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ANO 22


tiragem:

ABRIL/2014

18 000 exemplares

Revolução na Ucrânia implode
o projeto da Grande Rússia

“C

rimeia e Sebastopol estão retornando à sua praia
natal, ao seu porto natal, à Rússia! Glória à Rússia.” O Vladimir Putin que assinalou, com essas palavras, o “reconhecimento” da Crimeia como “nação”
por Moscou, em 18 de março, apresentava-se como
um guerreiro triunfante. A Península da Crimeia,
base da frota russa do Mar Negro, foi efetivamente
separada da Ucrânia – e se juntou a outros pequenos
protetorados russos, como a Transnístria, separada da
Moldova, e a Abecásia e a Ossétia do Sul, separadas
da Geórgia. É, contudo, uma vitória de Pirro: o nome
do jogo é Ucrânia, não Crimeia.
A revolução de fevereiro na Ucrânia assestou um
duro golpe no sonho maior de Putin: a restauração
da Grande Rússia, sob a forma de uma União Euroasiática. Sem a Ucrânia, o projeto grão-russo não tem
futuro – e os ucranianos fizeram uma escolha pela
União Europeia quando derrubaram o governo prórusso de Viktor Yanukovich.
“Rússia e Ucrânia são uma única nação”, exclamou
Em Kiev, capital da Ucrânia, manifestantes pedem maior aproximação com a
Putin quando celebrava a anexação da Crimeia. A
União Europeia
afirmação, que certamente não reflete a opinião da
maioria dos ucranianos, tem raízes fincadas na mitologia nacional russa – e tem amplas implicações geopolíticas. O presidente
russo está dizendo que não se conformará com uma Ucrânia inclinada na direção do Ocidente. A pergunta é: até onde ele irá
para evitar a aproximação de Kiev com a União Europeia?
Tal pergunta sugere outras. A União Europeia está preparada para aplicar um mini-Plano Marshall de salvação da Ucrânia?
Os Estados Unidos pretendem incorporar a Ucrânia à Otan, ultrapassando a “linha vermelha” de Putin? E, por fim: uma nova
Cortina de Ferro se ergue na Europa?
Veja as matérias às págs. 6 a 9

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● Revista Pangea 2013: Questões e visões
do mundo contemporâneo – A partir da
segunda quinzena de março e a cada 15 dias,
os interessados poderão receber por e-mail
textos sobre assuntos da atualidade. Para
receber esses textos, acesse ao nosso site e se
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A Venezuela,
à beira do precipício

A escravidão segundo
Hollywood

O

modelo econômico chavista atingiu um ponto de esgotamento,
cujos sintomas são a inflação crescente e o desabastecimento
generalizado. Ao mesmo tempo, as tensões políticas elevaram-se até o
limiar de uma ruptura. Há sinais indisfarçáveis de divisão no regime,
mas a oposição também está dividida – e um setor dela aposta em
manifestações de rua para forçar a renúncia de Nicolás Maduro.
A crise da “revolução bolivariana” ilumina o cenário das Américas,
evidenciando os contornos de um complexo xadrez diplomático. Os
“bolivarianos”, com apoio do Brasil, tentam marginalizar os Estados
Unidos, usando a Celac e a Unasul para lançar a OEA à “lixeira da
História”.
Págs. 4 e 5

© Amakula/Creative Commons 3.0

● Editorial – Depredações
e vandalismos devem ser
punidos. Mas não podem servir como pretextos para a criminalização
do protesto legítimo.
Pág. 3
● Há 40 anos, a Revolução dos Cravos separou Portugal da África,
impondo ao país uma
profunda revisão de sua
identidade nacional.
Pág. 3
● Diário de Viagem – A
cultura judaica foi uma
marca definidora da
Europa Central anterior
à Segunda Guerra Mundial. Hoje, a região é um
“mundo sem judeus”
– mas com memória.
Pág. 10
● O genocídio de Ruanda,
20 anos atrás, deixou em
seu rastro uma guerra
sem fim que devasta o
leste da República Democrática do Congo.
Pág. 11
● O Meio e o Homem –
A energia eólica decolou
nos espaços abertos pelo
progresso tecnológico
dos aerogeradores e pelos dilemas ambientais
ligados aos combustíveis fósseis e às usinas
nucleares.
Pág. 12

© Disne/Buena Vista/Divulgação

E mais...

Nº 2

Outras redações poderão. ■ Quem julgará os trabalhos? As redações serão avaliadas por uma Comissão Julgadora integrada por professores de Comunicação e Expressão de reconhecido saber e experiência no ensino médio. ■ Qual é o prazo para o envio das redações? Serão aceitas redações recebidas na sede da Pangea. José Arbex Jr. Redação: Demétrio Magnoli. As folhas preenchidas deverão ser remetidas à sede da Pangea. não aceitaremos redações enviadas sem a anuência da escola.com. O 1º colocado receberá um aparelho de som no valor de R$ 800. durante o mês de maio. Do 2º ao 5º. Por razões pedagógicas.779) Revisão: Jaqueline Rezende Pesquisa Iconográfica: Odete E.4069 / 2506. cinco folhas pautadas e numeradas para a transcrição dos textos selecionados. no próprio boletim ou sob outra forma. Pereira e Etoile Shaw Projeto e editoração eletrônica: Wladimir Senise Endereço: Rua Dr. Nelson Bacic Olic (Cartografia) Jornalista Responsável: José Arbex Jr.com/JornalMundo Assinaturas: Por razões técnicas. ser publicadas. Do 6º ao 10º. 900. CEP 05592-010. Tel/fax: (011) 3726. eventualmente. Para mais informações. Exemplares avulsos podem ser obtidos no seguinte endereço. (MTb 14. Teremos prazer em creditar os fotógrafos. conter título. Tomamos a liberdade de sugerir que as escolas realizem um concurso interno de seleção. inclusive para garantir o sigilo: a Comissão Julgadora não terá acesso ao nome dos autores ou das respectivas escolas. As redações enviadas não serão devolvidas. Todos os leitores de Mundo podem participar.clubemundo.facebook. à Av. Importante: os autores. veja “O tema da redação” na pág.. em São Paulo (nosso endereço pode ser encontrado nesta página. Dalmo de Godói. serão ofertados prêmios em livros. ■ Quais devem ser as características das redações? As redações devem ter no máximo 40 linhas e. no Expediente). São Paulo – SP. São Paulo Fone: (011) 3283. 2 do Boletim Mundo nº 1 – março/2014 E X P E D I E N T E PANGEA – Edição e Comercialização de Material Didático LTDA. todos receberão um aparelho MP4 no valor de R$ 200.0340 www. sem remuneração autoral. concedem a Mundo o direito de publicar suas redações. MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO 2014 ABRIL  .Escreva e se inscreva!!! 19º Concurso Nacional de Redação­ de Mundo e H&C 2014 Regulamento ■ Quem poderá participar? Todos os alunos do ensino médio das escolas assinantes de Mundo. Cada escola receberá.br – www. ■ Qual é a forma de participação? Cada escola poderá enviar até cinco redações. caso se manifestem. ■ Haverá prêmios para os melhores trabalhos? Sim. não oferecemos assinaturas individuais.4332 E-mail: pangea@uol. ao participarem do concurso. mas apenas mediante a intermediação das escolas. 57. impreterivelmente até 6 de julho de 2014.com. ■ As redações serão publicadas? A redação vencedora será publicada e comentada na edição de outubro de 2014 de Mundo. Este formato é obrigatório.br Infelizmente não foi possível localizar os autores de todas as imagens utilizadas nesta edição. em São Paulo: • Banca de jornais Paulista 900. obrigatoriamente. Paulista. Os autores das dez melhores redações serão premiados por Pangea e empresas patrocinadoras do concurso.

