Qubbas

Luís Lobato de Faria
O Projecto
A Associação Projecto Raia Alentejana encontrou no estudo das Qubbas uma
forma de divulgar o nosso passado islâmico. O objectivo final será o restauro destes
monumentos pois muitos encontram-se em rápida decadência. Para este fim estamos a
criar uma Base de Dados que já conta com largas centenas de monumentos no Alentejo
e na Extremadura espanhola.
O estudo das Qubbas não tem sido fácil pois são muitos Monumentos, de difícil
localização e numa área geográfica enorme. É um projecto dispendioso pois exige muito
trabalho de campo que tem sido inteiramente financiado por nós. Isto leva a um
progresso lento que choca com a rápida decadência dos Monumentos. Mas não
esmorecemos porque não estamos sozinhos, tem sido um trabalho de equipa em que a
Internet é fundamental. Como tal gostávamos de agradecer a todos os amigos que nos
têm enviado informação. Um agradecimento também aos investigadores pelos artigos
que nos facultaram.

Imagem nº 1

- Ao longo do texto apresentamos várias imagens do Google Maps. Este suporte é a base do
nosso trabalho.

Na imagem nº1 podemos observar a localização de alguns dos monumentos. A
primeira etapa do nosso trabalho é procurar no Google Maps edifícios que escondam
cúpulas, sejam Ermidas ou Montes. Cruzamos esta informação com outras fontes, por
exemplo as Cartas Militares ou o Inventário SIPA. Daqui partimos para o campo onde a
informação oral tem um grande peso. Fazemos o levantamento dos monumentos, na
medida do possível pois muitos encontram-se fechados. Este levantamento é um
trabalho sempre em construção. Os diferentes ícones no mapa representam a
probabilidade de um monumento ou Monte ser uma Qubba. Temos reunido um
importante acervo com centenas de monumentos de difícil acesso, por vezes pouco
conhecidos ou em mau estado.

Serão as Qubbas Islâmicas?
A nossa identidade cultural ibérica é muito rica porque reúne influências de
vários povos. No Sul da Península Ibérica temos uma forte herança islâmica. Várias
culturas unidas pela religião islâmica fizeram da Península a sua casa durante 780 anos.
Desde o início da invasão, em 711, até à queda de Granada, em 1491, a Ibéria foi o al’
Andalus.
Na Ibéria o legado islâmico é mais conhecido na Língua, na Gastronomia e
quase desconhecido na Arquitectura. Um tipo de edifício que faz parte de muitas
paisagens humanizadas de influência islâmica é a Qubba. Existem Qubbas um pouco
por todo o mundo islâmico, incluindo países do Norte de África como a Tunísia, Algéria
e Marrocos. Na Tunísia podemos encontrar Qubbas desde o século XI segundo Malek
Saied (Maçarico: 2006: 113). Não nos parece que a Península Ibérica medieval fosse
uma excepção. Encontramos aqui um paralelo muito importante que não pode ser
ignorado.

Imagens nº 2 e 3 - Qubbas em Postais do Norte de África, retirado da Internet

Onde estão as Qubbas na Península Ibérica?
Estão escondidas à vista de todos. Assimiladas na construção de vários tipos de
monumentos religiosos cristãos. Passaram a ser parte de Templos Cristãos, muitas são
agora o Altar-Mor, a Sacristia ou o Baptistério. Também encontramos várias Qubbas
escondidas em montes por vezes abandonados.
Destacamos o Monte da Mesquita no Concelho de Évora, um nome já por si
interessante (Imagens nº 4 a 7). A pesquisa inicial no Google Maps revelou uma
possível cúpula. Já no terreno, assimilada pelo edifício do Monte, encontrámos uma
pequena Ermida cúbica coberta com a tal cúpula. O Monte simplesmente cresceu em
volta deste monumento e a Ermida acabou por ser esquecida. Uma outra pista encontrase no topónimo da propriedade do lado que se chama Monte da Igrejinha. Cruzando
variáveis pensamos que o Monte da Mesquita possa ser uma Qubba. Esta acaba por
sacralizar uma necrópole da Idade do Bronze e uma posterior Villa Romana (Santos et
al.: 2008)

Imagens nº 4 a 7 - Na primeira imagem podemos ver o Monte da Mesquita no Google Maps com a cúpula
e localização da Ermida cúbica a amarelo. Na foto seguinte observamos o pormenor de uma cruz da
Ermida agora na parede de uma das divisões. Nas duas últimas fotos observamos a cúpula da Qubba
sobressaindo do telhado do Monte.

