Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação Departamento de Jornalismo

WEBJORNALISMO

por Eduardo Carli de Moraes Junho de 2007

:: INTRODUÇÃO: WEBJORNALISMO ::
Há pelo menos 10 anos o cenário de produção e consumo de informações vem sendo radicalmente repensado e redefinido com a difusão das novas tecnologias informáticas e a disseminação cada vez mais massiva da Internet, num mundo cada vez mais globalizado e interconectado – não distante da famosa “aldeia global” preconizada décadas atrás por Marshall McLuhan. É evidente que o jornalismo não passa incólume por todas as transformações e evoluções tecnológicas que afetam nossas sociedades e também transforma-se, modifica-se e se reconstrói em sua tentativa de se adaptar à nova realidade e bem aproveitar os recursos e potencialidades abertos pelos novos meios de comunicação. “De certa forma, o conceito de jornalismo encontra-se relacionado com o suporte técnico e com o meio que permite a difusão das notícias. Daí derivam conceitos como jornalismo impresso, telejornalismo e radiojornalismo." (MURAD: 1999). Daí ser possível chamarmos de “webjornalismo” aquela espécie específica de jornalismo que se relaciona com esse meio de comunicação relativamente novo que é a Internet, com a ressalva de que não se trata de uma mera migração de um meio para outro, mas de uma completa renovação do que entedíamos por jornalismo – a “cara” do jornalismo na Era Digital certamente irá mudar, aliás já está mudando há muito tempo, e faz-se necessário compreender a essência das transformações pelas quais ele passa e a nova natureza que ele irá encarnar daqui para frente. Muitas questões instigantes podem ser levantadas a respeito deste tema, algumas delas já passíveis de receberem uma resposta parcial, outras que ainda necessitaremos aguardar o futuro desenrolar das coisas para respondê-las: a World Wide Web representa uma ameaça ou perigo para as empresas jornalísticas tradicionais, que estariam de certo modo “com os dias contados”, ou representaria, pelo contrário, uma importante aliada, que serviria como um meio para que estas últimas expandam seus negócios e ampliem o raio de seu alcance e a variedade de

meios de que se podem utilizar para atingir seu público? As “mídias tradicionais” teriam razões para temer que perderão muito público e muita penetração na sociedade, já que se pode suspeitar que, cada vez mais, o leitor procurará diretamente em fontes da Web aquilo que procuraa antes em revistas, jornais e tele-noticiários? De que modo as novas tecnologias irão afetar, transformar e revolucionar o jornalismo como tracidicionalmente o conhecemos? É possível que jornais e revistas on-line, surgidos exclusivamente para o ambiente web e utilizando-se de todos os recursos hipermidiáticos oferecidos por este meio, acabem por adquirir o status de um sério competitor em relação aos jornais “reais”? Que tipo de modificação de atitude se pode esperar, ou mesmo já diagnosticar, no leitor que passa a gradativamente ter uma maior familiaridade e segurança no oceano digital? Qual a modificação de mentalidade que se operará sobre os leitores tracionais, acostumados a receberem informação um tanto “passivamente” (no sentido de não poderem interajir ou criar conteúdos), agora que se abre o leque de possibilidades para que o “leitor digital” se torne muito mais participativo? De que modo se modificará o espaço físico das redações e como imaginar a “redação do futuro”? Há alguma alteração em relação à ética e aos valores neste momento em que o jornalismo migra para a Web, ou prosseguem valendo os velhos baluartes sagrados da confiabilidade, credibilidade e isenção? Neste trabalho procuramos oferecer um quadro geral a respeito de questões e problemáticas como as supra-citadas. Através deste estudo, propomo-nos a expor em termos concisos como se deu a inclusão do jornalismo no mundo digital quando dos primórdios da instalação da Internet no Brasil, como as primeiras experiências nesse ramo foram feitas, de que modo as empresas já tradicionais migraram para a Web e como um novo jornalismo exclusivamente voltado para a rede surgiu. Nos propomos também a analisar em termos teóricos as principais inovações trazidas pela Internet, ou seja, todas aquelas características – tais como a

virtualidade, o imediatismo, a interatividade e o papel ativo do consumidor de informação – que diferenciam o chamado webjornalismo das formas tradicionais e impressas de jornalismo que conhecemos. A fim de oferecer igualmente um quadro mais geral a respeito das transformações sociais e culturais que são efeitos diretos ou secundários da massiva inclusão da Internet em nossas sociedades, também trataremos de questões como a bitzação da informação e a criação de “inteligências coletivas” - para esse fim, utilizaremos como auxílio o trabalho de renomados teóricos da cibercultura e da sociedade da informação como Pierre Lévy e Nicholas Negroponte. Convêm salientar que esse trabalho não pretende ser um compêndio de análises a respeito de sites específicos, já que não estava entre os nossos objetivos fazer uma vasta pesquisa de campo a fim de narrar a quantidade de sites sobre jornalismo na internet nem muito menos julgar de seu valor ou qualidade, o que caberia em um outro trabalho de pesquisa, mais vasto. Nossa intenção aqui foi unicamente pintar um panomara geral sobre o webjornalismo: como ele surgiu e se desenvolveu, quais são suas caraterísticas marcantes, quais suas potencialidades e os modos como podem ser aproveitadas, o que podemos esperar dele no futuro e de que modo o quadro social e cultural está sendo transformado por ele.

:: DEFINIÇÃO DO VIRTUAL E O DECRÉSCIMO DA IMPORTÂNCIA DO ESPAÇO FÍSICO :: Para que possamos entender de modo adequado todas as implicações e consequências sobre o jornalismo das novas tecnologias e meios de comunicação, convêm fazer uma tentativa de compreender quais as principais inovações trazidas pela Internet e pela disseminação dos computadores pessoais, entendendo de que modo essas mutações agem sobre a sociedade e transformam o trânsito, a produção e o consumo de informação. Neste contexto, é evidente que um dos conceitos mais importantes dentro dessa nova conjuntura é o de virtualidade – tanto que se tornou quase um lugar-comum usar como sinônimo de Internet a expressão “espaço virtual”. Mas o que compreendemos por “virtual”? Trata-se de algo que convêm esclarecer de modo minucioso, tamanha a importância para a compreensão de como se realiza o jogo comunicacional no novo espaço comunicativo. Em termos um tanto abstratos, que depois se tornarão mais claros através de exemplos mais concretos, o filósofo francês Pierre Lévy, grande estudioso e entusiasta da Internet, ensina que

“A palavra virtual vem do latim medieval virtualis, derivado por sua vez de virtus, força, potência. Na filosofia escolástica, é virtual o que existe em potência e não em ato. O virtual tende a atualizarse, sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou formal. A árvore está virtualmente presente na semente. Em termos

rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao real mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes.” (LÉVY: 15) Em outras palavras, diremos que o virtual não é o contrário do real, mas apenas um real que ainda não se “atualizou”, por assim dizer - um real que existe em potência, como se estivesse em uma gaveta que aguarda ser aberta, ou como se repousasse numa “reserva” (pensemos numa espécie de dispensa) aguardando que o usuário solicite seu “surgimentos”. Conteúdos virtuais obviamente não são “irreais”, mas muitos deles permanecerão unicamente como conteúdos meramente potenciais, que o usuário pode não vir a atualizar. É óbvio que todo o processo de informatização e de virtualização, inserindose nos processos produtivos e passando a fazer parte do cotidiano das empresas dos mais variados ramos, acaba gerando transformaçãos irreversíveis e radicais na organização empresarial. Há inclusive o surgimento de empresas inteiramente virtuais, que prescindem de um espaço físico bem delimitado para funcionarem pelo fato de poderem agir no “espaço virtual”. Pierre Lévy tem clara consciência das modificações radicais que vem ocorrendo nas empresas tradicionais à medida que elas vão tentando se adaptar ao “novo mundo” criado pela Internet:

“A organização clássica reúne seus empregados no mesmo prédio ou num conjunto de departamentos. Cada empregado ocupa um posto de trabalho precisamente situado e seu livro de ponto especifica os horários de trabalho. Uma empresa virtual, em troca, serve-se principalmente do teletrabalho; tende a substituir a presença física de seus empregados nos mesmos locais pela participação numa rede de comunicação eletrônica e pelo uso de recursos e programas que favoreçam a cooperação. Assim, a virtualização da empresa consiste sobretudo em fazer das

coordenadas espaço-temporais do trabalho um problema sempre repensado e não uma solução estável. O centro de gravidade da organização não é mais um conjunto de departamentos, de postos de trabalho e livros de ponto, mas um processo de coordenação que redistriui sempre diferentemente as coordenadas espaçotemporais da coletividade de trabalho e de cada um de seus membros em função de diversas exigências.” (LÉVY: p. 18) No trecho supra-citado, fala-se num processo que afeta as empresas em geral, mas é evidente que podemos dizer o mesmo a respeito das empresas especificamente jornalísticas, as quais também vão sendo afetadas e transformadas por essa nova realidade. Quando pensamos na progressiva “virtualização” das empresas jornalísticas notamos muito desse processo que Levy descreve, sendo que a “redação” lotada de empregados e localizada muito especificamente num certo prédio físico vai se transformando em um outro tipo de cenário. Atualmente, será difícil encontrarmos uma única empresa jornalística de médio ou grande porte que produza todo o seu material dentro de uma espaço físico bem delimitado: a redação. Surgiu a possibilidade clara de que os profissionais trabalhem de um modo muito mais “esparso” e “espalhado”, comunicando-se através de faxes, telefones celulares, video-conferências, e-mails, salas de chat, fóruns do Orkut, entre variadas outras opções de contato à distância. Os textos de um jornal e revista não precisam mais, necessariamente, ser produzidos sempre no mesmo espaço físico, por profissionais que compartilham o mesmo ambiente de trabalho. Muitas vezes, os jornalistas, contribuidores e freelancers estão espalhados por vários estados ou mesmo países e, auxiliados pela internet e pela velocidade dos meios de comunicação, conseguem trocar mensagens e realizar o trabalho conjunto mesmo estando literalmente separados no “espaço” por centenas de quilômetros. A cara do jornalismo certamente vai se transformando. “A empresa virtual não pode mais ser

situada precisamente”, pondera Lévy. “Seus elementos são nômades, dispersos, e a pertinência de sua posição geográfica decresceu muito.” (LÉVY: p. 19) Por exemplo: na revista eletrônica de cultura e arte Rabisco

(http://www.rabisco.com.br), da qual o autor do presente trabalho é contribuidor, nota-se que há no staff pessoas de estados extremamente variados. E não se trata de uma exceção à regra: em outras revistas eletrônicas semelhantes, é extremamente raro que os jornalistas e contribuidores estejam próximos uns dos outros no espaço ou mesmo que exista qualquer coisa parecida como uma “redação”. Uma análise dos staff do Speculum (http://www.speculum.art.br) ou do Scream And Yell (http://www.screamyell.com.br) serve para atestar a evidência de que, cada vez mais, uma revista ou jornal na internet tem uma probabilidade imensamente mais alta de ser composta por membros dispersos geograficamente, ao invés de profissionais ligados ao mesmo espaço físico.

:: TEXTO E HIPERTEXTO, HIPERTEXTO E HIPERMÍDIA :: A noção de hipertexto, paralalemante à de virtualidade, é outra que perpassa como um fio condutor praticamente todas as discussões que se faz sobre a Internet e o futuro do jornalismo na Web. Sem dúvida alguma, como Pierre Lévy nos mostra, as duas noções se implicam mutuamente: o hipertexto é justamente um

texto impregnado de virtualidade, e a virtualidade é aquilo que fornece ao hipertexto sua maior distinção em relação ao texto “tradicional”. Muito se comenta sobre as enormes consequências do chamado hipertexto, cuja “definição bastante simplificada” nos fornece Beth Saad. Segundo ela, hipertexto é:

“ - uma escrita não sequencial em que o leitor controla as correlações; - é uma forma narrativa que não se concretiza até o momento em que o leitor a produza, por uma série de escolhas feitas a partir de seus desejos e interesses; - é uma forma narrativa que obriga jornalistas e demais profissionais da comunicação produtores de conteúdos informativos digitais a terem um senso muito claro de quem é o seu público, e uma compreensão teórica do que sejam expectativas de usuários, estratégias de busca e armazenamento de informação. “ (SAAD: 2003, p. 77) É muito simples entender a essência desta transformação operada sobre o texto tradicional, como o conhecemos, no já célebro formato do “hipertexto”. É só pensar que quando compramos um livro ou um jornal, o texto que temos em mãos não possui de fato uma grande carga de “virtualidade”, no sentido que Lévy entende a palavra: trata-se de um texto “acabado”, pronto, esgotado. “O leitor de um livro ou de um artigo no papel se confronta com um objeto físico sobre o qual uma certa versão do texto está integralmente manifesta. Certamente ele pode anotar nas margens, fotocopiar, recortar, colar, proceder a montagens, mas o texto inicial está lá, preto no branco, já realizado integralmente”,

pondera Lévy. Já no caso de um hipertexto, nos confrontamos com um tipo de texto que não está inteiramente manifesto e “feito”, que permite conexões, expansões e ligações. “ Na leitura em tela, essa presença extensiva e preliminar à leitura desaparece. (...) A tela apresenta-se então como uma pequena janela a partir da qual o leitor explora uma reserva potencial.” (LÉVY: 39) De modo que essa reserva potencial é um dos fatores mais cruciais que diferencia um hipertexto jornalístico de um mero texto. As diferenças existentes entre ler um texto “normal” e um “hipertexto” são muitas, principalmente porque a potencialidade e a virtualidade estão muito mais presentes no hipertexto, sendo que este permite um maior aprofundamento no assunto, uma conexão rápida com outros conteúdos semelhantes, um mergulho mais radical em informações pormenorizadas (mesmo que às vezes conflitantes e contraditórias). “...hierarquizar e selecionar áreas de sentido, tecer ligações entre essas zonas, conectar o texto a outros documentos, arrimá-lo a toda uma memória que forma como que o fundo sobre o qual ele se destaca e ao qual remete, são outras tantas funções do hipertexto informático.” (LÉVY: 37) Talvez por isso possamos dizer que quando estamos frente a um hipertexto, em nossa tela de computador, não estamos meramente frente a um texto único, mas sim frente a algo parecido com um depositório de muitos textos, alguns dos quais o leitor selecionará para ler, outros que rejeitará e deixará em seu estado de mero material de reserva. “Um hipertexto é uma matriz de textos potenciais...” (LÉVY: p. 40), como comenta muito pertinentemente Pierre Lévy. Poderia ser dito igualmente que

um hipertexto é uma espécie de texto inicial que oferece, em seu interior, muitos outros textos potenciais. Lévy enxerga nisso, inclusive, uma espécie de retorno de uma certa conjuntura que caracterizava a comunicação oral, como ele explica no trecho a seguir:

“...o texto contemporâneo, alimentando correspondências on line e conferências eletrônicas, correndo em redes, fluido, desterritorializado, mergulhado no meio oceânico do ciberespaço, esse texto dinâmico reconstitui, mas de outro modo e numa escala infinitamente superior, a copresença da mensagem e de seu contexto vivo que caracteriza a comunicação oral.” (LÉVY: 39) Mas é claro que as transformações trazidas pela Internet como novo meio de comunicação extrapolam e muito esta mera inovação que chamamos “hipertexto” tanto que muitos preferem expandir esse conceito um tanto limitado (e talvez até mesmo condenado a se tornar obsoleto, apesar de seu surgimento tão recente!) e falam já em termos de “hipermídia”, um conceito muito mais complexo, vasto e abrangente dentro do qual o hipertexto se enquadraria como uma mera categoria entre tantas outras. Beth Saad destaca que

