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PATROLOGIA – PATRÍSTICA

I. Significado dos termos
II. História literária dos Padres
III. A transmissão dos textos patrísticos
IV. A edição impressa dos Padres
V. A patrística hoje

Foi o título de “Pai” (“Padre”) que forjou o termo “patrologia”, depois, o de “patrística”; dois termos
vizinhos, mas que tendem a distinguir-se. O criador do termo “patrologia” foi o luterano J. Gerhard ( 1637)
em seu estudo póstumo “Patrologia sive de primitivae ecclesiae christianae doctorum vita ac lucubrationibus
opusculum”, aparecido em Jena em 1653; o livro vai de Hermas a Belarmino.

I. Significado dos termos. 1) O termo “patrologia” quer expressar sobretudo o estudo histórico e
literário (vida e obras) dos escritores antigos. Certo número de historiadores, a fim de incluir todos os autores
da Igreja, sejam ortodoxos sejam heterodoxos, preferem falar de “História da literatura cristã” (Harnack) ou
“eclesiástica” (Berdenhewer), título adoptado por numerosas obras contemporâneas, de origem e tendências
diversas (Batiffol, Puech, Labriolle, Bardy, Moricca, Pellegrino). Na origem, “patrística” era um adjectivo,
subentendendo teologia. Apareceu no séc. XVII entre os teólogos luteranos e católicos, que distinguiam a
teologia em “bíblica, patrística, escolástica, simbólica, especulativa”. Aqueles que hoje lhe dão preferência
estudam as ideias e as doutrinas mais do que o aspecto filológico e literário. Basta folhear as novas edições
dos textos patrísticos, como as Sources chrétiennes, para perceber esta mudança. 2) Os antigos não traçaram
uma fronteira rígida entre a antiguidade cristã e a Idade Média; com facilidade deram eles o nome de
“Padres” aos escritores posteriores, como no caso das antigas Bibliothecae Patrum, que vão até o séc. XV e
XVI. Até mesmo Mabillon ainda considera S. Bernardo como “o último Padre”. Migne seguiu este exemplo
na sua Patrologia (para grande desespero de J. B. Pitra). Os modernos fixam limites mais precisos. Para eles,
em geral os Padres terminaram com Gregório Magno ou Isidoro de Sevilha para os latinos, com João
Damasceno para os gregos. Alguns desejam incluir também Beda o Venerável e o Bizantinismo.

II. História literária dos Padres. Pode-se considerar Eusébio de Cesareia como o pai da Patrologia.
Na sua História Eclesiástica., ele nos dá insubstituíveis informações sobre os escritores e as suas obras,
reproduzindo também longos trechos. No De viris inlustribus Jerónimo redige 135 breves notícias, pouco
mais ou menos em ordem cronológica, que vão de Simão Pedro a Sofrônio, terminando modestamente com
ele próprio. Inspira-se em Eusébio. As melhores notícias são sobre seus contemporâneos. A obra de Jerónimo
foi continuada por Genádio de Marselha, que lhe acrescentou 97 (100) novas notícias; é preciosa para o séc.
V. A continuação por obra de Isidoro de Sevilha e de Ildefonso de Toledo se estende principalmente sobre os
escritores espanhóis (PL 83, 1084-1106).
Um anónimo introduz no Onomasticon de Hesíquio de Mileto os escritores cristãos, que dali passam
para a Sudas e para Fócio, Myriobiblon sive Bibliotheca. Por volta de 1317, Ebedjesus bar Berika estabelece
o Catálogo dos escritores da literatura siríaca.
No Ocidente, os historiadores da Idade Média (Sigeberto de Gembloux [ 1112], Honório de Autun,
o Anónimo de Melk, falsamente identificado com Henrique de Gand, continuado por João de Tritenheim,
dito Trithemius [ 1516]) contentam-se com fornecer resumos (não isentos de erros) de Jerónimo, Genádio,
Isidoro. A documentação encontra-se em J. A. Fabricius, Bibliotheca ecclesiastica, Hamburgo 1718.
Renascimento e Humanismo levam ao auge a antiguidade clássica e a cristã, no plano dos textos e da
história, e afirma-se uma verdadeira volta às fontes. O conhecimento das línguas antigas, sobretudo do grego,
faz descobrir o património oriental e ocidental. De ora em diante os Padres são citados nas controvérsias em
que se contrapõem a Reforma e a Igreja católica. E o caso das Centúrias de Magdeburgo (1559), pesquisa

