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Efeitos da revelia e possibilidade de desentranhamento

da contestação apresentada depois do prazo legal.
Aparentes restrições preclusivas e princípio constitucional da
ampla defesa
(João Aurino de Melo Filho )

A possibilidade de apresentação da contestação depois do prazo, o grau de
amplitude material dessa peça e a manutenção do documento no processo são
questões
controvertidas.
Sumário: Introdução: Introdução: apresentação de contestação depois de
configurada a revelia; 1. Efeitos processuais e materiais da revelia; 2.
Apresentação intempestiva da contestação: controvérsia sobre a legalidade do
desentranhamento; 2.1 Desentranhamento da contestação intempestiva como
consequência da revelia; 2.2 Manutenção nos autos da contestação
apresentada fora do prazo: ausência de norma que determina o
desentranhamento e princípio da documentação dos atos processuais; 3.
Impossibilidade de preclusão da apresentação de contestação pelo réu:
prevalência de garantias constitucionais; 4. Conclusão: A revelia não impede a
apresentação, ainda que tardia, da contestação, por ausência de regra legal
que assim determine, pelo princípio da documentação dos atos processuais e,
principalmente, porque se trata de meio indispensável para garantia potencial
do princípio da ampla defesa, do contraditório, enfim, do devido processo
legal; Referências.

Introdução: apresentação de contestação depois de configurada a revelia
A legislação impõe ao réu o ônus processual de apresentar defesa, fixando um
prazo ordinário para a realização deste ato processual. Não apresentada a
contestação, o réu, em razão de sua inércia, sofre consequências processuais
desfavoráveis.
Há, contudo, casos em que o réu, a princípio, não apresenta defesa, deixando
fluir o prazo, mas, em momento posterior, ingressa no processo e apresenta a

peça de defesa ordinária, a contestação, expondo os fundamentos fáticos e
jurídicos que resguardam seus interesses.
O réu exerce o seu direito de defesa, apresentando a contestação, mas o faz
de forma tardia, depois de transcorrido o prazo, que, ordinariamente, é de
quinze dias.
A possibilidade de apresentação da contestação depois do prazo, o grau de
amplitude material dessa peça e, dependendo da resposta a estas perguntas, a
manutenção do documento de defesa no processo ou o seu desentranhamento
são questões controvertidas, tanto na doutrina quanto na jurisprudência.
A controvérsia central pode ser sintetizada por estas conclusões alternativas:
desentranhamento ou manutenção nos autos da peça de contestação
apresentada depois do prazo.
O objetivo do presente trabalho é analisar a questão posta, explicando o
alicerce argumentativo que sustenta cada uma das teses que oferecem solução
ao caso teórico exposto.
Antes do estudo das teses em si, é indispensável, para uma compreensão
integral da controvérsia, uma análise, ainda que breve, dos efeitos da revelia.
Depois deste estudo introdutório, mas necessário, será possível compreender,
com mais acuidade, o estudo das teses contrapostas, expostas em seguida.
Fixados os panoramas argumentativos de cada uma das soluções propostas, o
estudo apresentará aquela que parece mais técnica e adequada, não tendo
como condicionantes os argumentos tradicionalmente expostos pelos adeptos
de cada uma das soluções, já que o objetivo, ainda que pela sistematização, é
ultrapassá-los.
Deve ser ressaltado que não existe um consenso sobre o problema, havendo
decisões judiciais na mesma época e nos mesmo tribunais em ambos os
sentidos, conforme será analisado no prosseguimento deste trabalho. O próprio
Superior Tribunal de Justiça, ainda que se incline em uma posição, também
possui precedentes divergentes. Nas instâncias planiciais, o dissenso é ainda
maior, inexistindo um norte seguro a ser seguido.
A controvérsia sobre o tema, que permanece atual, garante a importância deste
trabalho.

com as mitigações do artigo 320: Art. A revelia produz 2 (dois) efeitos: um material e outro processual. real ausência do réu no processo. 319). Em todo caso. deverá apresentá-la no prazo de quinze dias. havendo uma grande distinção entre a não apresentação da defesa. a maioria no Título VII. 322). exerce o seu direito de defesa. parcela relevante da doutrina e da jurisprudência entendem que também ocorre a revelia quando a contestação é apresentada depois do prazo legal. respondendo a todas as questões colocadas pelo autor na petição inicial. não apresentando resposta. contudo. De ordinário. a amplitude integral dos efeitos da revelia é mitigada. e a apresentação intempestiva da peça.1.Efeitos processuais e materiais da revelia A contestação é a peça de defesa onde o réu deve concentrar todos os seus argumentos e alegações. art. Contudo. art. Por sua vez. É na contestação que o réu explicitar as razões de fato e de direito com as quais impugna o pedido do autor. quando apresentada a contestação. além de configurada a revelia quando o réu deixa transcorrer o prazo para contestar. em petição escrita dirigida ao juiz da causa (artigo 397 do CPC). deixando de apresentar sua defesa no processo. O efeito material da revelia consiste em se presumirem verdadeiros os fatos alegados pelo autor (CPC. reputar-se-ão verdadeiros os fatos afirmados pelo autor"). o efeito mencionado no artigo antecedente: . O réu é citado para oferecer a contestação. Capítulo III. "DA REVELIA". A revelia não induz. A revelia ocorre quando o réu não responde ao chamamento judicial. ainda que tardiamente. além de especificar as provas que pretende produzir (artigo 300 do Código de Processo Civil). 320. ainda que fora do prazo. Na verdade. quando o réu. de sorte que os prazos correrão independentemente de sua intimação (CPC. o efeito processual identifica-se com a dispensa de intimação do réu para os atos do processo. a não apresentação de contestação gera as consequências previstas no Código de Processo Civil. [01] O efeito material está previsto no artigo 319 ("Se o réu não contestar a ação.

II). é possível. justamente porque se opera a presunção de veracidade dos fatos alegados pelo autor" [02].. algum deles contestar a ação. porque o efeito material da revelia. devendo o juiz atentar para a presença ou não das condições da ação e dos pressupostos processuais e para a prova de existência dos fatos da causa. culminar no julgamento imediato da lide. correrão os prazos independentemente de intimação. o julgamento imediato da lide depende do contexto específico da demanda.se a petição inicial não estiver acompanhada do instrumento público. [03] O Superior Tribunal de Justiça tem jurisprudência consolidada no sentido de que: A presunção de veracidade dos fatos afirmados na inicial. é relativa. II . a consequência é a sentença favorável ao demandante. . decorrente do efeito material. podendo. mesmo com a relativização dos efeitos materiais da revelia. já que a "revelia acarreta o julgamento antecipado da lide (CPC. Na prática. a despeito de ocorrida a revelia. [. O efeito processual ordinário está materializado no artigo 322: "Contra o revel que não tenha patrono nos autos. se o réu não comparece em nenhum momento do processo. em caso de revelia. de regra. Desse modo. outro efeito. ônus processual do réu. Na pratica o que ocorre é que a falta de contestação e a consequente confissão ficta esgotam o tema probatório.se.] a presunção de veracidade decorrente da revelia não é absoluta. único a apresentar seus fundamentos. Se há elementos nos autos que levem a conclusão contraria não está o juiz obrigado a decidir em favor do pedido do autor. é improvável que o autor.se o litígio versar sobre direitos indisponíveis. havendo pluralidade de réus. ainda. uma sentença desfavorável ao autor. art. pode extinguir o feito sem julgamento de mérito ou mesmo concluir pela improcedência do pedido. III . como a única e verdadeira. ao menos nos autos. de modo que. não é absoluto. gera consequências processuais desfavoráveis. Contudo. [04] Portanto. a presunção de veracidade dos fatos narrados pelo autor. mesmo configurada a revelia. inclusive. que a lei considere indispensável à prova do ato. A não apresentação da contestação.I . seja vencido. Há. pois a versão dos fatos que ele apresenta tende a prevalecer. 330. ao menos em tese. também processual.. a partir da publicação de cada ato decisório".

