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POR UMA EDUCAÇÃO ANTI-RACISTA: UMA RADIOGRAFIA DO RACISMO NO

AMBIENTE ESCOLAR ATRAVÉS DOS USOS DAS CHARGES

Emanoel Calixto do Nascimento¹, Maxwell Barbosa Medeiros²

O estado da Paraíba, segundo dados de 2014, é um dos estados onde mais se matam jovens
negros no país. Por isso se torna-se imperativo a discussão sobre o racismo nas escolas e seu
combate. Com o advento da lei 10.639/2003, o ensino de História da África e da Cultura Afrobrasileira passou a estar presente nos currículos escolares de todo o país. Com isso serve de
ferramenta para o conhecimento da cultura negra no Brasil, e também como elemento de
combate ao preconceito racial. O presente trabalho busca fomentar a discussão do racismo na
escola utilizando-se das charges, evidenciando o preconceito presente no cotidiano estudantil,
tendo como objetivo o diagnóstico da percepção de práticas intolerantes, especificamente entre
os discentes do 2º ano A do ensino médio da Escola Municipal Virgínius da Gama e Melo.

Palavras-chave: Charge, racismo, afro-descendente

INTRODUÇÃO
Passados cerca de 10 anos após a sanção da Lei 10.639/2003 pelo então presidente Luis
Inácio Lula da Silva, que institui a obrigatoriedade do ensino de História da África e de Cultura
Afro-Brasileiras, é aterrador constatar que o estado da Paraíba ainda possui números alarmantes
que indicam o racismo no estado.
Segundo uma pesquisa feita pela Secretaria Nacional de Juventude com dados de 2012, e
a Paraíba é o estado onde um jovem negro corre 13 vezes mais risco de ser assassinado do que
um jovem branco na faixa de idade de 12 – 29 anos. Um segundo estudo, feito em 2014 com 99
crianças na faixa de idade de 04 – 06 anos em duas escolas, uma pública e uma particular,
localizadas na região do Brejo paraibano, constatou que 92% delas possuíam comportamentos
racistas em relação à cor negra.

¹Graduando do curso de Licenciatura em História na Universidade Federal de
Campina Grande, bolsista no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à
Docência. E-mail: bigblae@gmail.com.
² Graduando do curso de Licenciatura em História na Universidade Federal de
Campina Grande, bolsista no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à
Docência. E-mail: maxwellmbm4@gmail.com.

no período de Agosto de 2015. sejam na forma de softwares e sites de internet como Whatsapp. se levarmos em conta a concorrência de tantas ferramentas de comunicação que são utilizadas pelos adolescentes. Até então. Elias Thomé Saliba. como instrumento para modernizar a família. Valmi de Oliveira e coordenado pela prof. sendo mesmo esperada e – quem diria – saudada. as crianças viviam sob o modelo do que Cunha chama de “Família Colonial”. nos deparamos com o questionamento: Qual seria a melhor metodologia para discutir um tema considerado polêmico e ao mesmo tempo atual. como tablets. com grande sociabilidade interna e poucas interações externas com outras pessoas. e que cursam regularmente a escola. smartphones. porque herdaria os direitos sobre a propriedade. notebooks. que a escola serviu. Apenas o morgado – filho mais velho – recebia algum respeito do pai. pois as almas infantis iam diretamente para o céu. “Por Uma Educação Anti-Racista: Uma Radiografia do Racismo no Ambiente Escolar através dos usos das Charges” foi desenvolvido no âmbito do Programa Institucional de Bolsas à Docência (PIBID). celulares. Cunha nos mostra em seu artigo. Nesse universo familiar em que os costumes higiênicos propiciavam a propagação de doenças. Facebook. A morte dos pequenos era um fato que não gerava maiores perturbações. Snapchat. Silêde Cavalcanti. trabalhamos com dois autores que trabalham com temáticas distintas.Diante de tais dados. Campus de Campina Grande. com o apoio da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Professor Virgínius da Gama e Melo. Recursos que são bastante atraentes em relação à atenção. consideramos que é imperativo a abordagem sobre o racismo em sala de aula. Diante disso. na faixa de 15 -16 anos. de onde velariam pelos entes queridos. Ms. Dra. com seu artigo A Escola Contra a Família. A PESQUISA Para o aporte teórico inicial. de forma que fosse atraente para o corpo discente e que fosse de fácil entendimento? E aliada a essa metodologia. . no século XIX. professor Livre-Docente pela Universidade de São Paulo. O presente artigo. O Segundo autor a ser utilizado foi Marcos Vinícius da Cunha. de onde pesquisamos a questão do humor brasileiro e sua representação. Para o estudo e abordagem. dentro do subprojeto de História da UFCG. mas que dispersam na questão da reflexão. Com a supervisão do prof. a existência da criança era irrelevante. trabalhamos com alunos do 2º ano A da turma da manhã. como forma trazer o assunto para a pauta da sala de aula e fazer com que os alunos participem da discussão. como incentivar os alunos a emitirem suas opiniões acerca do assunto? É um desafio considerável. Instagram. a USP. sejam na forma de equipamentos. A obra foi o Raízes do Riso.

