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Morfologia do Português

Felício Wessling Margotti

Período

Florianópolis - 2008

Gustavo Freire Design Instrucional Responsável: Isabella Benfica Barbosa Designer Instrucional: Verônica Ribas Cúrcio . Heberle Chefe do Departamento: Zilma Gesser Nunes Coordenadoras de Curso: Roberta Pires de Oliveira e Zilma Gesser Nunes Coordenador de Tutoria: Josias Ricardo Hack Coordenação Pedagógica: LANTEC/CED Coordenação de Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem: Hiperlab/CCE Comissão Editorial Tânia Regina Oliveira Ramos Izete Lehmkuhl Coelho Mary Elizabeth Cerutti Rizzati Equipe Coordenação Pedagógica Licenciaturas a Distância EaD/CED/UFSC Núcleo de Desenvolvimento de Materiais Produção Gráfica e Hipermídia Design Gráfico e Editorial: Ana Clara Miranda Gern. Bruno Nucci. Rafael Queiroz. Lissa Capeleto Revisão gramatical: Christiane Souza. Marcela Danusa Goerll Figuras: Felipe Oliveira Gall.Governo Federal Presidente da República: Luiz Inácio Lula da Silva Ministro de Educação: Fernando Haddad Secretário de Ensino a Distância: Carlos Eduardo Bielschowky Coordenador Nacional da Universidade Aberta do Brasil: Celso Costa Universidade Federal de Santa Catarina Reitor: Alvaro Toubes Prata Vice-Reitor: Carlos Alberto Justo da Silva Secretário de Educação a Distância: Cícero Barbosa Pró-Reitora de Ensino de Graduação: Yara Maria Rauh Muller Departamento de Educação a Distância: Araci Hack Catapan Pró-Reitora de Pesquisa e Extensão: Débora Peres Menezes Pró-Reitor de Pós-Graduação: José Roberto O’Shea Pró-Reitor de Desenvolvimento Humano e Social: Luiz Henrique Vieira da Silva Pró-Reitor de Infra-Estrutura: João Batista Furtuoso Pró-Reitor de Assuntos Estudantis: Cláudio José Amante Centro de Ciências da Educação: Carlos Alberto Marques Curso de Licenciatura Letras-Português na Modalidade a Distância Diretora Unidade de Ensino: Viviane M. Kelly Cristine Suzuki Responsável: Thiago Rocha Oliveira Adaptação do Projeto Gráfico: Laura Martins Rodrigues. Gabriela Dal Toé Fortuna. Thiago Rocha Oliveira Revisão: Laura Martins Rodrigues Diagramação: Laura Martins Rodrigues.

Composição. Universidade Federal de Santa Catarina/LLV/CCE/UFSC Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida. 2008. por escrito. da Coordenação Acadêmica do Curso de Licenciatura em Letras-Português na Modalidade a Distância. : 28cm ISBN 978-85-61482-06-0 1. Flexão. transmitida e gravada. por qualquer meio eletrônico. sem a prévia autorização. .90-5 Catalogação na fonte elaborada na DECTI da Biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina. 3. CDU 806. por fotocópia e outros. I.Copyright © 2008. Ficha Catalográfica M329m Margotti . — Florianópolis : LLV/CCE/UFSC. 156p. Morfologia. 2. Felício Wessling Morfologia do português / Felício Wessling Margotti. Título.

....................................................................................................................2 Palavra e Vocábulo...............................................45 2... ..4 Verbos Irregulares ou Desvios do Padrão Geral......... Morfe e Alomorfe......................87 4........................83 4...................................1 Morfemas Flexionais (desinências)........................................11 1........................................2 Estrutura Mórfica dos Nomes.....62 3................. ....16 1........................... Significado e Classe...............................................................................................................14 1...........................................2 Padrão Geral de Flexão Verbal..............................51 Unidade B..3 Flexão e Grau............................3 Formas Livres............................................................3 A Lógica dos Temas Verbais.4 Forma..................................................................................................................................5 Flexão de Número.......................4 Flexão de Gênero..............................................................................................................................2 Classificação dos Morfemas...................................................................................59 3  Flexão Nominal........................................... Função....................1 O que é Morfologia........................... 9 1  Delimitação do Objeto de Estudo............................................................................................98 ..........33 2............. 7 Unidade A....73 3..............Sumário Apresentação.....................................................................................83 4...........................1 Morfema................4 Mudança Morfofonêmica..........................................3 Análise Mórfica – Princípios Básicos e Auxiliares.50 2...............................61 3.............................................................11 1..............................1 Estrutura Verbal...65 3.......................................................................................63 3..................................17 2  Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos.......................................................................23 2..........95 4.............................77 4  Flexão Verbal..... Formas Presas e Formas Dependentes........................................................................6 Estrutura Pronominal......................................5 Sincronia e Diacronia........................................61 3................23 2...........................

......................109 5.............................................................................................3 A proposta de Mattoso Câmara Jr..................................................................................121 5............... 107 5........................................................................ 149 Referências Bibliográficas..........................................128 6  Classificação dos Vocábulos Formais.......................2 Revisando Conceitos..........................................................................Unidade C....................................................1 A Classificação das Palavras de Acordo com a NGB...................................................................................4 Outros Processos de Formação de Vocábulos............ 139 6...............2 Tipos de Derivação..........................140 6........................142 Glossário.........................................................................................1 Os Processos de Formação de Vocábulos.........................................107 5.......... 155 .........3 Composição..139 6...... 105 5  Formação dos Vocábulos................................

Apresentação Q uando elaboramos este texto. mas. temos a convicção de que outros modelos também apresentam restrições e não dão conta de todos os fatos. A nossa expectativa é que. Organizamos o material impresso em seis capítulos. . de outro lado. as formas. fizemos um esforço para que os tópicos fossem apresentados e ordenados de forma didática. isto é. que seja capaz de reconhecer diferentes critérios utilizados na classificação de palavras. a saber: Delimitação do objeto de estudo (Cap. II). Para que esse propósito fosse alcançado. Formação de palavras (Cap. V). o aluno esteja capacitado a utilizar os princípios de análise morfológica para descrever estruturas de palavras da língua portuguesa. composição e derivação. Classificação dos vocábulos formais (Cap. sobretudo. mas. certamente. num primeiro momento. dogmático e inquestionável. Espera-se. e as contribuições de José Lemos Monteiro. Não se trata de oferecer um conhecimento pronto e acabado. Nesse sentido. tivemos a intenção de oferecer a você. não está isenta de problemas. a leitura atenta das explicações. focalizando as palavras e suas estruturas. seguindo de perto a orientação de Mattoso Câmara Jr. com informações sobre os mecanismos de flexão e sobre os processos de formação de palavras. depois. Conceitos básicos e princípios teóricos (Cap. IV). mas. distinguindo os processos de flexão. De antemão alertamos que a adoção de um modelo descritivo. familiarizar o aluno com o instrumental teórico adotado e com os conceitos para. um guia de estudos da morfologia do português. I). também. III). instrumentalizar (– Olha um neologismo aí!) o aluno a descrever a língua. Flexão nominal (Cap. ancorada em exemplos diversos. Por fim. no que diz respeito à morfologia. fazer o caminho da descrição dos vocábulos. A idéia é. no final do curso. Flexão verbal (Cap. cuja perspectiva é a análise sincrônica. VI). objetiva-se desenvolver uma reflexão crítica sobre a classificação tradicional dos vocábulos. a reflexão e o reforço de outros textos possibilitarão novos conhecimentos sobre a gramática da língua portuguesa. em linguagem acessível e complementados com outras referências e exercícios. não temos a pretensão de esgotar todas as questões que fazem parte do programa da disciplina. aluno de graduação em Letras. identificando diferentes tipos de morfemas e sua distribuição.

Felício Wessling Margotti . de Joaquim Mattoso Câmara Jr. Além disso. foram previstas atividades com vistas a fixar os conhecimentos e a alcançar os objetivos da disciplina. entre em contato. sugerimos que a leitura deste material impresso seja sempre subsidiada por consultas aos livros Estrutura da Língua Portuguesa. Em caso de dúvidas e necessidade de esclarecimentos adicionais.. abrindo espaço para questionamentos e reflexões. Nós e os tutores da disciplina faremos o possível para atendê-lo da melhor forma possível. de José Lemos Monteiro (esses livros devem estar disponíveis nas bibliotecas dos pólos). e Morfologia Portuguesa. pois em muitos aspectos os fatos podem ser descritos e explicados de forma conflitante.Sobre cada um dos capítulos acima relacionados. Para o melhor acompanhamento da disciplina. faz-se necessário sempre confrontar os modelos aqui propostos com os modelos propostos pelas gramáticas escolares (também devem existir alguns exemplares nos pólos). ou incompleta. As atividades obrigatórias serão previstas no plano de ensino da disciplina e as respectivas orientações serão fornecidas no Ambiente Virtual.

Unidade A Estruturas Morfológicas .

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as palavras são formadas por unidades menores que. 11). 11 01 . morphé = ‘forma’ e logía = ‘estudo’. tomada como sinônimo de estrutura. cujas partes são os morfemas. há um nível intermediário que visa a estudar as unidades da língua que apresentam certa autonomia formal. as palavras.1 O que é Morfologia Entre os diferentes níveis de análise lingüística. O termo morfologia foi inicialmente empregado nas ciências da natureza. vamos adiantar que toda estrutura contém elementos relacionados. como as frases e as partes que a compõem. Na constituição do termo morfologia. Nessa perspectiva. como a botânica e a geologia. até as unidades menores. O mesmo ocorre com as palavras. produzem um significado. saber de que se ocupa a morfologia implica saber o que se entende por forma. a morfologia pode ser definida como “o estudo dos morfemas e seus arranjos na formação das palavras”. 1. p. combinadas. que. representadas concretamente pelas entradas lexicais nos dicionários. Inicialmente. morfologia é a parte da gramática que descreve a forma das palavras. Segundo Nida (1970.Delimitação do Objeto de Estudo 1 Capítulo Delimitação do Objeto de Estudo Para iniciar nosso estudo. 1). encontram-se os elementos [morf(o)] e [logia]. p. Trata-se do nível morfológico. Essas unidades de sentido são combinadas de um certo modo para exercer determinadas funções na estrutura formal da qual fazem parte. apud Monteiro. Ao final do livro você encontra um glossário dos termos de morfologia utilizados nesse livro-texto! Como se depreende das definições acima. Também é parte desse mesmo nível de análise o estudo das unidades de sentido que compõem as palavras. do gr. Ou ainda: “morfologia é o estudo da estrutura interna das palavras” (Jensen. que vão desde as unidades mais amplas do discurso. Também vamos refletir sobre a relação que a morfologia tem com outras unidades da gramática. como os sons e as sílabas. 2002. isto é. vamos delimitar as tarefas da morfologia e quais as unidades da língua que pretendemos descrever. Em estudos lingüísticos.

Nos casos em que não há oposição de gênero. Veja-se. aborda predominantemente os processos nos quais se acrescenta um segmento a outro(s) já existente(s) para modificar o sentido. No entanto.Unidade A . O gênero feminino às vezes é marcado pela desinência [-a]. portanto. no entanto.Estruturas Morfológicas combinadas com outras palavras. Nos verbos. entre outros vocábulos. é feita através de um traço supra-segmental. 12 . Atenção: A oposição de gênero “avô”/“avó”. os processos morfológicos podem ser de outros tipos. pela alternância de vogais. ou imediatamente antes do [-s]. Em “casa”. que as unidades que marcam o número (singular e plural) ocorrem sempre na posição final das palavras. que ocorre na posição final. as unidades têm uma distribuição fixa: a unidade básica do sentido + vogal temática + desinência modo-temporal + desinência número-pessoal. ausência (morfema zero). por exemplo. as formas femininas não são marcadas. função e sentido são elementos solidários e interdependentes. subtração. A morfologia. “flor”. Temos exemplos de processos morfológicos por acréscimo em (1) e de alternância em (2). Isso significa dizer que forma. cuja existência em separado só é possível no plano abstrato. reduplicação. 1) legal < i + legal < i + legal + idade plano > plano + s diretor < diretor + a estudar < estudar + re + mos 2) pude ≠ pôde avô ≠ avó fiz ≠ fez Os processos morfológicos são realizados de acordo com certas regras gramaticais. como: alternância de um segmento por outro. isto é. exercem funções no enunciado em que são empregadas. nada existe para indicar que os mesmos pertencem ao gênero feminino. “face”. quando a palavra estiver no plural.

a combinação com outros termos na frase. Lembramos. educação. como. convém lembrar que qualquer forma pode ser um substantivo. por isso. além dos critérios formais de competência da morfologia. são classificadas como invariáveis? 13 01 . equipamentos comunitários. 3) Nós convocamos o encontro de amanhã para debater os temas relacionados às áreas de transporte. lazer. uma vez que estamos apenas iniciando a reflexão sobre os temas de interesse dessa disciplina. isto é. infra-estrutura. esporte e segurança nos municípios de Santa Catarina. também critérios sintáticos e semânticos. analise a frase citada em (3) e reflita sobre os tópicos relacionados a seguir. Isso porque nem sempre é possível classificar uma palavra examinando exclusivamente sua forma. por exemplo. ou no sintagma. o que conta é a relação sintagmática. em que o vocábulo intransigir tem a função de substantivo. Por enquanto. É natural. levando em consideração o que já foi dito. que essas questões serão retomadas oportunamente com mais profundidade e detalhamento. É possível que várias coisas ditas até aqui pareçam estranhas a você. Nesse caso. todavia.Delimitação do Objeto de Estudo Capítulo Além dos processos que dizem respeito à formação de palavras e à flexão. ou de difícil compreensão. “Não gosto do intransigir”. dependendo da função e do sentido em que é empregada. A questão é que na classificação de palavras devem ser considerados. temas que abordaremos adiante. De outra parte. A forma canto pode ser um substantivo ou um verbo. cabe também à morfologia – apesar de não haver consenso sobre isso entre os especialistas – a classificação das palavras. ǿǿ A frase é formada por quantas palavras? ǿǿ Quais as palavras da frase que podem ser segmentadas em unidades de sentido menores? ǿǿ Em que palavras há elementos marcadores de plural? ǿǿ Em que palavras há elementos marcadores de gênero? ǿǿ Em que palavras há elementos marcadores de tempo? ǿǿ Em que palavras há elementos marcadores de pessoa? ǿǿ Há palavras que não aceitam acréscimo de elementos e.

o critério gráfico. Vejamos por quê. ouvias. 59). gera indecisão quanto à delimitação de palavras. o mesmo não se presta para identificar palavras na fala. Se na escrita. ao passo que em “Comprei livros interessantes” é uma seqüência formada por três palavras. o espaço em branco entre as palavras é válido para identificar a maior parte delas.2 Palavra e Vocábulo Como vimos. Mas o que se entende por palavra? Para os usuários da língua. Certas seqüências de sons podem ser associadas a um só vocábulo formal. em “Vi três crianças hoje”. d) Trouxe-o à força. na qual é possível distinguir vocábulos formais e vocábulos fonológicos. pode constituir um enunciado” (PETTER. Em enunciados como os de (4). Deste modo. não é tão simples caracterizar o que é uma palavra. que. 2003. No entanto. para os estudiosos da língua. Mas. sozinha ou associada a outras. parece óbvio que. parece mais ou menos claro que “a palavra é identificada como uma unidade formal da linguagem. ou a mais de um. p. o centro de interesse da morfologia é a palavra. ou ortográfico. conforme o contexto e o significado que a elas se atribui. Vejamos alguns exemplos em (5).Estruturas Morfológicas 1. quantas palavras existem? 4) a) Ouvia. um espaço em branco. Na escrita. ouvíamos e ouviam são formas do verbo ouvir. b) Segunda-feira é dia de maria-vai-com-as-outras. entre elas. ao contrário do que parece à primeira vista. 5) a) detergente / deter gente b) armarinho / ar marinho c) barganhar / bar ganhar d) contribuir / com tribo ir e) danoninho / dá no ninho f) habilidade / hábil idade 14 .Unidade A . a representação das palavras se faz pelo critério formal. deixando-se. c) O Vice-Governador de Santa Catarina é sul-rio-grandense. há quatro palavras. às vezes.

p. constata-se que janela significa. empregamos indistintamente palavra ou vocábulo para designar um conjunto ordenado de sons (fonemas) que expressam um significado.Delimitação do Objeto de Estudo Capítulo Em um dos jornais de Santa Catarina. ao contrário. mas também e.. Nesse caso. que não são palavras. a e de parecem vazios de significado. O princípio adotado é o seguinte: “Toda palavra é vocábulo. por exemplo. registrou a forma Zeca Padinho que. não se sabe se propositalmente ou não. neste livro-texto. devido à ausência de pausa ou de marca fonológica que indique a delimitação entre vocábulos na corrente da fala. fonologicamente. portanto. então. embora tenham uma função na combinação apresentada em (7). como em (6). 2002. principalmente. em geral. ou extralingüística. 12). 15 01 . Mas. a distinção entre vocábulos e palavras será mantida. pode ser interpretada com Zé Capadinho. Com base nessa distinção. São apenas instrumentos gramaticais. mas nem todo vocábulo é palavra” (MONTEIRO. o termo palavra costuma ser reservado somente para vocábulos que apresentam significação lexical. ocorre um deslocamento do acento tônico. assim. sugerimos ler o capítulo VII – A acentuação e o vocábulo fonológico – do livro A Estrutura da Língua Portuguesa (CAMARA JR. empregaremos um termo pelo outro. as seqüências de sons expressadas em (7). ‘abertura’ de casas e vidro é o material de que é feita a ‘janela’. sua capacidade de distinguir e delimitar palavras. ao escrever uma nota sobre o cantor sambista Zeca Pagodinho. O vocábulo fonológico não só se distingue do vocábulo formal em razão da diferença de significado. 1972) b) as asas azuis [azazazuis] c) bonde andando [bondeandando] d) as rosas amarelas [azrozazamarelas] Até aqui. Analisemos. Ambos os termos estão associados e ambos expressam idéias. Apesar das diferenças citadas no quadro-destaque seguinte. Nesses casos. certo colunista. cujo significado – que é meramente gramatical – só é possível perceber na relação com outros vocábulos. somente nos casos em que se faz necessário. 6) a) paz sólida [pazólida] Para obter maiores informações sobre vocábulo fonológico. que perde. De modo geral. tais como as preposições e conjunções. entre outros. Há. 7) A janela de vidro. vocábulos.

8) Juízes convocam servidoras públicas. as formas presas só têm valor (ou funcionam) quando combinadas com outras formas livres ou presas. [ez] e [a]) ǿǿ des-leal (2 formas livres = leal e desleal e 1 forma presa = [des]) ǿǿ des-lea-i-s (2 formas livres = leais e desleais e 4 formas presas = [des]. Formas presas: Só funcionam ligadas a outras (como re.: “Que vão fazer?”. distinguem-se duas formas livres (juiz e juízes) e três formas presas [juize]. controladas. Como [s].Estruturas Morfológicas 1. públicas. São vocábulos formais que podem ser pronunciados isoladamente e. rever. [a] e [s]) 16 . [cert]. [lea]. O mesmo pode-se dizer sobre as formas [juíze] e [e]. ao passo que juiz é forma livre. Formas Livres: Quando constituem uma seqüência que pode funcionar isoladamente como comunicação suficiente (ex. Esse “sentido”. “Replantar o quê?” Resposta: “flores”). CÂMARA JR. a idéia de plural. vamos examinar os vocábulos formais em (8). descontrolada e descontroladas e 5 formas presas = [des]. quantas formas livres e quantas formas presas existem em (8)? Outros exemplos: ǿǿ in-cert-ez-a (2 formas livres = incerteza e certeza e 4 formas presas = [in].3 Formas Livres. o [s] é uma unidade formal que indica plural. As formas livres aparecem sozinhas no discurso. servidoras. Exemplos: juízes. nesse caso. especialmente como respostas a perguntas. (cf. não funciona sozinho. convocam. Considerando então o que foi dito sobre o vocábulo juízes e a segmentação das unidades de sentido dos demais vocábulos. [i] e [s]) ǿǿ des-control-ad-a-s (4 formas livres = controlada. recriar etc.de replantar. p. [s].. [control]. Por isso. Em juíze-s. diz-se que é forma presa. Formas Presas e Formas Dependentes A identificação dos chamados vocábulos formais e a conseqüente diferenciação entre palavras e vocábulos leva à distinção estabelecida por Bloomfield entre formas livres e formas presas. Em contrapartida. Resumindo: Em juízes. 1979.Unidade A . mesmo assim. Para melhor compreender a diferença entre formas livres e formas presas. expressam idéias. isto é. 69-70)). Resposta: “replantar”. [e]. [ad]. só é atualizado na relação que a forma [s] tem com a forma [juíze]. são consideradas palavras.

quer (verbo). por outro lado. em não expressam idéias externas à língua. no Cap. São. Para Mattoso Câmara Jr. mas não são palavras. são formas dependentes. o. p. 9) No caderno com arame há três folhas de papel em branco. Já vocábulos tônicos. 17 01 .Delimitação do Objeto de Estudo Capítulo Há. cujo segundo elemento acrescenta a noção de plural. o adjetivo só é também uma forma constituída por um só morfema. arma. (1972). preposições. são sempre formadas por um único morfema (veja. As formas dependentes não se segmentam em outras unidades de sentido.4 Forma. se. como já. por si só. que denota a idéia de solidão. te. Observe a frase (9). com. si. certos vocábulos formais que não têm significado próprio. pára (verbo) etc. isto é. Função. Servem de exemplo: em. 1. 1. das formas lingüísticas). representados por formas livres ou formas presas. ao passo que sós contém duas formas – só e s –. vamos tentar entender um pouco melhor o conceito de forma. os vocábulos no (em + o). uma vez que ela é o centro das atenções da morfologia (literalmente o estudo das formas. no caso. Significado e Classe A seguir. vocábulos formais. são formas livres. 17) define a forma como “um ou mais fonemas providos de significação”. a conjunção e é uma forma constituída por apenas um fonema.1 Forma Macambira (1982. II deste livro. mas sem status de palavras). vocábulos átonos (artigos. Resumindo: os vocábulos formais podem ser formas livres (são vocábulos com status de palavras) ou formas dependentes (são vocábulos. que sob o aspecto semântico exprime a idéia de adição. ao passo que as formas livres são constituídas de um ou mais morfemas.4. para (preposição) etc. o conceito de morfema). Nesse caso. de. caboclo. portanto. algumas conjunções e pronomes oblíquos átonos) que não podem constituir. cem. quer (conjunção). um enunciado.

embora seja possível intercalar outros elementos entre o artigo e o substantivo (os [bons] livros). Isso significa que não basta agrupar aleatoriamente as substâncias da língua para que tenhamos uma estrutura. isto é. no entanto. É preciso fazê-lo de acordo com certos princípios. conforme o mesmo Saussure. isto é. A gramática do português prevê que as desinências de número ocorram após as desinências de gênero (quando houver). “na língua não se pode isolar o som da idéia. Vejamos: tijolos. e que essas ocorram após os morfemas lexicais (bel + a + s). pregos e outros materiais não são uma casa. Para a gramática da língua portuguesa. para não dizer impossível.Estruturas Morfológicas A rigor. o segmento [alun] refere-se a um tipo de indivíduo que se coloca na condição de aprendiz em circunstâncias específicas. um feixe de relações (articulação) que dá ao objeto casa sua realidade. Em “aluna-s”. uma seqüência adequada. Exemplo: bac-té-ria. um feixe de relações internas (articulação) que dá aos elementos sua função e sentido. BAC é. tem como foco de interesse a articulação das formas que se reportam ao significado. “as formas e as funções são solidárias e. por sua vez.Unidade A . pois os fonemas não se articulam de acordo com padrões possíveis da língua. ao passo que os 18 . o artigo tende a concordar em gênero e número com o substantivo (a[s] aluna[s]). mas. Talvez seja mais fácil de entender o que é uma estrutura lingüística através de um exemplo não lingüístico. A morfologia. como observa Saussure (1975 [1916]). “c” não constitui uma sílaba do português. O mesmo se pode dizer em relação a elementos da língua. a seqüência “a”. a forma é um elemento lingüístico do qual se abstrai a função e o sentido. quanto interno (morfemas gramaticais). cimento. tábuas. Só serão se a essas substâncias for atribuída uma estrutura. tanto externo à língua (morfemas lexicais). A noção de forma remete para a noção de estrutura das palavras. “b”. Os artigos. Também não são possíveis. Do mesmo modo. difícil é separálas”. Por outro lado. “livros + os” ou “os + alunas”. por exemplo. pois. certas regras gramaticais. devem ocorrer obrigatoriamente antes dos substantivos. não é possível separar o sentido. como vimos. com função e sentido na estrutura de que fazem parte. as substâncias lingüísticas passam a ser formas. Quando a combinação é feita de acordo com a gramática da língua. nem a idéia do som”. as seqüências “s + a + bel”.

No entanto. um morfema contrai uma função em relação a outro morfema. em sentido mais largo. no entanto. Devemos adiantar que a noção de gênero não se confunde com sexo.4. Em geral. Essa relação. 10) a) tom-a-re-mos b) professor-a-s c) in-feliz-mente Os constituintes mórficos (morfemas) de tomaremos são 4: [tom] representa o morfema básico ou raiz que se combina com outros morfemas derivacionais ou flexionais: [a] indica a primeira conjugação do verbo em oposição às segunda e terceira conjugações. [re] indica o tem- Observe que em “re-toma-re-mos”. Isto quer dizer que não há função fora do contexto frasal. 19 01 . não há função fora da estrutura. eventualmente. embora também se preste.Delimitação do Objeto de Estudo segmentos [a] e [s]. então. no Capítulo III. pois as noções de gênero (masculino e feminino) e as de número (singular e plural) fazem parte da gramática. objeto direto (do verbo). examinemos os exemplos dados em (10). um vocábulo contrai uma função em relação a outro vocábulo etc. o [re] colocado no início do verbo tem função distinta do [re] colocado após a vogal temática [a]. é a relação que se estabelece entre dois elementos que se articulam. Função. ou seja. após [alun]. função é uma relação sintática em que um termo da oração está subordinado a outro termo da oração. uma sílaba contrai uma função em relação a outra sílaba. não das coisas que existem independentemente da língua. Função é o papel exercido por um dos componentes lingüísticos no conjunto em que há interdependência: sujeito (do verbo). não representam nenhum significado externo à língua. o fonema contrai uma função em relação a outro fonema. adjunto adnominal (de um nome) etc. 1. só pode ser definida pela análise. para fazer tal distinção.2 Função Capítulo Trataremos melhor disso oportunamente. Para melhor entendermos a função dos componentes no nível morfológico da língua portuguesa.

Neste caso. [mos] indica a pessoa gramatical e o número.4. Os verbos são os que apresentam maior riqueza. como em belo. embelezamento. beleza.3 Sentido Dissemos antes que as formas se reportam ao sentido. devese buscar na relação das formas lingüísticas entre si. quanto interno (morfemas gramaticais). Sendo assim.o que se chama derivação.4 Classe As classes de palavras são constituídas com base nas formas que assumem.Estruturas Morfológicas po e o modo do verbo (futuro do presente do indicativo) em oposição a outros tempos verbais. no caso dos vocábulos professoras e infelizmente. O português é rico em construções formais. bela. embelezar. Quando as indicações formais não forem suficientes. as pessoas e os tempos verbais. pedrada. entre outros.) e dê (verbo) só é possível verificar na relação sintática.4. beldade. existem outras subcategorias. pedregulho. tanto externo à língua (morfemas lexicais). o masculino e o feminino.Unidade A . isto é. nas funções que exercem e. A classificação das palavras deve basear-se primariamente na forma. belamente. como o singular e o plural. pedras. belos. nas oposições formais ou mórficas que a palavra pode assumir para certas categorias gramaticais . tais como prono- 20 . Todavia. usa-se o critério sintático para fazer a classificação dos vocábulos. que se concretiza na forma [bel] e cujo sentido pode ser modificado pelos prefixos e sufixos. 1. Veja-se: pedra. a diferença entre de (prep. Gramatical é o sentido que distingue os diversos membros de um paradigma. embelezas. isto é. pedrinhas. ou para criação de novas formas . embelezo. eventualmente. A forma ele pode ser pronome ou substantivo conforme a relação com outras formas. belas. qual é a função dos constituintes (morfemas)? 1. na função. no sentido que expressam. Por exemplo. a indicação da classe. quando é pronome. pedrinha. Lexical é o sentido básico que se repete em todos os membros de um paradigma.o que se chama flexão. embeleza. pedreira etc.

do pronome. (pronome reto) Mande a ele algumas fotos nossas. do verbo. Além do critério morfológico e do critério sintático. a classificação dos vocábulos pode. o morfema é aditivo. a classe da palavra canto só é possível pelo sentido. Veja os diferentes empregos em (11): 11) A letra ele se parece com uma língua. Essas diferentes funções são dadas pela posição que a forma ocupa no sintagma ou pela relação com outros termos. ǿǿ Os vocábulos divergem quanto à estrutura e quanto ao significado: alguns se constituem de um só elemento. pode ser oblíquo tônico ou oblíquo átono. ǿǿ Além dos processos que dizem respeito à formação de palavras e à flexão. No primeiro caso. Resumo do Capítulo ǿǿ Morfologia é a parte da gramática que descreve a forma das palavras. 21 01 . do adjetivo etc. ainda. no segundo. isto é. E se for pronome oblíquo.Delimitação do Objeto de Estudo Capítulo me pessoal do caso reto ou pronome pessoal do caso oblíquo. o critério sintático também é útil para determinar quais os empregos de cada classe gramatical. (pronome oblíquo tônico) Encontrei ele por acaso. (substantivo) Ele disse que as orelhas servem para ouvir vaias e aplausos. Em (12). alternativo. Este canto me agrada muito. Assim. ǿǿ A morfologia aborda predominantemente os processos nos quais se acrescenta um segmento a outro(s) já existente(s) – ou se substitui um elemento por outro – para modificar o sentido. do sentido. Ele parece imitar as vozes do sertão. cabe também à morfologia a classificação das palavras. outros apresentam vários constituintes. 12) Este canto me agrada muito. Ele serve para destacar os móveis da sala. valer-se do critério semântico. é possível estabelecer os empregos do substantivo. (pronome oblíquo átono) Como se observa.