- Não podemos esquecer que muitos edifícios antes e depois do al’Andalus têm
cúpulas. Só cruzando várias variáveis com possíveis funções podemos compreender
quais destes monumentos foram Qubbas islâmicas. Damos como exemplo do
cruzamento de variáveis o trabalho pioneiro de Artur Borges (1985).
- As Qubbas são por vezes apresentadas como monumentos de inspiração
islâmica mas construídos nos séculos posteriores ao al‘Andalus. Por esta altura Judeus e
Islamitas eram convertidos à força e expulsos, parece-nos pouco provável a construção
de monumentos de carácter religioso inspirados numa dessas religiões.
- Os documentos históricos cristãos, as fontes escritas, são importantes mas só
se referem ao monumento cristão deixando de fora o edifício que por vezes já existia.
As fontes do mundo islâmico têm um papel fundamental que não tem sido devidamente
explorado pelos investigadores. Uma barreira linguística que nos impede de aprofundar
o estudo das Qubbas da perspectiva islâmica.
- Nunca esquecendo que Qubba quer dizer simplesmente “Cúpula” passemos à
sua definição: um edifício com um corpo cúbico, por vezes cilíndrico, com uma
cobertura cupular hemisférica e de provável origem islâmica.

Imagens nº 8 e 9 - Qubbas na Ermida de Santa Clara (Santiago Maior, Alandroal) e na Capela do Senhor
do Calvário (Mértola)

Imagens nº 10 e 11 - Qubbas que mantiveram o corpo cúbico no Morábito de Murfacém
(Trafaria, Almada) e na Ermida de S. João Baptista (Monsaraz). Uma das portas da Vila amuralhada de
Monsaraz tem mesmo o nome de Porta da Alcoba.

Qubbas ou Murabitum (Morábito)
- O crescimento do Islão baseou-se nos Ribat e nas Zawiyya, que encontramos
em Portugal nos topónimos Arrábida e Azóia.
O Ribat seria um espaço fortificado com uma guarnição de monges-guerreiros,
os Murabitum ou Morábitos. Dentro destes espaços fortificados teríamos Qubbas. Aqui
teriam provavelmente a função de Eremitérios ou Capelas. No Convento Velho da
Arrábida (Setúbal, Imagens nº 14 a 16) temos um bom caso de estudo. Neste possível
Ribat um dos Eremitérios tem mesmo medidas que podemos chamar de islâmicas. A
orientação, a localização e elementos da Arquitectura também correspondem.
Desenvolveremos estas variáveis ao longo do texto.
A Zawiyya seria uma escola religiosa que no mundo ocidental chamamos de
Madrasa. Várias Qubbas podem ter sido Zawiyya, podem ter sido Escolas Religiosas,
encontramos vários paralelos no Magreb.
- Outros al’Murabitum seriam os Almorávidas que dominaram o al’Andalus no
século XI. A associação das Qubbas aos Almorávidas e ao Sufismo levou alguns autores
a apontarem a origem das Qubbas para os séculos XI - XII. A grande quantidade de
Qubbas e a variedade de funções que estas assumem leva-nos a pensar que podem ser
mais antigas.

Iamgens nº 12 e 13 - Na Serra da Azóia (Zawiyya) temos a Qubba da Ermida da Memória (Cabo
Espichel, Sesimbra). Esta Qubba tem medidas que podemos chamar de islâmicas, discussão mais abaixo
no texto. A planta é da autoria de Ana Cabaça que estudou o monumento e foi editada por nós.

Imagens nº 14 a 16 - Na Serra da Arrábida (Ribat) no Convento Velho da Arrábida (Setúbal)
temos várias Capelas-Eremitérios. O monumento a NO, a branco no mapa, parece ser uma Qubba.