ainda que tardio. Inclusive. O simples fato de inexistir contestação ou. na hipótese de este intervir no processo antes de encerrada a fase instrutória. o réu revel poderá intervir no processo em qualquer fase. detidamente. seria no sentido da impossibilidade de desentranhamento da peça. sistemática e extensiva. sintetizando o exposto neste tópico. é possível que o réu participe do processo a qualquer tempo. e possibilidade de julgamento imediato da lide. para parcela relevante da doutrina e. A partir do seu ingresso no feito. em razão da presunção de veracidade dos fatos alegados pelo autor. Veja-se que. poderá requerer a produção de provas. [05] Em todo caso. passará a ser intimado de todos os atos praticados no processo. interpretação teleológica. que combina analogia. como na espécie. Contudo. não havendo norma que determine o desentranhamento da contestação extemporânea. a revelia produz os seguintes efeitos: presunção de veracidade dos fatos narrados pelo autor. recebendo-o no estado em que se encontrar. . cabendo ao magistrado aferir sua pertinência ao deslinde da controvérsia.Nada obstante os efeitos da revelia. dispensa de intimação do réu dos atos processuais. parágrafo único). apresentar contestação. da jurisprudência. a conclusão. parágrafo único do Código de Processo Civil. decorrendo de um sofisticado exercício hermenêutico. no estado em que se encontra (artigo 322. produzir provas (Súmula nº 231 do Supremo Tribunal Federal). a controvérsia. 322. As normas processuais não determinam. necessariamente. a impossibilidade de o réu. a procedência da demanda. Ausente norma legal que determine o desentranhamento. inclusive. Examinemos. o desentranhamento da contestação é efeito implícito da revelia. como efeito da revelia. contestação intempestiva. principalmente. em uma interpretação literal. não induz. bem como não impede eventual produção de provas. recebendo-o. ainda que tardiamente. nos termos do art.. porém. podendo.

a sua prática além dele importa na sua inadmissibilidade. tem-se entendido que. então. surge para o magistrado uma dúvida: manter tal documento nos autos ou determinar o seu desentranhamento. ainda que implícito. o que seria um efeito.Apresentação intempestiva da contestação: controvérsia sobre a legalidade do desentranhamento Conforme exposto no final do último capítulo. mas apenso a eles.. Ambas as possibilidades contam com defensores e justificativas minimamente plausíveis. quando o réu apresenta contestação de forma extemporânea. ou seja.2.] Alguns juízes. determinam que seja anexada à contracapa dos autos. assinalando a lei prazo para a prática do ato processual. com segurança. cumprem à risca o que supõem seja a conseqüência da extemporaneidade. 2. [06] .Desentranhamento da contestação intempestiva como consequência da revelia Apesar de ausente previsão legal determinando expressamente o desentranhamento da contestação apresentada depois do prazo legal. simplesmente. posicionar-se sobre a matéria em estudo.. sem maiores indagações toda decisão que manda desentranhar contestação ou recurso protocolado após o decurso do prazo legal. Alguns. determinam que seja juntada por linha fora dos autos do processo. pelo que a regra tem sido o desentranhamento de contestações e recursos protocolados extemporânea ou intempestivamente. Nem a doutrina nem a jurisprudência têm questionado essa decisão. sendo necessário estudar os fundamentos de cada uma delas para. da revelia. no entanto. e os tribunais têm confirmado. [. a título de cautela.1. Até. a expedição de ordem judicial determinando sua extração dos autos tornou-se costume jurisprudencial de larga aplicação. e outros. mandam que seja devolvida aos procuradores do réu. mediante recibo nos autos.

é aplicada ao caso. 319. CONTESTAÇÃO. Eis o traço teleológico da interpretação. maximizaram-se os efeitos da revelia. pois. Não o fazendo. No voto vencedor. é extraída uma sanção de outra norma processual. I. de nada adiantaria prescrever um prazo legal para determinado ato e admitir a sua prática depois do marco final. por analogia. AGRAVO REGIMENTAL. a norma do artigo 195 do CPC ("O advogado deve restituir os autos no prazo legal. II. RECURSO ESPECIAL. de certa forma. em tese. é preciso valer-se da interpretação teleológica. e. não cumprido no prazo legal. do recurso à analogia. Caracterizada a revelia do réu. mandará o juiz. o desentranhamento surge como mais uma sanção ao réu que se apresenta tardiamente. Ao mesmo tempo. ainda. INTEMPESTIVIDADE. impedindo a sua prática. o ato está proibido de ser praticado. CPC. Trata-se de tese recentemente observada em acórdão do Superior Tribunal de Justiça: PROCESSUAL CIVIL. sistemática e teleológica. têm como consequência a preclusão. já que as consequências previstas de forma literal na lei não possuiriam. surgiu da utilização conjunta das interpretações extensiva. REVELIA. que. ART. Agravo regimental improvido. de ofício. tem-se que: [07] . REVELIA. submetendose a marcos temporais que. Os atos processuais não podem ser realizados a qualquer tempo. Entende-se que. ao que parece. Assim. juntando-se aos efeitos da revelia efetivamente previstos em lei. o que tornaria o prazo sem efeito. legítima a desconsideração da contestação intempestiva e o seu desentranhamento. depois de expirados. Precedentes. riscar o que neles houver escrito e desentranhar as alegações e documentos"). Buscando garantir a prática do ato no prazo legal. coercitividade suficiente.O costume de determinar o desentranhamento de peças processuais. Em primeiro lugar. para justificar os efeitos mais amplos conferidos à revelia.

