Fascículo 04 Carlos Alberto C.

Minchillo Izeti Fragata Torralvo Marcia Maísa Pelachin

Português

Índice
Gramática Resumo Teórico ..................................................................................................................................1 Exercícios............................................................................................................................................7 Gabarito.............................................................................................................................................9 Literatura A ilustre casa de Ramires, Eça de Queirós..........................................................................................11 Exercícios..........................................................................................................................................14 Gabarito...........................................................................................................................................16

Gramática
Resumo teórico
Objetivo: treinar não só a identificação das figuras de linguagem, mas também o reconhecimento de sentido dentro de contextos específicos. Figuras de linguagem I. II. III. IV. Figuras de palavras Figuras de pensamento Figuras de construção Recursos fonológicos

Figuras de linguagem
Toda língua possui normas que regulam o emprego de palavras, de estruturas de frases, de formas de formular as idéias. Cada vez que ocorre um desvio dos padrões, pode-se supor duas situações distintas: por desconhecimento de alguma norma ocorreu um erro ou, de modo proposital, fez-se um desvio dos padrões, que determinou uma construção lingüística mais expressiva. Uma figura de linguagem consiste em um desvio dos padrões de linguagem, com o objetivo de tornar o texto mais expressivo. As figuras de linguagem podem estar relacionadas à escolha de palavras, à estruturação da frase, à formulação das idéias ou à escolha de fonemas de um texto (expressão, frase...). Não se espera de um aluno de nível médio que saiba de cor todos os nomes das figuras de linguagem. Espera-se, em primeiro lugar, que consiga perceber um desvio da norma e, além disso, que saiba identificar a diferença de sentido resultante desse desvio. Assim, os vestibulares têm trabalhado, por exemplo, com a apresentação de frases em que ocorrem figuras de linguagem para que o aluno, dentre alternativas propostas, reconheça frase(s) em que a mesma figura está presente.

Figuras de palavras
São determinadas por uma escolha vocabular expressiva. Comparação Estabelece a aproximação de dois seres (objetos, idéias, realidades), por se perceber entre eles uma característica comum. Gramaticalmente, a comparação é caracterizada pela presença de conectivos e / ou advérbios de intensidade. Exemplo: “O mar canta como um canário" Oswald de Andrade Metáfora A depreensão de uma característica comum entre um ser e outro, pode determinar o emprego de uma palavra no lugar de outra. Toda metáfora pressupõe uma comparação, cujos elementos de comparação (nexos gramaticais) foram eliminados.
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Exemplo: “Sobre o leito frio, sou folha tombada num sereno rio.” Cecília Meireles Metonímia Uma palavra pode ser substituída por outra, por existir entre elas um “vínculo lógico”, que pode ser de natureza diversa, tal como: autor e obra, parte e todo, causa e conseqüência, marca característica e produto, característica concreta e nomeação abstrata dessa característica. Exemplo: “(— Essa cova em que estás) — É uma cova grande para tua carne pouca, mas a terra dada não se abre a boca." João Cabral de Melo Neto Catacrese Algumas vezes, uma ausência vocabular determina um emprego metafórico que acaba por se cristalizar, por fixar-se em seu emprego. A esse emprego metafórico cristalizado, dá-se o nome de catacrese. Exemplos: pé da mesa, céu da boca, asa do nariz Sinestesia Em especial em caracterizações, é comum que se misturem palavras relacionadas aos diferentes sentidos (audição, olfato, paladar, visão, tato) ou palavras relacionadas a sentidos e sensações. Exemplos: cor berrante (visão e audição) “Sua voz áspera como lixa vinha de longe, de um certo dia da infância em que Liroca faltara à escola (...)” ↓ ↓
audição tato

Érico Veríssimo

Figuras de pensamento
Constituem formulações especiais. Antítese Como forma de enfatizar uma oposição, duas realidades (dois seres, duas idéias) opostas são confrontadas.