tornou-se símbolo da revolução portuguesa. O governo federal tem razões de sobra para se preocupar: a proximidade da Copa de futebol promete estimular manifestações. a começar da maneira extremamente direitos humanos. durante uma manifestação no Rio de Janeiro. rismo’ e ‘desordem’. Nela havia uma frase que convinha ao momento vivido: “O povo é quem mais ordena. Vila Morena”. a canção serviu como senha para o movimento militar do 25 de abril de 1974 e. Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe – eram mantidas à custa de intensa repressão e conflitos contínuos. o PL dormitou nas gavetas do Senado até o dia 10 de fevereiro. Mas a vidos com atos ilegais. Naquele momento. Com as independências africanas. Criou-se um clima de comoção nacional que. Nos clandestinos protestos antissalazaristas. até 1974. A identidade portuguesa. a Anistia Internacional. em seguida. mesmo se não estão envol- PL 499 no afogadilho. a reforma política. A violência lusitana diante dos movimentos anticoloniais fez com que. produziu a derrocada do império colonial português. A Europa tomou o lugar da África: 40 anos depois da revolução.” A advertência é gravíssima. A resolução aprovada na época afirmava que “os movimentos de libertação nacional de Angola. principalmente recursos de origem britânica. sob o ditador António de Oliveira Salazar. no lugar de centro político. por “sugerir o retorno enfrentar os graves problemas que afetam o país ao tempo em que alguns tratavam as manifestações e que levam os manifestantes às ruas. põem em risco a liberdade de expressão e o direito à reunião pacífica. Os novos ‘crimes’ podem ser utilizados para criminalizar cidadãos que comparecerem aos protestos. Axé Silva é geógrafo formado pela USP. que poderia ser utilizado con- sociais como sendo ‘um caso de polícia’”. esquecendo-se também do legado cruel que deixou na África. Os portugueses não colocaram em prática o trecho de seu hino “Às armas. sobretudo. cantando a mesma “Grândola. Ironicamente. se é justificado pela gravidade do incidente. a falta de novos recursos e de apoio militar para a manutenção do império colonial levou Portugal a “perder a África”. ouvia-se “Grândola.” O movimento revolucionário democratizou Portugal e propiciou a modernização econômica e cultural do país. a ONU reconhecesse a legitimidade das lutas armadas nas colônias portuguesas na África. o cinegrafista Santiago Andrade. Sem a África. Vale lembrar: as colônias portuguesas no continente africano – Angola. Samora Machel mobiliza movimento pela independência de Moçambique as dívidas cobradas por seus credores internacionais. Os portugueses voltaram às ruas. indaga: o que seria “pânico generalizado” ou “infundir terror”? O PL propõe. professor da USP. às armas/ Pela pátria lutar!”. uma tipificação vaga do crime de “desordem”. O PL foi proposto como reação aos incidentes violentos (com depredação do patrimônio público e privado) verificados durante as Jornadas de Junho de 2013 e nos meses subsequentes. Apresentado em 2013. que estão sendo discutidas no pode ser utilizado para restringir ilegalmente os Congresso Nacional. de autoria do senador Romero Jucá (PMDB/ RR). O movimento revolucionário. e.” O jurista André Carvalho Ramos. professor e coautor do material didático do Sistema Anglo de Ensino MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO . Portugal ocupa posição periférica no interior de uma entidade articulada ao redor de Berlim. caiu por terra mais uma utopia lusitana: a de ser e se manter grande no concerto das nações do mundo. No PL está escrito: “Provocar ou infundir terror ou pânico generalizado mediante ofensa ou tentativa de ofensa à vida. concluídas em 1975. Portugal teve que se redefinir como Estado-nação. O general António de Spínola. As relações estabelecidas entre Portugal e suas ex-colônias africanas são esparsas – e não há nenhuma evidência de que possam se tornar mais dignas e equilibradas. O 25 de abril apenas acelerou um destino inscrito nas contas externas do país. deflagrado pelas Forças Armadas e dirigido na sua maior parte por capitães que tinham participado das guerras coloniais na África. Sem o império. talvez tão importantes quanto as Jornadas de Junho. Vila Morena” entoada em 1974. e seu sucessor. não deveria ser usado como forma de pressão para a uma manifestação pública. mas logo foi afastado do poder. ainda tentou evitar a derrocada do império colonial. No fundo. quando foi assassinado. voltou a representar um enigma desde que a crise econômica fechou o longo parêntese de crescimento e euforia aberto por aquele 25 de abril. mas também a identificação de um novo conjunto de prioridades: a busca da democracia. Tocada numa rádio que tinha sido ocupada pelos capitães. primeiro presidente do pós-revolução. pôs fim à mais antiga ditadura europeia. Portugal perdeu a África Axé Silva Especial para Mundo 25 de abril de 2014 assinala os 40 anos da Revolução dos Cravos. a fraca potência imperialista desviava as riquezas obtidas além-mar para saldar  ABRIL 2014 © Ria Novosti/AFP O Em 1972. além disso. Paris e Bruxelas. em novembro de 1972. a nação portuguesa passou a olhar para si e a se aceitar sem as colônias. entre 1932 e 1968. Portugal faz parte de um “império” moderno. à integridade física ou à saúde ou à privação da liberdade de pessoa. Marcello Caetano. O PL apresenta vários problemas. que é a União Europeia. mas os protestos concentram-se agora nos impactos sociais da depressão econômica e dos planos de austeridade ditados pela União Europeia. Mas. uma canção de Zeca Afonso proibida pela ditadura. Há 40 anos. que parecia bem redefinida na moldura da Europa. A reinvenção nacional não representou apenas uma restrição territorial. o crescimento econômico. Portugal aprofundou sua dependência de capitais externos. marco histórico da reinvenção de Portugal. conclui Ramos. Moçambique. por isso.E D I T O R I A L PL autoritário ameaça liberdade de expressão no Brasil “As novas propostas legislativas sobre ‘terro- vaga como “terrorismo” é definido – e. Cabo Verde e Moçambique são os representantes autênticos das verdadeiras aspirações dos povos destes territórios”. Portugal perdeu algo que fazia parte de sua identidade histórica e de sua cultura nacional – mas que já não era visto como necessário pela ampla maioria da população. Refere-se ao Projeto de Lei (PL) 499 de 2013. A “perda da África” ocorreu sem protestos significativos e contou com expressivo apoio popular em Portugal. para conservar as colônias. alertam juristas. que já mostrava sinais abundantes de decadência e descrédito. Cabo Verde. Contudo. Guiné-Bissau. O salazarismo perdurou por mais de quatro décadas. O regime salazarista repudiou a resolução. tra quaisquer cidadãos que estiverem participando de aprovação do O resultado seria uma lei de ameaça autoritária não é o melhor caminho para efeito simbólico devastador. E é feita pela mais importante organização de defesa dos direitos humanos do planeta.

com apoio do Brasil. As gestões de Jaua reforçaram as interpretações de que o objetivo que anima a organização é. quando Raúl Castro tornou-se presidente temporário da organização. o governo brasileiro articulou a Unasul. segundo a narrativa “bolivariana”. componente da articulação latino-americana do chavismo. com manifestações contra o governo violentamente reprimidas. Bush e Barack Obama “de acabar com o regime cubano e neutralizar Hugo Chávez”. como constatou-se na assembleia da OEA que tratou do envio de observadores à Venezuela. Os Estados Unidos. em 1889. deflagraram-se golpes de Estado na Guatemala. autor da proposta. O Sistema Interamericano nasceu por iniciativa de Washington. Foi criada depois de muitas tentativas de “democratizar” a OEA que. a Celac tomou o lugar tradicionalmente ocupado pela OEA. tem como opção preferencial a Aliança do Pacífico. a Venezuela nomeou um novo embaixador nos Estados Unidos. em 1954. continua sob estrito controle dos Estados Unidos e foi usada com propósitos repressivos contra regimes indesejáveis para Washington. por exemplo. a Republica Dominicana foi invadida. não alterou o sentido básico da política externa. A ofensiva de Jaua não é um indício solitário. proclamou Daniel Ortega. por exemplo. A Celac já realizou duas reuniões de cúpula. conseguiram marginalizar a diplomacia americana o auge da crise na Venezuela.venezuela Influência de Washington declina no “hemisfério americano” Newton Carlos Da Equipe de Colaboradores Na crise venezuelana. na Primeira Conferência Pan-Americana. cujas braçadas se inclinavam mais para a Aliança do Pacífico. país centro-americano tornado “bolivariano”. Na ocasião. Colômbia e Peru. O ministro da Economia da Argentina esteve em Brasília com o único objetivo de tratar disso. porém. a OEA sofre a concorrência direta da Celac e um desafio indireto da União de Nações SulAmericanas (Unasul). sobretudo do Brasil e da Argentina. e no Chile. Não eram só palavras: Cuba foi punida pelo isolamento. declarou querer dialogar. Os “bolivarianos”. e consolidou-se com a Organização dos Estados Americanos (OEA). O Sistema Interamericano herdou instrumentos da Guerra Fria. Criada dois anos atrás. O Panamá. em Caracas. segundo a versão chavista. sobre a crise venezuelana. estabelecida em 1948. O Chile. nos anos 1990. como o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar). mas com “senões”. no entanto. 2014 ABRIL  . A Argentina expressou forte apoio ao regime da Venezuela. Disse Kerry que a Doutrina Monroe deixou de existir. que recriminou discretamente o presidente venezuelano por não chamar a oposição para negociações. reagiram dizendo “cogitar o congelamento de bens de repressores venezuelanos”. mas não coincidentes. o Brasil saiuse com apoio discreto. São interesses maiores. Acontece que. a Junta Interamericana de Defesa e a Escola das Américas. A decisão do Mercosul. marginalizada. O objetivo de todo o edifício geopolítico foi o de conter “ameaças comunistas”. sob impulso de uma forte tradição voltada para o comércio com a bacia do oceano. em 2 de dezembro de 2011 reúne México. Brasília e Buenos Aires têm posições próximas. a Aliança do Pacífico. as tentativas dos governos de George W. confessadamente de centro-direita. Há um componente novo no cenário. do Canadá e do Panamá. O argumento “legal” ocultava uma espécie de atualização da Doutrina Monroe. substituindo Sebastián Piñera. Nicolás Maduro. Elías Jaua. presidente da Nicarágua. sem surpresa. Chile. a Aliança do Pacífico © Casa de Gibierno en Argentina N Representantes das nações integrantes da Celac abrem sua primeira reunião de cúpula. em 1973. foi adotada numa hora em que se sobrepõem interesses maiores. Bill Clinton já havia comunicado ao Congresso americano que a América Latina estava livre de “ameaças externas”. Em Brasília. A interpretação dos “bolivarianos” é de que isso significa a falência da própria OEA – e sua substituição pela Celac. A entidade. o Itamaraty ficou onde sempre esteve – mas com a entrevista de Lula como pano de fundo. “quem nos últimos anos de sua vida trabalhou para reformar organizações regionais e criar contrapesos aos Estados Unidos no hemisfério ocidental”. “A Celac é a sentença de morte da Doutrina Monroe”. ainda praticamente desconhecida do grande público. O Brasil confirmou que o Mercosul está em vias de fechar um acordo de livre-comércio com a União Europeia. foi ainda mais explícito discursando na OEA. embora de novo com a centro-esquerda no poder. que só obteve apoio dos Estados Unidos. Mas aceita que só a Unasul procure uma “saída” para a crise na Venezuela. esteve sob ameaça venezuelana de retaliação. em meio a fortes turbulências. angariando partidários. Com o mesmo objetivo – o de criar molduras diplomáticas sem a participação de Washington e Ottawa –. Eles mencionam. como se viu na entrevista de Lula. que teve Augusto Pinochet entre seus alunos. isolar os dois países no âmbito do Sistema Interamericano. que MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO seria uma OEA sem os Estados Unidos e o Canadá. para onde parecem deslocar-se os centros de gravidade de tensões mundiais e de impulsos econômicos. efetivamente. Curioso é o fato de que. O interesse dos especialistas se explica pela circunstância de se tratar de um organismo continental sem os Estados Unidos e o Canadá. como se a repressão interna pudesse ultrapassar fronteiras. Hoje. uma votação majoritária derrubou a proposta de envio de uma missão observadora à Venezuela. Isso não acontecia há três anos. mas orienta-se principalmente para objetos econômicos e comerciais. noticiou-se que o ministro do Exterior venezuelano. A recriminação. de oferecer apoio aos que estão no poder na Venezuela. no alvorecer da Guerra Fria. Jonh Kerry. Jaua conseguiu deixar claro que só a Unasul poderia tratar da crise interna na Venezuela. a segunda delas em Cuba. e o secretário de Estado de Barack Obama. de 1823. Na OEA. de olho na crise venezuelana e com Jaua presente. o Brasil alinhou-se à barragem dos votos contrários. sucessor de Chávez. o então presidente do Chile. mantivera conversações com a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Foi Chávez. como se buscasse a redenção. foi criada em dezembro de 2011 em Caracas. A Celac tem uma história em boa parte formulada pelos “bolivarianos”. A OEA foi de fato rebaixada.

