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ESCOLA SUPERIOR DE CIÊNCIAS DA SAÚDE FUNDAÇÃO DE ENSINO E PESQUISA EM CIÊNCIAS DA SAÚDE INSTITUTO VIDA UNA

CAROLINA DE CARVALHO E CARVALHO

A APLICAÇÃO DA MUSICOTERAPIA NA REDUÇÃO DO ESTRESSE: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

BRASÍLIA 2008

ESCOLA SUPERIOR DE CIÊNCIAS DA SAÚDE FUNDAÇÃO DE ENSINO E PESQUISA EM CIÊNCIAS DA SAÚDE INSTITUTO VIDA UNA

CAROLINA DE CARVALHO E CARVALHO

A APLICAÇÃO DA MUSICOTERAPIA NA REDUÇÃO DO ESTRESSE: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

Monografia apresentada como requisito parcial à conclusão do Curso de Especialização lato sensu em Musicoterapia, do Instituto Vida Una, em convênio com a Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS/ FEPECS) da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal. Orientadora: Mt.ª Gabryelle Patriota Co-orientadora: Dr.ª Marisa Pacini Costa

BRASÍLIA 2008

BANCA EXAMINADORA

______________________________ Dr.ª Marisa Pacini Costa Escola Superior de Ciências da Saúde ESCS/SES/DF ______________________________ Mt.ª Alessandra Costa Barbosa Instituto Vida Una

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AGRADECIMENTOS

Meu especial agradecimento à orientadora e Musicoterapeuta Gabryelle Patriota, pelo acompanhamento, orientação e supervisão minuciosa deste trabalho. Agradeço à co-orientadora Drª Marise Pacine, pelas dicas e informações, à colega Soraya Vidya, pelo apoio, carinho e paciência durante essa jornada e ao amigo Nelson Montenegro, pela leitura crítica final.

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RESUMO O estresse está deixando de ser um processo natural benéfico e de defesa do organismo para se tornar um dos maiores propagadores de doenças da era moderna. Atualmente, estima-se que ele seja o responsável por cerca de 50% de todas as consultas médicas e faltas ao trabalho, gerando gastos exorbitantes para as empresas e para o setor público de saúde. O estresse não tem preconceitos e as reações fisiológicas que ele provoca são iguais em todos os seres vivos superiores, dependendo, apenas, da percepção dos fatores estressores, que muda de uma pessoa para outra, de acordo com a sua forma de entender o mundo. Atualmente, muitas são as recomendações para a prevenção e tratamento do estresse, sendo uma delas, a musicoterapia, que pode ter surgido como modalidade de tratamento a partir da observação da capacidade que a música tem de acalmar e relaxar quem dela usufrui. A musicoterapia possibilita a abertura de canais de comunicação que permitem ao indivíduo se expressar, se autoconhecer e trabalhar conteúdos internos que possibilitarão o restabelecimento da sua saúde. Vários estudos científicos vêm comprovando que a musicoterapia é capaz de reduzir e controlar o estresse. Dessa forma, a partir da análise neurofisiológica da ação do estresse e da música sobre o homem, com o objetivo de encontrar as áreas e as técnicas da musicoterapia que melhor se aplicam ao tratamento e prevenção do estresse, esse trabalho conclui que todas as técnicas e todas as práticas da musicoterapia podem ser benéficas ao tratamento do indivíduo estressado. Palavras chaves: musicoterapia; música; estresse.

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ABSTRACT The stress is leaving of being a natural beneficial and defense process of the organism to become one of the biggest spreaders of illnesses of the modern age. Currently, scientists esteem that it is the responsible one for about 50% of all the medical consultations and lacks to the work, producing excessive expenses for the companies and the public sector of health. The stress does not have preconceptions and the physiological reactions that it provokes are the same in every creature, depending, only, of the perception of the factors stressors, that dumb of a person to another one, in accordance with its form to understand the world. Currently, many are the recommendations for the prevention and treatment of stress, being one of them, the music therapy, which can have appeared as modality of treatment from the comment of the capacity that music has to calm and to relax who of it usufructs. The music therapy opens of communication channels that allow the individual to express, to know about himself and to work internal contents that will reestablishment of its health. Some scientific studies come proving that the music therapy is capable to reduce and to control stress. Of this form, from the neurophysiologic analysis of the action of the stress and the music on the man, with the objective to find the areas and the techniques of the music therapy that more good if apply to the treatment and prevention of the stress, this work concludes that all the techniques and all the practical ones of the music therapy can be beneficial to the treatment of the stressed persons. Key-words: music therapy; music; stress.

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LISTA DE ABREVIAÇÕES E SIGLAS

ACTH Bpm CRH OMS OPAS SGA SNA SNC SNP WHO

- Hormônio Adrenocorticotrópico - batimentos por minuto - Hormônio de Liberação da Corticotropina - Organização Mundial da Saúde - Organização Pan-Americana de Saúde - Síndrome Geral da Adaptação - Sistema Nervoso Autonômico - Sistema Nervoso Central - Sistema Nervoso Periférico - World Health Organization

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LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1 - RESPOSTA NEUROFISIOLÓGICA AO ESTRESSE....................... 16 FIGURA 2 - PROCESSO DE INIBIÇÃO DO ESTRESSE PELA MÚSICA...........43

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SUMÁRIO INTRODUÇÃO............................................................................................................. 1 METODOLOGIA.......................................................................................................... 4 REFERENCIAL TEÓRICO.......................................................................................... 5 1 ESTRESSE............................................................................................................... 5 1.1 CONCEITOS.......................................................................................................... 5 1.2 FATORES DESENCADEANTES DO ESTRESSE................................................ 11 1.3 NEUROFISIOLOGIA DO ESTRESSE................................................................... 14 1.4 SINAIS E SINTOMAS DO ESTRESSE................................................................. 21 1.5 CONSEQÜÊNCIAS DO ESTRESSE..................................................................... 22 1.6 PROFILAXIA E TRATAMENTO............................................................................. 23 2 MUSICOTERAPIA.................................................................................................... 27 2.1 BREVE HISTÓRICO.............................................................................................. 27 2.2 MÚSICA: CONCEITOS E DEFINIÇÕES............................................................... 30 2.3 MUSICOTERAPIA: CONCEITOS E DEFINIÇÕES............................................... 32 2.4 BENEFÍCIOS E APLICAÇÕES DA MUSICOTERAPIA......................................... 35 3 MUSICOTERAPIA E ESTRESSE............................................................................ 39 3.1 NEUROFISIOLOGIA DA MÚSICA E SUA ATUAÇÃO DIANTE DO ESTRESSE.. 40 3.2 AS PRINCIPAIS TÉCNICAS MUSICOTERÁPICAS E SUA UTILIZAÇÃO NO ESTRESSE........................................................................................................... 43 3.2.1 Improvisação....................................................................................................... 44 3.2.2 Re-criação........................................................................................................... 45 3.2.3 Composição........................................................................................................ 45 3.2.4 Audição............................................................................................................... 46 3.3 AS PRÁTICAS MUSICOTERÁPICAS E SUA APLICAÇÃO NO ESTRESSE........ 50 3.3.1 Didática............................................................................................................... 50 3.3.2 Recreativa........................................................................................................... 51 3.3.3 Médica................................................................................................................ 52 3.3.4 Psicoterapêutica.................................................................................................. 53 3.3.5 Ecológica............................................................................................................. 54 3.3.6 Cura.....................................................................................................................56 CONCLUSÃO.............................................................................................................. 58 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................... 62
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INTRODUÇÃO O estresse é um processo biológico inerente ao homem, que o serve para a sua proteção. Sem ele a raça humana provavelmente já teria entrado em extinção, porque eram as reações do estresse as responsáveis por mobilizar as forças dos nossos ancestrais pré-históricos para que eles lutassem ou fugissem diante de um predador maior ou mais forte que eles. São essas mesmas reações, milhões de anos depois, que nos fazem acordar cedo para ir trabalhar todos os dias. O termo estresse, descrito pela primeira vez pelo endocrinologista naturalizado canadense Hans Seyle, é emprestado da física e refere-se ao conjunto de reações de nossos sistemas orgânicos frente a uma ruptura do equilíbrio interno causada por alguma ameaça ou desafio. Em outras palavras, o estresse surge na vida de uma pessoa no momento em que ocorre uma mudança no seu cotidiano, ao qual ela precisa se adaptar, e que seja capaz de provocar uma série de reações fisiológicas que lhe ajudarão a lidar com esta nova situação (BERNIK, 2008). Porém, como vivemos em um mundo em constante mutação, com demandas cada vez maiores, mais complexas e mais urgentes, o estresse vem se tornando a epidemia da era moderna onde, aquelas reações fisiológicas, que antes ajudavam o homem a lidar com os agentes estressores, agora lhe causam fadiga, insônia, irritabilidade, agressividade, aumento de peso, elevação da pressão arterial, da freqüência cardíaca e da glicemia (taxa de açúcar no sangue), dentre outras tantas intercorrências. O profissional moderno, provavelmente um dos alvos preferenciais do estresse, não raro passa a apresentar baixa produtividade e doenças físicas e psicológicas, que elevam as taxas de absenteísmo e configuram o estresse como um sério problema de saúde pública, que vem dizimando nossa classe produtiva e trazendo sérios prejuízos financeiros para as empresas e cofres públicos. O potencial de um agente estressor depende do valor que lhe é conferido, ou seja, os eventos são percebidos pelo indivíduo de acordo com as suas experiências de vida e sua sensibilidade psicológica naquele momento. Dessa forma, o tratamento ou a prevenção do estresse baseia-se em ações que possibilitem ao indivíduo anular a coação dos fatores estressores que agem sobre ele ou lhe

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fornecer subsídios que o ajudem a lidar melhor com as pressões impostas pela sociedade. A música é uma arte universal e não existe uma única civilização na qual não se encontrem manifestações musicais. O poder que a música tem de produzir mudanças comportamentais e emocionais tem despertado o interesse dos cientistas em tentar descobrir a sua forma de atuação sobre a saúde do homem. Dessa forma, cresce a pesquisa da intrincada relação entre a música e a medicina, principalmente por parte da fisiologia, neurologia e psiquiatria que buscam explicar as reações e os efeitos da música sobre o nosso organismo e nossa mente. Segundo BARALE (2006), a música age sobre o ser humano a nível físico, mental, espiritual e intelectual, lhe proporcionando bem estar e melhorias para a sua qualidade de vida. Além disso, a música, por ser uma forma de comunicação nãoverbal, possibilita a abertura de novos canais de comunicação que melhoram sua expressão e autoconsciência, permitindo que a pessoa lide melhor com seus conflitos emocionais e consiga expor as suas preocupações inconscientes. Neste contexto, a musicoterapia aparece como uma promissora ferramenta no combate ao estresse, porque os dois, tanto a música quanto o estresse, são percebidos pelas mesmas estruturas cerebrais, levando a crer que as reações fisiológicas do estresse possam ser interrompidas com a aplicação da musicoterapia. Este tema é de grande relevância para a sociedade porque o estresse está presente na vida de todos nós: seja em menor ou maior grau; impulsionando-nos a estudar, trabalhar e lutar por uma vida melhor, ou provocando conseqüências devastadoras na saúde física, mental e financeira das pessoas, das empresas e do setor público. A procura por meios alternativos, que possam auxiliar na prevenção ou redução dos níveis de estresse, deve ser estimulada porque, segundo alguns estudiosos, estima-se que cerca de 50% das doenças e consultas médicas da atualidade sejam em conseqüência do estresse. Somam-se a isso, as elevadas taxas de absenteísmo, as quedas de produtividade e os milhões de dólares destinados anualmente para as despesas médicas: todos em decorrência do estresse. Portanto, sendo a musicoterapia uma disciplina em expansão dentro da área médica e que vem se mostrando uma ferramenta eficaz e de baixo custo para uma série de agravos a saúde, acredita-se que o estudo dos mecanismos biológicos de atuação da música frente ao estresse, bem como das áreas e técnicas

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musicoterápicas mais benéficas a esses pacientes, somará esforços na luta contra este mal, que nos causa tantos prejuízos. Diante do exposto, o objetivo do presente trabalho consiste em pesquisar as áreas e as técnicas da musicoterapia definidas por Kenneth Bruscia que melhor se aplicam ao tratamento de pessoas estressadas, a partir do estudo neurofisiológico da ação do estresse e da música sobre o organismo humano.

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METODOLOGIA Esta monografia caracteriza-se por uma pesquisa bibliográfica de revisão da literatura realizada entre os meses de abril a agosto de 2008. Neste período, foram investigadas bases de dados científicos on-line e vias não-sistemáticas a procura de bibliografia relacionada ao assunto, publicada entre os anos de 1980 e 2008, constituída por artigos científicos, publicações periódicas, monografias, teses, dissertações, anais de congressos, livros didáticos e documentos elaborados por instituições governamentais e sociedades e/ou associações científicas. As bases de dados pesquisadas foram BIREME, MEDLINE, SCIELO, LILACS e PUBMED e como critérios de inclusão foram utilizadas as seguintes palavras-chave: "music", "stress", "music therapy", “música”, "estresse" e “musicoterapia”.

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REFERENCIAL TEÓRICO

1 ESTRESSE

1.1 CONCEITOS Desde o início do último século a sociedade vem sofrendo mudanças em todos os seus níveis, exigindo do homem o desenvolvimento de sua capacidade de adaptação física, mental e social. A sobrevivência na era moderna exige que as pessoas se ajustem a mudanças que ocorrem diariamente e de forma significativa em suas vidas, e que culmina por expô-las a situações de conflito, ansiedade e desestabilidade emocional. Mas as mudanças não são uma novidade na civilização humana. Para que houvesse a evolução, houve a necessidade de transformação de conceitos e idéias e a incorporação das novas teorias e tecnologias levantadas. O que é inédito é a velocidade com que essas mudanças, sociais e culturais, que formam a base da nossa evolução, ocorrem na vida moderna e obriga a todos, de jovens a velhos, a se adaptarem (BALLONE, 2008b). Ao que parece, o homem passou a padecer realmente do estresse após a Revolução Industrial, a partir da qual as exigências sobre ele cresceram mais que o desenvolvimento de suas funções neurológicas, sobrecarregando a sua capacidade de adaptação às demandas sociais. É bem provável que o excesso de novidades a que somos submetidos diariamente ultrapassem os limites adaptativos do nosso corpo, levando-nos a desenvolver, assim, o estado de estresse. Vivemos em uma época em que o conhecimento é globalizado e indispensável, e chega até nós de forma torrencial em decorrência do desenvolvimento tecnológico que, ao facilitar as nossas vidas, também nos possibilitou ter acesso a um número exorbitante de informações ao simples toque de um botão. Os trabalhadores de hoje, os mais afetados pelas modificações do meio em que vivemos, são obrigados a serem altamente competentes e eficientes e a se manterem sempre atualizados, pois vivem em uma competição acirrada por

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promoções e melhores salários; sob pressão por melhores resultados, produtividade e qualidade, e observam, impotentes, à redução cada vez maior da mão de obra, visando o incremento dos lucros das empresas. Nessa realidade em que a maioria de nós está inserida, a busca incessante por conhecimento, as desgastantes e excessivas horas de trabalho e as pesadas rotinas de afazeres e obrigações são, todas, normativas e exercem uma intensa pressão sobre os trabalhadores. Como se não bastasse a pressão sofrida no trabalho, somam-se ainda as cobranças realizadas pela família e amigos, o trânsito caótico e desrespeitoso, a poluição sonora e ambiental, a violência gratuita, a diminuição da renda, o alto custo de vida e a falta de tempo para a prática de atividade física, convívio familiar e lazer. A velocidade com que o mundo e a sociedade se transformam, delineados por todas essas forças de coação agindo sobre o indivíduo e o obrigando a um grande esforço de adaptação física, mental e social, gera um estado de tensão, caracterizado por ansiedade, angústia, instabilidade emocional e reações físicas como taquicardia, tensão muscular, boca seca e aumento da pressão arterial sistêmica (BALLONE, 2008b; BERGES et al., 2008). A este estado de tensão, que desestabiliza o equilíbrio interno natural do ser humano e é desencadeado por fatores que exercem uma persistente e forte pressão para que o indivíduo se adapte a uma nova situação, chamamos de Síndrome Geral de Adaptação - SGA ou Estresse (stress do inglês) (BALLONE, 2008b; BERGES et al., 2008). A palavra estresse é derivada da Física e significa "estar sob pressão" ou "estar sob a ação de um estímulo persistente". Segundo o dicionário Aurélio, citado por BERNIK (2008), estresse é "o conjunto de reações do organismo a agressões de ordem física, psíquica, infecciosa, e outras, capazes de perturbar-lhe a homeostase". Homeostase é o termo utilizado para a capacidade de auto-regulação dos nossos sistemas orgânicos que, diante de fatores agressores que lhe alteram o equilíbrio interno, buscam restabelecer o ponto em que se encontravam antes do acometimento ou agressão. Quando a tensão é demasiada para que o indivíduo se adapte às demandas do meio em que vive, o equilíbrio interno do seu organismo é quebrado e, como conseqüência, passa a apresentar um conjunto de reações

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psicofisiológicas de adaptação que caracterizam o estado de estresse (BALLONE, 2008b; BERNIK, 2008; OLIVEIRA, 2008). A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) considera o estresse como sendo:
a soma das reações biológicas a qualquer estímulo adverso, seja físico, mental ou emocional, externo ou interno, que tende a perturbar a homeostasia do organismo, podendo levar a manifestação de doenças. Consiste de reações do organismo frente a situações agudas de ameaça ou agressão, envolvendo os sistemas neuroendócrino, cardiovascular, musculatura estriada, aparelho digestivo, entre outros, que reagem nas fases imediatamente e seguintes a uma agressão, ameaça ou a um perigo, caracterizando a chamada reação de luta ou fuga (BRASIL, 2001).

