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IFTSJ – Instituto Filosófico e Teológico do Seminário São José

Grupo: Ricardo Mariano Monteiro da Silva
Jorge André de Almeida Santos
Pedro Ivo Trindade Ferreira de Oliveira
Edis Ataide
Disciplina: Filosofia da História
Data: 28/05/2013

O CONHECIMENTO HISTÓRICO
CAPÍTULO I – TESTEMUNHOS E TESTEMUNHAS
Todo conhecimento requer ao menos um pressuposto. Isso porque, sem pressupostos,
ele não poderia continuar subsistindo por muito tempo; o conhecimento pretende firmar-se em
bases sólidas. Ora, o juízo histórico é um tipo de conhecimento que pretende perdurar,
fundado em bases sólidas; então, requer um pressuposto.
Tal pressuposto deve ser capaz de estabelecer certo grau de certeza acerca da verdade do
fato histórico, testemunhado documentalmente. E essa condição só é satisfeita através de um
testemunho dado por testemunhas verídicas. Eis, portanto, o pressuposto do juízo histórico.
Contudo, para assegurar o testemunho dado por testemunhas verídicas, é necessário
percorrer um caminho capaz de descobri-lo sob uma perspectiva crítica. A esse caminho dá-se
o nome de metodologia do testemunho, que se constitui de etapas: a heurística, a crítica
externa e a crítica interna.
Verdade e certeza distinguem-se. Aquela é o ponto de partida; esta, possui um caráter
secundário. A verdade está fundada na evidência inerente ao próprio objeto, e é extraída pelo
sujeito, quando, por exemplo, recolhendo as evidências dos vestígios deixados pelos fatos, o
historiador encontra, por assim dizer, a verdade do fato. A certeza, porém, é um estado firme
da mente em relação à verdade extraída das evidências, possui graus: ignorância, dúvida,
opinião e certeza propriamente dita.
A noção de documento “pouco a pouco [...] amplia-se até chegar a abarcar textos,
monumentos e observações de todo tipo”1. E quando não se acha registros escritos, nem
monumentos, conta-se com o que estiver à disposição:
“[...] paisagens e [...] telhas [...], formas de campo e ervas daninhas [...],
eclipses lunares e cabrestos [...], exames periciais de pedras realizados por
geólogos e análises de espadas de metal realizadas por químicos [...], tudo o
que, sendo do homem, depende do homem, serve ao homem, expressa o
homem, significa a presença, a atividade, os gostos e as formas de ser do
homem”2.

Sendo a heurística a arte de encontrar e descobrir os documentos, a crítica externa
preocupa-se, então, com a integridade e a autenticidade do documento encontrado. Procura
limpar e recuperar o documento, de modo a preservar sua integridade e precisar o autor, a
1 CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. Tradução de Fernando Marquezini. São Paulo:
Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio” (Ramon Llull), 2007, p. 34.
2 CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. Tradução de Fernando Marquezini. São Paulo:
Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio” (Ramon Llull), 2007, p. 35.
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a sinceridade do autor do testemunho pode fundar a verdade do fato ou fundar um engano a respeito do fato. 2 . A fé intelectual. um mesmo termo pode ter significações diferentes. analisando as circunstâncias que o autor testemunhou – se poderia relatar ou não –. Fé e testemunho é a adesão que o historiador dá. Numismática (moedas e medalhas) e Heráldica (brasões) – para os monumentos –. Ao contrário da fé intelectual está a fé moral. Em todo o processo da crítica externa. pelos conteúdos e alusões a fatos. Essa crítica enfrenta dois problemas que são: o da hermenêutica e o da autoridade. vocabulário. No problema da autoridade. em que o historiador buscará descobrir qual é o gênero literário do texto. por detrás de uma metodologia. o historiador buscará saber dois fatores que são: a solução para a crítica literal. dessa forma o assentimento é puramente pela autoridade. CAPÍTULO II – A NARRAÇÃO HISTÓRICA O juízo histórico é um “saber de conclusões” que diz respeito formalmente ao historiador que. anunciando categoricamente um juízo: “aconteceu assim”. e Filologia. através da qual o historiador buscará saber a língua em que foi escrito o documento. costumes. a solução para a crítica literária. pois. Quando se resolve essas críticas. que usa a crítica como motivo fundamental. escritura e ideias. é necessário fazer uma diferenciação entre um e outro. as ciências auxiliares da História poderão ser de grande valia: Arqueologia.época. Epigrafia (inscrições). porém. analisará palavras e frases de acordo com o significado da época. o resultado extraído é o sentido do texto. Essa última também é considerada fonte de conhecimento certo. o que a testemunha quis passar ao escrever e o próprio autor. onde a crítica é usada previamente como método para verificar a autoridade da testemunha. deve vir sempre de uma interpretação efetiva de um fato humano acontecido no passado. analisando o seu caráter lógico e o aspecto gnosiológico. o contexto e o ambiente no qual foi produzido. No problema da hermenêutica. o passo seguinte é fazer a crítica interna do testemunho que vai buscar interpretar o texto. e. pesquisando as referências e alusões feitas por outros autores e documentos contemporâneos ao documento examinado. de maneira a tentar descobrir o verdadeiro significado dele e o que o autor realmente quis dizer quando testemunhou. No critério interno. pois. através de um critério interno e outro externo. se as testemunhas são contemporâneas ao fato relatado e se são muitas as testemunhas independentes que relatam da mesma forma. e interpretará o documento de acordo com a mentalidade da cultura na qual o texto foi feito. se o autor é ocular ou “de ouvido” – que realmente viu ou se ouviu de outro e testemunhou o que ouviu –. Após o historiador ter feito a crítica externa. os monumentos e as instituições. Isso é uma tarefa preliminar para um historiador. em cada gênero. ele pode recorrer às fontes indiretas ou impróprias. o que o historiador faz é buscar a sinceridade na testemunha. Se o historiador quiser ter mais clareza a respeito do fato. os sepulcros. Na crítica de autoridade. O aspecto lógico tem seu juízo histórico de caráter singular. faz com que o historiador dê assentimento somente ao fato ocorrido e não à testemunha. Para determinar uma história é preciso primeiramente atestar a veracidade dos fatos através de documentos e testemunhas. podendo ser para o testemunho – que é a fé intelectual –. E no critério externo. ou para a testemunha – que é a fé moral ou da pura autoridade. Diplomacia (cartas) e Paleografia (manuscritos) – para os escritos. estilos. de forma que o assentimento caia sob a testemunha. basicamente o que se fará é ver o quanto credível é o autor do testemunho. que são as moedas.

