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GREGOLIN, M.R. Discursos e imagens do corpo: heterotopias da (in)visibilidade na WEB.

In:
FLORES, G.G.; NECKEL, N.R.F.; GALLO, S.M.L. (org). Análise de discurso em rede: cultura e mídia.
Campinas: Pontes, 2015, p. 191-213.

DISCURSOS E IMAGENS DO CORPO: HETEROTOPIAS DA
(IN)VISIBILIDADE NA WEB
Maria do Rosario Gregolin1
O navio é a heterotopia por excelência. Nas civilizações sem barcos os
sonhos naufragam, a espionagem substitui a aventura e a polícia os corsários.
(Michel Foucault, Outros Espaços, 2001, p. 422)

RESUMO: Este artigo objetiva discutir as relações entre discurso, imagem e mídia a
partir do conceito de heterotopia e dos estudos sobre o corpo na obra de Michel Foucault.
No texto Outros espaços (publicado em 1967, reeditado na coleção Ditos & Escritos
volume III) Foucault afirma que a modernidade é marcada pela existência de espaços
heterotópicos, ambíguos, em que convivem diferentes objetos e temporalidades. Para ele,
a heterotopia por excelência da modernidade é o navio (lugar sem lugar, flutuante,
lançado ao infinito do mar, de porto em porto...). Nossa proposta é que a heterotopia por
excelência do século XXI é a WEB e que nos lugares contraditórios instaurados pela
mídia digital discursos e imagens produzem subjetivações de corpos que oscilam entre
topias e utopias. Pensar discurso, imagem e corpo com Michel Foucault nos leva a discutir
o estatuto do corpo na contemporaneidade, como forma simbólica de produção de
subjetividades e discursividades. O corpo é materialidade significante produzida
historicamente. Para colocar à prova essas afirmações teóricas tomaremos imagens
postadas em blogues e redes sociais que se constituem nessas heterotopias: são corpos
impossíveis fixados em selfies; são corpos que escapam à invisibilidade de prostíbulos e
presídios e são exibidos no panóptico da WEB como utopias consentidas.
PALAVRAS-CHAVE: Discurso, Imagem, Corpo, Heterotopia, WEB.

1. Pensar discurso, imagem e mídia digital com Michel Foucault
Desde os anos 1960, a obra de Michel Foucault vem sendo investigada em muitos
domínios do saber e sob diversas perspectivas. Isso ocorre porque ele é um pensador de
temáticas abrangentes, cujas problematizações desafiam os limites disciplinares. A
perspectiva que tenho adotado leva a ler Foucault pela via do discurso, entendendo-o
como categoria central do seu pensamento (GREGOLIN, 2004). Evidentemente, Foucault
nunca pretendeu elaborar um campo de estudos denominado como "análise do discurso"
mesmo que, em certos momentos de sua obra, tenha afirmado isso explicitamente:
Livre-docente em Análise do Discurso, Universidade Estadual Paulista – UNESP/CNPq. E-mail:
mrgregolin@gmail.com
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S. A essa hipótese fundamental de que “as coisas não preexistem às palavras”. 2003. ou ao campo político.R. articuladas a uma reflexão sobre os discursos: pressupondo que as coisas não preexistem às práticas discursivas. se diante do verdadeiro e do falso se posiciona de acordo com a vontade de verdade vigente em sua época. que em Foucault a subjetividade não se refere ao sujeito em sua essencialidade ou individualidade e. Análise de discurso em rede: cultura e mídia. In: FLORES. A teoria do discurso subjacente às propostas foucaultianas deriva do seu objetivo fundamental de compreender como se articulam os processos de subjetivação e as verdades no âmbito da produção discursiva. a partir da reflexão sobre as transformações históricas do fazer e do dizer na sociedade ocidental práticas discursivas que provocam fraturas. Para que um enunciado seja aceito em uma época. como categoria ontologicamente invariável.F. ou às instituições. Campinas: Pontes. p. trabalhador etc. subjaz o pressuposto de que os processos de objetivação / subjetivação são práticas (discursivas. num momento da sua história. não é única nem atemporal.que se edifica o pensamento foucaultiano. (org). Já as análises da genealogia . da historicidade e da produção de subjetividades. isto é. da ordem da história. Isto é o que eu chamo de acontecimento. podemos. Por isso. 255-256) Se ele não pretendeu produzir uma teoria discursiva ou criar um campo do saber para objetos discursivos. pensar uma análise de discursos com Foucault? As pesquisas que venho desenvolvendo e orientando há cerca de vinte anos tem indicado que sim porque as problemáticas foucaultianas estão. então.). trata-se de considerar o discurso como uma série de acontecimentos.L.] O que me interessa no problema do discurso é o fato de que alguém disse alguma coisa em um dado momento. todo dizer é produzido em uma ordem do discurso (FOUCAULT. um discurso só é aceito em uma época quando segue a racionalidade. Sendo profundamente histórico. 191-213. Foucault entende que estas constituem e determinam os objetos. NECKEL.. a aceitabilidade de um enunciado não provém da relação de adequação entre aquilo que é dito e a realidade. Não nos encontramos no verdadeiro senão obedecendo às regras de uma ‘polícia’ discursiva que devemos reativar em cada um de nossos discursos. o modo de legitimar a separação entre o verdadeiro e o falso. Eu me dei como objeto uma análise do discurso [. nem tampouco da coerência interna do discurso. para que esteja no verdadeiro. Assim. precisa seguir certas regras ditadas por um corpo social. 1971) que determina o enunciável e o visível. A subjetividade é entendida como efeito de processos de subjetivação modificáveis e plurais.G. histórico e anônimo. p. Discursos e imagens do corpo: heterotopias da (in)visibilidade na WEB. ela acontece sempre em um lugar e em um tempo. não discursivas) que ligam o sujeito à verdade. verdade e subjetivação tem diferentes nuances e inflexões em cada momento da obra foucaultiana. de estabelecer e descrever as relações que esses acontecimentos – que podemos chamar de acontecimentos discursivos – mantêm com outros acontecimentos que pertencem ao sistema econômico. GALLO. N. desde o início. M.M. G. pois.. Por isso. Esse entrelaçamento entre discurso. Assim. Para mim. É. brechas e rearranjos nas configurações do saber. portanto.. A análise arqueológica aborda práticas discursivas cujas regularidades implicam na produção de saberes “verdadeiros” sobre o sujeito (louco.GREGOLIN. numa sociedade. do poder e da subjetividade . para Foucault a verdade é da ordem do acontecimento. muito menos. para que possa ser legitimamente dito. É importante ressaltar. são. uma análise de discursos com Michel Foucault convida à construção de objetos discursivos numa tríplice tensão entre a sistematicidade da linguagem. sempre. 2015. É. (FOUCAULT.R..

