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Sobre as Memórias de um sargento de milícias
Edu Teruki Otsuka

[O texto que segue é uma montagem de excertos (da introdução, do cap. 5 e da conclusão)
da tese Era no tempo do rei: a dimensão sombria da malandragem e a atualidade das
Memórias de um sargento de milícias (FFLCH-USP, 2005).]

Introdução
As Memórias de um sargento de milícias (1854-55), de Manuel Antônio de Almeida,1
costumam ser vistas como um romance cômico que destoa da linha predominante em sua
época. Sem ser incorreta, essa percepção exige especificação e desenvolvimento para
revelar seu significado histórico.
Este estudo tenciona mostrar que, sob o tratamento cômico, existe também um núcleo
de violência incrustado na matéria elaborada pelo romancista. Essa violência se manifesta
nos padrões de comportamento dos personagens
rivalidade e da vingança

sob as formas da maledicência, da

e está implicada na maior parte dos relacionamentos entre eles,

de tal modo que o fundo violento impulsiona, em grande medida, os movimentos principais
da narrativa. Chamaremos a esse padrão comportamental de espírito rixoso

expressão

com que se espera sugerir a generalidade do padrão, bem como o seu caráter pessoal, que
no entanto só se concretiza em termos relacionais, na convivência entre personagens.
Embora o espírito de rixa pareça limitar-se a um simples elemento temático, a análise do
romance busca mostrar sua abrangência e funcionalidade no interior da narração: esse
pendor para a desavença

uma espécie de irresistibilidade à disputa pessoal

não é apenas

um assunto entre outros na economia do romance, mas atua como princípio estruturador da
própria dinâmica narrativa.
O esquema episódico da organização das Memórias e o andamento muito marcado
por reviravoltas foram tratados pela crítica somente a partir de categorias genéricas de
classificação ( picaresca ,

romance de costumes ) ou tomados como defeito

( descosimento , falta de unidade ). No entanto, sua funcionalidade e historicidade podem
ser apreendidas se eles forem pensados não somente como esquemas pré-definidos,
recebidos da tradição da ficção em prosa (o que até certo ponto também são), mas como
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M. A. de Almeida, Memórias de um sargento de milícias, ed. M. M. Jarouche, SP: Ateliê, 2000. Referências
a páginas (e/ou de capítulos) serão feitas entre parênteses no corpo do texto.

Leonardo e o filho do sacristão aprontam com a vizinha na igreja. Cap. Enxotando o capuchinho. no plano literário. o movimento das reviravoltas sucessivas vincula-se ao ritmo imprimido pelo padrão rixoso das relações interpessoais. Na seqüência. as relações interpessoais no romance são marcadas por pequenas rixas. O compadre sente-se ofendido com as insinuações da vizinha e revida. com isso. mas este se salva insinuando em público a relação do padre com a cigana. O padre. XI. a vizinha se queixa ao mestre de cerimônias.2 características formais por assim dizer solicitadas pelo conteúdo. ao saber da . Em seguida. que os repreende. vingando o padrinho. Como se tentará mostrar. ao mesmo tempo. Desde o início. captando o núcleo de violência que é constitutivo da formação histórica da sociedade brasileira. tirando-o das funções de ajudante de sacristão. descarrega sua ira contra o capuchinho que se oferecera para fazer o sermão em seu lugar. a vizinha zomba dele para vingar-se das brincadeiras de Leonardo. disso resultando uma longa troca de injúrias pessoais que só termina quando Leonardo aparece e descompõe a vizinha. por seu turno. que lhe fazia caretas e jogava pedras no telhado de sua casa. a vizinha. Obcecado com a idéia de fazer do afilhado um clérigo. Diante do fracasso dos esforços do barbeiro. aponta para o estado de anomia ligado à camada de homens livres pobres no interior da ordem escravista. a vizinha se sente vingada. o comportamento predominante entre os personagens determina o ritmo fundamental da narrativa e. A análise desse nexo espírito rixoso tem papel mediador decisivo em que o nos possibilitará apreender o enraizamento histórico da forma das Memórias. Para dimensionar a abrangência das vinganças e a força propulsora que elas têm no enredo. 127). mas os meninos decidem vingar-se do padre. mas ainda não apaziguado. Tal como é elaborado no romance. observaremos o encadeamento das situações rixosas a partir do conflito que se estabelece entre o compadre e a vizinha (1. o mestre despede Leonardo. rivalidades e vinganças. uma modalidade de relacionamento vigente nas práticas sociais efetivas. e o fazem atrasar-se para o sermão (evento ansiado pelo mestre de cerimônias por propiciar-lhe um instante de glória). o mestre tenta vingar-se de Leonardo com uma repreensão. o qual estiliza. 5: Dinâmica Narrativa e seu Motor # Vinganças em moto-contínuo A inclinação dos personagens para a desavença determina o andamento da ação das Memórias. o compadre empenha-se em ensinar o menino a rezar.