pois. Portanto. através de uma ordem de acontecimentos singulares. A história só trata propriamente dos fatos humanos que expressam a liberdade. simultâneos e mutuamente fundados: um descritivo e outro demonstrativo. p. O conhecimento histórico é uma síntese dessas consequências e virtualidades. Implicação é ter um fato passado como princípio de capacitação do presente. de modo que as conexões feitas expressem uma história com sentido. também não podemos separar o conhecimento deste objeto de suas consequências. pelo qual produtos da liberdade são convertidos em princípios de possibilitação de acontecimentos ulteriores. que relaciona um passado humano virtualmente a um presente. 2007. 3 CRUZ. é preciso levar em conta tudo aquilo que levou ao desdobramento de suas virtualidades. pois. mas apresentando uma realidade passada. sem perder a heterogeneidade dos elementos. Repercussão é ter o presente como princípio de capacitação deste presente. para chegar a conclusões gerais. Faz-se necessária pelo aspecto formal do fato histórico – o conhecimento histórico está atrelado a um presente. modo. um fato tem valor quando é conhecido em suas conexões. Retrospectiva porque o acontecimento da atualidade é conhecido como possibilidade (real) do acontecimento anterior a esse – caráter de epílogo. permitindo o conhecimento do objeto da história. mas pelo princípio de possibilidade nesse fato. A síntese conduz à conexão dos fatos históricos. Por isso. um ato construtivo”3.particular. lugar. pois. A síntese se distingue da unificação abstrativa. mas fatos em sua individualidade e também em suas mútuas conexões. Tradução de Fernando Marquezini. a história não estuda simples conceitos universais. porém. a história utiliza aquela. A narração histórica deve efetuar um percurso sintético ou conectivo. que por sua vez seja concreto e projetivo. 3 . E prospectiva porque mostra as consequências do acontecimento histórico – caráter de prólogo –. 54. e pela especificidade (aspecto formal). para sintetizar a pluralidade. tempo. É o modo de ser do conhecimento histórico. parte dos fatos particulares às dimensões coletivas. Através da narração. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio” (Ramon Llull). O fato histórico é marcado pela sua individualidade histórica (aspecto material). “a recordação histórica não é simplesmente um ato de reprodução. Esta. mesmo existindo um curto ou longo espaço de tempo. um juízo histórico manifesta um acontecimento que foi possível por causa da liberdade. ou fato histórico. não os ressuscitando. Filosofia da História. Há implicação retrospectiva e prospectiva. mas uma síntese intelectual original. Enquanto que. o acontecimento. Está relacionada às circunstâncias de individualização dos fatos da narrativa histórica: pessoas. embora o juízo histórico possua certeza e um alto grau de verossimilhança. por isso. A narração expressa a conexão de uma pluralidade de fatos. se dá não por um mero fato. implicada num fato humano passado. pode-se conhecer os fatos passados. Ele é organizado. que resulta do processo implicativo – “um acontecimento apóia-se na possibilidade real que o acontecimento anterior deixou no presente”4. A operação cognoscitiva de conectar um presente a um passado chama-se síntese. pois. dentre outras. carece de uma evidência absoluta: se refere a fatos que não são completamente apreensíveis. estruturado ordenadamente. A explicação histórica recorre ao condicionamento interno dos fatos. é própria da sociologia. Através da demonstração da história é perceptível uma construção dos fatos para que esta demonstração seja apreensível. Juan Cruz. A ciência histórica constitui-se de dois movimentos paralelos.

Tradução de Fernando Marquezini. um contínuo especial. 57. Tradução de Fernando Marquezini. distinto do natural e do lógico. não é necessário. 2007. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio” (Ramon Llull). 59. e contingente porque um fato poderia não ter ocorrido. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio” (Ramon Llull). já que seu objeto é racional e contingente: racional porque não carece de razões. a razão não é apodíctica – a história não é silogismo –. não é um condicionamento eficiente de uns fatos históricos por outros. 4 . Também não expressa uma sequência dialética (ou lógica). pois não se reduz a causas e efeitos. 5 CRUZ. p. existem condições de possibilitação. “expressa uma sequência de possibilitação que implica no exercício da liberdade e no uso das faculdades”5.A narração histórica não expressa uma sequência física (ou natural). 2007. Filosofia da História. mas tem por base o princípio de possibilidade referente ao seguinte. é uma sequência contínua. Juan Cruz. Contudo. 4 CRUZ. p. Filosofia da História. Juan Cruz.