- As Qubbas também podem ter tido uma função ascética, de local de residência
de um Homem Santo do Islão, de novo o Murabitum, daí as Qubbas por vezes serem
chamadas de Morábitos. Encontramos aqui a função mais consensual para as nossas
Qubbas, a função de Eremitério. Esta procura do caminho interior ou Tasawwuf ficou
conhecida no mundo ocidental como Sufismo. No al’Andalus o Sufismo, corrente
islâmica, teve um grande desenvolvimento no século XII. Estes Morábitos estão

associados a lugares altos, à presença de água, a bosques e árvores sagradas. Têm uma
festa anual que ainda acontece nos nossos dias, no Magreb com o islamismo e no
Alentejo com o cristianismo. Pensamos que este ritual antecede o Sufismo, que antecede
mesmo as religiões monoteístas. A antiguidade deste ritual, o seu enraizamento na
Identidade Cultural, pode ter sido uma das razões da sobrevivência das Qubbas
mesmo que escondidas em templos cristãos e Montes.
- Os Murabitum eram sepultados nas Qubbas, como possuíam Baraka a bênção
que emana dos objectos sagrados, acabaram por nascer várias Necrópoles (Maqbara)
em redor destes monumentos. Encontramos aqui a função de Mausoléu para as
Qubbas. O Arqueólogo Luís Pinto escavou uma necrópole islâmica em Silves onde
encontrou o túmulo de um Murabitum, infelizmente não foi possível identificar a
Qubba. (informação do próprio). Por Espanha também temos casos semelhantes em
Burgillos de Cerro (Bravo: 2012, Imagem nº 70) e no Castelo de Múrcia (Sánchez :
2003).

Imagens nº 17 e 18 - Qubbas na Capela do Cemitério Velho em Vera Cruz de Marmelar (Portel) e num
Cemitério do Norte de África, foto retirada da Internet

- Por um lado temos necrópoles que nasceram em redor de Qubbas, um ritual
que continuou com o cristianismo. Por outro lado uma das prováveis funções destes
monumentos terá sido a de sacralizar um local com vestígios anteriores ao islamismo.
Em povoados pré-históricos, Villas romanas e respectivas necrópoles encontramos
Qubbas, como o caso do Monte da Mesquita (Imagens nº 4 a 7). Isto acontece também
nos dólmens da cultura do Megalitismo, temos o exemplo da Anta-Capela de N.S. do
Livramento em S. Brissos, Montemor-o-Novo (Imagem nº 19).

Imagens nº 19 e 20 - Qubbas na Anta-Capela de NS do Livramento (S Brissos, Montemor-o-Novo) e na
Ermida de NS das Neves (Ferreira de Capelins, Alandroal), esta última tem uma necrópole medieval, não
sabemos se anterior ou posterior

Cruzando variáveis à procura de Qubbas
- Várias Qubbas podem ter sido torres de vigia ou Atalaias. Estas localizam-se
em lugares altos de boa visibilidade, perto de fortificações maiores ou fazendo parte de
um sistema de Atalaias. Temos verificado que várias Qubbas nesta situação são bastante
mais altas do que é normal nestes monumentos. Em Ouguela, Campo Maior, a Ermida
de S Pedro foi mesmo reforçada enquanto Atalaia Abaluartada provavelmente no século
XVII (Imagem nº 21).

Imagens nº 21 e 22 - Qubbas na Atalaia de S Pedro (Ouguela, Campo Maior) e na Ermida de S Bento
(Monsaraz, Reguengos de Monsaraz)

- Muitas das Qubbas localizam-se à saída das povoações marcam o início de
um caminho ancestral. Se percorrermos esse caminho acabamos por encontrar mais
monumentos, muitos deles esquecidos em montes. No Monte da Torrinha em
Montemor-o-Novo (Imagem nº 24) podemos encontrar uma desta Qubbas esquecidas.
Perto de Pontes antigas também encontramos Qubbas, em Almada, no Alandroal e em
Beringel para dar só três exemplos. Por vezes verifica-se mesmo a existência de uma
linha de monumentos que pontuam um caminho a distâncias regulares. Seriam
provavelmente um local de descanso e um abrigo para rezar. Um dos pilares da fé
islâmica é o Salah, as cinco orações diárias, ritual onde a água tem um papel
fundamental. São vários os caminhos ancestrais onde encontrámos Qubbas: de Terena a
Redondo, de Elvas à Ajuda, de Valongo a Évora, entre outros caminhos que podemos
encontrar nos mapas abaixo (Imagens nº 23 a 28).

Imagens nº 23 a 25 - No primeiro mapa temos vários monumentos que pontuam os caminhos a partir de
Montemor-o-Novo. A foto é da Qubba no Monte da Torrinha que já foi uma capela cristã e o interior da
cúpula ainda está pintado de azul. Este pormenor repete-se, por exemplo, numa das capelas do
Convento Velho da Arrábida em Setúbal (Imagens nº 14 a 16). O mapa mais pequeno mostra-nos as
Qubbas que pontuam os caminhos a partir de Monsaraz em Reguengos de Monsaraz.

