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“APASCENTA DOS

APASCENTA OS MEUS CORDEIROS - PASTORAL
E CRIANÇA FAVELADA - reflexão sobre o cuidado
pastoral da Igreja Presbiteriana Nova Jerusalém às crianças de
favela.

Por
Cilas Fiuza Gavioli

Em cumprimento parcial
das exigências da Pós-Graduação e Pesquisa
para obtenção do grau de
Mestre em Ciências da Religião

Instituto Metodista de Ensino Superior
São Bernardo do Campo, SP, Brasil
1997

2
GAVIOLI, Cilas Fiuza. APASCENTA OS MEUS CORDEIROS – Pastoral E
Criança Favelada - reflexão sobre o cuidado pastoral da Igreja
Presbiteriana Nova Jerusalém às crianças de favela. São
Bernardo do Campo, Metodista, 1997.

SINOPSE

Este trabalho se propõe a uma reflexão pastoral sobre
a relevância do papel da igreja protestante em relação
ao cuidado pastoral para com crianças de favela. O
escopo desta pesquisa é desenvolver uma reflexão
bibliográfica e experimental para a práxis teologia da
igreja em relação à criança de favela. Trata-se de uma
busca de primeiro ouvir essa criança na rua, escola,
casa e igreja; conhecer como ela se vê diante do
mundo, de como são os ambientes macros e micros
influenciadores de sua formação. Em foco está a
geografia psicossocial de sua moradia, de sua rua, sua
família.
O
trabalho
se
desenvolve
interdisciplinarmente pelas ferramentas da psicologia,
antropologia, sociologia e a teologia prática. Há uma
busca pela inclusão da criança favelada na preocupação
e atenção pastoral da igreja. Procuramos ver/sentir
seus sentimentos, sonhos e utopias sobre sua vida.
Nossa proposta é de uma pastoral cujo modelo
encontramos na solidariedade do Deus-Pastor, revelado
em Seu Filho, Jesus Cristo - O Bom Pastor. Desta
inspiração decorre nosso tema: “Apascenta os meus
cordeiros”.

3
GAVIOLI, Cilas Fiuza. APASCENTA OS MEUS CORDEIROS – Pastoral e
Criança Favelada - reflexão sobre o cuidado pastoral da Igreja
Presbiteriana Nova Jerusalém às crianças de favela. São
Bernardo do Campo, Metodista, 1997.

ABSTRACT

The purpose of this work is to reflect on a specific
project of the protestant church in relation to the
pastoral care of slum children. The work offers a
bibliographic and experimental reflection on the
praxis of the church involving slum children. First,
the children are heard in the streets, at schools,
homes and in church. The main purpose is to know how
the children face the world, and how they react to the
macro and micro environments which influence their
formation. Specifically, the psychosocial geography of
their habitational conditions in the streets and
within their homes is studied. The development of this
interdisciplined work is informed by the following
tools: antropology, psychology and practical theology.
The observation is drawn as to the necessity of a
constant effort to include slum children in the
pastoral action should be based on watching and
grasping the reactions, feelings, dreams and utopias
in the lives of these children. The main purpose is to
base pastoral activity on a model found in God as the
chief-pastor, revealed through His Son Jesus Christ, “The good Pastor”. So the theme is developed from the
passagem: “Feed may lambs” (John: 21,15).

4

AGRADECIMENTOS

Agradeço ao Senhor DEUS o ter-me vocacionado e
capacitado para fazer este trabalho com muito amor
pastoral;
À minha esposa Raquel e a meus filhos Silas Filipe e
Karen
Priscilla,
o
incentivo
nesta
caminhada
acadêmica;
Ao meu orientador, Prof. Dr. James Reaves Farris, a
atenção paciente e enriquecedora no decorrer do
preparo da dissertação;
Ao amigo Genival Gonçalves Santana pela paciência e
zelo com que me ajudou na correção deste trabalho;
Ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião,
as aulas inspirativas que ajudaram a amadurecer as
idéias sobre meu projeto;
À
CAPES,
que
através
do
proporcionou-me
condições
desenvolvimento deste projeto.

programa
materiais

de
bolsas
para
o

5

ÍNDICE
Sinopse
Abstract
Agradecimentos
Índice, 05
INTRODUÇÃO, 07
CAPÍTULO I
O CONTEXTO PSICOSSOCIAL INFLUENTE DA FAVELA, 15
1. FAVELA: UM PROCESSO DE FAVELIZAÇÃO DO POBRE, 16
1.1 Antigas e novas raízes da favela, 16
1.2 A favela é responsabilidade da cidade, 20
1.3 Favela e a migração, 24
2. CRIANÇAS E CARÊNCIAS, 29
2.1 Exclusão social e estigmatização, 30
2.2 Necessidade do abandono doméstico, 33
2.3 O rosto revela as carências psicossociais, 36
3. INFLUÊNCIA DO AMBIENTE ESPACIAL MAIS PRÓXIMO, 39
3.1. O espaço do barraco, 40
3.2. O espaço influenciante da televisão, 43
3.3. A fascinação do espaço da rua, 48
CAPÍTULO II
PRIMEIRAS SOCIEDADES INFLUENCIADORAS: FAMÍLIA E ESCOLA, 52
1. A RELEVÂNCIA DA FAMÍLIA NA FORMAÇÃO DA CRIANÇA, 52
1.1. Um modelo tradicional familiar em crise, 53
1.2. Como se organizam as famílias na favela, 58
1.3. “Pais ausentes, filhos carentes”, 62
2. O DILEMA DA ESCOLA E A NEGAÇÃO DO ACESSO A ELA, 69
2.1 A criança pobre, educação e igreja, 69
2.1.1 Domesticação e catequese jesuíta, 69

6
2.1.2

“Cada

igreja

uma

escola”-

a

participação

protestante, 72
2.1.3 A situação escolar na favela, 76
2.2 Conflito de modelos: parental e escolar, 78
2.3 Uma proposta de desobstrução cognitiva, 82
CAPÍTULO III
IGREJA E CRIANÇA DE FAVELA, DESAFIO À PASTORAL DA
SOLIDARIEDADE, 89
1. NECESSIDADE DE UMA TEOLOGIA PRÁTICA, 89
1.1 Uma teologia pastoral, 9O

1.2 Pastoral da solidariedade, 94
1.2.1 Empatia e compaixão como formas de expressão, 95
1.2.2 Solidariedade se traduz em diaconia, 99
1.2.3 Solidariedade missionária, 101
1.3 O modelo pastoral no DEUS-PASTOR, 105
2. NOVOS PARADIGMAS À PASTORAL DA IGREJA, 111
2.1 Inclusão à cidadania 112
2.2 Criança como esperança messiânica, 114
2.3

Jesus e a criança -

gestos e crítica, 117

2.4

A pedagogia de Jesus e a criança pobre, 120

3. NECESSIDADE DA PASTORAL À CRIANÇA FAVELADA EM CASO DE
CRISE, 124
1. Um modelo de cuidado pastoral em Cline bel, 124
1.1. O objetivo do modelo Clinebell, 125
1.2. Um modelo holístico: Integral 126
1.3. Crises como oportunidade para crescimento, 128
1.4. Metodologia do modelo, 130

2. Clinebell e as crianças, 131
CONCLUSÃO, 133
BIBLIOGRAFIA, 136

7

INTRODUÇÃO

Nossa atuação entre crianças de favela nos últimos
cinco anos gerou em nos a necessidade de uma reflexão sobre a
nossa

ação

pastoral.

Assim,

este

trabalho

acadêmico

nos

proporcionou a busca de possibilidades e alternativas para o
descobrimento
sofrimento

de

destas

novos

caminhos.

crianças

O

latente

desafia-nos

a

uma

e

patente

procura

mais

profunda de metodologias e procedimentos que as ajudem a se
tornarem cidadãs mais livres.
Parece-nos que nossa sociedade só reage ao espanto de
tragédias carregadas pelo veículo da mídia, ou quando crianças
pobres morrem e aparecem nos telejornais como matéria prima
para os meios de comunicação. Digo isso, pois, nosso escopo é
chamar a atenção da igreja ou do meio religioso para àquele
que ainda não se tornou um menino ou menina de rua, ou um
explorado pelos traficantes etc., mas, que está vulnerável às
mazelas

de

favelada.

uma

sociedade

que

exclui

e

despreza

a

criança

8
ESTÁGIO ATUAL DA QUESTÃO
Durante a elaboração da nossa pesquisa, tivemos algumas
dificuldades de encontrar material bibliográfico a respeito da
nossa proposta da dissertação. Há trabalhos sobre criança de
rua como OESSELMANN1; sobre a questão social na favela, como
TAUBE2

MASSA3e

e

sobre

questões

pedagógicas

da

criança

favelada, como MONTOYA4 e JUNKER5. Entretanto, no que tange à
pastoral da criança favelada numa perspectiva protestante não
encontramos nenhum material acadêmicos.
Assim passamos a balizar nosso trabalho nos referenciais
pastoralistas de Casiano Florestan6 e Emílio Castro7, e também
da psicologia de cuidado pastoral em Clinebell8. Assim, será
necessário desenvolver um uma relação interdisciplinar entre
as

matérias

como

social,

ferramentas

pesquisas

antropológica,

para

encontradas

a

pedagógica

pastoral

abordam

da

aspectos

e

teológica,

solidariedade.
distintos

por

As
nós

propostos, em virtude de tratarem-se de outros enfoques sobre
criança

e

sobre

favela.

Contudo,

foram

de

grande

apoio

bibliográfico para a presente pesquisa.

1

OESSELMANN, Dirk Jurgen. AS EXPRESSÕES RELIGIOSAS DE MENINOS E MENINAS DE RUA.
IEPG , São Bernardo do Campo, 1991.
2
TAUBE, Maria J. Mattos. DE MIGRANTES A FAVELADOS. UNICAMP, Campinas, 1986
3
MASSA, Ana M. A MORADIA E SUAS IMPLICAÇÕES NA DINÂMICA DA PERSONALIDADE. São
Paulo. TESE , IMES, São Bernardo do Campo, 1986
4
MONTOYA, A.O.D. PIAGET E A CRIANÇA FAVELADA. Vozes, Petrópolis, 1996.
5
JUNKER, D.B.A. A CRIANÇA NA COMUNIDADE DE FÉ. IEPG, S.B. Campo, 1996.
6
FLORESTAN, Casiano. CONCEPTOS FUNDAMENTALES DE PASTORAL. Ediciones Cristandad, Huesca,
Madrid, 1983
7
CASTRO, Emílio. HACIA LA PASTORAL LATINOAMERICANO. INDEF, S José, 1974.
8
CLINEBELL, Howard J. ACONSELHAMENTO PASTORAL.(MODELO CENTRADO EM LIBERTAÇÃO E
CRESCIMENTO). Paulinas/ Sinodal, São Paulo, 1987.

9
ESCOPO DA PESQUISA
Estudaremos a ação, reação e relação da igreja para com a
questão da criança favelada. A igreja como comunidade de fé
não deixa de ser uma sociedade. A criança favelada conquanto
excluída não deixa de ser gente, com alma, com sentimentos e
estrutura psicológica como qualquer outra pessoa.
Os fatores enfocados visam o processo subjetivo do
sentimento de exclusão e impotência em meio à situação de
escassez dos recursos estimulativos da potencialidade própria
da criança favelada. Fatores que poderão ser redimensionados
para a libertação e crescimento destas crianças.
Desta

forma,

primeiramente

por

provocar

meio
a

desta

igreja

para

pesquisa,
discutir

pretendemos
e

reagir

à

problemática da criança de favela. Em segundo plano, fornecer
pistas e subsídios para a elaboração do trabalho pastoral da
igreja para com essas crianças excluídas.

METODOLOGIAS EMPREGADAS
O

caminho

que

deverá

percorrer

este

trabalho

de

dissertação será delineado pela relação de dois procedimentos
metodológicos,

o

teórico

e

o

prático.

O

referencial

bibliográfico acadêmico mesclado ao referencial ilustrativo de
mini casos. Estes mini casos serão extraídos do experimento do
convívio cotidiano com as crianças do projeto CEAB/NJ9 favela

9

CEAB/NJ - Projeto social da Igreja Presbiteriana Nova Jerusalém, em

10
do Jardim Novo Flamboyant, através de observação, diálogo e
caminhada com elas e suas famílias. Omitiremos os verdadeiros
nomes

de

crianças

de

suas

famílias

para

preservá-las,

substituindo-os por nomes fictícios. A metodologia de interrelacionar o material bibliográfico com as exemplificações dos
mini

casos

pesquisa

tem

por

teórica

propósito

com

enriquecer

informações

da

a

abordagem

realidade

da

da

criança

favelada.
O PROJETO CEAB/NJ
Estes
relacionados

mini
com

casos
o

de

projeto

crianças
de

ação

e

famílias

social

da

estão
Igreja

Presbiteriana Nova Jerusalém entre as crianças faveladas do
Jardim Novo Flamboyant. O projeto em questão nos motivou-nos à
busca

acadêmica

de

questionamentos

e

respostas

para

a

problemática.
O projeto social que iremos utilizar ilustrativamente
para trazer à realidade a pesquisa acadêmica foi cenário de
nossas atividades pastorais nos últimos seis anos. Em nossa
denominação religiosa não é prática comum a ação da igreja
para

com

a

sociedade,

sobretudo

carente,

embora

cresça

a

simpatia para tal por parte de alguns setores da denominação
religiosa.
O

projeto,

que

recebeu

a

nomenclatura

de

CEAB/NJ

(Centro Estudantil Assistencial Beneficente/ Nova Jerusalém),
foi criado pela Igreja Presbiteriana Nova Jerusalém, em agosto
Campinas, com crianças da favela do Jardim Novo Flamboyant que aparecerá
no próximo tópico da introdução.

11
de

1991.

Começou

com

o

serviço

pré-escolar

a

65

crianças

faveladas. As próprias instalações da igreja, inclusive seu
pequeno templo, foram usadas para abrigá-las. Hoje o número de
crianças atendidas diariamente pelo projeto é de 380; através
da pré-escola (3 a 6 anos) e do reforço-escolar (7 a 14 anos).
O

sustento

financeiro

para

manter

o

projeto

acontece

em

parceria com o Conselho do Menor e do Adolescente, com a
Prefeitura de Campinas, com a FEAC (Federação das Entidades
Assistenciais de Campinas), com a COMPASSION (Grupo
de

apoio),

com

pessoas

amigas

e

com

a

própria

externo

Igreja.

O

projeto já caminha por uma administração pedagógica e jurídica
independente da Igreja.

Conquanto esta sigla possa ser alvo de questionamentos
quanto à idéia de assistencialismo que transmite, não é nosso
propósito fazê-lo. Nosso objetivo será extrair do convívio com
as

crianças

atendidas

pelo

projeto

as

realidades

de

suas

experiências.

A

favela

em

foco

foi

chamada

pelos

seus

próprios

moradores de “Jardim Novo Flamboyant”. Situada na zona leste
de Campinas (Um milhão de habitantes, a cem quilômetros de São
Paulo), ela se encontra encurralada em meio a dois shoppings
centers e dois hipermercados, numa região urbana que contrasta
riqueza com miséria, fartura com escassez. Até o meio do ano
de 1996 eram 410 moradias, entre barracos de madeirite ou
pedaço de madeira e material (alvenaria) sem acabamento. A

12
Igreja (e seu projeto social) se encontra em frente a esta
favela.

A ESTRUTURA DO TRABALHO
O presente trabalho será dividido em três partes. Em cada
capítulo duas ou mais divisões e suas respectivas subdivisões
de maneira a apresentar num primeiro momento o ambiente maior
e mais amplo de suas influências e num segundo instante um
ambiente influenciante mais delimitado. Por fim, pistas para o
trabalho pastoral em meio a crises e conflitos já trabalhados
nos dois capítulos iniciais.
No

primeiro

capítulo,

será

introduzido

o

processo

de

conhecimento da formação psicossocial da criança favelada pelo
enfoque do ambiente favela. Quais as matizes da sua origem?
Que estigmas marcam o crescimento dessa criança? Por fim,
enfocaremos os espaços influenciantes mais próximos da sua
vida.
No segundo capítulo delimitaremos o assunto no campo das
duas

sociedades

mais

influenciantes

na

vida

da

criança:

família e escola. Quanto à família destacaremos: a organização
familiar na favela e a ausência marcante da figura paterna na
sua vida. Quanto à escola: a criança pobre e sua exclusão
histórica do direito à educação; uma pesquisa na favela sobre
a escolaridade local, a escola como elemento conflitante com o
modelo parental e uma proposta de superação cognitiva através
de um método mais adequado à criança pobre.

13
No

terceiro

capítulo

levantaremos

pistas

para

a

elaboração de uma pastoral frente ao desafio da solidariedade
para com crianças faveladas. Para tanto, será necessário o
delineamento de uma teologia prática com característica de uma
solidariedade

concretizada

na

compaixão,

na

diaconia

e

na

tarefa missionária, com a inspiração de Deus como o grande
Pastor da Bíblia. Assim, se faz preciso o desenvolvimento de
novos paradigmas que valorizem a criança marginalizada. Estes
novos

paradigmas

partem

do

modelo

de

Jesus

em

relação

às

crianças de Seu tempo, através de Suas palavras, gestos e
ensinos. Finalizaremos este capítulo e o trabalho de pesquisa,
pontuando a necessidade de um método de cuidado pastoral que
atenda a essa criança em caso de crises e conflitos, que
proporcione

libertação

e

crescimento;

pista inicial o modelo Clinebell.

assim,

propomos

como

14

CAPÍTULO I
O CONTEXTO PSICOSSOCIAL INFLUENCIANTE
DA FAVELA
“Os elementos, presentes desde o nascimento até a
vida adulta, por mais simples que sejam, vão
compondo pouco a pouco o significado da vida e da
existência.”10

Começamos
favela.

O

edificação

olhar
de

com

uma

macro

uma

visão

da

maximizada

questão

pastoral

mais

do

ambiente

servirá

de

base

profunda

no

que

de

para

a

tange

à

criança de favela. A estigmatização torna-as pequenas vítimas
do sistema excludente. Ela é marcada pelos seus espaços e suas
limitações.

A

pastoral

precisa

concentrar

sua

atenção

com

cuidado para não a estigmatizá-la mais ainda. Ela é distinta
das

crianças

formadas

em

um

ambiente

mais

estabilizado

psicossocial e economicamente.

10

JUNKER, Débora Barbosa Agra. A CRIANÇA NA COMUNIDADE DE FÉ - Uma
abordagem sócio-construtivista a partir do conceito de zona de
desenvolvimento proximal de Vygotsky. IEPG, S.B. Campo, 1996, p. 45

15

1. FAVELA: UM PROCESSO DE FAVELIZAÇÃO DO POBRE
“Nada indica que a favela seja um estágio para a
ascensão
sócio-econômica,
pois
não

possibilidade de poupança. Ao contrário, parece
em muitos casos o declínio de uma posição
anterior de melhores condições de vida.”11

A

favela

é

um

ajuntamento

periférico

da

pobreza

urbana, que procura organizar-se em famílias. Tem suas origens
sociais fundadas nas injustiças e desigualdades econômicas do
país.

As

favelas

são

construídas

pela

própria

população

empobrecida em lugares cedidos ou invadidos. A miséria de
algumas regiões do país força sua população a migrar para
outras mais ricas, conseqüentemente aportando nas suas cidades
grandes.

1.1. ANTIGAS E NOVAS RAÍZES DA FAVELA
A favela tem suas raízes históricas que remontam aos
tempos do descobrimento do Brasil. Os nativos da terra foram
sendo expulsos de suas ocas, de sua terra e de sua cultura,
para

dar

lugar

civilização,

ao

que

dominador

não

europeu

valorizava

o

e

nativo

sua

forma

como

de

pessoa,

questionando se índio tem alma. Era a visão do civilizado, do
homem branco que vivia em um tipo de civilização. É bem sabido
por

todos

que

os

indígenas

foram

os

excluídos da nova sociedade dominante.

11

primeiros

a

serem

Nosso ouro e nossa

MASSA, Ana Maria. A MORADIA E SUAS IMPLICAÇÕES NA DINÂMICA DA

16
madeira eram roubados e desviados para a sociedade européia.
Sua

cultura

escravizou,

explorou

e

excluiu

os

verdadeiros

donos da terra do pau-brasil.
A favela tem suas origens em fatores sócio-econômicos
imediatamente posteriores à

abolição dos escravos. Assim, com

a abolição da escravatura, em fins do século passado, os exescravos africanos continuavam sem alternativas na sociedade
do

branco. A lei do ventre-livre deflagrou o abandono da

criança negra por seus ex-donos, que passou da condição de
escrava para criança empobrecida e marginalizada. Segundo o
antropólogo Darcy Ribeiro, a abolição foi um fator fundante na
origem social urbana das favelas.
“A abolição, dando alguma oportunidade de ir e
vir aos negros encheu as cidades do Rio e da
Bahia de núcleos chamados africanos, que se
desdobraram nas favelas de agora”12

Segundo

Viv

Grigg,

outro

episódio

sócio-político

e

religioso que deu origem à favela foi quando os remanescentes
da Guerra de Canudos ocuparam um morro denominado por Morro da
Favela. Esse momento histórico, que expôs toda revolta pela
miséria do sertão nordestino, acabou desembocando nas cidades
grandes, como Rio e Salvador.

PERSONALIDADE: Uma tentativa de estudo entre moradores de cortiço e favela
na cidade de São Paulo. TESE , IMES, São Bernardo do Campo, 1986, p. 24
12
RIBEIRO, Darcy. O POVO BRASILEIRO: a formação e o sentido do Brasil.
Companhia das Letras, São Paulo, 1995, p. 194

17

“Os sobreviventes da Guerra dos Canudos (1900) se
tornaram ocupantes de um morro denominado de
Morro da Favela. Daí a origem da palavra. Em
1948, o primeiro censo registrou 105 favelas com
138.837
habitantes
ou
7%
da
população
da
cidade.”13

O censo acima está referindo-se à cidade do Rio de
Janeiro, onde se concentra atualmente um dos maiores números
de

população

favelada

do

país.

O

processo

histórico

de

dominação de uma classe sempre empurrou os empobrecidos para
guetos.
Nosso povo, aos milhões, vive sem um teto digno para
abrigar sua família. Excluído da dignidade do bem-estar da
moradia, sobra-lhe como solução invadir

espaços públicos e

terrenos particulares para construir um barraco, aumentando
mais ainda a população de favela nas grandes cidades.
Ainda outro fator originador da população de favela é
a industrialização deflagrada nas décadas de 50 a 60 do século
XX. A industrialização mudou a geografia sócio-econômica do
Brasil,

massificando

as

cidades

com

a

população

vinda

do

campo. Nela estavam as indústrias e o trabalho. O campo não
mais oferecia condições de vida para essas famílias, em suas
concepções. Muitos vieram com o sonho de ganhar dinheiro, com
a promessa de enriquecimento. Frustrados com a realidade de
que

nem

todos

se

enriquecem

na

cidade,

sobraram-lhes

as

periferias para morar com sua família em um barraco. A vida

13

GRIGG, Viv. O GRITO DOS POBRES NA CIDADE. Missão Editora, Belo Horizonte,
1994, p. 124

18
urbana é mais dispendiosa que a do campo. Na cidade tudo se
paga!