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Exemplo: “Eu também já tive meu ritmo. Fazia isto, dizia aquilo. E meus amigos me queriam, meus inimigos me odiavam“ Drummond Paradoxo Duas idéias opostas podem fundir-se em uma única imagem. Exemplo: “Mas nem sequer ouviste o que eu não disse.” Guilherme de Almeida Eufemismo Construção que visa a atenuar uma idéia considerada (cultural ou socialmente) como negativa. Muitas vezes, o eufemismo relaciona-se à idéia de morte ou de doenças. Exemplo: O doente não estava muito bem. Mandaram chamar o vigário. Hipérbole Construção que exagera uma idéia de modo a destacá-la. Exemplo: “Chorai, olhos de mil figuras, pelas mil figuras passadas, e pelas mil que vão chegando. (...)” Cecília Meireles Ironia Palavra (ou expressão) empregada, dentro de um contexto específico, com o sentido oposto àquele que normalmente possui. A ironia, muitas vezes, denuncia uma crítica. Exemplo: Moribundo na cama, a conversa sobre a bolsa de valores era muito interessante para ele! Gradação Enumeração que – de modo crescente (clímax) ou de modo decrescente (anti-clímax) apresenta uma realidade. Exemplo: “Por mais que me procure, antes de tudo ser feito, eu era amor. Só isso encontro. Caminho, navego, vôo, — sempre amor (...)” Cecília Meireles

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Prosopopéia ou personificação Atribuição de uma característica de ser animado a um ser inanimado ou de uma característica humana a um outro ser. Exemplo: “E o vento brinca nos bigodes do construtor” Drummond

Figuras de construção
Resultam da estruturação especial de uma frase, ou de um texto. Inversão O rompimento da ordem direta dos termos da oração (sujeito, verbo, complementos, adjuntos) ou de nomes e seus determinantes. Exemplo: “Não a Ti, Cristo, odeio ou te não quero.” Fernando Pessoa Elipse Supressão de um termo da frase que, pelo contexto, pode ser facilmente recuperado. Exemplo: Fizesse um dia de sol, iríamos à praia. (Se fizesse um dia de sol, iríamos à praia) Zeugma Supressão de um termo da frase, que se torna desnecessário em virtude de já ter sido expresso anteriormente. Exemplo: “O animal teme a morte porque vive, O homem também, e porque a desconhece (...)” Fernando Pessoa Pleonasmo De modo enfático, pode-se repetir um termo sintático (pleonasmo sintático) ou uma idéia (pleonasmo semântico). Exemplo: “Dói-me no coração Uma dor que me envergonha...” Fernando Pessoa

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Epíteto Uma característica típica de um ser pode ser explicitada enfaticamente. Exemplo: “Só a rapariga o aquecer ao colo quando pequeno, e, depois, pelos anos fora, o consentira ao lume, enroscado a seus pés, enquanto a neve, branca e fria, ia cobrindo o telhado.“ Miguel Torga Polissíndeto Emprego repetido do mesmo conectivo. Exemplo: “O ar da sala estava turvo de fumaça; isso e o calor, e o peso da cerveja, e o ruído das conversas e risos ia me deixando apático e desinteressado” José J. Veiga Assíndeto Exemplo: Omissão de um conectivo que facilmente pode ser subentendido no contexto.

Lava, passa, cozinha, cuida das crianças, alimenta os animais, varre o terreiro, assa pão no forninho do quintal. Anáfora Como forma de organizar o texto, repete-se, a espaços regulares, uma palavra, uma expressão, uma frase. Exemplo: “São cinco horas da tarde. Hora elegante, hora do chá inglês que o mundo adotou, hora clara em que estão presos todos os demônios e atadas as mãos das feiticeiras e dos elfos.” Oswald de Andrade Anacoluto Pode-se topicalizar (colocar como tópico, no início de uma frase) uma palavra ou expressão que, dentro da estrutura da oração não possui função sintática. Exemplo: A dona da casa, ninguém é melhor cozinheira! Silepse Casos especiais de concordância, em que a concordância estritamente gramatical (entre termos expressos) é substituída pela concordância de idéias. Silepse de número O verbo pode se apresentar no plural, apesar de um sujeito coletivo singular, desde que se apresente afastado dele.

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Exemplo: “A mãe ficara na porta, chorando sempre, exclamando bobagens, escorada nas outras mulheres todas, que ajudavam a chorar... E o resto do povo tinham feito o pelo-sinal e virado as costas, porque faz mal a gente ficar espiando um enterro até ele se sumir.” Silepse de pessoa O verbo pode estar em uma pessoa gramatical diferente do sujeito, se o contexto indicar, por exemplo, a inclusão do falante entre os seres identificados como sujeito. Exemplo:
Verbo:1.a p. do plural