OLIVEIRA (2008) define estresse como sendo o estado de ativação biológica e fisiológica do organismo, diante de uma mudança geradora de instabilidade interna, e que é seguido por reações emocionais resultantes da significação dos agentes estressores. De acordo com BERNIK (2008), o estresse é um estado de acionamento e tensão que se instala a partir de reações fisiológicas e biológicas desencadeadas por uma mudança do meio. Qualquer mudança, tanto as boas quanto as ruins, tem o potencial de causar estresse, que terá sua intensidade modulada de acordo com o grau do evento de mudança. Segundo LIPP e MALAGRIS (2001), também citadas por OLIVEIRA (2008), quando o indivíduo depara-se com uma situação que ele interpreta como ameaçadora e desafiante, o funcionamento interno do seu corpo é afetado a ponto de lhe alterar o bem estar. Dessa forma, o organismo desencadeia uma resposta complexa que consiste de várias reações físicas, psicológicas, mentais e hormonais na tentativa de voltar ao estado de funcionamento no qual ele se encontrava antes do evento. O estresse consiste no esforço de adaptação dos organismos às mudanças do meio (externo ou interno) e está presente em todos os seres vivos, caracterizando-se como um estado biológico e fisiológico que se instala independente do significado psicológico da situação que o provocou (OLIVEIRA, 2008). Hans Selye, nascido em 1907 em Vienna, no antigo Império Austro-Húngaro, foi o primeiro médico a estudar cientificamente o estresse e suas conseqüências, e já afirmava na década de 30 que o estresse consiste no processo de adaptação

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mais importante do nosso organismo; que ele faz parte do nosso sistema de defesa e é necessário no provimento de energia para enfrentarmos situações novas e/ou de perigo (KHALFA, 2005; OLIVEIRA, 2008; WHO, 2008b). Em 1936, Hans Selye descreveu pela primeira vez a Síndrome Geral da Adaptação (SGA), baseando-se nos trabalhos anteriores do fisiologista Walter Cannon, criador do conceito de homeostase, e em seus próprios estudos, em que observou que diferentes organismos apresentavam um mesmo padrão de resposta fisiológica a estímulos sensoriais ou psicológicos (BALLONE, 2008b; KRUMM, 2007; OLIVEIRA, 2008). A Síndrome de Adaptação ao Estresse (SGA) é um conjunto de reações desencadeadas pelo organismo quando nosso cérebro se depara com um evento e o interpreta como sendo ameaçador. Ela é caracterizada por três estágios: a fase de alarme, a fase da resistência e a fase de esgotamento (BALLONE, 2008e). A reação inicial do indivíduo ao agente agressor constitui a fase de alerta e é aquela conhecida também como resposta de fuga ou de luta. Esse padrão de resposta é sempre o mesmo para todos os indivíduos, independente da reação comportamental que a pessoa apresente como, por exemplo, lutar ou fugir. Ela é decorrente da ativação do sistema nervoso simpático, que promove a liberação plasmática de uma grande quantidade de epinefrina (ou adrenalina), que, por sua vez, gera aumento da freqüência cardíaca e respiratória, da pressão arterial, dilatação das pupilas, aumento da glicemia e diminuição dos processos digestivos. Todos esses mecanismos são necessários, por exemplo, para aquele momento em que nos deparamos com um leão e precisamos correr ou lutar (ou rezar!). Ou para aqueles momentos fatídicos em que o despertador falha e de repente percebemos que estamos atrasados para aquela reunião importante! Sendo o estressor de curta duração, essa fase termina algumas horas após a eliminação da epinefrina do corpo e a restauração do equilíbrio interno. Nestas circunstâncias, é possível que não haja a instalação de efeitos negativos duradouros (BALLONE, 2008e; KRUMM, 2007). Se o agente estressor perdura ou é de grande intensidade, o organismo vai tentar manter a homeostase entrando na segunda fase do estresse, a de resistência ou adaptação. Neste momento o corpo começa a se acostumar aos estímulos geradores do estresse. Os sintomas da fase de alarme já não são mais sentidos e o indivíduo passa a apresentar um cansaço generalizado, sem causa aparente, com

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falhas na memória e na concentração. Nesta fase, o organismo, que começa a se acostumar com os agentes estressores, se adapta para suportar o estresse por um período maior de tempo e pode canalizar suas ações para um único órgão ou sistema como a pele, sistema circulatório, sistema muscular ou aparelho digestivo. Durante esta fase, a produção de epinefrina permanece alta e constante enquanto que a de cortisol vai aumentando mais lentamente (BALLONE, 2008e; KRUMM, 2007). Se o fator estressor ainda permanecer por mais tempo, o organismo entra então na fase da exaustão ou esgotamento, onde o corpo já não consegue mais produzir epinefrina suficiente para lidar com a situação e ocorre um déficit geral de energia. As respostas ao estresse perdem intensidade e o organismo não pode mais manter-se em equilíbrio, perdendo assim a sua capacidade de se adaptar. É nesta fase que as doenças somáticas e psicossomáticas começam a aparecer em conseqüência do excesso de reações ao estresse. Os sintomas do estresse levam à perda das reservas energéticas, com enfraquecimento geral e queda da imunidade, podendo até mesmo ocasionar a morte em decorrência de um ataque cardíaco ou por uma infecção, como a pneumonia (BALLONE, 2008e; BALLONE, 2008c; KRUMM, 2007). Segundo SELYE (2008), o estresse é um estado que somente pode ser percebido por suas manifestações fisiológicas, tais como, aumento da freqüência cardíaca e respiratória, elevação da pressão arterial, irritabilidade, nervosismo, ansiedade e depressão, porque não existem exames sanguíneos ou de imagens que possam diagnosticar que uma pessoa é portadora de estresse! Ele possui características específicas, mas não uma causa particular, porque é um estado, um processo, um conjunto de reações e não uma doença. É uma resposta não específica do nosso corpo a qualquer exigência de mudança, onde o organismo sempre reagirá às modificações do meio da mesma forma e com o mesmo tipo de resposta fisiológica, independente se ela for boa ou ruim, dependendo apenas de como o indivíduo a percebe. BALLONE (2008a) complementa SELYE referindo que cada um de nós possui uma sensibilidade afetiva particular que é formada por um conjunto de mecanismos dos quais o organismo se utiliza nos momentos em que enfrenta potenciais estressores e que caracteriza a forma como cada pessoa avalia e lida

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com estas situações. É essa sensibilidade afetiva que explica porque algumas pessoas avaliam e reagem de forma particular a determinados eventos, permitindo que estes repercutam em maior ou menor grau sobre seus organismos. A reação fisiológica ao estresse é igual para todos os seres vivos superiores. Porém, aspectos sociais e diferentes comportamentos nas etapas do

desenvolvimento psíquico e biológico, bem como características pessoais de flexibilidade e abertura a mudanças, fatores genéticos, dieta e freqüência de atividade física, por exemplo, são algumas das características que possibilitam determinadas pessoas de desencadearem uma ativação fisiológica maior ou de reagir de forma mais saudável que outras, quando expostas aos mesmos agentes estressores (BALLONE, 2008b; KRUMM, 2007). A reação a determinadas situações tende a variar entre os indivíduos e isso se deve em grande parte à personalidade das pessoas. Pesquisadores ainda na década de 70 descobriram que pessoas com personalidade do tipo A, ou seja, que apresentam como características intrínsecas a agressividade, hostilidade,

ansiedade, tendência exagerada à competição e facilidade de somatização, estavam entre os indivíduos com maior probabilidade de se encontrarem estressados, que aqueles de personalidade tipo B, mais calmos, tranqüilos e ponderados (KRUMM, 2007). A resposta aos fatores estressores dependerá tanto das diferenças individuais de cada pessoa, como também da sua classe social, nível cultural e padrões adaptativos de comportamento. Se entendermos que o estresse é uma adaptação orgânica e psíquica às modificações do meio, mesmo eventos positivos como festas, férias ou promoções geram estresse. É a maneira como cada pessoa sente, percebe e reage a um agente estressor que caracteriza o estresse como sendo positivo ou negativo (BERNIK, 2008; LIMA; SANTOS; SPARRENBERGER, 2003; KRUMM, 2007; OLIVEIRA, 2008). A reação dos animais superiores aos agentes estressores tem a finalidade de sobrevivência. Por isso, até certo ponto, o estresse é positivo e nos impulsiona a buscar uma solução diante dos desafios da vida; a melhorar o funcionamento das organizações por meio da mobilização dos trabalhadores; a estimular a criatividade para a resolução de problemas; a estudar e lutar por melhores salários; a ajudar os atletas a superarem seus desafios, dentre outros tantos exemplos de como o

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estresse pode nos fornecer o combustível necessário para o nosso crescimento. A esse estresse positivo, indispensável à nossa sobrevivência, desenvolvimento e evolução, nomeamos de eustresse. O estresse negativo, que trás prejuízos à nossa saúde, chamamos de distresse. Ambos provocam a mesma resposta fisiológica não específica. A diferença é que o eustresse causa ao nosso organismo menos danos que o distresse (BALLONE, 2008b; OLIVEIRA, 2008; SELYE, 2008). O distresse pode ser percebido pelo cansaço, irritabilidade, falta de concentração, depressão, pessimismo, baixa resistência imunológica e mau-humor que acometem o indivíduo, enquanto que o eustresse se manifesta, por exemplo, pelo aumento e manutenção da vitalidade, força de vontade, auto-estima, entusiasmo, otimismo, disposição física e interesse (BALLONE, 2008b). Por tudo isso, eliminar o estresse totalmente de nossas vidas não é possível e nem desejável porque, em certo grau, ele é necessário e benéfico, uma vez que propicia um melhor desempenho de nossas funções orgânicas e a manutenção do crescimento social e profissional, que requerem mudanças e adaptações contínuas. KRUMM (2007) descreve que alguns pesquisadores constataram que uma grande diminuição do estresse como, por exemplo, diminuição das cobranças, prazos e afazeres nas empresas, geram queda de produtividade e até mesmo tédio. O ideal e mais difícil, segundo o autor, é encontrar o equilíbrio (BALLONE, 2008b; BALLONE, 2008d; OLIVEIRA, 2008).

1.2 FATORES DESENCADEANTES DO ESTRESSE Fator ou agente estressor é um acontecimento, situação, pessoa ou objeto capaz de provocar uma tensão que gera uma instabilidade interna no indivíduo, desencadeando o conjunto de reações sistêmicas que caracterizam a Síndrome de Adaptação Geral ao estresse. O estresse é um processo complexo e multifatorial influenciado por fatores estressores que podem ser agudos ou crônicos, de origem externa ou interna, reais ou imaginários e de ordem pessoal, familiar, social, econômica ou profissional. Os estímulos internos são irracionais e surgem a partir de conflitos pessoais que refletem a sensibilidade afetiva de cada um; enquanto que os fatores externos englobam os desafios concretos e vividos diariamente pelo indivíduo. Um exemplo

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de agente estressor interno é a baixa auto-estima que, na maioria das vezes, representa um potente desencadeador de ansiedade, perturbando incessantemente a pessoa e estimulando as reações de estresse (BALLONE, 2008b; LIMA; SANTOS; SPARRENBERGER, 2003; WHO, 2008b). Hoje, pesquisadores do assunto vêm comprovando cientificamente aquilo que já sabíamos e sentíamos na pele: que as mudanças e os problemas cotidianos que enfrentamos e precisamos resolver diariamente são os mais potentes

desencadeadores do estresse na vida moderna, ficando o trabalho, seus problemas e relações, em primeiro lugar entre os fatores estressores. O trabalho é um fator de desgaste emocional em potencial e, por isso, um dos grandes desencadeadores do estresse e dos transtornos relacionados a ele como, por exemplo, a depressão, a ansiedade patológica, as doenças psicossomáticas, a síndrome do pânico e as fobias. A redução maciça e intermitente do contingente de trabalhadores, associada às exigências para o crescimento da produtividade, à escassez de tempo e aumento da complexidade das tarefas, além de péssimas e tensas relações de trabalho e precárias instalações, são os fatores psicossociais desencadeadores do estresse relacionado ao trabalho (BRASIL, 2001; BALLONE, 2008d). Somam-se a isso, longas jornadas de trabalho; atividades extremamente repetitivas, desinteressantes ou destituídas de significado; o acelerado

desenvolvimento de novas máquinas; escassez de recursos materiais para o desempenho das atividades; falta de clareza das normas e tarefas a serem desempenhadas pelos trabalhadores; e incertezas quanto ao futuro da empresa e manutenção do seu emprego são, todas, condições de trabalho que exercem uma violenta pressão sobre os funcionários. Estes, por sua vez, incapazes de lidar com essas forças de coação agindo sobre eles, se tornam descontentes,

desinteressados, desatentos, irritados, nervosos e ansiosos, e passam a apresentar baixa auto-estima, queda de produtividade e maiores índices de acidentes de trabalho (BALLONE, 2008d). De acordo com BALLONE (2008b), uma provável explicação para os níveis elevados de estresse na população é a dificuldade que o indivíduo moderno tem de expressar suas angústias, frustrações e emoções frente às tensões da vida, em nome da manutenção de um comportamento emocional politicamente correto, que o

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obriga a agir de forma robotizada e contrária aos seus sentimentos. Dessa forma, a pessoa começa a se isolar do convívio social, tornando-se triste, mal humorada e com grandes chances de desenvolver a depressão. Obviamente, os perigos que estressavam nossos ancestrais não são os mesmos que nos estressam hoje. Os agentes estressores modernos não são tão concretos como um rinoceronte, mas eles são reais para nós, apesar de abstratos. Hoje, são a competitividade e competência profissionais, a segurança social, a sobrevivência econômica e as perspectivas futuras, que nos atormentam e ameaçam continuamente o nosso ser e a nossa sobrevivência, nos tornando cada vez mais ansiosos e doentes. Aliás, como cita BALLONE (2008b), a ansiedade, mola propulsora do estresse, é uma reação fisiológica ao perigo que é indispensável à vida, e que nos serve de alerta para a necessidade de mudanças. Porém, na sociedade contemporânea, ela vem se tornando uma vigorosa fonte propagadora de distúrbios fisiológicos e mentais no momento em que passou a ser item indispensável à nossa sobrevivência, tamanha são as tensões e preocupações a que somos submetidos diariamente. Atualmente, grande parte de nós vive preocupada e ansiosa com o amanhã: com os trabalhos para finalizar, com os prazos para cumprir e com as metas a alcançar. Vivemos com medo e inseguros, e isso gera muita ansiedade, e consequentemente, mais estresse. Não podemos deixar de mencionar que o estilo de vida também está fortemente relacionado à gênese do estresse. A adoção de hábitos de vida inadequados como uma alimentação desequilibrada, o sedentarismo, o fumo, as poucas horas de sono, o consumo de álcool e drogas, a falta de tempo para o lazer e para o convívio familiar, além de uma preocupação excessiva com aparência e uma visão pessimista diante da vida, são atitudes que desempenham um papel decisivo na instalação do estresse. Pessoas que possuem uma sobrecarga de trabalho, por exemplo, mas que conseguem ter disciplina suficiente para manterem bons hábitos de vida como a prática de uma atividade física regular, uma alimentação saudável, não fumar e conseguem ter um bom convívio familiar, reservando momentos para o lazer, possuem poucas chances de virem a sofrerem conseqüências drásticas em virtude do estresse. Assim, essa pessoa que possui hábitos de vida mais saudáveis vai sentir o estresse de uma forma mais amena que

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aquela outra que é sedentária, obesa, fumante e workaholic (pessoa viciada em trabalho), por exemplo. Embora ocorra essa diferença na percepção do estresse, o organismo percebe os agentes estressores como uma ameaça e sempre reagirá da mesma maneira: iniciando uma cascata de reações bioquímicas com o objetivo de preparar o indivíduo para a luta, em um processo dinâmico em que alterna continuamente os pensamentos, sentimentos, conduta e mecanismos biofisiológicos do indivíduo para que ele possa se ajustar à mutante realidade em que vivemos.