A

solidariedade

rural

contrasta

com

o

espírito

de

individualismo urbano. No campo o excedente se reparte com os
vizinhos e amigos. Na cidade o excedente passa a ser o povo
que não pode pagar, comprar, comer e morar dignamente.
“O surgimento da sociedade industrial gerou um
extraordinário
crescimento
urbano,
provocando
migrações massivas do campo para a cidade, mas
sem poder absorver totalmente a mão-de-obra.
Maior
desenvolvimento
industrial
e
melhor
tecnologia significava menos necessidade de mãode-obra. Muita gente ficou assim à margem do
processo de industrialização. O desenvolvimento
industrial concentrado nas zonas urbanas trouxe
multiplicadas conseqüências em termos de aumento
da pobreza para todos os que estavam à margem:
moradia insuficiente e precária, sem acesso à
educação etc. É a grande aparição do pobre
produzido pelo desenvolvimento capitalista...”14

O

processo

econômico

industrial

é

responsável

por

gerar na população expectativas. Entretanto, a cidade não tem
como corresponder à grande demanda da população que ali se
concentra,

esperando

por

uma

vida

urbana

melhor

do

que

a

rural.
A favela não nasceu da noite para o dia. Tem suas
raízes sociais na história do Brasil. Portanto, parece-nos um
problema maior do que se pensa. Não é apenas uma questão
sócio-econômica,

mas,

também,

psicossocial.

Ou

seja,

diz

respeito à formação dos relacionamentos e sentimentos. Nela
crescem crianças, pequenas vidas com sonhos, expectativas

14

RIVERA, Dario Paulo Barrera. OS EXCLUÍDOS. Revista, Série: ensaios de Pós-Graduação/ Ciência da
religião no 2,São Bernardo do Campo Ano II, Março de 1996, p.53

e

19
utopias influenciadas por esse meio ambiente de exclusão e
miséria.

1.2. A FAVELA É RESPONSABILIDADE DA CIDADE
“A pobreza, no mundo de hoje, é o resultado
direto
do
sistema
político
e
econômico
de
governos, partidos e grandes empresas. Em outras
palavras, a pobreza que temos hoje no mundo não é
acidental.”15

O
pobreza

teólogo
é

sul-africano

problema

político,

Albert

Nolan

questão

de

afirma

que

“a

injustiça

e

opressão”16. Há uma estrutura responsável politicamente para a
existência da favela. O fenômeno é nacional, responsabilidade
de uma política nacional. Segundo o pastoralista Evaldo Pauly,
em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, também há um
desordenado crescimento das favelas desde o início do processo
de industrialização no país.
“Em 40 anos, a partir de 1951, os favelados
aumentaram
quase
dez
vezes
a
sua
presença
proporcional entre a população da cidade”17.

Havia em São Paulo, em 1.992, 1 milhão de moradores em
favelas;

um

crescimento

de

28%

nos

últimos

cinco

anos.

O

perfil dessa cidade é espantoso: há mais de um milhão de
pessoas vivendo em favelas; 2,8 milhões em cortiços e 10 mil
15

NOLAN, Albert. ESPIRITUALIDADE DO SERVIÇO AOS POBRES. Paulinas, São Paulo, p. 10
Idem, p. 10
17
PAULY, Evaldo Luis, CIDADANIA E PASTORAL URBANA, vol.4 série teses e dissertações, Sinodal/IEPG,
São Leopoldo, 1994, p. 24
16

20
na rua, segundo o jornal Folha de São Paulo18. A falta de
moradia é apenas uma das mais sérias conseqüências. O problema
social da miséria no Brasil tem raízes históricas e profundas
no sistema de distribuição de renda do país.
“Em São Paulo, onde faltam moradias, as favelas
se assentam no chão liso de áreas de propriedades
contestadas
e
organizam-se
socialmente
como
favelas. Resistem quanto podem a tentativas
governamentais de desalojá-las e exterminá-las.
Quem puder oferecer 1 milhão de casas, terá
direito em falar em erradicação de favelas.”19

Campinas é uma cidade rica por suas indústrias e pelo
seu comércio, que no passado fora cercada por grandes fazendas
de café, que hoje abriga duas grandes Universidades (PUCC e
UNICAMP).

Em

empobrecida

meio

convive

às
mais

riquezas

da

intensamente

cidade
com

a

a

população

tirania

das

acentuadas diferenças sócio-econômicas e com a incapacidade de
fazer parte desse mundo burguês. O jornal Folha de São Paulo
em 1992 a seguinte manchete: “Campinas é a 3a

trouxe,

em

miséria no Estado”20.
A matéria jornalística supracitada aborda ainda uma
pesquisa

da

UNICAMP

que

destaca

o

rápido

e

preocupante

crescimento da população que encontrou nas favelas o único
recurso para moradia de sua família.
“A UNICAMP constatou que no período de 1980 a
1991, a taxa de crescimento da população do
Município de Campinas foi de 2,2%, enquanto que a
taxa de crescimento da população de favela nesse
mesmo período foi de 5,8% ao ano”. 21

18

Jornal, Folha de São Paulo 16/11/92
RIBEIRO, Darcy. Op. Cit., p. 204
20
Jornal, Folha de São Paulo, 06/06/93
19

21
O número da população de favela em Campinas, que era
de 7.107 em 1980, passou para 14.248 em 1991. Assim, em onze
anos,

dobrou

percebemos
favelização

o

número

nitidamente
ascendente,

da
que
sem

população

favelada22.

a

está

cidade

que

as

em

Com

isto,

processo

autoridades

de

municipais

tenham respostas concretas para resolver o problema da falta
de moradia digna e da falta de empregos justos.
Assim é que, valendo-nos das conclusões do antropólogo
Darcy Ribeiro, podemos entender que o povo empobrecido procura
suas

próprias

alternativas

para

solucionar

seus

maiores

problemas, e um deles é o da moradia.
“Soluções esdrúxulas é verdade, mas são as únicas
que estão ao seu alcance. Aprende a edificar
favelas nas morrarias mais íngremes fora de todos
os regulamentos urbanísticos...” 23

A favela é o ambiente onde crianças nascem e crescem
em meio à miséria, insegurança e falta de higiene básica. Quem
é responsável por sua vida? Como diz Nolan, estas crianças são
“vítimas do pecado social da injustiça”24, e, por conseguinte,
excluídas dos direitos de cidadania. Nem os governos, nem a
sociedade, nem as próprias famílias das crianças faveladas
sentem-se responsáveis por elas. São pequenas vítimas (e as
maiores) de um sistema desumano e injusto. Elas não são as
causadoras
impera

21

a

da

miséria,

desigualdade.

Folha, Idem
Folha, Idem
23
RIBEIRO, Darcy. Op. Cit., p. 204
24
NOLAN, Albert, Op. Cit., p. 39
22

são

sobrantes

Nossa

atenção

numa

sociedade

volta-se

para

onde
essa

22
criança

que

cresce

em

um

ambiente

de

exclusão.

Quais

as

respostas da pastoral para ajudá-las neste ponto?

1.3. FAVELA E A MIGRAÇÃO
O nascedouro da favela em Campinas deu-se no processo
migratório do êxodo rural, resultante do empobrecimento da
população do interior do Estado, e da política governamental
de mão-de-obra barata. Taube, pesquisadora social da UNICAMP,
elaborou uma tese enfocando o processo de favelização dos
migrantes. Seu campo de pesquisa foi a favela do Jardim São
Marcos,

na

zona

norte,

e

uma

das

maiores

da

cidade.

O

crescimento da migração na cidade nas décadas de 70 a 90 tem
suas responsabilidades na política migratória, cujos objetivos
eram

puramente

econômicos,

ou

seja,

trabalho

mais

barato,

sobretudo na construção civil.
“A política migratória estabelecida pelo Governo
é
uma
entre
as
muitas
dimensões
dessa
problemática, que deve ser pensado, sobretudo
sobre o seu papel econômico, tanto do ponto de
vista das empresas como o do indivíduo e de sua
inserção no mercado de trabalho urbano como mãode-obra barata.”25

cerca

de

três

décadas,

acelerou-se

a

migração

nordestina nas periferias de Campinas aumentando o número das
favelas. As notícias eram veiculadas entre a parentela, quanto
ao suposto sucesso dos que migraram, estimulando-os também a

25

TAUBE, Maria José de Mattos. DE MIGRANTES A FAVELADOS - Estudo de um processo migratório,
Editora da UNICAMP, Campinas, 1986, vol. I , p. 58

23
mudarem-se para o sudeste do país, sobretudo para as grandes
cidades.
O crescimento assustador das cidades mais centrais,
após a década de 40, tem por causa primária a migração da zona
rural.26 (Êxodo rural), gente que fora expulsa do campo Assim,
a

cidade passou a representar esperança de empregos. Estes

pequenos agricultores endividados perderam suas propriedades
para

os

Bancos

Financeiros

e

viram-se

obrigados

a

buscar

socorro na cidade.
Destarte, esse povo excluído da terra migrou para as
grandes

cidades,

arrastando

crianças

de

colo,

parcos

pertences, e muita esperança. No caso de Campinas, essa gente
vem do interior do Estado, do sudeste e do nordeste do Brasil.
Mas, a favela também é formada por cidadãos urbanos que são
empurrados para as periferias porque não têm casa própria e
não mais suportam pagar aluguel. Esta parte da população não
tem acesso a um plano de habitação compatível com os baixos
salários que recebe. A cidade exerce força de exclusão do
pobre, cada vez mais sem recursos.

“O crescimento das favelas se dá pela combinação
de duas forças. Uma força centrípeta da cidade em
relação
ao
campo,
combinada
com
uma
força
centrífuga da própria cidade que empurra pessoas
para a periferia”.27

O interior do Sudeste paulista, que já foi chamado de
a Somália brasileira (Fome no sudeste paulista se equipara à

26
27

GRIGG, Viv. Op. Cit., p. 40
PAULY, Op. Cit. Pág. 41

24
do nordeste; as taxas de mortalidade infantil lembram as de
países

africanos

destaques

o

drama

começa

com

êxodo

rural;

são

matéria de José Maria Tomazela)28, e o norte

da

paranaense,

e

empobrecido

e

mais

agrário,

também

são

responsáveis pela migração que povoa as favelas de Campinas.
“Muitos dos migrantes vieram das áreas semidesérticas
do nordeste do Brasil. Nestes lugares, as condições
climáticas e as estruturas feudais impuseram a seus
moradores um estado de pobreza absoluta.”29
A migração preponderante vem dos diversos estados do
Nordeste. Na Favela do Jardim Novo Flamboyant predomina
migração

de

cidades

como

Vitória

de

Santo

Antão,

a

a
40

quilômetros de Recife, Pernambuco. Essa gente chega com sonhos
e esperanças, cansada de passar fome, miséria e doenças, mas
logo percebe que não lhe há outra alternativa senão a favela.
A opressão social destas regiões do país desencadeia
um processo de

desarraigamento social, que se concretiza pela

circulação migratória da população empobrecida. Este fenômeno
social é, ainda hoje, bem real e este desarraigamento produz
um

choque

com

as

outras

culturas,

distintas

da

sua,

que

encontra pela frente.
“Desarraigamento social é aqui entendido como o
abandono do local de residência, podendo isso
ocorrer com maior ou menor ruptura com as normas
convencionais.
O
conceito
compreende
dois
aspectos: um local: a renúncia à residência; e um
social: a mudança da forma de comportamento em
direção a um comportamento alternativo, o qual se
desvia das regras da vida normal . O conceito

28
29

Jornal, ESTADO DE SÃO PAULO, 19/07/95
GRIGG, Viv. Op. Cit., p. 124

25
abarca total ou parcial emigrantes...”.30

Observando o comportamento da favela a partir da favela
do Jardim Novo Flamboyant, em Campinas, vemos, por um lado,
uma

forte

resistência

irresistível

atração

à

por

cultura
suas

urbana

ofertas

e,

de

por

outro,

comodidades

e

tecnologias. Por exemplo, a criação de animais como porcos e
cavalos conflita com a urbanização. As vendas bem sucedidas de
ovos, pães e outros artigos, nas ruas da favela, lembram o
interior, em contraste com as promoções dos hipermercados.
“A chegada do capitalismo à América Latina trouxe
conseqüências similares quanto à concentração no
desenvolvimento urbano, migração para a cidade,
surgimentos
dos
aglomerados
de
pobreza
na
periferia da cidade e exploração da mão-de-obra
barata.31

A
sente

população

necessidade

empobrecida
de

fazer

empurrada

parte

da

para

vida

da

as

favelas

cidade,

do

sentimento de pertença, do direito à cidadania. Um migrante do
interior do Paraná, morador em uma casa ambulante de caixotes,
recusou

a

assistência

social

da

prefeitura

de

Campinas

alegando o seguinte:
“Estou de saco cheio desse papo de assistência
social. O que eles querem nos dar é sopa e, no
máximo, um terreninho numa favela, aonde o Judas
perdeu a bota” (Sic)32

O fato elucida o desejo inicial do migrante de lutar
contra a tentativa do sistema totalitário de gerar a morte da
sua utopia. Ele quer ajuda para tornar-se comerciante e ganhar
30

THEISSEN, Gerd, SOCIEDADE DA CRISTANDADE PRIMITIVA. Sinodal, São
Leopoldo, 1987, p.56
31
RIVERA, Dario Paulo Barrera. OS EXCLUÍDOS, Op. Cit., p. 53

26
o próprio dinheiro. Esse cidadão não quer um prato de sopa, um
terreno numa favela, e sim o direito de pertencer à cidade, e
não ser excluído dela.
Visto que a migração do interior do país aumenta dia a
dia o número de favelados nas grandes cidades, essa situação
desencadeia instabilidade emocional, escolar e de integração
familiar. As crianças são as mais afetadas por isto. Assim é
que a migração, na questão sócio-cultural, traz conflitos de
ordem psicossocial na vida da criança. Nossa área, delimitada
para

a

resposta

psicossocial.

O

da

pastoral,

emocional

desta

concentra-se
criança,

na

cujo

questão

ambiente

é

instável e precário, necessita de um cuidado especial por meio
de uma práxis da pastoral comprometida com a sua libertação.

2. CRIANÇAS E CARÊNCIAS
Não se pode ver uma criança favelada apenas pelo ângulo
socio-material

(carente

de

escola,

comida,

casa).

Nosso

propósito será descrevê-la em seus aspectos emocionais, olhar
para

a

sua

cérebro,

vida

como

sentimentos

alguém
e

alma.

que,

além

Queremos

de

estômago,

apontar

tem

aspectos

psicossomáticos, com sentimentos e emoções que se revelam em
seu rosto.
A sociedade a marginaliza por morar na favela. Nosso
alvo será mostrar como a exclusão é muito mais que um conceito

32

DIÁRIO DO POVO, 14/05/96, p. 14

27
social:

traz

lesões

no

seu

emocional,

em

suas

estruturas

interiores, por toda sua vida.

2.1. EXCLUSÃO SOCIAL E ESTIGMATIZAÇÃO.
“O conceito „excluído‟ parece ser mais adequado
para expressar tais dimensões de pobreza ou, em
outras palavras, as novas características da
realidade do povo.”33

Consideremos o termo exclusão tal como o concebe as
ciências

sociais

atualmente:

como

um

novo

conceito

para

expressar além da pobreza todos os seguimentos à margem da
sociedade. Aplicado de uns cinco anos para

cá, compreende

genericamente todo aquele que é empurrado para a margem do
processo,

privilégios

e

direitos

da

sociedade

moderna.

A

criança favelada é excluída do direito à moradia, à escola e
alimentação dignas.
“Trata-se da população que é excluída, parcial ou
totalmente, do processo de produção capitalista e dos
benefícios
da
modernidade
em
cujo
meio
se
desenvolve.”34
Campinas é uma cidade com muitos recursos e riquezas,
entretanto, com um grande número de cidadãos excluídos destes
benefícios

sócio-econômicos.

empobrecidas

geram

crianças

Assim,
empobrecidas,

estas
que

famílias

nascem

sobrando nesta sociedade. Muitos trabalhadores da construção
civil

constroem

dificuldades

33
34

ao

suas
longo

RIVERA, Dario. Op. Cit., p. 59
Idem, p.53

choupanas
dos

de

anos;

alvenaria
elas

estão

com

extrema

sempre

em

28
construção, sem reboco, sem acabamento. Da mesma forma muitas
domésticas em casa de gente da classe média e alta contrastam
a bela da cozinha da patroa com a minúscula cozinha junto à
sala

de

seu

barraco.

Destarte,

este

povo

sobrante

que

constrói, que limpa, que cuida de moradias não lhe sobra lugar
digno para morar.
Ainda outra forma de expressão desta exclusão dá-se no
interesse eleitoreiro pela continuação da pobreza. Por que
atrair população empobrecida para a cidade e depois excluí-las
dos seus direitos? Um jornal de Campinas trouxe a seguinte
manchete: ”Miséria justifica venda de votos”35; a matéria conta
que “14% dos votos de Campinas vêm das favelas”36, por conta de
uma

estrutura

social

que

privilegia

a

elite

detentora

do

poder, para a manutenção dos seus interesses pessoais. Nesta
mesma matéria destacam-se os primeiros moradores que vieram de
longe para edificar sua própria casa, num terreno cedido em
troca de votos. Porém, seus filhos vivem ainda em barracos.
Entretanto, um deles expressou opinião diferente; vejamos o
que ele disse ao jornalista:
“O pai sempre acreditou nas palavras. Ajudou a
fazer muitos prédios em Campinas, achando que um
dia ia ter dinheiro. É eleitor do Chico Amaral
até hoje porque ganhou dele o terreno pro
barraco. Nós não. Vamos votar em quem nos der
tijolos. Disse o pedreiro Mário Francisco dos
Santos, morador da Vila Brandina”. (Sic)37

35
36
37

Diário do Povo, 05/05/96, p.5
Idem, p.5
Idem, p. 05

29
O

favelado

passa

a

ser

instrumento

catalisador

de

votos para os políticos. Mas, como cidadão, ele é excluído dos
direitos dessa cidade. Assim, seus filhos também são excluídos
da sociedade dominante. Como? Através da falta de vagas nas
escolas, da baixa qualidade de ensino escolar, e o estigma de
ser uma criança favelada.
“O segundo traço, aquele que mais imprime força e
sentido à própria idéia de exclusão, tem a ver
com o fato de que sobre eles se abate um estigma,
cuja conseqüência mais dramática seria a sua
expulsão da própria órbita da humanidade, isso na
medida em que os excluídos, levando muitas vezes
uma vida considerada subumana em relação aos
padrões normais da sociedade, passam a ser
percebidos como indivíduos ameaçantes e, por isso
mesmo, possíveis de serem eliminados.”38

Este estigma as crianças de favela recebem na rua, na
escola e na igreja. As pessoas olham-nas como se fossem todas
marginais, por morarem em favela. Pois, a falta de acesso a
bens de consumo e ao direito a uma moradia digna impinge-lhes
um sentimento de inferioridade e fracasso. A exclusão gera
sentimentos que vão influenciar em seus medos e temores na
integração social urbana. Os padrões sociais da cidade são um
sistema excludente por camadas econômicas. Nesta estrutura, a
favela está em um dos últimos patamares desta exclusão social.

2.2 NECESSIDADE DO ABANDONO DOMÉSTICO
As crianças de favela, via de regra, são atendidas em
suas necessidades imediatas por terceiros. Os pais estão fora

38

VV. OS EXCLUÍDOS “EXISTEM”? . ANPOCS, Revista Brasileira de Ciências
Sociais, n. 33, ano 12, fevereiro de 1997,São Paulo, p. 51

30
de

casa

o

dia

todo,

em

função

do

trabalho

que

realizam,

fazendo horas extras, ou em bares da favela. Com quem fica
essa criança na maior parte do tempo? Quais as conseqüências
psicossociais geradas pelas ausências do pai e da mãe, na
formação da sua identidade.
No segundo capítulo trataremos com mais detalhes a
problemática

familiar

na

formação

da

criança

de

favela,

considerando a ausência da figura paterna. Porém, neste ponto,
estamos traçando pistas mais gerais a respeito da necessidade
que têm estes genitores de abandonar o lar para o trabalho,
obrigando-se a deixar seus filhos com vizinhos, na escola, na
rua ou assistindo televisão. As mulheres trabalham fora de
casa (e também em sua própria casa), ou para completar a renda
da família ou para

sustentá-la sozinha. Suas crianças passam

o dia inteiro com irmãs mais velhas, aos cuidados de babás com
12 anos. Mães que trabalham o dia inteiro em casa das patroas,
na

faxina

em

supermercados,

nos

balcões,

chegam

a

casa

e

encontram roupas para lavar, comida para fazer, e têm que
lidar

com

o

marido

que

chega

alcoolizado.

O

pai,

ou

o

padrasto, ganha pouco para sustentar a família, por essa razão
a mãe tem que trabalhar fora de casa para colaborar com a
renda familiar. Esse marido geralmente não ajuda sua mulher
nos

deveres

domésticos,

sobrando

para

ela

cuidar

de

tudo

sozinha.
Kátia, uma menina de seis anos, continuamente vinha à
pré-escola

(do

Projeto

CEAB/NJ)

sem

almoçar,

irritada

e

31
cheirando a urina. Em conversa com sua mãe, ela disse que seus
três filhos menores de 8 anos ficavam o dia todo com a irmã de
12 anos.
Reinaldo era uma criança com algumas crises de raiva;
a causa era fome. Sua mãe trabalhando o dia inteiro não lhe
dava mais que um copo de café ralo no seu desjejum matinal.
Ele teve dores no ouvido, levamo-lo para uma consulta médica
no Hospital da UNICAMP; o diagnóstico foi que estava com otite
e seus tímpanos já estavam perfurados. A médica plantonista
receitou

tão

alimentação

somente
saudável.

não

molhar

As

agentes

os

ouvidos

do

CEAB/NJ

e

ter

uma

procuraram

orientar a mãe como proceder no banho do menino, e passamos a
fornecer

leite

todos

os

dias

para

ele.

Não

obstante

tais

orientações, ele continuou com otite por um bom tempo. Sua mãe
não tinha tempo para cuidar dele e dos outros três filhos.
A situação de abandono que vive uma criança de favela
repercute no seu relacionamento social. Dario, menino de 6
anos, é muito revoltado e de um relacionamento ruim com os
coleguinhas e professoras. Seu pai estava preso por furto e
sua mãe, que sempre usou de maus tratos para com ele, estava
agora em uma casa de recuperação para tuberculosos.
Outro sentimento que nutre muitas crianças de favela é o
abandono do lar pelo pai. Valdinéia, com suas duas irmãs e sua
mãe foram abandonadas num barraco. O seu pai foi-se embora
para Minas Gerais, para morar com uma mulher mais nova.

32
Essa

criança

favelada

é

abandonada

pela

sociedade

através da falta de vagas nas escolas, da falta de recursos de
saúde e de higiene e abandonada pela própria família.

2.3 O ROSTO REVELA AS CARÊNCIAS PSICOSSOCIAIS
No

universo

das

grandes

necessidades

da

criança

favelada o afeto e a atenção estão em evidência. Este aspecto
não se explica apenas socialmente. Mas, também, pelo estudo
integral do que vem a ser esta criança de favela.
Pretendemos tratar as questões que envolvem a criança
carente no que tange a sua estrutura psicossocial integrada
com outras dimensões da vida. O homem não é somente material,
coletivo, igual, mas também alma, ser vivente, com sentimentos
integrantes de sua personalidade. Segundo EMANUEL LEVINAS “o
rosto fala”39 e assim nossa ética se pauta pelo rosto do outro,
do

próximo.