Imagem nº 26 a 28 - Três mapas que mostram Qubbas marcando caminhos em vários Concelhos
alentejanos

- Outro elemento usado
para a identificação de um
monumento enquanto Qubba é a
sua orientação. O Salah (as
orações diárias) tem que ser
realizado na Qibla (direcção) da
Kaaba em Meca. Na Qubba a
parede onde se encontra o nicho,
ou pequena janela, tem que estar
virada para Sudeste. Apesar da
assimilação por templos cristãos
ainda podemos observar esta
orientação original nas Qubbas.
Podemos também observar que os
templos cristãos se desenvolveram
com orientações menos rigorosas.
Imagem nº 29 - Planta de Islamic awareness

Imagens nº 30 a 35 - Na Planta temos a orientação da Kaaba em Meca (Imagem nº 29). Nos primeiros
quatro exemplos (Imagens 30 a 33) podemos observar a orientação similar das Qubbas na Ermida de S
João Baptista (Monsaraz, Reguengos de Monsaraz), na Ermida de Santa Margarida (Évoramonte,
Estremoz), na Ermida de Santa Clara (Santiago Maior, Alandroal) e na Igreja de NS de Loreto
(Juromenha, Alandroal). Acrescentamos a Ermida del Santo Cristo de la Paz (Cheles, Espanha) e a
Ermida de Santo Ildefonso (Baldio, Reguengos de Monsaraz), podemos então observar os sentidos
diversos para onde cresceram os templos cristãos, assinalados pelas setas nos últimos quatro monumentos
(Imagens nº 32 a 35).

Da Arquitectura
Na Arquitectura os elementos arquitectónicos, métodos e materiais de
construção, forma, dimensão, medidas e decoração podem ajudar-nos a perceber se os
monumentos são Qubbas. Mas este é um assunto muito vasto do qual apenas
conseguimos abordar alguns pormenores.
- No que diz respeito às medidas já trabalhamos parcialmente cerca de 50
monumentos, no Alentejo e na Extremadura espanhola, espalhados por 15 Concelhos e
Ayuntamientos. Constatamos que 90% destes apresentam uma métrica que cai dentro
das medidas usadas no al’Andalus entre 850 e 1499, estamos a falar do Côvado
Rashshãshi de 55.8 cm e o Côvado Andalusi Português 55.5 cm (Rei: 2000: 214). A
métrica das Qubbas foge assim às medidas usadas por D. Manuel ou às usadas na
Castela Cristã.
A maior medida horizontal que temos para a parede virada a Sudeste é de 720
cm e a menor de 390 cm. No mesmo alçado 25% das Qubbas têm a medida horizontal
de 560 cm com margens de erro mínimas.
Destacamos a Qubba da Ermida da Memória (Cabo Espichel, Sesimbra) com as
suas medidas islâmicas ao cm (Imagens nº 12 e 13), planta de Ana Cabaça.

Este trabalho de medição foi inspirado no de Luís Ferro (2014). Parece-nos
bastante válido para determinar quais dos monumentos são realmente Qubbas sempre
cruzando com as demais variáveis.
Será necessário medir totalmente os monumentos para tirar mais elações, quanto
a m2 e m3 por exemplo.
- A maior parte das Qubbas que temos trabalhado nada têm a ver com Mausoléus
Reais ou Palacetes, primam pela modéstia, seja nas dimensões, nos elementos
arquitectónicos ou materiais usados.

Imagens nº 36 a 39 - Pequenas Qubbas na Ermida de S Bento (Mourão), na Igreja de NS da Glória
(Estremoz), na Igreja de N.S. das Relíquias (Canal, Estremoz) e na Ermida de NS da Ajuda (Ajuda,
Elvas).