“com a web surge o conceito de hipermídia, reunindo na tela de um computador conectado em rede mundial recursos de hipertexto, imagens, animação e voz, tudo isso numa amigável interface gráfica” (SAAD: 44). Mas como definir mais precisamente o conceito de hipermídia? Uma das definições consideradas mais adequadas e completas é a de Bob Cotton & Richard Oliver, em Understanding Hypermedia 2000 (London: Phaidon Press, 1997), p. 5:

“...hipermídia é uma mídia com suporte em computador, que

disponibiliza texto, imagem, som, animação e vídeo, numa variedade de combinações. É um meio de “acesso randômico” onde começo, meio e fim não possuem uma configuração física, possibilitando que informações sejam vinculadas a redes de conexões que podem ser exploradas de muitas maneiras, completamente diferentes. É um meio interativo, onde as diferenças entre usuários e criadores tornam-se fluidas. É um meio digital que pode ser distribuído tanto em disco como em redes de comunicação como a internet. É também um meio que contém o potencial de transformar os diferentes aspectos de nossa vida, aprendizado e entretenimento.” (COTTON: 1997) Já Nicholas Negroponte oferece outra vívida descrição:

“Hipermídia é uma extensão do hipertexto, um termo para narrativas altamente interconectadas ou informações linkadas. (...) Em um livro impressos, sentenças, parágrafos, páginas e capítulos seguem-se uns aos outros numa ordem determinada não somente pelo autor mas também pelo construto físico e sequencial do livro em si mesmo. Embora um livro possa ser acessado aleatoriamente e nossos olhos possam passear casualmente, é afinal de contas algo fixado e confinado nas três dimensões físicas. No mundo digital, este não é o caso. O espaço da informação não é de jeito nenhum limitado por 3 dimensões.A expressão de uma idéia ou cadeia de pensamento pode incluir uma rede multidimensional de apontadores para subsequentes elaborações e argumentações, as quais podem ser evocadas ou ignoradas. A estrutura do texto deve ser imaginado como um complexo modelo molecular. Nacos de informações podem ser reordenados, sentenças expandidas, e palavram podem ganhar definições no

mesmo instante. Estas linkagens podem ser embutidas ou pelo autor na hora da publicação ou depois, pelo leitor. Pense na hipermídia como uma coleção de mensagens elásticas que podem se expandir ou se contrair de acordo com as ações do leitor.” (NEGROPONTE: 1995, p. 69)

::: PRIMÓRDIOS DA INTERNET NO BRASIL E AS PRIMEIRAS INCURSÕES DO JORNALISMO NACIONAL NO CIBERESPAÇO :: Tendo em mente essas inovações possibilitadas pelo desenvolvimento das tecnologias digitais e as potencialidades imensas que surgem no horizonte do jornalismo nesta era dominada pelo hipertexto e pela hipermídia, iremos agora fazer uma breve incursão histórica, descrevendo de que maneira a Internet começou a se desenvolver no Brasil e como surgiram os primeiros experimentos do jornalismo neste novo ambiente tecnológico. Quando pesquisamos a respeitos dos primóridos da internet do Brasil, é impressionante constatar o quanto um fenômeno tão recente já se tornou tão difundido e já causou tantas transformações no cenário da informação e da cultura em geral – um fenômeno que é evidentemente algo mais global do que meramente nacional. É só pensar que a revolução informática e, posteriormente, o começo do desenvolvimento e difusão da Internet no Brasil é um fenômeno que data dos anos 80 e 90.

Mas a “revolução” não começou tão recentemente quantos alguns imaginam, já que a invasão dos computadores pessoais nas redações e a introdução de aparelhos como faxes, BBS (Bulletin Board System) e ferramentos para teleconferências já começaram a mudar radicalmente a cara das redações dos grandes jornais e revistas dezenas de anos atrás. Segundo Beth Saad,

“Estas inovações traziam a idéia de que o processo de comunicação dominante – a comunicação de massa unidirecional – passaria a conviver, por conta das novas tecnologias, com outras formas mais individualizadas e específicas de relação entre receptores e mensagens.” (SAAD: 21) Um resgate histórico pode ser esclarecedor nesse momento, narrando de modo sucinto como se deu o desenvolvimento da Internet e do webjornalismo no país. Para este fim, podemos mais uma vez recorrer à Beth Saad, que descreve com detalhes como se deram os primeiros passos do jornalismo brasileiro na rede mundial de computadores, que culminaria com a criação dos primeiros grandes “portais” jornalísticos nacionais – capitaneados por grandes empresas como Estado de S. Paulo e pelo Grupo Folha.

“No Brasil, se considerarmos a tecnologia digital em seu sentido estrito, retornamos à década de 1980, com a introdução do computador nas redações. E, considerando as chamadas tecnologias digitais de informação, utilizadas para a captação, produção e distribuição de conteúdos informativos, chegamos a 1992, com os primeiros serviços de informação financeira criados pela Agência Estado, do Grupo O Estado de S. Paulo, e distribuídos através de onda broadcast (de rádio); e, em 1996, com a criação das primeiras experiências de conteúdo na World Wide

Web (utilizando o protocolo de transmissão TCP/IP) pela própria Agência Estado e do jornal Folha de S. Paulo com o lançamento do Universo Online (UOL).” (SAAD: 166) É portanto somente a partir de meados da década de 90 que se pode efetivamente constatar que a Internet passa a penetrar, de início com muita lentidão e “modéstia”, na vida dos brasileiros. Nâo custa lembrar que antes de 1995 praticamente ninguém havia ouvido falar nesta tal de Internet, muito menos utilizado aquilo que viria a se tornar a rede mundial de computadores, sendo que essa grande novidade tecnológica, ainda em seu estado de gestação e de parto, ficava extremamente restrita às universidades e aos especialistas em informática, considerando-se que se exigiam conhecimentos específicos muito complexos e detalhados para que fosse possível navegar na rede. Sem falar que muito tempo decorreu até que fossem surgindo os provedores de acesso à Internet, já que no início da Web no Brasil a única empresa autorizada a prover este acesso era a Embratel. Como aponta Beth Saad, quando descreve em minúcias o cenário nacional antes da chegada da “era dos bits”, a Internet só começou a realmente se desenvolver com vigor no país a partir da segunda metade dos anos 90, considerando-se que

“Até o final de 1995, internet no Brasil traduzia-se em universidade, acesso restrito e complicado, conhecimento de comandos Unix para utilização mínima da rede. Na época, um mundo restrito a pesquisadores que 'enviavam um Bit Net' quando queriam se comunicar com outros grupos de pesquisa no exterior, também alojados em universidades. Ter acesso a dados de outras instituições era o mesmo que uma operação de guerra, sendo necessário acessar primeiramente o computador central da

instituição, com todas as devidas permissões, em seguida passavase por uma série de servidores internos, lentamente, até a conexão e acesso ao conteúdo desejado. Uso de Pcs, interfaces gráficas para acesso e visualização de conteúdos e protocolo de comunicação TCP/IP, que permitia o uso de linhas telefônicas comuns para envio de dados, eram procedimentos muito distantes do dia-a-dia não acadêmico. Para aficionados em computação, que possuíam as primeiras versões dos computadores domésticos – o pioneiro XT -, já existiam os Bulletin Board System (BBS), permitindo a comunicação entre computadores através de ondas de rádio. Sistemas que foram gradativamente se tornando mais potentes e com o consequente uso comercial.” (SAAD: 2003, p. 167) Se os primeiros estágios da Internet no Brasil foram ultrapassados nos anos de 1996 e 1997, os anos seguintes representariam um período de intenso crescimento e desenvolvimento, sendo que “A partir de então, com um momento de auge – o chamado boom da internet brasileira – entre 1998 e meados de 2000, assistimos a uma movimentação sem precedentes na composição do segmento de informação jornalística. Lançamentos bombásticos, criação de novas marcas, ascensão de concorrentes sem tradição jornalística, troca-troca de profissionais entre empresas pontocom, salários astronômicos e campanhas publicitárias audaciosas foram o ponto alto desse momento. E, quase que concomitantemente e num ritmo próprio, assistimos aos grandes conglomerados de mídia do país – Abril, Folha, Estado e Globo – lançarem suas operações digitais em diferentes momentos, com alguma preocupação quanto à perenidade, sobrevivência, consolidação, tecnologia e futuro. Todos, também com alguma percepção de que a essência da World Wide Web é o conteúdo e, portanto, que empresas informativas

