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A DISCIPLINA DA NATUREZA E A NATUREZA DAS
DISCIPLINAS
LENOIR, Timothy. Instituindo a ciência: a produção cultural das disciplinas científicas. São Leopoldo:
Editora Unisinos, 2004. (p. 62-98).

A falta de unidade na ciência é figura proeminente nas discussões que emergem de
estudos da prática científica local. Estimuladas em grande parte por desafios a explicações da
ciência dominadas pela teoria, propostas de um retrato heterogêneo e mais fragmentado, em
que experimento e tradições de instrumentação possuam vidas próprias independentes da mão
orientadora da alta teoria, têm definido a agenda de pesquisa de estudos da ciência recentes 1.
Em contraste com as antigas abordagens dominadas pela teoria, em que modelos de
explicação científica para uma ciência já feita eram debatidos, os estudos mais recentes têm
focado os sítios de produção de conhecimento – o laboratório e o campo agonístico da
controvérsia científica – e enfatizado o caráter negociado da ciência em formação e o caráter
sobrecarregado de instrumentação e prática da tecnociência moderna 2. Ao passo que obras
mais antigas tendiam a desenfatizar o trabalho envolvido na criação da instrumentação e na
estabilização e reprodução da experimentação, obras mais recentes têm insistido em que os
objetos da investigação científica são construídos e estabilizados por meio de instrumentos, um
processo de disciplinar a natureza 3. De fato, vários estudos têm mostrado que instrumentos
projetados para investigar um fenômeno particular são freqüentemente uma corporificação do
objeto mesmo que está em estudo, a tecnologia experimental servindo como um modelo para o
fenômeno natural. Um gênero intimamente relacionado de estudos recentes tem enfatizado
que a compreensão do contexto de evidência, as convenções e os critérios socialmente
negociados para chegar a um acordo local sobre o resultado dos experimentos, sobre as
condições técnicas e de desempenho para repetir o experimento, sobre o que constitui um
desempenho competente e sobre os padrões de confiança e avaliação4. Uma conseqüência
maior dessas linhas de pesquisa tem sido pôr em primeiro plano a heterogeneidade da ciência,
a divisão de tarefas, bem como a distribuição diferencial e a dispersão de habilidades
essenciais ao trabalho científico. Defensores de um modelo de aculturação têm enfatizado as
economias e habilidades, de elementos que dizem respeito a atitudes e de valores que devem
acompanhar os elementos formais de matemática, teoria física e os princípios de engenharia
no trabalho científico5. Teóricos não menos do que experimentadores são retratados como
raciocinadores práticos. Assim como estudos de laboratório têm documentado a reunião de

1 Ver lan Hacking, Representing and Intervening: Introductory Topics in the Philosophy of Natural Science
(Cambridge: Cambridge University Press, 1983); Nancy Cartwright, Pen the Laws of Physics Lie (Oxford:
Oxford Universily Press, 1983); Allan Franklin, The Neglect of Experiment (O abandono da
experimentação) (Cambridge: Cambridge University Press, 1986); e Peter Galison, How Experiments End
(Chicago: University of Chicago Press, 1987).
2 Ver Bruno Latour e Steve Woolgar, Laboratory Life: The Construction of Scientific f'acts (Princeton, N. J.:
Princeton University Press, 1986); M. J. S. Rodwick, The Great Devonian Controversy: The Shaping of
Scientific Knowledge Among Gentlemanly Specialists (A grande controvérsia devoniana: a formação do
conhecimento científico entre nobres especialistas) (Chicago: University of Chicago Press, 1985); Steven
Shapin e Simon Schaffer, Leviathan and the Air Pump: Hobbes, Boyle and the Experimental Life
(Princeton, N. J.: Princeton Universty Press, 1985).
3 Além dos trabalhos citados acima, ver Timothy Lenoir, "Models and Instruments in the Development of
Electrophysiology, 1845-1912', Historical Studies in the Physical and Biological Sciences 17, n. 1 (1986):154; idem, "Helmholtz and the Materialities of Comunicaction, Osiris 9 (1994):183-207; M. Norton Wise,
"Mediating Machines" (Máquinas de mediação), Science in Context 2, n. 1 (1988): 77-114; Simon Shaffer,
"Glass Works: Newton's Prisms and the Uses of Experiment" (Trabalhos com vidros: os prismas de
Newton e os usos da experimentação), em The Uses of Experiment: Studies in the Natural Sciences (Os
usos da experimentação: estudos sobre as ciências naturais), ed, David Gooding, T, J. Pinch e Simon
Shaffer (Cambridge: Cambridge University Press, 1989), pp, 67-104; Crosbie Smith e M. Norton Wise,
Energy and Empire: A Biographical Study of Lord Kelvin (Cambridge: Cambridge University Press, 1989);
ed. David Gooding. The Making of Meaning (A construção do significado) (Dordrecht: Martinus Nijhoff,
1989).
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tida como garantida em explicações dominadas pela teoria. ao fundar especialidades e habilidades. quero evitar a alegação (para mim. Elas são também instrumentos para distribuir status. Uma das conseqüências desses estudos é que a tranqüila integração dos diferentes aspectos da ciência. nos manuais e livros didáticos. entrelaçadas com outros elementos diversos e reproduzidas como conjuntos coerentes. sem sentido) de que a natureza é simplesmente uma fabricação inventada. antes de qualquer coisa. que chamamos de ciência e de tecnologia. semelhantes a habilidades. Disciplinas são estruturas dinâmicas para compor. é. acima de tudo. canalizar e repetir as práticas sociais e técnicas essenciais ao funcionamento da economia política e do sistema de relações de poder que a realiza. Não menos premente é a necessidade de uma investida à maneira como os contextos são multiplicados. nas sociedades profissionais. Ao mesmo tempo. de acordo com 6 7 8 9 . ao mesmo tempo em que evita o relativismo radical e o antirrealismo que muitos consideram perturbador em alguns dos trabalhos mais antigos em estudos sociais da ciência. uma preocupação com os corpos – corpos humanos. em matemática e em ferramentas teóricas mais específicas. As disciplinas são a infra-estrutura da ciência corporificada. o cuidado com ela não é apenas uma preocupação com as instituições e a profissionalização. as disciplinas são estruturas políticas que de forma crucial fazem a mediação entre a economia política e a produção do conhecimento. Cada sociedade. estabelecendo problemas e definindo ferramentas para abordá-las. Uma tal definição está de acordo com esforços para tratar o conhecimento como uma construção social. Ao mesmo tempo. A ênfase sobre a aculturação. geradas pela falta de unidade da ciência. Disciplinas são formações institucionalizadas para organizar esquemas de percepção. a disciplina ajuda a estruturar as relações dos cientistas com contextos particulares institucionais e econômicos. Dentro dessa complexidade de controvérsias. além disso. a disciplina estabelece limites e demarca hierarquias entre especialistas e amadores. e que esses conjuntos de habilidades podem ser inteiramente locais em sua especificidade.2 habilidades não-articuladas. junto com a competência para manipular tanto instrumentos simples quanto complexos. apropriados para a condução de uma prática científica estável mais globalmente. de modo a explicar a capacidade surpreendente da ciência para captar supostos aspectos universais do mundo 7. o caráter sobrecarregado de prática e instrumentação do trabalho científico e a estrutura heterogênea e desunificada da ciência têm deixado os estudos desta à procura de uma explicação da maneira como o trabalho dos teóricos. Como Charles Rosenberg tem apontado. Além disso. funcionam precisamente porque estão engastados em nossas práticas e estabilizados em nossas tecnologias para produzir verdade. nos departamentos universitários. Enquanto trato a tecnociência como socialmente construída. em que é feita uma analogia entre a coordenação de diversas comunidades de praticantes e a formação de dialetos entre comunidades de linguagens diferentes. como tanto Michel Foucault quanto Pierre Bourdieu tem insistido. exigidas para a execução do trabalho teórico. a disciplina premia realizações intelectuais 8. Um realismo mais pragmaticamente orientado emerge da consideração de que os produtos dos sistemas sociotécnicos. na quantidade de operadores práticos corporificados. pois. O trabalho de Galison sobre as zonas de comércio. é o exemplo primeiro dos esforços contemporâneos para atacar esse problema6. também estudos recentes têm mostrado que o trabalho de um teórico depende de forma crucial do desenvolvimento e da manutenção de uma bateria de competências praticadas. As disciplinas são os mecanismos institucionais para regular as relações de mercado entre consumidores e produtores de conhecimento. e habilidades de cálculo necessárias para o trabalho de laboratório. as disciplinas são as estruturas em que essas habilidades são reunidas. a identidade disciplinar forma a identidade vocacional de um investigador. dos experimentadores e dos técnicos é coordenado localmente. tem se tornado ela mesma um objeto de investigação. a disciplina emerge como um sítio crucial. assim como laboratórios e espaços de aprendizagem são essenciais para organizar e reforçar as economias de habilidade necessárias para conduzir a ciência localmente. não-verbais. apreciação e ação. bem como para inculcá-Ios como ferramentas de cognição e comunicação9.