enquanto Washington pressiona Caracas. A inflação da Venezuela é a mais alta do mundo (56.venezuela O futuro incerto do chavismo. a Venezuela teve 24. “Os governos bolivarianos manipulam as instituições. Como a dependência de produtos importados para alimentar o consumo interno é muito grande. porque nenhum economista sério prevê que isso ocorra em um futuro próximo”. não de divisão. por si mesmos. desabastecimento nos supermercados e falta de produtos importados) e pelo aumento da violência. Uma arguta análise do impasse vivido pelos adversários do chavismo foi feita no jornal El País por Joaquín Villalobos. Desde o início de fevereiro. Rezar para que haja um novo aumento dos preços do petróleo não funcionará. Rapidamente. os protestos se tornarão cada vez mais violentos. grupos de oposição foram às ruas para exigir a recontagem de votos. anulação das estatizações. O governo reagiu prendendo López e acusando “grupúsculos fascistas” de estarem manipulando os protestos e tentando um golpe. pois exigiriam tantos sacrifícios que seria impossível ao governo adotá-las sem o apoio da oposição. chegou a 90 O presidente eleito Nicolás Maduro herdou de Hugo Chávez um país marcado pela crise econômica e por tensões políticas bolívares no paralelo. e o país vive a escassez de produtos básicos como leite. atualmente. que aposta no jogo eleitoral. a desvalorização cambial pressiona os preços internos. mas é evidente que não fazer nada não é uma opção. no estado de Táchira. mas não matam e usam a repressão de forma moderada. do jornal The Miami Herald. cresceu a criminalidade no país. senão uma luta entre duas estratégias dos dois principais líderes opositores sobre como enfrentar o chavismo. Dia da Juventude. por vários países da América do Sul. Mas a situação também não é tão boa para a oposição. E. aplicam a justiça segundo seu desejo. fundador do partido conservador Voluntad Popular.30 bolívares.07%). as manifestações se alastraram por outras cidades e incorporaram mais reivindicações. não derrubam governos que realizam eleições periódicas e não cometem excessos de violência. abolição do controle de preços e restauração da independência do Banco Central”. as manifestações contra e a favor do governo terminaram com três mortos em violentos conflitos. Embora os grandes protestos de estudantes contra o presidente Nicolás Maduro tenham começado em fevereiro. enquanto a de Capriles quer acumular forças para enfrentar o chavismo nas urnas. López está criando mais coesão no chavismo em vez de dividi-lo. Tudo começou em San Cristóbal. um ano depois de Chávez Crise econômica escancara o impasse do governo de Maduro. Mesmo que Maduro contorne a crise política. A realização sucessiva de eventos eleitorais impediu que a violência se generalizasse. a Unasul oferece apoio ao governo. no passado. A primeira é o tradicional pacote de austeridade financiado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O problema da primeira opção. menos massivos e mais impopulares. uma vitória eleitoral mais ampla do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV. Ao contrário de Capriles. essa ala radical da Mesa de la Unidad Democrática (MUD) joga suas fichas na chamada “via rápida”: a tentativa de afastar Maduro do poder pela pressão das ruas.763 mortes violentas em 2013. é que a oposição não tem nenhum instrumento de poder para gerar um desenlace. E. como recentemente foi adotado pela Grécia e. em dezembro. mas sem ajuda do FMI. mais de 20 pessoas já morreram e a radicalização não dá mostras de arrefecimento. crítico da esquerda: “Nos atuais protestos de rua não só estão presentes descontentamentos sociais. uma tarefa difícil para quem não tem o carisma de Chávez. “A estratégia de insurreição de López gera medo de revanchismo das filas chavistas – e o medo é um fator de unidade. em parte como consequência da crise econômica. Antonio Ledezma – viu nos protestos a oportunidade de desestabilizar o governo. provocadas pela deterioração econômica do país (alta inflação. pela deputada ultraconservadora Maria Corina Machado e pelo prefeito de Caracas. “É difícil saber qual das opções Maduro escolherá. Portanto. A ala mais radical da oposição – encabeçada por Leopoldo López. governista) nas eleições municipais fortaleceu o frágil herdeiro do chavismo. se López insistir na estratégia do confronto. O colunista Andrés Oppenheimer. diz o ex-guerrilheiro. Desde então. 79 mortos para cada 100 mil habitantes. O governo respondeu mobilizando contramanifestações para disputar as ruas com a oposição. eles devem ser situados no contexto mais amplo da polarização política entre o governo chavista e a oposição conservadora que dilacera o país desde 1998. entre outras coisas. a Venezuela experimenta uma grave convulsão interna provocada pela crise econômica e pela radicalização política. todas igualmente indigestas. na esteira da apertada vitória eleitoral do chavista Nicolás Maduro sobre o oposicionista Henrique Capriles (50. De acordo com o Observatório Venezuelano da Violência. mas que estes. Criticando a opção adotada por López. ex-dirigente da guerrilha salvadorenha nos anos 1970-80 e. o dólar. conclui o analista.” Cláudio Camargo é jornalista e sociólogo MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO .” A estratégia de López tenta provocar a queda no curto prazo de Maduro. como fez o México recentemente. cortes maciços dos gastos públicos. os protestos atingiram um novo patamar. “Isso exigiria. diz Oppenheimer. ele não pode ignorar a crise econômica que assola o país. Mas.” O ex-guerrilheiro avalia que. Em 12 de fevereiro. como o apoio de algum setor do Exército. quando estudantes foram às ruas contra a falta de segurança nos campi. Ainda em abril de 2013. E a terceira opção é a dolarização da economia. A segunda opção é um pacote de austeridade. mas o ciclo de protestos evidencia o conflito de estratégias entre opositores moderados e radicais Cláudio Camargo Especial para Mundo  ABRIL 2014 © Elza Fiúza/ABr U m ano depois da morte do “comandante” Hugo Chávez. alternativa tentada pela Argentina nos anos 1990. Para se ter uma ideia da deterioração. diz que Maduro teria três alternativas para tentar driblar a crise. quando Chávez chegou à presidência pela primeira vez. cuja cotação oficial é 6. Villalobos argumenta que a crise e a insegurança são fatores que alimentam os protestos. limitam a liberdade de expressão.66% contra 49. açúcar e papel higiênico.2% em 2013).