o desentranhamento da peça contestatória não faz com que os réus não possam mais interferir no feito.427/SP. POSSIBILIDADE. DJU de 13. Sidnei Beneti. I . FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. tendo em vista a sua intempestividade. VII . VIOLAÇÃO AO ART.Em que pese à caracterização. eis que o Juízo de primeira intempestividade instância das restringiu-se contestações.1997.2004.Sobre o conflito jurisprudencial. a matéria foi tratada em outras decisões do Superior Tribunal de Justiça. INTEMPESTIVIDADE. o REsp n. ou não. DESENTRANHAMENTO. V . de revelia na presente lide.229/RJ. porquanto não cabe à Fazenda Pública a apresentação de sua defesa a qualquer tempo. [08] Extrai-se do voto vencedor: . CONTESTAÇÃO. DJU de 19. Rel.Não há que se falar em omissão no julgado objurgado. Ruy Rosado de Aguiar. 90. AÇÃO POPULAR.] IV . como despontam. a despeito da respeitável decisão apontada do eminente Min. Como citado no precedente.Ademais.12. 510. produzindo provas. Francisco Falcão.12. Min. nem que os fatos alegados pelo autor sejam considerados verdadeiros.Recurso especial improvido. 535 DO CPC. INOCORRÊNCIA DE OMISSÃO. a matéria encontra-se pacificada pela jurisprudência dominante desta Corte. Min. [. ao com o reconhecimento seu da conseqüente desentranhamento. Rel. além da já mencionada acima.. sem que houvesse versado acerca do referido instituto. conforme mais esta decisão: PROCESSUAL CIVIL. inexiste óbice para que se deixe de conhecer da contestação e se determine o seu desentranhamento.. quando o Tribunal a quo deixou de se manifestar acerca da ocorrência de revelia aos réus. e REsp n.

A contestação deve ser apresentada no prazo de 15 (quinze) dias. Recurso desprovido. Ademais. porquanto não cabe à Fazenda Pública a apresentação de sua defesa a qualquer tempo. O réu revel pode ingressar no processo a qualquer tempo. e concluindo pela correção da decisão que determina o desentranhamento da contestação extemporânea "[. nem que os fatos alegados pelo autor sejam considerados verdadeiros. Unânime. Há. e o não conhecimento da contestação é medida que se impõe [09]. REVELIA. - A DECISÃO MONOCRÁTICA QUE DETERMINOU O DESENTRANHAMENTO DA PEÇA CONTESTATÓRIA DA UNIÃO . . apresentada fora do prazo legal". sob pena de tornar inócuo os prazos peremptórios fixados pela legislação adjetiva bem como sem efeito a revelia daí decorrente": AGRAVO DE INSTRUMENTO-AÇÃO ORDINÁRIA -CONTESTAÇÃO- INTEMPESTIVIDADE.Revelia. DESENTRANHAMENTO. produzindo provas.. POSSIBILIDADE. STJ. tendo em vista a sua intempestividade. Desentranhamento. Contestação.FAZENDA NACIONAL ENCONTRA GUARIDA EM ORIENTAÇÃO EMANADA DO C. .]. O efeito processual da revelia é o da determinação de desentranhamento da contestação. ainda. o fenômeno processual da preclusão temporal opera seus efeitos. CONTESTAÇÃO.Inexiste óbice para que se deixe de conhecer da contestação e se determine o seu desentranhamento. Não observada a regra processual civil em vigor. [10] PROCESSUAL CIVIL. conforme preceitua o art.. AGRAVO DE INSTRUMENTO. o desentranhamento da peça contestatória não faz com que os réus não possam mais interferir no feito. 322 do Código de Processo Civil. apresentada fora do prazo legal. NO SENTIDO DE QUE "INEXISTE ÓBICE PARA QUE SE DEIXE DE CONHECER DA CONTESTAÇÃO E SE DETERMINE O SEU DESENTRANHAMENTO. explicitando que "O efeito processual da revelia é o da determinação de desentranhamento da contestação. TENDO EM VISTA A SUA INTEMPESTIVIDADE. sendo vedada a reprodução de oportunidades já preclusas. precedentes de outros Tribunais na matéria.

NEM QUE OS FATOS ALEGADOS PELO AUTOR SEJAM CONSIDERADOS VERDADEIROS". mas passará a deter uma posição de desvantagem no processo. Os atos que as partes praticam no processo decorrem do exercício de ônus. o réu é citado para. Não está ele obrigado a comparecer em juízo nem a apresentar sua defesa. [11] Assim. PRODUZINDO PROVAS. RESP 510229 .RJ. via de regra. 2.PORQUANTO NÃO CABE À FAZENDA PÚBLICA A APRESENTAÇÃO DE SUA DEFESA A QUALQUER TEMPO. tomando ciência da demanda proposta pelo autor. caso a parte não os exerça. sofrendo o ônus por não ter praticado o ato processual tempestivamente. pretendendo resguardar o cumprimento dos prazos processuais com a ampliação os efeitos da revelia. não estando obrigada a praticá-los.Manutenção nos autos da contestação apresentada fora do prazo: ausência de norma que determina o desentranhamento e princípio da documentação dos atos processuais Não apresentada a contestação no prazo legal. criou o costume de desentranhar a contestação apresentada depois do prazo. porém. Se não o fizer. O DESENTRANHAMENTO DA PEÇA CONTESTATÓRIA NÃO FAZ COM QUE OS RÉUS NÃO POSSAM MAIS INTERFERIR NO FEITO. Daí por que. eis que serão. explicitando as suas consequências: Assim. deve ser revisto. a jurisprudência. produzidos os efeitos da revelia: a) os fatos narrados pelo autor serão reputados . Esse costume jurisprudencial. ainda que conte com diversos precedentes. AGRAVO DE INSTRUMENTO A QUE SE NEGA PROVIMENTO. [12] A questão é saber a amplitude da posição de desvantagem imposta ao réu que não apresenta defesa tempestiva. assumindo uma posição de desvantagem no processo. desfavoráveis. a parte tem o ônus de exercer os atos processuais. Leonardo Carneiro da Cunha sintetiza os limites desta posição desfavorável. deveres. será revel. poderes e faculdades. vir a juízo defender-se. ao interpretar as normas processuais. Na realidade. o réu sofrerá consequências. não sofrerá sanção nem será obrigada a fazê-lo.2. processuais e materiais. incluindo decisões recentes do Superior Tribunal de Justiça.

Na legislação pátria. Tal efeito. prova o desejo de defesa por parte do réu. feita fora do prazo legal. as conseqüências ao revel são a presunção da verdade. cm outras palavras. cessa o efeito processual da revelia. não há razão para privá-lo da ciência dos atos do processo'. 'se o réu. conforme já analisado. Neste caso. Por outro lado.verdadeiros e b) os prazos correrão contra o réu. somente é produzido. que consiste na dispensa de intimação do réu para os atos do processo (CPC. porém. enquanto que a contestação intempestiva. os efeitos processuais da revelia. ainda que tardiamente. Realmente. Os efeitos da revelia ocorrem com amplitude máxima quando o réu não ingressa no feito. o réu passa a atuar de forma ativa no processo. independentemente de intimação. [14] Depois de apresentada a contestação. [15] Ao analisarem-se os efeitos da revelia. constituir advogado e passar a atuar regularmente no processo. A partir do momento em que o réu comparece nos autos. permanecendo inerte. urge salientar a diferença entre uma falta de contestação e a contestação intempestiva. O efeito processual da revelia. situação que afasta. há verdadeira renúncia ao direito de defesa – mas não ao direito em si. embora já esgotado o prazo para contestar. a primeira é a demonstração tangível de que o réu não deseja defender-se dos fatos. ainda. ordinariamente. . a dispensa de intimação dos atos praticados e o julgamento antecipado da lide. art. se o réu. se e enquanto o réu não atua no processo. inclusive. [13] Há. ou melhor. já que o magistrado pode relativizar o efeito material da revelia. 322). o réu que ingressa no feito. restou claro que não existe norma legal que proíba o réu de apresentar contestação tardia: a revelia não contem entre os seus efeitos a obstaculização da defesa do réu nem a possibilidade de desentranhamento da peça que a exteriorize. da não apresentação da contestação no prazo legal. demonstra claramente que pretende exercitar o seu direito de defesa. outra consequência processual decorrente da inércia do réu: a possibilidade de julgamento imediato da lide. o que diferencia a sua situação daquela em que o réu sequer se apresenta no processo. além de não contestar. dependendo do contexto do caso concreto. Primeiramente. não comparece nos autos. somente se produz.