14 É com esse aspecto de controle e policiamento. de estruturas de conhecimento e de modos de prática. 93. 245. que nesse período elas vieram a ser configuradas juntas. as relações de poder estão engastadas nas (isto é. A relevância do conceito de Foucault para a discussão do conteúdo de verdade do conhecimento disciplinar e da relação do conhecimento disciplinar com o sistema das relações de poder reside em sua insistência de que o poder deve estar baseado na verdade. mas uma fonte construtiva... 13 Ibid. e essas relações de poder não podem elas mesmas ser estabelecidas. está baseada em um regime de verdade. Ele a define como "um sistema de procedimentos ordenados para a produção.. a noção de que esse poder não é uma força negativa que pesa sobre nós. tenta captar as conexões que emergiram no século XIX entre afirmações a respeito de uma anatomia patológica. A idéia da medicina clínica como uma formação discursiva. assim. as disciplinas são estruturas essenciais para sistematizar. a acumulação. 119. antes. Dito de outra forma. mas basicamente em qualquer sociedade. do método estatístico etc. ao passo 10 11 Ibid. o poder é a fonte da verdade. muito mais do que uma instância negativa cuja função é reprimir” 12. 14 Ibid. as relações de poder são imediatamente coextensivas com as condições das relações sociais em geral e estão engastadas nas regras para a produção da verdade e do conhecimento. A alegação não é que afirmações como essas não poderiam ter sido. os mecanismos e instâncias que permitem a alguém distinguir afirmações verdadeiras e falsas e os meios pelos quais cada uma delas é sancionada. . organizar e incorporar as práticas sociais e institucionais das quais dependem tanto o discurso coerente quanto o exercício legítimo do poder. Se minha interpretação está correta. que "atravessa e produz coisas. mas estão também amarrados por regulações reforçadas mediante práticas sociais de apropriação. Não pode haver exercício algum de poder sem uma certa economia de discursos de verdade. Considerado. p. ou não foram. para minha interpretação social construtivista. dito de outra forma. não pode existir sem a produção de verdade. É crucial. p. por exemplo. Cito Foucault: Em uma sociedade como a nossa. a circulação e o funcionamento de um discurso. controle e policiamento. mas. consolidadas nem implementadas sem a produção. Os discursos não apenas exibem princípios imanentes de regularidade. p. autópsias. que opera através e sobre a base dessa associação. 131. socialmente independente. e o estatuto daqueles que são encarregados de dizer o que conta como verdade 11. ao descrever a ciência. de tecidos. percussões. Estamos submetidos à produção de verdade por meio do poder e não podemos exercer o poder exceto mediante a produção de verdade13. como uma força positiva de coesão do corpo social. lesões. O discurso é uma mercadoria política. mas antes por meio da internalização de padrões de discurso. o poder genuíno. existem múltiplas relações de poder que permeiam. Campos de discurso e as práticas em que estão engastados são os meios pelos quais as relações de poder são ativadas e exercidas. circulação e manejo de afirmações” 10. regulação. É central. que quero relacionar a presente discussão da disciplina. 12 Ibid. de uma anatomia comparativa. distribuição. do hospital. da higiene. não em um sentido externo ou repressivo. auscultações. Por regime de verdade Foucault tem em mente o corpo de práticas e os tipos de discurso que uma sociedade aceita e faz funcionar como verdadeiros. É preciso considerá-Io uma rede produtiva que corre através de todo o corpo social. Tal formação capta o sentido de heterogeneidade que enfatizei acima..3 Foucault. p.. Na concepção de Foucault. A concepção de disciplina que quero desenvolver se integra à noção de Foucault de uma formação discursiva. anamneses. a insistência ulterior de Foucault em que a verdade não deve ser considerada uma realidade objetiva. que não recorre à repressão. as técnicas e procedimentos a que se dá valor na aquisição de verdade. são ativadas pelas e exercidas mediante as) regras de formação de discursos. caracterizam e constituem o corpo social. Colin Gordon escreve o seguinte: As regras para a formação de discursos estão vinculadas à operação de um tipo particular de poder social. para essa concepção da relação do poder com o conhecimento. Ao comentar sobre esse aspecto do trabalho de Foucault.. proferidas previamente.

elas exigem o posicionamento de campos adjacentes para o seu significado. matemática (na forma bem geral de uma ciência da ordem). A formação discursiva é. o discurso da ótica fisiológica foi estabilizado pela exploração de técnicas e práticas de astronomia e pela configuração com discursos nos campos da estética e da pintura. O significado é constituído dentro de um espaço complexo de justaposições. humores. tomados juntos. conectados não por uma lógica imanente ou por um desdobramento histórico progressivo. por exemplo. outras afirmações. Além disso. bem como com discussões políticas sobre o que era denominado de política do interesse material. Foucault alega como sua preocupação. assim. O caráter disperso. não é pela referência a algum objeto anterior à formação discursiva que afirmações adquirem seu significado. Uma tarefa que consiste em não – em não mais – tratar tais discursos como grupos de signos (elementos significantes que se referem a conteúdos ou representações). que motivam uma formulação e determinam seu significado 18. história da terra. Foucault nota que um dos elementos cruciais para estabilizar afirmações é o que ele chama de concomitância. Em primeiro lugar. a coexistência e o agrupamento de afirmações são cruciais para a formação discursiva. dizendo respeito. o uso de conceitos em um domínio como modelos em outro: Assim. isto é. mas como práticas que sistematicamente formam os objetos de que elas falam15. Foucault observa a importância desses recursos para a confirmação analógica de uma afirmação. filosofia. é uma relação topológica: Já que essa não é uma relação adicional que é superimposta sobre as outras. para Foucault. isto é. faculdades e coisas semelhantes. semelhante a uma rede. o campo de concomitância da História Natural do período de Linnaeus e Buffon é definido por um número de relações envolvendo cosmologia. Estas margens não são o que usualmente se quer dizer por "contexto" – real ou verbal –. domínios limítrofes e campos associados. durante as décadas de 1850 e 1860. a configuração de afirmações a partir de domínios inteiramente diferentes a diferentes tipos de discurso – tais como os discursos da medicina e da economia política. teologia. escritura e exegese bíblica. a miasmas. os significados das afirmações – e. argumentarei. simultaneamente. que nos Estados alemães. substituir o enigmático tesouro de "coisas" anteriores ao discurso pela formação regular de objetos que emergem somente nos discursos. A configuração. em um capítulo posterior. mas genealogicamente. uniões alfandegárias e telégrafos. os objetos tornados possíveis dentro de uma formação discursiva – não são construídos isolados de outras afirmações 16. elas nos lembram que é 15 16 17 18 19 20 . Uma afirmação tem sempre margens povoadas por outras afirmações. antes do que pela exigência de uma reforma constitucional parlamentar20.4 que. De maneira similar. Nos termos de Foucault. uma preocupação em transformar realidades políticas mediante a construção de ferrovias. todos os elementos situacionais ou lingüísticos. Afirmações não têm significado por referência a um campo anterior de objetos ou por uma relação com o assunto.. As idéias de regime de verdade e formação discursiva fornecem recursos úteis para compor a análise do problema das disciplinas. um sistema de regularidade historicamente condicionado para a coexistência de afirmações. ninguém pode dizer uma sentença. dessa forma.. e todas essas relações o distinguem tanto do discurso dos naturalistas do século XVI quanto daquele dos biólogos do século XIX19. por séries de contingências históricas relacionadas por uma constância de uso17. Objetos e conceitos são co-produzidos no discurso. O significado. era m excluídas dos discursos dos médicos. a menos que um espaço colateral seja introduzido na operação. das formações discursivas é responsável pela construção de sentido e de objetos mediante a estabilização em uma rede mais ampla de elementos heterogêneos. ninguém pode transformá-la em uma afirmação.

exigidas para a criação de uma disciplina. implica que o desdobramento teleológico de uma idéia central ou que os esforços persistentes de pesquisadores singulares e mesmo de grupos singulares de pesquisadores no mesmo campo são insuficientes para fundar disciplinas. construtores de disciplinas. Além disso. por exemplo.5 preciso evitar tratar os conteúdos do conhecimento independentemente das suas formas institucionalizadas. Comum às duas abordagens são os mitos fundadores. ocorre por meio de seu posicionamento no contexto mais amplo de uma economia das práticas. A necessidade de abordar o problema da formação de disciplinas no que diz respeito a uma economia da prática torna-se aparente se consideramos a mais importante implicação da insistência de Foucault no caráter disperso das formações discursivas: ninguém cria disciplinas. empreendedores e administradores da ciência são cruciais para o estabelecimento das disciplinas. mas poderosamente. Para tais estudos. Moldadas por uma concepção da ciência dominada pela teoria. Operando em silêncio. a saber: a metáfora da mão invisível do mercado ajustando relações entre produtores e consumidores das ferramentas de produção de conhecimento e os esquemas de ação. por meio da formação de zonas de comércio – ao mesmo tempo em que estabelecem as condições para reforçar. 21 22 . essas noções dão suporte à imagem da ciência desunificada. Ele o trata como um caso especial do campo cultural. como um. A concepção de Bourdieu do campo científico pode nos ajudar a examinar relações dinâmicas na formação de disciplinas. nos lembram que problemas de produção de conhecimento e da determinação de conteúdo já estão investidos de interesse político e controle social21. na maioria das vezes. junto com a heterogeneidade e a dispersão de elementos entrelaçados em formações discursivas. diversas. o problema é que disciplinas não têm fontes originárias singulares. dependente mais da alocação de recursos do que do seu conteúdo cognitivo. ao engastá-Ia em uma rede dispersa e heterogênea de condições limitantes de justaposição. Disciplina e a dinâmica do campo científico Enquanto a análise de Foucault das formações discursivas fornece o aparato apropriado para conceitualizar às disciplinas. interação e coexistência de práticas discursivas. na qual pequenas áreas locais de coerência têm de ser laboriosamente produzidas – por exemplo. um caso relevante seria exemplificado pelos constantes esforços de Warren Weaver para usar o dinheiro da Fundação Rockefeller para custear seu sonho de criar uma biologia molecular22. as discussões anteriores sobre as disciplinas científicas dividiram-se entre explicações internalistas e externalistas. de um programa de pesquisa ou do trabalho de uma escola de pesquisa.. excedem o poder dos indivíduos para pô-Ias em prática e orquestrá-Ias. As ligações multidimensionais e as exclusões de e entre diferentes práticas discursivas. A disciplina é crucial para organizar e estabilizar essa heterogeneidade. mas são mais apropriadamente compreendidas como efeitos de sistemas interativos. A dificuldade com narrativas fundadoras não é então simplesmente a complexidade da tarefa de construir disciplinas. as disciplinas como os produtos de teorias científicas particularmente importantes. ela é o que faz a ciência desunificada funcionar. A contingência da abordagem genealógica que esbocei acima. entretanto. bem como o trabalho sobre o modelo de dupla hélice do DNA são candidatos a fundadores da biologia molecular. além disso. resultando da investigação de uma notável descoberta.. apreciação e percepção necessários para adaptá-Ios à economia política. A idéia de uma economia capta melhor esse tipo de dinâmica. A disciplina é central à micropolítica da produção de conhecimento. o Phage Group. Watson e Crick. Dito de outra forma: a estabilização de práticas locais numerosas. A consideração das disciplinas como mediadoras para economias de práticas sugere um caminho alternativo. estabilizar e reproduzir localmente aquela coerência local mais amplamente. pais). Explicações internalistas trataram. sua abordagem arqueológica não ilumina o processo de formação dessas. que dão destaque seja a teorias fundadoras seja a pessoas fundadoras (usualmente. Em contraste com essas abordagens estão os estudos que tratam a dinâmica disciplinar e institucional geralmente como política em seu caráter.

