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REVISTA ENFRENTAMENTO

Ano 01, no 02, Jan./Jun. de 2007
Revolucionar
toda a vida!!
Abaixo a
sociedade de
classes!

Sim. Ou
lutamos pela

autogestão
ou lutamos
por nada!

REVISTA ENFRENTAMENTO

Índice

Expediente

P
Á
G
I
N
A

03

Mais um
Enfrentamento

Revista
Enfrentamento

04

Autogestão:
Desejo e
Possibilidade

Lucas Maia dos
Santos

07

O Que é
Autogestão?

14

17

Os Conselhos
Operários

Nildo Viana

Anton
Pannekoek

A Revolução
Húngara de 1956

O Estado
Moderno e a
Propriedade
Privada

Conselho Editorial:
Lucas Maia dos Santos
Nildo Viana
Veralúcia Pinheiro
Revista Enfrentamento, ano 01, no 02. jan./jul. de 2007.
http://revistaenfrentamento.ubbihp.com.br
revistaenfrentamento@yahoo.com.br

Thomas Feixa

19

A Revista Enfrentamento é uma publicação do
Movimento Autogestionário. A revista não se
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editorial.

Leila Silva
Moura

O mundo de riquezas produzido hoje é suficiente para garantir a todos os seres humanos um bem estar geral. A Comuna de Paris. que estão como num jogo complexo no qual existem milhares de jogadores. e milhões de jogadores indecisos. A Comuna de Oaxaca no México ano passado. Da mesma forma. da exploração e dominação. a autogestão social está na ordem do dia. A Rebelião Argentina de 2002. Os gastos enormes com indústria bélica. outros com maior quantidade. a situação do capitalismo marca uma época de intensificação do processo de exploração e de aprofundamento o caráter concentracionário da sociedade moderna. A Revista Enfrentamento faz parte deste jogo e o seu lado é bem claro. manipulam. dez anos. alguns com maior poder. os textos aqui presentes expressam esta opção pela Revolução Autogestionária. alguns jogadores. como também por seu rebento surpreendente e extraordinário que deixam as pessoas de consciência coisificada totalmente atônitas. seria abandonados e as energias desperdiçadas neste processo passariam a servir as necessidades humanas autênticas. ação. a possibilidade de uma revolução autogestionária está dada./jul. Isto. tais como grandes empresas. aumentando a tendência de sua realização. A Revolução Alemã de 1919. a não ser nas experiências bastante limitadas em alguns países da América Latina. jan. Porém. A Revolução Russa de 1917. Assim. sindicatos. isto é verdadeiro. Assim. ideologias. Outros auxiliam neste processo. grupos políticos. mais um deslocamento no espaço para que a ventania autogestionária possa varrer o mundo da miséria (sob todas as suas formas). o processo histórico é marcado por inúmeras forças. cooptam. A autogestão pode ser um processo que se desencadeará amanhã. Este é mais um enfrentamento. mais radicais ou menos radicais. idéia. segundo a qual pesquisa de opinião pública não avisa a vinda de uma revolução. entre diversas outras experiências. reflexão. se vendendo e se destruindo seja por migalhas ou por uma fatia considerável do bolo do mais-valor global. partidos. instaurando um mundo verdadeiramente humano. isto é outra questão. O que irá definir isso são as lutas de classes. pois as condições para sua realização vão aumentando. Para muitos. Uma situação marcada pelo aumento da exploração e da dominação. então há tudo para vivermos numa sociedade igualitária e libertária num mundo de abundância. ou um tempo mais longo. idéias. mais verdadeiro ainda é a afirmação de Bourdieu. grandes obras sem utilidade real a não ser a ostentação de uma burguesia coisificada. esta afirmação seria precipitada. inclusive as mais recentes revoltas e rebeliões. Porém. apontam para uma ou outra tendência. foi previsto. somando-se ao fato de os desperdícios e parasitismo serão abolidos. A previsão da revolução é obstaculizada não só pela aparente calmaria que esconde a insatisfação e o potencial revolucionário que olhos empiricistas jamais podem enxergar. As Lutas Operárias na Polônia em 1980. todos estão envolvidos e neste intrincado jogo. associações. qualquer iniciativa a favor da autogestão social é um passo para sua concretização. teorias. há esta possibilidade. e vai ficando cada vez mais forte. sem chão mental onde pisar. Também é verdadeiro que todas as grandes revoluções proletárias não foram previstas. 3 . já que não se vislumbra nenhuma revolução proletária no mundo. Assim. Alguns resistem e lutam heroicamente contra tudo isto e a maioria sofre o drama da indecisão e da falta de iniciativa. consumo supérfluo e inútil. Desta forma. já que um solicita o outro. No jogo da luta de classes. Sem dúvida. 50 anos. daqui um ano. dominam.MAIS UM ENFRENTAMENTO Revista Enfrentamento Este é mais um número da Revista Enfrentamento. além de tentativas de revolução. meios de comunicação. 2007 social é uma tendência no interior da sociedade capitalista. A Revolução Russa de 1905. tal como no Maio de 1968 na França. Assim. Hoje. grupos informais. A revolução é uma possibilidade imediata? Sim. indivíduos. Sem dúvida. exploram. os dominantes. Nenhum destes eventos. a autogestão Revista Enfrentamento – no 02. se tal possibilidade é tendencial e se é imediata. todo indivíduo.

tais como: o estado. o variável. os engenheiros suas pontes. do dinheiro e do estado? É possível uma forma de organização cuja essência não seja assentada na hierarquia. dizermos o que uma determinada coisa não é. a igreja. a mais-valia. cotidiano.AUTOGESTÃO: DESEJO E POSSIBILIDADE Lucas Maia dos Santos cabeloufg@yahoo. banal. de analisála. Isto se dá também em outros espaços de socialização.br Às vezes. Em primeiro lugar. as determinações que fazem com que as relações de subordinação e exploração se perpetuem. na autoridade. principalmente quando o objeto da investigação é algo que não existe. são espaços institucionais que produzem com suas Revista Enfrentamento – no 02. em nossa sociedade. Entretanto. 2007 ideologias uma naturalização dos conceitos e categorias existentes em nossa sociedade. os próprios indivíduos etc. a escola. Os artistas valoram sua arte. as instituições. a ideologia.). é fundamental também.com. por exemplo. as organizações de comunicação etc. numa sociedade. o proprietário. Falar de algo possível nos coloca duas questões que devem ser analisadas bem de perto. e os pais deles contaram para eles que era assim quando eram crianças. algo que ainda-não-existe. camponês. organizada segundo princípios precisos. Note que aqui não estou buscando explicar os porquês. Naturalizar. Se eu nasci numa sociedade determinada. pois aí muitas outras determinações entram em jogo. os proprietários. na qual não haja o político profissional. nos termos que estamos considerando. É intrínseco aos seres humanos valorar os objetos. enfim./jul. desempregados etc. jan. a 4 . o ondulado. a ação de eternizar. pois esta é a materialidade de nosso mundo. o histórico. camponeses. os alunos. estruturada de uma determinada maneira. nem de seus conceitos inextrincáveis. por que sempre foi assim. compreender que esta realidade social e os conceitos que lhes são inerentes são determinados historicamente. Naturalizar o que na realidade é uma produção social é um fenômeno muito comum. Como pensar uma organização social que não seja pautada em critérios mercantis? É possível um mundo além da mercadoria. compreender que estes conceitos são produtos da nossa realidade histórica e que esta é permeada de contradições que lhes sustentam. é mais eficaz do que defini-la pelo que ela propriamente é. ou melhor. Racionalizar é aceitar como invariável. que lhes transformam e que lhes apontam sua dissolução. o gerente? Todas estas questões demonstram somente uma coisa. na alienação do trabalho? Existirá uma sociedade cujas cidades não sejam fragmentadas. Analisar as dinâmicas sociais que movimentam nossa sociedade é um começo para compreendermos as possibilidades que estão dadas. natural. os professores valoram suas aulas. a naturalização impede o pensamento de abstrair a realidade. retilíneo. é fundamental analisar a burocracia. repletas de periferias degradadas? De bairros operários? De bairros da burguesia? Haverá uma sociedade cuja totalidade das relações não seja mediada pela mercadoria? É possível pensar em uma forma de organização societária cuja relação dominante não seja: “eu tenho. devemos levar em consideração quais são os valores expressos em nossas análises. A naturalização é um dos fenômenos fundamentais para compreendermos a aceitação de determinadas relações sociais por grupos e classes sociais distintos. e suas relações recíprocas. é o ato. Da mesma forma os “não-artistas” valoram a arte. Analisemos agora o segundo aspecto que considero fundamental para pensarmos o possível: os valores. de compreendê-la. surge a limitação de conseguirmos pensar além de nossa experiência ou além das categorias do mundo que nos rodeia. os deístas seu deus. não nos desvincularmos de nossa realidade social. as relações. portanto. E em segundo lugar. com valores característicos e meus pais contam que quando eram crianças já era assim. por que comprei?”. nestes termos. desempregado etc. de introjetar relações históricas considerando-as invariavelmente necessárias à reprodução de uma dada organização social. o trabalhador (operário. os idólatras seus ídolos. os valores. Ou seja. É necessário. os conceitos e categorias com os quais instrumentalizamos nosso pensamento são um produto genuíno de nossa sociedade. os operários. mas pelo contrário. o local de trabalho etc. é possível pensar. Deste modo. nada mais natural do que considerar que é assim que é. o essencial. o administrador.