porque a par da confissão ficta que resulta da sua extemporaneidade. reputarem-se verdadeiros os fatos afirmados pelo autor. e a contestação comporta tanto alegações de fato quanto de direito.] Portanto. [16] Certo que. analisar as questões jurídicas. não há nenhuma norma legal que o impeça de apresentar petição escrita contendo toda a matéria de defesa que achar conveniente.. sem a sua participação. podendo sofrer sérias conseqüências pelo comparecimento tardio. [. comparecendo o réu ao processo. apresentando seus argumentos. 330 do CPC). notadamente no campo da instrução probatória. ou seja. e que. 319. cabe ao juiz. até o comparecimento do réu no processo..portanto. devendo elas serem analisadas e examinadas com extensão e profundidade pelo juiz. e isso só ocorrerá por ocasião da sentença.] . não tem suporte legal a decisão que manda desentranhá-la. Se a revelia alcança apenas os fatos e não o direito. em conclusão de mérito provavelmente contrária aos seus interesses. [. se não for caso de julgamento antecipado da lide (art. A presunção de verdade restringe-se apenas aos fatos alegados pelo autor e não. o que pode culminar com o julgamento imediato da lide. Porém.. mas não o seu alijamento puro e simples dos autos. ao menos até o seu ingresso. inobstante a revelia. porque ainda haverá questões jurídicas a resolver. que seria realizada. Além disso. se desentranhada. as questões jurídicas levantadas pelo réu. não lhe proporcionará um exame com a extensão e profundidade pretendidas pela defesa. não se encontra respaldo jurídico para o desentranhamento da peça defensiva. a única conseqüência que resulta de uma contestação intempestiva é aquela prevista no art.. receberá o processo no estado em que se encontra. operam-se todos os efeitos da revelia. inclusive aquelas que tenham sido objeto de alegação do réu.

em nenhuma hipótese. INSCRIÇÃO. ADVOGADO COMUM AOS LITISCONSORTES. . [17] No mesmo sentido. tanto quanto a que resulta da falta de contestação —. PRESUNÇÃO DE VERACIDADE DOS FATOS. salvo se o contrário não resultar da prova dos autos. "A PRESUNÇÃO DE VERACIDADE DOS FATOS ALEGADOS PELO AUTOR EM FACE DA REVELIA DO RÉU É RELATIVA. CONCURSO PÚBLICO. PRAZO EM DOBRO PARA CONTESTAR. QUARTA TURMA. AGRG NO AG 1074506/RS. existe forte corrente jurisprudencial: DIREITO DO CONSUMIDOR E PROCESSUAL CIVIL. REL. RESP 434. antes da sentença final. a qualquer tempo. e que podem ser objeto de alegação. O RÉU REVEL PODE INTERVIR NO PROCESSO A QUALQUER TEMPO. CANCELAMENTO.A revelia resultante da contestação intempestiva —.866/CE. DESENTRANHAMENTO DE CONTESTAÇÃO. DESNECESSIDADE. DJE 03/03/2009).. "O DESENTRANHAMENTO DA CONTESTAÇÃO INTEMPESTIVA NÃO CONSTITUI UM DOS EFEITOS DA REVELIA. DE ACORDO COM O PRINCÍPIO DO LIVRE CONVENCIMENTO DO JUIZ" (STJ. REVELIA. MINISTRO BARROS MONTEIRO. APELAÇÃO DESPROVIDA. JULGADO EM 17/02/2009. DE MODO QUE A PEÇA INTEMPESTIVA PODE PERMANECER NOS AUTOS. REL. RELATIVIDADE. A QUAL PODE SER ALEGADA A QUALQUER TEMPO E GRAU DE JURISDIÇÃO" (STJ. ALERTANDO O JUÍZO SOBRE MATÉRIA DE ORDEM PÚBLICA. [. EVENTUALMENTE. INDENIZAÇÃO INDEVIDA. 3.. PODENDO CEDER A OUTRAS CIRCUNSTÂNCIAS CONSTANTES DOS AUTOS. 227). importa na presunção relativa de veracidade dos fatos afirmados pelo autor. MINISTRO SIDNEI BENETI. porque. JULGADO EM 15/08/2002. DJ 18/11/2002 P. mas.] 2. FALHA NO CARTÃO DE CRÉDITO. TERCEIRA TURMA. IMPRUDÊNCIA DO CANDIDATO. há questões jurídicas a respeito das quais não ocorre aquela presunção. AUSÊNCIA DE PROVA IDÔNEA. além das questões de fato. autoriza o desentranhamento da peça contestatória. não negadas oportunamente pelo réu.

permite a intervenção do revel em qualquer fase do feito. a teor do art. AGRAVO RETIDO. REVELIA: tratando-se de matéria exclusivamente de direito. publicada em março de 2009. em razão da revelia. é apenas relativa. o atraso na apresentação de contestação impugnando o pedido inicial não enseja a aplicação da pena de confissão.. conforme se percebe da leitura de um dos acórdãos citados. DESENTRANHAMENTO.. entendeu que "o desentranhamento da contestação intempestiva não constitui . 4) O art. [19] AGRAVO DE INSTRUMENTO . por ter sido apresentada intempestivamente. em decisão recente.. do CPC. por decorrência da revelia (art. CADASTRO DE INADIMPLENTES. recebendo-o no estado em que se encontra. 1) Não se faz necessário o desentranhamento da impugnação aos embargos de devedor.IMPUGNAÇÃO INTEMPESTIVIDADE . [. inexistem os efeitos da revelia. CONTESTAÇÃO INTEMPESTIVA. CAPITALIZAÇÃO.DESNECESSIDADE REVELIA . [20] O próprio Superior Tribunal de Justiça. nesses casos.RECURSO NÃO PROVIDO.. pois restritas as conseqüências desta à matéria de fato. REVISÃO DE CONTRATO BANCÁRIO. os efeitos da ausência de impugnação ou da presença de defesa intempestiva são ainda mais relativizados. DESENTRANHAMENTO: o desentranhamento de peça contestatória intempestiva não possui previsão legal. 309 do CPC).]. 3) Nos embargos à execução.[. Os Tribunais Superiores chegam a afirmar que. 2) A presunção da veracidade dos fatos alegados nos embargos do devedor. JUROS.]. REVELIA.EMBARGOS DO DEVEDOR .DESENTRANHAMENTO . [18] APELAÇÃO CÍVEL. ante a intempestividade da impugnação. 319 do CPC.IMPOSSIBILIDADE . 322. devendo o juiz atentar para os elementos probatórios presentes nos autos. perquirindo a verdade real dos fatos.