se a arqueologia tem como objetivo descrever as regras que regem as práticas discursivas que produzem sujeitos por meio dos saberes.são atravessados e sustentados por uma teoria do discurso. A WEB como heterotopia por excelência da atualidade No interior do campo da Análise de Discurso brasileira. G. tanto daqueles “que tem a forma de uma ciência ou que se referem a um modelo científico”. Discursos e imagens do corpo: heterotopias da (in)visibilidade na WEB.F.M. Para exemplificar como pode ser feita a análise de discursos pela lente foucaultiana. N.R.. Nos trabalhos que empreendem uma genealogia da ética o sujeito deixa de ser pensado somente na imanência de práticas que o sujeitam. torna-se sujeito e objeto para si próprio. traçando uma história crítica da subjetividade – ou dos processos de subjetivação – na qual o sujeito é pensado como fabricação dos jogos de verdade. In: FLORES. NECKEL. 191-213. mas de apontar possibilidades de recusarmos o que nos tornamos.L. S. 2004. 2005. do poder tomam os jogos em torno da loucura e do crime a fim de compreender como são constituídas determinadas práticas cujos efeitos implicam a produção de discursos “verdadeiros” sobre a razão alienada e sobre o caráter criminoso.G.GREGOLIN.R. mas também tem por função apontar como o que é poderia não mais ser o que é. Assim. denotando uma subjetivação ética susceptível aos mecanismos disciplinares e às regulações do biopoder das modernas sociedades ocidentais. ao mesmo tempo em que é determinado pelo exterior. 351). Esse diagnóstico do presente não se contenta somente em caracterizar o que somos hoje. tomarei textos da mídia digital a fim de pensar as articulações entre regimes discursivos e a produção de verdades e de subjetividades na sociedade contemporânea. Com essa exemplificação. p. 2015. imagem e mídia digital com Michel Foucault por algumas razões teóricas e metodológicas. M. 2. Penso que é produtivo investigar as relações entre discurso. em minhas pesquisas. A caixa de ferramentas conceituais desenvolvida na obra foucaultiana permite que pensemos a história do presente porque sua arquegenealogia tem como papel fundamental diagnosticar o que somos e “o que significa hoje dizer o que dizemos” (Foucault. e a genealogia da ética busca problematizar as práticas de si e os processos de governamentalidade que ligam o sujeito à verdade. o diagnóstico não tem o objetivo apenas de descobrir o que somos nós. b) a análise das relações entre dispositivos de saber e poder e as formas de produção e circulação de discursos na atualidade. a problematização do funcionamento do dispositivo midiático digital na produção das subjetividades contemporâneas. que envolvem múltiplas materialidades. A articulação entre os estudos das mídias e os de análise dos discursos pode enriquecer dois campos que são absolutamente . 275).. Essa arquegenealogia crítica possibilita. Assim. dentre as quais destaco duas: a) a natureza semiológica do conceito foucaultiano de enunciado incorporado ao dispositivo teórico da Análise de Discurso permite explicar as formas híbridas das discursividades contemporâneas. pretendo mostrar que esses dispositivos midiáticos produzem subjetividades que formatam representações sobre as verdades e os sujeitos na atualidade. (org). Campinas: Pontes. permite pensar as transformações nas formas de dizer e nas visibilidades derminada pelas tecnologias digitais. a genealogia do poder propõe diagnosticar e compreender a racionalidade das práticas sociais que nos subjetivaram pelos seus efeitos e nos objetivaram pelas suas tecnologias. no presente. p. p. quanto daqueles “que se pode encontrar nas instituições ou práticas de controle” (FOUCAULT. Análise de discurso em rede: cultura e mídia. GALLO. Esses três momentos do percurso teórico-metodológico de Michel Foucault – situado entre os anos de 1960 a 1984 . a mídia tem sido um objeto privilegiado de investigação.

