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discurso
Revista do Departamento de Filosofia da USP n. 44 - 2014

Universidade de São Paulo
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discurso

Revista do Departamento de Filosofia da USP
Conselho Editorial

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Gilles-Gaston Granger (Collège de France), Guido de Almeida (UFRJ), Henrique
C. de Lima Vaz †, João Paulo Gomes Monteiro (USP), José Arthur Giannotti
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Unicamp), Marilena de Souza Chaui (USP), Michel Paty (Universidade de Paris
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n. 44 – 2014
ISSN 0103-328X
Publicação anual
Endereço para correspondência:
Departamento de Filosofia – FFLCH – USP
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CEP 05508-900
Tel./Fax: (11) 3091-3761
Endereço eletrônico: http://filosofia.fflch.usp.br/publicacoes/discurso
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Secretária: Marie Márcia Pedroso
Tiragem: 1.000 exemplares

discurso .

2014 ÍNDICE Raízes filosóficas da noção de ordem nos fisiocratas Luiz Roberto Monzani 9 Cidadania e liberdade: Rousseau contra Hobbes Yara Frateschi 55 Hutcheson sobre a importância de ser desinteressado.44 | São Paulo. da beleza à perspectiva do desígnio Lisa Broussois 97 Um comentário sobre as “regras para se julgar sobre causas e efeitos” de David Hume Mark Julian Richter Cass † 127 Literatura e formação moral em Jane Austen e em David Hume Marcos Ribeiro Balieiro 145 . Um encômio a Shaftesbury? Laurent Jaffro 79 Francis Hutcheson.

Voltaire sobre Shakespeare e Newton ou o gênio e o gosto nas artes e ciências Rodrigo Brandão 161 O Século das Luzes e o medo do escuro – a fantasia na Antropologia de Kant Luís Fernandes dos Santos Nascimento 189 A graça da virtude Leonardo Rennó R. Santos 219 A concepção de ética no utilitarismo de John Stuart Mill Maria Cristina Longo Cardoso Dias 235 Resenhas 261 Traduções 277 Resumos | Abstracts 295 .

discurso 44 9 .Raízes filosóficas da noção de ordem nos fisiocratas* Luiz Roberto Monzani UNICAMP/UFSCAR * Publicado originalmente em tiragem de edição limitada pela editora Pedro & João (São Carlos. 2007).

in memoriam .Para Bento Prado Jr..

3. Mais recentemente.e. G. portanto. e. pela razão – que o exame mais atento dos textos mostra – que há sérias dificuldades em se estabelecer essa filiação. Tentaremos. 114). na década de 30 P. 313-5). no seu belo livro Capitalismo e Natureza (1982. Em segundo lugar. 1958. Gostaríamos. Queremos salientar a significação e as implicações dessa filiação. Schull escreveu um artigo na Revue Philosophique de la France et de l’Étranger onde essa relação é comentada (Schull. 329). 1938. também. e aqui seremos mais breves. Essa afinidade é geralmente aceita e muito pouco discutida. p. 169-96). em primeiro lugar que.1. essa filiação é quase sempre indicada. sobretudo baseando-se na aproximação superficial de alguns textos de Malebranche e outros dos fisiocratas. i. que nem sempre deixam claro ao leitor que essa filiação é mais que uma filiação superficial. questionar o óbvio: se há uma filiação com relação à noção de ordem de Malebranche nos fisiocratas. Aqui pretendemos já colocá-los 11 . em primeiro lugar. Kubota escreveu um artigo numa coletânea (Kubota. quanto em alguns pensadores posteriores. M. nós gostaríamos de pelo menos apontar a importância da noção de ordem (e seu par oposto: desordem) na constituição de certos setores do que hoje nós denominamos ciências humanas. Isso já foi notado e apontado inúmeras vezes desde o século XIX. as implicações dessa filiação tanto nos próprios fisiocratas. mas persuasiva. Nosso propósito nesta discussão é relativamente simples. p.. 2. p. cujo título já é revelador “Quesnay disciple de Malebranche”. de deixar claros os limites dentro dos quais vamos tentar nos mover. na maioria das vezes. num livro dedicado à Malebranche (1963. Só para citar alguns exemplos mais recentes. Rolf Kuntz. Nossa intenção é outra. Em 1958. gostaríamos também de examinar de uma maneira sumária. comenta também essa proximidade. Um outro autor a apontar essa relação é o Prof. Rodis-Lewis. Significação. p.

É bem verdade que os problemas econômicos preocupavam desde há muito tempo os sábios. Marx diz o seguinte. Já em 1615 Montchrétien publica um Traité de economie politique e as publicações se multiplicam. segundo os historiadores. que constitui. poderá consultar o pequeno livro de Deyon (l983. passemos ao assunto propriamente dito. Petty. sobretudo. passando por W. as descobertas marítimas. ou melhor. em geral. desencadearam um conjunto de reflexões que pouco a pouco foram na direção de um tratamento cada vez mais acurado das questões econômicas. pelo pouco que já lemos. de serem os responsáveis pela delimitação do econômico como um domínio particular. 12 . de acordo – e nesse ponto confluem as opiniões de pensadores tão díspares como Marx e Schumpeter – em apontar nos fisiocratas os verdadeiros fundadores da economia política. 4. Mas. de Quesnay. Boisguilebert (1965) e Cantillon (1959)11. Os canonistas elaboraram inúmeras reflexões sobre o campo econômico e. Quando falamos em implicações. não estamos pensando nem em implicações para ou na teoria econômica. o ponto de inflexão do pensamento econômico. no período anterior aos fisiocratas. Como somos relativamente leigos nesses assuntos. Vauban. nem mesmo na história das ideias ou doutrinas econômicas. Os historiadores do pensamento econômico estão. a respeito do movimento fisiocrata (opinião compartilhada pela maioria dos historiadores do pensamento econômico): 1 Quem quiser ter uma ideia das principais publicações no campo econômico.discurso 44 de sobreaviso sobre outra limitação de nossa discussão. é seguramente a publicação do Tableau Économique. Isso posto. seria perfeitamente possível extrair algumas implicações. vamos procurar retirar algumas implicações nos domínios da filosofia política e da sociologia. 7-11). p. sujeito a leis internas e a um conjunto de relações intraespecíficas que lhe são peculiares. domínios de onde.

Isto lhes dá o direito de se considerarem como os verdadeiros fundadores da moderna economia. Foram os primeiros que analisaram os diversos elementos materiais em que o capital existe e se manifesta durante o processo de trabalho. Quesnay. com os fisiocratas. de um sistema global de interrelações que abarcam a totalidade do domínio. e que deu ao problema fundamental da economia política – equilíbrio (estático) entre quantidades interdependentes – uma “imagem”: o Tableau Économique 13 . passa-se de um conjunto de observações mais ou menos esparsas. impostas pela necessidade natural da produção ou independentes da política. Isto é. de enfocar todas essas condições materiais. 1974. Está claro que eles não podiam deixar de ver. em geral fazendo caso omisso de sua forma social de capital e erigindo assim a forma capitalista de produção numa forma natural preestabelecida e perene. para a ideia de um todo organizado. quem pela primeira vez formulou explicitamente o problema da interdependência. nas formas burguesas de produção formas naturais. os instrumentos de trabalho as matérias primas etc. Schumpeter diz que foram os fisiocratas. como um conjunto construído por partes interligadas entre si.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani Corresponde aos fisiocratas a honra de ter analisado o capital na sociedade moderna. isoladas. e. 26). Quer dizer. Não se lhes pode fazer a censura como a seus antecessores. dizendo as coisas de outra maneira de considerá-las através da forma que revestem como elementos do processo de trabalho. da vontade etc. separadas das condições sociais que os rodeiam dentro da produção capitalista. coube a Quesnay e aos fisiocratas o mérito de serem os primeiros a fornecer uma ideia clara e distinta de um novo “continente teórico” que é o domínio do econômico como um todo coerente. do estabelecimento de correlações sem contexto. sobretudo. Trata-se de leis materiais (Marx. 5. p. ordenado. mas tiveram o grande acerto de conceber essas mesmas formas como formas fisiológicas da sociedade. pela primeira vez na história das ideias.

discurso 44 (Schumpeter. e comprimir tudo isso . englobar nesse processo de reprodução as origens da renda. Quesnay conhecia. segundo ele a atividade mais importante do país. reconhecer aos fisiocratas o mérito de terem sido os primeiros a apresentar uma análise de conjunto da atividade econômica e de ter visualizado a Economia como um sistema coerentemente lógico de relações causais. A França. Nicole. Jamais a economia política concebeu uma ideia tão genial”. qual ou quais eram as doutrinas professadas por Quesnay e por seus discípulos? 6. assinalando como a agricultura. 14 . na fase inicial da economia política . Mas. a circulação como uma simples forma desse processo e a circulação do dinheiro como um elemento da circulação do capital. no qual assinalava uma série de erros administrativos e apresentava alguns planos de reforma. 242-3)22. O fracasso da política mercantilista e. mais particularmente. na realidade): finalmente representar a circulação entre os dois grandes ramos da divisão do trabalho produtivo (produção bruta e produção industriai) como elementos desse processo de reprodução. como mostra o interessante artigo de Facarello (1984. a relação entre o consumo reprodutivo e o consumo definitivo. encontrava-se num lastimável estado financeiro. sobretudo sua tese de substituir essa multidão de im- 2 Marx. sobretudo. era patente e. de onde extraiu suas principais teses. 1974. enfim. com seis pontos de partida ou de término. Boisguilbert. admirava e citava Boisguilbert. portanto. desde os fins do século. Já nos fins do século XVIII começa-se esboçar um conjunto de ideias que vão influenciar a formação do pensamento fisiocrático. 35-6). Deve-se. englobar na circulação do capital a circulação entre os consumidores e os produtores (entre o capital e a renda.no primeiro terço do século XVIII. p. 1967. e troca entre a renda e o capital. por P. já no fim desse mesmo século. Seu pensamento foi profundamente influenciado pelo pensamento jansenista e. Boisguilbert é considerado por muitos autores como o precursor do pensamento e das doutrinas fisiocráticas. escreve um texto – “Le Détail de la France” –. de Colbert. 56: “A tentativa de Quesnay pode resumir-se do seguinte modo: representar todo processo de produção do capital como um processo de produção.num Quadro de cinco linhas. p. p. em 1695. se arruinava pelos entraves do comércio de grãos impostos pela política mercantilista.