acrescentando mais um argumento para a manutenção da contestação nos autos: o princípio da documentação dos atos processuais. as normas que dispõe sobre os efeitos da revelia pertencem à categoria que Carlos Maximiliano denomina "Direito Excepcional": Consideram-se excepcionais.]. [. quer estejam insertas em repositórios de Direito Comum. segundo o qual os atos processuais devem ser praticados por escrito e autuados no processo: I .] o) limitam a faculdade de acionar de novo. em uma perspectiva estritamente hermenêutica. limitando o direito de defesa . [22] As normas excepcionais. as disposições: [. quer se achem nos de Direito Especial. artigo 195) de desentranhamento de peças e documentos apresentados juntamente com os autos . ou restringe direitos. nem que fosse para a documentação do ato processual consubstanciado na petição escrita denominada contestação. a peça de defesa teria que permanecer nos autos. oferecer provas. de modo que a peça intempestiva pode permanecer nos autos" [21].... só abrange os casos que especifica". Por fim.um dos efeitos da revelia".A previsão legal (CPC. acrescentando que "o réu revel pode intervir no processo a qualquer tempo. [24] . conquanto sem efeito jurídico. 6º da antiga Introdução. assim concebido: "A lei que abre exceção a regras gerais. Assim. O autor citado leciona que: O Código Civil explicitamente consolidou o preceito clássico – Exceptiones sunt strictissima interpretationis ("interpretam-se as exceções estritissimamente") – no art.não impede permaneçam nos autos."não se estendem além dos casos e tempos que designam expressamente" [23]. O acórdão citado remete a outros precedentes. em observância ao princípio da documentação dos atos processuais.. de recorrer.devolvidos em cartório além do prazo legal . defender-se amplamente. por sua situação – no caso.

Cumpre opinar pela inexistência da exceção referida. impõe a manutenção da contestação nos autos. à primeira interrogação: o Direito Excepcional comporta o recurso à analogia? Ainda enfrenta. Por outro lado. tanto está vedado o uso da interpretação extensiva quanto da analogia: O processo de exegese das leis de tal natureza é sintetizado na parêmia célebre. ato jurídico.. A hermenêutica das normas excepcionais. em conclusão. num relâmpago. já que. ainda que se existisse dúvida razoável. para sanar tal dúvida.. [. A interpretação literal. a segunda: é ele compatível com a exegese extensiva? Neste último caso. [. e com vantagem. no caso. ou dúvida razoável paira sobra a sua aplicabilidade a determinada hipótese. Devem ressaltar dos termos da lei. é indispensável levar em consideração a excepcionalidade das normas que se pretende interpretar. ou frase de expositor. faculdade ou prerrogativa não se presumem. em sentido negativo. a interpretação que surge com maior poder de convencimento é aquela que. é baseada na interpretação literal. persiste o adágio em amparar a recusa. quando esta se não impõe à evidência. o desentranhamento da contestação extemporânea exige a interpretação extensiva e o uso da analogia. Contudo. da análise do ordenamento jurídico.Conforme exposto. que seria imprudência elimina sem maior exame – interpretam-se restritivamente as disposições derrogatórias do Direito comum. já . faculdade. há mais que dúvida razoável. como as que limitam o direito de defesa. [25] No caso.. de normas excepcionais. afasta a possibilidade do desentranhamento da contestação.. como é o caso. aquela síntese expressiva interpretam-se restritivamente as disposições derrogatórias do Direito comum! Responde.] Restrições ao uso ou posse de qualquer direito. é isto que o preceito estabelece.] Quanta dúvida resolve. tratando-se.

Para efetivação do devido processo legal. em processo judicial ou administrativo. e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa. do convencimento do magistrado. dispõe que "ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal". Portanto. Em todo caso. efetivamente. Analisando a questão sob o enfoque constitucional. não pode haver devido processo legal sem ampla defesa nem ampla defesa sem o devido processo legal. na sua gênese. ao menos potencial. o artigo 5ª. Atualmente. passando pela interpretação extensiva e utilização da analogia. Certo que. . conforme estudado. a faculdade. sendo também necessário que se disponibilize à parte a oportunidade de se manifestar sobre ele [27]. ao menos no atual estágio epistemológico. em outras palavras. os dois princípios estarão sempre unidos. com meios e recursos a ela inerentes". enquanto o inciso LV do mesmo artigo assegura que "Aos litigantes. pressupõe igualdade de posições abstratas entre autor e réu. não se resumindo ao mero conhecimento de um ato. o devido processo legal só abarcava a igualdade formal. Apesar de distinções doutrinárias. LIV. pressupõe um alto esforço hermenêutico. de forma ativa. pensar na existência indissociada dos princípios da ampla defesa e do devido processo legal. a aplicação dos princípios da hermenêutica ratifica a tese que afasta a possibilidade do desentranhamento e impõe a manutenção nos autos da contestação intempestiva. abarcando a igualdade material. A ampla defesa pressupõe o contraditório. além dos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Em todo caso. que fazem parte do devido processo legal na sua acepção material. não há como. mas a evolução modificou seu conteúdo.que tal conclusão. por vezes sutis. por seu turno. é essencial que o processo garanta um procedimento que faculte aos envolvidos todos os meios que posam convencer o julgador da procedência de suas razões [26]. O contraditório e a ampla defesa. temos dois princípios constitucionais indissociáveis. de que ambas partes participem. a ampla defesa é parte integrante do devido processo legal.