Latour tem argumentado que. instrumentos e um quadro administrativo – a maquinaria heterogênea de uma microeconomia local de práticas –. dito de outra forma. Essa definição enfatiza o caráter negociado da produção de objetos científicos. empacotados e destilados na ala de ensino da ciência. engajar-se em tornar o mundo fora das paredes do laboratório suscetível ao regime de dentro desse laboratório: os testes de vacina de Pasteur tornaram-se vitoriosos pela transformação da fazenda em um posto de observação no campo25. De fato. a maioria das pesquisas novas. Seus esforços para disciplinar o mundo fora do seu laboratório foram inseparáveis dos seus esforços para obter reconhecimento. além disso. Cientistas na frente de pesquisa não percebem sua meta como expandir uma disciplina. inteiramente diferentes. Uma tentação é tratar as disciplinas como se fossem resultados adquiridos da atividade de pesquisa. Embora Pasteur tenha perseguido ambas as atividades.. A abordagem é. ele mesmo reconversível em comando sobre recursos para a produção de mais bens científicos. não são idênticos. técnicas. por outro lado. definem seus objetos em um campo agorístico – um termo que capta o sentido econômico de troca negociada. alguns usam o poder organizacional do seu próprio trabalho científico como um recurso ideológico para dominar o campo científico. a maioria dos cientistas diria que trabalha sobre problemas. a 23 24 25 . definida inseparavelmente como capacidade técnica e poder social. Embora eu concorde inteiramente com a meta de não separar o que acontece dentro do que acontece fora do laboratório. A luta política para dominar recursos é inseparável do empreendimento cognitivo de definir o que constitui a ciência legítima e autorizada. em última instância. para alcançar a meta de forçar o reconhecimento dos seus produtos. de construção de uma disciplina. por exemplo – devotaram suas carreiras quase exclusivamente à construção de disciplinas. distinguir a labuta e as lutas políticas envolvidas no trabalho de pesquisa da política e do trabalho. O crédito. o monopólio sobre a competência científica no sentido da capacidade reconhecida socialmente de um agente particular para falar e agir legitimamente (i. em contrapartida. acho útil. de um modo autorizado e com autoridade) em matérias científicas 23. cujo caso será discutido mais adiante. os cientistas devem.6 (. uma estratégia reducionista de legitimação que busca impor uma definição de ciência. por parte de outros cientistas. particularmente na ciência contemporânea. em que a disputa específica em jogo é o monopólio da autoridade científica. Ao lutar para ganhar reconhecimento por seus produtos. que. das suas alegações a respeito de micróbios. que é simultaneamente política e técnica: o fato óbvio de que levar adiante um programa investigativo exige a reunião de uma variedade de pessoas cientificamente treinadas. usualmente empregado – de alegação.é. mas como ajuda mútua. definida anteriormente ao próprio discurso. mas explora o trabalho de diversas disciplinas. não como causa e efeito. os cientistas estão engajados em legitimar o seu poder para definir domínios do campo científico em que eles têm interesses24. devemos também levar em conta que alguns cientistas – Walter Fletcher. Esta definição elimina a distinção entre interno e externo. os quais eles só podem adquirir ao exibir competência na produção de bens científicos.. não está confinada dentro do escopo de uma única disciplina. Dentro do espectro dos auto proclamados construtores de disciplinas. Bruno Latour. útil ao captar o sabor da tecnociência contemporânea. o sentido em que cientistas. Para ajustar ambos os sentidos sugiro que o trabalho na frente de pesquisa e na formação disciplinar seja tratado como inter-relacionado. tudo prova da competência de uma organização para produzir mais bens científicos. adverte contra a se traçar uma distinção entre pesquisa e trabalho disciplinar do tipo que estou propondo aqui. é a base para a autoridade e a acumulação de capital cultural. Se questionados. que liga partes do campo melhor do que o termo agonístico. como mostram os exemplos a ser discutidos mais adiante.) local de luta competitiva. Casos ilustrativos são a síntese evolucionária. ainda assim. contra-alegação e luta de um com outro antes do que mediante um relacionamento com um objeto transcendental ou meta investigativa. Isso tem a conseqüência indesejada de fundir o que ocorre no sítio de pesquisa com a atividade disciplinar. começando com uma base de competência adquirida e capital conquistado mediante lutas prévias. Quase ninguém pensa em si mesmo como trabalhando sobre uma disciplina. ao tratar os cientistas como indivíduos lutando uns com os outros pela distribuição de créditos. ou.

Construtores de disciplina como William Whewell. tenta arranjar elementos do campo científico como um meio para definir a sociedade. a fim de legitimar sua ciência. modelos. Ambos os tipos de atividades – pesquisa e construção de disciplinas – podem ser ajustados à noção de Bourdieu do campo científico. considero útil. mas não precisam surgir diretamente dela nem estar a ela conectadas para sempre. de sua incorporação no próprio trabalho e de sua superação 29. sublinhada acima. eram figuras políticas poderosas e não apenas dentro da política acadêmica. que é o que mais me interessa aqui. ao discutir a formação de disciplinas. definem suas metas como indo ao encontro das necessidades da sociedade por meio da organização e coordenação apropriada do trabalho científico. Embora ambos operem no que diz respeito à mesma dinâmica do campo científico. cujas concepções sobre as artes e a estética eram levadas a sério. eles são orientados diferentemente no que diz respeito a seus objetivos. em que o reconhecimento de competência e autoridade não pode ser forçado sem o escrutínio de outros produtores competidores. essa ciência não funcionou sem administradores 31. Este campo distingue-se de outros campos da atividade cultural pelo fato de que nele os competidores de alguém são também os consumidores primeiros do seu produto. A dinâmica do campo induz a um ambiente mais complexo. juntamente com os modos de competição específicos ao campo científico. créditos ulteriores podem ser adquiridos. O caráter carregado de prática e instrumentação e a heterogeneidade da tecnociência. Enquanto o ingresso em uma posição de autoridade nesse campo científico é dependente do crédito obtido por meio ele lutas bem-sucedidas para produzir tecnociência. diretores dos mais proeminentes institutos de pesquisa científica e ensino na Alemanha. em sua preocupação com a organização do treinamento em matemática e em física. por outros pesquisadores30. A habilidade organizacional e administrativa necessária para compor e manter tais instrumentos produtivos geradores de crédito pode ela mesma se tornar um recurso para adquirir autoridade e demarcar uma posição no campo científico. tornam a combinação de habilidades e de uma perspicácia organizacionais particularmente central ao funcionamento do campo científico. O conjunto de técnicas.7 genética médica ou (na metade do século XIX) a fisiologia reducionista26. 26 27 28 Os tipos de atividade socialmente reconhecidos como bens científicos não podem ser prescritos de antemão e variam localmente com a configuração de domínios de ciência no que diz respeito a domínios dentro de outros campos de produção cultural. mediante o uso. tais como trabalho administrativo ou a construção de instituições. Assim. além do trabalho teórico ou da pesquisa de laboratório que resultam em publicação. 29 30 31 . No campo científico. desde o início de sua profissionalização no século XIX. Um outro tipo de construtor de disciplina. como instituição situada em universidades e burocracias estatais. o crédito decorre da apropriação simbólica do trabalho dos outros. na segunda metade do século XIX. mediante outras atividades institucionalmente orientadas. teorias e sua materialização em sistemas experimentais produtivos tornam-se uma caixa preta que é estabilizada pela sua incorporação. muitos outros tipos de atividades podem ser valorizados como bens científicos. refletida no Tripos27 de Matemática de Cambridge. Pesquisadores como Pasteur algumas vezes são forçados a manobrar a sociedade valendo-se de uma preocupação com a disciplina. construtores de disciplinas tentam construir a ciência para legitimar sua concepção da sociedade. instrumentos. existe o ponto óbvio de que. Por exemplo. Assim. distinguir entre programas de pesquisa e programas disciplinares. heterogêneo. depois da conquista do nível de ingresso. Cientistas de prestígio como Emil Du Bois-Reymond e Ernst Brücke eram respeitados como portadores de cultura. mediante a observação de que a autoridade e a credibilidade são atribuídas por competências socialmente reconhecidas diferentes das competências técnicas associadas com o laboratório ou o trabalho teórico e a publicação28. dependendo da configuração do mercado. na sua preocupação em assentar a biologia em fundações físicas. Além das exigências de recursos para conduzir a ciência. que são certamente dependentes da pesquisa corrente. habilidades. Programas disciplinares são fundamentalmente institucionais em sua orientação. Laboratórios e outros estabelecimentos institucionais em que esses conjuntos ocorrem se tornam eles mesmos instrumentos para gerar crédito. ou Warren Weaver. tais como Rudolf Virchow e Ernst Haeckel.