Coubemos todos no pequeno fusca da Marta. ↓ ↓
Sujeito: 3.a p. do plural

Silepse de gênero Uma palavra adjetiva pode concordar com uma idéia relacionada a um nome e não necessariamente com o gênero desse nome. Exemplo: Sua Santidade está velhinho e cansado. ↓ ↓
Feminino Masculino

Recursos fonológicos
Aliteração Repetição de sons consonantais iguais ou parecidos em um contexto. Em geral, a aliteração reforça alguma idéia expressa por meio vocabular. Exemplo: “Leves véus velam, nuvens vãs, a lua.” Fernando Pessoa Assonância contexto. Exemplo: “E no dia lindo vi que vinhas vindo, minha vida.” Guilherme de Almeida Paronomásia Jogo de palavras que consiste na aproximação (ou substituição) de palavras ou expressões que possuem semelhança fonética e / ou ortográfica. Exemplo: “Ei-lo sentado num banco de pedra Pálido e polido” Repetição de sons vocálicos iguais em sílabas tônicas de palavras próximas em um

Oswald de Andrade

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Onomatopéia nomeado. Exemplo: dão! dão!” “Dez horas da noite, o relógio farto batia dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão! Escolha de vocábulos ou de expressões (interjeições) que procura imitar o som do ser

Oswald de Andrade

Exercícios
01. A metonímia é uma figura de linguagem que se caracteriza pelo emprego de uma palavra que substitui outra por manter entra ela uma relação de contigüidade. A metonímia está presente em: “O Borba já havia morrido, a fazenda passara a outras mãos(...)” Cyro dos Anjos Também se encontra exemplo de metonímia, na alternativa: a. “E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé.” Drummond b. “E quem foi que o emboscou, irmão das almas, quem contra ele soltou essa ave-bala?” João Cabral de Melo Neto c. “Gostava era da voz cristalina da dona nova, da índole daimosa da patroa velha e da mão calejada do velhote.” Miguel Torga d. “A Avenida se abana com as folhas miúdas Do Pau-Brasil” Oswald de Andrade e. “— Esse chão te é bem conhecido (bebeu teu suor vendido)” João Cabral de Melo Neto 02. Indique a afirmação incorreta. a. Nos versos “Se estou só, quero não ‘star, / Se não ‘stou, quero ‘star só” (Fernando Pessoa), há exemplo de antítese. b. Há metonímia em “(...) nem podia consentir que um preguiçoso se demorasse ali tomando o lugar de quem precisava ganhar o pão” (Aluísio Azevedo). c. A repetição de “f” constitui uma aliteração em: “Furo a terra fria. / No fundo, em baixo do mundo, / trabalha-se: é dia” (Guilherme de Almeida).

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d. A palavra “despido” forma uma anáfora em: “Despido vieste no caixão, / Despido também se enterra o grão” (João Cabral de Melo Neto). e. Só existe um recurso fonológico, uma assonância, em: “Espera as pequenas ingênuas / Que passam de braços / De bruços” (Oswald de Andrade). Texto para a questão 3 “Jerônimo acordava todos os dias às quatro horas da manhã (...); e, em mangas de camisa de riscado, a cabeça ao vento, os grossos pés sem meias metidos em um formidável par de chinelos de couro cru, seguia para a pedreira. A sua picareta era para os companheiros o toque de reunir. Aquela ferramenta movida por um pulso de Hércules valia bem os clarins de um regimento tocando alvorada. Ao seu retinir vibrante surgiam do caos opalino das neblinas vultos cor de cinza, que lá iam, como sombras, galgando a montanha, para cavar na pedra o pão nosso de cada dia. E, quando o sol desfechava sobre o píncaro da rocha os seus primeiros raios, já encontrava de pé, a bater-se contra o gigante de granito, aquele mísero grupo de obscuros batalhadores.” Aluísio Azevedo 03. Assinale a alternativa que possui uma análise incorreta do texto. a. A expressão “gigante de granito” é uma metáfora que faz referência à montanha. b. Em “vultos cor de cinza” o autor, fazendo uso de uma hipérbole, refere-se à sujeira dos homens que fazem o duro trabalho de quebrar pedras. c. Ocorre metonímia na expressão “pão nosso”, uma vez que indica o alimento que se ganha com o trabalho. d. No início do segundo parágrafo, o som da picareta que bate na rocha é comparado aos clarins, que fazem o toque de reunir. e. Na expressão “pulso de Hércules”, a preposição de estabelece uma relação de comparação. Ou seja, a força de Jerônimo compara-se à de Hércules. 04. O anacoluto, figura de construção que se observa na frase “ Aquele amor / Nem me fale” (Oswald de Andrade) também ocorre em: a. “O meu primeiro amor sentávamos numa pedra Que havia num terreno baldio entre nossas casas.” Mário Quintana b. “É brando o dia, brando o vento. É brando o sol e brando o céu.” Fernando Pessoa c. “O vento voa, a noite toda se atordoa, a folha cai.” Cecília Meireles d. “Repousa sobre o trigo Que ondula um sol parado.” Fernando Pessoa e. “As solidões do mundo conheço-as todas de cor.” Cecília Meireles