assim. . sinta-se compensado ou restituído em seu sentimento de amor-próprio. a vingança não é metódica nem racionalizada. contratando um valentão para armar briga no aniversário da cigana). que se mostra também no fato de que elas não se conjugam necessariamente ao propósito de tirar vantagem econômica nos termos da racionalidade burguesa. in: Tese e Antítese. o tema pré-burguês da vingança pessoal serve à figuração do empreendimento racional de caráter propriamente burguês: combina-se com valores próprios ao individualismo arrivista. em princípio. p. mas pela sucessão de situações. indefinidamente. embora também aqui as rixas tenham implicações materiais. pelo caráter imediatista. Da vingança . péla-se de gosto e volta a atazanar o compadre. a qual não é guiada pelo desenvolvimento interno da ação. qualquer rebaixamento do oponente basta para que o vingador. mas não se associa ao isolamento do indivíduo burguês. Os planos vingativos. As pequenas vinganças do mundo das Memórias caracterizam-se. Esse tipo de vingança. Nas Memórias. há uma lógica da vingança comandando a movimentação dos personagens. Por mais irrisório que seja o motivo. 13. quando ocorrem. a vingança tem caráter pessoal. Em lugar do antagonismo absoluto do enredo romântico europeu. Como se vê. fundado nos princípios de competição do liberalismo econômico. mas sim irrefletida e impulsiva.2 Nas Memórias. encontra-se aqui a disputa por picuinhas. cuja manifestação desenfreada seria. 2 Ver A. Esse tipo de vingança tem sentido diverso da que se encontra no romance românticorealista europeu. inicialmente rebaixado. No Romantismo europeu. A dinâmica que se estabelece caracteriza-se pela permutabilidade das posições dos personagens. identificando-se antes a uma espécie de revide irrefletido. em que ela aparece como quintessência do individualismo (expressão de Antonio Candido).3 notícia. visam ao efeito instantâneo e esgotam-se tão logo se alcança um arranhão no objeto da desforra (como na vingança que Pataca prepara contra o mestre de cerimônias na disputa pela mulher desejada. que não se desdobra no tempo. de modo que cada rixa gera outra. que gera outras. em nada se assemelha à dinâmica do empreendimento individualista do carreirismo econômico. incompatível com o planejamento racional. em consonância com a nova fase de conquista da posição social pela seleção do talento e da habilidade . Candido. É essa dinâmica da matéria social elaborada no romance que define o esquema episódico da narrativa.