O Kremlin mandou contingentes militares para a Crimeia. Os Estados Unidos e a União Europeia não aceitam a separação. Havia. água fervendo com água gelada. na atual crise. apresenta-se como uma disputa de poder entre a Rússia. enquanto a Rússia lembra dois longos períodos de tirania: o czarista e o soviético (veja a matéria à pág. configurava-se uma invasão estrangeira. Tudo poderia ter acabado por aí. em 2004. península de cultura russa na Ucrânia. O que. os 17% de russos étnicos para uma população de 46 milhões de ucranianos. durante a crise. UCRÂNIA Kiev UCRÂNIA MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO João Batista Natali é jornalista 2014 ABRIL  . há uma sequência de sanções leves contra o Kremlin e as coisas estacionam em um novo status quo. o então presidente assinou. com 30% dos contratos. a presença ROMÊNIA da marinha russa no Mediterrâneo seria reduzida ao Porto de Tartus. e Estados Unidos e União Europeia. a relação é de 171 para 17. de um lado. Na Ucrânia. o ditador Josef Stalin exilou algo como 1. o que alimentou o descontentamento da população. A BBC. seus ingredientes são tensões étnicas e corrupção. cuja meta é Ucrânia à Otan. que entraram hesitantes na crise. fugiu de helicóptero para a Crimeia e em seguida se exilou em território russo. Vladimir Putin. Putin tem sua própria versão dos fatos. certa noite. US$ 10 bilhões. ganhara nos últimos anos a metade dos contratos assinados pelo Estado. Acusa os que se apoderaram do poder em Kiev de “fascistas”. uma aliança entre oligarcas corruptores e políticos corruptos. Mas essa minoria sobe para 60% em se tratando da Península da Crimeia. contra 221 dos ucranianos. em 1991. fez um teste de míssil balístico intercontinental que. como mostra a história do Império russo: o porto foi palco da principal batalha da Guerra da Crimeia (contra os impérios francês e britânico). que. de qualquer modo. sem trazerem nos ombros ou capacetes o nome e a bandeira do país para qual agiam. Yanukovich cai no fim de fevereiro. centro da crise que envolve Rússia e Ucrânia. separa-se por plebiscito e transfere seu território à Rússia. A Rússia interpreta isso como uma ameaça existencial e fará tudo que seja necessário para evitar que aconteça. um confronto geopolítico entre as grandes potências no coração da Eurásia. e a analogia é bastante tênue com o que aconteceu na própria Ucrânia. A extrema-direita foi atuante durante as manifestações em praça pública. produzindo a nova revolução – e. O jogo é complexo. que foi arquitetado principalmente pelos Estados Unidos. base da frota do Mar Negro (veja o box). Olexsandr Turchynov. São os casos de Dmytro Yarosh ou Oleh Tiagnibok. na primeira semana de março. de outro. o cálculo feito pelo presidente russo Vladimir Putin. MAR NEGRO onde a situação é altamente instável. Sinferopol Do ponto de vista da lógica histórica e conjuntural. com a Revolução Laranja. Aproximando-se de uma Ucrânia geograficamente dividida. Na moldura mais ampla da Eurásia. Candidatou-se a presidente em 2010. de onde a maioria jamais retornou. expondo-se à hostilidade étnica ou ao embrião de um genocídio. que durou um ano. Crimeia: a península da discórdia BELARUS amigo de Yanukovich. retomaram o poder com a força de manifestações populares. mas teve apenas 1. alega que seus compatriotas da Crimeia corriam alto risco. E economia ucraniana recuou em 15%. Washington se 50 km opõe à eventual anexação da Crimeia pela Rússia não apenas pelo precedente Base naval russa no Mar Negro que isso cria nas relações internacionais. Mas. Mas eis que veio a crise financeira global de 200809. A Rússia conserva seu controle sobre Sebastopol. à força. RÚSSIA iniciada em setembro de 1854. com ela. um acordo que antecipava as eleições presidenciais. Para não ser preso. Putin tem na manga a carta do gás russo. Vamos recapitular. incorporar a [Vyacheslav Nikonov. Outra questão crucial seria fiscalizar o destino desse dinheiro. como ruiu tão rapidamente o castelo de cartas de Yanukovich? Lembremos: no fim de fevereiro. mas ucranianos de cultura russa. Na comparação de embarcações. Os Estados Unidos promoveram a expansão da Otan para os países do antigo bloco soviético do Leste Europeu. numa Ucrânia notoriamente corrupta. Putin alternou. referindo-se à Revolução Ucraniana. Sebastopol é o nó estratégico RÚSSIA Na Crimeia. A incorporação da Ucrânia à aliança militar representaria um triunfo estratégico de grandes proporções. Os líderes da oposição. sua guarda pessoal debandou. fica o Porto de Sebastopol. que falam russo em casa. No início de novembro. sobrevoaria o Polo Norte para cair nos Estados Unidos. Em represália. E essa é uma linha vermelha para a Rússia. receberam os invasores nazistas de braços abertos. Por enquanto. Mas. Mas. para se vingar dos russos. se usado em guerra real. O bloco europeu entraria com outros US$ 15 bilhões.4% dos votos. Em segundo lugar. que comem à moda russa. Ele havia congelado um acordo de aproximação com a União Europeia e estreitou seus laços com a Rússia. Além de armas nucleares. Seria quase impensável uma guerra entre Rússia e Ucrânia. Privada do acesso a Sebastopol. bem mais para não permitir que os russos ocupem um maior espaço militar e político. se deputados eram tão umbilicalmente ligados ao governo e aos oligarcas. não interessa aos europeus e nem aos Estados Unidos. contrariando as Convenções de Genebra (regras das guerras). a Europa é sinônimo de democracia. a população etnicamente ucraniana saiu às ruas para pedir a cabeça do presidente Viktor Yanukovich. Moscou não pode prescindir do acesso MAR DE AZOV CRIMEIA a Sebastopol. a aliança militar ocidental (veja as matérias às págs.430 aviões de guerra. Para os ocidentais (e com razão). É um porto absoluMOLDOVA tamente estratégico para a Rússia. assumiram prédios públicos e instalações militares. a União Europeia surrupiaria da Rússia um dos trunfos para que Putin não seja um simples membro dos Brics (Brasil. Yanukovich – ainda ele! – ocupava na época o cargo de primeiro-ministro e foi declarado vencedor de uma eleição presidencial que a Corte Suprema afirmou ter sido fraudada. mas é pequena sua inserção social. em 1944. no auge das tensões. que dirige o partido Svoboda e que acusa a “máfia judaica e moscovita” pelas desgraças ucranianas. o conflito sobre o Sebastopol futuro da Ucrânia jogaria a Crimeia no colo da Rússia – e talvez seja este. que supre 30% das necessidades da Europa – aliás. onde um grupo restrito de oligarcas se apoderou da economia tão logo o comunismo ruiu. China e África do Sul) – o que é muito pouco para suas pretensões. banhado pelo Mar Negro.2 milhão deles na Sibéria (o número verdadeiro nunca será conhecido). Seria a mesma coisa se a Itália invadisse a região da Suíça de língua italiana. Anunciou exercícios militares “de rotina” na fronteira russo-ucraniana. por três imensos gasodutos que atravessam a Ucrânia. O que Putin não parece mais capaz de conter é o sentimento radicalmente contrário à Rússia. depois anulados porque eram “desnecessários”. Putin queria transformar todos os seus vizinhos num cordão de isolamento contra pressões da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).Putin flexiona Rússia e união europeia João Batista Natali Especial para Mundo E ntão. Não são propriamente russos nascidos na Rússia. Índia. estaria seu próprio filho. Viktor Yushchenko e Yulia Tymoshenko. muito cuidadosa em suas acusações. Vejam o que aconteceu com os tártaros. parlamentar russo ligado ao círculo de poder do Kremlin. disse que um único empreiteiro. provocaria uma crise energética até na Bélgica ou na Alemanha. população muçulmana majoritária na Crimeia até 1940 e que. em 13 de março de 2014] ou se a França tomasse conta. 8 e 9). O presidente russo. A Rússia reagiu contra o golpe violento. Há uma brutal desproporção de forças. a Rússia tem 1. Se fechar a torneira. objetivamente. Estão em jogo. A coisa foi feia. com saída para o Mediterrâneo pelos estreitos turcos de Bósforo e Dardanelos (veja o mapa). pois completaria o “cordão sanitário” estabelecido em torno da Rússia. Barack Obama prometeu ao novo presidente ucraniano. da parte da Bélgica de língua francesa. preMAR NEGRO cisamente. ficamos assim: a Crimeia. 7). para os ucranianos. Durante a madrugada. Rússia. na Síria.