estudos da visão forneceram recursos para várias disciplinas sem ser eles mesmos a ala de pesquisa de nenhuma disciplina particular. psicólogos e oftalmologistas contribuíram. Construtores de disciplinas exploram programas de pesquisa como recursos políticos para conquistar certas metas institucionais. Em meus termos. quando relevante. facilitar ligações com outras disciplinas e permitir a transmissão de técnicas e ferramentas conceituais do campo científico a grupos (potencialmente múltiplos) de usuários de disciplinas vizinhas e a pessoas em treinamento para tipos particulares de carreiras. torna-se claro que as disciplinas não são necessariamente as histórias de sucesso de teorias ou programas de pesquisa particularmente poderosos. Uma vez que isso é entendido. as condições para o sucesso de um programa disciplinar residem apenas parcialmente nos recursos de sua base de pesquisa. aspectos do trabalho em pesquisa da visão. Ainda assim. Programas de pesquisa bem-sucedidos não se traduzem em programas disciplinares bem-sucedidos. Turner mostra. mediante seu esforço para dominar os ciclos de crédito e os recursos disponíveis para estender e legitimar produtos de sua pesquisa.8 estão mais preocupados em estabelecer atribuições. um consenso sobre questões teóricas se formou ao redor do trabalho desses dois líderes no campo ao final dos anos 1860. foram assimilados por praticantes da disciplina da oftalmologia. e as condições de sucesso dependem de condições do mercado. que não estão causalmente relacionadas com a visão ou o sucesso intelectual do programa de pesquisa. um conteúdo cognitivo superior e um consenso a respeito de questões teóricas centrais – mesmo quando existem – não são de forma alguma condições suficientes para criar uma nova disciplina. embora campos de pesquisa se formem ao redor de questões cognitivas. seu programa disciplinar falhou. um programa disciplinar deve incorporar uma visão teórica suficientemente ampla. por exemplo. chegando a abarcar setenta áreas diferentes ao final do século. O consenso cognitivo serviu como a base de um esforço de pesquisa expansivo. para o qual físicos. os programas de pesquisa. Embora não menos políticos em caráter. são caracterizados menos por sua preocupação em organizar a sociedade do que por seu foco orientado a problemas. Assim. na verdade. nem a formação de consenso cognitivo sobre questões teóricas fundamentais. outros aspectos dos estudos da visão foram assimilados pelas disciplinas da fisiologia e da psicologia. O uso eficaz de técnicas bibliométricas permitiu a Turner mostrar que. o alto nível de integração cognitiva não foi suficiente para propulsionar o campo dos estudos da visão rumo a um status disciplinar. mas deixem-me observar que mesmo essas exigências intelectuais só podem ser efetivas quando o programa puder ser adaptado às exigências da economia política. Retornarei a esse ponto mais tarde. para os propósitos dessa discussão. seguindo um período de controvérsia a respeito do nativismo versus empirismo entre Hermann Helmholtz e Ewald Hering (que Turner designa como um estado pré-paradigmático). para servir como rationale intelectual de uma disciplina. A formação de programas disciplinares: acumulação de técnicas e inovações Essas conclusões do estudo de Turner são amplificadas pelo trabalho de Robert E. e os limites dos campos de pesquisa não precisam seguir os limites das disciplinas. 32 . um inventário das técnicas e instrumentos capazes de sustentar a pesquisa em amplas frentes de problemas. Esses últimos podem muito bem existir sem nunca ser institucionalizados como a base de uma disciplina. o sítio da produção de conhecimento não precisa estar localizado dentro de uma disciplina particular. Steven Turner sobre a ótica fisiológica no século XIX 32. Embora filiações disciplinares fragmentadas não tenham afetado nem a habilidade de pesquisadores para contribuir com o campo. que a tentativa de Ewald Hering e outros de usarem o Zeitschrift für Psychologie und Physiologie der Sinnesorgane como um fórum para mobilizar esforços em criar um status disciplinar para todo o campo dos estudos sensórios foi insuficiente para resultar no estabelecimento tanto de institutos quanto de cátedras sobre o assunto. Em terceiro lugar (um ponto que Turner não considera no artigo). De forma similar. Primeiro. particularmente a pesquisa sobre a acomodação. A utilidade de manter uma distinção entre os processos que dirigem os campos de pesquisa e a formação de disciplinas e sua institucionalização pode ser ilustrada a partir de um excelente artigo de R. a dióptrica dos olhos e os movimentos destes. fisiologistas. Há três morais a serem tiradas da narrativa de Turner. métodos e. bem como técnicas de medição e instrumentação desenvolvidas por pesquisadores da visão. Em segundo lugar.

As investigações de Kohler sobre as diferenças locais na prática da bioquímica em desenvolvimento e nas carreiras de bioquímicos individuais minam a lenda que apresenta F. bem como a composição coerente desses diferentes aspectos – seu "pacote" – em sítios locais de produção de conhecimento: laboratórios. Os primeiros bioquímicos representavam uma diversidade de origem disciplinar. antes. uma clientela confiável e um programa intelectual viável. O coração comum da disciplina não era um comprometimento com uma teoria particular da vida ou com uma agenda específica de pesquisa. alocam privilégios e responsabilidades especializadas e estruturam reivindicações de recursos. invertebrados e animais superiores. No coração da abordagem das disciplinas que estou propondo está a alegação de que essas são instituições políticas que demarcam áreas do território acadêmico. Hopkins como o Moisés da disciplina. tomando em seu domínio todas as formas de vida: micróbios.9 Kohler sobre o desenvolvimento da bioquímica. por exemplo. é a de vários programas disciplinares adaptados a uma variedade de nichos institucionais dentro do contexto disciplinar existente. Nas primeiras décadas do seu desenvolvimento como uma disciplina. Eles estavam unidos antes por partilhar um interesse cognitivo em enzimas como agentes-chave em processos de vida do que por uma filiação institucional ou disciplinar. mas as condições para o crescimento e para as limitações de cada um dependeram de três fatores: um contexto institucional capaz de fornecer sustentação. por exemplo. elas são antes criaturas da história refletindo hábitos humanos e preferências do que uma ordem fixa da natureza 35. da química orgânica. Um segundo programa tinha uma orientação fisiológica e biofísica. como base para o desenvolvimento da disciplina. Hopkins. Antes de considerar a química biológica geral como emergindo de um trabalho centrado na teoria das enzimas. isto é. pode-se dizer que as disciplinas estão engastadas em relações de mercado que regulam a produção e o consumo de conhecimento. da bacteriologia e da imunologia. A geração e acumulação de práticas inovadoras e sua 33 34 35 . uma explicação que não encubra as diferenças locais deve reconhecer que a bioquímica geral. os instrumentos. que poderiam ser explorados em uma variedade de direções como estratégias para construir programas dentro de diferentes contextos institucionais34. embora importante. da zoologia experimental. à bioquímica de diagnóstico e à endocrinologia. Nenhum desses programas disciplinares sofreu de falta de inovação intelectual. mas mesmo então a disciplina da bioquímica foi antes uma coleção heterogênea de programas adaptada a diversos nichos institucionais do que uma comunidade homogênea consensual. transformação de energia e controle bioquímico. A terceira abordagem era orientada para a medicina clínica. Um primeiro programa era concebido como amplamente biológico. mas. Franz Hofmeister era da farmacologia. A análise de Kohler da institucionalização da bioquímica identifica três diferentes estratégias para a construção da disciplina. Jacques Loeb. que eles apoiavam. Hans Buchner. Levando adiante a noção de Kohler. os padrões de trabalho e a organização. da imunologia e da higiene 33. Kohler mostra que o grupo de pesquisadores que aperfeiçoaram a bioquímica era composto de especialistas em uma variedade de campos estabelecidos. as técnicas. institutos e departamentos. A figura da disciplina que emerge. concentrando-se naqueles aspectos da fisiologia química limitados à fisiologia animal e humana. Eduard Buchner. Emil Duclaux. à enzimologia. tais como crescimento. uma coleção crescente de técnicas e soluções de problemas conectados. Além disso desempenham a função essencial de sistematizar e regular o fluxo de práticas sociais e técnicas no âmago da produção de conhecimento central ao sistema socioeconômico e ao sistema das relações de poder. da química fisiológica e patológica. Frederick G. somos recomendados a focalizar as práticas. ao metabolismo de proteínas. tais como pesquisa sobre vitaminas e nutrição. era um programa entre vários outros. desenvolvimento. por conseguinte. Correspondendo aos achados de Turner a respeito da ótica fisiológica. hormônios e metabolismo intermediário. diferentes e muitas vezes conflitantes. G. Ele se tornou o programa dominante da disciplina no final dos anos 1930. à imunoquímica. a bioquímica floresceu onde as prioridades intelectuais foram congruentes com estruturas e metas institucionais. Esse programa estava voltado para explicações químicas de processos biológicos fundamentais. O aspecto crucial dessa proposta é o engaste do conhecimento disciplinar na prática. plantas. Essas técnicas e instrumentos associados eram mais estáveis do que as teorias.

Cientistas empreendedores. depois de vários anos de frustração. Estava também preocupado com a bioquímica de doenças infecciosas. tais como a pesquisa sobre nutrição. Walter Fletcher. foi bem-sucedido ao estabelecer a bioquímica como um departamento independente. Ao estimular tanto o suprimento quanto a demanda de bioquímicos. Seu sucesso foi devido. ele serviu de instrumento para que se estabelecesse uma unidade de pesquisa clínica no Hospital de Londres. criar sistemas de recompensa e tornar rotineira a socialização profissional. Enquanto bioquímicos britânicos estavam tipicamente localizados em departamentos de fisiologia e trabalhavam com problemas de fisiologia e patologia química. ao apoio que recebeu de um cientista-gestor. uma vez que sua escola tinha se estabelecido. Hopkins de bioquímica geral em Cambridge. Ele continuou a gozar do apoio de Fletcher e do MRC. devem ser gerados nichos institucionais em que afastamentos da rotina da atividade disciplinar normal possam ser levados longe o suficiente para que um distinto estilo de trabalho venha a emergir. Fletcher estava apto a usar seu papel central como mediador e coordenador de fundos filantrópicos e beneficentes. Seu próprio carisma e os recursos institucionais à sua disposição lhe permitiram criar um nicho que não estava constrangido pela exigência de abordar problemas de relevância clínica imediata. provida de bioquímicos treinados no Instituto Hopkins. dentro do contexto institucional. embora tenha sido o único a formular um programa disciplinar sistemático. fornece uma ilustração de como contextos políticos e institucionais facilitam a formação de programas disciplinares36. Hopkins se apropriou das partes químicas da fisiologia. não mais dependia financeira e politicamente de serviços a prestar à medicina e à fisiologia. Fletcher pretendia gerar um mercado para bioquímicas dentro da medicina clínica. mais notavelmente do legado de Dunn. que resultem na formação de novas disciplinas. que disponibilizaria um conhecimento básico para a prática clínica. elas mesmas constituindo recursos potenciais para a construção de outras 36 . As metas de Fletcher eram organizar o treinamento de bioquímicas e garantir que eles se tornassem um fermento para as ciências clínicas. Tomando o laboratório de Michael Foster como modelo. tal como descrito por Kohler. no qual as inovações podiam se acumular. Fletcher acreditava que utilizar um conhecimento básico de química e fisiologia seria o melhor meio para criar um sistema racional de ciências biomédicas. da patologia e da química – como constituintes de sua própria pesquisa protegida e encorajada sobre a organização biológica das reações químicas em células e tecidos – como um método para abordar os problemas de forma e função comuns à biologia em geral. Hopkins. No entanto. ele contou com Hopkins para organizar uma pesquisa nutricional e para fazer novos avanços no conhecimento bioquímico a respeito de vitaminas disponíveis para os médicos. e a experiência da guerra nas trincheiras o tinha convencido da importância de aumentar o número de bioquímicos como uma exigência básica para as necessidades de longo prazo da ciência biomédica. O programa de Frederick C. O MRC havia sido estabelecido depois da Primeira Guerra Mundial. em Cambridge. mas. organizados a serviço de um projeto ou programa específico de pesquisa. os objetivos do próprio Hopkins não estavam confinados à medicina clínica. em larga medida. em resposta à agitação de um lobby de cientistas que exploravam o medo do poder científico e militar da Alemanha. Hopkins foi um dos vários bioquímicos que leram a literatura sobre o metabolismo intermediário e que viram o potencial para a construção de disciplinas.10 reunião coerente ocorrem em sítios locais de pesquisa. Para facilitar esse fim. que tinha seguido uma carreira administrativa como secretário do Medical Research Council (Conselho de Pesquisa Médica). como recursos para organizar empregos. um antigo estudante colega de Hopkins no instituto de fisiologia de Michael Foster. Nesse contexto. de modo a pressionar para que o governo aumentasse seu apoio à pesquisa em ciência e medicina. estabelecer serviços. O trabalho de Marjory Stephenson no Instituto Dunn ilustra como nichos institucionais podem favorecer a acumulação de inovações que induzam à emergência de especialidades de pesquisa. construtores de disciplinas e facilitadores externos exploram essas condições excepcionais. Para que o trabalho local leve a cabo mudanças dentro da paisagem disciplinar estabelecida. e sua própria pesquisa e a pesquisa do seu laboratório deixaram-se levar para longe dos problemas relevantes a ela. para criar um instituto separado para a bioquímica em Cambridge. Inspirado por essas convicções.