- Nas Imagens nº 36 a 39 podemos observar Qubbas de pequenas dimensões,
estas são agora o Baptistério ou a Sacristia nos templos cristãos. Outra função para as
Qubbas assimiladas, de maiores dimensões, é de Altar-Mor (Imagens nº 40 e 41).
Deixamos alguns exemplos:
Sacristia – Igreja de N.S. das Relíquias no Canal em Estremoz (Imagem nº 38) e
Capela de Santa Rita de Cássia (Évoramonte)
Baptistério – Ermida de N.S. das Ciladas (Vila Viçosa, Imagens nº 54 e 55) e
Ermida de S Vicente de Valongo (Évora)
Altar-Mor – Ermida de S Miguel do Adaval (Redondo) e Igreja de NS de
Loreto (Juromenha, Alandroal), Imagens nº 40 e 41
- Aproveitamos para frisar o desenquadramento das Qubbas com os posteriores
templos cristãos, estes foram construídos com plantas completamente diferentes.

Imagens nº 40 e 41 - Qubbas na Ermida de S Miguel do Adaval (Redondo) e na Igreja de NS de Loreto
(Juromenha, Alandroal)

- Na Forma a grande maioria das Qubbas que temos estudado têm o corpo
cúbico, algumas são cilíndricas e raramente hexagonais.
Os pavimentos e cantarias usadas nas portas, janelas e altares variam muito
consoante a região. As modificações que as Qubbas sofreram ao longo dos tempos, a
própria assimilação destas nos templos cristãos, levam a uma grande disparidade nos
elementos acima referidos.

Imagens nº 42 e 43 - Qubbas na Ermida de NS da Nazaré (Barbacena, Elvas) e Ermida de S Pedro
(Portel)

- A cúpula é quase sempre hemisférica com algumas excepções. Algumas dessas
raras excepções são as Qubbas na Ermida de Santa Luzia (Alvito, Imagem nº 44) e na
Ermida de S Vicente (Ferreira do Alentejo, Imagem nº 45). A Ermida da Memória (Cabo
Espichel, Sesimbra, Imagem nº12) tem uma cúpula sui generis que parece ter sido
alterada numa época mais recente.

Imagens nº 44 e 45 - Qubbas na Ermida de Santa Luzia (Alvito) e Ermida de S Vicente (Ferreira do
Alentejo)

As cúpulas são em tijoleira e rebocadas, por vezes têm um telhado que esconde
ainda mais as Qubbas nos templos cristãos. O interior da cúpula pode estar decorado
com frescos que vão de figuras geométricas e florais a painéis representando cenas
bíblicas.

Imagens nº 46 a 49 - Frescos na cúpula da Ermida de S João Baptista (Monsaraz, Reguengos de
Monsaraz, Imagem nº 11) com cenas bíblicas, um dos tesouros desta Vila infelizmente fachada ao público

Imagens nº 50 e 51 - Frescos na Cúpula da Ermida de Santa Clara (Santiago Maior, Alandroal, Imagem
nº8) com cenas bíblicas, a destruição da cúpula permite observar o método de construção

Imagens nº 52 e 53 - Frescos nas cúpulas das Igreja de S Miguel de Adaval (Redondo, Imagem nº 40) e
Ermida de S Bento (Monsaraz, Reguengos de Monsaraz, Imagem nº 22) com motivos geométricos e
florais

- Diferentes culturas usam diferentes materiais e métodos na construção dos
seus monumentos. Várias das Ermidas que visitámos estão infelizmente em ruínas. Isto
permite-nos visualizar a diferença entre os materiais usados na construção das Qubbas e
na construção das posteriores Ermidas cristãs. Fica o exemplo da Ermida de N.S. das
Ciladas em Vila Viçosa (Imagens nº 54 e 55). Nesta podemos observar a pedra
argamassada da Ermida cristã em volta da Taipa da Qubba. Nunca esquecendo que a
Taipa foi até aos nossos dias o método de construção mais usado no Alentejo.

Imagens nº 54 e 55 - Qubba na Ermida de N.S. das Ciladas (Vila Viçosa)

Passamos a destacar alguns
elementos arquitectónicos que
podem vir a ser pistas para a
identificação de Qubbas.
-No revestimento exterior de
alguns monumentos alentejanos
encontramos um novo paralelo
com o Norte da África. Algumas
Qubbas cilíndricas têm pedras
incrustadas na face exterior.

Imagens nº 56 a 59 – Na primeira imagem (nº56) temos um monumento no Norte de África, na Argélia,
imagem retirada da Internet. As imagens nº 57 a 59 são das Qubbas da Capela de Santa Maria Madalena
(Beringel, Beja), da Capela do Calvário (Serpa) e da Capela do Calvário (Ferreira do Alentejo).