naturalizamos nossa realidade histórica por conveniência ou por impotência e no segundo. devemos concebê-la. da história não nos permite avaliar com precisão o que é a sociedade autogerida. autoridade. segundo a qual “os fins justificam os meios”. ou a valoramos a partir da via do possível. portanto ela é impossível ou indesejável.aula. jan. no segundo. poder etc. pois as possibilidades históricas são tantas que a própria dinâmica imprevisível. mas sim o movimento autogerido e auto-organizado que põe fim às relações de classe. exploração. Falar dele. a tudo o que nos rodeia. a autogestão é valorada basicamente de duas maneiras. Mudanças de ordem econômica. os “não-engenheiros” a ponte. encontrar as determinações que explicam por que ocorrem assim. Chegamos assim. 2007 re-produção no pensamento de uma realidade possível em nossa sociedade e concreta numa sociedade revolucionada. Ou seja. Deste modo. Revista Enfrentamento – no 02. tal como fizeram Marx e Engels na Ideologia Alemã. ela é o meio e o fim da revolução. divisão hierárquica dentro dos locais de trabalho e no restante da sociedade. a autoridade. na nossa sociedade. relação etc. só podemos conceber a autogestão num movimento cujos princípios organizativos. na qual a alienação. Se seus objetivos e métodos não são autogeridos e autoorganizados. deus e os “não-idólatras” os ídolos. Processo este que já deve conter em si os fundamentos do que busca construir. e é o que importa. que não se resolvem simplesmente com o manejo de categorias abstratas e teóricas. Ou seja. Levando em consideração as experiências históricas dos movimentos revolucionários e as 5 . signo. privilégios. mesmo que seja sobre morticínios os mais brutais. o que importa é qual valor estamos ou não atribuindo à determinada coisa. exercitamos o pensamento a instrumentalizar-se com categorias do aindanão-existente. pois passam a ser interesses de grupos. Em termos concretos. éticos (no sentido da ética humanista tal como Erich Fromm define em Análise do Homem) e revolucionários sejam a autogestão. se no processo a hierarquia. a escola. cujo fundamento é a autogestão. portanto ela é não só realizável. hierarquias adquiridos passam a ser defendidos. comportamento sexual. política. No primeiro caso./jul. é em grande parte especulação. à ordem atual. os ateus. não é o futuro. por mais que os objetivos sejam a revolução. mas desejável. Se afirmamos que as coisas se dão desta maneira. o que importa é chegar-se ao comunismo. à reprodução diferenciada ou idêntica ao existente. Se no primeiro caso. ao fim da revolução russa em 1921. a igreja etc. devemos perguntar se queremos ou não a autogestão. Porém. assim. Ou seja. poder. ou seja. o comunismo. de outra maneira. Ou seja. o comunismo. No primeiro caso. autoridade. por exemplo. violência. a autogestão. educativo etc. Ou seja. à edificação das burocracias partidárias e sindicais etc. quando definiram o comunismo como o movimento real da sociedade que abole o atual estado de coisas. ou em outras palavras. de A Libertação do quem vai administrar o Pensamento trânsito. mais do que a pergunta se a autogestão é possível. ela estará invariavelmente fadada à conservação. autogestão deve ser concebida de três formas: a) como um processo revolucionário que aniquila a sociedade atual. Que realidade é esta? O que é autogestão? Estas duas questões nos conduzem a problemas de difícil solução. do possível e percebemos a realidade como histórica e transitória. é um subterfúgio que expressa determinados valores e que busca fugir à pergunta central: queremos a autogestão? Se sim. é o projeto consumado. valorar é um prolongamento dos seres humanos a tudo o que nos concerne. resta. devemos considerar em linhas gerais o que concebemos por esta palavra. Mesmo assim. privilégios permanecem. classes e indivíduos. existência de uma burocracia onipotente e incontrolável etc. e c) como um conceito. b) como a sociedade produzida balizada em outras formas de relações sociais calcadas em princípios organizativos radicalmente diversos. autogestão é conceito que expressa uma realidade possível. teóricos. segundo penso. Ou a valoramos a partir da perspectiva do existente. Deste modo. cultural. Mais do que mera palavra. a pergunta de como vamos administrar uma cidade de 10 milhões de habitantes. alguns indicativos podem ser lançados ao vento. Na ética autoritária. O século 20 é o testemunho mais vivo destas “revoluções”. a autogestão é o processo que degenera esta sociedade. hierarquia. portanto viva. sejam abolidos. No final. Trata-se na realidade de uma mudança global em todos os níveis das relações sociais.

principalmente administração das instituições desta sociedade. simbólico. Podemos definir administração. a pergunta correta não é se a autogestão é possível. mas ao mesmo tempo expressa uma realidade ainda-não-existente. jan. pois sua função é ordenar os fluxos de informações. tanto o produto. O tempo deixa de ser o padrão de medida do valor para ser o princípio da construção de vida. Como conceito. Revista Enfrentamento – no 02. mas como fim. ou seja. a autogestão é o aniquilamento da administração. A ação de administrar pressupõe o sujeito que administra. vendo meu tempo de vida em troca de um salário. Antes de mais nada. 2007 Neste sentido. O objetivo de administrar é fazer com que a organização funcione de maneira objetiva. meu trabalho não deve ser alienado. pessoas e objetos dentro da organização. de maneira lata. Se este burocrata é “justo”. autogestão refere-se tanto à realidade posta em nossa sociedade. positivo. como sendo uma técnica de organizar fluxos de informações. que permita sobreviver para continuar vendendo meu tempo./jul. Em primeiro lugar. Deste modo. “mau” ou “injusto” pouco importa. sendo desta maneira construtivo. 6 . Em outras palavras. como um conceito. ela não é administração. quanto o processo de trabalho deverá ser de meu inteiro conhecimento.produções teóricas sobre eles. E é preciso fazê-lo. autogerir é a criação de novas relações sociais. negação. Numa organização autogerida. portanto minha objetivação. insisto. ou seja. Tudo está por fazer. Se em nossa sociedade. esse administrador é imbuído de poder e autoridade concedidos pela organização. o tempo não é vendido. O administrador é a personificação do “separado”. Representa o fim da divisão social do trabalho. mas organizado para a própria vida. E no final. é a velha divisão social do trabalho cuja raiz é o poder (econômico. aniquilamento. tal como Guy Debord definia na sua Sociedade do Espetáculo. É sim destrutiva e construtiva ao mesmo tempo. ordenada. portanto como um processo de destruição. hierarquizada. podemos colocar em pauta alguns elementos que nos permitem especular mais sobre o que ela não deve ser do que ela realmente deva ser. objetivo de se viver. delineia-se a construção da sociedade autogerida. Trata-se na realidade de processos que ocorrem simultaneamente. portanto. E é deste modo que entramos na terceira forma de concebermos a autogestão. no próprio ato de destruir a sociedade burguesa. Desta maneira. Não como meio para sobreviver. político). mas sim se a desejamos ou não. Fique claro desde já que não se trata de duas realidades separadas. o fim da hierarquia e do poder. podendo ser privada ou estatal. pessoas e objetos dentro de uma organização burocrática. “bom”. sendo. Meu trabalho deve ser a minha realização. Autogerir significa o domínio da vida como um todo. E ele expressa sempre uma realidade. Ela não é primeiramente destrutiva e em seguida construtiva. negativa e positiva simultaneamente! Ou seja. Isto é para mim pensar o possível a partir do existente. propositivo. a forma de exposição serve somente para aclarar as idéias e apresentar didaticamente o que é a autogestão. há um milhão de perguntas sobre o que fazer com um milhão de coisas. Poderíamos elencar aqui um sem número de conceitos e categorias que expressem uma realidade ainda-não-existente. sendo. funcional. deve ser minha externalização.

Entretanto. “esquematicamente.com. as cooperativas não determinam seus fins. de uma atividade que possui estrutura e finalidade próprias. o participante é como um flautista numa orquestra: participa se misturando individualmente a um grupo que lhe é preexistente. a “democracia direta”. o controle operário significa um passo adiante em relação à co-gestão. a extração de mais-valor relativo . com efeito. p. “co-gestão”. ou seja.. Vejamos o significado destas palavras: A) Participação: Participação não significa autogestão. pois o controle operário surge como produto de uma intervenção conflitual que arranca concessões para os trabalhadores. a proposta de “controle operário” apresentada por diversos grupos políticos (principalmente leninistas e trotskistas) expressa a vontade de apresentarem-se como mais democráticos e fazem isto buscando nos iludir com a afirmação de que o leninismo sempre defendeu tal proposta. embora se limite a exercer-se sob pontos específicos que não questionam o salariato. para designar a generalização dos sistemas de cooperativas. não significa que a classe operária irá gerir a produção e sim que ela irá “supervisionar”. estas concepções são equivocadas. é um “método de gestão de empresas” e. pois não conseguem expressar o verdadeiro sentido da autogestão.). Segundo Guillerm e Bourdet. B) Co-Gestão: A co-gestão é uma tentativa de integrar a criatividade e a iniciativa operária no processo produtivo capitalista (com o objetivo de aumentar a produtividade e. O capitalismo envolve todas estas manifestações e as colocam sob sua direção. tal como o estado ou o partido. mas ainda não é autogestão. é uma “forma política” que assume o comunismo. a tal ponto que esta limitação se tornou seu sinal distintivo. Karl Marx A autogestão. pois o mercado e o estado sempre interferem nas finalidades de uma cooperativa e não só nos fins como. é útil distinguir o conceito de autogestão de outras palavras que muitos pensam ter o mesmo significado. tal como fizeram A. “controle operário” ou “cooperativismo”. “inspecionar” ou verificar as decisões tomadas por “instâncias exteriores” ao processo produtivo. nos meios e não nos fins. o controle operário. tal como pretendemos demonstrar no decorrer deste trabalho. Guillerm e Y. convir que (. O termo autogestão deve assumir o papel” Guillerm e Bourdet (1976. para outros. pois ela significa participar de algo já existente.. sendo assim. D) Cooperativa: Segundo Guillerm e Bourdet. o controle operário. direta ou indiretamente. em menor grau. Acontece que. a participação. conseqüentemente. pode-se. Não existem nem podem existir “ilhas de autogestão” cercadas pelo mar do capitalismo. a co-gestão e as cooperativas podem existir no interior do modo de produção capitalista e são assimiláveis por ele. 19-20). encontramo‐ nos apenas uma vez em companhia da liberdade: no dia do seu enterro. Mas mesmo essa co-gestão nos meios é limitada. Autogestão não possui o mesmo significado que “participação”. ao contrário da autogestão. pois a definição por outros sobre os Revista Enfrentamento – no 02. Bourdet.br Dirigidos por nossos pastores. far-se-á mister uma palavra nova. A primeira concepção deixa entrever a possibilidade de existir autogestão no interior da sociedade capitalista e a segunda apresenta a idéia de que é possível haver comunismo sem autogestão. Em síntese. ou seja. Antes de mais nada. também nos meios.O QUE É AUTOGESTÃO? Nildo Viana nildoviana@terra. A autogestão só pode existir em locais isolados por um curto período de tempo e 7 .ou mais-valia relativa) e que permite a participação dos trabalhadores apenas no processo de produção. no interior da sociedade capitalista./jul. C) Controle Operário: Segundo Guillerm e Bourdet. não é a essência do comunismo e por isto este poderia utilizar outras “formas políticas”. as cooperativas têm ‘vegetado’ sempre sob formas locais. 2007 fins leva a uma pré-determinação no que se refere aos meios. Para ele. para uns. Para Brinton. jan. Por isso. já que esta é reduzida a uma mera “forma política” e.

descobrir qual é a determinação fundamental do modo de produção comunista1. é um processo de trabalho caracterizado pela exploração e alienação do trabalhador. de outro. como só a força de trabalho produz mais-valor. utilizamos a expressão hegeliana de determinação fundamental. 1 João Bernardo utiliza a expressão “lei fundamental” Bernardo (1975)./jul. sendo assim. pois todos eles possuem algo em comum: em todas essas formas de “participacionismo” permanece exterior aos trabalhadores a determinação dos fins e uma “co-determinação” no que se refere aos meios. mas.em confronto com o capital e desta luta um dos dois vencerá. já que aumenta a extração de mais-valor relativo. fundamentalmente. Os meios de produção foram valorizados pela força de trabalho e por isso se tornam. segundo linguagem corrente. como vimos. O proprietário dos meios de produção. isto cria uma nova tendência à baixa da taxa de lucro médio. O Capital. jan. servos e senhores. entre outras. pois os meios de produção apenas transmitem seu valor ao produto-mercadoria fabricado. Só a força de trabalho acrescenta valor às mercadorias. mais-valia). Esta é a tendência declinante da taxa média de lucro. cria também contra tendências e busca fazer isto de várias formas. Entretanto. 8 . é um processo de valorização dos meios de produção. Relação de Produção O modo de produção capitalista. pois o aumento do mais-valor relativo significa que a força de trabalho acrescentou mais valor ainda à mercadoria e isto torna mais dispendioso os meios de produção. Mas o que é a autogestão? Como ela pode surgir e se expandir mundialmente? Em primeiro lugar. compra a força de trabalho do produtor e paga por ela o valor necessário para sua reprodução enquanto força de trabalho. ele é suficiente para marcar a diferença entre a autogestão e as outras formas de gestão que se dizem “democráticas”. Esta dependência caracteriza tanto as relações de produção quanto todas as outras esferas da vida social. o termo co-gestão engloba todos os outros termos e. um dispêndio cada vez maior para o capitalista. O capitalismo. Esta relação de dominação do trabalho morto sobre o trabalho vivo através da produção de mais-valor é a determinação fundamental do capitalismo. laicos e clérigos. com o desenvolvimento do capitalismo. 2007 No processo de produção do mais-valor há um duplo caráter: de um lado. produz mais do que o necessário para sua reprodução e este valor a mais acrescentado à mercadoria e apropriado pelo capitalista é o que se chama mais-valor. Marx demonstrou que a relação de produção (determinação fundamental) do feudalismo é a servidão: “em vez do homem independente. Com o desenvolvimento e acumulação dos meios de produção há a desvalorização da força de trabalho e a valorização dos meios de produção. devemos reconhecer que é impossível compreender a autogestão e a possibilidade histórica de sua concretização sem compreendermos o solo onde ela pode brotar. Autogestão. às quais serve de fundamento”. como a idéia de lei é questionável do ponto de vista da dialética materialista. Torna-se necessário. Com isso o capitalista investe cada vez mais nos meios de produção e cada vez menos na força de trabalho. As relações de produção capitalistas se baseiam na extração de mais-trabalho sob a forma de mais-valor (ou. surge a tendência para haver a queda da taxa de lucro médio. Assim. então. se caracteriza pelo domínio do trabalho morto sobre o trabalho vivo. porém. A força de trabalho. o modo de produção capitalista. Revista Enfrentamento – no 02. tal como através do aumento da interferência do estado no processo de produção e distribuição ou da expansão do consumo. ocorrendo a destruição da experiência autogestionária ou a generalização da autogestão a nível nacional e posteriormente mundial. A determinação fundamental do modo de produção comunista só pode ser a autogestão. Por conseguinte. A evolução do modo de produção capitalista transforma esta relação. uma relação de produção. o capitalista. encontramos aqui toda a gente dependente. A relação de produção capitalista expressa o fundamento da sociedade capitalista. ou seja. Relação de Produção Todo modo de produção possui uma determinação fundamental que é expressa pelo conceito de relações de produção e que serve de fundamento para todas as outras relações sociais. O aumento de produtividade busca evitar esta queda. O capital não é só “meios de produção” mas é. Mas podemos dizer também que as definições acima deixam entrever que não existe muita diferença entre todos estes termos. através de seus agentes. uma relação social. vassalos e suseranos.

