Gatekeeping no jornalismo digital: o caso Wikinotícias1

Marcelo Träsel2 RESUMO: O trabalho discute a validade do conceito de gatekeeping no contexto do "jornalismo aberto", a partir da análise do site noticioso Wikinotícias. As instâncias de gatekeeping, baseadas nos valores-notícia, são parte integrante do sistema que confere credibilidade ao jornalismo, permitindo aos profissionais reclamarem objetividade. As possibilidades de interação mútua abertas no ciberespaço fomentam a produção de sites de notícias colaborativos escritos por não-profissionais, que poderiam ser um desafio à noção de gatekeeping. No entanto, a maioria destes sites adota barreiras de controle. Mas o verdadeiro avanço não estaria no abandono da busca da credibilidade pela objetividade? Palavras-chave: jornalismo, internet, wiki, gatekeeper, interação Um dos principais alicerces da profissão jornalística, a partir da revolução nos periódicos norte-americanos no início do século XX, é a credibilidade. Trata-se do maior patrimônio de um veículo noticioso, essencial para sua penetração junto ao mercado consumidor e posto em risco por qualquer pequeno arranhão causado pela publicação de informações imprecisas ou mentirosas. As novas tecnologias de comunicação, sobretudo a conjunção de redes telemáticas chamada Internet, no entanto, possibilitam que qualquer navegante do ciberespaço publique com extrema facilidade e custo perto de zero informações em weblogs, sites pessoais e fóruns de discussão. Assim, as redes, aliadas à cada vez maior portabilidade, à facilitação do intercâmbio de informações pela digitalização e à redução do custo de câmeras, gravadores e filmadoras, abrem espaço para que amadores atuem como repórteres. Alguns projetos já se aproveitam destas novas possibilidades de participação, permitindo que interessados ao redor do mundo apurem e publiquem suas próprias reportagens. Os colaboradores não são necessariamente jornalistas e nem sempre possuem conhecimento técnico na área. Há desde sistemas completamente abertos, que deixam qualquer um publicar notícias, como Wikinews3 e Centro de Mídia Independente4, a sistemas controlados, como o Ohmynews5, em que as reportagens são feitas pelo público, mas são verificadas por editores profissionais antes da publicação. O Wikinews é um serviço de notícias aberto, cujo objetivo é se tornar uma agência aberta e gratuita para qualquer publicação mundo afora. Sua característica marcante é o fato de permitir a qualquer internauta editar textos e capas utilizando apenas o browser e sem necessidade de cadastramento ou conhecimento de HTML6. Sua versão em português é chamada Wikinotícias.
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Trabalho apresentado no III Encontro da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Jornalismo, na ECEUFSC, Florianópolis, novembro de 2005. 2 Jornalista, mestrando em Comunicação e Informação no PPGCOM-UFRGS. Colaborador do Laboratório de Interação Mediada por Computador da Fabico-UFRGS. Site: www.ufrgs.br/limc. E-mail: marcelo.trasel@gmail.com. 3 http://www.wikinews.org/ 4 http://www.midiaindependente.org/ 5 http://english.ohmynews.com/ 6 Hypertext Markup Language. Trata-se da sintaxe utilizada para a construção de páginas na Web.

Com base na discussão do conceito de gatekeeper e analisando o funcionamento do Wikinotícias, serão discutidas algumas formas de interação no jornalismo online e a pertinência do conceito de gatekeeping no contexto traçado.