p. a única atividade que cria riquezas é a agricultura e. Desta fonte abundante depende o êxito de todas as partes da administração do reino (Quesnay. que também não são especificamente suas.] e é a agricultura que a multiplica. p.. Em primeiro lugar. Porque o aumento de riquezas assegura o da população.. portanto. para Quesnay. 7. vê e compreende a sociedade. cujos produtos não podem multiplicar-se senão por seus produtos mesmos (Quesnay. Segundo essa ótica é que Quesnay analisa. ou melhor. A função básica. 8. os homens e as riquezas fazem prosperar a agricultura. já que é ela a fonte de toda riqueza e. a terra é a fonte de toda riqueza. a origem. 47).. Quesnay diz textualmente: A terra é a única fonte de riqueza [. a obrigação fundamental de toda administração e de todo governo.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani postos. 15 .. acrescentam e perpetuam as riquezas. que atravancava a atividade econômica francesa. 1978. 1967. portanto. e tudo que favorece a agricultura é proveitoso para o Estado e para a Nação (Idem. a única atividade produtiva. p. da riqueza e da opulência de qualquer nação: [. Quesnay diz a mesma coisa: Assim. Num outro texto. o princípio de todo gasto e de toda riqueza é a fertilidade da terra. animam a indústria.] tudo o que é desvantajoso para a agricultura é prejudicial à Nação e ao Estado. 254). estendem o comércio. Quesnay retorna essa tese e a incorpora a outras. por um imposto único. deve ser favorecer e facilitar ao máximo o desenvolvimento da agricultura. através das quais ele elabora um quadro original e próprio. 80). 1967.

livre comércio interior e exterior. liberdade de cultivo. que lhe havia retrucado o seguinte: Isso poderia ocorrer se eu limitasse a produção unicamente às riquezas que nascem da terra. frente à manufatura (Id. No segundo diálogo. da terra como única riqueza. tudo que for favorável ao livre desenvolvimento da agricultura deve ser incentivado ao máximo: quebra de entraves burocráticos. Daí o porquê se deve dar sempre preferência à agricultura. em prejuízo dos trabalhos e dos gastos da agricultura. Quesnay diz: 3 “Que uma nação que possui um grande território para cultivar e a facilidade de exercer um grande comércio dos gêneros do país não estenda demasiado o emprego do dinheiro e dos homens às manufaturas e ao comércio de luxo. a manufatura e a indústria não são produtores de riquezas. 9. Essa tese.. mas não posso ocultar-lhe que vejo sempre uma verdadeira produção nos trabalhos dos artesãos. Ela apenas não produz riquezas. com essa desvalorização da manufatura e da indústria? Tomemos alguns textos. convenhamos – o que não significa dizer que ela é inútil aos seus olhos. 10. e assim por diante. p. Mas o que Quesnay quer dizer com isso. mas realizam um puro jogo de equivalências. ao seu opositor. pese a todas as dissertações publicadas desde algum tempo para fazer com que tal produção desapareça. a esta última ele denomina estéril – termo não muito feliz. o reino deve estar bem povoado de ricos cultivadores” (grifo nosso).discurso 44 Nesse sentido. 1967. 49)33. Quesnay denomina a classe produtiva. 16 . com preferência a tudo. simplificação dos impostos. Se aos que trabalham a terra. porque. tem sua contrapartida numa outra defendida por Quesnay – que mais gerou oposição – a qual diz que o comércio.

Devemos confessar que a posição de Quesnay não é muito clara a respeito desse assunto. Só há nesse processo. um aumento por reunião de matérias primas e de gastos em consumo de coisas que existiam antes dessa classe de aumento 17 . posto que o trabalho aumenta. mas apenas uma adição que produz. o sapateiro vende um par de sapatos. diz Quesnay.. pelo menos. pode-se dizer que.. Mas você deve notar [. de uma simples produção de formas que os artesãos dão à matéria de seus trabalhos. cujo valor é determinado pelos dispêndios em produtos ou mercadorias que são necessários à sua subsistência e à de sua família. Simplificando um pouco as coisas. quer dizer. com efeito. Quesnay usa um exemplo esclarecedor de seu pensamento. 75-6). poder-se-ia objetar? Não. para Quesnay. p. porque o que se tem é adição de riqueza ou trabalho e. responde Quesnay. a única diferença que se encontra será a da forma que lhe foi dada pelo sapateiro (Id. Quando um operário vende uma sua obra. o valor da matéria prima de suas obras (Ibid. mas não o cria: Deve-se distinguir uma adição de riquezas reunidas de uma produção de riquezas. Mas não há. 1978.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani Não se pretende que desapareça a produção dos trabalhos formados pelas tarefas dos artesãos porque. Agora temos a impressão que o pensamento de Quesnay fica claro: não se deve confundir produção com informação que acrescenta valor. no circuito econômico. ex. isto é.. em nenhum dos dois casos.] que não se trata de tal produção. um sistema de equivalências. se se distingue entre a matéria prima e a obra. sem dúvida. p. digo real. 227). 1967. portanto.. P. senão de uma produção real de riqueza. houve um aumento real de riqueza. a produção de um par de sapatos. e não é de se espantar que ela tenha gerado tantas confusões. Ele vende a matéria prima e o seu trabalho. é a produção mesma que você vê nesses trabalhos. consumo. e não produção. porque não quero negar que exista adição de riquezas à matéria prima das obras formadas pelos artesãos. o que acontece? Quando. na manufatura não há produção real de riqueza.. p.

Para nossos propósitos. Existe ainda a necessidade de trocar. ela própria. pois. daí não se segue. que distinguir aqui entre o que é simplesmente necessário e o que é produtivo: se aquilo que é produtivo é necessário. O mesmo obviamente vale. Nosso propósito não é – e nunca será – o de fazer esse tipo tão frequente de história das ideias. O autor tem uma visão da sociedade que é bem próxima daquela dos moldes tradicionais. Não se trata de examinar aqui o acerto ou o desacerto dessa doutrina de Quesnay. nada. Com esses elementos em mãos. Esse é um dos muitos paradoxos de Quesnay: o homem que funda a economia moderna tem uma visão profundamente tradicionalista 18 . a troca ou o comércio não faz nascer os produtos: a ação de trocar não produz. que julga o autor em questão segundo os critérios dos conhecimentos e das doutrinas aceitas atualmente. todas essas coisas precedem a ação de trocar. a causa da troca. o seu valor respectivo. que forma uma renovação e um acréscimo real de riquezas renascentes (Id. p. para o comércio: O comércio é uma troca entre coisas que existem e que têm. A sociedade francesa que ele concebe é a sociedade do “Ancien Régime”. Quesnay. com muito mais razão. 234). esse é. que tudo que é necessário seja produtivo (Id. do ponto de vista econômico.discurso 44 de uma geração ou criação de riquezas. e a sua enorme erudição.. basta compreender as ideias e as doutrinas de um autor. 1978. cada uma delas. 1967. portanto. 11. Isso tudo nos leva a um outro ponto. a nosso ver. condição sem a qual não haveria qualquer troca ou comércio. Temos. Pese o seu imenso valor. o maior defeito da História de Schumpeter. Quesnay elabora a visão que tem da sociedade. 77). é somente necessária para satisfazer uma necessidade que é. no caso em questão.. como insinua o autor. p.

que o paradoxo de Quesnay está no fato de que: Quesnay descreve a velha sociedade de um novo ponto de vista: sua visão social e política é inteiramente tradicional. vivendo num país economicamente atrasado. ele cria um paradoxo interno. De certa maneira. além de Quesnay representar um grande passo no pensamento econômico. enfim. Suas palavras: O Doutor Quesnay nos apresenta um paradoxo. entretanto.] – mas o paradoxo se reencontra em toda sua doutrina: a indústria e o comércio são pouco estimados e a agricultura é exaltada. Bem. 1991.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani da sociedade e de seu mecanismo econômico. 50 e 52). através desse mesmo cultivo. Dumont. Essa classe subsiste através do rendimento ou produto líquido do cultivo que lhe é pago anualmente pela classe produtiva. segundo L.. a Inglaterra [. Dumont. É ela que faz renascer anualmente a riqueza das nações. pode-se dizer. e no interior dessa visão ele instala um sistema propriamente econômico que é quase inteiramente moderno (Dumont. graças ao gênio desse homem. Ela faz os adiantamentos para os gastos nos trabalhos agrícolas e.. 12. na sua própria doutrina. os possuidores das terras e os dizimeiros”. a sociedade é composta por três classes de cidadãos: a classe produtiva. depois que a classe produtiva 19 . a classe dos proprietários e a classe estéril. L. p. paga anualmente os rendimentos dos proprietários. num livro que não deixa de ter aspectos interessantes – Homo Aequalis – assinalou o paradoxo de que. sob muitos aspectos. o pensamento econômico deu um grande passo adiante. essa visão de Quesnay? Segundo ele. mas qual é. do consenso comum. b) A classe dos proprietários “compreende o soberano. a) A classe produtiva é a que se dedica ao trabalho e ao cultivo da terra. também. E. ele não vivia no país economicamente mais progressivo de seu tempo.

Suas despesas são pagas pela classe produtiva e proprietária. É a partir dessa visão das classes sociais e de suas atividades de Quesnay monta seu famoso “Tableau Économique”.discurso 44 deduziu as despesas e os adiamentos. assim como suas riquezas de exploração. Numa segunda carta que Quesnay escreve a Mirabeau. É o que ele diz numa carta a Mirabeau: Tentei construir um Quadro fundamental da ordem econômica.. numa imagem do circuito econômico da sociedade. p. como fica claro. outros. 13. Na verdade. já começa com o lançamento do Quadro. que consiste numa espécie de resumo visual. 14. Pelo menos até hoje ele provoca polêmicas. c) A classe estéril é. na verdade. A intenção de Quesnay foi a de construir algo que a um simples olhar fornecesse uma visão imediata do funcionamento econômico da sociedade. Schumpeter). e para julgar claramente as coordenações que o governo pode realizar e as descoordenações que pode introduzir. O próprio Mirabeau – que mais tarde seria o apóstolo mais dedicado do fisiocratismo – já se viu imerso em profunda confusão. 239-40). então. logo de início: Diz-me a Sra. sendo que a classe proprietária. 1978. ele diz. Quesnay não foi muito feliz na composição desse Quadro. Vereis se consegui o meu propósito (Ibid. para nele representar as despesas e os produtos de um modo fácil de compreender. obtém também seus rendimentos da classe produtiva (Quesnay. e não conseguiu unanimidade sobre o seu significado. 1978. como algo destituído de sentido. A confusão. aquela formada pelos cidadãos que se ocupam de todas as atividades e de todos os trabalhos que não os da agricultura. Alguns o consideram uma obra genial (Marx. Marquesa de Pailli que ainda estás perplexo diante do 20 . p. 63).