seriam o ponto focal e mais sensível desse novo mundo pautado pela informação digital.” (SAAD: 167) Mas nem tudo se desenrolou de modo tão positivo assim, já que concomitantemente a esse boom da internet ocorrido entre 1998 e 2000, aproximadamente, também ocorreu um período de crise no mercado de mídia, sem falar na grande insegurança que se produzia em relação à Internet, que muitos ainda enxergavam com muito temor: “Esse mesmo período também produziu um dos mais estrondosos retrocessos do mercado de mídia no Brasil, acompanhando a tendência mundial. Assistimos ao fechamento, à dissolução, venda ou fusão das empresas puramente pontocom, demissões em massa, suspensão de serviços digitais, evasão de capital e dos investidores de risco, retorno de profissionais de comunicação aos seus velhos e seguros abrigos das chamadas mídias tradicionais, uma reordenação dos patamares salariais, a retração do mercado publicitário, e uma grade dúvida: seria a web um novo mercado mediático rentável e independente, ou apenas mais um sofisticado canal de distribuição de informações para um público específico, elitizado e apressado?” (SAAD: 2003, p. 165-66) De modo que o webjornalismo ainda demoraria um bom tempo para de fato começar a existir com o surgimento dos primeiros websites criados pelas empresas jornalísticas. As dificuldades não diziam respeito somente à mudança de uma mídia impressa para uma digital, ou de átomos para bits, mas também diziam respeito à metamorfose que se exigia do público para que ele fosse capaz de obter acesso à nova informação, já que

“A disseminação de conteúdos jornalísticos de caráter geral por

meios

digitais

requeria

uma

transformação

não

no

comportamento do leitor, mas especialmente em seu grau de alfabetização tecnológica e em seu padrão econômico, social e educacional.” (SAAD: 169) De pouco adiantava que uma empresa criasse um website vinculando conteúdos jornalísticos se a imensa maioria do público não conseguia acesso à Internet ou, se conseguia, mal conseguia manejar os softwares para corretamente aproveitar o que tinha em mãos. Deste modo, foi inicialmente com passos tímidos que o jornalismo nacional começou a penetrar na Web e a experimentar seus poderes neste novo cenário, sendo que, obviamente, os primeiros estágios foram vencidos principalmente por empresas que já tinham uma boa base e potencial para investimentos de risco neste novo ramo econômico, sendo que, nos primórdios da Internet, quando ainda vigorava uma enorme desconfiança em relação a esse novo meio, “Saiu na frente quem tinha posicionamento estratégico de pioneirismo e infra-estrutura empresarial para enfrentar um novo desafio de mercado que poderia, conforme a tônica de discussões entre os publishers, literalmente matar sua galinha de ovos de ouro. A web jornalística brasileira inicia-se sob a ameaça de morte do meio impresso.” (SAAD: 2003, p. 169)

::: DIFICULDADES MIGRATÓRIAS ::

Como acabamos de mostrar, a princípio se verificou, nos primórdios da Internet no Brasil, uma certa desconfiança em relação ao novo meio e uma certa incapacidade de lidar adequadamente com o que ele oferecia, de modo que a migração do meio impresso para o digital não se deu sem certas dificuldades:

“Com o aparecimento da internet verificou-se uma rápida migração dos mass media existentes para o novo meio sem que, no entanto, se tenha verificado qualquer alteração na linguagem. O chamado "jornalismo online" não é mais do que uma simples transposição dos velhos jornalismos escrito, radiofônico e televisivo para um novo meio. Mas o jornalismo na web pode ser muito mais do que o actual jornalismo online. Com base na convergência entre texto, som e imagem em movimento, o webjornalismo pode explorar todas as potencialidades que a Internet oferece, oferecendo um produto completamente novo: a webnotícia.” (CANAVILHAS: 2007) Pode-se dizer que o autor exagera ao afirmar categoricamente que os mass media migraram para o novo meio sem que se tenha verificado nenhuma alteração de linguagem, pois obviamente foram feitas experimentações e inovações visando uma adaptação criativa e orgânica à Internet, sendo que os websites de jornais, revistas, rádios e cadeias de Televisão obviamente não eram meras “cópias” do conteúdo e da linguagem do meio “mãe”, mas tinha informações exclusivas, diferentes possibilidades de informação, uma maior interação entre vários elementos díspares, entre outas ciosas. O autor provavelmente se refere ao momento inicial de desenvolvimento da Internet, quando os órgãos da imprensa que se aventuraram a criar os primeiros websites na rede costumam simplesmente reproduzir o conteúdo do jornal impresso, como aponta Canavilhas no trecho seguinte:

“Marshall McLuhan afirmava que o conteúdo de qualquer medium é sempre o antigo médium que foi substituído. A internet não foi excepção. Devido a questões técnicas (baixa velocidade na rede e interfaces textuais), a internet começou por distribuir os conteúdos do meio substituído - o jornal. Só mais tarde a rádio e a televisão aderiram ao novo meio, mas também nestes casos se limitaram a transpor para a internet os conteúdos já disponibilizados no seu suporte natural. (...) E apesar do inquestionável interesse da difusão destes conteúdos à escala global, é um completo desperdício tentar reduzir o novo meio a um simples canal de distribuição dos conteúdos já existentes.” (CANAVILHAS: 2007) Já nota-se aí a óbvia tomada de consciência de que a Internet é um meio poderoso demais, que abre possibilidades extremamente fecundas, para que seja utilizada meramente com um instrumento de difusão em maior escala (global, aliás) de conteúdos pre-existentes e já pré-publicados em outros meios de comunicação, exigindo, pelo contrário, um conteúdo inédito, próprio a este meio, que respeite e aproveite todas as suas potencialidades. “Se, para o jornalista, a introdução de diferentes elementos multimédia altera todo o processo de produção noticiosa, para o leitor é a forma de ler que muda radicalmente. Perante um obstáculo evidente, o hábito de uma prática de uma leitura linear, o jornalista tem de encontrar a melhor forma de levar o leitor a quebrar as regras de recepção que lhe foram impostas pelos meios existentes.” (CANAVILHAS: 2007)

:: IMPRESSO E DIGITAL: MODIFICAÇÕES E RESSONÂNCIAS :: Falar sobre o jornalismo e as novas formas que ele irá encarnar na chamada Era Digital não é assunto de pouca importância, considerado que o setor de informação e comunicação, dentro do qual o jornalismo se enquadra,

“é o mais impactado pelas novas tecnologias, já que informação é, ao mesmo tempo, sua matéria-prima, seu principal produto e sua base de sustentação. E informação e seu transporte eram o cerne das novas tecnologias de informação, sendo a web o carro-chefe.” (SAAD: 23) Porém, convêm destacar que dificilmente poderíamos falar numa radical transformação de valores nessa passagem do jornalismo de um ambiente impresso para um ambiente digital, já que, segundo notam muitos estudiosos, os mesmos valores que norteavam os modos tradicionais de jornalismo – tais como a credibilidade, a isenção, o comportamento ético, a informação “limpa” de interesses ideológicos, políticos ou religiosos, etc. – continuam valendo tanto quanto antes. A mudança de meio não implica uma total reestruturação de valores, mas sim um aumento no escopo de possibilidades e potencialidades que o jornalismo pode explorar neste novo meio “hipermidiático” que é a Internet. Estaríamos portanto frente a um modo radicalmente novo de jornalismo, que tornaria inúteis todos os conhecimentos adquiridos nos tempos de jornalismo impresso, que exigiria a completa reestruturação dos cursos universitários voltados à formação de comunicadores sociais? Estaríamos vendo nascer uma “raça”

completamente nova de jornalismo, completamente desvinculado de sua anterior encarnação impressa? Os especialistas insistem que não – como acabamos de comentar, os valores que norteiam a prática jornalística permaneciam intactos nesta migração do impresso para o virtual, e portanto não se trata de dizer, como garante Beth Saad, que o novo jornalismo que se torna possível nessa nova conjuntura dispensaria o conhecimento das ferramentas e da prática do jornalismo tradicional. Muito pelo contrário. Segundo a mesma autora,