Leonardo consegue escapar. Tanto assim que Vidigal chega a temer que Leonardo passe a viver conforme os preceitos da legalidade: se ele se emenda perco eu a minha vingança (2. Pode-se notar aqui a confusão entre o interesse público oficialmente aceito e o interesse privado. e Vidigal. a dos primos de Vidinha que. o embate direto entre os dois é provocado por outra vingança. para se livrarem do concorrente. o qual se liga ao desejo de sobrepor-se aos outros. cuja confirmação depende sempre do rebaixamento dos demais. O narrador explica que. vaidade liga-se aqui a certo sentimento de superioridade. As rixas se instalam quando a imagem que um personagem faz de si mesmo é posta em questão pelo olhar do outro. XIII. este seria até capaz de vir a ser seu amigo.4 Para entender a motivação das vinganças e seu sentido que estão implicados no espírito rixoso generalizado . Para o chefe de polícia. contudo. sobrepõe-se o impulso vingativo de Vidigal. 282). como meio de justificar a afirmação de sua autoridade pessoal. XIII. A partir daí. que seria o disciplinamento dos vadios da cidade. se Leonardo não tivesse fugido e arranjasse a soltura por algum outro meio que não o ludíbrio do major. que se dá entre Leonardo e Vidigal. 276). ou melhor. No caminho para a casa da guarda. O complemento da vaidade. Como não podia deixar de ser. a burla da lei nada significa em comparação com a injúria provocada pela habilidade malandra que o enganara: o que Vidigal não tolera é que Leonardo o tenha ofendido em sua vaidade de bom comandante de polícia (2. a motivação principal da vingança seria simplesmente a vaidade. é evitar a todo custo a humilhação por outro personagem (como a birra do . que não admite que a disciplina seja alcançada senão por imposição de sua própria vontade. o denunciam ao major como vadio. torna-se claro que a lei servirá para o major apenas como pretexto para a desforra. que também se manifesta de outros modos além da vingança. XIX. À finalidade última da lei. convém observar o principal conflito do romance. sendo sempre acompanhado de compensações imaginárias. XV. passa a considerá-lo um inimigo irreconciliável (2. Mas essa interpenetração é regida por uma lógica específica: a própria reversibilidade de norma e infração está subordinada ao espírito de rixa. Aparentemente. 302). logrado. 276). pois um dos maiores caprichos do major era nunca mostrar que havia sido logrado (2.

Assim. ao poder assentado na riqueza (D. 95). assim como à esperteza com que os malandros burlam a lei ou obtêm favores. um velho que mora em frente pega carona nas provocações da mulher contra o barbeiro e marca com risadas o seu prazer em ver o rebaixamento do compadre. mesmo os que não estão diretamente envolvidos numa situação de contenda podem tirar vantagem de uma disputa alheia. 128]. é o compadre que se sente vingado e desata a rir por seu turno. não estamos no chão do individualismo econômico e das garantias liberais. mas ser exposto na casa da guarda. Ao Vencedor as Batatas. ao ser preso na casa do caboclo.5 compadre mostra). por isso. as rixas envolvem. sorrisos maliciosos . XI. humilhando o personagem inferiorizado. de parte a parte. ocorre nas Memórias uma generalização do espírito rixoso. 123). Schwarz. a vontade de impor-se sobre o outro. Mas isso não encerra a disputa. isso é que ele não podia tolerar (1. que pontua a ação do romance do começo ao fim. Por isso. pois fica estabelecida a rixa do compadre com o velho: agora falta-me aquele velho de defronte que também acompanhou a risota. p. Maria) e à pretensão ao lustro da cultura erudita (mestre de cerimônias). X. contanto que ficassem em segredo . o qual pode combinar-se à força disciplinadora da lei (Vidigal). O que parece inaceitável não é a própria humilhação do açoite. o riso dos companheiros seguiu-o por muitos dias.) Assim. (No episódio em que o compadre e a vizinha se enfrentam. Com efeito. V. o escárnio. quando o afilhado intervém e descompõe a vizinha. Acresce que o rebaixamento dá ocasião para a zombaria de todos os demais. ou ainda rivalizam entre si 3 R. em que a opinião dos outros pode parecer secundária à autonomia moral 3. Desse modo. que aparece sem qualificativo. como também outros que nada têm a ver com o caso passam a humilhar o personagem que foi rebaixado. riso sardônico . mas não faltará ocasião [1. . no Brasil dos inícios do século XIX. mas que não deixa dúvidas quanto ao sentido vexatório. não estranha que a soltura seja sentida por Pataca como algo pior do que a prisão: insuportáveis torturas começaram para ele no dia em que saiu da cadeia: a mofa. mas o vexame público. incessante e martirizador (1. Pataca perdoaria de bom grado as chibatadas que levara por ordem de Vidigal. Não só todo triunfo de vaidade vem acompanhado do riso de mofa daquele que se sente vencedor. para se sentirem em posição de superioridade por sua vez. rindo-se dele: são recorrentes as expressões como sorriso maligno . risadinha maldosa . além do riso onipresente. 97. Isso explica a presença ubíqua do riso dos personagens.

