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TEXTO WALMIR MONTEIRO

A atuação do terapeuta na clínica existencial é afetada por um olhar fenomenológico, assim como o seu olhar, a interação de quem não se
coloca como detentor de saberes e respostas e nem tampouco como interpretadores de situações, fatos e demandas. A presença
fenomenológica é desinteressada (no sentido de espontânea), gratuita, real, evitando uma presença técnica se isto quer dizer ser detentor de
técnicas que visam resolver questões a partir de pressupostos teóricos, científicos ou mesmo do senso comum. O olhar fenomenológico é
atento, não se volta ao evidente, mas à riqueza do que vê. Riqueza no sentido da particularidade, da singularidade do objeto.
Quando olhamos, ou escutamos, libertos de pressuposições e projeções (noésicas) de consciência, quando olhamos ou escutamos abertos
ao detalhamento da singularidade do fenômeno, prontos a sermos surpreendidos e desejando mesmo a surpresa, o detalhe, a novidade, o
contraditório... estamos olhando fenomenologicamente. Na terapia existencial não descuidamos da realidade comum ou científica. Não
descuidamos da demanda, do sofrimento, da necessidade estabelecida, não descuidamos do diagnóstico, nem dos cuidados que surgem.
É que além de tudo isso estamos especialmente voltados à problematização de tudo isso, entendendo que há um para além da demanda, do
comum, do diagnóstico, porque simplesmente há uma vida, uma pessoa, uma subjetividade que é mais importante que qualquer norma. Dar
voz ao que vem na contramão do óbvio, é nosso papel.
Sobretudo porque sabemos que as pessoas são indeterminadas, e a realidade é feita a cada dia, a cada momento, a cada movimento, a
cada escolha ou desescolha. E sabemos que o homem se encontra (a si mesmo) no mundo, é um ser-no-mundo, e que cada passo constitui
um pedacinho a mais do ser. Como disse Sartre: “Não é dentro de nós que nos encontramos, não é em nenhum refúgio que nos
descobriremos. É na rua, homem entre os homens, entre as coisas, no mundo”.
Quando falamos em redução fenomenológica estamos dizendo como Husserl que os conhecimentos aprioristicos e as concepções cientificas
ou comuns são colocadas entre parênteses, de lado, e isto não significa descarte, mas o cuidado de permitir que o fenômeno se revelo por
ele mesmo, como ele mesmo, sem pressuposições que o determinem.
Outro dia li na internet um trecho que dizia: “Há um casamento que ainda não foi feito no Brasil: entre o saber acadêmico e o saber popular.
O saber popular nasce da experiência sofrida, dos mil jeitos de sobreviver com poucos recursos. O saber acadêmico nasce do estudo,
bebendo de muitas fontes. Quando esses dois saberes se unirem, seremos invencíveis.”
Quando penso na fenomenologia-existencial não consigo ver essa separação entre saber popular e saber acadêmico que o texto alude, já
que o foco da fenomenologia é a própria vida vivida, o mundo vivido, o lebenswelt. Ou seja: o que importa é o que se vive, o fenômenoexperiência tal como ele acontece. É nessa direção que se olha. Um olhar fenomenológico despe-se de pressuposições noésicas, de idéias
anteriores sobre as coisas. As coisas são como se apresentam a nós, numa perspectiva fenomenológica em que a essência é a própria
aparência.
A aparição do fenômeno é o que importa, e ele de nós se aproxima como fenômeno do ser, aquilo que imediatamente toma conta dos nossos
olhos, dos nossos ouvidos, da nossa percepção imediata. É esta aparição que introduz o fenômeno à experiência que com ele começamos a
vivenciar. E o ser do fenômeno resultará da série de aparições que se revelarão no tempo, possibilitando a descoberta da essência desse
fenômeno.
É dessa forma que compreendemos que a proposta da Fenomenologia é exatamente dissipar qualquer abismo interpretativo que a ciência ou
o saber formal pretendam colocar entre a nossa consciência e o fenômeno que ocorre diante de nós. O que significa um adolescente que
cuidadosamente mantém uma pequena cruz amarela pintada na testa? E uma mulher que raspa os cabelos e só sua roupa branca ou preta?
O que significa também uma pessoa que convive em sua casa com doze cachorros e mais ninguém?
As pessoas se sentem tentadas a interpretar esses exemplos. Os psicólogos e psicanalistas se sentem quase que tendo a obrigação de
explicar direitinho o que afinal acontece com essas pessoas e suas manias excêntricas. Tudo que é ex-cêntrico (ou seja que foge à norma,
que sai do centro, do costumeiro) tende a ser tachado como anormal ou pelo menos digno de análise e elucidação.
