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Antropologia Teológica

Aantropologia Teológica

ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA

1. Origem e Evolução da Antropologia.
a) Antropologia Filosófica pagã, mas aberta ao transcendente.
b) A Antropologia Teológica (de índole judaico-cristã).
c) A Antropologia Filosófica Secularista.

3 – VIDA, MORTE E RESSURREIÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO
3.1- A Vida
3.2 - A morte, os mortos, o „sheol‟
3.3 - Retribuição: a tese tradicional
3.4 - A crise da doutrina tradicional
3.5 - Primeiros passos de uma solução
3.6 - A fé na ressurreição
3.7 - A doutrina da imortalidade no Livro da Sabedoria
3.8 – O Purgatório
3.8.1 – A doutrina da Escritura
3.8.2 – História do dogma
3.8.3 – Reflexões teológicas
4. O HOMEM NA GRAÇA DE CRISTO
4.1 - Fatores na formação do conceito cristão de graça
4.2 - DEUS É GRAÇA
4.3 - A prática e a experiência de Jesus
4.4 - A teologia da graça a partir da prática da Igreja, especialmente na América Latina
5 – A ESCATOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO
5.1 – A presença do reino em Jesus de Nazaré
5.2 – O futuro do Reino
5.3 – Presente-futuro: uma escatologia bipolar
5.4 - A escatologia bipolar em Paulo e João
5.5 – A proximidade da parusia
6 – A PARUSIA, PÁSCOA DA CRIAÇÃO

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2. A ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA HOJE
2.1 – Sempre em busca.
2. A estrutura básica do ser humano segundo a fé.

Aantropologia Teológica

1. ORIGEM E EVOLUÇÃO DA ANTROPOLOGIA

A Antropologia (anthropos = homem, ser humano; Logos = estudo, tratado) surgiu com o
filósofo grego Heródoto, no século V a.C. Por ser o primeiro, pelo que se sabe, a tratar
sistematicamente do tema é considerado o pai da Antropologia. Ao longo da história, porém, esta
ciência passou por grandes mudanças, gerando várias correntes. Destacamos três delas:

b) A Antropologia Teológica (de índole judaico-cristã). É a que estuda o ser humano
(Anthropos) tendo como referência fundamental Deus (Theos). Passou-se da centralização no cosmo
divinizado (fase pagã) para Deus, quando o cristianismo suplantou a visão grega da realidade e
colocou tudo o que existe na relação com o Deus revelado (fase cristã). A Antropologia teológica
trabalha sobre a profundidade do ser: origem e fim, riquezas e limites, aspirações e linguagem,
comportamentos, mas à luz da revelação divina. Visa-se chegar a algo fundamental: o ser humano é
capaz de Deus, de acolhê-lo, conviver com ele, em comunhão e parceria com ele (cf. Catecismo da
Igreja Católica – nºs 27-73).
Há um pressuposto para esta vertente da Antropologia: Deus não é uma fantasia ou um
agregado mental na vida humana. Ele integra a própria estrutura humana e lhe confere a vocação
transcendente, que impulsiona o ser humano a ir além de si, a aspirar ao infinito, a reconhecer suas
limitações (fraqueza, enfermidade, erros, morte, pecado), que o desafiam a respeito do sentido da
vida, do sofrimento, da morte e da pós-morte. Deus lhe dá ao ser humano a capacidade de
reconhecer o valor de tudo o que existe e de transcender à realidade do aqui-agora, por um valor
maior e mais plenificador. É exatamente esta busca do transcendente que ele humaniza de modo
maravilhoso a si mesmo como ser humano (o humanum), isto é, quanto mais ele se insere em Deus
e no Projeto dele, mais encontra a felicidade. E é esta extraordinária capacidade que o faz, também,
humanizar tudo no cosmos, estudá-lo, manipulá-lo e canalizar todas as suas riquezas em vista da
felicidade, um desejo insaciável que faz parte de seu ser como gente.
Aos poucos apareceram dois princípios estruturais na antropologia teológica: o arquitetônico
e o hermenêutico. O arquitetônico como eixo do ordenamento de todos os eventos da história da
salvação em função de um Plano que Deus tem para a história do cosmos, da terra e da humanidade:
é o Plano Salvífico. O hermenêutico como portador da verdade primária sob cuja luz a teologia
procura compreender e interpretar e interligar os aspectos da história da salvação. Todos os grandes
pensadores do cristianismo colaboraram com o desenvolvimento da antropologia teológica, vista no
seu todo.
c) A Antropologia Filosófica Secularista realiza a mudança da centralização em Deus para a
centralização no homem, mas sem Deus. Este passo ocorreu na época moderna em conseqüência da
secularização e do ateísmo, este último desenvolvido no seio da filosofia européia e, especialmente,
pelo comunismo. Para os filósofos secularistas, mas este vertente tem seus inícios já no
Renascimento (século XVI), Deus desaparece de cena e cede lugar ao homem. O espírito humano
abre-se a um novo modo de ver e agir. Dá-se um violento contraste com o modo precedente de
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a) A Antropologia Filosófica pagã, mas aberta ao transcendente. Os filósofos antigos
buscavam a autonomia da razão, mas não desprezavam ou negavam a possibilidade da existência de
divindades e até as levavam em conta, chegando até mesmo à divinização do cosmos.

“o estado adulto. que alimentam o debate levando-se em conta a existência de Deus nesta trama misteriosa do mundo e da vida humana ou negando-a. Hume. Acontece. É a partir do olhar antropológico-teológico que detectamos o que a Revelação diz sobre o ser humano no contexto da obra da criação: uma criatura feita no tempo e que não teve existência espiritual antes da corpórea para usufruir da felicidade neste mundo e da glória de Deus na vida eterna feliz. Os textos bíblicos não pretendem apresentar dados científicos. Os mais importantes filósofos dessa virada histórica do modo de pensar o sentido e a razão de ser do ser humanos são Descartes. Não há dúvida – e o dia-a-dia o comprova – a humanidade continua sua busca do sentido da vida e da história. Hb 1. Spinosa. Depois de manifestar-se de muitos modos ao longo da história. inabitação (no Espírito Santo). fraternidade-amizade (do. É em direção a Cristo. com ele e por ele. sem dúvida. o ser humano procura alcançar progressivamente e com o impulso da graça que ele nos alcançou. E ele concedeu à liberdade humana a graça do chamado incessante para restabelecer a união homem-Deus. ao afirmar que o homem não é mais simplesmente o ponto de partida. afirmando que o mistério do ser humano só encontra sua verdadeira explicação e compreensão no mistério do Verbo encarnado. GS 22). no relacionamento dele com os homens e. o referencial humano-divino que. mas deixou plasmado na natureza própria do ser humano a necessidade de Deus e o impulso natural para buscá-lo.ifete. que o ser humano vive da graça do Pai. no uso de sua liberdade. no e pelo Filho). do Filho e do Espírito Santo: filiação (ao Pai). é o ser humano criado à imagem e semelhança do próprio Deus (mistério da criação). a sua experiência no mundo como ser humano em Jesus Cristo e. mais ainda. mas mostrar o propósito de Deus. à religião. A Igreja cristã. filmes. quando chegou à plenitude do tempo. no Filho de Deus que assumiu a condição humana na história com o nome de Jesus de Nazaré (cf. portanto. mas também o ponto de chegada da reflexão filosófica e de toda a história. é pelo Cristo que o ser humano é “justificado” (recupera a justiça perdida pelo pecado). 9-10). que viveu entre nós com plenitude humana. a passagem do teocentrismo para o antropocentrismo. como o ser humano perfeito. Para a Igreja o referencial “Adama” (homem e mulher). Kant. especialmente do próprio ser humano na complexidade da história do cosmos. porém. continua firme em sua fé e em sua missão. Hobbes. por ser ao mesmo tempo “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”. que tinha Deus como centro de tudo e de todo interesse humano. Portanto.br 2.13). a identidade profunda e única do especificamente 3 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. assim crê a Igreja.1 – Sempre em busca. isto é. livros. do sentido da existência do cosmos e de tudo o que nele existe. Deus deu-lhe a maior prova de amor. Multiplicamse sem cessar artigos. Deus-homem. rompeu com o seu Criador (pecado original). 2. canções. portanto. na linguagem bíblica.edu. É este o cerne da Antropologia teológica cristã. 1. porém. nele. não somente não o abandonou. Mas é Immanuel Kant. quem atinge o ápice do pensamento independente da referência a Deus. Deus. consequentemente. a estatura de Cristo em sua plenitude” (Ef. na liberdade. o seu próprio Filho divino em forma humana (cf. 1Jo 4. A ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA HOJE . E é a partir dele. obras de arte. Este ser humano. É ele que abre as possibilidades para que dali em diante muitos filósofos dêem continuidade. 4.Aantropologia Teológica entender todas as coisas e acontecimentos. ridicularizando-a e considerando toda e qualquer religião como uma invenção prejudicial ao ser humano. e passa a assumir o homem como centro de tudo. assim o ensina a Igreja. aprofundem e motivem levar à prática o secularismo ateu.

Na concepção hebraica as três realidades se apresentam como dimensões autônomas. e nós. biológica). spiritus-espírito).2 A estrutura básica do ser humano segundo a fé. anima = dimensão psíquica. relacional) é a dimensão vital similar a de todos os demais seres vivos. E como surgiu a visão do dualismo corpo e alma? Na reflexão tradicional e oficial da Igreja cristã. como seu reflexo. caro = corpo de carne) é a nossa realidade fisica. colitiva. porém. pneuma. latim e português. que assegura a possibilidade de comunicação e comunhão dom Deus. só é aceitável em nivel de fé revelada. quando. com a influência da cultura grega. é constiuído por seu modo de entender e explicar o ser humano como um organismo psicofísico resultado da estreitíssima união entre corpo. na história do cristianismo. Esta reflexão é importante porque houve. porém. alma (incluindo o espírito). no amor do Espírito Santo e como co-criador e cooperado em seu Plano de Amor sobre o mundo e a humanidade. . psychè. formado para ser rabino. b) Alma (nephesh. mas que possui em si. O refinamento da reflexão concluiu que a alma e o espírito são imortais. porém. Só posteriormente e muito lentamente. do belo. ser vivente em Deus e para Deus). complementaridade e busca de transcedência. isto é. é que se chegou ao seu início e no ocidente ao seu desenvolvimento. intelectiva. pneuma. enquanto outros defendiam a concepção dualista de corpo e alma. o sopro de Deus (espírito). em constante tensão aperfeiçoamento. ao passo que o corpo é corruptível. preciso deixar sempre esclarecido. sarx. da liberdade. 23). o predomínio da cultura greco latina na teologia fez acontecer uma fusão entre “alma e espírito”. afetiva. É. pois se faz uma clara distinção entre nephesh-psychè-anima (alma) e ruach-pneuma-spíritus. a alma e corpo de vocês sejam conservados de modo irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5. assim plena. Um dos diferenciais da antropologia teológica judaico-cristã. esta visão trinitária da pessoa humana. spiritus = dimensão transcentente espiritual). É exatamente aqui que se destaca ainda mais a unidade na dualidade entre corpo. É evidente que para ele a Antropologia não existia como discurso reflexivo e nem no decorrer do logo tempo da elaboração e finalização dos textos que hoje constituem a Sagrada Escritura dos judeus e a dos cristãos. confusão entre os intérpretes e estudiosos. E o ser humano como “imagem de Deus” (imago Dei). mas com os termos em hebraico. mas destinado à ressurreição. grego.Aantropologia Teológica humano assim enriquecido com a comunhão com Deus e que abre o ser humano definitivamente e de modo privilegiado para a comunhão consigo mesmo. São Paulo. por mais que muitas vezes apareçam distintas. 2. da verdade e da felicidade. em relação às outras antropologias. segundo a convicção cristã. um todo. que no dualismo cristão do ser humano como corpo e alma. principalmente em sua a capacidade de conhecer e amar o Pai. é a dimensão exclusiva do ser humano. portanto. considera o homem como “imagem e semelhança de Deus” e tem a Jesus como a imagem verdadeira do Pai. em sua carta aos Tessalonicenses fala do ser humano como corpo-alma-espírito: “Que o espírito. da vontade. a diferença da dimensão da auto-consciência. do Filho Redentor e do Espírito Santificador. Expliquemos um pouco. do senso ético. do afeto-relacionamento. alma e espírito. que. formando uma unidade. da busca do bem. entende-se por (ruach. mesmo que de forma espiritualizada. em teologia se fala em “alma”. c) Espírito (ruach. com os outros. ao contrário da concepção maniqueísta que ensina a docotomia estraguladora 4 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. Com isso. fruto da criação direta de Deus (sopro-ruach.ifete. com a natureza. por meio de Filho.br Este mesmo olhar de comunhão. isto é. segundo a visão hebraica e que Paulo utiliza na carta aos Tessalonicenses: a) Corpo (bâsar. obviamente está subentendida a visão trinitária. alguns afirmando que Paulo tinha uma visão tricotômica do ser humano. carrega em si mesmo as marcas do Criador.edu. um composto de três partes separáveis.

em relação a todas as demais religiões e filosofias. 119: comparar os versículos 47. Jr 10. pois implica uma plenitude existencial. apostila sobre a Trindade. portanto. O ideal mais desejado é a preservação e o prolongamento da vida (Dt 5. pois Deus não se ocupa dos mortos (Sl 88.41s. em sua harmonia pelo pecado. etc.17.). ao colocar.ifete. não se extingue com a corrupção do corpo.19.103.48). para quem tem o dom da fé revelada.3.38.6. tanto que a expressão se tornou uma fórmula de juramento (1 Sm 14. deve ser desprezado e massacrado. como parte da promessa.4). podendo subsistir sem a matéria corporal. Jr 4. é expropriação do âmbito da relação com o Deus vivo. Esta característica não é esquecida nos textos onde a morte aparece como algo natural (Gn 15. É Javé quem outorga. negação da vida. Em virtude disso.13. os mortos.4. em sua realidade sexual.13). a existência efêmera como a sombra (Jó 14.). a força e o bem-estar.edu.16).10.13. mas um “invocar a morte com obras e palavras” (Sb 1. 17. não pode ser corrompida. e por isso. o „sheol‟ A morte é o compêndio de todos os males.1. não se fecha na cultura grega e diz que a alma (no sentido de nephesh-psychè-ánima e. Is 38. 3. e que. pois a vida é vista como dom de Deus. a existência é vida apesar de penúrias e dissabores (Sl 22.165 com os 23. está se falando da ruach.11. Para ele. 16. Então. pois mantém sua operação intelectiva apreendida mediante a operação sensorial. 12.29. noite espessa (Sb 17. do espírito humano no sentido espiritual.29). Ele.49.. A morte é situação de silêncio (Sl 31.Aantropologia Teológica do ser humano. torna os homens pouca coisa (Sl 89.8. o ser humano é um todo unificado.32. O conceito de vida é expresso com um plural intensivo. diz o maniqueísmo. o espírito (ruach-pneuma-spiritus) está.26. o mal por excelência. Javé é o vivente por antonomásia (Dt 5.13). de solidão existencial.3. . como já aludimos acima.10). mas sem a explicitação que deveria existir.11) e estes não louvam a Deus (Sl 6.2 . 84. “o Deus Vivo”). Ora.14. Ao caráter luminoso da vida se opõem os traços mais sombrios para descrever a morte: amarga lembrança (Eclo 41.21.14.18.10. como na filosofia de Platão.143).A Vida A esperança inicial de Israel fixava os olhos dos fiéis sobre a terra. a saúde. 30. Transgredir o preceito divino é experimentar a próprio condição mortal (Gn 2. Viver é mais do que existir. Ez 18. se a alma é espiritual. uma excomunhão.10. dotado de existência própria.4).2).6. Os documentos do Magistério da Igreja afirmam que a alma é espiritual e dotado de imortalidade. também ele.20).16) e nele está a fonte da vida (Sl 36. qaunto à antropologia.11).br A discurso filosófico e teológico sobre a estrutura antropológica cristã tradicional do ser humano se plasmou nos escritos de são Tomás de Aquino. como pressuposto e parte integrante da promessa e como comunicação de seu próprio ser vivente (Cf. O ponto máximo da vitalidade se alcança quando a relação homem-Deus é atuada como comunhão. E este é um dos importantes diferenciais da fé cristã. A morte. pois sendo espírito. o corpo como uma prisão da alma.11-13.17) e de esquecimento (Is 26.20. porém. 30. a ela pertencem a segurança. porém.61. 5 Instituto de Formação e Educação Teológica – www.15. mas que só é aceitável. pelo qual o homem está disposto a dar tudo (Jó 2. Ecl 9.2. 25. não no céu: Sl 115. 3 – VIDA. conserva e prolonga a vida. autônoma e independente da matéria. o israelita pode confessar: “A tua graça vale mais do que a vida” (Sl 63.16. portanto do corpo vivo. É o bem supremo.17. porque o corpo é obra do deus demônio. Sl 42.35. A morte coloca o homem numa situação de excomunhão. trevas (Sl 88. Aqui.7. Uma existência conduzida à margem da Aliança não é vida autêntica. sobretudo.39. portanto. Jr 2. 115. MORTE E RESSURREIÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO Essa questão é conhecida também como o problema da retribuição individual após a morte.92. 3. 88. encarcerado no corpo humano e dele precisa se libertar e.16.23. mais ainda. 84. Sl 88. também.6.11. prejudicado..18s). de ruachpneuma-spiritus) é a “forma” do corpo.A morte.17). Am 5.1) que suscita lágrimas (Eclo 22. 115. a partir do dualismo clássico.5s. 94. O fundamento para essa concepção não é materialista. „hayyim‟ (‫ )חַּיּים‬que vem a ser também felicidade. Não há nenhum sentimento trágico da vida.