Nosso

relacionamento

precisa

estar

na

responsabilidade de compreender o outro através do seu rosto.
“O rosto do pobre (não do igual no sistema, mas
do exterior ao poder do sistema), em seus olhos
que interpelam, é que se encontram a misteriosa e
enigmática
epifania...do
anterior
a
toda
a
anterioridade.” “É no pobre que se revela o
Infinito,
onde
inspira
e
provoca
interpelantemente
seus
profetas,
suas
testemunhas, aqueles que inquietam todos os
sistemas históricos.”40

39

LEVINAS, Emanuel, “Ética e Infinito”, Ed.70, Lisboa, 1988, p.77,79
DUSSEL, Enrique D. PARA UMA ÉTICA DA LIBERTAÇÃO LATINO-AMERICANA - V -Uma Filosofia da
Religião antifetichista, Uma co-edição de: Edições Loyola – São Paulo e Editora UNIMEP - Piracicaba, 1980.
40

33
Um rosto que pede por ser incluído, que clama por seus
direitos, sem ter força para gritar. A criança favelada não
sabe

expressar

a

sua

reivindição

verbalmente.

Assim,

sua

reivindicação se estampa no seu rosto. A pastoral da igreja
encontra o desafio de entender na leitura de seu rostinho as
necessidades introjetadas no mais profundo de seu espírito.
Cada

criança

da

favela

é

portadora

de

um

rosto

denunciante, que clama por ser muito mais que um ENTE, que
quer ser mais que miserável, alvo da dialética entre a piedade
e o descaso dos governantes. Seu rosto revela sua carência,
seus olhos clamam por nossa atenção e carinho.
A

pastoral

psicossocial
desenvolve

em

que

concentra

rege

situações

a

sua

formação
de

atenção
de

penúria.

uma

No

no

criança

momento

em

cuidado
que

se

que

as

crianças passam por crises elas não têm fácil acesso aos pais,
para

ajudá-las.

dificuldades

de

As

famílias

trabalhar

as

mais
questões

empobrecidas
de

afetividade

têm
e

exteriorização dos sentimentos de carinho e amor em relação
aos seus filhos.
“É comum que alguns de seus membros adultos
tenham suas capacidades para dar e receber afeto,
bastante comprometidas.”41

Lúcio Fernando é uma criança rebelde e mal humorada,
que faz de tudo para chamar a atenção para si. Ao sentir-se
ameaçado, só conhecia a linguagem da agressão física. Filho de

41

YAMAOKA, Marta Wiering, AS CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA COMUNITÁRIA DE
LIBERTAÇÃO AO DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL E A EDUCAÇÃO SOCIAL DAS CRIANÇAS,
In COLEÇÃO Psicologia Comunitária de Libertação, (Org.) Dermeval Corrêa de Andrade, Centro Braseleiro
de Pesquisa em Saúde mental, São Paulo, 1995, p. 01.

34
mãe solteira, mora com os avós, primos e tios; Por ser branco
foi rejeitado por seu avô negro; tornou-se o “patinho feio” da
família. Após um ano de trabalho, sua professora do CEAB/NJ
conseguiu

desenvolver

contrapartida,

é

nele

um

surpreendente

relacionamento
o

carinho

que

afetivo.
esta

Em

criança

exterioriza pelo primo de 2 anos de idade. Por trás deste
comportamento agressivo há uma carência de ser amado, querido
e aceito pela sua própria família.
Recentemente,

fomos

surpreendidos

agradavelmente

quando saíamos de um barraco que estávamos visitando. Duas
pequenas

meninas

do

Projeto

CEAB/NJ,

que

moravam

nas

proximidades, ao ficarem sabendo que estávamos ali, rodearam o
barraco cantando afetuosamente para nós. Em outra ocasião,
numa tarde de domingo, fomos recebidos por três meninos, entre
6

e

8

anos;

eles

se

aproximaram

cantando,

perguntando

se

poderiam ficar brincando por ali. Estas crianças gostam muito
de beijar, abraçar e segurar as mãos de pessoas que chegam ao
Projeto. A doçura e o carinho delas, quando tratadas com afeto
e atenção, supera suas atitudes de revolta. Elas sentem a
necessidade

de

existência.

Seus

que

alguém

rostinhos

lhes

revelam

atenção
a

e

carência

note
de

sua
serem

atendidas nas suas necessidades mais básicas que uma criança
precisa para uma formação saudável de sua personalidade e de
sua potencialidade.

35
3. INFLUÊNCIA DO AMBIENTE ESPACIAL MAIS PRÓXIMO
O

reduzido

espaço

do

barraco

é

um

dos

primeiros

sentimentos de limitação que influencia a criança favelada.
Ela introjeta as influências manipuladoras da televisão, que
está, via de regra, a serviço do poder dominante, gerador de
consumo. Com o tempo, a criança é empurrada para o espaço da
rua. Esse espaço, cheio de liberdade, sem disciplina e de
aventuras,

também

faz

parte

da

estruturação

da

sua

vida.

Entretanto, tem as suas ambigüidades e perigos.

3.1. O ESPAÇO DO BARRACO
Barraco é o nome que se dá para as moradias de tábuas
ou

pedaços

de

tábuas

construídas

na

favela,

com

espaços

variando entre 25 a 40 metros quadrados, com dois ou três
minúsculos cômodos divididos por tábuas ou quarda-roupas. É o
lugar onde as famílias tentam encontrar alternativas para não
morarem na rua ou debaixo de uma ponte. É “a organização do
espaço

físico

e

social

do

grupo”42.

É

o

lugar

onde

o

empobrecido encontra um canto, um espaço que lhe sobra, não
restando coisa melhor.
Partimos da experiência solidária da família Arantes
Rios43. Todos os seus componentes vieram de Vitória de Santo
Antão,

cidade

próxima

de

Recife,

nordeste

brasileiro.

O

primeiro a chegar foi o Zeca. Depois, os outros irmãos, filhos
da matrona dona Nazaré, que criara seus filhos sozinha, sem
42

TAUBE, Op. Cit., p. 201

36
marido. Os primeiros barracos eram de pedaços de madeiras
velhas e de madeirite. Foram chegando primos e mais irmãos e
sempre se achava um cantinho para construir mais um barraco.
Como os barracos são muito próximos uns dos outros,
falta-lhes a privacidade neste sistema de moradia. Balbino, um
dos primos, construiu um barraco de alvenaria para sua família
e chama o lugar de “condomínio”. Ele trabalha com o sonho de
um dia poder comprar sua própria casa.
“Essa invasão de sons poderia ser entendida como
falta de limites, de privacidade. As paredes dos
barracos, por serem frágeis (papelão ou pedaço de
madeira) separam as unidades fisicamente mas não
excluem todo o ruído.” 44

O barraco é símbolo da precariedade e provisoriedade
em que vive uma família favelada; nada é feito para durar por
muito tempo. Não é seu terreno! Quando saem do seu espaço,
freqüentemente vendem o barraco, sem deixá-los vazios, pois a
invasão é um risco para a terra (que é de ninguém). Constroem
os

barracos

locais

sem

em

lugares

saneamento

perigosos,
básico;

como

porém,

morros,
de

fácil

aterros

e

acesso

a

transportes coletivos.
No

entanto,

o

Projeto

CEAB/NJ

registra

uma

grande

flutuação entre aquelas famílias que não se ajustaram à vida
da cidade grande e sentem os apelos nostálgicos para retornar
a sua terra de origem. Entretanto, não demoram muito tempo
para regressarem de volta a Campinas, gerando instabilidade
familiar e flutuação espacial do senso de pertença.
43

Todos os nomes são fictícios, como todos os nomes citados em mini casos.

37

“A flutuação da população de barraco certamente
contribuía
para
uma
constante
reorganização
espacial e de direito.”45

Essa
crianças
repentinas

instabilidade

sem

escolas

e

psicossocial.

sem
Ivo

de

(pois

nenhum
foi

moradia
estas

tem

como

mudanças

planejamento)

prejudicado

resultado

deveras

e

são

instabilidade

diversas

vezes

pela

constante instabilidade de circulação de moradia provocada por
seu

pai:

Nordeste,

do

nordeste

deste

para

para
São

Campinas,
Paulo,

e

de

Campinas

depois

para

para

o

Campinas

novamente.
A influência do barraco na vida da criança começa na
mais tenra idade. O espaço limita a sua curiosidade e as suas
descobertas, sem falar das questões de higiene. Dormem juntos,
numa mesma cama, dois ou mais irmãos; os pais no mesmo quarto,
pois a maioria dos barracos só tem um. Além do espaço ser
castrador, limitador e restritivo, é divido em muitos casos
com parentes e pessoas amigas. Maria divide seu barraco de
madeirite, com cerca de 25 m2, com cinco filhos, o marido, e
uma amiga de Pernambuco, e já teve sua mãe morando com ela.
“Tias,
vezes

sobrinhos,
o

mesmo

apertadíssimo.”

primos

ou

lugar.

avós
O

repartem
espaço

fica

46

3.2. O ESPAÇO INFLUENCIANTE DA TELEVISÃO
44

MASSA, Ana Maria. TESE, Op. Cit., p. 174
Idem, p. 215
46
OESSELMANN, Dirk Jurgen. AS EXPRESSÕES RELIGIOSAS DE MININOS E MENINAS DE RUA.
IEPG, São Bernardo do Campo, 1991, p. 119
45

às

38
“A televisão em si não é boa nem ruim. O que
importa é a mensagem que ela apresenta às
crianças.”47

Por meio de visitas observamos a presença de aparelho
de TV até mesmo no mais humilde barraco. O ruído do rádio
também é muito comum na favela. Mas, a televisão tem mais
influência sobre as crianças faveladas.
São as facilidades das prestações longas, sobretudo
agora com a aparente estabilização da moeda. Endividar-se por
uma televisão é muito comum.
O foco da questão não está centrado no aparelho de
televisão ou no anti-televisismo, e sim no que está por trás
de suas mensagens. A TV pode trazer, e trás, efeitos ruins
através

da

violência,

modelos

consumistas

etc,

e

também

efeitos bons através de programas sócio-educativos.
É inquestionável a influência da televisão na formação
da criança, diante da comodidade das imagens audiovisuais. As
informações chegam muito rápidas, sem tempo para refletir e
analisar as mensagens recebidas.
“La publicidad, al igual que otros programas no
pretende convencer con argumentos, sino con
imágenes visuales. Las premisas son al margen del
producto: serás como los demás, todos lo tienen,
son las más caras, para gente excepcional, etc.
No hay trato, no se convence, no se ofrence dados
para analizar y juzgar.”48

47

TERRA E CULTURA, ano 10, n. 21 - AS INFLUÊNCIAS DA TELEVISÃO NO COMPORTAMENTO
INFANTIL, vv., orient. Regina C. Adamuz.
48
QUINTANA, José Ma (Coord), Pedagogia Familiar - artigo de Montserrat Podall Farrús, La Educacions
De Los Hijos En Nuestro Ambiente De Medios Audiovisuales, Narcea, s. a. de ediciones, Madrid, 1993, p.
134

39
O custo de um programa televisivo é muito alto. Para
gerar tais recursos o alvo publicitário é vender e produzir
altos lucros
informações.

para quem paga pela veiculação de mensagens e
Por

isso,

programas

de

televisão

manipulam

a

criança a fim de estimular a satisfação imediata de produtos
oferecidos,

mostrar

um

modelo

econômico

(distante

da

realidade da criança empobrecida) fundamentado nas leis de
mercado. Observamos famílias aplicando seus parcos recursos em
presentes além de suas possibilidades, em detrimento de um
melhor investimento na educação e na alimentação da criança.
Os conflitos entre o modelo parental e o paradigma
apresentado pelos programas de TV e seus apelos à inclusão no
mercado, geram expectativas que não poderão se tornar a sua
realidade, comprometendo o relacionamento dessa criança com
seus pais, sobretudo dos que não lhe estão próximos.
Segundo a Folha de São Paulo, as pesquisas mostram que
a

criança

até

nove

anos

prefere

assistir

programação

de

adultos, como “A Comédia da Vida Privada”, do que programas
infantis. As violências nos tele-jornais perturbam mais que
filmes de terror; a razão se demonstra pelo choque com a
realidade
desenhos

apresentada
animados

pelos

sabem

que

jornais,
é

uma

porém,
ficção.49

nos
Na

filmes
favela

e
as

crianças estão expostas a tiroteios entre traficantes, brigas
de

bares,

ajustes

de

contas,

polícia etc.

49

Folha de São Paulo - tv folha - pág. Domingo 11/02/96

presença

constrangedora

da

40
A influência da TV na favela também abrange o controle
de natalidade. Muitas famílias já não têm a mesma mentalidade
familiar de seus pais. Ou seja, uma família grande não é mais
viável. Diminui dia a dia o número de crianças de uma família
de favela, à medida que ela procura se adaptar à vida urbana.
O sociólogo George Martini afirma:
“A criação do crediário promoveu uma mentalidade
consumista em níveis baratos” ...“O importante é
que todas estas coisas aconteceram ao mesmo
tempo: o crediário, as novelas e o processo de
urbanização”...“E, a partir do momento em que
você precisa planejar seus gastos, isso influi na
procriação limitada” 50.

Há um registro de queda brusca da taxa de natalidade
(de

seis

filhos em média em 1965, para 2,5 nos anos 90,

segundo a informação de Martineli, no texto supracitado). Essa
influência televisiva impõe um paradigma muito distante de sua
realidade; uma espécie de anestésico ou de utopia alienante.
No projeto CEAB/NJ, registram-se nomes de crianças que
indicam indícios desse paradigma desarraigador de sua cultura,
e da influência televisiva nos nomes dados a elas. Esses nomes
têm significados nas expectativas dos seus pais. Eis alguns
registros de nomes de crianças entre 3 a 12 anos: Benhur,
Catherine, Jéssica Kely, Alan, Michelle, Michael, Wellington
etc. (Este nomes não são fictícios, naturalmente, como nas
outras citações de mini casos). Estes nomes tomam o lugar de
nomes religiosos como: Maria Aparecida, Maria de Fátima, Maria
de

50

Lourdes,

Benedito,

Antônio

etc.

Muito

recentemente

Folha de São Paulo, 07/07/96, - sociólogo canadense George Martini trabalha no Fundo de População das
Nações Unidas como assessor para a América Latina. pp. 5 e 6.

41
entrevistava um menino de 9 anos, que cuidava do irmão caçula
por parte de pai; perguntei o nome do irmãozinho e ele me
disse

-

“é

John,

tio

pastor”.

Depois

soletrou

para

mim

pausadamente J O H N.
Estende-se a influência deste bem de consumo também no
que tange à nutrição infantil. Essa pressão social de exclusão
gera

uma

tentativa

fracassada

de

superação

e

pertença

à

sociedade urbana. A família junta esforços sobrenaturais para,
através

de

longas

prestações

a

altos

juros,

adquirir

um

aparelho de televisão ou outro aparelho eletrônico qualquer,
em

detrimento

deletérios

da

de

uma

melhor

subnutrição

no

alimentação.
desenvolvimento

Os

resultados

mental

afeta,

sobretudo crianças pobres e pontua a influência da televisão
como bem de consumo, com primazia sobre a nutrição na família
empobrecida.
“A esta situação está associada a absorção de padrões
de consumo de certos tipos de bens, como a televisão,
adquiridos com o prejuízo de uma alimentação um pouco
melhor para a família e a vã tentativa de superar a
realidade de frustração com que convivem.”51
O sentimento de ser incluído no universo social ocupa
parte de sua motivação pelo consumo deste veículo de acesso ao
mundo exterior. Portanto, esse espaço influencia a vida da
família, sobretudo da criança que se ocupa durante horas à
frente deste veículo de distração e ilusão fascinantes.
Ana Maria Massa detectou na televisão e no rádio uma
forma de esquecer os problemas e ao mesmo tempo o sentimento
51

ALENCAR, Eunice M.L.Soriano de, A CRIANÇA NA FAMÍLIA E NA SOCIEDADE, Vozes, Petrópolis,
1985.

42
de não estar só. “O importante era o ruído, o som, o alento,
uma companhia, o contato com o mundo exterior.”52 Essa forma de
alienação por padrões incompatíveis com a sua realidade gera
revolta, mas também o sentimento de passividade em reverter a
situação diante do sistema opressor do poder econômico.

3.3. A FASCINAÇÃO DO ESPAÇO DA RUA
O espaço interno e externo é um conflito constante na
vida da criança de favela. O espaço do barraco leva a família
a descobrir outros espaços fora da sua própria moradia. A rua
é convidativa para suprir a necessidade de mais espaço. Ela
exerce atração tanto para os pais (bares, vizinhança) como
para as crianças.
O quintal na favela, área de lazer, se resume a poucos
metros quadrados, quando há, competindo com objetos e varais
de roupas. A rua passa a ser a solução encontrada para essa
falta de espaço para brincar.
criança

encontra-se

necessidade

de

com

as

desenvolver

Ela

é

outras,
sua

o

lugar

para

onde

a

satisfazer

a

sociabilidade

e

também

extravasar a sua curiosidade e a sua agressividade. Nela a
criança

se

sente

livre

para

ir

e

vir,

para

fazer

o

que

desejar. É comum ver crianças jogando burquinha (jogo infantil
conhecido como bolinhas de gude) nas ruas de terra da favela,
empinando

pipa,

jogando

futebol,

andando

de

patins

e

bicicletas. Elas tanto brincam em pequenos grupos como em

52

MASSA, Ana Maria. TESE. Op. Cite, p.173.

43
duplas. Nas ruas da periferia eles podem encontrar praças e
campos de futebol improvisados; árvores e lugares espaçosos,
sem que os pais estejam por perto pondo limites para suas
atividades. Ela se torna seu quintal em primeira instância. Um
quintal cheio de perigos e desafios.
Ao

lado

destas

crianças

em

suas

brincadeiras

de

meninice, há o marginal brincando de tiros em latas e garrafas
e traficando drogas. Mormente nas grandes cidades, andar na
rua sempre implica em riscos. As famílias mais atenciosas e
preocupadas com esses perigos não deixam as crianças sozinhas
na

rua.

Mas,

outras,

desde

pequenas,

não

têm

nenhuma

dificuldade em andar pelas ruas do bairro, comprar pães na
padaria fora da favela, ir à escola ou buscarem arrecadar
dinheiro nas esquinas movimentadas. Essa familiaridade com a
rua e seus perigos faz parte de sua vida na mais tenra idade.
Mais tarde, com o aumento dos conflitos familiares, a rua
passa a exercer outros encantos na vida da criança.
“A rua também libera as crianças dos conflitos
familiares. Ela atrai, e isso facilita a saída
forçada de casa.”53

Na

extrema

pobreza

dos

recursos

financeiros

família, “a rua parece a saída para ganhar dinheiro rápido
saída

para

buscar

alternativas

para

sua

própria

da
54

,

família.

Porém, a criança de favela (que ainda não é menor de rua)
freqüentemente retorna para sua casa para algumas refeições e
pernoite.
53

OESSELMANN, Dirk Jurgen, Op. Cit., p.17.

44
“Viver na rua significa viver em um espaço
público, um espaço livre e aberto a toda a
população. Mas por isso um espaço - ainda mais em
uma cidade grande - anônimo. Ao contrário da
casa, na rua as pessoas não tem nome nem
identidade pessoal, apenas funcional. A rua é
para todos e para ninguém; indivíduos não tem
importância...Muitas vezes os traços das pessoas
desaparecem no anonimato da rua.55

O

fascínio pelo mundo público, espaçoso e anônimo,

atrai a criança de favela que não encontra na sua família os
elementos afetuosos de integralidade social. Com o tempo, e à
medida que essa criança vai substituindo o seu lar pela rua,
as ligações familiares vão se enfraquecendo.
A rua é o último estágio da condição de abandono em
que vive a criança de favela. Não mais a fascina a vida em
família; o encanto se quebrou, a rua é um mundo desconhecido e
cheio de emoções. Estes aspectos psicossociais abordados acima
fazem uma força centrípeta jogando a criança para o espaço da
rua, para fora do ambiente familiar.
O espaço da rua é um grande desafio para a igreja e o
desenvolvimento de sua pastoral. Os ministérios da igreja são
desafiados pelo fascínio que ele oferece. É nele que as coisas
acontecem. Nossa pastoral tem sido incitada a sair e valorizar
esse

espaço

de

modo

sadio

e,

também,

a

alertar

sobre

os

perigos e armadilhas que ele esconde. A pastoral deverá não se
limitar

apenas

aos

espaços

de

salas

de

aula,

quadras

de

esportes, templos etc., mas, sair às ruas, explorar junto às
crianças ainda não de rua, seus fascínios e seus potenciais.

54
55

Idem, p. 15
Idem, p. 16

45

II - PRIMEIRAS SOCIEDADES INFLUENCIADORAS:

FAMÍLIA E

ESCOLA
A

mutualidade

social

é

parte

integrante

no

desenvolvimento psíquico, físico, intelectual e emocional da
criança.

A

criança

marginalizada,

por

de

favela

isso,

sua

é

empobrecida,
auto-imagem

excluída

poderá

e

estar

comprometida. Esse contexto social de miséria é o ambiente em
que se desenvolve a identidade da criança favelada. As duas
primeiras organizações sociais mais fundantes na sua formação
são: Família e Escola. Modelos que estão em conflito no seu
imaginário psicológico, sobretudo nos casos em que os pais não
têm

estudo

e

seu

estilo

de

vida

exclui

a

importância

da

escola.
1. A RELEVÂNCIA DA FAMÍLIA NA FORMAÇÃO DA CRIANÇA
A

família

é

uma

organização

social

importante

na

formação da criança. Então, faz-se necessário observar como a
ela

se

organiza

socialmente

na

favela.

Assim,

a

relação

familiar é fundante na formação da identidade desta criança.
No

entanto,

encontra

o

em

modelo

crise,

familiar
sobretudo

tradicional
na

favela.

brasileiro
A

família

se
é

organização social iniciante na vida da criança e, por isso,
relevante

na

construção

da

sua

identidade.

Ela

é

imprescindível para o bom desenvolvimento de uma criança, em
todos os seus estágios.

46
Na favela a família vai se adequando a alternativas
para solucionar seus problemas de ordem econômica e social.
Ela

se

organiza

sociedade

distintamente

brasileira

dos

tradicional,

ou

moldes
ainda

familiares
em

relação

da
às

classes sociais mais estabilizadas.
Assim, esse modelo tradicional familiar entra em crise
na estrutura da favela. Mas, como esse conflito do modelo
familiar vem a influenciar o desenvolvimento da criança de
favela? Por que o sistema tradicional está em conflito na
família favelada? Como se apresentam hoje essas famílias e
como

se

reorganizam?

Veremos

como

a

ausência

paterna

influencia na formação da identidade da criança.