Pois a Fenomenologia vai entender como lebenswelt a experiência de cada um, fora de concepções apriorísticas, fora de qualquer significado
que seja fruto de nossas in tuições científicas ou intelectuais. O que a Fenomenologia quer afirmar é que toda pessoa é um fenômeno, e isto
quer dizer que ela é única, e sendo única não pode ser interpretada a partir de concepções a priori ou idéias gerais sobre o seu
comportamento. A psicanálise e a psicologia falam muito de subjetividade, mas também tratam muito de concepções gerais que negam a
subjetividade. São concepções seriais, apriorísticas sobre o homem. Fruto disso as interpretações que sempre aspiram encontrar unidades
humanas ou unanimidades nosológicas, psicopatológicas.
Na fenomenologia-existencial vemos a subjetividade como o próprio ser fenomênico em ação. Uma ação livre que deflagra um modo de ser
único, do outro e de mais ninguém.
Segundo Virginia Moreira, o processo psicoterapêutico se produz na interseção dos lebenswelt do terapeuta e do cliente. O psicoterapeuta
passeia de mãos dadas com o cliente em seu mundo vivido, buscando sempre compreendê-lo, sem nunca separar-se de seu próprio
lebenswelt. Como escrevi em outro lugar: cada qual em seu lado, mas sempre lado a lado.
(Walmir Monteiro)

(WALMIR MONTEIRO)
A obra de Wilhelm Reich mostra como e por que ele rompeu com a psicanálise. O seu livro
“Análise do Caráter” representa o primeiro passo essencial, dado de 1928 a 1934, da

A possibilidade.A cisão esquizofrênica – da 34ª à 40ª sessão. 1998. 389-396 ALUNO 12 .A cisão esquizofrênica . 434-440 . onde procedemos bioenergeticamente e não mais psicologicamente. 329-340 ALUNO 23 . Reich diz que “não existe um empenho biológico pelo desprazer. e a função sexual tem um papel básico no mecanismo regulador dessa economia sexual. 51-64 ALUINO 26 . de desempenho desses movimentos ou a fixação em um deles. termo que por sua vez foi substituído por “orgonoterapia”. 237-251 ALUNO 06 . Daí se colocar como objetivo da orgonoterapia o restabelecimento do reflexo do orgasmo.p.A cisão esquizofrênica .A linguagem expressiva da vida II – p. liberando assim a emoção (energia) aí fixada.Prefácio à primeira. ela se propõe a fazer com que o paciente.A cisão esquizofrênica . . 341-358 ALUNO 03 . Como metodologia.A cisão esquizofrênica – 22ª à 24ª sessão – p. é que determina o conceito reichiano de saúde. O conceito reichiano fundamental é a pulsação.Sobre a técnica de análise do caráter II – p.Da interdependência entre consciência e autopercepção à 21ª sessão . 413-418 ALUNO 22 . O livre pulsar energético se expressa em todos os aspectos da vida.A linguagem expressiva da vida I – p. “Análise do Caráter” só não é o melhor livro de Reich porque nele ainda é conservada uma linguagem psicanalítica (mais tarde desprezada). O aumento progressivo da energia livre possibilita o restabelecimento da pulsação e portanto da saúde física e emocional.A cisão esquizofrênica .Da “aparência da paciente” até a 8ª sessão . 380389 ALUNO 14 . e inspirou todos os trabalhos atualmente conhecidos como abordagens corporais.O caráter masoquista I – p. 373380 ALUNO 02 .A cisão esquizofrênica .Falta de contato e contato substituto – p.p.Do intelecto como função defensiva e o entrelaçamento das defesas pulsionais – p. Ed.Da 12ª à 16ª sessão . 86-99 ALUNO 01 . 285-289 ALUNO 11. em maior ou menor grau. que se expressa através dos movimentos de contração e expansão. possa também experimentar .Sobre a técnica de análise do caráter I – p.com afeto . 359-366 ALUINO 15 . chegando à “vegetoterapia”. de sua própria autoria.Sobre a técnica de análise do caráter III – p. dizendo o que compreendeu sobre o assunto. 64-86 ALUNO 16 . 418-423 ALUNO 13 . 405-413 ALUNO 04 .p. segunda e terceira edições – p. Martins Fontes. raiva e couraça muscular p.Abaixo encontra-se a distribuição dos temas.A cisão esquizofrênica – De “resumo pós oitava sessão” a 11ª sessão – p.p. 313-325 ALUNO 17 .2) fará uma breve exposição de 15 minutos (em sala de aula) sobre o tema que lhe couber e também escreverá um texto (superior a uma lauda).A cisão esquizofrênica – Da função da autoagressão na esquizofrenia à 33ª sessão . angústia. 424-433 ALUNO 07 . por isso não há nenhuma pulsão de morte”.Da 17ª à 19ª sessão .p. Cada aluno do décimo período de psicologia da USS (2010.caráter masoquista II – p. além de se lembrar. texto que representou seu rompimento clínico com a teoria freudiana da pulsão de morte. 1-13 ALUNO 05 .Da função racional do “mal diabólico” à 25ª sessão p.A cisão esquizofrênica .Prazer.lembranças conflitivas até então bloqueadas.p. Houve também uma evolução da velha técnica de análise do caráter. ALUNO 19 .A linguagem expressiva da vida III – p. todos constantes no livro “ANÁLISE DO CARÁTER”.O “diabo” no processo esquizofrênico . Wilhelm Reich.p. 396-405 ALUNO 25 .A representação psíquica do orgânico e a idéia de morte – p. 215-236 ALUNO 18 . 367-373 ALUNO 24 . 289-304 ALUNO 27 . No capítulo XI de “Análise do Caráter” é publicado “O caráter masoquista” (1932-33). 305-313 ALUNO 28 . A Biblioteca Central da USS dispõe do livro para empréstimo.psicanálise em direção ao ESTUDO BIOENERGÉTICO DAS EMOÇÕES (Biofísica do Orgone).