É verdade que ele se liga com tantas coisas que é difícil apreender suas relações ou. nos parece. suas linhas gerais. ou seja. apontaremos aqui uma breve ideia de como Quesnay concebe esse circuito. Suponhamos. penetrar sua evidência [. os economistas e os historiadores do pensamento econômico estão de acordo: se é complicado. de mostrar o circuito completo de um ciclo econômico equilibrado. como nota Kuntz. 54): Suponhamos. p. essa perplexidade ia às raias do desprezo. se é difícil entender todas as facetas e todos os detalhes do Tableau Économique. uma reprodução no valor de cinco milhões. anualmente.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani ziguezague.. de uma fórmula que descreve um esquema de reprodução simples. cujo território inteiramente cultivado. nem sequer havia o que entender. p. do economista Linguet. A partir desse. a melhor explicação do Quadro está no texto “Análise da fórmula aritmética do Quadro Econômico” (1766). 1982. como já colocamos. Entre seus próprios contemporâneos.ex.. Na opinião de alguns. ano após ano. digam-me de boa fé. 19) 15.]. salvo exceções. 1982. O estoque de capital já está constituído e apenas se repõe. 73).. sem acumulação. um vasto reino. conhecem alguém que o tenha entendido (o Quadro)? O próprio autor saberá bem o que quis dizer com esta série de cifras [. de acordo com os melhores métodos. portanto.] (Ibid. Mas num ponto. proporcionasse. mais que isso. portanto. p. e onde o estado permanente 21 . p. esse ajuntamento pueril de palavras sem significado e de linhas sem sentido? (Kuntz. as três classes sociais. enquanto a produção se repete (Kuntz. não há dúvida. sua intenção genérica não é tão difícil de ser percebida e entendida... Trata-se. Segundo os especialistas em Quesnay. 1978. Que o Quadro provocou (e ainda provoca) controvérsias. Esse autor escrevia o seguinte: Mas. Trata-se..

O milhão que os proprietários despenderam com a classe estéril são empregados por esta classe na compra de produtos da classe produtiva. dos quais um milhão são gastos em compras à classe produtiva. ou o que Marx chama “a mais valia”. e um milhão à classe estéril. É interessante notar que. A classe dos proprietários tem dois milhões de rendimentos. reprodução do capital social. no esquema de Quesnay. Essa é. agora. de um esquema de produção e circulação fechado. e o outro milhão em compras à classe estéril. ele traz um detalhe particular: o fato de estar baseado no estudo das condições da reprodução. p. enquanto se mantém. teremos o seguinte: a) A classe faz adiantamentos anuais (i. o excedente. claramente.discurso 44 desse valor fosse estabelecido com base nos preços constantes que têm curso entre as nações comerciais. dois milhões ela deve aos proprietários. e uma inteira segurança da propriedade das riquezas de exploração da agricultura (Quesnay. 1978. gasta um milhão com a classe estéril. Essa concepção da reprodução é inegavelmente dinâmica em Quesnay. Trata-se. a classe produtiva vende um milhão aos proprietários. 240). b) Assim. Mas. o total das compras feitas pelos proprietários do rendimento e pela classe estéril soma três milhões.e. Os outros dois milhões são rendimentos. Se colocarmos. no Quadro. quando ele fornece uma representação social desse produto líquido. 17. e o circuito se fecha para recomeçar novamente. constantemente. despesas anuais que se fazem com o cultivo) de dois milhões. 16. que são gastos na compra de matéria prima à classe produtiva. Porque os 22 . c) Desses três milhões que a classe produtiva recebe. a maneira como funciona o quadro econômico de Quesnay. ele pensa o produto líquido. simples e repetitivo. as três classes em jogo. em linhas gerais. suas riquezas e seu comércio. uma livre concorrência de comércio. A classe estéril tem adiantamento de um milhão. isto é.. Então.

pela primeira vez. tanto para a compreensão de sua doutrina. 18.ex. como para os nossos propósitos. Entretanto. a ideia de acumulação do capital. no entanto. sobretudo as de Locke – cuja influência sobre Quesnay é bastante considerável. 268-9). no seu não menos famoso “Tableau”. na medida em que representa uma tentativa de síntese entre a concepção clássica do direito natural (cujas origens remontam ao livro V da Ética a Nicômaco. gerava tanta confusão. Mas há um outro aspecto do mesmo. tal qual. essa dinâmica tem um caráter muito particular. Quesnay fez publicar outras. em Quesnay. ou como um sistema global coerente. Trata-se do artigo “Direito Natural”. de modo claro. A polêmica com Hobbes.. por assim dizer.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani adiantamentos são feitos no período que precedem repartição da colheita atual. de Aristóteles) e as concepções recentes. p. Nada está mais longe do pensamento de Quesnay que a ideia de progresso. as concepções de Quesnay sobre os fundamentos e o funcionamento da sociedade. porque ela funciona. Assim. o qual revela. Pode-se dizer que é a partir desse texto que a fisiocracia se constitui como uma escola. é muito clara. essa ideia é esboçada nos fins do século XVIII por Condorcet. 1971. entre outros aspectos importantes. pelo menos.. ou melhor. não há.ex. na base do princípio do eterno retorno do mesmo. insere os homens numa ordem natural. p. Em 1765 publica um texto capital. tem dois principais: de um lado. p. A primeira versão do Tableau Économique apareceu em 1758. Em suma. sempre procurando melhorar e explicar com maior clareza isso que para ele era o máximo da clareza e que. Quesnay define a justiça na 23 . ele representa um ajuste de contas de Quesnay com as diversas escolas do direito natural. Esse texto tem uma articulação curiosa. e a natureza nada mais é que o circuito fechado da semeadura à colheita. e é esse que vai nos interessar. isso porque a situação econômica que Quesnay visualiza se insere. Este trabalho. onde se delineia uma concepção da economia exatamente oposta à de Quesnay (Condorcet.

19. E. Num tal estado os homens estariam de tal maneira atrapalhados e preocupados em garantir sua própria subsistência. evidentemente. ou suas buscas determinadas pela necessidade (Ibid. Essa pretensa ideia de que no estado de natureza os homens têm direito a tudo. p. se limita àqueles que ela pode apanhar por seu trabalho. que todos têm direito a tudo. 1846. mas que. Se deixarmos de lado o caráter moderno da linguagem de Quesnay. 42-3). não é difícil perceber que sua definição de justiça nada mais é que a velha fórmula do direito romano: Jus sum cuique tribuere.discurso 44 linha direta do Direito Romano – mais especificamente inspirado em Cícero. que não teriam tempo de ficar brigando continuamente com os outros. p.e. No capítulo IV do artigo sobre o direito natural Quesnay afirma que os homens podem ser considerados no estado de 24 . isso também fica claro. na realidade. A luta pela subsistência pessoal torna inviável a luta com os outros homens e. a situação se resume naquilo que o homem pode conseguir pelo seu trabalho para a sua subsistência. o que pertence a nós mesmos ou a um outro (Quesnay. i. Na polêmica que estabelece com Hobbes... é pura tagarelice. Suas palavras: Se me perguntarem o que é a justiça. Quesnay constrói uma imagem interessante para ilustrar sua ideia: Pois seu direito a tudo é semelhante ao direito de cada andorinha a todos os mosquitos que esvoaçam no ar. onde os homens vivem isolados. nesse estado. diz Quesnay. eu responderei que é uma regra natural e soberana. 44). reconhecida pelas luzes da razão que determina. dessa crítica de Hobbes – e aqui está outro traço marcadamente tradicionalista na concepção que Quesnay tem do direito natural – vai ficando claro que a hipótese de um estado de natureza. é mera quimera aos seus olhos.

que diz o seguinte: A hipótese que supõe os homens isolados. de direitos e deveres. de socorro recíproco. e cumprir com todos os trabalhos prévios. 1967. Dessa maneira. p. em consequência. vivesse da colheita. o que significa a aniquilação da espécie. desenvolve um argumento similar: O homem isolado que. portanto. Não haveria. 223). Le Trosne. Viveria em privação quase geral (Le Trosne. de segurança. a criação de excedentes. se pode pensar que os homens viveriam. os homens não têm nenhuma comunicação entre si. e sem nenhuma comunicação uns com os outros. e não poder abarcar vários cultivos. e no estado de multidão. pois essa associação com uma mulher e com filhos já cria uma ordem de dependência. limitaria a extensão de seu cultivo aos seus consumos. Ou. 49).. isso prova claramente a sociabilidade natural do ser humano. estão num total estado de independência. (Ibid. Mas. p. 49). se os cultivadores trabalhassem somente para si mesmos. um discípulo de Quesnay. “este estado só pode subsistir o tempo de duração da vida de cada indivíduo” (Ibid. sem relação com seus semelhantes. e o infundado da hipótese do estado de natureza.. e isso só é possível quando há uma sociedade: Com efeito. o valor seria indiferente: mas também limitariam seu trabalho à produção do mais necessário.. p. 49) Ora. o menor acidente físico poderia reduzi-lo a carecer do necessário. o que exclui a primeira hipótese. de justiça etc. é absolutamente quimérica (Ibid. Esta é a proposição inicial do capítulo IV. então. não estimaria suas produções além da utilidade pessoal. pelo menos cada um com uma mulher. p. É necessário. Se considerarmos a primeira hipótese. e não trabalharia para criar um excedente que lhe seria inútil. diz Quesnay.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani solidão. senão uma classe de 25 .

a própria definição de direito natural. que aparece no texto. e cujas outras necessidades não seriam satisfeitas. De qualquer maneira.. Dois. uma coisa fica clara: Quesnay tem uma concepção utilitarista do direito natural: trata-se de fruir. E. que escreveu para a Enciclopédia. [. Será exatamente essa a definição de Quesnay do direito natural.] É. responde com toda clareza: Mas basta que duas famílias se estabeleçam uma perto da outra. pode-se salientar.. Mas há também aspectos modernos na concepção que Quesnay elabora do direito natural.. quais são as condições que tornam essa definição verdadeira. 223). uma concepção de mundo onde a 26 . Não nos iludamos com o termo vagamente. pois.. Esse aspecto utilitarista do seu pensamento aparece claramente no artigo “Evidence”. que é dada por ele da seguinte maneira: O Direito Natural do homem pode ser definido vagamente: o direito que o homem tem às coisas próprias ao seu gozo (ou à sua fruição) (Quesnay. p. forma-se entre elas uma associação natural de trabalhos e serviços. de gozar de bens. Em primeiro lugar. não haveria sociedade. E aqui aparece um outro aspecto moderno do seu pensamento: além disto implicar numa ética hedonista. e o intercâmbio se apresenta para preencher todas as necessidades. senão de forma muito imperfeita. 20. o excedente. no pensador. no seu excedente em seu gênero. 41).. Por suposto.discurso 44 homens ocupados na produção de sua subsistência. ainda ele. A expressão é usada apenas para indicar que Quesnay vai examinar. ao longo do artigo. p. 237). estender as satisfações e fazer encontrar a cada uma. delineia-se. p. como isso é possível? Le Trosne. que dá existência à sociedade [. pelo menos. que provê os cultivos mais além dos gastos. os meios para adquirir no outro o que lhe falta (Ibid.] (Ibid.. 1846.