etc. etc. Marx e Engels (1978) haviam colocado que nesta primeira fase deveria haver a “estatização dos meios de produção”. desconhecer que a tese da “fase de transição” é uma conquista irrenunciável do “socialismo científico”. segundo o pseudomarxismo. “política”./jul. no moral e no intelectual. devemos dizer que Marx não utilizava as noções de “período de transição” e de “socialismo”. e é aí que se pode falar em “estado de transição”. assim. portanto. a determinação fundamental do modo de produção comunista. então. na ideologia da burocracia. b) a existência de um “estado de transição” no socialismo. atravessa duas fases. após a experiência da Comuna de Paris. Acontece que. entre outras coisas. Mas. podemos dizer que. no econômico. Essas noções foram criadas pela tradição bolchevique e similares e foram erigidas ao Revista Enfrentamento – no 02. Congruentemente com isto. O que Marx “realmente disse”? As colocações de Marx sobre a passagem do capitalismo ao comunismo que o pseudomarxismo se utiliza para sustentar tal tese são duas: a) a permanência do trabalho assalariado. ou seja. jan. Neste período. a jornada social de trabalho compõe-se da soma das horas de trabalho individual. 2007 nível de verdadeiros “conceitos”. O que Marx colocou é que a sociedade comunista. Posteriormente. o estado. as classes sociais. o que significa que são duas fases do comunismo e não que uma delas seja de “passagem” para ele. Assim. “sonho irrealizável” é a idéia de um “período de transição” entre capitalismo e comunismo. Para Marx. Outra colocação que Marx reformulou é a de que na primeira fase da sociedade comunista todos deveriam receber salários equivalentes ao dos operários. não se pode dizer que tal idéia está presente em Marx e utilizar este “argumento de autoridade” para sustentar tal tese. Autogestão e Período de Transição Se a autogestão é uma relação de produção. A ideologia da transição é contrária ao que o próprio Marx colocou e. As colocações de Marx sobre a permanência do trabalho assalariado e a existência de um estado de transição se referem a esta primeira fase do comunismo.. A autogestão é uma relação de produção que se generaliza e se expande para todas as outras esferas da vida social. nela o produtor individual obtém da sociedade depois de feitas as devidas deduções precisamente aquilo que deu. assim. ele reformulou esta tese. A autogestão significa que os próprios “produtores associados” dirigem sua atividade e o produto dela derivado. devese abolir o exército permanente e a burocracia do estado. Conseqüentemente. mas de uma que acaba de sair precisamente da sociedade capitalista e que. Tal como fizeram os proletários durante a Comuna. por conseguinte. o que pressupõe a permanência do trabalho assalariado. o mercado. o selo da velha sociedade de cujas entranhas procede.Isto significa. o trabalho assalariado e até mesmo a “lei do valor”. na verdade. tal como surge do capitalismo. Entre o capitalismo e o comunismo existe um período de transição chamado socialismo. uma etapa necessária na história. antes de tudo. ou seja. e que por isso abole a chamada “lei do valor”. por exemplo. tal como demonstra o seu artigo sobre a comuna e os “posfácios” ao Manifesto Comunista. abole-se a divisão entre “economia”. ele afirmou que os trabalhadores receberiam bônus comprovando o trabalho executado: “Do que se trata aqui não é de uma sociedade comunista que se desenvolveu sobre sua própria base. só que funcionando sob outra forma. que foram reificados e passaram a ser. A sociedade entrega-lhe um bônus consignando que prestou tal ou qual quantidade de trabalho (depois de 9 . já que com a autogestão abole-se a divisão social do trabalho. O que o produtor deu à sociedade constitui sua cota individual de trabalho. A autogestão inverte a relação entre trabalho morto e trabalho vivo instaurada pelo capitalismo e. instaura o domínio do trabalho vivo sobre o trabalho morto. Abole-se. a autogestão Marx (1986). o tempo individual de trabalho de cada produtor em separado é a parte da jornada social do trabalho com que ele contribui. a classe operária não pode se apossar do estado. é sua participação nela. apresenta ainda em todos os seus aspectos. Entretanto. qual é o sentido que tem o discurso sobre o “período de transição”? Questionar a necessidade de um “período de transição” entre o capitalismo e o comunismo significa. que supera todo e qualquer utopismo. pois deve destruí-lo e em seu lugar implantar o “autogoverno dos produtores”. é necessário colocar que Marx reformulou as suas teses sobre a primeira fase do comunismo. Deixando de lado a discussão sobre o sentido da palavra utopia. que a autogestão não é apenas a “forma política” (democracia direta) do comunismo e nem mero “método de gestão das empresas”. o estado dirige a economia através de um plano e se mantêm o dinheiro.

. A sociedade comunista existe potencialmente no interior da sociedade capitalista através da luta operária.descontar o que trabalhou para o fundo comum). Acontece que estas propostas estão superadas historicamente. do dinheiro. pois o caminho da alienação só pode ocorrer via desalienação. o trabalhador perde o controle do produto do seu trabalho e do produto deste e cria aquele que irá controlar o seu trabalho e se apropriar do produto dele. por isso. Assim se observa que a “ideologia da vanguarda” (Lênin. o trabalho assalariado e a “lei do valor”. O desenvolvimento das forças produtivas. das forças produtivas acumuladas sobre a força produtiva ativa. com a vitória do proletariado. acumulado e utilizado para comprar meios de consumo e produção e/ou força de trabalho. a sua libertação. O Problema da Alienação A história da humanidade é marcada pelo predomínio da alienação. já atingiu um nível tão elevado que a revolução autogestionária terá que transformá-las para possibilitar a autogestão e sua utilização de acordo com as necessidades humanas. Nesta fase predomina o princípio “de cada um segundo sua capacidade a cada um segundo seu trabalho”. segundo a linguagem de Marx. ou seja. A ideologia da vanguarda diz que é através da alienação que se conquista a desalienação./jul. 2007 relação social que se caracteriza pelo fato do trabalhador não ter controle de seu trabalho e. ele também irá perder o produto de sua atividade revolucionária. não há mais a necessidade de existir “duas fases” no comunismo e a chamada “transição” do capitalismo ao comunismo se realiza no período revolucionário que ao terminar. O salário é pago em papel-moeda (dinheiro). Kautsky) é um elogio da alienação. Isto se torna. A autogestão das lutas operárias é o “embrião” do 10 . por conseguinte. se caracteriza pelo domínio do trabalho vivo sobre o trabalho morto e surge não de um “desenvolvimento econômico” e sim da ação revolucionária do proletariado. etc. O bônus proposto por Marx era trocável apenas por meios de consumo e por isso não tem nada a ver com o dinheiro. O domínio dos não-produtores sobre os produtores na época capitalista coloca a autogestão como tendência histórica de superação da alienação. O capital. Na segunda fase predomina o principio “de cada um segundo sua capacidade a cada um segundo suas necessidades”. ao contrário. Se o capitalismo surge “economicamente” no feudalismo. pois. recebe-a desta sob uma outra forma diferente” Marx (s/d. assim. A Autogestão das Lutas Operárias O capitalismo surge no interior do feudalismo através do movimento do capital comercial que leva ao predomínio do capital industrial e assim se torna o modo de produção dominante. relação de produção capitalista. enfim.modo de produção escravista antigo. Por conseguinte. Por conseguinte. modo de produção feudal. o mesmo não ocorre com o comunismo. é que o proletariado poderá conquistar sua libertação. Desta forma. p. que é um “meio de troca universal” e pode ser. etc. e este produto será apropriado pela sua “vanguarda”. do trabalho assalariado. Com o posterior desenvolvimento das forças produtivas não há mais motivos para a existência do princípio “a cada segundo o seu trabalho” e do sistema de bônus. não é verdade. e pela instauração da autogestão social ou. a primeira fase do comunismo já seria marcada pela abolição do estado. Marx colocou que o trabalho se generalizaria durante a primeira fase do comunismo. se o proletariado não dirige o seu processo de libertação e é dirigido por sua “vanguarda”. jan. Isto. A partir da definição de alienação acima exposta vê-se que ela é sinônima de heterogestão e antônimo de autogestão. modo de produção tributário. 213). somente controlando o seu processo de libertação.. mas sem ligação com o salariato e sim com o sistema de bônus. ser controlado pelo nãotrabalhador que. e com este bônus ele retira dos depósitos sociais de meios de consumo e parte equivalente à quantidade de trabalho que deu à sociedade sob uma forma. entretanto. pois elas foram produzidas tendo por base o capitalismo da época de Marx. da classe capitalista sobre a classe operária. na atualidade. instaura a autogestão social. Entretanto. através da autogestão de suas lutas. toma posse do produto do seu trabalho. Isto ocorreu em todos os modos de produção classistas da história . ou seja. o sistema de bônus não é a mesma coisa que o salariato. na Europa ocidental e nos demais países capitalistas superdesenvolvidos. significa o domínio do trabalho morto sobre o trabalho vivo. A alienação é uma Revista Enfrentamento – no 02. O comunismo. do século 19. ou seja.e atinge o seu ponto culminante no modo de produção capitalista. da livre associação dos produtores. válido até para os países capitalistas subordinados (“terceiro mundo”).