sem culpa. ri e troca beijos.p. Insustentável história de um cara que exibe clássica pinta de executivo. Numa mesa do fundo um casal conversa.. e esse. invisíveis.blogspot.com. daquela filosofia besta que desenrolamos no café. mas acendo quando acho que mereço. como solitárias. Passei a curtir uma sensação especial de liberdade. Posso dormir ou não dormir.466-472 ALUNO 09 . Fiquei sozinha nesse Café. E quem disse que juras de amor são para se cumprir? Outra em meu lugar se jogaria aos seus pés. Será que elas são facilmente felizes ou imensamente exigentes. Eu . e se esta for uma fórmula contrária. Estava triste. mas. 472-491 AV 1 – NOTA DA APRESENTAÇÃO .A peste emocional no pensamento. Entro em um edifício qualquer. e no meio da multidão aprontaria uma loucura. e cansativo. De uma janela no 17º andar olho aos . em plena tarde de segunda.A peste emocional – p.A peste emocional no trabalho – p. Sobretudo – e isso é o melhor de tudo .. quando eu e Charles decidimos morar em casas separadas.Suzy. ele pertence a um planeta diferente. para chamar de vez sua atenção e provar que não era nada daquilo. Charles se foi. explicar a tristeza. Parecem felizes.mexem na internet para matar o tempo. Resolvo andar. Cabia um cigarro. 440–449 ALUNO 30 .. que juras fazem e garantias empenham. 450-458 ALUNO 08 . Mas não tenho talento para tanto. Nada daquele papo cabeça. Falta coragem de levantar e descobrir que simplesmente não tenho aonde ir. mesmo que jamais se cumpram.A cisão esquizofrênica – Crise e Restabelecimento II – p.talvez seja louca -. Já eu. Caminhando observo as pessoas e imagino seus problemas. como únicas. sozinho. não atino o que fazer. No Café crianças jogam no computador.posso ficar triste sem ter que dar explicações. para ser feliz seja necessário se envolver em alguma correria. Nem mesmo essa fumaça é capaz de expulsar o perfume abandonado em minhas mãos. Acendendo um cigarro observo pessoas à minha volta. o mais emocionante é quando recomeça. Talvez. Enquanto penso em não pensar. porque me faz bem. que dizem coisas que funcionam. como eu? Está me fazendo bem andar a pé pelo centro do Rio. feita só para esquecer a infelicidade? Talvez a felicidade seja só isso: não pensar.despreocupada “free-lance”.. Jantar ou não jantar. Hoje sou livre. os que não aceitam que cumprir rotinas seja a definição de viver. observo pessoas que se movem freneticamente.ALUNO 10 . E além do mais. Tão especiais que nem sei que mistério é esse a que tanto aspiro. Ou será que sou eu? Acho que sou de um lugar onde a felicidade se faz de coisas novas.A cisão esquizofrênica – Crise e Restabelecimento I – p.html UM CONTO SOBRE (DES)ENCONTROS ANDANTES Se sei que o momento mais difícil de uma relação é quando acaba. fotógrafa. na ação e na sexualidade . 461 ALUNO 29 . E como é difícil. Uma pena eu não ser uma mulher daquelas que correm atrás. Nem com texto decorado conseguiria. Tenho vontade de ir atrás de Charles para dizer que não é nada disso (seja lá o que for que ele pense que seja isso) e prometer alguma coisa que reverta a situação. assim sem motivo.NOTA DO TRABALHO Fonte: http://cronicaexistencial. Preciso domar minha ansiedade. especiais. e eu – contraponto . Todo perfume tem memória. enquanto solitários – página a página . sem se dar conta de quem passa ao lado. 24 anos . E ficar de luz acesa até quando bem entender. quando tantos que hipnotizados com trabalhos e afazeres se envolvem em uma correria louca. Tomo um copo inteiro de água quase gelada. sofri uma perda. é capaz de contar da nossa relação a história.br/2010/08/reich-energia-vital-e-orompimento-com.se loucos são os insatisfeitos com a realidade comum.AV 2 . Mecanicamente caminham. e inútil. Não costumo fumar. O cigarro acabou.