1.3 NEUROFISIOLOGIA DO ESTRESSE O Sistema Nervoso é uma rede de comunicações que possibilita um organismo interagir tanto com o seu ambiente externo quanto com o interno, e é dividido em Sistema Nervoso Central (SNC) e Sistema Nervoso Periférico (SNP). O SNC tem como funções gerais a percepção sensorial, o processamento de informações e o comportamento. Ele recebe informações sobre o ambiente a partir do SNP, as processa e percebe uma parte delas; é responsável pela cognição, aprendizagem e memória; planeja e executa movimentos voluntários; e organiza reflexos e outras respostas comportamentais (BERNE; LEVY, 1996). O Sistema Nervoso Autônomo (SNA), formado pelos sistemas nervosos simpático e parassimpático, está sob o controle do SNC e tem como função primordial a manutenção da homeostasia interna do organismo por meio de sistemas de controle autonômico. Ele é responsável por empreender ações compensatórias quando determinados estímulos internos ou externos sinalizam que o equilíbrio foi quebrado e que há a necessidade de regulação (BERNE; LEVY, 1996). Faz parte ainda do SNA, o Sistema Límbico, um conjunto de estruturas responsáveis pelo controle do comportamento emocional, pela regulação do sistema nervoso autônomo e dos processos essenciais à sobrevivência da espécie e do indivíduo, como fome, sede e sexo (DE PAULA, 2006). Quando uma ameaça ou um agente estressor atinge um organismo, ele ativa maciçamente o sistema nervoso simpático e o organismo é posto em resposta de fuga ou de luta. Os resultados fisiológicos dessa ativação são: o aumento da freqüência cardíaca e da pressão arterial, aumento da freqüência respiratória e

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dilatação dos bronquíolos, inibição da motilidade e secreções intestinais, aumento do metabolismo da glicose, dilatação pupilar, piloereção e vasoconstrição dos vasos cutâneos (BERNE; LEVY, 1996). De um modo geral, a resposta neuroendócrina de adaptação ao estresse é mediada por duas vias que se justapõem: pelo eixo hipotalâmico-hipofisárioadrenocortical e pelo sistema nervoso simpático, conforme é detalhado na Figura 1 (BERNE; LEVY, 1996). Pelo eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenocortical, segundo KHALFA (2005), em presença de um agente estressante, de origem psicológica ou física, o sistema límbico, considerado o sistema das emoções, é ativado. Ainda dentro desse sistema há uma área que é intensamente ativada quando sofremos uma agressão, sentimos medo ou outras sensações desagradáveis, chamada de complexo amigdalóide. A ação do agente estressor é percebida por centros sensoriais e áreas sofisticadas de raciocínio, situados no córtex cerebral, que enviam uma mensagem para o complexo amigdalóide, ativando-o. Este, por sua vez, ativa o hipotálamo, gerando uma estimulação nervosa em suas células neuroendócrinas para que estas transformem o sinal nervoso em um sinal humoral, ou seja, em uma mensagem hormonal. O objetivo desta ação é fazer com que a informação sobre a agressão alcance os demais órgãos e inicie o conjunto de reações de adaptação ao estresse. Dessa forma, a estimulação nervosa sobre as células neuroendócrinas do hipotálamo desencadeia a produção de um hormônio chamado hormônio de liberação da corticotropina (CRH) (A NOVA, 2007; BERNE; LEVY, 1996; KHALFA, 2005; SELYE, 2008). O CRH secretado pelo hipotálamo, atinge a hipófise e estimula a liberação do hormônio adrenocorticotrópico (ACTH), que tem como glândula alvo as adrenais, mais especificamente a área cortical das adrenais (ou córtex supra-renal), responsável pela produção do cortisol, um hormônio glicocorticóide, crítico à sobrevivência humana devido à sua ação sobre o metabolismo dos carboidratos e proteínas, e que possui uma importante atuação na resposta de adaptação ao estresse, uma vez que é o responsável por nos manter em estado de alerta (BERNE; LEVY, 1996; SELYE, 2008). Ao mesmo tempo, o agente agressor também ativa outras células do hipotálamo, os neurônios adrenérgicos, que são estimulados a produzirem a

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norepinefrina, um neurotransmissor que age estimulando o Sistema Nervoso Simpático. A norepinefrina atua agora sobre a medula adrenal estimulando a produção de epinefrina, uma catecolamina que juntamente com o cortisol, produzido pelo córtex adrenal, irá atuar de forma decisiva na reação ao estresse. Os elevados níveis plasmáticos desses dois hormônios são os principais indicadores biológicos da resposta ao estresse (BALLONE, 2008e; BERNE; LEVY, 1996; WHO, 2008b).

FIGURA 1 - RESPOSTA NEUROFISIOLÓGICA AO ESTRESSE

FONTE: Disponível em: <http://acupunturacontemporanea.blogspot.com/2007/12/stress.html>. Acesso em: 24 ago. 2008.

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Tanto o neurotransmissor norepinefrina quanto e o neuropeptídeo CRH produzidos pelo hipotálamo para ativarem a produção de outros hormônios pela hipófise, também podem gerar reações de adaptação ao estresse. Em uma situação de ameaça à vida, a norepinefrina aumenta o estado de alerta e vigilância, ativa o comportamento defensivo e a agressividade. O CRH estimula a atividade motora, a vocalização e a sensibilidade aos estímulos auditivos, ao passo que inibe a atividade sexual, a ingestão de alimentos e a liberação dos hormônios que atuam no crescimento e na reprodução, funções inúteis em momentos de perigo (BERNE; LEVY, 1996). Juntos, o cortisol e a epinefrina aumentam a produção de glicose no sangue, desviando a sua utilização para o sistema nervoso central e para longe dos tecidos periféricos. Enquanto a epinefrina ativa rapidamente a glicogenólise (quebra do glicogênio hepático e muscular em glicose), o cortisol atua mais lentamente, fornecendo substratos de aminoácidos para a gliconeogênese (produção de glicose a partir de aminoácidos provenientes das proteínas) (BERNE; LEVY, 1996). A epinefrina ativa a enzima lipase, responsável pela quebra das células lipídicas no tecido adiposo, liberando também ácidos graxos na corrente sanguínea, como uma fonte alternativa de energia para o coração e músculos, ao passo que o cortisol facilita a resposta lipolítica, ou seja, a quebra do lipídio em ácidos graxos e moléculas de glicerol (BERNE; LEVY, 1996). Os dois hormônios elevam a pressão arterial e a freqüência cardíaca e melhoram o aporte de energia aos tecidos que são críticos para a defesa do organismo. Havendo lesão tecidual ou invasão, os elevados níveis de cortisol atuam aumentando a quantidade de linfócitos no sangue e restringem as respostas inflamatória e imune imediatas, de modo a evitar que estas causem danos irreparáveis aos órgãos e tecidos do corpo (BALLONE, 2008c; BERNE; LEVY, 1996). A epinefrina é uma catecolamina que irá atuar mantendo elevados os níveis de glicose plasmática durante o estresse com o objetivo de prover a energia necessária para o sistema nervoso central. Para isso, ela estimula a glicogenólise no fígado e nos músculos; ativa a gliconeogênese hepática; e inibe tanto a secreção quanto a atividade da insulina, hormônio pancreático que facilita a captação da glicose sanguínea pelos músculos e tecido adiposo (BERNE; LEVY, 1996).

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Ela eleva a freqüência cardíaca e a pressão arterial sistólica, intensificando o fluxo sanguíneo e o aporte de nutrientes para o coração, cérebro e músculos esqueléticos, facilitando a ação e o movimento. Também gera um incremento de 7 a 15% da taxa metabólica basal, aumentando, assim, a termogênese, termo utilizado para designar a produção de calor pelo organismo (BALLONE, 2008e; BERNE; LEVY, 1996; WHO, 2008b). Por fim, a epinefrina reduz a atividade motora gastrointestinal e genituitária, atividades dispensáveis em situações de perigo; aumenta a freqüência respiratória e relaxa os bronquíolos, com o intuito de melhorar as trocas gasosas; gera contração do baço, aumentando a quantidade de glóbulos vermelhos no sangue e melhorando a oxigenação de regiões estratégicas; aumenta a quantidade de linfócitos T, preparando o organismo para eventuais danos por agentes externos; e atua dilatando as pupilas, permitindo uma melhora da visão e beneficiando o indivíduo que se encontra em perigo (BALLONE, 2008e; BERNE; LEVY, 1996). Apesar de a epinefrina ser essencial nas situações de estresse, a sua manutenção em elevados níveis e por um período prolongado de tempo pode vir a causar, dentre outras doenças, o diabetes mellitus, uma vez que atua como um hormônio hiperglicemiante. Ela também se torna deletéria quando a diminuição do fluxo sanguíneo para os demais órgãos como rins, fígado e intestino passam a provocar insuficiência renal e hepática, e paralisia intestinal com necrose do tecido gastrointestinal (BERNE; LEVY, 1996; WHO, 2008b). O cortisol é essencial à vida e é o hormônio glicocorticóide mais abundante no organismo. Ele é secretado pelo córtex adrenal e está sob o controle do eixo CRHACTH hipotalâmico-pituitário (referente a hipotálamo e hipófise). Ele é responsável por manter a produção de glicose a partir da proteína; facilitar o metabolismo dos lipídeos; sustentar a capacidade de resposta vascular e modular a função do sistema nervoso central. Também atua sobre a formação óssea, a função muscular, as respostas imunológicas e a função renal (BERNE; LEVY, 1996). Ele é extremamente útil na fase de alarme da SGA, enquanto que a sua ação geral mais importante consiste em prover energia de rápida utilização para as reações de adaptação ao agente estressor. Dessa forma, ele atua facilitando a conversão da proteína a glicogênio e por isso diz-se que ele é um hormônio catabólico por que ele atua quebrando a molécula de proteína muscular

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transformando-a em glicose, substrato energético de rápida utilização. Sem o cortisol, provavelmente morreríamos de hipoglicemia durante um jejum prolongado, após a depleção do glicogênio hepático (BERNE; LEVY, 1996; SELYE, 2008). Em situações normais o cortisol também melhora a contratilidade e o desempenho dos músculos esqueléticos e cardíacos; atua na manutenção da pressão arterial, mantendo-a em níveis normais, e parece melhorar a capacidade de integrar as sensações que são percebidas pelo corpo e de organizar as respostas apropriadas (BERNE; LEVY, 1996). Portanto, em quantidades normais, a ação do cortisol é fisiologicamente benéfica. Porém, em excesso no sangue, leva à inibição da síntese protéica e drenagem das reservas de proteínas corporais, sobretudo dos músculos, ossos, tecido conjuntivo e pele. A sua atuação na reabsorção óssea leva a uma redução global da massa óssea potencializando o desenvolvimento da osteoporose. A inibição da síntese de colágeno (devido à inibição da síntese de proteínas) ocasiona fragilidade capilar que pode gerar hemorragias intracutâneas, enquanto que a diminuição da massa muscular geral leva à fraqueza muscular (BERNE; LEVY, 1996). Da mesma forma que a epinefrina, o excesso de cortisol provoca hiperglicemia, podendo levar o indivíduo a desenvolver o diabetes mellitus tipo II. Ele também atua sobre as reservas lipídicas no jejum prolongado, permitindo a liberação acelerada de reservas energéticas, como os ácidos graxos e glicerol, para a gliconeogênese (transformação em glicose). Porém, ao contrário do que se poderia imaginar, durante o estresse, a liberação contínua e maciça de cortisol estimula o apetite e a ingestão calórica, favorecendo a lipogênese (produção de lipídeos a partir dos carboidratos) e o ganho de peso, especialmente na região abdominal (BERNE; LEVY, 1996). No estresse, o cortisol em excesso pode provocar insônia, porque age diminuindo o sono REM, e pode elevar ou deprimir o humor de forma tão drástica que é comum o indivíduo estressado vir a apresentar quadro de depressão (BERNE; LEVY, 1996). O cortisol em grandes quantidades também atua sobre o sistema imunológico inibindo a resposta inflamatória e a capacidade do organismo de lidar localmente de modo eficiente com irritantes ou organismos patogênicos. O excesso de corticóides

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promove a leucocitose (aumento do número de glóbulos brancos relacionados à defesa imunológica do organismo no sangue) e aumento das plaquetas plasmáticas, elevando as chances de formação de coágulos e futuras embolias e tromboses, enquanto que as catecolaminas agem inibindo a ação dos anticorpos (BALLONE, 2008a; BERNE; LEVY, 1996). Em situações normais, a produção de cortisol é controlada por um mecanismo de feedback negativo em que o próprio cortisol, presente na corrente sanguínea, suprime a secreção de ACTH, em nível hipofisário, bloqueando a ação estimuladora do CRH sobre as células neuroendócrinas da hipófise e diminuindo a síntese do ACTH, por meio da inibição da sua transcrição. Em nível hipotalâmico, ele atua bloqueando a liberação de CRH pelas células neuroendócrinas do hipotálamo. A produção do ACTH também pode ser suprimida por ele mesmo atuando, em um mecanismo de feedback de alça curta, sobre o hipotálamo e diminuindo a liberação do CRH (BERNE; LEVY, 1996). Porém, a secreção de ACTH responde de modo bastante diferente em presença de estímulos estressores potentes, o que é uma resposta crítica para a sobrevivência. Apesar da manutenção do cortisol em altos níveis ocasionar sérios danos ao organismo, durante o estresse grave, resultante de uma doença incapacitante ou ameaça à vida, ele se faz extremamente benéfico em quantidades elevadas, onde atuará restringindo as respostas inflamatória e imunológica, de modo que estas não causem danos irreparáveis ao organismo. Nestas situações, o mecanismo de inibição da secreção do ACTH por meio do cortisol não funciona, independente da quantidade de cortisol presente no sangue (BERNE; LEVY, 1996). Quando o estado de estresse é mantido, as glândulas adrenais podem entrar em falência, diminuindo ou até mesmo cessando a produção de catecolaminas e corticóides. Essa falência pode produzir conseqüências ainda piores para o organismo tais como cefaléia, fraqueza, astenia, anorexia e perda de peso, febre, desidratação, hiperpigmentação de pele e mucosas, hipopigmentação dos mamilos, cianose, dores musculares e articulares. Os sintomas gastrointestinais decorrentes da falta desses hormônios são náuseas, vômitos, dor abdominal, diarréia ou constipação. Podem ocorrer também alterações neuropsiquiátricas tais como, alteração da personalidade, confusão, torpor e até sintomas psicóticos. Na ausência

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de corticosteróides ocorre hipotensão grave, choque e até mesmo a morte (BALLONE, 2008c).

1.4 SINAIS E SINTOMAS DO ESTRESSE Dentre os sintomas físicos do estresse crônico destacam-se tremores, sensação de fraqueza, tonturas e vertigens, tensão ou dor muscular nas costas, pescoço e coluna, dor de cabeça, fadiga crônica, falta de ar ou sensação de fôlego curto, palpitações e aumento da freqüência cardíaca, elevação da pressão arterial, dores no peito, rubor ou calafrios, sudorese, mãos frias, boca seca, sensação de "bolo na garganta", náuseas e/ou vômitos e diarréia (WHO, 2008a; WHO. 2008b). Também é freqüente o indivíduo estressado apresentar alterações

psicológicas como apreensão, inquietação, irritabilidade, agressividade, impaciência, angústia, insegurança, medo, culpa, resposta exagerada à surpresa, ansiedade e depressão (WHO, 2008a; WHO, 2008b). Alguns dos sintomas cognitivos oriundos do processo de instalação do estresse são: dificuldade de concentração e de memória, indecisão, baixa autoconfiança, dificuldade em identificar objetos ou pessoas familiares, perda de horários ou de lugares, pensamentos perturbadores e prejuízo do pensamento abstrato (WHO, 2008b). As alterações comportamentais produzidas pelo estresse são: insônia, perda ou aumento do apetite, desmotivação para o trabalho ou insatisfação ocupacional, queda de rendimento, perda da responsabilidade, dificuldade em cumprir tarefas, perda da libido, dificuldade em dialogar e mudança do estilo usual de comunicação, desinteresse pelas atividades que antes considerava prazerosas, comportamento anti-social, humor inapropriado, abuso de substâncias como cafeína, álcool, cigarro e drogas, explosões emocionais, propensão a acidentes e desenvolvimento de tiques nervosos (WHO, 2008b).