Gatekeeping e credibilidade
O gatekeeping, conceito utilizado por David M. White para descrever o sistema de seleção de notícias em uma redação de jornal típica, é uma noção que traz em si uma discussão sobre as distorções provocadas pela subjetividade no fazer jornalístico. Parte da premissa de que seria possível um jornalismo sem interferência das experiências, crenças e ideologia do repórter ou editor. Wolf (2003:202-228) aponta uma dezena de valores-notícia, ou critérios segundo os quais os jornalistas decidem publicar determinada matéria. São relativos aos aspectos de conteúdo da notícia (como importância e exatidão), apresentação do produto informativo (tamanho e ritmo, por exemplo), expectativas do público (o que os leitores querem) e conhecimento da concorrência (quais matérias a concorrência pode/pretende veicular). O autor alerta que estes valores são dinâmicos e se alteram no tempo, assim como refletem a estrutura da organização e da equipe. Destinam-se "à realização programada de objetivos práticos e, em primeiro lugar, a tornar possível a repetitividade de certos procedimentos" (Wolf, 2003, p.204). Os valores-notícia não se formam ex-nihilo, mas são construídos pela própria prática profissional. Os repórteres costumam explicá-los e justificá-los com base na noção de news judgement:
"... o 'faro' jornalístico seria não uma capacidade 'misteriosa' de captar as notícias, mas uma capacidade-padrão (adquirida com base em parâmetros delimitáveis: os valores/notícia) de combinar 'instantaneamente', num ponto de equilíbrio, fatores muito diferentes." (Wolf, 2003:.265)

Os critérios definidos por este "faro" são concretizados na função de gatekeeping desempenhada pelos jornalistas. White explica que os setores ou pessoas que funcionam como "portões" [gates] para as notícias dentro de uma redação são regidos ou por regras imparciais, ou por um grupo no poder, que toma a decisão de "deixar entrar" ou rejeitá-las. Além disso, as notícias são transmitidas "de um gatekeeper para outro na cadeia de comunicações" (White, 1993:143). Os repórteres das agências, por exemplo, enviam suas matérias a seus editores, estes selecionam aquelas que serão enviadas aos veículos assinantes, onde as notícias serão submetidas a mais uma rodada de escolha dentro da redação. O resultado deste processo, para White (p.151), é o seguinte:
"... o editor do jornal provindencia (apesar de poder nunca estar consciente desse facto) para que a comunidade oiça como facto somente aqueles acontecimentos que o jornalista, como o representante da sua cultura, acredita serem verdade."

Sua conclusão é que a comunicação das notícias é subjetiva, pois o "conjunto de experiências, atitudes e expectativas" do "porteiro" interfere em suas decisões (p.151). No entanto, o indivíduo colocado na posição de gatekeeper reclama a objetividade, brandindo a observação dos valores-notícia como prova. Como descreveu Gaye Tuchman, a utilização dos valores-notícia como forma de garantir a observação de certos procedimentos de trabalho, visando garantir a objetividade, configura um ritual estratégico por meio do qual os jornalistas se protegem dos riscos da profissão, sobretudo das críticas quanto à parcialidade dos produtos informativos (1993). Assim, podem manter a credibilidade junto ao público e frente a

seus superiores. Credibilidade é aqui entendida como a percepção do público de que as as informações publicadas em um jornal são exatas. O mecanismo pelo qual a observância dos valores-notícia garante a objetividade compreende quatro procedimentos estratégicos: a apresentação de possibilidades conflituais (os dois lados da questão), o uso de declarações de fontes, o fornecimento de provas auxiliares (documentos, vídeos) e a estruturação da notícia na forma apropriada (pirâmide invertida). A autora faz um alerta, entretanto: "Embora estes procedimentos possam fornecer provas demonstráveis de uma tentativa de atingir a objectividade, não se pode dizer que a consigam alcançar" (p.89). Hackett questiona as premissas envolvidas nos estudos que analisam o problema, sobretudo quanto à possibilidade de se atingir a objetividade, e mesmo quanto à necessidade disso. Aponta, por exemplo, que os princípios de exatidão e equilíbrio, essenciais para a reivindicação da objetividade, podem nem sempre ser compatíveis (1993:103). O autor afirma que a mídia interfere na construção social da realidade ao dar legitimidade aos processos sociais das instituições político-burocráticas. Para ele, os media noticiosos terminam por influenciar as práticas sociais e políticas que pretendem refletir em suas páginas. Não obstante ajudar a reproduzir os enquadramentos políticos dominantes, conforme Hackett, a busca da objetividade faz parte da própria definição de jornalismo e atua em consonância com os interesses econômicos das empresas jornalísticas, na medida em que permite a proteção contra processos por difamação e gera uma desculpa aceitável para a não-interferência no trabalho das redações a pedido de governos e anunciantes. Sonia Serra, em sua releitura da noção de gatekeeper sugere que há maior importância das normas profissionais do que da subjetividade na escolha das notícias publicáveis (2004:5). A subjetividade influiria mais na explicação a respeito da decisão do que no processo em si. Para a autora, a maior crítica a White é a possível insuficiência do estudo frente à complexidade das mediações envolvidas no fazer jornalístico. Serra lembra, entretanto, que seja como for algumas notícias de fato são barradas com base na subjetividade e vedadas à comunidade. White não ignorava as outras mediações, apenas deteve-se em uma delas naquele artigo.