cristão ortodoxo. húngaros e búlgaros) MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO . De fato. sob aplausos e gargalhadas de apoiadores do novo regime de Kiev. História é. no século XIV. no horizonte de médio prazo. e a invasão nazista da Ucrânia soviética. geopolítica. pelo qual a Rússia reconheceu a soberania e a integridade territorial da Ucrânia. nos tempos da União Soviética. a primeira-ministra alemã Angela Merkel conversou com o presidente russo Vladimir Putin. de língua ucraniana e religião católica. As intervenções ocidentais na Guerra da Bósnia (1992-95) e de Kosovo (1999). no interior da Ucrânia. Mas Moscou tem os meios de poder necessários para reincoporar a Crimeia – e ninguém irá à guerra pela península. a Revolução Laranja. Washington e o FMI articularam um pacote financeiro de resgate da Ucrânia. entretanto. em 1991. O plebiscito de secessão da Crimeia foi um ato ilegal. Mas. falou ao telefone com o presidente americano Barack Obama. pertenceu à União Soviética. uma Ucrânia que se inclina para o Ocidente é. unicamente. fortemente marcada por populações russófonas de religião cristã ortodoxa (veja o mapa). e a Ucrânia oriental. transmitindo-lhe o seguinte diagnóstico: Putin “está em outro mundo”. Graças à Revolução Russa. Os manifestantes de Kiev. A Crimeia. Foi.os músculos na Ucrânia A Ucrânia e o futuro da Rússia D ias antes do plebiscito sobre a secessão da Crimeia. Na mitologia nacional russa. O Rio Dnieper assinala a fronteira entre a Ucrânia ocidental. Ucrânia etnolinguística BELARUS (BIELORRÚSSIA) RÚSSIA POLÔNIA Kiev Rio Lviv U C R Â Dn N Carcóvia iep er I A MOLDOVA MAR DE AZOV ROMÊNIA MAR NEGRO CRIMEIA RÚSSIA Região onde a maioria da população fala a língua ucraniana Região onde predomina o uso do idioma russo Presença de minorias (moldovos. Mesmo no leste da Ucrânia. não se registram perseguições à minoria russófona ou à igreja cristã. tem raízes na corrupção que assola o país e na profunda depressão econômica dos últimos anos. na antiga Tchecoslováquia. que se entrecuzaram com os embates entre o Exército Vermelho e os “exércitos brancos” da contrarrevolução. Ele imagina que. o antigo império dos czares escapou da implosão. pois a ruptura da Ucrânia com Moscou equivaleria a uma nova catástrofe: a destruição da Grande Rússia. inadvertidamente. o reino medieval de Kiev é o berço da Rússia. ameaçando sufocar a economia ucraniana. o diagnóstico é verdadeiro. pois contrariou a Constituição ucraniana e o tratado. exagerar o significado dessa divisão cultural. insurreições populares ou guerras étnicas: seus olhos veem. seguindo a trilha da própria Ucrânia. até 1991. “Você descobre que o mundo enlouqueceu quando ouve a Alemanha dizer à Rússia para não invadir a Ucrânia”. Putin não enxerga movimentos nacionalistas. na Ucrânia (2004). uma antiga aliada de Moscou. A Grande Rússia desmorona em câmera lenta. conclui-se com a deriva da Ucrânia rumo à União Europeia. Moscou dinamita as pontes. Contudo. firmado em 1994. seriam parte dessa conspiração. e a Alemanha resistiu à pressão americana por uma reação mais forte à agressão russa na Crimeia. Na visão de Putin. além disso. a ocupação russa da Crimeia representa um gesto defensivo. na Segunda Guerra Mundial.  ABRIL 2014 A operação na Crimeia foi justificada pelo Kremlin sob a falsa alegação de que “fascistas” tomaram o poder em Kiev e ameaçavam os russos étnicos na península. no leste ucraniano. A nova “catástrofe” tem o potencial de salvar a Rússia do fardo imperial. Nos anos seguintes à Revolução Russa de 1917. O bloco europeu não almejava mais que um tratado frouxo com a Ucrânia. a Ucrânia permaneceu ligada à Lituânia e à Polônia católicas. Durante séculos. O líder russo declarou várias vezes que a dissolução da União Soviética representou “a maior catástrofe do século XX”. As oscilações históricas manifestam-se na forma de uma divisão cultural. O argumento da proteção de russos étnicos fora da Rússia traz à memória os discursos de Hitler que procuravam legitimar a expansão alemã sobre os Sudetos. foi entregue à Ucrânia por Nikita Kruschev. A transferência destinava-se a soldar definitivamente o destino ucraniano ao da Rússia: em Sebastopol. a Ucrânia oscila entre a Rússia e a Europa Central. situa-se a base da frota russa do Mar Negro. apenas. a repetição de ciclos do passado histórico: a subordinação ucraniana ao Grão-Ducado da Lituânia. O problema está em outro lugar: a reação de Moscou à Revolução Ucraniana produz consequências contrárias aos interesses estratégicos da Rússia. que preparou o plebiscito de secessão da península. A Rússia tinha uma chance de conservar alguma influência sobre a Ucrânia se colaborasse com a União Europeia para estabilizar a economia do país. desde aquela “catástrofe”. Mas. muitos russófonos declaram-se contrários à operação militar russa na Crimeia e rejeitam a secessão. Da mesma forma. apoiados pela imensa maioria da população do oeste e do centro do país. as ações do presidente russo precipitam o desenlace que ele quer evitar. o Ocidente conspira sem parar contra a Rússia. almejavam ligar o destino da Ucrânia ao da União Europeia. antidemocrático – porque realizou-se sob a presença de forças militares russas de ocupação. Historicamente. sob o ponto de vista de Putin. Bruxelas. A Revolução Ucraniana em curso representa uma nova oscilação em direção ao Ocidente. o que Putin pretende é assegurar o controle russo da base estratégica de Sebastopol e pressionar a Ucrânia. ela foi palco de movimentos separatistas. Não convém. habitada por uma maioria de russos étnicos. um movimento estratégico incessante destinado a destruir a Grande Rússia. Putin reagiu à queda do governo aliado de Kiev por uma operação militar na Crimeia. essencialmente. Em seguida. Ironia suprema: sem ele. em 1938. que enfraqueceram a Sérvia. exclamou um jovem na Universidade de Carcóvia. convertendo-se no império vermelho dos czares soviéticos. seguindo a trilha aberta depois de 1989 pelos países vizinhos que fizeram parte do antigo bloco soviético. enquanto a Otan ensaiava uma cooperação com Kiev. em fevereiro. No país. a Rússia tende a se inclinar na direção da Europa. No mundo de Putin. O desmoronamento da União Soviética. O russo é a “segunda língua” de incontáveis ucranianos e são comuns os casamentos entre indivíduos de origens ucraniana e russa. antes de ser conquistada pelo Império russo. a ruptura da Geórgia com Moscou (2008) e a Revolução Ucraniana de fevereiro passado teriam sido arquitetadas pela mão de Washington e de seus aliados europeus. Putin está convencendo os ucranianos de que sua almejada soberania só pode ser sustentada pelo alicerce das instituições ocidentais. Depois. em 1954. De certo modo. A Revolução Ucraniana. conservando-a fora da influência da União Europeia e da Otan.

CHECA UCRÂNIA ESLOV.4 trilhões (o da União Europeia. AZERB. ÁUSTRIA HUNGRIA CROÁCIA MOLDOVA ROMÊNIA SÉRVIA BULGÁRIA MAR NEGRO ITÁLIA GRÉCIA TURQUIA Países incorporados à Otan após 1999 Países componentes da Otan antes de 1999 Ex-repúblicas soviéticas não pertencentes à Otan Países não integrantes da Otan MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO seguida pela Ucrânia (em novembro de 2004). mas o sentido geral desse processo é bastante claro: reconstruir a antiga Comunidade de Estados Independentes (CEI) que foi criada sobre os escombros da União Soviética. Mas a questão não é econômica. Romênia. Tajiquistão. de fato. de outro. no curto prazo. A alternativa seria a guerra total. historicamente. Este é o limite da crise. O verdadeiro nome do jogo é “conquista da Eurásia”. com ameaças e declarações bombásticas de todos os lados. LITUÂNIA BELARUS ALEMANHA POLÔNIA REP. Em termos puramente econômicos. de longe. Armênia. Belarus e Cazaquistão. nos anos finais da União Soviética. Putin talvez seja obrigado a conviver com a perda da própria Ucrânia. assim como nos Bálcãs e no antigo Leste Europeu. soma cerca de US$ 16 trilhões). mas terá que manter sob seu controle a região da Crimeia. É pouco provável. por outro lado. o mais importante de todos os países que integrariam a aliança liderada por Moscou. “a maior tragédia geopolítica do século XX”. no frigir dos ovos. base naval da frota russa no Mar Negro. que estabelece. A meta da CEE era incorporar. a concessão de direitos russos sobre a Crimeia. cujos trechos foram publicados no jornal The New York Times. como um de seus objetivos centrais. “Cerca de 75% da população mundial vive na Eurásia. em troca da eventual adesão da Ucrânia à União Europeia. em 1º de janeiro de 2012 (veja o mapa 1). Washington teria assegurado a Moscou. Tudo indica que. a crise na Ucrânia se traduz como uma segunda morte da CEI. pelo menos. acabe dando cobertura para um acordo aceitável para Moscou. Segundo uma narrativa russa. Quirguistão e Uzbequistão (em março e maio de 2005. “neutralizar” e “impedir o renascimento” da rival Rússia. A “deserção” de Kiev representa um golpe profundo para os projetos de Putin. A visão geopolítica de Putin é a imagem invertida da visão de Brzezinski. em Dushambe (capital do Tajiquistão). inicialmente. comparável ao dos Estados Unidos. Lituânia. Estônia. o presidente russo Vladimir Putin dirigiu. Entre 1999 e 2004. TURCOMENISTÃO Países pertencentes à Comunidade Econômica Euro-asiática Países membros da União Europeia (UE) Ex-repúblicas soviéticas que não pertencem à Comunidade Econômica Euro-ásiatica nem à UE Países não pertencentes à UE Mapa 2 A expansão da Otan para o leste FINLÂNDIA O SUÉCIA RÚSSIA RB ÁL TIC ESTÔNIA LETÔNIA MA O utros tempos. Moldova e Ucrânia. A iniciativa permitiu a criação da Comissão Econômica Euro-asiática (CEE). “celeiro da Rússia”. estão ali localizados”. que possui a maior parte dos recursos naturais do planeta. respectivamente). Bulgária. por um lado. afirma Brzezinski. já que a Ucrânia. e com o desenvolvimento da crise na Ucrânia.Rússia e união europeia A segunda morte da CEI Perda de controle russo sobre a Ucrânia esvazia de poder e sentido a criação da Comunidade Econômica Euro-asiática projetada por Putin Mapa 1 A Comunidade Econômica Euro-asiática e seus vizinhos R ALEMANHA POLÔNIA Ú S S I A BELARUS ÁUSTRIA UCRÂNIA HUNGRIA MOLDOVA ROMÊNIA CAZAQUISTÃO QUIRG. de uma maior abertura econômica a investidores europeus e americanos. Polônia. cujos resultados. para Moscou. De seu ponto de vista. com saída para o Mediterrâneo. Contudo. A Geórgia foi a primeira república a abandonar a CEI (em novembro de 2003). ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos e um de seus mais influentes estrategistas. Brzezinski arrolava duas razões centrais para “neutralizar” a Rússia: é o país que liga a Europa à Ásia e é dona de vastos recursos naturais (ainda mais se contar com os países sob sua influência). foi incorporado o Quirguistão. só a consolidação de uma Comunidade Euro-asiática liderada pela Rússia poderia recolocar Moscou no centro do palco do poder global. Não existe. A criação da CEI não conseguiu solucionar a “tragédia”: a aliança sucumbiu às suas próprias fragilidades internas. em 2009. vários países que integravam o antigo Pacto de Varsóvia foram cooptados pela Otan: Hungria. obviamente. produzidas por uma combinação de fatores incluindo crise econômica. já foi controlada pelos czares e depois pela União Soviética. dissolvida em 25 de dezembro de 1991. Depois dos Estados Unidos. é geoestratégica. Putin nega. Do ponto de vista da Rússia. o Pentágono aprovou uma resolução. seriam completamente indesejáveis e imprevisíveis. tensões étnicas. em contrapartida. em 1992. O presidente russo enxerga um sistema internacional organizado em torno de grandes blocos de poder – Estados Unidos. Letônia. que os Estados Unidos cheguem ao limite de provocar uma guerra com a Rússia. como uma das consequências imediatas. ainda tão próximos: em 10 de junho de 2007. cerca de US$ 2. Posteriormente. 2014 ABRIL  . disputa de poder político entre máfias e descontentamento da população. ainda que vantajoso para Washington. Rússia. Isso tinha. onde fica o Porto de Sebastopol. Esse é o pano de fundo que explica o que está jogo com a criação da CEE. os Estados Unidos se sentiram com poder para promover um avanço estratégico rumo às fronteiras da Rússia. a Reunião de Cúpula da Comissão Transnacional da Comunidade Econômica Euro-asiática. que a Otan não incorporaria os países do antigo bloco soviético. Não por acaso. a CEE não tem grande importância na economia global: seu PIB combinado é pouco maior do que o PIB brasileiro. A desagregação do “império soviético” combinou-se com o fim de seu controle sobre os países da Europa Oriental. muito bem explicado por ninguém menos que Zbigniew Brzezinski. O objetivo é projetar o poder continental da Grande Rússia numa vasta região da Eurásia que. Por exemplo. Todos os poderes nucleares. a possibilidade de perder Sebastopol. “ampliar a presença” dos Estados Unidos nos países que faziam parte da União Soviética. União Europeia e China – e teme a marginalização da Rússia do concerto das potências. foram integradas Albânia e Croácia (veja o mapa 2). a dissolução da União Soviética foi. de 1997. MAR BULGÁRIA MAR GEÓRGIA CÁSP NEGRO IO ARM. exceto um. é. Pouco mais tarde. Participaram. O mais provável é que a escalada retórica. República Checa. ou. TURQUIA UZBEQUISTÃO TAJIQ. no livro The Grand Chessboard: American Primacy and its Geostrategic Imperativs. segundo Putin. Ali estão 60% do PIB do planeta e cerca de 75% de suas reservas conhecidas de energia. Eslováquia e Eslovênia. intitulada Defense Planning Guidance (Guia de Planejamento de Defesa). as outras seis maiores economias e os seis maiores investidores em armas estão localizados na Eurásia.

