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... EXISTO ONDE NÃO PENSO ...

Este ensaio é uma tentativa de dar conta de questões essenciais na
minha formação e na minha praxis psicanalítica. A partir do estudo da teoria
da Complexidade

a

questão

do Sujeito , tal qual Lacan propõe,

é

percebida como “ pura indeterminação
Freud, como se sabe, ao construir a Psicanálise estava intimamente
vinculado as idéias de Descartes , Darwin e Galileu. Em seus textos aparece
claramente a idéia do determinismo

como mostra a

busca por raízes

biológicas, objetivas e comprovadas, como a teoria dos instintos.

Nas

considerações das idéias inicialmente desenvolvidas em “ Mais além do
Princípio do Prazer ”-1920, particularmente no seu artigo “O Ego e o Id ”,
Freud cita textualmente: “O Ego é, antes de tudo corpóreo e não somente um
ser superficial, também incluso, a projeção de uma superfície. Se quisermos
encontrar uma analogia anatômica, haveremos

de identificar-lhe com

o

“homúnculo cerebral” da anatomia que se acha sobre o córtex cerebral ; tem
os pés para cima, olha para trás e ostenta à esquerda a zona da palavra...
Entretanto, também foi capaz de romper com essas mesmas idéias
cartesianas as “topar”, ou como diz Dali “ não procuro...encontro”, des-cobrir
o inconsciente. A partir do seu desvelamento o indivíduo, não apenas
voluntarioso, consciente e pensante ( reflexivo ) pode construir-se como
sujeito, embora ainda preso às posições sujeito/assujeitado.
O paradoxo da Modernidade, é que

Descartes inventou o sujeito e,

imediatamente o constrangeu. Através da dúvida ele chegou a ter certeza de
que “pensa, logo existe”. Mas, uma vez que chegou a ter esta certeza se deu
conta necessitava restituir a realidade ao mundo, porque senão caía no
isolamento. Segundo Najmanovich, “este movimento cartesiano não teria
tanto êxito se, de alguma maneira não se cruzasse com o desenvolvimento

Conforme Galileu.. alegria/tristeza. . Lacan retoma a este assujeitado às contingências. não se trata da natureza ao vivo e a cores. Por quê ou para quê esta restrição do mundo. Divergindo de Saussure. senão ao doméstico mundo fático encerrado entre as reduzidas paredes do laboratório. Uma semanticidade que se instaura na fronteira entre consciente e inconsciente e que se disfarça para ludibriar a vigilância da censura. representado pela própria fala ele desenvolve sua teoria dos efeitos do significante. podem ser coexistentes-ambivalentes. Acreditando que o percurso na busca da verdade deve ser empreendido no sujeito. ligado ao mundo fático. o significante lacaniano não é significante de um determinado significado mas ele próprio carregado de semanticidade.2 das ciência moderna . Entretanto. produzindo um “estranho casamento” entre o pensamento newtoniano e o empirismo inglês. Recusa o biologismo que caracteriza a teoria do instinto. à um laboratório limpo e ordenado ? Para que o sujeito não arruine tudo com sua subjetividade. às antinomias da infância.amplo e inusitado. podem unir-se como linguagem a ferramenta experimental. autonomia/dependência..” O sujeito emergente do inconsciente freudiano está envolto na teia das tendências. sujeito que paradoxalmente encontra-se numa relação constante ao pensamento freudiano. propondo o retorno à palavra como ponto chave para a reconstrução da teoria freudiana original. às perturbações neuróticas. embora ainda regidos por uma lógica alternativa. Ousou dar importância àquilo que acontecia. Newton aporta uma teoria em que a ferramenta matemática. dialética com certeza. mas atado em síntese. além de permitir a contemplação das verdades ideais e maravilhosas. num contato direto. onde os pares amor/ódio. a matemática “é a linguagem com que Deus fez o universo”. O sujeito freudiano é subjetividade essencialmente. aos sonhos.