essencialmente marcado por sua natureza. em Quesnay. para se conduzir assim. são direitos naturais dos homens e. p. Não foi sem razão que eles estenderam a cadeia natural dos deveres recíprocos. O raciocínio. Para isso. que se submeteram a uma autoridade soberana. entretanto. não se reuniram por acaso em sociedades civis. 27 . Esse é um traço marcadamente moderno do pensamento de Quesnay. as quais eles precisam satisfazer. 21. p.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani utilidade – individual e social – é a utilidade que nos é fornecida pelos bens econômicos. E a medida dessa utilidade é-nos dada pelo Quadro Econômico. portanto. a base e o liame de toda sociedade são a propriedade e a troca (Dupont de Nemours. não haveria senão a ignorância que pode. Estes. eles precisam de meios para atingir esse fim – entre os quais se destacam o trabalho e o conjunto dos meios que lhes são necessários para isso (propriedade mobiliária e imobiliária).ex. que a expressão desse conjunto de exigências inelutáveis. e a definição do homem pelo seu ter... A sociedade nada mais é. é muito simples: os homens têm necessidades fundamentais. portanto. favorecer a introdução de leis positivas contrárias à ordem da reprodução e da distribuição regular e anual das riquezas do território de um reino (Ibid. p. Há. sobretudo Dupont de Nemours e Mercier de la Rivière. No final do artigo sobre o “Direito Natural”. 367). o qual ela deve apenas consagrar: Os homens. Como consequência. tem-se o estabelecimento de uma hierarquia de fins. uma concepção que produz uma visão global do homem e da sociedade. enfim. portanto. Eles tinham um alvo. 367-9). Seus discípulos desenvolveram essa concepção até as últimas consequências. ele diz o seguinte: O fundamento da sociedade é a subsistência dos homens e as riquezas necessárias à força que deve defendê-las: assim. a partir do econômico. pela sua posse. 1846. em suas linhas gerais.

parece-nos. doente e exilado. é dali. 189). aquela dos outros seres que os rodeiam. então. É exatamente essa restrição da disciplina que lamenta Dupont de Nemours. e da formação dos corpos políticos (Mercier de la Rivière.. além da econômica. não permite que os meios para se chegar a esse alvo sejam arbitrários. que dela se nutrem e que morreriam quando dela se desprendessem (Ibid. tudo é deduzido a partir de certas premissas econômicas. da qual todas as instituições sociais são os ramos que dela crescem. 23. B. portanto. No limite. cansado. Liberdade. p. Ele não se contenta em ser pura e simplesmente uma análise da produção. o que hoje nós chamamos uma teoria econômica. p. 189). eis aqui. mas vai muito além disso. a ordem social em sua totalidade. mantido em toda sua extensão natural e primitiva. Say: 28 . Não é só uma ciência das riquezas de uma nação. uma rota necessária para se aproximar o máximo possível do objeto da associação entre os homens. mas as consequências ultrapassam muito o puro campo da economia.. Esses textos – e haveria tantos outros para citar – mostram claramente.discurso 44 Ora. que vão derivar-se necessariamente todas as instituições que constituem a forma essencial da sociedade: podeis olhar esse direito de propriedade como uma árvore.. não se reduz a isso. do direito de propriedade.] Há. os fisiocratas desenvolvem uma concepção global do mecanismo e do funcionamento da sociedade que ultrapassa. circulação e consumo dos bens econômicos. E. em muito. Mercier de la Rivière coloca o seguinte: Propriedade. e acaba por englobar uma teoria jurídica. sua constituição física. além de ser uma teoria econômica. já velho. a partir desses princípios econômicos básicos. 1967. 22. Segurança. porque não pode haver nada arbitrário nos atos físicos tendendo a um fim determinado. política e social. numa longa carta que escreveu a J. que o movimento fisiocrata. [.

24. não se aprisione nas ideias e no idioma dos ingleses. Mas. Aqui. Ela é a ciência do direito natural aplicado. Por que restringi-la ao das riquezas? Saia de seu gabinete. depois de sua morte (Dupont de Nemours. passeie pelos campos. 136-7). e o flagelo sangrento da história. 160-1). pode-se ir mais longe ainda e afirmar que Dupont de Nemours foi até discreto com relação à extensão ou ao domínio da teoria fisiocrática. Todos os discípulos de Quesnay são unânimes em afirmar que a legislação positiva não cria coisa alguma. num certo sentido. p. e seus discípulos desenvolveram as ideias.. que ela se constitui apenas num conjunto de atos declaratórios: 29 . povo sórdido que pensa que um homem não vale mais que pelo dinheiro que dispõe. ou de suas riquezas. o destronamento durante sua vida. um pouco mais à frente: Como você vê. que é a que mantém todo esse edifício de pé. senão também o que não devem poder diante de Deus. como deve sê-lo. o direito das gentes [. como se não existissem a moral. como quase sempre. que designa a coisa pública com as palavras “riqueza comum” (Common-Wealth). não só o que os governos não devem fazer por seu próprio interesse. às sociedades civilizadas. sob pena de vencer o ódio e o desprezo dos homens. nossa ciência tem grande extensão. E. ao tratá-la como a ciência das riquezas. que ensina e que ensinará. abraça um grande número de objetos. Somos levados a pensar que ela constitui uma vasta e coerente teoria a respeito dos fundamentos últimos da sociedade e que ela contém explicitamente uma filosofia política. p.] (Ibid. 1967. trata-se de todas as vontades do Criador em relação à nossa espécie. 25.. Seu talento é vasto. a justiça.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani Você reduziu demasiadamente a carreira da economia política.. pelo de suas nações. meu querido Say. Quesnay limitou-se a dar as indicações gerais. E a ciência das constituições.

. Mercier de la Rivière. 189). a legislação 30 . necessariamente. o que chamamos poder legislativo.que é o respeito a essas leis primitivas.. (Mercier de la Rivière. como também constituem as leis fundamentais que devem regular toda a organização da sociedade. e se isso engendra a necessidade do trabalho e da propriedade mobiliária e imobiliária. é evidente que as leis positivas já estão todas feitas: que não podem ser mais que atos declarativos dos deveres e dos direitos naturais e recíprocos. então toda legislação positiva se resume . 26. não pode ser o de criar. fala o seguinte: Sendo assim. Retomemos o fio do raciocínio a partir da noção de direito natural. Enfim. 1967. a que chamamos leis positivas. e se organiza da melhor maneira possível. E como só há uma boa maneira de organizar a sociedade .discurso 44 As ordenações dos soberanos. a propriedade. p. senão o de declarar as leis e de assegurar a sua observância. os quais estão todos contidos na propriedade. não devem ser nada mais que atos declaratórios (Ibid. 347). tal qual é concebida por Quesnay. para cada homem.. Assim. E um pouco mais à frente: Assim. Ainda. Este texto de Rivière nos auxilia enormemente na compreensão da concepção da legislação positiva que têm os fisiocratas. a medida da liberdade de que deve gozar. então essas exigências inalienáveis e suas consequências não só constituem os fundamentos da sociedade. existe um conjunto de leis primitivas através do qual toda sociedade se organiza.não em criar nada – mas apenas em respeitar e explicitar esse conjunto de leis primitivas. p. Se o direito natural dos homens consiste nas coisas a que eles têm o direito de fruição ou gozo.

para Quesnay e seus discípulos. p. É necessário proceder da mesma maneira para conhecer a extensão do direito natural dos homens reunidos em sociedade. 31 . tudo é físico. p. Existem assim. 337). Mas nem é preciso levar em consideração esta nota. fixar-se nas leis naturais constitutivas do melhor governo possível [. 337)4. Essas leis podem ser físicas ou morais. todas as leis são físicas. estar sujeitos a leis naturais e a leis positivas. Lei positiva e lei natural são idênticas. No fundo. um conjunto de “leis constitutivas e fundamentais de todas as sociedades” (Dupont de Nemours. nenhuma oposição do tipo matéria/espírito. mas essa distinção não implica. e o moral daí deriva (Ibid. para nós. dizem os fisiocratas – a legislação que emana da natureza mesma. O moral não é senão um aspecto do físico.. Os homens reunidos em sociedade devem. As leis naturais são físicas ou morais.. 1967. eles só podem estar conduzindo a sociedade à sua própria dissolução. caso os legisladores constituam leis (no sentindo amplo do termo) que se desviem das leis emanadas pela natureza. ou devem ser idênticas. Entre nós. portanto. para se chegar a essa conclusão. p. Entende-se aqui por lei física o curso regulado de todo aconteci- 4 Nota manuscrita citada por Salleron. para Quesnay e os fisiocratas. para regular a navegação e assegurar o comércio.].RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani positiva nada mais é que o ato de reconhecer e assumir – declarar. foi necessário observar e calcular com precisão as leis do movimento dos corpos celestes. no artigo sobre direito natural: Para conhecer a ordem dos tempos e dos lugares. 106). 27.. e. Mencionada por Kuntz (1982. pensamento/ extensão etc. Basta ler com atenção a definição de lei natural que Quesnay nos dá.

p. às vezes. p. evidentemente o mais vantajoso para o gênero humano. anterior a toda convenção entre os homens. Vejamos apenas. nesse fisicismo chega..discurso 44 mento físico da ordem natural. 341). para Quesnay. 342). 1967. conforme a ordem física evidentemente a mais vantajosa para o gênero humano. fundada sobre sua constituição sobre suas necessidades físicas [. remontemo-nos à origem da sociedade (Mercier de la Rivière. 178). 1967. 52-3).. por consequência. p. absoluta para sua existência (Ibid. a regra de toda ação humana da ordem moral. 53-4). todo o possível. “a legislação positiva consiste. 338). Estas leis juntas formam o que chamamos de lei natural (Quesnay. 3) Existe uma sociedade natural. Em Mercier de La Rivière. sobretudo. Desnecessário dizer que.. porque eles são de uma necessidade física e. 4) Nesse estado primitivo. p. os homens têm direitos e deveres recíprocos de uma justiça absoluta. 2) [sobre Quesnay]: ele aplicou toda penetração de seu espírito à pesquisa das leis físicas relativas à sociedade (Ibid. Entende-se aqui por lei moral. 1967. portanto. 337). sua constituição física e aquela dos outros seres que o rodeiam não permitem que os meios para alcançar esse fim (a sociedade) sejam arbitrários Dupont de Nemours. na declaração das leis naturais” (Ibid. mas. 28.. Segundo Dupont de Nemours: 1) Ora.. p.. alguns exemplos: 1) Para destacar. p. de seus discípulos. a questão não se dá de outra maneira. 32 . outra vez. a ser maçante. as duas regras fundamentais que acabo de estabelecer segundo a própria ordem física.] (Ibid. A insistência de Quesnay. p.