como.F. para esses autores. o digital) determinou transformações profundas em nossa sociedade. Não se pode mais conceber a pesquisa científica sem uma aparelhagem complexa que redistribui as antigas divisões entre experiência e teoria. Na era da informática vive-se mais com signos do que com coisas. a sociedade contemporânea. plural. por exemplo. baseada no digital. Entretanto. a maneira de encarar essas mudanças é bem distinta entre os pesquisadores: de um lado. 2007). todos são unânimes em admitirem as dimensões das transformações sociais provocadas pelas mídias digitais. 221) ao propor a ideia de que a contemporaneidade é marcada por uma forma de sociabilidade que ele denomina como sendo de controle: É fácil fazer corresponder a cada sociedade certos tipos de máquina. há aqueles que expressam profundo pessimismo. Daí a noção de ciberespaço como um espaço não físico ou territorial e que constitui a cibercultura. roldanas.. que surge com a interconexão mundial de computadores (LÉVY.L. GALLO. por exemplo. 2007). In: FLORES. complementares pois ambos têm como objeto as produções sociais de sentidos (GREGOLIN. relógios. uma mutação do capitalismo. o audiovisual. visando à saturação da informação. seja como o inferno. As mudanças sociais provocadas pelos desenvolvimentos maquínicos é tema da reflexão de Deleuze (1992. Análise de discurso em rede: cultura e mídia. M. 1996. NECKEL. com o perigo passivo da entropia e o perigo ativo da sabotagem. um conhecimento por simulação que os epistemologistas ainda não inventariaram. Assim. da metamorfose incessante de dispositivos informacionais de todos os tipos. modos de pensamento e valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento da Internet como um meio de comunicação. diversões e serviços.M. máquinas de informática e computadores. Na medida em que a Análise de Discurso propõe entender a produção de efeitos de sentido. neste final do século XX. (org). definida como um conjunto de técnicas. De outro lado.. As antigas sociedades de soberania manejavam máquinas simples.R. Campinas: Pontes..G. a própria inteligência dependem. Assim. é eclética. É consensual entre os estudiosos a ideia de que o desenvolvimento dos meios de comunicação (do oral ao escrito. [.. as sociedades de controle operam por máquinas de uma terceira espécie. N. 1996) e Paul Virillo (2000. realizada por sujeitos sociais. a . S. como. na verdade. 2005). 1999). mas as sociedades disciplinares recentes tinham por equipamento máquinas energéticas. Discursos e imagens do corpo: heterotopias da (in)visibilidade na WEB. numa espécie de “tecnofobia”. enfatizando seus aspectos positivos. práticas.R. Seja pensando como o paraíso. como é o caso de Gianni Vattimo (1990) e Pierre Lévy (1993. alavancas. 7): Novas maneiras de pensar e de conviver estão sendo elaboradas nos mundos das telecomunicações e da informática. não porque as máquinas sejam determinantes.]. Emerge. e o ativo a pirataria e a introdução de vírus. ela nos oferece dispositivos teóricos e analíticos para compreendermos o papel dos discursos da mídia na produção das subjetividades. há aqueles que veem as tecnologias de comunicação contemporâneas com entusiasmo. nesta afirmação de Pierre Lévy (1993.GREGOLIN. desterritorializando a cultura pois a territorialidade já não se encontra associada à materialidade do entorno físico. seu cotidiano é invadido pela tecnologia eletrônica de massa. G. do manuscrito ao impresso. 1999. Não é uma evolução tecnológica sem ser. p. As relações entre os homens. cujo perigo passivo é a interferência. 191-213. p. mas porque elas exprimem as formas sociais capazes de lhes darem nascimento e utilizá-las. atitudes. mais profundamente. o trabalho. 2015. Jean Baudrillard (1981. que usam a materialidade da linguagem e estão inseridos na História. p.

G.R. p.M. ao mesmo tempo. Embora a digitalização das mensagens e a extensão do ciberespaço desempenhem um papel capital na mutação em curso. democracia virtual. trata-se de uma onda de fundo que ultrapassa amplamente a informatização. Ou seja. GREEN. (LÉVY. a inteligência coletiva e a sociedade participativa. assim se expressa Jenkins ao afirmar a convergência como característica fundante da sociedade contemporânea: Convergência é uma palavra que consegue definir transformações tecnológicas. 2015. Essa planetarização leva autores contemporâneos a nomearem o funcionamento social atual como "a era da convergência" e "a era da conexão" (JENKINS. 2009. com . (JENKINS. 29). 1996. isto é. o fluxo crescente de informações exige que os consumidores. os quadros coletivos da sensibilidade ou o exercício da inteligência. pois as mídias digitais permitem o engajamento de um número ilimitado de coparticipantes. dada a multiplicidade de plataformas. Jenkins chama a atenção para três propriedades da cultura comunicacional contemporânea: a multiplicidade. é preciso considerar que as mídias digitais produzem um paradoxo fundamental pois. mercadológicas. os consumidores são estimulados a procurar informações. novas leis de direitos autorais.. a constituição do “nós”: comunidades virtuais. O consumo se tornou um processo coletivo. empresas virtuais.] A convergência não ocorre somente por meio de aparelhos. novas orientações para o marketing contemporâneo. 2930). 2009. culturais e sociais. de sociabilidade. p. GALLO. Além disso. há na convergência um acirramento do conceito de inteligência coletiva: trata-se. 2002. comunicação virtual é um elemento de um processo que abrange toda a vida social e constitui o principal canal de comunicação e suporte de memória da humanidade. de um mundo real e imaginário que se estende de forma diferenciada por todo o planeta” (ORTIZ. mas é também um processo de transformação cultural no qual é possível identificar novos níveis de participação dos usuários.F.. cada vez mais.. Campinas: Pontes. novos laços com os conteúdos. p. M. novos meios de aferir audiência. A virtualização atinge mesmo as modalidades do estar junto. a fazer conexões em meio a conteúdos de mídia dispersos. Discursos e imagens do corpo: heterotopias da (in)visibilidade na WEB. N. p.L.. mas principalmente dentro do cérebro de consumidores individuais e em suas interações sociais com outros.GREGOLIN. a mídia corporativa e a mídia alternativa se cruzam. In: FLORES. "há uma pressão para uma sociedade mais aberta e interconectada. de uma experiência muito mais radical daquilo que Pierre Lévy (2007) outrora descreveu como um processo coletivo de construção de conhecimentos. 273). 2009. o poder do produtor de mídia e o poder do consumidor interagem de maneiras imprevisíveis” (JENKINS. uma vez que a convergência das mídias permite modos de audiência comunitários. O que Jenkins denomina como convergência não é apenas um processo tecnológico que une múltiplas funções dentro dos mesmos aparelhos. Por meio do conceito de convergência. E finalmente. JENKINS. em vez de individualistas. Tratase de um novo espaço de comunicação. acesso e transporte de informação e conhecimento: Um movimento geral de virtualização afeta hoje não apenas a informação e a comunicação mas também os corpos. Análise de discurso em rede: cultura e mídia. 191-213. FORD. na cultura participativa. dependendo de quem está falando e do que estão falando. S. problematizem as mídias que consomem. NECKEL. o funcionamento econômico . G..R. p. agora. 2014) caracterizando uma sociedade em que "as velhas e novas mídias colidem. de organização. A despeito desse poder de mobilização planetária e de insurgência política. Por isso..11) As mídias digitais transformaram as sociabilidades e instauraram “relações sociais planetarizadas. [. (org).