[30] Fixados estes pontos. que a possibilidade de rebater acusações. por sua vez o direito de ampla argumentação há que ser a todos os envolvidos reconhecido como o direito de trazer à discussão institucionalizada. contudo. que é o processo. interpretações de fatos. que não apenas limitaria a ampla defesa e o contraditório. é necessária a manutenção de um substrato material mínimo. a possibilidade de uma regra legal determinar o desentranhamento da peça básica de defesa do réu. para a reconstrução do caso e do Direito a fim de que seja construída a decisão do caso. mas. e mais uma vez. interpretações jurídicas. pela própria dicção da Constituição. na instância planicial. a oportunidade de apresentar argumentos que se contraponham aos fatos e provas apresentados pela outra parte [29]. Como todo princípio. a qual. para evitar sanções ou prejuízos. uma contestação . no convencimento do magistrado. não são necessários maiores esforços hermenêuticos para concluir pela inconstitucionalidade de tal norma. seria desentranhada .Se interpretarmos o contraditório como o reconhecimento de iguais possibilidades de participação no procedimento. pelo mesmo entendimento. por igual. principal de seus esforços defensivos. a cada uma delas. com meios e recursos a ela inerentes. é necessário que se garanta: [. argumentos.materialmente... outorgando-se. não pode ser restrita. que consubstancia suas alegações de fato e de direito. questiona-se. toda e qualquer questão que entendam ser relevantes também. podem ser sopesados. afastando-se a possibilidade de uma total supressão. nestes termos. o norte primeiro e. ao menos na instância planicial. [28] Ambas as partes devem ter a possibilidade de influir. O preceito ampla defesa reflete a evolução histórica e legislativa que reforça tal princípio e denota elaboração acurada para melhor assegurar sua observância. não basta que a parte tenha o direito de defesa. sob a perspectiva constitucional. também não seria possível apresentar petição simples expondo suas alegações de defesa . praticamente suprimiria os seus efeitos. Significa. alegações. Aliás. Ora. Não fosse possível ao réu oferecer contestação.] a ampla defesa..

como modalidade semelhante à difundida técnica hermenêutica da interpretação conforme à Constituição. A ampla defesa. no sentido de que estes. Como primeiro desdobramento de uma força jurídica objetiva autônoma dos direitos fundamentais. Também sob o enfoque constitucional. onde estão localizados os princípios da ampla defesa. apontaria para a necessidade de uma interpretação conforme aos direitos fundamentais. pois. ainda que o réu não tenha exercido este direito no momento processual ordinário. mas afastados do processo.ainda que com restrições . de nada adiantaria a possibilidade de produzir provas supondo-se o momento processual adequado . no artigo 5ª. . fornecendo diretrizes para aplicação de todo o complexo normativo infraconstitucional. o contraditório e. ao deixá-los sem um substrato material de aplicação mínimo. acabaria por inviabilizá-los. além disso. na sua condição de direito objetivo. que. do contraditório e do devido processo legal encontram-se as disposições atinentes aos direitos e garantias fundamentais. Por estes motivos. o devido processo legal estariam não apenas limitados.se não fosse possível um exercício mínimo do direito de defesa.dos autos. observa-se o equívoco do entendimento que determina o desentranhamento da contestação e o acerto jurídico da tese que assegura a manutenção nos autos da peça de defesa. que. O ato-fato processual revelia. não pode impedir o réu de apresentar nos autos toda e qualquer matéria de defesa. por petição escrita. Assim. por corolário. [31] Assim. incabível uma norma que proíba o réu de apresentar sua defesa nas instâncias jurídicas iniciais. Tal norma não limitaria ou sopesaria os princípios citados. obstaculizando a aplicação de princípios constitucionais. ademais. na perspectiva constitucional hodierna. pode ser considerada . em evidente desrespeito ao artigo 5ª da Constituição. não se pode adotar uma teoria temperada. mas limitando o âmbito da peça a determinadas matérias de ordem pública [32]. reitere-se. Aliás. facultando ao réu a possibilidade de apresentar contestação de forma tardia. fornecem impulsos e diretrizes para a aplicação e interpretação do direito infraconstitucional. possuem eficácia irradiante. costuma apontar-se para o que a doutrina alemã denominou de uma eficácia irradiante (Ausstrahlungswirkung) dos direitos fundamentais. A Constituição garante uma defesa ampla. não materialmente limitada. o que.

são apenas aquelas previstas na regra legal. ainda que. Inexiste regra legal que prescreva. do contraditório. As consequências da revelia. devendo ter interpretação restrita. no campo estritamente jurídico. que o réu terá sofrido pela incidência de todos os efeitos da revelia até o seu comparecimento no feito. pelo princípio da documentação dos atos processuais e. enfim. formando um convencimento. do devido processo legal O réu que ingressa tardiamente no processo sofre prejuízos óbvios. desfavorável ao réu. ainda que tardia. como efeito da revelia. ainda que mantenham a amplitude máxima somente enquanto não apresentada a contestação. o magistrado tem contato apenas com os argumentos e ponderações apresentados pelo autor. portanto. a incidência destes efeitos.4. certamente de modo desfavorável ao réu. Esses são os efeitos da revelia. Em todo caso. a extinção ou preclusão do direito de defesa. porque se trata de meio indispensável para garantia potencial do princípio da ampla defesa. que possuem maior amplitude quando o réu não contesta. até o seu ingresso no feito. Inexiste tal risco. Além disso. da contestação. de que o magistrado julgue imediatamente a lide. teórico e efetivo. portanto. Basta o prejuízo. as normas que tratam dos efeitos da revelia são típicas regras de exceção. Os efeitos da revelia. a aplicação da interpretação extensiva nem a utilização da analogia. Os prazos correm sem que ele seja intimado. há sempre a possibilidade. não cabendo. ocorrem efetivamente. com maior ou menor amplitude. Além disso. considerando o efeito material da revelia. Primeiro. percam a maioria de seus efeitos depois que o réu ingressa no feito. evitará que os prazos peremptórios tornem-se inócuos. sem que lhe seja oferecido o conhecimento do estado do processo. portanto. dentre as quais não se encontra a possibilidade de desentranhamento da peça de defesa. mas que também ocasionam consequências no caso de apresentação tardia da contestação. ainda que inicial e passível de mutação. por ausência de regra legal que assim determine. .Conclusão: A revelia não impede a apresentação. principalmente.

ainda que potencial. segundo. por ofender os princípios da ampla defesa. já que o réu revel terá ingressado. Em face de decisão do magistrado planicial que determina o desentranhamento da contestação apresentada depois do prazo legal. ainda. Tratando-se de prazo recursal. ainda que tardiamente. de conformismo pessoal do sucumbente com decisão e conseqüente não interposição do recurso. não há nenhuma norma legal que o impeça de apresentar petição escrita contendo toda a matéria de defesa que achar conveniente. mas no outro. do contraditório e do devido processo legal. que não trazem nenhuma previsão proibindo a apresentação tardia da contestação – pelo contrário. Há diversas outras razões que diferenciam a interposição de um recurso e o exercício do direito de defesa. a impossibilidade de apresentação de um recurso depois do prazo legal é prevista de forma clara nas normas processuais. cabe. caso a . do contraditório e do devido processo legal. essa regra seria inconstitucional. pois a contestação tardiamente apresentada em nada alterará a marcha processual. o que é um acréscimo temporal relativamente pequeno e justificável diante das circunstâncias mencionadas. é necessário fazer uma ponderação teleológica: qual a utilidade processual do desentranhamento da contestação? Não haverá benefício relevante para o andamento processual. porque o processo não pode perdurar indefinidamente. É preciso distinguir. a preclusão temporal tem função processual justificável: primeiro. O único ato cartorário adicional é a intimação do autor para manifestar-se sobre as alegações do réu. pois limitaria com tanta abrangência o direito de defesa que. já que há norma processual garantindo que o réu possa intervir no processo "a qualquer tempo". peça de defesa principal na instância planicial. pela possibilidade. Por outro lado. pois este é essencial e básico enquanto aquele é meramente circunstancial. de qualquer modo. Por fim. Diante do exposto. de início. ainda que extraída dos autos a sua contestação. justificada. não.Ainda que existisse uma regra legal determinando o desentranhamento da contestação. ingressando o réu no processo. excluiria sua aplicação. Não há que se falar em celeridade. contrapondo-se aos princípios da ampla defesa. essa norma seria inconstitucional. é forçoso concluir que. E. passando a ser intimado de todos os atos processuais. a contestação apresentada de forma tardia do recurso interposto tardiamente: em um caso há preclusão. ainda que houvesse. na prática. no processo.

