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M argareth

R ago

I A lfredo

V e ig a - N eto

( O r g s .)

Para uma vida;
. não-fascista

autêntica

Margareth Rago
Alfredo Veiga-Neto
(O rg anizadores)

Para uma vida
não-fascista
^

E s tu d o s

F o u c a u ltia n o s

a u t ê n t ic a

Material com direitos autorais

Copyright © 2009 Os autores

CO O RDENADO R D A CO LEÇÃO ESTUDOS FOUCAULTIANOS

Alfredo Veiga-Neto
CONSELHO EDITORIAL DA CO LEÇÃO ESTUDOS FOUCAULTIANOS

Alfredo Veiga-Neto (UFRGS); Walter Onnar Kohan (UERJ); Durval Albuquerque Jr. (UFRN);
Guilherme Castelo Branco (UFRJ); Sílvio Gadelha (UFC); Jorge Larrosa (Univ. B arcelona);
Margareth Rago (U n ic a m p ); Vera Portocarrero (UERJ)
PROJETO GRAFICO DE CAPA E M IOLO

Diogo Droschi
CAPA

Christiane Costa
(sobre imagem de M artine Franck © M agnum Photos/LatinStock)
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA

Waldênia Alvarenga Santos Atalde
REVISÃO

Alfredo Veiga-Neto
Revisado conform e o Novo Acordo Ortográfico.
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhum a parte desta
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Para uma vida não-fascista / M argareth Rago, Alfredo Veiga-Neto, organizadores. Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2009. - (Coleção Estudos Foucaultianos)
Bibliografia.
ISBN 9 78 -8 5-75 2 6-4 40 -9
1. A rtigos filosóficos 2. Fascismo 3. Filosofia francesa 4. Foucault, Michel, 19261984 - Crítica e interpretação I. Rago, M argareth. II. Veiga-Neto, Alfredo. III. Série.

09-10342

CDD-194
índices para catálogo sistemático:
1. Artigos : Filosofia francesa 194

Material com direitos autorais

de. São Francisco de Sales-Guia e atitudes de parresiasta Edson Passetti 135 Foucault e os estudos queer Guacira Lopes Louro Material com direitos autorais . Durval Muniz de Albuguergue Júnior 117 Foucault-antifascista.Sumário 9 Apresentação: Para uma vida não-fascista Margareth Rago Alfredo Veiga-Neto da verdade. os técnicos do desejo. o fascismo Alfredo Veiga-Neto 27 A vida como obra de arte: o sujeito como autor? Ana Maria de Oliveira Burmester 35 Foucault e as novas figuras da biopolítica: o fascismo contemporâneo André Duarte 51 Figurações de uma atitude filosófica não-fascista Carlos José Martins 63 Escultura da carne: o bem-estar e as pedagogias totalitárias do corpo Carmen Lúcia Soares 83 Dietética e conhecimento de si Denise Bernuzzi de Sant'Anna 35 A Bela ou a Fera: os corpos entre a identidade da anomalia e a anflmajja_da_Meiiiida.

Lacerda Orlandi 209 0 “livro-teatro” jesuítico: uma leitura a partir de Foucault Magda Maria Jaolino Torres 239 Max Weber. Michel Foucault e a história Márcio Alves da Fonseca 253 Dizer sim à existência Margareth Rago 269 (Des)educando corpos: volumes. vida artista: uma análise não-fascista de Michel Foucault Guilherme Castelo Branco 153 Sobre política e discursos (neuro)científicos no Brasil contemporâneo: muitas questões e algumas respostas inventadas a partir de um escrito de Michel Foucault Heliana de Barros Conde Rodrigues 169 Tomar distância do poder José G. Gondra 187 Foucault e o cinismo de Manet José Luís Câmara Leme 201 Combater na imanência Luiz B. desejos e a nova pedagogia alimentar Maria Rita de Assis César 281 Foucault e a Antiguidade: considerações sobre uma vida não-fascista e o papel da amizade Pedro Paulo A.143 Anti-individualismo. comidas. Funari Natália Campos 291 A escrita como prática de si Norma Telles Material com direitos autorais .

