Fundação Universidade Federal do Rio Grande Curso de Pós-Graduação Latu Sensu Rio Grande do Sul: sociedade, política

e cultura Disciplina: Seminário de História do Rio Grande do Sul Prof. Dr. Francisco das Neves Alves

A DÉCADA DE 1930 E ‘O CORTE TRANSVERSAL DA SOCIEDADE’

José Antonio Klaes Roig *

Introdução

A partir de 1930, justapondo os fatos históricos acontecidos no Rio Grande do Sul, Brasil e mundo, é possível observar-se dois marcos históricos, do ponto de vista político e literário, mais precisamente a Revolução de 1930 e o Romance de Trinta, respectivamente. É nesse momento que começam a se destacar duas figuras, hoje lendárias: Getúlio Vargas e Erico Veríssimo, cada qual em sua área, torna-se o símbolo de uma era. A Era Vargas e a Era Veríssimo, que surgem a contar da década de 1930, mas que têm suas origens no ano de 1922, por dois fatos históricos relevantes: o movimento tenentista, cristalizado na Revolta do Forte de Copacabana a 05 de julho de 1922, e a Semana de Arte Moderna de 1922, respectivamente. O entrecruzamento de história e literatura, influências e contrapontos.

* Bacharel em Direito, Pós-Graduado em História pela FURG.

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1. Caminhos entrecruzados
Dois homens com diferentes concepções de mundo, vindos de mundos diversos, com histórias de vida antagônicas, que, com personalidades díspares, influenciaram o seu Estado e o país. Se houvesse como apontar parentescos, ainda que fictícios, poderia-se, mal comparando, dizer que Erico Veríssimo, pelo seu espírito humanista, seu apego a região onde nasceu e a sua formação literária, era descendente de Ana Terra; enquanto que Getúlio Vargas, pelo espírito guerreiro, pelo carisma pessoal (sabendo utilizar-se da mídia da época) e a simpatia pelo militarismo, poderia ser um legítimo sucessor do Capitão Rodrigo Cambará. Os dois – o político e o escritor - mudaram a forma de pensar e escrever sobre o Brasil e o Rio Grande do Sul.
A Era Vargas é também a Era Erico. Getúlio Dornelles Vargas (1883-1954), após ter sido militar, promotor público, deputado e ministro da Fazenda, foi Presidente da província (como se chamava o posto hoje chamado de Governador) a partir de 1928, vindo a chefiar o golpe de Estado em 1930. Permaneceu no poder até 1945, passando por vários estágios (golpe militar, uma insurreição complexa em 32, depois um arranjo eleitoral em 34, depois o golpe que instaurou o autoritário Estado Novo); sai neste ano, depois retorna eleito em 1951, só saindo do poder pelo suicídio, em agosto de 54. (FISCHER, 2005).

Por conseguinte, a Era Erico foi influenciada pela história de seu tempo. Desassociar o fator político do literário nessa década, fica um tanto quanto improvável, pela própria característica dos atores e autores daquele momento relevante, em que as duas formas de interagir com a história e a literatura se entrecruzaram em discursos políticos como em narrativas histórico-literárias, justapondo-se por uns e contrapondo-se por outros. Grande parte da intelectualidade da década de Trinta, encarrilhou seu fazer histórico ao discurso historiográfico oficial, Veríssimo fora uma das poucas exceções, ainda que seu fazer literário não propusesse a revisão e tão-somente a indagação e prospecção intimista da chamada realidade circundante. A partir de 1949, ao publicar a primeira parte de sua trilogia O tempo e o vento, Veríssimo colocou a história oficial do Rio Grande como pano de fundo para contar a estória de uma família que é o reflexo da própria história da gente rio-grandense, em menores proporções.
Erico Veríssimo (1905-1975), que é de uma geração posterior ao líder político, começou a publicar livros em 1932 e assim continuou até os últimos anos de sua vida, tendo vivido intensamente o período. Como editor da Editora Globo, como representante do Brasil em organismos internacionais, especialmente como artista sensível de seu tempo. Sua primeira

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publicação foi um conto, em 1929, quando resolve dedicar-se ao mundo das letras, motivo que o leva a Porto Alegre, onde se emprega no mesmo ano em que Vargas sobe ao Rio e ao Poder. A data-chave do raciocínio, portanto, é mesmo o ano de 1930, divisor de águas e céus na vida sul-rio-grandense e brasileira. (FISCHER, 2005).

Duas figuras ilustres, contrapostas em sua visão de mundo, mas justapostas a um período de mudanças estruturais, que deixaram profundas marcas na sociedade brasileira e rio-grandense. O nacionalismo e populismo de um; o humanismo e a crítica social de outro. De São Borja e Cruz Alta para o mundo. Homens de origem interiorana, mas que souberam como poucos viver nas cosmopolitas aglomerações urbanas. Década de 1930 que iniciou o processo de drástica mudança do perfil do homem do campo e da cidade, com a modernização, a crescente industrialização, a alteração do espaço urbano, o isolamento interior do cidadão nas metrópoles, o início da migração do interior para os grandes centros urbanos, enfim, uma mudança estrutural e comportamental da sociedade. É inegável a participação de Vargas e Veríssimo à vida pública brasileira e gaúcha. O primeiro, a despeito de seu apego ao poder e da repressão que imprimiu aos opositores do seu regime, tem como mérito: a crescente industrialização e modernização do país; a criação da Justiça do Trabalho (1939) e Consolidação das Leis do Trabalho (CLT); a instituição do salário-mínimo - que em tese deveria ser a garantia mínima a ser paga ao trabalhador assalariado, e não, como se viu com o passar do tempo, o teto salarial da massa trabalhadora no país -; a fundação de várias estatais, que na atualidade, grande parte foi desmantelada ou privatizada, como a Companhia Siderúrgica Nacional (1940), a Companhia Vale do Rio Doce (1942), a Hidrelétrica do Vale do São Francisco (1945), e a Petrobrás. Esta última criada indiretamente a partir de campanha O petróleo é nosso, promovida pelo escritor Monteiro Lobato. 1 Por outro revés da História, Veríssimo, na literatura, trabalhando como editor e tradutor na Livraria do Globo, em Porto Alegre, moderniza o próprio meio editorial brasileiro, a partir de suas traduções de clássicos da literatura mundial, bem como de algumas destas traduções deixadas a cargo de Mario Quintana e outros autores iniciantes que, com o tempo, tornaram-se consagrados escritores, transformando uma provinciana editora sul-riograndense, em um dos maiores parques gráficos e editoriais do país e da América Latina. Um empreendedor, que convivendo com regimes de exceção, como o Estado Novo e a ditadura militar de 1964, soube de forma clara, outras de forma subliminar, através de sua obra, impor uma contundente crítica social e de costumes.
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Getúlio Vargas e a Era Vargas. [s/d]. Disponível em: http://www.suapesquisa.com/vargas/htm. Acessado em 08 ago. 2006.

