A LENDA DO CHEIRO DE HOMEM Para Beth Godoy Corre entre as mulheres uma lenda segundo a qual homem atrai

homem, ou melhor, a mulher que se encontra acompanhada torna-se magicamente encantadora aos olhos masculinos. Nada se diz a respeito de como o primeiro homem chegou a ser atraído por ela. Esse é um detalhe importante, uma vez que tudo parece girar em torno do desejo masculino, cabendo à mulher apenas o lugar a que esse desejo se endereça. Então resta a ela apenas uma atitude passiva de adornar-se e engalanarse para ser agraciada com o olhar anelante. Se isso correspondesse à verdade, seria uma lei. Porém é uma lenda, e uma lenda cruel, porque enganosa e traiçoeira, pois coloca o poder de atração fora do alcance feminino, longe de si, no “cheiro de homem” que ela exalaria quando acompanhada, deixando-a passiva e amorfa, reduzida a um simples frasco de perfume, e perfume fascinante porque masculino. Deve haver algum motivo importante para que essa mentira se propague em todas as direções, atravessando gerações sucessivas. Desconfio que essa delegação de poder ao outro, e justamente a aquele que é cobiçado, sirva para esconder algo mais sério e profundo, doloroso de ser encarado, visto que sua percepção desencadearia algum movimento perigoso. Se o poder de atração estivesse em suas mãos e não produzisse o efeito esperado, a mulher teria de rever alguma coisa que deve ser mais fácil deixar sob o manto do ocultamento. Eu diria mesmo que há uma reversão nessa lenda. Ela só glorifica a mulher acompanhada para ocultar o verdadeiro problema, que está na mulher solitária - que é diferente da mulher sozinha. Ou seja, não é a mulher acompanhada, “com cheiro de homem”, que se torna encantadora. É a mulher carente e frustrada que exala um cheiro repelente. Por isso é importante distinguir os termos “solitária” e “sozinha”. “Solitária” é denominada, aqui, a mulher que precisa de um homem para fazê-la feliz, e não o encontra, e se lastima por isso, e assim se torna amarga. Seu olhar implora, mendiga, ou chameja fagulhas de raiva antecipada pela rejeição que acredita como inevitável. Contudo, um dia pode chegar até a solitária o sussurro de Mário Quintana: “O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você”. Prestando atenção a esse recado, ela pode aprender a deixar de precisar de um homem para fazê-la feliz, e tomar em suas próprias mãos essa tarefa. Nessa aprendizagem, ela vai, aos poucos, deixando de ser solitária para ser sozinha, e, ao invés de abandono e rejeição, outras palavras irão se incorporando ao seu vocabulário, como autoconfiança, liberdade, independência e amor próprio. E, quando as borboletas começarem a adejar em seu jardim, ela vai se surpreender a descobrir que quanto menos precisa delas mais elas chegam, pois o cheiro de carência não as afasta mais. Só que agora é seu desejo que comanda: ela passou a atrair ao invés de ser atraída, e precisa ser convencida, ou conquistada, para dizer sim. Maria Emília Lino Silva Campinas, 29/06/2004