S/D. decreta a morte do capitalismo e inaugura o modo de produção comunista. os conselhos revolucionários. J. K. Se o conteúdo do socialismo (ou comunismo) é a autogestão. o estado capitalista. K. Para Uma Teoria do Modo de Produção Comunista. então é na sua primeira forma de manifestação. de um lado. 1988. 2a edição. K. portanto. e os coletivos autogeridos. 1975. 5 vols. 2007 11 . e BOURDET. Revista Enfrentamento – no 02. Porto. H. conselhos de bairros. 1976. Obras Escolhidas. MARX. in: LASKY. Afrontamento. A. é uma relação social que nasce com a autogestão das lutas operárias e se universaliza e invade o conjunto das relações sociais e. Y. jan. Janeiro de 1996. assim. O Manifesto Comunista de Marx e Engels. assim. Alfa-Omega. BIBLIOGRAFIA BRINTON. GUILLERM. MARX./jul.. no seu confronto com o capital. Autogestão: Mudança Radical. M. K. e cria-se.). Artigo publicado originalmente na Revista Ruptura. Os Bolcheviques e o Controle Operário. 04. MARX. A Guerra Civil na França. Afrontamento. (org. F. Zahar. etc. os coletivos de autogestão como os conselhos de fábrica. Crítica ao Programa de Gotha. ou seja. Zahar. São Paulo. 1975 MARX. Porto.comunismo. J. que ela se revela como possibilidade histórica. São Paulo. num. de outro. Ano 03. Rio de Janeiro. e ENGELS. A autogestão. BERNARDO. K. A vitória do proletariado leva à generalização da autogestão e a instauração do modo de produção comunista e a sua derrota significa a reprodução do modo de produção capitalista. O Manifesto Comunista. Abril Cultural. F. 2a edição. 1978. 1986. na luta operária. A autogestão das lutas operárias produz. e ENGELS. uma “dualidade de poderes”: o poder político burguês. São Paulo. Global. in: MARX. O Capital. Rio de Janeiro.

Escolhem. é simplesmente substituir os antigos patrões por novos. E temos visto que estes representantes se tornam então os donos da organização e deixam de encarnar os interesses revolucionários dos trabalhadores. se não formarem um bloco sólido unindo as suas forças e desejos. deverão poder utilizar as riquezas da terra de maneira a torná-la acolhedora para todos. num clima de combatividade. reunir as suas forças numa poderosa organização sem se atolar no lamaçal da burocracia? Responderemos a esta questão pondo uma outra: quando os operários se limitam a pagar as suas quotas e a obedecer aos dirigentes. através da qual possa tomar decisões e fazê-las concretizar./jul. Os dirigentes profissionais não têm lugar numa tal organização. eles apenas podem ser dirigidos por funcionários que agem em seu nome. é tomar todas as responsabilidades enquanto pessoa entre camaradas iguais. pois a história já a produziu: ela nasceu da prática da luta de classes. Durante a primeira Revolução russa. 2007 com obediência. tanto na ação como na direção. e poder repreendê-los de vez em quando. poder-se-á dizer que eles lutam verdadeiramente pela sua liberdade? Lutar pela liberdade. Eles não podem atacar a poderosa organização do poder capitalista se não apresentarem. Quando as greves atingem uma certa importância. Bem entendido será necessário obedecer: cada um deverá conformar-se às decisões para cuja formulação ele próprio contribuiu. nem segui-los Revista Enfrentamento – no 02. decidir do que é verdadeiro e do que é justo. Fazer-se libertar pelos outros. Eles não poderão fazê-lo enquanto não souberem bater-se por si próprios. isso não significa que todas as grandes ações e as greves gerais devam ser dirigidas a partir de um órgão central. A revolução proletária não consiste exclusivamente em destruir o poder capitalista. corpo e alma. portanto os 12 . uma organização fortemente estruturada. para responder a algum mau golpe do sistema capitalista ou para apoiar camaradas. Como pode a classe operária. Os que tiveram mais êxito foram muitas vezes aqueles que não tinham sido decididos antecipadamente. Evidentemente. solidariedade e paixão. pelo seu lado. os grevistas em ação têm necessidade dum espaço de entendimento. decide e age mobilizando todas as suas faculdades . constitui para o trabalhador que tem o espírito fatigado pelo labor quotidiano. torna-se impossível que todos os operários participem na mesma assembléia. se eles não agirem na simultaneidade. Para atingir o seu objetivo – a liberdade – os trabalhadores deverão poder dirigir o mundo. os movimentos de greve conheceram uma sucessão de altos e baixos. é participar com todos os seus meios. e graças à qual possa fazer conhecer as ações que empreende e os objetivos que se propõe atingir. A verdadeira organização de que os operários têm necessidade no processo revolucionário é uma organização na qual cada um participa. Para se reunir uma força organizada. na qual cada um pensa. é pensar e decidir por si mesmo. Tais casos podem produzir-se. uma tarefa árdua e difícil. Mas a totalidade do poder concentrar-se-á sempre nas mãos dos próprios operários. Mas a única via que conduz à liberdade. Ela exige também que o conjunto da classe operária saia da sua situação de dependência e ignorância para aceder à independência e construir um mundo novo. Porque quando milhares ou milhões de operários não formam mais que um corpo unido. enquanto que aqueles que tinham sido provocados pelos comitês centrais estavam em geral votados à derrota. nem que elas devam ser definidas numa atmosfera de disciplina militar. não é deixar os dirigentes decidir em seu lugar. jan. Os comitês de greve são a sua primeira expressão. mas a maior parte das vezes as greves gerais explodem espontaneamente. nas suas lutas revolucionárias. bem mais exigente que se ele se limitar a pagar e a obedecer. Bater-se pela liberdade. Tais greves propagam-se como um fogo na planície. que fazem desta libertação um instrumento de domínio. Poderemos alguma vez realizar uma tal organização? Qual será a sua estrutura? Não é de todo necessário definir-lhe a forma. É evidente que pensar por si mesmo.OS CONSELHOS OPERÁRIOS Anton Pannekoek A classe operária em luta tem necessidade duma organização que lhe permita compreender e discutir. o protótipo.um bloco unido de pessoas plenamente responsáveis.

Estes últimos não podem senão propagar essa idéia. jan. por vezes era o próprio soviete que era inteiramente substituído. a fim de provocar uma unidade no combate. Eles tinham sabido bater-se e agir corretamente por si próprios. não devem criar sovietes. mas tiveram pouca segurança e escolheram chefes possuídos de ideais capitalistas . se pensam e decidem. os parlamentos. os sovietes de soldados e de operários constituíram-se através de todo o país e foram a verdadeira força motora da revolução. designaram os seus dirigentes sindicais e líderes de partido à cabeça destes conselhos. cuja eleição devia seguir-se o mais breve possível. depois da decomposição do exército. espécie de governo primitivo./jul. a sua função era de aconselhar servindo-se dos seus conhecimentos mais vastos. Em regra geral. Assim o sistema dos sovietes mostrou qual era a forma de organização mais Revista Enfrentamento – no 02. Mas os operários alemães. Se os operários não são suficientemente avançados para descobrir a via da revolução. Estes sovietes funcionavam muitas vezes como forças políticas. eles põem todas as suas energias ao serviço da revolução. Cada delegado é revogável em qualquer momento e o comitê não pode nunca tornar-se um poder independente. por eles próprios todos os detalhes da luta porque ela será obra deles.ainda chamados parlamentos operários porque eles funcionam segundo o mesmo principio . estando constantemente em ligação com eles e devendo executar as decisões dos operários. A sua primeira tarefa era discutir questões políticas e assumir funções políticas. Eles tornaram-se assim o centro permanente da revolução. Durante a revolução russa. explicando aos seus camaradas operários que a classe operária em luta se deve organizar em conselhos. Não podiam prever tornar-se alguma vez um poder independente. quando em 1918. Socialistas competentes eram escolhidos como secretários. pois os respectivos membros nos sovietes eram muitas vezes mudados. neste caso.o que destrói sempre as coisas. cada vez que o poder czarista se encontrava paralisado e que os dirigentes desorientados lhes deixavam o campo livre. não podiam obrigá-los a entrar em greve e os seus apelos não eram seguidos se não coincidissem com os sentimentos instintivos dos operários que sabiam espontaneamente se estavam em situação de força ou de fraqueza. Este modelo devia ser imediatamente adotado em 1917. que tinham sido habituados à disciplina de partido e de sindicato e para quem os fins políticos imediatos eram modelados a partir dos ideais social-democratas da república e da reforma. O nascimento dos conselhos operários acompanha quase sempre a primeira ação de caráter 13 . nas fábricas. os grevistas escolhiam delegados que se organizavam em nome de toda uma cidade.delegados que se reagrupam num comitê. os operários participavam em assembléias gerais nas quais discutiam as suas mesmas questões. Os delegados faziam constantemente a ponte entre a assembléia e as respectivas fábricas. quando as greves se desencadeavam duma maneira intermitente. Aí se discutia. tomavam decisões e muitas vezes designavam novos delegados. o conjunto dos grevistas tem assegurado ser unido na ação conservando o privilégio das decisões. Vemos claramente como o sistema dos conselhos não pode funcionar senão quando se encontra em presença de uma classe operária revolucionária. ou ainda da indústria ou dos caminhos de ferro de toda uma província. os interesses de todos os trabalhadores e os acontecimentos políticos. Enquanto os operários não tiverem a intenção de prosseguir a revolução. Pelo contrário. Este comitê não é senão o corpo executivo dos grevistas. A importância revolucionária dos sovietes verificou-se de novo na Alemanha.lhes bastam amplamente. os partidos e os congressos sindicais . Desta maneira. Sabiam por outro lado que todo o seu poder estava nas mãos dos trabalhadores. os conselhos operários são a forma de organização de que têm necessidade. não é surpreendente que um “congresso de conselhos” decida abdicar em favor dum novo parlamento. se a hora era de paixão ou de prudência. meditações e negociações visando à obtenção de reformas no interior do sistema capitalista. 2007 apropriada para a classe operária revolucionária. Pelo seu lado. sovietes de operários e de soldados foram criados segundo o modelo russo. porque as greves eram essencialmente dirigidas contra o czarismo. se se contentam em ver os seus dirigentes encarregarem-se de todos os discursos. os sindicatos e os seus dirigentes encarregam-se da direção dos comitês. eram compostos pelos delegados de todas as fábricas quer elas estivessem em greve ou em funcionamento. se participam com entusiasmo e paixão em todos os acontecimentos. Assim. Isto implica igualmente que os conselhos operários não podem ser constituídos por grupos revolucionários. a situação presente. em detalhe.