3 . o mediador entre o indivíduo e a justiça distributiva de Javé. 10.2). não podiam satisfazer a Israel. mas mostra o apreço pela vida e a negatividade da morte. 3. 112. O objeto da eleição divina é o povo como tal (Dt 7. mas a perspectiva dos prêmios e castigos continua sendo temporal (28. Hab 1.edu. Ml 3.23-32. Em Jeremias a crise é apresentada como pergunta angustiante (12.30). Nm 16. 7.31-34).2529). O oráculo sobre a nova aliança tem seu centro de gravidade a inscrição da Lei no coração de cada homem (Jr 31. 94.1. envolvendo outros nos méritos ou deméritos dos indivíduos (Gn 7. assim.. 74.20.3). a fidelidade e a infidelidade ? Para responder a essas questões Israel deverá modificar totalmente sua concepção sobre a morte e o sheol.17s. 31. não pede uma continuidade.22. o indivíduo é alcançado pela justiça em razão de sua pertença à comunidade da aliança.19.22). tal afirmação não contém caráter ético. Tal solução estava longe de ser satisfatória (Jr 17. mas aos pecados pessoais dos contemporâneos (Ez 18.20). a correspondência entre o princípio e a realidade não é mais sustentável. O sheol é a sorte comum para todos indistintamente (Ecl 9. 12.2. 31. Javé conserva seu poder de intervenção também em relação à morte e aos mortos. 8. Mas é em Ezequiel que lemos a chamada mais incisiva para a responsabilidade dos indivíduos e para a religiosidade pessoal.22-27) não constitui uma retribuição. 24. 3-8).24-26. Tal retribuição é claramente solidária.14). e assim por diante. A comunhão vital do homem com Deus.A crise da doutrina tradicional No confronto com a realidade a tese tradicional entrou em crise. e lá pode realizar seus prodígios (Is 7. comuns a outros povos.4. 37. 9.10-18. Em Dt 28 o princípio da solidariedade está codificado (cfr Jr 31. 33. 3-8. os mortos sobrevivem. podia se aceitar que inocentes pagassem junto com os culpados. Sl 135.13. A conservação de uma certa hierarquia social (Is 14. Sl 39. 28. O livro dos Provérbios mantém a versão da retribuição temporal e individual (1. Cada um será julgado segundo seu proceder individual. Sl 139. terra do esquecimento. Js 7. Ecl 2.1-4.Retribuição: a tese tradicional As ações boas e más recebem de Javé a devida retribuição: Adão é punido por seu pecado. 7s. destino sem volta.27-36. A mesma inquietação está presente em alguns salmos (6.18-21.6. mas com a entrada da visão da responsabilidade pessoal.4 .21. 9s. 1-17).1-3.8. prêmios e castigos são temporais.1. A solução é buscada na intervenção divina que desvela o caráter efêmero da prosperidade dos pecadores (Sl 6.ifete. pois é só um reflexo póstumo da glória terrestre do defunto. Enquanto permanecia a concepção solidária. cfr. A situação presente não é devida às culpas dos antepassados. 3. 19. É a linha de vários salmos: 1.30). a fé de Abraão merece um prêmio. Ez 32. que vale como residência indiscriminada de todos os mortos (Jó 3. 15. sem que isso signifique uma aniquilação do homem e nem muito menos uma imortalidade da alma. Noé é salvo por sua inocência. mas não cessação total da existência.br O lugar dos mortos é o „sheol‟ (‫)שֽאֹול‬.12).13. 24. 4.20. 128.24-27. 13.12.16-18.14s).6). reino das trevas e do pó.6-8) e com o povo Deus fez aliança (Ex 19. Jó 34.12-16. ֽ Esse termo deriva provavelmente do verbo „rafah‟ (‫)רפָה‬. A morte é perda da vida. . a corrupção de Sodoma merece castigo.9-11. Ez 18.11.6. ָ ser fraco.10.29.10.15). 20.18.3).1.2. é o povo o sujeito da retribuição. Entre esses dois extremos situa-se a concepção hebraica dos mortos como „refaim‟ ‫))ר ָפאִים‬. 10. 91. Se por outro lado o „sheol‟ é chamado de lugar de perdição (Sl 88. Por isso.29. 1-24.13. onde seus habitantes arrastam uma semi-existência umbrátil. Deus sanciona o bem e o mal com prêmios ou castigos terrenos e coletivos. 2Sm 24. A sua mão chega até o „sheol‟ (Am 9. Todavia. 1Sm 2. mesmo após a morte? Como o Deus da Aliança retribui o bem e o mal. Hab 2. Ml 6 Instituto de Formação e Educação Teológica – www.3. 3. Tais concepções.Aantropologia Teológica Contudo. Jó 26. Então se reduz de tal forma o dinamismo próprio do ser vivo que se pode falar do defunto como de um não existente (Jó 7.

não por uma fé na ressurreição ou na imortalidade. Com os dois citados livros. mas porque a presença do Deus vivo relega a um plano secundário toda preocupação.1-14 descreve a reviviscência dos ossos ressequidos serve para afirmar o poder de Deus que faz o seu povo reviver após o exílio. que faz com que a vida não tenha sentido. o poema constitui a mais violenta requisitória contra o princípio da retribuição. Faz-se mister explorar outras vias.18s) na certeza que os ímpios serão punidos (Sl 38. 2Rs 2.Aantropologia Teológica 3. O verbo usado para tomar é „laqah‟ (‫)לקח‬. A vaidade é a ausência de valores. a fronteira entre a realidade e a imagem não 7 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. O Deus fiel seria fiel até o fim se permitisse que a morte interrompesse o diálogo? Os três salmos dão testemunho de uma atitude nova. o justo goza de paz interior (Sl 94. mas não irá passar muito tempo sem que se afirme a fé na ressurreição. enquanto o sheol será a residência dos pecadores. contesta com furor a concepção de um deus e de uma existência que resultam incompreensíveis. os salmos não nos fornecem uma concepção precisa.25). Enquanto os malvados correm para o sheol.ifete. Deus nunca é declarado inexistente. Todavia. 12-18. 10-11 a comunhão com Javé é sentida como tão forte que o temor da morte parece superado. 3. segundo a qual a esperança não vacila nem sequer diante da morte. Se a vida com Deus possui já agora uma densidade suficiente para plenificar a existência. assim como a sabedoria. mesmo sem ter conseguido tirar Deus de seu mutismo. O impressionante realismo com o qual Ez 31. 3. A única coisa a se fazer é viver enquanto dá.br O que em Jó era uma apaixonada explosão de rebeldia contra as soluções convencionais. Feita a crítica à solução tradicional. a vida dos fiéis está assegurada por uma intervenção libertadora de Deus. Nos versos 23-28 aparece de novo o verbo „laqah‟ (Deus tomará consigo o fiel na hora da morte?) e se exprime a confiança ilimitada no caráter indissolúvel da união amorosa com Deus. mas agora também isso é vaidade. 1-3 afirma que Deus irá fazer seu povo reviver e se erguer: isso significa cura e alívio na enfermidade. não na garantia de uma solução para o problema da retribuição. 22s). No salmo 16. Jó crê em Deus por Deus mesmo.6 .24. A realidade de Deus é mais forte que a angustia e o ceticismo. no livro do Eclesiastes se torna um sereno e corrosivo ceticismo e uma ironia desencantada. 94. não aparece nenhuma perspectiva que possa satisfazer. Todavia.17s). Jó protesta furiosamente contra suas calamidades. sendo que Javé tem o poder de devolver a vida a um organismo morto. sem nenhum apoio imanente. desfrutando dos bens da vida como dons de Deus. . tem sentido o pressentimento de que há de transcender todo e qualquer condicionamento. Jó acreditava na felicidade. Contudo é no livro de Jó e no Eclesiastes que a crítica vai se tornar devastadora. O salmo 73 opõe ao bem-estar dos pecadores a felicidade fundada na comunhão com Deus.A fé na ressurreição Preparando essa fé temos alguns oráculos proféticos que adotam uma linguagem simbólica para afirmar o poder de Deus sobre a morte. A fé se baseara na vivência existencial da comunhão com Deus no tempo e na história. pondo fim à tese tradicional.3ss). No salmo 49. Enquanto o prólogo e o epílogo mantêm a visão tradicional.5 . ou ressurreição? Em todo o caso. o problema da retribuição chega a um ponto morto. 16. Por que a morte teria mais poder do que esse amor indestrutível? Como poderia quebrar essa união tão firme? Os três salmos expressam a intuição da exigência de perenidade que a vida com Deus outorga. Os 6. o salmista afirma que será tomado das garras do sheol. trata-se da ressurreição do povo. inclusive com a morte. Deus tem sentido mesmo quando não traz alegria e segurança. A presença é sentida com tal intensidade que não se vê como possa ser interrompida com a morte. Da incompreensibilidade de Deus não se conclui a sua negação. A fé suporta a irracionalidade do mal. Apesar de ausente.Primeiros passos de uma solução Em três salmos a meditação sobre a natureza da relação Deus-homem alcança um altíssimo grau de exaltação religiosa. subtraídos ao desfecho comum da existência humana e assumidos por Deus junto dele. usado para Henoque e Elias (Gn 5.edu. Por sua parte. rumo ao que transcende o tempo presente. pelo contrário (Jó 19.

em Isaias se trata ainda de um pressentimento que não dispõe da noção clara de um acontecimento.14). Há continuidade perfeita com a idéia bíblica de vida e de morte. pôde sobreviver uma esperança que sabe mirar além dessa existência. e ainda Sb 4.9). A ressurreição é a única resposta que torna Deus alguém digno de crédito.9.1.15s com Sl 16. 5. a alma separada ou o homem inteiro? Quando surtem efeito os prêmios e castigos. ou se deve falar de uma outra para a morte? Estes últimos não são os que não ressuscitam de fato? De qualquer modo. uma vida eterna cuja recompensa é o próprio Deus (5. Alguns anos mais tarde. Não se trata aqui da alma naturalmente imortal. o segundo livro dos Macabeus apresenta uma visão semelhante. 8 Instituto de Formação e Educação Teológica – www.4.edu.3.A doutrina da imortalidade no Livro da Sabedoria Com este livro. Portanto. De fato.25s. 9-11. mas como algo experienciado no tempo da existência terrena.16 e 73. 73. mas resultado do conhecimento do Deus com o qual se conviveu pela fidelidade à sua Lei. A naturalidade e concisão com que expressa. é somente com o livro de Daniel que temos o primeiro testemunho categórico da fé na ressurreição. é manifesta a importância transcendental dos textos examinados: achou-se uma resposta para o mistério da morte.2). αυθαρσία (1.24). Para esses textos todos. com seu indissimulado matiz polêmico. aparece na Bíblia hebraica um vocabulário novo. colocaria em questão a sua própria honra.υστή. no fim dos tempos (v.). Aqui também a ressurreição é no fim dos tempos. uma mera aparência de morte (3. Se assim não fosse.7 . A imortalidade dos justos é um estar nas mãos de Deus (3. num contexto claramente escatológico: Dn 12. . No capítulo 7 e no 12 trata-se da ressurreição dos mártires. 2.13 e 53. Entretanto. nem uma solução do problema da retribuição. da sabedoria. 23. 22s. da decepção do afastamento (Eclesiastes). ou então não seria aliado do homem. desconhecido até pelos LXX: σφμα . 15. αθανασία. enquanto que os justos são transferidos por Deus (4. um parentesco claro com os salmos (compare-se Sb 3.2s). a morte martirial será seguida de uma reabilitação. ficando em suspenso o destino dos ímpios.11.ifete. deixa transparecer que não todos os judeus assim pensavam. seu fim terreno é uma saída (3. dá a entender que a idéia gozava então de uma ampla difusão. e o que era um recurso literário para exprimir plasticamente a volta do exílio abre a possibilidade que se atribua a Javé o poder e a vontade de restituir a vida também aos membros mortos do seu povo.10s temos um precedente já bem próximo dos textos capitais de Daniel e Macabeus. o dinamismo das imagens orienta o pensamento para uma concepção realista da ressurreição. Como essa relação nunca foi vista como meramente futura. 3. 4. ou Deus não seria Deus.10s. σφμα – πνεσμα. várias questões permanecem em pé: qual o substrato ideológico da distinção alma e corpo: mero empréstimo terminológico ou introdução de novo esquema antropológico.1). diferente da concepção tipicamente unitária da tradição bíblica? Qual o sujeito da imortalidade. do gozo de sua presença (Salmos). A justiça e o amor de Deus são mais fortes do que a morte. a glosa de 12. é Deus quem vai abrindo caminho na alma de Israel. O termo „morte‟ só é empregado para os ímpios. o que diz o texto exatamente: só uma parte dos judeus ressuscitará ou todos eles? Há ressurreição só para a vida.. 2s. a ressurreição é afirmada certamente para os mártires. 43-45 (cfr BJ).9.1. 3. ou no final dos tempos como em Daniel e Macabeus? Através da dor de seu silêncio (Jó). logo depois da morte. mas do fruto da justiça. da santidade. mas da reflexão sobre o ser e os atributos do Deus da Aliança. porquanto se trate ainda de uma resposta controvertida e limitada: Deus ressuscitará aqueles que tiverem morrido pela honra de seu nome. A fé não nasce de um nostálgico desejo humano de imortalidade. Todavia. Contudo.27-29) e de seus filhos (vs..4. sem preocupação com explicações mais detalhadas. Se Deus deixasse na morte aqueles que lhe são fiéis na vida e na morte. A ressurreição não é uma consideração abstrata.Aantropologia Teológica é tão precisa. ainda no tempo de Jesus a seita dos saduceus se opunha tenazmente a essa fé.23.15).13) cada um será julgado segundo sua conduta. na graça e misericórdia divinas (3. Com Is 52. Os maus irão perpetuar sua existência no sheol? Pelo jeito. aqueles que caíram por causa da fé durante a perseguição de Antíoco Epífanes.br Todavia. As opiniões dos críticos se dividem quanto à interpretação de Is 26.10s com Sl 49. Mas.13.14). a esperança da ressurreição. 19: profecia da restauração nacional ou primeiro anúncio formal de uma ressurreição dos indivíduos? Em todo o caso. pela boca de uma mulher do povo (7.

