Fascículo 04 Fernanda Zuquim Guilherme De Benedictis

Geografia

Índice
Brasil: A Modernização do Espaço Agrário e a Questão Fundiária Resumo Teórico ..................................................................................................................................1 Exercícios............................................................................................................................................4 Gabarito.............................................................................................................................................6

Brasil: A Modernização do Espaço Agrário e a Questão Fundiária
Resumo Teórico
As atividades agrárias brasileiras apresentam importância histórica e estão relacionadas com um setor capaz de produzir um notável volume de riquezas, o setor dos agronegócios, que inclui a agroindústria, as indústrias de máquinas e fertilizantes, a pesquisa em biotecnologia, o comércio de sementes, as exposições agropecuárias, os rodeios e a prestação de serviços rurais.

A Modernização da Agricultura Brasileira
Na década de 1950 observou-se a aceleração industrial e a modernização da economia brasileira como um todo, o que também influenciou as atividades agrárias. A partir de 1964 destacou-se a constituição do novo complexo agroindustrial nacional, caracterizado pela integração da agricultura com a indústria. À agricultura coube o papel de fornecer alimentos para os grandes centros urbanos em formação, produzir matérias-primas industriais e mercadorias destinadas à exportação. Ao setor industrial coube a produção do maquinário agrícola, dos adubos e dos fertilizantes necessários para uma produção em grande escala. A modernização levou à subordinação do setor agrário, aos interesses urbanos e ao endividamento do pequeno produtor, pois o aumento crescente da produção resultou em preços cada vez menores para os produtos agrícolas, enquanto os insumos industrializados tornaram-se cada vez mais caros. A política agrícola pós-64 também privilegiou a grande produção, beneficiada por amplos subsídios, como os financiamentos facilitados, juros especiais para os produtos de exportação ou de interesse governamental ( lembrar do Pro-Álcool, de 1975 ) e as facilidades para a aquisição de terras em regiões de fronteira, como a Amazônia. Os pequenos produtores de alimentos, que não foram beneficiados pelos subsídios citados, tiveram dificuldades em integrar-se ao novo sistema, enfrentando o endividamento e a perda da terra. Como principais conseqüências da modernização do espaço agrário, deve-se mencionar: • O êxodo rural: a população rural brasileira passou de 50%, em 1964, para 22%, em 1999; • O aprofundamento da concentração fundiária; • A expansão da grande produção empresarial; • O benefício governamental aos setores exportadores e produtores de matérias-primas; • O declínio da produção de alimentos na década de 1980, o que resultou no aumento do custo de vida. É importante assinalar que esse declínio foi revertido nos anos 90, quando a grande produção empresarial também assumiu o abastecimento do mercado interno.

A Questão Fundiária
O Brasil é um país onde a concentração de terras é histórica, iniciada com o sistema colonial de capitanias hereditárias e com a concessão de sesmarias, que tinham como função a produção de gêneros agrícolas comercializáveis e render tributos para a coroa portuguesa. Esse modelo concentrador leva grande parcela da população a enfrentar a pobreza e coloca o Brasil entre os 6 países mais injustos do mundo, se considerada a distribuição de renda, na atualidade.

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A Constituição de 1988 e a Lei Agrária de 1993 A redemocratização política brasileira, nos anos 80, coincidiu com o aumento dos conflitos fundiários e da violência no campo, colocando novamente a questão da reforma agrária para a sociedade brasileira e levando o problema para a Assembléia Nacional Constituinte, que definiu novos princípios para solucionar a questão fundiária. A Lei Agrária de 1993 foi elaborada com o objetivo de especificar e sistematizar aquilo que foi estabelecido pela Constituição de 1988, no que tange à questão agrária. Essa lei reafirma o princípio da função social da terra e introduz o conceito de Módulo Fiscal ( M. F. ), que corresponde ao módulo rural médio por município. Essa unidade de medida varia de tamanho segundo a região: o menor módulo fiscal do país apresenta 5 hectares e o maior chega a 110 hectares. Para efeito de classificação da propriedade rural, ficam definidos os seguintes conceitos : • Minifúndio: propriedade rural menor que o módulo fiscal; • Pequena propriedade: área entre 1 e 4 módulos fiscais. • Média propriedade: área entre 4 e 15 módulos fiscais • Grande propriedade: área superior a 15 módulos fiscais. O Banco da Terra O Banco da Terra foi criado em 1999 e corresponde a uma nova instituição governamental, subordinada ao Ministério da Reforma Agrária, com o objetivo de realizar a reforma agrária segundo os mecanismos do mercado e viabilizar a pequena produção. Esse banco financia, em condições favoráveis, o pequeno agricultor sem terra para a compra de uma pequena propriedade e a introdução da infra-estrutura necessária ao início da produção.