“apenas quem domina o conjunto de tarefas que geram informações, conteúdos ou mensagens, ou seja, quem domina a práxis do jornalismo tradicional e seus diferentes gêneros, é que teria em mãos os instrumentos, as habilidades e as competências para trabalhar nesse novo formato informativo.” (SAAD: 2003) Ainda sobre a questão das diferenças entre o jornalismo impresso e o webjornalismo, podemos nos perguntar a respeito da duração dos órgãos e se é de fato verdadeira a suposição de que a efemeridade é uma característica marcante dos empreendimentos de jornalismo na Web. Será que os jornais on-line estariam condenados a uma vida curta como tantos outros sites da Internet, que muitas vezes acabam tendo uma duração bastante efêmera, ou conseguirão se constituir como fornecedores de conteúdo com anos e anos de tradição nas costas, respeitados e cheios de crediblidade? Beth Saad, a respeito dessa questão, pondera que de fato a realidade da Internet é de uma mutabilidade muito mais veloz, mas que velhos valores permanecem essencialmente imutáveis:

“o

ritmo

constante

e

em

ondas

de

vida

e

morte

dos

empreendimentos 'pontocom' dá como lição para analistas e pesquisadores que os tradicionais provedores de conteúdo se mantêm sobreviventes a despeito das turbulências”, mas que para isso precisam sobretudo mantêr-se em um alto nível de

“reconhecimento,

audiência

e

credibilidade”,

o

que,

evidentemente, são “os mesmos valores da velha e conhecida mídia” (SAAD: 2003, pg. 79). Mas é evidente que exige-se das empresas uma grande agilidade em termos de acolhimento de novidades tecnológicas e modificação de estratégias no ambiente digital, já que

“Com a era internet inaugura-se o tempo de inovações tecnológicas com ciclos de vida muito rápidos. Essa situação exige, pelo menos conceitualmente, uma agilidade correspondente da empresa que assume o papel inovador, pois o essencial para manter a sua competividade num mercado volátil é possuir fôlego financeiro e equipes multidisciplinares que acompanhem e sustentem as transformações.” (SAAD: 2003, p. 169) Do mesmo modo que não podemos constatar (nem desejar) nenhuma radical transformação nos valores éticos que permeiam o jornalismo em sua encarnação sob a forma digital, também podemos dizer que, mesmo com todas as transformações impostas ao jornalismo com a chegada das novas tecnologias, certas funções tradicionais dentro da profissão não se tornaram, de modo algum, ultrapassadas ou obsoletas. Uma destas funções é a do editor, que permanece sendo uma figura de relevância crucial dentro de uma publicação voltada para a Web. Isso porque

“ainda hoje as expectativas do consumidor da internet se aproximam daquelas do consumidor da mídia tradicional – há necessidade de um editor, seja homem ou máquina, para reduzir a complexidade e expor a essência da informação disponível.” (SAAD: 2003, pg. 10)

Podemos até dizer que o papel do editor, longe de ter se tornado desnecessário, se tornou ainda mais importante e crucial num meio como a Internet, em que a quantidade imensa de informação e de material bruto frequentemente pode causar no usuário a sensação de estar pedido num oceano de bits, sites, textos e opções, sendo bastante relevante a função dum editor que cuidadaria do ofício de selecionar e enfatizar aquilo que julga ser o mais essencial, servindo como uma espécie de guia através do imenso oceano digital.

:: DO UNIDIRECIONAL AO BIDIRECIONAL :: Esse é um ponto crucial a ser destacado se quisermos compreender a principal das “revoluções” causadas pela entrada do jornalismo na era da Internet: o fato da transformação do processo comunicativo unidirecional num processo muito mais “bidirecional”. Alguns chegam mesmo a ousar a conclusão, como faz Beth Saad, que “passamos por uma completa transformação do paradigma comunicacional” (SAAD: 2003, pg. 57). Esta autora destaca que o jornalismo na

Web

“coloca produtor e receptor da informação no mesmo patamar; possibilita diálogos interpessoais e intergrupais sem a intervenção do produtor da informação; com potencial de uso não apenas de distribuição e captação de informações, mas também de gerenciador de dados e criador de sentido para grupos de usuários de qualquer porte.” (SAAD: 2003) Uma das mais radicais transformações diz respeito ao papel do receptor das informações. Tradicionalmente, o leitor de um jornal ou de uma revista permanecia como uma espécie de receptor passivo de informações prontas, entregues a ele pelas empresas jornalísticas de sua escolha, sendo que seu espaço para interação, sugestão e comentários era muito restrito – sem falar que ele não contribuía em nada com a confecção das matérias e com o fornecimento de conteúdo. Com a Internet toda essa realidade muda e os receptores de informação deixam de ser passivos e passam a ter a possibilidade de uma verdadeira interatividade com os produtores da informações, podendo inclusive se tornarem contribuidores e produtores de conteúdo. De acordo com Chuck Martin, na obra The Digital Estate, “a internet é um meio diferenciado porque ela não permite apenas aos consumidores literalmente mergulharem e surfarem através de infinitos mares informativos, mas confere poder ao usuário para ele mesmo inserir suas informações na rede. E mais importante, o conceito de usuário criador de conteúdo e de contextualizações é totalmente consistente ao conceito da própria web. É um meio que existe para conectar pessoas. Então, por que não dar a essas pessoas bons motivos para estarem conectadas?” (MARTIN: 1996)

Canavilhas é outro que destaca bem o papel preponderante da interatividade no jornalismo on-line: “A máxima "nós escrevemos, vocês lêem" pertence ao passado. Numa sociedade com acesso a múltiplas fontes de informação e com crescente espírito crítico, a possibilidade de interacção directa com o produtor de notícias ou opiniões é um forte trunfo a explorar pelo webjornalismo. Num jornal tradicional o leitor que discorda de uma determinada idéia veiculada pelo jornalista limita-se a enviar uma carta para o jornal e a aguardar a sua publicação numa edição seguinte, tendo habitualmente que invocar a Lei de Imprensa para o conseguir. Por vezes a carta só é publicada dias depois e perde completamente a actualidade. Outras vezes o jornalista não responde, ou fá-lo de forma a encerrar a discussão, fechando a porta a réplicas. No webjornal a relação pode ser imediata. A própria natureza do meio permite que o webleitor interaja no imediato. Para que tal seja possível o jornalista deve assinar a peça com o seu endereço electrónico. Dependendo do tema, as notícias devem incluir um "faça o seu comentário"de forma a poder funcionar como um fórum. No webjornalismo a notícia deve ser encarada como o princípio de algo e não um fim em si própria.” (CANAVILHAS: 2007) Negroponte também destaca que um jornal permite “leituras” um tanto mais diversificadas do que um programa de televisão, uma vez que cada pessoa constrói seu próprio “percurso”, selecionando as editorias que mais lhe interessam e tendo sua atenção capturada por diferentes notícias e matérias.

“A transmissão televisiva é um exemplo de um meio de comunicação no qual toda a inteligência está no ponto de origem.