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1.5 CONSEQÜÊNCIAS DO ESTRESSE As reações do estresse podem desencadear distúrbios psicológicos e contribuir para o aparecimento de várias outras doenças crônicas que prejudicam a qualidade de vida da pessoa, podendo levar até mesmo o sujeito à morte. O estresse afeta o sistema cardiovascular, respiratório e digestivo, e atua negativamente sobre a musculatura e sobre a pele, sem deixar de mencionar que ele potencializa o aparecimento de doenças psíquicas como a ansiedade, a depressão, a síndrome do pânico e os surtos psicóticos (ECHEVARRIA et al.,1997; WHO, 2008a). Ele Influi sobre o sistema imunológico diminuindo as defesas do organismo contra agentes patogênicos, tornando o indivíduo mais vulnerável a doenças infectocontagiosas, como gripes, resfriados e alergias, e a doenças auto-imunes, como artrites, vitiligo, psoríase, fibromialgia, lupus e câncer, doenças estas, que não encontram barreiras à sua instalação (BERNE; LEVY, 2008; KRUMM, 2007). Dentre as desordens que também podem ter sua etiologia no estresse, ECHEVARRIA et al. (1997) destaca a hipertensão arterial, as dislipidemias, o diabetes mellitus, as lesões miocárdicas, a gastrite e as úlceras gastroduodenais. O estresse interfere e abala as relações sociais do indivíduo que se encontra sob pressão porque cria um ambiente de tensão e agressividade ao seu redor que afeta todas as outras pessoas que com ele convivem. Do ponto de vista psicológico ou afetivo o estresse gera aumento da tensão emocional e da ansiedade, com repercussões na adoção de hábitos de vida não saudáveis como o abuso de bebidas alcoólicas, drogas e cigarros, promiscuidade sexual, procura por jogos de azar, aquisição desenfreada por novas tecnologias e aumento do consumo de café, açúcar e outros alimentos prejudiciais à saúde (WHO, 2008a). Além dos sérios agravos à saúde, o estresse ainda gera elevados custos com despesas médicas, que causam um forte impacto sobre a família, a sociedade e para o mundo corporativo. O estresse provoca elevados índices de insatisfação com o trabalho, aumento da rotatividade de funcionários nas empresas, elevação das taxas de absenteísmo, atrasos, gastos com acidentes de trabalho e assistência médica e queda da produtividade e da qualidade dos serviços, causando um prejuízo que varia de 75 a 100 bilhões de dólares ao ano às empresas americanas, por exemplo. Estima-se que cerca de 200 milhões de dias de trabalho sejam

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perdidos ao ano somente nos Estados Unidos em decorrência do estresse (KRUMM, 2007; WHO, 2008b; LIPP, 2008). Só no Brasil, segundo a International Stress Management Association - ISMABrasil, 80% dos brasileiros economicamente ativos se dizem estressados. BALLONE (2008b) e LIPP (2008) avaliam que cerca de 50% de todas as consultas médicas, das doenças que levam ao absenteísmo e das mortes da atualidade estão relacionadas ao estresse. No Japão, estima-se que cerca de 10 mil mortes anuais sejam ocasionadas pelo excesso de trabalho (A NOVA, 2007).

1.6 PROFILAXIA E TRATAMENTO DO ESTRESSE Tem-se demonstrado que quando as ações de prevenção ao estresse são instituídas nas empresas, rapidamente se observa uma melhora do bem estar e do ânimo dos funcionários, além de uma progressiva diminuição das taxas de absenteísmo e dos índices de determinadas enfermidades, com conseqüente elevação da produtividade e das economias dessas companhias. Neste sentido, o primeiro passo na prevenção e tratamento do estresse é ter conhecimento a respeito dos seus sinais de instalação e de suas causas, pois uma vez reconhecido e trabalhado, o estresse e seus sintomas podem ser facilmente revertidos. O manejo do estresse é um processo muito particular e não existe uma única técnica que seja a mais adequada para o seu tratamento ou prevenção, uma vez que cada pessoa é dotada de características peculiares que lhe permitem diferentes formas de pensar e de enfrentar os percalços da vida (WHO, 2008b). Estudiosos recomendam, para diminuir os efeitos das reações ao estresse, a prática de atividades físicas e de atividades de lazer nas horas vagas; fazer uso de técnicas de relaxamento como meditação e yoga; manter uma alimentação saudável e balanceada, rica em alimentos integrais e pobre em gorduras e açúcar; cultivar relacionamentos saudáveis; dormir as quantidade de horas necessárias para o adequado descanso; e manter um tratamento terapêutico e medicamentoso, se necessário. Procurar atividades que tragam prazer; manter uma agenda organizada delimitando horas para o descanso; reconhecer os próprios limites e manter boas

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relações sociais no ambiente de trabalho também são medidas eficientes no combate ao estresse. De acordo com a World Health Organization - WHO (2008b), manter a satisfação e o bem estar físico e emocional em casa e com a família, por meio de ações que promovam a autoconfiança, a auto-estima e o respeito ao próximo, proporcionando um ambiente onde haja momentos para o descanso, a recreação, e para a atividade física, comprovadamente também diminuem as influências dos fatores estressores. Os pesquisadores HILKER et al., citados por KRUMM (2007), descobriram que determinadas características da personalidade podem minimizar o estresse e diminuir seus efeitos negativos. Uma dessas características, conhecida como bardiness, confere às pessoas o sentimento de que elas estão sempre no controle de suas próprias vidas; uma necessidade de estar constantemente a procura de novos desafios; e um elevado senso de compromisso com a família, com o trabalho e com as atividades que assumem. Características como a tolerância a frustrações, o anseio por novos conhecimentos, uma sólida alto-estima e o poder de reconhecer pontos positivos em outras pessoas, são fatores que predispõem as pessoas a desenvolverem o bardiness. Os estudiosos afirmam que essa característica pode ser desenvolvida durante a infância com o incentivo ao desempenho de muitas atividades, condizentes com a capacidade da criança, e o apoio afetivo da família. O estresse deve ser tratado de forma preventiva, como todo agravo à saúde deveria ser, dando especial atenção às suas causas e à mudança de hábitos de vida, e não tentando somente tratar as suas conseqüências com medicações para hipertensão, hipercolesterolemia (excesso de colesterol no sangue), hiperglicemia, insônia, ansiedade ou depressão, que é o que normalmente ocorre, já que é o que está aparente e urgente. O aumento constante das vendas de todas essas drogas e, em especial, as psicotrópicas (que atuam sobre o nosso cérebro e SNC, alterando de alguma forma o nosso psiquismo), comprovam que, atualmente, as pessoas estão cada vez mais doentes. Porém, elas estão muito estressadas, ocupadas e cansadas para cuidarem da sua saúde e continuam tratando apenas das conseqüências do problema. Até quando é culpa delas e até quando é culpa do sistema?

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Pensando em atuar de forma profilática, BALLONE (2008b) diz que o objetivo atual é tentar reduzir os efeitos nocivos do estresse eliminando todo estresse desnecessário, modificando alguns aspectos do estilo de vida e fazendo uso de meios capazes de ajudar a melhorar a administração dos estressores cotidianos. Ele diz que devemos transformar o estresse em um acontecimento positivo para o nosso desenvolvimento e crescimento e não em um entrave ao nosso desempenho pessoal, à nossa saúde e felicidade. O que o autor quer dizer é que uma postura mais otimista diante da vida, tentando ver o lado positivo dos acontecimentos, que por ventura pareçam ruins em um primeiro momento, muda toda a percepção dos agentes estressores e, consequentemente, altera também a intensidade com que o nosso organismo irá reagir a esses agentes, provavelmente, tornando a pessoa bem mais resistente às adversidades do que outra, de visão pessimista. Dessa forma, apesar do estresse acometer a todos nós indistintamente, ele será em menor ou maior grau dependendo do estilo de vida e de características físicas e psíquicas muito pessoais, que podem conferir ao indivíduo certo grau de resistência a determinadas situações. Hoje, ele é considerado o mal da modernidade porque, comprovadamente, está envolvido na etiologia de várias doenças de elevada taxa de mortalidade, gerando uma série de prejuízos financeiros, sociais e emocionais sem precedentes. Na tentativa de conter o estresse, muitas formas de tratamentos e terapias foram surgindo a fim de ajudar às milhares de pessoas que hoje são acometidas por ele. O uso terapêutico da música já existe há milhares de anos, porém, somente após a Segunda Guerra Mundial foi observado o surgimento da musicoterapia como ciência, embasada em teorias e técnicas mais sólidas. Desde então, a musicoterapia se juntou às demais terapias e formas de prevenção do estresse como uma alternativa eficiente e de baixo custo, que apesar de não completamente desvendada, vem trazendo resultados promissores. A musicoterapia vem se mostrando uma boa opção para o processo de restabelecimento da saúde, porque ela atua beneficamente nos mecanismos biológicos dos indivíduos e proporciona um clima agradável entre os pacientes, permitindo que eles compartilhem seus sentimentos e trabalhem questões relativas ao seu estado psíquico. Dessa forma, eles se sentem mais valorizados em

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dimensões normalmente não abordadas no atendimento convencional à saúde, possibilitando, portanto, melhorias na qualidade de vida de indivíduos em situação de fragilidade e sofrimento (BARBOSA et al., 2006).

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2 MUSICOTERAPIA

2.1 BREVE HISTÓRICO As origens da música são muito antigas, muito primitivas, e sua história se confunde com a história do próprio homem. Por ser uma linguagem instintiva e espontânea, acredita-se que a linguagem musical em forma rudimentar tenha precedido até mesmo a linguagem verbal no homem pré-histórico (ALALEONA, 1984; HAMEL, 1995). Por meio da observação de sítios arqueológicos e da arte rupestre encontrada em cavernas, conseguimos ter uma breve noção a respeito do desenvolvimento da música do homem da pré-história. Porém, apesar de termos conhecimento de que o homem, há cerca de 30 mil anos atrás, já tocava flautas confeccionadas a partir de ossos, instrumentos de percussão e certos tipos de harpa, a escassez de vestígios arqueológicos dá margem à divagação e deixa dúvidas quanto à cronologia da evolução musical deste período (WEINBERGER, 2007; WIKIPÉDIA, 2008). É provável que o homem tenha começado a desenvolver a sua musicalidade tentando imitar os sons da natureza por meio da utilização de paus e pedras, emitindo gritos e outros sons vocais e fazendo percussão corporal. Há cerca de 50.000 anos atrás, quando as primeiras tribos primitivas começaram a se organizar na África, a música já fazia parte do cotidiano destas pessoas. Mas nesta época, ela possuía um caráter místico, mágico e religioso, e existia em função dos rituais religiosos e das cerimônias de agradecimento a Deus pelas boas colheitas, caças e chuvas. Também era utilizada nos cultos xamanísticos, como meio de cura mágica das enfermidades, durante as festas e nas guerras (HAMEL, 1995; WIKIPÉDIA, 2008). Observando a nossa evolução, podemos perceber que a música é uma das atividades mais antigas do homem e que ela esteve e está presente em todas as culturas de que se tem conhecimento, fazendo parte do comportamento humano, juntamente com a dança, os rituais religiosos e as cerimônias. Assim, desde o início da humanidade, buscamos atribuir diferentes significados a ela em sua relação estética e mesmo como função mística, religiosa e terapêutica (BARALE, 2006).

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O emprego da música como agente de cura, da mesma forma que a música, sempre esteve presente em todas as civilizações, e sua utilização data de cerca de trinta mil anos atrás. No passado, o trabalho era realizado por curandeiros, pajés e xamãs que entoavam cânticos curativos ao doente para que o espírito causador da doença deixasse o corpo enfermo. "Os maus espíritos da enfermidade" eram expulsos com matracas e outros instrumentos ruidosos, ao mesmo tempo em que batidas de tambor seguiam os passes "magnético-curativos" de mãos sobre o paciente. Ainda hoje, principalmente entre os nossos índios brasileiros, encontramos este tipo de atividade (HAMEL, 1995, p 203). Há menções na história de que cantores da antiguidade experimentavam em si mesmos os efeitos de exercícios vocais cantando apenas uma nota durante meia hora e observando o efeito que esta atividade causava sobre o seu organismo: "que corrente de energia vital ela invocava; que faculdades intuitivas ela revelava; como provocava entusiasmo, proporcionava mais energia; como aliviava e curava". Segundo esses cantores, esta era uma experiência vivida e não somente uma teoria. (KHAN1, apud HAMEL, 1995, p. 268). Também encontramos relatos de que os antigos egípcios utilizavam a música para aumentar a fertilidade nas mulheres. Já os chineses, acreditavam que a música possuía poderes mágicos e que refletia a ordem do universo. No Ocidente, na antiga Grécia, de onde emergiu uma atitude mais racional diante dos agravos à saúde, o primeiro estudioso a pesquisar a respeito da influência da música sobre a psique humana foi Pitágoras. Ele teria feito o uso de canções contra algumas doenças; para esquecer a aflição; para acalmar a ira e para eliminar paixões. Durante este período, a música com fins terapêuticos e de cunho mais racional foi bastante empregada e propagada, concomitantemente à sua utilização pelos rituais religiosos de cura (HAMEL, 1995; MOURA, 1989; PSICOLOGIA, 2008). Porém, na Idade Média, após a queda do Império Romano e o apogeu da Igreja Católica, a sua utilização terapêutica foi proibida e iniciou-se, então, uma época negra para a medicina, onde o cristianismo não mais permitia que as formas racionais de tratamento à saúde fossem ministradas aos doentes, em detrimento de uma medicina religiosa, praticada dentro dos conventos (MOURA, 1989).

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KHAN, H. I. The message of Hazrat Inayat Khan. v. 2, ed. 2. Londres: 1973

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Somente no século XI, após a reforma da própria Igreja Católica e o surgimento das primeiras escolas de medicina, a música voltou a ser utilizada com fins terapêuticos. Enfim, no século XVII, quando alguns médicos começaram a sentir a necessidade de separar os tratamentos psiquiátricos dos tratamentos físicos, dando origem aos primeiros tratados psiquiátricos, vimos surgir também os primeiros estudos científicos da musicoterapia, dando início então, ao emprego da música no manejo das doenças mentais (MOURA, 1989). No final do século XVIII, uma agremiação de músicos britânicos, liderada por Cânon Frederick Kill Harford, sentiu a necessidade de aplicar a musicoterapia em alguns hospitais da região, a pacientes não portadores de doenças psiquiátricas, com o objetivo inicial de apenas suavizar e melhorar o sono dessas pessoas. Para a surpresa dos médicos que assistiam a esses pacientes, eles não apenas melhoraram o sono, como alguns apresentaram também melhoras significativas em seu quadro clínico. A partir de então, a comunidade médica passou a se interessar por outras aplicações da musicoterapia que não somente para as doenças psiquiátricas (EDWARDS, 2008). Durante o período que se seguiu, alguns poucos trabalhos foram realizados na Europa e nos Estados Unidos. Só na metade dos anos 40, após a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos foi arrebatado por uma multidão de soldados combatentes que retornavam traumatizados, neuróticos, feridos e doentes ao seu país, pudemos observar um estrondoso crescimento da musicoterapia. Neste momento crítico da história, vários hospitais precisaram ser construídos e muitos especialistas da área médica foram convocados, dentre eles, uma nova categoria de profissionais que vinham utilizando a música como ferramenta apaziguadora da dor e de distúrbios mentais (EDWARDS, 2008). A partir de então, muitos artigos começaram a ser publicados e a musicoterapia passou a ter uma maior credibilidade diante da comunidade médica. Vários hospitais americanos passaram a contratar músicos profissionais e terapeutas com experiência musical para atuarem junto aos veteranos de guerra, surgindo assim o musicoterapeuta, que teve seu primeiro curso universitário criado em 1944, na Michigan State University, e sua primeira Associação Nacional para a Terapia Musical fundada em 1950 (EDWARDS, 2008). No final dos anos 60 a musicoterapia chega ao Brasil, influenciada por

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Rolando Benenzon, da Argentina. Em 1971 são criados os dois primeiros cursos de musicoterapia do Brasil, um no Paraná e outro no Rio de Janeiro, onde desde 1980 a prática clínica é realizada no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Hoje já existem cerca de oito cursos de graduação e seis cursos de pós-gradução espalhados por todo o país, e doze associações nacionais filiadas à União Brasileira das Associações de Musicoterapia (MOURA, 1989). A musicoterapia demorou a ser implantada nas clínicas e hospitais e ainda hoje encontramos resistência por parte da classe médica, que não entende sobre o assunto e ainda está bastante influenciada pela visão espiritualizada, mística e mágica com que ela era, e ainda é, praticada pelos povos mais primitivos, como por exemplo, pelos os índios. Somente há bem pouco tempo, quando se comprovou que a música poderia influir sobre a freqüência cardíaca e a pressão arterial e, até mesmo, alterar um eletrocardiograma, que os demais profissionais das áreas biomédicas passaram a vislumbrar a aplicação da musicoterapia na prática clínica (HAMEL, 1995).