têm de montar guarda no conjunto do país. estes não passam de porta-vozes temporários das assembléias conselhistas. ela torna-se. forma política do regime capitalista. assim como o curso interrompido da vida social. posteriormente. ser legalizadas. Durante a greve. Eles têm por fim. eles são impotentes./jul. eles devem tentar transformar as forças combativas dos operários em ações refletidas. A democracia parlamentar é uma democracia abjeta. poderosamente equipados. a máquina eleitoral está concebida de tal forma que apenas os grandes partidos capitalistas. De organização ilegal e clandestina da sociedade capitalista. Do mesmo modo. ocupar-se de certos negócios públicos que eram antes geridos pelo estado: a saúde e a segurança pública. Somente o sistema conselhista constitui a verdadeira democracia operária. Os operários não estão. o intérprete do poder dos trabalhadores. depois de ter conquistado o poder. Eles devem. Durante a revolução francesa. a fim de não perder de vista os esforços levados a cabo pela classe capitalista para reunir as suas forças e vencer os trabalhadores. E enquanto em Paris os delegados dessas assembléias elaboravam a nova constituição. decretam as leis. a sua importância e funções cresce à medida que se desenvolve a revolução. disponibilidades e hesitações das massas não fazem mais que um todo no interior da organização conselhista. Tal como uma potência em guerra. não se trata senão de uma maneira de mascarar a dominação capitalista que se ri de toda a justiça e de toda a igualdade. participando nas discussões e decisões. as decisões serão tomadas pelos próprios operários. e que não faziam outra coisa que usurpar as funções dos funcionários reais. formam os governos. constituídas para lutar contra os dirigentes sindicalistas. em cada cidade e aldeia. os cidadãos através de todo o país faziam a verdadeira constituição promovendo reuniões políticas e construindo organizações políticas que deveriam. Os delegados de todas as fábricas são então encarregados de discutir e decidir sobre todas as condições de luta. os homens de negócios e os artesãos construíram. tornados impotentes. eles encarnam o poder operário e devem tomar todas as medidas necessárias para enfraquecer e vencer o adversário. eles podem não passar de simples comissões de greve. assembléias comunais e tribunais. antes e durante a luta. As funções dessas comissões tomam mais amplitude com as greves gerais. e ver como elas poderão reagir contra as medidas governamentais. Os delegados designados tornam-se os dirigentes do povo.revolucionário. Na realidade. Em regra geral. Com o sistema dos sovietes. procedem às mudanças sociais necessárias com o auxílio de novas leis. uma verdadeira força política e econômica. em contacto com os seus delegados. A partir do momento em que o movimento revolucionário adquire um poder tal que o governo fica seriamente afetado. Enquanto que nova forma de organização política. por outro lado. sempre que as greves ultrapassam as intenções destes últimos e os grevistas recusam acompanhá-los por mais tempo. pouco a pouco. pouco e pouco. Num primeiro tempo. a nova classe ascendente deve criar as suas novas formas de organização que. na revolução proletária. 2007 como rebentos de um tronco morto. vontades. e que ele se livre de não escolher o homem conveniente! Os eleitores só poderão exercer o seu poder no momento do voto. O povo não pode escolher os seus delegados e votar senão uma vez todos os quatro ou cinco anos. o conselho operário toma finalmente o lugar do parlamentarismo. os conselhos operários tornam-se órgãos políticos. os cidadãos. ao longo do processo revolucionário. ilegais na época. as novas organizações que emergiram das antigas Revista Enfrentamento – no 02. cada delegado pode ser revogado a qualquer momento. a qual o governo passa desde então a ter em conta. a nova classe capitalista. Teóricos capitalistas e social-democratas pensam ver na democracia parlamentar o perfeito modelo da democracia. conforme aos princípios da justiça e da igualdade. É muito raro que grupos de verdadeiros opositores do regime obtenham quaisquer lugares. Os 14 . o que representa a tarefa mais importante e árdua da classe operária em situação revolucionária. A classe em ascensão sempre construiu. jan. as atuações Exército e da canalha capitalista. Todas as opiniões. apenas e constantemente. Nenhuma revolução social começou como uma simples mudança de dirigentes políticos que. têm possibilidades de ganhar. mas também não é mais do que o porta-voz que pode ser revogado a todo o momento. o resto do tempo. Numa revolução política. virão tomar o lugar da antiga organização política estatal. e ao povo compete apenas obedecer. de tomar nas mãos a produção. Esta torna-se o símbolo.

Por outro lado. portanto. é unicamente porque ele pretende dar imagem de prudente.políticos capitalistas gostam de denunciar a função “desprovida de caráter” do delegado que é por vezes obrigado a emitir opiniões que não são as suas. base da sociedade. imediatamente em contacto para trocar os seus pontos de vista: vivem nas mesmas condições e possuem interesses comuns. O trabalho produtivo coletivo tornase tarefa de toda a sociedade. oficina ou complexo industrial em que trabalham. A organização e a delegação dos trabalhadores nas fábricas e oficinas são. os operários são representados nos seus grupos de origem. o trabalho produtivo. cabe-lhes decidir se a fábrica. A repressão parlamentar parte do princípio que o delegado ao parlamento deve agir e votar segundo a sua própria consciência e convicção. Eles esquecem que é precisamente porque não existem delegados perenes que apenas são designados para esse posto indivíduos cujas opiniões são conformes às dos trabalhadores. Devem agir concertadamente. Contudo não seria exato dizer que o parlamentarismo. porque dependem do interesse vital do conjunto dos trabalhadores. deve estar em greve ou em funcionamento. encontram-se. Os conselhos são. formam um todo a partir do seu trabalho coletivo. os políticos. A principal tarefa dos organismos políticos (organismos dos quais depende a marcha da sociedade) está estreitamente ligada ao trabalho produtivo da sociedade. O inverso é verdadeiro no que respeita à produção comunista. As leis gerais. vimos claramente hoje porque os delegados parlamentares deviam tomar o poder político. ela exigia quase sempre toda a sua energia e cuidados. cidadãos como homens de negócios. Vimos já que esse sistema se revelou o melhor para representar os interesses de classe no interior do capitalismo.e por vezes a cada mulher invocando o direito supremo e inviolável de todo o indivíduo pertencer à raça humana como dizem tão bem os discursos cerimoniais. A sociedade é fundada na produção. forma política do capitalismo. Logo que cada indivíduo se ocupava dos seus pequenos negócios. os trabalhadores nos seus conselhos discutem essas Revista Enfrentamento – no 02. A mais importante. podiam ser deixadas a cargo de um grupo (ou profissão) especializado. Nos conselhos. 2007 questões e escolhem os seus delegados nas suas unidades de produção./jul. As fábricas são unidades de trabalho. a produção é a própria essência da sociedade. segundo fábrica. a marcha da produção determina a marcha da sociedade. mais corretamente. Quanto aos regulamentos que regem essa obra coletiva. jan. O sistema dos sovietes funciona por um princípio inverso: os delegados limitam-se a exprimir as opiniões dos trabalhadores. indivíduos de profissões ou classes diferentes e que apenas têm em comum o fato de serem vizinhos. eles não podem ser deixados entre as mãos de grupos especializados. A democracia parlamentar concede um voto a cada homem adulto . Pode-se concluir daqui que o sistema conselhista não é 15 . mas de fraco alcance. portanto a única forma possível. a garantia da subida do comunismo no processo revolucionário. Por conseqüência. pelo contrário. A representação parlamentar que se decide em função do lugar de habitação pertence ao sistema da pequena produção capitalista. De fato a organização política é sempre modelada segundo o caráter da produção. células que constituem a sociedade. apenas os trabalhadores estão representados. Os operários de uma fábrica constituem uma unidade de produção. A sua tarefa política não passava de uma parte ínfima da obra da sociedade. mas da obra coletiva da sociedade. Nos sovietes. Se lhe acontece pedir opinião aos seus eleitores. ao mesmo tempo. e por conseqüência. Toda a energia e cuidados não estão ao serviço de trabalhos pessoais. Incumbe a ele e não ao povo a responsabilidade das decisões. ou. são reunidos artificialmente num grupo e representados por um único delegado. a sociedade portava-se bem. conhecem-se uns aos outros. Nesse caso. vivem como vizinhos. incumbia a todos os produtores separados. segundo os seus locais de habitação. Assim. enquanto unidade. diz respeito a todos os trabalhadores. existe uma relação entre todos os homens de negócios da circunscrição: eles comerciam entre eles. e por conseqüência designam um delegado parlamentar. não está baseado na produção. As eleições parlamentares agrupam os cidadãos segundo a sua circunscrição eleitoral quer dizer. condições necessárias. Em período revolucionário. Existe uma outra diferença entre os sistemas parlamentar e conselhista. na qual cada homem é suposto possuir a sua pequena empresa.

Nas lutas revolucionárias. São essencialmente as suas formas de organização e objetivos que são diferentes. Quem quer que participe no trabalho coletivo é membro de uma coletividade e participa nas decisões. artesãos independentes. Nessa época não era ainda possível encarar claramente como a classe tomaria o poder. 2007 Engels tinha escrito que o estado desaparecerá com a revolução proletária. se necessário. Podemos ver hoje como o processo de luta de classes engendra naturalmente órgãos dessa ditadura: os sovietes. pois que exclui as outras classes da sociedade? A organização conselhista encarna a ditadura do proletariado. Marx e Engels explicaram como a revolução social devia conduzir à ditadura do proletariado. ela deverá decidir a melhor maneira de os tratar./jul. Contudo. São os pequenos lavradores. Mas temos hoje a prova da justiça desse ponto de vista. Existem outras classes da sociedade que não podem nem ser assimiladas aos trabalhadores nem aos capitalistas. exercer a sua influência a partir do princípio que todo o trabalhador tem um voto no controle do trabalho. órgãos de luta de uma classe operária revolucionária. não contenham representantes da classe inimiga. mas também com equidade.marxists. os intelectuais. No processo revolucionário. com firmeza. eles devem desaparecer e desaparecerão. eles oscilam entre a direita e a esquerda.se isso é possível sem se desviar dos seus verdadeiros fins . e como essa nova expressão política era indispensável à introdução de modificações necessárias na sociedade. A tarefa da classe operária em luta será aliciá-los ou neutralizá-los . a sua função política reduzir-se-á gradualmente a uma simples função econômica: a organização do processo de produção coletiva dos bens necessários à sociedade. segundo eles. combatê-los resolutamente. O que resta dos antigos exploradores e ladrões não tem voto no controle da produção. mas no conjunto eles não são verdadeiramente importantes porque têm pouco poder. eles encontrarão o seu lugar no sistema de produção e poderão. Os socialistas que apenas pensam em termos de representação parlamentar procuraram desculpar ou criticar essa infração à democracia e injustiça que consiste. Há mais de meio século. Numa sociedade comunista nascente não há lugar para os capitalistas. os conselhos operários. Nada há de injusto em que os conselhos.org/portugues/pannekoek/1936/04. que o governo dos homens sucederia a administração das coisas.ou ainda. jan.htm Anton Pannekoek 16 . terão certamente durante algum tempo ainda poderes políticos importantes a fim de combater os vestígios do sistema capitalista. assim.realmente democrático. Na medida em que o seu trabalho é útil e necessário. o antigo poder estatal será destruído e os órgãos que virão tomar o seu lugar. em recusar o direito de voto a certas pessoas sob o pretexto que elas pertencem a classes diferentes. Revista Enfrentamento – no 02. Texto publicado originalmente em abril de 1936 e extraído de: http://www.