uma Europa Central interpunha-se entre as esferas de influência da França. e a inviabilidade do projeto da Grande Rússia. terão o exército e estarão todos mortos”. fabricando as expressões “Europa Ocidental” e “Europa Oriental”. 10). selado pela derrota da Alemanha nazista. protestantes e cristãos ortodoxos). alertou um líder opositor ucraniano para a necessidade imperiosa de firmar o acordo: sem uma solução negociada. A crise em desenvolvimento tem seu foco porção ocidental da Alemanha foi incorporada ao bloco exatamente nisso: onde termina a Mitteleuropa? geopolítico da Europa Ocidental. Ex-repúblicas soviéticas que aderiram à Otan e à UE Mitteleuropa – mas qual Mitteleuropa? Uma Europa Central de Antigas repúblicas da Iugoslávia que não pertencem pequenas nações autônomas afiguraà Otan e à UE se como utopia no mundo da globalização: a União Europeia. escreveu a BBC em 25 de fevereiro. A comunidade imaginada asseguraria a autonomia política dos povos da Europa Central. nenhuma potência foi capaz de exercer hegemonia sobre a Europa Central. à Otan. © Barcex/GNU Free documentation licence “N MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO . Polônia. na órbita da economia alemã.rússia e união europeia De Berlim a Kiev. Do ponto de vista histórico. a Prússia. Moscou. A Revolução Ucraniana. os territórios alemães foram reorganizados na Confederação do Reno. pode Ex-países do bloco soviético que aderiram à Otan e à UE agregar mais um vasto componente (a Albânia só aderiu à Otan) à renascida Europa Central. Do ponto de vista da Rússia de Vladimir Putin. Por outro lado. muito ela. a Ucrânia é uma “linha vermelha”: Moscou não provocou a bipartição da própria Alemanha – e. Radoslaw Sikorski. De fato. Durante exatos três séculos. a palavra Mitteleuropa tem pelo menos dois significados principais. submetendo-se a sucessivas partilhas promovidas pelos soberanos da Rússia. redesenha-se uma Europa Central e os territórios do leste do antigo Império austro-húngaro foram incoporados ao bloco soviético da EuSUÉCIA ropa Oriental. mas ela desempenhou papel destacado nas horas finais do governo ucraniano de Viktor Yanukovich”. A nova Mitteleuropa – um conjunto de nações independentes. junto com admite a incorporação do país à União Europeia e. colocada sob MAR LETÔNIA estatuto de neutralidade. é a concha protetora óbvia para os países do “miolo” da Europa. Nesse período. Em seguida. República Checa. Foi Sikorski quem. a Cortina de Ferro bipartiu o continente europeu. desde Hitler. ESTÔNIA restou apenas um elemento político RÚSSIA autônomo: a Áustria. como resultado das guerras GRÉCIA ÁSIA que desmantelaram a Iugoslávia. ainda em curso. As figuras óbvias eram os representantes da Alemanha e da França. a Polônia cessou de existir como Estado independente. Alemanha em líder indiscutível da ÁUSTRIA MOLDOVA HUNGRIA União Europeia. Do ponto de vista geopolítico. que são conflitantes. e a Áustria-Hungria estavam separados do Império russo pelo reino católico da Polônia. mas ligadas à União Europeia. tornando-se palco da disputa entre a Prússia e a Áustria-Hungria. da Prússia e da Áustria. “vocês terão a lei marcial. ducados e condados. associadas à Otan e polarizadas pela economia alemã – emerge como uma estranha combinação dos dois conceitos formulados no século XIX O destino político de Varsóvia. DO NORTE LITUÂNIA A Europa Central começou a se reconstituir com o desmantelaBELARUS mento do bloco soviético. sob o magnetismo da Alemanha. no leste. CROÁCIA ROMÊNIA fera russa e integrando-se ao bloco ITÁLIA europeu. A reuniPOLÔNIA ALEMANHA ficação alemã (1990) desequilibrou os pratos da balança de poder na REP.8 mil principados. Após o Congresso de Viena (1815). desde a Paz da Vestfália (1648) até a partição da Alemanha (1945-49). com suas instituições políticas e econômicas. Acostumamo-nos tanto com elas que geralmente esquecemos o conjunto geopolítico prévio: Europa Central. UCRÂNIA Europa Ocidental. a menos. enquanto a Polônia RB ÁL TIC O Geopolítica da Europa Central MA inguém classificaria a Polônia como uma das grandes potências europeias. MA. Até o Terceiro Reich de Hitler. da Europa Central numa Grande Alemanha. de um lado. capital da Polônia. os MAR antigos territórios austro-húngaros ÁFRICA MEDITERRÂNEO da Eslovênia e da Croácia foram atraídos pelo magnetismo econôEx-repúblicas soviéticas que não aderiram à Otan e à UE mico da Alemanha. além de significativas minorias judaicas (veja o Diário de Viagem. Na Guerra Fria. reflete o jogo (veja o mapa). Escapando à esSUÍÇA ESL. e da Rússia. Mitteleuropa é o termo alemão utilizado para designar a Europa Central. pensadores liberais ensaiaram a ideia de uma comunidade de nações que abrangeria a Confederação do Reno. o Sacro Império Romano-Germânico. Contudo. o da Polônia. depois da matança de manifestantes promovida pelas forças policiais na madrugada de 21 de fevereiro na Praça da Independência. A presença dele no centro do palco dramatizou um fenômeno geopolítico que está em curso desde a queda do Muro de Berlim. de outro. O fracasso que almeja criar uma União Euroasiática com centro em dessas tentativas. no oeste. convertendo a CHECA ESLOV. formado por povos diversos (católicos. a Áustria e a parte ocidental da Polônia. o sonho da Grande Alemanha está morto e enterrado: a Alemanha atual não cultiva a pretensão de se transformar num Reich. Desde a queda do Muro de Berlim. exclamou o polonês. três ministros do Exterior da União Europeia aterrissaram em Kiev para negociar um acordo. protegendo-a tanto das influências francesa e britânica quanto do expansionismo pan-eslavista russo. BÓSNIA SÉRVIA BULGÁRIA MAR NEGRO Eslováquia e Hungria ingressaram ALB. diante de câmeras ligadas. O renascimento desse espaço geopolítico reflete o enfraquecimento da França. Em meados do século XIX. diante da concorrência entre Prússia e Áustria pelo controle dos territórios alemães. Na Guerra Fria. a desaparição da Europa Central. Mitteleuropa passou a funcionar como senha para o expansionismo imperial da Alemanha. em 1989: o ressurgimento da Europa Central. de forças na Europa Central A reconstituição da Europa CenAs duas Grandes Guerras do século XX podem ser tral coloca um problema de definição de fronteiras geointerpretadas como tentativas alemãs de transformação políticas. trata-se de um espaço multicultural. Da grande partição. uma nova Europa Central  ABRIL 2014 A Guerra Fria dividiu a Europa em duas esferas: Europa Ocidental e Europa Oriental. a surpresa. Nos século XVII e XVIII. depois da Unificação Alemã (1871). fragmentado em cerca de 1. à pág.