destruiria o mal.. Concluo definitivamente: nem mesmo minha blusa notaram. Gente compenetrada. dirigidos por luminosos que abrem e fecham. mas escolhi o 17. Aqui penso que sou livre. Não houve quem comigo se importasse. Mas não notada. assim. comandando a ação dos que seguem sem olhar para os lados. agem de forma sincrônica. tento compreender o movimento da Rio Branco. e rapidamente atravessam a avenida. cujas mãos pudessem comportar poder sobre vidas e destinos. Eu. Sem perceber preferi me separar dele à minha nova casinha. minha sincera vontade nesse momento seria usar algum poder que me trouxesse Charles de volta. Mas também não avisam. Ainda absorta em meus pensamentos. Então. de um ser superior.meus pés a Rio Branco. e que não se trabalha nesse prédio sem um belo tailleur. Ele não quer. Ali todos se encontram. Isto alcançaria não só a Rio Branco. que meu lábio hoje é rosa e que minha sandália verde combina com o cinto que segura o meu “jeans délavé”. formam um bloco na beira da calçada. Nunca pensei. Tantos e ninguém. e amar é o contrário disso. porém mais silencioso. no elevador. mas todo o Rio. sinto que me falta um contrato a cumprir. Nada me impede. Estou há meia hora dentro de um prédio onde entrei sem ser vista. mas não como antes. o que eu faria? Pararia a Rio Branco? Faria as pessoas lá embaixo repararem melhor umas nas outras? Já sei. Blocos humanos. Agora ninguém cita qualquer número. Temi que estivessem adivinhando que eu não tinha nada a fazer no dezessete.. Mas o medo é maior que tudo. O sinal abre. Ah.. definitivamente não quer. um horário a obedecer. Continuam sós. olhavam o tempo todo para o alto. não sabe sofrer. mas ele. Proclamaria o amor. como um bando de formigas. Talvez tenham percebido apenas o decote da minha blusa de seda branca. Essa forçada convergência não é motivo para que se admirem. E se deram por satisfeitos. Não notaram que não estou vestida de executiva. São 16 horas. Quem não sabe pensar. Desço em um elevador ainda mais lotado. Charles não sofre. Todos vão para o térreo. . mas nada disso seria necessário. se assim fosse.. Talvez assim não tivesse tempo de pensar. serviria para multiplicar as sementes da paz. E se para tudo há um oposto que o complementa. que vivamos em casas separadas. Simplesmente subi. como a vida sem a morte. Não sei se dá para ser moderna. o som sem o silêncio. Caminham sós. Maior que a curiosidade de saber o que é se espatifar no asfalto dessa avenida. Sinto que vou chorar. Já que posso escolher livremente. Sinal vermelho dos pedestres. mas não se acham. mesmo que por motivos burocráticos ou de segurança. gostaria de tê-lo liberal em relação às minhas manias e predileções. a abrir mão. numa harmonia eletrônica. o mundo inteiro. Não se importavam que meus cabelos agora são ruivos. Sem precisar que o ascensorista pedisse. Acho que não precisa. Ninguém pode ser protegido de si mesmo. vinte e dois. Mas tudo que sabiam de mim é que eu havia falado dezessete. E se não for possível ser feliz sem dor? E se a angústia for necessária à plenitude da existência? Imagino que existir sem angústia é existir sem emoção e sentido. Poderia ter dito qualquer número. sem se importar com quem está por perto. tão livre que posso atirar-me lá embaixo. vinte e um. politizada . Espiando lá em baixo. e amar. Agradeço meu medo. ouço o ascensorista olhar para o alto e bradar: 17! Saio intrigada com o fato de que quase todos. resolvo sair do prédio. Verde-amarelo-vermelho. no lugar de acabar com a angústia o melhor seria aprender o seu manejo. dando força a todo sentimento bom e. Contei nove pessoas no elevador. E agora não quero mais a casa. Tão poderosa assim. Charles é meu contrário. forte como sempre me soube. Entretanto. frila. faria todos se abraçarem. em esquinas de sinais. talvez. eu – direto poria fim às guerras e a toda forma de dor e injustiça. Decretaria a paz. cansada de mais um dia de trabalho. parar um dia no 17º andar de um prédio desconhecido só para ruminar dores de separação. E o poder. um número que ninguém havia falado. se unirem em um protesto pacífico contra todo tipo de guerra e violência. Algumas pessoas me olharam rapidamente. o Brasil. Adivinho que não se olham. e esse tipo de amor só emplaca quando aprendemos a renunciar. Falei dezessete. oito. ditavam números: onze. Daqui do alto me suponho no papel de uma deusa. No máximo se esbarram. Mas antes disso acontecer. Vista. valente. De nariz colado na vidraça meus olhos acham a maçaneta dessa grande janela que me separa do abismo. Acho que estou egoísta. Multidões. que me imagino tendo. E que jamais se tocam. quem sabe. Maior que o imã que me atrai. Pensei que sair da casa seria como separar de mim mesma.