p. com zonas claras e escuras. GALLO. penetráveis e impenetráveis. Análise de discurso em rede: cultura e mídia. típica dos meios digitais.M. interrogando os procedimentos discursivos que produzem subjetividades nessa heterotopia. Essas profundas transformações nas produções identitárias evidenciam que a investigação das articulações entre a mídia digital e a constituição de subjetividades é um campo bastante fértil para experimentações e investigações que busquem compreender questões como o complexo relacionamento entre culturas locais e culturas transnacionais.] nós não vivemos num espaço e num tempo neutros e brancos. as dificuldades enfrentadas em relação à tradutibilidade cultural e as novas formas que podem assumir as sociabilidades no mundo globalizado. buscando minimizar a dimensão da subjetividade e da privacidade: a espetacularização do atentado às Torres Gêmeas. In: FLORES. as subjetividades em nome da padronização coletiva" (BARBERO. 1992) e. O conceito de heterotopia aparece na obra de Michel Foucault em textos dos anos 1960. a era digital decretou o fim do segredo ou o fim da intimidade e criou uma nova cartografia no “espaço do visível”. 2004.GREGOLIN. Não vivemos. em duas conferências radiofônicas O corpo utópico e Heterotopias (FOUCAULT..R. A cultura da era digital propicia circulação mais fluida de gêneros de discurso (como as redes sociais e os blogues) que tem como propriedades essenciais a imersão (as novas mídias nos envolvem em múltiplas linguagens). 2001a.L. no qual as formas simbólicas mediadas podem ser produzidas e recebidas por milhões de sujeitos num processo contínuo de territorialização e de desterritorialização. desenhado. no prefácio de As palavras e as coisas (FOUCAULT. morremos. S. Espaço e sentido se encontram nos discursos e produzem efeitos: [. Campinas: Pontes. 2015. tudo é exposto excessivamente no Facebook. recortado. as novas e infinitas possibilidades criativas que se constituem através da velocidade do deslocamento da informação.283). portas.F. não amamos no retângulo de uma folha de papel. N. 2013). na conferência ministrada na Tunísia e publicada como Outros espaços (2001a). M. p. (org). no Twitter e nos blogues.. Vivemos. 414) . é o surgimento de um hedonismo socializado pela mídia que configura a ampliação à máxima potência daquilo que nos anos 1960 Guy Debord denominou como a “sociedade do espetáculo” (DEBORD. Essa nova cartografia pode ser mobilizada para entendermos as formas de produção e circulação de sentidos na WEB e pensarmos sobre a natureza heterotópica da mídia digital..G. Trata-se de um espaço não localizado. não morremos.. do poder e da ética a partir das relações que os corpos estabelecem com os espaços. segundo Lipovetsky (1993. Ninguém pode ser invisível. a busca da fama e da exposição nos reality shows. A consequência mais visível dessa maneira de (re)produzir identidades. 15). 1997). NECKEL. A visibilidade atinge seu mais alto grau. amamos num espaço esquadrinhado.. para esquadrinhar a produção das subjetividades é preciso construir ontologias do saber. por isso. p. com diferenças de níveis. em sua forma mais acabada. fluxos de informação mais ágeis. com escadas. p.R.(FOUCAULT. G.. mas que ameaça as identidades locais e nacionais em nome da globalização. 191-213. O seu desenvolvimento se deve a uma questão central do pensamento foucaultiano: a modernidade pensa o espaço como mais importante do que o tempo. Todos precisam ser promovidos à visibilidade incessante pois. tudo transborda nesses gêneros digitais. a interatividade (possibilidade de novas relações entre produtores e público) e novas narratividades (novas formas de constituir as arquiteturas narrativas). Discursos e imagens do corpo: heterotopias da (in)visibilidade na WEB.