ǿǿ Formas livres são aquelas que podem existir sozinhas num enunciado. Mattoso. ou podem servir de resposta a uma pergunta. O termo vocábulo tem sentido mais amplo do que o termo palavra. 1979. Petrópolis: Vozes. In: CÂMARA JR. pois este costuma ser reservado somente para vocábulos que apresentam significação lexical. In: MACAMBIRA.Unidade A . 69-76. 22 . Petrópolis: Vozes.. A Estrutura da língua portuguesa. p. A Estrutura da língua portuguesa. Princípios Básicos. função e sentido são elementos lingüísticos solidários e interdependentes. não poderão ser feitos plenamente sem considerar os aspectos semânticos e os sintáticos. 1979. O Vocábulo Formal e a Análise Mórfica. 62-68. ELEMENTOS LINGÜÍSTICOS SOLIDÁRIOS E INTERDEPENDENTES FORMA: morfema FUNÇÃO: combinação SENTIDO: lexical flexão derivação composição subordinação gramatical Leia mais! A Acentuação e o Vocábulo Fonológico. In: CÂMARA JR. formas dependentes são vocábulos formais que não podem. J. cuja separação só é possível no nível abstrato. apesar de a morfologia centrar a atenção na forma. por si sós. São Paulo: Pioneira. A estrutura morfo-sintática do português. J. ǿǿ Forma.Estruturas Morfológicas ǿǿ O vocábulo morfológico nem sempre coincide com o vocábulo fonológico. o estudo e a descrição dos vocábulos. constituírem um enunciado. p. assim como a classificação dos mesmos. 1982.. Sendo assim. 15-28. Mattoso. José Rebouças. p. formas presas são partes dos vocábulos formais (morfemas) que só funcionam quando associadas a outras partes (outros morfemas).

Os morfemas são. /a/. Mas. São elas: a) Os morfemas são os elementos mínimos das emissões lingüísticas que contêm um significado individual (Hockett). p. Apresentamos. a morfologia estuda a forma ou a estrutura interna dos vocábulos. vamos entrar em contato com um conjunto de conceitos comuns à morfologia. Morfe e Alomorfe Na descrição mórfica dos vocábulos.Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos 2 Capítulo Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Neste capítulo. a seguir. /s/ etc. representam noções distintas. [mais] constituem unidades mínimas de significado. A estrutura é constituída de unidades formais menores associadas e dotadas de significado que se denominam morfemas. quando pronunciados isoladamente. os quais. mas diferem destes por apresentarem significado. alguns dos quais talvez você nunca tenha ouvido falar. é útil distinguir os conceitos de morfema. em princípio. Exemplos: /m/. /r/. morfe e alomorfe. 2. os fonemas. pois são diversos conceitos novos. De acordo com o que vimos até aqui. Isso pode parecer um pouco cansativo. apesar da íntima relação de sentido. 13-14). 23 02 . formados por um ou mais fonemas. algumas definições de morfema citadas por Monteiro (2002. Como se pode perceber facilmente. Conhecer esses conceitos e saber lidar com eles é condição necessária para alcançar os objetivos da disciplina. [ar]. Diferentemente disso.1 Morfema. nada significam. /i/. apresentaremos alguns princípios teóricos e metodológicos que darão sustentação ao modelo de descrição e análise dos vocábulos formais adotado neste manual. as combinações [mar]. aos poucos você ficará familiarizado com eles e aprenderá a utilizá-los de modo eficiente na análise mórfica. Além disso. com paciência e um pouco de esforço.

ou seja. um morfema pode apresentar variações formais. A realização concreta de um morfema se denomina morfe e. por exemplo. entre as formas aparentadas. ou vários morfes. na prática. se observarmos os vocábulos dizer. [coub]. temos a forma nascerão. Nesse caso. portanto. digo e direi. o morfema básico se realiza nos alomorfes [vid] e [vit]. quando há mais de um morfe para o mesmo morfema. representada por uma ou mais formas. ocorre alomorfia. no entanto. isto é. nos quais se percebe facilmente a identidade semântica. [diss]. a) Alomorfia na raiz lei / legal → [le] ~ [leg] 24 . nasçam etc. as diversas realizações de um único morfema. então. como em nascem. [dig] e [di]. por exemplo. [caib]. d) Morfema é a menor parte indivisível da palavra que. c) Os morfemas são as menores unidades significativas que podem constituir vocábulos ou partes de vocábulos (Nida). a alomorfia não é um fenômeno exclusivo do morfema básico. nascessem. nascerem. apresenta um morfema básico ou nuclear que se realiza concretamente nos alomorfes [cab]. identidade de sentido. Todavia. Apresentamos a seguir alguns tipos de alomorfia. Assim. ou raiz. nasceram.Estruturas Morfológicas b) Um morfema é a unidade mínima no sistema de expressão que pode ser correlacionada diretamente com alguma parte do sistema do conteúdo (Gleason). Rigorosamente. no futuro do presente do indicativo. tem uma relação direta ou indireta com a significação (Dokulil).Unidade A . morfema é uma unidade abstrata de sentido. que o morfema da terceira pessoa do plural desse verbo – isso vale também para a maioria dos verbos em português – é realizado concretamente através dos morfes [m] e [ão]. Mas. Alomorfes são. a alomorfia ocorre na flexão. por sua vez. disse. O verbo caber. Se considerarmos as formas verbais de terceira pessoa do plural do verbo nascer. parece evidente que há em todas um mesmo morfema que se realiza nas formas [diz]. nasceriam. Conclui-se. veremos que predominam as formas que terminam em [m]. Em vida e vital.

os traços distintivos [ô] e [ó] podem ser considerados alomorfes das desinências [Ø] (masculino) e [a] feminino. f) Alomorfes na desinência verbal estudávamos / estudáveis → [va] ~ [ve] cantarás / cantaremos→ [ra] ~ [re] escreves / escreveste → [s] ~ [ste] 25 02 .Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo carvão / carbonífero → [carvã] ~ [carbon] cabelo / capilar → [cabel] ~ [capil] noite / noturno → [noit] ~ [not] ouro / áureo → [our] ~ [aur] b) Alomorfia no prefixo ilegal / infeliz → [i] ~ [in] aposto / adjunto → [a] ~ [ad] subaquático / soterrar → [sub] ~ [so] c) Alomorfia no sufixo durável / durabilidade → [vel] ~ [bil] cabrito / amorzito → [ito] ~ [zito] facílimo / elegantérrimo → [imo] ~ [érrimo] livrinho / pauzinho → [inho] ~ [zinho] d) Alomorfia na vogal temática corremos / corrido → [e] ~ [i] peão / peões → [o] ~ [e] menino / menina → [o] ~ [Ø] mar / mares → [Ø] ~ [e] e) Alomorfia na desinência nominal de gênero menino / avô → [Ø] ~ [ô] menina / avó → [a] ~ [ó] Obs.: No par avô ≠ avó.

Na lista dos cognatos de vinho. alomorfes. digitares. vinhaça. vinhataria. digitaste. quase sempre é possível distinguir entre o morfe mais produtivo. animaste. Como exemplo. vinhaço. vinháceo. fugisses. a adoção do conceito de alomorfia simplifica bastante a descrição mórfica. ocorrem variações na forma sem que o morfema deixe de ser o mesmo” (Monteiro. como um desvio da norma. na perspectiva diacrônica. vestiste. no entanto. 2002. vinicultor. conservando o mesmo significado. ela é marcada pelo morfe [s]: corres. Às vezes. Na maioria dos tempos verbais. todo morfema apresenta uma forma e um significado. do morfe menos produtivo. mais freqüente.Unidade A . nos quais a raiz é [vinh]. tomemos a desinência de segunda pessoa do singular dos verbos. encontraremos os vocábulos vinhateiro. e. isto é. pode apresentar dificuldades de aplicação. fugiste. vinífero. como tal. pois. No pretérito perfeito do indicativo. então. Como já foi dito. considerado um desvio da norma. que representa a norma. p. verifica-se que a forma anterior mudou para [vin-]. Alguns autores consideram que apenas os morfes menos produtivos. vinagre. vestias. animarás. como é o caso de [vinh] e [vin]. pode ser interpretada como desvio de uma norma anterior. Mas em vinícola. pois nem sempre é possível saber de pronto qual é a forma mais produtiva. como em correste. Essa posição. ou seja. classificados como desvios da norma. Nos casos de alomorfia. no entanto. “em determinados ambientes. Conclui-se. a segunda pessoa do singular é marcada pela desinência [ste]. vendeste. no entanto. vendes etc. vinhoto. Por outro lado. 32). a forma que se considera mais produtiva pode ser a mais nova. 26 . resolvendo grande parte dos problemas encontrados na segmentação dos vocábulos em suas unidades mínimas significativas.Estruturas Morfológicas falo / estou → [o] ~ [ou] ledes / cortais → [des] ~ [is] Como você pode perceber. são considerados alomorfes. caracterizando-se. que [vinh] e [vin] são variações mórficas de um mesmo morfema.

patrão. era. diz-se que o morfema é zero. que o primeiro componente de datilografia é alomorfe do primeiro componente de dedo? E o que dizer da raiz de pai. Vamos ver como isso é possível? 2. paterno. no entanto. O ideal seria que houvesse um único morfe para cada morfema. foste do paradigma flexional do verbo ser. Tomemos as formas verbais sou. o caso é mais delicado. não há razão que impeça um morfema de ter alomorfes amplamente divergentes. pátria? Capítulo Veremos isso mais adiante. No paradigma flexional dos verbos ser e ir existem raízes heterônimas. padastro. por exemplo. Você deve ter notado que os exemplos fornecidos até aqui indicam que o morfema sempre se realiza através de uma forma concreta. padre. na estrutura de uma palavra. Em princípio. É preciso. mas isso nem sempre acontece. Vejamos alguns exemplos.Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Na prática. Não existir um morfe não significa que não exista morfema. Será que é válido dizer que os morfes [s]. [er] e [fo] são alomorfes de um mesmo morfema? Parece que sim. Formalmente representase o morfema zero com o símbolo [Ø]. através do morfe. Será válido dizer. pátrio.1 Morfema Zero Já vimos que o morfema é uma entidade abstrata que se concretiza. que podem ser consideradas formas alomórficas. 27 02 . distinguir formas heterônimas de formas sinônimas. temos que considerar aquelas em que o morfema se realiza por meio da ausência de morfe. quando tratarmos dos desvios do padrão geral dos verbos. Além das situações em que existem mais de um morfe para um único morfema – processos de alomorfia –. Em se tratando de raízes sinônimas. desde que se considere que as formas divergentes listadas sejam componentes do mesmo paradigma verbal. que denominamos de morfe? Pois bem.1. Quando a ausência do morfe corresponde a um significado. a aplicação do conceito de alomorfia nem sempre é tranqüilo. às vezes o morfema se realiza mesmo sem a existência de um morfe. principalmente quando as formas não se parecem aparentadas ou semelhantes fonologicamente.

o sufixo pode ser interpretado como zero. ou seja.Unidade A . (nós) estud + a + re + mos (ele) estud + a + rá + Ø (tu) estud + a + Ø + s (ele) estud + a + Ø + Ø d) Também nas formas derivadas. e o singular pela ausência significativa de um morfe. português + Ø ≠ português + a professor + Ø ≠ professor + a guri + Ø ≠ guri + a juiz + Ø ≠ juíz + a espanhol + Ø ≠ espanhol + a b) O plural é marcado pelo [s].Estruturas Morfológicas a) A oposição de gênero se faz através de formas marcadas para o feminino pela desinência [a] e de formas não marcadas para o masculino. ou seja. Vejamos. por exemplo. o morfema zero. alguns verbos derivados de flor. pelo morfema zero. caneta + Ø ≠ caneta + s gramado + Ø ≠ gramado + s greve + Ø ≠ greve + s garagem + Ø ≠ garagen + s c) Nas formas verbais são freqüentes as oposições entre formas não marcadas e formas marcadas. flor + esc + e + r flor + ej + a + r flor + isc + a + r flor + e + a + r 28 . O que caracteriza o masculino é a ausência de qualquer marca.

ĭllos > elos > los > os. diferentemente de florescer. ĭllos. também é possível afirmar que há vocábulos em que a raiz é representada por um morfema zero.Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo flor + Ø + i + r flor + Ø + a + r Observe-se que. le. floriscar e florear. Veja outros exemplos: chuva → chov + Ø + er data → dat + Ø + ar marca → marc + Ø + ar capim → capin + Ø + ar e) Embora a raiz seja considerada o morfema básico (nuclear) que dá sustentação a todas as demais formas da mesma família. 29 02 . os verbos florir e florar não contêm um morfe derivacional. derivadas ou compostas. mas claramente são formas derivadas de flor. A evolução deu-se da seguinte forma: ĭllu > elo > lo > o. ĭllas > elas > las > as. o artigo definido e o pronome oblíquo átono [o] servem de exemplo. las etc. Em português. Ø+o+Ø+Ø=o Ø + o + Ø + s = os Ø+Ø+a+Ø=a Ø + Ø + a + s = as Convém lembrar que historicamente o artigo definido em português é resultado de mudanças sofridas pelos pronomes latino ĭllu. ĭlla. el. ĭllas. florejar. Nesse caso. a raiz se manteve em formas como: il. Em outras línguas neolatinas. les. a alternativa estruturalmente adequada é considerar que o morfema derivacional é zero. ĭlla > ela > la > a. sejam elas flexionadas. los.

que simultaneamente contêm as noções de tempo e modo. vogal temática e desinência de gênero seriam representadas pelo mesmo fonema. o [a] final acumularia as funções de vogal temática e desinência? 30 . Em cantá+sse+mos. pode-se atribuir ao segmento [ste] a função de representar cumulativamente as noções de pessoa e número e de tempo e modo (o mesmo vale para o segmento [stes] da segunda pessoa do plural). que representa a pessoa e o número. canta(ra). Considerar a possível existência de morfes zeros na estrutura dos vocábulos evita o uso ampliado do conceito de cumulação. No entanto. Observe que.1. Em razão disso. Concretamente. opondo-se.2 Morfes Cumulativos Em princípio.Unidade A . que em famoso a vogal final [o] acumula as funções de vogal temática e desinência de gênero. e das desinências número-pessoais. diríamos que raiz. como: canta(va). como: cantasse(Ø). É o caso das desinências modo-temporais. que simultaneamente contêm as noções de número e pessoa. razão por que esse morfema é zero. teríamos que admitir. cantasse(s). cantasse(m). Como podemos observar. da vogal temática e da desinência númeropessoal. espera-se que a um morfe corresponda um significado. canta(r)mos etc. só ocorre nesse tempo verbal. canta(ria). opõe-se a outros tempos verbais. Por outro lado. a outras formas do singular ou mesmo do plural. Na forma verbal olhaste. Nas formas verbais do português há morfes que representam a fusão de dois morfemas. temos os morfes representativos da raiz (ou radical primário). Por isso. a desinência [mos] indica primeira pessoa plural. Utilizando esse conceito. a desinência [ste]. Em vista disso. a desinência [sse] indica que o verbo está no tempo imperfeito do modo subjuntivo. O mesmo aconteceria em relação à vogal [e] na palavra face. não é possível dizer que o [s] indica plural e [mo] indica primeira pessoa. Ainda em cantá+sse+mos. não há um morfe que represente o tempo e o modo. nem sempre é isso que acontece. cantasse(is).Estruturas Morfológicas 2. No artigo. a segmentação possível é a seguinte: olh + a + Ø + ste. portanto. por exemplo. esses morfes são denominados cumulativos. no caso da desinência número-pessoal [mos]. Em artista.

1. o morfema se realiza predominantemente pelo acréscimo de um segmento fônico. conforme se verifica nos exemplos listados a seguir. a) alternância vocálica firo ≠ feres sinto ≠ sentes tudo ≠ todo bebo ≠ bebes famoso ≠ famosa porco ≠ porca b) alternância consonantal digo ≠ dizes ouço ≠ ouves 31 02 .3 Morfes Alternantes Em português. por meio de um morfe aditivo. isto é. Assim. a terceira pessoa do plural é em geral formada pelo acréscimo de [m] também à direita.Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 2. Mas também há casos em que a oposição morfológica se faz pela permuta de dois fones. o plural dos nomes é formado pela adjunção de um [s] à direita. consonantal ou supra-segmental (acentuais ou prosódicos). como se pode verificar nos seguintes exemplos: avô ≠ avó pus ≠ pôs fiz ≠ fez pude ≠ pôde tive ≠ teve fui ≠ foi Os morfes alternantes podem ser de natureza vocálica. Vocábulos novos podem ser formados pelo acréscimo de prefixos ou de sufixos.

em poço ≠ poços. *trazo ≠ trazes. trago ≠ trazes.1.). Também em sogro ≠ sogra. enviarias. A vogal [a]. por isso. gaiteiros. desinência de gênero feminino [-a] e desinência de plural [-s]. a oposição de gênero se faz pela adição da desinência [a]. por exemplo. A alternância na raiz constitui um morfe redundante e.5 Morfes Homônimos É comum um mesmo segmento representar diferentes morfemas. já marcada pelo verdadeiro morfema contrastivo [s].4 Morfes Redundantes Quando a alternância é o único traço de oposição entre duas formas. os morfes alternantes são redundantes ou submorfêmicos.) e a segunda pessoa do singular nos verbos ((tu) escreves. esperta. anda. Já em (as) am-a-s. nas quais a oposição entre a primeira e a segunda pessoas do singular se faz prioritariamente pelo acréscimo dos morfes [o] ≠ [s]. por sua vez.Estruturas Morfológicas peço ≠ pedes trago ≠ trazes c) alternância acentual (suprasegmental) retífica ≠ retifica exército ≠ exercito 2.) ou a vogal temática de nomes e de verbos (andar. vês. cachorros. planta.Unidade A .). temos: raiz [am-]. vogal temática [-a] e desinência de segunda pessoa do singular [-s]. pode indicar o plural nos nomes (alicates. no entanto. escutasses etc. Em geral. entre outros. A alternância na raiz reforça a oposição. 2. a alternância de /ô/ fechado para /ó/ aberto apenas reforça a oposição entre singular e plural. 32 . temos: raiz [am-]. Em (tu) am-a-s. professora. diz-se que se trata de um mecanismo de flexão interna. teríamos: *ouvo ≠ ouves. mala etc. andamos. O [s]. pode indicar o gênero feminino (moça. Os exemplos citados em (13) fazem parte desta regra.1. famoso ≠ famosa. O mesmo ocorre em algumas formas verbais como: ouço ≠ ouves. submorfêmico. Sem essa alternância. Por exemplo. casa. vadia etc. belos etc. porco ≠ porca. pois reforçam uma oposição marcada por morfes aditivos.

A forma são pode significar “santo”. quais são os morfes homônimos nos exemplos a seguir? ǿǿ (o) canto ≠ (eu) canto ǿǿ terrestre ≠ terrível ǿǿ vivemos ≠ amemos ǿǿ vivamos ≠ amamos Será que você entendeu a diferença entre morfema. também denominado morfema básico ou nuclear. a tendência da língua é eliminar uma das formas. convém ler com bastante atenção. mas correspondem a significados diferentes. Levando em conta as explicações sobre homonímia. mas diferença quanto ao sentido. são homônimos. os termos destacados são fonicamente iguais. que não existe cão correspondente ao singular de cãs. Pelo exposto.Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo Conclui-se. que existe homonímia sempre que houver coincidência de formas. vamos ler tudo outra vez com bastante atenção. ou pulo de pulir. por exemplo. fazendo-se necessário recorrer ao plano sintático para esclarecer a ambigüidade. todo vocábulo contém um morfema primitivo. Em (o) canto (musical). (o) canto (da sala) e (eu) canto (verbo cantar). morfe e alomorfe? Também está clara a diferença entre diferentes tipos de morfes? Se não. Novamente. convém distinguir os casos de homonímia gramatical (morfes fonologicamente iguais) da homonímia lexical (vocábulos fonologicamente iguais). ao qual podem se agregar 33 02 . ou seja. Havendo homonímia lexical. correlacionando os conceitos com os exemplos dados e com outros existentes na língua. É por isso. identificando outros exemplos existentes no português. portanto. é hora de você se inteirar das diversas classes de morfemas e das respectivas regras de ordenamento. Quando o contexto é incapaz de desfazer a ambigüidade. ou remo de remir. 2. a oposição das formas deixa de ser feita com base no plano morfológico. Cumprida essa etapa. “sadio” ou verbo “ser” (terceira pessoa do plural). ou falo do verbo falir.2 Classificação dos Morfemas Em princípio.

Unidade A - Estruturas Morfológicas

outros morfemas. Apresentamos a seguir uma classificação dos morfemas que leva em conta a ordem de ocorrência, a função e o sentido.

2.2.1 Raiz
Raiz (R) é o “elemento irredutível comum a todos os vocábulos da
mesma família” (Saussure, 1975, p. 216). Equivale a semantema de Vendryes, ou lexema de André Martinet. Trata-se do morfema sobre o qual
repousa a significação lexical básica. Também é conhecido por radical
primário, ou forma primitiva. Em cortin-a-s, por exemplo, existem
três morfemas: raiz, vogal temática, desinência de número.
Para melhor entender o conceito de raiz, analisemos os seguintes
conjuntos:
1) terra, terreno, terrestre, aterrar, aterrissagem, aterramento
2) mar, maré, marinho, marinha, marujo, marinheiro, maresia,
submarino, marola, marítimo, marisco
Em (1), o elemento comum é terr-, razão por que todos os vocábulos são aparentados, formando um conjunto de cognatos. Já em (2), o
elemento comum é mar. Como se vê, não há nenhuma relação de forma e de significado entre os conjuntos (1) e (2), pois ambos se opõem:
[terr-] ≠ [mar].
Por outro lado, a coincidência de forma não significa coincidência
de significado. Vejamos o conjunto a seguir:
3) terror, terrível, aterrorizar... terrífico
Em (3), o morfema básico (raiz) também é [terr-], mas não é o
mesmo morfema do conjunto (1), pois não há entre os dois qualquer
vínculo de significação.
Analisemos, todavia, os seguintes conjuntos:
4) amor, amar, amável, amoroso, amizade, desamor, amigo... amante
5) inimigo, inimizade... inimizar
Nos conjuntos (4) e (5), há divergências quanto à forma, mas equivalência de significado, de tal modo que [am-] e [im-] são alomorfes de
um mesmo morfema.

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Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos

Capítulo

Conclui-se, portanto, que o significado é essencial no conceito de
raiz, pois a alteração na forma não cria nova raiz. Isso não quer dizer,
todavia, que é desnecessário o vínculo formal para a caracterização
da mesma raiz. A associação semântica existente entre, por exemplo, casa, moradia, apartamento, alojamento, cabana, vivenda,
chalé, entre outros, formando uma série de sinônimos, não é uma
série de cognatos, pois inexiste entre esses vocábulos qualquer relação mórfica (Monteiro, 2002, p, 44).

Para fixar a noção de raiz como “elemento irredutível e comum a todos
os vocábulos de uma mesma família”, destacamos os seguintes pontos:
ǿǿ A raiz é a parte de onde origina-se a primeira operação morfológica.
ǿǿ A raiz é, em geral, uma forma presa, portadora de significação
nuclear.
ǿǿ A raiz apresenta forma e significado, podendo agregar elementos diversos para a flexão e formação de cognatos.
ǿǿ A raiz é irredutível, mas a forma pode sofrer variações em outros vocábulos (processo de alomorfia).
Considerando o exposto acima, a identificação da raiz de camisolinhas se faz através das seguintes segmentações:
a) camisolinha – s
b) camisolinh – a – s
c) camisol – inh – a – s
d) camis – ol – inh – a – s

2.2.2 Radical
O radical (Rd) de uma palavra inclui a raiz e os elementos afixais que
entram na formação dos vocábulos. Assim, a série mar, marinho, marinheiro, marinheiresco apresenta, respectivamente, os seguintes radicais:

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02

Unidade A - Estruturas Morfológicas

ǿǿ [mar] → radical de primeiro grau (= raiz)
ǿǿ [marinh] → radical de segundo grau
ǿǿ [marinheir] → radical de terceiro grau
ǿǿ [marinheiresc] → radical de quarto grau
Na perspectiva sincrônica, a raiz (R) coincide com o radical (Rd)
primário.

Na descrição lingüística, é necessário desprezar especulações de ordem
etimológica ou histórica, pois consideramos, de acordo com Saussure
(1975), que todas as partes devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica. A descrição dos elementos mórficos deve-se pautar
na gramática internalizada dos falantes de uma língua, não em informações de ordem externa. Voltaremos a tratar disso mais adiante.

Tratando-se, no entanto, de palavra derivada, o radical é diferente
da raiz. Infere-se daí a possibilidade de uma palavra ter vários radicais,
como é demonstrado através do seguinte exemplo:
a) nacion- (radical de primeiro grau ou raiz)
b) nacional (radical de segundo grau)
c) nacionaliz- (radical de terceiro grau)
d) desnacionaliza- (radical de quarto grau)
e) desnacionalizaçã- (radical de quinto grau)
Convém salientar que o verdadeiro radical de uma palavra é sempre o de grau mais elevado, que inclui todos os demais. “Essa orientação,
além de simplificar o estudo descritivo da estrutura dos vocábulos, traz
a vantagem de estabelecer uma espécie de oposição binária raiz x radical
na formação vocabular, aclarando a delicada questão dos constituintes
imediatos” (Monteiro, 2002, p. 46). Apesar de nos vocábulos primitivos
haver coincidência entre ambos, o que deve ficar claro é que raiz e radical são conceitos bem distintos.

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depois de transformar-se em /i/.Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 2. cartaz. c) Temas em /i/: corrigir. ser analisado como tendo apenas dois morfes: [fuzi]s]. sofre crase com a vogal do radical. lençol. Os temas nominais predominantes em português são os seguintes: a) Temas em /a/: conversa. ingleses. Esse conjunto formado por radical e vogal temática constitui o tema. raiz e radical se confundem. Pelo exposto. afoito. Em razão disso. uma ressalva a fazer em relação aos que terminam com as consoantes /l/. os verbais. Em geral. caráter. o radical (primário ou derivado) vem acompanhado de uma vogal átona. Em português. Às vezes. no entanto. cavalo. verão. podem apresentar vogais temáticas tônicas. inglês. *mare e *rapaze. b) Temas em /o/: certo. /s/. Às vezes. convés. c) Temas em /e/: alface. passear. são atemáticos. amanhã. Há. terminados em vogal tônica ou consoante. tais como cônsul. alma.2. alicate. no entanto. feliz. Os temas nominais sempre terminam em vogal átona. 37 02 . Nesses casos. cipó. são atemáticos os nomes que têm na posição final uma vogal tônica ou uma consoante. abacaxi. b) Temas em /e/: ceder. mar e rapaz. falar. os que não contêm vogal temática são atemáticos.3 Vogal Temática e Tema Vimos que. esculpir. geada. que se denomina vogal temática. O vocábulo fuzis deve. garrafa. mares e rapazes. como em: *fuzile > fuziles > fuzies > fuziis > fuzis. *inglese. nos vocábulos primitivos. esconder. Os temas verbais também distribuem os verbos em três grupos: a) Temas em /a/: emoldurar. café. anoitecer. agressor. os temas se classificam em nominais e verbais. vocábulos como bambu. mestre. maracujá. a vogal temática [e] transforma-se em [i] no plural em razão de processos morfofonêmicos. as formas no singular devem ser interpretadas teoricamente como *cônsule. Os vocábulos com vogal temática são temáticos. /r/ e /z/. descobrir. Exemplo: *animale > animales > animaes > animais. portanto. campestre. Há casos em que a vogal temática. a vogal temática aparece no plural: cônsules. repolho.

deixa de ser vogal temática e passa a funcionar como vogal de ligação (ou infixo). Exemplos: a) louvar → louvável b) punir → punível c) perdoar → imperdoável Resumindo as informações sobre radical e temática. José Lemos Monteiro (2002. se houver. 38 . sofre elisão ou crase. passando a ocupar uma posição pré-sufixal. � O radical é formado pela raiz e morfemas derivacionais (prefixos e sufixos). em contato com elementos mórficos iniciados por vogal.Estruturas Morfológicas É oportuno ressaltar que nos processos de flexão. a vogal temática. às vezes aparecem morfes vazios. � Entre os elementos que formam o radical. Exemplos: a) alegremente b) mãezinha c) ervateiro d) legalidade (de *legale) O mesmo princípio se aplica aos nomes derivados de verbos. derivação e composição. Exemplos: a) casa + ebre = casaebre → casebre b) pedra + ada = pedraada → pedrada c) menino + a = meninoa → menina d) forte + íssimo = forteíssimo → fortíssimo e) *finale + íssimo = finaleíssimo → finalíssimo Quando a vogal temática se mantiver após o acréscimo de sufixos derivacionais. 51-52) lista as seguintes noções básicas: � O tema é a parte da palavra que se opõe à flexão. � A vogal temática ocorre em posição final ou pré-desinencial. a vogal de ligação é pré-sufixal. p.Unidade A . � O tema desprovido da vogal temática é o radical.

incapac-idade. de mole. in-capaz. in-fiel. de modo que uma palavra derivada se forma pelo acréscimo de um prefixo. através dos quais é possível criar (derivar) vocábulos novos. os sufixos são morfes aditivos que sucedem a raiz. de fiel. Os prefixos são morfes aditivos que precedem a raiz e.. Os morfemas derivacionais e os categóricos são sempre formas presas que se combinam com o semantema. A palavra vergonhosa-mente deriva de vergonh-oso.Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 2. de cerveja é possível formar cervej-ada. de capaz.2. a uma forma livre já existente. ao contrário. [in] + [dis] + posto. 39 02 . cervej-eiro etc.4 Morfema Derivacional São considerados morfemas derivacionais os afixos. [dês] + confiança. deriva de vergonha. uma forma livre. modificando o significado do vocábulo primitivo. que. cervej-aria. e o que resta é. morfemas derivacionais que ocupam posição anterior à raiz. em geral. de farra. Exemplos: [in] + capaz. Dito de outra forma: são morfes agregados a uma base que constitui a entidade léxica. Veja outros exemplos a seguir: a) norma + al → normal b) normal + izar → normalizar c) normalizar + ação → normalização d) normal + mente → normalmente e) a + normal → anormal f) normal + idade → normalidade g) a + normalidade → anormalidade A) Prefixos Os prefixos. Assim. mol-ejo. por sua vez. Normalmente a derivação se faz pela adição individual de prefixos e sufixos. apresentam as seguintes características: a) Destacam-se facilmente da forma primitiva. farr-ista. de incapaz. ou de um sufixo.