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[...] de todos os romancistas deste período (anos 30), Erico Veríssimo foi, com certeza, o de maiores recursos técnicos, o de maior capacidade de renovação e aquele, afinal, a quem estava reservada a missão de revigorar o romance brasileiro, situando-o num plano universal e literário incomparável. (MARTINS apud FLORES DA CUNHA, 2005, p.78).

Monteiro Lobato já dizia que um país se faz com homens e livros. Getúlio Vargas, como poucos, soube arregimentar homens em torno de objetivos, muitas vezes contraditórios, e não apenas partidários políticos e ideológicos, mas também soube, como poucos, cooptar a simpatia de artistas, intelectuais e literatos. Por sua vez, Veríssimo, com simplicidade e maestria, deu vida a personagens, que simbolizam a essência da identidade de um povo, em livros dos mais variados gêneros, construindo uma trajetória literária e pessoal, sem vinculações partidárias, sem verborragia nem estilismos, mas com nítidas influências de autores estrangeiros, dentre eles Aldous Huxley, autor de o Contraponto, bem como os norte-americanos Catherine Mansfield e John dos Passos. Sua grande qualidade era a simplicidade com que tecia histórias e personagens, como faz com todo o cuidado a aranha, para que o leitor, como uma mosca, caia em sua teia sem perceber, pela veracidade de suas criações fictícias, inspiradas em fatos do cotidiano, que, conforme Dacanal apud Brauner (1982, p.13): Se não aconteceu, poderia ter acontecido no mundo real. Não há quebras de leis físicas e biológicas, não há intervenção de forças divinas ou diabólicas; apenas o cotidiano revisitado, descrito com riqueza de detalhes, mas não preciosismos narrativos desnecessários. Essa cumplicidade entre autor e leitor, é um dos méritos que o escritor cruz-altense soube estabelecer, como um bom contador de estórias, como se intitulava humildemente. Sem deixar de lembrar que ao traduzir autores estrangeiros para o vernáculo nacional, Veríssimo, num sentido inverso, de quando elaborava seus textos, traduzia para o papel a visão do homem desapegado às paixões de sua região, trazendo e imprimindo outras visões de mundo.
[...] esses dois homens representaram uma extraordinária modernização para o país, cada um em seu campo, e os dois bastante afastados no sentido das convicções políticas – Getúlio com sua vocação por assim dizer imperial, herança talvez da têmpera caudilha e da prática republicana gaúchas, Erico com sua convicção democrática, de feição urbana. (FISCHER, 2005).

A década de 1930, portanto, foi um divisor de águas para a política e literatura nacionais. E o corte transversal da sociedade 2, que a literatura proporcionou, pode ser
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Expressão cunhada por Flávio Loureiro Chaves ao referir-se à obra literária de Érico Veríssimo. In: O escritor e seu tempo. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2001, p. 81.

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estendido à política, com a ruptura de um modelo político-administrativo que ficou conhecido como República Velha; período este, a partir de então, reservado aos livros escolares e aos compêndios de História. Nesse período, mais do que em outros anteriores ou posteriores, nota-se o entrecruzamento da literatura com a historiografia, e vice-versa; ora aleatoriamente, ora propositadamente.

2. O Resto é silêncio... discursivo
Para historiografar esse corte transversal da sociedade, faz-se necessário, preliminarmente, inventariar os antecedentes históricos de um e outro movimento, que curiosamente tem sua gênese na década de 1920. Em 1922 ocorre a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, reunindo expoentes das mais variadas áreas das artes, destacando-se Oswald e Mario de Andrade, entre outros, que inauguram a primeira geração do Modernismo, que buscará o rompimento com o simbolismo na literatura e o parnasianismo na poesia, buscando uma identidade nacional a partir da própria linguagem elevando a sintaxe do cotidiano à linguagem literária.
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Tal

movimento terá continuidade, na geração pós anos 1930, que preocupar-se-á mais com questões estruturais, não apenas do ponto de vista criativo, mas também sociológico, ao tentar inventariar a migração do poder econômico e político do campo para as cidades, numa narrativa neo-realista. 4 Dessa nova visão de mundo e de concepção literária, surgirá o Romance de Trinta.
Herdeiro da revolução ideológica e estética deflagrada pelo Modernismo a partir de 1922, o chamado “romance de 30” empreendeu o reconhecimento do espaço social brasileiro por via da documentação, da incorporação de tipos característicos, da aceitação dos falares regionais e, não raro, da denúncia política – ingredientes que já compunham, de resto, a receita naturalista de Euclides da Cunha quando, em 1902, convulsionou o panorama cultural da nação com o estudo-panfleto de Os sertões. (CHAVES, 2001, p.13).

O ano de 1922 trouxe também ao país sensíveis mudanças, não apenas na arte e na literatura; na política ocorreu um movimento que a história batizou de tenentismo. De acordo com material da Fundação Getúlio Vargas, tratando de O legado de Getúlio Vargas: O movimento tenentista constitui-se numa das duas forças essenciais da Revolução de 30,

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Nota extraída a partir de comentário do Prof. Dr. Carlos Alexandre Baumgarten, na disciplina de História da Literatura do Rio Grande do Sul, da Especialização Rio Grande do Sul: sociedade, política e cultura. 4 Id., Ibid.