1
histórica luterana que pretende demonstrar os desvios católicos. Elas provocam o monumental trabalho de C.
Barónio (1538-1607), os Annales Ecclesiastici, em 12 vols.
O séc. XVII vê aparecerem obras que marcam época: R. Belarmino, Liber de scriptoribus
ecclesiasticis, Roma 1613, continuado por Ph. Labbé e C. Oudin. Seguem-se três historiadores de grande
estatura: Louis Ellies du Pin, Nouvelle bibliothèque des auteurs ecclésiastiques, Paris 1686-1711, 47 vols.; L.
S. Le Nain de Tillemont, Mémoires pour servir à l’histoire des 6 premiers siècles, Paris 1693-1712, 16 vols.,
obra reeditada ainda hoje e apreciada pelos eruditos; depois R. Ceillier, Histoire générale des auteurs sacrés
et ecclésiastiques, Paris 1729/63, 23 vols.
A igreja protestante e a anglicana apresentam os trabalhos de Dodwell ( 1711), Cave ( 1713), C.
Oudin ( 1717), Fabricius e C. T. G. Schönemann; estes entraram no Migne. Os estudos teológicos de Petau
( 1652) e de Thomassin ( 1695) fazem surgir um sério conhecimento da patrística. O mesmo se dá com as
diversas pesquisas sobre as fontes litúrgicas; para a igreja oriental a de Jean Morin ( 1659) e Renaudot (
1720), de quem a Liturgiarum Orientalium Collectio é reeditada ainda hoje. Faz-se mister acrescentar o
Rituale Graecorum de J. Goar ( 1654) e os Antigos ritos da Igreja de Martène ( 1739).
Nos sécs. XVII e XVIII intensifica-se a exploração das ricas bibliotecas, o que permite a publicação
de numerosos inéditos, que vão engrossar as colecções parciais dos Padres. É preciso citar aqui L. A.
Muratori (1672-1750) e Mansi (1692-1769), cuja Amplissima collectio dos concílios, já precedida pela de Ph.
Labbé ( 1667), é reeditada até aos nossos dias. De seu lado, a família Assemani, principalmente José
Simão, revela ao Ocidente as riquezas da literatura siríaca.
Nos inícios do séc. XIX, contentam-se com continuar esta exploração, graças à sagacidade de Angelo
Mai (1782-1854), que publica 38 volumes em quatro colecções sucessivas. J. B. Pitra (1812-1889), que já
havia decifrado a inscrição de Pectorius de Autun, continua com menor rigor o trabalho de Mai. A estes
pesquisadores acrescenta-se o norueguês C. P. Caspari (1814-1892) para a edição de símbolos inéditos (3
vols.). A pesquisa patrística intensifica-se na segunda metade do séc. XIX. É o tempo de J. H. Newman na
Inglaterra. A Universidade cria a cátedra de patrologia em Louvain (J. B. Malou, B. Jungmann), em
Tübingen (J. A. Möhler, depois F. X. Funk), mormente em Berlim, que se torna um centro de edições e de
pesquisa com A. Harnack ( 1930) e Th. Zahn ( 1933), em Munique (Bardenhewer). A França chega à
ribalta com L. Duchesne (1843-1922) e P. Batiffol (1861-1929). Todos estes autores do “revival” patrístico
aplainam a estrada para a pesquisa contemporânea. A arqueologia por sua vez entra com coragem para
enriquecer a pesquisa histórica sobre a antiguidade cristã. Neste campo, o precursor é Antonio Basio (
1629), que, a partir de 1620, descreve a Roma subterrânea. No séc. XIX, G. B. De Rossi ( 1894) lança luz
sobre a Roma cristã, sobretudo pré-constantiniana, com suas inscrições, com a iconografia das catacumbas.