- A construção de Púlpitos no exterior de algumas Qubbas demonstra que não
foram inicialmente concebidas com o intuito de realizar missas (Imagens nº 60 e 61),
houve uma mudança de função.

Imagens nº 60 e 61 - Qubbas com Púlpitos na Ermida de S Cláudio (Alcaraviça, Borba) e na
Ermida de Santa Margarida (Évoramonte, Estremoz)

- Alguns dos monumentos eram inicialmente abertos (Imagens nº 62 e 63) sendo
fechadas as paredes mais tarde. Isto acontece num dos monumentos do Convento Velho
da Arrábida (Setúbal, Imagens nº 14 a 16) e em pelo menos uma das Qubbas que forma
uma linha de Elvas à Ajuda (Imegem nº 28). Provavelmente locais de oração que
pontuavam um caminho que ganharam depois outras funções, hipótese já mencionada.
Isto acontece em Espanha nos Humilladeros que falaremos mais abaixo no texto.

Imagens nº 62 e 63 - Qubbas em Elvas (foto e informação de Rui Jesuino) e no Convento Velho da
Arrábida (Setúbal)

- Em alguns monumentos que não chegaram a ser transformados em templos
cristãos encontramos o interior das Cúpulas pintado de azul. Por exemplo numa das
Qubbas do Convento Velho da Arrábida em Setúbal (Imagem nº 64) e no Monte de
Torrinha em Montemor-o-Novo (Imagem nº 23).
Acerca do Monte da Torrinha: “….Aquela abóboda por dentro, aquela meia
laranja, quando foi descaliçada, recordo-me de ela ter pinceladas brancas e de estar
pintada de azul……” (Maçarico: 2006: 117).

Imagens nº 64 e 65 - Cúpula pintada de azul numa das Qubbas do Convento Velho da Arrábida (Setúbal)
e Nicho num Monte perto da Igreja de São Brás dos Matos (Alandroal).

- Verificamos a presença de um nicho, ou uma pequena janela, na parede
Sudeste de vários monumentos (Imagem nº 65).
- As Qubbas que podem ter tido a função de Atalaia são bastante mais altas
que a média (Imagem nº 22).

España
No Alentejo português e na Estremadura espanhola não encontramos
diferenças entre as Qubbas. Temos aqui mais uma importante prova da antiguidade
destes monumentos. Anteriores a arquitecturas cristãs que têm as suas diferenças em
Portugal e Espanha.
- O caso mais interessante
que nos chega da Extremadura
espanhola é o da Igreja de San
Bartolomé em Valverde de Leganes,
Badajoz (Imagens nº 66 a 68). No
século XVI a construção desta Igreja
foi interrompida antes de englobar
completamente a Qubba, o projecto
foi alterado e assim ficou até aos
nossos dias. A Qubba ficou como
que espreitando de dentro da igreja.
Uma prova da antiguidade das
Qubbas e da sua assimilação pelos
templos cristãos.

Imagens nº 66 a 68 - Qubba na Igreja de San Bartolomé (Valverde de Laganes, Badajoz).

- De Olivença chega-nos o recente estudo de Alberto Mendéz Garcia que
localizou uma Qubba no interior de uma das torres do Castelo (Imagem nº69). A
orientação da torre, uma cúpula, um arco de tipo sírio e uma janela cega no interior da
torre, são alguns dos elementos arquitectónicos em que o investigador baseia a sua
teoria. Mais importante, esta teoria vem alterar a própria fundação de Olivença. O
mesmo acontece com muitos povoados em território português que tiveram uma
fundação islâmica e as Qubbas podem ser prova disso. Muitas dos monumentos que
estudamos foram transformados em templos cristãos e são sedes de freguesia.
Destacamos os exemplos das Qubbas na Igreja de N.S. das Relíquias (Canal, Estremoz,
Imagem nº 38) e na Ermida de N.S. das Ciladas (Vila Viçosa, Imagens nº 54 e 55).