Jornalismo digital e interação
Para Elias Machado, as principais características do jornalismo digital são a descentralização, o uso das redes telemáticas e, sobretudo, a incorporação do leitor no processo produtivo.
"... el periodismo digital es todo el producto discursivo que construye la realidad por medio de la singularidad de los eventos, que tiene como soporte de circulación las redes telemáticas o cualquier otro tipo de tecnología por donde se transmita señales numéricas y que incorpore la interacción con los usuarios a lo largo de proceso productivo" (Machado, 2000:19)7.

Palácios et al. (2002) também indica a interatividade como uma das características definidoras do jornalismo digital, junto à hipertextualidade, multimidialidade, personalização, memória e atualização contínua. A maneira como a interação é integrada ao processo produtivo não se resume ao simples envio de mensagens por email à redação ou à votação em enquetes. Para Machado, implica a participação de todo indivíduo envolvido no processo de
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Tradução do autor: "... o jornalismo digital é todo o produto discursivo que traduz a realidade através da singularidade dos eventos, que tem como suporte de circulação as redes telemáticas ou qualquer outro tipo de tecnologia pela qual se transmitam sinais numéricos e que incorpore a interação com os usuários ao longo do processo produtivo."

comunicação na produção mesma da notícia (p.276). Um exemplo de como esta participação pode se dar é a transformação do público em fonte pelo uso do email ou das páginas pessoais8. Em outro artigo, Machado afirma que o jornalismo digital retira a supremacia das fontes oficiais e oficiosas na produção jornalística:
"A novidade do jornalismo digital reside no fato de que, quando fixa um entorno de arquitetura descentralizada, altera a relação de forças entre os diversos tipos de fontes porque concede a todos os usuários o status de fontes potenciais para os jornalistas" (2003:27).

Assim, pela interação através das redes telemáticas, o público passa a ter um papel muito mais importante no jornalismo digital, quando comparado a seu papel em veículos tradicionais. A interação com os usuários pode se dar em diversos níveis. O mais elementar é a escolha de trilhas hipertextuais nas publicações da Web, através dos links presentes nas matérias e menus de navegação. Note-se, entretanto, que as possibilidades de interação aqui são definidas sempre pelo produtor do hiperdocumento. O interagente pode apenas escolher entre seguir ou não seguir determinado link. Alex Primo (2003) define este processo como interação reativa. São aquelas interações que precisam estabelecer-se conforme determinam as condições iniciais e podem se repetir infinitamente com os mesmos resultados (p.12). Partindo de uma perspectiva baseada na teoria dos sistemas e na psicologia relacional (ou sistêmico-relacional), o autor faz uma crítica às definições do conceito de interatividade com foco excessivo na capacidade técnica do canal. A partir daí faz a diferenciação entre o tipo acima descrito e a interação mútua:
"Na interação mútua, os interagentes reúnem-se em torno de contínuas problematizações. As soluções inventadas são apenas momentâneas, podendo participar de futuras problematizações. A própria relação entre os interagentes é um problema que motiva uma constante negociação. Cada ação expressa tem um impacto recursivo sobre a relação e sobre o comportamento dos interagentes." (2003:12)