mas também no campo das relações modernas os proprietários reconfirmavam seu poder tradicional. fundado no latifúndio. a qual era a única a beneficiarse da modernização.6 através da maledicência (a vizinha. parece impedir que aflore à consciência do malandro a posição subalterna objetiva que ocupa por estar submetido às injunções da dependência. dos pequenos golpes e da valentia (Teotônio. Só assim se compreende como é possível a peculiar compatibilidade dos incompatíveis: a coexistência de tendências contraditórias explica-se principalmente pelo fato de que os dois tipos (contraditórios) de relacionamento servem aos interesses (econômicos) da mesmíssima classe proprietária. de Alencastro. É nessa época que a mercadoria e seus efeitos passam a fazer parte da vida cotidiana do Rio de Janeiro.5 Na formulação de Roberto Schwarz. Com isso. pp. em que a escravidão e o latifúndio propiciaram à elite o acesso aos bens do progresso. A formação histórica da sociedade brasileira facultava a essa classe o trânsito oscilante entre as formas incompatíveis: desde a independência do país. 187-188. 37-38. . ao mesmo tempo em que lançam luz sobre a dimensão das compensações imaginárias que costumam associar-se à relação de favor e são indissociáveis do espírito rixoso. # Compensações imaginárias As transformações por que passava a sociedade na época de Manuel Antônio fornecem elementos que põem a nu a desproteção em que viviam os homens livres pobres. é imprescindível observar essa questão da incompatibilidade no quadro específico da configuração de classes no Brasil. faz prosperar a luta dos personagens entre si. normalizou a coexistência contraditória de formas avançadas e relações sociais tradicionais. Vida privada e ordem privada no Império . em busca do sentimento de superioridade sobre os outros.4 mantendo-se inalterada a base escravista. mas ela não expressava um antagonismo de classes: expressava antes duas formas de um 4 5 Ver L. a cada vez que a auto-imagem sofre arranhões. Chico-Juca). O domínio da vingança. Cf. F. sempre acompanhado de compensações no plano da imaginação. havia contradição. Intervenção em debate com Antonio Risério. José Manuel). Schwarz. de certo modo. Não basta apontar somente a incompatibilidade entre as formas avançadas adotadas do estrangeiro e as relações atrasadas que perduram na prática social real. R. criou-se um padrão que. A ideologia que acompanha a entrada da mercadoria no cotidiano é contrária ao relacionamento paternalista. p.