O MST
Os anos 80 caracterizaram-se pela abertura política, pela redemocratização do país e pela retomada dos conflitos sociais no campo. Na Amazônia, os conflitos envolvendo posseiros, grileiros e índios transformavam a violência no campo num problema de extrema gravidade. Foi nessa época que surgiu o Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra ( MST ), que se utiliza da estratégia da ocupação e criação de assentamentos em áreas teoricamente improdutivas, a fim de forçar as autoridades governamentais a promover as desapropriações previstas no Estatuto da Terra – a legislação de 1964 – e na Lei Agrária de 1993. Constituído em 1978, no sul do país, esse movimento tornou-se nacional em 1984 e, desde então, tem contado com o apoio de setores da Igreja Católica ( Comissão Pastoral da Terra e Comunidades Eclesiais de Base ), partidos políticos, sindicatos, ONGs nacionais e estrangeiras. Nos anos 90 o MST tornou-se o principal movimento de luta política e social do país, sendo o principal interlocutor do Estado na condução da reforma agrária e, por outro lado, muito questionado por importantes setores do governo e da sociedade. Observe no quadro abaixo a evolução do assentamento de famílias de agricultores, a partir da redemocratização do país. O quadro demonstra que apesar das críticas ao MST e ao governo atual, houve conquistas, quanto à redistribuição de terras, na partir de 1980.

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Assentamentos de Reforma Agrária ( 1980 a 1995 ) Região Centro Oeste Nordeste Sudeste Sul Norte Total Número de Assentamentos 119 425 117 281 181 1.125 Número de Famílias 18.646 40.600 10.453 15.307 54.217 139.223 Área (hectares/hab.) 956.562 1.965.835 242.910 293.159 3.811.205 7.269.671

Fonte: MST e Ministério da Reforma Agrária

Apesar desse avanço recente no processo de Reforma Agrária, a maior parcela das famílias assentadas ainda compõe o grupo da população mais pobre do país. Nesses assentamentos é desenvolvida uma agricultura de baixa produtividade, carente de recursos técnicos e financeiros, o que denuncia a inadequação da política agrícola e as dificuldades do pequeno produtor em participar do grande mercado da produção agrícola, que é muito competitivo.

As Terras de Negros
O termo acima remete às comunidades remanescentes dos antigos quilombos existentes em todo o território latino-americano, principalmente no Brasil. Essas terras também são conhecidas como Comunidades Negras Rurais, Quilombos Contemporâneos, Terras de Preto e Comunidades Quilombola. Nas Terras de Negros a população ainda mantém as antigas tradições africanas, as línguas e dialetos, os princípios de relação comunitária e de uso coletivo da terra, a medicina, a religião, a culinária, o artesanato e as práticas arquitetônicas. A economia é baseada na agricultura de subsistência e na criação de animais. Essas comunidades estão em sítio geográfico estratégico, localizadas em áreas de topografia acidentada ou em vales florestados e férteis, junto à áreas elevadas que, no passado, possibilitaram a vigilância e a defesa do lugar. O Brasil atual possui cerca de 903 comunidades quilombola, distribuídas pelas 5 macro-regiões: • Nordeste: 511 ( 250 na Bahia e 163 no Maranhão ) • Norte: 212 ( 196 no Pará ) • Sudeste: 88 • Centro Oeste: 17 • Sul: 15 A Constituição de 1988 reconhece aos remanescentes dos antigos quilombos o direito à propriedade definitiva das terras que ocupam e ao Estado cabe a emissão da documentação legal. Mesmo assim, até o final de 1999, apenas 26 comunidades quilombolas tinham sido reconhecidas e regularizadas. Esses quilombos contemporâneos correspondem a um patrimônio cultural muito rico e suas populações enfrentam problemas como o descaso da sociedade brasileira, a pobreza, a invasão da terra e a violência rural.