Nesta perspectiva, o grau máximo de interação possível se daria em um diálogo presencial entre duas ou mais pessoas. Possível, pois diálogos presenciais podem por vezes ser menos interativos do que diálogos via telefone ou computador, muito embora ofereçam, além da voz, os elementos comunicativos do gestual, vestimenta, cheiros, etc. Se o grau de recursividade, ou seja, os desequilíbrios que impulsionam a transformação do sistema por meio das ações de um interagente em relação às ações dos outros, for baixo ou inexistente, o nível de interação será baixo. Basta pensar no "bom dia" mecânico que se dá aos caixas de supermercados ou nos diálogos com operadores de telemarketing. Entre a interação reativa e a mútua há uma escala contínua de interatividade. Assim, alguns webjornais podem oferecer seções nas quais há apenas a possibilidade de reação por parte do interagente (como nas listas de últimas notícias, em que normalmente pode-se no máximo clicar na manchete mais interessante para ler a matéria), enquanto em outras o sistema abre-se à negociação e ao diálogo (como nos fóruns de leitores). Entre estes dois pólos há as votações em enquetes de múltipla escolha (mais de uma possibilidade, embora ainda definidas pelo programador) ou o envio de mensagens eletrônicas aos repórteres (em que o interagente pode dizer o que quiser, mas corre o risco de ser ignorado). Nenhum dos veículos tradicionais, entretanto,
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O weblog Vizinho do Jefferson foi criado por um cidadão que reside no mesmo prédio do deputado Roberto Jefferson, pivô da crise no governo Lula em 2005. O autor traz informações sobre a movimentação no apartamento do parlamentar e, por causa disso, foi citado por diversos jornais e mesmo entrevistado por alguns deles. Disponível em: http://vizinhodojefferson.blogger.com.br/. (Último acesso em 10/7/2005.)

chega ao ponto de abrir completamente suas capas e matérias à edição por parte dos leitores. Os sistemas wiki, por outro lado, não apenas são completamente abertos à edição, como permitem até mesmo apagar completamente o conteúdo das páginas, o que seria o ponto máximo da interação em um website.