2.2 MÚSICA: CONCEITOS E DEFINIÇÕES Chamamos de música todo processo relacionado à organização e à estruturação de unidades sonoras, seja em seus aspectos temporais (ritmo), seja na sucessão de alturas (melodia) ou na organização vertical harmônica e tímbrica dos sons, e onde funções musicais é o conjunto de atividades motoras e cognitivas envolvidas no processamento da música. A música não resulta apenas da disposição de vibrações sonoras, mas sim da estruturação dessas vibrações em padrões temporais organizados de signos, cuja forma, sintaxe e métrica constituemse em um verdadeiro “sistema” independente e complexo, no qual significante e significado irão remeter-se à estrutura da própria música, isto é, à forma e ao estilo musical (CAMPOS; CORREIA; MUSZKAT, 2000, p. 70). A experiência musical é uma experiência emocional, e a forma que ela tem de instigar as nossas emoções é por meio de seus elementos constitutivos, indutores de movimentos, emoções e direções, tais como, o ritmo, a melodia, a harmonia e o timbre. O ritmo, a partir de seu elemento de expressão psicológica, a agógica, provoca sensações de movimento. A melodia, através da dinâmica, imprimi uma

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idéia de intensidade. A harmonia, por meio da modulação, nos leva a sensações de obscuridade e claridade. E por fim, o timbre, fazendo uso dos harmônicos, nos conduz a sensações de aproximação e afastamento, ausência e presença (SEKEFF, 2007). Podemos dizer que a música é uma forma de comunicação não-verbal, que se diferencia da linguagem verbal por não possuir o esquema significantesignificado. Apesar de a linguagem musical possuir o que chamamos de musicante, o significado dela é a expressão de sentimentos conotados e não denominados, sendo a sua função principal a estética, e não a referencial, como na linguagem verbal. Embora a música apresente analogias com a linguagem verbal, as notas não são como as palavras e, portanto, não podem nomear coisas existentes no mundo. Dessa maneira, a música, com suas notas musicais, realmente diz algo, mas algo que não se encontra no mundo externo à música, sendo que o mais importante na experiência musical não é a informação que vem dela, mas o que experimentamos a partir dela (MOURA, 1989; SEKEFF, 2007).
O fazer musical encerra e integra as funções do sentir, do processar, do perceber em estruturas ou em uma estética de comunicação que é, por si só, forma e conteúdo, corpo e espírito, mensageiro e mensagem. A música, nas suas várias manifestações enquanto estética, terapia ou ritual, evoca o humano e sua contradição. Seus elementos de lógica, proporção e simetria estão intimamente relacionados e imbricados aos elementos de tensão, de relaxamento, que são sentidos, ou conceitualmente interpretados somente em bases abstratas que requerem a definição do homem, suas formas de sentir e pensar o mundo, e, portanto, seu sistema cultural e social de decodificação (CAMPOS; CORREIA; MUSZKAT, 2000, p. 71).

O homem é um ser musical, que se faz envolver a tal ponto corpo-menteespírito com a música, que é provável que a escolha musical seja um traço marcante da nossa personalidade e manifestação da nossa identidade como ser humano. É por isso que quando cantamos ou reproduzimos uma música, falamos de nós mesmos e compartilhamos nossos sentimentos, amores, paixões não

correspondidas, alegrias medos e tristezas (SAKAI, 2004). É possível que essa ligação emocional e espiritual com a música tenha surgido junto com ela e, por isso, sempre esteve presente em todos os tempos, em todos os povos e em todas as culturas. Hoje, a música acompanha e marca praticamente todos os momentos importantes da existência do homem, contando a sua história, influenciando-a e sendo influenciado por ela. O fato de estar tão presente em nossas vidas, de alguma forma, a conecta e a associa a várias das

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nossas lembranças de pessoas, lugares, acontecimentos e sentimentos, conferindolhe, dessa forma, o poder de incitar emoções. Por isso, duas pessoas, sugestionadas pela cultura e por suas experiências de vida, podem escutar uma mesma música, mas experimentarem emoções completamente distintas, em virtude das diferentes associações que foram construídas em torno dela (LEWIS, 2008). A música é uma linguagem universal, onde todos a entendem e todos se interessam tanto por ela, que levou os cientistas a afirmarem que nosso cérebro é especializado em música e que é impensável a nossa existência sem ela. Mas de onde surgiu essa necessidade de música? Será que somos viciados no prazer que ela nos proporciona? Ou será que ela surgiu da necessidade que sentimos de comunicar o incomunicável? A música passa e já passou por muitas discussões sobre as suas origens e funções na vida do homem. Na verdade, a música é um mistério para nós: ao passo que é uma estrutura sonora complexa, ela não pode ser realmente definida e não possui uma função biológica clara, apesar de ter o poder de incitar reações físicas e comportamentais no homem. É de conhecimento comum que a música se origina do meio em que vivemos, ou seja, acredita-se que ela seja um produto cultural. Porém, há cientistas que levantam a hipótese de que a música possa estar presente em nossos genes, podendo ser considerada até mesmo uma capacidade genética e biológica, tamanha a precocidade que apresentamos a ela. Eles suspeitam da teoria de que as nossas preferências musicais já estejam preestabelecidas em nosso cérebro desde o nascimento porque pesquisas com bebês de 6 a 9 meses revelaram que eles já apresentam simpatia por acordes consonantes (agradáveis) e aversão a acordes dissonantes (desagradáveis). A descoberta das reais origens e funções da música interessa a todos nós por que mudaria a forma de pensar e de agir de pedagogos, clínicos, terapeutas e cientistas (PERETZ, 2006).

2.3 MUSICOTERAPIA: CONCEITOS E DEFINIÇÕES Sendo a música uma forma de comunicação que nos permite expressar aquilo que é difícil de ser dito e experimentar situações, emoções e sensações tão intensas a ponto de permitir o autoconhecimento, a musicoterapia, nada mais é que a utilização terapêutica da música na promoção da saúde. Ela consiste na utilização

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da música, do som, das experiências musicais vivenciadas pelo cliente e das relações que se desenvolvem a partir dessas experiências, como agentes promotores do processo terapêutico, com o objetivo de restaurar, manter ou melhorar a sua saúde física e mental. Dessa forma, nos deparamos com várias definições sobre o que é Musicoterapia. De acordo com a World Federation of Music Therapy, citada por Even Ruud, em BRUSCIA (2000, p.286),
Musicoterapia é a utilização da música e/ou dos elementos musicais (som, ritmo, melodia e harmonia) pelo musicoterapeuta e pelo cliente ou grupo, em um processo estruturado para facilitar e promover a comunicação, o relacionamento, a aprendizagem, a mobilização, a expressão e a organização (física, emocional, mental, social e cognitiva) para desenvolver potenciais e desenvolver ou recuperar funções do indivíduo de forma que ele possa alcançar melhor integração intra e interpessoal e consequentemente uma melhor qualidade de vida.

Sob um outro olhar, Clarice Moura define a musicoterapia como sendo
[...] uma terapia auto-expressiva que se utiliza da música em sentido lato, como objetivo intermediário da relação musicoterapeuta-paciente, e que mobiliza os aspectos biopsicossociais do indivíduo, abrindo novos canais de comunicação que ajudem na recuperação ou integração dinâmica do indivíduo consigo mesmo e com seu grupo social (MOURA, 1989, p. 51-52).

Por meio das experiências proporcionadas pela música e das relações que se desenrolam a partir delas, o cliente entra em um processo de mudança que se generaliza para todas as outras áreas de sua vida, lhe proporcionando autoconhecimento e trazendo benefícios para o seu bem estar físico, mental e espiritual. Essas experiências musicais, que conferem um caráter experimental à terapia e são as responsáveis por desencadear os processos terapêuticos de mudança, são proporcionadas por métodos e técnicas que serão aplicados pelo musicoterapeuta durante as sessões, de acordo com os objetivos iniciais do cliente (BRUSCIA; 2000). Segundo BRUSCIA (2000), há quatro tipos de experiências musicais -- melhor detalhadas no item 3.2: a improvisação (onde o cliente cria a sua música cantando ou tocando um instrumento), a re-criação (onde o cliente canta ou toca alguma música já existente), a composição (onde o cliente compõe e escreve uma música com a ajuda do musicoterapeuta) e a audição (onde o cliente escuta uma música gravada ou tocada naquele momento pelo terapeuta). Cada uma dessas experiências evoca diferentes tipos de emoções e provoca um processo interpessoal

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diferente, fortemente influenciado pela característica polissêmica da música, ou seja, por sua capacidade de evocar e provocar diferentes emoções e reações. Neste sentido, a música permite que lhe sejam atribuídas conotações diversas, que estão relacionadas às experiências de vida de quem a ouve. Além disso, uma mesma música, para uma mesma pessoa, mas em uma outra determinada situação, é capaz de suscitar diferentes sentimentos e provocar novas reflexões, reações e sensações antes não vivenciadas. Assim, o musicoterapeuta deve estar preparado para as mais variadas situações dentro de um setting musicoterápico, porque cada pessoa, influenciada pela cultura em que foi criada, por suas experiências e por sua forma de encarar a vida, possui uma forma peculiar de perceber, vivenciar e sentir a música, e, por isso, passará por experiências musicais muito particulares. De acordo com BENENZON (1988, p. 11), o objetivo da musicoterapia é “abrir canais de comunicação no ser humano, para produzir efeitos terapêuticos, psicoprofiláticos e de reabilitação no mesmo e na sociedade”. Na terapia tradicional a linguagem verbal, que tem como função a comunicação informativa, é insuficiente para demonstrar tudo o que seria veiculado pelo cliente. A musicoterapia, por utilizar um meio de comunicação não-verbal que possibilita a abertura de novos canais de comunicação do indivíduo com o mundo, permite que o cliente expresse seus sentimentos mais profundos por meio de suas experiências musicais vividas durante as sessões. Dessa forma, o sujeito desenvolve sua capacidade de comunicação, de expressão, de aprendizado, melhora suas relações pessoais, sua saúde mental e consequentemente sua qualidade de vida (MOURA, 1989). A música é um meio de comunicação que, segundo HAMEL (1995), envolve o ser humano como um todo. Ela é um meio capaz de ligar as pessoas de forma mais direta porque atua através dos níveis físico, fisiológico e mental, estabelecendo um campo de ressonância entre o musicoterapeuta e o cliente, possibilitando assim o diálogo de forma mais livre e fácil. Esse diálogo musical, que ocorre diante da interação sonoro musical, se faz a partir de um campo de ressonância criado no setting musicoterápico e viabiliza o surgimento do processo terapêutico. Neste caso, a música, material de trabalho do musicoterapeuta, não tem como função informar. Ela é um agente que promove a experimentação, nos

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influenciando a construir uma nova relação com o mundo e com os outros, servindo de linguagem e possibilitando ao cliente se comunicar com o terapeuta através de sua produção musical. Essa comunicação irá permitir que, através de sua experimentação e organização musical, o paciente entre em contato com seus sentimentos, pensamentos, lembranças e emoções, promovendo assim o processo terapêutico. A musicoterapia, com o auxílio da música, vai criar uma ponte entre o nosso consciente e subconsciente e abrir nossos canais de comunicação, permitindo que os nossos conteúdos internos se tornem acessíveis e o indivíduo consiga expressar experiências e sentimentos normalmente difíceis de serem explicados por meio das palavras (ECHEVARRIA et al.,1997; RUUD, 1990).

2.4 BENEFÍCIOS E APLICAÇÕES DA MUSICOTERAPIA A musicoterapia, por meio do ritmo, melodia, timbre e harmonia, amplia a qualidade de vida das pessoas porque trabalha com a organização interna e externa do ser humano, fazendo com que ele manifeste e expresse seus conteúdos internos, reconhecendo-os como próprios (SEKEFF, 2007). Psicologicamente, o objetivo da música é servir de escape emocional mediante sua expressão. Porém, seu real poder situa-se em sua capacidade de auxiliar no completo desenvolvimento do indivíduo, através do estímulo benéfico de suas funções cognitivas, do aprendizado, do raciocínio, da memória, da lógica, da atenção e da afetividade. Ela estimula o desenvolvimento da criatividade, da sensibilidade, da disciplina e do senso crítico e estético. Do ponto de vista afetivo e mental, a musicoterapia promove o equilíbrio psicofisiológico com base em seu poder relaxante e reconfortante (ECHEVARRIA et al.,1997; SEKEFF, 2007). A vivência musical, acima de tudo, possibilita ao homem conhecer o outro e a si mesmo porque, por meio dela, ele tem a oportunidade de expressar o seu eu e sentir emoções inexplicáveis. A música é para ele, fonte de auto-realização e, conseqüentemente, de felicidade e prazer, que se traduz por uma sensação de bem estar e satisfação com a sua vida (SEKEFF, 2007). RUUD (1990) cita que a música, para o musicoterapeuta atual, possui quatro funções básicas: a de melhorar a atenção, quando associada ao desenvolvimento motor e/ou cognitivo; estimular habilidades sócio-comunicativas; proporcionar

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melhorias no esclarecimento da pessoa e em sua expressão emocional; e favorecer o pensamento e a reflexão sobre sua vida. Vamos então, discorrer sobre essas quatro funções da música para o musicoterapeuta, e analisar, de maneira sucinta, as suas aplicabilidades. Já está cientificamente comprovado que a música estimula nossa atenção, coordenação, concentração e memória. Dessa forma, a musicoterapia seria uma ótima aliada na prevenção e no retardo à instalação de doenças neurológicas degenerativas, tais como a Doença de Alzheimer e o Mal de Parkison. Ainda nesta linha de pensamento, a musicoterapia pode e vem sendo utilizada em crianças com dificuldades de aprendizado e em escolas de ensino especial, auxiliando nos processos psicopedagógicos de crianças portadoras de deficiência mental, física, auditiva, visual e da fala e portadoras de síndromes genéticas e distúrbios neurológicos. A música, ao abrir nossos canais de comunicação, permite ao indivíduo mudar a sua visão da realidade e ampliar a sua capacidade de se comunicar com o mundo e com as pessoas, estimulando-o a participar espontaneamente e mais ativamente de reuniões com amigos, festas e atividades sócio-culturais, antes inimagináveis para um determinado grupo de pessoas que sofrem com a timidez em excesso ou com distúrbios que a impedem de manter uma vida social normal. A musicoterapia, ao encorajar a atividades sociais, estimula as habilidades sóciocomunicativas, desempenhando um importante papel no favorecimento da coesão e do senso de pertencer a um grupo. As experiências musicais vivenciadas no setting musicoterápico, ao desencadearem o processo terapêutico, proporcionam insights e reflexões que são transformadores e permitem que os indivíduos desenvolvam a auto-compreensão, o autoconhecimento e a autoconfiança, que se traduz em elevação da auto-estima e melhorias na qualidade de vida. Este benefício da música se torna realmente especial quando falamos de pessoas que sofrem de ansiedade, estresse e depressão, dentre outros, e que necessitam, primordialmente, trabalhar seus conteúdos internos a fim de enfrentarem seus algozes. Nestes casos, a musicoterapia também é capaz de alterar o humor da pessoa, tornando-a mais positiva diante dos problemas cotidianos e lhe devolvendo a sensação de controle da sua própria vida.