Alguém me beija os lábios. Caminho pelas escadarias da Câmara e depois me sento em um barzinho para tomar um chope. . sem interpretações acerca do "como deveria ser". tão surpreendente quanto agradável. mais do que poderíamos imaginar. E a liberdade nos traz a ansiedade (ou a angústia) de nos sabermos únicos responsáveis por nossas escolhas conscientes. Arcos da Lapa. não muito gelada.O encontro de si na trama do mundo. Assim. Peço uma água. Um pianista ensaia um andante que me atrai.html link: Psicologia Existencial: explicação clara e muito simples. como que hipnotizada por aquele teclado suave e reconfortante. filosofia que rompeu com a escola clássica. A existencial chega para nos mostrar que estamos em nossas próprias mãos. também sou responsável por aquilo que será feito de mim daqui por diante. aquilo que aparece. assim como a minha felicidade não está nas mãos de ninguém. mas a revela. O povo sai quase que em um só bloco. ficando oculta sob as diversas manifestações da exterioridade que encobre a verdade do sujeito. (Autor: Walmir Monteiro. na existencial as responsabilidades sobre nossas escolhas (sempre conscientes) são sempre nossas. Ando pela Lapa. mas ele explicou que a liberdade se realiza num contexto de facticidade. Contemplo a bela arquitetura do Teatro Municipal. quanto maior a liberdade. Para a Fenomenologia a aparência NÃO esconde a essência. apressados. mas já desfrutando e me entregando a essa sensação. muito bem. O compreender se baseia na realidade presente que é aceita pelo psicólogo de forma incondicional. e isto é libertador. e isto quer dizer que há aspectos .br/2010_04_01_archive. a responsabilidade pessoal é posta em relevo. Sem entender. maior a responsabilidade. Existencialismo em 50 Filmes= http://cinetoscopio. a Fenomenologia valoriza o que aparece e não o que "deveria" aparecer. Do outro lado. Aproximo-me para ouvir melhor. ou um sentimento. Email: monteiro. divergindo em vários pontos entre os quais sobre o conceito de essência. E isto não precisa nos trazer desespero e nos manter nele. porque essa angústia é libertadora a partir de um fato que ela me mostra: se sou responsável por minhas escolhas. O interpretar se baseia em modelos pressupostos. pois talvez a solução esteja em algum ponto cego desse meu drama interno. mas não quero nada. Sento-me em uma poltrona na última fila e de olhos fechados recosto a cabeça em um braço macio.html Filme: Livro O ASPECTO DA CONSCIENCIA Autor: Ken Wilber Livros de Emilio Romero . Todos. Mantenho-me de olhos fechados para não me fugir à memória essa fragrância que dá tanta saudade.O Inquilino do Imaginário . o que temos aí? Temos a revelação daquilo que é a essência da pessoa naquele momento: a essência de ocultar um sentimento. Também isto me diferencia. escuto a voz de Charles dizer: caminhemos.blogspot. o fenômeno. e esse ponto me escapa se não me mantenho atenta. e entro na sala Cecília Meireles.br/2010/06/psicologia-existencial-explicacaoclara. Para a filosofia antiga a essência é algo interno que dificilmente se revela.com. se ela não fala disso ou fala outra coisa no lugar disso. já que o foco sempre será a pessoa tal como ela se percebe e se anuncia.blogspot.com.A porta se abre. Eu devia comer alguma coisa. como sempre.Neogenese: O desenvolvimento pessoal mediante a psicoterapia. A pessoa não é uma paixão escondida. como disse Sartre. A diferença é que na psicanálise temos sempre alguém fora de nós a quem atribuir nossas responsabilidades. maior a liberdade. Preciso dar o máximo de atenção ao meu sofrimento. Buscamos compreender a pessoa no lugar em que ela está. Subo a Rio Branco.walmir@gmail. Então.com. De repente me sinto bem. Ela enfatiza a experiência vivida da subjetividade. É uma psicologia fundamentada na Fenomenologia. Tudo isso faz aumentar a minha responsabilidade acerca do tanto de empenho que preciso aplicar na direção dos meus projetos e desejos. a Biblioteca Nacional. Se uma pessoa esconde um pensamento. No caso ela revela que não quer revelar.br/2014/11/12/existencialismo-em50-filmes-parte-1/ Psicoterapia Existencial: Explicação Clara http://cronicaexistencial. ela é a que esconde a paixão. A comida disfarçaria a dor de uma solidão que quero sentir até o fim. grega. Tenho a sensação de sentir o perfume de Charles. porque a aparência É a própria essência. Quanto maior a consciência.com) Fonte: http://cronicaexistencial. Ninguém detém o poder de me impedir de ser feliz. e isto é uma revelação. O que é isso? uma psicologia que olha o fato.Psicologia e Existencia . Nossa liberdade é absoluta.