cada um se determina como sujeito com respeito ao outro ou a outros. Deberemos pasar de una descripción que supone una independencia absoluta de sujeto y objecto a outra que nos habla de autonomia relativa en un entramado de interación. como figura do espaçamento real da pessoa em duas instâncias interdependentes: tu é um . é condição de uma teoria que proponha a sua divisão da fala dirigida ao outro. “si bien Descartes inventó al sujeto. darle um pequeño. isso justifica-se dentro do quadro teórico da psicanálise pois este estuda as representações do sujeito na língua do ponto de vista de sua unidade mesmo que produto de um efeito.3 O sujeito cartesiano.. e somente aí em que é enunciado como certo se reduz a um conjunto vazio. O homem é um ser constituído pela linguagem e por ela representa-se como sujeito através de um ato de apropriação do sistema linguístico. lo primero que hizo fue aplastralo bajo el peso de la universalidad. Segundo Benveniste. Estabelecemos aqui uma solução de continuidade. O ser-para-si só se conquista a partir do ser-para-outrem e o interlocutivo está no princípio dessa conquista. ver a linguagem como instrumento de representação do mundo é opor o homem a sua própria natureza. vacio. Nuestra tarea es des-aplastarlo. que o cogito faz emergir. Para cada falante o falar emana dele e retorna a ele.” Lacan recorre a Benveniste na discussão que este faz sobre a categoria de pessoa.. O par eu-tu é uma fratura na unidade da pessoa. helado y eterno de la universalidade. Conforme Najamonovich em seu seminário: “La Subjectividaded en el fin del milenio”. o instante. É a emanação irredutível do eu mais profundo de cada indivíduo ao mesmo tempo que uma realidade supra-individuale coextensiva a toda coletividade. Para Jacques BRES e GARDES MADRAY “o movimento que conduz à libertação do eu estabelece simultaneamente o tu. tibio y provisorio lugar sabiendo que es a costa de perder ese espacio grandioso.

Deve. A comunidade do diálogo põe em relação. graças às marcas da pessoa. o locutor coloca em nós seus mesmos. princípio de todas as outras que vão constituir sua existência. Representa a primeira experiência que o homem tem de sua unidade e. pois essa unidade dá-se através da internalização da figura de um outorgue ( a mãe ) Essa é a primeira forma de alienação do sujeito. a título de aliado ou de adversário. é a fase do desapossamento do ser de si mesmo. que vai do estreito ao amplo. pois é ameaçado. ao passo que coloca em tu. vocês ou na não-pessoa seus outros. Introduz as noções de “ estádio do espelho e Lei do Pai ” (ou passagem edipiana). O estádio do espelho antecipa a entrada do sujeito no simbólico. É no plano do imaginário então que a criança faz a aprendizagem da ordem simbólica e tem acesso a seu fundamento: a Lei do Pai. sem cessar. Esse espaço é instável. ao mesmo tempo. ao mesmo tempo. assumido.” Lacan fala deste momento quando o sujeito ingressa na ordem simbólica. Quando o falante coloca em funcionamento a língua por um ato individual de utilização ele se apropria do aparelho formal ( da língua ) e . O aqui e o lá da pessoa nem sempre se estruturam em termos claros de inclusão e de exclusão. É o momento em que a criança tem consciência da distinção entre seu próprio corpo e o exterior. enquanto interlocutor. muitas vezes de modo flutuante. inicia-se sobre esse tu que vai progressivamente integrar o isso sob os diferentes cortes do significante vocês. Além disso.4 eu eventual que. O ato de fala desenha assim um espaço no qual. eu e seus mesmos face a tu e seus outros que o interpelam. expansiva diríamos. pelas pressões internas daquele que fala e pelos efeitos da interação verbal. transformará o atual eu em tu. ser renegociado. A segunda tensão. esse espaço instável é freqüentemente perturbado.