Ora.305 Tornar-se anônimo. logo. Afinidades e tensões entre a Teoria Queer e a obra de Michel Foucault Richard Miskolci 339 Psiquiatrização da ordem: neurociências. as mulheres não são homens. Escrever anonimamente Philippe Artières 325 Abjeção e desejo. psiquiatria e direito Salete Oliveira 349 Leitura dos antigos.” Tania Navarro Swain 403 Além das palavras de ordem: a comunicação como diagnóstico da atualidade Tony Hara 415 Do fascismo ao cuidado de si: Sócrates e a relação com um mestre artista da existência Walter Omar Kohan 427 Os autores Material com direitos autorais . reflexões do presente SalmaTannus Muchail 363 Entre Édipos e 0 Anti-Édipo\ estratégias para uma vida não-fascista Sílvio Gallo 377 Os investimentos em “capital humano” Susel Oliveira da Rosa 389 “Todo homem é mortal. são imortais.

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as “ estéticas da existência” criadas no universo histórico da Antiguidade Clássica implicam a constituição de si e das relações com o outro orientadas pela temperança. exige u m intenso trabalho de transformação subjetiva. Traduzido por Wanderson Flor do Nascimento. tam bém . escultura do próprio eu. E m nossos tem pos. p. a caracterizá-las tam bém com o sociedades de segurança. logo depois. Michel “Introdução à vida não-fascista” . nesse contexto. A n ti-O edipu s: Gapitalism and Schizophrenia.1 T e m a que nos apresentou há décadas. Foi isso que levou Foucault a caracterizar. N e w York: Viking Press. Talvez não seja demasiado lem brar que até recentem ente a formação dos cidadãos nas sociedades m odernas passava sobretudo pelo ensino da obediência. e. essas discussões apontam tanto para um a crítica radical às atuais práticas políticas (ditas) democráticas.A presentação Para uma vida não-fascista Margareth Rago Alfredo Veiga-Neto N o prefácio ao conhecido livro de D eleuze e Guattari. da submissão e da docilidade. para a possibilidade da criação de m odos libertários de vida. as socieciades modernas com o disciplinares. intitulado O / # A n ti-E d ip o : introdução a unia vida não-fascista. 1 F O U C A U L T . N a m edida em que tais processos foram se recobrindo. In: Gilles Deleuze e Félix Guattari. tal com o hoje ela é entendida e colocada em ação. Foucault qualifica o conjunto ^ de princípios que enuncia brevem ente com o uma “arte de viver contrária a todas as formas de fascismo” . quanto para o exame dos estatutos da própria democracia. Revisado e formatado por Alfredo V eiga-N eto. se articulando e se reforçando m utu am en te. pela autonom ia e pela expansão das práticas da liberdade. n u m prim eiro m o m e n to . Material com direitos autorais . cuidadosa elaboração de si. Ser cidadão. pautadas pelas lógicas da biopolítica e da governam entalidade. X I-X IV . inclusive e sobretudo para u m exercício digno da política e para a própria experiência da vida em co m u m . o filósofo entendeu a M odernidade com o. Essas discussões apontam . 1977.