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Duas pesquisadoras, DANHAUER e KEMPER (2008), concluem em seu artigo de revisão, que a musicoterapia é uma ótima aliada na promoção do bem estar por que ela é capaz de diminuir o estresse e aliviar as tensões e sintomas desagradáveis. As autoras comprovaram que ela diminui a ansiedade e melhora o humor de pacientes pré e pós-cirúrgicos e pacientes internados, tanto em crianças quanto em adultos; que melhora a qualidade de vida de pacientes em cuidados paliativos, por atuar diminuindo a dor e promovendo o conforto e o relaxamento; e que a musicoterapia vem sendo bastante utilizada como método alternativo de analgesia. Encontramos relatos na literatura de dentistas que utilizam a musicoterapia no lugar dos anestésicos durante as extrações e obturações dentárias de seus clientes, e ainda outros, de médicos cirurgiões cardíacos, que também diminuíram a prescrição de analgésicos após instituírem a musicoterapia no pré e pós-operatórios de cirurgias cardíacas. A literatura confirma, que a musicoterapia vem sendo amplamente utilizada no tratamento de pessoas com distúrbios emocionais e pacientes portadores de doenças psiquiátricas como os esquizofrênicos, portadores de distúrbio obsessivo compulsivo, deprimidos e em estresse pós traumático devido a morte de parentes, violência ou acidentes. Do ponto de vista fisiológico, a musicoterapia é capaz de acalmar e relaxar a mente, diminuir a ansiedade, o estresse e a sensação de dor, melhorar a qualidade do sono, relaxar a musculatura corporal, e pode atuar equilibrando o sistema cardiocirculatório, o metabolismo, a temperatura corporal, a sudorese, a pressão arterial, a freqüência cardíaca e a respiratória. Ela é atualmente aplicada na reabilitação física e neurológica, na prevenção da ansiedade e do estresse, com fins psicoterapêuticos, educacionais ou recreativos, e atendendo às mais variadas demandas do cliente, que podem ser físicas, espirituais, sociais, emocionais ou intelectuais. Dessa forma, a musicoterapia pode ser utilizada em uma infinidade de locais e situações e com diversos objetivos. BRUSCIA (2000) enumera que hoje, nós encontramos musicoterapeutas atuantes em creches, escolas, clínicas, hospitais, centros de reabilitação, asilos, centros comunitários, centros de saúde, hospitais psiquiátricos, prisões, empresas, lojas, supermercados, departamentos públicos e em muitos outros locais, atendendo as

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mais variadas clientelas que vai desde fetos, ainda na barriga de suas mães, até idosos. A idéia de se aplicar a musicoterapia no tratamento do estresse possivelmente surgiu da observação da capacidade que a música tem de acalmar e relaxar de quem dela usufrui. Apesar de não conhecermos exatamente por quais mecanismos ela atua, a musicoterapia vem sendo amplamente empregada na prevenção e tratamento de pessoas cronicamente estressadas, amparada por vários estudos que comprovam que ela pode trazer uma série de benefícios a esses indivíduos.

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3 MUSICOTERAPIA E ESTRESSE

A utilização da música a partir de uma compreensão musicoterápica pode oferecer um trabalho preventivo muito próprio, [visando] o "esvaziamento" e a canalização das energias de tensão e ansiedade, impedindo que estas se acumulem e tenham como conseqüência bloqueios psicossomáticos geradores do estresse [...] (BONFIM, 2007, p.26).

Tanto a música quanto o estresse são percebidos por cada um de nós de forma singular. Como a música, o estresse será sentido pelo indivíduo de acordo com as suas experiências de vida e a sua realidade, o que predispõe determinadas pessoas a serem mais ou menos acometidas por agentes estressores que outras. Esse diferencial, ao mesmo tempo em que é enriquecedor, também é entristecedor, por que dificilmente estabeleceremos um modelo de trabalho que seja adequado a todos os pacientes, nos obrigando a um manejo diferenciado para cada sujeito. LEWIS (2008) investigou se a preferência musical influenciava

emocionalmente e fisiologicamente nos efeitos relaxantes da música, observando 19 estudantes que foram solicitados a escolher uma música dentre as suas próprias músicas favoritas; depois, foram solicitados a escutar o Prelúdio de Rachmaninoff #5 em Sol Maior; e depois, a permanecerem um período de controle em silêncio. A idéia inicial era utilizar músicas que já possuíssem uma ligação emocional com os voluntários a fim de alcançar melhores resultados. Com esse estudo, a autora conseguiu concluir que as preferências individuais são capazes de produzir melhores efeitos relaxantes do que as escolhas musicais do pesquisador. Mas esta pesquisa também levanta uma importante questão: até que ponto uma música é relaxante? Como podemos ter certeza de que aquela música que estamos escolhendo para trabalhar com um grupo de funcionários estressados de uma empresa multinacional vai acalmá-los? Essa mesma pergunta é feita quando falamos de humor. Sabe-se que a música é capaz de alterar o humor das pessoas, porém, uma mesma música que melhora o humor de uma pessoa deprimida, deixando-a mais energizada e alegre, pode deixar uma outra pessoa irritada e zangada. É pensando em atender o cliente de forma mais eficiente e ajudar o profissional musicoterapeuta, fornecendo-lhe mais subsídios e ferramentas para o seu trabalho, que algumas pesquisas, já em andamento, estão tentando relacionar as personalidades das pessoas a

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determinadas preferências musicais, com o objetivo de construir programas mais individualizados e eficazes para os mais diversos tipos de tratamentos (LEWIS, 2008). Outro ponto incomum da música e do estresse, mais bem detalhado no item 3.2, é que os dois são percebidos pela mesma estrutura cerebral, o sistema límbico, o nosso centro coordenador das emoções. Essas duas informações a respeito da percepção do estresse e da música nos enchem de esperança em relação à musicoterapia e faz surgir a nossa frente um grande leque de possibilidades. Para BONFIM (2007) a musicoterapia se diferencia de qualquer outro tipo de terapia por possibilitar ultrapassar barreiras que se transformam, mais tarde, em conteúdos terapêuticos extremamente versáteis. Ela acredita que o estresse é um desequilíbrio na delicada relação entre a emoção e a razão, e que o prazer alcançado pela vivência da música pode ajudar a harmonizar e restabelecer essa cumplicidade, auxiliando na redução do estresse e mantendo o organismo saudável. Segundo a autora, pela musicoterapia, o indivíduo estressado, que normalmente apresenta uma linguagem verbal estereotipada em virtude das exigências sociais, possui a oportunidade de se expressar de forma integral, traduzindo seus medos, angústias, ansiedades e sentimentos por meio das manifestações sonoras que permitem a liberação de suas tensões e o desenvolvimento da sua capacidade de autoconhecimento, de percepção e de aceitação, atingindo, dessa forma, o equilíbrio. O desenvolvimento da percepção de si por meio do contato com a música estimula a pessoa a tornar-se mais flexível e autoconfiante, dando-lhe uma maior capacidade de resolução dos seus problemas e de adaptação a situações novas, fornecendo ao indivíduo ferramentas muito úteis para que ele possa lidar com as pressões cotidianas sem se abater.

3.1 NEUROFISIOLOGIA DA MÚSICA E SUA ATUAÇÃO DIANTE DO ESTRESSE É de senso comum que a música evoca emoções baseada nas histórias pessoais de cada ser humano e na recordação de episódios passados armazenados na memória. Porém, o que cientistas como VIEILLARD (2005) vem demonstrando em seus estudos é que as reações fisiológicas provocadas pela música no homem, são dependentes do conteúdo emocional dessas músicas, e não estão somente

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sujeitas à história de vida da pessoa ou de qualquer outro julgamento que ela possa fazer dessas músicas, contrariando, de certa forma, o que alega LEWIS em sua pesquisa mencionada no item anterior. Assim, durante os estados emocionais de medo e alegria suscitados pelo andamento rápido e pela forte dinâmica musical, nosso sistema nervoso reage acelerando os batimentos cardíacos e aumentando a transpiração, independente de nossa vontade. Dessa forma, deduz-se que a música não apenas evoca, mas como também provoca emoções, postulando a existência de uma provável via cerebral específica para o processamento das emoções musicais. De forma bastante resumida, o som penetra o nosso cérebro através de ondas sonoras captadas pelos ouvidos externos. Sob a forma de ondas de pressão, o som chega até nossos ouvidos internos, onde é prontamente transformado em ondas fluidas, que, logo em seguida, é transmutado em impulsos elétricos. Esses sinais elétricos percorrem o nervo auditivo e finalmente alcançam o córtex auditivo, onde serão processados e, ao que tudo indica, enviados a várias outras regiões do cérebro como, por exemplo, o sistema límbico, responsável por captar as nossas sensações e transformá-las em emoções (WEINBERGER, 2007). É provável que o poder da música em evocar emoções resida em sua capacidade de estimular essas muitas áreas cerebrais e acessar, ao mesmo tempo, todas as nossas percepções, integrando as sensações gustativas, olfativas, visuais e proprioceptivas em um conjunto de sensações que atuarão em conjunto, fornecendo mais subsídios e informações para o nosso cérebro aumentando, assim, o poder da música em evocar emoções. Isso explica porque quando escutamos uma determinada música, conseguimos lembrar do perfume que estávamos usando quando assistíamos ao filme, do qual aquela música fazia parte da trilha sonora (CAMPOS; CORREIA; MUSZKAT, 2000). O sistema límbico desempenha o papel de coordenar nossas funções vegetativas e autonômicas e controlar as nossas emoções. Talvez por isso a maioria das emoções surja acompanhada por manifestações viscerais como o choro, por exemplo, e por alterações da pressão arterial, da freqüência cardíaca ou do ritmo respiratório. Fazendo parte ainda do sistema límbico, temos o complexo amigdalóide: a porta de entrada das emoções no cérebro, que monitora e recebe as várias informações sensoriais percebidas pelo corpo, as quais são responsáveis por ativar o sistema límbico (DE PAULA, 2008b).

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De acordo com CAMPOS, CORREIA e MUSZKAT (2000), apesar da música ser considerada uma linguagem, as estruturas que atuam no seu processamento são autônomas e não necessitam de codificação lingüística, pois acessam diretamente o nosso cérebro e a nossa afetividade por meio da estimulação das áreas límbicas, responsáveis por nossos impulsos, emoções e motivação. Como citado anteriormente, quando o organismo está diante de uma situação de perigo o complexo amigdalóide é fortemente estimulado e inicia a cascata de reações ao estresse a partir da ativação do hipotálamo. Uma das grandes estudiosas do assunto, Stéphanie Khalfa, pesquisadora do Laboratório de Neuropsicologia da Universidade do Mediterrâneo, em Marselha, França, levanta a hipótese de que a música, ao interagir com o complexo amigdalóide, interrompe a estimulação do eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenocortical de ativação do estresse e dessa maneira consegue diminuir as reações fisiológicas desencadeadas pelos estressores (Figura 2). Observou-se, por meio do estudo de imagens cerebrais, que as intensas respostas emocionais estimuladas pela música ativam, além disso, outras estruturas cerebrais envolvidas com o prazer, a motivação e a recompensa, ou seja, a música ativa também as mesmas estruturas cerebrais que são ativadas pela comida, sexo e drogas (KHALFA, 2005). A hipótese de Stéphanie Khalfa é baseada em suas várias pesquisas onde em uma delas, publicada no Annals of the New York Academy of Sciences, em 2003, mostrou que após uma tarefa psicologicamente estressante, a escuta de uma música relaxante cessou a elevação dos níveis de cortisol monitorados na saliva de 24 voluntários que se submeteram ao Trier Social Stress Test, enquanto que o grupo que permaneceu em silêncio manteve os níveis do cortisol em elevação por até 30 minutos após o término do evento estressor. Os resultados de várias pesquisas ao longo destes últimos anos vêm demonstrando que a música é capaz de reduzir as reações do estresse, melhorar as relações sociais e promover a qualidade de vida das pessoas. Estudos observacionais já confirmaram que as emoções geradas pela música são crucialmente diferentes das emoções proporcionadas por outros estímulos. Infelizmente, não sabemos ao certo os mecanismos pelos quais a música age sobre o nosso cérebro e nossas funções orgânicas. O estudo do processamento emocional da música ainda encontra-se em desenvolvimento e muitos outros estudos precisam

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ser realizados para podermos explicar exatamente como a música evoca as emoções e porque ela é tão poderosa (BARALE, 2006).

FIGURA 2 - PROCESSO DE INIBIÇÃO DO ESTRESSE PELA MÚSICA

FONTE: KHALFA, S. Melodia para os ânimos. Revista Mente&Cérebro, São Paulo, n. 149, p. 72, jun. 2005.

3.2 AS PRINCIPAIS TÉCNICAS MUSICOTERÁPICAS E SUA UTILIZAÇÃO

NO ESTRESSE
As quatro experiências musicais, improvisação, re-criação, composição e audição constituem as quatro principais técnicas musicoterápicas e formam o pilar da musicoterapia. Cada técnica possui procedimentos específicos para engajar o cliente no processo musicoterápico e despertar as mais variadas sensações e emoções, alcançando, assim, diferentes objetivos terapêuticos.

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3.2.1 Improvisação A Improvisação refere-se à criação de uma música ou canção, de forma espontânea ou a partir de uma idéia, uma outra música, imagem ou assunto, utilizando-se de instrumentos musicais, a voz e/ou sons corporais percussivos. Desta forma, ela permite uma série de variações, principalmente porque pode ser realizada individualmente, em grupo e/ou com a participação do musicoterapeuta. Segundo BRUSCIA (2000, p.124), os objetivos da improvisação são: criar um canal de comunicação não-verbal e uma ponte para a comunicação verbal; fornecer ferramentas de auto-expressão, autoconhecimento e formação da identidade; desenvolver as habilidades sociais, de relacionamento com os outros e com um grupo; desenvolver a criatividade, a liberdade de expressão, a espontaneidade e a capacidade lúdica; e estimular os sentidos, a coordenação, a concentração e as habilidades cognitivas. Várias são as pessoas que podem ser beneficiadas por esta técnica, principalmente aquelas com dificuldades na fala, dificuldades em expressar seus sentimentos, pessoas tímidas, deprimidas, portadores de deficiências, crianças autistas e hiper-ativas, adultos com distúrbios da personalidade e muitos outros casos. Esta técnica merece destaque quando lembramos que muitas das doenças que nos acomete hoje são causadas por aquilo que não "colocamos para fora", como, por exemplo, o estresse. E isso acontece por que a convivência em sociedade não nos permite expressar quem realmente somos e aquilo que de fato sentimos, em nome de um comportamento politicamente correto. Dessa forma, a improvisação, ao permitir a abertura de canais de comunicação não-verbal, possibilita que o cliente estressado, muitas vezes oprimido e não enxergando expectativas de melhora, extravase suas frustrações, tristezas e angústias por meio da comunicação musical, expressando aquilo que ele não teria coragem de dizer com palavras. PSICOLOGIA (2008) cita que as recentes descobertas do cérebro humano revelam que este órgão requer a presença de ritmo para se manter em perfeito funcionamento e que, na ausência dele, as atividades cerebrais entram em processo de estresse, acarretando sérios prejuízos à saúde do indivíduo. Nestes casos, a melhor forma de intervenção da musicoterapia seria por meio da utilização da bateria ou de instrumentos percussivos nos trabalhos de improvisação musical, que

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restabeleceria o ritmo natural dos processos cerebrais e diminuiria a agitação e as tensões nervosas da pessoa em estado de estresse.

3.2.2 Re-criação Na técnica da Re-criação o cliente canta, faz percussão corporal ou toca instrumentos musicais, canções ou músicas já conhecidas ou ensinadas ali naquele momento pelo musicoterapeuta, com o objetivo de, segundo BRUSCIA (2000, p.126): desenvolver habilidades sensório-motoras, a atenção, coordenação, a concentração e a memória; desenvolver a comunicação e a expressão; e desenvolver as habilidades sociais, de relacionamento com os outros e com um grupo. Os clientes que mais se favorecem das atividades re-criativas são aqueles que precisam aprender a trabalhar em grupo, mas sem perder a sua individualidade. A re-criação também é muito utilizada em atividades e jogos musicais para iniciar uma sessão; como "quebra-gelo" em grupos novos; para descontrair e relaxar e promover a união dos indivíduos de um grupo. A re-criação também é utilizada quando se pretende trazer para o consciente, materiais do inconsciente que não conseguimos acessar por meio das palavras, mas conseguimos expressar através de uma música que de repente nos vem à mente e nos inunda de emoções e sensações inexplicáveis. Por um momento, observamos que essa música consegue expressar aquilo que estava guardado há muito tempo e que nem sequer tínhamos consciência de sua existência. Dessa forma, a re-criação também possibilita a abertura de novos canais de comunicação não-verbal, permitindo trabalhar com conteúdos internos na restauração e promoção da saúde.