O funcionamento do Wikinews
Wikis são sistemas cuja caracteristica mais notável é permitir a edição de páginas da web por qualquer internauta, sem o conhecimento de HTML ou qualquer linguagem de programação e usando apenas o browser. Além disso, todo link introduzido em um texto remete a uma página dentro do próprio wiki, ou cria uma nova página, caso aquele título ainda não exista. Wikis oferecem também um histórico de modificações para cada página, de modo que se possa reverter erros ou atos de vandalismo. O primeiro wiki, chamado PortlandPatternRepository, foi criado em 1995 pelo programador Ward Cunningham9, com o objetivo de tornar mais fácil o registro de processos de trabalho em sua empresa de softwares. Logo diversos grupos aproveitaram o código aberto do wiki original e criaram seus sistemas personalizados, formando a WikiWikiWeb. Um dos mais famosos é a Wikipédia10, uma enciclopédia online em que qualquer pessoa com acesso à Internet pode contribuir. Ela tem por base o sistema wiki conhecido como Wikimedia, que reúne diversos projetos. O Wikinews é o projeto de uma agência de notícias aberta e livre, produzida pela comunidade de internautas. Entrou em operação em 2004 e opera em doze línguas, entre elas o português, com o Wikinotícias11. Ao entrar na página principal do Wikinotícias [http://pt.wikinews.org/], o navegante se depara com uma manchete, seguida abaixo por outras matérias de importância. Em geral, há fotos. Um menu no canto superior direito oferece links para as listas de notícias de diferentes regiões do mundo. Acima da manchete, há uma caixa de texto com apontadores destinados às "últimas notícias", a páginas sobre como participar, iniciar um artigo, à "redação" e a versões em áudio e impressas, bem como para o serviço de RSS12. Na coluna esquerda há um menu de navegação. No topo da página, "abas" oferecem as opções de participar de uma discussão aberta a respeito da primeira página com outros colaboradores, exibir o código fonte e o histórico de modificações. À direita, pode-se fazer o login. Há ainda a possibilidade de editar a primeira página. Não é necessário se cadastrar para fazê-lo. Pode-se também mover a página (mudar a URL) ou vigiá-la (ser alertado para modificações). As páginas de notícias seguem o mesmo padrão. Se o leitor clicar em "editar", será apresentada uma plataforma com o código do texto, que utiliza uma sintaxe simplificada, em que o negrito, por exemplo, é feito com a notação ''palavra'', em vez do HTML <b>palavra</b>. Uma barra de tarefas que permite introduzir a sintaxe. O leitor então pode fazer as mudanças que achar necessárias no texto e depois republicá-lo, clicando em "salvar página". A mudança entra no ar automaticamente. De acordo com o site em inglês13, as notícias publicadas devem ser: a) focadas em um único assunto; b) escritas de um ponto de vista neutro; c) factuais; d) relevantes;
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http://en.wikipedia.org/wiki/Ward_Cunningham http://en.wikipedia.org/wiki/Main_Page. A Wikipédia tem versões em mais de 80 línguas. A versão em inglês tem mais de 600 mil verbetes. Todos foram escritos por voluntários. 11 http://pt.wikinews.org/wiki/P%C3%A1gina_principal 12 Real Simple Syindication. Usando um programa que "lê" fluxos de RSS, o leitor pode receber as novas matérias em tempo real em seu computador, sem que seja necessário acessar a página do Wikinews.
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e) globais e locais — "Any story can be published where-ever in the world it is from, as long as it is news"14 —; e f) colaborativas. Editoriais, press releases e artigos científicos não são aceitos. Muito embora as matérias no jornalismo corporativo sejam sempre colaborativas, na medida em que são resultado de um trabalho de equipe, a cooperação não é considerada um valor em si, sendo mais aparentada a um constrangimento organizacional. Além disso, não podem ser editadas pelos leitores, como é o caso no Wikinews: "A Wikinews story does not have one reporter as its author, the world is invited to join in and write, edit and rewrite each article to improve its content."15 Além de seus valores-notícia, o Wikinews possui algumas diretrizes de política editorial16. Três são especialmente interessantes para este artigo: a citação de fontes; a não-violação de copyright e o credenciamento de repórteres. A citação de fontes verificáveis é fundamental para manter a reputação do Wikinews como fonte de notícias, de acordo com a declaração das políticas editoriais17. Em geral isto é feito publicando-se links para os documentos usados que estejam disponíveis no ciberespaço. No caso de reportagem original, as notas devem ser reproduzidas na página de discussão a respeito da matéria. Normalmente, os colaboradores condensam matérias publicadas em diversos jornais online ou agências de notícias. A publicação de material protegido por direitos autorais é proibida18. As informações devem ser de domínio público ou estar de acordo com as regras de "uso justo". Este caso é mais aplicável a imagens como logotipos, fotos de propaganda, ou de agentes governamentais e supragovernamentais, como a ONU ou a Coroa Britânica. No primeiro caso, podem ser publicadas as informações que compreendam o corpo de conhecimento e inovação em relação ao qual nenhuma pessoa física ou jurídica possa estabelecer ou manter interesses proprietários. Daí a necessidade de citar as fontes utilizadas na redação de matérias, o que acaba freqüentemente redundando em copidescagem. A política do Wikinews para a certificação do vínculo de repórteres19, no caso de pedidos de credenciais a terceiros, depende de uma votação pelos colaboradores do projeto. O interessado precisa ter publicado diversas matérias, com algumas semanas de antecedência e mostrar comprometimento com a política do ponto de vista neutro (NPOV). O pedido de credenciamento então é colocado em votação e deve receber 70% de votos "sim". Caso ocorram abusos, qualquer colaborador, cadastrado ou não, pode iniciar um processo de revogação, em que novamente todos votam. Estas diretrizes editoriais funcionam na prática como instâncias de gatekeeping, visto que conferem parâmetros exatos, baseados em valores-notícia próprios, para a aceitação ou rejeição de determinadas notícias.