se alguém da área psi é convidado a um programa. sabendo que a primordial idéia de universidade é possibilitar a unidade do diverso. Sempre foi um sério empobrecimento para a psicologia essa fidelidade canina à psicanálise."fáticos" que precisam ser considerados. há coisas que não mudam porque fazem parte do mundo em-si. Essa espécie de oligarquia atuava de diversos modos e em diversos campos. interferiu questionando a presença de Leão Cabernite na presidência da SPRJ. a ciência. capacitado à autotransformação. se sou heterossexual. classe média-alta. Segundo Eustáchio Portela Nunes[3]. entre elas a universidade.em três países. Se sou francês. ito é. Este mesmo autor reconhece que a melhor psiquiatria vigente no Rio de Janeiro no início da década de 50. a força da psicanálise na Argentina e no Brasil se deu com o advento de psicanalistas europeus que fugindo dos horrores nazistas pós segunda guerra. tornando-se uma (r)evolução dentro da psicologia. permitindo que o maior número possível de saberes se agasalhe sob a mesma asa. e também nos EUA. mas as coisas foram mudando. Libertação. A Análise Existencial é uma intervenção clínica que não busca apenas o ajustamento a ideais de normalidade. ajudando cada vez mais a fortalecer na psicanálise o seu rótulo de elitismo e burguesismo. Assim. embora ainda haja muito a caminhar no alcance da liberdade para a pluralidade do saber psicológico.walmir@gmail. mantendo apenas – e curiosamente . e se ainda não desapareceu por completo. há quase meio século um dos maiores problemas do ensino da psicologia no Brasil é sua subordinação hegemônica à psicanálise. porque experiência não é o que lhe acontece. Monteiro monteiro. uma heróica resistência[1]. se tornou uma terapia como outra qualquer. E não se tratava apenas de rótulo. instituições culturais e científicas. como torturador de estudantes. A partir do pensamento de fenomenólogos e existencialistas foram apontados limites da ciência para a compreensão do ser do homem. Após esta crise dos anos 80. esse desdobramento da fenomenologia que trouxe à ciência e ao conhecimento humano uma nova forma de olhar as artes. inspirada na filosofia de Heidegger. Como no Brasil. tenho pais falecidos e aos 60 anos ainda não tive um filho natural. Mas não estamos aqui para discutir os psicanalistas torturadores. Muito do destronamento dos barões da psicanálise e da máfia das suas Sociedades Brasileiras se deveu a denúncias que de modo farto vieram a público em 1980. Nos EUA pode-se dizer que a psicanálise quase desapareceu. Nas universidades. 11 ensinam somente a psicanálise como sistema de tratamento psicológico. Entretanto. quando a IPA (Associação Internacional de Psicanálise) fundada pelo próprio Freud. e saíamos completamente ignorantes em relação às demais escolas psicológicas. exceto na França. que entre outros escândalos trouxeram à tona a existência do psicanalista e psiquiatra Amílcar Lobo atuando no quartel da Polícia do Exército. branco. era de influência fenomenológica baseada na Psicopatologia de Karl Jaspers com sua variante analítico-existencial. Walmir S. estendendo-se logo após para o Brasil. nos anos 90. A segunda constatação da autora é que em outros países da Europa. nos meios de comunicação franceses. não que ela não seja importante. E não é.com Introdução à Análise Existencial ANÁLISE EXISTENCIAL (Walmir Monteiro) A Análise Existencial tem como principal matriz a Fenomenologia. mas o que você faz com aquilo que lhe acontece. aliás. um domínio hegemônico cujos tentáculos se estendiam aos campus universitários fechando toda e qualquer possibilidade de se pensar psicologia fora das matrizes psicanalíticas. como a Holanda e a Inglaterra. de 21 faculdades de psicologia.. que sustentando um olhar diferente sobre o homem. sexo masculino e sofro de uma patologia estrutural. porque absoluta no Brasil do jeito que a psicanálise se habituou a ser. A minha realidade é o que faço com a minha facticidade. no DOI-CODI. que ocorre já algum tempo em diversos países do mundo. Consta que essa hegemonia praticamente acabou no mundo todo.. surgindo a Análise Existencial que visa a possibilidade de uma psicologia que não se sustente unicamente sobre paradigmas das ciências naturais já que os fundamentos da ciência normalmente se referem ao modo de pensar técnico que objetiva exercer domínio e controle sobre a natureza. se instalaram na Argentina onde iniciaram a psicanálise. inclusive no campo da própria formação psicanalítica que sempre foi uma questão mais política e idiossincrásica (com o nome de análise didática) do que de competência. a psicanálise tem