III. A transmissão dos textos patrísticos. Desde o séc. IV alguns monges se dedicam à transcrição
das obras cristãs e também pagãs. Para este fim Cassiodoro funda o mosteiro de Vivarium, onde se traduzem
os textos gregos. Tanto no Oriente quanto no Ocidente os mosteiros conservam e transmitem o património
patrístico, principalmente o espiritual. Ricas bibliotecas de obras dos Padres encontram-se especialmente nas
grandes abadias (Bobbio, S. Gall, Reichenau, Corbie). No Ocidente, os gregos são conhecidos apenas em
tradução latina.
Desde o fim da época patrística, os textos são transmitidos graças a colecções (Compilações,
Filocalias, Cadeias, Florilégios dogmáticos e monásticos, Apoftegmas), mais cómodas e menos dispendiosas.
A primeira antologia de Orígenes (Philocalia) remonta aos Capadócios. Nestas selecções, no
Ocidente Agostinho domina com vantagem. Próspero, Eugípio, mais tarde Floro de Lyon e Beda o Venerável
compõem Sentenças tiradas das obras agostinianas. Patério compõe o Liber testimoniorum (excertos das
obras de Gregório Magno).
Isidoro inaugura o género literário das Sentenças e compõe uma “suma” teológica com citações de
Agostinho e de Gregório I. No séc. VII o Liber scintillarum do Defensor de Ligugé, um dos livros mais lidos,
alarga sua colheita sobretudo com sentenças morais e ascéticas; além dos latinos, aí figuram os gregos e até
mesmo Efrém. É preciso acrescentar os Testimonia divinae Scripturae et Patrum de um autor
2
contemporâneo. O Oriente e, mais tarde, o Ocidente concebem florilégios dogmáticos e espirituais, que
saqueiam a literatura patrística. Os florilégios dogmáticos brotam da importância dada à prova de autoridade
nas controvérsias teológicas e nos concílios; os Padres se substituem à Escritura. Basílio (Tratado sobre o
Espírito Santo, cap. 2s), Vicente de Lérins (Commonitorium 29-31), Agostinho (Contra Julianum I, 6-34),
Cirilo de Alexandria, Teodoreto (Eranistes), Severo de Antioquia (Contra Joharmem Grammaticum, e suas
fontes) constituem dossiers patrísticos. O mesmo acontecerá com Efrém de Antioquia e Sofrónio de
Jerusalém (perdidos), com os organizados por Máximo o Confessor, com a Doctrina Patrum de incarnatione
Verbi de um certo Anastásio (séc. VII-VIII), com os Sacra Parallela e a obra de Floro de Lyon. A tradição
arménia transmitiu o florilégio de Timóteo Eluro contra o Concílio de Calcedónia, e compôs outros originais
(Sigilo da fé, etc.).
Os florilégios espirituais e monásticos recolhem os ditos dos Padres, mormente de J. Crisóstomo e
dos Padres bizantinos. Assim as Pandectas da Sagrada Escritura (séc. VII), as Perguntas e Respostas de
Anastásio Sinaíta, depois aumentadas, o Evergetinon de Paulo de Constantinopla (séc. XI). No Ocidente, é