1.1. UM MODELO TRADICIONAL FAMILIAR EM CRISE
A organização social FAMÍLIA não está em extinção na
favela. O que está em crise é o modelo nuclear da família
brasileira.
“O modelo tradicional da família que está em crise é o
modelo veiculado pela propaganda, pelas novelas. Neste
modelo, a família se mantém organizada ao redor do pai
provedor e da mãe consumidora, que têm como reforço a
sustentação dos filhos dentro de padrões da classe
média urbana. Neste esquema a família nada mais é do
que uma unidade básica de consumo, parte ajustada e
necessária do esquema capitalista de mercado.”56
O ambiente familiar da favela se torna um lugar fértil
para a desestabilidade do modelo familiar tradicional. Este
modelo tem origem no patriarcalismo, porém, segundo Samara57,

56

PEREIRA, Nancy Cardoso. DEIXAR PARA RECEBER - Por Uma Pastoral da Família. in CADERNO COMPREENDENDO O QUE É FAMÍLIA, Orgs. Ronaldo Sathler Rosa e Dagmar Silva Pinto de Castro,
EDITEL, São Bernardo do Campo, 1995, p.56
57 SAMARA, Eni de Mesquita. A FAMÍLIA BRASILEIRA, Brasiliense, 3.ed., São Paulo, 1986, p. 17

47
em São Paulo não era tão comum na maioria das famílias. Este
fato

influiu

migrantes
sistema

na

das

transformação

regiões

familiar

dos

nordestinas.

patriarcal

deixou

modelos
De

familiares

qualquer

balizado

de

forma,

um

o

sistema

familiar dependente do sucesso financeiro do pai.
Na favela esse modelo familiar encontra-se em crise
por razões bem óbvias: o modelo patriarcal é centralizado na
autoridade e poder de posse do pai. Tal como um mini-núcleo
feudal (onde o pai era o senhor, possuidor de patrimônios, da
herança), é dever do pai prover as necessidades da família.
Na favela o pai desempregado, ou com baixos salários,
não

é

capaz

de

prover

sozinho

as

carências

materiais

da

família. No contexto de favela o pai não tem poder nem para
garantir o direito à moradia: o que ganha mal dá para comprar
arroz e feijão. De fato, muitas famílias são sustentadas pelo
trabalho externo das mães. As mulheres na favela quase sempre
são obrigadas, pelas circunstâncias em que vivem, a trabalhar
(também) fora de casa. Algumas chegam a ganhar mais que seus
maridos.

A

presença

da

mulher

na

favela

ocupou

espaço

importante, segundo a pesquisa de Taube (UNICAMP) sobre a
favela do São Marcos, em Campinas.
“Trabalhos mais recentes mostram que as mulheres
têm um papel preponderante como mobilizadoras e
conectoras dessa redes e que, em alguns casos, a
interação e a cooperação numa vizinhança são
constituídas a partir das mulheres.”58

58

TAUBE, Op. Cit., Volume II, p. 57 NOTA da autora: (SUSSER mostra que a interação no bairro por ela
estudado era dominado por mulheres. Embora muitos homens aparecessem nadas reunião da associação de
moradores algumas vezes, e alguns homens estivessem regularmente presentes, nehuma rede de amizade

48

Assim, o pai, ao perceber que não consegue cumprir sua
função

nesse

sistema

(inconsciente)

patriarcal

de

família

(onde o homem é o sustentador e cabeça), passa a viver em
constantes conflitos. Como não vê solução, sua válvula de
escape acaba sendo o bar da esquina, arrumar outra mulher ou
ainda a prática da violência familiar.
“Os filhos, por sua vez, consideram os pais
incompetentes e os culpabilizam pela situação de
pobreza.”59

A família de um menino de sete anos, que chamaremos de
Josué,

tipifica

bem

o

que

estamos

levantando.

O

pai

é

alcoólatra e, por freqüentemente estar desempregado, não mais
sustenta a família. Ele e seus dois irmãos mais novos são
sustentados pelos serviços avulsos de faxina que sua mãe faz
nas residências. Vivenciamos um momento em seu barraco que nos
chamou muito a atenção: o seu pai pediu um abraço das crianças
e elas correram dele; pediu, também, para a esposa e foi
repelido por ela; nem os filhos, nem a esposa lhe tinham mais
qualquer respeito ou consideração como pessoa e autoridade do
lar. O fato é que ele não cumpria a sua responsabilidade do
papel

de

pai.

Então,

essa

família

não

poderá

ser

nuclear

patriarcal, sob estas condições.
Thomas Kemper observa que antigamente “...valia a pena
obedecer, porque se ganhava em troca a herança e a posição

masculina foi mobilizada a partir das atividades da associação. SUSSER, A. Norman Street. Poverty and
politics in an urban neighborhood. New York, Oxford University Press), 1982, p. 110.
59
OLIVEIRA, Margaret Silvestre, EDUCAÇÃO SOCIAL DAS CRIANÇAS: Família e instituição, In
Coleção: Psicologia Comunitária de libertação, (org.) Dermeval Corrêa Andrade, São Paulo, 1995, p. 06.

49
social.

Mas

hoje

não

podemos

mais

afirmar.”60

Esse

modelo

patriarcal, cujo conceito é do respeito pelo pai por ter a
capacidade sustentadora de todas as necessidades econômicas da
família, gera revolta nos filhos adolescentes e conseqüente
desrespeito à autoridade paterna, pois, hoje, não há nada a
perder.

Este

fato

dá-se,

sobretudo,

com

mais

ênfase,

no

contexto de favela.
A pastoral tem como baliza e princípio fundantes a
Bíblia. Assim, deverá confrontar esse conceito mercantilista
de família (consumista) e deve trabalhar na restauração de
conceitos da

autoridade como responsabilidade paterna.

No decálogo, Êxodo 20h12min, aos filhos cabe “honrar
seus pais”, para que haja preservação da vida. Este conceito
não carrega à reboque a satisfação do consumismo individual e
sim a integridade, a justiça e a honra aos pais, no que se
refere a sua identidade como ser. O valor do pai idoso pela
sua experiência e sabedoria da vida e não pela sua capacidade
de capitalizar bens na vida.
A

pastoral

igualdade
Bíblia,

e

trabalhará

respeito

ensejarão

cujos

por

um modelo de família de

valores

alternativas

de

humanos,
harmonia

fundados
no

lar

na
e

crescimento entre seus membros, através de um amor livre de
interesses

econômicos,

pautado

pela

responsabilidade

e

solidariedade familiar.

60

KEMPER, Thomas, A FAMÍLIA- ALGUNS ASPECTOS SOCIOLÓGICOS, in CADERNO - Compreendendo

50
1.2. COMO SE ORGANIZAM AS FAMÍLIAS NA FAVELA
“A
família,
como
uma
instituição
social,
organiza-se de acordo com o modo de produção
vigente na sociedade, portanto, não é natural e
nem imutável. Está sujeita às determinações
históricas.”61

Nesta

seção

abordaremos

as

peculiaridades

que

encontramos entre as famílias que moram na favela em destaque.
Também

na

favela

a

família

é

indispensável

para

a

sobrevivência e solidariedade entre as pessoas. Em algumas
famílias mais antigas encontramos extensas ligações parentais
no mesmo bairro, porém, as que migraram mais recentemente não
têm parentesco próximo.
Certamente

que

a

família

tem

uma

função

social

fundamental na reorganização das pessoas em sociedade. Nenhum
grupo social mantém-se vivo por muito tempo sem se organizar.
A

família

é

esse

primeiro

grupo

formador

da

estabilidade

social e emocional. A família na favela não está em extinção.
Ela procura alternativas imediatas e funcionais para que se
mantenha organizada. A psicóloga Dagmar Castro vai chamar esta
tentativa

de

se

organizar

em

família

de:

“arranjos

familiares”, vejamos:
“A família vai organizar-se e expressar-se de
diferentes
formas.
Os
chamados
arranjos
familiares. (Maneiras diversas de ser família,
que foge à imposição ideológica de família
nuclear)
são
maioria
dentro
da
sociedade
brasileira e de nossas igrejas.”62
Que É Família, (Orgs.) Ronaldo Sathler Rosa e Dagmar Silva Pinto de Castro, EDITEL, São Bernardo do
Campo, 1995, p. 42.
61
OLIVEIRA, Margaret Silvestre, Op. Cit., p. 03.
62
CASTRO, Dagmar de e Ronaldo Sathler Rosa (Orgs.), COPREENDENDO O QUE É FAMÍLIA,
(CADERNO), EDITEL, São Bernardo do Campo, 1995, p. 21.

51

A sociedade brasileira passa por transformações em sua
conceituação.
perturbadores

A

crise

da

conflitos,

instituição
no

que

familiar

tange

ao

passa
seu

por

modelo

tradicional de família. Esse modelo, de origem patriarcal,
encontra-se

abalado

no

sistema

social

de

favela.

As

suas

crianças são as mais prejudicadas por este conflito.
Observamos que o casamento civil (legítimo pela lei)
não é uma prática comum entre os moradores de favela, em
especial entre os casais mais jovens.

A questão econômica não

é a única razão, mas, certamente a principal motivação. O
casamento civil torna-se dispendioso desde a documentação via
cartório até mesmo no pagamento das custas para o divórcio. Se
levarmos em conta o alto índice de separação entre casais na
sociedade de favela, o fator econômico tem que ser levado em
conta.
Essa

forma

descomprometida

de

união

conjugal

é

facilitadora, tanto para começar como para desfazer a união
sem complicações econômicas e burocráticas. Citaremos alguns
mini casos que observamos, resguardando os seus verdadeiros
nomes por questão de privacidade e respeito:
Adão vivia há mais de 18 anos com sua mulher sem ser
casado no civil; com ela teve três filhas e dois filhos; um
dia ela saiu de casa para se juntar com outro homem. Logo ele
arrumou outra mulher. Porém, os filhos ficaram sem assistência
por ambas as partes. Uma das meninas acabou se tornando mãe
solteira e os meninos estão em busca do espaço fascinante da

52
rua o dia todo.
A família de Sandra

(10 anos) define-se assim: avô,

avó, mãe, duas tias, e mais duas irmãs. O pai morreu há dois
anos. O avô é doente e cada um dos adultos ajuda como pode
para manter a casa.
A Daniele (6 anos), ao ser solicitada pela professora
para desenhar o pai na sua profissão, disse: “- Eu não sei
desenhar meu pai, e nem o que ele faz; porque meu pai foi
embora e largou minha mãe”. Sua família é composta apenas por
ela,

suas irmãs e sua mãe.
Oesselmann

desenvolveu

uma

pesquisa

com

meninos

e

meninas de rua, concluindo que essa desordem familiar deságua
no abandono da criança, e é elemento primário das causas da
existência de meninos e meninas de rua.
“Neste
contexto,
a
família
se
apresenta
freqüentemente desestruturada e fracassada em sua
função de grupo de referência e proteção, que
deveria
garantir
a
sobrevivência
dos
seus
membros.”63

Outro elemento presente na família favelada é a figura
do padrasto. Devido às freqüentes separações, novas uniões são
formadas livremente. Assim, na favela, a família se forma não
apenas em torno de laços de sangue, mas também de ligações de
afetividades, pois o padrasto mesmo sendo estranho passa a ser
parte da família. Não é com dificuldade que um homem na favela
assume um arranjo familiar com uma mulher e, à reboque, com os
filhos dela.
63

OESSELMANN,Op.Cit., pág. 118.

53
Mas, observamos que o vínculo

com o papel de sustentador

único da família não é muito comum. Com a responsabilidade
paterna perdendo a sua função, a família busca um referencial
mais matriarcal.
“A extensão familiar perde sua função de apoio,
muito embora, a rede de parentesco continue a
funcionar,
colocando
esforço
adicional
aos
valores tradicionais. Entra em cena um novo
personagem na estrutura social urbana: a figura
da mãe que se desloca para o centro da família
enquanto que a do pai entra em declínio.”64

É

freqüente

o

número

de

crianças

que

encontramos

morando com a mãe na casa dos avós. Na favela esse fato social
é mais acentuado que nas outras sociedades urbanas. Também é
comum ver crianças criadas exclusivamente pelos avós, tanto
maternos como paternos. O William (4 anos) está sendo criado
pelos avós paternos, entretanto, ele os chama de pai e mãe.
Para muitas avós é interessante cuidar de um neto, pois já não
podendo mais ter filhos satisfazem as suas necessidades vitais
de garantir uma companhia na velhice.

crianças

que

passam

muito

tempo

morando

com

famílias que não a de seus genitores. A circulação de crianças
na favela acaba influenciando no cenário familiar. O casal
Rios, não obstante as múltiplas dificuldades financeiras para
sustentar dois filhos adolescentes, pegou, para criar, uma
criança abandonada por seus pais.
“A família muitas vezes não existe mais como
unidade clara e diferenciável. ... A unidade
familiar se torna estranha para os próprios

64

GRIGG, Viv. Op. Cit., p. 87.

54
filhos. ... A casa se reduz a quatro paredes e um
teto para abrigar pessoas de origem diferentes”65

1.3. ”PAIS AUSENTES, FILHOS CARENTES”
“A
assinatura
fragilidade da
filhos.”66

O

pai

tem

seu

papel

do
pai
ausente
se
identidade masculina

fundamental

no

torna
a
de seus

processo

do

desenvolvimento da criança em termos gerais. Este fato tem
chamado a atenção de estudiosos, como veremos nesta seção.
Queremos pontuar que essa presença paterna não se limita à
situação de distância dos filhos, mas, sobretudo, na presença
em termos de qualidade: de atenção, de cuidado, exteriorização
de importância e estimulação, e também de tipificação adequada
de seu papel de pai.
“Com relação à paternidade, podemos dizer que esta
se faz em sua qualidade e não meramente pela sua
presença. De modo que, um pai, mesmo que separado,
pode „até se fazer mais presente‟ para o filho
quando participa com ele de sua vida (quando a
figura paterna é internalizada) do que um pai que,
mesmo estando presente no lar se faz ausente
internamente para a criança.” 67

Para Guy Corneau (“penso nos pais alcoólatras, cuja
instabilidade
68

inseguros.” )

emotiva
o

pai

mantém
ausente

os
é

filhos
o

que

permanentemente
embora

presente

fisicamente não se porta de forma aceitável no papel de pai.

65

OESSELMANN. Op. Cit., p. 119.
CORNEAU, GUY. PAI AUSENTE FILHO CARENTE- o que aconteceu com os homens?, ed. Brasiliense,
São Paulo, 1991, p.47.
67
VIZZOTTO, Marília Martins. AUSÊNCIA PATERNA: ASSOCIAÇÕES PSICODINÂMICA E
APRENDIZADO INFANTIL, Revista MUDANÇAS - Psico Terapia E Interação. IMS-editns, Ano 1, n.1, São
Bernardo do Campo, 1993, p.115-6.
66

55
Corneau trata a questão pelo enfoque psicanalítico partindo da
experiência de Quebec, Canadá. Notamos semelhanças universais
em muitas das situações existentes na favela, sobretudo pelo
índice

de

pais

alcoólicos,

violentos

e

indiferentes

ao

processo de formação de seus filhos.
Seguindo
necessidade

orientação
de

um

“arquetípica”,69

jungiana,

pai

às

Corneau

crianças

responsável

como

pela

vai

descrever

uma

a

necessidade

edificação

das

suas

estruturas internas, mediante seus estágios rumo à maturidade
da

sua

identidade.

estrutura

“O

pai

ajuda

Se

esse

interna”.70

satisfatoriamente

presente

na

o

filho

a

arquétipo

vida

da

construir
não

criança,

uma

estiver

ela

poderá

crescer na tensão do fracasso e da inferioridade, causada por
pressão

inconsciente

de

imaturidade

permanente

(enquanto

inconsciente).
O

pai

é

responsável

por

facilitar

na

construção

interna da criança. Neste referencial psicanalítico, em que o
pai se sente fracassado, incapaz e intimidado pelos seus medos
internos,

ele

terá

dificuldade

estrutura

psicossocial.

“O

pai

em
é

ajudá-la
o

primeiro

a

formar
outro

sua

que

a

criança encontra fora do ventre de sua mãe”71. A ausência do
pai

na

vida

da

criança

favelada

é

mais

acentuada

que

em

relação a outras classes sociais mais estabilizadas, pelos
motivos já salientados no início deste capítulo. A ausência do
papel

68

paterno

pode

CORNEAU, Op. Cit., p. 23.
CORNEAU, Op. Cite, p. 40.
70
Idem, p. 24.
71
Idem, p. 27.
69

ocorrer

na

favela

por

diversas

razões,

56
como, p. e., morte, separação, divórcio
Aldo

e abandono do lar.

(10 anos) experimentou o abandono do pai há dois anos;

ele demonstra grande carência da figura paterna através de
dificuldade

de

relacionamento

e

revolta.

Observamos

que

a

grande maioria das crianças que manifestaram problemas sociais
de

comportamento

e

rebelião

estão

no

grupo

daquelas

cujos

pais, de uma forma ou de outra, são pais ausentes. Assim, a
figura

paterna

facilitadora

do

processo

de

crescimento

se

patenteia pela qualidade de sua presença.
O padrasto freqüentemente não satisfaz esse papel no que
tange à presença internalizada para a criança. É um intruso
para o imaginário dela, porém há exceções observadas. Mas,
isso vai depender do tipo de padrasto. Se este internalizar o
papel de pai, aí então esta ausência passa a ser preenchida
por este terceiro elemento na família. O avô poderá ocupar o
lugar da figura paterna em muitas famílias. É o caso de Gerson
(nome fictício), 4 anos, criado pelos avós. O pai mora ao
lado, constituiu outra família onde tem uma filha; Gerson
trata seus avô e avó por pai e mãe, e seu pai como irmão mais
velho.
Segundo Eunice Alencar, essa internalização da figura
do pai acontece entre a gestação e os primeiros anos de vida
da

criança.

“De

modo

geral,

quanto

mais

cedo

se

a

separação, mais detrimental é o efeito para o menino.”72 Desta
forma, a ausência da figura paterna na vida da criança vai
72

ALENCAR, Eunice M.L.Soriano de, A CRIANÇA NA FAMÍLIA E NA SOCIEDADE,
Vozes, Petrópolis, 1985, p. 117.

57
afetar conseqüentemente as áreas da identificação sexual, da
tipificação

das

características

cognitivas,

sociais

e

da

personalidade73.
“Ele facilitará igualmente a passagem do mundo da
família para o da sociedade - uma função
seguramente em mutação...”74

Assim
relacionada

sendo,
à

a

figura

socialização
paterna,

do

razão

menino
porque

está

muito

notamos

as

dificuldades na integração social por parte do adolescente
favelado.

Ao

ser

introduzido.

na

sociedade

encontra

dificuldades em permanecer, em se adequar aos limites sociais
que lhe são impostos.
Aleixo (14 anos): o pai separou-se da família; sua mãe
trabalha fora de casa e não tem tempo para os seus seis
filhos. As suas dificuldades na fala (comunicação)e de se
adequar à sociedade levaram-no às drogas, pois, no momento em
que mais precisou do pai, ele estava ausente.
“Essas imagens exercerão uma grande pressão sobre o
indivíduo, a partir do inconsciente...”75
Quanto à sexualidade entre os meninos da favela, na sua
adequação do próprio sexo, o tio, o vizinho, os irmãos mais
velhos, até o policial ou ainda o traficante, são referenciais
de

masculinidade,

modelos

de

tipificação,

73
74
75

devido

sexualidade
não

a

ausência

masculina

atendendo

ALENCAR, Op. Cit., p. 112-123.
CORNEAU, Op. Cit., p. 27.
Idem, p. 40.

a

o

uma

do
são

pai.

Estes

apenas

na

orientação

mesmos
área

da

correta

da

58
sexualidade

do

menino.

Em

alguns

casos

estes

meninos

são

explorados sexualmente por estes modelos descomprometidos com
o bem estar das crianças. Entrevistamos constantemente meninos
que

começam

a

apresentar

alterações

bruscas

no

seu

comportamento; a maioria acaba contando que tem uma figura
masculina

explorando-os

sexualmente.

O

curioso

é

que

na

maioria dos casos a figura paterna está ausente de suas vidas.
Mas,
emocional,

no

estão

que

tange

afetadas

às
pela

áreas

cognitiva,

ausência

do

papel

social

e

paterno.

Notamos em algumas destas crianças um sentimento de rejeição
em

seus

comportamentos

prejudicada,

ela

se

coletivos.

sente

A

insegura.

sua
Esta

auto-estima
criança

está

sente-se

incapaz, feia e não amada. Adriane (6 anos) expressou o desejo
de morrer: “tia eu queria morrer, ir embora... minha mãe não
gosta de mim...”. Seu pai vivia desempregado e alcoolizado.
Wesley

(6

anos)

interrogado

por

que

evitava

olhar-se

no

espelho, respondeu: “Não quero não, ... eu sou muito feio,
tia...”. Ele também é filho de pai alcoólico, ausente de suas
responsabilidades de ajudar o filho em suas crises

normais e

desenvolvimento.
“A pessoa do pai ocupa uma função importante na
colocação de limites ou regras na consciência da
criança.”76

Temos

estudado

crianças

que

têm

apresentado

um

comportamento violento entre colegas e também em relação às
agentes do projeto. Na maioria delas detectamos a ausência da
76

OESSELMANN, Op. Cit., p. 11.

59
figura

paterna:

um

por

ser

filho

de

mãe

solteira,

outros

porque os pais são alcoólatras, e ainda outro porque o pai é
religioso fanático, mas ausente do seu papel de pai.
A criança está em busca de sua identidade e o pai tem
sua função fundante nesta busca. O pai favelado que apresenta
um

modelo

de

fracasso

não

atende

a

essa

necessidade

inconsciente da criança. Mas, o pai que dá a atenção adequada
à formação de seu filho possibilita-o a ter um crescimento
mais saudável nas áreas citadas anteriormente.
“Assim a falta de atenção do pai traz como
conseqüência
a
impossibilidade
de
o
filho
identificar-se com ele para estabelecer a própria
identidade masculina...” 77

Portanto, se a ausência do pai tem grande importância
e ressonância na vida da criança (com efeitos deletérios na
formação de uma identidade sadia, madura, segura e livre) e,
na favela, o índice de ausência paterna é preocupante, então,
o pastoralista precisa voltar suas atenções para a reflexão e
desenvolvimento de uma maneira libertadora, não paternalista,
que introjete a figura paterna neste vácuo da sua formação.

2. O DILEMA DA ESCOLA E A NEGAÇÃO DO ACESSO A ELA.
Pontuaremos, a seguir, a situação de desinteresse das
classes dominantes na educação da criança pobre, percorrendo
pela história do Brasil como um background para a situação
escolar presente na favela em questão.

77

CORNEAU, Op. Cit., p. 24.

60
2.1. A CRIANÇA POBRE, EDUCAÇÃO E IGREJA.
A

pastoral

como

a

práxis

da

igreja

no

cuidado

a

crianças faveladas de Campinas vai buscar nas nossas raízes
históricas uma visão sobre a educação da criança pobre no
Brasil, desde o descobrimento, colônia, império e a república.
O fato é que a criança pobre nunca foi prioridade na educação
brasileira.
2.1.1.