a situação de desvalimento do homem livre pobre se mostra por inteiro: diante da ideologia própria ao mundo da troca. e também na identificação com ela. Até mesmo sua força de trabalho é por assim dizer economicamente desnecessária no sistema escravista. não há muito lugar para os conflitos morais ligados à contradição entre paternalismo e mercado (os quais seriam explorados pelo primeiro Machado de Assis). Ao Vencedor as Batatas. preenchendo as ocupações que. isto é. Se o proprietário encontra satisfações infinitas na confirmação sempre renovada de seu poder ilimitado. que podem fornecer bens materiais palpáveis para os dependentes. Ao contrário dos proprietários. 120. Embora estejam presentes como referência para o narrador. a relação de dependência pode provocar o sentimento de humilhação e vexame. a permanente situação de inferioridade econômica tende a ser elaborada de modo a propiciar também satisfações ligadas ao sentimento de superioridade por meio da identificação com os poderosos. Na falta de referência ao ideal prestigioso. p. em estado por assim dizer mais puro. que não tinha fundamento na base produtiva mas fazia parte dos funcionamentos da ideologia que se combinava à ordem tradicional inalterada. eram exercidas por camadas que comporiam uma pequena burguesia. Resta. o jogo de satisfações imaginárias que acompanham as relações interpessoais de caráter rixoso. o que aos olhos de nossos pressupostos individualistas. mas também o reconhecimento de sua liberdade. no entanto. Schwarz. Como se sabe. sem que a dissolução dos vínculos tradicionais tivesse caráter subversivo .6 Ao instalar-se o ponto de vista do mercado. sobretudo no âmbito dos pobres. para significar que não é criado de qualquer . pois ele não tem nada para trocar. O leitor recorde o criado de Brás Cubas. os valores postulados pela civilização burguesa têm peso secundário para os personagens das Memórias. podem ocorrer também satisfações correlatas da parte do próprio favorecido. Eis um sentimento 6 R. estes não têm nada de objetivo para dar. que na matéria são ingênuos. Nas Memórias. desde que o caráter humilhante da dependência seja devidamente recalcado. já que (como já dissemos) os escravos se especializavam em várias atividades. que gostava de aparecer à janela do palacete de seu patrão.7 mesmo poder. a situação do dependente é funesta. . ainda que precária. para quem as idéias adiantadas têm pouca funcionalidade. que aos poucos e sempre conforme a sua conveniência passava de uma para outra. não têm mercadoria para trocar. em outras formações sociais. é o cúmulo. esse comportamento foi examinado por Machado de Assis e explicado por Roberto Schwarz: Os subalternos encontrarão satisfações várias à sombra da satisfação de seus protetores. Da perspectiva dos pobres.

XIV. Observe-se o que se dá com os granadeiros. a qual. XIX. (2. ainda aprecia o susto que causa nos próprios familiares ao aparecer na festa de batizado da irmãzinha com os trajes do ofício (2. há uma valorização extremada das aparências. e repararam na cara desapontada com que ele havia ficado. XX. ela permite aos granadeiros beneficiarem-se do poder da instituição policial. 137. Embora ser soldado não fosse uma boa posição sob nenhum aspecto ( ser soldado era naquele tempo. propicia ao pobre certo abuso e algum deleite. e ainda hoje talvez. uma vez recrutado (à força) e tornado granadeiro. em que somente com o rebaixamento de outros consegue-se obter a confirmação da própria superioridade. e mesmo a relação com um poderoso. como já vimos. que tenta prendêlo. deixando-se contaminar pelo autoritarismo de seu representante maior. XV. Apesar de que. O próprio Leonardo.7 No Sargento de milícias. além disso. como as roupas dos meirinhos ou dos granadeiros. trata-se precisamente de humilhar os outros com a finalidade de colocar-se numa posição de superioridade em relação a eles. 277-8) 7 R. ainda que apenas temporariamente. Schwarz. Liberdade enquanto participação na arbitrariedade. em cuja base está o desejo de afirmação da própria superioridade. p. pois conheciam a presunção do Vidigal. não puderam entretanto deixar de achar graça no que acabava de suceder. que ganham importância decisiva nas relações interpessoais do mundo escravista-clientelista. Esta é alcançada por meio da humilhação dos outros. No favor e na rivalidade. vale-se da posição para vingar-se do toma-largura (2. 309). 299). desde que exposta como espetáculo para provocar a inveja dos outros. empregavam os mais sinceros esforços para coadjuvá-lo. a pior coisa que podia suceder a um homem [2. e apesar também de que revertia para eles alguma glória das façanhas do major. que é acompanhada da satisfação daquele que logra sobrepor-se. Ao Vencedor as Batatas. consiste em andar de carona na arbitrariedade alheia. para quem não tem meios de praticar arbitrariedades em grande escala e por conta própria. e os primeiros que o faziam eram os granadeiros. Assim é que a supervalorização de objetos externos. os granadeiros não deixam de sentir satisfação em ver Vidigal desapontado: O major tinha razão: riam-se com efeito dele. O essencial nesse comportamento é que a auto-afirmação implica sempre uma espécie de estrutura de gangorra . 282]). o sentimento de superioridade liga-se principalmente aos trunfos do espírito rixoso. . Mas ocorre também o inverso: quando Leonardo escapa do major. Não se trata de afirmar a própria posição sem consideração pela situação dos demais. escravos da disciplina.8 diferente e não-individualista da liberdade.