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Texto para a questão 5 "Rubião fitava a enseada, — eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas, (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade. — Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que parecia uma desgraça..." Machado de Assis 05. Assinale a alternativa que contém um comentário correto sobre o texto. a. Ocorre um anacoluto no primeiro período do texto, uma vez que não há vínculo sintático entre as duas orações. b. A frase “Deus escreve direito por linhas tortas” é uma comparação. c. Há uma expressão exagerada, uma hipérbole, em:“tudo entra na mesma sensação de propriedade.” d. No contexto, opõe-se a situação financeira precária à abundância por meio de uma antítese:“Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista.” e. As reticências no fim do texto indicam uma elipse, uma vez que há um termo subentendido.

Gabarito
01. Alternativa e. Suor foi empregado com o sentido de trabalho. Nas outras alternativas, encontra-se: a. comparação; b. metáfora (“ave-bala”); c. sinestesia (“voz cristalina”); d. personificação (”a avenida se abana”). 02. Alternativa e. Além da assonância (repetição do som vocálico “e” em espera, pequenas, ingênuas), verifica-se também uma paronomásia em “braços” e “bruços”. 03. Alternativa b. Não há hipérbole, não há exagero, na expressão destacada. Trata-se de uma expressão denotativa, isto é, uma expressão em que não ocorre nenhuma construção especial, que constitua um desvio de linguagem.

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04. Alternativa a. oração. A expressão inicial “o meu primeiro amor” não possui função sintática no restante da

Nas outras alternativas, encontram-se as seguintes figuras de construção: b. anáfora (expressão que se repete a espaços regulares no texto); c. assíndeto (ausência de conectivo); d. inversão. Na ordem direta, a oração seria: Um sol parado repousa sobre o trigo que ondula. Personificação (um sol repousa). e. pleonasmo: solidões, as, todas. 05. Alternativa d. Comentários das outras alternativas: • na alternativa “a”, não há anacoluto; são duas orações coordenadas; • a frase presente em “b” não possui comparação, embora seja a idéia a partir da qual se constrói uma das imagens do texto; • não há hipérbole na expressão transcrita. Há uma “mania de grandeza” da personagem; • As reticências indicam que a conclusão é desnecessária. Não há apenas um termo elíptico, há uma conclusão que não se formaliza.

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Literatura
A ilustre casa de Ramires, Eça de Queirós
A atenção de Eça de Queirós, em A ilustre casa de Ramires, transcende às propostas do Realismo-Naturalismo1, pois o autor abranda a crítica pessimista e contundente à sociedade lusitana e passa deliberadamente a analisar a relação do homem português com o seu país. Nesta última fase da produção literária querosiana, o passado histórico, o presente e as especulações sobre os destinos de Portugal estão em debate. Essa reflexão sobre a pátria é o foco central do romance que, por meio da vida do protagonista Gonçalo Ramires, revela o antagonismo entre o passado glorioso e a estagnação de um povo, que se humilha, ao final do século XIX, diante das exigências do Império britânico2.