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As Terras Indígenas
O Brasil possui 350 mil índios, vivendo em 561 áreas diferentes, que ocupam 11,34% do território nacional e estão concentradas, principalmente, na Amazônia. Os povos indígenas do Brasil enfrentam a invasão de suas terras por madeireiros, grileiros, fazendeiros, garimpeiros e posseiros. Ao problema das invasões soma-se a contaminação dos recursos naturais e a violência praticada contra os índios nos momentos de conflitos fundiários. O Estatuto do Índio, de 1973, previu a demarcação e a regularização de todas as terras indígenas do país até o ano de 1978, num momento em que a ocupação da Amazônia foi intensificada. O que esse estatuto previa não foi efetivado e os índios da região foram transformados no elo mais frágil desse processo, sujeitos a um novo ciclo de violência e morte. A Constituição de 1988 reconheceu novamente o direito dos índios às terras que ocupam mas estas pertencem à União, que tem o dever de garantir-lhes o seu usufruto, e previu um prazo de 5 anos para a demarcação. Desde então, houve avanços significativos e em 1999 já existiam 352 áreas indígenas demarcadas e regularizadas. Mesmo assim, o processo ainda não foi finalizado e existem muitas áreas à espera de demarcação e regularização. Isso torna as suas populações ainda mais expostas à violência por parte daqueles que contestam as demarcações na justiça e ainda estão empenhados em fazer riqueza apropriando-se das terras indígenas.

Exercícios
01.(PUC/RJ-98) A expansão do cultivo de soja no Brasil pode ser avaliada por meio da análise dos seguintes dados: Brasil (área de lavoura) 1950 - 19 000 000 ha 1990 - 55 000 000 ha Soja (área cultivada) 1950 - 100 000 ha 1990 - 12 000 000 ha

Sobre a expansão da soja assinale a alternativa incorreta: a. a expansão do cultivo da soja, no sul do país, se fez em prejuízo das pequenas propriedades. b. a expansão da soja se fez em detrimento de áreas produtoras de arroz, feijão, mandioca – produtos importantes para a alimentação básica da população brasileira. c. o cultivo de soja ocupou importantes áreas da fronteira agrícola, com relações de trabalho assalariadas e objetivando atender ao mercado consumidor externo. d. a expansão da soja criou condições de preservação ambiental ao alternar suas áreas de cultivo com áreas do cerrado e florestas tropicais úmidas, além de impedir a prática da queimada. e. o cultivo de soja criou, nas áreas centrais do país, um complexo produtivo que envolve desde o uso de máquinas e insumos agrícolas até a criação de vias mais eficientes de transporte. 02. (UNIFOR-97) Sobre a questão agrária brasileira, é correto afirmar: a. os grandes proprietários monopolizam a maioria das propriedades rurais, estando todas elas exploradas de forma intensiva; b. os conflitos pela terra no Brasil estão relacionados com o processo da concentração fundiária; c. os pequenos proprietários de terras agrícolas possuem áreas suficientes para permitir vida decente e boa alimentação a suas famílias;

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d. com a expansão do capitalismo no campo, os grandes proprietários passaram a investir na agricultura para o mercado interno; e. as transformações que vêm ocorrendo nas relações de trabalho no campo brasileiro estão relacionadas com os processos de divisão de terra para a reforma agrária. 03. (FGV-95) Uma parte cada vez mais extensa do espaço agrário brasileiro vem passando por um processo de capitalização da produção de máquinas, motores e vários outros elementos destinados a racionalizar a produção. Assim evidenciam-se áreas agrícolas “ricas” ao lado de áreas “pobres” que se refletem na produtividade e, sobretudo, na população que exerce atividades rurais. Assinale a alternativa que está diretamente contida no texto. a. as máquinas destroem a camada mais superficial da terra, o que provoca erosão e lixiviação do solo agrícola. b. o empobrecimento de parte dos agricultores não afeta a sociedade como um todo, fato que representa estímulo à modernização da agricultura. c. o enriquecimento de parcela dos proprietários agrícolas reflete favoravelmente no conjunto da população rural porque vem acompanhado de redistribuição de renda. d. a introdução de capital no campo reduz a necessidade de mão-de-obra promovendo a concentração de terras e de recursos. e. a modernização do campo retardou o ritmo das transformações nas relações de trabalho da mão-de-obra rural. 04. (Pucamp-97) Associando as colunas, não há correspondência para: ( ) lavradores que, com suas famílias, ocupam terras sem títulos de propriedade para cultivá-las. ( ) fazendeiros ou empregados que, conseguindo títulos de propriedades, invadem terras devolutas já ocupadas. ( ) pequenos proprietários rurais que se empregam fora de suas terras em alguns meses do ano, por não garantir o sustento com seus minifúndios. ( ) agricultores que alugam a terra e pagam em dinheiro pelo uso. a. arrendatário b. posseiros c. bóias-frias d. assalariados temporários e. grileiro 05. (FUVEST-2000) Sobre as reservas indígenas no Brasil, é correto afirmar que: a. estão preservadas e livres do desmatamento. b. reverteram a tendência à desagregação dos povos indígenas. c. estão a salvo da ação das mineradoras e madeireiras devido à atual legislação. d. foram criadas segundo modelo das Reservas da Biosfera proposto pela UNESCO. e. atraem estrangeiros, interessados em usar o conhecimento indígena sobre plantas na indústria farmacêutica.