um lugar sem lugar. eu os chamarei. afirma Foucault no final de seu texto Outros espaços. p. de heterotopias. c) as heterotopias são ligadas frequentemente a decupagens singulares do tempo. à transformação (heterotopias de crise) e outras que são de desvio. um tipo de utopias efetivamente realizadas nos quais os espaços reais.F. chegasse a lugares impensados e foi. lugares reais. em relação com o espaço restante. NECKEL. são parentes das “heterocronias”. que mantêm com o espaço real da sociedade (as topias) uma relação geral de analogia direta ou oposta. Oscilando entre as topias e as utopias. Esses lugares. e que são um tipo de contra-espaços. Navegamos por esse labirinto e a velha metáfora da navegação convive com outras formas de experimentar lugares nunca dantes navegados. 3. em todas as civilizações. que é fechado em si e ao mesmo tempo lançado ao infinito do mar" (FOUCAULT. segundo Foucault regem o funcionamento das heterotopias: a) todas as sociedades possuem heterotopias. d) há heterotopias ligadas à passagem.G. assim. as heterotopias são o espaço do diferente. O espaço no qual vivemos nos sulca e nos corrói porque é fundamentalmente heterogêneo. As utopias são espaços sem lugar real.. que vive por si mesmo. o maior instrumento de desenvolvimento econômico e a maior reserva de imaginação. 422). as utopias e as heterotopias. 2015. (FOUCAULT. todos os outros espaços reais que podemos encontrar no seio da cultura.] provavelmente existe em todas as culturas. Nesse espaço virtual cruzam-se todo tipo de outros espaços. GALLO. consensuais e conflitantes.L. p. são dois exemplos extremos de heterotopias. são "contestações míticas e reais do espaço em que vivemos". são ao mesmo tempo representados. acolhem-se todo tipo de enunciados e de formas de visibilidade numa cartografia em que se misturam permissividade e controle de forma ambígua.. Ele é. b) as heterotopias justapõem num mesmo espaço espaços incompatíveis.. nas quais habitam os que vivem à margem. Análise de discurso em rede: cultura e mídia.R. Discursos e imagens do corpo: heterotopias da (in)visibilidade na WEB. M. essa heterotopia por excelência porque permitiu que a sociedade se movimentasse. do século XVI ao século XX. uma função política e estratégica. Bordéis e colônias. é o navio. tipos de lugares que estão fora de todos os lugares. segundo Foucault. Se o navio tem esse papel de metáfora primordial até o século XX. Ele se desdobra. lugares efetivos. 2001a. G. do outro. (org). lugares que estão inscritos exatamente na instituição da sociedade. ainda que sejam lugares efetivamente localizáveis.M. porque são absolutamente diversos de todos os espaços que refletem e sobre os quais falam. São lugares reais mas que estão fora de todos os lugares reais. 191-213.GREGOLIN. e) as heterotopias têm.. o seu funcionamento tem em sua base o contínuo movimento do dito e do não dito. "um pedaço de espaço flutuante. p. por oposição às utopias. O corpo na WEB: heterotopias da (in)visibilidade .R. Campinas: Pontes. conforme se expressa Foucault: [. são espaços fundamental e essencialmente irreais. contestados e invertidos. pelo menos. em três tipos de lugares que experienciamos no cotidiano: as topias. 415) Alguns princípios. 2001a. S. proponho pensar a WEB como a heterotopia por excelência do século XXI. Mas a heterotopia por excelência das sociedades ocidentais. In: FLORES. N.

Tomo. os velhos etc. no prazer do olhar sobre pinturas fotogênicas (FOUCAULT.R. p.M.G.R. Análise de discurso em rede: cultura e mídia. poder e processos de subjetivação.GREGOLIN.possam emergir da invisibilidade e ocupar um lugar sem lugar na WEB. Na introdução ao terceiro volume da História do corpo. uma tríplice maneira de observar os corpos nos espaços e os efeitos de sentido que se criam a partir dessa relação: corpos dóceis instalados em lugares reais (topias). corpos utópicos como. In: FLORES. 1972. NECKEL. 416). Por isso. G. transformou-se em objeto polêmico de novos movimentos sociais como o feminismo e foi inserido na longa duração histórica. prostíbulos e prisões. por exemplo. na mesma época. Discursos e imagens do corpo: heterotopias da (in)visibilidade na WEB.. que emergiu a partir do momento em que as pesquisas de Freud revelaram a sua ligação com o inconsciente. construir o corpo em uma outra heterotopia. são corpos que escapam à invisibilidade de prostíbulos e presídios e são exibidos no panóptico da WEB como utopias consentidas. para que o corpo se estabelecesse como objeto de estudos das Ciências Humanas foi preciso esperar os anos 1960. O corpo é materialidade significante produzida historicamente. que Foucault denomina "de desvio" abrange lugares que acolhem sujeitos cujo comportamento se desvia em relação à norma. como forma simbólica de produção de subjetividades e discursividades. p. na Figura 1 a seguir. 2001b) e corpos heterotópicos exilados nos hospícios e hospitais (FOUCAULT. na medida em que ela possibilita que corpos que são invisíveis no espaço público . espaço e subjetividade são três componentes essenciais e inseparáveis. há aquelas que constituem-se como lugares de crise pois estão reservadas a sujeitos que se encontram. 7-12) afirma que o corpo é uma invenção teórica do século XX. 1991). A essa articulação. imagem e corpo com Michel Foucault nos leva a discutir o estatuto do corpo na contemporaneidade. pensar discurso. S. O segundo tipo de heterotopia. em primeiro lugar. como estudado em Vigiar e Punir (FOUCALT. Foucault arrisca-se a definir dois tipos de heterotopias. Para colocar à prova essas afirmações teóricas tomarei imagens postadas em blogues e redes sociais que se constituem nessas heterotopias: são corpos impossíveis fixados em selfies. Corpo.L. poder-se-ia fazer corresponder. nos estudos foucaultianos sobre o corpo. 1978). É essa segunda forma de heterotopia que me interessa. GALLO. para pensar no funcionamento da mídia digital.”(FOUCAULT. finalmente. neste momento. Primeiramente. Entretanto. Mauss articulou corpo e sociedade. N. as mulheres de resguardo. Courtine (2008. articulou corpo e discurso e. outros dois estudiosos deram-lhe vida e materialidade: Husserl mostrou como se constituem as relações entre corpo e espírito e. (org). como hospícios. Campinas: Pontes. p. Nesse momento é fundamental o trabalho de Michel Foucault. na medida em que ele acentuou a historicidade. colocou o corpo no centro das relações entre saber. sem entretanto separá-las definitivamente. por meio de sua arquegenealogia. em relação à sociedade. em suas análises. M. 191-213. isto é. como "os adolescentes. a imagem de um cartaz produzido pelo Ministério da Saúde brasileiro para uma campanha de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis: . 2015. em um lugar fora dos lugares mas que é delimitado no tempo. já que podem se justapor uma à outra.porque confinados em heterotopias de desvio . 2001a. quando ele se politizou.F.. as mulheres na época da menstruação.