E A CONTRIBUIR COM ATOS DE . Depois da enunciação.” o teatro da consciência é observado nos bastidores. um ethos em que o sujeito ocupa.. falando e sendo falado vai se construído um lugar. O ato individual de apropriação da língua introduz aquele que fala em sua fala. que se fala ao sujeito antes que o sujeito possa dizer: “Eu falo”.. sai do caráter puramente demonstrativo e passa a ser interrogante. senão estaria entorpecido na própria existência. explícita ou implicitamente. Nenhum ancoradouro seguro no ser. Habitando a enunciação. ocupando um lugar que se desfaz a cada momento e que experiência o des-ser constantemente. o encobertamento de imposturas.. a língua não é senão possibilidade de língua. a língua se acha empregada para a expressão de uma certa relação com o mundo . forma sonora que atinge um ouvinte e que suscita uma outra enunciação de retorno”. fertilizante de outras relações. Toda enunciação é. ela postula um alocutário. uma alocução. E a teoria. se nos deixarmos trabalhar por ela. Pêcheux . “ Por fim. nenhum arrimo possível na própria obra. Como diz Souza. se assim vista . que emana de um locutor. na enunciação. Antes da enunciação.5 enuncia sua posição de locutor. Benveniste . é romper com ilusões de proteção. qualquer que seja o grau de presença que ele atribua a este outro. creio que o que a psicanálise nos ensina. a língua é efetuada em uma instância de discurso. tendo como única garantia o nosso desejo. ele implanta o outro diante de si. E assim . lá onde se pode captar que se fala do sujeito. “Mas imediatamente. em seu artigo o Aparelho Formal da Enunciação diz textualmente: “. com relação a isso nos diz: .. desde que ele se declara locutor e assume a língua. O ato individual pelo qual se utiliza a língua introduz em primeiro lugar o locutor como parâmetro nas condições necessárias da enunciação. trabalhada ou lidada.

logo existo ” pois isso me limita estar presente no meu ser somente na medida em que penso aí estar. não para exorcizá-las. passa entre o significante enigmático e o termo que ele vem substituir.. Paulo. . 1981.. dentro da ótica lacaniana. J . O Aparelho formal de enunciação.. E. A significação. o que é impossível. Material de estudo do Mestrado de Lingüística da PUC/ RS. PORTANTO EXISTO ONDE NÃO PENSO. .. Falhas e Tempo do A-Dizer. Pontes. Aquele que fala não sabe aquilo que diz. A chave dessa estruturação se encontra no inconsciente. pois estamos num constante devir..6 PRODUÇÃO para que ela ( a psicanálise ) não seja uma simples diversão a mais. BRES. mas na perspectiva do estabelecimento de pontes provisórias entre o ser-que-busca e o desconhecido. NÃO é correto dizer. BIBLIOGRAFIA: BENVENISTE.et GARDES-MADRA. temos que: a linguagem se faz consciente através das estruturas da linguagem. A conseqüência de tudo isso é a superação do racionalismo em que tudo se explica pela razão.. Neste sentido. conclui que PENSO ONDE NÃO EXISTO.S. ou seja.. a “ Teoria da Complexidade negocia com a incerteza. pois a verdade só é evocada como presença em lugar diverso daquele que se pretende que estivesse. “ penso . 1989. in Problemas de Lingüística Geral II. inacessível ao sujeito consciente. Lacan. mas aquilo que permite mesmo que possamos redimensionar nossas pequenas diversões e (a ) diversidades. através de Freud.E para não concluir.

1995. Buenos Aires. KOSKO. 1997. v. M. ER YO Y EL ELLO. Porto Alegre. E.32.7 FREUD. Buenos Aires 1953. TEIXEIRA. S. SILVA. M.PUC/RS 1997 SOUZA. Da Subjetividade na linguagem: Lingüística e Psicanálise. 1995. A. MORIN. Acheronta. NAJMANOVICH. D. Obras completas. TEIXEIRA & FLORES. Crítica. Nuevos paradigma en el campo de la Subjetividad. Palestra proferida na FAMECOS. Política de Civilização e problema mundial. in Letras e Artes. Santiago Rueda. vol 2. in Consideraciones as ideas iniciadas en “MÁS ALLÁ DEL PRINCIPIO DEL PRAZER”. Em Busca da Complexidade Esquecida. IX.4 .1986. . O “sujeito” é o “outro” in Letras de Hoje. Porto Alegre. Barcelona 1995. Pensamiento Borroso. Juremir Machado. Unijuí. Artes Médicas. B. Conferência apresentada na cidade do Porto em 1996. v. vol. Uma Leitura Introdutória a Lacan ( exegese de um estilo ).