que constituem a ordem a mais vantajosa aos homens reunidos em sociedade (Quesnay. 104). Quesnay diz textualmente que “o fundamento da sociedade é a subsistência dos homens” (Ibid. portanto.]. para Quesnay a sociedade é o lugar. do exercício e da plenitude do direito natural... sujeita. desde a origem das sociedades. a lei fundamental concernente ao imposto. Para Quesnay. p. mas sim uma filosofia política baseada na ideia de que o econômico é a base da sociedade. na verdade. que é a noção de ordem. diz R. é que não haja nada arbitrário [. a lei mais essencial. evidente que o direito natural de cada homem se estenderia. 29. a uma medida certa e constante (Ibid. 1967.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani 2) A proporção à contribuição à renda pública esteve. p. é mais apresentada que explicada: 33 . razão em que nos preocupamos com a observação das melhores leis possíveis. Esta regra é de uma necessidade física (Ibid. a clef-de-voûte do sistema. 55). a noção de ordem natural. evidente que numa sociedade formada. pois. 1967. 189). Talvez o texto mais conhecido da escola fisiocrática – com exceção do de Quesnay – seja um texto de Dupont de Vemours onde essa ideia. que constitui o fecho. 54) –. Assim. Isso é dito claramente por Quesnay no fim do artigo sobre o direito natural: É. Kuntz. “a vida social tende a reforçar.. extremamente bem elaborado e coerente – que faz com que a teoria econômica seja muito mais que uma teoria econômica. ou melhor. todo esse edifício está baseado numa noção-chave. afinal.. 3) É. por uma necessidade física. por excelência. 179). p. o exercício do direito natural” (Kuntz. em oposição direta a boa parte de seus contemporâneos. p. 1982. pois. ao invés de extinguir.. Todo esse edifício pacientemente montado. já que a lei natural deve ser consagrada pela lei positiva. p. 30.

já se esboçando uma hierarquia. sem que o estado político tenha menos consistência. e essa ordem é aquela que assegura aos homens reunidos em sociedade o gozo de todos os seus direitos.discurso 44 Existe uma rota necessária para aproximar-se o máximo que é possível do objeto da associação entre os homens e da formação dos corpos políticos. essencial e geral. A submissão exata e geral a essa ordem é a condição única para que cada um deva e possa esperar com certeza a participação a todas as vantagens que a sociedade pode oferecer (Ibid.. abaixo ou sob o conjunto das leis positivas delineia-se. 43). Vejamos um outro texto: Existe. uma ordem da qual as sociedades não podem se desviar sem serem menos sociedades. na verdade. que constituem as “leis naturais e essenciais da ordem social” (Ibid. a destruição absoluta da espécie humana (Dupont de Nemours. O que esses dois textos podem nos ensinar se os relacionamentos com o que vimos até agora? As leis positivas são leis meramente declamatórias. 1967. Nem sempre..] (Quesnay. que as leis positivas estão sujeitas a se desviar das regras imutáveis da justiça [.. que contém as leis constitutivas e fundamentais de todas as sociedades. portanto uma ordem natural e essencial à qual as convenções sociais estão sujeitas. p. logo. manifestamente. sem que seus membros se encontrem mais ou menos desunidos e numa situação violenta. já que: A multidão de leis contraditórias e absurdas estabelecidas sucessivamente nas nações prova.. p. Há. 343). Assim. 337-8). p. elas conseguem isso. 350). 1967. o conjunto das leis naturais 34 . pela observância de seus deveres. uma ordem que não se pode abandonar inteiramente sem operar a dissolução da sociedade e. uma ordem natural. sua função não é outra senão explicitar e colocar a claro esse conjunto de “leis primitivas e fundamentais de toda sociedade”. nos avisa Quesnay. 31. portanto. p.

segundo Quesnay. 35 . o gozo dos direitos naturais. Na verdade. Ao contrário. sob pena de. Nemours nos diz claramente que o conjunto das leis naturais (físicas e morais) constitui a ordem natural que é responsável pela constituição das sociedades: “há uma ordem natural. com um mínimo de despesa. 1967. se negligenciamos em nos esclarecer sobre a ordem que eles constituem. ao máximo de fruição. e de nos submeter àquilo que nos é prescrito (Dupont de Nemours. é o respeito a elas que leva os homens e a sociedade ao maior grau de felicidade possível. i. no limite sermos levados à aniquilação que constitui o conjunto das leis naturais. assim como a forma de constituição da sociedade. não as observando. 1967..RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani (físicas e morais) que atuam de forma coercitiva sobre os sujeitos e as sociedades. diz Quesnay. desde que eles respeitem as leis naturais e procurem vantagens recíprocas. Essa é a razão fundamental do porque o direito natural só se realizar plenamente desde que sejam obedecidas as leis naturais. isso não significa dizer que elas são más. já que aqui não há nenhum concurso e nenhuma ajuda mútua.e. p. e onde os fortes podem usar injustamente da violência contra os fracos. 45) . p. 32. Já quando os homens entram em sociedade. 350). e evitar os males que eles nos trariam inevitavelmente se nos recusamos. eles sem dúvida aumentarão seu gozo e assegurarão a permanência deste (Quesnay. É a esse conjunto de leis férreas que estamos submetidos. só podia ser muito limitado no estado de pura natureza. Citemos mais um excerto de Dupout de Nemours: A natureza nos rodeou de leis supremas e de um encadeamento físico e inviolável de causas e efeitos que não deixam à nossa inteligência e à nossa liberdade senão o cuidado de estudá-los e de a eles conformar nossa conduta para aproveitar as vantagens que ela nos ofereceu. 33. As leis naturais delineiam e delimitam o campo da ação dos homens. Se elas são férreas e inflexíveis.

a não observância dessa ordem leva à dissolução do liame social e. por consequência. “O bem físico e o mal físico. elas foram instituídas por Deus e são as melhores que se pode conceber: Essas leis soberanas. ao perecimento da espécie. 1967. ou melhor. essa ordem natural tem duas características fundamentais: 1ª) Ela caracteriza-se como um sistema imutável. Toda sociedade que respeitar essa ordem levará os seus membros à maior fruição possível dos bens e.discurso 44 essencial e geral. Mais ainda.. a mais vantajosa ao gênero humano (Ibid. e a regra fundamental de todas as leis positivas. no limite. Quesnay concebe que essas leis poderiam ser outras. o bem moral e o mal moral têm. 53). visualizada no Tableau Économique. É essa noção de ordem o fecho teórico do sistema fisiocrático. p. portanto. porque as leis positivas não são senão leis de manutenção relativas à ordem natural. 48). diz Quesnay. p. que contém as leis constitutivas e fundamentais de todas as sociedades”. portanto. 53) .. Mais ainda. o mais perfeito.. 34. p.. mas argumenta que elas devem ser as melhores possíveis no vasto plano geral da criação: 36 . evidentemente. melhor sociedade possível. 52) e todos os homens e as potências humanas devem a ela se submeter (Quesnay. cuja dinâmica essencial e básica está descrita. evidentemente. a base do governo. p. à maior felicidade possível. Ao contrário. 1967. instituídas pelo ser supremo [.] são imutáveis e irrefragáveis e as melhores possíveis. sua origem nas leis naturais” (Quesnay. Existe uma ordem natural constituída pelo conjunto das leis naturais que dão origem ao direito natural humano e à constituição da melhor sociedade possível. ela constitui o “fundamento essencial e imutável do direito natural” (Ibid.

e não podem se elevar à visão do destino das regras imutáveis que ele instituiu para a formação e a conservação de sua obra (Ibid. ele não oferece problemas: A ordem natural. o homem tem aquele de fazer sua parte a melhor possível. numa 37 .. O texto não é muito claro. 2ª) A segunda característica dessa noção de ordem natural é que ela se insere num conjunto maior. e que os homens não podem penetrar nas intenções do ser supremo na construção do universo. Essa superioridade pertence à sua inteligência. p.. Por outro lado. 46) .. não é talvez a mais vantajosa aos outros animais. no direito ilimitado. ainda no artigo sobre o direito natural. se às vezes vemos desigualdades no plano do gozo do direito natural. argumenta Quesnay. quando são conformes à ordem e aos fins a que Ele se propôs [. segundo os desígnios de Deus. verossimilmente menos conformes à perfeição. a ordem natural humana (que é uma ordem puramente física em dois sentidos: no sentido em que tudo é físico. na parte que nos interessa. a mais vantajosa aos homens.. a qual o autor da natureza conseguiu na sua obra: aquelas instituídas são justas e perfeitas no plano geral. p. num vasto conjunto.. devemos levar em conta que isso é o resultado das combinações das leis da natureza. mas. Assim. ela é do direito natural porque o homem a tem do autor da natureza. nesse conjunto que é o universo totalmente regulado pela ordem.] (Ibid. no sentido corrente) se insere numa vasta. 48) . p. 53). mas. que assim decidiu pelas leis que instituiu na ordem da formação do universo (Ibid.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani Outras leis teriam outras propriedades essenciais. O texto decisivo de Quesnay está numa nota inserida no capítulo V. e no sentido em que trata desde o início de relações do homem com a natureza.

inflexível. 1987. não há objeção. obra na qual Quesnay colaborou e escreveu todo o cap. 115). 35. Com relação à Quesnay. a ordem natural implica em ordem providencial. não deixam a menor dúvida. e a do artigo sobre “direito natural”. do mesmo livro. Retomemos os pontos essenciais dessa noção de ordem. 37. Logo no início destes textos colocamos que vários autores já apontaram para essa relação.. como o conjunto das leis naturais que Deus instituiu na criação do universo. tal qual ela se explicita nos textos dos fisiocratas. de ponta a ponta. Mercier de la Rivière toma como epígrafe de sua obra sobre a ordem natural e essencial das sociedades um texto de Malebranche.e. Um outro indício revelador da mesma é o fato de Mirabeau ter inserido todo o capítulo III. que constitui.discurso 44 enorme ordem que é a ordem cosmológica. na sua “Filosofia Rural” (Kuntz. Essa ordem é imutável. do “Tratado de Moral”. Ela aparece. i. A partir desse momento é praticamente impossível não relacionar o pensamento fisiocrata com a doutrina de Malebranche. Resta saber qual a extensão dessa influência e se a concepção de ordem que se delineia nos fisiocratas é herdeira da mesma noção em Malebranche. ordem segundo a qual Deus construiu o universo. 36. Que há elementos malebranchistas no pensamento de Quesnay e dos fisiocratas. que diz: “‘A ordem é a lei inviolável. 115). p. VII. coercitiva e estabelece uma hierarquia que tem por finalidade a maior felicidade humana possível. em primeiro lugar. de Malebranche. Eis um outro aspecto onde Quesnay é herdeiro do Direito Natural clássico. a leitura do artigo “Evidência”. 1982. O pensamento de Malebranche é inteiramente dominado 38 . a maior fruição dos bens que os homens podem obter através do exercício do trabalho. uma filosofia onde a noção de ordem é central. dos espíritos e nada é regulado se a isso não se conforma” (Malebranche. que é dedicado ao “Amor da Ordem”. Assim.