Na 1 Co 3.1017 Paulo simplesmente adverte os missionários pouco zelosos do risco que correm. mas isso às custas de uma exegese acomodatícia. 2 Mc 12. Oblações e preces no aniversário da morte ou no trigésimo dia.br Lutero afirmava que o purgatório não pode ser provado pelas Escrituras canônicas. caso a consigam. Além da já citada em 2Mc 12. 3. temos a de 1 Co 15. mas como se tratava de mártires. . Todavia. na época não se pensava ainda em purgatório.40ss. À luz dessa possibilidade devemos contemplar o costume da oração pelos defuntos à qual se referem as Escrituras em várias passagens. que implica uma participação pessoal na reconciliação com Deus. mas em certas idéias gerais que são clara e repetidamente ensinadas ao longo dos escritos. como também o terror de ver a Deus (Ex 20. Daí o complicado cerimonial do culto israelita. 9 Instituto de Formação e Educação Teológica – www.8 – O Purgatório Este tema é objeto de controvérsia inter-confessional.1 – A doutrina da Escritura Mt 12.8 e 52. os medíocres (os que não são nem totalmente bons e nem totalmente maus. em seguida sobem e são curados”.2 – História do dogma A tradição mais antiga nos oferece abundantes testemunhos a respeito de orações (litúrgicas ou particulares) em favor dos defuntos. como fica mais claro no paralelo de Lc 12.18s).8.para dizer que nunca serão perdoados. O estilo redacional semita apresenta dois extremos – “nem neste mundo nem no outro” . Como reação.ifete.8. os completamente ímpios.C. influenciada por uma visão dogmática posterior aos textos. Oriente e Ocidente. lembrando uma diferença de grau em sua recompensa. “No juízo há três categorias de homens: uns são para a vida eterna. Nos quatro primeiros séculos essas práticas eram estendidas a todo o mundo cristão. A outra idéia é a da responsabilidade humana no processo da justificação.29.40-46 traz uma contribuição maior: o rito da expiação (kippur) não aproveita somente aos vivos – como se praticava até então – mas também aos mortos que morreram numa situação objetiva de pecado. para a vida eterna no dia da ressurreição. Dessas idéias surge naturalmente a suposição que aquele justo que morre sem ter se purificado e sem ter reparado suficientemente o seu pecado. segundo a qual certas ações litúrgicas podem beneficiar aos mortos.10. para a vergonha e o opróbrio eterno. motivo pelo qual será importante precisar quais os elementos essenciais da doutrina católica e quais as razões que levam outras Igrejas a não admiti-lo. Esclarecedor é o passo à frente testemunhado por um texto da escola do rabino Shammai (por volta do século Iº d. outros.16-18 lemos a intercessão por um cristão já falecido. 13-14 o perdão de Deus não exime Davi de sofrer o castigo por seu pecado. Uma delas é a constante convicção de que somente uma absoluta pureza é digna de ser admitida à visão de Deus. e que podem considerar-se como o núcleo germinal do nosso dogma.27). Assim nas catacumbas e nos cemitérios cristãos. presumivelmente explícitos. deva pode fazê-lo após a morte. e guardam um lugar intermédio) descem à geena para serem apertados e purificados.Aantropologia Teológica 3. Is 35. A base escriturística para a doutrina do purgatório não pode ser encontrada em alguns trechos particulares. Na 2 Tm 1.32 não quer afirmar que há pecados que serão perdoados após a morte. os católicos tentaram provar o contrário. 3. Particular importância reveste a memória dos fiéis defuntos durante a celebração eucarística. era possível dispô-los para irem do lugar provisório. pois os pecados cometidos pelos caídos na guerra eram graves (idolatria). 1 trata da impossibilidade na qual se encontram os que não estão completamente limpos para transitar pela Jerusalém escatológica (como em Ap 21.). assim como a aceitação das conseqüências penais que derivam dos próprios pecados: em 2 Sm 12. que era o seio de Abraão.edu.

presente já na própria consciência da imperfeição. O Concílio de Trento. próprio da igreja oriental. pois não se fala mais de expiação e purgação. como se a justiça de Cristo não tivesse sido suficiente para cobrir até os mais graves pecados. quando acompanhada de um sincero desejo de aperfeiçoamento. não podendo ser cancelado somente pelo perdão. mas errado. 10 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. FC 8108). Define então: . não foi muito grande. DS 856. Pede que sejam readmitidos à comunhão eclesial antes de terem expiado suas culpas. devem ser considerados complementares. as divergências não tardam a se manifestar. e não antitéticos. em conseqüência. A questão foi enfrentada no Concílio de Florença (DS 1304s. A visão grega deve ser reconhecida como unilateral. sem falar que a idéia de pena expiatória não é desconhecida pela tradição oriental. FC 0022s). inicialmente favorável a reconhecer o purgatório por causa da tradição. pois. os defuntos se tornarem mais preparados para a vida eterna. penal.8. da verdade da fé. “de questões sutis que não contribuem para a edificação e nem para a piedade” do povo. de um estado que eles consideravam propício para. a eficácia do decreto pretendendo combater as deformações. algumas grotescas. mas de purificação. A noção dogmática do purgatório não se presta a nenhuma conclusão sobre a natureza das penas. não é possível esquecer que todo processo de amadurecimento ou de purificação traz consigo um certo coeficiente de sofrimento. não lhes parecia acertada a noção de satisfação penal desenvolvida no Ocidente (cf. sobretudo. O capítulo VII da Lumen Gentium do Vaticano II contém várias referências ao estado de purificação após a morte. . essas três notas que compõem a noção dogmática do purgatório. FC 0029). proibindo de expor a doutrina do purgatório carregando-a de acréscimos inúteis. acatando a posição grega. lembrando que para os que não morrem mártires haverá um fogo purificador (ignis purgatorius). A oposição dos gregos à teologia latina se resume em três elementos: o caráter local do purgatório (para os gregos é um estado).a existência de um estado no qual os defuntos não inteiramente purificados são purgados („purgari”).br Todavia. 3. Seria então legítimo até mesmo reduzi-las à dilação da visão de Deus. Lutero.o caráter penal expiatório desse estado (são purificados „poenis purgatoriis seu catharteriis‟). Ainda em 1254 o papa Inocêncio IV se limita a pedir aos gregos que adotem o temo „purgatório‟.ifete. O decreto é animado por um sadio espírito de autocrítica. Em tempo de perseguição há cristãos que podem morrer sem terem tido tempo de cumprir o regime penitencial imposto pelo costume da Igreja. O elemento de expiação penal deve ser equilibrado com a idéia de processo de amadurecimento. A definição conciliar deixa de lado a idéia do fogo e a do purgatório como lugar. em 1530 passa a negar sua existência.3 – Reflexões teológicas Um modo difundido. Entretanto. através das orações da Igreja. o caráter expiatório. de entender o purgatório é concebê-lo como um inferno temporário. . a existência do fogo (idéia julgada próxima ao origenismo) e. sem propriamente suportar uma pena. Concílio de Lyon em 1274). O tema de purificação. Contudo. O defeito na santidade imputada ao pecador seria o defeito da santidade de Cristo. o vocabulário é mudado. Infelizmente. É possível que a insistência latina na pena positiva do fogo tenha produzido tal reação.a ajuda que os sufrágios dos vivos prestam aos defuntos nesse estado. em coerência com o princípio da sola Scriptura e com a afirmação da suficiência da satisfação de Cristo. abundantes nas representações populares (DS 1820. pelo fato de passar por cima dos aspectos negativos da passagem de um estado de pecado para a santidade e amizade com Deus. Temos aí uma confirmação da melhor tradição e dos decretos de Florença e Trento. FC 0012. próprio da igreja latina. A partir desse momento as referências ao purgatório (lugar ou estado) far-se-ão sempre mais freqüentes e inequívocas. Embora sem precisar a natureza dessas penas. que levou os orientais a excluir todo e qualquer elemento expiatório.edu. dado que já crêem na doutrina (DS 838). censurando os traços “curiosos ou supersticiosos”.Aantropologia Teológica A passagem da fé implícita para a explícita é testemunhada por São Cipriano (martirizado em 258). nessa questão o Concílio não acatou a posição grega. . São. trata do purgatório no decreto sobre a justificação (DS 1580. e o da expiação. O pecado cria uma situação objetiva de desordem que transcende as relações inter-pessoais. tanto entre os latinos como entre os gregos.

proporcional à necessidade de cada um. a verdade do purgatório supõe que o homem não se limita a ser salvo. há os que preferem pensar o purgatório como uma dimensão do próprio juízo particular. Se é verdade que os que deixam a vida presente não entram numa eternidade temporal. quando o termo é empregado em um sentido particular. optam por uma purificação intensiva no próprio momento da morte ou imediatamente depois. Isolar um significado tem sido causa de distorções. jamais. Cabe agora a pergunta: por que não é suficiente o marco temporal da história da pessoa para que esta alcance sua maturidade? Por que a mais sincera e autêntica conversão do centro nuclear da pessoa pode ter deixado intacta esta ou aquela zona de sua periferia. O purgatório deve ser pensado somente na modalidade de uma extensão temporal. .ifete. por outro lado não precisamos supor uma sincronia perfeita entre o tempo e o evo. salvação. original. a Igreja peregrinante e a Igreja padecente na purificação. une e faz circular a vida em todo o organismo constituído pela união entre a Igreja celeste. significados e interpretações do termo. com tudo o que tem de próprio. Contudo. ora em outro sentido. Ao contrário. Esses cinco itens do termo "graça" são. Hoje entendemos melhor que é indispensável conseguir captar e manter a continuidade orgânica dos vários aspectos. Pio de Petralcina) ou na provação da fé (Santa Teresinha) a paz interior e a firmeza na fé constituem o selo da ação do Espírito Santo. medicina e sacerdócio. não devem ser esquecidas as relações com os outros sentidos. 11 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. mistério. Evangelho. Se isso pode ser sustentado. o desenrolar dinâmico da realidade estudada. pois a ação da graça nem sempre é clara ou agradável para nós). uma expressão extremamente sintética e global. encontro do pecador com o rosto de chamas e os pés de fogo do Cristo (cf Dn 10. quando tal integração não se verificou – por qualquer motivo que seja – antes da morte. Este sentido global já está em At 20. ao mesmo tempo: . .aspectos da graça: uma realidade em si mesma única. fé. Mesmo na noite escura (São João da Cruz. Portanto. então o purgatório pode perfeitamente ser pensado como a integração de todas as diversas dimensões do homem na sua única decisão fundamental. Ap 1.6: "compreender a graça de Deus". ajudadas pelos sufrágios dos fiéis e a intercessão dos santos. reduzindo toda a graça a um aspecto apenas. A dificuldade para essa interpretação vem do fato que parece tornar inúteis as orações pelos defuntos.6. A necessária purificação é intensiva ou extensiva? Os teólogos que não vêem de bons olhos a idéia de uma escatologia intermédia ou a existência de uma alma separada. Nela a purificação radical e profunda das imperfeições está unida a uma experiência reconfortante da proximidade de Deus. Se a purificação é necessária. Reino. atribuindo a um sentido características de outro (por exemplo: virgindade e sexualidade. São Paulo da Cruz. no uso e no estudo teológico. cristão ou budista.significados: o termo "graça" pode ser usado ora em um. capaz de abranger a totalidade do fato cristão. em sua essência. mas que se apresenta organicamente em várias manifestações progressivas. para lembrar os principais. ou pode ser pensado como uma purificação instantânea provocada pelo encontro com Cristo. mas sim por serem membros do Corpo de Cristo.edu. a hierarquia interna. em tom maior ou menor. O HOMEM NA GRAÇA DE CRISTO O termo "graça" tornou-se. é graça (a “tônica” da melodia). 4. o amor que não é comprometido pela morte. ser bom com ou sem vida sacramental. O termo conota outros aspectos da mesma realidade global denominada economia. pois ele deve também operar a sua salvação..Aantropologia Teológica Não podemos aceitar a visão protestante.14).br A experiência mística pode nos dar a melhor analogia para representarmos a natureza do purgatório. A necessidade de completar o processo da maturidade espiritual e de reparar os pecados cometidos faz ressaltar o caráter social da santificação: as pessoas não cumprem seu destino individualmente. tudo é graça! cada uma de um jeito!). Porque Deus. mas também em um purificar-se. esquecendo sua conexão com os demais. independentemente dessas questões. O amor de Deus mais forte do que a morte. ela consistirá não só em um ser purificado. para isso dirige suas obras na história e sua ação no homem (a "mediante" da melodia. distintivo e específico.. Não se deveria. que dá dinamismo e movimento). fixar-se num aspecto. Em diferentes ambientes e épocas da história sempre predominou uma das acepções. no vocabulário cristão. segundo a qual a eficácia da ação divina só é plena quando exclusiva. vida eterna. Em tudo o que Deus faz é o que Deus tem em mente. ele quer comunicar-se pessoalmente com o homem (a "dominante" da melodia.24: "o evangelho da graça" e em Cl 1.