Assim. pois a única representante da classe proprietária é D. identificando-se. há também muitos conflitos envolvendo os próprios despossuídos. com o malandro que engana o major.9 Os soldados eram em geral recrutados à força. como se eles próprios não tivessem sido logrados por Leonardo quando este escapa. e nem sequer a divergência de interesses chega a definir-se de maneira ampla. governadas pela compensação imaginária. num instante de identificação que se sobrepõe à divergência de interesses. Note-se aqui o funcionamento do mecanismo psíquico que nos interessa: embora a glória do major reverta também para eles. no início da narrativa. e a relação do subalterno com o superior é marcada por identificações e desidentificações. Tomando parte nas arbitrariedades de Vidigal. não é desprezível a importância das compensações imaginárias que acompanham as rixas. Mas. eles colocam-se em posição de superioridade em relação ao comum das pessoas. nesses conflitos. a inserção social dos personagens não é somente um fato objetivo. obrigados a se submeterem à lei e à hierarquia militar. os granadeiros eram de fato escravos da disciplina . . como já assinalamos. Maria. # Guerra civil do trabalho8 O antagonismo básico instalado no mundo social das Memórias é o que se manifesta. os leva a rir dele. o fracasso do superior. o movimento dos granadeiros é feito de inconstância e contrastes: empregam sinceros esforços para fazerem jus à glória emprestada. 8 A expressão é de Iná Camargo Costa. participam das glórias do major. e não eram raros os casos de deserção. o fracasso do chefe não é motivo de vexame para os granadeiros. No entanto. desta vez. Também já vimos que. há satisfação dos soldados decorrente desse estado de servidão à autoridade: por meio da submissão. Guiado pelas compensações imaginárias. Ao mesmo tempo. Embora ocorram inúmeros confrontos entre Vidigal e os vadios. que desmente as presunções do poderoso. Na sociedade figurada no romance (e no Brasil oitocentista). e riem da presunção frustrada do major para compensar a posição de inferioridade a que não escapam na prática. como embate entre os homens livres pobres e a repressão policial. dando um encontrão no granadeiro que estava perto dele (274). os conflitos ao longo do romance não se articulam unicamente em torno da diferença de classe. nesse sentido. nesse jogo de mando e obediência. a lealdade só existe conforme a conveniência.

provocando um contínuo temor entre os proprietários. (Não ignoramos que também havia oposição mais direta. é importante destacar as identificações no plano imaginário. 118 e 115. é tanto mais plausível para a situação dos homens livres. Os próprios escravos se discriminavam entre si. A exibição pública do triunfo em rivalidades e rusgas de esquina. como mostram os casos de escravos que assassinavam seus donos. Em grande medida. não sendo sujeitados pela força bruta. mas também. em que os signos exteriores e mais explicitamente visíveis de vínculos com proprietários ou instituições determinam o grau de respeitabilidade a ser atribuído a alguém. Karasch. p. pois os escravos pardos relacionados a famílias nobres tinham muitas vezes uma posição social mais alta que marinheiros brancos livres . como que projetando em sua própria situação a hierarquia reinante entre seus donos. embora fosse talvez mais infeliz e mais do que o outro sujeito à rigorosa disciplina 10 . e o negro que pertencia a um fazendeiro sentia-se superior ao que trabalhava para um modesto oficial. que ocorria entre os escravos. C. a inserção social desses homens livres é determinada pelos símbolos exteriores que indicam os vínculos com as instâncias de poder (reais ou não). em que a rede das relações pessoais com os poderosos são determinantes para o estabelecimento da posição da pessoa no meio social em que transita. para as questões suscitadas pelas Memórias. 296. pp. os quais.10 definido pela propriedade e pelo estatuto civil. ou qualquer outra manifestação do espírito rixoso que encontramos nas Memórias. A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro. no entanto. segue essa mesma lógica 9 M. A isso se liga a função das roupas do meirinho ou do uniforme dos soldados. assim como a ostentação dos enfeites das casas nos dias de procissão. simultaneamente.9 Também Emília Viotti assinala que a posição do senhor refletia-se na do escravo. Karasch. um fato imaginário. Daí a importância extremada das aparências. Essas situações e atitudes mostram com clareza o funcionamento das fusões imaginárias. os escravos elegantemente trajados de homens ricos e poderosos desprezavam os escravos malvestidos de donos sem poder . dependem diretamente das relações com o proprietário protetor. sem atuar como seres independentes. E. 10 . Da Monarquia à República.) Esse tipo de identificação com o poderoso. nem mesmo o estatuto civil era suficiente para assegurar maior respeitabilidade. A dimensão extra-material envolvida no problema da inserção social dos personagens do romance tem correspondência no plano da realidade histórica. Viotti da Costa. Segundo Mary C. Além disso. em que os subalternos parecem conceber-se a si mesmos como meras extensões daqueles a quem servem.