Gonçalo Ramires: vícios e virtudes
A bucólica aldeia de Santa Irinéia, vizinha à Vila-Clara e à cidade de Oliveira, é a residência milenar dos Ramires3. Da riqueza dos ancestrais, sobraram as terras, entregues a terceiros para fazê-las produtivas; a antiga torre em ruínas, símbolo da nobreza de outrora, e o solar, onde vive o bacharel Gonçalo Ramires. Mergulhado em dificuldades financeiras4 e frustrado por não poder viver no luxo de Lisboa, o último descendente da ilustre casa corrompe-se, torna-se inescrupuloso e justifica os seus comportamentos, moralmente condenáveis, pelo desejo de obter poder político e financeiro. Numa espécie de espelhamento da vida de Portugal5, o narrador em 3.a pessoa vai apresentando o protagonista de honrado e antigo passado numa espiral de degradações. Os vícios de Gonçalo são revelados por diversos comportamentos do protagonista. O fidalgo, para ganhar notoriedade, aceita o convite de escrever uma novela sobre seus antepassados, mesmo reconhecendo falta de talento para a tarefa; nega o compromisso de arrendamento de terras com Casco por ter oferta mais lucrativa; mente de forma cínica, o que chama atenção até mesmo do criado Bento. A degradação de caráter acentua-se quando Gonçalo, em troca de indicação para a vaga de um cargo político, troca de partido político e facilita os encontros do sedutor André Cavaleiro com a irmã Gracinha, casada com o inocente Barrolo. A ausência de escrúpulos chega a tal ponto que Gonçalo pensa em casar-se com a viúva rica e vulgar Ana Lucena, mulher que ele sempre desprezara. Advertido pelo amigo Titó, Gonçalo se dá conta do despropósito do seu interesse pela viúva Lucena e inicia uma reflexão séria e sincera em que ele se reconheceu covarde, mentiroso, sem a fibra dos antepassados6. Em sonho, ouviu os valentes avós pedirem que ele tomasse as antigas armas e vencesse os inimigos.

1. Eça de Queirós produziu entre os anos de 1871 a 1880 os chamados romances de tese, de inspiração realista e naturalista, em que focaliza os vícios da sociedade lusitana. Durante essa época, condena especialmente a hipocrisia burguesa, a mediocridade de políticos, a falsidade do clero e a ruína moral da família. O crime do padre Amaro e O primo Basílio são os mais significativos exemplos desse gênero de romance. 2. A decadência da sociedade portuguesa acentua-se com a independência do Brasil e a perda de diversas colônias. Numa fracassada investida contra o Império Britânico, Portugal é humilhado internacionalmente, em 1890, quando retira em poucas horas tropas lusitanas que estavam no vale do Chire (Moçambique), cedendo a um ultimato do governo inglês. 3. A família Ramires inicia-se com o casamento de Ordonho Mendes com Elduara, filha do rei de Leão, no final do século X, antes mesmo da constituição do reino português. 4. Gonçalo Ramires, último fidalgo de sua ilustre família, arrenda suas terras para poder sustentar-se. 5. Gonçalo Ramires pode ser entendido como um personagem que representa simbolicamente Portugal pela correspondência estabelecida entre a história do ilustre fidalgo e a história portuguesa: o passado glorioso e o presente em dificuldades. 6. Como ocorre em toda a narrativa, o narrador expõe em discurso indireto livre os questionamentos do protagonista, procedimento que reforça o caráter onisciente do narrador.

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Esse sonho meio profético antecipa para o leitor o que ocorrerá na manhã seguinte, quando é insultado e desafiado pelo arruaceiro Ernesto de Nacejas. Surpreendentemente, Gonçalo, corajoso como seus avós, vence bravamente a luta contra o valentão do local, fere gravemente outro rapaz que disparara uma arma de fogo e retorna à Torre revigorado em sua valentia. A partir desse episódio, Gonçalo manifesta um processo ascendente de regeneração moral: rompe com André Cavaleiro; recusa o título de nobreza que o governo lhe oferecera; repreende a conduta da irmã adúltera; vence honestamente as eleições; entrega os originais da novela “Torre de D. Ramires” para o editor Castanheiro. Oportunidade para começar de novo Gonçalo Ramires, após ser eleito com expressiva votação e ser reconhecido bom escritor pela crítica, arrenda as suas terras e parte para África, em companhia de seu criado Bento. Por quatro anos dedica-se à exploração de uma vasta área em Moçambique, obtendo sucesso e riqueza com plantação de coqueiros, cacau, com a extração de borracha e criação de galinhas. Retorna a Portugal, orgulhoso de sua vitória, respeitado pelos parentes e amigos, como se tivesse readquirido a honra e a oportunidade de começar de novo. A recuperação do protagonista indica simbolicamente uma alternativa para a crise econômica portuguesa. Essa proposta político-econômica, baseada na exploração colonialista, corresponde a idéias defendidas por setores da sociedade portuguesa do final do século XIX. Tanto na vida do personagem, quanto na vida pública portuguesa, o florescimento econômico equivaleria à retomada das glórias do passado. Narrativas entrelaçadas Entremeadas à história de Gonçalo Ramires, há mais duas narrativas: • a composição do fado de Videirinha que, em versos redondilhos, carregados de afetividade, homenageia os nobres Ramires e ressalta o orgulho de ser português7; • a novela “Torre de D. Ramires”, de inspiração nacionalista e romântica, enaltece a casa fidalga por meio da heróica e trágica história de Tructesindo Ramires, que viveu em Santa Irinéia ao final do século XII. O enredo baseia-se nos seguintes acontecimentos:
“Todo alegre, e a mão no cinto, Junto da Signa Real, Gritando às naus – “Amainai Por El-Rei de Portugal!..." A quadra pertence ao fado, composto por Videirinha que, ao contrário de Gonçalo, é um artista talentoso.