a arte do exagero e/ou ataque violento (carga de cavalaria). não teria competência para cuidar das crianças. mas a instrução nas modernas normas de saúde física. Sobre o recurso nos diz o autor: O estereótipo é uma espécie de prêt-à-porter do humorístico. as privadas e serve café ao branco. Herdeira do jornalismo ilustrado nos séculos XVIII e XIX tem seus alicerces enraizados na iconografia da Idade Média e no ofício dos ateliês de pinturas dos séculos XV e XVI (Nery. Apesar do esforço do estado na primeira república. havia uma mentalidade discriminatória. como se dizia na época. vemos que pouco mudou em termos de mentalidade em relação ao racismo. que. Mas se deveria modernizar a sociedade como um todo. idéia trabalhada pelo nosso segundo teórico. Ide às repartições públicas e constatareis o mesmo. Albuquerque e Oliveira citam Nery: A charge é originária da França e significa carga. Percorrei as escolas superiores e vereis que o corpo docente e discente é branco em maioria esmagadora. mestiços. Modernizar significava colocar o Brasil em sintonia com os países mais desenvolvidos econômica e culturalmente. . segundo ele. decidimos optar pelo uso das charges. A escola atual. Sobre esse recurso. No contexto de nosso trabalho. segundo Marcos Vinícius. de Camargo Jr. mas também a aqueles que até então estavam excluídos da discussão: pobres. é necessário que haja familiaridade com os estereótipos. denuncia: Tudo está reservado aos brancos. surgiu no século XX. Então a escola deveria separar os filhos dos pais. ou seja. Mesmo com a mudança nas instituições. isso significaria não só a elite. ou seja. a começar pelo zelo de sua saúde. Isso significaria que essas pessoas precisariam se adequar ao modelo imposto de desenvolvimento. Elias Thomé Saliba. que os personagens sejam imbuídos de determinadas características que os tornem reconhecíveis aos olhos daqueles que serão seus receptores. a fim de suavizar o tema e torná-lo mais palatável. as figuras que usamos em nossos trabalhos usavam do recurso do estereótipo. mental e moral. E dentre as formas de representação do humor. limpa as escarradeiras. decidimos utilizar a questão do humor. O estudioso Jovelino M. A única figura a qual recebia respeito de todos os membros da família seria o pai. O negro só é contínuo ou servente. por sua vez se alimenta desta sua intrínseca vocação de juntar fragmentos do passado e concentrálos naquele instante rápido e fugidio da anedota. Nessa época a escola ampliou seu espectro. garantido-lhes não só o cuidado necessário para sua sobrevivência. 2001) A Charge é uma representação de um contexto em uma única cena. por ocasião do I congresso AfroBrasileiro. mais precisamente durante a primeira república. escravos libertos.A família. Diante de tal problemática. O espírito norteador desse movimento foi a intenção de modernizar a sociedade brasileira por intermédio da escola. Para que a charge faça efeito. saindo da esfera familiar para influenciar a sociedade.

e a temática do racismo diário. No caso englobou cenas que envolviam religião. Assim. apenas 10 alunos fizeram qualquer anotação acerca da atividade. Mas ao notarem a presença das ilustrações. procuramos familiarizar de maneira mais fácil aos alunos com relação ao tema abordado. deixamos um espaço para os alunos fazerem seus comentários.A EXPERIÊNCIA EM SALA DE AULA A recepção dos alunos em relação ao trabalho foi positiva. a questão da maioridade penal. No caso do nosso trabalho. Apesar dos diferentes contextos e personagens. A princípio se mostraram desapontado por ser. Porém dos 32. trabalho. atividade dentre tantas que fazem em sala de aula. acrescentamos 1 questionário. de modo a associar a cena a uma das opções. FIGURA I . Além das charges. se mostraram mais animados em relação à atividade. mais uma. nos utilizamos de charges de temática negra que se aproximassem de situações críveis do cotidiano. e novela. tráfico de drogas. Abaixo da atividade. das propostas. Ao todo. Ao todo foram utilizadas cerca de seis charges de diferentes autores. estiveram presentes cerca de 32 alunos. Permitindo a simples marcação para o aluno. por assim dizer. o que os une são a cor da pele dos personagens principais. com representações críticas de situações e/ou estereótipos familiares.