Teoricamente poderia ter sido de modo diverso. fruto da ação do Espírito Santo na compreensão da fé. típica do cristianismo. levando até ao amor ao inimigo. ou seja: o uso do termo graça. Com efeito: 1.1 .fazer-se próximo de quem está humanamente distante. não somente as intervenções avulsas e excepcionais. tomando-se o homem na sua relação pessoal com Deus. não simples dádiva ou benefício especial. mas passar para a ação efetiva que procura atingir metas.não se limitar às boas intenções. que não depende do merecimento ou da capacidade de corres-pondência do outro. O amor fraterno é. Atualmente denominamos a primeira simplesmente “graça” e à segunda damos o nome de “carismas”.a experiência da Aliança com Deus. 2. Atualmente o tratado da graça foi também denominado de “Antropologia”. É importante perceber a continuidade com o todo da teologia. A graça não é o conjunto das coisas que Deus dá. querendo o seu progresso. aprimorar a qualidade do relacionamento. O nosso enfoque é antro-pológico. benfeitorias e milagres.operosidade esclarecida.certos termos da língua e cultura hebraica e grego-helenística que configuraram e resumiram a experiência de Israel (pp. 4. 3. graça excedente. 13-14). . talvez nunca tenha sido totalmente assimilado por todos os crentes e teólogos. é bem mais do que a realização de milagres ou a concessão de carismas extraordinários. meditadas. analisadas.Fatores na formação do conceito cristão de graça Os assuntos estudados anteriormente é o resultado de um lento e complexo processo de elaboração de experiências vividas. portanto: 1. Esta é necessária para cada indivíduo. não é algo de necessário logicamente. A graça é a totalidade da obra de Deus. 3.edu. dentro das quais a própria revelação acontece. Atuar sobre as estruturas que condicionam os comportamentos. A graça é comunicação pessoal. estímulo exterior. transformação moral ou psicológica. suplementar. mas não para cada pessoa. sentimento intimista.14-15).Aantropologia Teológica O esquema apresentado diz respeito à graça denominada tecnicamente “gratum faciens” (a graça que torna o homem agradável a Deus). que transcende as visões parciais das religiões e da religiosidade natural. que transforma seu ser e sua vida. 2. mas é o resultado de opções livres e interpretações subjetivas. Não iremos estudar tudo o que o termo graça abrange. 4 e 5. 12-13) continuada pela Igreja (pp. . pois o homem só é plenamente humano quando vive a relação pessoal de gratuidade com Deus. . 4 e 5. expressas e organizadas segundo uma linha contínua e coerente.a experiência comum das relações de gratuidade e da atração fascinante (pp. culminando na prática de Jesus (pp. mas o que ele quer ser para o homem e com o homem.A graça não é somente conscientização. mesmo em seus aspectos contraditórios. tão comum no povo cristão. confrontadas. não só cumprir a obrigação ou prestar a própria contribuição.iniciativa gratuita. 12 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. Tal conjunto.br O reconhecimento de cada um dos aspectos da graça constitui um eminente ato da fé. não em conseqüência da solicitação humana. 8-11). mas de fato foi assim. Os vários aspectos do termo “graça” se refletem nas diversas expressões que a caridade fraterna assume no cristão favorecido pela graça divina. Podemos reduzir a três os fatores na formação do conceito de graça: . Promover o outro como sujeito do próprio crescimento. Deus é graça em si mesmo. Não consideramos neste curso a graça chamada “gratis data”: a graça dada gratuitamente. Esta é necessária para a santificação da Igreja. boas intenções.ifete. tanto sistemática quanto moral. participar de sua vida. para conceituar o conjunto da revelação e da experiência cristã. sem visão de conjunto.

br O conceito de graça no cristianismo deriva não de um só..6. parental. 13 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. religioso. Em um segundo plano. teológico .. Em Jo 1.edu. mantendo-se generosamente fiel a ela.15. filial. Sl 117. Trata-se de evolução semântica. Deus de piedade Rahum e compaixão Hanun lento para a cólera cheio de amor e fidelidade Hesed Emet Jonas 4. Senhor.103.2 Tu és um Deus de piedade Hanun e de ternura Rahum rico em amor Hesed Os termos principais são três: “hen” . Cada um desses vocábulos tem uma longa história: uso profano. Nota-se aqui um deslizamento do significado. Indica o sentimento materno em relação ao fruto das entranhas (o singular de “rahamim” é “rehem”. Aparece na expressão freqüente: "encontrar graça aos olhos de". O Novo Testamento e a subsequente tradição cristã os reassumem e renovam.25.8).ternura. “Hesed ve emet” significa graça fidedigna e constante. A expressão “rahum vehannun” (adjetivos de “hen” e “rahamim”) é freqüente para designar Iahweh. a solidez. É a lealdade que se espera de alguém por causa de um contrato. que significa útero). espírito. Deus de ternura Rahum e piedade Hanun lento para a cólera rico em amor e fidelidade Hesed Emet. “Hesed” é a expressão da vontade espontânea de Deus de beneficiar e salvar o homem.Aantropologia Teológica 4. temos um eco deste binômio. amor. a firmeza e a segurança das obras e palavras de Deus. mas também em quem a recebe. pacto. Mas ainda outros termos tiveram uma grande influência na conceituação cristã da graça: salvação.6 Iahweh. de vassalagem. próprio dos soberanos.2.17. paz. vida.qualidade do inferior que chama a atenção para que lhe seja concedido tal favor. Salmo 86 (85). que não se limita ao texto e à época da redação do Antigo Testamento.“gratia” . Sl 86. compromisso e análogos. santidade. (Ex 34. pois é questão de ação em favor do homem.graça) substantivo que vem do verbo “hanan”: .“benignitas”.“hesed” . para citar os mais comuns .fidelidade) aparece com muita freqüência associado a “hesed”.14s). HESED (tradução dos LXX: “éleos” . É o amor entranhado. aliança. hospedagem.“rahamim”: ‫חֵן ֶחסֶד ַר ֲח ִמים‬. Cf. O conteúdo da “hesed” depende do tipo de relação que está sendo considerado (1Sm 20. 9-10 Seu amor esgotou-se para sempre? Hesed Terminou a Palavra para gerações? Deus esqueceu-se de ter piedade? Hen Fechou as entranhas com ira? Rahamim Êxodo 34. As traduções para o grego e para o latim introduzem modificações e interpretações novas. Conota a fidelidade. Jn 4. as vísceras de misericórdia. compaixão): em relação aos termos anteriores acentua o aspecto do sentimento e da emoção não expressos por eles.favor gratuito.DEUS É GRAÇA Salmo 77 (76).amor): indica o laço de afeição. HEN (tradução dos LXX: “cháris” . de amizade. acordo.14. A “hesed” de Deus é a qualidade que o torna capaz de estabelecer uma aliança de gratuidade com o homem. EMET ‫( אמת‬tradução dos LXX: “alétheia” . RAHAMIM (tradução dos LXX: “oiktirmós” . ou de outros tipos ainda). bênção.8. a compaixão fundada na voz do sangue. dom. o tipo de relação próprio de parceiros numa aliança (matrimonial. “miseratio” . Jl 2. Sl 89. pois a graça não está mais apenas em quem dá.ifete.“veritas” . A “hesed” não está propriamente no sentimento. mas que continua no intertestamento e até dentro do próprio Novo Testamento (escrito em grego. 15 Tu. .2 .13.“misericordia” . por causa da aliança (Sl 136). . mas com mentalidade ainda bastante judaica). temos : “sedeq” (justiça) e “emet” (fidelidade). que inclinam o olhar sobre o súdito que querem agraciar. mas de vários conceitos e usos do Antigo Testamento.2. conhecimento.

6. O fato de alegrar-se é “chairein” e “cháris” é o que o produz: não é a beleza por si mesma. qualidade que torna quem a possui (pessoa ou coisa) atraente.17.2. (Lc 1. através dos termos “dom”.13.11. No Novo Testamento.benefício. ação de graças: 2Cor 1. 14 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. absorvendo o pleno conteúdo dos vários termos do Antigo Testamento. pois. Tudo isso explica porque. Gl 1. nunca na boca de Jesus. que vai emergir com força: graça é a totalidade da obra do Filho e do Espírito como manifestação do amor benevolente e gratuito do Pai. pelo dom recebido ou pelo favor dedicado. na Bíblia o significado primeiro não é o de beleza que atrai. satisfação. 4.qualidade que provoca alegria. com seus inúmeros derivados. O termo „eudokía‟.19. no intertestamento e no Novo Testamento. 6.33.17). Paulo usa “cháris” 100 vezes. O verbo „eudokéo‟ é mais freqüente (cf. CHÁRIS (τάρις) possui. de “rahamim”. dom. cada um acentua um aspecto: “hen“ é o favor gratuito concedido ao necessitado.14. o termo “cháris” não ocorre nem em Mateus. presente concedido por pura benevolência. mas a beleza que produz satisfação e agrada. Por outro lado. 12.14. benefício: 2Cor 1. 10. Mt 3. “ahav”. como no grego profano. “cháris” é o favor concedido a quem é agradável (no grego profano).4).15. assim. Fl 2.edu. João prefere os termos "vida" e amor = “agápe”.21//Mt 11. A linguagem se adapta à revelação. Indica.15. Mas é o sentido teológico novo. fascinante.18. cada vez mais conota a misericórdia.11. Ef 1. 3. ação de graças. agradável.disposição subjetiva de quem se compraz na graça encontrada ou/e de quem quer agradar. porque ligado à aliança . . prazer (Lc 2. (Os 4. os tradutores gregos posteriores aos LXX o traduzem por “cháris”. 1Jo 3. 17). No uso religioso. Todavia. tanto em seu princípio (benevolência divina). “hesed” é o favor concedido por causa da aliança. como termo que exprime toda a novidade cristã. O sentido pleno ocorre também em João (1. favor: At 2. que corresponde a “hen”. prazer.: Is 62. Quanto ao conteúdo.9). Contudo. Em Paulo. pois a situação concreta e constante do povo é a infidelidade. recorre 9 vezes no Novo Testamento e traduz o hebraico „razon‟ (por ex.20. o termo hebraico para “amor”. no uso e no conceito.1. 2Pd 1. a piedade e o perdão. complacência.78.5.5. desconhecido antes da era cristã. “cháris” é usado como tradução de “hen”. propriamente. “dar e receber”. por este motivo. Este termo será abandonado pelo mais enfático "splánchna éleos" (que significa vísceras de misericórdia). esses termos se referem a Iahweh em relação ao homem. na forma verbal). É usado por Lucas 25 vezes. “Hesed”. Por isso.neste último sentido é "eucaristia" que vai predominar. agradecimento (sentimento e ação). 17.Aantropologia Teológica Evolução semântica: “Hesed” é o termo principal. os seguintes significados: 1.26. etc. mas sim "graça-cháris". até mesmo ao aliado indigno. “hesed” se aproxima também de “hen”: por isso. o termo ainda se encontra algumas vezes usado no sentido comum. a revelação e a compreensão da graça ocorre em todo o Novo Testamento. pleno desenvolvimento do Antigo Testamento. mas o de benevolência gratuita de Deus. Os LXX traduzem “rahamim” por “oiktirmós”. Cl 1. obras). nem em Marcos.1. Fl 1.10. no Novo Testamento. Disposição para reconhecer ou para conceder graça. Mas ele aparece com mais freqüência nos escritos gregos originais (só no Eclesiástico. o termo privilegiado não será “hesed” ou o seu correspondente grego “éleos”. 2.47. 41 vezes). não tem muita importância no Antigo Testamento. indicando um sentimento bastante genérico e pouco caracterizado. a emoção ou o sentimento experimentado.). compaixão. 2. Certamente foi Paulo quem teve o papel decisivo no sucesso de "cháris". No uso religioso pagão era concebido como uma força que passa do deus invocado ao iniciado. No Antigo Testamento dos LXX. quanto em suas manifestações (favores. que quer favorecer o homem (e não simplesmente se comprazer com suas qualidades). simultaneamente.gratidão. usado especialmente pelo Pai em relação ao Filho. “rahamim” é o favor concedido pela ligação de sangue ou por algum motivo conside-rado equivalente. o Novo Testamento irá recorrer a um termo grego praticamente novo: “agápe”. 15. Não faltam exemplos que se referem ao homem em relação a Deus e/ou ao próximo. que quer dizer. 16.foi se aproximando sempre mais. Todos os termos indicam o interesse gratuito de Deus pelo homem. a realidade da vontade salvífica de Deus. Rm 10. encantador. que significa favor. Chama-se “chará” a alegria.br Embora nos possa parecer estranho. os LXX o traduzem por “éleos”.17. no grego profano.ifete.15. beleza: Cl 4. na maioria das vezes.1. 2Ts 1.

único e pessoal de se relacionar e de ser. mas não diz que Deus é graça. .o falar com autoridade. grato. agradável. O latim é mais genérico e menos preciso do que o grego.edu.3 . punir ou recompensar).a familiaridade com os pecadores e marginalizados. Atualmente partimos dos Sinóticos. peso. O que gostariam de ter visto e não viram: . como a personalidade de Jesus. mas.2). . Para Jesus. em nome próprio. a Igreja ou mesmo a graça. termo que indica tudo o que é novo e original em Jesus. o termo „graça‟. Ter caridade é. por isso a Vulgata recorre com mais freqüência aos derivados de “donare-donum” e a outras circunlocuções. não enfrenta os poderosos. . mas faz o Reino acontecer.caridade? „Caritas‟ vem de „carus‟. termos globais que olham o todo sob algum aspecto.Aantropologia Teológica O latim traduziu “cháris” por "gratia". comunica ao homem. De "gratus" vem também: “gratiosus. “gratuitus”.16). capaz de gratidão efetiva e também de amar gratuitamente. bem aceito. Toda essa prática de Jesus é entendida como graça. e não o messianismo. em si mesmo. Lc 4. Mt 4. 4. . curas e exorcismos. . A explicação de Jesus: como ele justifica o seu proceder. o dom que Deus faz de si mesmo. salvação. Jesus tem seu próprio conceito sobre o Reino de Deus. carregando toda a experiência do povo de Deus e em seguida enriquecida pela extraordinária vivência de Jesus e da Igreja. “gratis”. . Há muitos termos fundamentais no cristianismo: amor.43). A todos eles "graça" acrescenta uma determinação concreta e específica essencial: tudo é decisão e obra de um Deus que.ifete. depende. mas constitui um universal concreto. . entre outros.17. Esse é o grande tema central da sua pregação e atuação (Mc 1. 15 Instituto de Formação e Educação Teológica – www.não pratica o batismo. que não se converte apenas moralmente. que elaboraram a primeira reflexão teológica sobre a graça e o uso explícito do vocabulário. revelação (o dar-se a conhecer de quem procura uma comunhão de amor). .15. Pelo que está sendo exposto a respeito da formação do conceito cristão. enquanto que graça exprime o dom feito por Deus que é amor.a liberdade diante da Lei e das tradições. também. por isso. o Reino já é presente (não iminente). A prática de Jesus O que surpreendeu os ouvintes: . O Novo Testamento afirma que Deus é amor (1Jo 4. „Caritas‟ traduz „agápe‟ que é amor de predileção ou de benevolência.o perdão dos pecados. vida. pois esta exprime o dom de Deus. Também o Batista pregou o Reino (Mt 3. ou mesmo militar. pois.o legalismo. um conjunto de todas as características de um modo particular. generalizante nas notas essenciais.os milagres: sobre os elementos naturais.” “gratificare”. “gratulor”. aliança. alcança a capacidade de enxergar o Reino presente nas ações de Jesus.A prática e a experiência de Jesus A teologia tradicional partia de Paulo e de João. amor conotado de generosa doação de si. onde se registra a plena revelação da realidade da graça qual resumo de toda a vida de Jesus e realização das promessas.o messianismo político. assim.o castigo para os pecadores (escatologia iminente).vai até os pobres e ao povo comum. não é um mero conceito. Caridade indica inicialmente o próprio Deus que se doa gratuitamente. Em que Jesus era diferente de João Batista: . mas outras são suas características. sobretudo. é a grande oportunidade em que Deus oferece todo o seu amor (não o momento de cobrar. agradável. Deus sempre agiu assim. mesmo indigno e incapaz por si só de retribuir. indicando o que tem valor. concedido imediatamente. não o chama a si no deserto. 8.vai aonde o povo se encontra.br Como se diferenciam e se relacionam os conceitos de graça e de amor .simplicidade de vida (não austeridade) e mansidão. de um modo escondido e humilde (não vistoso e glorioso). é amor de pura benevolência e que. derivado de "gratus". tornando-o. seus dons e seu próprio amor. . mas a religiosidade da época havia deturpado a compreensão do agir de Deus exatamente nesse aspecto. . dar valor a Deus é às coisas criadas por serem obra de Deus. do homem que acolhe a ação de Deus e não se limita a esperar.