DOMESTICAÇÃO E CATEQUESE JESUÍTA.
“Durante o período em que permaneceram no país,
os jesuítas foram responsáveis pela educação de
todos os setores sociais aqui residentes. Tal
período corresponde a pelo menos 210 anos de
nossa história.”78

Ao reler a história da educação no Brasil descobrimos
uma forte influência de dois séculos e meio do catolicismo.
Foi um tipo de educação voltada para as elites mantenedoras da
colônia e da sua exploração. Os Jesuítas foram os primeiros a
trabalhar com a educação no país, mas a sua visão era a do
colonizador europeu - domesticador. Os Jesuítas catequizavam
índios para torná-los mais dóceis à dominação branca européia.
Sobre a educação nas mãos da igreja na América Latina, Alvarez
diz:
“…en última instancia estas instrumentalidades
sierven al propósito de „incorporar‟ a los
indígenas en lá cristandad hisppanica.”79

78

STRECK, Danilo (org.). EDUCAÇÃO E IGREJAS NO BRASIL, um ensaio ecumênico.
Celadec/IEPG/Ciência da Religião, São Leopoldo, 1995, p. 16
79
ALVAREZ, Carmelo E., EL PROTESTANTISMO LATINOAMERICANO - Entre la Crisis y el Desafio, Ed.
CUPSA, México, 1981, p. 38.

61
No Brasil não foi diferente. O Clero formou colégios
para

o

ensino

clérigos

e

superior

civis.

Os

dos

filhos

clérigos

das

eram

elites,

formando

preparados

para

o

magistério. Sua visão era a do europeu colonizador.
Após a Proclamação da Independência, em 1822, pela
primeira vez aqui no Brasil foi promulgada uma lei para uma
educação

popular,

proporções

pois,

assustadoras.

o

índice

de

Entretanto,

analfabetismo
pouco

se

fez

atingia
para

se

cumprir essa lei.
“Já nessa época, havia na classe dominante o
temor de que os pobres tivessem acesso à escola.
Houve decretos proibindo o acesso mesmo de negros
libertos à escola (1852).”80

O Governo procurava sustentar cursos superiores que
somente beneficiavam os ricos da corte. Após a partida do
imperador D. Pedro I, com a descentralização da Administração
do poder régio, coube às Províncias a responsabilidade pelo
ensino primário. Mas, a situação do ensino público era ruim.
Faltavam professores e escolas (parece que pouca coisa mudou).
Ademais,

os

professores

eram

mal

preparados

e

o

ensino

incompatível com o progresso da modernidade. O fato histórico
comprova que “a tônica da história da educação é também a da
história da educação da elite”81.
Se essa ideologia é de desigualdade, é de manter os
privilégios
ideologia

80

para

a

torna-se

nobreza,
opressiva.

para

a

Desta

burguesia,

então

essa

ideologia

parte

toda

STRECK, Danilo (org.). EDUCAÇÃO E IGREJAS NO BRASIL. Op. Cit., p. 18.

62
desmotivação para popularizar a educação, pois a educação é
poder.
“O desinteresse do governo era tão gritante que
em 1869 só havia uma escola noturna para adultos.
Isto com certeza ajuda a entender por que em 1890
(pouco mais de 100 anos atrás) 85% da população
era analfabeta.”82

Segundo

Peri

Mesquida,

cerca

de cem anos antes da

chegada dos missionários norte-americanos ocorreu um fato que
veio colaborar para a implantação das escolas protestantes no
Brasil. Em 1759 os Jesuítas são expulsos, abrindo uma lacuna
na tentativa de secularização ou popularização da educação.83
“A educação católica, preponderantemente jesuita,
endereçava-se às elites e formava o pensamento
nacional através de seus colégios.”84

2.1.2. “CADA IGREJA UMA ESCOLA” A PARTICIPAÇÃO PROTESTANTE
“O sistema escolar no Império apresentava notável
fraqueza... Não conseguia alcançar todas as
crianças em idade escolar. A zona rural era,
naturalmente, a mais
prejudicada. Ocorre que a
infiltração
do
protestantismo
deu-se
principalmente na zona rural...”85

Mendonça

enfoca

que

a

educação

passou

a

ser

uma

estratégia missionária, do evangelista e do professor. E o
magistério feminino tornou-se o primeiro aspecto interessante
das

escolas

essencial

81

protestantes.

para

construir

O

ideal

da

educação

um

mundo

novo

e

era

parte

evangelizar

MESQUIDA, Peri. HEGEMONIA NORTE-AMERICANA E EDUCAÇÃO PROTESTANTE NO BRASIL.
Editeo, São Berbardo do Campo l994, p. 51.
82
STRECK, Danilo (org.). Op. Cit., p. 18.
83
MESQUIDA, Peri, Op. Cit., p. 155.
84
MENDONÇA, Antonio Gouvêa. O CELESTE PORVIR -A Inserção do Protestantismo no Brasil. IEPG/
ASTE/ PENDÃO REAL, São Bernardo do Campo, 1995, p. 103.
85
Idem, p. 98.

as

63
pessoas.86

A

Bíblia

era

o

instrumento

de

trabalho

dos

missionários, o analfabetismo era grande entrave para eles.
Assim,

as

escolas

protestantes

corroboraram

para

a

popularização da educação infantil, sobretudo na zona rural,
em meados do século XIX e início do século XX, não obstante
também terem-se voltado para a educação da classe dominante.
Os

imigrantes

europeus

e

norte-americanos

logo

sentiram a necessidade de reivindicar um ensino melhor e não
católico

para

democracia,

seus

filhos.

liberalismo

intelectuais

e

Metodista

Batista

e

e

políticos.

Os

princípios

progressismo
Igrejas

investiram

liberdade,

cresciam

como

pesado

de

a

em

entre

os

Presbiteriana,
uma

espécie

de

pastoral da educação. As missões começaram a fundar escolas
por todo o país. Era planejada uma escola ao lado de cada
igreja.

As

igrejas

históricas

mais

antigas

ainda

têm

seu

prédio de educação religiosa e um palco para teatro junto a um
salão social.
igreja

foram

Velasques nota que estas escolas ao lado da
se

transformando

(algumas)

em

Universidades

caras, voltadas para atender ao público das elites do país.
“É evidente que, com o passar do tempo, as
escolas protestantes perderam essa característica
missionária e tornaram-se escolas de elite, que
dava, e dão status aos alunos.87

Até hoje as igrejas históricas estão mais voltadas
para as classes média e alta, não tendo respostas para a
classe de favela. Segundo análise do professor Mendonça, o

86

Idem, p. 95ss.

64
crescimento dos metodistas no Brasil achou seu espaço entre os
colégios em que estudavam os filhos das elites da sociedade
brasileira.

Nas

Igrejas

Presbiterianas

e

Batistas

não

foi

diferente.
“O
crescimento
metodista
deu-se
quando
a
influência de seus colégios e o crescimento das
cidades
abriu
as
portas
da
burguesia
em
ascensão... Diversos foram os núcleos de futuros
estabelecimentos de ensino superior...”88

Destarte, republicanos, maçons e progressistas, viram
interesses em apoiar o ensino protestante no país. De fato,
esses

promotores

fundadores

de

das

colégios

escolas

protestantes

destinados

a

tornaram-se

ensinar

as

idéias

liberais-progressistas, como o Colégio Culto à Ciência, em
Campinas.

A

revolução

deveria

vir

de

modo

pacífico,

no

espírito do progresso, o que só seria possível pela formação
educacional do país. E,

essa pedagogia estava com as escolas

protestantes. Como vimos, era puro interesse político da elite
progressista liberal. De maneira

que a educação protestante

também priorizou as elites.
A

pastoral

protestante

usava

como

método

a

Escola

Dominical, que funcionava originalmente ensinando leituras,
escrita e a fazer contas.
A prática das Igrejas Protestantes era incentivar os
pais a educarem seus filhos, ensinando-os a ler, para que
pudessem ler as Sagradas Escrituras. Havia uma preocupação com
87

MENDONÇA, Antonio G. e VELASQUES FILHO, Prócoro, INTRODUÇÃO AO PROTESTANTISMO NO
BRASIL. Loyola, São Paulo, 1990, p. 105.
88
MENDONÇA, Introdução Ao Protestantismo, Op. Cit., p. 40.

65
a

sociedade

brasileira,

não

somente

com

as

elites,

mas

sobretudo com aqueles que abraçavam a fé protestante. ”Cada
Igreja uma Escola” - era o grande lema da maioria das igrejas.
Bastian comenta que essa preocupação com a leitura da
Bíblia levou ao surgimento da escola ao lado do templo, e com
isso popularizando essa educação.
“Sem dúvida, as redes escolares protestantes
tiveram maior importância em comparação com as de
outras
associações
liberais
que
intentavam
promover também a educação popular ...”89

Os

missionários

precisavam

ensinar

a

leitura

e

a

escrita básica a fim de ensinar-lhes a Bíblia. A pastoral
nasce a partir da Palavra, e esta Palavra é portadora de
instrução

e

reflexão.

Bastian

nos

desperta

para

outros

aspectos desta pastoral educadora: “A imprensa protestante foi
em sua totalidade um projeto educativo”90. Ademais, a própria
tradição

judaica-cristã

está

envolvida

com

a

educação;

o

ancião ensinava a seus filhos e netos os preceitos do Senhor
na Torah e, aos sábados, nas sinagogas estudava-se o Antigo
Testamento.

Os

reformadores

ensinavam

o

livre

exame

das

Escrituras. Para que todos pudessem ler a Bíblia, Lutero a
traduziu para a língua vernacular do povo alemão. João Calvino
fundou uma universidade em Genebra, porque a educação era
fundamental para a implantação da Reforma Protestante. Wesley
criou grupos metódicos de leitura e estudo da Bíblia. Enfim, a
educação está presente nesta tradição religiosa abordada.
89

BASTIAN, Jean Pierre, HISTORIA DEL PROTESTANTISMO EN AMERICA LATINA, Ed. CUPSA,
México, 1990, p. 144.

66
2.1.3. PESQUISA SOBRE A SITUAÇÃO ESCOLAR NA FAVELA.
A

pesquisa

foi

efetuada

na

favela

do

Jardim

Novo

Flamboyant, entre os dias 13 e 14 de junho de 1996, coordenada
pela FEAC (Federação das Entidades Assistenciais de Campinas),
com

a

cooperação

dos

jovens

e

adolescentes

da

Igreja

Presbiteriana Nova Jerusalém (a maioria moradores da própria
favela)

e

estudantes

de

Ciências

Sociais

da

P.U.C.C.

O

resultado

(Pontifícia Universidade Católica de Campinas).
Foram

visitadas

392

das

410

moradias.

final foi o seguinte: há 1.866 habitantes nesta favela. Dos
409 questionários tabulados apenas 17 não foram respondidos.
O diagnóstico escolar foi o seguinte:
ADULTOS - 12,85% de analfabetismo entre os acima de 19 anos;
JOVENS -

52,63% de jovens (15 a 18 anos) não estudam;

ADOLESCENTES - 6,67% de 7 a 14 anos não estudam;
CRIANÇAS -

49,41% de 0-6 anos não freqüentam nenhum recurso

sócio-educacional.
A faixa-etária mais crítica é a de 15 anos em diante,
quando

os

adolescentes

deixam

de

estudar

por

razões

de

repetência e trabalho. Eles precisam trabalhar para ajudar na
economia doméstica, e passam a estudar no período noturno,
diminuindo as motivações. Outro motivo é a própria falta de
estímulo familiar: o analfabetismo dos pais. Porém, das 25
crianças e adolescentes de 7 a 14 anos que estão fora da
escola,

90

a

falta

de

vagas

BASTIAN, Op. Cit., p. 143.

foi

a

maior

razão,

seguida

de

67
trabalho

e

repetência

escolar.

Estes

dados

diagnosticados

deixam evidente que a maior causa da criança estar fora da
escola é de fator externo à criança. A instituição continua
excludente,

pois

quem

não

pode

pagar

pelos

estudos

fica

sujeito a fazer parte do excedente, do sobrante.
Ao
muitos

dos

aproximarmo-nos
problemas

do

do
fim

século
do

XXI,

século

observamos

passado

não

que
foram

resolvidos. A educação da criança empobrecida é um grande
problema.

Quais

seriam

os

paradigmas

educacionais

para

a

pastoral protestante no que tange à igualdade do direito da
criança de favela ter acesso a uma educação?
O projeto CEAB/NJ desenvolve nesta favela um trabalho
pré-escolar e de reforço-escolar, com o intuito de tirar a
criança da rua e incentivá-la a explorar suas potencialidades
educacionais de modo construtivista, por não haver vagas para
estes excedentes da sociedade nos educandários sociais.

“Assim, o Brasil ingressará no Século XXI com uma
taxa estimada de 16% de jovens e adultos
desprovidos
da
mínima
capacidade
de
ler
e
escrever, apesar da Constituição Federal de 1988
haver determinado a superação do analfabetismo e
a universalização do ensino fundamental nos dez
anos seguintes à sua promulgação.”91

2.2

O CONFLITO DE MODELOS: PARENTAL E ESCOLAR.
Houve um tempo em que as famílias eram as responsáveis

exclusivas pela educação e formação das crianças. A partir de
certa idade eram enviadas aos cuidados de outras famílias para
serem educadas em um determinado ofício do qual se ocupava o

68
chefe daquela casa, e também a fazer os deveres domésticos.
Esse costume cultural foi mudando com o advento da escola,
surgindo os colégios internos.92

Mas, a tensão entre estas

duas primeiras sociedades iniciantes se vai se agrava entre as
famílias empobrecidas.

“ A vivência da escola ou de freqüentar a escola
não é considerado como parte do conjunto de
experiências. É considerado algo externo, imposto
pela sociedade”.93

A escola não está nos planos de boa parte dos pais de
favela. Seus filhos menores são encaminhados à escola pública
por força da obrigação civil, pois, após certa idade a escola
passa a atrapalhar no trabalho destas crianças para ajudar no
orçamento

familiar.

educacional

de

uma

Reportamo-nos
favela,

em

à

bloco

pesquisa
anterior:

da

situação

93,33%

das

crianças na faixa-etária de 7 a 14 anos estão na escola, em
contraste com adolescentes/jovens na faixa-etária entre 15 a
18 anos, dos quais somente 47,37% estudam, ou seja menos da
metade94. A queda de uma faixa-etária para a outra é brusca e
violenta. Por que os adolescentes não estão na escola? Por que
isso ocorre?
“A escola muitas vezes parece ser um luxo
incompatível com a necessidade de sobrevivência”95

Em contato com o modelo escolar, a criança favelada
91

IBGE, 06/10/96.
Cf. ARIÈS, Philippe, HISTÓRIA SOCIAL DA CRIANÇA E DA FAMÍLIA. Guanabara, Rio de Janeiro, 2a
edição, 1981
93
MASSA, Ana Maria, TESE. Op. Cit., p. 165.
94
Vide p. 77 desta dissertação.
95
MASSA, Ana Maria Op. Cite, p. 165
92

69
(cujos pais não apresentam estimulação intelectual) entra em
crise, conflitando o modelo de vida parental com o escolar.
Esta tensão vai depender de como os pais trabalharão em seus
filhos os conflitos que ocorrerem. Os pais, de modo geral,
também

enviam

seus

filhos

à

escola

para

que

alguém

cuide

deles, enquanto trabalham.
A

criança

de

favela

quando vai à escola, primeira

sociedade organizada depois da família, enfrenta o início de
conflitos internos. Muitos pais não motivam seus
estudar,

não

insuflam

em

suas

almas

a

filhos a

ambição

pelo

educacional. Observamos ao longo de seis anos em contato com
pais de crianças do Projeto CEAB/NJ, que eles têm dificuldades
em estimular suas crianças ao estudo.
Estes filhos enfrentam o conflito de modelos ao serem
obrigadas a adequarem-se a um estilo de vida tremendamente
distinto do de sua família. Outros pais têm aspiração em ver
seus filhos estudados, serem alguém na vida, para não sofrer
tanto como eles, mas não sabem lidar muito bem com isso. Os
pais que estão insistindo na formação escolar de seus filhos
precisam compreender os conflitos que eles passam, pois em seu
imaginário poderá formar-se a seguinte imagem: sacrificar o
modelo do pai, para apreender um outro externo e diferente do
que ele aprendeu até então pelos seus sentidos comuns.
“os pais estão pedindo que sacrifique o desejo de
identificação com o modelo parental e que se
identifique com um modelo de conduta que só se
encontram fora do âmbito familiar. Obedecer aos

70
pais quer dizer, neste caso, tentar não ser como
eles” 96

Esse

conflito

abrange

principalmente

a

questão

da

disciplina. A vivência livremente no espaço da rua, ajuntado
ao fato de qualquer espécie de ausência paterna, apresenta à
criança um estilo de vida sem regras disciplinares. Na escola
ela passa a seguir regras coletivas e estar sob autoridade,
sentadas

por

algumas

horas

e

obrigadas

a

pensar

de

forma

abstrata e cognitivamente. Ela passa a comparar seu modelo
familiar com o que lhe é exigido na escola; seu primeiro mundo
começa a ser questionado. Se os pais estiverem próximos e
atentos a tais crises, essa fase poderá ser sublimada sem
muitas dificuldades.
Se sobre ela pesa obedecer a vontade dos pais, essa
tarefa gera um alto sacrifício de seu modelo parental. Sua
crise encontra-se em negar o antigo e primeiro modelo de sua
vida. Essa crise aumenta na fase da adolescência, quando ela
começa a questionar tudo em sua vida.
A pastoral deve procurar a realidade desta criança
empobrecida na conjunção família e escola. É na família que
ela tem oportunidade para desenvolver as bases primárias de
sua potencialidade.

“A falta de vivência da afetividade com os pais,
motivada
pelas
longas
ausências
destes,
ocasionadas por exigências do trabalho, propicia
96

REVISTA - ESTUDO DE PSICOLOGIA, vol. 4, n0 1 - VV. O DRAMA DE “CANUDOS”:

À ESCOLA NÃO VOU! Terapia Familiar no Lagamar, uma favela de Fortaleza.
PUCCAMP, Campinas, p.153.

71
também às crianças um amadurecimento emocional
mais lento, falta de estimulação e insegurança.
Os resultados de mais esses fatores compiladores
se refletem no comportamento, onde se constata
muitas vezes falta de concentração nas atividades
acadêmicas, linguagem infantilizada, rebaixamento
de desempenho (desencadeado preliminarmente por
subnutrição e décit calórico - protéico), tudo
isso
agravada
por
situações
emocional
características do desamparo.”97

2.3

UMA PROPOSTA DE DESOBSTRUÇÃO COGNITIVA
“Constata-se que, para as crianças faveladas, o
seu conhecimento do mundo permanece ao nível do
fenômeno, pois as condições para atingir o
pensamento conceptual estão limitadas.”98

À guisa de propor uma ação pastoral transformadora, de
libertação e crescimento desta criança, buscaremos apoio na
pesquisa de Dongo Montoya sobre a epistemologia genética das
crianças

faveladas.

Para

ocorrer

libertação

do

sistema

ideológico marginalizador da criança pobre é preciso percorrer
pelos caminhos que nos levam ao “como aprender”, e criticar a
conceituação de que a criança favelada não é inteligente.
“O processo de marginalização não só se limita a
negar o acesso à linguagem escrita e culta; nega,
fundamentalmente, toda a possibilidade de refletir
a experiência vivia e com ela a possibilidade de
organização conceitual do pensamento. Não se trata
de negar a existência de uma „diferença‟ efetiva
entre a linguagem escolarizada ou erudita e a
popular, mas de salientar que tal situação é
provocada, não por uma simples exclusão da cultura
dominante, mas por relações de opressão que
dificultam a conquista do pensamento conceptual a
partir da própria experiência e dos próprios
conteúdos culturais.”99
97

DREXEL, John e Leila R. Iannone, CRIANÇA E MISÉRIA: VIDA OU MORTE, ed. Moderna, São Paulo,
1991, p. 52.
98
MONTOYA, Adrian Oscar Dongo. PIAGET E A CRIANÇA FAVELADA: Epistemologia genética,
diagnóstico e soluções. Vozes, Petrópolis, 1996, p. 92.
99
MONTOYA, Op. Cit., p. 95-96.

72
Dongo

Montoya pesquisou

crianças

faveladas

durante

quatro anos e concluiu que o problema cognitivo delas estava
na

incapacidade

de

representar

adequadamente

sua

própria

realidade, sem o que não há possibilidade de construir um
discurso coerente, prejudicando assim a linguagem, pois, sem a
linguagem, o processo de socialização está prejudicado.100
As crianças faveladas realizam com habilidade tarefas
práticas, chamadas de trocas materiais (como ir e vir sozinhas
para

a

escola,

coordenação

padaria,

psicomotora

cuidar
nos

dos

irmãos
etc.)101.

jogos

mais

novos,

Entretanto,

paradoxalmente, observou-se que a criança da favela encontra
dificuldades no plano das representações simbólicas.
“...as crianças de nossa pesquisa expressam
inteligência
prática,
o
que
se
revela
num
conhecimento do real na ação direta com os
objetos, mas ao mesmo tempo uma conceptualização
bastante atrasada deste mesmo real, o que mostra
os seus fracassos perante as provas operatórias.
Estas
crianças
estariam
revelando,
na
terminologia
piagentina,
“um
saber
fazer”
(reussir), mas não um “compreender ” (comprende).
Portanto, o caminho da inteligência da ação à
consciência, segundo a teoria piagentina, está
prejudicada por algum motivo.”102

No primeiro capítulo descrevemos alguns aspectos do
ambiente influenciador na formação da criança favelada. Num
segundo momento preocupamos-nos em destacar a relevância da
família e dos conflitos destes dois modelos. O que pretendemos
neste
100

ponto

é

delimitar

MONTOYA, Idem, p. 09 e 100.
Idem, p. 67.
102
Idem, p. 69-70.
101

a

questão

da

formação

da

criança

73
favelada ao campo do seu desenvolvimento cognitivo.

A

pastoral da igreja para com crianças empobrecidas não está
desvinculada da pedagogia. Se pastoral é a práxis da teologia
da igreja, e essa práxis é motivacionada pela fé que ela
exerce,

então

não

podemos

desvincular

a

ação

pastoral

da

pedagogia, sobretudo no que se refere à criança da favela.
Danilo Streck103

propõe um diálogo entre teologia e

pedagogia, pois a escola não é o único e exclusivo lugar da
educação. A igreja evangélica chamada histórica tem em sua
tradição de origem, como vimos há pouco, a vocação (chamado
para missão) de amalgamar fé e ensino.
“Não existe educação sem algum tipo de fé. Não
existe fé que não se materialize em algum tipo de
educação.”104

A

criança

favelada

é

orientada

cognitivamente

a

obedecer de forma mecânica. Isso explica que elas sigam as
regras da rua, dos traficantes, dos seus exploradores. Não é
de interesse da elite dominante que as crianças das favelas
possam competir com seus filhos nas universidades federais
(gratuitas) e em empregos com melhores salários.
Dongo
intervenção

Montoya

pesquisou

facilitadora

à

técnicas

criança

possíveis

favelada

de

para

a

representar

suas ações práticas, e capacitá-la para construir um discurso

103

STRECK, Danilo. EDUCAÇÃO E FÉ: UM DIÁLOGO ENTRE TEOLOGIA E PEDAGOGIA. In.
REFLEXÕES NO CAMINHO 6. Igreja: Comunidade Educadora. CEBEP, Campinas,
1995, p. 08.
104
Idem, p. 09.