Unidade A . Às vezes. biscoito. eclipse. Cursar o pré (pré-vestibular). oferecer. Servem de exemplo: objeto. uma vez que os falantes deixaram de perceber a relação de sentido com a forma primitiva. ou sem prefixo. [e]. subterfúgio. derivar. Exemplos: Pagamentos extras (extraordinários).Estruturas Morfológicas Convém observar. modo e pessoa. essas formas correspondem a construções braquiológicas. Exemplos: contra. b) Quase sempre alteram substancialmente o significado da raiz. não há como separar. que muitos vocábulos formados historicamente por prefixação devem hoje ser consideradas como primitivos. d) Comumente se agregam a verbos e a adjetivos. saciável → [in] + saciável. como gênero. isto é. e) Em geral. Participar do pan (panamericano). construções nas quais os prefixos adquirem autonomia morfológica. pôr → [com] + por. 40 . Os vocábulos parassintéticos. número. extra. [su]. nesses casos o novo sentido é dado pelo sufixo e não pelo prefixo. Na palavra correto. nos quais a derivação se faz pelo acréscimo simultâneo de prefixo e sufixo. c) Não se prestam para indicar categorias gramaticais. Exemplos: leitura → [re] + leitura. a adição do prefixo [in] representará exatamente o sentido oposto. são exceção a esse princípio. O verbo continua sendo verbo. pois o que sobra não faz sentido. [bis]. conforto → [des] + conforto. Todavia. no entanto. respectivamente. Nesses vocábulos. [sub] e [de]. sujeito. o nome continua sendo nome etc. f) Certos prefixos são empregados também como formas livres. os elementos [ob]. sobre. tempo. não mudam a classe gramatical dos vocábulos. [o].

*sovacudo etc. principalmente devido à existência da forma precedente conduto. descapitalizar. canal → canalizar. difícil → dificilmente. no poema “Caso Pluvioso”.. bol + [eto]. exceto os casos de derivação imprópria nos quais o morfema aditivo perde seu caráter de sufixo: O imperialismo e outros ismos. orelhudo. isto é. quase sempre o que sobra é uma forma presa: dent + [uço]. sapat(o) + [ão]. *dedudo. horizontalizar. sapat(o) + [ada]. os sufixos apresentam as seguintes características: a) Nem sempre se destacam com facilidade. sapat(o) + [inho]. criou os seguintes neologismos: 41 02 . significat + [iva]. por exemplo. não se aplicam a todas as formas primitivas. d) Não alteram fundamentalmente a significação da raiz: sapat(o) + [eiro]. cabeludo etc. criminalizar etc. *joelhudo. ded + [al] etc. O sufixo [udo] serve para formar barrigudo. como é o caso dos verbos em [iz(ar)]: otimizar. Em condutor. b) Após destacar o sufixo. Mas. bocudo. ambientalizar. após realizar uma série de oposições entre formas aparentadas. c) Nunca são empregados como formas livres. mas é estranho em *sobrancelhudo. Foi com base neste princípio que Carlos Drummond de Andrade. Assim. à primeira vista o sufixo poderá ser [tor]. [izar] transforma nomes (substantivos e adjetivos) em verbos: real → realizar. peitudo. *braçudo. energia → energizar. g) Formam uma classe aberta que se presta à criação diária de neologismos. sapat(o) + [aria]. O sufixo [mente] modifica adjetivos em advérbios: sábio → sabiamente. chega-se à conclusão que o sufixo é de fato [or].Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo B) Sufixos Em contraposição. f) São assistemáticos. e) Muitos sufixos se prestam para mudar a classe ou a função da palavra. cabeçudo.

O jeito é considerar a forma [ariz(ar)] um alomorfe de [iz(ar)]. empreendedor (quem empreende muito). ǿǿ Se em luarada temos [lu] + [ar] + [ad] + a. a segmentação de fortaleza será [fort] + [alez] + [a]. 42 . do qual se deriva o substantivo realeza. ǿǿ “tal chuvência”. No entanto. o que se tem é ridicularizar. Do mesmo modo. porque inexiste a forma terminada em [al]. Em vista disso. é preciso ter certa cautela para não incorrer em decisões arbitrárias. ǿǿ “chuvadeira maria”. em contemporizar não é possível interpretar /or/ como sufixo. em cusparada só é possível identificar o sufixo derivacional [arad] como alomorfe de [ad]. deve-se recorrer ao princípio da alomorfia. pluvimedonha”. com dois sufixos derivacionais. ǿǿ “chuvil. Mas o mesmo princípio não se aplica a fortaleza. Vejamos alguns exemplos: ǿǿ Do substantivo rei forma-se o adjetivo real. h) Não são obrigatórios. fofoqueiro (que faz fofocas) etc. a segmentação de realeza será [re] + [al] + [ez] + [a].Unidade A . Quando surgem dificuldades de interpretação. Na segmentação dos sufixos. ǿǿ “atro chuvido”. sendo [alez] alomorfe de [ez]. [tempor] deve se considerado alomorfe de [temp(o)]. pois os sentidos que representam podem ser expressos através de outros meios de natureza sintática: solenemente (de modo muito solene). Por isso. justificando a seguinte segmentação: [con] + [tempor] + [iz] + [a] + [r]. Por isso. Assim. ridículo daria ridiculizar. Convém sempre considerar o conteúdo semântico do sufixo para uma adequada segmentação. como vimos. ǿǿ Certos verbos. são formados com o sufixo [iz(ar)] acrescido ao adjetivo.Estruturas Morfológicas ǿǿ “chuvíssima criatura”. ǿǿ “as fontes de maria mais chuvavam”.

há dois tipos de sufixo. Entres esses autores. podemos dizer que os sufixos flexionais indicam as seguintes categorias gramaticais dos vocábulos: ǿǿ velh + [a] – categoria de gênero ǿǿ carta + [s] – categoria de número ǿǿ vi + [mos] – categoria de número e pessoa ǿǿ fize + [sse] – categoria de modo e tempo 43 02 . preferimos considerá-los em separado. são desinências verbais.2. considerando que os morfemas derivacionais e os morfemas flexionais têm características e funções distintas. morfemas que se prestam para a formação de novos vocábulos. mas há autores que incluem entre os sufixos os morfemas flexionais. Quando representam categorias de gênero ou de número. Em resumo. tempo.Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo Em geral. que afirma: quanto à função gramatical. Os que apenas permitem que os vocábulos variem em gênero e número (quando nomes) ou em modo. mas servem para traduzir noções gramaticais de gênero. 2. p. Como tal. isto é. número e pessoa (quando verbos) são chamados flexionais (SF) ou desinências (D). não derivam novos vocábulos.5 Morfema Categórico Os morfemas categóricos. Já em vende-re-mos o segmento [re] é desinência verbal de futuro do presente do indicativo e [mos] é desinência verbal de primeira pessoa do plural. são desinências nominais. 57). quando representam categorias de tempo e modo ou de número e pessoa. o [a] é a desinência nominal de gênero feminino e o [s] e a desinência nominal de plural. tempo e modo. Os que formam novas palavras são denominados derivacionais (SD) ou lexicais (SL). Em peru-a-s. que incluem todos os sufixos flexionais (SF) ou desinências (D). pessoa. conforme sirvam ao mecanismo da derivação ou da flexão. número. então. expressam as categorias gramaticais. cita-se Monteiro (2002. De nossa parte. o termo sufixo é empregado para designar morfemas derivacionais.

2. Vim.7 Morfema Classificatório ou Vogal Temática Fazem parte deste grupo os morfemas que nada parecem acrescentar ao significado. têm as seguintes características: � Não criam vocábulos novos. Exemplos: Viajei de carro. O morfe [s] em posição final de nomes (moleque + [s]. isto é. � São sistemáticos. � São obrigatórios.2. noviça + [s]) em geral representa o plural. adjetivos. numerais adjetivos) a concordância no feminino e no plural. pois não há alternativas para marcar certa categoria gramatical. A classe dos morfemas relacionais é formada pelas preposições. tu finge + [s]) representa a segunda pessoa do singular. vocábulos sem autonomia mórfica. sujeito da oração na primeira pessoa do plural impõe concordância do verbo na primeira pessoa do plural. pois.Unidade A . � Formam um grupo reduzido e fechado. vi e venci.Estruturas Morfológicas De modo geral. número e pessoa). 2. aplicam-se a todos os vocábulos de uma determinada classe (por exemplo: todos os nomes são marcados quanto ao gênero e ao número e todos os verbos são marcados quanto ao modo. isto é. Tais morfemas são representados por segmentos formais 44 . ao passo que em final de verbos (tu fala + [s]. tempo.2. � São morfes arbitrários cujo sentido só se revela no ambiente morfossintático no qual eles aparecem.6 Morfema Relacional Os morfemas relacionais caracterizam-se como formas dependentes. As regras que transcrevi estão obsoletas. conjunções e pronomes relativos. em contraste com os sufixos derivacionais. os sufixos flexionais ou desinenciais. não constituem por si só um enunciado. � Sujeitam-se ao vínculo da concordância: substantivo feminino plural impõe aos determinantes (artigos. pronomes adjetivos. como já vimos.

45 02 . por isso. como em cant-a-r. vend-e-r. Servem apenas para distribuir os vocábulos em classes ou categorias.Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo aos quais não corresponde. ment-i-r.3 Análise Mórfica – Princípios Básicos e Auxiliares 2. /lar/ (lar) /mar/ (mar) /mal/ (mal) /mel/ (mel) /fel/ (fel) Na comutação. canet-a. mesmo que esse valor seja meramente gramatical. como em garot-o. que é um conjunto de unidades lingüísticas que se excluem umas às outras por sistemas de oposição. e os três últimos. A função do morfema classificatório é situar o vocábulo num paradigma. No exemplo a seguir a comutação é feita no nível fonológico. Comutação é troca de um elemento no plano da expressão de que resulta uma alteração no plano do conteúdo. em qualquer nível (fonológico. Ou: paradigma é um conjunto de unidades ausentes que poderiam substituir aquela que está presente na cadeia sintagmática. nenhum significado e. à classe dos verbos. Assim. são também designados de morfes vazios. a troca do significante implica a troca de significado. Convém. no entanto. fac-e e as vogais temáticas verbais. aparentemente. considerar que o fato de não traduzirem nenhuma idéia ou noção extralingüística não significa necessariamente não ter nenhum valor semântico. morfológico ou sintático).1 Comutação A comutação consiste numa operação contrastiva por meio de permuta de elementos para a qual são necessárias: a) a segmentação do vocábulo em subconjuntos e b) a pertinência paradigmática entre os subconjuntos que vão ser permutados.3. 2. São as vogais temáticas nominais. os três primeiros exemplos pertencem à classe dos nomes.

analise a comutação no nível morfológico representada em (6).Estruturas Morfológicas Para melhor entender a técnica da comutação. não se confunde com a análise 46 .Unidade A . a) desinências número-pessoais cantava + Ø cantava + s cantava + Ø cantáva + mos cantave + is cantava + m b) desinências modo-temporais tu canta + Ø + s tu canta + va + s tu canta + rá + s tu canta + ria + s tu canta + ra + s tu canta + sse + s tu canta + re + s c) raiz ou semantema de verbos cant + ar estu + ar cas + ar alarm + ar copi + ar san + ar cant + ar govern + ar Fazer análise mórfica é examinar e segmentar os vocábulos em partes providas de significação. imprescindível na análise mórfica. Como tal.

pelo confronto. Para demonstrar ainda melhor como funciona a técnica da comutação. sintáticas e mesmo semânticas possam ser úteis para a análise da estrutura mórfica. no nível sintático. “A comutação se baseia no princípio de que tudo no sistema lingüístico é oposição e consiste na substituição. Essa técnica impede que as segmentações dos vocábulos sejam feitas de modo arbitrário. Trata-se de realizar a permuta de uma parte do vocábulo por outra e verificar se essa permuta produz alterações na significação.) As formas mínimas encontradas foram: a) Raiz – [nov] b) Radical – [novíssim] c) Vogal temática – [o] d) Tema – [novíssimo] e) Sufixo derivacional – [íssimo] 47 02 . ou dos termos das orações. embora certas informações fonético-fonológicas. examinaremos o adjetivo novíssimo e o verbo olharemos: novíssimo a) novíssimo + Ø ≠ novíssimo + s (Ø ≠ s) b) novíssimo + Ø ≠ novíssimo + a (Ø ≠ a) c) novíssim + o ≠ novíssim + a + mente (o ≠ a) d) nov + íssimo ≠ nov + inho ≠ nov +iço ≠ nov + idade (íssimo ≠ inho ≠ iço ≠ idade etc. de uma forma por outra” (Monteiro.) e) nov + íssimo ≠ bon + íssimo. p. 2002. Como vimos.Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo dos fonemas e das sílabas. bel + íssimo (nov ≠ bom ≠ bel etc. a principal técnica de análise mórfica é a comutação. 38).

mas hierárquica.Unidade A . vamos examinar a formação da palavra reutilização.2 Princípios da Hierarquia Na análise mórfica. Incorreto é considerar que o substantivo reutiliza- 48 .Estruturas Morfológicas f) Desinência de gênero – [Ø] g) Desinência de número – [Ø] olharemos a) olhare + mos ≠ olhare + i (mos ≠ i) b) olha + re + mos ≠ olha + ria + mos (re ≠ ria) c) olh + a + re + mos ≠ olh + Ø + e + mos ( a ≠ Ø) d) olh + a + re + mos ≠ corr + e + re + mos ( a ≠ e) e) olh + a + re + mos ≠ estud + a + re + mos ( olh ≠ estud) As formas mínimas encontradas foram: a) Raiz – [olh] b) Radical – [olh] c) Vogal temática – [a] d) Tema – [olha] e) Desinência modo-temporal – [re] f) Desinência número-pessoal – [mos] 2. e do verbo reutilizar deriva-se o substantivo reutilização. derivandose daí o substantivo utilização. Para entender o que isso significa. devemos considerar que a ordem dos constituintes não é meramente linear.3. a) [útil] + [iz(ar)] → utilizar b) [utilizar] + [ação] → utilização c) [re] + [utilizar] → reutilizar d) [reutilizar] + [ação] → reutilização Pela ordem. do adjetivo útil forma-se o verbo utilizar.

sendo também conhecido por pleonasmo.3. por outro lado. o que significa repetição do significado: “ver com os próprios olhos”. pela concordância [Ø] = [Ø] e [s] = [s] e pela alternância das vogais [ô] ~[ó]. nós fala + mos etc. Há. a concordância nominal “obriga” a repetição do [s]: “o + [s] seu + [s] belo + [s] olho + [s] verde + [s]”. conseqüentemente. a presença do pronome reto – que identifica a pessoa e o número – não exclui a necessidade da flexão e. 49 02 . mas. Como já vimos. a) suportar + ável → suportável b) in + suportável → insuportável O prefixo [in]. a concordância e a alternância vocálica. haveria quebra de hierarquia se a derivação fosse feita na seguinte ordem: suportar → *insuportar → insuportável. a oposição de número é marcada pelo sufixo desinencial [s]. Em o sogro → a sogra. somente se acrescenta a bases adjetivais e não a bases verbais. a redundância gramatical é representada por três marcas distintas: o morfe flexional. Assim. a oposição de gênero é marcada pelo sufixo desinencial [Ø] ~ [a]. a redundância gramatical representada pela presença de um morfe segmental ou supra-segmental que repete o mesmo traço gramatical. Em o povo → os povos. adjetivos). Nos verbos.Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo ção fosse derivado de utilização uma vez que o prefixo [re] em geral se acrescenta a bases verbais. a palavra invariavelmente é constituída de invariável + mente e não de in + variavelmente. Em certos casos. visto que não existe o advérbio *variavelmente. pela concordância [Ø] = [Ø] e [a] = [a] e pela alternância das vogais [ô] ~[ó]. da concordância: eu fal + [o]. com valor negativo. a pluralização do substantivo é realizada prioritariamente pelo acréscimo da desinência [s]. 2.3 Redundância Redundância é um conceito bastante difundido na semântica. Da mesma forma. “subir para cima” etc. havendo combinação com determinantes (artigos. Vejamos outro exemplo. pronomes adjetivos.

uma alteração morfológica de origem fonológica. havendo o acréscimo do fonema “-i”. ilegal (antes da consoante “l”) e irrelevante (antes da consoante “r”).+ -a. átono. formas ditas rizotônicas. sendo tônica a vogal temática “-a-” Nas formas em que o acento tônico se antecipa para o radical.+ -va. de acordo com o ambiente fonético: incapaz.+ -a.Estruturas Morfológicas 2. vamos ler a explicação fornecida por Zanotto (1986. desfazendo o hiato (“passeo”) através da ditongação (“passEIo”). O acréscimo do fonema “-i” alterou o morfema. de “passe-” para “passei-”. São mudanças no sistema fonêmico do vocábulo. uma mudança morfofonêmica. acréscimo. infeliz. São exemplos de mudanças morfofonêmicas: a) sa. Para melhor entender isso.+ -is → escutaVEis (vogal “i” assimila vogal “a” da desinência verbal. mas imutável (antes de consoante nasal). É. transformação.4 Mudança Morfofonêmica Chama-se mudança morfofonêmica a alomorfia condicionada fonologicamente.+ -i → andEi (vogal “i” assimila vogal temática “a”. b) escut. o radical passa a ser “passei-”. d) ave + cultor → avIcultor (alteração da vogal temática “e” em “i”). c) and. f) in + legal → Ilegal (supressão da nasal “n”). por exemplo. com repercussão no sistema mórfico. transformando-a em “e”). Essas mudanças podem acontecer por supressão de fonemas. p. pode variar em –i.40-41): O radical do verbo “passear” é “passe-”. então. crase. transformando-a em “e”).Unidade A . e) viv + i + i → vivI (crase da vogal temática “i” e da desinência verbal “i”). 50 .+ -o → saIo (acréscimo do fonema /i/ ao radical com formação do ditongo sai-). O prefixo in-.

composição e derivação. pois a maioria dos alomorfes deve a sua origem a esses processos. num determinado momento de sua evolução. Entender os processos morfofonêmicos é importante. 1975 [1916]. representa a perspectiva sincrônica. i) garot + o + a → garota (supressão da vogal temática “o”). O que deve guiar o estudo do atual estado da língua portuguesa é a percepção que os falantes têm dos fatos. Nesse sentido. o estudo de um estado de língua. precisamos esclarecer um aspecto relevante. j) pé + al → peDal (acréscimo da consoante “d” ao radical).Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo g) do + e → dóI (alteração da vogal temática “e” em “i” e conseqüente formação do ditongo). Nossa disciplina tem como objetivo “utilizar os princípios de análise morfológica para descrever a estrutura de vocábulos da língua portuguesa. 51 02 . distinguindo os processos de flexão. “sincronia e diacronia designarão respectivamente um estado de língua e uma fase de evolução” (Saussure. pois. Trata-se da perspectiva diacrônica. Por outro lado. sem especulações de ordem histórica ou evolutiva. a sucessão desses fatos no tempo não existe. além de identificar e utilizar aspectos da teoria lexical relacionados à classificação de vocábulos”. h) quintal + s → quintaIs (supressão da consoante “l” do radical e acréscimo de “i”. p. mas também para a descrição de outros níveis lingüísticos. k) animal + inho → animalZinho (acréscimo de “z” ao sufixo diminutivo “inho”). é possível a evolução de um estágio a outro. com formação do ditongo). No estudo da língua. Dito de outra maneira.5 Sincronia e Diacronia Antes de encerrarmos este capítulo. para os usuários da língua. 2. com vistas a identificar e descrever as mudanças ao longo de um período de tempo. 96). não só para a descrição morfológica. interessam os fatos lingüísticos como eles se apresentam no momento atual.

teremos oportunidade de fazer isso em situações diversas ao longo de nosso texto. Isso é sincronia. sem necessidade de recorrer ao latim. o correto é considerar que a raiz é [companh]. c) comer – se adotarmos critérios diacrônicos. 97). A segmentação dos elementos mórficos deve-se pautar pela consciência do significado. em lembrete há consciência do sufixo [ete]. mas o mesmo não se pode dizer de bilhete. que na descrição da estrutura dos vocábulos do português é desnecessário conhecer o latim ou quaisquer outras línguas que tenham influenciado a formação da língua portuguesa. p. nada impede que a convicção a respeito do fato seja reforçada por informações de ordem diacrônica. Segundo Saussure. Nesse caso. o resultado não será diferente. Há muitos vocábulos. indicador de profissão.Unidade A . pois. b) marquês – em português. sendo com um prefixo. em que não se percebe mais a existência do sufixo. o morfema também se descaracteriza. O mesmo não se pode dizer de marquês. Na verdade.Estruturas Morfológicas Fica claro. são altamente relevantes. ocorre o sufixo [es]. Por outro lado. Aliás. distintos dos de nossa disciplina. é fácil reconhecer a raiz [livr] e o sufixo [eir(o)]. perdida essa consciência. Na palavra livreiro. alguns desses vocábulos: a) companheiro – como não há consciência de que deriva de pão (aquele que come do mesmo pão). cujos elementos constitutivos eram [com[ed]e]re]]. se a identificação dos morfemas for feita com base no latim. então. no entanto. mas para outros fins. francês e outros vocábulos. então. não estamos afirmando que os conhecimentos relativos ao latim e tudo aquilo que diz respeito à formação da língua portuguesa são inúteis. feita uma constatação de ordem sincrônica. 67-75). uma vez que proveio de comedere. Vejamos. veremos que a atual raiz [com] foi outrora um prefixo. Do mesmo modo. o lingüista que queira descrever um estado de língua “deve fazer tabula rasa de tudo quanto produziu e ignorar a diacronia” (1975 [1916]. Com isso. A 52 . Vamos ilustrar esse princípio metodológico com alguns exemplos fornecidos por José Lemos Monteiro (2002. como em muitos outros. p. cuja segmentação não é tão simples e a adoção de critérios diacrônicos ao invés de critérios sincrônicos muda totalmente os resultados.

partícula etc. ovicula. Casos assim muitas vezes representam empréstimos lexicais de línguas estrangeiras. em + boa + hora. Só o estudioso de gramática histórica e de etimologia sabe que tais vocábulos foram formados respectivamente por: hora + lógio. isto é. três anos. embora. fidalgo. al + moxarife. como coquetel. abelha. f) rival.Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos raiz [ed] desapareceu completamente na evolução para o português. em anuênio é impossível recuperar a consciência do significado original em [ênio]. quem sabe disso? A perda da consciência do significado pode explicar. em certo período da evolução do latim ao português. originalmente. [ag] + [ulh] + [a]. gotícula. aplicado à análise sincrônica. formados por uma única raiz. Mas. com sufixo diminutivo igual ao que ainda se constata em homúnculo. Como se observa. gerr (guerra) + hard (forte). 14). quem diria que em solene há um morfema cor- 53 02 . significando. quadriênio. apicula e acucula. Capítulo Esse exemplo foi citado por Câmara Jr. almoxarife. a torna absurda”. em anuênio. já não existe mais a consciência dos elementos constitutivos originais. cujos significados originais se perderam totalmente. dois anos. como se [ênio] fosse sufixo. Se nestes vocábulos ainda há a percepção dos sufixos diminutivos. sadio – originalmente. Do mesmo modo. há um emprego redundante (ano + ano). p. (1972. respectivamente. embora modificada na forma. futebol. a) biênio. a existência de inúmeras construções redundantes ou paradoxais. filho + de + algo. também raiz de sanar. nocaute. e) relógio. essas formas derivam de rio (rivus) e de são (sannativu). sendo incorretas segmentações como [ov] + [elh] + [a]. [ab] +[elh] + [a]. Sincronicamente. qüinqüênio e decênio – Em todos esses vocábulos. segundo quem “muitas vezes o conhecimento histórico. cinco anos e dez anos. no entanto. d) ovelha. agulha – esses vocábulos eram. o mesmo não se pode dizer sobre aqueles. encontra-se o semantema a raiz de ano. Por essa razão. quatro anos. também. em razão da queda da consoante sonora intervocálica e da crase das vogais. Geraldo – esses vocábulos eram compostos. triênio. a atual raiz do verbo comer é o que antes foi prefixo. devendo os mesmos serem considerados vocábulos simples. Todavia.

Unidade A - Estruturas Morfológicas

respondente a ano. Etimologicamente, solene se refere ao que
acontece uma só vez no ano.
b) biquíni – a partir da falsa percepção de que biquíni significa duas peças de um certo vestuário, formou-se monoquíni.
Ocorre que biquíni é metonímia do nome de um atol. Do mesmo modo, bermudas é metonímia de um topônimo.
c) preferir – as restrições normativas ao emprego dos advérbios
mais ou antes subordinados a esse verbo respaldam-se na formação latina do verbo, no qual ocorre o prefixo [pre]. No latim,
de ferre formou-se praeferre. Em português, no entanto, não
se interpreta o verbo preferir como derivado de ferir, pois este
não existe com o significado que convém ao caso.
d) caligrafia – Etimologicamente, significa bela letra. Mas o emprego de expressões como caligrafia bonita e caligrafia horrível evidenciam a perda o significado primitivo. Do mesmo modo, antídoto quer dizer contraveneno. Por que, então, alguém diz algo
como “precisa de um antídoto contra picadas de mosquitos”?
e) me, te, se, nos, vos – em certas formas latinas, a preposição
cum (com) aparecia posposta: mecum, tecum, secum etc. Daí
mego (migo), tego (tigo), seco (sigo). Posteriormente, o desaparecimento dessa percepção (posposição da conjunção com,
originalmente cum), fez repeti-la no início: com + migo = comigo, com + tigo = contigo etc.
Conclui-se, desse modo, que uma descrição coerente dos morfemas
não pode pautar-se em dados histórico-etimológicos. Convém lembrar,
no entanto, que uma descrição exclusivamente sincrônica é difícil de
levar às últimas conseqüências, uma vez que a consciência dos falantes
nem sempre apresenta a precisão desejável. Por exemplo, se perguntarmos a alguns falantes de português de onde deriva a palavra mesada,
não faltará que diga derivar de mesa, quando na realidade deriva de
mês. Igualmente, há falantes que relacionam pequinês a pequeno, quando, de fato, diz respeito a uma raça de cães originária de Pequim. Se em
boiada é fácil destacar o sufixo [ada], o mesmo não se pode dizer de
manada. Se bananeira deriva de banana, mangueira de manga, abacateiro de abacate, pode-se dizer que macaxeira deriva de [macax]?

54

Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos

Capítulo

Considerando, então, que a aplicação do princípio da “consciência
coletiva” nem sempre é adequado, como proceder? A alternativa é aplicar a comutação, mas essa alternativa também é, às vezes, questionável.
Os verbos receber, perceber e conceber correspondem a oposições
na base da permuta dos elementos [re], [per] e [com], mas isso só faz
sentido para o estudioso. Qual o significado dos elementos prefixais?
Além disso, resta a dúvida em relação a ceber, que não existe na língua
como forma livre.
Situação semelhante ocorre com os vocábulos excluir e incluir, de
um lado, e explodir e implodir, de outro. Há, no entanto, uma diferença
em relação aos primeiros. Nestes, fica clara a oposição entre os prefixos
[ex] e [in], mesmo que cluir e plodir não sejam formas livres.
Do mesmo modo, se em pedreiro, jornaleiro, sapateiro é possível
separar o sufixo [eiro], o mesmo pode ser feito em carpinteiro, mesmo
inexistindo a forma primitiva.

Segundo Monteiro (2002, p. 72), na segmentação dos elementos
mórficos, devem ser consideradas as seguintes situações:
a) Os morfes são elementos facilmente destacáveis quando
se opõem formalmente e têm significados transparentes,
como em: peixaria, livraria ou peixinho, livrinho.
b) Quando é possível estabelecer oposições mórficas, mas
falta a base semântica, como em preferir, referir, proferir,
convém não destacar os morfemas, pois os elementos que
sobram não têm livre curso na língua. Neste caso, os prefixos históricos são incorporados à raiz.
c) Quando não há uma palavra primitiva, mas os cognatos são
facilmente reconhecidos com base em oposições mórficas,
deve-se destacar o semantema. Em emergir e imergir, a raiz
(radical primário) [merg] é facilmente identificada, sem que
haja concretamente uma palavra primitiva.

55

02

Unidade A - Estruturas Morfológicas

Em resumo, pode-se concluir que certos problemas de análise morfológica decorrem do modo como se vê a realidade lingüística. Se a gramática for rigidamente mecanicista, excluindo qualquer interferência do
significado, será suficiente fazer operações contrastivas para fazer segmentações mórficas estruturalmente válidas. Todavia, se levar em conta
a relação intrínseca e solidária entre forma e significado, os problemas
de identificação de morfemas devem-se pautar na consciência coletiva.
Como essa segunda alternativa pode levar a mero impressionismo, talvez o melhor a fazer é adotar uma posição intermediária, conciliando,
sempre que possível, a sincronia e a diacronia.

Resumo do Capítulo
ǿǿ Morfema é uma unidade abstrata de sentido, representada por
uma ou mais formas.
ǿǿ A realização concreta de um morfema se denomina morfe e,
quando há mais de um morfe para o mesmo morfema, ocorre
alomorfia.
ǿǿ Alomorfes são, portanto, as diversas realizações de um único
morfema, ou vários morfes correlacionados quanto à forma e
com o mesmo significado.
ǿǿ Quando a ausência do morfe corresponde a um significado,
tem-se morfema zero.
ǿǿ Morfes cumulativos são unidades formais que representam simultaneamente dois morfemas. Em português, são cumulativas
as chamadas desinências verbais modo-temporais (Exemplos:
viaja-sse-mos, resolve-re-mos) e número-pessoais (Exemplos:
viaja-sse-mos, viaja-sse-m).
ǿǿ Nos casos em que a oposição morfológica se faz pela permuta
de dois fones, os morfes são alternantes, como em: avô ≠ avó.
Em geral, os morfes alternantes são redundantes ou submorfêmicos, pois reforçam uma oposição morfológica formada por
morfe aditivo, como em: porco (ô) ≠ porca (ó); famoso (ô) ≠
famosos (ó).

56

Recebem este nome porque servem para expressar as categorias gramaticais. p. como é o caso das conjugações verbais. devese usar técnicas de comutação. Em (eu) cant-o. 1975. que é a vogal sem valor semântico posicionada logo após o radical. ǿǿ Morfemas categóricos. o morfe é o mesmo. ǿǿ Morfemas derivacionais. 57 02 . Para segmentar adequadamente os vocábulos em morfemas. ǿǿ Morfemas relacionais. que são os morfemas indicadores de gênero e número nos nomes e os indicadores de modo e tempo e número e pessoa nos verbos. que é o conjunto formado por radical e vogal temática. que é a troca de um elemento no plano da expressão com vistas à alteração no plano do conteúdo. nos verbos infinitivos. terciário etc. que é o “elemento irredutível comum a todos os vocábulos da mesma família” (SAUSSURE. Os morfemas classificam-se em: ǿǿ Raiz (R). (o) cant-o (da ave) e (o) cant-o (da sala). Nos nomes. secundário. mas cada um deles representa uma morfema distinto. é átona. as conjunções e os pronomes relativos. que são as preposições. 216). Também é conhecido por radical primário. são sufixos. se ocorrem depois.Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo ǿǿ A coincidência de formas (morfe homônimo) não significa que o morfema é o mesmo. ǿǿ Tema. por exemplo. pois servem para distribuir os vocábulos em certos grupos. é tônica. Trata-se do morfema sobre o qual repousa a significação lexical básica. semantema ou lexema. são prefixos. são também conhecidos como afixos: se ocorrem antes da raiz. ǿǿ Vogal temática. que inclui a raiz e os elementos afixais que entram na formação dos vocábulos. forma primitiva. O radical pode ser primário. As vogais temáticas são consideradas morfemas classificatórios. ǿǿ Radical (Rd).