O transmissor determina tudo e o receptor apenas recebe o que é oferecido. (...) Um jornal também é produzido com toda a inteligência no transmissor. Mas o meio físico do papel de formato largo oferece uma espécie de alívio para a 'monotonia' da informação, uma vez que ela pode ser consumida de modos diferentes, por diferentes pessoas, em diferentes tempos. Nós viajamos e perambulamos pelas páginas, guiados pelas manchetes e pelas fotos, cada um de nós tratado de modo bastante diverso os mesmos 'bits' que são entregues a centenas de milhares de pessoas. Os bits são os mesmos, mas a experiência de leitura é diferente.” (NEGROPONTE: 1995, p. 20)

:: IMEDIATISMO e TRANSFORMAÇÕES NA LEI DA OFERTA E DA DEMANDA :: Outra característica do jornalismo direcionado à Web que é importante destacar consiste no potencial que ele tem para um imediatismo inigualado e inigualável por qualquer outra mídia impressa – websites estão noticiando praticamente em tempo real acontecimentos que os jornais tradicionais só poderão noticiar em suas edições do dia seguinte e que as revistas semanais de informação demorarão ainda mais a retratar. Sem falar que a repercussão dos conteúdos jornalísticos vinculados na Internet é muito mais rápida e imediata, uma vez que o autor da matéria pode instantaneamente começar a receber e-mails de seus leitores e sua notícia pode ser comentada segundos após sua publicação. “O imediatismo com que as informações podem ser transmitidas (e comentadas em e-mails e salas de bate-papo) faz com que o telejornal noturno e o jornal impresso do dia seguinte, por exemplo, tragam no mínimo um pequeno “atraso” com relação aos

seus conteúdos e ao grau de informação já absorvida por seus leitores” (SAAD: 2003). Chegará o dia, talvez, em que o leitor, ao pegar o jornal às sete da manhã, passará os olhos sobre as notícias e dirá para si mesmo: “mas eu já fiquei sabendo disso tudo na Internet ontem de noite!”? É bastante possível, e talvez alguns de nós já tenham passado por uma experiência parecida, tendo nos colocado a questionar qual será o futuro dos órgãos de jornalismo impresso tendo como concorrentes os grandes websites com sua imensa capacidade para a transmissão imediata de conteúdos. Alguns especialistas chegam a arriscar certas profecias sobre o futuro do jornalismo. Katherine Fulton, em seu artigo “News Isn't Always Journalism”, comenta que “o jornalismo se tornará uma parte cada vez mais reduzida de um sistema global de mídia e comunicação em expansão contínua. Tal sistema, por sua vez, se transformará na infosfera na qual iremos viver, nos divertir e trabalhar. 'Mídia' será onde buscaremos notícias, entretenimento, conhecimento e dinheiro. O que normalmente era considerado separado e distinto – os elementos de conjuntos denominados jornal, redes de tevê ou educação universitária – estará vinculado e entranhado na textura de nossas vidas.” (FULTON: 2001) Além do incrível imediatismo com que as informações podem ser transmitidas pela Web, outro ponto que convêm enfatizar é uma certa modificação no modo como consumimos estas informações, já que a tradicional relação de oferta e demanda parece ter sido bastante modificada quando atentamos para os procedimentos das empresas jornalísticas na Internet em relação às empresas tradicionais. A estudiosa Margarethe Steinberger, em artigo para São Paulo em Perspectiva: Comunicação e Informação, nos ajuda a entender esse fenômeno ao

comentar que

“dentro de uma concepção liberal o jornalismo é visto como uma atividade produtora de informação em um sistema de compra e venda de informações regulado pelo mercado. Isso se dá de tal forma que as empresas informativas produzem proporcionalmente ao que o público consegue consumir. A superprodução de informação, nessa perspectiva, não pode existir. O que há é uma adequação permanente da oferta aos parâmetros da (suposta) demanda.” (STEINBERGER: 1998)

Por isso se fala numa suposta “inversão de forças” que estaria ocorrendo entre oferta e demanda como uma consequência inelutável das novas tecnologias: as empresas jornalísticas no mundo digital não mais “produzem proporcionalmente ao que o público consegue consumir”, já que na Internet há a possibilidade de que uma oferta maior que a demanda, por assim dizer, ou seja, uma “superprodução de informação” que não será inteiramente aproveitada por cada um dos usuários, mas que ficará livre para ser explorada livremente. Não custa lembrar que a Web não sofre tanto com a “limitação espacial” que aflige os jornais e revistas, que têm espaços específicos e limites de páginas e de caracteres que não podem ser ultrapassados, o que constitui uma dificuldade para passarem seus conteúdos – enquanto que “a quantidade de informações na World Wide Web é ilimitada” (SAAD: 2003). Uma vez que o leitor digital, ao invés de ser um mero receptor passivo de informações prontas e limitadas, como era enquanto leitor de jornais e revistas tradicionais, ele transforma-se em alguém que participa muito mais ativamente do processo de constituição e construção da “informação”: seleciona os caminhos por onde irá passear pelas veredas digitais, tem seu percurso particular de acordo com

os links que escolherá clicar e abrir, poderá contribuir ele mesmo com novo conteúdo...

“Vemos o papel do usuário, ou do leitor digital, cada vez mais ativo e interferenet nos conteúdos, nas suas escolhas e na composição de uma diversidade de fontes informativas que possam satisfazer seus desejos. Assim, o controle do fluxo de produção de informações paira no éter do ciberespaço, e a postura de 'fábrica dos desejos'', inerente à concepção liberal, já não tem o controle total do lado da oferta, pendendo muito mais para a demanda.” (SAAD: 2003) De modo que o leitor digital adquire um “novo status” em relação ao leitor tradicional de jornais impressos, já que o hipertexto acaba conferindo-lhe papel ativo, do mesmo modo que muda o status do produtor de informação, que passa a ter que lidar não somente com o fornecimento da informação que esperam dele, mas também com a capacidade de disponibilizar uma grande quantidade de conteúdos e com modo de gerar grande interatividade com seus receptores. Segundo Janet Murray

“...quando os leitores são considerados muito mais como colaboradores do que consumidores, as tarefas de reportar e editar passam da simples transmissão de conteúdos para a função de desenvolvimento e concepção de um quadro informacional. Sob essa perspectiva, o reportar, narrar e editar deverão centrar forças na criação de uma estrutura narrativa que facilite a navegação do usuário por uma diversidade de recursos informativos. Tais recursos incluem, por exemplo, dados não editados ou

aproveitados, documentos e relatórios e outros materiais que ajudem o usuário a construir sua própria leitura da realidade muito mais do que simplesmente ler a representação dessa realidade dada pelo jornalista.” (MURRAY: 1997)

::: ERROS E ACERTOS DOS WEBSITES JORNALÍSTICOS :: Quando analisa o trabalho atualmente realizado pelos sites informativos nacionais e internacionais, Beth Saad diagnostica certos erros comuns a muitos deles quanto à utilização (mau-feita ou simplesmente insuficiente...) da hipermídia. A autora destaca que “o que vemos ainda hoje em sites informativos ativos na web é uma predominância de: muito peso no texto, formatado visualmente numa perspectiva de verticalidade em colunas herdade dos meios impressos; (...) confusão entre quantidade de informações ou notícias (...) em detrimento da qualidade; um distanciamento de preocupações como criação de linguagem, novas narrativas ou até mesmo a remota possibilidade de criação de um novo gênero jornalístico; pouca compreensão do real uso da contextualização, criando uma tendência ao que alguns autores

chamam de linkalism, ou a síndrome da hiperlinkagem...” (SAAD: 2003, pg. 72) Talvez esses sejam problemas de um meio ainda em desenvolvimento, que dá os seus primeiros passos e que irá progressivamente se tornando mais específico e se distinguindo cada vez mais dos meios que o precederam. Como aponta Beth Saad, o webjornalismo ainda permanece aferrado uma visão que lhe foi legada pelo jornalismo impresso – predominância do texto e da apresentação “vertical” da informação, por exemplo. Quanto aos links, a discussão é calorosa quanto aos efeitos benéficos ou maléficos dos mesmos no interior de uma mátéria jornalística. Seria preferível um texto “limpo”, sem conexões diretas com outros conteúdos, que contivesse somente em seu final uma lista de outros sites para o leitor que quisesse se aprofundar no assunto? Essa parece ser a opinião de alguns estudiosos, que consideram que o exagero de links acaba por “dispersar, confundir e vincular o conteúdo informativo ao aspecto comercial e publicitário” (Saad: 2003, p.73). Mas estarão as empresas informativas preparadas para lidar com as modificações no modo de informar e no tipo de participação do público receptor? Beth Saad sugere que esse novo cenário ainda está “em gestação” e que há uma urgente necessidade, por parte das empresas, de se adaptarem o mais rápido possível à nova realidade através de inovações tais como “reutilizar sua própria produção de informação” (pensemos, por exemplo, num jornal que reutiliza em seu website o material que utilizou em sua versão impressa, com modificações ou não), “guardar o que antes se jogava fora” (pensemos na enorme capacidade de armazenamento de informação que o mundo da Web permite, possibilitando, por exemplo, que uma revista torne disponível a seu público em seu “arquivo digital” suas edições anteriores, que antes eram “jogadas fora”, por assim dizer), “a potencializar com recursos tecnológicos o que antes era estático (pensemos na