foi transformado em hospital público e sobrevive em péssimas condições. O prédio. pedindo graças. Três milhões de judeus viviam. dezenas de milhares tiveram seu direito de emigrar para Israel “vendido” a peso de ouro. cuja lápide. A “limpeza étnica” completou-se. ficavam quase todos na Polônia. não é? Pois. 2. por Nicolae Ceausescu. o antigo hospital judaico. Entre os judeus que conseguiram escapar do morticínio nazista. esse mundo esvaziado de judeus conhece um renascimento do interesse pelo judaísmo A antiga Sinagoga Central de Chernivtsi. No bairro de Kazimierz. mas também para Estados Unidos. E aí cabe um comentário: de olho na integração à União Europeia. na segunda metade do século XX. Sete décadas depois da exterminação do judaísmo europeu e quase 25 anos após o êxodo de muitos remanescentes da antiga União Soviética. Afinal. o que resta desse velho mundo judaico impressiona exatamente pela ausência dos judeus. Ainda em Chernivtsi. o Império austrohúngaro e a Prússia. os campos de extermínio nazistas. Hoje. no fabuloso cemitério judaico da capital checa. Ele “falava” para o centenário antissemitismo popular polonês. os judeus do Império russo eram proibidos de se estabelecer fora da pale e mesmo em algumas cidades da região. o mundo judaico europeu correspondia. construída no século XV. onde hoje vivem poucas centenas de judeus. não faz tanto tempo que. tem escadas adornadas com estrelas de David. Áustria-Hungria e Prússia. quase todos os artistas e técnicos não são judeus. o museu das vítimas do Holocausto. representavam 60% da população judaica mundial até o início da Segunda Guerra Mundial. segue funcionando o Centro Cultural Judaico. parte importante do Leste Europeu vive um renascimento do interesse pela cultura judaica. Afinal. em 1991. ao contrário do que aconteceu na maior parte da Europa ocupada. Também na vizinha Ucrânia. Jayme Brener é jornalista 10 . uma das principais acusações do antigo governo pró-russo contra a oposição europeizante era de vinculação com a extrema-direita antissemita. tradição judaica protagonizada por artistas itinerantes. A oposição. ditador comunista da Romênia entre 1965 e 1989. em estilo art nouveau. em Cracóvia (Polônia). a “questão judaica” continua influenciando a política e a vida cultural no Leste Europeu. O mesmo ocorre. que abriu as portas no ano passado. o ex-líder sindical e depois presidente Lech Walesa fez discursos claramente antissemitas. em estilo gótico. Esta última tem. Canadá e Alemanha. Ceausescu. Nada estranho para uma entidade judaica. homossexuais. como em Praga (República Checa). é local de peregrinação de judeus de todo o mundo. A fatia pertencente à antiga Rússia era conhecida como pale. também não por acaso. os nazistas não destruíram a herança judaica. Além disso. em consequência do antissemitismo czarista. Falando em teatro. bem na praça central. com suas ruas de pedras desgastadas pelo tempo. aliás. onde foram assassinados também milhões de oposicionistas. quase 1 milhão na Romênia e assim por diante. mais de 1 milhão de judeus abandonaram a região após o colapso da União Soviética. aliás. território em que os judeus eram autorizados pelos czares a viver. nos anos 1960. O genocídio cometido pelos nazistas durante a guerra mundial ceifou cerca de 6 milhões de judeus na Europa. a belíssima Sinagoga Central de Chernivtsi (Ucrânia) e o antigo hospital judaico de Chisinau (Moldova) são marcos de mil anos de presença dos judeus em uma faixa de terra que limitava a parte ocidental do antigo Império russo. o mais moderno da região no início do século XX. à procura da realização de seus desejos. Nos últimos anos. oposto ao “internacionalismo proletário” oficial. O governo MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO 2014 ABRIL polonês copatrocinou o novo e imponente Museu Judaico de Varsóvia. O caso mais chocante é o de Cracóvia. durante o regime soviético na Ucrânia. ainda encontra-se a Sinagoga Antiga. E. rejeitava a acusação – e cada lado apresentava depoimentos de líderes judaicos em sua defesa. Eles buscam o túmulo do Remuh. hoje no governo. às faixas de contato entre Rússia. está sempre recheada de bilhetinhos. na forma estranha de um judaísmo sem judeus. a mais velha da Polônia. a pale e as regiões fronteiriças da Áustria e da Prússia abrigavam a grande maioria dos cerca de 9. também “vendeu” a emigração de romenos de origem germânica para a Alemanha. um zeloso burocrata decidiu quebrar um dos braços de todas as estrelas de David das escadaria. então. ciganos e prisioneiros russos. conhecido como o Maharal de Praga. Já eleito. principalmente. multiplicam-se na região. no fundo. a maior parte idosos e doentes. a Polônia tenta se livrar da pecha de antissemitisma que reveste a história do país. sobrevive aos trancos e barrancos o Teatro Estatal Judaico de Bucareste. acredite se quiser. em todos os idiomas. principalmente para Israel. e expiar seu deslize eleitoreiro. nas eleições presidenciais de 1990. na Polônia. há séculos. um cemitério que. hoje um cineteatro Interior do antigo hospital judaico de Kishinev Sinagoga Alta.5 milhões na parte europeia da antiga União Soviética. © Fotos: Lara Brener O No passado. por sua vez. na Romênia. símbolos judaicos eram considerados uma apologia do “nacionalismo burguês”. e a Sinagoga do Remuh. Em Kishinev. Desde 1791 até a Revolução Russa de 1917. cidade que tinha 40% de judeus em sua população até a Segunda Guerra Mundial. Hoje. Agora. Cracóvia O novo Museu Judaico de Varsóvia Lá. O interesse se estende à culinária judaica.5 milhões de judeus europeus – que. a antiga capital dos reis poloneses. Festivais de música klezmer.Jayme Brener Especial para Mundo Um mundo judaico sem judeus magnífico bairro judeu de Kazimierz. a Sinagoga Alta. o rabino Moses Isserles (1525-72). Não por acaso. em 1939. com o túmulo do rabino Judah Loew (1520-1609). A grande Sinagoga de Chernivtsi foi transformada em um cineteatro. Curiosamente. Walesa despachou-se a Israel para rezar no Yad Vashem. por outros meios. grande parcela dos quais eram habitantes da região que descrevemos.

mas o único antídoto seguro contra isso chama-se democracia: o sistema que se baseia no princípio da igualdade política e jurídica entre os cidadãos. atingiu um ápice em 1926. com a independência e a formação de um governo hutu. passou a ser associado a um dos mais trágicos genocídios do pós-guerra. O presidente Paul Kagame. Campanhas podem até ajudar. Foi a partir deste país que tutsis da FPR invadiram o norte de Ruanda em 1990. os dois principais grupos que compõem a população ruandesa e resultou em cerca de 800 mil mortos em apenas cem dias. Estima-se que. Sua presença desestabilizou a porção leste do país. Os documentos de identidades dos tempos coloniais passaram a ser utilizados contra os tutsis. a invenção de fronteiras culturais entre os cidadãos – é uma arma de manipulação política utilizada por regimes ditatoriais. embora menos numerosos. conhece relativa estabilidade desde o fim do genocídio. os dois grupos conviveram em relativa harmonia. A política ruandesa. que durou cerca de quatro anos. A desproporção demográfica continua ainda hoje: os hutus representam quase 90% da população. antigo líder da FPR. quando as forças internacionais finalmente desembarcaram. A guerra intermitente desenvolveu-se em área riquíssima em recursos minerais. Pelo menos 1 milhão de hutus. O evento desencadeador. habitam a região há muito tempo. como instrumento de discriminação reversa. A grande lição do genocídio é que a criação de etnias e raças – isto é. Tutsis e hutus não falam línguas diferentes. Então. dominaram os hutus nativos. A política imperialista do “dividir para dominar”. a derrubada da ditadura de Mobutu Sese Seko e a criação da RDC. quando os belgas emitiram as “carteiras étnicas” que identificavam cada ruandês como “tutsi” ou “hutu”. com população de mais de 10 milhões. numa explosão deliberada de violência. Pouco menor que Alagoas. com decisiva participação do governo tutsi de Ruanda. à época de aproximadamente 7. especialmente Uganda. entre 7 de abril e meados de junho de 1994. não um tutsi. Apesar da presença de forças da ONU. Ao menos 2 milhões de pessoas buscaram refúgio em países vizinhos. A classificação étnica decorreu. com o apoio de Uganda. os tutsis foram escolhidos para integrar o funcionalismo público do governo colonial belga. A ONU demorou a enviar uma missão ao país – e. os tutsis se estabeleceram na área da atual Ruanda no século XV e. Entre 1997 e 2001. mas deixou uma cicatriz purulenta em toda a região. cobiçadas por empresas transnacionais (veja o mapa 2). Desde então. Na Tanzânia. por outro lado. A grande mudança ocorreu com a colonização europeia. O genocídio terminou. um fenômeno que lançou as sementes da guerrilha da Frente Patriótica Ruandesa (FPR). O novo governo promoveu o confisco de terras e rebanhos que tradicionalmente pertenciam aos tutsis. privando Ruanda de quase metade de sua população. Em 2003. o cenário mudou. no poder desde 2000. Originários da Etiópia. MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO . que envolveu vários grupos armados como também as forças armadas de Ruanda e Uganda. em abril de 1994. quando o general Juvénal Habyarimana instaurou uma ditadura. e 500 delas.5 milhões (veja o mapa 1). onde continuam a produzir vítimas Mapa 1 Ruanda: um pequeno país RDC OCEANO ÍNDICO TANZÂNIA ANGOLA ZÂMBIA OCEANO ATLÂNTICO Mapa 2 Ruanda e vizinhanças UGANDA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO LAGO KIVU TANZÂNIA Kigali R U A N D A BURUNDI 25 km Área de importante ocorrência de recursos minerais e de múltiplus conflitos na RDC Principais rotas de fuga de hutus ruandenses em 1994 Campos de refugiados de hutus ruandenses Mesmo sem nenhuma prova. uma guerra civil no Zaire e. os belgas desenvolveram na sociedade ruandesa ideologias de supremacia racial e cultural de um grupo em relação ao outro. no fim.ruanda O espectro do genocídio ainda assombra a África R uanda é um pequeno país encravado na região africana dos Grandes Lagos. serviu como pano de fundo para o genocídio. o leste congolês experimentou constante conflito. em junho. O genocídio terminou apenas quando. de um ato do poder colonial. boa parte deles condenados a penas alternativas. contrários à violência. a RDC). provocando a emigração de expressivo número deles para países vizinhos. As lembranças do massacre permanecem vivas. a ditadura hutu culpou os tutsis pelo atentado e pela morte de Habyarimana. essencialmente. desde 1997. a ONU criou um tribunal especial para os crimes cometidos em Ruanda. Publicamente. Foram criados também tribunais populares que passaram a julgar centenas de milhares de suspeitos. O conflito envolveu tutsis e hutus. que buscaram refúgio em países vizinhos. quase desconhecido até 1994. nem se distinguem por crenças religiosas. enquanto os tutsis não passam de 10%. na moldura de uma economia tradicional e de uma estratificação social na qual os tutsis eram donos dos rebanhos de gado e os hutus praticavam a agricultura de subsistência. em campanhas que colocam a nacionalidade ruandesa acima das divisões étnicas. sendo considerado um exemplo de sucesso no continente africano. mas milícias rivais e forças do governo da RDC continuaram a se enfrentar. Os estilhaços da violência espalharam-se pelo leste da República Democrática do Congo. tenham morrido cerca de 4 milhões de pessoas no leste congolês. o exército e uma milícia extremista hutu conhecida como Interahamwe desencadearam o massacre sistemático de tutsis – e também de hutus moderados. 800 mil ruandenses foram massacrados. mais tarde. cerca de 3 mil pessoas acusadas de participação no genocídio foram julgadas. buscaram refúgio no Zaire (atual República Democrática do Congo. exigindo o direito de retorno e representação no governo. o nome país. faz questão de afirmar que é um ruandês. um grupo tutsi. O país conseguiu reerguer sua economia. O cerco apertou-se em 1973. Os alemães e. foi a derrubada do avião no qual viajava o general Habyarimana. Tutsis e hutus. a matança já havia sido interrompida pela ofensiva da FPR. área habitada pelos baniamulengues. Em 1962. incluindo membros da milícia envolvida no genocídio. protagonistas do conflito. a violência atinge especialmente a população civil. que funcionou de 1994 a 2012 e condenou 63 indivíduos. na vizinha Uganda. como ouro e diamantes. o governo da FPR empenha-se em promover a reconciliação. condenadas à morte. como cobalto e cromo. 11 ABRIL 2014 Há 20 anos. A marginalização política e social crescente deflagrou uma nova onda de emigração de tutsis. Os choques em Ruanda provocaram o mais rápido fluxo de refugiados que se tem notícia. a FPR lançou uma ofensiva e derrubou o governo ruandês. em 1997. Durante muito tempo. e também em matérias-primas estratégicas. iniciada no século XIX. A caótica situação gerou. Uma guerra civil intermitente. Definidos como grupo privilegiado. uma paz frágil interrompeu os conflitos.