o réu deve interpor. A contestação. contra essa decisão interlocutória.br/revista/texto/2916>. Especial. Revista do curso de direito. Não há que se falar em agravo retido. violando as normas processuais que trazem as consequências estritas da decretação da revelia. ainda. Disponível em: <http://jus. ano 6. 1º sem. para que o magistrado exponha as razões jurídicas que o levaram àquela conclusão. 3. pelo desentranhamento da contestação. ainda que extemporânea. Leonardo José Carneiro da. porque se trata de decisão sem suporte legal. 71-91. . J. em qualquer caso. Conseqüências fáticas e jurídicas da revelia. Tratando-se de decisão suficientemente fundamentada. o contraditório e o devido processo legal. no exercício de garantias asseguradas pela Constituição. n. Na verdade. Contestação intempestiva. E. n. Se o tribunal mantém a decisão do magistrado planicial.com. Nova Lima: v. abr. Carreira. violando. São Paulo: Dialética. pois a decisão gera prejuízos imediatos e possivelmente irremediáveis ao réu. Acesso em: 12 ago. Jus Navigandi. ser mantida nos autos processuais. 2010. já que a decisão afasta a aplicação do princípio constitucional da ampla defesa. Referências ALVIM. p. Cabe. Teresina. A fundamentação da decisão é importante para que toda a matéria seja prequestionada e debatida desde a instância inicial. é possível a interposição dos dois recursos. CHAMON JÚNIOR. 56. Lúcio Antônio. 2005. recurso de agravo de instrumento para o tribunal revisor. recurso extraordinário. Impossibilidade de desentranhamento. 5. ainda. 2002. A Fazenda Pública em Juízo. ordinariamente. 2005. Princípios normativos de persecução ao "crime organizado": uma discussão acerca do devido processo penal no marco de uma compreensão procedimental do Estado de Direito. devendo. demonstra o interesse do réu na sua defesa. é o caso – a oposição de embargos de declaração. além de existir claro dissídio jurisprudencial na matéria.decisão não esteja suficientemente fundamentada – o que. tanto cabe o recurso especial quanto o extraordinário. CUNHA.

Hermenêutica e aplicação do direito. 1ª Turma. . A eficácia dos direitos fundamentais..1999.8. administrativo e judicial SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA.2004. Acesso em 12/08/2010.08. Agravo Regimental no Recurso Especial nº 1799172-MT. 4ª Turma.ambito-juridico.2009. Rio de Janeiro: Lúmen Júris. Disponível a partir de <http://www.122.br/webstj/Processo/Justica/> Acesso em 10 de agosto de 2010. Brasília. Disponível a partir de <http://www. Ingo Wolfgang. Agravo de Instrumento nº 1. 35. DJ: 1. 10. Rio Grande.9. 16.511 -PR. Relator: Ministro Massami Uyeda. Processo administrativo fiscal: controle administrativo do lançamento tributário. 2006. 2009.2009. 22.11. Decisão monocrática.stj. Vol. Curso de Direito Processual Civil.1999. Recurso Especial nº 510. 2006. 01/12/2006 Disponível em http://www. Salvador: JUSPODIUM.09. ______. In: Âmbito Jurídico. Alberto. ROCHA. Rio de Janeiro: Forense.php? n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=1505. ______. p.2004. Decisão unânime. 230.jus.br/webstj/Processo/Justica/> Acesso em 10 de agosto de 2010.6. Sergio André. ______. Recurso Especial nº 211851SP. Disponível a partir de <http://www. Rio de Janeiro: Forense. Brasília. Volume II. 2010. DJ: 13. São Paulo. DJ: 13. Fredie. Relator: Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira. Princípios do processo tributário. Decisão unânime. Vicente.DIDIER JR. SARLET. Porto Alegre: Livraria do Advogado. 1995. Há legalidade no desentranhamento de uma peça?. XAVIER. 4º Turma. Decisão unânime. Direito processual civil brasileiro.5.br/webstj/Processo/Justica/> Acesso em 8 de agosto de 2010.229 -RJ.jus.2009. MAXIMILIANO. Saraiva. Brasília. Relator: Ministro Francisco Falcão. Antonio José Ferreira de. LIMA. DJ: 8.br/site/index. I. Relator: Ministro Aldir Passarinho Junior. 6.com. 2005.stj. Carlos.2009.stj. Brasília.12.jus. GRECO FILHO.

10. Mandado de Segurança nº 6. Decisão unânime. Belo Horizonte. DO 25. 14.2010. Relator: Desembargador Alexandre Mussoi Moreira.10. Relator: Ministro Sidnei Beneti.2008. DJ: 29.2006.1.8.2009.4. Numeração única: 2244175-28. Decisão unânime. Brasília. Decisão unânime. Relator: Ministro . . Numeração única: 093226348.9. 3ª Câmara.8.08.0194.093226-3/001(1). DJ: 3.2008.13.08. Porto Alegre. DO 27. 10. Relator: Desembargador José Maria Lucena. Belo Horizonte. Decisão unânime.2009.0194.6. Agravo Regimental no Agravo nº 1074506-RS. Relator: Desembargador Saldanha da Fonseca. Agravo de Instrumento nº 1.2008.9.stj.10.2009. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE MINAS GERAIS. 1ª Turma.2008. 26. 17.1. 11ª Câmara Cível. Decisão unânime.3. Agravo de Instrumento nº 2005002005018-2-DF.2005.2009.2000. DO 05.13.jus.br/webstj/Processo/Justica/> Acesso em 12 de agosto de 2010.5. ______. 16. Disponível a partir de <http://www. Agravo de Instrumento nº 51631-PE.stj. 20.478-DF. 17ª Câmara Cível.2009.2010. Brasília.0686. ______.2009. Disponível a partir de <http://www.2006.5. Decisão unânime. 1ª Turma.0686.2. 13.2006. 2ª Turma.jus. DO 25. Apelação Cível nº 70020090684. Agravo de Instrumento nº 1. TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5ª REGIÃO.9. Relator: Desembargador Lécio Resende. DO 9. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RIO GRANDE DO SUL. Jorge Scartezzini. Decisão unânime.224417-5/001.br/webstj/Processo/Justica/> Acesso em 22 de agosto de 2010.Disponível a partir de <http://www.2000. Apelação Cível nº 347507/PB. Brasília. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL. Relator: Desembargador Marcos Lincoln. Relator: Desembargador Leonardo Resende Martins (substituto). ______.br/webstj/Processo/Justica/> Acesso em 10 de agosto de 2010. DO 13.9. 22. Recife. ______.stj. 12ª Câmara Cível. Decisão unânime.jus.10. Recife. 3ª Seção.