36). segundo Malebranche). de uma ordem imutável e hierárquica de perfeições segundo a qual Deus organiza o cosmos e. válidas por elas mesmas. ela deve ter sua explicação última na ordem. ou que ele age conforme uma ou outra. a justiça. p. A sabedoria condiciona a justiça como ação. invencivelmente. à justiça. Pode-se dizer. e ser explicada por ela. especulativamente conhecidas no verbo como verdades. é bom assinalar que a noção de ordem em Malebranche envolve dois aspectos: ela deve ser considerada em relação ao conhecimento. Assim. mas das verdades da ordem. mesmo onde nós encontramos a desordem. o mundo dos valores. não há como negá-la. normativas. conforme a ordem. por outro lado.. Assim. ela não tem lugar. em Malebranche. o conhecimento não só das verdades especulativas. 33-4). na medida em que um juízo de amor se ajunta ao juízo de evidência. a noção de desordem aparece como problemática em Malebranche porque. que Deus obedece à ordem. e. o modo de agir e fazer segundo a ordem. certa determinação ao movimento da vontade (Ibid. ao contrário. a ordem é a hierarquia das perfeições em Deus. de um lado.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani pela noção de Ordem. independentemente da vontade do sujeito (Gueroult. p. em Malebranche. e impõe. As relações de perfeição que a constituem são. de outro. De qualquer forma. 1959. obrigatórias para o sujeito. e ele é justo essencialmente e por si mesmo. A ordem malebranchista aparece como um conjunto de perfeições que existem em si. 39 . já que Deus conhece todas as coisas que ele contém e. e se tornam. ele ama imutavelmente essa ordem imutável. amando-as na proporção que são amáveis e estimáveis. pelas premissas da teoria. De qualquer maneira. em primeiro lugar. 38. a sabedoria. e como lei para a vontade. de onde Malebranche conclui que. da mesma maneira que as relações de grandeza (as verdades especulativas. sobretudo. e que são. Esse é um ponto importante: Deus mesmo está submetido à ordem. Suas vontades são conformes à ordem.

Na verdade. por oposição.discurso 44 39. 40. E por causa disso. parágrafo 13.”.. VIII. nem podem supor. Quesnay são herdeiros da teoria malebranchista da ordem é preciso. Os homens. i. Para dizer. mas em Deus. quando ele a aloca em Deus: atributos absolutos na medida em que são absolutos não supõem.. O que significa dizer que na filosofia de Malebranche a expressão “Deus agir como Deus”. um problema que parece sem solução.. significa dizer que Deus não pode agir senão conforme a ordem de seus atributos. E Malebranche define a ordem em Deus5 como consistindo nas “relações de perfeição que existem entre os atributos (perfeições absolutas) e entre as ideias que ele contém na sua substância (perfeições relativas)”.e. a essa ordem está submetida. É. se a teoria da ordem constitui uma noção-chave de seu sistema. E. 40 . nem diferença. em Descartes que encontramos a teoria das 5 Em “Entretiens sur la Metaph. independentemente de sua relação com a criação. na verdade. que os fisiocratas e. têm valores diferentes: em si. a justiça vale mais que a onipotência etc. 41. de direito e de fato. portanto. a justiça e a ordem. Eis o paradoxo da teoria malebranchista da ordem. o grande problema da teoria malebranchista da ordem está no fato de que ela inclui essa ordem em Deus mesmo. esse paradoxo é praticamente insolúvel na filosofia malebranchista e. e procurar melhor entender o que isso pode significar. aplicam-se então a Deus. não são justos por eles mesmos. sobretudo. ela envolve. mais ainda. nem hierarquia. Portanto. pelo menos. porque esta ordem imutável da justiça não se encontra neles. por sua vez. em virtude dessa premissa. a criação inteira. conforme a seus atributos. o que implica em dizer que os atributos de Deus. tomar cuidado com essa afirmação. considerados neles mesmos.

vamos dizer assim. Que as verdades matemáticas. “Deus estabeleceu as leis da natureza. Outra tese. Uma delas submete a ordem inclusive a Deus. com a liberdade divina. e sujeitá-lo às stix e aos destinos. falar que essas verdades são independentes dele. É na famosa carta de 15 de abril de 1630 que irrompe. Deus também está submetido à ordem. com efeito. as quais você denomina de eternas. e a ela (a ordem) deve estar submetida. e dependem inteiramente. Quer dizer que os constata passivamente. segundo Descartes. Essa tese é especificamente cartesiana. submetido a ela. E o texto tem uma continuação interessante: É. Basta ler o texto. malgrado ele mesmo. Caso de Malebranche e Leibniz. subitamente. claramente delineadas. Para falar mais claro. Senão. 42. Deus está sujeito a uma coisa. como se Deus as constatasse passivamente. por ex. a concepção que tem da liberdade divina contraria uma concepção onde as verdades matemáticas fazem parte do entendimento divino. E. outras relações se estabeleceriam. O excerto não pode ser mais claro: depende da vontade de Deus que 2 + 3 sejam iguais a 5. 43. está. tanto quanto o resto das criaturas. Enfim. essa tese. As duas noções de ordem. assim como um rei estabelece leis em seu reino”. o que entra em contradição. onde a ordem deve estar submetida à vontade de Deus.. compartilhada por Quesnay (conferir § 34). vejamos. também foram estabelecidas por Deus. Numa outra carta. se Deus quisesse.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani verdades eternas. de 06 41 . falar de Deus como Júpiter ou Saturno. que influenciou Quesnay. A ordem é superior à vontade de Deus. como. 2+ 3 igual a 6. Assim.

porque é uma mesma coisa: querer. porque em Deus é uma só e mesma coisa o querer e o conhecer. E adiciona: Se os homens entendessem bem o sentido das suas palavras. E não há necessidade de questionar em qual gênero de causa essa bondade. 44. que a verdade de algo precede o conhecimento que Deus tem. depende de Deus (Respostas às sextas objeções. qui Deus illas veras aut possibles cognoscit. Deus as conhece como verdadeiras. sendo que uma não precede a outra. disso mesmo que ele quer. entender e criar. mesmo logicamente. ele conhece por aí essa coisa e. e nada o impediria. porque ele quer que a sejam. qual a necessidade de Deus ao criar essas verdades? Tudo isso está na liberdade de Deus. E não se pense que é só um arroubo de juventude. de fevereiro de 1647). sem blasfêmia. 45.discurso 44 de maio de 1630. nom autem contra veras a Deo cognosci quase independenter ab illo sunt vera. de maneira que. Por exemplo. VII). a mesmíssima posição é defendida. nos Entretiens avec Burman. como nada obsta que Ele criasse um mundo totalmente distinto deste que nós vemos. E. nem todas as outras verdades. somente assim. de fazer com que 2 + 3 fossem iguais a 5. tanto matemáticas quanto metafísicas. na missiva a Arnauld: 42 . por fim. O mesmo vale para a moral: A razão da bondade (das coisas) depende do que Deus quer fazer. eles não poderiam jamais dizer. tal coisa é verdadeira. Isso fica mais do que claro: Sunt tantum vera aut possibles. bem como na carta a Arnauld (29 de julho de 1648). portanto. Nas cartas a Chanut (1°.

que Ele livremente escolheu. dada sua onipotência. Enfim. que nós não somos capazes de entender. Deus pode criar tudo. é capaz de fazer o que um espírito finito não é capaz de conceber. Mas isso não significa dizer que. que resumem admiravelmente bem esse desacordo. outro para o gênero humano. tanto da sua existência. não há como mudar essas verdades. Nas palavras de Gueroult. Uma vez sendo criado o mundo. não é senão uma vontade inconstante e. sendo na dependência de sua onipotência. na sua liberdade. Essas coisas dependem de Deus. 46. segundo Malebranche. o possível e o impossível: “Eu tenho por assegurado e creio firmemente que Deus pode fazer uma infinidade de coisas. E se há algumas coisas impossíveis. nem de conceber” (Respostas às quartas-objeções. o é no terreno de outra ordem: por ex.. senão fere-se o princípio da imutabilidade divina. para Descartes. uma vez postos esses princípios. o conceito de possibilidade é equívoco: sendo um para Deus. Então. isso não é realizável aos olhos de Deus. me parece que não se deve dizer que alguma coisa é impossível para Deus. eu não ouso mesmo dizer que Deus não pode fazer uma montanha sem vale. mas digo somente que me é dado um espírito de tal natureza que eu não posso conceber uma montanha sem vale. quanto da sua essência. afetada de um defeito. O que é transparente 43 . Agora nós vislumbramos melhor o que há de diferente entre Malebranche e Descartes. por consequência. as verdades eternas exprimem as relações necessárias das coisas. De qualquer maneira. 7). ou que 1 + 2 não façam 3. Deus.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani Para mim. a razão está em que. veja-se bem. 47. Quer dizer. Deus não pode nada criar que seja liberto das condições postas pela Ideia concebida como possível. porque tudo o que é verdadeiro e bom. Deus mentir. porque uma vontade que se corrige ela mesma. ao contrário. as verdades lógicas e físicas são para sempre.