Maria Carlota. lembramos que o modelo descritivo que adotamos privilegia o estado atual da língua portuguesa. 58 . São Paulo: Contexto. Existe uma ordem a ser seguida. p.. 69-76. Trata-se de uma mudança no sistema fonéticofonológico do vocábulo. a não ser em casos excepcionais.Unidade A . isto é. Se a alomorfia é condicionada pelo contexto fonológico. p. O Vocábulo Formal e a Análise Mórfica. Leia mais! A Conceituação Clássica do Morfema. Petrópolis: Vozes. J. Por fim. tal mudança é morfofonêmica. o acréscimo de dois ou mais morfemas derivacionais não acontece simultaneamente. 43-66. 2000. Mattoso. In: CÂMARA JR. em detrimento das explicações de ordem histórica. com repercussão no sistema mórfico. A estrutura da língua portuguesa. Todavia. deve-se levar em conta que existe uma ordem hierárquica. isso não significa que em casos de necessidade não se possa valer de argumentos histórico-etimológicos.Estruturas Morfológicas Na segmentação dos morfemas e na análise mórfica. In: ROSA. 1979. Introdução à morfologia.

Unidade B Flexão Nominal e Verbal .

.

1 Morfemas Flexionais (desinências) Já tivemos oportunidade de falar a respeito dos morfemas flexionais. número. obrigatória. podem ser listados exaustivamente. Como tal. ou simplesmente desinências. as respectivas funções. estudamos os diferentes tipos de morfemas. os verbos. que é a flexão de gênero (masculino e feminino) e de número (singular e plural). As desinências nominais classificam-se em: desinências de gênero (masculino e feminino) e desinências de número (singular e plural). artigos e numerais) e. também. tempo e pessoa. modo. entre outros aspectos relevantes na descrição e análise mórfica. Esses morfemas constituem uma classe fechada. adjetivos. e se prestam para representar noções gramaticais de gênero. Vamos demonstrar. Entre as classes de vocábulos que se submetem aos processos de flexão – por isso. que grau não é flexão. os nomes (substantivos. a hierarquia e o ordenamento. de outro. Observe o seguinte esquema sinótico: 61 03 .Flexão Nominal 3 Capítulo Flexão Nominal No capítulo II da Unidade A. 3. pronomes. considerados vocábulos variáveis – citam-se: de um lado. As desinências verbais classificam-se em: desinências modo-temporais (tempo e modo do verbo) e desinências número-pessoais (número e pessoa da forma verbal). Vamos agora focalizar uma característica específica dos nomes e pronomes.

desatualizados des- 7. trataremos em particular da flexão dos nomes. que se desdobra em flexão de gênero e flexão de número. ou um pronome adjetivo no feminino plural. no entanto. Esse radical. nos quais os falantes têm a liberdade de utilizar prefixos ou sufixos. Levando isso em consideração. observemos a estrutura mórfica dos nomes abaixo: NOME SD RAIZ 1. 3. no sistema flexional da língua há imposições gramaticais. finalzinho 6. florezinhas 62 VL -e- -s -s -a -o- -s -zinh- -a- -s -eir- -o .Flexão Nominal e Verbal No nível sintático. podem ocorrer vogais temáticas e vogais de ligação. de tal modo que os vocábulos subordinados a um substantivo. sem opção de inovação ou criação. Ao contrário do que ocorre nos processos de formação de novos vocábulos. por exemplo. o verbo deverá obrigatoriamente flexionar-se na terceira pessoa do plural. pode ser ampliado por meio de morfemas derivacionais (prefixos e sufixos) e morfemas flexionais (desinências de gênero e de número). Neste capítulo. Combinado com um substantivo feminino plural só cabe um adjetivo. e da flexão dos verbos.Unidade B . Se o sujeito da oração estiver na terceira pessoa do plural. atualizada 8. ou um artigo. Além disso. folhetins folh- 3. ele el- 4. elas el- 5. que se desdobra em flexão de modo e tempo e de pessoa e número. afinadíssimos a- SD SD -et- -in- VT -a-zinh- -o -atual- -iz- -ad- -o- atual- -iz- -ad- -fin- -ad- -íssim- 10. a flexão impõe normas de concordância. devem com ele concordar em gênero e número. anzol anzol 2. terceiro terc- DN -e -al- flor- DG -s fim- 9.2 Estrutura Mórfica dos Nomes O nome às vezes é formado por um único morfema: o radical primário ou raiz.

publicado pela Editora Nova Fronteira. Capítulo Trataremos oportunamente da classificação dos vocábulos. o que é próprio dos substantivos e adjetivos (verdadeiros nomes). ora são adjetivos. a desinência [a]. o fazem através de processos morfológicos derivacionais ou a expedientes de natureza sintática. caracterizam-se como processos morfológicos derivacionais (carrão. podemos dizer que os nomes caracterizam-se morficamente pela possibilidade de apresentar desinências de gênero e de número. caracterizam-se como processos sintáticos. Por outro lado. como tal. os nãos. como: os sins. com base em critérios mórficos. que se submetem aos graus comparativo e superlativo. de acordo com o sentido e a função que exercem na estrutura sintagmática (ou frasal). artigos e numerais ora são substantivos. Trata-se. a rigor. de um equívoco. Exemplos: ǿǿ Espertinho (diminutivo) ǿǿ Espertalhão (aumentativo) ǿǿ Tão esperto quanto (comparação de igualdade) 63 03 . uma palavra só pode apresentar a marca de feminino. Esse documento encontrase disponível nas páginas iniciais do Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Igualmente os adjetivos. além de flexionarem-se em gênero e número. Do mesmo modo. um ai. Assim. os prós. Também devemos observar que nem todo nome possui as subcategorias de gênero e número. um quezinho.Flexão Nominal Em princípio.3 Flexão e Grau A Nomenclatura Gramatical Brasileira afirma que os nomes (substantivos e adjetivos). sintáticos e semânticos. pois os graus aumentativos e diminutivos dos substantivos. bolinha) e. agorinha. se existir uma forma masculina correspondente. os contras. Instituída Portaria n◦ 36. euzinha etc. submeter-se aos processos flexionais e mesmo derivacionais específicos dos nomes. carrinho. quando realizados através de sufixos. não há desinência de plural [s] se não houver a forma correspondente no singular. o fazer. uma mãozinha. 3. do Ministério da Educação e Cultura. isto é. só existe flexão se uma categoria se opuser a outras. de 28-01-1959. também se flexionam em grau. uma vez que pronomes. quando realizados por meio de adjetivos grande e pequeno. devemos considerar que qualquer palavra pode substantivar-se e. bolão. Estruturalmente.

não existe obrigatoriedade de dizer bonequinha lindíssima. 81). c) Uso de formas diminutivas: “Ele é o queridinho da mamãe. entre as quais: a) Repetição do adjetivo: “Foi lindo. o substantivo moço não apresenta qualquer marcação de grau. Por outro lado. 83). [ultra] etc. e não estabelece paradigmas exaustivos e de termos exclusivos entre si” (CÂMARA JR. Em resumo..” (= muito grosso). convém lembrar que os gramáticos que falam em flexão de grau encontram problemas em classificar os advérbios 64 . p. b) Uso de formas aumentativas: “Que rapaz bonitão!” (bonitíssimo). f) Expressões idiomáticas: “Ela é linda de morrer!” (= lindíssima). Além disso. Para finalizar essa questão. 1979. como afirma Monteiro (2002. porque não é um mecanismo obrigatório e coerente. podemos dizer boneca lindíssima ou bonequinha linda.” (= rapidíssimo). lindo. lindo!” (= lindíssimo). ou seja. Em moço educadíssimo. p. d) Emprego de prefixos [super]. devemos considerar que a formação do grau não se submete a qualquer vínculo de concordância entre adjetivos e substantivos.Unidade B . Do mesmo modo. existem diversas outras possibilidades de formação do grau superlativo. “a expressão do grau não é um processo flexional em português.Flexão Nominal e Verbal ǿǿ Mais esperto do que (comparação de superioridade) ǿǿ Menos esperto do que (comparação de inferioridade) ǿǿ Espertíssimo (superlativo) Como se vê. [hiper].: “Meu computador é hiper-rápido.” (= queridíssimo). o grau não se submete ao caráter obrigatório e sistemático próprio do mecanismo flexional. e) Breves comparações: “Grosso como porca de patrola.

independentemente de se referirem a seres sexuados ou não. e. em latim. Quem decide o uso são os falantes.4 Flexão de Gênero Tradicionalmente. assoalho são masculinos mesmo não tendo sexo. o/a sentinela etc. ao longo do tempo. o/a grama. em português. 3. podem ser usados como masculinos ou femininos. o nível de escolaridade etc. em latim. eram masculinos. a oposição de 65 03 . água são femininos. o/a chaminé. para a maioria dos nomes. e o advérbio continua sendo invariável. há dois gêneros (masculino e feminino) e fazendo certa confusão entre gênero e sexo. e de cor e honra que. têm os graus comparativo e superlativo. pois o uso é indiferente às preocupações dogmáticas. ao contrário. Pouco importa a imposição normativa. o/a dinamite. cabelo. era feminino. ora como femininos. o/a cólera. relógio. o grupo social. viola. maré. oscilando entre uma e outra alternativa conforme a região. limitando-se a afirmar que.Flexão Nominal Capítulo como palavra variável ou invariável. o/a ioga etc. Ora. nas mesmas condições. sem haver flexão: o/a analista.4. cebola.1 O que Significa Gênero Para começar. as gramáticas abordam com certa superficialidade a questão de gênero. certos substantivos mudaram de gênero. o/a cal. Os neutros latinos passaram ao português ora como masculinos. tal problema deixa de existir. o/a diabete. Outros substantivos são indiferentes quanto ao gênero. o/a champanhe (champanha). Nesses casos. quando se considera que o grau não é flexão. gênero significa bem mais do que sexo. Trata-se de uma noção gramatical que se atribui a todos os substantivos. é preciso fazer alguns esclarecimentos prévios. Também há substantivos que. Assim é que lápis. Tanto isso é verdade que. caneta. 3. Em vista disso. computador. a exemplo do adjetivo. o/a personagem. como é o caso de carvalho que. têm gênero vacilante: o/a soja. Isso quer dizer que ser masculino ou feminino é. pois. uma imposição gramatical que não interfere no significado. que são ou masculinos ou femininos. no português atual. ou melhor.

ainda. o masculino tem uma aplicação mais genérica. e o feminino tem uma aplicação mais específica. potrancão. pois. o fato de certos substantivos femininos mudarem para o gênero masculino quando empregados no grau aumentativo: casarão. salão. pois se referem a seres do reino animal. para aprofundamentos de caráter semântico. 66 .Flexão Nominal e Verbal gênero se manifesta através da concordância. facão. quanto os do sexo feminino. cachorro ≠ cachorra. ainda. representa carga semântica. cobrão etc. o jacaré. Existe um grupo de substantivos para os quais o gênero. muda o significado. que designam tanto os seres do sexo masculino. como: lobo ≠ loba. inclusive. em geral. nem a concordância: a onça. entre outros. Acrescente-se. a cobra etc.Unidade B . indicado pela concordância. prestando-se. Nesses casos. Por fim. com nomes que se referem a seres do sexo feminino: mulherão. gato ≠ gato etc. Isso ocorre. Há. mas ainda sem se referir ao sexo. os substantivos de gênero único. o braço a braça o cabeça a cabeça o capital a capital o porto a porta o chinelo a chinela o bolso a bolsa o ovo a ova o lotação a lotação o lenho a lenha o rádio a rádio o sapato a sapata o espinho a espinha o cinto a cinta o barco a barca As alterações de significado provocadas pela alteração de gênero vão além do interesse mórfico-descritivo. não ocorrendo nem a flexão. há os substantivos que apresentam oposição de gênero com base em motivações de ordem sexual.

A determinação de gênero se faz. com adição da desinência [a] para o feminino. a) diplomata. se distribuem em três grupos (cf. e. (a) menina. a) personagem. (o) peru. Já se disse que todos os nomes têm gênero. 1979. (o) doutor. CÂMARA JR. a desinência e a concordância tornam-se redundantes na função de explicitar o gênero. para outros substantivos. numeral ou principalmente artigo). o gênero apresenta relação com o sexo. (o) carro. mas tão somente um substantivo que tem a propriedade privativa de se referir às pessoas do sexo feminino. (o. porém nem todos se flexionam em gênero. (o. (a) doutora. Isso quer dizer que mulher não é o feminino de homem. a) aprendiz etc. pronome adjetivo.Flexão Nominal Capítulo Somente nesses casos devemos falar em flexão de gênero. a determinação do gênero se faz pela flexão. Com base na descrição de gênero que acabamos de apresentar. Em resumo: gênero é classificação gramatical obrigatória para todos os substantivos. (o) livro. (o) jacaré etc. pela concordância que se impõe aos determinantes (adjetivo. boi ≠ vaca. os nomes. de forma variada e imprevisível. (a) perua etc. p. com homem ≠ mulher. Secundariamente. (o) avião. 67 03 . (a) lua. cavalo ≠ égua. (a) cobra. (o) cônjuge. a) artista. finalmente. em certos substantivos pertinentes aos seres sexuados. para muitos substantivos. na maioria dos casos. a) mártir. 92): 1) nomes substantivos de gênero único: (a) flor. (o. e somente para os nomes substantivos do terceiro grupo. diferentemente do que sugere a NGB e as gramáticas escolares. Quando os indivíduos de sexos diferentes são representados por heterônimos.. (o. cumprindo apenas o preceito gramatical obrigatório. (a) mão. Nesses casos. 2) nomes substantivos de dois gêneros sem flexão: (o. o gênero repercute na significação. não ocorre flexão. o gênero não tem qualquer valor semântico. 3) nomes substantivos de dois gêneros com flexão: (o) menino.

Flexão Nominal e Verbal Dito isso. não são casos de flexão. Exemplos: ǿǿ pai –mãe ǿǿ homem – mulher ǿǿ genro – nora ǿǿ cão – cadela ǿǿ carneiro – ovelha ǿǿ zangão – abelha Como você pode ver. Exemplos: ǿǿ cônsul – consulesa ǿǿ galo – galinha ǿǿ profeta – profetisa ǿǿ herói – heroína ǿǿ czar – czarina 68 . A heteronímia consiste em expressar o gênero-sexo através de vocábulos distintos.Unidade B . com a ressalva de que os sobrecomuns referem-se a homens e mulheres. pela derivação sufixal e pela alomorfia no radical. e os epicenos a animais. esses heterônimos não são aparentados morfologicamente. Por outro lado. Além da concordância e da flexão. não têm o mesmo semantema. ii) sobrecomuns e iii) epicenos pouco contribui para o assunto. o gênero dos nomes pode ser determinado pela heteronímia. os outros incluem-se entre os do grupo 1. ocorre um sufixo derivacional. além da desinência de feminino. nem são derivados uns dos outros. há certas oposições de gênero-sexo em que. cabe esclarecer que a classificação da NGB em i) comuns de dois gêneros. isto é. Os primeiros pertencem ao grupo 2 anteriormente exposto. Na verdade.

Flexão Nominal

Capítulo

A alomorfia no radical também pode reforçar a oposição de gênero-sexo.
Exemplos:
ǿǿ europeu – européia
ǿǿ teu – tua
ǿǿ judeu – judia
ǿǿ plebeu – plebéia
ǿǿ ilhéu – ilhoa
ǿǿ leão – leoa

3.4.2 A Descrição do Gênero
Na descrição do gênero, as formas masculinas são consideradas
não marcadas, como acontece também com a maior parte dos nomes
femininos. Somente os nomes aos quais se adiciona a desinência [a]
para o feminino, estabelecendo uma oposição privativa com a forma
correspondente masculina, são marcados quanto ao gênero. Por exemplo: pata em oposição a pato, viúva em oposição a viúvo etc.

“Há dois tipos de oposição na estrutura da língua: a privativa (ou
contraditória) e a eqüipolente (ou polar). Oposição privativa é
aquela em que a marca se opõe à ausência de marca numa forma
correspondente. Em bonito ≠ bonitos há oposição privativa porque o [s] marca o plural em oposição ao vazio [Ø] no singular. A oposição eqüipolente é a que ocorre entre formas que apresentam marcas distintas, sem que nenhuma delas esteja ausente. Em viverei ≠
viveremos, o [mos] se opõe a [i] eqüipolentemente, umas vez que
ambas as desinências estão presentes.” (MONTEIRO, 2002, p. 80)

Lembre-se de que as vogais átonas finais, com exceção da desinência [a] indicadora do gênero feminino, são vogais temáticas, conforme
se viu no tópico referente a esse assunto.

69

03

Unidade B - Flexão Nominal e Verbal

O esquema básico na descrição da estrutura flexional de gênero
é, portanto, o acréscimo da DG (desinência de gênero). Se ocorrerem
outras alterações formais, além da adição da desinência de feminino,
são mudanças morfofonêmicas secundárias, em geral condicionadas fonologicamente. Há casos, no entanto, nos quais a oposição de gênero
não se faz por flexão, mas através da heteronímia, o que se constitui em
oposição eqüipolente, como explicamos alhures.
Para melhor explicitar as diferentes situações, apresentamos, com
base em Zanotto (1986), dez esquemas descritivos. São eles:
Esquema 1:
ǿǿ R + DG (radical, mais desinência de gênero).
Refere-se aos nomes atemáticos. Exemplos: autor ≠ autor-a,
juiz ≠ juíz-a, peru ≠ peru-a, chinês ≠ chines-a, espanhol ≠
espanhol-a etc.
Esquema 2:
ǿǿ R – VT + DG (radical, menos vogal temática, mais desinência
de gênero).
Refere-se aos nomes temáticos. Neste caso, havendo acréscimo
da desinência [a], a vogal temática é suprimida. Exemplos: gato
≠ gat-a, nosso ≠ noss-a, aluno ≠ alun-a, mestre ≠ mestr-a, oitavo ≠ oitav-a, justo ≠ just-a etc.
Esquema 3:
ǿǿ R – VT + DG + alternância vocálica (radical, menos vogal temática, mais desinência de gênero, mais alternância vocálica).
A alternância ocorre entre vogais fechadas e abertas. Trata-se
de flexão interna submorfêmica. Exemplos: sogro ≠ sogr-a,
novo ≠ nov-a, famoso ≠ famos-a, este ≠ esta, ele ≠ el-a, horto
≠ hort-a, porco ≠ porc-a etc.
Em avô ≠ avó, a alternância é morfêmica, pois é o único traço
distintivo entre as duas formas.

70

Flexão Nominal

Capítulo

Equema 4:
ǿǿ R – VT + alternância /ê/ → /é/ + ditongação /é/ → /éy/ + DG
(radical, menos vogal temática, mais troca da vogal do radical
/ê/ pela vogal /é/, mais acréscimo da vogal /i/ no radical, mais
desinência de gênero feminino).
Além da alternância vocálica submorfêmica, ocorre um alargamento (formação do ditongo /éi/). Exemplos: ateu ≠ atéi-a
(ateu → ateu-a → ate-a → atéia), plebeu ≠ plebéi-a, europeu ≠
européi-a, pigmeu ≠ pigméi-a etc.
Esquema 5:
ǿǿ R – VT + alomorfia na raiz + DG (radical, menos vogal temática, mais alomorfia na raiz, mais desinência de gênero feminino).
A alomorfia na raiz ou em outros morfemas do radical funciona
como um traço redundante na distinção entre gênero masculino e feminino. Exemplos: judeu ≠ judi-a, ilhéu ≠ ilho-a, sandeu ≠ sandi-a, teu ≠ tu-a, frade ≠ freir-a, meu ≠ minh-a etc.
Esquema 6:
ǿǿ R – VT + SD + DG (radical, menos vogal temática, mais sufixo
derivacional, mais desinência de gênero).
Trata-se de nomes temáticos em cujas formas femininas correspondentes, além da desinência de gênero, se adiciona um sufixo derivacional. Exemplos: galo ≠ galinh-a, poeta ≠ poetis-a,
duque ≠ duques-a, herói ≠ heroín-a, diácono ≠ diaconis-a,
príncipe ≠ princes-a etc.
A rigor, sincronicamente, o valor semântico de tais sufixos derivacionais se esvaziou completamente, razão por que julgamos
ser mais apropriado não segmentá-los, tratando-os como alomorfes. Dessa forma, [rainh], [abadess] e [profetis] seriam,
respectivamente, alomorfes de [re], [abad] e [profet].

71

03

mais desinência de gênero). mau ≠ má. mais alternância da vogal nasal /ã/ em /õ/. mais desinência de gênero). prior ≠ priores-a etc. czar ≠ czarin-a. Exemplos: valentão ≠ valenton-a (valentão → *valenton → valentona). mais desnasalização da vogal /õ/. embora não se enquadrem no mesmo esquema. mais desinência de gênero. mais alternância da vogal nasal /ã/ em /õ/. Trata-se da subtração do morfema flexional de gênero em virtude de um condicionamento fonético-fonológico. Exemplos: cônsul ≠ consules-a. menos vogal temática. menos vogal temática. leitão ≠ leito-a etc. Ocorre com alguns nomes terminados pelo ditongo /ão/. citam-se réu ≠ ré.Flexão Nominal e Verbal Esquema 7: ǿǿ R + SD + DG (radical. solteirão ≠ solteiron-a. menos vogal temática. Exemplos: leão ≠ leo-a (leão → *leon → leona → leõa → leoa). Ocorre com nomes terminados em /ão/ quando este corresponde a um sufixo aumentativo. mais crase). Esquema 10: ǿǿ R – VT + alternância da vogal nasal /ã/ → /õ + DG (radical. Além desses casos de subtração. Esquema 8: ǿǿ R – VT + DG + crase (radical.Unidade B . Exemplos: anão ≠ anã (anão → anão-a → anã-a ≠ anã). mais sufixo derivacional. 72 . mais desinência de gênero). ermitão ≠ ermitã etc. chorão ≠ choron-a. Esquema 9: ǿǿ R – VT + alternância da vogal nasal /ã/ → /õ/ + desnasalização da vogal /õ/ + DG (radical. sabichão ≠ sabichon-a etc. irmão ≠ irmã. Trata-se de nomes atemáticos. órfão ≠ órfã.

Flexão Nominal Capítulo Esquema 11: ǿǿ R – SD + SD (radical. Exemplos: at-or ≠ at-riz. mulher. embora se prestem para designar seres sexuados. genro. Isso quer dizer que o plural é meramente gramatical. o bem → os bens. embaix(a)-dor ≠ embaix(a)-triz etc. nora e égua) que possa suprir essa lacuna. os anais. a féria → as férias etc. mais troca de um sufixo derivacional por outro). nesses casos. as trevas. devemos distinguir outros casos. Vejamos: 3. segundo o qual uma forma supre a inexistência da outra. Como inexistem na língua formas correspondentes no feminino para homem.1 O Significado do Número Além da oposição simples entre singular (um só elemento) e plural (mais de um elemento). Há. usamos outra palavra (respectivamente. as bodas etc. b) Outros substantivos mudam de significado quando se flexionam no plural. 73 03 . no entanto. cavalo. Cabe ainda observar que certos substantivos masculinos não têm. que o morfema de plural [s] acumula a função de morfema derivativo. os afazeres. certas situações na língua nas quais a realidade não é tão cristalina quanto parece à primeira vista. as alvíssaras. correspondentes femininos. em termos morfológicos. Pode-se afirmar.5 Flexão de Número O número é uma noção gramatical que distingue um elemento (singular) e mais de um elemento (plural). as calças. Exemplos: os óculos.5. a) Certos substantivos no plural não significam mais de uma unidade da referida espécie. 3. Trata-se de um processo supletivo (ou heteronímico). imper(a)-dor ≠ imper(a)-triz. Exemplos: a honra → as honras. sem oposição de sentido.

quanto ao significado do número.Flexão Nominal e Verbal c) Há. nos determinantes os e pretos ocorre morfema de plural [s]. ainda. Exemplos: o lápis → os lápis o pires → os pires o cais → os cais o ônibus → os ônibus o xis → os xis o tórax → os tórax o ourives → os ourives O /s/ final desses substantivos. bem como o /s/ final do adjetivo simples. 3. Em os lápis pretos. /z/ em aula[s] alegres. induzindo. pronomes. exceto se oxítonos. a saber: a) ocorrência de morfema de plural [Ø] em nomes terminados em /s/. nesses casos. 74 . às vezes. não constitui um morfema. Resta observar. ou silepse de número. O plural. mas só porque isso é marcado pelos determinantes. artigos e numerais) é determinada pela oposição. que nos adjetivos. artigos. Essa simplicidade descritiva do número só é quebrada por dois fatores. expressam idéia de mais de um elemento. pronomes adjetivos e numerais (e mesmo no verbo). adjetivos. e não pelo/s/ final de lápis. embora morfologicamente no singular.Unidade B . // [que se pronuncia como se fosse ch] em aula[s] críticas.5. o número resulta da obrigação gramatical de o determinante concordar com o determinado: os adjuntos adnominais concordam com o substantivo e o verbo concorda com o sujeito. pode-se afirmar que lápis está no plural. à concordância no plural. que. Nesse caso. na qual a presença do morfema de plural [s] se opõe à ausência de morfema [Ø] no singular. é marcado por recursos sintáticos.2 A Determinação do Número A flexão de número nos nomes variáveis (substantivos. em que os determinantes se pluralizam. os substantivos coletivos. O morfema [s] de plural tem diferentes realizações fonéticas. que se caracteriza como concordância ideológica. entre as quais: /s/ em aula[s].

dente-s. para vocábulos atemáticos: guri-s. mais desinência de número.3 A Descrição do Número Esquema 1: ǿǿ R (T) + DN (radical. para vocábulos temáticos: sapo-s. Esquema 4: ǿǿ T (R + VT) + DN + alomorfia da raiz + alomorfia da vogal temática (tema. nosso-s. menos vogal temática.5. ostra-s etc. Esquema 2: ǿǿ R – VT + DG + DN (radical. Refere-se aos nomes temáticos. /r/ e /z/. oitava-s. café-s. vez → vezes etc. alomorfia da raiz 75 03 . mais desinência de número). mar → mares. b) O segundo complicador da descrição mórfica de número é a ocorrência de mudanças morfofonêmicas simultâneas à pluralização. peru-s. mês → meses. Esquema 3: ǿǿ R + VT + DN (radical. Ocorre com os nomes terminados pelas consoantes /l/. Exemplos: garota-s. sobre descrição do número. a pluralização do adjetivo simples é indicada pela pluralização do substantivo. esta-s. mais desinência de gênero. como em: limão → limões. mais desinência de número). gambá-s etc. aquela-s. b) Após o tema. mais desinência de número). indireta-s etc. a seguir. havendo acréscimo da desinência [a].3. a vogal temática é suprimida. Exemplos: mal → males. a) Após o radical.Flexão Nominal Capítulo Em problemas simples. algoz → algozes etc. barril → barris. /s/. Neste caso. 3. mais vogal temática. Essas mudanças são melhor descritas no tópico 5.

Esquema 7: ǿǿ T (R + VT) + DN + alomorfia da raiz + alomorfia da vogal temática (tema. Ocorre com nomes terminados em /il/. coronel → coronéis. tais como: bananal (*bananale). anzol → anzóis. azul → azuis. mais alomorfia da vogal temática /o/ para /e/. mais mudança da vogal temática /e/ para /i/): *animale → animales → animaes → animais. estudantil → estudantis. Esquema 6: ǿǿ T (R + VT) + DN + alomorfia da raiz + crase (tema. anel (*anele).Flexão Nominal e Verbal representada pela supressão do fonema /l/. Exemplos: capital → capitai-s. sendo /i/ uma vogal átona. Exemplos: funil → funis. anel → anéis. mais alomorfia da raiz representada pela troca de /ã/ por /õ/. alomorfia da raiz representada pela supressão do fonema /l/. mais desinência de número. mais alomorfia da vogal temática /e/ para /i/): *facile → faciles → fácies → facees → fáceis. hostil → hostis etc. /ol/ e /ul/. provável → prováveis etc. Esquema 5: ǿǿ T (R + VT) + DN + alomorfia da raiz + alomorfia da raiz + alomorfia da vogal temática (tema. anzol (*anzole). mais alomorfia da raiz representada pela supressão do /l/. mais crase): *barrile → barriles → barries → barriis → barris. final → finais. Ocorre com os nomes terminados em /al/.) 76 . farol → faróis. azul (*azule). contábil → contábeis. Exemplos: útil → úteis. mais desinência de número. paul → pauis etc.Unidade B . ágil → ágeis. fóssil → fésseis. Ocorre com os nomes terminados em /il/. sendo /i/ uma vogal tônica. mais alomorfia da raiz representada pela alteração da vogal /i/ em /e/. mais alomorfia da vogal temática. que têm um tema teórico em *lê. /el/.

). Às vezes. mais desinência de número. nosso → nossa. podem ocorrer alomorfias na raiz. Quanto à estrutura morfológica. acréscimo de desinência e síncope (supressão) da consoante /l/ intervocálica: qual – * quale → quales → quaes → quais. algum → alguma. feijão → feijões etc. do mesmo modo que nos nomes. alemão → alemães. além da desinência que marca o gênero ou o número. cão → cães. minha → minhas. Exemplos: fogão → fogões.Flexão Nominal Capítulo Ocorre com a maioria dos nomes terminados em “ao”. nomes e pronomes são muito semelhantes. aquele → aquela etc. nosso → nossos.) e em número (você → vocês. ǿǿ alomorfia na raiz: teu → tua. b) Na formação do plural: ǿǿ simples acréscimo da desinência: ele → eles. Exemplos: pão → pães. pronomes flexionam-se em gênero (ele → ela. 3. meu → minha. ladrão → ladrões. seu → sua. podendo ser descritos de acordo com os mesmos esquemas. qual → quais etc. ǿǿ acréscimo de vogal temática.6 Estrutura Pronominal Os nomes em “ão” que não se incluem nos esquemas 7 e 8 descrevem-se de acordo com os nomes do esquema 1. leitão → leitões. Esquema 8: ǿǿ T (R + VT) + DN + alomorfia da vogal temática (tema.) Ocorre com alguns nomes terminados em “ão”. este → estes. capitão → capitães etc. sapatão → sapatões. teu → tua. representadas da seguinte maneira: a) Na formação do feminino: ǿǿ elisão da vogal temática e alternância vocálica redundante: ele + a = elea → ela (/ê/ ~ /é/). Sendo assim. 77 03 . mais alomorfia da vogal temática /o/ para /e/.

