O ARTISTA, ENTRE A PRIVACIDADE

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AUTO-EXPOSIÇÃO

Não sei dizer o que veio antes, se o curso ou a idéia do livro. Nem sei mesmo se não foram ambos frutos do mesmo movimento desejante. Sei que estava ministrando um curso sobre criatividade onde era básica a noção de que o processo de gestar e dar a luz uma idéia nova estava intrinsecamente relacionado a capacidade de tolerar frustrações. Sim, porque o novo rompe com o antigo, desobedece a ordem vigente, estabelece novas tarefas, lutas e aprendizagens. No seio do grupo onde evolui, tal novidade gera também novas tensões. O apego ao estabelecido não é privilegio do indivíduo. Acontece também nos grupos, instituições, sociedades e culturas. Em qualquer desses casos as forças das resistência se opõem a mudanças e lutam com perseverança e afinco para defender a ordem vigente pelo simples fato de ser a estabelecida, a conhecida. O novo assusta, porque desconhecido, e porque exige novos esforços de adaptação, com reorganização das forças em jogo, levando a resultados imprevisíveis. Toda essa luta se desenvolve fora do domínio da consciência e do raciocínio vigil, com o vigor e a tenacidade que caracterizam o nível inconsciente do funcionamento mental. As forças da resistência operantes no indivíduo trabalham também nas classes sociais e nos diferentes segmentos de instituições ou sociedades apresentando as mesmas características e procedimentos. Freud chega mesmo a dizer que a psicologia do indivíduo é uma psicologia social. E assim, na sociedade como na personalidade, não só o montante das forças em jogo como a própria natureza dos embates, ou seja, o seu conteúdo, costuma escapar ao conhecimento dos contendores, que freqüentemente se enganam quanto ao verdadeiro propósito da luta em que se engajaram. O portador da idéia nova, ou seja, aquele que a anuncia ao grupo, acaba se vendo como um centro de duplo conflito: daquele que se processa internamente em si mesmo e daquele que é desencadeado no ambiente humano a que pertence. Esta vivência costuma ser solitária, por mais que arrebanhe seguidores. Já os representantes da ordem estabelecida encontram maior respaldo entre os pares e dentro das instituições alem de gozar da tranqüila vantagem de não ter de provar nada. Ou seja, tudo leva as pessoas a perpetuar a ordem conhecida (status quo) e a temer posições revolucionarias ou messiânicas, em si mesmas ou nos outros. Enquanto ministrava o referido curso, eu me lembrei de dois textos escritos há cerca de vinte anos e perdidos entre os papeis antigos. Um se chamava Apsou, e desenvolvia uma referencia a uma divindade da Caldeia, o deus antes de deus, condenado a existência indeterminada por ter se recusado a criar o mundo para evitar o sofrimento inerente ao ato criador . De um lado, eu imaginava que deveria haver alguma boa razão para explicar essa recusa divina, e que não passava pela mera covardia. De outro lado, estimulava-me a idéia de indeterminação como castigo pela falta de criatividade. O outro texto era um poema de duas paginas, Minha Historia , onde eu contava como essa recusa tinha acontecido em minha vida, ao abandonar o sonho de ser escritora, e como, anos depois, eu tentara retoma-lo, mas sem conseguir, naquele época, sair da indeterminação, do anonimato. Então a tentativa de agora se constituiria justamente ai, a partir desta questão. Porque me pareceu que, para efetivamente recuperar o desejo perdido, teria primeiro de focalizar as condições dessa perda e tentar remove-las para enfim conseguir sucesso. Fiz, portanto, desta busca de compreensão, um enredo, na esperança de que ela pudesse interessar também a outros com o mesmo empenho de recuperação de metas abandonadas.