3.2.3 Composição Na técnica da Composição, o cliente, auxiliado pelo musicoterapeuta ou não, escreve uma canção, música ou peça instrumental, de forma espontânea ou a partir de uma idéia, uma outra música, imagem ou assunto, utilizando-se de instrumentos musicais, a voz e/ou sons corporais percussivos. Neste caso, o musicoterapeuta assume a parte mais técnica deixando que o cliente crie até o limite de sua

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capacidade musical, visando como objetivos, segundo BRUSCIA (2000, p.128), o desenvolvimento de sua musicalidade, criatividade, auto-expressão,

autoconhecimento, auto-estima, auto-responsabilidade; e o desenvolvimento de habilidades de planejamento, organização, integração e sintetização de partes em um todo. Assim como a improvisação e a re-criação, a composição permite que exploremos os conteúdos internos através das letras das canções criadas, o que é bem interessante, principalmente, para determinados grupos de adolescentes que não gostam de falar sobre seus sentimentos, são tímidos ou mesmo possuem dificuldade em acessar e expressar as suas emoções. A técnica da composição também vem sendo utilizada com sucesso em hospitais e com familiares de pacientes hospitalizados onde, por meio da criação de uma canção, e com a ajuda do musicoterapeuta, que normalmente cria a melodia da música, o cliente pode expressar o que ele está sentindo durante aquele período turbulento de sua vida. Dessa forma, os clientes parecem se sentir aliviados após cantarem suas músicas e expressarem seus sentimentos.

3.2.4 Audição E finalmente, mas não menos importante, temos a técnica da Audição que consiste na escuta de músicas ou canções, dos mais variados estilos, conhecidas ou não, gravadas, improvisadas ou ao vivo, às quais o cliente responde fisicamente, emocionalmente, intelectualmente, esteticamente ou espiritualmente, de acordo com as técnicas e os objetivos propostos inicialmente. Segundo BRUSCIA (2000, p.129), os objetivos mais marcantes da escuta musicoterápica são: provocar respostas fisiológicas específicas, como, por exemplo, alterações da freqüência cardíaca e respiratória e da pressão arterial; provocar a excitação ou o relaxamento do cliente; estimular a imaginação, as experiências espirituais, as habilidades áudio-motoras e a receptividade; e desenvolver a atenção, idéias, pensamentos e experiências afetivas. As pessoas mais beneficiadas por esta técnica são aquelas em que os objetivos principais da terapia consistem em provocar sensações físicas, emocionais ou espirituais, que acalmem, relaxem, diminuam o estresse, a tensão e a ansiedade,

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e/ou que forneçam subsídios para uma análise psicológica de suas reações, com o objetivo de trabalhar os seus conteúdos internos. Neste último caso, a técnica da escuta pode ser utilizada para evocar lembranças e experiências do passado, pertinentes para o cliente naquele exato momento e que de alguma forma irão contribuir para o seu tratamento. A escuta musicoterápica pode atuar também como um promotor para as discussões de relevância terapêutica quando faz emergir emoções e sentimentos no cliente, importantes para o seu crescimento. Esta técnica é utilizada também quando os objetivos da terapia compõem-se em desenvolver a atenção, a audição, a percepção e a receptividade; em auxiliar no aprendizado e memorização de crianças e jovens; quando os objetivos estão relacionados à dramatização ou são recreativos e de integração social; dentre muitos outros. A maioria das pesquisas científicas observacionais realizadas com a musicoterapia e as respostas fisiológicas que ela provoca, são realizadas fora do país e são baseadas na técnica da escuta musical e em suas diferentes variações. Em relação ao estresse, a maioria dos artigos científicos analisados que continham as palavras "music therapy" e "stress" em seu título, tratavam-se da observação das reações fisiológicas frente à escuta de músicas classificadas como relaxantes e calmantes. As pesquisadoras DANHAUER e KEMPER (2008), por exemplo, observaram, a partir da revisão de múltiplas pesquisas, que determinadas canções de ninar e músicas clássicas, quando tocadas para bebês prematuros em unidades de terapia intensiva, diminuíam o comportamento estressante dos bebês, os níveis de cortisol salivar e a freqüência respiratória, melhorando o sono, o ganho de peso e favorecendo a alta hospitalar. As autoras descrevem em seu artigo, um estudo que mostrou que a escuta da música clássica promove a diminuição do estresse e gera maior resistência a ele por meio da melhora do controle autonômico da freqüência cardíaca, enquanto que o barulho ou o rock atua de forma contrária. Outro estudo observou que mesmo os adolescentes, que gostavam de ouvir rock, apresentavam respostas psicológicas e emocionais negativas durante a sua escuta, resultado que foi ao encontro do que concluiu PELLETIER (2008) em sua meta-análise, em que observou o efeito da música na redução do estresse. Ao contrário do que as recentes pesquisas vêm

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demonstrando, o autor concluiu que os voluntários dos estudos que analisou apresentavam melhores taxas de redução dos níveis de estresse quando as músicas utilizadas eram selecionadas pelos pesquisadores. Uma explicação viável para este resultado é a de que nem sempre a preferência musical seria a mais adequada para promover o relaxamento esperado, mostrando claramente a necessidade de um musicoterapeuta habilitado para, dentre as músicas preferidas do paciente, escolher aquelas que sejam capazes de surtir o efeito esperado. Em outra pesquisa, ANGELONI et al. (2007) dividiu 60 pacientes em 3 grupos, que passariam por cirurgias semelhantes. O grupo I escutou com a ajuda de fones de ouvido, uma compilação de músicas relaxantes do estilo new age, antes e durante a cirurgia. Já os pacientes do grupo II puderam escolher, um pouco antes da cirurgia, o estilo de música que queriam escutar, dentro de uma seleção de músicas clássicas, country, pop e dance music; enquanto que o grupo III, o grupo controle, permaneceu em silêncio, antes e durante a cirurgia. O objetivo do trabalho era observar a atuação da musicoterapia na redução do estresse associado a procedimentos cirúrgicos e avaliado a partir das mudanças do cortisol plasmático e da contagem de linfócitos natural-killers presentes no sangue. Os resultados demonstraram que a musicoterapia perioperativa diminui os níveis de estresse dos pacientes, medido através do cortisol plasmático e da contagem de células naturalkillers. Além disso, os cientistas constataram que os pacientes que puderam escolher o estilo musical para escutar durante os procedimentos cirúrgicos, apresentaram aparentemente melhores resultados na redução do estresse. Os estudos de LEWIS (2008), citado no item 3, e de ANGELONI et al. (2007) servem para comprovar que não podemos fazer generalizações e que os trabalhos musicoterápicos precisam ser individualizados, pois mostram claramente, ou melhor, por meio de parâmetros científicos, que cada um de nós é arrebatado de uma forma particular pela música. Outros estudos evidenciam que a música no ambiente hospitalar tem criado um clima acolhedor para o paciente e um ambiente positivo para a equipe hospitalar, tendo a escuta musical como um fator preponderante na diminuição da ansiedade, do estresse e da depressão entre os pacientes internados. Os cientistas têm observado também que, quando cuidadosamente selecionada, a música pode diminuir o estresse, promover a sensação de conforto e relaxamento, oferecer

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distração para a dor e melhorar a performance clínica do paciente enfermo (DANHAUER; KEMPER, 2008). Segundo Arthur Harvey, neuromusicologista professor de música da Universidade do Hawaii, as músicas que apresentam um ritmo próximo ao das batidas do coração de uma pessoa em repouso são as que mais acalmam. São músicas com o chamado “heartbeat tempo”. Ele diz também que determinadas cadências de músicas como, por exemplo, a música barroca, estimula “a química do bem estar” e os sistemas físicos que reduzem os efeitos do estresse. Uma vez que a música pode ser utilizada para diminuir os hormônios do estresse, é provável que ela também atue positivamente no desenvolvimento das úlceras estomacais, na diarréia crônica e até mesmo na Doença de Crohn (ALTONN, 2004). Em seus trabalhos, Arthur Harvey comprovou que as músicas que possuem um ritmo próximo ao das batidas do coração em repouso e que combinam performances vocal e instrumental são as mais efetivas no que tange a redução da freqüência cardíaca e a sua manutenção entre os 62 e os 72 bpm. Ele verificou que a música pode ser utilizada como uma técnica relativamente barata na regularização da freqüência cardíaca de pacientes portadores de doenças do coração, que tendem a ser altamente estressados. Segundo ECHEVARRIA et al. (1997), está comprovado que a escuta de determinados tipos de músicas provocam em nosso organismo uma resposta vegetativa, fisiológica e involuntária da freqüência cardíaca e respiratória. Alguns sons podem produzir reações emocionais intensas e por isso são importantes instrumentos para o processamento de informações, considerados pelas últimas pesquisas, bastante úteis e eficazes no tratamento de traumas e demais distúrbios mentais. Dessa forma, por meio da análise de alguns dos estudos relativos à musicoterapia e estresse, podemos chegar à conclusão de que os benefícios da música para a saúde são incomensuráveis e de que a sua aplicação na redução do estresse, apesar de ainda não sabermos exatamente como, certamente é válida e eficiente, independente das técnicas e dos métodos que sejam utilizados para o desenvolvimento das experiências musicais e dos processos terapêuticos.

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3.3 AS PRÁTICAS MUSICOTERÁPICAS E SUA APLICAÇÃO NO ESTRESSE Segundo BRUSCIA (2000) as áreas de aplicação da musicoterapia são definidas de acordo com os objetivos do cliente, da empresa ou instituição na qual o profissional está inserido, de acordo com os objetivos do musicoterapeuta e com base na natureza da relação cliente-terapeuta. Dessa forma, são seis as principais áreas de atuação do musicoterapeuta: didática, recreativa, médica, psicoterapêutica, ecológica e de cura.

3.3.1 Didática Na área Didática, o objetivo do processo terapêutico é auxiliar o trabalho educativo. Ela pode ser aplicada em escolas, creches, clínicas, consultórios, hospitais, asilos, enfim, em qualquer setting onde o foco esteja na musicoterapia como viabilizadora do aprendizado, permitindo o desenvolvimento do processo terapêutico que, por sua vez, possibilitará a aquisição de novos conhecimentos e habilidades, necessárias para o crescimento pessoal, musical ou de qualquer outra habilidade. A junção da terapia com a educação é muito enriquecedora porque tanto a terapia quanto a educação ajudam as pessoas a adquirirem conhecimentos e habilidades, a diferença está em que o objetivo da terapia está em promover a saúde por meio da aquisição desses novos saberes. Nesta linha de raciocínio, uma das práticas didáticas que poderíamos adaptar e utilizar com sucesso no tratamento do estresse seria a Musicoterapia Comportamental, citada por BRUSCIA (2000), como a utilização da música com o intuito de intensificar, modificar ou eliminar determinados comportamentos de um indivíduo. Uma vez que o estresse pode ser controlado a partir da aquisição de novos hábitos de vida e da eliminação de comportamentos indesejáveis, acredita-se que as práticas didáticas da

Musicoterapia Comportamental poderiam ser uma ferramenta útil nestes processos de estabelecimento de hábitos mais saudáveis, muitas vezes, tão difíceis de serem adquiridos. Algumas pesquisas apontam que a Musicoterapia Comportamental já vem sendo utilizada com sucesso como meio de enfrentamento da ansiedade generalizada.

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3.3.2 Recreativa Na área Recreativa, as práticas musicoterápicas são aplicadas com a finalidade de promover o lazer, o prazer, a diversão e o engajamento em atividades sociais e culturais, e têm como objetivo proporcionar, por meio das mudanças terapêuticas ocorridas durante as sessões, melhorias na qualidade de vida das pessoas. Ela pode ser aplicada em escolas, creches, asilos, centros comunitários, prisões, empresas, clínicas, centros de saúde, grupos de apoio e hospitais. Alguns autores, como MOURA (1989) e BONFIM (2007) creditam o poder terapêutico da música à sua capacidade de gerar prazer. MOURA, por exemplo, refere que a musicoterapia se centra no prazer, e que ao contrário do que a comunidade científica possa achar, ela ainda assim é terapêutica, principalmente para os esquizofrênicos. Na sua proposta de trabalho, a autora afirma que o prazer sentido com a interação musical suprime temporariamente a ansiedade, abrindo novos canais de comunicação e permitindo que a pessoa se sinta mais a vontade para se comunicar verbalmente, expondo assim os seus sentimentos, as suas angústias, medos, decepções e expectativas. BONFIM, no entanto, se embasa na teoria de que o prazer é um dos principais antídotos do tédio e que, por isso, ela ajuda a reduzir o estresse e a ansiedade. Uma das ações mais divulgadas e incentivadas pelos profissionais da saúde para o enfrentamento do estresse, consiste exatamente em um esforço para reservar momentos para o lazer e prazer, enfatizando a importância que esses instantes têm na profilaxia e tratamento do estresse. Neste contexto, esses momentos podem ser perfeitamente proporcionados pela musicoterapia e suas práticas recreativas. Fisiologicamente falando, sabe-se que a música ativa regiões do cérebro relacionadas com o prazer e a recompensa; aquelas mesmas que são acionadas através da comida, sexo e drogas, e que estão envolvidas na estimulação da hipófise para a liberação das endorfinas. A endorfina é um neurotransmissor produzido e liberado durante a prática de exercícios físicos e após atividades relaxantes e prazerosas, e possui como função primordial atenuar a dor e promover o relaxamento muscular, proporcionando uma agradável sensação de bem estar. A música, em sua gama de possibilidades, consegue agir sobre o estresse por uma outra frente de ação: as endorfinas produzidas pela hipófise, durante as atividades

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prazerosas, irão agir sobre o hipotálamo inibindo a produção do ACTH, o neurotransmissor responsável por desencadear todo o processo de estresse. Por isso, muitos especialistas afirmam que a manutenção do bom humor e de momentos de alegria e diversão, são essenciais para a manutenção da saúde.

3.3.3 Médica Outra área da musicoterapia, a área Médica, de acordo com BRUSCIA (2000), tem como objetivo principal ajudar o cliente a melhorar, recuperar ou manter a sua saúde física. As práticas médicas possuem duas linhas principais: uma focada no tratamento direto das doenças biomédicas, que têm como alvo gerar alterações no estado físico do paciente; e outra, focada nos fatores psicossociais relacionados com as doenças físicas, que têm como objetivo modificar os aspectos mentais, emocionais, sociais ou espirituais, que contribuem para o problema biomédico. As práticas médicas podem ser aplicadas em clínicas, hospitais, consultórios, asilos, hospitais psiquiátricos e de reabilitação e centros de saúde. A Música Terapêutica faz parte das práticas médicas e consiste na audição de músicas especialmente escolhidas para determinados fins, sem haver, no entanto, a presença de um musicoterapeuta para a sua aplicação ou avaliação do paciente. Incluem-se nestas práticas a sua utilização em clínicas, estabelecimentos de saúde, em aulas de yoga e de relaxamento, em atividades esportivas ou mesmo de forma individual, para o relaxamento corporal, para acalmar, para reduzir a dor, para aliviar a tensão, a ansiedade e o estresse. As práticas médicas na musicoterapia têm sido muito utilizadas antes, durante e após os procedimentos médicos, ajudando a reduzir a ansiedade, o estresse e o desconforto; auxiliando no monitoramento e controle das respostas fisiológicas; diminuindo a utilização de anestésicos e intensificando os efeitos das outras medicações; melhorando o retorno ao estado de vigília; e propiciando momentos de distração e diminuição da dor (BRUSCIA, 2000, p.204-205). A Musicoterapia e Medicina, uma outra prática médica também referenciada por BRUSCIA, talvez seja, nesta área, uma das que melhor se aplica ao tratamento do estresse porque nela existe, necessariamente, uma relação cliente-terapeuta que perdura por um maior período de tempo e onde o terapeuta tenta solucionar os

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problemas físicos ou os psicossociais relacionados do paciente a partir das experiências musicais que emergem no setting musicoterápico.