O preceito é amar o inimigo. mas no sentir-se Filho. mas esse amor só pode ser acolhido por quem é capaz de aceitar tudo como um dom e não como uma recompensa (Mt 11. é o seu corpo. Jesus mostra o amor gratuito e gracioso do Pai. nas celebrações. expressa como serviço. 16 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. A finalidade é a comunhão entre os irmãos e o espírito missionário. tudo isso só poderá ser retamente interpretado se a prática da comunidade for continuamente confrontada com a prática de Jesus e com a compreensão da Igreja desta prática.ifete. enfim. Mas. Esta experiência e compreensão é ponto de referência para uma teologia da graça. matéria de confissão. por causa de Jesus e com ele. Para aonde e para o que se dirige o processo de libertação? . partilha. não adquirido pela Lei. de poder fazer o que Deus quer. Só se entende o que é pecado na perspectiva da finalidade.br O preceito e o projeto de Jesus . O objetivo da Lei era proporcionar o conhecimento de Deus. Vários tipos de comunidade podem encarnar esta prática.A teologia da graça a partir da prática da Igreja. a força do mal. Tornam-se mais evidentes onde sua finalidade é realizada ou conscientemente assumida como prioridade. mesmo como comunidade local historicamente situada. que privilegia quem mais precisa. na ação desenvolvida no mundo. 4.4 . Deus é sempre chamado de Pai. nas parábolas do Reino e da misericórdia. para conseguir mais amor. tematizar. conceituar e exprimir o processo de libertação. como o Pai e o Filho são um (Jo 17). o próximo e o irmão. no tipo de relacionamento entre os cristãos. continua a encarnação de Jesus. . participação. não de Rei. na prática e no projeto da Igreja. A experiência. nos lugares e nas expressões da experiência da graça. desejando que se ame como ele. como Pai que ama gratuitamente (gera). o Filho. Na América Latina. porque se adotou o mesmo projeto e a mesma causa e se fez a mesma experiência. De onde parte o processo de libertação? Libertação do que? Libertação do pecado. nas instituições. querendo só demonstrar o seu favor. reali-zada neles. A Igreja é a comunidade onde isto já se realiza parcialmente. embora haja outras maneiras de viver. a Igreja é sinal e sacramento da unidade de todo o gênero humano. Só se tem noção do pecado quando se tem uma visão clara do objetivo: o pecado é o que se opõe à meta. Jesus deve ser como o Pai é: um Deus que quer demonstrar mais amor do que nunca. não se trata apenas do pecado mortal.25-28). apesar de o tema central de Jesus ser o Reino de Deus. O centro vital de Jesus não está na Lei. as desavenças entre as pessoas.Aantropologia Teológica A justificação de Jesus aparece. na vida e no testemunho dos santos (não só os canonizados!). a Igreja vivencia a experiência do processo de libertação de um modo específico. Por ser realização inicial. Jesus não veio para ensinar doutrinas e comportamentos: ele revela o Pai. no sentido amplo e completo. o que a ele agrada.para a comunhão trinitária. mas em ligação com Jesus. A prática a partir da qual se deveria poder elaborar o tratado da graça se torna visível na atividade pastoral. de cujo reconhecimento e aceitação irá derivar o comportamento adequado. especialmente na América Latina A Igreja. A experiência de Jesus É a razão da prática e o conteúdo da explicação de Jesus: é a experiência da relação pessoal com Deus. o sofrimento injusto. mas pela intimidade com o Pai.para a liberdade de ser como Deus quer. Há experiências humanas que são comuns a todos os tempos: a dificuldade em praticar o bem. que amplia o número destes irmãos. a prática e o projeto de Jesus continuam na experiência.edu. especialmente. A teologia da graça sempre teve presente os problemas existenciais religiosos do homem na vivência da fé. O seguimento de Jesus é o pro-seguimento de sua causa. O projeto é que todos sejam um. de pôr em ação o seu plano. etc. Imitar ou seguir Jesus é ter a mesma prática dele. porque ele é seu Filho. Não é simplesmente ofensa a Deus ou desobediência. Jesus possui e comunica um conhecimento superior. estendida e participada aos homens.

. liberalidade. que cria dependência. Pelo dom. desgastou e empobreceu demasiadamente o termo.a gratuidade. O doador toma a iniciativa.Aantropologia Teológica Pecado é tudo o que não cria a comunhão entre os homens. atração. não no sentido de infundado. A opressão impede de viver a comunhão para a qual o homem é feito. na hora de julgar um fato concreto. embora tanto a dignidade seja reconhecida. embora ele ainda conserve um sentido rico e positivo: .uso profano (em parte vem do grego e do latim e da experiência humana da gratuidade. produz sensação de plenitude e de enlevo. 2. como é assimilado pela graça cristã. mas no sentido de natural. arbitrário. O conceito de gratuidade. mas os transcende. O gratuito ou gracioso não é exatamente o "gratificante". de maneira vaga e confusa. O uso comum. ou então como um tesouro.16). medido. facilidade natural e momentânea para realizar algo (o que é imprevisível e fora de regra). Os bens materiais e as conquistas dos homens não são valores absolutos. ou na impossibilidade de se garantir a todos as necessidades básicas da vida.o dom. mas no fato de que isso acontece porque os homens rejeitam o projeto de Jesus. que indica o que preenche expectativas e necessidades subjetivas.edu. religioso e cristão. uma poupança a ser 17 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. desinteressado. se situa em um nível superior. fascínio. confiança e docilidade. o que tem o efeito contrário. Na América Latina como um todo. O mal está na falta de comunhão. o que mais se opõe ao querer de Deus é a opressão e a exclusão. porém. espontâneo. . Portanto. como a correspondência desejada. não. A análise dessa experiência inclui vários aspectos essenciais: . um capital.o gratuito supõe ou cria encanto. por oposição a tudo o que é mesquinho. favoritismo (o destinatário é induzido a expressões até de submissão servil. manipulando ou instrumen-talizando o dom ou o destinatário. mas qualitativamente as expectativas humanas. o que cria e mantém estruturas e situações que impossibilitam a atuação e a expressão da comunhão. o que a nega. fascínio. dá o primeiro passo. O objetivo não é a auto-realização. inclusive conflitantes. mas a feito por interesse. Boff. 9-22) . mas “pretexto” para unir as pessoas. Gratuito não se opõe a feito com interesse.ifete. rejeita. Graça ou de graça é o dom feito a alguém só para agradar ou para mostrar que o outro é agradável. esperando encontrar abertura e disponibilidade. sai ao encontro. cfr nota na p. da liberdade de querer o que Deus quer. desfigurando o pobre. mas ter o que partilhar e poder ser “um só”. a graça supera não só quantitativamente."Graça" na linguagem corrente A linguagem corrente e a conversação quotidiana exprimem.uso religioso comum: a graça é concebida e visualizada como uma espécie de fluido. liberdade. É pecado o que tira a liberdade de fazer o que Deus quer. a experiência da gratuidade. o destinatário é valorizado e promovido. caprichoso ou expressão de favoritismo. como expressão de bondade e de amor e a contrapartida da acolhida. é associado ao que dá satisfação. uma descarga elétrica.a generosidade. um raio (laser). abundância. não na falta de bens. 60-85. 1. Miranda.br A graça na atualidade (Cf. dificulta. O pecado não está tanto na má distribuição dos bens materiais. prazer (não o meramente sensível ou sensual !). O dom gratuito as supera e ergue a pessoa a um nível superior de vida.A experiência humana da gratuidade Trata-se de fator fundamental para a constituição e para a atualidade do conceito cristão de graça. em parte trata-se do sentido cristão secularizado): encanto. . que geram pobreza e miséria. calculado. Muitos raciocínios e decisões humanas se situam no nível dos direitos e deveres ou do obrigatório e livre. por causa da dignidade ou da posição dele ou por causa de sua capacidade de corresponder. o „engraçado‟. que não ignora os binômios citados. . 13-46. paternalismo. 115-131. pois as pessoas a possuem em graus e formas diferentes e são influenciadas por muitos fatores.

não ofende.B. misticismo. empirismo.. sentido comunitário e solidariedade social. 4.11. mas depois transformadas em questões acadêmicas. crise da confiança na ciência e na técnica.34. consumismo.13s. ele distribui os seus dons como lhe apraz. globalização.Fenômenos culturais desfavoráveis: . Por outro lado. assim como a experiência da graça na vida dos cristãos de hoje. de ser favorecido por um amor superior. enquanto a graça é envolvente e transformadora. .Deus está ausente. 19). as experiências vitais veiculadas pelo texto e pelas várias interpretações ao longo da história. valorização da espontaneidade. com exemplos e palavras. É adequado falar de uma noite epocal da fé ? (Rahner. sede do sobrenatural. mas desconfia da religião e especialmente do cristianismo e mais ainda da Igreja.ifete. cf. vitais em outros tempos.br . enfim. etc.maior atenção à mentalidade. Vivemos a pós-cristandade ou mesmo o pós. sociologia.O „engraçado‟ aponta para algo fora de seu lugar normal e habitual.Fenômenos aparentemente favoráveis: religiosidade pós-moderna.secularista: . para superar o mal e realizar-se. 2. para dar lugar ao homem. ateísmo. O que dizer da proposta de elaborar o tratado da graça partindo só da nossa experiência hodierna? (Boff. nem prejudica nem interpela.socializante: a fé interessa porque e na medida em que luta pela trans-formação das estruturas da sociedade. frustração do mito do progresso.. pela abertura ao outro. ecumenismo e outros). A salvação. . neces-sidade de superar o isolamento.Ef 6.9). como algo que se identifica com o maravilhoso e o surpreendente ou.Estado atual do tratado da graça Recebemos um tratado (a escolástica da primeira metade do século XX) que não respondia mais à realidade da experiência do homem e da Igreja e nem à renovação dos estudos eclesiásticos. Maior abertura para a cultura moderna (personalismo. pragmatismo. hedonismo. liturgia). N..cristianismo? Cf. cansaço da sociedade competitiva. incondicional e abrangente. aos questionamentos do homem contem-porâneo. individualismo. Deus só pode existir porque e enquanto fundamenta e promove o projeto feito e realizado pelo homem. era uma elaboração muito racional e especulativa de longas e difíceis disputas e problemas. não olha para a aparência externa. por isso surpreende. como um auxílio (exterior e secundário). crise das ideologias.João da Cruz). 3. isto é. .A situação do homem contemporâneo em relação à graça secularismo. morreu .: 1. etc. mas não nos envolve. agora adulto. 5 . a influência da própria crise de identidade cristã e a percepção clara (e exagerada) que o mundo tem dessa crise. Padres.Fenômenos culturais favoráveis: horror ao formalismo e à exterioridade. S.maior fidelidade às fontes da revelação (Bíblia.A ESCATOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO 18 Instituto de Formação e Educação Teológica – www.edu. neo-liberalismo. procurando redes-cobrir as situações.. os problemas. capitalismo.o homem é o único artífice da história. antropocentrismo. não é parcial. MIRANDA. O mundo é do homem e para o homem.Aantropologia Teológica acrescida. .. uma “força” para apoiar ou corrigir alguma deficiência humana. não julga pelas aparências (At 10. Rm 2. As razões dessa secularização e degeneração são a falta de experiência da graça cristã e as apresentações inautênticas da mesma. Podemos distinguir duas correntes: . silenciou. O homem se sente necessitado de salvação. cientismo.A Escritura diz que Deus não faz acepção de pessoas. à situação.. Princípios inspiradores a partir da época do Vaticano II: . .

Mc 1. Mas não é o que acontece. 32s).36ss) promete para o futuro o juízo dos maus. O título. da geena (Mt 5. 1-12. é o agora da presença física e tangível de Jesus.11). A comunidade dos doze discípulos inaugura a comunidade escatológica das doze tribos. isto é.15. Mas a idéia do breve espaço de tempo intermédio fica desautorizada pela dilação indefinida da Parusia.43ss). sua condição terrestre não manifesta tal identidade gloriosa. acabando com a promiscuidade do presente entre bons e maus.16. com seu caráter escatológico. Jesus assume a figura do Filho do Homem. o perdão concedido e não só anunciado. Lc 4. Lc 14. impotência (Mt 8. que viam na comunhão da vida divina o término da existência terrena.20. e assim.8). Parece que a chave para desvendar essa descontinuidade seja o título de Filho do Homem (Dn 7. 10. Sem essa perspectiva futura de juízo. ao mesmo tempo que praticam o batismo como dom do Espírito.1 – A presença do reino em Jesus de Nazaré João Batista ainda atua como um profeta da expectativa do Antigo Testamento. 5. e a sorte final da humanidade depende de sua atitude frente a Jesus (Mc 8. da vida no sentido escatológico (Mc 9. há ainda uma dimensão futura para essa realidade já operante e presente: sua consumação fica reservada para um porvir. Lc 10. Lc 3. ressurreição. e se esse é seu tema por excelência.21). 6.10). mais do que o Templo ou o sábado (Mt 12. também o Reino se desdobra em dois tempos: “já está entre vós” (Lc 17.17.edu. A polêmica de Jesus com os saduceus (Mc 12. antecipa a plenitude final do povo da aliança. ao anunciar a iminência do juízo escatológico (Mt 3. o Reino já está encravado na história em virtude da própria Pessoa de Jesus. Todavia. mais do que Salomão (Mt 12. Se Jesus pleiteia sua identidade com o Filho do Homem.1-10. Jesus teria assumido as representações apocalípticas do tempo final que ele teria esperado para um futuro próximo. Por isso Jesus ensina os discípulos a rezarem pela vinda do Reino (Lc 11. Mt 10.18. o que obriga os discípulos a uma contínua revisão e correção da esperança. são a demonstração inequívoca da presença do Reino e de sua natureza salvífica (Mt 11.ifete. guardada pelo segredo messiânico.24ss. A pregação de Jesus se polariza em volta do tema do reino. 19 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. São numerosas as indicações sobre o destino último de bons e maus. cuja ressurreição seria a condição prévia para a instauração do Reino. é porque se trata de algo já atual.41). mais do que Jonas (Mt 12.17.20) e até ignorância (Mc 13. e então os discípulos interpretam Pentecostes como cumprimento das profecias messiânicas. A vinda do Filho do Homem profetizada por Daniel desdobra-se em duas etapas: uma manifestação quenótica (O Filho do Homem veio) e uma majestática (o Filho do Homem virá).55s). curas.30). milagres. sem o brilho de sua originalidade que o coloca além do passado.2-8. lhe é reservado um futuro glorioso (Mc 13.26. anúncio que o tempo da salvação já irrompeu.24). Mc 9.11s. denominada da escatologia conseqüente (A.38). prêmio e castigo.Schweitzer).20s). Pregação.Aantropologia Teológica 5. . exorcismos. como amostra de que o tempo final começa a emergir na história. Entrementes.21) e se consumará no porvir. Jesus ultrapassa o umbral da expectativa e se situa na esfera do cumprimento (Mt 5. Mc 1. ela reduz o próprio Jesus a um profeta do Antigo Testamento.42).22. 2// Mt 6. As imagens do banquete messiânico (Mt 8.18-27) mostra a convicção com a qual tomou partido numa questão ainda disputada entre os contemporâneos. Essa teoria vale pelo reconhecimento de que ao se pode reduzir o anuncio do Reino feito por Jesus a seu momento de presença atual.2 – O futuro do Reino Certamente. Contudo. os discípulos apostam na próxima vinda do Messias no trono celeste (At 7. Nesse mais já é perceptível uma nítida vibração escatológica. As refeições de Jesus constituem o símbolo e a realização inicial do banquete messiânico.21).32).22. A parábola do joio (Mt 13. mais do que Moisés (Mt 5. foi usado por Jesus como sua autodesignação.5.1-18). 11. Com a crise pela não realização do Reino. com suas ações e mensagem. a presença atual do Reino resultaria dificilmente compreensível e convincente..43-48. ratificam os últimos desenvolvimentos da doutrina da retribuição no Antigo Testamento. isso vale para seu estado de humilhação.13ss). Segundo uma escola teológica.br Com Jesus tudo muda: ele é mais do que o Batista (Mt 11. Todavia. Se o Jesus terreno já é o Filho do Homem – o Reino já penetrado na história .

