência. Como bem é retratado no Alienista: “ demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. insânia e só insânia. II. Obra Completa. v. 16 . podendo ser medido. P.sintomas parecidos deveriam ser tratado da mesma forma. fora daí insânia. P. assim. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades. v. o que nos resta questionar é o que seria então o “normal” e quem determinaria como ele seria. tomando-se muitas vezes como estabelecedores do padrão. cada caso é um caso e o que os psiquiatras fizeram foi “naturalizar” o estado de “loucura”. Machado de. ou seja. ou seja. A psiquiatria moderna passou a considerar quase tudo “transtorno”. 5 6 ASSIS. quem está sendo tomado como modelo e para que esse discurso todo 5 ASSIS. onde instaurou-se caos quando quase todo mundo começou a ser recolhido à Casa Verde. Obra Completa. isso para os psiquiatras era meio “óbvio”. 10 7 ASSIS. Machado de. Tudo isso também se dá pela própria forma como o conceito de “doentes” foi estabelecido em torno dessas pessoas e o que já foi dito sobre essa “atitude de naturalização” criticada pela fenomenologia sobre a forma que a ciência trata as pessoas. patologizando a existência de uma forma tremenda. Obra Completa. porém aqui cabe a crítica. fica importante falar sobre a forma que essas pessoas eram tratadas dentro dessas instituições onde os maus tratos eram comuns e ainda são. que padrão está sendo usado. Nos diz Machado de Assis: “Não se sabia já quem estava são. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. Machado de. II. o que Husserl chamou de “atitude de naturalização”. o que era bem tratado por Machado de Assis no seu livro. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. onde Simão Bacamarte constantemente era retratado como insensível a própria humanidade. ao falar sobre a condição de Itaguaí no livro. e ao mesmo tempo medicalizando essa existência. Tudo hoje em dia é “transtorno”. nem quem estava doido”7. Encontramos nossa sociedade com o mesmo problema. de um ponto de vista fenomenológico que quando se trata do fenômeno humano. padronizado e moldado futuramente. P. tratar o humano como algo “natural”.”6 O que é perigoso é que quando essas pessoas ganharam poder para dizer o que era normal ou o que era patológico começam a usar o poder em benefício próprio ou de modo parcial. II. Também. criando um padrão tanto de identificação quanto um padrão de tratamento.

v. O que é muitissimamente bem tratado no Alienista é que a população se revolta contra as constantes internações à Casa Verde e faz-nos lembrar em partes da Revolução Francesa. depois do positivismo. Como o autor fala em seu livro: “daí a alegação 8 ASSIS. sobre o lema da liberdade. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. que se faz necessário a alteração desse ambiente manicomial de ambiente de exclusão para ambiente de tratamento. o humano é retirado da sua posição de homem por causa de um discurso. onde poderia ser gerido condições para que os indivíduos ali recolhidos pudessem retornar para a sociedade com suas perfeitas funções mentais em bom uso. II. isto a fenomenologia nos faz perceber muitissimamente bem. com expressões tais como a queda da casa verde seria a queda da Batilha. e nos mostra uma tendência onde ele dizia que: “Tudo era loucura”. sendo então objeto de estudo. 18 . Quem são as pessoas que estão patologizando a existência? Quem são essas pessoas de quem o povo legitima o discurso? Para que este discurso está servindo? Para se estar “entupindo” crianças de remédios para livrá-las de TDAH ou de bipolaridade? Para dizer que mais de cem milhões de pessoas sofrem depressão no mundo todo e medicalizar essas pessoas para que vivam “dopadas”? Machado de Assis nos alerta sobre os riscos do discurso psiquiátrico. será que estes manuais têm capacidade de fazer isto? A fenomenologia critica. cheio de singularidades. uma vez que todo discurso é um discurso de “alguém” para “alguém” sobre “algo” e com “algum” objetivo. Uma pergunta que é levantada em certo capítulo do Alienista é extremamente interessante: “quem nos afirma que o alienado não é o alienista?”8. quem está reafirmando o discurso e quem está se “beneficializando” com ele e quem está sendo prejudicado. entre outras ideias. O Foucault irá nos mostrar que é justamente na Revolução Francesa. as pessoas viraram o que os DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) dizem para elas que elas são. o que é uma questão extremamente importante. além de que. para quem ele é destinado e quem o está legitimando. O livro de Machado de Assis nos faz pensar diversas coisas. que todo discurso dito científico é por consequência legítimo. e como já foi dito hoje em dia. inclusive o que ele chama de “despotismo científico” que acaba realmente muitas vezes acontecendo.está sendo usado e levantado. Machado de. sempre se deve perguntar quem o está profereindo. já que se pensa. Quando se vê um discurso. Esquece-se que por trás daquela pessoa que vai se “tratar” está um indivíduo. sentimentos e uma vivência completamente diferente de qualquer uma outra. P. Nesse despotismo. mas como já foi trabalhado. Obra Completa. se vê transtornos em todos os lugares.

estabelecendo novos termos e novas formas de tentar padronizar o homem. 9 ASSIS. nos moldes das ciências naturais. O brilhante fim de que Simão Bacamarte. A situação psiquiátrica toma níveis cada vez mais preocupantes em todo mundo. onde já que todo mundo é desequilibrado. Simão Bacamarte que tratou tudo durante toda a sua vida de forma insensível e fria. v. o que é equilíbrio e o que é desequilíbrio. acaba por considerar a si próprio como louco por um julgamento que faz. 27 . Machado de.de que não havia regra para a completa sanidade mental”9. o que ainda é visto como equilíbrio pelo próprio médico. II. o que de fato é patológico. P. O médico é o último paciente do manicômio é algo impressionante e muito significativo. quem colocará freio a tendência de medicalizar a existência e colocar tendências patologizantes em todos os aspectos da vida social e privada. e aí fica a crítica até para a nossa própria sociedade e época. Obra Completa. ou seja. tirando-lhe muitas vezes seu caráter humano e confinando-lhe a manicômios muitas vezes sem condições reais de tratamento ou até as mínimas condições para a habitação. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. acaba por considerar a si próprio como louco é de fato genial. mostrando que talvez a verdadeira loucura sempre estivesse em tentar considerar loucura nas coisas. Basta-nos tentar compreender. ele por ser equilibrado deveria estar “louco”. Com toda a discussão levantada e a preocupação que deve-se ter acerca do assunto fica-nos a dúvida: “quem vigiará os vigilantes?”.