74
coerente105, por meio de representações simbólicas adequadas a
seu meio ambiente psicossocial.
“O relato verbal deverá ser apoiado por outras
formas de expressividade e de organização da
experiência:
desenhos,
dramatização,
escrita,
atividades plásticas, etc.106

Consideremos

os

aspectos

abordados

anteriormente

a

respeito do sentimento exclusão e estigmatização, à ausência
do pai, aos conflitos existentes entre os modelos parental e
escolar e à desvalorização da criança- “conversa de criança
não

se

leva

a

sério”,

como

muitas

vezes

temos

ouvido

popularmente falar. É óbvio que não poderíamos olvidar o fato
dos

pais

terem

pouca

escolaridade

ou

serem

analfabetos.

Montoya enfatiza que vai depender desse meio social em que
vive

a

criança:

“o

meio

social

tanto

pode

bloquear

ou

favorecer o desenvolvimento do pensamento.”107
Vamos chamá-la de Ely. Ela mora na favela desde quando
nasceu, há 9 anos, seus colegas, primos e primas também moram
no

mesmo

ambiente.

Seus

pais

revolveram

investir

na

sua

formação, colocando-a em uma escola particular. O pai foi
pastoralmente

orientado

a

labutar

por

uma

bolsa,

e

a

conseguiu. Por que enfocamos Ely neste instante? Ela se tornou
uma das melhores alunas de sua escola. Bem, sua mãe e seu pai
fazem

parte

desta

professoras

do

pedagógicas

duas

105
106

história

Projeto
e

até

MONTOYA, Adrian. Op. Cit., p. 10.
Idem, p. 113.

ativamente.

CEAB/NJ,
três

recebe

vezes

ao

A

mãe

cursos,
ano.

A

é

uma

das

orientações
família

foi

75
primeira sociedade facilitadora a influenciar esse desbloqueio
cognitivo das representações simbólicas.
“Desse modo, o meio social passará a ser um
espaço da verdadeira atividade intelectual e de
aprendizagem inteligente, pois a criança sentirá
que os adultos e o grupo compartilham seus
saberes.”108

A

responsabilidade

de

educar

não

é

da

escola,

é

primeiramente da família. Mas, também dos meios de comunicação
e

da

igreja.

Uma

pastoral

que

além

do

mero

assistencialismo, do tipo só dar o peixe, não pode ficar de
braços cruzados ante à exclusão psicológica da criança pobre
do acesso à boa educação.
A

pastoral

tem

muitas

possibilidades

de

ação

transformadora promovendo debates entre os pais, educadores,
igreja etc. sobre o “como aprender”, ou quais métodos mais
adequados

ao

contexto

da

criança

favelada,

de

maneira

a

proporcionar seu crescimento cognitivo, gerando o menor número
de conflitos de paradigmas de vida. Mas, se a igreja não parar
para ouvir e levar a sério suas idéias e falas, nada disso
terá muito valor.
A pastoral é a promotora da integração dessa criança não
somente na sociedade, mas também na igreja. Entretanto, ela
não fará sua tarefa com êxito se não relacionar a família da
criança ao seu trabalho.

107
108

Idem, p. 113.
Idem, p. 113.

76

“Una familia que se comunica libremente se
adelanta, a menudo, a los problemas potenciales
(dentro e fuera de ella) anates de que escapen ao
control. Pero no siempre.”109

Diante

desse

desafio

de

acreditar

e

continuar

a

promover sua integração na sociedade de maneira libertadora, o
propósito

pastoral

não

deve

ser

apenas

de

fazer

destas

crianças bons e obedientes serventes de pedreiro ou empregadas
domésticas, mas, sim, levá-las a desenvolver suas capacidades
de exercer seus direitos de cidadania livremente, ajudando-as
a superar suas deficiências aparentes e descobrindo métodos
mais apropriados para facilitar seu desenvolvimento cognitivo.

109

CLINEBELL, Howard e Charlotte. EL NIÑO CON PROBLEMAS. La Aurora, Buenos

77

CAPÍTULO III
IGREJA E CRIANÇA DE FAVELA, DESAFIO À PASTORAL DA
SOLIDARIEDADE
Nosso

alvo

neste

capítulo

é

descrever

a

teologia

prática da igreja como balizamento da expressão coerente do
exercício da fé e do amor.
Em

seguida,

com

o

terreno

preparado,

pretendemos

tanger o caráter da prática solidária da igreja para com a
criança de favela, como uma ação profilática na tarefa de
despertar seus valores corroborando para aprender a vencer
suas crises pessoais decorrente de seu ambiente.

1. NECESSIDADE DE UMA TEOLOGIA PRÁTICA
“A ruptura entre a fé que muitos professam, e
suas vidas quotidianas, deve incluir entre os
mais sérios erros da nossa época”110.

A pastoral da igreja protestante tem necessidade de
uma ferramenta teórica, respaldada e embasada na Bíblia, para
alimentar o seu conteúdo prático como elemento de ação da
igreja na sociedade.
Desta forma, a igreja necessita de uma teologia para
deixar-se

conduzir

teoricamente

por

um

procedimento

libertador. Uma teologia extraída da Bíblia em direção ao ser
Aires, 1974, p. 44.
110
GROOME, Thomas H., EDUCAÇÃO RELIGIOSA CRISTÃ, -Compartilhando nosso
caso e visão - Ed. Paulinas, São Paulo, 1985, p. 102.

78
humano.

A

bíblicas

teologia

prática

conduzir-nos-á

às

respostas

relativa à problematização da criança favelada.

Essa teologia prática expressa-se na ação pastoral da
comunidade

de

fé,

cujo

modelo

inspirativo

encontra-se

no

próprio IHAWEH como o Deus-Pastor. Jesus como o Bom Pastor é
inspirador de novos paradigmas com respeito a compreensão da
criança pobre.
1.1.

UMA TEOLOGIA PASTORAL
“La
teología
como
suposto
nos
obliga
a
refletionar e dar contenido a nuestra pastoral.”
111

A teologia protestante latino-americana deve oferecer
ao povo uma práxis de esperança e libertação em relação às
forças ideológicas de opressão. A ação reflexiva da igreja
toma forma na ação pastoral, que professa sua fé cristã e sua
obediência

a

seu

Senhor

no

engajamento

missiológico.

Uma

teologia prática é uma teologia voltada para a missão. E,
missão é sempre em relação ao perdido, oprimido e escravizado.
Assim, a teologia prática revela-se na teologia pastoral.
Como bem se expressa Casiano Florestan

ao escrever sobre a

“Teologia Pastoral”:
“É possível que a teologia bem entendida seja a
teologia prática. O que se parece importante é
que, neste momento, a teologia prática ou, em
nosso caso, a teologia pastoral da libertação há
de
se
desenvolver
com
mais
amplitude
e
profundidade em método teológico correto para a
pastoral.”112

111

ALVAREZ, Carmelo E., EL PROTESTANTISMO LATINOAMERICANO - Entre la Crisis y el Desafio-,
Ed. CUPSA, México, 1981, p. 37.
112
FLORESTAN, Casiano, MÉTODO TEOLÓGICO DE LA TEOLOGIA PASTORAL, Material em xerox
estudado em classe- “LIBERACIÓN Y CAUTIVERIO”, p. 250.

79
Ora,

a

teologia

prática

fornece

as

ferramentas

bíblicas para a adequada leitura e a ação da igreja. Se o
pastor pastoreia seu rebanho, este, por sua vez, deve ser
habilitado
excluídos

por
e

ele

para

exercer

necessitados.

A

uma

igreja

pastoral
encontra

junto
no

OUTRO

aos
o

conteúdo prático para a sua teologia. A missão de Moisés como
libertador e legislador de Israel sempre foi em relação ou
outro, que era o povo que clamava por ajuda no Egito. Os
profetas vaticinaram ao povo o que ouviam do Senhor Deus. O
Espírito

Santo

capacitou

discípulos

para

irem

até

outras

pessoas de todas as etnias e nações do mundo, para levar a sua
mensagem. Nossa missão é sempre relacional, em direção ao
outro.
Nossa proposta é uma teoria que reflita a prática da
igreja. Por essa razão é que delimitamos a pesquisa no campo
da práxis de uma Igreja a uma favela. O projeto CEAB/NJ deve
desenvolver em seu bojo a busca por uma pastoral voltada ao
cuidado à criança de favela.
Sua situação geográfica foi marcante para o despertar
da missão, amalgamada às utopias dos seus membros iniciantes e
de uma persistente atenção a essa criança marginalizada por
seu meio ambiente e marcada pelo modelo parental em crise.
Uma teologia prática nasce da leitura da Bíblia do
povo de Deus, de olho no clamor tantas vezes silenciado pelo
conformismo. Em nossa caminhada prática pastoral há erros e
acertos, mas, há determinação e obediência à vocação.

80
Segundo Clóvis Pinto de Castro (sobre a parábola do
samaritano

no

evangelho

de

Lucas

10h25min-27):

“Jesus

transforma uma discussão de teologia sistemática em teologia
prática”113. Não pretendemos desmerecer o valor da teologia
sistemática. Queremos reafirmar que se desejarmos socorrer as
pessoas à margem do caminho (morrendo, sofrendo e clamando por
seu próximo), fica evidente o que Jesus quer ensinar sobre
teologia

nesta

parábola:

que

a

teologia

visa

à

prática

pastoral.
Ademais, a parábola do samaritano é contada por causa
das elucubrações de teologicidade de um especialista da Torah
(o que deveria fazer para herdar a vida eterna). Mas Jesus
interpela

seu

interlocutor

perguntando-lhe

qual

era

a

sua

leitura da Lei. Sua resposta está correta, sua teologia é
lógica e bíblica, porém escondia em sua prática a negatividade
excludente de sua teologia. Jesus não está interessado na
leitura

das

Escrituras

que

não

ecoem

em

atos

práticos

de

salvação do próximo, do outro.
O doutor da Lei chega a uma brilhante conclusão no que
tange

a

quem

seria

o

próximo

do

homem

caído

à

beira

do

caminho: “Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de
misericórdia

para

com

ele...114”.

contundente ao convocá-lo
procede tu de igual modo.”115
113

Nesta

altura,

Jesus

é

a uma teologia prática: “Vai e
Ademais, é de bom alvitre neste

CASTRO, Clóvis Pinto de. A CIDADE É MINHA PARÓQUIA, Editeo, S. Bernardo do Campo, 1996, p. 88
PARÁBOLA DO SAMARITANO. Bíblia Sagrada, R.A. Almeida, SBB, Lucas 10:37.
115
Lucas 10:37 - Para uma análise mais detalhada sugerimos a leitura das páginas 83 à 88, CASTRO, A
CIDADE É MINHA PARÓQUIA.
114

81
ponto descrever o texto de João 13h17min - “Ora, se sabeis
estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes.”

1.2. PASTORAL DA SOLIDARIEDADE
“O próximo é aquele
solidariedade.”116

que

toma

iniciativas

de

A solidariedade é a relação de responsabilidade para
com

o

outro

que

sofre,

para

com

quem

ninguém

quer

se

responsabilizar. É o caso das crianças de favela e com o
tremendo déficit escolar na rede da educação pública. Como
será

seu

futuro,

haverá

esperança?

Como

intervir

nesta

situação de opressão cultural tão diabolizada de nossa terra?
Solidariedade, em nosso caso, é o respeito à criança
da favela como GENTE (não como ENTE), alvo concreto do amor de
Deus.

Essa

criança

clama

por

seu

próximo,

responsável

e

solidário. Somos responsáveis uns pelos outros, nossas ações
repercutem

no

meio

em

que

vivemos.

A

solidariedade

é

relacional, acontece entre pessoas que tomam iniciativas de
amar concretamente o próximo, e o próximo é aquele que precisa
da gente. A solidariedade pastoral traduz-se em lutar por
elas, em acreditar que elas valem a pena, através dos diversos
estágios da prática do cuidado pastoral.
“As crianças não são capazes de pedir, com a
força dos adultos. São os maiores que precisam
lutar por elas, impedindo que lhes seja tirado o
fundamental, evitando que morram de fome, pela
discriminação e pelo descaso.”117
116
117

CASTRO, Clóvis, Op. Cite, p.88.
DREXEL, John, Op. Cit., p. 25 .

82

Assim

sendo,

o

projeto

CEAB/NJ,

introjetando-se

no

desejo de atender ao clamor das crianças faveladas, seguindo
modelos bíblicos ensinados por Jesus Cristo, deverá refletir
hoje se sua ação está gerando LIBERTAÇÃO E CRESCIMENTO.
A seguir, enfocaremos as motivações mais sinceras da
alma que cumprem o sentido da Torah: o amor. A manifestação
deste amor toma forma no relacionamento mútuo. A empatia e a
compaixão são meios de expressão deste amor no que se refere a
este relacionamento.

1.2.1. EMPATIA E COMPAIXÃO COMO FORMAS DE EXPRESSÃO:
“Na Pastoral da Solidariedade, como já definimos,
um dos pontos chaves é empatia.”118

A igreja deveria ser uma comunidade terapêutica. À
guisa de ilustração, a parábola do samaritano revela o caráter
compassivo do samaritano em relação ao homem caído à margem da
estrada. Dentre os três homens que estavam a caminho, ele é o
único

que

pára

diante

do

necessitado;

os

outros

dois

têm

outras prioridades, mas, ele demonstra empatia. A diferença
entre eles foram suas motivações teológicas e práticas. O
samaritano cumpre a Lei à medida que atende ao clamor do
próximo que sofre à margem da vida.

118

CAMPOS, Tarsis de. A DEPRESSÃO: UMA ANÁLISE TEOLÓGICA-PASTORAL, TESE, IEPG, S.
Bernardo do Campo, 1994, p. 77.

83
“Certo samaritano,
passou-lhe
perto
dele.”119

que
e,

seguia o
vendo-o,

seu caminho,
compadeceu-se

A compaixão é um elemento fundante para a pastoral que
se propõe a pautar sua ação pela solidariedade. A compaixão
necessita

de

um

proceder

empático,

que

mescle

motivação

interior e modo de operar. Empatia é a “tendência para sentir
o que sentiria caso se estivesse na situação e circunstâncias
experimentadas por outra pessoa.”120
Ademais, é possível que Jesus tenha empregado a figura
do samaritano por razões bem óbvias: este era excluído do amor
dos

judeus

e

marginalizado

pelos

seus

compatriotas

(“Os

samaritanos descendiam dos israelitas do Reino do Norte; eram
os

sobreviventes

que se

misturaram

com

a

nova

estrangeira deportada para o país depois da queda de

população
Samaria

em 722 a.C. Jamais se aliaram efetivamente à Judá e, no tempo
de

Neemias,

a

ruptura

tornou-se

claramente

irreparável.

A

construção do templo samaritano em Garizim selou a excomunhão
desta seita por parte dos judeus.)121. O próximo daquele homem
marginalizado, esfaimado, era

“O que usou de misericórdia

para com ele.”122 A misericórdia ou compaixão é entendida como
uma motivação que gera uma ação a favor do necessitado. A
empatia é o ato que permite a um pastoralista sair de sua
cômoda situação e colocar-se dentro de um barraco, ver-se
comendo o que sobra da farta mesa do rico.

119

LUCAS Cap.: 10:33, Biblia Sagrada, Almeida, SBB, 1996.
AURÉLIO, Dicionário eletrônico, 1992.
121
DAVID E ALEXANDER, MUNDO DA BÍBLIA, Paulinas, São Paulo, 1985, p. 497
122
Lucas 10:37
120

84
Por ser atraído por essa missão o pastoralista precisa
primeiro colocar-se no lugar da criança favelada,
vivenciar

sua

vida,

para

poder

responder

a fim de
aos

seus

questionamentos mais profundos da alma. Foi o que Jesus Cristo
fez na encarnação do Verbo. Ele se fez um de nós, nasceu numa
manjedoura

como

criança

pobre,

viveu

como

filho

de

um

carpinteiro na periferia da nação dos hebreus (Galiléia), e,
por fim, experimentou a morte

em nosso lugar.

“É preciso exercer com a pastoral da igreja um
forte vínculo solidário com aqueles que sofrem.
... Pela empatia, a pastoral pode fazer a igreja
se aproximar das camadas sofridas...”123

A

criança

favelada

não

tem

força

para

reagir

à

opressão. Sua força para mudar o rumo de sua vida já nasce
prejudicada.

Com

includente,

de

ressuscitar

a

a

pastoral

portas

da

abertas,

capacidade

de

solidariedade
tem

reagir

a

a

igreja

é

possibilidade

de

positivamente

a

essa

favelização cultural. Nos Evangelhos a solidariedade de Ihaweh
se revela na pessoa do Seu Unigênito, em gestos e manifestos
da

multiforme

graça

divina

oferecida

aos

sobrantes

desta

sociedade. Veja, por exemplo, os capítulos 8 e 9 de Mateus.
Neles são realizados atos do amor terapêutico de Cristo aos
marginalizadas pela sociedade judaica da época:
- cura de um leproso - impuro por ter pele morta (Mt 8:1-4);
- Cura do servo do Centurião - por ser gentio (Mt 8:5-13);
- Cura de uma mulher - inferiorizadas (Mt 8:14-15/ 8:18-26);
- Cura de endemoninhados - excluídos sociais (Mt 8:28-42);

85
- Come com os pecadores – indignos (Mt 8:10-13).

“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me
ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para
proclamar libertação aos cativos e restauração da
vista aos cegos, para pôr em liberdade os
oprimidos,
e
apregoar
o
ano
aceitável
do
Senhor.”124

O ministério de Jesus teve como prioridade as pessoas
excluídas da sociedade de Seu mundo e cultura. E a igreja,
hoje, é uma das realizadoras de Sua obra para levar a saúde, a
liberdade

e

a

justiça

aos

excluídos.

precisa ser incluída na ação da igreja.

A

criança

de

favela

Para tanto, é preciso

dar atenção as suas formas de expressar sua vida e suas dores;
ela deseja ser ouvida.
“A Pastoral da Solidariedade é uma relação
subjetiva,
que
tenta
estabelecer
contornos
objetivos. Se a teologia quer solidarizar-se,
deve escutar aquele com quem deseja relacionarse.”125

Para que seja uma teologia pastoral solidária, ela
precisa

aprender

compromete-se

em

a

ouvir,

ouvir

a

ser

empática.

criança

favelada,

A

solidariedade
e

em

penetrar

empaticamente em seu mundo para entender suas necessidades e
potencialidades, para descobrir como epistemologicamente as
coisas são construídas em seu universo.

123
124

CAMPOS, Tarsis de. Op. Cit., p. 77-78.
Lucas 4:18 - Bíblia, Versão Almeida Atualizada.

86
1.2.2.

SOLIDARIEDADE SE TRADUZ EM DIACONIA
“Como se a práxis pastoral fosse as mãos de
Cristo curando vidas, transformando contextos e
libertando deprimidos pela compaixão para com
aqueles que não conhecem um sentido sadio para a
vida.”126

A função da igreja é servir a Deus, ou servi-Lo por
meio da ajuda ao próximo. A solidariedade concretiza-se em
serviço porque ela é relacional.
Esse

serviço

é

a

expressão

da

pastoral

da

solidariedade. Em Atos, capítulo 6, a igreja dos Apóstolos
vê-se diante de uma situação de discórdia e exclusão interna
entre

as

viúvas

dos

judeus

helenizados

e

dos

judeus

autóctones. Havia murmuração dos helenistas contra os hebreus
porque suas viúvas estavam sendo excluídas da partilha diária
do pão. A solução da igreja foi a eleição do serviço diaconal.
Serviço diaconal é redundância, pois, diácono é aquele que
serve. O serviço diaconal nasceu para dinamizar o trabalho de
solidariedade pastoral.
“Como podemos atuar para nos solidarizarmos com os
empobrecidos da comunidade?”127

Assim,

a

igreja

expressa

sua

solidariedade

com

a

criança favelada através da ação diaconal. Um primeiro momento
da práxis pastoral da igreja é questionar qual a prioridade da
ação pastoral: a vida será sempre prioridade. Portanto, se uma
criança

125

está

esfaimada,

sua

necessidade

imediata

é

arroz,

PAULY, Evaldo Luis. Op. Cit., p.15.
CAMPOS. A DEPRESSÃO: op. Cit., p. 82.
127
CRUZ, Gonzalo V., DESAFIO DE LA EDUCACION POPULAR, Uma Educação Alternativa, Caudernos
Populares, Ed Alfalit Latinoamericana, 1992,p. 12
126

87
feijão, pão etc. A ação diaconal deve buscar alternativas para
os problemas existenciais mais urgentes, como a fome. Assim, a
solidariedade como estilo da pastoral se traduz por diaconia
da igreja. O samaritano procedeu diaconamente, a serviço do
outro

sem

motivações

de

lucro:

“Pensou-lhe

os

ferimentos,

aplicando-lhes óleo e vinho;” (Lc 10:34), depois, colocou-o em
seu veículo de transporte e levou-o para uma hospedaria na
cidade,

a

fim

de

ser

curado.

Recordo-me

de

quantas

vezes

colocamos crianças enfermas ou machucadas em nossos veículos
de transporte para conduzi-las para hospitais da cidade.
A
favela

em

ação

diaconal

suas

serve

necessidades

solidariamente
básicas,

como

à

criança

comida,

da

roupa,

ensino, saúde e fé. Contudo, o serviço solidário da pastoral
procede de tal modo a não gerar dependência paternalista,
acomodação e assistencialismo.
1.2.3 SOLIDARIEDADE MISSIONÁRIA
“Por lo tanto la tarea pastoral plantea la
necessidad de responder al llamado para ir al
encuentro
de
los
hombres
estableciendo
el
verdadero diálogo para la misión con o objetivo
de la restauración y libertación que es a final
de cuentas la meta del Evangelio.”128

Percebemos na história da Igreja Presbiteriana Nova
Jerusalém um forte sentimento a respeito da sua vocação, em
relação à favela. O grande desafio para a pastoral da igreja é
o cuidado de não impor um modelo da classe média à criança de
favela e sua família.

128

ALVAREZ. El Protestantismo Latinoamericano. p. 42,43.

88
O caráter missionário da pastoral comunica o desejo de
solidarizar-se com quem está do outro lado. Esse caminhar em
direção à criança de favela é uma trajetória na contramão da
sociedade.
Orlando Costas enfatizou a evangelização como a razão
de ser da Igreja129. Ele vai apresentar pistas à ação pastoral
experimentada

amplamente

neste

projeto.

A

solidariedade

fundamenta-se na caminhada missionária.
“O agente evangelizador não deve ser neutro, nem
passivo frente a sua realidade. Os cristãos vivem
debaixo da sedução do Espírito Santo. Devem
demonstrar um novo estilo de vida de liberdade e
serviço, justiça e paz.”130

A práxis da pastoral deve ter estilo reconciliatório e
provocador

de

existência:

o

transformações
convívio

sociais

solidário

como

entre

objetivo
as

de

pessoas.

sua
Duas

mulheres da favela viviam em inimizades entre si, por muito
tempo; a pastoral da igreja nesta sociedade provocou a mudança
destas

vidas,

resultando

na

reconciliação

delas.