possibilidade, por exemplo, de transpor uma matéria, que em sua versão impressa tinha apenas texto e fotos, para a Internet, potencializando-a com recursos de vídeo, de música ou de rádio), “compreeender a informação enquanto um conjunto re-organizável de dados, imagens e voz”. (SAAD: 2003) As possibilidades são inúmeras. Se, no jornal impresso, o leitor pode somente ler a declaração de uma certa personalidade, na Internet pode ouvi-lo diretamente. Com o avanço da velocidade na transmissão de dados, que tem tornado cada vez mais velozes os índices de transmissão de brodcasting, logo se tornará possível assistir na íntegra o vídeo sonoro de alguém entrevistado por algum jornal, enquanto que o leitor da versão impressa ficará preso ao velho mundo bidimensional de texto e imagens estáticas.

::: REVOLUÇÃO CORPORATIVA :: Há quem insista que a Internet causou uma revolução completa nas empresas informativas e “quebrou completamente a cadeia de valores das empresas informativas”. Isso é destacado pela empresa de consultoria Forrester Reserach Inc., que, em relatório de 2000, destacou as modificações radicais trazidas pelas novas tecnologias digitais, redutíveis a quatro principais: “os consumidores não pagarão por qualquer conteúdo acessado via internet; os anunciantes cada vez mais estarão em busca de modelos de pagamento de espaço publicitário baseados na performance do site; a audiência será cada vez mais fragmentada e não de massa; a tecnologia facilita o surgimento de criadores de conteúdo individuais, livres de custos e das pesadas estruturas dos 'dinossauros da mídia'”. (SAAD: 2003, p. 97) De fato, gigantescas empresas do ramo da informação têm começado a sentir

o impacto causado pela “concorrência” com criadores de conteúdo individuais. Hoje em dia, uma informação veiculada pela CNN on-line ou por algum grande portal informacional pode ser desmentido ou refutado por imagens, textos, vídeos ou quaisquer outras informações veiculadas por pequenos jornais on-line independentes ou mesmo por blogs jornalísticos. Na ocasião da Segunda Guerra do Iraque, tornou-se célebre a polêmica entre o que diziam os blogs investigativos (e frequentemente anti-americanos) e a cobertura proposta pelas grandes empresas jornalísticas presentes na Internet. Segundo Philip Evans & Thomas Wurster

“liberados da economia das coisas, os jornalistas poderão enviar seu conteúdo por e-mail diretamente para os leitores. Estes, por sua vez, poderão combinar e comparar conteúdos de um número ilimitado de fontes. Também poderão acessar notícias diariamente, ou quantas vezes quiserem no dia, de diferentes serviços noticiosos. Poderão ter à escolha críticas de filmes, sugestões de viagem e receitas diretamente das editoras e dos melhores gatrônomos. Articulistas famosos, chargistas ou o Instituto Nacional de Meteorologia poderão enviar seus conteúdos diretamente a seus assinantes.” (EVANS: 2000)

:: A BITZAÇÃO DA INFORMAÇÃO E A REDEFINIÇÃO DA MÍDIA DE MASSA :: Nicholas Negroponte chama a atenção para uma mudança fundamental, irreversível e veloz que estamos assistindo nas últimas décadas: o que podemos chamar de “bitzação” da informação, para usar um neologismo. Este termo serve

para dar uma idéia do principal fator do processo, que é a mudança de informação baseada em átomos para informação baseada em bits. “O movimento metódico de música gravada através de pedaços de plástico, assim como o lento manuseio humano da maior parte da informação na forma de livros, revistas, jornais e videocassetes, está prestes a se tornar um trâfego instantâneo e pouco custoso de dados eletrônicos que viajam à velocidade da luz. Desta forma, a informação pode se tornar universalmente acessível. (...) A mudança de átomos para bits é irrevocável e impossível de parar.” (NEGROPONTE: 4) O que significa, claro, que grande parte das empresas tradicionais vê-se diante de uma dilema tendo que “migrar”, por assim dizer, de um ambiente analógico para um digital, de um universo onde o importante eram os átomos para outro onde impera o reinado do bit, muitas delas tendo dificuldades para transformarem adequadamente seus conteúdos do modo analógico para o digital, outras não conseguindo ao certo como prestar no mundo da Internet os serviços do mesmo modo e com a mesma eficácia que conseguiam no mundo “concreto”, por assim dizer. Muitas empresas, notando essa rápida transformação dos bits em átomos, decidiram, para usar uma expressão muito feliz de Arthur Sulzberger Jr, “sair do negócio de espalhar tinta sobre árvores mortas e partir para a distribuição digital”. Segundo ele,

“uma das tarefas mais difíceis que vieram com a internet: os jornais devem equilibrar as suas forças tanto no meio analógico quanto no meio digital e perceberem que os dois mercados possuem consumidores com expectativas diferentes. O desafio é

certamente complexo, mas os publishers ainda devem manter suas unidades independentes de new media e as duas áreas devem interagir constantemente.” (SULZBERGER: 2001)

Não serão poucas as empresas tradicionais que acabarão por sucumbir ou ter muito de seu poderio e influência enfraquecidos casam não consigam embarcar de fato na rodovia digital, enquanto empresas antes de pequeno ou médio porte agora têm diante de si a possibilidade de um crescimento rápido, caso consigam adaptarse melhor e com mais criatividade ao universo da Web. “A super-avenida da informação centra-se no movimento global de bits sem-peso à velocidade da luz. Enquanto uma indústria após outro olha-se no espelho e pergunta-se sobre seu futuro num mundo digital, este futuro é dirigido quase 100 por centro pela habilidade dos produtos e serviços desta empresa de serem transformados ou recodificados para a forma digital.” (NEGROPONTE: 1995, p. 12) Atualmente, é claro que grande parte do procedimento de produção de um jornal ou de uma revista é completamente mediado por componentes digitais, de modo que se torna um tanto problemática uma caracterização dicotômica que fosse distinguir entre empresas jornalísticas “analógicas”, de um lado, e “digitais”, de outro. Pois, como bem nota Nicholas Negroponte, quando nós consideramos qualquer empresa jornalística moderna, notamos que a produção das notícias ocorre inteira mediada pelo computador, pela informática ou por outros recursos tecnológicos de suporte digital. “O texto é preparado num computador; as estórias são frequentemente enviadas para dentro da redação, pelos repórteres,