Flexão Nominal e Verbal Também cabe observar que certos pronomes não apresentam flexão (outrem. la(s).1 Categorias Pronominais Se em tudo o que se disse até aqui nada diferem os pronomes dos nomes. me ≠ nos etc. ou seja. que. a(s). Nesses casos. Primeiramente. diferentemente dos nomes. representada pela alternância vocálica: Neutro isto isso aquilo tudo Masculino este(s) esse(s) aquele(s) todo(s) Feminino esta(s) essa(s) aquela(s) toda(s) b) caso Segundo a função que exercem na frase. Dito de outra forma. os pronomes são sempre constituídos de um morfema básico.Unidade B . tu ≠ vós. aos pronomes não se pode adicionar prefixos e sufixos. como.).6. (con)sigo. de acordo com Monteiro (2002. ninguém etc. (com)igo tu te ti. na(s) si. (con)vosco ele(s). as de complemento verbal e de adjunto adnominal). primário. a saber: a) gênero neutro A oposição às formas do masculino e feminino se faz mediante flexão interna. se. precisamos explicitar em que eles se diferenciam. a oposição pode se realizar mediante processos supletivos: PRONOMES 78 Retos Oblíquos átonos Oblíquos tônicos eu me mim. ela(s) se. a indicação de plural se faz por meio de formas supletivas: eu ≠ nós. observamos que. o(s). lo(s). p. por exemplo. os pronomes podem ser distribuídos em três categorias inexistentes para os nomes. quem. os pronomes não se submetem aos processos derivacionais. 94). lhe(s). em outros. os pronomes podem ser retos (quando exercem a função de sujeito ou predicativo) ou oblíquos (quando exercem outras funções. Além disso. (con)vosco vós vos vós. ela(s) . no(s). 3. ele(s). alguém. (con)tigo nós nos nós.

são chamados dêiticos. nós nos explicamos. eles se explicam. 2002. o referente do pronome eu muda conforme a situação de interação. “Os pronomes. torna-se eu quando toma a palavra. por sua vez. o pronome nós alterna-se com a forma a gente. devemos considerar que os pronomes e os nomes se diferenciam quanto à natureza semântica. o ouvinte (segunda pessoa) e o assunto (terceira pessoa). As oposições entre as diferentes pessoas se efetivam mediante radicais distintos. p. porque está na posição de escuta. corresponde à primeira pessoa. especialmente na fala. Você e vocês. nós se explica. Assim. ao contrário dos nomes. mas a concordância também se faz na terceira pessoa. As alterações no sistema pronominal de sujeito coocorrem com alterações no sistema flexional do verbo e no emprego de pronomes relativos e possessivos. caracterizado. Em resumo. mas a concordância de pronomes oblíquos e de verbos se faz com formas da terceira pessoa. em certos registros. Por exemplo. entre outros aspectos. por isso. Além disso. são pronomes de segunda pessoa. a gente. 3. a gente se explica. que está com o turno de fala. você se explica. tu te explicas.Flexão Nominal Capítulo No português atual. nós se explicamos. Essas mudanças trazem reflexos nos paradigmas dos pronomes oblíquos e na flexão dos verbos.2 Significado Dêitico Além dessas três características típicas dos pronomes. indicando a pessoa com quem se fala. têm-se realizações como: eu me explico. O eu é a pessoa que fala. quem é tu. inclusive na considerada culta. vocês se explicam. têm uma natureza ou função indicativa” (MONTEIRO. o paradigma dos pronomes pessoais está passando por um processo de mudança relevante. por exemplo. c) pessoa As pessoas gramaticais são três: o falante (primeira pessoa). pois indica a pessoa que fala.6. E. quando na função de pronome. tu se explica. 79 03 . 96) e. pela alternância de tu e você no singular e substituição de vós por vocês.

Unidade B . como aqui. que não distinguem as duas funções com base na estrutura mórfica. esse(s) e essa(s). Vejamos como se processa essa correspondência: 80 . aí. sucedeu algo muito estranho: violaram um túmulo e cortaram a cabeça do cadáver.6. coisas que estão próximas do ouvinte. ǿǿ Em Grão-Pará. os pronomes têm a função de retomar (indicar) algo que já foi dito (anáfora). funcionam como substantivos ou adjetivos. lá etc. ou ainda vai ser dito (catáfora). Além do significado dêitico. assim como os nomes. ǿǿ Escuta isso: mil reais não são dez. Levei dois anos para construí-la. No entanto. diferentemente dos nomes. os pronomes têm formas substantivas e adjetivas que possibilitam esquemas opositivos. usado pelo falante.3 Pronomes Substantivos e Pronomes Adjetivos Por fim. aquilo. O mesmo vale para certos advérbios. aquele(s) e aquelas(s). Ele foi omisso. ǿǿ Li um livro que nunca foi citado na aula de Literatura Brasileira I. indica um lugar ao qual o ouvinte se refere como aí. resta observar que os pronomes. isso. Exemplos de indicação anafórica: ǿǿ O governador sequer mencionou a questão. ǿǿ Moro em Florianópolis. É por isso que esses advérbios são classificados como advérbios pronominais. num determinado contexto. 3. coisas sobre as quais se está falando. este(s) e esta(s) indicam coisas que estão próximas do falante.Flexão Nominal e Verbal Os pronomes demonstrativos têm o seguinte uso básico: isto. Aqui há lindas praias. O aqui. Exemplos de indicação catafórica: ǿǿ Esta é minha última proposta: quinhentos e cinqüenta reais por mês. ǿǿ Já estou morando na casa nova.

ǿǿ Os pronomes. 81 03 . ǿǿ Nos pronomes. ǿǿ Os pronomes possibilitam esquemas opositivos entre formas substantivas (pronomes substantivos) e formas adjetivas (pronomes adjetivos). não se submetem aos processos derivacionais. os pronomes podem se referir ao que já foi dito (anáfora) e ao que vai ser dito (catáfora). os pronomes apenas indicam a situação espacial (são sinais). ao contrário dos nomes. há três categorias inexistentes nos nomes: caso. pessoa e gênero neutro.Flexão Nominal Capítulo Pronomes Substantivos Adjetivos eu meu tu teu ele(s). ǿǿ Os nomes representam as coisas e idéias (são símbolos). ela(s) dele nós nosso vós vosso isto este isso esse aquilo aquele alguém algum ninguém nenhum outrem outro quem qual tudo todo Resumo do Capítulo ǿǿ A flexão dos pronomes se realiza do mesmo modo que a flexão dos nomes. ǿǿ Além da significação dêitica (indicar no tempo e no espaço).

Acesso em 29/05/2008.Flexão Nominal e Verbal Leia mais! O Nome e suas Flexões. p.com/jolemos.geo/>.Unidade B . Estrutura da língua portuguesa. Disponível em: <http:// www. 87-96. Pessoa e Número. Petrópolis/RJ: Vozes. 82 . 1979.geocities. de José Lemos Monteiro. Joaquim M. In: CÂMARA Jr.

entre categorias de número e pessoa. resumindo-se a: R + VT1 + DMT1 + DNP (radical. as desinências servem para indicar o modo. Vamos ver como isso acontece? Primeiramente. no entanto. sempre nessa ordem. isto é. são também regulares. mais vogal temática. tempo. e. número e pessoa. no sentido de que existe um número menor de verbos que se flexionam dessa maneira. que os morfemas estejam sempre presentes. Não incluímos os tempos do imperativo afirmativo e do imperativo negativo porque. Veremos. Apesar dessa complexidade. depois. pois as oposições entre tempos e modos referem-se a. Para isso. então. Verbos também se flexionam. veremos estruturas verbais que pertencem aos paradigmas mais gerais e padronizados. mas verbos de situação. a estrutura básica dos verbos é relativamente simples. a rigor. 4. embora menos produtivos. que os verbos irregulares seguem paradigmas que.1 Estrutura Verbal Os verbos formam uma classe rica em possibilidades flexionais. cuidaremos dos verbos que desviam do padrão geral. treze tempos verbais. os verbos ditos regulares. Como tal. Neste caso. distribuídos nos modos indicativo e subjuntivo e formas nominais. não são tempos verbais. cujas formas são emprestadas pelo presente do subjuntivo e presente do indicativo. Vejamos alguns exemplos: 83 04 . pelo menos. as estruturas morfológicas do imperativo em nada se diferenciam das formas originais. mais desinência modo-temporal. não são apenas os nomes e pronomes que se submetem a processos de flexão. Isso não quer dizer.Flexão Verbal 4 Capítulo Flexão Verbal Na língua portuguesa. referem-se a três pessoas no singular e três pessoas no plural. mais desinência número-pessoal). do ponto de vista morfológico. apresentaremos um método de análise que visa a facilitar a flexão e a análise estrutural desses verbos. de certo modo.

“já que se torna impossível usar um tempo verbal. desde que se aplique adequadamente a técnica da comutação. compará-la com a forma de infinitivo e com a primeira pessoa do plural do tempo em que se encontra o verbo. amarel-a-r etc. 2002. Ao analisar uma forma verbal. Em estud-a-ría-mos. A primeira pessoa do plural exibe sempre a desinência [mos] (DNP). a saber: a) primeira conjugação: salt-a-r. em paradigmas flexionais distintos. 84 . podemos. 102). abstraindo o modo como se expressa a ação” (MONTEIRO.. ouv-i-r. b) segunda conjugação: corr-e-r. faz-e-r. por exemplo. de modo indissociável. Igualmente. as desinências verbais são cumulativas: as desinências modo-temporais expressam. é impossível interpretar que em [mos] o segmento [s] indica plural e o segmento [mo] indica primeira pessoa do plural. O correto é afirmar que o morfe [mos] é indivisível e tem a função de marcar a pessoa (primeira) e o número (plural). O infinitivo sem o [r] apresenta radical e vogal temática. isto é. as categorias de modo e tempo.Unidade B . escond-e-r etc. ao passo que as desinências número-pessoais expressam as categorias de número e pessoa.Flexão Nominal e Verbal Tema Verbo Desinências R VT DMT DNP fal- -a- -va- -mos escrever escrev- -e -r Ø trocam troc- -a- Ø -m servisse serv- -i- -sse Ø levemos lev- Ø -e- -mos falávamos Nos verbos. c) terceira conjugação: corrig-i-r. alud-i-r etc. a vogal temática é geralmente tônica – ao contrário dos nomes. por exemplo. Como já vimos no Capítulo II. danç-a-r.. A depreensão dos morfemas de uma estrutura verbal é relativamente fácil. p. não se pode dividir o segmento [ria] em [ri] e [a]. Após separar o tema (radical e vogal temática) e a desinência número-pessoal. o que sobra é a desinência modo-temporal. nos quais é átona – e tem a função de distribuir os verbos em conjugações.

Os tempos verbais são os seguintes: a) Modo indicativo ǿǿ presente ǿǿ pretérito perfeito ǿǿ pretérito mais-que-perfeito ǿǿ pretérito imperfeito ǿǿ futuro do presente ǿǿ futuro do pretérito 85 04 . que é formado pelo radical e pela vogal temática. no lugar da DNP [m]. A desinência modo-temporal (DMT). legalizar etc. cada um dos tempos verbais tem uma desinência modo-temporal. lavá[sse]mos. particípio e gerúndio. cumulativamente. Exemplos: descobrir. lava[ría] mos. Às vezes as desinências estão ausentes e. [va] desinência modo-temporal e [m] desinência número-pessoal. por isso. florescer. representar o tempo e o modo em que o verbo está. O tema. entre outras DMT. a pessoa (primeira. ǿǿ O infinitivo impessoal é: lav-a-r. examinar a forma verbal lavavam. segunda ou terceira) e o número (singular ou plural). ǿǿ A primeira pessoa do plural é: lav-á-va-mos. Por outro lado. podemos ter louvava[s]. redescobrir. correspondem ao morfema zero. Neste sentido. representa. nos quais não existem desinências número-pessoais. pode ser ampliado por meio de prefixos e de sufixos. lava[r]mos. sendo [lav] radical. lava[Ø]mos. todos os tempos e modos apresentam desinências modo-temporais e desinências número-pessoais. fica fácil concluir que a segmentação é lav-a-va-m. presta-se para. lavá[ra]mos. exceto os tempos de infinitivo impessoal. além de [mos]. por sua vez. Se compararmos essas duas formas com lavavam. Quanto à flexão. como já vimos. no lugar de [va] podemos ter lava[re]mos. realizada por meio de um morfema concreto ou de um morfema zero. A desinência número-pessoal (DNP). [a] vogal temática. louváve[is] ou louvava[Ø].Flexão Verbal Capítulo Vamos. cumulativamente. então.

então. também aspectivas. o pretérito imperfeito se refere a algo que começou no passado. Saliente-se que o aspecto do verbo pode ser também indicado por meio de perífrases verbais. CINTRA. mas é durativo. que as DMT1 seriam. apud CUNHA. 370). cursivo ou progressivo: vou estar realizando. ǿǿ aspecto continuativo: continua a beber. ǿǿ aspecto interativo ou freqüentativo: costuma tirar boas notas. correspondem a diferentes aspectos. ou seja: “uma categoria gramatical que manifesta o ponto de vista do qual o locutor considera a ação expressa pelo verbo” (BUREAU. o aspecto é conclusivo.Unidade B . 86 . além da idéia de tempo. p. ǿǿ aspecto perfectivo ou obrigatório: tenho de sair. Diferentemente. Nesse sentido. além de modo-temporais. ǿǿ aspecto conclusivo ou cessativo: acabou de beber. 1985. ǿǿ aspecto resultativo ou consecutivo: conseguiu realizar.Flexão Nominal e Verbal b) Modo subjuntivo ǿǿ presente ǿǿ pretérito imperfeito ǿǿ futuro c) Formas nominais ǿǿ infinitivo impessoal ǿǿ infinitivo pessoal ǿǿ particípio ǿǿ gerúndio Os tempos verbais. pode-se dizer. por exemplo. Exemplos: ǿǿ aspecto incoativo ou inceptivo: começou a beber. No caso do pretérito perfeito. pois se refere àquilo que começou e encerrou num certo momento do passado. ǿǿ aspecto durativo. O aspecto é a maneira de ser da ação.

logo após. de processo de alomorfia. ǿǿ As DNP são as mesmas para cada pessoa. sendo as três primeiras do singular e as três últimas do plural. As pessoas gramaticais serão numeradas de P1 a P6. Todas as formas são arrizotônicas.2 Padrão Geral de Flexão Verbal A seguir. as alterações que se fazem na flexão dos verbos em virtude do emprego de você(s) e a gente são perfeitamente segmentadas. 87 04 . apresentaremos algumas observações importantes. Também aqui valem as observações que fizemos no capítulo anterior sobre o paradigma dos pronomes retos. Faremos uma segmentação com base na primeira pessoa do plural e. ǿǿ Trata-se. nas três conjugações. seguindo os mesmos padrões aqui expostos. a DMT1 é realizada por meio de três morfes: [re]. pois o acento tônico está fora do radical. O padrão geral caracteriza-se pela ausência de modificações na raiz e regularidade no uso de desinências modo-temporais e número-pessoais. A) Futuro do Presente do Indicativo P1 re i re i re i P2 rá s rá s rá s P3 rá Ø rá Ø rá Ø re mos re mos re mos P5 re is re is re is P6 rã o rã o rã o P4 fal a vend e part i Observações: ǿǿ No futuro do presente. caracterizando-se como formas marcadas ou não. pois. nas três conjugações. vamos examinar a segmentação das formas verbais ditas regulares em todos os tempos verbais.Capítulo Flexão Verbal 4. Evidentemente. que são pronomes pessoais na função de sujeito. [rá] e [rã].

Flexão Nominal e Verbal Sendo assim. ensinar às crianças flexão de verbo na segunda pessoa do plural é o mesmo que ensinar uma regra de uma língua estrangeira. cuja desinência é [mos]. não existe marca desinencial. como em (nós) fala-mos. Sendo assim. B) Futuro do Pretérito do Indicativo P1 ria Ø ria Ø ria Ø P2 ria s ria s ria s P3 ria Ø ria Ø ria Ø ría mos ría mos ría mos P5 ríe is ríe is ríe is P6 ria m ria m ria m P4 fal a vend e part i Observações: ǿǿ O quadro de DMT1 é praticamente uniforme. havendo apenas a alomorfia [ría] ~ [ríe] em razão do contexto fonético. a P2 é marcada pela desinência [s]. ǿǿ As DNP são as mesmas do futuro do presente. o pronome vós é arcaico. exceto em P1 e P6. Isso tudo. No caso da segunda pessoa do plural. mas. o verbo perde a marca desinencial [mos]. tendo sido substituído integralmente pela forma vocês.Unidade B . ǿǿ Ocorre neutralização entre P1 e P3. há um descompasso entre a descrição oferecida pela gramática normativa e o uso efetivo da língua. em (tu) fala-s. Somente em certos textos escritos ainda encontramos estruturas com o pronome vós. evidentemente. que passa a ser zero. pois. pois tal flexão não é mais parte da gramática internalizada desses falantes nativos de português. ou seja. tem muitas implicações sobre o ensino de português. em (você) fala. Mas se no lugar do pronome nós usarmos a gente. 88 . o morfema número-pessoal é zero. como se observa. O mesmo critério se aplica à forma associada ao pronome nós. o que corresponde à estrutura verbal de terceira pessoa.

ǿǿ Também nesse tempo verbal. D) Pretérito Imperfeito do Indicativo P1 a va Ø i a Ø i a Ø P2 a va s i a s i a s P3 a va Ø i a Ø i a Ø á va mos í a mos í a mos P5 a ve is í e is í e is P6 a va m i a m i a m P4 fal vend part Observações: ǿǿ Com verbos de primeira conjugação. ǿǿ No caso da desinência [m].Capítulo Flexão Verbal C) Pretérito Mais-que-perfeito P1 ra Ø ra Ø ra Ø P2 ra s ra s ra s P3 ra Ø ra Ø ra Ø ra mos ra mos ra mos P5 re is re is re is P6 ra m ra m ra m P4 fal á vend ê part í Observações: ǿǿ Os morfes [ra] e [re] no pretérito mais-que-perfeito são átonos. Para maiores esclarecimentos. verifica-se neutralização entre primeira e terceira pessoas do singular. consideramos que tal grafema representa as diferentes realizações fonéticas do segmento. (1979. sugerimos consultar Mattoso Câmara Jr. 111-112). 46-47) e Monteiro (2002. a 89 04 . p. p. a DMT1 é [va] com alomorfia [ve]. sem entrar na discussão sobre a existência de um dígrafo formado por /ã/ ou de eventual vocalização. com verbos de segunda e terceira conjugação. ao contrário de [re] e [ra] no futuro do presente. que são tônicos.

punh + Ø + a + mos etc. trag[o] etc. podendo sofrer alomorfia em [ou]: est[ou]. d[ou]. nos quais é [Ø]. pois neste tempo verbal a vogal temática não se realiza. ǿǿ Também na P1 verifica-se. 109) ensina que. E) Presente do Indicativo P1 Ø Ø o Ø Ø o Ø Ø o P2 a Ø s e Ø s e Ø s P3 a Ø Ø e Ø Ø e Ø Ø a Ø mos e Ø mos i Ø mos P5 a Ø is e Ø is i Ø (i)s P6 a Ø m e Ø m e Ø m P4 fal vend part Observações: ǿǿ A DMT1 é zero em todas as pessoas e conjugações.. as vogais temáticas da segunda e terceira conjugações se neutralizam. na segunda e terceira conjugações. Como veremos adiante. ér + Ø + a + mos.Unidade B . a DMT1 é [ia] com alomorfe [ie]. O argumento de que. pois é assim que se realiza mesmo nos verbos em que a vogal temática é suprimida: vinh + Ø + a + mos. Convém. Mattoso Câmara Jr. 90 . essa desinência está presente mesmo em verbos irregulares. todavia. há neutralização com as formas do presente do subjuntivo não procede. ǿǿ Nos verbos de segunda conjugação. emprega-se a DNP [o]. a vogal temática sofre alomorfia. a supressão da vogal temática. Na P1. v[ou]. a vogal temática [i] é alomorfe da vogal temática [e] do infinitivo vend-e-r.Flexão Nominal e Verbal DMT1 é [a] com alomorfia [e]. em assim se procedendo. ǿǿ Exceto nas P4 e P5 (formas arrizotônicas). venç[o]. p. ao contrário do que ocorre na maioria dos tempos verbais. s[ou]. (1979. como ponh[o]. Em vend-í-a-mos. em todas as conjugações. considerar tão somente [a] ~ [e].

F) Pretérito Perfeito do Indicativo P1 e Ø i i Ø Ø i Ø Ø P2 a Ø ste e Ø ste i Ø ste P3 o Ø u e Ø u i Ø u a Ø mos e Ø mos i Ø mos P5 a Ø stes e Ø stes i Ø stes P6 a ra m e ra m i ra m P4 fal vend part Observações: ǿǿ Entre as DNP. 91 04 . pondes etc. dizemos ≠ dissemos. ǿǿ A VT1 da primeira conjugação modifica-se em [e] na P1 e em [o] na P3. Considerando que a DMT1 é zero. ǿǿ Na P1 da segunda e da terceira conjugações. a DNP reduz-se a [s] devido à crase com a vogal anterior tônica: parti(i)s > partis. pomos ≠ pusemos etc. mas. sabemos ≠ soubemos.Capítulo Flexão Verbal ǿǿ Na P4 da terceira conjugação. parti + i → parti. a DNP da P5 sofre alomorfia em [des]: vedes. inclusive nos verbos irregulares. em verbos irregulares fortes. ǿǿ As formas da P6 neutralizam-se com as formas do pretérito mais-que-perfeito. [stes] na P5 e [u] na P3. deduz-se que essas DNP exclusivas acumulam também a função de diferenciar o passado do presente. somos ≠ fomos. a VT1 da segunda conjugação modifica-se em [i] na P1. vindes. os radicais são diferentes (cf. registram-se [ste] na P2. exceto em P6. que são exclusivas deste tempo verbal. trazemos ≠ trouxemos. a DNP [i] é zero em virtude de ela ter sofrido crase com a VT: vendi + i → vendi.). credes. ǿǿ As formas da P4 neutralizam-se com as formas do presente do indicativo nos verbos ditos regulares. ǿǿ Nas formas monossilábicas de segunda e terceira conjugações (exceto verbo ser).

H) Pretérito Imperfeito do Subjuntivo P1 a sse Ø e sse Ø i sse Ø P2 a sse s e sse s i sse s P3 a sse Ø e sse Ø i sse Ø á sse mos ê sse mos í sse mos P5 á sse is ê sse is í sse is P6 a sse m e sse m i sse m P4 fal vend part Observações: ǿǿ A VT1 se mantém em todas as pessoas. ǿǿ As DNP são as mesmas para todos os verbos. ǿǿ As DNP são iguais em todas as conjugações.Unidade B . ǿǿ A DMT1 não sofre alomorfia.Flexão Nominal e Verbal G) Presente do Subjuntivo P1 Ø e Ø Ø a Ø Ø a Ø P2 Ø e s Ø a s Ø a s P3 Ø e Ø Ø a Ø Ø a Ø Ø e mos Ø a mos Ø a mos P5 Ø e is Ø a is Ø a is P6 Ø e m Ø a m Ø a m P4 fal vend part Observações: ǿǿ A VT1 é zero em todas as conjugações. 92 . havendo neutralização entre P1 e P3. ǿǿ As DMT1 são [e] para primeira conjugação e [a] para a segunda e terceira conjugações.

é preciso esforço (infinitivo flexionado). entendida como alomorfe de [is]. 93 04 . d) Para fazeres o serviço cedo. mas por critérios sintáticos e semânticos. conseqüentemente. Por exemplo: c) Se tu fizeres o serviço cedo. poderás ir embora (futuro do subjuntivo). nos verbos regulares costuma haver neutralização entre as formas verbais. ǿǿ A DNP [des] da P5. é preciso esforço (infinitivo flexionado). é própria do futuro do subjuntivo e do infinitivo flexionado. Essa neutralização desaparece nos chamados verbos irregulares fortes. A distinção.Capítulo Flexão Verbal I) Futuro do Subjuntivo P1 a r Ø e r Ø i r Ø P2 a re s e re s i re s P3 a r Ø e r Ø i r Ø a r mos e r mos i r mos P5 a r des e r des i r des P6 a re m e re m i re m P4 fal vend part Observações: ǿǿ As DMT1 e as DNP do futuro do subjuntivo são iguais às do infinitivo flexionado (ver a seguir). poderás ir embora (futuro do subjuntivo). não se faz pela estrutura mórfica. Por exemplo: a) Se tu acabares o serviço cedo. mas também ocorre no presente do indicativo com verbos monossilábicos. exceto com o verbo ser. Em vista disso. b) Para acabares cedo.

em virtude de a vogal temática de segunda conjugação ter sofrido alomorfia em [i].Unidade B . Em síntese: em vez de dois alomorfes. [re] seria alomorfe de [r]. seria preciso considerar o [es] alomorfe de [s] e. L) Formas Nominais infinitivo pessoal particípio gerúndio Rd VT DMT Rd VT DMT Rd VT DMT cant a r cant a do cant a ndo vend e r vend i do vend e ndo part i r part i do part i ndo Observações: ǿǿ As formas nominais dos verbos são marcadas por DMT: [r] = infinitivo.Flexão Nominal e Verbal J) Infinitivo Pessoal (flexionado) P1 a r Ø e r Ø i r Ø P2 a re s e re s i re s P3 a r Ø e r Ø i r Ø a r mos e r mos i r mos P5 a r des e r des i r des P6 a re m e re m i re m P4 fal vend part Observações: ǿǿ Para entender por que os morfes de P2 no infinitivo flexionado e no futuro do subjuntivo são segmentados em [re + s]. invoca-se o critério da simplificação. tem-se somente um. [do] = particípio. O [i] de vendido é alomorfe do [e] de vender. [ndo] = gerúndio. uma vez que a segmentação [r + em] é difícil de sustentar. na P6. 94 . existe neutralização entre P1 e P3. ǿǿ Tal como na maioria dos tempos verbais. ǿǿ Existe neutralização da vogal temática dos verbos de segunda e terceira conjugações. no particípio. Se a segmentação fosse [r + es].

Exemplos: verbo no infinitivo impessoal tema correspondente cantar [cant-a] esconder [escond-e] sentir [sent-i] medir [med-i] haver [hav-e] ouvir [ouv-i] caber [cab-e] dar [d-a] passear [passe-a] 95 04 . Exemplos: a) A menina tem amado muito seu pai. quando é verbo. repetem-se num conjunto de tempos verbais. então. identificar os temas verbais e os tempos formados com base em cada um desses temas. (substantivo) = [amad-o]. convém considerarmos que os verbos apresentam mais de um tema. Observe que a segmentação mórfica de amado nas funções de substantivo e adjetivo é diferente da segmentação do mesmo vocábulo na função de verbo. mas flexão. O pai mais amado do mundo é você (adjetivo) = [amad-o]. formando subsistemas coerentes e lógicos. não existe DMT1 na segmentação.Flexão Verbal Capítulo ǿǿ Às vezes a forma de particípio funciona como nome (substantivo ou adjetivo). amado é uma forma derivada de amar.3 A Lógica dos Temas Verbais Para melhor compreender o sistema flexional dos verbos. Esses temas básicos. as amadas. os amados. Tema 1 Forma do verbo no infinitivo impessoal (não flexionado). a amada. Nesses casos. Por outro lado. formados pelo radical (que inclui prefixos e sufixos derivacionais) + vogal temática (que pode ser Ø). sendo nome. Vamos. menos a desinência modo-temporal [r]. submete-se à flexão de gênero e número: o amado. conforme demonstraremos adiante. 4. O amado não deu notícias. não há derivação. (verbo) = [am-a-do]. inclusive dos irregulares. Quando é nome.

ǿǿ Particípio (T1 + do): cant-a-do ǿǿ Gerúndio (T1 + ndo): cant-a-ndo Tema 2 Forma do verbo na segunda pessoa do singular (P2) do pretérito perfeito do indicativo. segunda ou terceira conjugação. ǿǿ Infinitivo flexionado (T1 + r (re)): cant-a-r-Ø. cant-a-re-s etc. ǿǿ Futuro do presente do indicativo (T1 + re. cant-a-ria-s etc. canta-ra-s etc. cant-a-rá-s etc. Esse tema serve de base para a flexão dos seguintes tempos: ǿǿ Pretérito imperfeito do indicativo (T1 + va (ve) ou a (e)): canta-va-Ø. acrescido das respectivas DMT1 e DNP já vistas. conforme o verbo seja de primeira. rá ou rã): cant-a-re-i. 96 .Unidade B . o Tema 1 tem a estrutura formada pelo radical e vogal temática. ǿǿ Futuro do pretérito do indicativo (T1 + ria (rie)): cant-a-ria-Ø. menos a desinência número pessoal [ste]. Exemplos: Verbo na P2 do pretérito perfeito do indicativo Tema correspondente Canta-ste [cant-a] escondeste [escond-e] sentiste [sent-i] disseste [diss-e] houveste [houv-e] ouviste [ouv-i] coubeste [coub-e] deste [d-e] passeaste [passe-a] O Tema 2. serve de base para a flexão de verbos regulares e irregulares dos seguintes tempos: ǿǿ Pretérito mais-que-perfeito do indicativo (T2 + ra (re)): canta-ra. cant-a-va-s etc.Flexão Nominal e Verbal Em geral.

como em [disse ≠ dize]. que se mantém no futuro do subjuntivo. caib-a. [de ≠ da]. a análise das estruturas verbais não se altera. 97 04 .. ocorre neutralização entre T1 e T2. isto é. vamos compreender. Assim. que sendo o tema diferente do T1. se repete nas formas do presente do subjuntivo. das respectivas DMT1 e DNP. Tema 1 e Tema 2 são iguais.Flexão Verbal Capítulo ǿǿ Futuro do subjuntivo (T2 + r (re)): cant-a-r. ao passo que o T2 de ver é vi(ste). então. [coube ≠ cabe]. Tema 3 Forma do verbo na primeira pessoa do singular (P1) do presente do indicativo. O T2 de vir é vie(ste). obviamente. Exemplos: Verbo na P1 do presente do indicativo Tema correspondente canto [cant] escondo [escond] sinto [sint] digo [dig] hajo [haj] ouço [ouç] caibo [caib] dou [d] passeio [passei] O T3. naqueles em que a irregularidade existe apenas no T3 – que veremos a seguir –. temos: Como as formas do imperativo são emprestadas do presente do subjuntivo e do presente do indicativo (ver comentário sobre imperativo no início deste capítulo). Fututro do subjuntivo (T3 + e ou a): cant-e. acrescida. [houve ≠ have]. Usando esse princípio. caib-a-s etc. Esse princípio se aplica a todos os verbos. ouvi-r/ouvi-ste e passea-r/passea-ste. enquanto o verbo ver faz (eu) vir. por que o verbo vir faz o futuro do subjuntivo (eu) vier. senti-r/senti-ste. em que a vogal temática costuma ser zero. canta-sse-s etc. com a seguinte ressalva: nos verbos regulares e nos irregulares fracos. Exemplos: canta-r/canta-ste. cant-a-re-s etc. por exemplo. sejam regulares ou irregulares. esconde-r/ esconde-ste. cant-e-s etc. Podemos observar. menos a desinência número pessoal [o]. isto é. ǿǿ Pretérito imperfeito do subjuntivo (T2 + sse): cant-a-sse. essa alomorfia no tema se mantém nos tempos derivados.

uma síntese dos principais desvios do padrão geral na flexão dos verbos. menos a desinência modo-temporal [r]) ǿǿ T2 = tema do pretérito perfeito (segunda pessoa do singular. coubesse etc. couber. o tema é da segunda conjugação.) Há neutralização entre a primeira e a terceira pessoa do singular do pretérito perfeito: (eu) coube / (ele) coube. Isso acontece também com haver.Unidade B . No presente. seguindo de perto e de forma resumida o texto de Monteiro (2002. menos desinência número-pessoal [ste]) ǿǿ T3 = tema do presente do indicativo (primeira pessoa do singular. 2) caber ǿǿ T1 = cabe-r ǿǿ T2 = coube-ste (daí coubera. menos desinência número-pessoal [o]) Apresentaremos. saber. 98 . 121-134). querer. com vogal temática (é) em vez de (ê): estiv-e-ste / d-e-ste. dizer.) ǿǿ T3 = caib-o (daí caiba etc. 1) estar e dar ǿǿ T1 = esta-r / da-r ǿǿ T2 = estive-ste / de-ste ǿǿ T3 = est-ou / d-ou No pretérito perfeito. trazer.Flexão Nominal e Verbal 4. de forma esquemática. a seguir. p. a saber: ǿǿ T1 = tema de infinitivo (verbo. a DNP [ou] é alomorfe de [o].4 Verbos Irregulares ou Desvios do Padrão Geral Já vimos que a flexão dos verbos retoma certos temas.