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juntamente com as oligarquias dissidentes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba.
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Tendo como líderes jovens oficiais do Exército, insurgidos contra o Governo Federal, o tenentismo teve seu ápice na chamada Revolta do Forte de Copacabana, em 5 de julho de 1922, fato que também é conhecido como Os Dezoito do Forte
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, pela resistência dos

tenentes e capitães, que mesmo cercados e bombardeados pelo Exército, resistiram até que dezesseis dos dezoito revoltosos acabaram mortos no confronto, ficando feridos os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes. 7 Exatos dois anos após tal incidente, novo levante, também em São Paulo, a favor da deposição do Presidente Arthur Bernardes que para os jovens militares encarnava os interesses oligárquicos. 8 Neste mesmo ano vários levantes de militares em quartéis no Rio Grande do Sul, acabam arregimentando mais de dois mil soldados, sob o comando do capitão Luis Carlos Prestes, que enfrentam as tropas governistas em maior número e melhor armadas e equipadas. Em abril do ano seguinte, duas colunas unem-se e atravessam o país com o objetivo de angariar o apoio da população à sua causa, contra a República Velha e os grandes latifundiários. Após percorrer quase vinte e quatro mil quilômetros por treze estados brasileiros em torno de dois anos, já em março de 1927, a chamada Coluna Prestes, dentro da estratégia de guerra em movimento – evitando o confronto quando estava em desvantagem, esperando pela solução política e contando com o desgaste do governo -, com seus remanescentes, exilou-se no Paraguai e na Bolívia. 9 Em 1929, ocorrera a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque (EUA), fato que levou ao colapso a economia norte-americana, tendo sensíveis reflexos no mundo inteiro, influenciando a política interna do Brasil e do Rio Grande do Sul, encaminhando a última crise da República Velha - calcada num modelo coronelista e clientelista, marcado pela aliança entre Minas Gerais e São Paulo, através da chamada política do café com leite -,
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O legado de Getúlio Vargas. Fundação Getúlio Vargas. [s/d]. Disponível no endereço: http://www.getulio50.org.br/textos/gv3.htm. Acessado em 08 ago. 2006. 6 Id., Ibid. Conforme o texto, eram dezessete militares e um civil que se juntou ao grupo, e que continuaram no local, mesmo quando no dia seguinte a sua tomada os demais militares depuseram as armas. 7 O legado de Getúlio Vargas. Fundação Getúlio Vargas. [s/d]. Disponível no endereço: http://www.getulio50.org.br/textos/gv3.htm. Acessado em 08 ago. 2006. 8 Id., Ibid. Conforme o texto, os tenentes atribuíam a esses interesses regionais o enfraquecimento do país mediante sua divisão, e ao fato de que nos estados prevaleciam apenas os interesses da oligarquia formada pelos grandes proprietários rurais.
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Ib., Ibid. Conforme assertiva do referido texto, sem autoria: A Coluna Prestes conquistou a simpatia da população das capitais que desejavam mudanças. Essa aspiração tornou-se nítida durante a campanha eleitoral de 1930 para a Presidência da República, quando milhares e milhares de pessoas compareceram aos comícios da Aliança Liberal. Prestes se tornara um líder reconhecido por seu talento militar e um político conhecido nacionalmente.

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em que o governo central do país era exercido por representantes dos dois estados brasileiros, num revezamento, que acaba rompido. O Presidente da República Washington Luis, ao apoiar a candidatura vencedora de Júlio Prestes (com suspeitas de fraudes de ambos os lados), um igualmente paulista, provoca o descontentamento de Minas (o maior colégio eleitoral do país), que se alia ao movimento revolucionário já em gestação, liderado por Getúlio Vargas, candidato da Aliança Liberal, e ex-Presidente do Rio Grande do Sul (terceiro maior colégio eleitoral). Nasce então o movimento armado para depor o Governo Federal, tendo na chefia do estado-maior deste não um dos tenentes, mas paradoxalmente - como só Gétulio Vargas conseguia bem articular seus apoiadores durante toda a sua vida pública -, o comando seria exercido pelo Tenente-Coronel Pedro Aurélio de Góis Monteiro; comandante de uma guarnição do Exército no Rio Grande do Sul, que teria combatido o tenentismo na década de 1920.
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Mesmo assim: A participação dos tenentes no movimento seria decisiva. A

chefia do movimento na região norte do país caberia a Juarez Távora. Outro importante líder tenentista, Siqueira Campos, seria o responsável pela direção do movimento na cidade de São Paulo. 11 Não se pode avaliar se a obra ficcional de Veríssimo influenciou a política brasileira da época, provavelmente não, em vista que seu maior sucesso O tempo e o vento teve a publicação do primeiro volume O Continente, em 1949. Mas incontestável é a influência da Revolução de 1930 e da figura de Getúlio Vargas na obra de Erico, que inclusive em Olhai os lírios do campo retrata esse momento histórico, como pano de fundo para o desenrolar da história fictícia. A História influencia a Literatura, mas nem sempre a recíproca é verdadeira, na mesma intensidade e em sentido oposto. Sabe-se que: A revolução de 1930 foi o ápice do ‘castilhismo’. Depois de quase 40 anos de espera, o projeto positivista implantado por Júlio de Castilhos no Rio Grande do Sul, somado às diferenças existentes entre as elites dominantes do poder central, chega ao poder central do Brasil. (CALIXTO, 2001, p.33). A Revolução de Trinta foi um movimento insurrecional contra as oligarquias rurais dominantes, levando ao poder Getúlio Dorneles Vargas – herdeiro político de Júlio de
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O legado de Getúlio Vargas. Fundação Getúlio Vargas. [s/d]. Disponível no endereço: http://www.getulio50.org.br/textos/gv3.htm. Acessado em 08 ago. 2006. Getúlio Vargas habilmente conseguira articular forças antagônicas em torno de seus interesses políticos, como forma de, quiçá, (sic) conseguir dessa forma que não se fortalecesse futuramente uma forte oposição contra si. Essa desfragmentação de forças, tanto a seu favor como contra, talvez, explique a sua longevidade na política brasileira (tanto como ditador como governante eleito por voto direto da população), carreira abruptamente interrompida por seu suicídio. 11 Id., Ibid.