p. um lugar afastado dos olhares da sociedade.que inverte a expressão com que tradicionalmente se refere à prostituta ("garota sem vergonha").F.M. como diria Foucault. feita no interior de presídio brasileiro e postada no Facebook em agosto de 2014: 2 Disponível em: http://veja. 191-213. Mas há algo mais insuportável nessa propaganda: o corpo da prostituta. de "topia desapiedada". vetado em junho de 2013. (org). A esse corpo está interditado o olhar público. madura. isto é. Um segundo exemplo da WEB como heterotopia por excelência do mundo contemporâneo proponho enxergar na imagem da Figura 2.. ele deve ser invisível e habitar os prostíbulos. a imagem tornada invisível para o público. no enunciado verbal. S. ocupa hoje a heterotopia da WEB e pode tornar-se visível a qualquer momento. O que incomoda nesse dizer e nesse mostrar? Primeiramente. In: FLORES. uma espécie.L.R. dentre uma série de outras. principalmente nas redes sociais. A campanha foi censurada. .R."sem vergonha. foi interditada e retirada do espaço de propaganda pública. basta digitarmos o slogan "sou feliz sendo prostituta" em qualquer aplicativo de busca na WEB e esse corpo aparece em sua materialidade: banido do espaço público "real". G. M. Essa campanha provocou muita polêmica e depois de muito criticada por setores conservadores. Análise de discurso em rede: cultura e mídia.GREGOLIN.br/noticia/brasil/campanha-federal-diz-sou-feliz-sendo-prostituta/. Foto: Reprodução2. real. entretanto. Discursos e imagens do corpo: heterotopias da (in)visibilidade na WEB. Acesso em 15 de junho de 2013. 2015. a construção de uma profissionalidade para a prostituta e o nome próprio da ONG . N.com.abril. Figura 1: Cartaz de campanha do Ministério da Saúde. NECKEL. garota" . incomodam a ideia de felicidade ligada à prostituição. Campinas: Pontes.G. Trata-se de uma fotografia. GALLO..

p. G. ubívoca: onde parece ser sua realidade. GALLO. esbarra nesse espaço tão real que ainda habita. Do mesmo modo. S.. esquadrinhado. 191-213.M. compartilhado à exaustão.G. . pelo selfie. In: FLORES.R. instala-se uma contraposição entre o corpo que repete a pose diante da câmera e o espaço degradado da cela da prisão. impossível. pode ser olhado. cria-se um corpo utópico. na qual o fotógrafo do Jornal O Globo flagra uma mulher que faz selfie durante o velório de Eduardo Campos. o sentido lhe escapa. Nesse sentido. mostrado. a tentativa de arrancar esse corpo da topia. Foto: Reprodução do Facebook3. Toda imagem é sempre plurívoca. Um terceiro exemplo da forma de funcionamento da imagem do corpo na WEB é a produção de selfies. N. Entretanto. em agosto de 2014: 3 Disponível em: http://g1.html. Acesso em 29 de agosto de 2014. M. da invisibilidade da prisão. (org). Figura 2: Fotografia de prisioneira no interior de sua cela. Entendo que no gesto de produzir uma imagem de si.globo. Campinas: Pontes. O corpo torna-se prisioneiro do panóptico digital. na composição de algo que lhe parece esteticamente belo. Análise de discurso em rede: cultura e mídia.R. apesar de ir para outro lugar.. postada na rede social Facebook em agosto de 2014.F. 2015.com/pr/campos-gerais-sul/noticia/2014/08/presas-fazem-fotos-sensuaisdentro-da-cadeia-e-postam-na-internet. Assim. no espaço heterotópico da WEB. Discursos e imagens do corpo: heterotopias da (in)visibilidade na WEB. é exemplar a imagem da Figura 3. que almeja a hipervisibilidade. Nessa fotografia da Figura 2 o corpo repete uma gestualidade padronizada de imagens sensuais.GREGOLIN. NECKEL.L. joga a imagem desse corpo na hipervisibilidade da WEB. se a postagem no espaço digital permite escapar da invisibilidade e das margens.