. Assim devem ser entendidos outros verbos monossilábicos: ser. ver. vin-des. ocorre alomorfe . ǿǿ T3 = crei .cf.o / lei . subtrair. 4) crer e ler ǿǿ T1 = [cree] . distrair. atrair. ser (s-ou).). 99 04 . ten-des etc. *creer → cre + φ + r ǿǿ T1 = [lee] . estar (est-ou).ou em vez de -o (d-ou). esvair. extrair. sair. a DNP é -o e a VT1 é nasal: d-ã-o.a: o radical sofre ditongação. já que o [i] (DNP) se funde com o [i] temático: cr + i + φ + i = cr + i + φ + φ 5) dar ǿǿ T1 = [da] ǿǿ T2 = [de] (de-ste) No presente do indicativo. lêem. le-des. fenômeno próprio dos verbos monossilábicos. Na terceira pessoa do plural do presente do indicativo. Cf. os radicais [cre] e [le] reduzem-se a [cr] e [l]. *leer → le + φ + r A vogal temática fundiu-se com o [e] do radical. ir (v-ou). ter. tal como em vendi. pois o [i] temático é alomorfe de [e]. exceto do verbo ser.a.o / crei . Em (vós) cre-des. retrair.cf. O mesmo ocorre em lei . pon-des. tornando-se zero. [des] é alomorfe de [is]. As desinências de cri e li são vazias. No particípio e na primeira pessoa do singular do pretérito perfeito.Flexão Verbal Capítulo 3) cair A vogal temática se mantém na primeira pessoa do indicativo e presente do subjuntivo: T3 = cai-o (daí cai-a etc. vêem. Também é assim com trair. contrair. A vogal temática reaparece em: crêem.

não há VT: pus / pôs. No pretérito perfeito. (eu) estive / (ele) esteve. [traze] ǿǿ T2 = [disse]. 7) estar ǿǿ T1 = [esta] ǿǿ T2 = [estive] (estive-ste) ǿǿ T3 = [estej] (estej-a . fazer.presente do subjuntivo) No presente do indicativo. Em casos semelhantes. [trouxe] ǿǿ T3 = [dig]. apresenta alternância vocálica [i] ≠ [ê]. apresenta DMT1 -a. tra-φ-re-i / tra-φ-ria. Cinco verbos em -iar. trazer ǿǿ T1 = [dize].Unidade B . por analogia. odiar e remediar. faz. além do radical estej-. fa-φ-re-i / fa-φ-ria. registra os mesmos fatos do verbo dar. mediar. mudam o (i) em (ei) nas formas rizotônicas: ansiar. acompanhando os verbos da segunda e terceira conjugações. No presente do subjuntivo. [fize]. Nos tempos futuros. incendiar. Convém considerar que não há DNP e o (e) é VT.Flexão Nominal e Verbal 6) dizer. [trag] A vogal temática desaparece na terceira pessoa do singular do presente do indicativo: (ele) diz. fiz / fez. passeio / passeie. [faç]. 8) verbos em -ear As formas rizotônicas do presente do indicativo e presente do subjuntivo sofrem ditongação: nomeio / nomeie. os radicais se reduzem (são alomorfes) e a VT1 é zero: di-φ-re-i / di-φ-ria. traz. 9) ir ǿǿ T1 = [i] 100 . [faze].

ocorre alternância vocálica [u] ~ [ô] entre primeira e terceiras pessoas do singular. *poer→pôr ǿǿ T2 = [puse] ǿǿ T3 = [ponh] Presente do Indicativo R VT DMT DNP φ φ ponha o φ põ e s φ põ e φ φ po mos φ φ pon des φ põ e m 101 04 .Flexão Verbal Capítulo ǿǿ T2 = [fo] ǿǿ T3 = [v] ~ [va] Presente do Indicativo Presente do Subjuntivo R VT DMP DNP R VT DMP DNP v φ φ ou v φ á φ va i φ s v φ á s va i φ φ v φ á φ va φ φ mos v φ a mos i φ φ des v φ a des vã φ φ o v φ ã o 10) poder ǿǿ T1 = [pode] ǿǿ T2 = [pude] ǿǿ T3 = [poss] No pretérito perfeito. 11) pôr ǿǿ T1 = [po] Cf.

13) saber ǿǿ T1 = [sabe] ǿǿ T2 = [soube] ǿǿ T3 = [sei] — No presente do subjuntivo. de requerer. a vogal temática é zero.Flexão Nominal e Verbal No imperfeito do indicativo. há alternância para [punh]. Na terceira pessoa do singular do presente do indicativo. no entanto. requeir(o). Esse fenômeno também ocorre com venh-φ-φ-o / vinh-φ-a-φ. pois fundiu-se com o (e) do radical: *seer → ser ǿǿ T2 = [fo] ǿǿ T3 = [e] Presente do Indicativo 102 R VT DMT DNP s φ φ ou é φ φ s é φ φ φ so φ φ mos so φ φ is sã φ φ o . o radical é alargado com a ditongação do e → ei: quer(o) → queir(a). No pretérito perfeito. saib-φ-a-φ. 14) ser ǿǿ T1 = [se] — Vogal temática é zero.: punh-φ-a-φ. tenh-φ-φ-o / tinh-φ-a-φ. Ex. Note-se.Unidade B . a primeira e a terceira pessoa do singular se opõem por alternância vocálica: [u] ~ [ô] (pus ~ pôs). 12) querer ǿǿ T1 = quere ǿǿ T2 = quise No presente do subjuntivo.

o radical [te] reduz-se a [t]: t+i+do Presente do Indicativo R VT DMT DNP tenh φ φ o ten φ φ s tem φ φ φ te φ φ mos ten φ φ des tê φ φ m 16) vir ǿǿ T1 = [vi] cf. vi+i+r ǿǿ T2 = [tive] cf.φ . tive+ste ǿǿ T3 = [venh] cf. venh+o Presente do Indicativo Presente do Subjuntivo Pretérito Perfeito R VT DMT DNP R VT DMT DNP R VT DMT DNP venh φ φ o venh φ a φ vim φ φ φ ven φ φ s vi e φ ste vem φ φ φ vei φ φ o vi φ φ mos vi e φ mos vin φ φ des vi e φ stes vê φ φ m vi e ra m 103 04 .cf. tenh+φ+φ+o No particípio. tiveste ǿǿ T3 = [tenh] .cf.a .φ 15) ter ǿǿ T1 = [te] .Capítulo Flexão Verbal Presente do Subjuntivo R VT DMT DNP sej φ a φ No pretérito imperfeito: er . *teer ǿǿ T2 = [tive] .cf.

a vogal temática se funde com o (i) do radical: vi+re+i / vi+ria+φ. José Lemos.Unidade B .Flexão Nominal e Verbal Nos futuros do indicativo. elegem b) [ô] ~ [ó] : resolvo / resolva ~ resolves. elege. resolvem c) [i] ~ [é] : repito / repita ~ repetes. somem Idem consumir Leia mais! Estrutura Verbal. mas sem valor redundante com as desinências: a) [ê] ~ [é] : elejo / eleja ~ eleges. repetem d) [i] ~ [e] : sinto / sinta ~ sentes. Estrutura mórfica da língua portuguesa. 2002. Normélio. Mecanismo da Flexão Verbal e Desvios do Padrão Geral. 1986. a) {val-} ~ {valh-} b) {med-} ~ {meç-} c) {ped-} ~ {peç-} d) {perd-} ~ {perc-} e) {ouv-} ~ {ouç-} Há casos de alternância vocálica. some. sentem e) [u] ~ [ó] : cubro / cubra ~ cobres. repete. resolve. 73-89. 17) outras alomorfias Há verbos que se desviam do padrão geral porque sofrem alomorfia na primeira pessoa do singular do presente do indicativo. p. In: MONTEIRO. sente. Morfologia portuguesa. estendendo-se para os tempos derivados dessa pessoa. In: ZANOTTO. cobrem f) [u] ~ [õ] : sumo / suma ~ somes. Campinas/SP: Pontes. 104 . Caxias do Sul: EDUCS. cobre.

Unidade C O Léxico .

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1 Os Processos de Formação de Vocábulos Cotidianamente. são. resultado da interação com outras culturas e línguas – inclusive o acesso a novas tecnologias e conhecimentos – e. sugerimos a leitura do ensaio Neologismo: para entender a politicolíngua. Se o vocábulo for formado por um único radical primário. de José Ribamar Bessa Freire. Primeiramente. Sobre empréstimos lexicais. dos princípios da análise mórfica. por fim. Quais são essas possibilidades? Vale tudo. de Roberto Pompeu de Toledo e a canção Alfomega. ou as possibilidades de formação de novos vocábulos têm trilhas mais ou menos previsíveis a serem seguidas? O acervo lexical da língua portuguesa é constituído em sua maioria por vocábulos herdados do latim. tratamos dos conceitos básicos da morfologia. estudaremos a derivação em suas diversas modalidades. trataremos da composição.Formação dos Vocábulos 5 Capítulo Formação dos Vocábulos Nos capítulos anteriores. combinando radicais e morfemas derivacionais. em seguida. aos quais se acrescentaram outros emprestados de idiomas diversos. resultado da criativa e inovadora combinação de formas.uma piada de português. e. Exemplos: A título de curiosidade sobre criação de palavras novas. omitidos pelas gramáticas escolares. sugerimos a leitura do texto Taqui pra ti . apesar de serem bastante produtivos em português. 5. que ironiza o projeto de lei de Aldo Rebelo visando à proibição de uso de estrangeirismos. publicado no Diário do Amazonas. em parte. tem-se derivação. a que se acrescentam afixos (prefixos e sufixos). a título de curiosidade. Existem também na língua muitos vocábulos criados ao longo do tempo por meio de processos internos. em parte. Isso ocorre no ritmo das mudanças pelas quais passa a sociedade e é. às vezes ao sabor de modismos e preferências idiossincráticas dos falantes. em geral. ǿǿ panela + aço → panelaço ǿǿ re + ter → reter ǿǿ fácil + mente → facilmente 107 05 . Neste capítulo. enfocaremos a formação de vocábulos. apresentaremos outros processos de formação de palavras que. novos vocábulos são incorporados ao léxico da língua. como sabemos. Esses processos de formação de vocábulos são basicamente dois: derivação e composição. dos tipos e das classes de morfemas e da flexão nominal e verbal.

as características dos prefixos e dos sufixos. o verbo é derivado por sufixação (cart[ão]post[al][iz]ava) sobre um substantivo composto (cartão-postal). Em se tratando de derivação. p. que é derivado de respeitar. Sugerimos que você releia. que por sua vez é derivado de lei. formou-se de dois derivados de carta e posta. legalização é formado de legalizar. porta + [inha] + [ola] + [zinha] Seguindo o mesmo princípio.I. 1988. Há. que. A diferença entre prefixos e sufixos não é meramente distribucional. portinholazinha não é derivado de porta. que deriva de portinha. que deriva de porta. vocábulo derivado de legal. a adição não é simultânea. por sua vez. ao contrário. apud Carone.). com raras exceções. A lei dos C. Há uma cadeia derivacional. M. que é derivado de respeitoso. que é derivado de respeito. desrespeitosamente é derivado de desrespeitoso. uma ordem hierárquica. 40). no Capítulo II. Assim. portanto. mas de portinhola. parte do princípio de que as estruturas são combinações binárias. o processo se realiza mediante a adição de um afixo a um radical que pode ou não conter outros afixos. como se demonstra a seguir.I.Unidade C . podem combinar-se à vontade. Exemplos: ǿǿ dedo-duro ǿǿ pau-de-arara ǿǿ beija-flor ǿǿ auriverde Derivação e composição não se excluem mutuamente. Igualmente.O Léxico Por outro lado. temos composição. pois. A análise de vocábulos formados pela adição de dois ou mais morfemas derivacionais requer a aplicação da chamada lei dos constituintes imediatos (C. quando se combinam dois ou mais radicais. Em “Do lado do oriente o horizonte se cartãopostalizava clássico” (Andrade. 108 . de.

real + izar → realizar. Apesar de os C. que se transforma novamente em substantivo (formalização). Em a + pedr(a) + ej(ar). nesse caso. não podemos excluir individualmente o prefixo ou o sufixo. foi agregado ao verbo formalizar. as gramáticas costumam usar a expressão derivação progressiva. derivado de pedra. direção.) + izar → formalizar (cf. Não existem as formas *pedrejar e *apedra. também existem C. que exprime ação ou resultado da ação. dada uma forma primitiva. civil + izar → civilizar. teremos as seguintes possibilidades de produzir derivados: a) acrescentando prefixo(s): certo → in + certo = incerto b) acrescentando sufixo(s): certo → cert + ez(a) = certeza c) acrescentando prefixo(s) e sufixo(s): in + certo = incerto + eza = incerteza d) mudando o tema: estudar → estudo e) mudando a classe gramatical: dizer → o dizer Quando ocorre acréscimo de sufixos. o sufixo [çã(o)]. Por sua vez. o sufixo [iz(ar)] forma verbos a partir de bases adjetivais: formal (adj. descontínuos. que se transforma em verbo (formalizar). uma vez que o sentido do sufixo é reforçado pelo prefixo. só pode agregar-se a formas verbais. Nos verbos parassintéticos (ver adiante “derivação parassintética”). Conclui-se que a base.2 Tipos de Derivação O processo derivacional apresenta-se em várias modalidades. com supressão da desinência modo-temporal de infinitivo [r]. Por último. em reforço da noção freqüentativa do sufixo.I contínuos serem mais freqüentes na língua. No caso. ele seria derivado de reformalizar e não de formalização. Se o vocábulo fosse reformalização. o prefixo exprime a idéia de movimento. o sufixo [al] transforma o substantivo forma no adjetivo formal. pois na língua portuguesa os prefixos em geral são adicionados a verbos e a adjetivos. A rigor. ágil + izar → agilizar etc. O vocábulo primitivo tem seu volu- 109 05 . é um substantivo (forma) que se transforma em adjetivo (formal). 5. ou contíguos.Formação dos Vocábulos Capítulo Em formalização.I.).

pensamento. ao longo do tempo. admitindo inclusive a flexão e a derivação (contra → contras. portanto. o uso de super para designar supermercado é um caso de braquissemia. extra → extras. ou abreviação. assumiram a condição de raiz.2. contrariamente. o sufixo mente. Lembremos que vocábulos outrora derivados.1 Derivação Prefixal Há gramáticos e lingüistas que consideram a prefixação um processo de composição. na distinção entre radical primário ou raiz (forma primitiva). a seguir. radical secundário (forma primitiva + sufixo). no segundo capítulo deste livrotexto. utilizado nas frações ordinais – um dezesseis avos (1/16). todos esses tipos de derivação. sem perder de vista a sincronia. alma. entendimento) para ser uma forma presa. processo distinto da abreviatura. Veja-se.. usa-se a expressão derivação regressiva. que se junta aos adjetivos para formar advérbios. se há perda de material fônico. Ao contrário. Ao contrário. Isso se deve ao fato de que certos prefixos tornaram-se. resultando. corresponde à forma latina mente (= espírito). contra. radical terciário (radical secundário + sufixo) etc. contrário. por exemplo. 110 . com perda de elementos no fim do vocábulo. de ser uma forma livre distinta de mente (substantivo que reporta a intelecto.2. contrariado. e o sufixo particulariza o significado da base. formas livres. 5. O mesmo se pode dizer de super.O Léxico me aumentado. Como tal. A transformação de formas presas em formas livres também é atestada entre os sufixos. contrariar. contrariedade. Deixou. temos casos de derivação primária. como. Quando se emprega mais de um sufixo. desprendido de oito. cinco doze avos (5/12) etc. devem ser considerados formas simples e primitivas. superação. extrazinho). Veja o item 2. por exemplo. Como veremos adiante. do qual se derivam os vocábulos superar. O mesmo se pode afirmar em relação ao acréscimo de mais de um prefixo. secundária etc. que o vocábulo avos. em que a depreensão dos morfemas derivacionais não é mais possível. extra. portanto. com sentido diverso do original. Examinaremos. – é também o sufixo de oitavo.Unidade C .

2 Derivação Sufixal A derivação sufixal. Exemplos: a) E os cachorros não passam fome? – Capaz! Deixei um vizinho cuidando deles. c) Disseram na televisão que o povo deseja um terceiro mandato para Lula. registra-se o emprego desse vocábulo para outros fins. certos constituintes que já se empregam como preposições ou como advérbios produzem vocábulos compostos (sobreviver. consiste em acrescentar um sufixo a uma base. uma forma livre. menosprezar. como vimos alhures. b) Tu és gremista? – Capaz! Odeio esse time.Formação dos Vocábulos Capítulo Quando uma palavra autônoma. – Capaz! Quem pode dizer tamanha besteira? Os fatos acima apontados não impedem que a prefixação seja considerada processo de derivação. Evidentemente.). ou dito de outra forma: um item lexical ou construção sintática assume funções referentes à organização interna do discurso (Martelotta et al. como negar algo. contragosto. Outros que não são nem preposições. quando se tornam formas livres. contraproducente. aumentando o volume fonético e particularizando o sentido. No extremo sul do Brasil. assume atribuições gramaticais. Neste sentido. 5. de que deriva o substantivo capacidade. Exemplos: ǿǿ sal + [ado] → salgado (derivação primária) ǿǿ salgado + [íssimo] → salgadíssimo (derivação secundária) ǿǿ nome + [al] → nominal (derivação primária) ǿǿ nominal + [izar] → nominalizar (derivação secundária) ǿǿ nominalizar + [ação] → nominalização (derivação terciária) 111 05 . por exemplo. fazem parte do mecanismo da derivação. É o que ocorre. e não morfemas derivacionais. antigos prefixos devem ser considerados raízes. nem advérbios. 18). etc. duvidar etc. p. com o adjetivo capaz. 12). Neves.2. isto é. p. 2004. tal como preconiza a Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB).. diz-se que houve gramaticalização (Cf. maldizer. 1996.

por exemplo.Unidade C . vamos examinar alguns verbos derivados de flor. Observemos. Como explicar a derivação então. mas sem um sufixo derivacional concreto. sendo uma derivada da outra. que caracteriza o processo derivativo: fuzil + Ø + a + r. 112 . Observemos: ǿǿ flor + ej + ar → florejar ǿǿ flor + esc + er → florescer ǿǿ flor + isc + ar → floriscar ǿǿ flor + Ø + ar → florar ǿǿ flor + Ø + ir → florir Os três primeiros verbos derivados de flor têm sufixo concreto. do mesmo modo é possível estendê-lo ao mecanismo derivacional. pois a terminação -ar é formada pela vogal temática verbal [a] e pela desinência modo-temporal de infinitivo [r]. Vê-se logo que se trata de um derivado de fuzil. sem que exista um morfema derivacional a ser destacado na estrutura secundária. que entre a forma primitiva fuzil e a forma derivada fuzilar existe um sufixo [Ø]. Para que essa hipótese explicativa fique mais clara. senão pelo morfema zero? Outros exemplos de derivação por morfema zero: ǿǿ capim → capim + Ø + ar ǿǿ espuma → espum(a) + Ø + ar ǿǿ confim → confin + Ø + ar ǿǿ cisco → cisc(o) + Ø + ar Também nesses exemplos é clara a relação semântica entres a forma à esquerda e a forma à direita. mas os dois últimos não. então.O Léxico A) Derivação por Sufixo Zero Assim como existem formas flexionadas marcadas por morfema zero. Deduz-se. uma vez que existem formas derivadas sem a presença de morfema aditivo. o vocábulo fuzilar.

ataque e amparo são vocábulos derivados. p. isto é. 23). 133. e o verbo palavra primitiva. A essa altura. 2002. verificar-se-á o contrário”. será palavra derivada. todavia. razão por que é conveniente adotar-se o critério do morfema zero. atacar e amparar. pois na língua certos substantivos abstratos transformam-se em concretos: o almoço. É o caso. isto é. que esse critério nem sempre resolve a questão. azeite e escudo. requerem explicação por meio da hipótese de morfema zero. saltar → salto). Assim. anel → anelar). apesar de não existir um sufixo derivacional concreto. ora é o nome que é derivado do verbo. v. a conta etc. de dançar. fica claro que uma forma é derivada da outra. de uno. se o nome denota algum objeto ou substância. Antes disso. p. azeitar e escudar são derivados de âncora. O morfema zero serve tanto para explicar formar derivadas de nomes (verbos denominais. nota 4). dança. quanto formas derivadas de verbos (nomes deverbais. respectivamente. “se o substantivo denota ação. Monteiro. Ao contrário. o alimento. o salto (do sapato). v. Como saber o que é primitivo e o que é derivado? Será que luta origina-se de lutar. derivadas de estruturas com sufixo concreto na derivação primária. ancorar. cuja derivação de um só pode ser explicada mediante morfema zero. Em ambos os casos.Formação dos Vocábulos Capítulo O princípio do morfema derivacional zero se aplica eventualmente na derivação de formas terciárias. já tinha definido os deverbais como “nomes de ação. você deve ter percebido que resta um problema a resolver: ora o verbo é derivado do nome. de modo semelhante. Lembramos. Observemos: ǿǿ forma → form(a) + ato ǿǿ formato → format(o) + Ø + ar No léxico existem outras formas associadas que. Mattoso Câmara Jr.g. 1992. por exemplo. mas. substantivos abstratos que correspondem a verbos cognatos” (cf. 113 05 . g. ou é o contrário que se verifica? Segundo Mário Barreto (1982 apud Kehdi.

Unidade C . Segundo Evanildo Bechara (1987. Exemplos: ǿǿ ameaçar → ameaç + Ø + a / ameaç + Ø + o ǿǿ trocar → troc + Ø + a / troc + Ø + o ǿǿ gritar → grit + Ø + a / grit + Ø + o Em todos os exemplos acima. na derivação de nomes deverbais por sufixo zero. 114 . Exemplos: ǿǿ cortar → cort + Ø + e ǿǿ pescar → pesc + Ø + a ǿǿ tratar → trat + Ø + o ǿǿ estudar → estud + Ø + o ǿǿ abater → abat + Ø + e ǿǿ golpear → golp + Ø + e ǿǿ rodear → rodei + Ø + o ǿǿ rezar → rez + Ø + a ǿǿ tosar → tos + Ø + a Há deverbais regressivos com duas formas paralelas: uma com tema em [a]. mas ainda na linguagem cuidada.O Léxico B) Derivação Regressiva e Abreviação Às vezes. “a abreviação consiste no emprego de uma parte da palavra pelo todo. p. outra em [o]. convém distinguir os dois processos. Fenômeno semelhante à derivação regressiva é a abreviação ou redução (não confundir com abreviatura). É comum não só no falar coloquial. a forma derivada apresenta um volume fonético menor do que a forma primitiva. 185). Apesar de alguns autores incluírem a abreviação na derivação regressiva. por brevidade de expressão: extra por extraordinário ou extrafino”. a forma derivada apresenta perda fonética na comparação com a forma primitiva. como vimos. justificando o enquadramento como derivação regressiva.

Os alunos costumam chamar o professor de fessô. 115 05 .Formação dos Vocábulos Capítulo De modo geral. ou tô por estou. ǿǿ extraordinário (adj. como vimos. as formas abreviadas não mantêm um padrão homogêneo. Apesar de a supressão de elementos terminais (apócope) ser predominante. Exemplos: ǿǿ supermercado → super ǿǿ cinematógrafo → cinema ǿǿ cinema → cine ǿǿ Florianópolis → Floripa ǿǿ telefone → fone ǿǿ poliomielite → pólio ǿǿ quilograma → quilo ǿǿ motocicleta → moto ǿǿ automóvel → auto ǿǿ vice-presidente → vice ǿǿ pneumático → pneu ǿǿ panamericano → pan ǿǿ Belo horizonte → Belo ǿǿ Bilhão → bi Na linguagem oral. ou apenas de sô.) ǿǿ sarampão (subst.) → extra (adj.) ǿǿ fotografia (subst.) → foto (subst. na abreviação. em substituição a obrigado diz-se brigado. a forma derivada permanece na mesma classe gramatical. você se transforma em ocê. ou simplesmente ce.) → sarampo (subst. na derivação regressiva ocorre mudança de classe gramatical: verbos passam a substantivos. ou tamo(s) por estamos etc. ela também pode ocorrer no meio (síncope) ou no começo da palavra (aférese). são freqüentes os vocábulos reduzidos.) Além disso. embora haja redução do vocábulo.

tampouco *envelho. O fato de o prefixo ter valor semântico seria o bastante para descaracterizar a parassíntese. derivada de velho por meio do prefixo [en] e do sufixo [ec(er)]. é. José Lemos Monteiro (2202. é possível admitir a existência da prefixação nos casos em que. Tomemos com exemplo a forma envelhecer. os prefixos [a] e [en]. um processo de formação de verbos nos quais ocorrem. Não existe *velhecer. nesse caso. 5. estabelece-se uma diferença de sentido entre elas.3 Derivação Parassintética A derivação parassintética consiste na adjunção simultânea de prefixo e sufixo a um radical. por exemplo. um derivado prefixal.Unidade C . Por outro lado. além de um sufixo real ou suposto (ver derivação por morfema zero). Às vezes. mesmo não existindo a base como forma livre. Ou como afirma Kehdi (1992. em geral. com base no princípio da sincronia. 135) considera que a parassíntese é um processo que se aplica exclusivamente aos verbos. ǿǿ O cine Guadalajara fechou as portas. 19). aparentemente formado por parassíntese. de tal modo que a supressão de um ou de outro resulta em uma forma inexistente na língua. emprega-se cinema. 116 .O Léxico Ainda uma observação: a forma abreviada pode coexistir com a forma da qual deriva. Para ele. cujo valor semântico é meramente aspectual. ǿǿ Vai ao cinema (e não *Vai ao cine). ao contrário do que afirmam algumas gramáticas. “o exame do subsistema pode também revelar que um determinado vocábulo. O emprego das duas formas é pautado por um critério distribucional. uma vez que na formação dos nomes a adjunção de prefixos e sufixos nunca é simultânea. na omissão deste.2. não tem formação parassintética. na verdade. p. seja viável estabelecer comutações apoiada no testemunho dos falantes ou na analogia com outras derivações. o vocábulo desalmado. p. Por exemplo. cine só é empregado precedendo o nome do cinema. A parassíntese é. argumenta que. São vocábulos nos quais prefixo e sufixo apresentam solidariedade formal e semântica.

p. Em adoçar. citados por Monteiro (2002. Em descobrimento não se pode falar em derivação parassintética. A inexistência de *quebrantável e * in-quebrantar tem conduzido alguns a considerar inquebrantável como parassintético. * impensar). impensável. A ordem derivacional prefixal ou sufixal em geral obedece a certos princípios hierárquicos. e não ao verbo (*inquebrar. constata-se a existência do prefixo [a] e do sufixo [ic(ar)]. tem-se florescer. em que o prefixo se atrela ao adjetivo. pode-se subtrair o prefixo e temos felizmente. no entanto.I. Em adocicar. *indesejar. Situação distinta é aquela em que a adjunção de prefixos e sufixos não é simultânea. indesejável. explicáveis com base na análise dos Constituintes Imediatos (C. o adjetivo inquebrantável.).Formação dos Vocábulos Capítulo Tome-se. por exemplo. De infelizmente. pode-se subtrair o sufixo e temos infeliz. outros parassintéticos. que é derivado de flor. No entanto. a seguir. Assim: ǿǿ a + doc + ic + a + r ǿǿ a + doç + Ø + a + r 117 05 . variando o sufixo: ǿǿ mole → a + mol + ent + a + r ǿǿ pedra → a + pedr + ej + a + r ǿǿ tarde → en + tard + ec + e + r ǿǿ morte → a + mort + iz + a + r ǿǿ formoso → a + formos + e + a + r ǿǿ redondo → a + rredond + Ø + a + r Também na derivação parassintética é útil a pressuposição do morfema derivacional zero. Tomemos como exemplo os verbos adoçar e adocicar. 139). mostra-nos que esses adjetivos são todos prefixais”. conforme já explicamos. pois de cobrir derivou-se descobrir e deste derivou-se descobrimento. ambos derivados do adjetivo doce. o sufixo é zero. a ocorrência de inquebrável. Antes de se ter reflorescer. Relacionamos. ou podem-se subtrair prefixo e sufixo e tem-se feliz.