Sua perspectiva biológica e seu treinamento em enzimologia lhe permitiram explorar a oportunidade apresentada por novos desenvolvimentos em adaptação de enzimas. foram bem-sucedidos ao tornar rotineira a visão de Hopkins. em uma operação continuada que levou ao novo campo de pesquisa. circunstâncias locais especiais foram responsáveis pelo desenvolvimento precoce da bioquímica geral. de prestação de serviços. O exemplo da bioquímica ilustra que disciplinas não são estruturas monolíticas. são os seguintes: (1) a criação de um nicho institucional em que um estilo de trabalho com características próprias seja feito. no Instituto Dunn ela estava explicitamente encarregada da tarefa de modelar um programa de bioquímica bacteriana congruente com a visão de Hopkins de uma bioquímica comparativa. Os elementos centrais na formação de disciplinas. Ela também trabalhou no Instituto Rockefeller e em Cornell. Exatamente como o trabalho inicial de Hopkins em fisiologia química tinha sido originalmente alimentado dentro do instituto de fisiologia de Michael Foster. o promotor de um programa disciplinar. Stephenson partiu da percepção de bactéria típica entre químicos médicos. organizacionais e científico-técnicas. decorrente das descobertas feitas por Karstöm. no qual Stephenson e seu grupo de pesquisa estiveram aptos a reunir uma variedade de habilidades e técnicas. envolvendo um empreendedor visionário e conexões com patronos externos. Stephenson encontrou encorajamento dentro do Instituto Dunn. com características muito próprias. bem como dos constrangimentos do contexto institucional. na moldagem do conteúdo do programa disciplinar. uma nova geração de bioquímicos. Ela se desenvolveu como parte de um padrão pouco comum de construção de instituições. da fisiologia comparativa e da biologia evolutiva. As condições para o sucesso do 37 38 39 . e ela tomou a investigação da adaptação de enzimas como um sistema experimental estratégico para explorar os estágios primitivos da evolução de mecanismos reguladores. mas famílias heterogêneas de práticas sociais. onde aprendeu técnicas para isolar culturas puras de células particulares. mas não o pai de uma disciplina. A maior disponibilidade de fundos do governo diminuiu a importância estrutural de serviços prestados em departamentos tradicionais de medicina e fisiologia e abriu ligações com um espectro mais amplo de campos biomédicos. Sua sobrevivência dependeu da preservação dessas condições. Programas disciplinares são estratégias para organizar partes do campo científico por meio do desenvolvimento de canais de recrutamento. alguns dos quais tinham sido treinados anteriormente no Instituto de Cambridge. de treinamento e de construção de alianças políticas com campos vizinhos. O ponto crucial é que o Instituto Dunn forneceu um nicho sustentador. e seus sucessores imediatos não tiveram sua habilidade para proteger o nicho que ele tinha entalhado. especificamente configurada. um problema focal em alta em 1930-31.11 disciplinas relacionadas. acondicionadas como programas disciplinares para tirar vantagem da alocação de recursos dentro de uma economia política. bem como as perspectivas teóricas de vários campos de pesquisa. Hopkins foi. Stephenson tinha sido apoiada por Hopkins e Fletcher a ir para fora do Instituto Dunn apreender as habilidades dos bacteriologistas em Manchester. Em vez disso. assim. O trabalho nessa área sugeria o estudo da variabilidade e da adaptação como chaves para a regulação celular. ao concebê-Ias antes como tendo uma fisiologia regulatória complexa do que consistindo de bolsas de enzimas. (2) a tradução e inserção desse estilo de trabalho em serviços prestados dentro do contexto institucional existente como parte de um programa disciplinar promovido por um construtor de instituição. Originalmente escolhendo trabalhar com vitaminas e hormônios. da fisiologia bacteriana38. Tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos. permitindo que a bioquímica geral emergisse como a base da disciplina39. de instituições e campos disciplinares vizinhos. Ao longo de sua carreira conduzindo esse trabalho. Dubos e Avery. que levasse adiante conjuntamente as perspectivas da enzimologia. poderia ter sido encorajada a desenvolver linhas de pesquisa com uma relevância médica óbvia e direta 37. Na maioria dos laboratórios ingleses de então. ela foi encorajada por Hopkins a trabalhar com a bioquímica bacteriana. O programa disciplinar de Hopikins não foi imediatamente imitado. sugeridos pelo trabalho de Kohler sobre a história da bioquímica. e (3) o papel das ideologias e metas políticas. Somente depois da Segunda Guerra Mundial. pois não havia uma demanda de mercado externa para bioquímicas gerais.

um papel constitutivo no poder dos programas disciplinares. portanto. Somente secundariamente essas instituições se tornam relevantes para preocupações disciplinares. De fora para dentro: Carl Ludwig e a fisiologia experimental Os dois últimos exemplos de que tratarei focalizam particularmente o papel dos programas disciplinares como elementos constitutivos de discursos políticos e ideológicos que dizem respeito à definição da sociedade e de suas metas. histologia. são gerados simultaneamente dentro de um discurso político e de um discurso ideológico. tal instituto tem servido para apoiar um argumento sobre a autonomia da ciência buscada um sich selber willen (no interesse dela mesma). não somente da qualidade do conhecimento e das habilidades produzidas. e. ao contrário do que diz a lenda. Em segundo lugar. A relevância percebida da marca registrada de Ludwig para a fisiologia. De acordo com essa concepção. no treino de médicos. criando um mercado bem estabelecido em que pessoas como Ludwig poderiam exigir recursos institucionais e materiais na forma de laboratórios. Em primeiro lugar. na virada do século XX. em primeiro lugar sugerindo que. o Estado saxão inadvertidamente forneceu o modelo responsável pelo crescimento da medicina baseada na ciência. Nessa explicação. Por exemplo. sendo. em lugar de disciplinas monolíticas. com sua orientação biológica. Aqui. Movimentos políticos e ideológicos que afetam o contexto institucional da ciência desempenham. a mitologia fundadora e a concepção da ciência como operando de forma autônoma em uma economia de mercado livre se apóiam mutuamente. reunindo. essa visão vê tal instituto como corporificando uma abordagem integrada da fisiologia. assim. mais bem compreendidos como discursos de poder e instrumentos para a produção de conhecimento. Ludwig não era o autor daquela abordagem integrada e que pode ser problemático pensá-Io como um sujeito autoral do seu próprio instituto em Leipzig. Para uma história disciplinar focada em mitos fundadores e nas disciplinas como instituições monolíticas e universalizadoras. primeiro dentro da Alemanha e por fim internacionalmente. Quero desafiar ambas as alegações. na qualidade de instituições que demarcam limites de especialidades e hierarquias de competência. Exatamente como Kohler 40 41 . sublinhando as interações constitutivo-disciplinares entre a economia política e os esforços de construtores de disciplinas para definir a sociedade41. pois. como um incentivo para atraí-Io a Leipzig. fisiologia experimental e química médica como partes do mesmo empreendimento. ao passo que a bioquímica geral. programas disciplinares são instrumentos para definir a sociedade pela organização e pelo acondicionamento de economias da prática para clientelas específicas.12 programa dependem. o competitivo sistema acadêmico alemão era organizado para premiar talento. a relevância do instituto de Ludwig é dupla. programas disciplinares. independentemente de preocupações. conjuntamente. fisiológica e agrícola. questões relacionadas à disciplina não eram de modo algum elementos constitutivos do instituto de Ludwig. simbolizado pelo Relatório Flexner (sobre a necessidade de reformar a medicina clínica pela introdução da ciência básica no treinamento e na prática clínica) criou um mercado para o programa disciplinar da bioquímica clínica. ao conceder os recursos que Ludwig exigia para tirar proveito de sua marca registrada de fisiologia integrada. o movimento americano. portanto. As alegações centrais a respeito das disciplinas que derivei dos trabalhos de Foucault e Bourdieu são as seguintes: ninguém cria disciplinas. mas também do mercado para essas habilidades dentro da economia política das práticas. devemos examinar. permaneceu apática até que um novo ambiente emergisse uma geração mais tarde. Reexamino um dos mitos originais clássicos na história das disciplinas científicas: o papel que Carl Ludwig e seu instituto em Leipzig desempenharam na moldagem da fisiologia como uma disciplina médica. programas disciplinares adaptados localmente à economia política. além daqueles da medicina clínica40. no qual um treinamento em nível de graduação para certas especialidades científicas acadêmicas aumentou a variedade de serviços que um programa em bioquímica poderia explorar. instrumentos e assistentes. tanto pragmáticas e econômicas quanto político-ideológicas. em segundo lugar. tornou-a modelo organizacional padrão para a fisiologia como uma disciplina médica imitada em numerosos sítios na Europa e nos Estados Unidos.