L. (org). In: FLORES.com. A edição digital de imagens permite que usuários. Derivando da palavra grega mimeme. permitida pelo compartilhamento na WEB. p.. transformá-la e disponibilizá-la na WEB. Foto: Jornal O Globo. que significa "aquilo que pode ser imitado". tem sido denominado de "meme". O gesto do selfie. em seu estudo sobre a cultura da convergência. foi transformada em espetáculo. GALLO. Richard Dawkins (2007) criou o conceito de "meme" para buscar proximidade fonética com a ideia de "gene" e construir a metáfora de que a repetição faz parte do DNA da 4 Disponível em: http://exame. 28). se insere nessa crítica coletiva ao desrespeito do selfie feito em uma situação de grande comoção nacional.F. M. por meio da imagem mostrada na Figura 3. Análise de discurso em rede: cultura e mídia. 2015. Esse gesto foi objeto de discussões e críticas nas redes sociais e blogues na WEB. exibido nas páginas de um jornal tradicional como forma de crítica pela sua inadequação.. afirma que a inteligência coletiva pode ser vista como uma fonte alternativa de poder midiático. chamou a atenção o grande número de pessoas que aproveitavam a ocasião para serem fotografadas junto a personalidades políticas e para fazerem selfies diante do caixão.R.br/brasil/album-de-fotos/mulher-que-fez-selfie-em-velorio-deeduardo-campos-vira-meme. Campinas: Pontes. candidato à presidência da República no pleito de 2014. adquiriu dimensões planetárias a partir do momento em que usuários de redes sociais e blogues parodiaram a imagem. Acesso em dezembro de 2014.G. 19/08/2014. p.abril. transformação e redistribuição.M. . com grande potencial para a mobilização social.GREGOLIN. possam se apropriar de uma imagem. tornaram-se memes4. Na ampla cobertura midiática do funeral. O fotógrafo do jornal O Globo. G. A morte trágica de Eduardo Campos. como era de se esperar dado o funcionamento das mídias atuais. Jenkins (2009. Discursos e imagens do corpo: heterotopias da (in)visibilidade na WEB. mesmo amadores na arte fotográfica. NECKEL. N.R. conforme se pode observar nas Figuras 4 e 5: Figuras 4 e 5: Paródias da fotografia da mulher fazendo selfie. Isso aconteceu com a fotografia mostrada na Figura 3. Esse processo de apropriação. Figura 3: Mulher faz selfie em velório de Eduardo Campos. A mídia digital potencializa essa possibilidade de agenciamento político e de crítica pois permite que um texto ou imagem seja compartilhado entre milhões de pessoas. publicadas em redes sociais e blogues. S. 191-213.

S. isto é. p. essa mulher e seu selfie foram instalados em outras cenas fundadoras de nossa memória social: no naufrágio do Titanic. "o século XX restaurou e aprofundou a questão da carne. Será necessário. mesmo que se tornem diferentes podem ser reconhecidos. N. Campinas: Pontes. Essa natureza replicante dos textos na WEB e seu potencial aparecimento em lugares inusitados levou Jenkins (2009) a relatar o caso de um estudante secundarista que criou um blogue no qual postava imagens do personagem Beto. NECKEL. algo ainda mais radical ocorre no século XXI. In: FLORES. na qual Beto aparecia ao lado de Bin Laden. Discursos e imagens do corpo: heterotopias da (in)visibilidade na WEB." Se a reprodutibilidade técnica. as paródias denunciam a absurda separação entre o gesto no primeiro plano e o seu plano de fundo. se nos propusermos a narrar a história . principalmente. Eles se caracterizam.. a fotografia da mulher fazendo selfie foi inserida em fotografias icônicas: a imagem do atentado às Torres Gêmeas em Nova York (11/09/2001) e a mais famosa foto da guerra do Vietnam. cibercultura. gravadas fortemente na memória coletiva como momentos de grande tragédia. posteriormente. Ao inserir o gesto do selfie nessas imagens icônicas.GREGOLIN. Esse meme seria cômico. Por isso.R. 4. uma história do corpo no século atual certamente terá de levar em conta a sua imersão nas tecnologias do virtual. divulgada pela Associated Press para jornais e revistas do mundo todo. a sua materialização nas heterotopias da WEB que lhe conferem outros estatutos. ao se espalharem. GALLO. derivada dos meios elétricos. (org). M. G. feita por Nick Ut (08/06/1972). No caso das Figuras 4 e 5.G. 10-11) afirma que o desenvolvimento das tecnologias de captação e reprodução de imagens transformou profundamente as maneiras como ele passou a ser materializado pois "jamais os espetáculos de que foi objeto se aproximaram das reviravoltas que a pintura. por isso. A retomada delas como cena fundadora nas Figuras 4 e 5 constrói uma crítica ao gesto dessa mulher que produziu selfie em um funeral. acabou surgindo.R. de apoio ao Islã.L. essas imagens icônicas são "memes" que vem se repetindo por todos os meios de divulgação desde o momento em que foram feitas e publicadas pela primeira vez. Outras cartografias do corpo Ao estudar as mutações do olhar sobre o corpo no século XX. diferentes daqueles próprios ao século XX. 2015. p.F.. A possibilidade de manipulação e divulgação digital da imagem faz com que ela possa ser indefinidamente retomada e ressignificada. do programa infantil Vila Sésamo. se não fosse trágico. Esse fato gerou polêmicas e constrangimentos e. a fotografia. 191-213. em um cartaz no Afeganistão. Uma dessas imagens postadas no blogue. Assim. no assassinato de John Kennedy e até na crucificação de Cristo.M. durante manifestação anti-americana. Além dessas imagens parodísticas . Courtine (2008. Análise de discurso em rede: cultura e mídia. pela capacidade de se replicar e de se transformar.. fez com que o corpo se tornasse cada vez mais visível e que sua história fosse revolucionada durante o século XX. do corpo animado. De alguma maneira. portanto. Ele evidencia um paradoxo essencial da produção e circulação de textos e imagens na WEB: a tensão entre o compartilhamento individual e o alcance social. o cinema contemporâneos vão trazer à sua imagem" e. determinadas pela mídia digital. Essa potencialidade para que imagens e palavras sejam reproduzidas milhões de vezes e se espalhem para contextos muito distantes do original é uma especificidade da cultura da convergência e da conexão contínuas. criando os memes. evidenciou o perigo desse funcionamento das formas contemporâneas de circulação de sentidos. ao lado de personalidades políticas.