e ninguém contesta isso. a influência do pensamento de Santo Agostinho sobre Descartes é inegável. e que 2 + 3 são 5. parágrafo 29. questão 16.discurso 44 para Deus – a união da alma e do corpo. isso é perfeitamente realizável no plano divino. 10 Id. artigo 7. ela mesma. ibid. mas sua ação. é em virtude dessa mesma ordem que ele se rege a si mesmo. 7. Por ex. I. 8 Id.). “Diz Santo Agostinho que não há coisas mais eternas do que o conceito de círculo. logo depois. se tudo é bem: “ali onde tudo é bem. necessariamente. parágrafo 2. da justiça parece inspirar-se diretamente em Santo Agostinho6. mas.. a posição se inverta. a transubstanciação – é perfeitamente impenetrável para o gênero humano. Essas distinções são impossíveis. a encarnação. I.. dada a onipotência de Deus. Logo. está submetida à ordem”7. cap. ele nota que todas as expressões dessa ordem (harmonia entre coisas opostas. Particularmente sua doutrina da ordem. porque existe uma soberana igualdade. ou essa ordem preside ao governo de todas as coisas.1. ibid. Cap. 9 Id. algumas distinções. no De Natura Boni. 44 . viu-se frente a um problema extremamente semelhante ao de Descartes. No “De Ordine”. qual a ordem não é necessária”9.. depois de haver afirmado que Deus governa tudo pela ordem: “não somente Deus conduz todas as coisas. que. O problema é colocado com todas as letras por Santo Agostinho: Com relação à questão: se Deus governa tudo com ordem. a ordem não existe. aliás. É isso que faz com que. II. 48. ibid. 10. sem que Ele esteja compreendido10? 6 Grande parte dos medievalistas posteriores a Santo Agostinho interpretaram assim. e que essa ordem vem e permanece Nele8... a verdade criada é eterna” (São Tomás de Aquino.. Mas a verdade dessas coisas é uma verdade criada. Ora. justiça como repartição equitativa das recompensas e punições entre os bons e maus) supõem. 7 “De Ordine”.

e outra que reside nas coisas. Trata-se. regendo todo o existente. e que constitui a adequação da coisa com o tipo ou a natureza que a constitui essencialmente.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani A outra questão também é abarcada claramente por Santo Agostinho: afinal. ibid. ou é expressão da sua própria natureza? A vontade de Deus é distinta de sua razão. então. não de uma lei regendo a hierarquia de seus atributos. para realizar tal ou tal fim. ao contrário. e que essa ordem.. de 11 Id. Mas esse impasse deixa várias questões. ou razão e vontade estão unidas Nele de uma maneira que nos escapa? 50. uma justiça à qual se remete a vontade criadora ou o ato mesmo dessa vontade onipotente? A lei da justiça. Santo Agostinho acaba desembocando nos mesmos problemas que Malebranche. afirmar que Deus é o bem absoluto não significa dizer que Ele é estranho à ordem. afirmar: “as coisas tomadas no seu conjunto são governadas por Deus. a ordem ou a justiça é concebida de uma maneira extremamente genérica: trata-se. que constitui a ordem em Deus. 45 . obriga a vontade divina exteriormente. e governada por ela. e o são pela ordem”11. rege tanto o bem quanto o mal? Assim. 49. no “De Ordine”. porque essa doutrina supõe que a ordem sempre existiu. Trata-se dos textos contra os Maniqueus. quando falamos que a ordem rege tudo o que existe. Existe um outro conjunto de textos de Santo Agostinho que esboça uma solução mais coerente para esses problemas. Mas. determinando assim invencivelmente e a priori a vontade criadora a agir de tal ou tal maneira. Neles Santo Agostinho distingue duas ordens: uma que reside em Deus e que caracteriza suas ações. tais como: em relação a que se determina a hierarquia de todos os bens? É uma sabedoria. o que permite. não falamos somente no bem. solução maniqueísta que deve ser afastada. Em Deus.

Desse ponto de vista. uma lei orgânica ou harmônica condicionando e conservando a natureza perfeita do todo que a vontade divina decidiu colocar no plano da existência. e.discurso 44 uma vontade que. o próprio fato de sua existência atesta sua bondade. certamente. quer dizer. porque a que não está corrompida é boa. a ordem em Deus que é a perfeita e necessária apropriação de sua ação ao seu fim: a ordem nas coisas como adequação das coisas criadas àquilo que Deus quis criar. Ele cria perfeitamente aquilo que quer criar. que são feitas do nada e que. não haverá jamais uma distância entre o criado e sua essência. quanto àqueles esboçados no “De Ordine”. o que implica. p. sua criação só pode ser perfeita. pode impedir Deus de criar aquilo que ele quer criar. foram ordenadas de tal maneira que os mais débeis se subordinam 12 Santo Agostinho. Fonte do Sumo Bem. Mas. está sempre apropriada aos fins que arbitrariamente se propõe. enquanto a sua ordem e a sua beleza. IV: A natureza má é. não podem ser nem felizes nem infelizes. de Deus. sendo onipotente. “Da natureza do bem” in Obras Filosóficas. Mas como são boas. Nada. já que a obra divina é sempre perfeita. corrompida. Isso é afirmado nos seis primeiros capítulos do “Da natureza do Bem”. bom. no limite. 46 . é boa enquanto é natureza. todo ser é. são inferiores ao espírito racional. Assim. e enquanto está corrompida é má12. por muito pequena e insignificante que esta seja. 826. E. 51. pois. Agora se pensa a noção de ordem sob dois aspectos. Dessa maneira esboça-se em Santo Agostinho uma teoria da ordem que escapa tanto aos paradoxos da teoria malebranchista. já que é onipotente e. As demais coisas. Em primeiro lugar. já que o mal consiste no não ser. no cap. ipsofacto. ainda assim. receberam a bondade. em virtude dessa onipotência. nessas coisas. porque perfeita. Madrid: BAC. portanto. aquela que está corrompida.

ordem e natureza são a mesma coisa. qual seja o mal que possa em aparência existir no mundo.e. E.e. I. uma ordem que a ultrapassaria em seus domínios: 13 “Da natureza do bem”. em subordinação do inferior ao superior e mais excelente13. um princípio. ordem e lei não são estritamente idênticas. a perfeita adequação da coisa criada à sua forma. 47 . daí a consequência que. e porque Dele só provem tudo isso que de qualquer modo existe. Deus ama o bem e detesta o mal15. Bem. 26 s. é absurdo pretender ir além para procurar em seus atos uma razão. porque a ordem ultrapassa a lei). quer dizer. seja espiritual seja corporal. ao mesmo tempo. a lei e a justiça emanam da onipotência divina.. tudo é mutável: e por ser Ele imutável. Essa lei é. O que fica claro nesses textos de Santo Agostinho é que Deus executa sempre perfeitamente o que quer e. em virtude da ordem. e uma lei de subordinação do inferior ao superior. i. o muda em conformidade com o mérito da natureza ou das ações14. sendo a desordem apenas uma aparência. 829. p. 15 “De Ordine”. porque existe verdadeiramente. e porque Ele se serve de toda criação como Lhe apraz e a Ele apraz. i..RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani aos mais fortes. e assim também o terreno se harmoniza com o celestial. que ele mesmo é. uma lei de coordenação. 8. cap. os menos potentes aos mais poderosos. 52. 14 Contra Faustum. Uma consequência disto é que ordem e lei da natureza são idênticas (quer dizer. Como diz admiravelmente Santo Agostinho no Contra Faustum: Ele é o único que verdadeiramente pode ser dito como onipotente. 7. esse mesmo mundo possui uma plena perfeição intrínseca constituída pela lei da harmonia ou justiça. A imperfeição só aparece nas partes. o conjunto é perfeito. de relações recíprocas. segundo a justiça verdadeira e imutável. os mais frágeis aos mais duráveis. Sendo assim. o não-ser que tenta limitar e corromper o ser que ele criou e se opõe à ordem divina.

2) Ordem e natureza não são idênticas. por mais que Malebranche se diga discípulo de Santo Agostinho. somente a ordem é inviolável. muito mais. e de maneira bastante clara. Portanto. cap. em seguir a ordem da natureza. porque a natureza.discurso 44 Porque pesquisar as causas da vontade de Deus. em Malebranche. 53. lei inviolável de todas as inteligências e de Deus mesmo. não a lei natural. segundo Malebranche. é ordem. Em outros termos. Já em Santo Agostinho não existem leis arbitrárias da natureza. É exatamente por essa teoria. mas em se submeter em todas as coisas à Ordem imutável e necessária. de opor uma a outra. 3) Por último. 16 De Genesi contra Manichaeus. A perfeição ou a virtude não consiste. por definição. mas. que ele se afasta deste. 2 48 . toda a natureza. já que a ordem submete inclusive Deus. Para obedecer à ordem é preciso lutar contra a natureza. inclusive. para Malebranche. É impossível pretender distinguir uma da outra e. Pelo menos em três pontos: 1) Enquanto que em Malebranche. àquele que pergunta porque Deus fez o céu e a terra. As desordens que vemos na natureza não são senão aparências. enquanto as segundas são eternas e necessárias. se opõem frequentemente. a resposta é: porque quis16. Já em Santo Agostinho ordem e natureza não faz senão uma mesma coisa. É impossível conceber leis da natureza que não tenham uma necessidade absoluta. I. portanto. existem leis da natureza distintas das leis da ordem. ordem e lei da natureza são estritamente idênticas em Santo Agostinho. quando essa vontade é a causa de tudo o que existe. Já para Santo Agostinho. distintas da lei eterna da ordem. já que as primeiras são temporais e arbitrárias.

).RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani assim como a ordem. em ambos os sistemas de pensamento um mesmo problema. e encará-la sobre um aspecto laico. Para Quesnay: por que Colbert fez o que fez? Em ambos os sistemas. cosmológica instituída por Deus17. Pelo menos em seus pontos essenciais: 1) Nós vimos que para os fisiocratas existe uma ordem universal. em gênero. se resumem no problema do Mal e do pecado original. neste. Para Malebranche o grande problema é porque Adão pecou. desde a desordem puramente natural (os monstros. por ex. 17 “Direito Natural”. sobretudo a semelhança das fórmulas com relação à noção de ordem (essa regra ou lei imutável governante dos seres do universo) faz com que o leitor seja levado a pensar que Quesnay e seus discípulos nada mais tenham feito que aplicar a um domínio particular essa fórmula malebranchista. 54. 49 . Feito este percurso. 55. e uma ação de Deus contrária à natureza é impossível.). Além disso. pese esse conjunto de semelhanças. Mas. até a desordem psico-intelectual (o erro. se coloca: o da desordem. mas que. é inviolável. acreditamos haver mostrado que a noção de ordem natural que é utilizada pelos fisiocratas é herdeira mais direta da concepção agostiniana de ordem. por ex. Já nos fisiocratas a desordem toma a forma do desvio: como as sociedades podem se desviar do reto caminho de sua felicidade e prosperidade. podemos retomar a questão da qual partimos: qual a relação da noção de ordem de Malebranche nos fisiocratas? Existem elementos extrínsecos e intrínsecos que mostram claramente a presença da filosofia malebranchista no pensamento fisiocrático. Mas. V. que se configura em múltiplos aspectos em Malebranche. cap. do que da concepção malebranchista. há respostas para essa questão.

não podendo penetrar nos planos do ser supremo sobre a construção do Universo. Kuntz insinua que Quesnay parece hesitar neste ponto. Kuntz.. por sua natureza. no plano geral. superior às leis e às regras21. Leiamos seu texto: Bem definida quanto ao caráter transcendente e objetivo da ordem. Temos a impressão que o texto de Quesnay não deixa margem a dúvidas: Outras leis teriam outras propriedades. R. p. ele também apresenta as leis como as melhores possíveis – como se o autor. Quesnay.. mas ele mesmo não está submetido a ela19. não podem elevar-se até o destino das regras imutáveis que ele instituiu para a formação e a conservação de sua obra” (grifo nosso). p. a posição de Quesnay é menos nítida. O Prof. 50 . “Direito Natural”. 337. No entanto. 48 e 53. 46 21 Quesnay. quanto à relação entre Deus e essa ordem. R. aquelas que ele criou são justas e perfeitas. embora ele seja um especialista dos mais competentes no assunto. 114-5. no entanto. não pudesse. “Droit Naturel” in Daire. como algo subordinado à vontade Divina. haver criado outros princípios20. 48. cit. 20 Kuntz. 3) Que essa ordem é instituída por Deus. essências verossimilhantemente menos conformes à perfeição à qual o autor da natureza criou sua obra. como “produto da vontade suprema do criador”. porque é ele mesmo o autor das leis e das regras e. Op. 18 Nemours. p. “E os homens. 19 “Direito Natural”. p. frequentemente. Ela aparece. cit.discurso 44 2) Que no interior dessa totalidade existe uma ordem natural composta do conjunto das leis naturais às quais os homens estão submetidos18. p. Neste ponto nos damos o direito de divergir do Prof. por consequência. porque são conformes à ordem e aos fins que propôs. op. “L’Origine et Progréss…” in Daire. enfim.

Op. N’estil pás évident par tout ceci que Dieu n’agit point par des volontez particuliéres?” 51 . T. cit. Se calcularmos sem prevenção. p. 24 Nas “Méditations Chrétiennes et Métaphysiques” (Oeuvres Completes. et cependant il pleut fur les fablons et dans la mer. No primeiro caso. que as causas físicas do mal físico são as mesmas causas dos bens físicos. que o mal que elas causam por acidente resulta. A incompatibilidade ou problema só aparece quando nós queremos aproximar o esquema dos fisiocratas do esquema malebranchista. como faz L. cit. 22 Dumont. da própria essência das propriedades pelas quais elas operam o bem23. Esse exemplo faz com que nos lembremos quase que involuntariamente do mesmo. ainda. 121) lemos.RAÍZES RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani Ora. o próprio curso da ordem pode provocar efeitos colaterais maléficos e indesejáveis. o seguinte exemplo: “Dieu fait pleuvoir dans le deffein de rendre les terres fécondes. Trata-se de dois casos diferentes. perceberemos. ainda no artigo ‘’Direito Natural”: Entretanto. no sentido estrito. com efeito. veremos que estas causas produzem infinitamente mais bem do que mal e que só são instituídas para o bem. p. a semelhança dos exemplos e da intenção que está contida neles é a mesma. necessariamente. X. 1967.. se examinarmos essas regras com atenção. Paris: Vrin. Op.. e essa ordem é a melhor possível. 23 In Daire. e pode ser objeto de desvios pela ação dos homens. 4) Que essa ordem pode produzir efeitos colaterais indesejáveis. ao menos. p. ou quase o mesmo exemplo. que é dado frequentemente por Malebranche24. 46. nós acabamos de ver que em Santo Agostinho se delineia uma teoria da ordem onde Deus é superior à ordem das coisas criadas. il pleut dans les grands chemins: il pleut également dans les terres inégalement cultivées. O exemplo clássico está em Quesnay. 53. Certo. à concepção Leibniziana do universo. Ou. fertiliza as terras. assim como a chuva que incomoda o viajante. Dumont no “Homo Aequalis”22.

há um alto preço a pagar por isso. quando gostaria de ser ainda mais livre. não se está querendo dizer que em Santo Agostinho os fisiocratas encontraram seu modelo de ordem natu- 25 Quesnay. mas.. No segundo caso.. se quiser. 66). p. se destrói a sua saúde. 52 . nem deveria esperar senão a devastação e a escravidão” (In Los Fisiócratas. mesmo os ricos. não percebendo estar em contradição consigo mesmo25. liberdade esta que não consiste numa intervenção ativa. a este parece nunca estar errada. i. que têm mais meios de evitá-los. Kuntz cita um caso elucidativo: posso. que o homem gostaria de estender para além de seus limites. se acaba com seus bens e arruína sua família pelo mau uso da liberdade. mas de um mau uso dela. e mesmo por seus prazeres muitos males pelos quais somente seu desregramento pode ser culpado. o Estado debilitado por todas as partes. é uma explicação agostiniana. 56. nem pode. que não é do mesmo gênero que as leis físicas: é o mau uso da liberdade dos homens. numa não observância das leis. por suas paixões. queixa-se do Autor de sua liberdade. por sua ambição. op. não nos esqueçamos. O Prof. quase sempre. o que está em questão é a liberdade humana. op.. Em todo caso. estes desvios se constituem num desrespeito constante e contínuo à lei natural fundamental de que a terra é a fonte de toda riqueza. A liberdade. cit. 46-7. No caso específico dos fisiocratas. p. no limite. ao colapso: As transgressões das leis naturais são as causas mais extensas e mais comuns dos males físicos que afligem os homens. conforme nós vimos. Isso nos leva insensivelmente a uma outra causa do mal físico e do mal moral. esse atributo constitutivo do homem. o dos desvios.discurso 44 Mas. “Droit Naturel” in Daire. me jogar num abismo. cit. Com isso tudo. não esperou.e. No “Diálogo sobre o comércio” este afirma o seguinte: “Quando essa multitude de causas pelo esquecimento da ordem natural acarretou a destruição dos costumes. atraem para si. se ele faz mal a si mesmo. num desprezo à agricultura que leva as sociedades à decadência e. não se trata de uma violação da lei. mas.

é a que se tem da noção de ordem em Malebranche – e aplicado esse esquema. superficialmente. FACARELLO. no. “Detail sur le France”. no. P. T. 1959. 1983. 3. LTD. DEYON. Na verdade. In Pierre de Boisguilbert ou la naissance de l’économie politique. Bibliografia BOISGUILBERT. 2 vols. “Quelques réflexions sur l’equilibre économique chez P. L. Essai sur la nature du Commerce en general. Edited with an English translation and other material by Henry Higgs. Institut National d’Etudes Démographiques. nem a concepção de lei (uma concepção moderna.. ausente em Santo Agostinho) – a produzir uma síntese original. O importante é perceber que se trata do mesmo modelo teórico. Paris. P. Gradiva.RAÍZES FILOSÓFICAS DA NOÇÃO DE ORDEM NOS FISIOCRATAS | Luiz Roberto Monzani ral. Lisboa. entramos no terreno movediço da pura hipótese e. London. concepção que. 1966. DUMONT. C.B. 1991. G. Reissued for The Royal Economic Society by Frank Cass and Co. Nem nos interessa saber se Quesnay e seus discípulos leram e meditaram Santo Agostinho. Boisguilbert”. sem saber que estava. 1971. do nosso ponto de vista. XVIII. aqui. original a tal ponto que delimitou um novo campo teórico: o da economia. 1. é hora de parar. CONDORCET. Isso é um problema secundário. Sociales. 53 . Paris: Ed. Esquisse d’un Tableau des Progrès de l’Esprít Humain. aplicado num universo conceitual completamente diferente – já que nem a visão de mundo (influenciada pelo mecanicismo). na verdade. Gallimard. Homo Aequalis. Mas. CANTILLON. série PE. o mais provável que tenha acontecido é Quesnay ter partido de Malebranche – e esboçado uma concepção de ordem natural a partir de sua leitura. R. O Mercantilismo. portanto. aplicando outro. In Économies et Societés.. março de 1984. Paris.

Ined. 1962. Malebranche. Oxford. R. São Paulo: Brasiliense. MONTCHRÉTIEN. K. In Los Fisiócratas. 1963.G. F. prefácio e notas de Gérard Lebrun. Paris. “Do interesse social com relação ao valor [. I. Paris. L’ordre et l’occasionalisme.. Alcan. Quadro Econômico. QUESNAY. Paris. Obras escolhidas. GUEROULT. “Quesnay disciple de Malebranche”. M. Guillaumin. 1846. “Segundo diálogo sobre os trabalhos dos artesãos”. Maxima III. 54 . Capitalismo e Natureza. R. LetraFirme. Buenos Aires. DESCARTES. “Máximas gerais de um reino agrícola” (1767). A. Maxima III. Buenos Aires. 3 e 4. 1967. 1959. “Abragé des principles de l’economie politique”. Les cinq abimes de la providence. nos.. 1967. tradução de Jacob Guinsburg e Bento Prado Jr. MERCIER DE LA RIVIERE. 1978. Buenos Aires. 1958. G. Paris. 1967. Paris. SCHULL.M. MARX.-F. LetraFirme. History of Economic Analysis. A. KUNTZ. Maxima III. 1982. J. Traité de Morale. _______. 1987. “El orden natural e essencial de las sociedades politicas”. _______. Guillaumin. Paris. de. 1974 (Tomo 1). MALEBRANCHE. Paris. N. Lisboa. Vrin. Guillaumin. QUESNAY. Aubier-Montaigne. São Paulo. Introdução de Gilles-Gaston Granger. “História crítica da teoria da mais-valia”. LetraFirme. 1938. SCHUMPETER. Oxford University Press. In Les Physiocrates. 1846.]”. Buenos Aires. “Origine e prógres d’une Science nouvelle”. LE TROSNE. P. In Revue Philosophique de la France et de l’Etranger. Paris. Difel – Difusão Europeia do Livro. Traité de economie politique (1615). Malebranche II. 03/04/1938. Clacso Libros.discurso 44 KUBOTA. _______. In: 18 de Brumário. 1846. PUF. Buenos Aires: LetraFirme. RODIS-LEWIS. In: Los Fisiócratas. 1967. 1967. Les Physiocrates. In Los Fisiócratas. Fundação Calouste Gulbenkian. DUPONT DE NEMOURS. Maxima III. In Los Fisiócratas. “Malebranche et Quesnay”. In Quesnay et la Physiocratie. In: Les Physiocrates.