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Castilhos e Borges de Medeiros – que, detendo o poder com mão de ferro (à imagem e semelhança de seus padrinhos políticos), necessita ao decorrer do tempo consolidar a imagem de um governo forte e democrático, ainda que centralizador, passando posteriormente, com o advento do Estado Novo (1937), a tornar-se um estado autoritário e repressor. Paralelo a esse cenário: As tensões entre os tenentes e as lideranças oligárquicas que apoiaram a Revolução de 30 foram muito intensas e marcaram a história brasileira entre 1930 e 1937, quando houve o golpe que implantou o Estado Novo. 12 Nessa época de fortes contrastes políticos, a literatura passa a ter papel destacado, como um dos mais importantes aliados da política vigente, na construção das identidades nacional e regional. Getúlio Vargas pode ter sido um precursor da utilização das mídias de sua época, em favor de seu discurso político e máquina de propaganda, muito similar as que estavam implantadas na Europa por regimes totalitários, como a Itália de Benito Mussolini e a Alemanha de Adolf Hitler, pelos quais, suspeita-se que o caudilho gaúcho nutria certa simpatia. E,
Para consolidação do Rio Grande do Sul como uma nova força política capacitada para administrar o país, fazia-se necessária a mudança de imagem dos habitantes deste Estado frente aos demais habitantes do país. Começa assim uma das mais fervorosas campanhas de consolidação da imagem do povo gaúcho como um povo que acima de qualquer suspeita, amava e respeitava o seu país. Colaboraram para a formação desta imagem a historiografia oficial e, principalmente a literatura. (CALIXTO, 2001, p.34).

Nesse momento histórico de delimitação de fronteiras ideológicas, também faz-se necessária a distinção entre o herdeiro do gaúcho brasileiro e farroupilha, defensor da brasilidade, frente ao gaúcho com influências platinas e separatistas. Começa então a travar-se uma batalha discursiva em torno do paradigma, do arquétipo do gaúcho ideal e idealizado, usando a figura do gaúcho típico da campanha sul-rio-grandense para servir suas façanhas de modelo a toda terra, como declara os versos do hino do Rio Grande do Sul. CHAVES (1994, p.55), em Matéria e Invenção, diz que Erico acaba [...] condicionando quase todo o andamento de O arquipélago, a crônica da Revolução de 30, estabelecendo já em nossos dias o ingresso do Rio Grande nas profundas transformações do Brasil contemporâneo. E que [...] o perfil do gaúcho emerge como um somatório desses acontecimentos e ainda aqui o texto literário mantém sua exatidão em referência aos fatos.
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O legado de Getúlio Vargas. Fundação Getúlio Vargas. [s/d]. Disponível no endereço: http://www.getulio50.org.br/textos/gv3.htm. Acessado em 08 ago. 2006.

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A Revolução de 1930 é o ápice do militarismo gaúcho, sempre presente na história sulrio-grandense, desde a sua origem, e naquele exato momento, sendo literalmente a locomotiva política das transformações que o país passa a sofrer, em vista de Vargas ter embarcado rumo a capital federal, justamente num trem. O militarismo sul-rio-grandense, sempre presente na história desde seu povoamento, teve também influência até um período histórico recente da história brasileira (1964/1985), através dos vários generais-presidente da República Federativa do Brasil, no período da ditadura militar; alguns deles nascidos no Rio Grande do Sul (Emilio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel); outros, naturais de outros estados, mas formados na Academia Militar, de Porto Alegre (João Batista de Oliveira Figueiredo), identificados com o modo de ser e a cultura gaúcha – que na maior parte de seu período histórico teve o poder do estado exercido de forma autoritária, centralizadora e militarizada. Paralelo, mas não simultâneo, ao momento histórico modernizante, promovido por Vargas, nasce o Romance de Trinta, e o mais interessante, segundo CHAVES (2001, p.17) é que [...] cronologicamente, Erico Veríssimo precede todos os romancistas de 30 que fizeram romance urbano no rastro da literatura de interesse social. [...]. Veríssimo foi também um homem, como Vargas, caminhando contra o vento e o seu tempo, à medida que romperam com padrões estabelecidos e institucionalizados. Veríssimo, como tradutor, traz ao público novos autores, e como autor, embora produzindo uma obra que seria rotulada a um determinado movimento literário, não estava umbilicalmente ligado a este, sendo, como todos os movimentos ideológicos, políticos e até mesmo literários acontecidos no Rio Grande do Sul, um escritor influenciado pela História e diferenciado em seu trabalho.
Nos manuais, Erico Verissimo é colocado dentro da gaveta chamada de Romance de 30. Mas, creio eu, um escritor que foi além da temática rural (ou regionalista) – principal característica do movimento – deva ser considerado como tal apenas para caráter de estudo, ou melhor, de ensino de literatura brasileira nas escolas e universidades, já que a sua amplitude temática transcende as muitas características encontradas nos mesmo manuais a respeito do Romance de 30. Quero acreditar que Erico só está ao lado de Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego – escritores tão diversos – pelo fato de ter publicado os seus primeiros livros ainda nesta década. Segundo José Hildebrando Dacanal, uma das principais marcas do Romance de 30 é a verossimilhança. (BRAUNER, 2005, p.23).