ǿǿ mato → matuto → amatutar ǿǿ casa → casal → acasalar Rigorosamente. a fim de evitar dúvidas quanto à interpretação de certos fatos. O mesmo se aplica a inúmeros outros verbos parassintéticos. no entanto. citam-se: ǿǿ pronto → a + pront + Ø + a + r ǿǿ largo → a + alarg + Ø + a + r ǿǿ terra → a + terr + Ø + a + r ǿǿ jardim → a + jardin + Ø + a + r ǿǿ grupo → a + grup + Ø + a + r ǿǿ vermelho → a + vermelh + Ø + a + r ǿǿ fino → a + fin+ Ø + a + r ǿǿ quente → re + quent + Ø + a + r ǿǿ fresco → re + fresc + Ø + a + r ǿǿ bainha → em + bainh + Ø + a + r ǿǿ azul → a + azul + Ø + a + r ǿǿ amarelo → a + amarel + Ø + a + r Nos dois últimos exemplos.O Léxico Esse critério permite explicar de modo coerente que adoçar é derivado de doce. formam-se. admite-se que houve crase do /a/ do radical com o prefixo [a]. Não raro o morfema zero aparece depois de outro sufixo. Nesses casos a parassíntese ocorre numa base já formada por derivação sufixal. verdejar etc. devendose aplicar a lei dos constituintes imediatos para a correta análise. que há outros derivados de adjetivos que indicam cor sem parassíntese: branquear. Observa-se. o morfema zero deve ser subtendido no radical do vocábulo parassintético mesmo quando ele passa a formar um novo derivado. por exemplo: ǿǿ grup(o) → a + grup + Ø + a + r → a + grup + Ø + a + ment + o ǿǿ cas(a) → cas + al → a + cas + al + Ø + a + r → a + cas + al + Ø + a + ment + o 118 . entre os quais.Unidade C . Nessa direção.

consegui um dez. anda rápido etc. convocação.Formação dos Vocábulos Capítulo Em síntese.). c) de adjetivo a substantivo: (o) circular. navio pirata.) e gramaticalização (todos foram atendidos. sejam considerados parassintéticos. mesmo que seja zero. disse um ai e mais nada etc. predominam os prefixos [a] e [em]. salvo meu pai). subterrâneo. resta *manhecer. Valter Kehdi (1992. 5. Os casos mais freqüentes são de substantivação (o contra. é discutível afirmar que reverdejar. (o) brilhante. Bravo!. Ao contrário. ou seja. o prefixo de um parassintético é assemântico.4 Derivação Imprópria Além da formação de vocábulos pelo acréscimo ou subtração de afixos a um radical. este a é um artigo. sobre condicionar. requentar.. Isolando-se o [a] de amanhecer. d) de substantivo a adjetivo: (motorista) burro. tem-se a formação de vocábulos por mudança de classe gramatical. b) de substantivo comum a próprio: Figueira. entre outros. os vocábulos parassintéticos apresentam as seguintes características: a) Prefixo e sufixo. mas também há adjetivação (comício relâmpago. c) Retirando-se o prefixo de um parassintético. (guerra)-relâmpago. (o) ouvinte. se não houvesse o se. macadame. são adjuntados simultaneamente à base. Machado. 29-30) lista as seguintes possibilidades: a) de substantivo próprio a comum: quixote. b) Em geral. d) Na formação dos parassintéticos.2. Por isso. champanha. o viajar. Fontes. adverbialização (ter celular custa caro. pombo-correio etc. isolando o [re] de recondicionar. 119 05 . p. e) de substantivo/adjetivo/verbo a interjeição: Silêncio!. é vazio de significação. não restará uma forma livre em uso na língua..). o não. Viva!. sem que se processe qualquer alteração mórfica.. tu és o máximo.

desinência de gênero [Ø]. como a pluralização (os sins. quando substantivo. (o) porquê. (teu) andar. Ocorrendo a substantivação. os processos básicos de derivação. é no eixo sintagmático extravocabular que se marca a função substantiva. Nesses casos. diz mais respeito a aspectos de estrutura sintática do que a mecanismos derivacionais.. Sendo assim. quer. Na substantivação. ferida. Trata-se de um mecanismo especial que. h) de adjetivo a advérbio: (falar) alto. vista. que assume o papel de translativo. os haveres etc. (o) falar. g) de verbo e advérbio a conjunção: quer.. Monteiro (2002. os vocábulos admitem ser precedidos de artigo. Sendo substantivo. Neste capítulo.). exceto.. vogal temática [e].. desinência de número [Ø]. o vocábulo se submete a procedimentos típicos do nome. A NGB e a maioria dos gramáticos denominam este processo de derivação imprópria.. mas. seja. ora. sufixo derivacional zero [Ø]. ora. i) de particípio (presente/passado) a preposição: mediante. seja. salvo. a rigor. 146) sugere que os vocábulos substantivados sejam analisados morficamente de modo diverso da palavra primitiva. O princípio é de que a palavra convertida a outra classe gramatical passa a ser analisada morficamente de modo distinto da primitiva. Ou seja. mas há quem o denomine conversão (Bechara). (o) não. (custar) caro. p. Em resumo. j) de particípio passado a substantivo e adjetivo: resoluto. também se torna eficaz a alternativa de se considerar a hipótese do morfema zero.. examinamos. sete (numeral) constitui radical atemático. k) de vocábulos invariáveis a substantivos: (o) sim. as noções essenciais sobre a derivação são as seguintes: 120 .Unidade C . por exemplo. é bipartível em R + VT: [set] + [e]. hipóstase (Charles Bally) ou mesmo translação (Tesnière).O Léxico f) de verbo a substantivo: estudar (é necessário). sete teria os seguintes constituintes: raiz [set]. até aqui.

ocorrem dois os mais semantemas (duas ou mais raízes). a parassíntese. a regressiva e a imprópria. A seguir. um vocábulo com mais de um sufixo ou prefixo não deriva diretamente do núcleo. radical primário). nos quais se registra um único semantema (raiz. ǿǿ Os casos mais comuns de derivação imprópria são: a substantivação. ǿǿ A derivação regressiva e a imprópria devem ser estruturalmente interpretadas como processos de derivação por sufixo zero.3 Composição Vimos até aqui.. ou entre uma base autônoma e outra não-autônoma e vice-versa. Vamos ver como se configura essa questão? Composição é um processo de formação de vocábulos novos pela combinação de vocábulos já existentes: porco-espinho. mas de formas secundárias. ǿǿ As modalidades principais de derivação são: a prefixação. quebra-nozes. 121 05 . Um aspecto relevante na composição é que os elementos primitivos perdem a significação própria em favor de um novo conceito. o que significa alterar o tema. neste capítulo. além do núcleo. Ao contrário dos processos de derivação. girassol. ou mesmo alterando a classe gramatical. apresentam morfes capazes de produzir novos vocábulos. ou pela combinação de bases não-autônomas. a adverbialização e a gramaticalização. Um substantivo como criado-mudo designa um móvel que não é criado e é mudo tanto quanto uma mesa. as diversas possibilidades de formar vocábulos novos por intermédio de prefixos e sufixos. a sufixação.Formação dos Vocábulos Capítulo ǿǿ As formas primitivas se opõem às derivadas. pé-de-galinha etc. Uma delas é a composição. veremos que há outras possibilidades de formar vocábulos novos. ǿǿ Pelo princípio dos constituintes imediatos. a adjetivação. nos processos de composição. formado pela combinação de todas as partes. ǿǿ Os morfes derivacionais acrescentam ao núcleo um significado acessório ou transferem a palavra de uma classe ou função gramatical para outra. Estas. 5.

um sofá ou um guarda-roupa. ao contrário.3. Por exemplo. 2) A idade média das pessoas aqui é 35 anos. elementos estereotipados que apresentam unidade semântica e morfossintática. e vice-versa. nada tem a ver com pé ou com moleque. Visto que sobre os aspectos semânticos dos compostos já falamos. Há.Unidade C . pé-demoleque. e qualquer adjetivo só poderá ser usado à esquerda ou à direita: ǿǿ bom ganha-pão 122 . Como se observa.O Léxico uma cadeira. os componentes dos compostos podem estar ligados (pernalta). 5. Surge daí uma dificuldade: como distinguir certos vocábulos compostos de simples locuções? Consideremos. em que nos basearemos para afirmar que em (1) Idade Média é composto e em (2) idade média é locução? Para auxiliar na caracterização dos compostos. vocábulos compostos que mantêm certa relação semântica com o significado dos vocábulos primitivos que entram na sua formação e outros que não apresentam nenhuma relação significativa. guarda-chuva é um objeto que se presta a nos proteger da chuva. na obra Teoria da Linguagem. a exemplo dos sintagmas fixos. as frases abaixo: 1) Na Idade Média surgiu a lenda do Santo Graal. fim de semana). por exemplo. Graficamente. O substantivo ganha-pão. vamos nos ater aos aspectos morfossintáticos. todavia. veremos o que diz Kehdi (1992).1 Traços Lingüísticos dos Compostos Os compostos são. sobre sintagmas fixos. São quatro as propriedades morfossintáticas dos compostos: Primeira Propriedade A ordem dos termos é rígida e entre eles não se pode introduzir nenhum outro elemento. Abstraindo a indicação gráfica do uso das maiúsculas. hifenizados (mãe-d’água) ou soltos (Idade Média. não aceita a inversão. com base em estudo de Herculano de Carvalho. vocábulos compostos comutam-se com vocábulos simples.

O mesmo não acontece em unha-de-fome. o determinante pode assumir o lugar do todo: circular por ônibus circular. auto por automóvel. ǿǿ estrada de ferro nova ǿǿ nova estrada de ferro ǿǿ *estrada nova de ferro ǿǿ bicho grilo inconveniente ǿǿ inconveniente bicho grilo ǿǿ *bicho inconveniente grilo Por outro lado. avarento etc. Essa possibilidade também existe para certos compostos eruditos. fone por telefone. considerar que em certos compostos nos quais um elemento é determinante e outro é determinado. não só aceita a inversão. como também possibilita a intercalação. um sintagma livre como garota inteligente. Segunda Propriedade Os elementos dos compostos não podem. que existem compostos que mantêm a mesma significação. não se admite a supressão de uma das partes: conheci um mão. como carro à gasolina. mesmo com a inversão dos componentes: planalto = altiplano. Do mesmo modo. conheci um de-vaca. é possível substituir gasolina por álcool.Formação dos Vocábulos Capítulo ǿǿ ganha-pão bom ǿǿ *ganha-bom-pão (inaceitável) É essa propriedade que esclarece o caráter de compostos para sintagmas como estrada de ferro e bicho grilo. no entanto. conheci um vaca. É preciso considerar. isoladamente. inteligente garota. Num sintagma livre. franco-italiano = ítalo-francês. a única substituição possível é o composto por outro composto ou outra palavra simples: mão-de-vaca. garota esperta e inteligente. capital por cidade capital. como foto por fotografia. 123 05 . ser substituídos ou suprimidos. no entanto. Nesse caso. Convém.

peixe-boi. vaivém (vai e vem). no mesmo contexto. ǿǿ Gosto de [maçã]. Em porco-espinho. Também não existe conector em azul-marinho (azul e marinho). alto-forno. que tem função restritiva em relação ao primeiro. por um vocábulo simples: ǿǿ Gosto de [manga-rosa]. ǿǿ [João Gilberto] lembra [Bossa Nova].O Léxico Terceira Propriedade Os compostos podem apresentar construções sintática anômalas. 124 . como se demonstra a seguir: 3) substantivo + substantivo: tamanduá-bandeira. papel-moeda. ǿǿ A [Arábia Saudita] se mantém neutra sobre o conflito.Unidade C . Quarta Propriedade O composto funciona sintaticamente como se fosse uma só palavra.2 Estrutura do Compostos A estrutura dos compostos é bastante variada. ǿǿ O [joão-de-barro] está feliz. 4) substantivo + preposição + substantivo: pé-de-vento.3. está ligado ao outro substantivo “porco” sem auxílio de preposição (porco de espinho). pai de família. Essa propriedade assegura que o vocábulo composto seja substituído. o segundo elemento “espinho”. ǿǿ O [Brasil] se mantém neutro sobre o conflito. aguardente. belas-artes. por exemplo. 5) substantivo + adjetivo (ou vice-versa): amor-perfeito. ǿǿ [Toquinho] lembra [samba]. ǿǿ O [tucano] está feliz. arroz-de-festa. 5.

8) pronome + substantivo: meu-bem. a) apenas o substantivo é regente de concordância. 7) numeral + substantivo: terça-feira. trigêmeo. sempre-viva. não-machadiana. Maria-vai-com-as-outras. ou + pronome + verbo): benquerença. vangloriar-se. ganha-pouco. 5. beija-flor. b) um substantivo. Trataremos dessas regras gerais. diferentemente do que ocorre com os derivados.3 Flexão de Número dos Compostos Se os compostos apresentam uma estrutura sintática. Todos os exemplos mostram que a estrutura dos compostos é sintática. sem entrar no detalhamento das exceções e particularidades listadas pelas gramáticas escolares. Vossa Excelência. 9) verbo + substantivo: lança-perfume. que pode ser de coordenação ou de subordinação. 10) verbo + verbo (ou verbo + conjunção + verbo): corre-corre. a flexão de número desses vocábulos segue os mesmos princípios da concordância nominal oracional. ou seja. leva-e-traz. 13) Grupos de vocábulos e construções oracionais: Deus-nos-acuda. Há duas normas fundamentais de concordância nominal: Isso significa que os elementos que fazem parte do vocábulo composto mantêm entre si uma relação sintagmática. destacamos as principais regras de flexão de número dos compostos: 125 05 .3. vaivém. A partir desses dois princípios interligados. surdo-mudo. ou + verbo. tragicômico. substantivo não concorda com substantivo. guarda-roupa.Formação dos Vocábulos Capítulo 6) adjetivo + adjetivo: luso-brasileiro. ainda que determinante de outro. 11) advérbio + substantivo (ou + adjetivo. o mama-na-égua. Essa característica explica muitos casos de flexão de número dos compostos. bem-querer. Vamos tratar disso agora. malmequer. três-marias. 12) verbo + advérbio: pisa-mansinho. não se flexiona para concordar. Nosso Senhor.

sem determinância entre si: ambos se flexionam no plural (aluno-mestre → alunos-mestres. ǿǿ Substantivo + (preposição) + substantivo: o substantivo determinante não se pluraliza. exceto se já é pluralizado na formação da composição (navio-escola → navios-escola. pois substantivo não concorda com 126 . ǿǿ Verbo determinado por complemento verbal: o complemento pode estar no singular ou no plural (guarda-chuva → guardachuvas.O Léxico ǿǿ Substantivo + adjetivo e vice-versa: adjetivo concorda com substantivo (guarda-civil → guardas-civis. alto-relevo → altosrelevos. ǿǿ Adjetivo determinado por substantivo ou por outro adjetivo: não há flexão no composto. peso-morto → pesos-mortos). ǿǿ Verbo determinado por advérbio ou outra palavra invariável: não há flexão nesses casos ((o) bota-fora → (o)s bota-fora. gatode-botas → gatos-de-botas). sessão lítero-musical → sessões lítero-musicais). excluir o –s no primeiro elemento: (o) treme-treme → (os) treme-tremes. surdo-mudo → surdos-mudos).Unidade C . (o) tico-tico → (os) tico-ticos. recomenda-se. por isso só o último elementos pode flexionar-se (pontapé → pontapés. Se forem verbos repetidos ou nomes onomatopéicos coordenados. saca-rolha → saca-rolhas). ǿǿ Compostos sem hífen ou com o primeiro elemento apocopado: a falta de hífen impede a inserção de morfemas. cirurgião-dentistas → cirugiões-dentistas. (o) cola-tudo → (os) cola-tudo). bel-prazer → bel-prazeres. mula-sem-cabeça → mulas-sem-cabeça. ǿǿ Adjetivo formado por adjetivo-adjetivo: flexiona-se apenas o último elemento (acordo luso-brasileiro → acordos luso-brasileiros. ǿǿ Substantivos / adjetivos coordenados. por questões de eufonia. pernalta → pernaltas. pão-de-ló → pães-de-ló. grão-mestre → grão-mestres).

3. na aglutinação. De fato. 5. técnica e literária. inclusive o acento tônico: passatempo. Dito isso. gira-mundo. com um único acento e há perda fonética no primeiro elemento: boquiaberto. cabisbaixo. resultam em vo- 127 05 .Formação dos Vocábulos Capítulo nenhum termo e adjetivo não é regente de concordância. restam três observações finais sobre os compostos: 1) Se o processo de fusão for muito acentuado ou antigo. agricultura → agriculturável etc. 3) Na literatura científica. Em síntese. esses fatos não são exclusivos da composição: eles também ocorrem na derivação. piso branco-gelo → pisos branco-gelo).4 Tipos de Composição A Nomenclatura Gramatical Brasileira e as gramáticas em geral costumam apresentar a aglutinação e a justaposição como aspectos peculiares ou propriedades da composição. a distinção entre justaposição e aglutinação é de ordem fonético-fonológica. Rio Grande do Sul → sul-rio-grandense. de tal modo que os falantes já não mais reconhecem os elementos que entraram na composição. 2) Compostos também são vocábulos dos quais se derivam outros por meio de prefixos e sufixos: Porto Alegre → portoalegrense. pernalta. Neste sentido. Servem de exemplos os vocábulos fidalgo (filho + de + algo → filho + dalgo → fi + dalgo → fidalgo) e embora (em + boa + hora). na aglutinação os elementos fundem-se num todo fonético. são freqüentes os vocábulos formados por elementos greco-latinos. cobra-cega. Além disso. combinadas. tecido azul-marinho → tecidos azul-marinho. do ponto de vista sincrônico. Nova York → novaiorquino. ao contrário. nem adjetivo concorda com adjetivo (casa verde-musgo → casas verde-musgo. não morfológica. ao contrário. isso significa que na justaposição um só vocábulo mórfico corresponde a mais de um vocábulo fonológico. esses elementos são formas presas que. um vocábulo mórfico corresponde a um só vocábulo fonológico. diz-se que a composição por justaposição ocorre quando os elementos mantêmse integralmente. Em geral. convém considerar o vocábulo como primitivo.

sugere-se o estudo dos radicais – mais propriamente raízes – gregos e latinos. ambidestro (ambos).O Léxico cábulos eruditos.4 Outros Processos de Formação de Vocábulos Além dos processos de derivação e de composição. governo).1 Recomposição A recomposição é uma espécie de composição em que se toma uma parte de um vocábulo composto que passa a valer pelo todo e se liga a outra base para formar um novo composto. Para melhor conhecimento dos vocábulos eruditos. matricida (que mata). Sabendo o significado desses elementos. onipotente (todo). oftalmologia (olho).Unidade C . que passou a ser usado no lugar de fotografia. aurífero (que produz). centrífugo (que foge). bem como dos prefixos e sufixos gregos e latinos. tudo). 128 . panteísmo (todos. heptassílabo (sete). agrícola (que cultiva). fotonovela (foto + novela). mais fácil é a compreensão dos vocábulos formados por eles. Trágico. listados pelas gramáticas. oligarquia (comando. Tomemos como exemplo foto. não? Mas etimologicamente explicado. ou mesmo o uso de tais morfemas para a formação de neologismos. antropófago (que come). 5. com base em Monteiro (2002) e Alves (2007). há outros processos de formação de vocábulos que devem ser levados em conta. bígamo (que casa). sesquicentenário (um e meio). Eis alguns exemplos com raízes latinas: crucifixo (cruz). formam-se fotocópia (foto + cópia). então uxoricida é “o assassino de sua mulher”. Alguns exemplos com raízes gregas: hexacampeão (seis). Por exemplo. tendência). entre outros recompostos. piscicultor (peixe). toponímia (lugar). de uso especializado. teocracia (deus). fotomontagem (foto + montagem). sabendo que –cida quer dizer “que mata” e uxor quer dizer “esposa”.4. A partir dessa base. arborícola (árvore). Vamos ver alguns deles. 5. ignição (fogo). megalomania (loucura.

e o elemento restante passa a valer semanticamente pelo todo. Equivale ao que alguns autores classificam como abreviação vocabular. o substantivo telecomunicações reduz-se a tele em recompostos como teleconferência.2 Braquissemia Braquissemia (ou truncação) é o emprego de parte de um vocábulo pelo vocábulo inteiro. mas tão somente o significado herdado do grego: “a distância”. telenovela. mais raramente. auto-estrada etc. O primeiro elemento tem o sentido de televisão em vocábulos recompostos. Vejamos outro exemplo de recomposição: automóvel (auto + móvel) pode ser simplesmente auto. há composição apenas. como: telejornal.4. etc. telenotícia. Em telefone. todavia. TELEBRÁS. A subtração pode ocorrer nos elementos finais (apócope). mediais (síncope). Daí se formam autódromo. De modo análogo. pois nesse caso tele não significa televisão. telecurso. expressão que não deve ser confundida com abreviatura. iniciais (aférese) ou. Exemplos: ǿǿ fotografia → foto ǿǿ telefone → fone ǿǿ motocicleta → moto ǿǿ panamericano → pan ǿǿ automóvel → auto ǿǿ quilograma → quilo ǿǿ pentacampeão → penta ǿǿ cinematógrago → cinema ǿǿ pneumático → pneu ǿǿ bilhão → bi ǿǿ extraordinário → extra 129 05 . nem telecomunicações. 5. autovia. autorama. autopista. É resultado da subtração.Formação dos Vocábulos Capítulo O mesmo processo se verifica em televisão (tele + visão).

como motel (motorista e hotel). isto é. utilizam criações léxicas com coq. 5. vamo (por vamos). magistrípula (magistra e discípula). gatosa (gata e idosa). pilantropia (pilantra e filantropia). informática (de informação automática). Servem de exemplo: profi ou fessô (por professor). tá (por está). 130 . portunhol (português e espanhol). Os colunistas sociais. brasiguaio (brasileiro e paraguaio).4. É um recurso bastante utilizado na formação de siglas. brigado (por obrigado) ocê e cê (por você). por ser mais espontânea que a escrita e mais sujeita aos princípios da economia da linguagem. niver e su como formas reduzidas de coquetel.Unidade C . Servem de exemplo: ǿǿ ONU → Organização das Nações Unidas ǿǿ RAIS → Relação Anual de Informações Sociais ǿǿ UFSC → Universidade Federal de Santa Catarina ǿǿ EMBRATUR → Empresa Brasileira de Turismo ǿǿ DETRAN → Departament'o Estadual de Trânsito Incluem-se entre os acrossêmicos os vocábulos conhecidos como amálgamas. aniversário e sucesso. novelha (nova e velha). bá (por barbaridade) etc. corgo (por córrego).O Léxico ǿǿ poliomielite → pólio ǿǿ sarampão → sarampo ǿǿ inoxidável → inox ǿǿ São Paulo → Sampa ǿǿ Florianópolis → Floripa ǿǿ europeu → euro A braquissemia é bastante comum na linguagem oral.3 Acrossemia Acrossemia (ou acronímia) é um processo de formação de vocábulos por meio da combinação de sílabas extraídas de compostos ou expressões. combinações de partes dos vocábulos. com vistas a certos apelos e à criação de expressões inusitadas em suas páginas de jornais. democradura (democracia e ditadura).

desenvolveu-se a forma SIDA a partir da tradução da expressão inglesa. TSE se pronuncia Tribunal Superior Eleitoral. Por exemplo. Certos vocábulos formados por acrossemia podem receber afixos derivacionais: de USP forma-se uspiano. Daí a forma derivada sidoso. pois são lidos e pronunciados como formas simples e não como as expressões que abreviam. Vejamos os seguintes exemplos: ǿǿ GARRA → Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos ǿǿ CORPOS → Centro de Orientação e Reprogramação Psicoorgânica Por fim. mas como símbolo da palavra que evoca. lê-se adjetivo. mobralense. Os vocábulos acrossêmicos são muitas vezes associados a valores conotativos que as expressões originais não transmitem.Formação dos Vocábulos Capítulo Comuns são os acrônimos produzidos em outras línguas e incorporados ao português como se fossem vocábulos simples. resta observar que a abreviatura (ou acrografia) não constitui processo de formação de vocábulos. Na acrografia. de MOBRAL. São exemplos: ǿǿ Transistor → (de transfer resistor) ǿǿ Bit → (de binary digit) ǿǿ Laser → (de Light amplification by stimulated emission of radiation) ǿǿ NASA → (de National Aeronautics and Space Administration) ǿǿ VIP → (de very important person) ǿǿ AIDS → (de Acquired Immunological Deficiency Syndrome) Em Portugal. não se pronuncia Conselho Nacional de Trânsito. 131 05 . e INSS se pronuncia i-ene-esse-esse. por exemplo. ǿǿ Radar → (de Radio detecting and ranging) Convém observar que os acronímicos são vocábulos com autonomia de significante. que é sinônima de aidético. Para km. para adj. CONTRAN. se tiver caráter de idiograma. ao contrário de certas siglas que não constituem vocábulos autônomos. lê-se quilômetro. por exemplo. a letra não vale pelo fonema que costuma representar. Outro aspecto a considerar é que os acronímicos se organizam em padrões silábicos próprios do português.

Quando os elementos são repetidos integralmente. redobramento. miar. miau. sem alteração de fonemas.4. ou tautossilabismo. cri-cri. lufa-lufa. papá. Os vocábulos formados por fonossemia podem. por exemplo. por exemplo. tem-se a duplicação perfeita: reco-reco. 5. Quando dizemos tique-taque. papai. uma vez que eles não interferem no sistema gramatical. xexéu. Isso ocorre. titia. teco-teco. reduplicação ou duplicação silábica. tem-se um processo específico que se chama duplicação. cuco.5 Empréstimos ou Estrangeirismos No Brasil. são ou foram relevantes os contatos com as línguas indígenas. servir de base para formas derivadas. ou são introduzidos através dos meios de comunicação. gluglu. cocoricó. Outros exemplos: ǿǿ au-au. piopio. tem-se a duplicação imperfeita: tique-taque. rataplan. sem causar-lhe danos relevantes. nana. com o espanhol ao longo das fronteiras e com as línguas de imigrantes. Se as onomatopéias são constituídas com base em elementos repetidos. ioiô. notadamente o alemão e o italiano. tetéia etc. Os empréstimos de outras línguas também são fontes de enriquecimento do léxico. blá-blá-blá. com os onomatopaicos que se referem a vozes de animais: cacarejar. com freqüência. coaxar. mamá etc. Vocábulos assim formados são denominados de onomatopéias. com as línguas africanas. nhenhenhen etc. . zigue-zague. mesmo assim fazemos uma imediata associação com ele. Os empréstimos ocorrem devidos aos contatos com outras línguas. mamãe. Quando ocorre alternância vocálica ou perda de fonemas. Dudu. vuco-vuco. pipiar. trilar etc. 132 Já tivemos oportunidade de ver que o léxico da língua não se amplia somente através dos processos de formação de vocábulos. cri-cri. bem-te-vi. também denominado de redobro.O Léxico 5.4. sabemos que esse vocábulo não reproduz perfeitamente o som dos relógios. nhonhô.4 Fonossemia A fonossemia consiste em combinar fonemas com o intuito de imitar ruídos naturais.Unidade C . iaiá. ainda que não corra perfeita identidade. vovó. toc-toc.

O aportuguesamento dos estrangeirismos consiste. ao comércio e à produção industrial. à grafia e aos paradigmas flexionais da nossa língua. No século XIX e início do século XX. chefes. acessar. chefas.). Em televisão e automóvel. no entanto. mouse. O sufixo [ismo]. prevalecem os empréstimos de línguas de prestígio. o francês tinha grande prestígio internacional. internet. a expressão estrangeira é traduzida literalmente. 133 05 . evitando-se as dificuldades da integração fonológica e morfológica: high technology → alta tecnologia. dos. sectarismo. nocaute (por knock-out). blog. Vejamos. cd-rom etc. numa adaptação do vocábulo à fonética. muitos galicismos foram incorporados ao português. seja por derivação. chefatura. A grafia também se ajusta à pronúncia e aos grafemas: tape (por teipe). Às vezes. seja por composição. 5. interconectar. por exemplo. buquê (por bouquet).Formação dos Vocábulos Capítulo Nesse caso. E assim também recebem morfes derivacionais: chefia. Os empréstimos também se ajustam às regras flexionais: chef → chefe. chefiar. windows. quantos vocábulos ingleses relacionados à informática são cada vez mais familiares aos brasileiros: chip. indianismo. automobilismo etc. em linhas gerais. Atualmente. escanear. chefa. buro[cracia] (por bureau) etc. por exemplo. Ao invés do /i/ arredondado no final da palavra menu (do fr. organismo. Nesse contexto. reset.4. conectar etc. turnê (por tournée). futebol (por football). prevalecem os termos associados às ciências e às tecnologias. Tal recurso é denominado de decalque. aos elementos vernaculizados visão e móvel. printar. além de neologismos derivados como resetar. scanner. o inglês é a língua que se impõe. pronunciamos /u/. Nessa época. devido principalmente ao poder econômico dos americanos em relação a outros países.6 Hibridismos Vocábulos híbridos são aqueles formados por elementos de línguas diferentes. respectivamente. modem. é um dos mais produtivos em português e se aplica a qualquer base nominal: socialismo.. enter. download. Certos vocábulos híbridos ditos eruditos apresentam formação simétrica com outros formados exclusivamente com elementos gregos. software. os elementos gregos tele e auto se unem. de procedência grega. megabyte.

scópeo ‘ver’). Carlos Eduardo → Cadu.com/jolemos. Mariquinha. lembramos que nomes afetivos ou depreciativos que não resultam de alterações morfofonêmicas do nome ou prenome são apelidos. ǿǿ Francisco → Chico. Maricota. . Nico. 5. Gilberto → Gil. ǿǿ Duplicação: Augusto → Gugu. Eduardo → Edu. Marieta. deka). Os processos de alteração morfofonêmica desses nomes na linguagem familiar para traduzir carinho. Cocota. Exemplos: ǿǿ Antônio → Tonho. Caludino. 134 Às vezes. por exemplo. Maroca. disponível em: http://www. Os processos de formação dos hipocorísticos são: ǿǿ Braquissemia: Fernando → Nando. visione) de telescópio (do gr. acessado em 28/02/2008. Para outras informações sobre hipocorísticos. Maria → Marinete. ǿǿ Maria → Mariazinha.7 Hipocorísticos O estudo dos nomes (prenomes e sobrenomes) de pessoas denomina-se antroponímia. Danilo → Nilo. Cisco etc. Cristina → Cricri. hipocorísticos se transformam em prenomes: Marino. Epitácio → Pita. distingue-se de decâmetro (do gr. termo geral de que os hipocorísticos são uma espécie. Marica. Tonico. Chiquito. Decímetro (do lat. Nhonhô. Totônio etc. Chicão. Marizita etc. mão ‘agir’).geo/. Franquito.O Léxico embora a significação não seja exatamente a mesma. Marieta. Por fim. decem). ǿǿ Sufixação: Manuel → Maneco. Marcelino. Rosita. televisão (do lat. Chiquinho. Osvaldo → Valdo. automóvel (do lat. João → Joãozito. Anacleto → Cleto. Francisquinho. ǿǿ Acrossemia: João Carlos → Joca. sugerimos consulta ao texto “Regras de produtividade dos hipocorísticos”. mobile) de autômato (do gr. Totonho. afetividade resultam em hipocorísticos.Unidade C . no sentido vulgar. Eugênio → Ênio etc. Tinoco. Eduardo → Dudu.4. Maria Isabel → Mabel. Maricotinha. Zinha.geocities.