Assim,

a

pastoral promove a união entre os excluídos em função de um
ideal maior.
“Trata-se de uma ação criadora e transformadora
do povo na história, acompanhada de um processo
reflexivo crítico e profético, cujo fim é fazer
nossa obediência cada vez mais eficaz.”131

O evangelismo é um paradigma para a práxis da pastoral
no que toca à pedagogia dos empobrecidos, para libertá-los do
conceito dominante que prefere a ignorância e o despreparo das

129

COSTAS, Orlando. EVANGELIZACIÓN CONTEXTUAL - Fundamentos teológicos y pastorales.
SEBILA, S.José, Costa Rica, l986, p. 07.
130
ALVAREZ, Idem, p. 24.

89
classes

mais

empobrecidas

da

sociedade.

Esse

paradigma

missionário leva a pastoral da igreja a um compromisso com a
realidade. Neste sentido, Costas desenvolve um estudo sobre
paradigma veterotestamentário que se centraliza na história de
Ester como modelo de missão/evangelização no tempo do domínio
persa. Ele pergunta: “qual o segredo da obediência intrépida
de Ester?”132. A resposta está na análise de sua práxis. Ester,
por sua beleza, fora escolhida pelo rei Assuero para ser a
nova rainha. Assim, ela, órfã de uma etnia minoritária, chegou
a uma posição de privilégio. Mas, diante da realidade trágica
de sua raça, não hesitou em abrir mão de sua própria vida ou
bem estar, para salvá-lo do decreto de extermínio. Costas diz
que

o

segredo

da

sua

intrépida

obediência

encontra-se

no

“compromisso de Ester com suas raízes”133. “Ester lembrou-se de
sua vocação”134. A ação de Ester foi uma práxis profética,
contra o opressor Hamã (que promoveu o decreto de extermínio
da sua gente). A pastoral profetiza contra os descasos das
autoridades políticas para com a situação de saúde, moradia e
educação das crianças faveladas e também contra a violência
dos pais e a exploração destas crianças.
Costas vê em Jesus Cristo e nos Evangelhos o paradigma
neotestamentário para a evangelização. “Jesus como evangelista
da periferia”135. Jesus exerceu a maior parte de seu ministério

131

ALVAREZ, Idem, p. 25.
COSTAS, Orlando. Op. Cit., p. 31.
133
Idem, p. 32.
134
Idem, p. 34 .
135
Idem, p. 45.
132

90
na Galiléia136. Ela não era a terra das elites religiosas e
políticas, era a periferia de Israel.
“Mas
para
a
terra
que
estava
aflita
não
continuará a obscuridade. Deus, nos primeiros
tempos, tornou desprezível a terra de Zebulom e a
terra de Naftali; mas, nos últimos, tornará
glorioso o caminho do mar, além do Jordão,
Galiléia dos gentios.”137
“Como símbolo da periferia cultural, social,
política e teológica, Galiléia, tem uma enorme
importância para os povos da América Latina em
geral...”138

A práxis da pastoral trabalha a educação da criança
empobrecida no paradigma do compromisso da evangelização. A
Galiléia como lugar de evangelização foi o alvo da pastoral de
Cristo. A criança favelada sobrevive em meio a uma sociedade
empurrada para lugares sem condições de vida na periferia da
cidade. A pastoral da igreja compromete-se com a periferia
para exercer sua práxis libertadora entre os marginalizados
sociais.
“Na perspectiva de Marcos, Galiléia marca sua
base. Sua meta, sem dúvida, é confrontar os
poderes concentrados em Jerusalém com a mensagem
radical do reino de Deus. Se Galiléia é o lugar
dos rechaçados e marginalizados, Jesus representa
neste Evangelho o poder estabelecido em juízo e
morte.”139

A pastoral nasce de uma reflexão a partir da palavra e do
compromisso com a realidade do caminho. Em nossa caminhada
temos encontrado meninas e meninos da favela clamando por

136

ALVAREZ, Idem, pág. 46 Nota: Galiléia quer dizer “círculo de pagãos”, Is 8:23 -este livro (9:1) se refere a
“Galiléia dos gentios”, sociedade miscigenada biológica e culturalmente.
137
Isaías 9:1, Bíblia Versão Almeida Atualizada.
138
ALVAREZ, Op. Cit., p. 49.

91
esperança de um futuro mais justo. O caráter missionário da
pastoral pontua a ação de por os pés em direção à favela, ao
encontro de suas crianças que perambulam pelo espaço das suas
ruas e becos.

3.1.3. O MODELO DE PASTORAL NO DEUS-PASTOR
“Apascenta os meus cordeiros.” (João 21:15)
“A ação pastoral da Igreja procura buscar inspiração
na prática daquele que é o único Pastor.”140
Nosso escopo é dialogar com a Bíblia em busca de um
referencial inspirativo. Se a práxis da igreja, no âmbito da
teologia prática, objetiva o próximo, o excluído, então essa
práxis afunila-se na teologia pastoral. Não em uma teologia
social apenas, mas pastoral; pois, suas ferramentas não são
apenas

as

das

ciências

sociais,

mas,

também,

ferramentas

psicológicas e pedagógicas, e, sobretudo, bíblicas.
A pastoral pressupõe a idéia do trabalho de pastorear,
cuidar,

apascentar.

A

comunidade

de

é

essa

pastora

da

sociedade. Este pastoreio necessita receber uma conceituação
distinta da idéia interna e eclesiástica do trabalho do pastor
(ministrar os sacramentos, visitar, prédica etc.). A pastoral
da igreja pede conceituação nova e mais específica para com
sua missão. Para tanto, buscaremos inspiração no modelo do
Deus-Pastor apresentado no Velho e Novo Testamentos, à luz da

139

Idem, p. 53.
BOSETTI, Elena, DEUS-PASTOR NA BÍBLIA: Solidariedade de Deus com seu
povo, e Salvatore A. Panimolle; São Paulo, Paulinas, 1986, p.05.
140

92
investigação bíblica de Elena Bosetti e Salvatore Panimolle,
destacando a solidariedade de Deus com seu povo.
Dentro

do

intuito

de

levantar

pistas

para

a

metodologia de trabalho com crianças faveladas, a conceituação
do

Deus-Pastor

na

Bíblia

é

relevante

e

inspirativa

para

aprofundar na tarefa pastoral. Rememoramos as condições de
exclusão e abandono, das tensões e frustrações da família e a
patente

ausência

influências

da

deletérias

figura

paterna,

para

crescimento

o

como

fatores

psicossocial

de
da

criança favelada. No primeiro e segundo capítulos visualizamos
quem é ela; nesta última parte tentaremos responder o como
seus princípios e rumos pastoralistas atenderão ao clamor da
criança pobre moradora de favela.

“O tema de Deus-Pastor está presente nas três
partes da Bíblia hebraica: Na Torá, nos Profetas
e nos Escritos (especialmente os Salmos). Ele é
expressão da cultura nômade que encontramos no
Antigo Oriente Médio, mas, ao mesmo tempo, é
inseparável da história religiosa de Israel.”141

A criança favelada cujo cuidado é inexistente, poderá
ter seu imaginário (danificado pela exclusão) trabalhado pelo
imaginário religioso, se Deus lhe for apresentado como aquele
que apascenta seu rebanho. Como a igreja exercerá sua missão
de

pastorear

a

sociedade?

Quais

princípios

pautam

seu

procedimento pastoral?
BOSETTI relaciona pelo menos 20 verbos que especificam
a ação pastoral de Iahweh como pastor:

93
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
8.
9.
10.
11.
12.
13.
14.
15.
16.
17.
18.
19.
20.

Todos

Apascentar (ra‟ah),
conduzir (nahag),
guiar (nahal),
dirigir (nahah),
procurar (baqash),
cuidar (darash),
fazer retornar (Shwb),
reunir (qabas),
guardar (shamar),
fazer recolher-se (rabas),
visitar (paqad),
inspecionar (baqar),
julgar (shapat),
libertar (nasal),
fazer sair de (iasa‟),
fazer subir (alah),
fazer entrar - vir (bw‟),
salvar (iasha‟),
conhecer (iada‟)
fazer aliança (karat berit).142

estes

verbos

estão

ligados

à

terminologia

explícita do pastor e são usados com referência a Iahweh.
Bosetti

classifica-os

em

quatro

blocos

de

funções

correspondentes às atividades fundamentais do pastor, ou seja:
apascentar (guiar); prover (nutrir); libertar (ir atrás) e
aliar (aliança)143. A partir destas idéias podemos pautar os
princípios operacionais do trabalho pastoral, em nosso caso,
com crianças faveladas. A igreja poderá exercer sua pastoral
apascentando os cordeiros (crianças) do rebanho. O amor a Deus
deve

pulsar

igreja.

Isso

dentro
nos

do

leva

pastoralista
a

afirmar

e

que

da
o

pastoral
requisito

de

sua

para

o

engajamento em uma pastoral à criança da favela é o amor a
Deus. Foi o que Jesus disse ao apóstolo Pedro: “apascenta os
meus cordeiros” (João 21:15). As ovelhas sentem segurança no

141
142

BOSETTI, Elena, Op. Cit., p. 17.
Idem, p. 20.

94
pastoreio contra os perigos subjacentes a sua situação. Bom, a
tarefa

da

pastoral

é

prover

condição

para

que

a

criança

penalizada pelo estigma psicossocial, desenvolva autoconfiança
e busque explorar suas próprias potencialidades.
Eis uma questão relevante para a teologia prática: De
quem é esse rebanho infantil? Jesus disse: “apascenta os meus
cordeiros.” A criança favelada figura o rebanho infantil de
Deus, pertence a Ele! Cabe à igreja cuidar do que é do Senhor.
“Ora, para alguém exercer funções pastorais sobre
um
rebanho
que
não
lhe
pertence,
parece
indispensável um amor excepcional ao Pastor
Supremo, ao Senhor Jesus.”144

Prover

o

sustento

psicossomático

pode

parecer

assistencialismo, mas não é, pois uma criança com fome de
alimento,

carinho

e

justiça

não

desenvolve

os

potenciais

latentes em sua alma. Libertar é a idéia do pastor que vai
atrás, em busca da que está perdida, sem esperança; valoriza
sua ausência do rebanho e promove atividades em prol de sua
libertação como pessoa. Aliar é a ação pastoral que manifesta
compromisso,

faz

aliança,

não

exclui

pelo

estigma

social;

promove sua integração à sociedade, seja aliada, comprometida
com o direito à vida.
A ênfase destas figuras agregadas ao Deus-Pastor na
Bíblia

está

subseqüente

na

busca

libertação

do

excluído;
do

marginalizado pela sociedade.

143
144

Idem, p. 21-50.
Idem, p. 70.

que

no

está

encontro,
longe,

socorro

em

e

perigo,

95
A criança da favela precisa ser apascentada por meio
da pastoral de cada igreja. Ela é vítima, pequena vítima (e a
maior)

do

pecado

sócio-político,

ao

longo

de

mais

de

quinhentos anos de história latino-americana.
“Eu Sou o bom pastor: o bom pastor dá sua vida
pelas suas ovelhas”. 145

A ação solidária de Deus para com o Seu povo, como
PASTOR,

inspira

e

orienta

a

pastoral

da

igreja,

que

se

responsabiliza pelo cordeiro (criança) que está perdido, cujos
direito humanos não são respeitados. Jesus Cristo é o bom
pastor por que dá a sua vida pelas ovelhas. A igreja precisa
dar

o

melhor

de

si

para

cumprir

sua

missão

com

êxito,

colocando sua vida em favor da criança favelada.
“pois estáveis desgarrados como ovelhas, mas agora
retornastes ao Pastor e Supervisor das vossas
almas.”146

2. NOVOS PARADIGMAS À PASTORAL DA IGREJA
Castro

propõe

o

desafio

de

novos

paradigmas

que

facilitem a melhor compreensão da realidade. O pastoralista
encontra um desafio pela frente, por meio de uma leitura nova
da

relação

de

Jesus

com

a

criança

de

seu

tempo,

implicações de sua teologia prática com relação a ela.

145
146

João 10:11, BÍBLIA DE JERUSALEM, op. Cit.
1Pd 2:25, BÍBLIA DE JERUSALÉM, Op. Cit.

e

as

96
“Portanto, cabe também a nós, pastoralista, a
desafiante tarefa de buscar novos paradigmas para
uma compreensão mais adequada da realidade e para
a renovação da práxis pastoral”147

León

analisa

os

paradigmas

engendrados

na

igreja.

Valer-nos-emos de destas pontuações para questionar as tensões
entre realidade e utopia que existem nos modelos motivadores
da Igreja. A pastoral pode encontrar nesta visão de Jesus
Cristo

da

criança

de

Seu

tempo

um

desafio

para

novos

paradigmas de valorização da criança.
“Paradigma é um conceito multifacético..., tem a
ver com o pensar e o agir historicamente. Como
tal é um conceito tensional, porque está marcada
pela tensão entre o anelável e o viável, o
horizonte da utopia e o chão das mediações
históricas.”148

Streck enfoca a relação da fé com a educação como um
paradigma de re-novação da vida. Esta relação entre teologia e
pegadogia permite-nos explorar o campo da pedagogia de Jesus e
a

presença

das

crianças

nela,

como

um

novo

paradigma

transformador da conceituação patriarcal sobre a criança.
“Na

cristã
Deus
conclama
seu
povo
constantemente a encarar o novo, seja uma nova
terra, novas relações e formas de vida. Em outras
palavras,
a

permite
e
desafia
que
se
aprenda.”149

2.2.1. INCLUSÃO À CIDADANIA
“… pois delas é o reino de Deus.” (Mc 10:14)

147

CASTRO, Clóvis P., ECOLOGIA URBANA, - Uma ética como responsabilidade pelo futuro da cidade.
Ensaio apresentado ao programa de doutorado em Teologia Prática do IEPG, 1994, São Bernardo, p. 04.
148
LEÓN, Jorge A.. PSICOLOGIA PASTORAL DE LA IGLESIA: Un análisis de las enfermiddes que sufren
las iglesias con la terapia adequada para cada situación. Editora CARIBE, Costa Rica, 1978, p. 39.
149
STRECK, Danilo. EDUCAÇÃO E FÉ: Um diálogo entre a Teologia e a Pedagogia. In, REFLEXÕES NO
CAMINHO N0 6.- IGREJA COMUNIDADE EDUCADORA. CEBEP, Campinas, 1995, p. 9.

97
Jesus
categoria

Cristo

(excluída

inclui
do

a

mundo

criança,
dos

relegada

adultos)

pelas

à

segunda
culturas

sócio-políticas da época, na categoria de cidadã do reino.
Esse é um paradigma novo no trato da criança.
No mundo greco-romano a criança só tinha algum valor
pela perspectiva de ser um futuro soldado ou trabalhador. A
deficiente ou de sexo feminino era ainda mais desprezada.
“Isso só explica pela pouca estima de que as
crianças
consideradas
insignificantes
e
descartáveis - desfrutavam na época. O hábito de
enjeitar
criança,
juntamente
com
medidas
contraceptuais
e
abortos,
levaram
ao
despovoamento.”150

O universo judaico via a criança como bênção de Deus
(Salmo 127) e nunca como incômodo. Era um crime abandoná-la ou
matá-la. Mulher estéril não era sinal de bênção (1Samuel 1).
Ter filhos tinha por objetivo manter forte o povo adorador de
Iahweh,

para

garantir

a

continuidade

étnica,

e,

por

essa

razão, a criança era uma dádiva divina.
“Fora
deste
contexto
de
aliança,
da
terra
prometida e da Torah, as crianças perdiam esta
importância especial.151

Assim, tanto uma como outra cultura contemporâneas a
Jesus não tinham uma conceituação valorativa da criança como
pessoa. De fato, hoje pode ser bem diferente, o mundo moderno
criou a quase independência da criança. A ONU lançou há alguns
anos a campanha do ano Internacional da Criança. Temos hoje
nas

150

principais

cidades

o

Estatuto

do

Menor,

WEBER, Hans-Ruedi. JESUS E AS CRIANÇAS. Sinodal,S. Leopoldo,1986,p. 11.

onde

são

98
garantidos por lei os direitos da criança e do adolescente.
Entretanto, ainda há muita violência praticada contra ela. Há
um sem número de crianças sem teto e afeto, na rua. Crianças
que são abandonadas, espancadas, exterminadas. Na favela, elas
são geradas por pais cujos casamentos ou uniões maritais não
transmitem segurança aos filhos.
Weber

mostra

que

Jesus

não

idealizou

as

crianças,

pois, a sua valorização não está no fato de ser ela criança
propriamente, e sim na da graça divina. Jesus não deixou de
reconhecer atitudes imaturas e ambíguas na sua natureza, como
em Mt 11:16-19. “Jesus, portanto, tinha uma visão bem realista
das crianças.152”

“O reino pertence às crianças e todos aqueles que
são como elas, sem que se exijam quaisquer
qualificações, boas obras ou méritos.”153

Portanto, a pastoral trabalha a valorização da criança
favelada não somente pelo fato de ser ela especial ou que
traga em sim alguma vantagem por ser pobre, mas por ser alvo
do amor e da graça multiforme de Deus. Seu direito à cidadania
dá-se pelo fato de ser ela ser humano.

2.2.2. CRIANÇA COMO ESPERANÇA MESSIÂNICA
A criança é portadora de esperança e sonhos em nossa
cultura.

151

Idem, p. 13.
Idem, p. 16.
153
Idem, p. 31.
152

Os

pais

carregam

intrinsecamente,

em

seus

mais

99
secretos

sentimentos,

tais

sonhos

quanto

aos

seus

filhos,

quando nascem; esperança que seu filho (a) viva num mundo sem
injustiça e seja mais feliz que eles. Sonhos, utopias, que
surgem com o nascimento da criança.
“A

criança é isto: já está/vir a ser. Nesta
ambigüidade de presença e futuro é que se pode
aproximar da criança como categoria profética.”154

Assim
aspecto

é

que

messiânico

desejamos
e

profético

salientar,
da

neste

criança,

ponto,

que

o

poderá

despertar a capacidade de sonhar, adormecida em seus pais.
Neste ínterim, Nancy Pereira nos ajudará com sua análise da
questão messiânica estar ligada profundamente com a criança no
Primeiro Isaías (cc.1-39). Ela desenvolve a proposição de que
a referência

de Isaías 7 e 11, p.e., não é apenas metafórica:

está relacionada possivelmente ao contexto sócio-político da
época de Acaz e Ezequias, reis de Judá.
“Eis que a jovem concebeu e dará a luz um filho e
por-lhe-á o nome de Emanuel.”155
“Um ramo sairá do tronco de Jessé, um rebento
brotará das suas raízes. Então o lobo morará com
o cordeiro, e o leopardo se deitará com o
cabrito. O bezerro, o leãozinho e o gordo novilho
andarão juntos e um menino pequeno os guiará. A
criança de peito poderá brincar junto à cova da
áspide, a criança pequena porá a mão na cova da
víbora.”156
“Na profecia do Segundo Isaías a imagem do broto,
de renovo, do gérmen vai continuar sendo usada
para dizer da expectativa messiânica.”157
154

PEREIRA, Nancy Cardoso. O MESSIAS PRECISA SER SEMPRE CRIANÇA. Revista
de Interpretação Bíblia Latino-americana, N.24 Por uma terra sem lágrimas
- redimencionando nossa utopia. “BIBLIA”, Petrópolis, Vozes & Sinodal,
1997, p. 24.
155
Isaías 9:14 (Bíblia de Jerusalém).
156
Isaías 11:1,6,8 (B.J.).
157
PEREIRA, Nancy, Op. Cite, p. 22.

100

Era um tempo de miséria, injustiça social, idolatria,
e opressão; os pobres eram os que mais sofriam e sofrem ainda
hoje. Redimensionando este contexto para a situação da criança
favelada encontramos campos que se assemelham. A pastoral, ao
levar em conta este importante aspecto, tem como ferramenta o
resgate

da

valorização

da

criança

como

fonte

de

sonhos,

expectativas e esperanças para uma sociedade mais justa e sem
miséria.

“Ao apontar a criança como guia de um novo
projeto político a profecia se desdobra para
afirmar uma sociedade onde as próprias crianças conteúdo e forma- estão seguras e com sua
integridade garantida”.158

A

igreja

desvinculá-la

e
das

sua

pastoral

expectativas

trabalhando
de

sua

a

família,

criança

sem

terão

mais

facilidade de detectar se os sonhos poderão ser despertados.
Pois, quando o povo excluído e empobrecido deixa de sonhar, de
acreditar, desiste de lutar. Desistindo de lutar, sobra-lhe o
vazio, que poderá ser preenchido pela alienação, tomando forma
(na favela) no alcoolismo e estagnação pessoal. A pastoral
atende aos pais da criança favelada também, pois, a família é
importante para essa práxis.
Vislumbrando

essa

ambigüidade

(presente/futuro)

e

reativando o cuidado e motivações familiares, em favor desse
“renovo”, desse recomeçar. Porque esse sentimento messiânico
acontece no bojo familiar.

101
2.2.3. JESUS E A CRIANÇA -

GESTOS E CRÍTICA

“Traziam-lhe crianças para que as tocasse, mas os
discípulos as repreendiam. Vendo isso, Jesus
ficou indignado e disse: „Deixai as crianças
virem a mim. Não as impeçais, pois delas é o
Reino de Deus. Em verdade vos digo: aquele que
não receber o Reino de Deus como uma criança, não
entrará nele‟. Então, abraçando-as, abençoou-as,
impondo as mãos sobre elas.”159

Nosso intuito, ao fazer uma releitura deste texto do
evangelista Marcos, será enfatizar que a criança (inclusive de
favela) tem necessidades que vão além das materiais, como
comida,

roupa,

casa,

brinquedo,

educação

etc.

Ela

precisa

sentir, perceber, ser incluída, ouvida, atendida e abençoada.
O texto diz que “traziam-Lhe crianças”, a tônica está
nas

crianças

que

foram

levadas

até

Jesus.

Mas,

elas

não

poderiam chegar até Ele se alguém não as tivesse conduzido. O
papel da pastoral é o destes anônimos, desconhecidos que as
guiaram

até

Jesus.

Contudo,

a

posição

dos

discípulos

em

relação ao recebimento destas crianças era de impedimento.
Posição

encontrada

na

própria

igreja,

entre

os

atuais

discípulos de Jesus, quando as rejeitam por estarem cheirando
mal, ou irrequietas no culto dominical, ou, ainda, por estarem
estragando os bancos da igreja.
“A atitude dos discípulos „reproduz‟ os valores,
leis e práticas oficiais/patriarcais (religiosas
e sociais) que violentam a própria experiência da
infância, negando qualquer espaço para poder
viver os sentimentos e os valores próprios desta
etapa da vida.”160
158

Idem, p. 22.
Marcos 10:13-16 (B.J.).
160
ARCHILA, Francisco Reyes. VOLTAR A SER CRIANÇAS, UMA BELA UTOPIA. Rev. de Interpretação
Bíblia Latino-americana, n. 24 - Por uma terra sem lágrimas - redimensionando nossa utopia. “BIBLIA”,
Petrópolis, Vozes & Sinodal, 1997, p. 61.
159

102

Esses

discípulos,

religiosos,

legalistas,

são

repreendidos. Ele as chama para junto de Si e nos revela o
valor das crianças dando-lhes a Sua preciosa atenção. Mesmo
sendo o espaço do barraco limitado, a televisão não teria
tanto valor assim, a rua não fascinaria como fascina (ao menos
se tornaria mais tênue

a sua influência), se estas crianças

tivessem a atenção dos seus pais, das igrejas e da cidade.