30). Foi ele mesmo que redobrou seus esforços para inculcar nos seus discípulos o espírito de tensão expectante com o qual deveriam aguardar o futuro da salvação consumada. 3-8) por um lado enaltece a abundância do fruto na terra boa. a postura de Dodd favorece um cristianismo individualista e intimista. De fato. 5. com seus conteúdos espiritualizados e desencarnados. e um final esplêndido em sua plenitude. Segundo ele. a semente não é simples preparação para a frutificação. Desaparece a força cósmica e social da fé. Seu consumador será seu iniciador e implantador: Jesus Servo será revelado como o Cristo Senhor. ao mesmo tempo em que desvelará as dimensões totais e definitivas do Reino. A originalidade da escatologia de Jesus reside nessa tensão entre os dois momentos. a ser tomada já. Essa teoria é claramente ideológica: assim como Schweitzer declarava inautênticos os textos sobre o presente do Reino. como pensam alguns críticos. Por sua vez.26-28) enfatiza na atitude do agricultor a necessidade da paciência da espera. a escatologia se faz uma função da cristologia. 31-33 // Lc 13.Dodd) rejeitam a autenticidade dos textos sobre a vigilância (Lc 12. a comparação sementefruto representa o contraste entre o início tão modesto e a plenitude final. Já em Mc 1. Como perceberam as teologias políticas. pois é evidente que nem a humanidade nem a história e nem o mundo assumiram sua forma definitiva. A decisão pelo Reino. que não se vê porque não poderia provir do próprio Jesus.ifete. embora bem modesto. Mt 13 e Mc 4 contêm as parábolas do crescimento que ilustram com nitidez a simultaneidade presente-futuro do Reino escatológico anunciado por Jesus. mas formam um quadro escatológico coerente e inédito.18-21s). A parábola do semeador (Mc 4. mas – em contrapartida – torna escatológico o trecho histórico que vai do centro até o final. não concluída. 20 Instituto de Formação e Educação Teológica – www.3-8 // Mt 13. A parábola da semente que cresce por si mesma (Mc 4. se o discernimento se dá no fim. 24-30. nada pode dizer em e para a história que está acontecendo. não real. Ambas exemplificam a mesma tese: a continuidade entre um começo real.Dodd.30-32 ) está associada pela fonte Q à do fermento (Mt 13. Por outro lado. o que vale somente para o Reino consumado.br Resumindo: a realidade do Reino. Dodd declara inautênticos aqueles sobre o futuro do Reino. e a não menos necessária escatologização do tempo (pois foi o Verbo-„éschaton‟ que se encarnou). a promessa cumpriu-se de modo incoativo. junto à postura de tranqüila serenidade frente ao futuro. pois já é o fruto em semente. tão reiterado na tradição sinótica. Que esses perigos sejam reais fica demonstrado pela escatologia existencial de Bultmann e de alguns de seus discípulos.E. garantido pela atual virtude da própria semente. baseada no que já está presente. que todavia não podem ser impugnados. Outros (Ch. A parábola das dez virgens (Mt 25. a reativa.edu. Os tempos futuros empregados pela linguagem de Jesus teriam somente um sentido simbólico. uma esperança que nada tem a ver com a história que virá. Somente o quarto evangelho teria mantido o presentismo original da pregação de Jesus. não acabado. A parábola da cizânia e a da rede (Mt 13. . manifesta só no futuro todas as suas conseqüências que ainda não são realizadas.15 temos essa tensão entre o agora de „o tempo se cumpriu‟ (πεπλήρφται) e o ainda não do „o Reino está próximo‟ (ήγγικεν).Aantropologia Teológica Alguns críticos contestaram a autenticidade desses textos citados. 36-40). 47-50) ao carregarem o acento sobre a fase final do Reino. Na lógica da encarnação do Verbo está implicada a necessária temporalização e periodização do „éschaton‟ (pois o Verbo é o „éschaton‟). A presença do cumprimento. O escatológico se desloca do final para o centro da história. longe de relaxar a tensão para o futuro. Ao que foi exposto opõe-se a teoria da escatologia realizada de Ch. como também a idéia de um crescimento que pode ser frustrado. Além do mais. O Reino vai de sua implantação atual até a plenitude final através de um lento crescimento sujeito a variadas vicissitudes. uma continuidade como a que existe entre a semeadura e a colheita ainda não presente.112) também ilustra o dito sobre a incerteza da hora. a idéia que o Reino tenha ainda um futuro procede de uma deformação da mensagem original de Jesus. está aberta.3 – Presente-futuro: uma escatologia bipolar As duas séries de afirmações de Jesus sobre o reino presente e o reino futuro não são incompatíveis. já implantada no agora do ministério de Jesus. Dessa feita. deixam claro que. é resultado de um crescimento que se dá agora (v. favorecendo um inócuo conformismo. mas também a segurança do resultado final. Acentua-se a tensão entre o já presente e o que ainda está por vir. a proximidade do futuro confirma a atualidade do cumprimento. a esperança cristã se vê esvaziada de toda carga profética e de seu potencial crítico frente a história presente. A parábola do grão de mostarda (Mc 4. A Páscoa de Cristo teria sido a manifestação e a consumação definitiva da salvação escatológica.

38 ensina que o juízo que o Filho do Homem levará a cabo no fim dos tempos se baseia na atitude que os homens assumem agora diante de Jesus. também para Paulo se dá a típica articulação entre presente e futuro em volta do eixo que a pessoa de Jesus Cristo. A vida eterna é possuída já agora pela fé (3.51s. mas como arras (αρραβών: 2 Co 1.21. 16. Ef 5. Além do mais. De modo análogo.Aantropologia Teológica O „lógion‟ de Mc 8.3 se refira ao fim dos tempos como em 1Ts 4. mas se organizam segundo a dialética do „já‟ e „ainda não‟. mas ainda não se manifestou o que seremos. a ressurreição (5. a vós que esperais [o futuro] a revelação (αποκάλσυις) de nosso Senhor JC” (1 Co 1.12. homem novo (Cl 3. o equilíbrio entre os dois momentos assinalados.22. Gl 6. Gl 2. Fl 3. 2Co 6. João parece. É possível que 14.3. a escatologia dos Sinóticos organiza as duas séries de enunciados escatológicos em um quadro unitário no qual se articulam. Portanto. aparece uma só vez na carta (1Jo 3. A expressão „maranatha‟ de 1Co 16. E ainda “aquele que iniciou em vós a boa obra [presente] há de levá-la à perfeição [futuro] até o dia de Cristo Jesus” (Fl 1.ifete.edu. Rm 6. Essa esperança atinge toda criatura: Rm 8.24s) e o juízo (3.15s. 5. mas sem dúvida constituem um aspecto secundário na compreensão escatológica de João: a acentuação prevalente do „já‟ não induz à supressão do „ainda não‟.2.5) e primícias (απαρτή: Rm 8. etc. Os bens salvíficos não estão justapostos. o juízo (2 Co 5. ausente do evangelho.21. O evangelista demitizou sim toda representação apocalíptica em vista de uma fé atuante no presente.br Para Paulo não há dúvida que com o Cristo se fez presente a plenitude do tempo (Gl 4. O cristão.4). 17. Gl 5.5. ele apresenta forte tensão para um futuro que o qualifica como esperança cristã: 1 Ts 1. do próprio evangelho emergem passagens referentes à escatologia futura em relação aos mesmos acontecimentos referidos antes ao presente: a vida eterna (14.31). não caminha segundo a carne (2 Co 10. Fl 1. se o presente supera o passado.10). 31ss a discriminação escatológica sanciona a condição de benditos ou malditos que os homens adquiriram no presente de suas relações interpessoais.2). 20-22. Ela diz respeito à Parusia.44.7. Contudo.1-2 aparece claramente a dialética do já e ainda não.22 provém da comunidade palestinense de fala aramaica.8) ou o uso enfático do „agora‟ (Rm 3. 6.2s).10) e a história chegará ao seu término (1Co 15. Esses textos futuristas não podem ser interpolações posteriores. 39. . Assim. o presente e o futuro do Reino de Deus. o presente e o futuro. 29. ter rompido. pois o que era velho passou e tudo é novo (2 Co 5.5 – A proximidade da parusia Eis uma questão das mais controvertidas e complicadas na exegese do Novo Testamento.20s. embora viva na carne. Resulta sumamente ilustrativa a respeito a contraposição adverbial entre o „então‟ e o „agora‟ (Gl 4.). No trecho de 3. possui o Espírito. O reiterado „agora‟ induz o adjetivo „novo‟: vida nova (Rm 5. há também outros dados no corpus joânico. 5. 11.22).7).23) da existência própria do „éschaton‟. 5. As referências à esperança somem por completo.4. a ressurreição (5.20.54) e o juízo (12.26.3.17. 11. em Mt 25. Os dois julgamentos. e até acontecimentos típicos do término da história são antecipados nesse agora: a Parusia (14.. 5. 21 Instituto de Formação e Educação Teológica – www.40.24-28).9s. do ser e do manifestar-se: já somos filhos de Deu.6). quando terá lugar a ressurreição (1Co 15.17. A primeira carta recupera a dimensão estritamente futura do „éschaton‟. a confiança para o dia do juízo (4.18-20).26.4 . como componentes essenciais e referidos mutuamente. A Parusia por vir (2. Ef 3. como para os Sinóticos. numa primeira abordagem. Cl 1.36.3. implicam-se mutuamente. em favor do presente.5. 11. O agora do presente se torna absolutamente hegemônico no quarto evangelho. nova criação (2 Co 5.24.26). 8).18.6.8s.40.25.A escatologia bipolar em Paulo e João Contudo.15).25s. e até mesmo o termo ελπίς. Por isso “nenhum dom vos falta [o presente].20-22. e foi dela que Paulo recebeu sua doutrina escatológica.10). 5. 17).14-17). 1Ts 4. mas não espiritualizou de modo atemporal essa mesma fé que leva à salvação porque fundada no Verbo que se fez carne na história da humanidade. Ef 1.17).3).

7. Trata-se de uma proximidade não cronológica. nele mesmo. 26. “Vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo com as nuvens do céu” (Mc 14.32).ifete. metaforicamente expressa com a imagem do ladrão que não envia aviso prévio (Mt 24. as instruções sobre o comportamento deles no mundo.22). o envio missionário deles manifestam a consciência de Jesus a respeito de um fim posterior à sua morte.1). Mc 13. mas ônticoexistencial. por sua parte. Lc 12. A experiência da proximidade pessoal se exprimia na linguagem deficiente da proximidade cronológica. Daí que a atitude específica da comunidade escatológica é a vigilância sem desfalecimento (γρηγορέφ) da qual decorre uma ética exigente e a postura de uma confiante e ardente expectativa (Mt 24. mas da possibilidade de perceber a vinda do Reino através de fenômenos claramente observáveis: “A vinda do Reino de Deus não é observável” = não vem de acordo com observações prognosticáveis (o substantivo „παρατήρησις‟ era usado para a observação dos astros ou para o reconhecimento crítico de fenômenos claramente identificáveis).39).edu. “Não acabareis de percorrer as cidades de Israel até que venha o Filho do Homem” (Mt 10. Para confirmação ulterior lembremos a formação dos discípulos.13.28-30).41 // Mc 14. Lc 12. Deus.19s e 14. Permanece o problema de como Jesus entendia essa proximidade no horizonte de sua concepção escatológica. alpha e ómega. a estar garantido. “Estão aqui presentes alguns que não provarão a morte até que vejam o Reino de Deus chegando com poder” (Mc 9. ao alcance do homem. Uma consideração paralela olha não só para o aspecto qualitativo da personalidade de Jesus. Essa consumação. onde estão presentes embrionariamente todas as virtualidades que irão se manifestar no „éschaton‟ da história econômica da salvação. podemos conjeturar que ele se exprimisse numa outra concepção do tempo. Junto à petição do “Venha o teu Reino”. . Mt 24. 35.13. Jesus lembra que Deus pode tanto prolongar como abreviar esse tempo (Mt 24. o fim já começou. Entretanto. Se o entretempo prolongou-se além do previsto por Jesus. condividindo a mentalidade comum em uma questão que Ele não precisava conhecer com clareza porque a solução não fazia parte de sua missão salvadora. A proximidade em questão não pode ser cronológica.br Jesus identificou-se com a figura do Filho do Homem e parece ter pensado a sua vinda para uma data próxima.23c). sua longanimidade e sua misericórdia. mas sua realização já está decidida e iniciada de maneira irreversível. mostrando Deus sua paciência com os pecadores.42. como podia fazer a partir do mistério de sua personalidade única. Seu ser já estava de tal forma estruturado pelo „éschaton‟ que se fundia com ele. determinado de modo inevitável. a estrutura de sua concepção não fica por isso modificada. 25. se ele quiser. isto é.Jesus e a espera próxima da vinda do Reino. da realização plena do Reino.35. Lc 12. dando mais tempo para os homens.21-23). Jesus recusou-se a responder à pergunta – tão importante no clima apocalíptico da época – sobre a data da Parusia (Mc 13. como aparece na auto-designação de Filho do Homem.38. Dito isso. mais do que um defeito de um conhecimento desnecessário. 33.Assim também as afirmações de Mc 2. . o discípulo é exortado à paciência (Mc 13. O que por natureza está próximo depende do interesse do homem em realizar o que é próprio do Reino. mas também para a qualidade do próprio Reino de Deus. O fim está próximo equivale.37. Mc 13. como pode prolongá-lo para dar novas oportunidades para a conversão dos pecadores. A opinião que Jesus podia ter em seu saber humano sobre a extensão do prazo não era uma definição autoritativa. Deus pode abreviar o tempo em benefício dos eleitos. com isso Ele traduz a idéia de que esse Reino é pensado pelo Pai em correspondência ao seu desejo de introduzir o quanto antes a criação na comunhão de vida com Ele. 25. pois a única autoridade por ele reconhecida nesse assunto era o Pai.O problema na comunidade primitiva 22 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. Numa economia de graça e não de julgamento.43. não estamos mais na preparação ou nos antecedentes do fim. imaginando um cumprimento dentro em breve do vaticínio de Dn 7. O Reino ainda pode ser considerado próximo no sentido de ser a etapa definitiva que inicia a consumação final. cf.40). Mesmo não concluído. se alojava uma peculiar e absolutamente inédita vivência da proximidade atual entre a sua pessoa e o seu anúncio. mas quer lançar seu apelo dimensionado na perspectiva do fim. De fato. Se Jesus afirma sua próxima chegada. portanto.20 não se trata tanto da previsão de uma data precisa.42. oferece o Reino que está próximo.37). assim.Aantropologia Teológica . Para isso é necessário que a humanidade assim queira. Jesus pode ter se equivocado. Jesus previu certamente um tempo intermédio entre a Páscoa e a Parusia. o Reino retarda. mas deve ter outro sentido. Em Lc 17. Não o fazendo. Há textos que insistem na incerteza do momento da consumação do Reino (Mc 13.7. Jesus não quer instruir sobre o fim iminente. devem ser ponderados textos nos quais o elemento cronológico desemboca numa singular elasticidade do tempo de espera.13. é realmente só questão de tempo.62.37.