pois contrariava as idéias correntes segundo as quais a imigração de 11 C. mas sim em conflitos entre os próprios negros. alguns anos antes de Manuel Antônio começar a escrever as Memórias. Algranti. isto é. Por exemplo: estudando práticas de rebeldia escrava. exercendo atividades e personificando formas de decadência social que pareciam ser o apanágio de negros e mestiços . Desde o início do século XIX. 12 . Com efeito.11 A historiografia registra também inúmeros casos de disputas entre homens livres e escravos. A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro. combinando-se à objetividade das posições reais. forros ou livres. De acordo com Luiz Felipe de Alencastro. Ver M. p. Karasch. 276. 85.12 A partir do final da década de 1840.11 da visibilidade. L. A disputa entre escravos. nesse momento a opinião brasileira começava a captar uma realidade social cujos termos eram até então antinômicos: a existência de europeus pobres. 91. fossem escravos. entre homens livres e escravos ou libertos. A Capoeira Escrava. mas já era uma realidade desde antes: pelo menos desde meados da década de 1830 parte da frota negreira vinha sendo reciclada para o transporte de engajados das ilhas portuguesas. Convém notar. muitos senhores colocavam seus escravos no aprendizado de um ofício. o que aumentava o valor do escravo e possibilitava maiores ganhos para seu proprietário. mestres artesãos que dispunham de alguns recursos preferiam comprar escravos e treiná-los no ofício a empregar aprendizes livres. Do mesmo modo. e mais tarde entre trabalhadores. C. a maior parte de ocorrências de capoeira não se dá em rusgas entre escravos e policiais (como se poderia talvez esperar). Essa situação se acentuou depois da cessação do tráfico de escravos em 1850. p. Soares. e L. está documentada pela historiografia. aqui. A visão cotidiana do europeu pobre abalava as noções vigentes sobre raça e condição social. homens brancos pobres protestavam contra o treinamento de escravos em atividades especializadas. foi se tornando cada vez mais visível a presença maciça de homens brancos (sobretudo ilhéus) disputando trabalho com escravos de ganho nas ruas do Rio de Janeiro. Essa circunstância fazia com que muitos homens brancos livres não conseguissem mais competir com os escravos de ganho na disputa por trabalho. p. em que a dimensão imaginária tem peso decisivo no resultado efetivo dos relacionamentos. E. que também no plano da realidade histórica os conflitos cotidianos seguiam padrões que muitas vezes escapam aos esquemas mais previsíveis. rebaixados ao nível dos escravos. M. O Feitor Ausente. na relação de presos feitos pela polícia entre 1810 e 1821. um historiador nota que.