preciso citar o Liber exhortationis de Paulino de Aquiléia ( 802), o Livro dos vícios e das virtudes de
Alcuíno, o Diadema dos monges de Smaragdo (séc. XI). Muitos destes florilégios são ainda inéditos. Entre
as Gnomai (Sentenças) e os Lugares comuns, além das famosas Sentenças de Sexto, os Preceitos do diácono
Agapito de Constantinopla se espalharam por todas as bibliotecas da Europa e inauguraram o género literário
dos chamados Espelhos dos príncipes; os mais conhecidos são os Lugares-comuns do Ps.-Máximo, em que
são abundantemente citados os Padres. Também os Homiliários hauriram do património patrístico e
divulgaram “trechos selectos” da pregação, mas também comentários bíblicos e obras teológicas e espirituais
dos Padres. Minuciosa exploração permitiu reconstruir em parte a obra de Cromácio. Durante séculos tal
literatura nutrirá a oração dos monges e de toda a Igreja.
Enfim acrescentemos que as colecções canónicas (abertas também a questões teológicas, como os
sacramentos e os ministérios) transmitem alguns textos patrísticos. O Decreto de Graciano, no auge da Idade
Média, deles cita 1200, dos quais 1022 autênticos, embora nem sempre seja correcta a atribuição. Aí
predominam os latinos, sobretudo Agostinho; os gregos são modestamente representados. Dos 33 textos
atribuídos a João Crisóstomo, apenas 14 são autênticos. Trata-se de excertos, muitas vezes longos, que por
vezes cobrem várias colunas do Migne. É através desta mediação que os Padres estão presentes na
Escolástica. Raramente os Mestres têm conhecimento directo das obras; em geral, recorrem às colecções. O
próprio Pedro Lombardo, que dá, nas Sentenças, o manual teológico para os Mestres, apresenta sua obra
como uma compilação dos Padres “in quo maiorum exempla doctrinamque invenies... brevi volumini
complicans Patrum sententias” (Prólogo). Os Padres aí figuram como autoridades às quais é necessário
recorrer. Os Escolásticos os consultam mediante as Tabulae originalium, os Libri auctoritatum.
Não se deve passar em silêncio o estudo mais intenso dos Padres nos grandes mosteiros, mediadores
de seus textos durante a Idade Média, quer se trate da Ordem beneditina ou dos mosteiros cluniacenses, das
abadias cistercienses ou das comunidades agostinianas, ou das várias cartuxas. Mais do que “auctoritates”, os
monges aí procuram um alimento para sua fé e sua vida espiritual (J. Leclercq, L’amour des lettres et le désir
de Dieu, Paris 1957, p. 87-107).
Dentro da própria Universidade, Jean Gerson ( 1429) prepara a época dos Humanistas começando,
contra as tendências da época, uma volta a Gregório Magno, a Agostinho, ao Ps.-Dionísio, às Vitae Patrum.