1. 1Co e Rm com um óbvio sentido de proximidade cronológica. Assim foi. mas a sua qualidade. mas é usada com toda a naturalidade e com freqüência. Além do mais. do lapso de tempo que ainda nos separa dela. 2 Ts 2.6s. mote e ressurreição de Jesus. 51. A adaptação não traumática às novas circunstâncias da espera foi possível porque a pregação escatológica de Jesus já subministrara recursos suficientes para efetuar com êxito tal operação. 1 Jo 2. vida . esperada para a primeira geração cristã.1. O momento presente confina com o fim.22). “Vós sereis o meu povo. colocando o germe do „eschaton‟ na humanidade e no mundo que não podem não ser conduzidos para a consumação que foi desde então iniciada.15-17. Não é possível falar da Parusia a não se em termos de proximidade. 1 Tm 4. e desenrola num arco temporal de duração indeterminada. 1s. pois esta se manteve viva. Nesse ponto ómega da história o Cristo Senhor virá para consumar o que tinha sido iniciado com o ponto alpha ao qual se refere o primeiro artigo do Credo. Notese o uso freqüente da imagem do ladrão proveniente de Jesus.15). Hb 10. mas que pode ser denominado „a última hora‟.3. Foi essa a célula geradora da promessa no Antigo Testamento: a mútua pertença entre Deus e o seu povo. PÁSCOA DA CRIAÇÃO Quando proclamamos o Credo confessamos que o processo histórico no qual estamos inseridos culminará com um acontecimento salvador que afetará a totalidade do real.7. O esperado está próximo. a pessoa esperada pela comunidade não é alguém ausente. „o novo eon‟. O mero ínterim que ainda permanece.18. Eu serei vosso Deus”. pois. 6. Daí a fervorosa invocação do „maranatha‟ (1 Co 16.1. Coerente com a peculiaridade única desse cumprimento surge um novo modo de compreender o escatológico e um novo estilo de viver a esperança.10.ifete. A comunidade teve que absorver a dilação da Parusia.15. mas também da forma mais inesperada.4. nem a formular tal atitude com a categoria da proximidade. a passagem da existência provisória para a definitiva. Não é a quantidade do tempo que conta. c) O dado mais relevante é a presença do tema em textos tardios. na celebração eucarística. e isso independentemente da extensão. Pois bem. mas continua tratando da esperança da Parusia em termos de proximidade (Fl 4. Nos textos citados não há o menor sinal de grave decepção por causa do adiamento (somente 2Pd 3 e talvez Jo 21. De outra forma. b) Relativização deliberada desse cálculo estimativo (1Ts 5. . Tt 2. a encarnação do Filho de Deus cumpre esse propósito da maneira mais generosa possível. 7-9.11.br A partir da carta aos Romanos Paulo. 2 Pd 3.Aantropologia Teológica Há três séries de textos a respeito de como a comunidade sentiu o problema: a) A Parusia é esperado para logo (1Ts 4. Ap 3. a recíproca comunidade de vida. toda a criação conhecerá a sua páscoa.edu. quando não se podia mais esperar a Parusia dentro da primeira geração que já falecera. 2 Tm 3. para reconverter a proximidade cronológica (quantitativa) em proximidade teológica (qualitativa) e trocar a dilação em dilatação do prazo. não longe.37. iminente.23 poderiam insinuar algo disso). Então. sobrevive à pura cronologia e passa a ser categoria inseparável da mesma idéia da Parusia. Então a realidade criada alcançará sua cabal estatura. a linguagem da proximidade não só não desaparece. está sob o cerco do fim. sem demonstrar absolutamente sinais de rejeição.25.20). O „éschaton‟ implanta-se com a encarnação. 22. O acontecimento escatológico perfurou a história para enriquecê-la por dentro e pilotá-la até a meta. mas sim bem presente no meio dela. entre o ainda não e o já.16. 2. seguido dos outros. porque o dado cronológico não pertencia à essência da esperança. é.2ss. 23 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. 6 – A PARUSIA. Portanto. 1Co 7. não fala mais do fim dentro da sua geração.11. Rm 13. do prazo de espera não acabou com a esperança parusíaca. 1 Pd 4. na proclamação da Palavra. Surpreendentemente. e se consuma com a Parusia do Senhor ressuscitado. no rosto dos irmãos.5. a comunidade não teria sobrevivido à ruína do que teria representado sua convicção fundamental.12s. muito menos teria sobrevivido sem renunciar nem à sua atitude de expectativa. mesmo indefinido. maior ou menor. „os últimos dias‟. não constitui mais uma distância real. Tg 5. a idéia da proximidade.29. plasmada em 1Ts. 2 Pd 3 confirma que o alargamento. 16. Foi para isso que o Cristo ressuscitou. Ap 1.

M 10. 1Ts 2.12. 3. 18..2. o julgamento.8. o fim (télos) do mundo presente (v. de uma exposição de poder num clima solene. 25.5. ou a chegada de alguém esperado (1Co 16. Associada à expressão temos a idéia do julgamento.19.6s. .27. digna de ser aguardada com gozosa expectação: 2 Co 1.37. Na época imperial a parusia do César podia dar lugar a uma nova era.27.18.24-26). apocalipse. Rm 2. Fl 1. 2 Ts 2. no começo do seu mandato imperial ou na visita a uma das suas cidades. 2 Co 1.8. 2 Tm 1. 13-18 constitui a descrição mais direta e completa da Parusia quanto ao emprego dos rasgos típicos da apocalíptica judaica.13. Fl 1. a consumação gloriosa do Reino.16..6.28). uma virada na história da cidade.14.10). numa cenografia com cortejo de anjos e nuvens.br O termo é praticamente desconhecido no Antigo Testamento.8. nos LXX e no judaísmo (Contudo. 3.Aantropologia Teológica 1 – Os dados do Novo Testamento .39.28. o novo céu e a nova terra.16. a consumação da obra iniciada: Fl 1.edu. 2 Pd 3. 14.62. Mas é em 1Co 15 que é manifesta a inseparabilidade da Parusia com respeito aos demais elementos integrantes do „éschaton‟: a vinda de Cristo (v. 16. mas também a manifestação de Satanás (2 Ts 2. 2. 1 Ts 4.10. .12. 2 Tm 4. 3.7s. mas essa vinda resume o que muitas vezes é explicitado nos textos: a ressurreição. Epifania é usado para referirse às manifestações das divindades pagãs. onde não encontramos o termo parusia.A Parusia Пαροσσία ( do verbo πάρειμι..26.16.8.24) e a nova criação.8. o tema da “visita de Deus” no AT). A origem em Dn 7 é evidente. 4. deus. quando Deus será tudo em todos (v. . ao imperador cultuado como senhor.Epifania. cf. enquanto manifestação de poder e glória. 2 Tm 1.23.24. A expressão é traduzida habitualmente com „vinda‟. 1 Jo 2. 4. Hb 10.17. A epifania deste último pode ser reconhecida na data do nascimento.. No Novo Testamento recorre 24 vezes para indicar em geral o advento glorioso de Cristo no fim dos tempos. como para as visitas que reis e príncipes fazem nas cidades submetidas ao seu império.40. jubiloso e festivo.18 BJ).. 2 Co 7. Simplesmente “O Dia‟ em 1 Co 3. Am 5. mas também o caráter majestático da Vinda. 8. vinda de Cristo.13. A origem é evidente: trata-se de uma transposição cristológica de “O Dia de Javé” (Lc 17. a manifestação triunfal: Lc 17. Conexão da Parusia com o fim do mundo: Mt 24. É um claro sinal de continuidade da esperança do Antigo Testamento na novidade cristológica. Jo 8.O Dia do Senhor 1Ts 5. No helenismo trata-se de dois termos de significado e uso muito próximos. estar presente ou chegar) é empregado em grego tanto para referir-se à descida ou manifestação de pessoas divinas na terra.ifete. 2.23. 5. pois se espera a concessão de benefícios excepcionais. Tg 5. manifestação) é próprio das cartas pastorais. 1Co 5. 10. a personagens reais que se apresentam como revelação dessas divindades.14. trata-se de uma manifestação triunfal. a ressurreição dos mortos (tema do capítulo). até mesmo da fonte Q.24. A visita era aguardada com ansiedade.5.2. o julgamento que comporta a derrota dos inimigos (v. pois ambos derivam da tradição pré-sinótica.9). 2 Ts 2. manifestação O termo epifania (επιυάνεια: aparição. Lc 12. o imperador era saudado como senhor e salvador.23).13. Conexão entre Parusia e julgamento: 1 Ts 5. Lemos variantes em 1 Co 1.31. salvador e com o título de „epífanes‟ (επίυανης). cf.8. Temos nos Sinóticos uma variante da expressão: “A vinda do Filho do Homem”: Mc 13.. 1.10.44. Desses textos deduz-se também que não pode ter sido Paulo o introdutor do termo e da idéia da Parusia sob o influxo do helenismo. A expressão acentua o aspecto do julgamento: 1Co. Em ambos os casos. 24. 24 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. Rm 13.56. Neste último o fim do mundo presente é seguido de uma nova criação. segunda vinda.25.

Essa renúncia e sobriedade não são baseadas na maldade das coisas terrenas. alimenta a espera. virá do mesmo modo no final da história. pois nela se produz já algo do que será realidade permanente no fim dos tempos. a indiferença.26.9s).41 // Mc 14. 11.8. abafando a tensão para o futuro da promessa.42s. fechando no benefício imediato. 1Ts 5. Unidos no escondimento. e insinua o caráter escatológico do tempo.7.11.4). Senhor) (1 Co 6. O verbo „υανερόφ‟ associa Cristo ao discípulo: Cl 3.9. pois é algo que é querido e não só conhecido. Esperar é também estar preparado e preparar-se para a Vinda. 1-3 lembram a associação entre a manifestação do Cristo glorioso e a manifestação da graça do Espírito presente e atuante no coração dos discípulos. do nascimento até a última manifestação. Na comunidade primitiva a ética tinha caráter escatológico.13s.13. atento. Ap 22. 1Co 16. A esperança define a existência cristã: “convertidos para servir e esperar” (1Ts 1.7 como objeto da esperança cristã.ifete. Rm 13. porque se sabe que Deus prometeu e garantiu que vai acontecer. A continuidade entre „parusia‟ e „epifania‟ aparece claramente em 2 Ts 2. O banquete eucarístico é antegozo do banquete das núpcias do Cordeiro. Na forma „maran atha‟ (o Senhor vem) temos uma confissão de fé. o cansaço. o verbo correspondente em 1 Pd 1. Como o sono é próprio da noite e para enxergar precisamos da luz.25. Rm 13. com o espírito lúcido para não afrouxar a tensão da espera. O mesmo sentido em 1 Pd 1. A nota de expectativa gozosa continua sendo dominante. É provável que nesse culto ressoasse o „marana tha‟ (vem.8. esperar o Dia é como a esperança do vigia que espera pela aurora (Sl 130. 2 Tm 4.10. e a sobriedade (1Ts 5. .8 com o emprego dos dois termos. estar desperto.22.6. A celebração eucarística era vista como uma antecipação mística do Reino de Deus. ocupa a mente com a realidade que esperamos. também a vida de Cristo está escondida no íntimo do discípulo. Ora. renúncia a tudo o que pode prender às satisfações do momento presente. mas na atenção àquilo que se ama e que se quer que aconteça. com a forma verbal no aoristo.20). para “viver na espera” (Tt 2. A manifestação gloriosa do Senhor irá provocar a revelação do Espírito no coração. 4. 6s. 26. Como o Senhor veio na eucaristia. Mc 14. como é sugerido pelos relatos da instituição (Mt 26. 37. 1Pd 5. Se o Cristo mantém sua presença escondida aos olhos do mundo.9s aparece uma esperança que. ou a Vinda última (1 Tm 6. 3.2). Daí podem surgir o tédio. 25 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. O comportamento do cristão no mundo é orientado pela esperança da Parusia (1Ts 5.34). 3. Essa gravitação escatológica impregna todas as manifestações vitais da Igreja. nem na necessidade de reparar pecados.38.Aantropologia Teológica Nas cartas pastorais a epifania diz respeito indistintamente (e nisso é diferente de parusia) à primeira aparição histórica de Cristo.57). além de ser objeto de fé.28. . em prontidão.13. Tt 2.11-14). exercício que mantém lúcida a consciência.13 de “feliz esperança”. encarnação e subseqüente existência terrena (2 Tm 1. o sono.4-8.13.1. Lc 22. cedendo ao desejo de se distrair durante a longa espera. A vigilância vai unida à oração (Cl 4. qualificada em Tt 2.2. Ap 3. Neste último o autor da carta se define como quem „participa da glória que está para revelar-se‟.11-13).46). respondendo à invocação da Igreja que anela sua presença gloriosa e manifesta. manter viva a atitude de espera é vigiar (γρηγορέφ: Mt 24.11-14). noite iluminada pela lâmpada da fé (Mt 25.edu. Rm 15. Apocalipse aparece em 1 Co 1.1.13).3.br Os outros dois termos do título podem ser vistos como variantes de „epifania‟: o substantivo αποκάλσυις (revelação) e o verbo υανερόφ (manifestar-se). o desconforto. 5.13.5. At 2. cuja existência terrena está impregnada pela esperança da glória da parusia. unidos na glorificação. Por outro lado. 16-18). tornando pesada a alma por causa da intemperança. Essa ambivalência do termo (clara em Tt 2. 4-8. επευάνη: Tt 2.29. mas dentro de um marco igualmente cultual. como também incerto o momento e incerta a circunstância. 13s. Nesse sentido é tudo o que se tem a fazer entre o batismo e a glória. Ora. Em 1 Ts 1.15). 1-13) e o pela caridade ativa (1Co 16. 8). Já o grego dos LXX designava freqüentemente como „epifania‟ a teofania de Javé.14.Existência cristã e parusia Na concepção original da fé cristã a comunidade vive irresistivelmente atraída pela esperança na realização do Reino pela vinda de Cristo. 25. 16. foi o motivo que convenceu os tessalonicenses a se converterem dos ídolos. 6-8. respondendo à oração sacramental.3s e 1 Jo 2.13) constitui o pressuposto da distinção patrística a respeito da dupla vinda do Senhor. o aborrecimento. a espera é longa e demorada. Rm 13. como sinônimo do dia do Senhor do v. A eucaristia é celebrada como memorial do Cristo „até que ele venha‟ (1 Co 11. então as obras da esperança são obras da luz e do dia (1Ts 5.