por e-mail (ou fax). As figuras são digitalizadas e frequentemente são transmitidas pelo fio também. O layout das páginas de um jornal moderno é feito com sistemas de design via computador, os quais preparam os dados para transmissão para filme ou direta gravação em placas. Isso equivale a dizer que o processo inteiro de concepção e construção de um jornal é digital, do começo ao fim, até o último degrau, quando um bocado de tinta é lançado sobre árvores mortas. Esse é o degrau onde os bits se tomam átomos” (NEGROPONTE: 1995). A descrição vívida de Negroponte demonstra bem o quando, mesmo nos órgãos da chamada mídia impressa, os bits tomaram o lugar dos átomos e “dominam” grande parte do processo de “gestação” e criação do jornal ou revista. “Agora imagine que o último degrau (ou fase) não ocorra em uma gráfica de impressão, mas sim que os bits sejam entregues a você, leitor, como bits. Você pode preferir imprimi-los em sua casa para que possa aproveitar todas as conveniências de uma HARD COPY (para a qual o uso de papel re-utilizável é recomendado, para que todos nós não necessitemos de uma enorme pilha de papel em branco a ser impresso). Ou talvez você prefira fazer o download deste bits direto para o interior do seu laptot, palmtop, ou até mesmo, algum dia, para o seu “receptor” perfeitamente flexível, totalmente colorido e de alta-resolução, à prova d'água (que acontece de se parecer exatamente com uma folha de papel e cheirar como uma, também, se isso lhe agrada).” (NEGROPONTE: 1995, p. 56) Claro que o autor, neste trecho, faz uma pequena brincadeira com suas profecias ao imaginar o futuro da informação e do consumo do jornalismo. Mas

não deixa de ser algo plausível que imaginemos que realmente surgirão, cada vez mais, diferentes aparelhos, dos mais diversos formatos e estilos, alguns parecendo livros ou revistas, que serão uma espécie de PC em miniatura, conectados à internet, e que estarão programados para fazer download de bits de certas empresas – as editoras do novo mundo digital... - e exibi-las na tela de um modo que poderá, é claro, sinergizar texto, foto, vídeo, aúdio e muito mais. Não é completamente absurdo imaginar um tempo, num futuro não muito distante, em que comprar jornais ou revistas feitos de papel seja algo obsoleto, um costume para entrar nos livros de história como uma curiosidade de tempos idos, e que a humanidade do futuro vá lidar com a informação sempre através de uma interface gráfica que transmuda bits em mensagens visuais.

“A mídia de massa será redefinida por sistemas para a transmissão e o recebimento de informação e entretenimento personalizado. As escolas irão se transformar para se tornar mais como museus ou playgrounds para que as crianças reunam idéias e socializem com crianças ao redor do mundo. O planeta digital vai parecer a cabeça de um alfinete. Enquanto vamos progressivamente nos interconectando uns aos outros, muitos dos valores de uma naçãoestado cederão lugar para aqueles de tanto maiores quanto menores comunidades eletrôncias. Nós iremos sociabilizar em “redondezas digitais” (digital neighborhoods) nas quais o espaço física será irrelevante e o tempo irá jogar um papel diverso.” (NEGROPONTE: 1995, p. 6-7)

::: O FIM DO ESCRITO? :: Uma suspeita que alguns podem ter diz respeito à possibilidade do “fim do

escrito”, ou ao menos das forças tradicionais do texto escrito e impresso que conhecemos... Com a fusão de várias mídias em uma só, nesta salada de frutas da Internet em que se mistura texto, imagens, vídeos, sons, animações e anúncios, estará condenada ao nada a forma tradicional de apresentação de um texto? Ou será isso ser apocalíptico demais? Pierre Lévy filosofa:

“A multiplicação das telas anuncia o fim do escrito, como dão a entender certos profetas da desgraça? Essa idéia é muito provavelmente errônea. Certamente o texto digitalizado, fluido, reconfigurável à vontade, que se organiza de um modo não linear, que circula no interior de redes locais ou mundiais das quais cada participante é um autor e um editor potencial, esse texto diferencia-se do impresso clássico. Mas convém não confundir o texto nem com o modo de difusão unilateral que é a imprensa, nem com o suporte estático que é o papel, nem com uma estrutura linear e fechada das mensagens. A cultura do texto, com o que ela implica de diferido na expressão, de distância crítica na interpretação e de remissões cerradas no interior de um universo semântico de intertextualidade é, ao contrário, levada a um imenso desenvolvimento no novo espaço de comunicação das redes digitais. Longe de aniquilar o texto, a virtualização parece fazê-lo coincidir com sua essência subitamente desvelada. Como se a virtualização contemporânea realizasse o devir do texto. Enfim, como se saíssemos de uma era pré-histórica e a aventura do texto começasse realmente. Como se acabássemos de inventar a escrita.” (50) As relações entre produtores e consumidores se modificam de modo também radical, já que

“o ciberespaço abre de fato um mercado novo, só que se trata menos de uma onda de consumo por vir que da emergência de um espaço de transação qualitativamente diferente, no qual os papéis respectivos dos consumidores, dos produtores e dos intermediários se transformam profundamente.” (62)

Como se sabe, Pierre Lévy via com muito otimismo a perspectiva da criação de uma certa “inteligência coletiva” através do desenvolvimento das tecnologias de informática e comunicação, de certo modo prolongando as boas profecias que fazia o também otimista Marshall McLuhan. Segundo Lévy,

“o desenvolvimento da comunicação assistida por computador e das redes digitais planetárias aparece como a realização de um projeto mais ou menos bem formulado, o da constituição deliberada de novas formas de inteligência coletiva, mais flexíveis, mais democráticas, fundadas na reciprocidade e o respeito das singularidades. Neste sentido, poder-se-ia definir a inteligência coletiva como uma inteligência distribuída em toda parte, continuamente valorizada e sinergizada em tempo real.” (LÉVY: 96) Pode ser que um otimismo tão grande se preste ao escárnio de alguns, mas poucos negariam o fato de que a Internet permite a criação de conteúdos através de várias mãos e vários cérebros, dispersos no espaço e separados no tempo, de modo que tem todo sentido do mundo falar em uma “inteligência coletiva”, distribuída em toda parte, que produz (e não pára nunca de produzir) novos conteúdos. Pensemos em qualquer website jornalístico exclusivamente virtual e no modo como há a possibilidade de que as matérias ali veiculadas tenham sido produzidas nos

mais diversos estados da nação, ou mesmo no exterior, juntando-se ali naquele espaço da Web.

“Tanto quanto a pesquisa utilitária de informação, é essa sensação vertiginosa de mergulhar no cérebro comum e dele participar que explica o entusiasmo pela Internet. Navegar no ciberespaço equivale a passear um olhar consciente sobre a interioridade caótica, o ronronar incansável, as banais futilidades e as fulgurações planetárias da inteligência coletiva. O acesso ao processo intelectual do todo informa o de cada parte, indivíduo ou grupo, e alimenta em troca o do conjunto. Passa-se então da inteligência coletiva ao coletivo inteligente. Apesar de numerosos aspectos negativos, e em particular o risco de deixar no acostamento da auto-estrada uma parte desqualificada da humanidade, o ciberespaço manifesta propriedades novas, que fazem dele um precioso instrumento de coordenação não hierárquica, de sinmergização rápida das inteligências, de troca de conhecimentos, de navegação nos saberes e de autocriação deliberada de coletivos inteligentes.” (117)

:: CONSIDERAÇÕES FINAIS ::

A chegada massiva dos computadores pessoais e da Internet em nossas sociedades e vidas pessoais transformou radicalmente o cenário coletivo e individual, tendo causado consequências irreversíveis no ramo da informação, um dos mais afetados pelas novas tecnologias e meios de comunicação. Observamos a veloz transformação e reestrututração das empresas responsáveis pela produção de

conteúdos jornalísticos em sua tentativa de adaptação à nova realidade – sendo que o jornalismo vem mudando de cara, por assim dizer, mas sem perder suas características marcantes nem seus valores tradicionais. Como mostramos neste trabalho, o webjornalismo é uma invenção relativamente recente, já que só a partir de meados dos anos 90 é que os primeiros experimentos sérios neste ramo foram realizados pela Agência Estado e pelo Grupo Folha, entre outras empresas, e após muitos erros e percalçoso jornalismo da Web foi mudando e evoluindo a fim de aproveitar de modo otimizado todo o campo de possibildiades aberto a ele. As características principais que definem esta nova era – o grande imediatismo, o papel fundamental da virtualidade, o decréscimo da relevância do espaço físico, a desterritorialização da informação, a transformação de átomos em bits, a interatividade e o papel mais ativo do receptor... - tornam o webjornalismo um campo repleto de potencialidades interessantes a serem desvendadas e exploradas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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