A crescente industrialização e a diversificação das atividades comerciais exigem cada vez mais a criação de neologismos para designar novos produtos e marcas.8 Oniônimos Oniônimos são nomes próprios referentes a marcas industriais e comerciais. mas com certas peculiaridades. Estomanol ǿǿ [ox] → Neutrox ǿǿ [ax] → Primax ǿǿ [on] → Diabeton ǿǿ [ite] → Marmorite Derivação imprópria (às vezes. Na formação dos oniônimos.Formação dos Vocábulos Capítulo 5. Anfertil Derivação sufixal: ǿǿ [al] → Melhoral ǿǿ [ol] → Fosfosol.4. ausência → Agripan. ocorrem os mesmos processos de formação dos nomes comuns. com grafia alterada): ǿǿ Elefante (extrato de tomate) ǿǿ Hollywood (cigarro) ǿǿ Perdigão (frigorífico. Vamos examinar alguns exemplos de derivação. Derivação prefixal: ǿǿ [re] repetição → Recolor ǿǿ [a] ~ [na] privação. Muitos desses neologismos são estranhos aos dispositivos gerais das normas ortográficas e aos padrões silábicos do português. composição. braquissemia e acrossemia. aumentativo de perdiz) ǿǿ Camelô (confecções) ǿǿ Q boa (água sanitária) ǿǿ Kibon (sorvete) 135 05 .

Hewlett Packard.Unidade C . 136 . de fantasia) ǿǿ Esbelt (remédio para emagrecimento.O Léxico Composição (às vezes com elementos greco-latinos): ǿǿ Vinovita ǿǿ Capilotônico ǿǿ Madrevita ǿǿ Sal de Frutas Eno ǿǿ Doce Menor ǿǿ Conhaque de Alcatrão de São João da Barra ǿǿ Cachaça Amansa Corno ǿǿ Sonho de Valsa Braquissemia: ǿǿ Fanta (refrigerante. Yashica. de aequilibrium) Acrossemia: ǿǿ Fiat → (de Fabbrica Italiana di Automobili Torino) ǿǿ Nescau → (de Nestlé + cacau) ǿǿ Neston → (de Nestlé + tônico) ǿǿ Brastemp → (de Brasil + temperatura) ǿǿ Cica → Companhia Industrial de Conservas Alimentícias ǿǿ Petrobrás → Petróleo do Brasil Lembramos que muitos oniônimos são estrangeirismos que mantêm a grafia original: Phillips. de esbelto) ǿǿ Liubrium (tranqüilizante. Chevrolet. Citröen.

acessado em 28/02/2008. Regras de produtividade dos hipocorísticos.geocities. p. 1988. In: http://www. In: CARONE. São Paulo: Ática. de José Lemos Monteiro.geo/.Formação dos Vocábulos Capítulo Leia mais! Formação de Palavras. 137 05 . 36-45.com/jolemos. Flávia de Barros.

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funcionais e semânticos que devem orientar a classificação dos vocábulos. a tarefa de classificar os vocábulos. eventualmente. com base na tradição gramatical greco-latina. p. 225-226) lista as seguintes: 139 06 . A partir da classificação da Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB). Dito de outro modo. Monteiro (2002. as classes de palavras (também conhecidas como partes do discurso ou categorias lexicais) podem ser definidas com base em critérios morfológicos (propriedades formais). de acordo as gramáticas.Classificação dos Vocábulos Formais 6 Capítulo Classificação dos Vocábulos Formais Já vimos que a morfologia é a parte da gramática que descreve a forma das palavras. os processos de flexão e a formação das palavras. distribui os vocábulos em dez classes. discutiremos critérios formais. 6. sintáticos (função na sentença) e semânticos (significado). vimos que as classes de palavras são constituídas com base nas formas que assumem. no sentido que expressam. nas funções que exercem e. Vamos tratar disso nesse capítulo. a classificação da NGB tem recebido críticas devido a algumas incoerências.1 A Classificação das Palavras de Acordo com a NGB Logo no primeiro capítulo. mas de um ponto de vista crítico. a saber: Variáveis Substantivo Adjetivo Verbo Pronome Numeral Artigo Invariáveis Advérbio Preposição Conjunção Interjeição Todavia. ou mais especificamente a estrutura. ainda. A NGB. Cabe-lhe.

incluem-se nessa categoria. podem ser também substantivos e adjetivos. emoção. 35): “O Joãozinho perguntou se nada era substantivo. uma questão de ordem filosófica. A propósito. quando a rigor são frases de situação: Socorro! Valha-me Deus! d) Mistura critérios heterogêneos. uma vez que inclui as formas dependentes. disse o mestre de português. f) Interpreta o grau como flexão. ‘O nada é um ser’. a exemplo de eis. a) Usa a expressão classificação das palavras. o sim. há nomes que não se referem a seres (fé.O Léxico Os vocábulos em processo de gramaticalização. O problema. doença. retrucou-lhe Joãozinho. como os artigos e os conectivos (preposições e conjunções). c) Considera as interjeições como palavras. é identificar o ser.).). o viver etc. o substantivo está sendo definido pelo critério semântico. e) Cria a classe dos numerais.Unidade C . somente. além do fato de que qualquer vocábulo pode ser substantivado (o aqui-e-agora. Por outro lado. especialmente os chamados marcadores discursivos. e teve como resposta que sim. estabeleceu duas classes distintas para substantivos e adjetivos. esclareceu-lhe 140 . sentimento. ‘É antes um não-ser’. opostos a pronomes que. b) Cria uma classe para um único morfema (o artigo) e deixou inclassificáveis inúmeros vocábulos e expressões sob o rótulo de palavras denotativas. ‘É um ser negativo’. Assim. nesse caso. o b. quando apropriadamente deveria usar classificação dos vocábulos. p. Como se vê. idéia etc. o que teria sido suficiente para enquadrar os advérbios entre as palavras variáveis. reproduzo um parágrafo de Macambira (1982. como sabemos. também. 6. choro. como se fossem distintos dos substantivos e adjetivos. inclusive etc.2 Revisando Conceitos A mistura de conceitos e critérios heterogêneos tem levado a definições questionáveis. Vamos ver algumas delas: ǿǿ Substantivo é a palavra que designa os seres em geral.

“[. por exemplo... Aqui valorizamos o belo (subst. como estado. Além disso. certos vocábulos que podem ser tanto substantivos quanto adjetivos: É melhor amar o bonito (subst. ele tem natureza eminentemente sintática. o advérbio é algo análogo ao adjetivo. ao passo que na teoria gerativa. magro.) discurso. no sentido de permitir a expressão ilimitada de conceitos sem a exigência de uma sobrecarga de memória com rótulos particulares” (Basílio. o adjetivo tem a mesma razão de ser dos afixos. condição etc. estados ou fenômenos descritos pelo verbo.) do que amar o feio ≠ Quero um casaco bonito (adj.. como homem. não um sapato feio (adj. privilegiam-se os critérios morfológico e funcional. com a diferença de que os advérbios especificam ações. alegre. gordo.. Há. ao qual se vincula. estrangeiro. Por isso. mesmo utilizando todos os critérios. A esta altura seria necessário evocar o espírito de um grande filósofo para resolver um problema de. heim! Apesar de o significado dos adjetivos ser importante na estrutura lingüística. As gramáticas normativas.) ≠ Que belo (adj. p. inteligente etc. No estruturalismo. O problema aqui é saber o que significa circunstância. moreno. nem sempre as circunstâncias se traduzem por meio de advérbios. O conceito ‘qualidade’ é discutível quando aplicado a certos adjetivos. por outro lado. pequeno. 80). alto. triste. alguns autores mencionam outras noções.). De certo modo. privilegiam o critério semântico na classificação das palavras.] de certa maneira. prevalecem as propriedades sintáticas. Dado um substantivo. 1999.). ǿǿ Advérbio é a palavra que indica uma circunstância. muitos podem ser os rótulos a ele atribuídos: grande.Classificação dos Vocábulos Formais Capítulo o professor. defeito. Um adjetivo sempre pressupõe a existência de um substantivo. baixo. português!” ǿǿ O adjetivo é a palavra que expressa qualidade. Concluise disso que a classificação dos vocábulos é tarefa bastante complexa e 141 06 . feliz.

Enquanto os nomes representam. os critérios mórfico. 6. visões estáticas. Monteiro (2002) e Macambira (1982) seguem também o modelo de Mattoso Câmara Jr. Em aceitando-a.O Léxico Veja o Capítulo 1 não é do âmbito restrito da morfologia. Fica claro que a oposição entre nome e pronome é mais semântica do que mórfica. Apenas a flexão indica a dinamicidade dos verbos (temporalidade) ou a estaticidade para os nomes (ausência de variação no tempo e no espaço). o substantivo. os pronomes.3 A proposta de Mattoso Câmara Jr. A terminologia nome é preferível a qualquer outra. estaremos facilitando o paralelo com o termo pronome. adotando critérios morfológicos. as funções. Se o vocábulo apresenta forma. É com base nas desinências que qualquer falante de português de mediana instrução dirá que anfibiólicas é nome e que motejaremos é verbo. nomes e verbos seriam aspectos de uma só essência. No fundo. as oposições possíveis em português? A mais evidente parece ser a que divide os vocábulos em variáveis e invariáveis. Câmara Jr. Talvez seja por isso que os semantemas não se caracterizem como verbais ou nominais. o adjetivo e o advérbio seriam funções. ao domínio da sintaxe. função e sentido. quais são. verificam-se dois paradigmas distintos: o dos nomes e o dos verbos. Entre os variáveis. nomes e verbos também dizem respeito a realidades distintas expressas pela linguagem. sintático e semântico entram em conflito em qualquer classificação. sinais. no entanto. o pronome e o verbo seriam classes. Os nomes (substantivos e adjetivos) fixam o campo re- 142 . Com base em critérios morfológicos.Unidade C . Os verbos atualizam representações dinâmicas. sintáticos e semânticos na classificação dos vocábulos. Tanto é assim que as gramáticas costumam falar em flexão nominal e forma nominal. Em termos semânticos. a palavra que substitui o nome. então. Os nomes são identificados pelas desinências de gênero e número e os verbos pelas desinências modo-temporais e número-pessoais. Com base nos critérios morfo-semânticos. As classes pertencem ao domínio da morfologia. mesmo sem saber o significado de ambos. O nome. os nomes.. Os nomes são símbolos. os pronomes indicam (têm significado dêitico ou anafórico). (1979) distingue classes e funções.

será um pronome se apenas situar uma representação no espaço e no tempo. aqui determina o verbo e. aquela e cadeira não se diferenciam. ou seja. É um verbo. É. Cadeira. 143 06 . Isso acontece porque não distinguem classe e função. Pelo paradigma flexional. sem variações temporais. não se caracterizam pelos processos flexionais.Classificação dos Vocábulos Formais Capítulo presentativo da linguagem. aquela apenas indica que cadeira está afastada do falante. Cabe. pois ambos se submetem às mesmas regras de flexão de gênero e número. Como se pode ver. ou se preferirmos. isto é. de caso e de gênero neutro. é pronome. o primeiro (panos) representa um objeto. constituem símbolos. todavia uma ressalva: existe para os nomes. simboliza um objeto. o único vocábulo que marca o tempo é estava (está. Mas. Constatamos também que aqui traduz uma indicação de espaço e. ao contrário. será um verbo se sofrer variações temporais. de acordo com a relação de interdependência que os termos estabelecem entre si. Examinemos o enunciado a seguir: Aquela cadeira estava aqui. Trata-se. A função. tão somente um sinal. tem a função de advérbio. as diferenças entre nomes e pronomes são mínimas. ao contrário dos pronomes. como tal. No sintagma panos quentes. Cadeira é nome e aquela é pronome. uma vez que as categorias de pessoa. no entanto. Morficamente. na relação entre os termos. Se ao sintagma antepusermos o vocábulo estes. As gramáticas costumam relacionar esse vocábulo exclusivamente como advérbio. se expressar a representação dinâmica ou processual da realidade. Os pronomes. ao contrário. perceberemos que estes nada simboliza. próprias de certos pronomes. com base em critérios sintáticos. servindo apenas para situar (indicar) o objeto nas coordenadas de espaço e de tempo em relação ao falante. estará. Em resumo: uma palavra será um nome se a representação for estática. pois de um pronome adverbial. fixam o campo mostrativo da linguagem e valem sempre como sinais. A classe é identificada com base em critérios mórficos e semânticos.). de um advérbio pronominal. a possibilidade da expressão de grau. pois. sendo assim. representa uma imagem mental. estaria etc. não correspondendo a nenhuma imagem mental. o segundo simboliza a temperatura a ele atribuída.

a que se associa como complemento verbal (objeto direto ou objeto indireto) ou como adjunto adverbial. em que os termos referentes a bandeira são todos adjetivos: Bandeira amarela (adjetivo simples) verde-amarela (adjetivo composto) do Brasil (locução adjetiva) que me encanta (oração adjetiva) Dito isso. Exemplo disso vemos a seguir.O Léxico Dito isso. regido). constituem classes autônomas de acordo com a NGB? 144 . Em Aquelas três cadeiras de madeira estavam aqui. É esse relacionamento entre os termos que constitui o sintagma. conclui-se que são três as funções básicas: a do substantivo. enquanto o advérbio (determinante. Cabe esclarecer que o verbo não determina (não se subordina) ao nome ou a um pronome em si. desde o mais simples (artigo e substantivo. o verbo plantei é determinado pelo sintagma nominal duas mudas de samambaia. Exemplo: ǿǿ O rápido sairá em três minutos.Unidade C . (advérbio) Observemos que o adjetivo (determinante. por locuções e por orações. respectivamente. o nome (ou o pronome) determina o verbo. palavras compostas. As relações sintagmáticas podem ser representadas por palavras simples. em Plantei flores e Plantei-as. como ficam os numerais e os artigos que. No sintagma verbal. Em Plantei duas mudas de samambaia. o verbo estavam determina o sintagma aquelas três cadeiras de madeira. (substantivo) ǿǿ O automóvel mais rápido do mundo custa uma fortuna. um mesmo nome poderá assumir cada uma dessas três funções. regido). a do adjetivo e a do advérbio. Da mesma forma. regente) se subordina ao substantivo (determinado. regente) se subordina ao verbo (determinado. por exemplo) até o mais complexo (sentença). pelo nome flores e pelo pronome as. Dependendo do contexto. como sabemos. mas ao sintagma nominal sujeito. o verbo é determinado. (adjetivo) ǿǿ Saiu tão rápido que mal consegui vê-lo.

Exemplo: “A (artigo) constância é a (artigo) virtude do homem e a (artigo) paciência a (pronome demonstrativo) do cristão. não é difícil concluir que pertencem à classe dos nomes e. Em Dois é bom e três é demais. definido. Já em Só tenho dois reais e três centavos. b) O artigo é considerado pronome demonstrativo pelas gramáticas quando antecede a preposição de ou o relativo que. illa. Se não fossem tais incoerências. Vejamos: A (artigo) constância é a (artigo) virtude do homem e a (artigo) paciência a virtude (artigo) do cristão. Contudo. multiplicativos (dobro.). o “a” deixaria de ser pronome demonstrativo se o substantivo subjacente fosse explicitado. O artigo o e suas flexões (os..Classificação dos Vocábulos Formais Capítulo Quanto aos numerais.). exercem as funções de substantivo e de adjetivo.. dezena. dois quartos. por exemplo. Parece claro que. Sendo assim. o que diferencia artigo e pronome demonstrativo é a presença e a ausência do substantivo. são adjetivos. terceiro.. o amigo é muito mais do que um amigo. quíntuplo. Com base nas gramáticas. enquanto os fracionários sejam substantivos. os nomes que traduzem idéias de números são substantivos. dois. 223) sustenta. a. que são pronomes.. na perspectiva semântica. três. Comentários análogos podem ser feitos a respeito do artigo indefinido. um equivale a um 145 06 . são substantivos ou numerais. segundo. as) têm origem nas formas pronominais latinas illu (illu → illo → ilo → lo → o). pronome ou artigo.. triplo. illas. O referido lingüista arrola os seguintes argumentos favoráveis à interpretação sincrônica do artigo como pronome: a) O artigo apresenta uma função dêitica que é percebida pelos falantes no ato de fala.) diz respeito muito mais ao significado do que às características mórficas e sintáticas. Monteiro (2002. indefinido. o segundo é um qualquer. como tal.” (Almeida Garret). os. não haveria discussão a respeito de se saber se milhão. embora os ordinais sejam essencialmente adjetivos. A mesma origem têm os pronomes pessoais oblíquos átonos o. após analisar aspectos de ordem diacrônica. dúzia. Assim.. as. um terço. ordinais (primeiro. A divisão dos numerais em cardinais (um. um pode ser numeral. entre outros quantitativos. A respeito do artigo.) e fracionários (meio.. O primeiro é conhecido. p. a. illos..

quanto à perspectiva sintática. formada por vocábulos ou por orações. o conectivo liga duas orações coordenadas. dizemos que o conectivo é subordinativo. mas sem sabor etc. apresentam um significado dêitico. comportam-se como os nomes (flexionam-se em gênero e número). o conectivo se presta tão somente para agrupar um termo com outro. Visto que promovem a conexão entre dois outros termos.Unidade C . são de fato conectivos. Podemos observar que em João e Maria não existe qualquer relação de dependência sintática. falso ou verdadeiro. De modo semelhante. Esse é o papel das preposições e das conjunções. Se a conexão faz com que um termo seja determinante de outro. Faz muito calor. sem prejuízo ou distorção do sentido. são sempre adjetivos (subordinam-se a um substantivo). A relação de subordinação entre vocábulos e locuções é feita por preposições: óculos de grau. sem que um seja determinante do outro. havendo uma seqüência ligada por conectivo. jogar com vontade etc. sem que haja concordância nominal ou verbal. quanto à perspectiva semântica. ainda. sendo substituível por algum. escrever a lápis. A carga foi descarregada assim que chegou ao destino. Veja no Capítulo 1 Restam. cuja função essencial é estabelecer relações entre palavras. dizemos que o conectivo é coordenativo: tu e eu. estabelecendo entre eles uma relação de coordenação. embora a previsão de tempo fosse outra etc. não há razão de considerar os artigos uma classe porque vistos sob a perspectiva mórfica. O conectivo “e” está ligando vocábulos da mesma classe e função. cozido. Ou seja. A frase Um homem é capaz de amar pode ser substituída por Qualquer homem é capaz de amar. A relação de subordinação entre orações é feita por conjunções subordinativas: Quero que venhas logo. Com isso. 146 . ganha-se em coerência descritiva e evita-se ter uma classe para dois vocábulos. qualquer etc. Em resumo. sem que haja dependência sintática. Se. o elemento de ligação será uma conjunção coordenativa.O Léxico indefinido. certas formas dependentes. ao contrário. em Leia este livro e faça o resumo. Ou seja. confia no amigo. são de fato pronomes.

Leia mais! A Classificação dos Vocábulos. na verdade. Monteiro (2202. podem ser substantivos ou adjetivos. p. ǿǿ Os artigos são pronomes. ǿǿ Os numerais fazem parte da classe dos nomes e. é impossível explicar as classes de palavras. sempre em função adjetiva. 147 06 . 29-122. Petrópolis/RJ: Vozes. a dos nomes e a dos verbos. p. In: CÂMARA Jr. 1982. José Rebouças. São Paulo: Pioneira. MACAMBIRA. A estrutura morfo-sintática do português. ǿǿ Substantivos. ǿǿ Os pronomes distinguem-se dos nomes porque aqueles expressam um significado dêitico ou anafórico. enquanto os verbos traduzem representações dinâmicas. funções que os nomes e pronomes exercem em contextos frasais. 77-80. adjetivos e advérbios não são classes gramaticais. São. Também podem relacionar elementos da mesma função (conjunções coordenativas). A Classificação dos Vocábulos Formais. 235) faz o seguinte resumo das idéias: ǿǿ Sob o enfoque estritamente morfológico. p. ǿǿ Há duas classes fundamentais. 1979. Semanticamente. que se opõem pelos paradigmas flexionais. sendo assim. Estrutura da língua portuguesa. Joaquim M. os nomes correspondem a uma visão estática da realidade.Classificação dos Vocábulos Formais Capítulo Sobre a classificação de vocábulos. ǿǿ Os conectivos subordinam palavras (preposições) ou orações (conjunções subordinativas).

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Classe: distribuição dos vocábulos em grupos com base nas formas que assumem. Quando há mais de um morfe para o mesmo morfema. Alomorfe: variação na realização do morfe. Braquissemia: emprego de parte de um vocábulo pelo vocábulo inteiro. Derivação imprópria: formação de palavras por mudança de classe gramatical. no sentido que expressam. ocorre alomorfia. Composição: processo de formação de palavras pela combinação de dois ou mais radicais. expressão que não deve ser confundida com abreviatura. nas funções que exercem e. de tal modo que a supressão de um ou de outro resulta em uma forma inexistente na língua. Equivale ao que alguns autores classificam como abreviação vocabular. Alomorfia: ocorrência de morfes diferentes para realizar o mesmo morfema.Glossário Acrossemia: processo de formação de vocábulos por meio da combinação de sílabas extraídas de compostos ou expressões. eventualmente. Composição por aglutinação: processo de composição no qual ocorre alteração fonética no(s) constituinte(s). Comutação: operação contrastiva de elementos segmentados no plano da expressão de que resulta uma alteração no plano do conteúdo. 149 . Derivação: processo de formação de palavras pelo acréscimo de prefixos (derivação prefixal) ou de sufixos (derivação sufixal). Composição por justaposição: processo de composição sem alterações fonéticas nos constituintes. Derivação parassintética: processo de formação de palavras pela adjunção simultânea de prefixo e sufixo a um radical. sem que se processe qualquer alteração mórfica. É um recurso bastante utilizado na formação de siglas.

Flexão: acréscimo de morfes em posição final para realizar oposições gramaticais entre os nomes e pronomes (flexão nominal) e entre os verbos (flexão verbal). As preposições. com vistas a identificar e descrever as mudanças ao longo de um período de tempo. porque tem significado por si só.Derivação por sufixo zero: processo de derivação de palavras sem a presença de morfema aditivo. mas não é palavra. Empréstimo ou estrangeirismo: vocábulo emprestado de outras línguas e incorporado ao léxico. Forma dependente: vocábulo formal. o modo e o tempo (desinência modo-temporal) e o número e a pessoa gramatical (desinência número-pessoal). nos verbos. Forma é um elemento lingüístico do qual se abstrai a função e o sentido. Derivação regressiva e abreviação: processo de derivação de palavra no qual ocorre perda fonética na comparação com a forma primitiva. Desinência verbal: morfe aditivo em posição final que representa. É vocábulo classificado como palavra. 150 . ainda que não ocorra perfeita identidade. Não expressa idéia externa à língua. nos nomes. as conjunções. Forma livre: constitui uma seqüência que pode funcionar isoladamente como comunicação suficiente. os artigos e alguns pronomes pertencem a essa categoria. ou o plural em oposição ao morfema zero do singular. Desinência nominal: morfe aditivo em posição final que representa. Pode ser usado como resposta a uma pergunta. Fonossemia: formação de palavras pela combinação de fonemas com o intuito de imitar ruídos naturais. Diacronia: estudo da língua na perspectiva da evolução de um estágio a outro. pois não tem significado próprio. o gênero feminino em oposição ao morfema zero do masculino. Estrutura lingüística: feixe de relações internas (articulação) que dá aos elementos lingüísticos (as formas) sua função e sentido. Forma: define-se como um ou mais fonemas providos de significação.

Forma presa: forma que só tem função quando combinada (ligada) com
outra(s) forma(s). É o caso, por exemplo, dos prefixos, dos sufixos e das
desinências.
Função: é o papel que as formas lingüísticas assumem na relação que se
estabelece entre elas, ou seja, na estrutura lingüística.
Gênero: noção gramatical que se atribui a todos os substantivos. Não
se confunde com sexo, embora também se preste para opor seres assexuados.
Gramaticalização: processo de mudança lingüística no qual um vocábulo autônomo, ou seja, uma forma livre, assume atribuições gramaticais.
Hibridismo: Vocábulo formado por elementos de línguas diferentes,
seja por composição, seja por derivação.
Hipocorístico: alteração morfofonêmica de antropônimos (nomes de
pessoas) na linguagem familiar para traduzir carinho, afetividade.
Morfe: realização concreta de um morfema. Pode ser um simples fonema,
uma sílaba, ou uma combinação de fonemas e sílabas. Uma unidade formal será um morfe sempre que tiver um sentido lexical ou gramatical.
Morfe alternante: segmento do vocábulo que representa a oposição
morfológica em relação a outro morfe.
Morfe homônimo: morfe que representa diferentes morfemas.
Morfe redundante: o morfe será redundante (ou submorfêmico) sempre
que reforçar uma oposição marcada por morfe aditivo.
Morfema: unidade mínima da estrutura do vocábulo dotada de sentido.
Os morfemas são as menores unidades significativas que podem constituir vocábulos ou partes de vocábulos. É uma entidade abstrata que se
concretiza, na estrutura de uma palavra, através do morfe.
Morfema categórico: sufixo flexional (SF) ou desinencial (SD), que expressa categorias gramaticais.
Morfema classificatório: morfema representado pelas vogais temáticas.

151

Morfema cumulativo: morfe que representa a fusão de dois morfemas.
Em português, os morfes cumulativos são representados, principalmente, pelas desinências modo-temporais e desinências número-pessoais.
Morfema derivacional: afixos (prefixos e sufixos), através dos quais é
possível criar (derivar) vocábulos novos.
Morfema relacional: vocábulo dependente, isto é, vocábulo sem autonomia mórfica, que não constitui por si só um enunciado, tais como
preposições, conjunções e pronomes relativos.
Morfema zero: morfema que se realiza por meio da ausência de morfe.
Morfologia: parte da gramática que descreve a forma das palavras. Estudo da estrutura interna das palavras. Estudo dos morfemas e seus
arranjos na formação das palavras. Aborda os processos nos quais se
acrescenta, se substitui, se subtrai, se duplica um segmento a outro(s) já
existente(s) para modificar o sentido.
Mudança morfofonêmica: alomorfia condicionada fonologicamente,
isto é, mudança no sistema fonêmico do vocábulo com repercussão no
sistema mórfico.
Número: noção gramatical que distingue um elemento (singular) de
mais de um elemento (plural).
Oniônimo: nome próprio referente a marcas industriais e comerciais.
Palavra: unidade formal da linguagem que, sozinha ou associada a outras, pode constituir um enunciado. Alguns autores reservam o termo
palavra somente para vocábulos que apresentam significação lexical, ou
extralingüística.
Prefixos: morfemas derivacionais que ocupam posição anterior à raiz,
modificando o significado do vocábulo primitivo.
Radical: parte do vocábulo formada pela raiz e pelos afixos derivacionais. Se o radical não tiver morfema derivacional (prefixo ou sufixo),
será radical primário; caso contrário, se houver um morfema derivacional, será radical secundário; se tiver dois morfemas derivacionais, será
radical terciário, e assim sucessivamente.

152

Raiz: elemento irredutível comum a todos os vocábulos da mesma família . É o morfema sobre o qual repousa a significação lexical básica. Equivale a semantema, ou lexema, ou radical primário, ou forma primitiva.
Recomposição: espécie de composição em que se toma uma parte de
um vocábulo composto que passa a valer pelo todo e se liga a outra base
para formar um novo composto.
Sentido: o sentido pode ser externo à língua (sentido lexical) ou interno
(sentido gramatical).
Significado dêitico: atribuição própria dos pronomes e de certos advérbios pronominais de indicar sujeitos e objetos na interação discursiva.
Sincronia: estudo de um estado de língua, num determinado momento
de sua evolução.
Sufixo: morfe aditivo que sucede a raiz. Pode ser derivacional ou categórico.
Tema: conjunto formado pelo radical do vocábulo mais a vogal temática. Nesse caso, o vocábulo será temático. Se o vocábulo não tiver vogal
temática — radicais terminados por consoante ou vogal tônica —, então o vocábulo será atemático.
Vocábulo: tem sentido mais amplo do que palavra, pois além das formas
que têm significação lexical ou extralingüística (formas livres), inclui as
formas com significação gramatical (formas dependentes) e o conceito
de vocábulo fonológico.
Vocábulo fonológico: inclui os vocábulos formais em geral e a combinação de vocábulos formais, sempre que ocorrer perda de marca fonológica que indique a delimitação entre vocábulos na corrente da fala.
Vocábulo invariável: aquele que não se submete aos processos de flexão.
Vocábulo variável: aquele que se submete aos processos de flexão nominal e verbal.
Vogal temática: vogal que ocorre depois do radical e antes das desinências. Essa vogal é sempre átona nos nomes e tônica nos verbos, quando
no infinitivo.

153

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155 . São Paulo: Pioneira. 1987. Celso. Teoria lexical. 1988. Luís F. Morfologia. 1999. Morfossintaxe. BECHARA. Lindley. BASÍLIO. Série Princípios. KEHDI. CINTRA. Margarida M.). Joaquim M. Eugene A. MACAMBIRA. ed. São Paulo: Nacional. In: FIORIN. Neologismo: criação lexical. p. 1987. São Paulo: Contexto. In: CHRISTIANO. Mário Eduardo et al.Petrópolis/RJ: Vozes. Maria Helena de Moura. escolas. 1979. Margarida. 1992. MONTEIRO. São Paulo: Ática. Maria Elizabeth A. ensino. 1996. CARONE. Ann Arbor. Rebouças. 2 ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Gramaticalização no português do Brasil. 9ª ed. Evanildo. Moderna gramática portuguesa. The University of Michigan Press. CÂMARA Jr. 2003. Fortaleza. NIDA. temas e rumos. 215. NEVES. 4a. Introdução à Lingüística: princípios de análise. A estrutura morfo-sintática do português. Campinas/SP: Pontes. . 1985.Referências Bibliográficas ALVES. et al. EDUFC. (Orgs. Ieda Maria. São Paulo: Ática. (Campinas/SP: Pontes. 13-28. Funcionalismo e gramaticalização: teoria. 2007. João Pessoa: Idéia. Morphology: the descriptive analysis of words. CUNHA. MARTELOTTA. 1970. Nova gramática do português contemporâneo. análise. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.). Uma introdução ao funcionalismo: proposições. Estrutura da língua portuguesa. Formação de vocábulos em português. São Paulo: Ática. José Lemos. São Paulo: Ática. 2002. T. J. PETTER. 2004. 1982. José Luiz (Org. Morfologia portuguesa. Valter. 2002). Flávia de Barros.

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