Antes de morrer, o rei Sancho I8 fez com que seu alferes-mor, Tructesindo Ramires, prometesse proteger por toda a vida a infanta D. Sancha. Logo após a morte do rei Sancho I, Afonso II assume o poder e entra em disputas com suas irmãs, D. Sancha e Teresa. As duas infantas pedem auxílio ao rei de Leão e a Tructesindo que, mesmo sendo aconselhado pelo seu genro a não discordar de Afonso II, mantém fidelidade a seu juramento e socorre as nobres damas. Ordena que seu filho Lourenço parta com cavaleiros e guerreiros armados e enfrente o inimigo Lopo Baião, chefe das tropas de Afonso II, enquanto mais homens seriam reunidos para o combate. Lopo Baião, o Bastardo, encontra Lourenço Ramires no vale de Canta-Pedra, fazendo-o prisioneiro e levando-o até o senhor de

7. Pode-se considerar a composição musical de Videirinha como uma terceira narrativa, embora o enredo desse fado não seja inteiramente apresentado ao leitor. 8. Sancho I foi o segundo rei de Portugal. Reinou durante 1185 a 1211.

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Santa Irinéia. Lá propõe a Tructesindo que entregue sua filha Violante, com quem outrora fora impedido de casar-se, em troca da libertação de Lourenço. Numa atitude exageradamente dramática, Tructesindo nega o pedido, não cede às ameaças do Bastardo e vê o filho ser assassinado. Os guerreiros inimigos fogem e Tructesindo parte em busca de vingança. Com o auxílio de tropas castelhanas e de um plano criado por um conselheiro astuto, prepara-se uma emboscada a Lopo Baião, que é preso e submetido a uma terrível morte: ser sugado por sanguessugas. Inspirada nos romances históricos9, a novela “Torre de D. Ramires” estabelece um paralelo com a vida de Gonçalo Ramires. Inicialmente, o comportamento covarde, desleal, influenciável do protagonista se opõe à bravura e honradez do antepassado Tructesindo. A partir do momento que Gonçalo vence Ernesto de Nacejas, a sua valentia resgata a coragem destemida, própria dos primeiros Ramires, e, portanto, as duas narrativas espelham-se perfeitamente. Estilo de Eça de Queirós Em A ilustre casa de Ramires o que chama a atenção é a descrição viva, minuciosa, interpretativa. Nesse romance, as descrições de cenas e de tipos caricaturais freqüentemente têm a função de criar imagens nítidas e cenas que ganham vigor e movimento.
“Na sala grande, a sala dos veludos vermelhos, o lustre rebrilhava, solitariamente; pelas janelas abertas penetrava a serenidade da noite quente, o recolhido silêncio de Oliveira; e embaixo, no Largo, alguns sujeitos, mesmo duas senhoras de manta de lã branca pela cabeça, pasmavam para aquela claridade de festa que jorrava dos Cunhais. O Cavaleiro e Gonçalo acenderam os charutos na varanda, respirando a frescura escassa.” O trecho é bem representativo do estilo de Eça de Queirós, já que o vocabulário preciso, o emprego do adjetivo e do advérbio criam imagens nítidas, plásticas. Além desses aspectos descritivos que criam fotografias da realidade, os atributos selecionados para a descrição estabelecem associações intelectuais. Por exemplo: o jogo opositor entre o cenário interno (a movimentação da festa no palacete dos Cunhais) e o cenário externo (o Largo, na frente do palacete) acentua o poder e a nobreza dos que participam da festa e a admiração das pessoas simples na quietude da noite.

As descrições caracterizam-se ainda por um estilo impressionista, que explora sugestões sensoriais (cromáticas, sonoras, táteis) captadas por um observador que interpreta a realidade de maneira subjetiva.