A partir do século XIX há uma preocupação maior da literatura com a história e a verossimilhança, ainda que a romantizando. Entretanto, na terceira década do século XX, a literatura renova-se, na análise de CHAVES (2001, p.43), pois: [...] todo o romance de 30 9

pode ser lido como um grande ensaio sobre o problema da propriedade no Brasil contemporâneo, documentando a passagem do poder das mãos duma elite rural para a burguesia que se formou lentamente, nas cidades, a partir de fins do século XIX. Poder esse que se consolida em novo modelo, a partir da Revolução de 1930. E mais precisamente a partir da década de 1950, com a evasão constante do homem do campo para as cidades, mudando o próprio perfil da população brasileira, cada vez mais urbana e menos rural, convivendo com uma realidade até então resumida às grandes cidades, que é entre outras: a impessoalidade, a aglomeração e a busca da modernização, e os problemas decorrentes dessas situações. Nessa nova perspectiva a literatura tem papel fundamental, pois, segundo CHAVES (2001, p.52): Por canalizar a observação da sociedade para uma temática própria, alcançando ordená-la numa estrutura literária, Erico Veríssimo renovou a ficção brasileira urbana deste século acima do regionalismo. A ruptura da ordem institucional, através da Revolução de 1930 encontra eco na ruptura do romance tradicional, na valorização das coisas de sua região, da busca pela identidade, da modernização e renovação em todos os sentidos (ecos da Semana de Arte Moderna de 1922). Passara-se a República Velha e o romantismo da Belle Époque. estético e político passam à ordem do dia.
O romance de 30 é conseqüência do início da época moderna brasileira, quando o setor industrial começava o seu desenvolvimento; porém, a maioria da população ainda vivia no campo e dependia dele para a sobrevivência. A prosa urbana de Erico Veríssimo estava ligada a esse período de transição – ele mesmo fora um imigrante e sabia que as grandes histórias ocorriam no cerne desta população, já que elas eram as personagens principais desse “expandir” brasileiro. Lembremos aqui de Taine e sua teoria determinista que se encaixa perfeitamente no caso de Erico Veríssimo: o homem é influenciado pelo meio e pelo momento histórico em que está inserido. (BRAUNER, 2005, p.26).
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E o modernismo

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A belle époque – ou bela época se traduzirmos do francês – começa por volta de 1870 e segue até o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Trata-se do começo e do fim de um “grande sonho”, como define o historiador Elias Thomé Saliba, autor do livro Raízes do Riso (Companhia das Letras, 2002), [...]. “A belle époque é, na verdade, o prenúncio de tudo de bom e ruim que haverá no século 20”, explica Saliba. “É uma expressão que revela o otimismo, mas também a ingenuidade que havia nessa época.” O otimismo podia ser sentido no ar, conseqüência dos incríveis avanços tecnológicos que tornaram o dia-a-dia muito mais fácil, como a chegada da luz elétrica e a revolução nos transportes – ou a substituição do lombo do burro pelo bonde e pelo automóvel. Algumas cidades passam a ganhar redes de esgoto, e o vaso sanitário torna-se a maior novidade que um banheiro, agora com luz acesa, poderia ter. Isso tudo sem contar os saltos na ciência e na saúde. “A ingenuidade era achar que aqueles benefícios trariam uma vida melhor a todos”, diz o historiador. [...]. Ao mesmo tempo que experimentava um conforto inédito, o mundo ainda lidava com um tecido de conflitos, que culminou na barbárie da Primeira Guerra (1914-1918). O sonho chegava ao fim. Disponível em: http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=217&Artigo_ID=3366&IDCategoria=36 52&reftype=2. Acessado em 21/08/2006.

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Erico Veríssimo, pois, utiliza os mitos, lendas, imagens e simbologias para descrever e construir seu fazer literário, atualizando esses mitos e lendas, a partir da humanização dos personagens, aliado ao discurso historiográfico vigente, que não é contraposto, mas apenas feita uma tentativa de desmistificação, pela adaptação da figura romanceada de então a uma visão mais realista da sociedade; eis aí uma das características do ‘corte transversal da sociedade’ que o autor de O tempo e o vento propõe ao leitor. Getúlio Vargas, por conseguinte, também utiliza-se da simbologia, da mitificação, do ufanismo e da exaltação, para impor seu modelo de administração centrada na figura do chefe de governo, apelidado de ‘pai dos pobres’, entre outras alcunhas. É um momento de afirmação e reafirmação de identidades. Veríssimo utiliza o imaginário coletivo em sua obra também, ainda que na tentativa de desmistificá-la.
No caso da Revolução de Trinta, a narrativa compromete-se com a representação das imagens estabelecidas e cristalizadas pela memória da Revolução, valorizadas a partir de uma perspectiva regional. A começar pelo título do segmento “O cavalo e o obelisco”, a trilogia opera sobre a imagem emblemática dos heróis gaúchos amarrando seus cavalos no obelisco do centro da cidade do Rio de Janeiro [...] A atualização dessa imagem já transparece como o lugar eleito e definitivo da vitória gaúcha, comandando então a leitura do romance no sentido de que a Revolução se fará vitoriosa. Descreve, portanto, um acontecimento futuro e deixa entrever uma espécie de fatalidade a comandar sua realização. (MACHADO, 2005, p.97).

Veríssimo não tem a pretensão de com seu livro propor um contraponto à história oficial, mas seu objetivo é analisá-la à luz do humanismo, longe das paixões políticas e ideológicas que construíram essa identidade forjada em lutas e guerras, em disputas e refregas, em discursos e retóricas político-partidárias; mas, acima de tudo, busca marcar seu texto pela denúncia do autoritarismo do passado, ainda com suas raízes fincadas no presente. Sua construção literária propõe uma narrativa circular, dando vazão às estórias dentro da História.
[...] a História do Rio Grande não se lê ali diretamente – como a lemos num manual escolar – senão que a captamos dada indiretamente como intra-história nas entrelinhas da ‘estória’ da família Terra- Cambará. [...] Erico Veríssimo utilizou-se da técnica de redução das grandes estruturas às dimensões mais facilmente manejáveis de um modelo constituído em escala diminuta. Desse modo ele concentrou o tempo social e o espaço social de um Estado ao tempo e ao espaço doméstico de uma só família. (LÓPEZ e CANIZAL apud CHAVES, 2001, p.93).

Seria essa redução a essência do corte transversal da sociedade? A análise do todo a partir do individual? E da repetição da estrutura familiar autoritária da época dos caudilhos, ampliada nos regimes autoritários de então, em que o homem era responsável pelo destino político de sua cidade, província e país, e à mulher eram destinados os afazeres domésticos

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e a criação dos filhos? A família e o sobrado como uma metáfora dos políticos e do Estado?
Afinal, O tempo e o vento não poderia ter nascido como nasceu – uma obra mestra da ficção brasileira contemporânea – se a ideologia humanista de Erico Veríssimo não houvesse chegado, com O resto é silêncio e a definição de Tônio Santiago, ao ponto em que chegou. O que é o romance de 1949 senão a história do homem vista através da história do Rio Grande, e a história do Rio Grande vista através da história de uma família, cuja união é, aí, sinônimo de permanência da vida e cuja corrupção decreta a falência da totalidade dos valores, só restando então ao último descendente da estirpe empreender a sua recuperação através da escritura de um... romance? (CHAVES, 2001, p.78).