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http://en.wikinews.org/wiki/Wikinews:What_Wikinews_is. Os colaboradores do site em português ainda não conseguiram traduzir todas as páginas de diretrizes do Wikinews. 14 Tradução do autor: "Qualquer matéria pode ser publicada de onde quer que venha no mundo, desde que seja notícia." 15 Tradução do autor: "Uma matéria do Wikinews não tem um repórter como seu autor, o mundo está convidado a participar e escrever, editar e reescrever cada artigo para melhorar seu conteúdo." 16 http://en.wikinews.org/wiki/Wikinews:Policies_and_guidelines 17 http://en.wikinews.org/wiki/Wikinews:Cite_your_sources 18 http://en.wikinews.org/wiki/Wikinews:Copyright 19 http://en.wikinews.org/wiki/Wikinews:Accreditation_policy

Seria a Internet o gatekeeper?
De fato, os serviços de jornalismo colaborativo, ou open source20, como Ohmynews, CMI e Slashdot21, demonstram preocupação em manter sistemas de gatekeeping de maneira a assegurar a credibilidade, como mostra Breier (2004:3):
Entretanto, ainda que possamos entender o Open Source Journalism como uma forma menos hierarquizada, no sentido da organização do trabalho, de produção de conteúdo, temos que ressaltar que algumas características das redações de mídias massivas e dos portais de internet são matidas nessa estrutura dentro do modo de funcionamento como está organizado o Slashdot: a presença de gatekeepers.

No caso do Ohmynews, os "repórteres-cidadãos" são cadastrados e enviam suas matérias a uma equipe de jornalistas profissionais na redação, que fica em Seul, Coréia do Sul. Estes checam os fatos e editam o texto da notícia, caso existam erros gramaticais. No Slashdot, qualquer internauta, inclusive de forma anônima, pode enviar propostas de matérias. Estas são selecionadas por uma equipe, mas a veracidade da informação não é checada. Breier (p.9) compara as estruturas de filtragem do Portal Terra22 e do Slashdot para concluir que o último, aberto a todos, tem mais instâncias de controle do que o primeiro, uma organização comercial e fechada. Já o Centro de Mídia Independente permite a publicação automática por qualquer internauta, mas as matérias que infringem a política editorial são eliminadas ou editadas pelos coletivos editoriais, com pelo menos cinco pessoas, organizados em diversas cidades do Brasil. O Wikinotícias, como relatado acima, tem um funcionamento bastante diferente dos outros serviços de jornalismo open source. Embora existam colaboradores certificados, detentores de maiores poderes, como por exemplo impedir a edição de determinadas páginas e banir vândalos contumazes, estas ações ocorrem posteriormente à publicação das matérias. Não há indivíduos ou grupos designados para a função de gatekeeping. As notícias "atravessam o portão" sem fiscalização, embora possam ser eliminadas depois. Mesmo o CMI, em que também não há seleção prévia das notícias publicadas, é mais restritivo do que o Wikinotícias, visto que os internautas não têm a possibilidade de editar ou apagar matérias com erros, que porventura encontrem durante a navegação. Somente os coletivos editoriais podem fazê-lo. No sistema wiki, por outro lado, qualquer pessoa pode editar ou eliminar uma notícia. Deste modo, as notícias publicadas são selecionadas pelo próprio colaborador. Quem se encarrega de corrigir informações erradas e mesmo de tirar matérias do ar são os próprios colaboradores — para fazer uma analogia, os próprios repórteres — ou qualquer internauta que caia por acaso no Wikinotícias e se interesse em editar. Embora as modificações possam ser revertidas, não há hierarquia definida e o nível de interação mútua é praticamente absoluto no que concerne à Internet. Assim, caberia questionar se é possível continuar usando a noção de gatekeeping para avaliar o processo de controle do conteúdo no Wikinotícias. Por outro lado, as diretrizes editoriais funcionam como uma espécie de gatekeeper abstrato, formado por todos os colaboradores freqüentes e esporádicos que
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Uma das primeiras referências a jornalismo open source foi feita pela revista Wired em 26 de agosto de 1999, em uma entrevista com Rob Malda, criador do site Slashdot (Disponível em http://www.wired.com/news/culture/0,1284,21448,00. html]. O termo open source em geral é usado no contexto da programação de softwares e designa aqueles produtos cujo código fica disponível a qualquer um que queira aprimorá-lo. Possíveis traduções seriam "jornalismo livre" ou "aberto". 21 http://slashdot.org/ 22 http://www.terra.com.br