“Duas casas térreas povoam o lado fronteiro do adro - uma limpa, com as ombreiras das janelas pintadas de azul estridente, a outra deserta, quase sem telhado, afogada na verdura dum quinteiro bravo, onde girassóis resplandecem. Um pensativo silêncio envolvia o arvoredo, as altivas ruínas. E nem o quebrava, antes serenamente o embalava, o sussurro de uma fonte (...)” Observe que a escolha do vocabulário, a insistência nos efeitos de luz, cor e som promovem a sugestão de uma atmosfera envolvente, que convida o narrador a ultrapassar o mero registro objetivo daquilo que se vê.

9. A novela de Gonçalo Ramires parodia o estilo dos romances medievalistas, muito em moda em certa fase do Romantismo e cultivado por Walter Scott e Alexandre Herculano.

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Personagens A única personagem bem desenvolvida e analisada profundamente é o protagonista Gonçalo Ramires. Todas as outras personagens secundárias são apresentadas superficialmente, na verdade são freqüentemente generalizações caricaturadas. André Cavaleiro: amigo de infância de Gonçalo, extremamente vaidoso e artificial, torna-se um namorador incorrigível e político influente.
“E enfim Maria da Graça amava enlevadamente aqueles reluzentes bigodes, os ombros fortes de Hércules bem educado, o porte ufano que lhe encouraçava o peitilho e que impressionava. Ela, em contraste, era pequenina e frágil, com uns olhos tímidos e esverdeados que o sorriso umedecia e enlanguescia, uma transparente pele de porcelana fina, e cabelos magníficos (...)” O trecho, por exagerar tanto a masculinidade de André Cavaleiro quanto a delicada beleza de Gracinha, compõe uma caricatura dos personagens.

Gracinha e Barrolo: a irmã de Gonçalo, tendo sido desprezada por André Cavaleiro, aceita casar-se com Barrolo, homem mais velho, rico, generoso e pacato. Vivem um casamento monótono no palacete de Cunhais. Titó, João Gouveia, Videirinha, Padre Soeiro: amigos próximos de Gonçalo Ramires. Bento e Rosa: criados do solar de Santa Irinéia, onde mora Ramires. Relho, José Casco, Manuel Pereira: tendo-se desentendido com Gonçalo, o arrendatário Relho é expulso. O fidalgo promete arrendar suas terras a José Casco, mas trai sua palavra e afirma um novo acordo com Manuel Pereira. Sanches Lucena e Ana Lucena: deputado por Vila Clara, Sanches representa o burguês que ascende econômica e socialmente. Casado com Ana Lucena, mulher de origem vulgar. Irmãs Lousadas: habitantes de Oliveira, ocupam-se em bisbilhotar a vida alheia.

Exercícios
01. A complexidade do personagem Gonçalo Ramires é expressa pelas suas contradições psicológicas reveladas, no plano do discurso, especialmente: a. pelo emprego de metáforas e antíteses, que dominam os monólogos interiores. b. pela presença do discurso indireto livre, que revela, sem intermediação do narrador, o mundo interno do personagem. c. pelo emprego do discurso indireto livre, que neutraliza as interpretações do narrador de 3.a pessoa. d. pelas digressões que acrescentam comentários do narrador de 3.a pessoa. e. por meio de diálogos vivos, densos, construídos em discurso direto. Leia o trecho a seguir para responder ao teste 02. “Para se ocupar e atulhar as horas, mais que por dever ou gosto de arte, [Gonçalo] retomou a sua novela. Mas sem fervor, sem veia ágil. Agora era a sanhuda arrancada de Tructesindo e dos seus cavaleiros, correndo sobre o Bastardo de Baião. Lance dificultoso – reclamando fragor, um rebrilhante colorido medieval. E ele tão mole e tão apagado!... Felizmente, no seu poemeto, o tio Duarte recheara esse violento trecho de bem apincelada paisagem, de interessantes rasgos de guerra.”