O programa. da geração energética e dos investimentos previstos para os próximos anos. Entre 2001 e 2013. embora em alguns países europeus essa participação seja maior. a avaliação do potencial eólico de um determinado local exige um conhecimento técnico detalhado. ainda.8 10. Até 2012. para cerca de 2 mil MW em 2012. os Estados Unidos ultrapassaram a Alemanha e.4 HIDRELÉTRICA Fonte: Folha de S.1 19. Entre os estados. como a Dinamarca. que o das usinas termelétricas movidas a gás natural (veja o gráfico 2). intensidade e direção. Alguns deles. Até 2007. por exemplo). em 2002. Ceará e Rio Grande do Sul (veja o mapa).8 26. associadas a poluições sonora e visual dos aerogeradores e à implantação de extensas linhas de transmissão. como decorrência dos “choques do petróleo”. do Programa de Incentivos às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa). em função do impacto ambiental da instalação de grandes barragens (pense em Belo Monte.4 BAGAÇO DE CANA 177. a participação é pouco superior a 7%. já há algum tempo instalaram parques eólicos na plataforma continental (offshore). Pela nova regra. Bahia. Não basta uma brisa. sozinha. a questão ambiental ganhou contornos políticos mais agudos. quintuplicou-se a potência global instalada desses “moinhos de vento” pós-modernos.6 2. A energia eólica nunca dará conta. fazia-se o leilão de geração e.8 2010 2011 2012 China 70 60 16.1 50 40 30 23. da China e de outros países asiáticos modificará o cenário.3 26. Os dez países com maior produção de energia eólica são responsáveis por cerca de 80% da potência global instalada – um dado estatístico que indica as amplas possibilidades de crescimento dessa fonte energética. Paulo. consumidores vorazes de energia. nas próximas décadas. como Alemanha e Espanha. na sequência. 17/12/13 . limpa. apenas 13% das terras emersas do globo se encaixam nessa categoria.2 35. B4 A energia eólica no Brasil PERU BOLÍVIA CHILE bundante. 2013 (em R$ por MWh) 201. Observe-se que. seu aproveitamento em escala comercial para a geração elétrica iniciou-se na década de 1970. Embora a força dos ventos seja utilizada há muitos séculos. que tornou-se menor que o da biomassa e das pequenas centrais elétricas (PCHs) e. quase sempre. pouco mais de 30% da produção total de OCEANO PACÍFICO A de vento em popa PARAGUAI ARGENTINA URUGUAI OCEANO ATLÂNTICO Áreas onde estão os principais parques eólicos energia eólica está. em 2002. Segundo a Empresa de Pesquisas Energéticas. No país. a força dos ventos é capturada por aerogeradores e transformada em eletricidade pelas usinas eólicas. à altura de 50 metros do solo. Por sorte. 182 Gráfico 2 Preço médio das fontes de energia em out. em 2020 a participação da fonte eólica na matriz elétrica do Brasil deverá crescer de 1% para 7%.8 32. A capacidade instalada passou de insignificantes 22 megawatts (MW). saltamos de sete usinas eólicas para 90. de modo que todo o conjunto de geração e transmissão entre em operação simultaneamente. Para ser aproveitável comercialmente. 2014 ABRIL 12 .9 12. mas contribuirá decisivamente para complementar a produção das hidrelétricas. é a eólica que apresenta maior incremento na atualidade: em pouco mais de dez anos. Paralelamente. uma fonte renovável e limpa. um método que deixava parques eólicos prontos à espera de sistemas de transmissão.1 8. o parque eólico deve ter linhas de transmissão previstas já no leilão. com foco nas regiões Nordeste e Sudeste.5 17. As regiões brasileiras com maior número de usinas e maior capacidade instalada são o Nordeste e o Sul – que. Nem tudo são flores. Ainda não são tão numerosos os países engajados no desenvolvimento desse tipo de energia. O Brasil está no jogo. os defensores do desenvolvimento de energias renováveis apostaram suas fichas em fontes dispersas no espaço geográfico que permitam uma produção descentralizada e que tenham limitado impacto ambiental. chegando a ser responsável por 25% do total instalado no mundo.5 2005 2007 Estados Unidos Alemanha Espanha Demais países Fonte: WWE e Ressources Naturelles et Peuplement. As terras emersas não são o limite: países de pequena extensão territorial e densidades demográficas mais ou menos elevadas. tornou-se alvo de controvérsias. merece destaque a criação pelo governo federal. Foi naquela época que os Estados Unidos e alguns países da Europa resolveram investir em fontes alternativas para a produção de energia elétrica. o da linha de transmissão. Entre os vários fatores que explicam esse crescimento. a decolagem da fonte eólica beneficiou-se da queda expressiva no preço da geração de energia. a participação da fonte eólica na matriz elétrica é inferior a 3%. a energia eólica requer velocidade mínima do vento de 7 a 8 metros por segundo. a fim de diminuir a dependência do “ouro negro”. especialmente do comportamento dos ventos em termos de constância.2 11.1 20 10 0 Ano 20. a Alemanha ocupou a liderança da produção eólica. Na China e nos Estados Unidos.1 13. de forma radical.6 CARVÃO 179. Nas duas últimas décadas. Por isso.7 21. das necessidades energéticas do Brasil. depois.7 32. Por isso.4 ÓLEO DIESEL ÓLEO COMBUSTÍVEL 186. o período de ventos mais fortes na porção tropical do país (inverno) coincide com o de menor pluviosidade. enquanto na Espanha chega a 25%. mas a proporção varia bastante entre continentes e regiões. tem os objetivos de ampliar a participação de fontes alternativas na matriz elétrica e de racionalizar a oferta energética por meio da complementaridade entre os regimes eólico. concentrada na Europa – mas o avanço dos Estados Unidos.3 EÓLICA 121.6 9.9 15. respondem por mais de 80% dos parques eólicos. a fonte eólica representa apenas 2% da matriz elétrica mundial. o que poderia transformá-la na segunda maior fonte de geração de eletricidade do país.2 22. Entre todas as fontes alternativas. O impulso final veio com uma mudança de regra nos leilões de energia promovidos pelo governo. de biomassa e hidrológico. Na Alema- MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO nha. juntas. o uso da fonte eólica para a geração elétrica conheceu crescimento exponencial na última década. a China galgou o primeiro posto (veja o gráfico 1).7 33. foram pioneiros na criação de legislações específicas para subvencionar a geração eólica.9 16. Segundo a Organização Mundial de Meteorologia. A energia hidrelétrica.p. destacam-se Rio Grande do Norte. A fonte eólica também tem impactos ambientais. os locais onde se instalam as usinas eólicas são distantes dos mercados de maior consumo. justamente quando o nível dos reservatórios das hidrelétricas costuma descer até patamares críticos. dois anos depois. Apesar do rápido crescimento. p.2 32. renovável e disponível em muitos lugares. Mas o dinamismo do setor vem promovendo transformações muito rápidas: em 2008.4 136.Nelson Bacic Olic Da Redação de Mundo Geração eólica avança Gráfico 1 Evolução do potencial eólico (principais países) 100 90 80 Em porcentagem 34. Atualmente.2 6. que sofrem influências de fatores como relevo e rugosidade do terreno.