representado em numerosos artigos na imprensa popular e nos jornais políticos. antes de ir a Leipzig. era uma das principais inteligências na nova medicina baseada na ciência. e. um método que Wunderlich estava começando a adotar em sua própria abordagem da termometria clínica. O ânimo geral. Ele propôs que Weber continuasse a ensinar anatomia e que empreendesse uma busca por um fisiologista jovem. no Instituto Dunn em Cambridge. Embora a organização específica deste e seu programa cognitivo fossem estabelecidos em uma deliberação rigorosa junto a Ludwig. Falkenstein criou a oportunidade desejada. Com a aposentadoria iminente do professor de anatomia e fisiologia Ernst Heinrich Weber. portanto. Porque a faculdade médica era a fonte principal da clientela estudantil em Leipzig. em primeiro lugar. O novo consenso era que. o batimento cardíaco e a função do rim. A fim de entender as razões para essa conjuntura de nicho político e construção institucional. cuja recomendação era crucial para Falkenstein. À luz dessas considerações. bem como em ensinar estudantes médicos pensarem quimicamente. para o criador do próprio programa disciplinar: Carl Ludwig. dividindo as duas matérias em cadeiras separadas. de Viena. A discussão. estava convencido de que o melhor caminho era o ditame de Justus Liebig de utilizar a ciência para atender às necessidades da agricultura. Também vemos o papel de facilitadores externos em trazer as forças seletivas da economia política a um foco pragmático. À parte a fama crescente do próprio Ludwig como fisiologista. ilustra amplamente que as interdependências entre vizinhos disciplinares dentro de um contexto local podem estruturar um nicho no qual um estilo disciplinar particular pode florescer. o diretor da clínica de Leipzig. Nos anos 1860. Falkenstein propôs Carl Ludwig. um novo clima ideológico começou a prevalecer na maioria dos Estados alemães. Contudo. Carl Wunderlich. Wunderlich estava absorto em seu trabalho sobre termometria clínica e exercia uma forte pressão para a contratação de um químico fisiológico interessado em desenvolver técnicas químicas de diagnóstico.13 encontrou. como um construtor de instituição. estava trabalhando em problemas sobre a respiração. cuidando dos seus problemas econômicos. Falkenstein. em particular. rejeitava as táticas políticas reacionárias e repressivas do período pós-1848. não é surpreendente que Carl Ludwig fosse o único nome . enquanto ele esperava que o novo nomeado para o cargo estimulasse a indústria local. sua meta principal era criar uma sinergia institucional entre a química e a medicina. Um dos objetivos maiores de Falkenstein. Seu critério-chave para a posição era que o professor fosse. Do ponto de vista de Wunderlich. O estilo de trabalho de Ludwig se parecia com o que Wunderlich estava promovendo como medicina fisiológica. Ludwig poderia servir como um recurso para levar adiante o seu próprio programa disciplinar. da indústria e da medicina. A oportunidade de ocupar uma cadeira de química deixada vaga em 1863 deu a Falkenstein a chance de implementar esse plano organizacional. um químico orgânico. melhorando a produção e mapeando um curso para a industrialização. de grande capacidade. que como ministro das finanças no período pré-1848 tinha defendido projetos liberais. agora. Volto-me. Ele rotulou seu próprio programa disciplinar de medicina fisiológica e estava decidido a estabelecer uma relação estreita entre teoria fisiológica e prática médica. Falkenstein. Ludwig era talvez o principal precursor no desenvolvimento do método gráfico em fisiologia. Falkenstein foi entusiástico em acolher o programa de Wunderlich para fortalecer a faculdade médica e suas ligações com a clínica. a fim de seguir o que era descrito como a política dos interesses materiais. um nicho de fisiologia bacteriana antes que Stephenson tivesse elaborado o programa com que esse instituto se ocuparia. como a construção de ferrovias e o Zollverein (União Aduaneira). Essa ideologia refletiu o consenso crescente entre as elites dominantes aristocráticas e burocráticas de que os segmentos produtivos da classe média (que era como elas se referiam à nova liderança empreendedora e industrial) tinham de ser incorporados à estrutura de poder. a forma geral daquele instituto foi elaborada antes de Ludwig vir a Dresden para negociar com o então ministro saxão da cultura e educação. Nos anos 1860. Ludwig tinha dado pouca atenção às implicações médicas do seu trabalho. Como candidato apropriado. todos os quais interessavam cientificamente a clínicos treinados – e a Wunderlich. em janeiro de 1865. havia boas razões pelas quais ele teria agradado a Wunderlich. os Estados alemães iriam da mesma forma resolver seus problemas políticos. Efetivamente. era fortalecer o programa de medicina clínica em Leipzig. precisamos olhar para a economia política. encontro em Leipzig um nicho para uma abordagem integrada da disciplina antes que Ludwig delineasse o plano do seu instituto.

mais do que os outros membros declarados da escola reducionista. Somente foi capaz de fazê-Ia com a ajuda de um anatomista que dominava todas as últimas técnicas dessa disciplina. por experiência. As mudanças em sua pesquisa sobre a função do rim ilustram as mudanças em seu programa de pesquisa como um todo. O trabalho dos microscopistas e químicos fisiológicos tinha não apenas de ser padronizado de acordo com o próprio regime de Ludwig. Durante esse período. foi essencial à cristalização da abordagem integrada de Ludwig para a fisiologia uma estratégia política para sua realização concreta. que cada vez mais emergia no trabalho de Ludwig. ditaram uma abordagem mais pluralista. Entretanto. sem as proteínas impermeáveis às membranas glomerulares. mas que concebesse como seu objetivo a busca das estruturas exigidas pela perspectiva fisiológica reducionista. Ludwig começou a procurar por estruturas microscópicas mais refinadas capazes de desempenhar uma filtração seletiva do sangue ou de restaurar alguns componentes do filtrado glomerular ao plasma sangüíneo. naquele momento. Em contrapartida. Todavia. suas cartas de1864. Ludwig estava desenvolvendo um estilo de fisiologia muito mais amplo em orientação e metodologia do que o programa original físico reducionista que tinha enunciado junto com Du Bois-Reymond e Helmholtz. Sua teoria da função do rim. tanto da anatomia microscópica quanto da química orgânica. Outros fisiologistas proeminentes – Helmholtz e Du Bois-Reymond. nem possível. Em suas primeiras pesquisas. embora fosse ele mesmo um experiente microscopista. Um elemento ulterior crucial ao sucesso do seu programa de pesquisa foi o silêncio de seus críticos ao ser assegurada a reprodutibilidade dos seus experimentos. que as técnicas. Era ele o único fisiologista alemão que atendia tanto às necessidades disciplinares quanto às necessidades institucionais em Leipzig. Experiências similares surgindo do seu trabalho sobre a fisiologia respiratória e urinária levaram-no a apreciar a importância de introduzir um elemento químico em sua estratégia explicativa e de recrutar as habilidades de um químico fisiologista treinado. descritas por seu amigo Jakob Henle em uma carta de 1863. Ludwig tentava explicar virtualmente cada aspecto da função de um órgão quanto a modelos hidrodinâmicos tirados da mecânica. Ludwig. para não mencionar a necessidade de melhorar o projeto da aparelhagem e das técnicas experimentais que constituíam o principal arrimo da sua própria pesquisa. estava baseada na filtragem mecânica do sangue. Ludwig estava se tornando intensamente consciente de que suas próprias metas de pesquisa dependiam. contêm referências freqüentes a potencial fecundidade de trabalhar em maior proximidade com os clínicos. Constantemente frustrado pelas oportunidades inadequadas para expandir seu estilo de fisiologia em Viena. tinham se tornado avançadas o suficiente para que não fosse nem eficiente. foram fatores limitantes que. nenhum desses homens partilhava da visão integrada da fisiologia. que fosse treinado como um anatomista de estruturas microscópicas. cada vez mais.14 na lista de candidatos para o cargo de diretor do novo instituto fisiológico. ele precisava incorporar as habilidades e técnicas (mas não a perspectiva disciplinar) da anatomia microscópica em seu programa. em um estágio subseqüente. As alças em forma de grampo de cabelo nos túbulos nefrônicos. começou antes a apreciar a importância de pôr sua fisiologia a serviço da medicina do que a defender sua relevância como uma disciplina filosófica. Em resposta aos críticos que observaram que a teoria da filtragem implicava que a urina fosse uma solução mais concentrada dos mesmos constituintes do plasma sangüíneo. Ludwig tirou uma importante conclusão desse episódio: para avançar em seus próprios interesses de pesquisa e para defender a validade de sua estratégia explicativa. imediatamente anteriores ao início das negociações com Falkenstein. A mistura heterogênea e a complexidade de diferentes habilidades e operações envolvidas no trabalho experimental estavam rapidamente aumentando. ao fisiologista fornecer as descobertas anatômicas e químicas exigidas para o progresso em sua própria área. O sacrifício dos seus próprios recursos de tempo e de energia. ele sabia. e esse trabalho precisava ser disciplinado de uma forma ordenada dentro das paredes do laboratório. Ele começou a se dar conta da necessidade de ter um assistente em seu laboratório. pois. por exemplo. por exemplo – eram bastante abertos a respeito do seu interesse na posição. uma estratégia que transformou um programa cognitivo em desenvolvimento num recurso para a construção de um programa disciplinar. do trabalho dos microscopistas e dos químicos orgânicos. No início dos anos 1860. foi incapaz de verificar a estrutura por vários meses. mas Ludwig. eram candidatos promissores a estender o modelo de filtragem. essas técnicas deveriam ser reunidas e acondicionadas em uma forma capaz de . em vários casos.