menos importância que outras abordagens. dá a impressão de que é assim no mundo todo. Mas há de se comemorar o fato de que recentemente se tem registrado alguma libertação deste saber que imperava soberano como única e última verdade acerca da análise do homem. isenção e formação intelectual. artistas e intelectuais contrários à ditadura militar que imperava no Brasil. e este era o preço de se ter instalado na área psi. questionamento que na verdade era desdobramento do primeiro escândalo protagonizado por Amílcar. contempla-o como um ser em movimento. um curso de psicologia eficiente deve ter uma matriz curricular tão variada que possibilite uma multiplicidade de visões para o enriquecimento da formação e o progresso da profissão. Assim. mas aceita como normais a ambivalência e o paradoxo. a literatura e também de compreender o comportamento humano. Argentina e Brasil. definitivamente empobreceu a psicologia brasileira. será invariavelmente um psicanalista. nada posso fazer acerca disso. cumprem seu importante papel de desenvolvimento e evolução. primeiro lá fora. depois aqui. pois um outro tipo de tortura está em questão: a submissão da psicologia ao monopólio e ditames psicanalíticos. O problema é que estudávamos cinco anos de psicologia vendo psicanálise o tempo todo. um dos mais terríveis centros de repressão na época. por parte de dois dos mais conhecidos psicanalistas brasileiros de então: Hélio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas. sem falar nos altos custos e na elitização de um tratamento que se colocava a milhas de distância de qualquer possibilitação social. e é importante que os estudantes brasileiros sejam informados disso. A psicanalista Helena Besserman Vianna relata em artigo o seu dramático combate para ser aceita como membro na SPRJ... surgiu uma segunda crise na psicanálise. Catherine Meyer[2] faz uma constatação dupla em seu livro: a primeira é que a psicanálise na França é hegemônica. Mas vejam que a minha realidade não é essa. mas essa viciosa concentração em uma única forma de conhecimento. pois seu conteúdo e prática confirmavam tal nominação. E prossegue dizendo . Tudo que aqui citei são facticidades (coisas que não posso mudar) e a minha liberdade é absoluta dentro deste universo.

conhecido psiquiatra inglês. Rafael. inclusive diante da nossa própria. É por isso que apesar de pretenderem o monopólio do saber psicológico não se reconhecem como psicologia. como se a psicanálise evitasse (e evita) uma leitura e prática interdisciplinar da realidade humana. n. e nem mesmo assim estamos amarrados ao que fizemos de nós. p. Temos. instrumentos de fortalecimento existencial que nos possibilitem coragem e obstinação suficientes à transformação desejada. contribui de algum modo para o progresso da psicologia.walmir@gmail. recusando o fato de que somos responsáveis por aquilo que nos tornamos. Importante. 1 [4] Rafaeeli. Dolto e outros dissidentes da psicanálise clássica. Organizado por Catherine Meyer com textos de 40 autores. contudo a análise existencial também evoluiu e hoje. e o instrumento proposto por Sartre para isto é a Análise Existencial. Enfim. toda pesquisa. O que surge de forma precursora em um país poderá aparecer (ou não) em outro muito mais tarde. Sartre rompeu com a psicanálise por esta retirar a responsabilidade do indivíduo ao conceber a ação de um determinante inconsciente que para Sartre não existe. de título original Le Scénario Freud. que reconhece a Psicanálise como importantíssimo saber na Psicologia. mas não único. E neste trabalho fazemos comparações entre teorias de Freud e de Sartre para elucidar o que é a Análise Existencial e esclarecer porque ela surgiu como proposta nova e remodeladora do nosso pensar e fazer psicologia. Cada ato contribui para a nossa autodefinição. Argentina e Brasil [2] O livro negro da psicanálise. ed. E também se critica a falta de visão das universidades e cursos de psicologia que se vendem a um modo único de conhecimento. A Análise Existencial fornece uma abordagem analítica fundamentalmente humana. que não são poucas.com [1] França. Pensamentos estes que são incompatíveis com o totalizante determinismo psíquico postulado por Freud. Inclusive chega a sustentar que a "primeira ponte ligando a psicologia experimental à psicanálise" tenha sido levantada pelo trabalho de Wundt sobre as associações (Freud 1987[1914a]. Somos inclusive responsáveis pelos traços duradouros da nossa personalidade e assim não podemos dizer “sou assim” como se isto fosse um fato não passível de mudança. ainda que Freud não tenha pensado assim. e que a psicanálise