IV. A edição impressa dos Padres. O Renascimento e a invenção da imprensa favoreceram a difusão
dos escritos patrísticos. Na origem, prevalece a tendência a imprimir os livros mais procurados. O primeiro
texto é um apócrifo de Agostinho, De vita christiana, impresso em Mogúncia em 1461; depois, o De arte
praedicandi (l. IV do De doctrina christiana). As primeiras obras cristãs impressas na Itália, em Subiaco, em
1465, são as obras de Lactâncio, seguidas pela Cidade de Deus. O primeiro texto grego, os Discursos de
Gregório de Nazianzo, é publicado em 1516, em Veneza, por Aldo Manuzio. São de novo postos em lugar de
honra textos até então negligenciados, como Lactâncio, Tertuliano, Jerónimo.

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Os Humanistas melhoram aos poucos o texto a ser impresso, aperfeiçoando e eliminando os erros dos
copistas, acumulados no passar dos séculos. São os colaboradores técnicos dos editores: Andrea de Bossi
colabora nas publicações de Schweynheim e Pannartz, em Subiaco, depois em Roma. Em Basileia,
Amerbach e depois Froben se cercam de uma plêiade de Humanistas: Johann Heylin, Beatus Rhenanus,
Johann Pellikan e sobretudo Erasmo, o príncipe dos Humanistas.
Tende a afirmar-se a publicação das “opera omnia”, o que impõe um exame crítico para discernir o
autêntico do apócrifo, depois de séculos de fantasiosas atribuições. As obras completas de Ambrósio saem
primeiro em Milão em 1492, depois em Basileia, onde são seguidas pelas de Agostinho em 1506, de
Jerónimo em 1508. Não se faz ainda nenhuma selecção crítica: esta será a iniciativa de Erasmo, que prepara a
edição das obras de Cipriano (1521), de Arnóbio (1522), de Hilário (1523), de Jerónimo (1524-26), de Ireneu
(1526), de Ambrósio (1527), e finalmente de Agostinho (1527-29). Orígenes, em latim, somente aparece em
1536, depois da morte de Erasmo. Erasmo já começa a coleccionar, com amigos, diversos manuscritos, a
estabelecer a “censura” das obras, a livrar o texto dos descuidos e dos erros dos copistas. Graças a ele
começa-se a estabelecer a edição sobre bases mais críticas.
Os esforços de Erasmo são continuados por editores de valor, muitas vezes assessorados por filólogos
como Robert Estienne ( 1559) e seu filho Henrique. Aqui se faz mister citar o franciscano Feuardent (
1610), autor de uma série de edições patrísticas; o jesuíta Fronton du Duc ( 1624), editor de João
Crisóstomo, de Gregório de Nissa e de Basílio; J. Sirmond ( 1651), ao mesmo tempo historiador e editor
dos Padres (Fulgêncio, Teodoreto de Ciro, Eusébio e Rufino), e da colecção Concilia antiqua Galliae; o
dominicano F. Combefis ( 1678), que publica Máximo o Confessor e um vasto Homiliário patrístico; o
historiador Etienne Baluze  1718) que, entre outros, prepara uma Conciliorum nova collectio; J. B. Cotelier
( 1686) que, em Paris, estabelece o catálogo dos manuscritos gregos e publica os três volumes da Ecclesiae
Graecae Monumenta.
Na Inglaterra, deve-se citar pelo menos Henri Savile ( 1622), fundador da Bodleian Library, que
apresenta uma já notável edição das obras de João Crisóstomo, cotejada com os melhores manuscritos. Na
Alemanha, J. A. Fabricius ( 1736), filólogo e editor de Hipólito e de Filástrio (1721).
A estes é preciso acrescentar o trabalho de equipa dos Maurinos e dos Bolandistas.
No séc. XIX, Jacques Paul Migne (1800-1875) recolheu numa só Patrologia, em duas séries, latina e
grega, todas as publicações parciais, as grandes edições dos Padres, reunindo Bibliotecas, Espicilégios,
Analecta, Anedocta, Miscelâneas, Monumenta e Reliquiae, editados a partir da invenção da imprensa. Nela
reuniu as dissertações históricas, críticas, teológicas dos séculos passados, a que o erudito pode recorrer ainda
hoje com proveito, e que seriam dificilmente encontráveis em outro lugar.
A partir da metade do séc. XIX, a edição crítica baseia-se em critérios mais rigorosos, formulados e
empregados por K. Lachmann; desde então deles se beneficiam os textos patrísticos e os novos “corpus”,
principalmente o CSEL1 e o GCS2, depois SCh e CCL. O Oriente encontra seu lugar na PO3, em PS4 e em
CSCO5.

V. A Patrística hoje. O campo da pesquisa se alargou enormemente; acumulam-se as monografias e
as revistas especializadas. A bibliografia de Orígenes e de Agostinho exige só por si grossos volumes. Hoje a
patrística se enriquece graças à descoberta de novos textos latinos, gregos, orientais, que incessantemente
aumentam o dossier. Exigiram-se quatro volumes de Suplemento só para a Patrologia latina.
Numerosos textos gregos nos são propostos em diversas versões, especialmente em siríaco, que nos
permitem reconstruir aos poucos a obra de um Teodoro de Mopsuéstia até aqui desconhecida. A Clavis
Patrum de Geerard estabeleceu um primeiro inventário deles, onde se encontram muitos inéditos.