Isolei esse fato de minha historia, esse aspecto de minha personalidade, como um material para exame clinico, ou como uma chapa de raio X, colocando tudo o mais entre parênteses, esquecido. Sabia que se tratava de um gesto arriscado, porque não só expunha um aspecto meu que me preocupava como corria o risco de vê-lo confundido com o conjunto de minha pessoa. Neste momento foi de grande encorajamento o depoimento de Freud, o mestre que se utilizou dos próprios sonhos e dados autobiográficos para criar a Psicanálise. Diz ele, em 1910, numa carta a Oscar Pfister : A discrição é incompatível com uma boa exposição sobre psicanálise. É preciso ser sem escrúpulos, expor-se, arriscar-se, trair-se, comportar-se como o artista que compra tintas com o dinheiro da casa, e queima os móveis para que o modelo não sinta frio. Sem alguma dessas ações criminosas não se pode fazer nada direito. Curioso que o mesmo é dito da poesia em “O Pelicano”, de Alfred Musset, onde o poeta é apresentado como aquele que oferece as entranhas, ou vivências, para alimento de seus leitores, sem se preocupar com a própria sobrevivência, confirmando a imagem do pintor oferecida por Freud na carta acima citada. Não é preciso ser necessariamente assim, é claro. Obras primas foram escritas sem expor seus autores, como o Dom Quixote de Cervantes, a Divina Comédia, de Alighieri, o Dom Casmurro de Machado de Assis, Ensaio sobre a cegueira, de Saramago, e uma infinidade de outras. Outros livros famosos são porem francamente autobiográficos, como O retrato do artista quando jovem, de Joyce, Memórias de uma moça bem comportada, de Beauvoir, Tonio Kroeger, de Thomas Mann, A casa dos mortos, de Dsostoievsky, e muitos outros. Não sei o quanto de escolha é dado ao autor. Muitas vezes ele se ve frente a narrativa que deve expor ao leitor como o profeta que tem uma revelação a anunciar ao povo. Como diz Cocteau : Seria inexato acusar um artista de orgulho quando declara que seu trabalho requer sonambulismo. O poeta está à disposição de sua noite. Seu papel é humilde. Ele deve limpar a casa e aguardar sua legítima visitação. Talvez a sua escolha seja esta: entregar-se a tal escravidão ou recusar-se a ser utilizado como instrumento pela Musa. Pode fazer valer os próprios direitos, cuidar do que é apropriado e conveniente, ao invés de se embriagar de sonho e fantasia. O fato é que não lhe cabe escolher a sua Musa, ela é que o escolhe. Ou não, por mais que lhe suplique. Poeta, dramaturgo, romancista, músico ou artista plástico? Não lhe cabe decidir, embora possa ter ilusões a respeito. Adélia Prado conta que um texto já lhe chega ou como prosa ou como poema – não é ela quem manda, e as vezes implora a Deus que continue falando através dela, e pode acontecer de se mortificar até conseguir o final de um poema cuja transmissão não se completou. Isto, é claro, não significa que não tenha de trabalhar muito até burilar o produto final, impregnado de sua marca pessoal. Outro ponto importante no curso era a questão da passagem do caos à ordem, ou da ausência de forma à forma, o que pode ser vivido alegremente por pessoas muito realizadoras, e dolorosamente por criadores que sofriam muito ao produzir, e assim o evitavam. Se o caos e a ausência de forma eram encarnados por Apsou, a ordem e a forma deveriam também encontrar sua representação mítica. O maior candidato ao posto era naturalmente Apolo, imediatamente descartado por lembrar muito mais a manutenção da situação vigente que a erupção de uma realidade nova. Precisava ser alguém tão antigo e primitivo quanto o deus caldeu, e então me lembrei de Abraxas, antiquíssimo mito grego. Abraxas cria e realiza, mas não está

comprometido com nada preestabelecido, sendo amoralmente espontâneo, misto de deus e demônio, como depois ficou dividida a divindade. Apsou e Abraxas. O caos e a criação. Dois pólos entre os quais se cria o campo magnético que pode gerar ou abortar a forma. Entre eles quis esticar o meu poema. Outros textos, apontamentos de viagens, reflexões, histórias minhas e alheias, observações e sonhos de todo tipo foram se juntando ao longo desse eixo, de modo que, após um certo tempo, havia se acumulado um vasto e intrincado enredo à moda de uma colcha de retalhos. Em resumo, um não enredo, uma miscelânea. Ou, como prefiro chamar, uma narrativa onírica. Para limpar o campo o critério utilizado foi justamente a oscilação binaria: tudo teria de constar em dose dupla, sendo uma versão mais primitiva e informe, e a outra mais evoluída e organizada. Onipresente, a duvida sobre a classificação dada aos fatos, resultante da complexidade que, na vida pratica, confunde Abraxas e Apsou. O fio condutor entre o labirinto de fatos é uma personagem central, Beatrix – com o nome grafado assim mesmo, em latim, evocando processos primevos. Ela está à deriva, entre um polo e outro, e se apresenta pouco consistente, quase um vulto. Pouquíssimas indicações a respeito de sua pessoa falam da indeterminação a que foi condenada por Ter abandonado seu desejo. Só poderá apresentar contornos e personalidade ap[os pronunciar o seu fiat pessoal – mas aí o livro acabou. Acabou por ter cumprido sua missão, que era justamente mostrar a tensão entre o não do primeiro encontro, covarde, e o sim do segundo encontro, corajoso, com o próprio desejo. Acabou porque, a partir do sim, a polaridade paralisante termina e todo um universo de possibilidades se abre, eternamente pulsante. Termina Beatrix e começa Herminia! E aí começa uma outra história... Maria Emília Lino Silva Campinas, 18 de setembro de 1999