Contrapondo-se a essa idéia HOLANDA apud LEENHARDT (2000, p.13) pensa que O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo. Não existe entre o círculo familiar e o Estado uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição. Um contraponto, uma opinião diversa. Mas, observando-se, através da pesquisa de época, o estado patriarcal muito similar à vida cotidiana do gaúcho; a inexistência da participação da mulher - seja na representatividade eleitoral como social, advinda somente a partir da Revolução de 1930, e o voto feminino em 1932 -; o centralismo na figura do pai, de toda a vida familiar, desde a decisão de com quem a filha deveria casar até as atividades mais variadas, e outros costumes bastante autoritários, dentro de seu contexto histórico e social, não é de todo descartado ‘o corte transversal da sociedade’ proposto por Veríssimo, centrando-o, no caso de O tempo e o vento, na moradia dos Terra-Cambará, o Sobrado, embora, mais adiante, o próprio autor não confirme, em suas memórias, essa visão. Ainda assim, o que o autor propõe ao leitor - e, efetivamente consegue, graças a sua narrativa realista – é a justaposição entre o tempo e o espaço, através de idas e vindas (flashbacks) entre o presente e o passado do Rio Grande do Sul. Uma narrativa centrada nas personagens femininas, ligadas à casa, à terra contrapostas às personagens masculinas em constantes disputas políticas, revoluções e guerras.
[...] a ficção de Erico Veríssimo se faz engajada não só porque formula a crítica social e a reflexão histórica, mas principalmente porque – na personalidade de Floriano Cambará – o escritor se situa no núcleo da ação narrada para trazer ao debate a própria finalidade do seu texto, sob o confronto entre o passado e o presente. (CHAVES, 2001, p.162).

O que é a busca pela identidade, senão a unidade de um povo de determinada região em torno de seus mitos fundadores? Verissimo faz esse fio condutor pelo O continente, O 12

retrato e O arquipélago, numa sucessão de fatos e personagens que sintetizam o modus vivendi de sua gente. A ficção torna-se realista pela inclusão de fatos históricos, como linhas-mestras; e a realidade torna-se romanceada pelo discurso de entidades culturais e literárias que, vinculadas à retórica getulista, nacionalista, populista e centralizadora, tentam unificar os discursos político e literário em torno de uma unidade gaúcha e brasileira, de característica lusitana, relegando as influências da matriz platina e o separatismo dos antepassados. A literatura passa a fazer história, ainda que fictícia, quando a história oficial silencia sobre certos fatos, devido ao pragmatismo ou partidarismo de quem escreve a própria história, preferindo romancear os fatos.
[...] O real e o imaginário são os termos complementares duma só equação; o indivíduo se faz participante do arquipélago ainda quando impugna as leis que regem a sua engrenagem; o narrador é a personagem da sua própria narrativa, vinculando indissoluvelmente o mundo real e o mundo imaginário. Embora mantendo a noção de que “contar a história” é uma tentativa de abrangência e reintegração da unidade perdida [...] (CHAVES, 2001, p.165).

Considerações finais
Portanto, os homens são frutos de seu meio. O Contraponto de Aldous Huxley inspirou o Caminhos Cruzados de Veríssimo, que influenciou toda uma geração pós anos 1930. E o qual é contraponto entre o escritor que faz ficção e o historiador que pretende falar sobre história? O que é o contraponto? Refere-se, na música, a Arte de compor música para dois ou mais instrumentos ou vozes. E tanto em Caminhos Cruzados, como em O tempo e o vento, Erico Veríssimo deu voz e ofereceu releituras de variados pontos de vista, mesclando os mitos (como a Salamanca do Jarau, de Simões Lopes Neto) à realidade que o circundou, atravésda personagem Luzia, em O continente. Mas o contraponto fica mais evidente a partir da personagem Floriano Cambará, em O arquipélago, terceira parte de O tempo e o vento.
[...] o personagem/narrador Floriano Cambará/Erico Verissimo pretende apenas contar uma história. No entanto, decorrente da elaboração de uma ética literária, este ato de “contar a história” expressa o conceito da narrativa realista: visa a problematizar o real em todos os níveis, do social ao individual, do histórico ao mítico. (CHAVES, 2001, p.164).

Assim como Vargas foi uma esfinge de seu tempo, personagem histórico e real, de multifacetas e personalidade indecifrável por seus mais variados atos, de ditador a presidente eleito, sendo conduzido novamente ao poder ‘pelos braços do povo’; Veríssimo 13

também foi um escritor diferenciado, num período caracterizado por escritores atrelados a ideologias políticas, em sua maior parte de tendências marxistas.
Personalidade multifacetada, escritor, tradutor contador de histórias, repórter, diplomata, o ‘Senhor Embaixador das Letras’ não pode ser avaliado, como boa parte de crítica ainda faz, sob o rótulo de escritor regionalista – isso seria reduzir a diversidade de sua produção literária. Embora tenha conferido um caráter fundacional à literatura do Rio Grande do Sul, ajudando a ‘inventar’ a alma gaúcha, Erico sabia que era preciso muito mais do que descrever arrabaldes e estâncias, ou recuperar lendas e legendas revolucionárias, para definir a identidade de sua gente. 14