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Gabarito
01. Alternativa d. As culturas voltadas para a exportação sofreram intensa modernização, desde os anos 1970 e a soja, especialmente, requer grande investimento de capital e aplicação de insumos agrícolas. A expansão dessa cultura, da região Sul em direção ao Centro-Oeste, gerou maior concentração fundiária, deslocando espaços antes destinados às culturas de alimentação como o feijão, o arroz, o milho, etc. Sob o impacto ambiental referido no teste, cabe ressaltar que a cultura da soja estendeu-se por vastas áreas, desde o Planalto Meridional até o domínio do Cerrado, no Brasil central. 02. Alternativa b. A estrutura fundiária brasileira é muito concentrada, ou seja, grande parte das terras agrícolas são de propriedade de um grupo reduzido de grandes proprietários ou latifundiários. Há um número enorme de pequenos proprietários e trabalhadores sem-terra, lutando pelo acesso à terra,fato que gera graves conflitos. Das sesmarias à Lei das Terras de 1850, praticamente toda a história da estrutura fundiária do país contribuiu para isso. Na época colonial, grandes extensões de terra eram doadas pela Coroa Portuguesa para exploração. A legislação de 1850 também beneficiou o grande proprietário porque escravos, ex-escravos e imigrantes não tinham recursos financeiros para a aquisição de terras. Nesse sentido, costuma-se dizer que o Brasil “perdeu o bonde da história”, ou seja, deixou de implementar uma ampla reforma agrária quando ela era mais necessária, na metade do século XX. Hoje, a agricultura exige muita tecnologia e investimentos financeiros, fato que compromete uma política de assentamento de numerosas famílias de camponeses em pequenas propriedades, sem muitos recursos. O desemprego tem também incrementado as lutas pelo acesso à terra, implicando nos conflitos referidos no enunciado. 03. Alternativa d. A economia agrária brasileira tem passado por intensas modificações, nas últimas décadas. Intensificou-se a dependência das atividades ao setor financeiro; ocorreu uma verdadeira “industrialização da agricultura”, atrelando-se a produção ao emprego de insumos e máquinas agrícolas. Nesse contexto, ganharam destaque as culturas voltadas para a exportação ou aproveitamento agroindustrial, como a laranja, a soja, o café e a cana, fato que contribuiu para um aumento da concentração fundiária. Dessa forma, acirraram-se as desigualdades entre as empresas rurais – fortemente capitalizadas e com uso intensivo de tecnologia – e os modelos agrícolas de base familiar que apresentam baixa produtividade e empregam técnicas rudimentares. 04. Alternativa c. As relações de trabalho e produção no campo brasileiro nem sempre se apresentam sob a forma capitalista contemporânea empresa rural/trabalho assalariado. Há no meio rural uma série de arranjos singulares como os que são mencionados no teste: arrendatário é o agricultor que aluga a terra de outro proprietário, pagando em dinheiro; posseiros são indivíduos que têm a posse da terra, mas não o seu título de propriedade; assalariados temporários, como o próprio nome expressa, são minifundiários que se empregam em alguns meses do ano, para completar a renda familiar; grileiro é o indivíduo que se apossa de propriedade de terras, através de escrituras falsas. Nas alternativas não havia correspondência apenas para os chamados bóias-frias ou trabalhadores-volantes, aqueles que não têm emprego fixo, migrando continuamente e trabalhando por tarefa (colheita, plantio, etc).

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05. Alternativa e. As terras indígenas da Amazônia despertam grande interesse para os grupos econômicos nacionais e estrangeiros. Embora a demarcação das terras indígenas vise criar obstáculos legais à ocupação dessas áreas, tem sido muito difícil evitar a invasão dessas terras por atividades como o garimpo e o extrativismo da madeira. A biodiversidade da região também tem sido alvo das indústrias farmacêuticas que cobiçam a estratégica matéria prima vegetal ali disponível. Muitas plantas prestam-se à produção de medicamentos e os índios, em muitos casos, têm conhecimentos sobre seus efeitos terapêuticos. A criação de patentes de fórmulas e usos dessas plantas tem deflagrado atritos econômicos e diplomáticos entre as grandes potências e aquelas nações menos desenvolvidas, onde se localizam as florestas tropicais e equatoriais.

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