Essa revolução socialista. constituem. voltar-se contra si mesmo? Vejamos agora a originalidade das análises feitas por Socialismo ou Barbárie. uma manifestação em solidariedade aos poloneses põe fogo no barril de pólvora. segundo Castoriadis e Lefort.A REVOLUÇÃO HÚNGARA DE 1956 Thomas Feixa Budapeste. Em suma. Ela também se choca contra a fórmula do partido revolucionário defendida por Lênin e por Trotski: a de uma organização autoritária e centralizadora. fazendo jus à auto-emancipação do proletariado. jan. para mostrar as verdadeiras tendências proletárias e socialistas dessa revolução”. segundo Lefort. é produto de uma experiência coletiva de combate em prol da inversão da ordem estabelecida. As análises áridas e confidenciais de Socialismo ou Barbárie parecem partilhar dos objetivos e práticas dos insurgentes húngaros. que toma forma em Revista Enfrentamento – no 02. A despeito do que pensaria o autor de Que fazer?. convocatórias e palavras de ordem difundidas por insurgentes. a “consciência socialista”. Organizada pelo Círculo Petofi. e contra a própria idéia de uma subordinação a eventuais “profisisionais” da revolução. não apenas na União Soviética. A máquina de propaganda do Partido Comunista Francês não tinha a intenção de mostrar o contrário. militantes cuja intenção era a de restaurar uma “democracia” à moda ocidental. modelos para o desencadeamento de uma revolução democrática. A partir do dia 25 de outubro de 1956. por exemplo. seguindo as leis do capitalismo. E é aqui onde se encontra o coração do marxismo heterodoxo de Socialismo ou barbárie. ela reabilita as formas políticas de luta radical: a greve geral e a criação de conselhos autônomos operam sobre uma plataforma de democracia direta. a primeira revolução anti-totalitária e abrem a perspectiva de um socialismo que se opõe à ideologia leninista e todas as suas variantes./jul. Revolução sem vanguardas Assim como a revolução russa de fevereiro de 1917. Miskolc ou Pecs parece confirmar a pertinência de um projeto revolucionário ao mesmo tempo radical e igualitário. ele dedicou quatro edições à elucidação do evento húngaro. Como o proletariado na Hungria poderia. a atividade espontânea e radical dos insurgentes ilustra sua criatividade política e resulta na 17 . estudantes e operários. Györ. “centrífugos” e autônomos. Os crimes do stalinismo certamente já haviam sido reconhecidos. desenvolve-se distante de qualquer vanguarda revolucionária. pois para ela os instigadores do levante de Budapeste eram agitadores contra-revolucionários. Socialismo ou Barbárie foi cofundado em 1949 por dois dissidentes do trotskismo. fortemente presente em maio de 1968. idéia preciosa a Karl Marx. mas também em todas as “democracias populares”. a insurreição húngara opera espontaneamente. além do exército vermelho”. “de múltiplos focos”. mas cuja influência estará. é antes de tudo imprescindível “dissipar o nevoeiro da propaganda (que utiliza de todos os meios para dissimular a realidade sobre a revolução húngara). então. O Pravda também explicara que “o culto da personalidade é um abscesso superficial no órgão perfeitamente são do partido”. mas eram atribuídos a uma personalidade perturbada. Os acontecimentos de Budapeste. um grupo de estudantes e intelectuais húngaros. “Órgão crítico de orientação revolucionária” (é o subtítulo do periódico). na qual as decisões são tomadas por uma elite sábia e restrita. Para Castoriadis. O poder monolítico do partido-Estado decompõe-se em poucos dias. a estimativa de Lefort é de que “a Hungria está povoada de conselhos. Quem são os insurgentes? Segundo o jornal Le Figaro. A revolução dos conselhos operários. utilizando textos. um periódico comunista tido como marginal. Claude Lefort e Cornelius Castoriadis. Sendo assim. 2007 Budapeste. cujo poder passa a ser o único. diante de um conjunto de movimentos rebeldes. A partir de dezembro de 1956. longe de nascer de uma sabedoria exclusiva a uma elite ou vanguarda. A insurreição húngara ilustra a autonomia dos movimentos revolucionários. 23 de outubro de 1956. o proletariado e a revolução permanecem no poder.

Esses conselhos não constituem formas políticas transitórias: ao contrário.com 18 . que atinge as próprias relações de produção e não se satisfaz. Em oposição ao mandato representativo. Ele visa impedir a dissociação entre uma minoria dirigente e uma maioria executante. A estatização dos meios de produção – ou sua nacionalização – não conseguiria conferir uma característica socialista à produção. Já o sistema de mandato representativo lhe concede uma independência total: uma vez eleito. Tal erro acabaria por encobrir a realidade de um sistema de exploração nunca antes visto. ele torna-se a voz da Nação. e não mais a de seus mandatários. Ela proporcionou uma invenção democrática sem precedentes e sem relação alguma com o que Castoriadis chamava de nossas “oligarquias liberais”.instituição de conselhos operários. eles tendem a substituir a lógica centralizadora do Estado pela sua lógica democrática. à vontade de repudiar toda tendência oligárquica. 2007 aos capitalistas”. ele instaura a revogabilidade permanente de todo mandatário: o representante é encarregado de aplicar as instruções daqueles que o elegeram. Outros conselhos ou comitês de fábrica (que continuam a proliferar) seguem a mesma trajetória. A revolução de Budapeste provocou fissuras em uma construção tida como invulnerável. A adoção do mandato imperativo – que foi considerado inútil por todas as constituições republicanas francesas e cujo princípio não é aceito por nenhuma grande formação política. a revolução húngara assemelha-se a um anticapitalismo real. à esperança de impedir toda autonomização do poder. com a abolição do regime de propriedade privada. Para Castoriadis. simultaneamente. jan. nem as fábricas Revista Enfrentamento – no 02. inclusive em seu funcionamento interno – constitui um dos pilares do conselhismo. de François Furet a René Rémond. o regime stalinista permitiu que os operários húngaros compreendessem algo essencial: “a exploração não é resultado da presença de capitalistas privados. feita nas próprias fábricas. ao controle dos representantes./jul. mas da divisão. que em 1956 foi desmantelado pelos insurgentes húngaros. Aquela que. confunde “gulag” com fenômeno revolucionário. De acordo com Lefort. por meio do socialismo. O “socialismo dos conselhos” Quem fala de socialismo de conselho refere-se. a Federação da Juventude proclama: “Nós não devolveremos a terra aos grandes proprietários. a revolução. o Conselho de Szegel passa a reivindicar a autogestão operária. Em 2 de novembro. entre aqueles que decidem tudo e aqueles que apenas obedecem”. Tradução: Márcia Macedo marcinhamacedo@gmail. Contra o totalitarismo. No dia 28 de outubro. Tal oposição põe em xeque toda uma historiografia conservadora.

E. adequado a ocorrência do pluralismo. a compreensão e discussão de como surge o Estado e quais suas principais e reais funções na sociedade capitalista. O debate acerca das relações entre o Estado e as esferas privadas é deixado de lado. contemplam. um caráter multidimensional do papel estatal. portanto a reflexão. à segurança e à propriedade. onde não haverá mais escravos. o elemento central que proporcionou o desenvolvimento do Capitalismo no Ocidente. As diversas definições de Estado construídas. foi e é a peça fundamental para o desenvolvimento da legitimidade. sem distinção de qualquer natureza. Os estudos referentes à análise política. no sistema capitalista brasileiro./jul. mas. representatividade entre outros. legitimamente. O racionalismo. residentes no país. à liberdade. portanto. cidadania. a inviolabilidade do direito à vida. não fazem. hoje. permanentemente. elementos estes originários da crescente racionalidade na busca da autonomia da burguesia. “dádiva de Deus”. A propriedade privada. de forma econômica e política. de exploração e apropriação com o lema de civilizar o homem incivil. O mito do Estado para o bem comum passa.” John Locke O conceito de estado. portanto. então a caracterizar o Estado moderno impedindo. que. . por parte da sociedade. ou seja. As teorias políticas que definem o papel do Estado. sobretudo. como a burguesia. igualdade. nesse sentido. se sobrepõe aos demais direitos assegurados na Constituição. priorizam temas voltados aos conceitos de pluralidade. liberdade e do individualismo. assegurado pelo Estado liberal. num sentido amplo. sob uma estrutura conceitual básica da visão burguesa onde consiste na idéia de igualdade jurídica. sobre o real comprometimento entre o Estado e a propriedade privada. tem sido desenvolvido na maioria dos centros acadêmicos como sendo um sistema de instituições democráticas. democracia. relacionaram a origem e função do Estado com a manutenção e segurança da propriedade privada. onde tudo passa a ser elemento de conquista.O ESTADO MODERNO E A PROPRIEDADE PRIVADA Leila Silva de Moura “O governo é instituído sob a condição e com o fim de os homens poderem ter propriedade e garanti‐las. este deve ser civilizado em todo o canto do mundo. pois a construção de uma grandiosa e “inquestionável” ideologia social Revista Enfrentamento – no 02. O artigo 5° da Constituição brasileira declara que todos são iguais perante a lei. bem como a sua segurança. atualmente. por isso. 2007 19 não permite. Esses direitos se fundamentaram na medida em que se consolida o Estado moderno no Ocidente e quase sempre. à igualdade. dando lugar a discussões e estudos abstratos e cada vez mais específicos. que reflete a diversidade de valores e de interesses na sociedade e permite que sejam dispostas acomodações entre eles. segundo Bellamy (1992) em Liberalismo e Sociedade Moderna. garantindo-se aos brasileiros e estrangeiros. jan. ou melhor. facilmente. A imagem construída do Estado moderno ofusca os interesses de alguns grupos sociais privilegiados por este estado. da hegemonia da burguesia. e. nesse sentido: “o homem vai se libertar da escuridão e o mundo vai se tornar harmônico e igualitário”. nesse sentido. a razão utilitária transforma a visão de mundo. de descoberta. O Estado é visto como um elemento neutro e a serviço da sociedade. direta ou indiretamente. Esse racionalismo. tanto na perspectiva marxista. a tendência liberal na sociedade moderna. na sociedade Ocidental moderna. a sua relação com o Capital revela outros interesses que permeiam a ação estatal. na maioria dos estudos acadêmicos. O Estado moderno funda-se. liberdade. legitimidade. o direito à propriedade. em que proporciona a estrutura para um liberalismo genuinamente político e. ao mesmo tempo. “resultado do Trabalho” é. apresentando um Estado que procura atender o maior número possível de demandas sociais. senão traduzir. tanto na perspectiva liberal.

(. puramente divinas. passa a se envolver em questões particulares. o Estado de Natureza coexiste com as Leis da Natureza (naturais ou morais). Hobbes (2004. p. não apenas do fruto de seu trabalho. 111) Os bens surgem. O Estado de Paz é. o Estado foi constituido. dessa Lei de Natureza tem-se o seguinte corolário: não deves fazer a outro o que não quiserdes que seja feito a ti. em Leviathan. do ´do que é teu`. através de um Pacto Social. Isto propicia a produção e reprodução da propriedade privada. Hobbes (2004. Segundo Hobbes. É a partir dessa construção teórica acerca da Lei de Natureza que Hobbes desenvolve a origem do 20 ./jul. ou seja. constante. igualdade e segurança da vida e propriedade através da constituição de um corpo político. o público e o privado passam a se relacionar com o Estado como sendo frutos de um mesmo interesse alicerçado pelo Estado “o ato da associação encerra um acordo recíproco do público com seus particulares” Hobbes (1977. Numa palavra é a propriedade. para desapossá-lo e privá-lo. proporcionado pelo Estado. e no Estado de Natureza esses bens não estavam assegurados a cada um que os possui. através da exploração do trabalho. essencialmente. p. Nesse sentido. Hobbes (2004. “Estado instituído é quando uma multidão de pessoas concordam e pactuam que a qualquer homem ou assembléia de homens a quem seja atribuído pela maioria o direito de representar a pessoa de todos eles(. Em Hobbes. Esta razão é fundamentalmente a Lei de Natureza. para assegurar e distribuir os bens a Revista Enfrentamento – no 02. em nome da Civilização e Modernidade. tendo o Estado como representante dos anseios acerca da segurança. animais. a própria liberdade em que o Estado proporciona para cada pessoa é limitada. como base conceitual para uma reconstrução teórica baseada nos interesses da classe burguesa: um Estado liberal para a segurança da liberdade e da propriedade.mas homens livres como Hegel acreditava. É a razão emancipadora que trás a liberdade. do Estado e da propriedade em Hobbes caracteriza o papel do Direito na proteção da propriedade “onde não há Estado. No Estado de Hobbes. p. absolutista e não liberal. pois “se alguém planta. O trabalho. Ao resumir todos os princípios estabelecidos. e do ´do que é seu`. Esse relacionamento entre o público e o privado se desenvolve.) A distribuição dos materiais dessa nutrição é a constituição ´do que é meu`. constitui a essência da teoria contratualista. o Contrato Social é a base da legitimidade da autoridade política. vegetais e minerais. Em Hobbes o Estado é. 2007 cada indivíduo. p. não há propriedade”. semeia. 184) Para Thomas Hobbes. em segundo lugar. na qual cada coisa é de quem a apanha e conserva pela força o que não é propriedade nem comunidade. p. mas incerteza”. estas são a própria razão atribuídas por Deus para todos os homens. o Pacto Social significa o fim de um Estado de Natureza definido por ele como um Estado de Guerra. entre indivíduos que buscam a sobrevivência. então. A relação entre a teoria do Pacto Social. e a liberdade passa a se confundir com limites. jan. solitários num mundo sombrio e tenebroso. mas também de sua vida e de sua liberdade” Hobbes (2004. do trabalho e esforço do homem. p. mas sua teoria é herdada. originado por um Pacto Social ou Contrato Social.) tal como se fossem seus próprios atos e decisões a fim de viverem em paz uns com os outros e serem protegidos dos restantes homens” Hobbes (2004. pela Escritura Divina. liberdade. em parte. Nesse sentido. para um Estado de Paz. é a liberdade para acumular capital sem as amarras do pecado da usura no catolicismo e dos antigos costumes feudais. segundo as construções teóricas ideológicas. em Hobbes.. em primeiro lugar. aqui é a legitimidade da posse de bens particulares e o Estado cumpre a função de protegê-los e distribuí-los. 97).. “O trabalho de um homem também é um bem que pode ser trocado por benefícios.. Esses bens. 184) Os bens precisam ser assegurados e distribuidos e somente o Estado pode proporcionar segurança através da força legítima. É da competência do poder soberano em todas as espécies de Estado”. 33). segundo Hobbes. ou seja. é provavelmente de esperar que outros venham preparados com forças conjugadas. “Onde não há Estado há uma guerra perpétua de cada homem contra seu vizinho. pois esse estado se caracteriza em constante estado de guerra. A instauração da paz. 132). constituído pelo Pacto Social. são a nutrição. constrói ou possui um lugar conveniente. E.. como dádiva de Deus. vivem isolados.