Veríssimo contribui para a idealização do arquétipo do gaúcho, a partir da busca pela valorização do gaúcho típico, inspirado em suas memórias de infância e pela imagem e lembrança dos familiares que lhe serviram, em sua maioria, de molde para personagens fictícias de O tempo e o vento, conforme suas declarações em sua autobiografia Solo de Clarineta. É inegável o fato de história e literatura viverem intimamente ligadas no Rio Grande do Sul, pois os primeiros escritores com status de historiador, eram de fato escritores e poetas, advogados e médicos, militares e engenheiros, politicamente comprometidos com o status quo da época, anos 1920 e 1930, quando ainda inexistia ensino acadêmico na área de História.
À semelhança do que ocorre com relação a outras literaturas da América Latina, a literatura sul-rio-grandense desenvolveu-se à sombra da história. Na literatura gaúcha o vínculo com a história sempre existiu, já afirma Guilhermino César, em sua História da Literatura do Rio Grande do Sul, enfatizando o que registrara João Pinto da Silva em 1924, ambos repetidos por historiadores e críticos ao longo do tempo. Assim, a absorção da série histórica na literatura irá prolongar-se para além das tendências iniciais, românticas e realistas. Sob esses aspectos, o conjunto de narrativas descrito, no modernismo, como o “romance de 30” é exemplar: e nele, a trilogia O tempo e o vento (1941-61), de Erico Veríssimo, além de pontuar momentos primordiais da formação da identidade gaúcha, os inventa, conferindo à história da região um caráter fundacional. (MASINA, 2005, p.41).

O imaginário local e o universal digladiam-se em discursos literários e políticos. O mito atua como o rejunte da identidade nacional e regional. E o mais incrível, dentro da obra ficcional de Erico Veríssimo, que se propõe a inventariar duzentos anos de história do Rio Grande do Sul, a partir de 1745, é justamente o fato de que se encerra em 1945, quando Getúlio Vargas é deposto, encerrando-se um ciclo político, com o final da II Guerra Mundial. O final do romance histórico produzido por Veríssimo é ao mesmo tempo um retorno às origens, um recomeço. Fato esse que somente a literatura, que não é linear, pode fazer, enquanto que a história, vista sob a forma cronológica do desencadear das causas e
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Nota de apresentação BETTIOL, Maria Regina Barcelos; FLORES DA CUNHA; Patrícia Lessa; RODRIGUES, Sara Viola; HOHFELDT, Antonio [et al.] (Orgs.). Erico Veríssimo: muito além do tempo e o vento. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2005.

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conseqüências não permite discutir, senão amparada em fontes documentais e registros históricos variados, armazenados com o passar do tempo.
Erico narra uma história de clã, os Terra-Cambará, que inicia com a vinda dos tropeiros de Sorocaba, no rastro dos bandeirantes, e se encerra em 1945, quando Floriano Cambará passa a escrever a história do Sobrado. Essa circularidade formal, que confunde autor e personagem no processo de registro e de invenção, torna visível um dos fortes componentes narrativos da obra de Erico: o elemento mítico. (MASINA, 2005, p.41).

A maioria dos historiadores que elaboraram o discurso historiográfico oficial, que ainda perdura n’O tempo e o vento, eram homens de seu tempo, impregnados dos valores e conceitos de sua época. Assim como eram Getúlio Vargas e Erico Veríssimo, embora antagonistas. Porém, segundo Neuberger (2005, p.125) [...] Temos que convir que não há um grande escritor antes de um grande leitor. Da mesma forma não podemos depositar sobre um único homem toda a vivacidade e engenhosidade de manter-se por tanto tempo no poder, de forma autoritária como democrática, da forma como Vargas o fez, senão por sua vivência, experiência de vida e acurada observação dos macetes, cacoetes e articulações dos homens de seu tempo, dos governantes com quem o jovem Getúlio conviveu e que lhe serviram de arquétipo, quando de sua chegada ao poder central do Brasil; no caso em tela, Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, duas raposas da política sul-rio-grandense.
Homem de seu tempo, Erico Veríssimo narra o processo de formação de uma identidade social e política, filtrada pela ótica das personagens, deixando ler a forte vinculação com as fronteiras platinas e com o poder representado, na primeira metade do século, pelo governo centralizado no Rio de Janeiro. (MASINA, 2005, p.42).

Veríssimo busca o contraponto em sua obra máxima, analisando a história do Rio Grande do Sul, desde os tropeiros paulistas até a ascensão e queda de Vargas, escrevendo sob um ponto de vista que a historiografia oficial preferiu silenciar. Entre Caminhos Cruzados (1935) e O resto é silêncio (1943) passam-se quase dez anos, em que o escritor continua a fazer literatura tendo como pano de fundo a história de sua terra e seu país, contrapondo-as.
[...] Erico une as pontas do romance, intercalando momentos de grande tensão dramática, que promanam da fonte e convergem ao sobrado e suas circunstâncias, com vistas a definir uma identidade construída no diálogo com a cultura do índio, do negro, do português e do espanhol. Para isso, o escritor escolhe alguns marcos históricos referenciais, momentos em que a tensão é dominante e capaz de produzir e legitimar a cosmovisão de um mundo particular. (MASINA, 2005, p.43).

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Lea Masina, confirma a idéia de que Erico apenas “espelhou-se” no discurso historiográfico oficial, e não retratou a visão divergente, contestatória ou inovadora sobre a história sul-rio-grandense, até pelo fato de ter vários dos historiadores, ditos ‘oficiais’ ou engajados entre seu círculo de amizades (Alcides Maya, Augusto Meyer, Moysés Vellinho etc). A contribuição de Erico será inovadora ao Romance de 30, e à literatura em geral...
Assim, podem-se ler, em O continente, a trajetória do clã do sobrado, com digressões exóticas, pontuadas por lendas de índios, fatos heróicos, dados históricos, cercos, guerras, tramas políticas e a recuperação de usos, de costumes e dos modos de produção de uma comunidade agrária que surge, desenvolve-se e desemboca na modernidade do século XX. O leitor sul-riograndense, no entanto, que já possui referenciais da história e dos costumes locais, tende a sentir-se amparado e justificado pelo texto que espelha uma gama de sentimentos difusos e familiares, com os quais convive desde sempre. (MASINA, 2005, p.43).