tomaram parte na edição de matérias e discussões sobre políticas para o conteúdo. Ao exigir o uso de fontes citáveis e verificáveis na redação das matérias, o Wikinotícias "importa" toda a cadeia de gatekeeping das agências de notícias e jornais que serviram como fonte. Ou seja, ao resultado supostamente distorcido pela subjetividade dos jornalistas profissionais, conforme apontam os estudos de White e Hackett, os colaboradores acrescentam ainda a distorção de suas próprias subjetividades. Neste sentido, o produto jornalístico que se pretendia mais plural e imparcial acaba como um reflexo parcial do reflexo parcial do mundo proporcionado pela mídia tradicional. Pois ao condensar informações de outras fontes, os colaboradores estão utilizando apenas aqueles dados que os gatekeepers nas redações consideraram válidas para publicação, com base em seu conjunto de experiências e expectativas. Os colaboradores do Wikinotícias então selecionam estas informações uma segunda vez, baseados no que eles próprios acreditam ser verdadeiro, conforme suas próprias experiências e expectativas. Por outro lado, o próprio fato de o sistema permitir um nível de interação mútua praticamente ilimitado é uma possível solução para este problema. Afinal, toda uma comunidade de língua portuguesa com acesso à Internet tem, em tese, a possibilidade de intervir no processo e aparar as arestas provocadas pela subjetividade de cada um de seus integrantes. Um estudo mais aprofundado seria necessário neste ponto, mas desde já abre-se inclusive a possibilidade de a interação entre milhares de colaboradores, utilizando diversas fontes, "corrigir" os desvios da mídia tradicional.

Medo de ousar
A determinação do uso de fontes confiáveis e o sistema de certificação de repórteres para matérias originais, embora evidencie que o Wikinotícias busca a credibilidade jornalística por meio da manutenção da objetividade, termina por prejudicar justamente a grande vantagem do sistema. As possibilidades de interação mútua são quase irrestritas, dadas a simplicidade do sistema e o baixo custo de transação, o que em tese permitiria um jornalismo muito mais plural e diferenciado. Porém, a necessidade de utilizar informações veiculadas em maior parte na mídia tradicional torna a grande maioria das notícias publicadas meras condensações de informações já disponíveis em outros locais. Seu noticiário seria provavelmente mais interessante se não houvesse o que parece ser medo de ousar e o compromisso com a objetividade fosse abandonado. Ninguém precisa de uma reprodução dos serviços de notícias que já existem em profusão no ciberespaço. Um indicativo é o recente sucesso dos blogs dedicados ao jornalismo, ou produzidos por jornalistas que, longe das redações, livram-se dos constrangimentos organizacionais. Muito se tem discutido a respeito das possibilidades e ameaças do jornalismo feito por amadores, conhecido como jornalismo cidadão, grassroots journalism, jornalismo open source, jornalismo participativo, entre outras denominações. Os blogs têm sido saudados sobretudo em sua função de fiscalizar a mídia tradicional, apontando imposturas e por vezes mesmo denunciando plágios e máfé.23

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A tendência é mais forte os EUA, em que Matt Drudge denunciou o caso Lewinski durante o governo Clinton, por exemplo: http://www.drudgereport.com/. No Brasil, em março de 2005, o blog Samjaquimsatva denunciou um suposto plágio da revista IstoÉ: http://samjaquimsatva.blogspot.com/. O caso depois foi amplificado pelo coletivo insanus.org e descobriu-se depois que, aparentemente, o repórter participou de uma coletiva e disse ter feito uma entrevista exclusiva: http://www.insanus.org/.