) Deve ser feito algo mais para que os homens que consentiram. devido à violação das Leis de Natureza.. portanto dos homens se reunirem em comunidades.) para o bem da comunidade” Locke (2003. o estabelecimento de uma sociedade organizada em Estado tem como principal objetivo a preservação da propriedade. em que surge. Para ele. (. nitidamente. Hobbes. não havendo lugar para meum e o tuum. Isso ocorre. “o povo. É. jan. discorre sobre a origem do Estado e suas funções. como um bem privado.. enfim sua propriedade privada. Nesse sentido. o Estado como protetor de seu capital. 2007 A tese de que a segurança da propriedade é função do Estado também faz parte da linha teórica de John Locke. O Contrato Hobbesiano pode ser definido como o princípio norteador do sistema capitalista. o fruto do trabalho abordado na teoria de John Locke é constituído no próprio Estado de Natureza. em ter paz e mutuamente ajudar uns aos outros. Revista Enfrentamento – no 02. nesse sentido. o governo civil ao garantir a proteção da propriedade não poderá nunca apropriar-se dela sem o consentimento de seu dono: “Quem detém o poder não pode tirar de qualquer homem sua propriedade ou parte dela sem o seu consentimento. primordialmente. O Contrato. devido essa lacuna. O Estado preserva e protege os pactos contratuais através da utilização de seu poder legitimado pelo Direito e pelo uso da força física. Nesse sentido. esses. Para Locke o povo tem o direito de escolher seus representantes..) permanece válido aquele estado de natureza no qual todas as coisas são de uso comum.. aceitando um governo comum. da segurança e da propriedade. segundo Hobbes. em Do cidadão. o Contrato é de caráter irrevogável e é ele que regula o comportamento das relações sociais. 91)./jul. não poderia exercê-lo a não ser livremente. ou seja.Pacto Social ou Contrato Social. Segundo Locke. 21 . Para John Locke. a liberdade e a propriedade. ora se a preservação da propriedade é o objetivo e que motiva os homens a se associarem” Locke (2003. no entanto. consolidado nessa teoria. o Pacto que origina um poder maior e legítimo. como sendo os próprios bens/propriedades dos particulares. tendo reservado para si o direito de escolha de seus representantes como guardiões da propriedade. 102). para ele.. porém pode ser compreendido. devido a existência de: “uma associação constituída somente pela mútua ajuda. portanto. Por outro lado. 85). sendo este primordial para a consolidação do Bem Comum. os homens abandonaram a liberdade do Estado de Natureza para preservação da vida. 92). pois a partir do momento em que indivíduos são dotados do sentimento de esperança e medo. Isso ocorre porque ainda não existe a segurança “ Hobbes (2004. p. para a preservação da propriedade privada: “o maior e principal objetivo. é a preservação da propriedade” Locke (2003. p. destacandoo como organização política. não existe a propriedade privada no Estado de Natureza. Segundo Hobbes. pactuam originando o consentimento de transferência da força e faculdade de cada um a outrem. (. onde serão submetidos a um poder maior. p. no entanto.. em O segundo tratado sobre o Governo Civil. O grande interesse da burguesia está. não explica claramente o que vem a ser o fruto do trabalho citado por ele como um dos elementos de interesse de cada indivíduo que devem ser resguardados pelo poder político constituído pelo Pacto Social. não proporciona a segurança que os homens procuram ao se reunirem e concordarem no que diz respeito ao exercício das leis naturais (. 149). é a legitimação do sufrágio e formação de um Estado alicerçado no poder Legislativo. visando o bem comum. pois: “numa multidão que não fora ainda reduzida a uma única pessoa. o Estado não possui direitos de tomar para si qualquer propriedade do povo sem o seu consentimento. ou seja. seus bens. representa a autoridade do Direito e é a garantia de segurança da propriedade. sejam contidos pelo medo Hobbes (2004. ou seja. então. é a liberdade de escolha. p. p. no intuito de preservação da vida. que chamamos domínio e propriedade. é definido. a constituição de uma organização política se desenvolveu através do Pacto Social. se consagra. pois quebraria o seu próprio fundamento de origem. John Locke. então são os fins da sociedade e do governo.

como o uso da força intencional contra outrem. só a ela cabe o direito de si mesmo. p. também pertence somente a ela. a violência e destruíção recíproca. ou seja. nessa natureza. a vida. jan. o direito à liberdade para a pessoa. em Locke./jul. no intuito de regular e conservar a propriedade. o direito privilegiado sobre qualquer pessoa. surge. servirão para punir. O conceito de liberdade como também o de propriedade. também. como em Hobbes. em segundo lugar. por poder político o direito de elaborar as leis. o Estado como protetor de algo inato: a propriedade. a razão e a liberdade e a própria propriedade. sem que haja uma instância maior para se apelar. é dessa forma que se configura o Estado de Guerra. O corpo político organizado surge. que segundo ele resulta do trabalho humano. demonstra essa tendência: “Endendo. também natural. e para sua preservação institui-se. porém ainda desconhecido como inerente ao homem. Esses elementos são os princípios básicos da vida humana que devem ser garantidos e preservados na sociedade civil. é exaustivamente alicerçada na teoria da criação divina e no trabalho. a propriedade privada. E. boa vontade. O corpo político. o homem já possui sua propriedade. a própria pessoa. antes de tudo. que exige trabalho e material com que trabalhar. mesmo no Estado de Natureza a propriedade particular está presente. em conseqüencia. o direito não só de preservar a sua propriedade – isto é. O Estado de Natureza. Pode ser caracterizado como um Estado de Paz. necessariamente introduziu a propriedade privada”. principalmente. As leis. tanto quanto qualquer outro homem ou grupo de homens. de herdar. cooperação mútua e preservação. portanto. Locke (2003. através do Pacto. à propriedade. já somos livres e racionais. então. até mesmo com a própria morte. pois Deus deu o mundo em comum a todos os homens. a propriedade. são os eixos norteadores da teoria de John Locke. 42) A defesa da propriedade privada. Com isso. numa constituida sociedade civil. Segundo ele: “Todo homem nasce com dois direitos básicos: primeiro. “a ordem de Deus para dominar concedeu autoridade para a apropriação. o Estado surge como um poder protetor de algo já consagrado e natural no ser humano. p. embora não tenhamos de fato o exercício da razão ou da liberdade” (Locke: 2003: 55). ou seja. a liberdade e. do Estado. o trabalho é o alicerce para o direito de posse. 22 . Segundo Locke. em Locke. através do Pacto Social. A propriedade particular é. pois ela é um atributo humano natural como fruto do trabalho. conforme julgar da gravidade da ofensa. A seguinte citação. Segundo este autor o homem nasce com direito a perfeita liberdade e gozo ilimitado de todos os direitos e privilégios da lei da natureza. e de utilizar a força da comunidade para garantir a execução de tais leis e para protegê-la de ofensas externas. até pela pena de morte. porém deu-o para o desfrute do diligente e racional que faz uso do trabalho. enquanto que no Estado de Guerra há a inimizade. portanto. segundo John Locke. e tem. tem o direito a deles apropriar-se. como o fruto Revista Enfrentamento – no 02. ou melhor. Nessa análise Locke de forma mais ousada traduz os anseios liberais de proteção à propriedade através das leis. onde não há autoridade superior comum para julgá-los. sobre a qual ninguém mais goza de poder. a malícia. é o Estado em que os homens convivem segundo a razão. a liberdade e. o Pacto Social institui o Estado para a preservação dos elementos inerentes ao homem. Como em Hobbes. portanto. os que abandonam os princípios da natureza humana e a reparar aquele que sofreu algum dano. pois. 22). E tudo isso visando só ao bem da comunidade” Locke (2003. mas de um estado onde há o constante receio de um eminente perigo contra a vida. é constituído para assegurar a cada indivíduo seu Direito Natural: a vida. Este se caracteriza segundo Locke. e a condição da vida humana. seu trabalho pertence a ela mesma. assim como a liberdade e a razão são inatos ao homem e ninguém. “Ao nascermos. cabendo só a ele próprio dispor dela livremente. mas também de julgar e punir as infrações dessa lei pelos outros.No Estado de Natureza de Locke. não de uma reunião de pessoas em um Estado constante de guerra. O Direito Natural passa a se constituir Direito legalizado pelo poder político se tranformando em principal elemento social. incluindo a pena de morte e portanto as demais penalidades menores. a liberdade e as posses – contra os danos e ataques de outros homens. portanto. 2007 de seu trabalho.