O grande mérito de Veríssimo é dar voz e vez aos dois lados das eternas disputas políticas, enquanto a historiografia oficial tomou partido de um lado apenas. Ao relativizar e não mistificar fatos históricos consolidados, Erico contribui com o debate sobre a quem serve o discurso político e o próprio papel do escritor/narrador de seu tempo.
[...] o conflito entre republicanos e federalistas, porém, é narrado na dupla perspectiva dos contendores. Antecipando a consciência de que o relato histórico é também discurso, Erico escreve a história de vidas privadas que se coletivizam à medida que o romance avança, sem grandes feitos e com raros heróis. (MASINA, 2005, p.44).

Veríssimo, um escritor com total domínio da técnica narrativa. Vargas, um político com total domínio da arte de fazer política, num tempo de reconstrução e rupturas com o passado, mas paradoxalmente utilizando-se de apoio político e militar de oligarquias que ajudou a combater e de onde se originou. O maniqueísmo na política é fato recorrente, utilizado por quem detém o poder, e a história está aí para comprovar. Já na literatura, maniqueísmos não prosperam, pois a obra de arte que se pretende transcender ao tempo e ao espaço não pode restringir-se a analisar a luta entre o bem e o mal, visto que não existem sujeitos históricos de todo maldosos como de todo bondosos. O próprio exercício do poder pressupõe a busca da correlação de forças para poder-se governar. Alianças com ex-adversários, antes de ecos do passado, são a receita imutável da governabilidade, enquanto a política for a representação espelhada da própria sociedade.
[...] Perceber essa humanidade e mobilizar o texto, deslocando o foco narrativo para diferentes espaços e personagens, permitiu a Erico Veríssimo sobrepor o literário ao histórico. Pois a literatura, pela mobilidade do foco, permite ao leitor ver outros ângulos e construir uma visão própria do que é narrado, o que inviabiliza qualquer forma de maniqueísmo. (MASINA, 2005, p.45).

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A realidade circundante e o diálogo constante entre a literatura e a história. A História é um processo contínuo, aberto, linear e infinito. Entretanto, a literatura é compartimentizada por capítulo, seqüências: início, meio e fim. Veríssimo propõe que no fim encontra-se o início, e assim sucessivamente... Um ciclo dentro de outro. Em que, dependendo do ponto de vista, podemos ora ser o autor, ora a personagem da própria existência.
[...] Erico sabe que numa cultura sem heróis, como a dos primórdios do Rio Grande do Sul, a honra é uma reminiscência de conflitos medievais, sangrentos e sempre monopolizados pelas classes dominantes. No episódio do assassinato de Pedro Missioneiro, a honra está ligada ao poder do pai cruel, que dispõe da vida do índio como de qualquer outro ser vivente. Quando Maneco Terra vinga a desonra da filha, segue o que dispunha há séculos a tradição européia, herdada dos ibéricos, que via a honra como atributo dos poderosos. (MASINA, 2005, p.50).

Discurso historiográfico versus fazer literário. Os primeiros historiadores, por serem poetas e escritores, sem base acadêmica para a historiografia, utilizaram as facetas do romance para escrever a história. Ainda mais numa época de culto ao mito, e valorização da identidade sul-rio-grandense. A Revolução de 1930, embora proponha-se em discurso a ser libertária acaba tornandose centralizadora, tendo Vargas como seu timoneiro, que é apeado do poder em meados da década de 1940, quando o vento da Liberdade dá seus costados abaixo da linha do Equador. Já o Romance de Trinta traz o discurso modernizante e a busca pela crítica social e de costumes, sendo a contraposição ao discurso político e histórico de louvação a quem está no poder. Como bem definiu Luis Augusto Fischer: A Era Vargas é também a Era Erico.
Do ponto de vista temático, talvez o cotejo mais produtivo entre a obra de Aldous Huxley e a de Erico Veríssimo resida no fato de que ambos, notadamente, se preocuparam com a relação arte e realidade, ou seja, a efetiva função do intelectual dentro da comunidade a que pertence primariamente como indivíduo. (FLORES DA CUNHA, 2005, p.79).

Erico Veríssimo, um tradutor de Huxley e um exímio tradutor de seu tempo. Getúlio Vargas um político que usou o discurso político e literário em seu favor e de seu governo, que trazido pelos ventos da modernidade, que inclusive propõe o resgate da identidade, acaba deposto (1945) pelos ventos da liberdade. Cada qual, com seu discurso obteve ainda em vida um profundo e contundente corte transversal da sociedade, a partir da década de 1930.

Referências bibliográficas
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BETTIOL, Maria Regina Barcelos; FLORES DA CUNHA, Patrícia Lessa; RODRIGUES, Sala Viola; HOHFELDT, Antonio... [et al.] (Orgs.). Erico Veríssimo: muito além do tempo e o vento. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2005. BRAUNER, Eugenio. Erico Veríssimo e o romance de 30. In: Erico Verissimo: muito além do tempo e o vento. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2005. CALIXTO, Marcelo Lima. Literatura e Guerra Civil de 1893. In: História & Literatura no Rio Grande do Sul. Rio Grande: Fundação Universidade Federal do Rio Grande, 2001. CHAVES, Flávio Loureiro Chaves. Matéria e invenção: Ensaios de literatura. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1994. . O escritor e seu tempo. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2001. FISCHER, Luís Augusto. A era Erico. Porto Alegre. 12 jun. 2006. Disponível em: http://www.estado.rs.gov.br/erico/index2.php?view=art&cod=60. Acesso em 12 jun. 2006. FLORES DA CUNHA, Patrícia Lessa. Erico Veríssimo: leitor, tradutor e contador de histórias em O tempo e o vento. In: Erico Verissimo: muito além do tempo e o vento. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2005. LEENHARDT, Jacques. O retrato de Rodrigo Cambará. In: Leituras cruzadas: diálogos da história com a literatura. Organizado por Sandra Jatahy Pesavento – Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2000. MACHADO, Ronaldo. 1930: o fardo da história em O tempo e o vento. In: Erico Verissimo: muito além do tempo e o vento. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2005. MASINA, Lea. A fonte e o sobrado: relendo Erico Veríssimo. In: Erico Verissimo: muito além do tempo e o vento. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2005. NEUBERGER, Lotário. A intertextualidade em Erico, o narrador. In: Erico e seu tempo. Moretto; Fúlvia M. L. (org.). Porto Alegre: Ed. Plátano, 2005.

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