1
Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum, Viena 1865s.
2
Die griechischen christlichen Schriftsteller, Leipzig-Berlim 1897s.
3
Patrologia Orientalis, Paris 1903s.
4
Patrologia Syriaca, ed. R. Graffin, Paris 1894-1926.
5
Corpus Scriptorum Christianorum Orientalium, Paris-Louvain 1903s.
4
Papirologia e epigrafia não cessam de oferecer textos inéditos como a Disputa com Heráclides de
Orígenes, os comentários sobre o Génesis, sobre Já e sobre Zacarias de Dídimo, descobertos em Tura, em
1941. A biblioteca de Nag Hammadi abriu nova fase no estudo do gnosticismo. Papiros mais modestos nos
permitem conhecer melhor a vida quotidiana dos cristãos dos primeiros séculos. Além disto, a arqueologia
enriquece a patrística, o que explica o lugar que lhe foi dado neste Dicionário.
Papiros, versões, fragmentos, inventários exactos de manuscritos favorecem a edição sempre mais
rigorosa dos textos antigos, que se beneficia também de um conhecimento mais aprofundado do latim e do
grego cristãos. Para medir o caminho percorrido basta analisar a última edição do Adversus haereses em
Sources Chrétiennes.
A contribuição da filologia permitiu reais progressos no concernente à fixação e ao estudo dos textos
antigos. Não por acaso foram os trabalhos de Harnack reeditados anastaticamente, não obstante seu valor
histórico desigual. Depois da escola de Uppsala, a de Nimega nos ensinou a discernir melhor a originalidade
do latim cristão. As questões de autenticidade e de cronologia foram estudadas com novo rigor, as fontes dos
autores acurada e pacientemente analisadas. O Sitz im Leben, o ambiente cultural, religioso, político, social,
literário, filosófico são explorados minuciosamente. Frutos abundantes produz o caminho aberto por F. J.
Dölger para o confronto entre Antiguidade e Cristandade. Uma releitura feita com preocupações mais
existenciais dá maior consistência à interpretação, uma dimensão mais verdadeira à análise.
No curso dos séculos, os textos dos Padres foram invocados principalmente como norma de
ortodoxia, e alimentaram as contraposições no tempo da Reforma e da Contra-Reforma. Isto teve duas
consequências que ainda pesam sobre a patrística: a hipertrofia da dogmática em prejuízo dos outros âmbitos,
a exacerbação da ortodoxia, que provocou o ostracismo dos heresiarcas e de até um Orígenes, em seu tempo
juiz da ortodoxia numa assembleia de bispos.
Vezes demais a patrística favoreceu os latinos em prejuízo dos gregos, Agostinho em prejuízo de
Hilário de Poitiers. Afortunadamente Ireneu, Orígenes, Gregório de Nissa estão retomando seu devido lugar,
ao passo que Hilário e outros tantos não o ocupam ainda. Toda a literatura apócrifa, por muito tempo a
Cinderela da patrística, somente agora começa a ser estudada melhor e editada.
Desde a aparição das “Dogmengeschichten”, a patrística quase exclusivamente se tem refugiado na
história antiga do dogma. Estudos recentes começam a pôr em evidência todos os outros âmbitos a serem
explorados: ensinamento moral e ascético, vida teologal e monástica, doutrina política e teologia da história,
vida espiritual e mística, ideias sociais e económicas. Podem-se acrescentar ainda a liturgia, a catequese, a
homilética. São todos assuntos que, em vão, se procuraria nos cultores da patrística no início do século, como
também nos manuais actuais, e que permitiram pôr de novo em evidência a contribuição original de um
Salviano de Marselha.
A todos estes âmbitos, não ainda completamente explorados, ajunte-se a influência exercida pelos
Padres sobre os séculos seguintes, para se medir até que ponto Tertuliano, Orígenes, Lactâncio, Agostinho
puderam informar o pensamento da Europa inteira.
A patrística, por algum tempo domínio reservado ao clero (como a teologia), entrou hoje para o
domínio público. Os Padres encontram seu lugar na literatura geral (M. Schanz). Eles interessam
pesquisadores religiosos ou não, cristãos e não-cristãos, que concorrem para o estudo dos Padres com sua
cultura filológica e filosófica. Mas não é suficiente querer para ser um patrólogo; doutra parte, o termo
patrística não passa de um adjectivo de teologia, no sentido mais autêntico e completo do termo.

Bibliografia selectiva:

Ad I) E. AMANN, Pères de l’Eglise: DTC6 12, 1192-1215 (resumo das discussões sobre a denominação).
Ad II) Patristik: RE7 15, 1-13 (exposição ainda útil); A. BENOIT, L’actualité des Pères de l’Eglise , Paris
1961, 10-52 (tr. it.). Cf. também os manuais de Altaner e Quasten. H. HURTER - Fr. PAUGERL,
6
Dictionnaire de théologie catholique, Paris 1903-1970.
7
Realencyklopädie für protestantische Theologie und Kirche, Leipzig 21896-1913.
5
Nomenclator lit. theol. cath., Innsbruck 41926, 5 vo1s.; J. de GHELLINCK, Patristique et Moyen Age,
II e III, Bruxelles 1947/48; E. PETERSON, Patrologia: EC8 973-976; B. LOTH - A. MICHEL, Tables
générales du DTC 3, 3592-94 (documentação).
Ad III) A. SIEGMUND, Die Überlieferung der griech. christ. Literatur in der latein. Kirche bis zum 12. Jh.,
München 1949; Th. GOTTLIEB, Über die mittelalterlichen Bibliotheken, Graz 1955; Ch. MUNIER,
Les sources patristiques du droit de l’Eglise du VIIIe au XIIIe s., Strasbourg 1957; Artigos:
Bibliotheken, Florilegien, Fürstenspiegel em RACh9 2, 231-274; 7, 1131-1160; 8, 616-672 (bibl.);
Artigos: Bibliothèque, Florilège, Homéliaire em DSp10 1, 1589-1606; 5, 435-512; 7, 597-616 (bibl.).
Ad IV) Th. ITTIG, De bibliothecis et catenis Patrum..., Leipzig 1707 (colecções classificadas
topograficamente [Basileia, Paris...], obras detalhadas: de 1528 a 1707). Continuado por J. G.
DOWLING, Notitia scriptorum ss. Patrum aliorumque veterum Eccl. Monumentorum, Oxford 1839
(colecções de 1700 a 1839); C. T. G. SCHÖNEMANN, Bibliotheca historico-litteraria Patrum
Latinorum, Leipzig 1792/94, 2 vols. (contém as publicações dos apócrifos e de Tertuliano a Isidoro:
vida, obras, indicações em ordem cronológica das edições e das traduções, em geral retomadas por PL).
Para alguns Padres gregos encontram-se informações em J. A. FABRICIUS, Bibliotheca Graeca,
Hamburg 1712/14, livros V e VI (das origens à queda de Constantinopla. Contém um número restrito
de Padres, menos completo do que Ittig e Schönemann). Para as edições e traduções actuais, De studio
theologiae patristicae et historicae: Seminarium 17 (1977) (actualizada por especialistas). Cf. os
manuais: Quasten I, 17-21; Altaner 33s. Para a bibliografia, consultem-se L’Année Philologique (deu-se
amplo lugar aos Padres) e Bibliographia Patristica.
Ad V) B. ALTANER, Stand der patrologischen Wissenschaft, Miscell. Mercati I, ST11 121, Roma 1946, 483-
520; J. de GHELLINCK, Patristique et Moyen Age, Bruxelles 1947/48, II-III (denso de informações);
Id., Les recherches patristiques, progrès et problèmes, Mélanges Cavallera, Toulouse 1948, 65-85; W.
SCHNEEMELCHER, Wesen und Aufgabe der Patristik innerhalb der ev. Theologie: Evang. Theol. 10
(1950) 207-222; M. PELLEGRINO, Un cinquantennio di studi patristici in Italia: Scuola Cattolica 80
(1952) 424-52; A. BENOIT, L’actualité des pères de l’Eglise, Neuchâtel-Paris 1961 [tr. it. Bologna
1970]; A. G. HAMMAN, Pour un aggiornamento des manuels de patrologie et de patristique: TU12
107, 1970, 95-99; Id., Jacques Paul Migne. Le retour aux pères de l’Eglise, Paris 1975; Id., Pour une
lecture concrète des textes: TU 125, 1982, 285-292; Id., L’épopée du livre. La transmission des textes
anciens, du scribe à l’imprimerie, Paris 1985.

A. HAMMAN, Dicionário Patrístico e de Antigüidades cristãs, 1103-1106.

Fr. José Manuel Correia Fernandes, OP
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8
Enciclopédia Cattolica, Città del Vaticano 1949-1954.
9
Reallexikon für Antike und Christentum, Stuttgart 1950s.
10
Dictionnaire de spiritualité ascétique et mystique, Paris 1903-1970.
11
Studi e Testi, Città del Vaticano 1900s.
12
Texte und Untersuchungen zur Geschichte der altchristlichen Literatur, Leipzig-Berlin 1882s.
6