Para Ana M. Brambilla, o noticiário produzido por sites como Ohmynews, CMI, Slashdot e Wikinews fazem parte da lógica da sociedade em rede descrita por Manuel Castells e pela cultura Open Source, que dissolve as fronteiras entre emissor e receptor no interagente. A autora vê com bons olhos este movimento:
"Se as notícias, assim como os softwares, eram exclusivamente produzidas e publicadas por uma empresa que as transforma em produtos comercializáveis, no jornalismo open source elas passam a ser produto de domínio público, tanto sua elaboração quanto sua fruição. Elaboradas a n mãos, as notícias, assim como os softwares, mostram o resultado de um trabalho em conjunto, não mais sujeito a uma hierarquia institucional, mas unicamente comprometido com o interesse pessoal de voluntários" (2004:12).

Ao final de sua releitura, Sonia Serra se pergunta se os meios interativos invalidam a noção de gatekeeping, ou se o dilúvio de informações no ciberespaço exige ainda mais o trabalho de seleção, interpretação e certificação de fontes (p.9). Estas questões infelizmente continuam em aberto, mas o certo é que os sites de jornalismo colaborativo que pretendem ter alguma influência e respeito entre os internautas têm criado seus próprios sistemas de seleção de informações, como forma de construir sua credibilidade. Visto que alguns setores sempre precisarão operar com o máximo de precisão informativa possível, como o empresarial, por exemplo, a credibilidade até agora conferida somente por uma equipe profissional continuará sendo o diferencial dos veículos tradicionais. Por outro lado, o jornalismo aberto e os blogs podem servir de contrapeso e fiscais dos erros e dos casos de má-fé da grande mídia, bem como fomentar a pluraridade. Para este fim, quanto menos "porteiros", melhor.

Bibliografia
BRAMBILLA, Ana Maria. A reconfiguração do jornalismo através do modelo open source. III Seminário Internacional Latino-americano de Pesquisa em Comunicação. ECA/USP. São Paulo, maio de 2005. Anais.
BREIER, Lucilene. Slashdot e os filtros no Open Source Journalism. Biblioteca Online

de Ciências da Comunicação, 2004. Disponível em: http://bocc.ubi.pt/pag/breierlucilene-slashdot.pdf. (Último acesso em 30/7/2005). HACKETT, Robert A. Declínio de um paradigma? A parcialidade e a objectividade nos Estudos dos Media Noticiosos. In: TRAQUINA, N. Jornalismo: questões, teorias e "estórias". Lisboa: Vega, 1993. MACHADO, Elias. La estructura de la noticia en las redes digitales: un estudio de las consecuencias de las metamorfosis tecnológicas en el periodismo. Universidad Autónoma de Barcelona. Facultad de ciencias de la comunicación. Barcelona: 2000. Tese de doutorado. 521 páginas.
MATTOSO, Guilherme de Q. Internet, jornalismo e weblogs: uma nova alternativa de

informação. Biblioteca Online de Ciências da Comunicação, 2003. Disponível em: http://bocc.ubi.pt/pag/mattoso-guilherme-webjornalismo.pdf. (Último acesso em 30/7/2005.) PALÁCIOS, Marcos; MIELNICZUK, Luciana; BARBOSA, Suzana; RIBAS, Beatriz; NARITA, Sandra. Um mapeamento nas características e tendências no jornalismo

online brasileiro e português. In: Intercom 2002 – XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2002, Salvador. Anais... Salvador. PRIMO, Alex. Enfoques e desfoques no estudo da interação mediada por computador. In: Intercom 2003 – XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2003, Belo Horizonte. Anais... Belo Horizonte. SERRA, Sonia. Relendo o "gatekeeper": notas sobre condicionantes no jornalismo. XII Compós, 2004. Disponível em: http://www.facom.ufba.br/Pos/gtjornalismo/home_2004.htm. (Último acesso em 10/7/2005.) TUCHMAN, Gaye. A objectividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objectividade dos jornalistas. In: TRAQUINA, N. Jornalismo: questões, teorias e "estórias". Lisboa: Vega, 1993. WHITE, David M. O gatekeeper: uma análise de caso na selecção de notícias. In: TRAQUINA, N. Jornalismo: questões, teorias e "estórias". Lisboa: Vega, 1993. WOLF, Mauro. Teorias das comunicações de massa. São Paulo: Martins Fontes, 2003.