Charge de Angeli sobre o Feriado da Consciência Negra no Rio No exemplo acima. para a maioria inserida dentro do contexto. FIGURA III Charge de Latuff sobre a intolerância religiosa cristã . Pessoas humildes. Os defensores deste tema defendem diminuir a idade mínima de 18 para 16. expõe e critica as diferenças de tratamento que as crianças recebem por conta da origem social e pela questão da cor de pele. são consideradas como situações de lazer. geralmente de tez escura. trabalhando em situações que. temos uma cena familiar das capitais litorâneas brasileiras: A dos vendedores ambulantes. não raro envolvendo menores de idade. Junião. FIGURA II Charge de Junião tratando a respeito do tema da Redução da Maioridade Penal Um tema bastante controverso e que foi bastante discutido no ano de 2015 foi a questão da Redução da Maioridade Penal. em seu trabalho.

FIGURA IV Charge de Latuff sobre o tráfico de drogas na mídia televisiva FIGURA V .

Nele era pedido que fosse assinalado a opção que mais correspondesse à impressão que a imagem causara . com 5 opções.Charge de Pestana a respeito das novelas FIGURA VI A cada uma dessas charges estava associada ao questionário da folha.

revelando que o preconceito está presente em seu cotidiano e que eles percebem isso de forma direta ou indireta. sofridos pelos afrodescendentes no Brasil e no espaço escolar em particular. Alpino . O resultado da enquete está retratado no gráfico a seguir.com/fotos/as-melhores-charges-de-alpino-em2014-slideshow/umbanda-e-candombl%C3%A9-photo-1418405279299. A Anatomia da charge numa perspectiva de revolução sociohistorica. .com.pdf .financas. retratadas nas charges. do chargista Alpino. e deste montante. Acesso em: 25 de Agosto. Thiago Azevedo Sá. seja por meio das charges ou pelas vivências em sala de aula.a cada um. possibilitaram aos envolvidos o desenvolvimento de novas reflexões e um repensar acerca da problemática complexa da intolerância racial e os estigmas. e a temática discutida envolvendo questões étnicas e raciais. 13 afirmaram terem sofrido ou presenciado algum tipo de racismo na escola. Acesso em 03 de Agosto. O gráfico abaixo foi gerado com os dados obtidos em relação à Figura VI. Disponível em: https://kikacastro. Angeli. Disponível em: https://br. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS ALBUQUERQUE. consideramos que as atividades realizadas em sala de aula junto com a turma do 2º ano A. 30 afirmaram que a sociedade em geral não trata os afro-descendentes de forma igualitária ou inclusiva como ocorre entre os “brancos”. Durante nossa pesquisa constatamos que.2015.ufpe.html.br/nehte/simposio2008/anais/Diego-Luiz-Silva-Thiago-Azevedo-Oliveira. Disponível em: https://www. 2015. OLIVEIRA.2015. Acesso em 03 de Agosto. Diego Luiz Silva Gomes. do total de 32 alunos.yahoo. Engraçada Chata Tendenciosa Realista 3% Preconceituosa 9% 37% 38% 13% CONCLUSÕES Portanto.br/2012/11/20/dia-da-consciencia-negra-byangeli/.

Pestana.Junião.2015.2015.com/8e97b6d84d5a6f8cd33b465620210461/tumblr_o6vb7hLWnH1tlb56 zo1_400.wordpress. Acesso em: 25 de Agosto.com/2013/04/01/charge-exorcizando-oscultos-afro-brasileiros/. Acesso em 03 de Agosto. Raízes do Riso: A representação humorística na história brasileira: Da belle époque aos primeiros tempos do rádio.com.2015.com/pb/paraiba/noticia/2015/01/jovens-negros-da-pb-sao-13-vezes-maisassassinados-que-os-brancos. SALIBA. .jornaldaparaiba. Acesso em 03 de Agosto. 2015. Jovens negros da PB são 13 vezes mais assassinados que os brancos. Lattuf.gif. 2015.br/cidades/noticia/139469_estudo-mostra-que-92-porcento-dascriancas-na-pb-sao-racistas.2015. Acesso em 03 de Agosto. Disponível em: http://www.net/arch2009-05-31_2009-06-06. Acesso em 03 de Agosto.wordpress. Estudo mostra que 92% das crianças na PB são racistas.html. Disponível em: http://g1.html.zip. Disponível em: https://latuffcartoons.globo.com/2013/11/30/quando-e-que-o-povo-vaientender-que-trafico-crime-organizado-e-coisa-de-rico/ .tumblr. Disponivel em: http://67. Disponível em: http://blogpreto. Elias Thomé. Acesso em: 25 de Agosto.media. Lattuf. Disponível em: https://bolaearte.