desvela também plenamente o homem ao homem e lhe faz conhecer sua altíssima vocação.3-5. Daí a reação de 2Ts 3. 2. Rm 5. que não nos realiza interiormente. 2 Ts 1. DELIMITAÇÃO DO CONCEITO Em nosso século a teologia tem alcançado triunfos com raros paralelos no passado. Pode-se falar do homem. Jesus Cristo é. desceu às praças. A verdade revelada é verdade de salvação. Ef 6.7. ou com uma das duas.1-4). Ap 2. 2Tm 3. 12. que com freqüência está associada à fé e à caridade. psicológico.10. Quando na teologia cristã. Rm 12.12. 8s). a constância. Assim foi entendido por alguns..2.12.4-10.12. Enquanto destinatário da revelação salvífica. inúmeras as publicações. A índole escatológica da ética cristã poderia favorecer um descomprometimento com o mundo.8. 24.4.5. o Concílio Vaticano II disse que Cristo.11. 26 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. É evidente que a palavra nos remete ao homem.32. de modo derivado.3.10. 1Pd 5. transformou-se em assunto de conversação comum quase tanto quanto a política e o esporte. o que o trecho de coríntios quer inculcar é a relativização dos valores intra-mundanos. Graças a este fulgurante renascer.4.9) indica a paciência. Jamais na história do cristianismo se falou e se escreveu tanto sobre teologia como nos últimos tempos. 7s. 6. que podemos fundamentalmente pressupor conhecida. Esse é o modo de se viver a cruz de Cristo (Hb 12.23.13. 1 Co 15. 3. como um sinônimo da esperança (1Tm 6. Mt 10. e de fato dele se fala. precisamos deixar claro. Hb 10. Enquanto destinatário da revelação. Contudo. disciplina pública. o homem é objeto dessa revelação.6.19).22. São muitos e geniais os que cultivam..1-7).1.18. se fala de revelação. Rm 15. com efeito. Leitura complementar A “ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA”. O termo “antropologia” tornou-se em muitos casos um termo equívoco.5. indica-nos. Ap 1.3. 2Tm 2. pelo menos em linhas gerais. uma libertação do peso das realidades presentes sem perspectiva de futuro maior. a capacidade de suportação. para tornar-se matéria acessível a todos. e isso sem dúvida é muito importante. 1Ts 3.Aantropologia Teológica O perigo do afrouxamento da esperança pela demora e pelas sugestões contrárias do mundo impõe a necessidade da firmeza na fé. a teologia saiu do isolamento em que por tantos séculos permanecera aprisionada. Fl 4. Fl 4.25. Mas isso não basta.4s) e a certeza de participar da glória do Senhor (1Ts 1. não na vitória já alcançada). Como pode então ser seu objeto? Num texto de capital importância.19. médico. da perseverança e da coragem (At 14. 5. . Cl 1. Cl 1. Devemos responder a uma outra pergunta: se é Deus quem se revela em seu Filho Jesus.ifete. o revelador do Pai. 16. É justamente essa verdade que nos diz quem é o homem. fazendo-nos conhecer ao que ele é chamado. 29-31 parece ser um convite para abandonar as tarefas e deveres temporais. 6-12 lembrando o dever do trabalho. O texto de 1 Co 7. A esperança inspira a alegria (1Ts 2. o homem é também consequentemente.12. as discussões teológicas despertam interesse universal. o método que precisamos seguir para alcançar o objetivo: o estudo da revelação cristã. A perseverança é o imperativo que supõe o indicativo do Deus da esperança (2 Ts 3.11. o ponto de vista a partir do qual procuramos abordá-lo.12. 8.11s. Fl 4.br A σπομονή (1Ts 1. que sentido tem falar do que a revelação cristã nos diz sobre o homem? É evidente que ele é o destinatário da revelação. A „upomoné‟ é tão típica da existência cristã. precisamos pressupor uma coerência fundamental entre nosso ser e nosso destino se não queremos que este último apareça como algo meramente exterior a nós mesmos. o homem é objeto dessa revelação. é Deus que se dá a conhecer. ao revelar o mistério do Pai e de seu amor. 2Co 1. Rm 8.edu.58. é abordada de modo mais direto. Ao mesmo tempo. 2Tm 1. chega a conhecer até as últimas consequências quem é ele mesmo.5. 12.2. Tg 1. Tt 2.3. Enquanto destinatário do amor do Pai. pressões e assaltos dos que querem extinguir a chama da fé (Mc 13. sob muitos pontos de vista: filosófico. 15. essa questão.36.1.13). sociológico. 9-13. a persistência. entrando nas casas e nas escolas. O adjetivo “teológica” diz-nos qual é esse ponto de vista: trata-se do que o homem é em sua relação com o Deus Uno e Trino revelado em Cristo. Em outros volumes desta coleção.13: é a perseverança na luta. nos mostra que ele é o objeto material de nosso estudo.22. Enquanto destinatário da revelação. Temos aqui uma extensão do tema do permanecer em Cristo (μένειν) do evangelho de João. a perseverança numa existência em tensão de espera demorada e acometida por perigos.13.7. 2 Co 3. 12.

conhecida na fé e por isso objeto de estudo teológico. a vocação divina.Aantropologia Teológica objeto dessa revelação. possa realizar-se. 3. a participar. sempre mediada por Cristo. a revelação cristã não pretende de modo algum ser a única fonte de conhecimentos sobre o homem. o homem foi chamado à filiação divina. desde o inicio. dessa relação que é própria somente de Jesus. se deve estudar a criação e. e tudo foi criado por meio de Cristo e caminha para Ele. devem ser considerados sob uma luz nova e mais profunda: a luz da relação do homem com Deus. Por outro lado. Mas isso não significa que nosso ser de criaturas não tenha consistência própria. referem-se a constituição do homem. foi chamada à comunhão de vida com o próprio Deus Uno e Trino. a única criatura da terra que Deus quis por si mesma. essa consistência é necessária para que o chamado. Em terceiro lugar. já sabido? Não podemos contentar-nos com isso. e que. no Santo Espírito Santo. ao plano de Deus para ele. Existimos porque esse dom nos foi dado. A dimensão mais própria e específica da antropologia teológica é a que se refere à relação de amor e de paternidade que Deus quer estabelecer com todos os homens em Jesus Cristo. encontrou não só a indiferença. “Pela graça”. não simplesmente de um modo global em que não se dá a possibilidade de distinguir aspectos e pontos de vista. do qual recebemos tudo. da solidariedade humana. conhecem-na também outras religiões que se inspiram pelo menos em parte neste último (o Islã). da infidelidade a Deus. Esta é a dimensão última e mais profunda do ser humano. 2. por conseguinte. nem ao mistério de sua encarnação.edu. enquanto de fato orientado para a comunhão pessoal com Deus de que é. sempre em total referência a Deus. seu Filho. a denominação “antropologia teológica” se justifica. pressupõe um conhecimento e uma experiência do que significa ser homem como sujeito livre e responsável por si mesmo. mas até a rejeição. Somos amados por Deus em seu Filho e somos chamados a participar plenamente de sua vida no dos tempos. a graça e o favor de Deus são vividos e experimentados sobretudo na Igreja. Não existe outro homem senão aquele que.ifete. então. mesmo em sentido negativo. partindo de qualquer um desses três pontos de vista. sem fornecer alguma explicação. ao mesmo tempo.br A própria revelação cristã. Esta é a vocação definitiva e última do homem e de cada homem. As duas primeiras são de ordem positiva. deve ocupar-se sobretudo do que a tradição teológica chama de “pecado original”. O pecado original é uma eloquente demonstração. o pressuposto necessário. e inicialmente poderia ser até conhecida filosoficamente. é de ordem negativa. desde o primeiro momento. mas já era suficientemente clara no Antigo Testamento. não significa considerá-lo isolado da humanidade e da relação com os outros. é importante ressaltar que essas três dimensões que definem nossa relação com Deus não podem ser postas no mesmo plano. Por que. Esse chamado e essa “graça”. porém. que é destrutivo do ser do 27 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. por um favor divino. A terceira dimensão é acrescentada historicamente e. é preciso distinguir entre os aspectos fundamentais de nossa referência a Deus. a reflexão cristã sobre o homem deve enriquecer-se com os dados e as intuições provenientes da filosofia e das ciências humanas. Não seria de todo correto apenas enumerá-las. além disso. Também por isso se explica a pretensão que o cristianismo tem de oferecer uma visão original do homem. que se fez homem por nós. a condição de criatura do homem é nova. o homem criado por Deus e chamado à comunhão com Ele encontra-se sempre (mesmo que em medidas diferentes. A condição de criatura do homem é um determinante fundamental e total de seu ser e deve ser teologicamente considerado em sua própria consistência. Enfim. pressupõe nossa existência como criaturas livres. A antropologia teológica deve considerar o homem em seu ser pecador. mas. Pelo contrário. tal dimensão de criatura deve ser estudada pela teologia cristã? Não poderia ser considerada um dado prévio. Do contrário não poderemos ter acesso a Jesus. que nos fala de Jesus Cristo como o Filho de Deus encarnado e de nosso encontro com Ele na fé. Por isso. na teologia. porque a perspectiva a partir da qual. a condição de criatura do homem não foi conhecida pela primeira vez em Cristo. para ter uma visão completa do homem do ponto de vista da fé cristã. dirigido a nós mesmos. Essa visão deriva do que a fé nos diz sobre Deus e sobre seu Filho Jesus Cristo. sua própria e dos outros. no mais profundo de seu ser. Pelo contrário. algo que não deveria existir. Essa relação com Deus. a única que nos dá a medida exata do que somos: o objeto privilegiado do amor de Deus. Contemplar o homem em sua relação com Deus. Não temos em nós a última razão de ser da nossa existência. Antes. de acordo com as circunstâncias) sob o signo do pecado. pela bondade de Deus. pressupõe expressamente o contrário. porém. Sem perder nada da especificidade teológica. Deste ponto de vista. Por sua própria condição de criatura. o homem é chamado a viver em sociedade. Creio que as dimensões fundamentais a ser levadas em conta são três: 1. É claro que Deus nos criou para poder chamar-nos à graça da comunhão com Ele. O amor de Deus que nos criou e quer fazer de nós os seus filhos não encontrou no homem uma resposta adequada de acolhida. que livremente quer dar-nos o ser. que a revelação nos faz conhecer apresenta-se a nós de forma articulada. Além disso. Todos esses conteúdos. . foi criado à imagem e semelhança de Deus. é assinada por Cristo desde o primeiro momento.

São Paulo.. vol. se relaciona com a antropologia teológica. 1998. Loyola. Vozes.. d) MIRANDA. Loyola.. 1984. São Paulo. São Paulo. Curso sobre a Graça. encontra-se em intima relação com a antropologia.br homem. 27-32. A fé da Igreja. Petrópolis. como veremos no parágrafo seguinte. págs. Aqui devemos assinalar desde o início um ponto fixo de mudança. Esses três aspectos que definem a relação do homem com Deus se encontram. Também nos ocuparemos dela. L. e no homem justificado e amigo de Deus também persiste o sinal do pecado. o) BETTENCOURT.. nº 114. segundo o Novo Testamento. J. nem que a vontade salvífica universal de Deus não abarcasse os que viveram até então. vol.11-113. Antropologia Teológica. f) BARBÉ. 1993. Loyola. Não podemos dizer. M. K. Será mais útil observar que tampouco nos encontramos diante de três etapas sucessivas. B. Não teríamos uma visão completa de nossa relação com Deus se não a levássemos em conta. São Paulo. ______________________. Loyola.Escatologia. deixar de ser criatura significa voltar ao nada. Paulinas. Antropologia Teológica. São Paulo. b) SEGUNDO. mas as mesmo tempo que as ligações com a antropologia é preciso evidenciar os laços que ela tem com a cristologia e a eclesiologia. que podem ser delimitadas cronologicamente. Fé. de uma dimensão real. 1981. Mysterium Salutis. A graça e o poder.. 6 . não poderemos dedicar uma atenção especifica a esse ponto. Vozes. Paulinas. E. constitui o objeto fundamental da antropologia teológica. h) PRETTO. 1998. O homem e a graça. Criação. graça e salvação. Libertados para a práxis da justiça. 1970.. O dom de Deus. 2000. Vozes. pelo menos. Paulinas. j) RUIZ DE LA PEÑA.ifete. esperança e caridade. Introdução à antropologia teológica. em "Vida Pastoral" 25 (1984). São mais complexas as relações entre a graça e o pecado. IV /7: A Graça. L. Trata-se. A vida como graça. pelo menos em suas consequências e na interrogação sobre o destino final (isso não significa ignorar a esperança). e) SCHMAUS. Graça e experiência humana. É evidente. Original espanhol: 1991. g) MONDIN. A vida nova. IV /8: Libertação e homem novo. A existência cristã na fé. parece apropriado. que pertence existencialmente à nossa condição humana e. M.. porém. A reflexão sobre a criação em geral. Vozes.. e nossa inserção nEle mediante o batismo é um acontecimento decisivo na história pessoal de cada cristão. vol. m) LADARIA. E assim se faz tradicionalmente. A experiência cotidiana mostra-nos o contrário: a história do pecado continua no mundo.L. Petrópolis. L. porque. destinadas simplesmente a ser superadas uma após a outra no caminho da vida pessoal ou da história da salvação. São Paulo. 1998. porém. 1977.E. ou que desapareçam completamente no homem depois de seu batismo. tanto na “historia salutis” como na vida de cada homem... Petrópolis. Por isso. incluir no quadro da nossa disciplina também o estudo desse problema. 1997. São Paulo. embora de modo diverso. M. na esperança e na caridade – as virtudes teológicas – é também parte integrante da antropologia teológica. D. l) SCHERZBERG. Graça e condição humana. articulado do modo exposto brevemente. Cristo venceu o pecado e a morte. como tampouco podemos dizer que o pecado e suas consequências tenham sido eliminados totalmente depois da Páscoa. 1978. não pode ser deixada de lado. F. 1983.edu.. É o estado de plenitude da humanidade agraciada por Deus. portanto. não houvesse graça. Coleção "Teologia e libertação" III / 4 . Vozes. c) VÁRIOS. Rio de Janeiro. que nossa condição de criaturas é um dado permanente. nossa própria consideração do homem como “agraciado” por Deus e objeto de seu amor seria insuficiente sem ela. Pecado e graça na teologia feminista. 1997. Dadas as dimensões deste livro. Escola “Mater Ecclesiae”. que. 1980. portanto. págs. unidos. n) BOFF. até a vinda de Cristo ao mundo. . sua “justificação”. um aspecto essencial do amor de Deus manifestado em Cristo é justamente o perdão misericordioso. e assim se costuma fazer nos manuais e no ensinamento. a acolhida do pecador. por fim. Vozes. essa ligação já aparece nos primeiros capítulos do Gênesis. de F. O estudo do homem do ponto de vista da relação com Deus. Pelo contrário. L. mas a um só. BIBLIOGRAFIA a) RAHNER. em cada homem e em todos os momentos da história.. i) DÍAZ MATEOS.. mas vamos considerá-lo sobretudo quando abordamos a história dos tratados que nos interessam. Com sua morte e ressurreição. A graça libertadora no mundo. Petrópolis. 28 Instituto de Formação e Educação Teológica – www. Também a escatologia. Petrópolis.Aantropologia Teológica Não é necessário insistir no fato de que essas três dimensões ou aspectos fundamentais de nossa relação com Deus não se referem a três homens. H. mesmo se a rigor poderia ser feita em outro contexto. J.

São Paulo.ifete. Vozes. A salvação de Jesus Cristo. 2003. Loyola. A doutrina da graça.Aantropologia Teológica Instituto de Formação e Educação Teológica – www. vol. J. B.. Deus é amor. SiquémPaulinas. Manual de Dogmática II. de F. – GALDINO FELLER V. s) MIRANDA. graça que habita em nós. 2001. (org).. em Schneider.. T. Doutrina da graça. 2004. História dos dogmas. 2004. r) LUCCHETTI BINGEMER M.Cl. M. B.br p) HILBERATH. Petrópolis. Loyola.2: O homem e sua salvação. q) SESBOÜÉ. 29 . (org.edu.).