Imagem nº 69 - A proposta de Alberto Mendéz Garcia retirada da noticia de Eva Maria Nevado no
jornal Hoy

- Os nossos vizinhos
têm tido outra atitude para
com o estudo da Qubbas. O
trabalho
desenvolvido no
conjunto de San Juan
Bautista em Burguillos del
Cerro é disso exemplo
(Imagem nº 70).
- Na Cidade de
Badajoz encontramos uma
Qubba que sobreviveu ao
progresso e continua a sua
função de marcar o caminho
agora numa via rápida
(Imagens nº 71 e 72).
Imagem nº 70 - Foto de Arqueocheck

Imagens nº 71 e 72 – Qubba em Badajoz

- Em Espanha existe um tipo de monumento que são os Humilladeros. Estes são
cruzes, por vezes elaboradas, que marcam caminhos e convidam à oração. Alguns
Humilladeros são cobertos por estruturas abertas nas paredes e sustentadas nos cantos.
Por um lado este monumento de origem cristã parece ter a mesma função que algumas
das Qubbas de que falamos acima. Por outro lado algumas Qubbas podem ter sido
cristianizadas desta maneira.

Comentários Finais
- Lançamos a hipótese de existirem na Península Ibérica largas centenas de
Qubbas de origem islâmica. O cruzamento de variáveis, só possível com informação de
um grande número de Monumentos, ajudar-nos-á a compreender que monumentos são
Qubbas e quais as suas funções. Para este propósito estamos a construir uma Base de
Dados que vais crescendo e crescendo.
- Estas Qubbas teriam um papel fundamentalmente religioso numa sociedade em
que a religião era omnipresente. Destacamos a presença das Qubbas ao longo dos
caminhos a distâncias regulares, serviriam de apoio para vários tipos de viajantes, mas
principalmente para o Salah. As Qubbas teriam também a função de sacralizar os locais
o que se confunde com a função de Mausoléu e posteriores necrópoles.
- A Qubba com um Morábito residente teria várias funções, o monge seria um
mestre-escola, um vigia, alguém mais afastado da comunidade que faria a mediação de
disputas e a mediação com Deus.
- A antiguidade das Qubbas é muito difícil de determinar mas a sobrevivência
destes monumentos é reflexo do seu importante papel na nossa Identidade Cultural.
Este papel pode ser mesmo anterior aos monoteísmos.
- Voltamos a frisar que o objectivo final dos nossos esforços é evitar a rápida
decadência de centenas de monumentos que se encontram abandonados.
- No fim deste artigo deixamos um esquema (Imagem nº 74) e algumas fotos de
monumentos no Alandroal, em Almada e Borba (Imagens nº 75 a 80). Fotos não
identificadas da triste realidade de várias Qubbas e Ermidas que nos foram confiadas
pelos nossos antepassados
- Alguns caminhos dentro deste tema não foram seguidos por falta de tempo e
por falta de conhecimento dos autores. Gostávamos de nomear as pistas que ficaram por
pesquisar:
 A Arquitectura dos monumentos tem que ser esmiuçada.
 As fontes escritas islâmicas, infelizmente uma barreira linguística.
 A Toponímia que tanto tem para nos dizer.
 O ritual em volta das Qubbas que se realiza na Península Ibérica e no
Norte de África com muitas semelhanças.
 Toda a História dos edifícios com cúpula desde a antiguidade, passando
pelo Oriente e pelos Templários.
 As Qubbas hoje enquanto templos cristão, os Santos, os Oragos, os ExVotos e aqueles Cemitérios do Alentejo profundo (Imagem nº 73).

Imagem nº 73 - Cemitério da Aldeia da Granja (Mourão

Imagem nº 74 – Um esquema que reúne as ideias deste artigo
Enquadramento
Temporal

Enquadramento Geográfico

Norte de
África

Alentejo e Extremadura
espanhola
Origem
Função

Islamismo
VIII - XV
Almorávidas XI
Sufismo XII

Cristianismo

Capela
Eremitério
Atalaia
Escola
Mausoléu
Sacralizando um sítio
Pontuando Caminhos

Igreja
Ermida
Capela

Murabitum

Ribat
Zawiyya
Maqbara

Humilladero

Templos
Cristãos
Montes

Altar-Mor
Sacristia
Baptistério

Torrinha
Mesquita

Corpo
Cúbico
Cilíndrico
Taipa

Forma

Hoje

Cúpula
Dimensão
Materiais
Arquitectura

Variáveis

Hemisféric
a
Tijolo

Métodos de
construção

Nicho ou
pequena janela

Elementos
Arquitectónicos

Pedras
incrustadas na
face exterior
Paredes Abertas

Orientação

Medidas

Púlpitos no
exterior

Localização

Decoração

Cúpula pintada
de azul

Imagens nº 75 a 80 – A triste realidade de grande parte dos monumentos que temos vindo a estudar

Bibliografia
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