p. A sociedade do espetáculo. _______. 2015. p. p. 219-226. _______. ________. São Paulo: Aleph. Introdução. Entrevistas.R. 1996. DROIT. Rio de Janeiro: Forense Universitária. . _______. COURTINE. do corpo no século XXI. DELEUZE. 1992. 1991. Jean-Jacques. G. O corpo utópico. 34. 2008.). com seus jogos de luz e sombras. O nascimento da clínica. M. Pronunciada em 2 de Dezembro de 1970. Coleção Ditos & Escritos III. ao pensarmos a WEB como hiper-heterotopia da sociedade atual. 2005. 2006. 1978.R. vol. Outros Espaços. ______. A pintura fotogênica. como pretendemos ter exemplificado. Michel Foucault. Rio de Janeiro: Forense Universitária.GREGOLIN. nos damos conta. Diálogos e Duelos. como num quarto de hotel destinado ao viajante de passagem. As mutações do olhar: o século XX. Sexualidade. 1992. com Foucault. 1972. uma vez que lá estamos temos a impressão de ter entrado em “lugar nenhum”. 4. M. Simulacros e Simulação. História da loucura na idade clássica.R. Ofício de Cartógrafo: Travessias latinoamericanas da comunicação na cultura. Política. S. 2013. FOUCAULT. (org). Manoel Barros da. _______. Vigiar e punir. Gilles. 2004. Foucault e Pêcheux na análise do discurso. 69-70. p. O gene egoísta. In: FLORES. Rio de Janeiro: Forense Universitária. A Ética do cuidado de si como prática de liberdade. ________. In: MOTTA. 2001a. São Paulo: Edições Loyola. heterotópicos. nº11. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Discursos e imagens do corpo: heterotopias da (in)visibilidade na WEB. Manoel Barros da (Org. M. Coleção Ditos & Escritos V. São Paulo: Companhia das Letras. _______. cartografar esses espaços outros. N. Lisboa: Relógio D'água. A transparência do mal. G. DEBORD. 2003. que o corpo experimenta. lugares que são completamente abertos ao mundo exterior. M. Petropolis. A ordem do discurso. Henry. Particularmente. In: MOTTA. Georges (Org).M. ao qual a maioria de nós tem acesso. São Carlos: Claraluz. 411-42. DAWKINS. Nascimento da Prisão. Foucault. São Paulo: Martins Fontes. _______. 2009. Manoel Barros da. Rio de Janeiro: Graal. Estratégias. 191-213. Campinas: Pontes.. In: Conversações 1972-1990.F. Poder-Saber. 2007. 1971. REFERÊNCIAS BARBERO. J. Mídia e Consumo. NECKEL. Aula Inaugural no Collège de France. 3. Roger-Pol. Ensaio sobre os fenômenos extremos. 1981. p. Revista Comunicação.). Coleção Ditos & Escritos III. ________. Rio de Janeiro: Ed. História do corpo. GALLO. Jean-Jacques. As palavras e as coisas. Estética: Literatura e Pintura. GREGOLIN. Vol.L. Coleção Ditos & Escritos IV. Campinas: Papirus. J. será preciso observar que há uma contradição entre a hipervisibilidade e a invisibilidade. Entretanto. ______. Análise do Discurso e mídia: a (re)produção das identidades. Diálogo sobre o poder. Assim. Post-scriptum sobre as sociedades do controle. 1997. In: MOTTA. Música e Cinema. RJ: Vozes.G. BAUDRILLARD. 2001b. As heterotopias. Análise de discurso em rede: cultura e mídia. p. Foucault. In: CORBIN. 264-287. JENKINS. VIGARELLO. Richard. Estética: Literatura e Pintura. Manoel Barros da (Org.. COURTINE. São Paulo: Edições N-1. 2004. São Paulo: ESPM. São Paulo: Loyola. hoje. 346-355. Ética. São Paulo: Perspectiva. Cultura da convergência. In: MOTTA. Música e Cinema. Alain. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Rio de Janeiro: Vozes. Rio de Janeiro: Contraponto. 2007.

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