Antes. Desse modo. Em uma época em que ministros de Estado estavam dirigindo a ciência para atender às necessidades da agricultura. estudante de Ludwig. Isso facilitou o trabalho dentro desse espaço. Em minha discussão sobre a contribuição deste à noção de disciplina. Uma outra solução para o problema da padronização é ilustrada pelo trabalho de dois volumes de Elie de Cyon. aparelhos de respiração e bombas de gás e reguladores) tinha de encontrar seu espaço dentro de outros laboratórios. Depois que Ludwig tinha estabelecido seu instituto em Leipzig. a instrumentação complexa que Ludwig usava para auxiliar e demonstrar sua pesquisa (como quimógrafos. eram problemas freqüentemente discutidos por Ludwig. Glasgownianos e cambridgianos: brigando pela disciplina Os exemplos anteriores de estudos da formação e consolidação de programas disciplinares sugerem uma sucessiva ampliação. ao mesmo tempo. mas soluções para os problemas de reprodução e padronização exigiram que fossem arregimentadas redes mais amplas de apoio. No entanto. cientistas de elite como Ludwig descobriram ser necessário diversificar seus portfólios. Além disso. a coordenação de trabalhos heterogêneos no laboratório não foi por si mesma suficiente. o equipamento. em outros lugares. esfigmógrafos. significava coordenar a pesquisa científica com os interesses materiais do Estado. Uma organização mais eficiente de trabalho.15 serem reproduzidas fora das paredes do seu laboratório. para assegurar fundos para a aparelhagem experimental e para manter o pessoal essencial à extensão das fronteiras dos seus esforços de pesquisa. bem como a dificuldade de encontrar técnicos locais que pudessem produzir um instrumento capaz de reproduzir um desempenhopadrão. ao passo que a abordagem que estou propondo como consoante à estrutura desunificada da ciência insiste na consideração de um espectro multidimensional de condicionantes formativos. Methodik der physiologischen Experimente und Vivisectionen (Leipzig: Giessen. interações e a coexistência de campos diferentes são cruciais para a estabilização e efetivação da prática dentro de qualquer formação discursiva dada. refeito em um laboratório distante. ligando as várias áreas de pesquisa biomédica. Este manual passa minuciosamente por todos os principais experimentos do repertório do fisiologista reducionista. A solução para esse problema foi institucional. Uma colagem de vários estudos recentes das disciplinas da física. esses estudos geralmente põem em primeiro plano um ou dois fatores na formação de disciplinas. poucos anos depois – era a missão que a fisiologia tinha de estabelecer para si mesma. Treinar pessoas de talento comum – o nível médio que Du Bois-Reymond identificava como Durchschnittskopfe (inteligência média) na inauguração do seu próprio instituto para fisiologia em Berlim. cientistas de elite iriam adquirir as verbas. o pessoal e o espaço necessários para avançar sua ciência e. engenharia e matemática na GrãBretanha do século XIX retrata como a disciplina é engastada tanto em economias políticas . e não cognitiva. conforme eles fossem sendo redefinidos por amplas metas econômicas e políticas. se quisesse continuar a crescer e a prosperar. galvanômetros. ele devia tornar sua ciência e seus métodos úteis às necessidades práticas percebidas na medicina clínica. Uma forte indústria local se desenvolveu para produzir e expedir instrumentos centrais ao trabalho de fisiologia. Embora úteis. disseminar atitudes que davam suporte a seu empenho por um público educado mais amplo e capacitado. da indústria e do exército. enfatizei o modo como justaposições. diversificação e heterogeneidade de redes interativas que constituem a economia das práticas que estou chamando de disciplinas. Isto não implicava abandonar a busca desinteressada do conhecimento. a arqueologia heterogênea da formação discursiva de Foucault. 1876). Helmholtz e Du Bois-Reymond. inclui gravuras detalhadas ilustrando os instrumentos de vários ângulos e descreve artimanhas do ofício que tem que ser conhecidas para conseguir um efeito especial dos instrumentos ou coisas com que se deve ter cuidado em um experimento de vivissecção. ele resolveu parte desse problema por meio da colaboração com as oficinas locais de mecânica e instrumentos de precisão. Para adquirir os recursos institucionais e o pessoal de que eles precisavam para levar adiante seu objetivo de definir o que constituía ciência legítima. tinha de ser estabelecida para que o estilo de fisiologia de Ludwig prosperasse. A aquisição das habilidades e técnicas experimentais apropriadas. ao passo que pedidos de instrumentos por outros pesquisadores e esforços para organizar visitas em que a habilidade experimental pudesse ser transmitida pessoalmente constituíram uma porção substancial de sua correspondência com outros cientistas. Ludwig se deu conta de que.

ao organizar as questões do Tripos de Matemática em torno da geometria e da matemática aplicada. Então.16 quanto morais.. o Tripos continha também uma grande quantidade de física. tais como fluxo do calor. 40% desses estudantes entravam no clero45. Ao explicar como um ajuste preciso entre matemática e física aconteceu na GrãBretanha. crucial a cada um desses empreendimentos. bem como. Sua meta. A matemática mista. de fato. mas o caráter central da matemática mista no Tripos não se deveu a uma preocupação com sua utilidade para a física e a engenharia – em verdade. Matemática. física e engenharia: estas eram partes heterogêneas de uma formação discursiva integral a um regime de verdade. alguns estudos têm focado o papel das questões para o Tripos de Matemática de Cambridge. antes. enfatizava o estudo da geometria descritiva (de preferência a análises algébricas abstratas) e temas da matemática aplicada. Entre os elementos-chave para o desenvolvimento da indústria baseada na ciência. todos os quais lidavam com propriedades concretas do espaço visualizável e das leis naturais. mas. de acordo com Whewell e Herschel. e a problemas eminentemente práticos da engenharia precisa de turbinas de vórtice. dessa forma. que somente uma disciplina matemática rigorosa poderia conceder43. a ótica. constituindo um regime de verdade. por um lado. Além disso. defendida por esses homens. amparada por um movimento de reforma educacional42. antes. como a hidrostática. foi combater tendências direcionadas a uma incorrigível especulação vazia. estava o ajuste aparentemente milagroso da análise matemática abstrata a problemas teóricos na disciplina nascente da física. introduzido em 1851 44. ao apoio a uma ideologia política conservadora. A instrução matemática era a linguagem simbólica em que as leis da natureza poderiam ser decifradas. na Grã-Bretanha do século XIX. contribuir para a teologia natural. mas era concebida. não estava organizada como um recurso de apoio técnico para a física ou para a engenharia. um meio para alcançar a meta teológica de inculcar a capacidade de ver o plano e a inteligência vigentes em toda criação. O contexto dentro do qual esses reformadores viam seu programa disciplinar para a matemática mista é talvez melhor apreendido pelo fato de que a primeira parte do Tripos de Matemática era exigida para estudantes que queriam competir por distinções no Tripos das Ciências Morais. p. o Tripos de Matemática de Cambridge era organizado em desprezo a um espírito utilitário –. todos esses homens enfatizavam a conexão subjacente de diferentes partes da natureza mediante analogias primordiais (Herschel e Sedgwick). por outro lado. O estudo da matemática iria ajudar na busca de analogias entre as leis naturais na astronomia e na geologia. particularmente durante os anos 1830 e 1840. Whewell e outros não ignoravam a importância prática da matemática para outras disciplinas. A disciplina matemática. a mecânica e a astronomia. De importância especial para meus propósitos foi a influência de homens como Whewell. O fato de que uma média de 120 estudantes se inscrevia por ano para o exame no Tripos era um sinal encorajador de que uma tal filosofia educacional poderia alcançar seu efeito pretendido de moldar a classe das pessoas cultas da nação. mas forneceria também uma educação fundamental intelectual e moral às lideranças da nação. encorajando a concentração do pensamento sobre o claro e o definido. George Biddeil Airy. máquinas a vapor e cabos telegráficos. John Herschel e Adam Sedgvvick no estabelecimento das questões do Tripos e na propagação – por meio de palestras públicas em vários fóruns e em numerosos escritos sobre o tema – da matemática mista como parte de uma ideologia educacional para a futura liderança intelectual e cultural da nação. 40. Embora supostamente um exame em matemática. como um treinamento característico da mente para a participação em uma economia mais ampla. que é captado do melhor modo pela expressão de Wise e Smith: energia e império. conduzidas por William Whewell. o exercício para o Math Tripos não apenas seria útil às pessoas que pretendiam seguir carreiras na ciência matemática ou natural. O estudo das leis da natureza iria ser. hidrodinâmica. problemas de física eram especialmente proeminentes nas reformas do Tripos em 1848. eletromagnetismo e ótica. . política e moralmente perigosa. 42 43 44 45 Ibid. o exame exigido para todos os estudantes que obtinham graus de distinção.

Essas técnicas para resolução de problemas eram a base para gerar interligações entre fenômenos da hidrodinâmica. ele era um recurso importante para ligar outras formas de conhecimento disciplinar dentro da economia política. Em todo esse empreendimento. permitindo que problemas em um domínio fossem resolvidos por analogia com soluções em outros domínios47. mas especialmente na eletricidade e no magnetismo. montadas em diversos ambientes locais.17 A importância do Tripos de Matemática. que faz uma analogia da distribuição da carga elétrica em uma superfície com o fluxo do calor. bem como muitos dos astrônomos na Grã-Bretanha. no melhor dos casos. exemplifica o papel da técnica matemática em transferir os resultados de um domínio a outro48. Já observei a importância da economia moral para os arquitetos do Tripos de Matemática e sua crença em que a integração em uma tal economia seria alcançada em parte pela prática na busca de analogias entre diferentes domínios da lei natural. Quase todos dos mais importantes matemáticos e físicos. organizando o trabalho científico de forma a atender às supostas necessidades da sociedade a que se serve – leva ao co-ajustamento de famílias de práticas locais. eram ferramentas matemáticas cruciais no repertório do físico. Central a essa proposta é a sugestão de que evitemos pensar tais disciplinas como monolíticas e uniformes. do fluxo de calor. em cada caso?49 Minha discussão desse ponto tem enfatizado o programa disciplinar da "Escola de Cambridge". o movimento de um fluido são todos representados por uma equação diferencial da mesma forma [divergência V = o]. Tait e Steele para o exame. A forma como essa ênfase era reforçada pelas tecnologias matemáticas desenvolvidas no Tripos é evidente na seguinte questão de 1845: O equilíbrio da temperatura. Ligações pessoais. do magnetismo e da ótica. que dessa forma se tornou um recurso para acumular inovações (no sentido discutido acima) e transmiti-Ias a outros domínios. Em todos esses domínios. a de que ninguém cria disciplinas. que treinou Stokes. entretanto. e uma ampla rede de wranglers mais antigos servia para instruir estudantes que se preparavam para ele.. da qual uma integral é V = ∑ (c/r). para compreender como a luta entre programas disciplinares – estratégias para definir a sociedade. e o teorema de Green. de acordo com certas hipóteses. que transforma integrais de superfície e volume. entretanto. Os teoremas de Green e Stokes são exemplos manifestos dos métodos de resolução de problemas que viajaram largamente através dos diferentes domínios da física. ou wranglers46. Precisamos olhar para a dinâmica do campo científico uma vez mais. No entanto. tinham alcançado uma posição no Tripos como estudantes proeminentes. problemas eram formulados para se descobrirem medidas conectando linhas para medir áreas – os chamados teoremas integrais de linha-e-superfície. ela é. o mais crucial eram as tecnologias matemáticas. a atração dos corpos e. modelos de carreira e órgãos de publicação forneciam uma rede distributiva em torno do Tripos. em favor da noção de um repertório de práticas acondicionadas e co-adaptadas. por mais influente que ele possa ter sido. Além do grande número de pessoas que tinham passado pelo Tripos e cujas carreiras continuaram conectadas a ele. O papel da economia política de práticas mais ampla em moldar as disciplinas pode ser traçado nesse exemplo. Thomson. O teorema de Stokes. adaptadas a nichos locais dentro da economia política mais ampla. da eletricidade. O artigo de William Thomson de 1841. se olharmos para o estabelecimento da física matemática 46 47 48 49 . que transforma integrais de linha em integrais de superfície.. O principal instrutor era William Hopkins. os wranglers organizavam uma sociedade matemática e dois jornais: o Cambridge Mathematical Journal (Jornal de Matemática de Cambridge) e o Cambridge and Dublin Mathematical Journal (Jornal de Matemática de Cambridge e de Dublin). "A Disciplina" como tal não existe. não estava limitada a seu papel como disciplina mental para a economia moral. uma abstração formada a serviço de um programa disciplinar. Que propriedades físicas são incorporadas nessa integral. equacionar a disciplina da física matemática com o programa desse grupo. vai contra a proposição em que insisti. as técnicas para resolução de problemas transmitidas por meio dessas redes e desenvolvidas para aumentar o desempenho no Tripos.