13 Talvez se possa acrescentar que essas informações ajudam a explicar uma constatação de outro historiador. em sua narrativa. Essa competição pelo trabalho na sociedade escravista explicita o fundamento material das disputas pelo prestígio. É essa lógica explicitada nas disputas pelos meios materiais para a reprodução da própria existência que reaparece nos conflitos figurados nas Memórias. . precisamente nesse período. e nesse sentido ajudam a entender suas determinações sociais reais (pois a disposição para a rivalidade não é mostrada no romance como uma qualidade inerente ao homem. Sem tratar diretamente das questões relacionadas ao trabalho no Brasil escravista. em que há um acirramento na disputa por trabalho envolvendo imigrantes pobres e escravos de ganho. diferentemente da escravidão negra. pois a luta pela 13 14 L. Soares. Uma vez que o prestígio influi decisivamente nas condições econômico-sociais da existência. L. nos informes policiais14. F. ou seja. 513. C. é vista antes sobre o fundo do sistema de relações específico àquela sociedade). em grande parte miserável. da presença da população imigrante. que notou um aumento. ao invés de reforçar os laços de coesão da camada intermediária ou de conduzir ao acirramento da luta entre pobres e proprietários. Nesse sentido. por volta de 1850. p. Manuel Antônio apreendia. Para o pobre. E. que predominam na narrativa das Memórias. Considerações finais Como as Memórias mostram à exaustão. a luta pelo poder simbólico e a dimensão imaginária que governa as auto-satisfações também podem ser entendidos num quadro materialista. A Capoeira Escrava. não há meios de opor-se aos poderosos senão buscando tirar vantagem pessoal no interior das relações de desigualdade da sociedade escravista-clientelista. as quais só se resolvem (imaginariamente) por meio da reafirmação das desigualdades sociais (e não de sua supressão). p. verifica-se uma ampliação no número de rusgas urbanas com participação de imigrantes brancos. de Alencastro.12 europeus brancos. contribuiria para civilizar o país. o eventual triunfo do pobre não deixa de ser também o seu fracasso. a lógica profunda dos relacionamentos rixosos que se manifestavam no cotidiano. os constrangimentos da sobrevivência no interior da sociedade marcadamente iníqua produzem principalmente rivalidades dos pobres entre si. 50. Proletários e escravos .

tanto na periferia quanto no centro. . Assim se reforça a situação de beco-sem-saída em que se encontra o homem livre pobre na sociedade escravista. A tendência generalizada para as rixas está embasada (como procuramos mostrar) na própria lógica da sociedade marcada por clivagens profundas. cujo fundamento incivil. abandonados a si mesmos. pois a figuração do mundo social no romance muitas vezes leva a uma perspectiva que parece colada a uma visão conservadora. entregam-se a paixões violentas. Lembrando que o atraso da sociedade de matriz colonial é ele mesmo um resultado do desenvolvimento do capitalismo. O que as peculiaridades das Memórias (e da sociedade periférica) apreendem é a dimensão contraditória da própria civilização. Ao invés de destacar na vida dos pobres os modos de sociabilidade que contrariam as acusações ideológicas de vadiagem e indisciplina. deixa entrever o núcleo de violência próprio aos movimentos de expansão do capitalismo. A perspectiva do romance de Manuel Antônio distancia-se do viés conservador em que a vida dos pobres é entendida como um reduto da anticivilização. A essa configuração peculiar das forças sociais em conflito liga-se uma das principais dificuldades da análise que intentamos realizar. o padrão das rivalidades e a falta de laços de união entre os homens pertencentes à mesma camada social (dois aspectos explorados por Manuel Antônio) poderiam dar a impressão de que se confirma a opinião conservadora de que a vida popular é o lugar da desordem e da baderna (devendo por isso ser controlada por uma polícia vigilante). mas sim de um padrão de comportamento socialmente mediado e em última instância determinado pela evolução moderna da economia. Não se trata de uma inclinação natural dos pobres que.13 sobrevivência acaba por contribuir para a reprodução da ordem social que o oprime. cabe notar que os relacionamentos figurados nas Memórias não indicam uma simples oposição entre os impulsos da natureza humana e a tendência repressiva da civilização.

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