Os

gestos

são

fundamentais

no

relacionamento,

sobretudo no que tange à criança. Eles são uma linguagem do
corpo, dos sentimentos e sentidos; têm linguagem própria! As
crianças de Marcos 10 foram até Jesus para serem tocadas.
Jesus as abraça, toma-as no colo, impõe sobre suas cabeças Sua
mão.

Elas

Abençoar

sentem
sem

imaginário

de

a

o

calor

linguagem

e

da

do

Seu

do

gesto

psique

da

gesto.

Ele

não

produz

criança.

as

Seu

abençoa!

efeito

no

toque

as

valoriza, expressa atenção ao conteúdo de suas vidas (criança
é gente, criança favelada é gente, não é um ente de alguma
entidade filantrópica). Porém, as palavras, atitude e gesto de
Jesus Cristo falam também à sociedade patriarcal da Sua (e da
nossa) época. Uma crítica severa, na verdade.
“Com este gesto está questionando, subvertendo,
debilitando e relativizando os valores (e as
práticas) que a sociedade patriarcal (judeuromana)
tinha
como
absolutos
e
fortes,
restabelecendo ao mesmo tempo um novo tipo de
valores e práticas, que podem contribuir para um
novo tipo de relações sociais e de gerações.”161
161

ARCHILA, Francisco. Op. Cit., p. 61.

103

No que tange à igreja, em sua pastoral, valorizam-se
os

espaços

para

e

com

a

criança:

socialização,

esporte,

brincadeiras, cantigas de roda etc.; atenção a suas indagações
e gestos, teatros e coreografias; o abraço dos adultos da
igreja abençoando-as com gestos que representam a realização
do não realizável pela sociedade excludente. Gestos que as
respeitem como pessoas, como gente, como nosso próximo.
Gestos

de

estender

as

mãos,

sorrir,

fazer

sorrir,

olhar com atenção e deixar ser olhado. É um procedimento comum
receber em nosso gabinete crianças faveladas, entre oito a
onze anos de idade, do projeto CEAB/NJ. Elas nos procuram
voluntariamente para fazer contato: entram, querem abraçar,
saber

tudo,

contar

coisas,

falar,

ver,

tocar

em

objetos.

Aprendemos a não fazer como os discípulos que as impediam.
Há cerca de dois anos atrás, um garoto, que constantemente era
alvo

de

reclamações

por

sua

irreverência,

procurou-nos

e

solicitou nossa presença no barraco para orarmos pelo seu
irmãozinho que estava com pneumonia. Seguramos em sua mão, e
fomos até ao encontro do seu irmão. Esse gesto trouxe-lhe
confiança pela atenção a sua necessidade.

2.2.4

A PEDAGOGIA DE JESUS E A CRIANÇA POBRE
“Educação é o processo pelo qual aprendemos uma
forma de humanidade. E ele é mediado pela
linguagem.”162

162

ALVES, Rubem. CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ENSINAR. Ars Poética, São Paulo, 1995, p. 66.

104
A práxis da pastoral evangélica busca na pedagogia de
Jesus Cristo subsídios e alternativas de ajuda a crianças
faveladas,

lançadas

à

margem

do

direito

à

educação

de

qualidade. A pedagogia de Jesus poderá ser uma boa ferramenta
da

pastoral

para

o

trabalho

em

longo

prazo

com

crianças

excluídas. César afirma que: “A pedagogia de Jesus é centrada
na

pessoa,

o

quotidiana”163.
mulheres,

bem
Sua

leprosos,

absoluto

do

pedagogia

Reino
era

publicanos,

e

no

valor

inclusiva,

pecadores

e

da

não

vida

excluía

crianças.

Era

pastoral! Levava pessoas à reflexão e à transformação social.
O

individualismo

é

a

acomodação

dos

direitos

dos

privilegiados, sem se importar com os que sofrem ou ainda com
as

crianças

empobrecidas,

em

conflitos

psicossociais

de

modelos que se chocam, sem crédito em seus potenciais.
No que tange ao pragmatismo, César faz interessante
consideração a respeito da pedagogia de Jesus. O ensino de
Cristo

não

fundantes,

objetivava
reflexivas

reações
e

imediatistas,

transformadores

em

mas
suas

práticas
bases.

A

parábola do fermento em Mateus 13 ilustra bem o teor de sua
pedagogia. Os resultados imediatos são lucrativos, mas nem
sempre construtivos.
”Assim,
todo
aquele
que
ouve
essas
minhas
palavras e as põe em prática será comparado a um
homem sensato que construiu a sua casa sobre a
rocha.”164

163

CÉSAR, Ely Eser Barreto, A PRÁTICA PEDAGÓGICA DE JESUS - Fundamentos de Uma Filosofia
Educacional- Coleção Dons e Ministérios, Programa Agentes da Missão, Ed. Agentes da Missão e COGEIME,
Piracicaba, 1991, p. 68.
164
Mateus 7: 24, (B.J.).

105
Nesta
pragmático.
preciso

parábola

Para

construir

paciência,

escolher,

Jesus

cavar

não

a

sua

vida

persistência
na

rocha…

está

e

tudo

em

ensinando
bases

sólidas

prudência.
isso

nada
é

Planejar,

não

acontece

instantaneamente. O pragmatismo é a compra de uma casa prémontada e sua construção imediata em terreno arenoso, de fácil
penetração e fixação. Sua pedagogia não estava comprometida
com um utilitarismo imediato. Pessoas da burguesia dominante
afetadas pela presença da marginalidade em crianças questionam
projetos como o já tanto referido neste trabalho, o CEAB/NJ. O
escopo deste projeto jamais foi o de reformar a sociedade
através

de

distinto

métodos

de

imediatistas.

informar

ou

ainda

Formar

é

transmitir.

completamente
O

projeto

da

pastoral coloca-se à disposição para trabalhar a formação de
crianças a partir de suas próprias potencialidades e modelos.

“O
pragmatismo,
por
exemplo,
não
pode
ser
confundido com a prática de Jesus. O pragmatismo
está vinculado à noção de utilitarismo ou êxito
imediato. Trata-se, nesta concepção pedagógica,
de se organizar uma ação visando finalidades
imediatistas, soluções de problemas de curto
prazo.
A
pedagogia
prática
de
Jesus,
pelo
contrário, só tem sentido na perspectiva do
horizonte do Reino de Deus que, em última
instância, é de longo prazo.”165

Portanto, a práxis de uma pastoral toma como modelo ou
paradigma

a

questionadora,

pedagogia
que

faz

de

Jesus

pensar

e

para
chama

ser
a

includente,

pessoa

a

tomar

consciência do seu valor como criada à semelhança do Senhor
Deus. Uma pastoral que conscientize a igreja a abrir as portas

106
de seu templo e dependências para ensinar crianças de favela,
precisa de uma pedagogia cujo conteúdo passe pelo crivo do
paradigma da pedagogia de Jesus.
Cruz afirma que “...as igrejas locais podem ser de
grande

ajuda

e

serviço

a

comunidade”166

Neste

ponto

(de

desdobramento de uma solidariedade que se traduz em serviço ao
próximo), encontramos em nossa caminhada reflexiva a proposta
de Cruz por uma educação mais informal, a fim de corroborar
com as comunidades cristãs pobres na busca de alternativas não
formais,

mas

criativas;

não

folclóricas,

mas

autóctones

e

construtivas, a partir da releitura da Bíblia, da história e
da Cultura, interagindo com a vida hoje e agora, visando um
amanhã melhor. Na pedagogia de Jesus o alvo é trabalhar uma
melhor forma de exercermos nossa humanidade, maximizando as
potencialidades que nos foram dadas por Deus. Assim, o modelo
pedagógico de Jesus desperta em nós a nossa própria humanidade
e a das outras pessoas.

165
166

CEZAR. Op. Cit., p. 64.
CRUZ, Op. Cit., p. 13.

107
3. NECESSIDADE DA PASTORAL À CRIANÇA FAVELADA
EM CASO DE CRISE

1. UM MODELO DE CUIDADO PASTORAL EM CLINEBELL

“O aconselhamento pastoral é uma função reparadora,
necessária
quando
o
crescimento
das
pessoas
é
seriamente comprometido ou bloqueado por crises.”167
O modelo de cuidado pastoral em Clinebell pressupõe
uma ação pastoral comprometida com as dimensões do crescimento
psicológico e espiritual, que resulta em mudanças sociais,
porque

o

ser

humano

é

social.

Citaremos

abaixo

seu

reconhecimento da concepção bíblica de que o homem não é Deus
(embora criado a Sua semelhança), que ele é finito e limitado,
não

obstante

as

suas

notáveis

potencialidades;

essa

consciência é necessária para não cairmos na auto-idolatria
dos nossos próprios orgulhos diante da amplitude potencial da
alma humana.

“A consciência de que somos finitos é de que
nosso
crescimento
é
determinado
pelos
determinantes imutáveis de nossa vida -... pode
ajudar-nos a permanecer com os pés no chão e
construtivamente
humildes
(de
húmus,
que
significa “térreo”)”168

Feita esta consideração sobre a condição humana, em
Clinebell, a psicologia pastoral reconhece que o ser humano é
imperfeito e precisa da ajuda de outrem. Se o crescimento
humano pode ser bloqueado por suas próprias crises interiores,
então, o ponto principal do cuidado pastoral em Clinebell é

108
ajudar pessoas a lidar com elas de forma construtiva.

1.1 OS OBJETIVOS DO MODELO DE CLINEBELL
“UM MODELO HOLÍSTICO, CENTRADO EM CRESCIMENTO E
LIBERTAÇÃO.” 169

Os objetivos deste modelo são ajudar as pessoas em
suas crises a encontrar seus próprios caminhos de libertação
de

bloqueios

interiores,

despertando-as

para

suas

potencialidades nos crescimentos relacionais. Seu foco está
direcionado em “ajudar as pessoas a lidar com seus problemas e
vivenciais”170,

crises

visando

a

construtividade

dos

sentimentos e comportamentos. O modelo deve corroborar em cada
etapa do seu desenvolvimento, sempre de forma a contribuir
responsavelmente
relacionamento
crescimento

para
saudável

estão

inter-relacionados

o
e

crescimento
construtivo.

relacionados
com

do

à

outros

vida

A

outro

libertação

plena,

aspectos

num
e

o

integral,

e

compõem

a

que

complexidade da vida humana (integralidade relacional).
A

criança

favelada

encontra

em

sua

caminhada

desenvolvimental bloqueios e fatores que influenciam sua vida
interior, que vão refletir no modo como lidará com suas crises
e como sairá delas em direção ao crescimento e maturidade de
sua

fé.

Percebemos

que

crianças

formadas

inteiramente

num

ambiente hermético de favela, sem nenhuma intervenção, podem
167

CLINEBEL, Howard. Op. Cite, pág. 25.
Idem, p. 49.
169
Idem, p. 24.
170
Idem, p. 32.
168

109
ter bloqueios interiores.
1.2 UM MODELO HOLÍSTICO: INTEGRAL
“Porque a integralidade
auto-realização
é
psicológica.”171

é sempre relacional, a
uma
impossibilidade

O alvo unificador de método proposto por Clinebell é
seu foco voltado pela integralidade da busca por uma “vida
abundante”

(Jo

10:10),

interrelacionado

com

a

vida.

Para

tanto, Clinebell vai propor o trabalhar com as “seis dimensões
da integralidade”172. São aspectos da vida que estão interrelacionados como um tecido, A vida plena está sempre ligada
aos nossos relacionamentos, os mais abrangentes e complexos
possíveis. Clinebell propõe a cura por meio da construção
psicológica e espiritual de um inter-relacionamento saudável
com as seis aspectos interdependentes da vida de uma pessoa:
- ativar sua mente;
- revitalizar seu corpo;
- renovar e enriquecer seus relacionamentos
íntimos;
- aprofundar sua relação com a natureza e a
biosfera;
crescer
em
relação
as
instituições
significativas em sua vida;
- aprofundar e vitalizar seu relacionamento com
Deus”173

A liberdade e o crescimento estão ligados ao tecido
dos

relacionamentos

relação
corpo,

171
172
173

com
com

Idem, p. 30
Idem, p. 29
Idem, p. 50

Deus,
o

seu

com
com
meio

os
seu

aspectos
íntimo

ambiente

fundantes

(alma/mente),
e

com

as

da

vida:

com

pessoas.

o

a

seu
Essa

110
integralidade relacional é um tema constante na Bíblia. O
conceito hebraico - shalom, e o grego - koinonia descrevem o
intrínseco
humanos.174

conteúdo
O

modelo

desta

holística

nos

relacionamentos

de cuidado pastoral em Clinebell está

calcado no pressuposto de uma visão integral do ser humano, e
que seu objetivo final é “viver a vida abundante”(João 10:10)
oferecida em Cristo, através do processo de libertação de
bloqueios da alma, para o crescimento desta em todas as suas
potencialidades, como um ser criado à semelhança de Deus.
“Ao trabalhar com pessoas em crise,percebi que me
tendo sentido muitas vezes mais ligado com o
mundo interior delas do que no passado.”175

É a libertação de forças interiores causadas ou não
por aspectos exteriores que bloqueiam o crescimento de nossas
potencialidades

e

impedem

o

crescimento

espiritual.

Nossa

proposta foi, desde o início, por uma pastoral que trabalhe as
questões psicossociais da criança empobrecida. Assim, ouvindoa com empatia e orientando-a no modelo das seis dimensões
(supracitadas) da integralidade em Clinebell, o pastoralista e
sua igreja poderão ajudá-la a crescer superando suas crises.
Este

modelo

adequa-se

ao

cuidado

pastoral

com

crianças

faveladas porque é um paradigma que valoriza a humanidade e os
potenciais destas crianças. O estigma não tem lugar aqui, pois
toda

a

vida

é

uma

grande

possibilidade

para

uma

vida

de

qualidade. Ademais, o modelo propõe a integração de aspectos
latentes
174

na

Idem, p. 50

vida

da

criança,

aspectos

que

vão

além

do

111
intelectivo ou artístico.

1.3. CRISES COMO OPORTUNIDADE PARA CRESCIMENTO
“Toda
crise
é
também
crescimento espiritual.”176

Aprender
relacionais

a

lidar

com

as

uma

oportunidade

crises

de

existenciais,

e vivenciais é importante para o mecanismo de

libertação na formação das crianças de favela. O modelo leva
em consideração a experiência vivencial da crise, que todos
passam em cada estágio da vida. A criança de favela precisa
receber

recursos

da

psicologia

pastoral

para

um

melhor

enfrentamento de suas múltiplas crises, de forma a despertálas para o crescimento.
“Ao pensar sobre a natureza e as potencialidades
das crises, sou lembrado de que, em chinês, a
palavra „crise‟ é formada por dois caracteres um que significa „perigo‟ e outro que significa
„oportunidade‟. 177

Esse

é

o

foco

aconselhamento

pastoral:

possibilidades

de

principal
ajudar

crescimento

em

as

da

poimênica

pessoas

cada

estágio

a

e

do

buscar

as

da

vida,

e

superar as crises que vêm por meio de perdas, desafios etc. A
acomodação e a estagnação são formas tímidas e amedrontadas de
enfrentar as crises que todo indivíduo passa. Aprendendo a
trabalhar com as crises a pessoa enseja com elas para seu
desenvolvimento espiritual. De fato, “A maneira como lidamos

175

Idem, p. 231
Idem, p. 33
177
Idem, p. 203
176

112
com elas determina se estagnamos ou não.”178
Aprender a lidar com crises está associado ao processo
de construir relacionamentos sadios e de solidariedade, porque
todos os problemas estão de uma forma ou de outras ligadas às
dimensões dos relacionamentos.
1.4 METODOLOGIA DO MODELO
“Psicoterapia pastoral é a utilização de métodos
terapêuticos
reconstrutivos,
de
longo
prazo,
quando
o
crescimento
é
profundo
e/
ou
cronicamente diminuído por experiências de não satisfação de necessidades básicas na infância ou
múltiplas crises na vida adulta.”179

Através da poimênica e do aconselhamento pastoral o
pastoralista e a sua igreja oferecem às crianças em crise
oportunidades de libertação e crescimento. O pastor treina,
inspira e supervisiona as pessoas leigas de sua congregação
que estão envolvidas com aconselhamento. O método do modelo de
Clinebell

é

contrabalançado

com

“abordagens

metafóricas,

lúdicas, intuitivas, parabólicas”180 possibilitando a ampliação
integral na nossa humanidade. O comportamento e os sentimentos
são relevantes para a metodologia do trabalho da pastoral,
pois a maioria dos problemas pessoais está interligada ao
relacionamento

interpessoal.

Portanto,

o

diálogo

aberto

e

livre faz parte desta metodologia de ajuda pastoral.
Seu

método

parte

da

realidade da pessoa em crise,

através de mecanismos reconstrutivos, de forma a harmonizá-la
e reconciliá-la consigo mesma e com o mundo ao seu redor. O

178

Idem, p. 203
Idem, p. 25
180
Idem, p. 225
179

113
método reconhece a imperfeição humana e sua necessidade de
cuidado pastoral quando a crise gerar estresses em sua vida.
“O aconselhamento e a terapia são métodos de
ajuda as pessoas a aprender a amar mais plena e
livremente a si mesmas, o próximo e a Deus,”181

3.2 CLINEBELL E AS CRIANÇAS
“O
pastor
precisa
estar
em
condições
de
reconhecer dor profunda em crianças e jovens”182

Assim sendo, ao trabalharmos a criança favelada (vimos
os sérios problemas nas duas primeiras partes desta pesquisa),
percebemos que as maiores dificuldades para seu crescimento
potencial

estão

na

área

do

relacionamento

social.

Essa

integração social não poderá estar centrada apenas em aspectos
mecânicos ou sociais. As crianças faveladas exteriorizam seus
conflitos internos por meio da expressividade corporal. Ajudálas

a

ter

uma

atitude

e

um

sentimento

construtivo

no

relacionamento com seu corpo é fundamental para sua libertação
e

sua

formação.

desprezado.

O

Através

seu

corpo

é

de

expressões

vulgarizado,
corporais

violentado
como

e

desenhos

livres (sobre o que sente em relação em sua vida, seus pais
etc),

teatro,

esportes,

brincadeiras,

visam

comunicar

seus

sentimentos mais profundos e ocultos. Para tanto, a pastoral
deve

observar

suas enfermidades, comportamentos, expressões

sem pré-conceitos e sem fórmulas prontas.
A pastoral preocupa-se em orientar a criança de favela

181
182

Idem, p. 62
Idem, p. 290

114
de que em cada estágio da vida vão surgindo coisas novas, e
novas

maneiras

satisfação

das

desconhecidas
suas

de

mutualidades

necessidades

mais

para

básicas

obter

como

a

amor,

aceitação, liberdade e comunhão.183 Ensiná-las que cada perda
em cada estágio, desafia-nos a novas conquistas. Ajudá-las
para um relacionamento pleno consigo mesmas, com Deus, com a
sociedade

e

com

seu

meio

ambiente

contribuirá

para

a

sua

libertação e crescimento rumo a maturidade de sua fé e de suas
potencialidades.

183

CLINEBELL, Howard e Charlotte. EL NIÑO COM PROBLEMAS. La Aurora, Buenos Aires, 1974

115

CONCLUSÃO:
A dissertação presente propôs-se a analisar algumas
pistas para a práxis pastoral com crianças faveladas. Partimos
do

seus

macro

historicidade,

ambiente,

enfocando

responsabilidade

retro-alimentadores

do

pela

crescimento

os

aspectos

existência

das

favelas

da

sua

e

fatores

em

grandes

cidades, cujas forças centrípetas e centrífugas da exclusão
determinam

o

destino

dos

sobrantes

da

sociedade

latino-

americana.
Abordamos

também

as

influencias

do

ambiente

social

mais próximo da criança, como a exclusão social e suas marcas,
e necessidade da mulher favelada trabalhar fora e não ter com
quem deixar os filhos, o clamor de seus rostinhos por um
afeto. Mais próximos ainda estão as questões espaciais com as
quais

ela

convive:

o

barraco,

a

televisão

e

a

rua,

às

duas

influenciando psicossocialmente sua vida.
Porém,

tivemos

que

percorrer

alinhados

primeiras sociedades que mais influenciam o início da vida de
uma criança: a família e a escola. A primeira como modelo
inicial

e

relevante,

mas,

também,

onde

pode

acontecer

as

116
maiores crises de sua vida. Pontuamos a freqüente ausência da
figura paterna e suas implicações. A constituição social da
família está em mudanças e em definições. O padrasto, via de
regra, é um elemento estranho ao ambiente da criança.
A

escola

dominantes,

desde

sempre
o

foi

para

descobrimento

os
do

filhos
Brasil

das
até

elites
os

dias

atuais. Na favela em que atuamos como pastoralista mais da
metade dos adolescentes está fora da escola, por falta de
estímulos, repetência e trabalho.
Frente à análise da situação macro e micro social e
psicológica,

parental

e

educacional,

a

pastoral

da

igreja

encontra-se desafiada a participar construtivamente na vida da
criança favelada, Essa ação não pode ser manipuladora, mas
solidária. Para tanto, esta tese traçou algumas linhas de
reflexão para a práxis da igreja, em termos de um conteúdo
teológico.

A

teologia

prática

se

expressa

na

teologia

pastoral, a solidariedade é a sua característica marcante. Uma
prática solidária da igreja que envolve diaconia, missão, e
atenção empática, pois a criança favelada é um mundo a ser
conhecido, antes de ser trabalhado.
Frente à análise da situação macro e micro social e
psicológica,

parental

e

educacional,

a

pastoral

da

igreja

encontra-se desafiada a participar construtivamente na vida da
criança favelada. Essa ação não pode ser manipuladora, mas
solidária. Para tanto, esta tese traçou algumas linhas de
reflexão para a práxis da igreja, em termos de um conteúdo

117
teológico.

A

teologia

prática

expressa-se

na

teologia

pastoral, a solidariedade é a sua característica marcante. Uma
prática solidária da igreja que envolve diaconia, missão e
atenção empática, pois a criança favelada é um mundo a ser
conhecido, antes de ser trabalhado.
Enfocamos os novos paradigmas que pautam o trabalho
pastoral no relacionamento com a criança favelada. Para isso,
fomos

até

a

práxis

de

Jesus

Cristo.

Ele

criticou

os

pré

conceitos da sociedade patriarcal de sua época, valorizando as
crianças através de sua práxis.
A criança não é apenas um ser sociológico, ela tem
dimensões inter-relacionadas, que foram analisadas através do
modelo de cuidado pastoral em Howard Clinebell. Através de seu
modelo propomos um método de cuidado à criança favelada que
trabalhe

o

seu

interior

em

relação

aos

seis

aspectos

da

libertação

e

integralidade relacional.
Uma

práxis

moldada

pela

educação,

crescimento, pautada pela inspiração da ação de Deus como
Pastor

e

da

didática

reconciliatória

de

der

Jesus.

renovação,

E,

que

por

fim,

testemunha

o

uma

práxis

amor

e

a

justiça de Deus, atendendo à criança excluída.
A conclusão a que chegamos, afinal, é da necessidade
de aprofundarmo-nos no mundo complexo que envolve a formação
da criança favelada, para buscarmos uma práxis pastoral a fim
de que seja mais eficaz nesta tarefa.

118

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