3.3.4 Psicoterapêutica Uma outra área de aplicação da musicoterapia é a área Psicoterapêutica, onde o objetivo das práticas consiste em ajudar o cliente a melhorar, recuperar ou manter a sua saúde mental e espiritual, utilizando abordagens individuais ou grupais que permitam a ele se auto-conhecer e se auto-realizar, e que enfoquem as emoções, os insights e as relações como os principais alvos de mudança. Ela é bastante aplicada em clínicas, centros de saúde, grupos de apoio, consultórios e hospitais psiquiátricos. Dentre outros objetivos das práticas psicoterapêuticas podemos citar: melhorar a auto-expressão; alterar comportamentos, emoções e relações

prejudiciais; resolver problemas interpessoais; desenvolver habilidades e hábitos de vida saudáveis; curar traumas emocionais; proporcionar insights profundos e uma maior orientação da realidade; proporcionar maior satisfação na vida e/ou crescimento espiritual (BRUSCIA, 2000, p.221). A partir da análise dos objetivos acima relacionados, podemos concluir que as práticas psicoterapêuticas podem atender a uma enorme variedade de indivíduos com problemas psiquiátricos e distúrbios causados pelos problemas cotidianos da vida, nos levando a acreditar que as práticas psicoterapêuticas podem atuar como importantes aliadas na redução dos efeitos do estresse. Na área psicoterapêutica, a música pode ser utilizada na terapia ou como terapia, de modo que, de maneira simplificada, na terapia, as técnicas e métodos musicoterápicos são utilizados como ferramentas auxiliares para se alcançar o processo terapêutico e, dessa forma, durante as sessões, as técnicas

musicoterápicas são intercaladas com técnicas da psicoterapia, ou outras terapias, e com discussões e insights a respeito das experiências vivenciadas naquele momento; como terapia, a música é o instrumento utilizado para se alcançar o processo terapêutico e, apesar de haver a liberdade para insights e discurso verbal, a abordagem pode ser inteiramente por meio da música, porque ela por si só é

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capaz

de

engajar

o

cliente

no

processo

terapêutico

de

mudança

e

autoconhecimento. Há profissionais que preferem trabalhar apenas com a música e os métodos da musicoterapia, enquanto outros acreditam que a união de abordagens possa ser mais enriquecedora e eficiente. Para ilustrar, citamos a pesquisa de meta-análise de PELLETIER (2008) que diz que, embora a escuta musicoterápica seja efetiva na redução do estresse, quando utilizada em associação com outras técnicas de relaxamento, como as de sugestão verbal e as de relaxamento progressivo, por exemplo, os resultados proporcionados são bem melhores. Portanto, fica a critério de cada profissional a escolha das práticas e técnicas que se sentir mais seguro para trabalhar, não esquecendo de levar sempre em consideração as

individualidades e necessidades do cliente, bem como os objetivos clínicos propostos inicialmente para ele. As práticas psicoterapêuticas que talvez pudessem mais ajudar na redução do estresse são a Músico-psicoterapia de Insight e a Músico-psicoterapia

Transformadora. Em ambas, a relação cliente-terapeuta, por durarem por mais tempo, permitem que o terapeuta utilize as experiências musicais e as relações que se desenvolvem a partir delas como meio de promover insights e de trabalhar e resolver as necessidades terapêuticas dos seus clientes. Nas duas, a música é utilizada tanto como terapia, como na terapia, promovendo o processo de mudança, o autoconhecimento e a transformação.

3.3.5 Ecológica BRUSCIA cita uma outra área da prática chamada de Musicoterapia Ecológica, onde a musicoterapia é aplicada com a finalidade de promover a saúde do indivíduo e do meio no qual está inserido, englobando a sua família, a comunidade, o trabalho, a cultura e ambiente físico. Dessa forma, o objetivo das práticas ecológicas reside em restabelecer a saúde do indivíduo e do meio, focando nos processos de mudança que, ocorrendo em um, ocorrerá no outro por conseqüência. Dentro desta área encontramos três práticas que consideramos como desejáveis para a prevenção do estresse: a Musicoterapia Familiar, a Musicoterapia

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Comunitária e a Musicoterapia Organizacional. Em todas elas, o trabalho geralmente é realizado em grupos e pode surgir de uma necessidade emergencial de aliviar as tensões e melhorar as relações familiares, na comunidade ou nos ambientes de trabalho, com o objetivo de beneficiar o coletivo ou surge com a finalidade de restaurar e promover a saúde dos membros desses grupos (BRUSCIA, 2000). Para BONFIM (2007, p.27) a proposta de trabalho mais adequada para a terapia com indivíduos estressados é a Musicoterapia Ecológica, que promove a "saúde nos vários contextos sócio-culturais da comunidade e/ou do ambiente físico, já que o indivíduo é afetado inteiramente pelo meio". No entanto, apesar de à primeira vista, a área ecológica ser a mais adequada ao tratamento do estresse, perguntamos: ela conseguiria surtir efeito nos casos de estresse crônico? É provável que ela seja um instrumento memorável na prevenção e na redução dos efeitos do estresse ainda em estágio inicial, mas é possível que a Musicoterapia Ecológica traga resultados satisfatórios no tratamento do estresse já instalado e com agravos à saúde? Para muitas pessoas, talvez a maioria, os mais potentes desencadeadores de estresse constituem-se de cobranças e conflitos internos, que atormentam incessantemente o indivíduo e que são disparados por pressões impalpáveis como, por exemplo, o perfeccionismo, a vaidade, a ganância, a competitividade, a ansiedade, as fobias e medos, a baixa auto-estima, a insegurança, as autopunições, dentre outras. Na Musicoterapia Ecológica o foco principal de trabalho é a coletividade, havendo, talvez, poucas chances para a ação individualizada. Dessa forma, se não houver um gatilho que dispare mudanças ou que trabalhe os conteúdos internos a fim de desenvolver a flexibilidade, o autoconhecimento, a autoconfiança e a autoestima do cliente, haverá, neste caso, a possibilidade de se tratar as causas do seu problema? Ou correremos o risco de estarmos sempre tentando tratar apenas as conseqüências do estresse? Uma das conclusões de PELLETIER (2008) é a de que os trabalhos realizados de forma individual para a redução do estresse são os mais efetivos, porém, ele ressalta também a grande importância no suporte e o impacto que a musicoterapia aplicada em grupos proporciona na redução dos níveis de estresse aos seus participantes. Dessa forma, apesar do trabalho em grupo ser benéfico ao

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paciente estressado, é possível que o trabalho individual proporcione melhores resultados.

3.3.6 Cura A última área de aplicação da musicoterapia é a área de Cura. Os profissionais desta área acreditam que a música seja uma manifestação vibratória da ordem, do equilíbrio e da harmonia presentes no universo, podendo ser utilizada em qualquer parte deste mundo que esteja desequilibrada, a fim de restabelecer a ordem. Uma vez que o homem faz parte deste universo e pode entrar em desarmonia, em virtude de distúrbios e doenças, as práticas de cura utilizam-se da vibração, do som e da música para restaurar o equilíbrio do indivíduo, com ele mesmo e com o universo (BRUSCIA, 2000). Dessa forma, a cura é diferente da terapia porque na terapia o agente de mudança é o cliente, enquanto que na cura os agentes de mudança são as formas de energia universal presentes na música e em seus componentes sonoros e vibratórios. As práticas de cura se baseiam no pressuposto de que o organismo tem o poder de restaurar a sua própria saúde, muitas vezes sem precisar da ajuda de ninguém, nem mesmo do terapeuta. A Musicoterapia nas Práticas de Cura consiste da utilização das experiências musicais e das relações que se desenvolvem a partir delas para curar a mente, o corpo e o espírito, com o objetivo de promover a auto-cura e/ou o bem-estar do cliente. Esta prática de cura já é passível de ter mais chances de sucesso na redução do estresse, porque nela há uma relação terapêutica que promove o desenvolvimento de experiências musicais que possibilitarão ao cliente mudanças, transformações e insights, permitindo, assim, que ele reduza os efeitos negativos do estresse. Em suma, o estresse pode ser prevenido, tratado ou ter seus efeitos amenizados em todas as áreas da prática musicoterápica, basta para isso, que se façam as adaptações necessárias para cada cliente, o que não é problema para o musicoterapeuta, visto que está acostumado a uma enorme pluralidade de respostas e situações, decorrentes da percepção singular que cada um de nós tem da vida e, consequentemente, da música.

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Deste modo, é certo que alguns pacientes terão mais confiança e irão preferir determinadas áreas em detrimento de outras, o que não significa absolutamente nada, uma vez que, desta mesma forma, haverá diferentes clientes que irão preferir as modalidades realizadas em grupos, enquanto outros se sentirão mais a vontade trabalhando individualmente. Por isso, nós, musicoterapeutas e profissionais da saúde, conscientes das individualidades, necessidades, anseios e receios dos pacientes que nos procuram, devemos trabalhar a flexibilidade e estar abertos para o novo e para as mudanças: qualidades que nos servirão não só para atender ao nosso cliente de maneira mais adequada e eficiente, mas que também nos ajudarão a levar uma vida de forma mais equilibrada e tranqüila.

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CONCLUSÃO O interesse pela música por parte da sociedade médica vem refletindo a mudança de paradigma que está ocorrendo em todas as ciências, onde as especializações estão dando lugar agora à interdisciplinaridade, colocando lado a lado áreas de conhecimentos tão distintas como as ciências e as artes. A música é algo inerente ao homem e faz parte da sua vida desde as primeiras civilizações humanas, contando a sua história e marcando os principais acontecimentos da sua existência. A música está tão presente na vida do homem, envolvendo seu corpo, mente e espírito, que ela é capaz de transformar seus estados psíquico e físico, e de atuar de forma realmente eficaz na restauração e promoção da sua saúde. A musicoterapia, assim como a música, vem sendo aplicada desde os primórdios do desenvolvimento humano como meio de cura do corpo e da alma do homem. Hoje, ela é aplicada na prevenção de várias doenças e na recuperação da saúde de forma bastante eficaz e com resultados cada vez mais promissores. O estresse, que vem afligindo a nossa sociedade e assolando a nossa população trabalhadora, é a resposta do nosso organismo às pressões e cobranças externas e internas que nos são impostas e com as quais não sabemos como lidar. Os elevados índices de estresse e depressão atualmente em crescimento na população são alarmantes e sinalizam para uma mudança de postura emergencial. Neste contexto de angústia, ansiedade e desespero, a musicoterapia surge com a proposta de nos acalmar, relaxar, proporcionar prazer, diminuir a ansiedade e os níveis de estresse. Além disso, ao trabalhar os conteúdos internos guardados no subconsciente, a musicoterapia nos arma com ferramentas que irão nos auxiliar a lutar contra os agentes estressores e nos capacitar a evitar que o estresse alcance níveis perigosos. É possível que o poder da música sobre o homem resida, em parte, na sua capacidade de não depender do Sistema Nervoso Central para ser percebida pelo corpo humano, ou seja, na habilidade que ela tem de passar diretamente do córtex auditivo para o sistema límbico, o nosso centro das emoções e, assim, conseguir, por exemplo, deflagrar toda a cascata de reações do estresse. Além disso, ela ativa vários outros centros relacionados ao prazer, o que também lhe confere uma força

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muito poderosa sobre o ser humano e contra uma série de enfermidades como a depressão, a ansiedade e o estresse, por exemplo. O corpo humano, juntamente com seus mecanismos fisiológicos e neurológicos, está longe de ser totalmente desvendado. O cérebro é magnífico e misterioso para a ciência, da mesma forma que a musica é, pois ainda há muito que se estudar e pesquisar para explicar os mecanismos biológicos de ação da música sobre o homem, e esse assunto provavelmente nunca se esgotará. Espera-se que as recentes pesquisas na área da neurociência tragam mais resultados a respeito das potencialidades e efeitos da música sobre o homem, por que até então, não entendemos totalmente por quais mecanismos neurofisiológicos ela atua. O que conseguimos observar por meio dos vários estudos realizados até então é que a elucidação dos mecanismos cerebrais utilizados pela música para evocar emoções, proporcionar prazer e reduzir o estresse, por exemplo, está cada vez mais próxima. Quanto à musicoterapia, os estudos científicos prospectivos, randomizados, controlados, duplo-cegos existentes ainda são poucos e pegam carona nas pesquisas realizadas com a música. A única certeza que temos é que os clientes e pacientes mostram-se prazerosos com as sessões e que a musicoterapia tem apresentado bons resultados na maior parte dos casos a que se propõe a tratar, aumentando cada vez mais a atuação do musicoterapeuta na área clínica. A dificuldade em se realizar pesquisas exploratórias a respeito do efeito da musicoterapia sobre o ser humano reside no fato de que uma mesma música, quando tocada duas vezes seguidas, é capaz de provocar reações fisiológicas e emocionais diferentes em uma mesma pessoa, dependendo apenas da forma como ela foi reproduzida. Além disso, na musicoterapia, o homem se envolve com a música através do corpo-mente-espírito, influenciando drasticamente os resultados das pesquisas. Essas características da música, para os estudos científicos, não são interessantes por que geram um elevado número de variáveis que precisariam ser controladas. Mas por outro lado, na musicoterapia, quando se consegue controlar as variáveis, os resultados nem sempre são satisfatórios ou os esperados, o que dificulta e desestimula a realização de estudos experimentais na área. A principal variável para a musicoterapia é o homem que, influenciado pelas experiências pelas quais já passou, pela forma de pensar, estilo de vida, cultura e genética, possui um jeito muito particular de ser que o tornam um exemplar único na

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face da Terra. Essa forma especial de entender o mundo e de enfrentar o novo, nos confere diferentes habilidades tanto para perceber e sentir a música quanto para lidar com as adversidades da modernidade. Essas informações, aliadas aos resultados das pesquisas analisadas, nos levam a concluir que o trabalho musicoterápico com a finalidade de reduzir o estresse terá melhores resultados quando realizado de forma individualizada, focado nas sonoridades do cliente. Mas devemos levar em consideração que os trabalhos realizados em grupos também são muito importantes na redução dos níveis de estresse, por que, da mesma forma que um cliente se sente bem trabalhando de forma particular, há muitos outros que preferem ou só podem trabalhar em grupos. Cabe ao profissional encontrar meios para restabelecer a saúde dos clientes a partir do que lhes é solicitado e disponibilizado. Como pudemos observar na análise das técnicas e das áreas da prática musicoterápica é que não há uma delas que seja melhor ou a mais indicada para o estresse do que a outra. O musicoterapeuta, durante a avaliação inicial de seu cliente, deverá ter a sensibilidade e o conteúdo técnico suficiente para escolher o método e as técnicas mais adequadas para serem trabalhados naquele exato momento, com base nos objetivos que ele pretende alcançar. É possível trabalhar com a prevenção e a redução do estresse em todas as áreas da musicoterapia. É provável que a escolha da área seja realizada pelo cliente, que procura uma clínica, hospital ou consultório que se especializa em uma determinada área, ficando a cargo do terapeuta, escolher as técnicas e métodos a serem utilizados durante as sessões, de acordo com os objetivos clínicos e as necessidades do cliente. Com base na observação das diferentes necessidades do cliente e nos resultados dos artigos analisados, conclui-se que devemos estar atentos para o fato de que nem sempre somente as técnicas e métodos da musicoterapia serão suficientes para restaurar a saúde do nosso paciente. Vimos, por exemplo, que a utilização da escuta musicoterápica na redução do estresse é benéfica, mas que em conjunto com outras técnicas de relaxamento, ela pode proporcionar melhores resultados. Portanto, estar aberto a novas idéias, técnicas e métodos que estejam fora da musicoterapia é de suma importância para o enriquecimento do trabalho desse profissional.

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Os resultados das pesquisas de Pelletier, que demonstraram que nem sempre as músicas preferenciais do cliente são capazes de promover o relaxamento, mostram claramente também a necessidade de um profissional musicoterapeuta que filtre, dentre as músicas prediletas do paciente, aquelas que possuem condições de proporcionar o relaxamento, ou seja, aquelas capazes de alcançar os objetivos propostos pela terapia. Nos casos generalizados, em que as músicas não são personalizadas e são utilizados CDs contendo músicas ditas relaxantes e curativas para o tratamento da ansiedade, depressão, estresse, dentre outros, cabe um alerta, por que neste caso não estamos falando de musicoterapia, que baseia sua atuação na relação cliente-terapeuta e na utilização da música contextualizada como instrumento terapêutico. É importante que o público em geral seja informado de que esse tipo de utilização da música não é musicoterapia e que a aplicação da música por outros profissionais com o intuito de relaxar, acalmar, proporcionar prazer ou reduzir o nível de estresse, caracteriza a utilização da música apenas para fins terapêuticos porque, neste caso, não está se tratando as causas do problema, mas somente os sintomas decorrentes dele. O requisito básico para que haja a musicoterapia é a relação terapêutica, onde o foco principal é o paciente. Dessa forma, a musicoterapia requer a atuação de um profissional qualificado para este serviço, que ajudará o cliente em seu processo de mudança, trabalhando tanto as causas como os sintomas trazidos para o setting musicoterápico, a fim de restabelecer ou promover a sua saúde. Atualmente, crescem o reconhecimento, o respeito e a credibilidade pela musicoterapia ao passo que os profissionais se especializam e mostram os resultados de seus trabalhos. Porém, ainda assim, são poucas as iniciativas, as pesquisas e as oportunidades de emprego para o musicoterapeuta. Em resumo, podemos concluir que o estresse, apesar de já fazer parte das nossas vidas, ele pode ser reduzido e ter suas graves conseqüências anuladas por completo. Neste contexto, a musicoterapia pode ser utilizada como mais uma aliada eficiente e de baixo custo na prevenção e tratamento, não só do estresse, mas como também de uma série de outras enfermidades de cunho físico e psicológico que venham a prejudicar a saúde do ser humano.

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