mas um curso sobre experimentação comparável ao que ocorria no laboratório de Thomson. modificada e transformada ao longo do processo –. como uma aristocracia intelectual de elite. energia e fontes de desperdício. como exercícios complementares aos exercícios matemáticos dominados no Tripos. particularmente do modo como elas estavam refletidas nos quadros da Sociedade Filosófica de Glasgow. embora ele mesmo um ilustre wrangler de Cambridge. experimentais e teóricas de programas competidores. mas com o treinamento profissional de físicos. esforço e eficiência sustentaram e serviram como recurso para a sua ciência. Tal como seu colega de Glasgow. definindo. diferentes imagens da sociedade nos ambientes locais de Glasgow e Cambridge. mas adaptada. Em sua posição como professor de filosofia natural no Glasgow College. Eles descreviam a si mesmos como "liberais em matemática como em política". A imagem que emerge desse relato é a da matemática mista de Cambridge sendo traduzida – não "aplicada de uma forma inerte". para Belfast e Edimburgo). . no qual os próprios estudantes desenvolviam experimentos. Mesmo nos anos 1860. tal como medido pela riqueza. desde 1846. Sua reformulação da mecânica clássica. Motivados pelo ethos glasgowniano de alcançar um progresso humano. por meio de um esforço pela apropriação simbólica e incorporação das tecnologias técnicas. com P. exatamente como a valorização de Cambridge. disciplina manufaturada e oficina. Airy lamentava que nenhuma conferência sobre física experimental era oferecida em Cambridge e que a física continuava a ser vista como um campo para exercícios de matemática. e sua formulação das leis da termodinâmica são exemplos de como os valores glasgownianos de utilitarismo. foi contratado em 1871. bem como com a difusão de um conhecimento útil50. Foi crucial aos esforços de Maxwell para a construção do Cavendish a incorporação da física experimental. e suas preocupações não eram com o treinamento mental de uma elite intelectual. os artigos científicos de Thomson focavam problemas de trabalho. não foi estabelecido em Cambridge antes de 187952. a disciplina da física matemática tinha perfis diferentes. Na dinâmica do campo científico agorístico. de fato. A solução de Maxwell para esse problema em engenharia social foi tornar seu laboratório o centro em 50 51 52 53 54 Ibid. 128-35. para todos os estudantes. e outros glasgownianos estavam motivados por preocupações práticas da física e da engenharia. que enfatizava a economia. Simon Schaffer nos propicia uma compreensão desse aspecto da dinâmica dos programas disciplinares dentro do campo científico em seu exame do programa de Clerk Maxwell para metrologia eletrotécnica no Cavendish53. e o Laboratório Cavendish abriu somente em 1874. homens práticos e ligados ao comércio. quanto a relações entre trabalho e energia. Rankine. especialmente pp. engenheiros. sustentou a cultura wrangler e a matemática mista. Tait. Clerk Maxwell. em um esforço para eliminar da engenharia regras imprecisas de medida51. Ele efetivamente transformou o laboratório de filosofia natural em uma oficina. A cultura do laboratório glasgowniano de Thomson contrastava agudamente com a cultura wrangler da matemática mista de Cambridge. G. a venda de programas disciplinares funciona da mesma maneira como a luta pelo reconhecimento do produto de pesquisa de alguém: a saber. William Thompson. um gesto estratégico que simultaneamente estabelece um cordão sanitário ao redor da economia moral dos competidores. Thomson introduziu o trabalho experimental e prática em medição de precisão. para Glasgow (e. onde Thomson a usou como um recurso na formação do seu programa disciplinar glasgowniano para a física matemática: de orientação prática e valor utilitário.18 em outros ambientes britânicos. Sendo assim. Thomson enfatizava a harmonia entre teoria e prática. embora compartilhando de várias das mesmas ferramentas e práticas disciplinares. Os temas da pesquisa de Thomson estavam bem adaptados às preocupações pragmáticas de engenharia e economia de Glasgow. Nem todos os wranglers partilhavam das tendências antiutilitaristas e antiliberais dos clérigos de Cambridge. um empreendimento que cheirou a esforço obtuso.. por meio do melhoramento de habilidades e da identificação e eliminação do desperdício. no ethos da alta cultura wrangler de Cambridge54. O primeiro professor de Cambridge de física experimental. As conferências de Maxwell empregavam experimentos para ilustração. de Glasgow. 649-722. quase vinte anos depois de ele ter começado a trabalhar em Glasgow.

esses processos estão profundamente entrelaçados. competindo para definir a sociedade. governada por uma lei submetida à vontade de Deus. cruciais à indústria elétrico-telegráfica – pudesse ser testado e verificado. Schaffer mostra que. Maxwell argumentava que padrões físicos absolutos atestavam princípios morais sancionados divinamente. dentro dela. Isso se constituiu num apelo para o estabelecimento de padrões absolutos independentes de sistemas materiais particulares. não existia valor absoluto diferente daqueles padronizados pela manufatura 56. Em cada um desses casos. e a partilha que eles fizeram da sua formação discursiva. programas disciplinares. compartilhando amplos blocos de prática comum. isso significava eliminar a discrepância entre a cultura wrangler e aquela da organização do trabalho de laboratório como se fosse uma fábrica. Esses casos todos mostram que programas disciplinares competitivos florescem ou declinam conforme o destino incerto da economia política. De fato. também a disciplina. Como ilustrado pelo caso de Ludwig. bem como para a organização e o acondicionamento de práticas centradas em novos programas de pesquisa. programas de pesquisa não podem permanecer expansivos e poderosos sem eventualmente servir como recursos para programas disciplinares. Em uma variedade de contextos. a noção de Foucault de formações discursivas bem como a noção de Bourdieu de crédito nos alertaram para considerar ambos os aspectos da disciplina – programas de pesquisa e programas disciplinares – como simultaneamente presentes. carregada de prática e instrumentação. 55 56 . dentro das disciplinas. o campo científico era ocupado por vários programas de pesquisa. entre programas de pesquisa e programas disciplinares.19 que qualquer padrão já construído – ele tinha em mente primeiramente os padrões de medição elétrica. Nos casos. Assim como o campo científico é caracterizado por numerosos programas de pesquisa. dispersa de programas disciplinares adaptados localmente dentro de uma economia política de práticas está de acordo com a nossa imagem atual da ciência como desunificada. tanto da bioquímica quanto da fisiologia experimental. tais como caixas de resistência manufaturadas. Embora diferentes em orientação – programas de pesquisa estão voltados para o controle e a definição do campo científico. criando nichos ocasionais para a acumulação de inovações. também aqueles que formulam programas disciplinares competem para definir a sociedade. Os exemplos urgem o deslocamento das mitologias fundadoras e das noções de disciplinas como homogêneas e monolíticas. e dependente de aculturação. Assim como cientistas competem por recursos para legitimar a definição de ciência incorporada em seus programas de pesquisa. programas disciplinares valem-se das práticas. ademais. Retrospecto Os exemplos históricos aqui considerados ilustram aspectos relevantes às disciplinas que derivei dos trabalhos de Foucault e Bourdieu. em favor de uma diferenciação. da instrumentação. como a vejo. a questão dos padrões absolutos estava impregnada de uma missão divina. tais como bobinas de resistência e condensadores padronizados. Whewell e outras figuras da cultura wrangler tinham defendido uma ordem natural divinamente ordenada. Argumentei que a noção heterogênea. Thomson argumentou que os mais úteis inventos de medição comercialmente manufaturados. no sentido de disciplina desenvolvida aqui. De forma similar. A física vitoriana. para Maxwell. Em contraste com os padrões desincorporados de Cambridge. ao fazer das teorias dinâmicas da matéria o árbitro dos padrões55. por ser mais tangíveis. por outro lado. a física glasgowniana estava intimamente entrelaçada com a prática de engenharia. eram melhores padrões de valor. que punham em jogo diferentes definições de ciência dentro do campo científico. tais como o ohm e o farad. para a definição da sociedade –. ao passo que a física de Cambridge estava profundamente engastada dentro da cultura wrangler. é caracterizada por numerosos programas disciplinares. competindo para legitimar sua própria definição do campo. Maxwell invocava padrões absolutos ao avaliar os produtos de uma sociedade cada vez mais dominada pela indústria. como a Jano de dupla face de Latour. na constituição de regimes de verdade. permitiu a participação agorística. das organizações e dos resultados acondicionados por programas de pesquisa bem-sucedidos. vimos que a economia política estrutura relações locais entre vizinhos disciplinares. por sua vez. fortaleceu a disciplina. Na prática. Tanto quanto Herschel. de glasgownianos e wranglers.