Decisão monocrática. 4º Turma. cit. 2006. J.2009.6. Agravo de Instrumento nº 1.09. Disponível a partir de <http://www.jus. 22. Brasília. CUNHA. Leonardo José Carneiro da.br/revista/texto/2916>. Disponível a partir de <http://www.2004.122. Relator: Ministro Massami Uyeda. 2002. São Paulo: Dialética.br/webstj/Processo/Justica/> Acesso em 10 de agosto de 2010.. São Paulo. STJ. ALVIM.stj.stj. Relator: Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira.08.8. Relator: Ministro Aldir Passarinho Junior. CUNHA. Saraiva.1999.229 -RJ. ano 6. DJ: 13. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Decisão unânime. 16. 2010.12.jus. op. STJ. Agravo Regimental no Recurso Especial nº 1799172-MT. 1ª Turma. Conseqüências fáticas e jurídicas da revelia. Decisão unânime. Jus Navigandi. p.jus. Decisão unânime. . Impossibilidade de desentranhamento. Carreira. STJ. 82.com.Notas 1. Direito processual civil brasileiro. 82. 4ª Turma. 7. Volume II. Contestação intempestiva. Brasília. p. E.2009.br/webstj/Processo/Justica/> Acesso em 10 de agosto de 2010. n.2009.11. 2. 142. Brasília. 8. 6. 2005. DJ: 8. abr.9.5. Disponível em: <http://jus. Recurso Especial nº 510. A Fazenda Pública em Juízo.511 -PR. 5. Brasília. Recurso Especial nº 211851-SP.2004.br/webstj/Processo/Justica/> Acesso em 10 de agosto de 2010. 4.1999. DJ: 1.stj. GRECO FILHO. Leonardo José Carneiro da. Acesso em: 12 ago. 6. DJ: 13. Disponível a partir de <http://www. 56. Disponível a partir de <http://www. 3. p. Relator: Ministro Francisco Falcão.jus.2009.stj.br/webstj/Processo/Justica/> Acesso em 8 de agosto de 2010. Teresina. 10. Vicente.

20.10.8.2008.2009.6. LIMA. Agravo de Instrumento nº 51631-PE. 22. Tribunal de Justiça de Minas Gerais. 14. 10. cit. 81. 17. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. 2ª Turma. Relator: Desembargador Saldanha da Fonseca. DO 05.13. 10. Belo Horizonte. CUNHA.1. Relator: Desembargador Leonardo Resende Martins (substituto). 19. 12. Recife. op. 17ª Câmara Cível. Há legalidade no desentranhamento de uma peça?.10. DO 9. 18.2006.2008. CUNHA. 11. 1ª Turma. Agravo de Instrumento nº 2005002005018-2-DF.com. Agravo de Instrumento nº 1.php? n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=1505. 80. Decisão unânime. Tribunal de Justiça do Distrito Federal.2009.2009. cit. 20. 14. .2005.0194.10. DO 25.9. p.0686. DO 27. Carreira. 81. Rio Grande.2008.9. Porto Alegre.0194. Relator: Desembargador Alexandre Mussoi Moreira. Leonardo José Carneiro da.br/site/index.2008. Apelação Cível nº 347507/PB. Decisão unânime. Brasília.2009. cit. op. Decisão unânime. 16. Agravo de Instrumento nº 1. Numeração única: 224417528.0686. DO 25. DO 13. TRF-5ª Região. 12ª Câmara Cível. p. Acesso em 12/08/2010. Numeração única: 093226348.9. 16. Relator: Desembargador Marcos Lincoln. cit. p. Recife.13. 01/12/2006 Disponível em http://www.10.2010.9. op.2010. Relator: Desembargador Lécio Resende. 13. Leonardo José Carneiro da. Decisão unânime. Antonio José Ferreira de.5. cit.2006. Relator: Desembargador José Maria Lucena. Belo Horizonte. Leonardo José Carneiro da. 35. 3ª Câmara.. op. LIMA.2006. CUNHA. In: Âmbito Jurídico.08. Decisão unânime. Decisão unânime. op. 15. Apelação Cível nº 70020090684. Tribunal Regional Federal da 5ª Região. E.224417-5/001. Antonio José Ferreira de.08. Tribunal de Justiça de Minas Gerais. J.093226-3/001(1).ambito-juridico.1.8.9. 11ª Câmara Cível. ALVIM. 13.

Princípios normativos de persecução ao "crime organizado": uma discussão acerca do devido processo penal no marco de uma compreensão procedimental do Estado de Direito.478-DF.br/webstj/Processo/Justica/> Acesso em 22 de agosto de 2010. MAXIMILIANO. p. op. Rio de Janeiro: Forense. 26. Decisão unânime.] há inúmeras matérias que podem ser deduzidas pelo réu após o prazo de apresentação da sua resposta (art. Hermenêutica e aplicação do direito. p.2. 230. é . em relação a elas. 30. 172.4. cit. 1º sem. n. Fredie Didier Júnior.21. 26. 227. ROCHA. Alberto.br/webstj/Processo/Justica/> Acesso em 12 de agosto de 2010. p.5. p.. cit. DJ: 3. v. Processo administrativo fiscal: controle administrativo do lançamento tributário. MAXIMILIANO.2000. 27.2000.2009. Relator: Ministro Sidnei Beneti. Rio de Janeiro: Forense. Brasília. Carlos. DJ: 29. 3ª Seção. Ainda que não analise a questão do desentranhamento da contestação. Ingo Wolfgang. 1995. p.jus. SARLET. 22. CHAMON JÚNIOR.5. 10. Carlos. Disponível a partir de <http://www. p. 31. 87. 24. 303 do CPC). 121. MAXIMILIANO. 17. Carlos. p. 225.2009. Nova Lima. ROCHA... 2005. 3. cit. Princípios do processo administrativo e judicial tributário. Relator: Ministro . STJ. 1ª Turma. 2006. 2010. Lúcio Antônio.3. Disponível a partir de <http://www. 29. ao defender que [. Revista do curso de direito. STJ. Sergio André. Sergio André.stj. Jorge Scartezzini. Agravo Regimental no Agravo nº 1074506-RS. A eficácia dos direitos fundamentais. 25.jus. p. 23.. Decisão unânime. Carlos. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Sem destaques no original. op. 2005. cit.stj.. MAXIMILIANO. op. op. 234-237. 28. A revelia portanto. 122. p. Rio de Janeiro: Lúmen Júris. Mandado de Segurança nº 6. 32. Brasília. XAVIER..

DIDIER JR.. nos casos de revelia. 508. 2009. Salvador: JUSPODIUM. p. Fredie. que.totalmente ineficaz. concebe a possibilidade de mitigação do direito de defesa do réu. I. ficaria limitado a determinadas matérias. . Curso de Direito Processual Civil. pois não impede que o réu as deduza posteriormente". Vol.