porém leva em conta o princípio da desigualdade.265). p. 247). A propriedade privada nasce com a formação da sociedade civil. porém. onde o que se temia era o ataque de uns contra os outros. Em Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. o homem não possui propriedade e nem faz idéia dela. Ao desenvolver sua teoria da desigualdade. nem propriedades de qualquer espécie. como não possuiam a noção do teu e do meu. Rousseau procura fundamentar a origem do Estado através do desenvolvimento da sociedade orgnizada. devido ao aumento da população e da necessidade de segurança perante os incidentes naturais se desenvolve o progresso do espírito humano. Nesta obra. casas. a sociedade civil e com ela a desigualdade. a dor e a fome” Rousseau (1997. Rousseau apresenta um Estado que procura proteger os bens particulares. pois “nesse estado primitivo não tendo nem casas. pois uns passam a possuir bens e outros não. isto é. p. 131-132). consequentemente. forçado pela necessidade. No Estado de Natureza. por uma única noite” Rousseau (1996. a consideração. inspirar-lhes outras instituições que lhes fossem tão favoráveis quanto lhe era contrário o direito natural. Nesse sentido. 2007 Natureza de Hobbes. 246). tendo cercado um terreno. p. o homem ao se constituir em sociedade civil fez desaparecer o Estado de Natureza e com ela a igualdade. cabanas e nem propriedades de qualquer espécie. 265). Ele procura compreender o Estado de Natureza e como se deu a passagem desse estado para a constituição da socidedade civil. fazer de seus adversários seus defensores. inveja e ciúmes. segundo Rousseau. a noção do que vem a sê-lo. a estima ou o desprezo. lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo” Rousseau (1997. O homem no Estado de Natureza é ágil e forte. p.. a violência..com os irmãos.) em seu favor às próprias forças daqueles que o atacavam. inaugurando a desigualdade. como escravos: “Introduziu-se a propriedade. ao defender um estado humano sem a necessidade e existência de propriedade particular e. freqüentemente. Com a integração das pessoas. Para Rousseau. as comunidades. 268-269). audaciosamente e de forma brilhante. neste Estado. a teoria da desigualdade através do surgimento da sociedade civil e da propriedade privada. não possui sentimentos de paixão. jan. cada um se abrigava em qualquer lugar e. a origem da desigualdade social.) logo se viu a escravidão e a miséria germinarem e crescerem com as com as colheitas” Rousseau (1996. acabou concebendo o projeto (. Não conheciam a vaidade./jul. Rousseau nega todo arcabouço teórico da abordagem burguesa sobre o Estado voltado para o Bem comum. a noção de propriedade particular e a desigualdade. p. Tal foi ou deveu ser a origem da sociedade e das leis que deram novos entraves ao fraco e novas forças ao rico” Rousseau (1997. Nesse sentido: “o rico. construindo. o trabalho tornou-se necessário (. uma fêmea e o repouso. desde que se percebeu ser útil a um só contar com provisões para dois. pois “os únicos bens que conhece no universo são a alimentação. (. introduziu-se a propriedade. pois como qualquer animal. Isso ocorre quando o homem deixa de ser nômade e sente a necessidade de possuir residência fixa e bens. tem como preocupação suas necessidades físicas... pois não existe. bem como a origem da propriedade privada e. o roubo. surgem. p. nem cabanas. o trabalho tornou-se necessário. muito menos. p. passando a se sujeitarem àqueles proprietários. os bens do progenitor” Locke (2003. desapareceu a igualdade..) logo se viu a escravidão e a miséria germinarem e crescerem com as colheitas” Rousseau (1997. ou seja. Contrapõe Locke. a acumulação de bens que surge à partir da propriedade particular. Rousseau em Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. e dessa desigualdade. os únicos males que teme. é contrário à teoria de Estado de Revista Enfrentamento – no 02.. 259). Sua perspectiva. O fim do Estado de Natureza se deu: “desde o instante em que um homem sentiu necessidade do socorro de outro. então. constrói sua teoria sobre a origem da desigualdade. mantendo 23 . pois foi fundado para tal função. Para ele não existiu no Estado de Natureza a propriedade privada. que prega este estado como um cenário de conflito constante entre pessoas imbuídas de paixão e inveja. “O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que.

que assinala um passo adiante na luta de classes. Essa perspectiva teórica diversa acerca da natureza do Estado procura descaracterizar o Estado como um corpo político neutro em busca do bem comum. Em A ideologia Alemã. segundo eles com a emancipação da propriedade privada em relação à comunidade.“aguilhoado” os que não possuem bens e dando continuidade à desigualdade./jul. Nessa visão o Estado moderno é uma construção histórica em defesa dos interesses de classe. ampliam e aprofundam o antagonismo de classe entre o capital e o trabalho. nesse sentido. mas não tem propriedades”. para garantir reciprocamente sua propriedade e os seus interesses. Segundo Karl Marx. p. 70). anteriormente escrita. no entanto. Hegel ao abordar o tema do Estado via este como elemento determinante na sociedade civil. mas este Estado não é outra coisa senão a forma de organização que os burgueses dão a si mesmos por necessidade. anteriormente. ou seja. que nascem o proletário e o burguês. tribos. se contentado com as aparências. 74). Ao contrário. E essas teses vêm reforçar a dominação ideológica sobre a classe dominada que passa a acreditar no mito do Estado como um organismo em prol do Bem Comum. Ele procura desmistificar o papel do Estado como a instituição voltada para o Bem Comum. é assim. revelam-se com traços cada 24 . do senso comum e no meio acadêmico desde o fim do regime feudal. p. seria justo dizer que existem famílias. p. a teoria do Soberania Popular e da Vontade Geral. que são relações muito mais concretas ainda. Deste modo. A organização social modifica-se “de força pública organizada para a escravização social. sendo esta condicionada por ele. portanto. é construída com uma análise histórica por Marx em A Guerra Civil na França. o poder do Estado foi adquirindo cada vez mais o caráter do poder nacional do capital sobre o trabalho. Rousseau. jan. parcialmente. portanto. seria a sociedade civil que determinaria a forma do Estado. As diferenças da conceituação teórica de Estado moderno e da propriedade dos escritores analisados e em Marx e Engels atingem marco diferencial na teoria política. Hegel ao abordar o Direito procura enfatizar a posse como o primeiro elemento de relação jurídica e para Marx a posse não antecede a organização social: “Não existe posse anterior à família e às relações de senhor e servo. neste caso. 2007 estão a serviço da classe dominante. Marx (1996. Rousseau procura se contrapor às conjecturas teóricas. o Estado moderno foi construído historicamente. p. em O contrato social se aproxima das principais teorias liberais que explicam a origem do Estado moderno sem levar em conta os interesses políticos e econômicos de classe que o desenvolveu para atingirem seus fins. assim. ampliavam e aprofundaram o antagonismo de classe entre o capital e o trabalho. Depois de cada revolução. Marx critica a teoria de Hegel que teria. o Estado adquiriu uma existência particular ao lado da sociedade civil e fora dela. trabalhadas acerca dos conceitos de Estado de Natureza e sua relação com a propriedade privada e sua relação com o Estado. tanto externa quanto internamente. de máquina do despotismo de classe. de máquina do despotismo de classe” Marx (1998. desenvolvendo. É nesse sentido que Marx caracteriza as teses dos pensadores liberais anteriores acerca do Estado como um material daqueles que Revista Enfrentamento – no 02. Para Karl Marx. o Direito público e o Direito privado se acham governados pelas relações econômicas. que se limitam a possuir. Essa característica. de forma determinada que se desenvolveu como corpo político à medida que os progressos da moderna indústria se desenvolviam. Para Marx. Ignora. onde procura relacionar a burguesia e o surgimento do Estado moderno. o Estado. “À medida que os processos da moderna indústria desenvolviam. numa perspectiva filosófica do Direito assim como o pensamento abstrato e superabundante do Estado. do Estado moderno. da desigualdade social. o “Estado não é outra coisa senão a forma de organização que os burgueses dão a si mesmos por necessidade para garantir sua propriedade e seus interesses” Marx & Engels (1998. onde nela classifica o Estado como resultado de um projeto de grupos que queriam manter o poder. 41). O Estado visto como uma organização do Bem Comum foi e é lema de discursos políticos. Marx e Engels (1998. 74) definem os conceitos de Estado e propriedade relacionando-os como interdependentes. de força pública organizada para a escravização social. sua própria tese.

1986. MARX. 2004. em que parte da Sociedade é completamente desigual em direitos e se encontra à margem dos benefícios “assegurados” pela Constituição e por esse Estado “Benfeitor”. Martin Claret. 2003. São Paulo. 15). Liberalismo e sociedade moderna. Senado. São Paulo. O Contrato Social e outros escritos. da forma moderna da propriedade privada em seu desenvolvimento posterior” Marx (1998. São Paulo. Segundo Marx. e que. Essa propriedade privada é assegurada através da lei e multiplicada através da divisão do trabalho e da Mais-Valia. no entanto. 2007 25 . forma e poder de um Estado eclesiástico civil. segundo sua vontade. HOBBES. e cujo conteúdo repousa inteiramente na vontade arbitrária e individual das partes contratantes” Marx (1998. & ENGELS. Leviatã ou matéria. BRASIL. 1992. Brasília. votando e se elegendo? Ser cidadão é cumprir com as obrigações e deveres sociais? Ou ser cidadão. São Paulo. Global. 1988. A Guerra Civil na França. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. de que o Estado foi instituído para a proteção da propriedade. em que o cidadão exerce a democracia. K. Martin Claret. cada vez mais. 80). permitem. pois: “Essa mesma ilusão dos juristas explica que. para eles e para todos os códigos jurídicos. T. Segundo Tratado Sobre o Governo. 1979. Martin Claret. do Estado brasileiro. K. p. Do cidadão. O conceito de cidadão quase sempre é difuso na teoria política. Revista Enfrentamento – no 02. R. Ao analisar a dominação legitimada da burguesia em defesa da propriedade privada. Constituição da República Federativa do Brasil. portanto. São Paulo. No sistema capitalista. os interesses comerciais pela acumulação tendem a moldar os próprios interesses de um Estado e até subordiná-los aos seus completamente. J-J. 1997. claramente. no início. A Ideologia Alemã. São Paulo. por contrato. para Marx. Volume II. ROUSSEAU. Montesquieu exemplifica essa relação. Para a Crítica da Economia Política. Ser cidadão é participar da representação política. 2004. mas não define. Marx explica que somente em nome dos direitos gerais da sociedade pode uma classe especial reivindicar para si a dominação geral. São Paulo. ao afirmar que “A Inglaterra sempre subordinou os interesses políticos aos de seu comércio” Montesquieu (1997. Unesp. O debate sobre a relação entre o Estado e a propriedade privada proporciona a desmistificação da construção ideológica de um Estado voltado essencialmente para o Bem Comum. é o instrumento pelo qual os indivíduos de uma classe dominante fazem valer seus interesses comuns. cada vez mais comprometidos com os interesses econômicos. Do espírito das leis. MARX. 1996. ROUSSEAU. relações desse gênero passem como sendo daqueles que podem subscrever ou não. pois é através do trabalho do proletariado que surge a acumulação de capital do burguês: “A propriedade privada nasce e se desenvolve por força da necessidade da acumulação contínua. MONTESQUIEU. Martins Fontes. portanto. O Estado. também outra ilusão. MARX. O discurso político liberal procura através do mascaramento da realidade formar uma imagem de um Estado representativo. Com uma análise teórica e uma observação da realidade pode-se compreender a existência de um grande contraste entre a imagem construída do Estado para o Bem Comum e a realidade. o que vem a ser o cidadão. F. legislativo e judiciário. HOBBES. p. 70). Martins Fontes. ou seja. J-J. A propriedade privada se torna mais legítima e protegida no Estado moderno. p. São Paulo. São Paulo. BIBLIOGRAFIA BELLAMY. por exemplo. a seus olhos. Constituição (1988). LOCKE. a conservar a forma da comunidade para se aproximar. Nova Cultural. 1996. 1998. em primeiro lugar é ser consumidor e possuir propriedades? As ações dos poderes executivo. reconstruções teóricas sobre o papel do Estado. Nova Cultural. no Direito privado exprimem-se as relações de propriedade existentes como sendo o resultado de uma Vontade Geral. é meramente casual que.vez mais nítidos o caráter puramente repressor do poder do Estado” Marx (1986./jul. reafirmando a própria tese dos teóricos liberais da teoria política clássica. vida e liberdade dos proprietários. Abril Cultural. J. p. 76). jan. os indivíduos entrem em relações entre si. São Paulo. K. portanto.