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02. Considere as seguintes afirmações em relação ao texto. I. O trecho caracteriza-se principalmente pelo tom irônico com que o narrador contrasta o desânimo de Gonçalo com a tarefa que lhe exige fibra e entusiasmo. II. O fato de Gonçalo Ramires entregar-se sem culpa à composição de um plágio constitui um disfarce para sua falta de talento e ilustra a decadência moral do personagem. III. A sujeição a uma tarefa árdua para a qual não tem talento nem vigor revela a disciplina e o caráter obstinado de Gonçalo Ramires. a. são verdadeiras as afirmações I e II. b. são verdadeiras as afirmações I e III. c. são verdadeiras as afirmações II e III. d. somente a afirmação II é correta. e. somente a afirmação III é correta. 03. O programa político de Gonçalo Ramires pode ser considerado como expressão: a. de um ufanismo nacionalista, anacrônico para o final do século XIX. b. da crença de que faltava a Portugal um plano de inspiração guerreira. c. da tese de que o governo português deveria reconstruir o império colonial a partir da África. d. do pensamento retrógrado de parte da sociedade que via nas colônias africanas a alternativa para a crise econômica portuguesa. e. de um sentimento patriótico que estava adormecido e que era a principal causa do atraso da sociedade portuguesa do final do século XIX. Leia o trecho a seguir para responder ao teste 04. “Podia S. Exa. [André Cavaleiro] sacudir a guedelha com graça fatal, jorrar dos olhos pestanudos a languidez às ondas – que Gracinha permaneceria tão inacessível e sólida na sua virtude, como se fosse insexual e de mármore. Oh, realmente, por Gracinha, ele abriria ao Cavaleiro todas as portas dos Cunhais – mesmo a porta do quarto dela, e bem larga, como uma solidão bem preparada... E depois não se cuidava de uma donzela, nem de uma viúva. Na casa do Largo de El-Rei governava, Mercê de Deus, marido brioso, marido rijo.” 04. Pode-se afirmar que o trecho: a. apresenta um raciocínio que contribui para revelar o caráter cínico de Gonçalo Ramires. b. revela o alívio de Gonçalo ao perceber que não age erroneamente ao reatar amizade com André Cavaleiro. c. indica a honradez inabalável da irmã Gracinha. d. manifesta a preocupação de Gonçalo com o bem-estar dos familiares. e. estabelece uma crítica de Gonçalo em relação ao casamento de Barrolo e Gracinha. 05. Observando-se os recursos de estilo presentes na composição desse trecho, é correto afirmar que: a. O acúmulo de detalhes compõe uma descrição objetiva e revela a impessoalidade do narrador . b. As comparações e metáforas empregadas na descrição conferem um caráter expressionista para a cena. c. O uso preciso de adjetivos, na sua maioria de caráter objetivo, compõe uma descrição rigorosa e fiel da realidade apresentada. d. As sugestões de cor, perfume, associadas ao emprego exagerado de adjetivos, salientam detalhes que traduzem as impressões subjetivas do narrador. e. A seleção vocabular, as comparações, metáforas e a carência de adjetivos colaboram para expressão impessoal e objetiva da realidade, bem ao gosto de obras realistas.

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Gabarito
01. Alternativa b. No plano do discurso, os pensamentos, dúvidas, sonhos, contradições do personagem são expressos por meio do discurso indireto livre, que se caracteriza basicamente pela fusão da 1.a e 3.a pessoa. 02. Alternativa a. Gonçalo Ramires não tem talento de escritor e plagia com dificuldade o poema do tio Duarte. Entrega-se a essa árdua tarefa não porque seja disciplinado ou obstinado, mas porque acredita que, com a publicação da novela, pode obter notoriedade e mais facilmente ingressar na vida política. Leia o trecho em que Gonçalo Ramires, ao retornar do encontro com André Cavaleiro, idealiza o seu programa político. “E lançaria então um brado à Nação, que a despertasse, lhe arrastasse as energias para essa África portentosa, onde cumpria, como glória suprema e suprema riqueza, edificar de costa a costa um Portugal maior!...” 03. Alternativa c. O programa político idealizado por Gonçalo Ramires expressa a idéia compartilhada por diversos setores da sociedade portuguesa, do final do século XIX. Acreditava-se que um plano de ações firmes e direcionadas poderia resultar no desenvolvimento das ricas colônias portuguesas africanas e solucionar a crise econômica que se instalara no país. 04. Alternativa a. O trecho apresenta uma justificativa que Gonçalo encontra para apaziguar sua consciência perturbada pelo risco de, em nome de interesses políticos particulares, aproximar sua irmã Gracinha de André Cavaleiro, antigo namorado. 05. Alternativa d. A comparação, a metáfora, o emprego excessivo de adjetivos, a sugestão de cor, de perfume e de movimento compõem uma descrição carregada de subjetividade, pois expressam a visão do observador.

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