deu contribuição importante neste sentido. e é certo que sempre podemos escolher agir diferente. setembro de 2002. Aqui apresentamos a Análise Existencial. vítimas daquilo que os outros fizeram (ou tentaram fazer) de nós. criando o que chamou de psicanálise existencial. buscou um novo método de tratamento da loucura seguindo a filosofia existencialista que rejeitava enfaticamente a idéia de causas inconscientes dos fatos psíquicos. Ronald Laing. em detrimento a pesquisas em outras áreas. já que para o existencialismo tudo o que está na mente é consciente. o poder de nos transformar indefinidamente. capaz de dar conta das necessidades do homem. o que se critica não é a psicanálise como saber – um saber a mais. Sendo assim. São os nossos atos que nos definem. Além da Alma Roteiro para um Filme. É fato que há uma grande diferença entre o que Freud disse e o que os psicanalistas dizem. VI. ("Le Livre Noir de la Psychanalyse". pois "ainda que fôssemos surdos e mudos como uma pedra. porque este “sou assim” nada mais é que uma forma de agirmos diante da realidade. fugindo dos parâmetros da metapsicologia freudiana que é historicista-determinista nos colocando como vítimas do passado. E acabamos compreendendo que toda forma de saber na área psi.39). toda experiência. .p.que “embora sendo de grande valor para a compreensão dos enfermos. O que se quer é a pluralidade de conhecimentos e a nivelação dos saberes num mesmo patamar de importância. já que a consciência é necessariamente transparente para si mesma e todos os aspectos de nossas vidas mentais são intencionais. Cadernos de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas. v. temos uma psicologia fenomenologico-existencial que se basta em relação aos objetivos de uma análise ou tratamento que se volta ao seu objeto de estudo. Vejamos o que Rafaelli diz sobre o assunto em seu artigo “Vínculos entre Psicanálise e Fenomenologia”[4]: Vale dizer que Freud nunca supôs a psicanálise como uma disciplina separada da psicologia: "a psicanálise é uma parte da psicologia" (Freud 1987[1927]. Freud. permitindo o enriquecimento da formação do psicólogo e um melhor desenvolvimento da psicologia. toda prática profissional e intelectual. [3] Psicanalítica – A revista da SPRJ. Nós mesmos desenhamos nosso próprio retrato e não há nada além desse retrato. pesquisas e práticas desenvolvidos por excelentes Institutos e Universidades. Nossas ilusões e imaginações a nosso próprio respeito e sobre o que poderíamos ter sido são decepções auto-infligidas acerca do que não quisemos fazer dentro das nossas possibilidades. sim. Les Arènes.mas a obsessiva apropriação da mesma como verdade absoluta e inatacável. N 28. entre tantos . Adler. se quisermos realmente. pois em qualquer momento podemos começar a agir diferente e refazer o caminho da nossa autoconstrução. e neste sentido vemos o quanto é importante a unidade na diversidade. (SARTRE) Contato com o autor: monteiro. mostra que o mais importante autor do existencialismo não estava nada distante das idéias freudianas e foi capaz de roteirizá-las e depois discuti-las profundamente. A oposição de Sartre à psicanálise freudiana influiu grandemente na psiquiatria do seu tempo. Não se pode. Uma outra questão é a insistência dos psicanalistas em definir a psicanálise como um saber autônomo e divorciado do conjunto de saberes sistemáticos que constituem todo o conhecimento psíquico humano. Mas a realidade da formação do psicólogo tem sofrido importantes alterações quando hoje podemos estudar os dissidentes do pensamento freudiano e descobrir o quanto de fenomenologico-existencial consta no pensamento de Jung.286). nossa própria passividade seria uma forma de ação". além do autoconhecimento. A Análise Existencial vai dizer que somos responsáveis por nossas emoções porque existem maneiras diversas de reagirmos frente ao mundo e à história. por nós mesmos escolhidos e de nossa inteira responsabilidade. que pode nos proporcionar. Permanentemente estamos nos fazendo e nos tornando o que somos. portanto estabelecer uma História Universal da Psicologia como se ela acontecesse de modo uniforme em todas as regiões e países. faltava-lhe uma teoria e uma prática que pudesse orientar a psicoterapia de que precisavam todos os pacientes”. após tantos escritos. como poderíamos deixar de estudar este e outros autores? Como poderíamos deixar de considerar a fenomenologia e o existencialismo como fundamentais à psicologia sem desprezar a própria história evolutiva do pensamento psicológico? Sartre foi roteirista do mais importante registro cinematobiográfico de Sigmund Freud.