para além da crítica ao instituído. O pensador do poder e do sujeito cede espaço ao “ filósofo da liberdade” . perm ite pensar a própria política. no m o m en to m esm o em que a analítica foucaultiana do p o d er é am plam ente assimilada. Essas problematizações nos motivaram a reunir um grupo de inquietos pensadores para continuar a pensar. tornando mais visíveis e legíveis as capturas biopolíticas na C ontem poraneidade. para fora do poder. é tam bém por isso que ele atemoriza e. outros modos de pensar a relação de si para consigo e para com o outro. “ N ão caia de amores pelo p o d e r” . para além dos des­ locam entos produzidos nas formas do pensam ento e da ação. ler. um m o d o de vida pautado pelo assujeitamento ou sujeição. Assim foi pensado o V Colóquio Internacional Michel Foucault: “Por uma vida não-fascista”.entre outras coisas. o filósofo insiste: “ Libere-se das velhas categorias do N egativo que o pensam ento ocidental sacralizou ”. discutir. A vida sedentária lhe causa horror. igualmente. cham ando a atenção para as temáticas do cuidado de si inscritas na vida com unitária dos antigos. que ele nos convida a conhecer. O lh ar aten­ ciosamente para a antiga cultura greco-rom ana. recom endando ao m esm o tem po u m forte investim en to na potencialização dos desejos e da ação criadora. no IF C H da U N I C A M P . Graças aos apoios recebidos da FAPESP. em torno do pensam ento de M ichel Foucault. Novas possibilidades se anunciam. adverte Foucault. com o faz em O Uso dos prazeres e O Cuidado de Si. T ão diferentes entre si em inúm eros aspectos. E p o rq u e acredita no m u n d o e porque aposta na vida que Foucault se esforça tanto. esses pesquisadores aproxim am -se na vontade de suscitar novos acontecim entos. não busca restaurar experiências de vida que tanto se diferenciam das que se construíram na M odernidade. já os nôm ades in co m o d am e assustam os sedentários. milita tanto. realizado entre os dias 11 e 14 de novem bro de 2008. do Programa de Pós-Graduação em História e 7 " O •> da FA EPEX da U N IC A M P . dialogar e escrever com esse filósofo libertário. Mas permite encontrar outros m odos de produção da subjetividade. algo bem diferente das sofisticadas práticas de subjetivação dos antigos. muitas vezes. outras formas de formação do indivíduo. Nessa direção. dando seqüência a vários outros encontros realizados em anos anteriores. da CAPES. Mas tam bém se encontram na crítica ao crescimento desenfreado 10 Para uma vida nã o-f asci st a Material com direitos autorais . com o diria Deleuze. irrita. mais de 300 pesquisadores e pesquisadoras se reun iram para assistir a mais de 30 palestrantes e com eles dialogar.

cabe a nós. implantando absurdos regimes de verdade com o naturais.das formas biopolíticas de controle social. respeitamos (ao m áxim o possível. sejam aquelas formas minúsculas e sutis que nos assombram e nos m antêm presos e submissos a nós mesmos. tam bém as formas co m que grafaram term os filosóficos ainda não dicionarizados na língua portuguesa. os técnicos do desejo 011 o próprio fascismo.e parafraseando M ichel Foucault —. A p r e s e n t a ç ã o : Para u m a vida n ã o . querem os contribuir para a anulação das muitas formas de fascismo. C o m este livro . de irmos além daquilo que somos. fortalecem o-nos co m Foucault. C o m este livro. daquilo que estudamos e. esperamos contribuir para a edificação de formas não-fascistas de pensam ento e de vida. A creditando que é possível construir m odos de vida libertários. com isso. em tudo isso está sempre implicada um a vontade de superação. T a m b é m em parte por isso. até m esm o. sejam aquelas formas imensas que se abatem sobre nós e nos sufocam. desdobrá-las. atualizá-las.f a s c i s t a 11 Material com direitos autorais . absolutos e universais. Ao organizarmos este livro. em especial das que se apropriam do Estado e das instituições. esperamos dar mais ânimo e elem entos para quem quiser co m p reen d er e. quando necessário. as pistas e as saídas estão indicadas em vários m om entos da sua produção. sempre que possível) os formatos das notas de rodapé e das referências bibliográficas que cada autora e cada autor adotou em seu respectivo capítulo. na denúncia da violência das formas da exclusão e estigmatização que imperam socialmente e na tentativa de explicar com o foi que a antiga autogestão da esfera dos negócios e da política se transformou na conhecida gerência dos bens privados das elites. com bater todos esses adversários que cada vez mais se atravessam em nossos cam inhos. D e certa maneira. sejam eles os ascetas políticos. Afinal. um a vontade de irmos além daquele que lemos. Respeitam os. aproveitálas e.

Material com direitos autorais .

Q uintana conseguiu renir u m pouco da profundidade. 3 Foucault (2001). p o rq u e ele m e parece particularm ente apropriado para este m o m en to . E m apenas quatro versos. / E u passarinho! Escolhi esse fulminante e delicado Poeminha do contra. do grande Mario Q uintana. os técnicos do desejo.. Eles passarão. de Deleuze e G uattari. várias ressonâncias ao Prefácio foucaultiano. amiga. Material com direitos autorais . o fascismo Alfredo Veiga-Neto A M argareth R ago. Guattari (1977). Todos esses que aí estão atravancando meu caminho. / Eles passarão.2 Aquele Prefácio que tem com o título Introdução a vida não-fascista 3 e que serve de leit m otiv para este nosso V Colóquio Internacional M ichel Foucault. Q u e re m u m exemplo? Se naquele texto o filósofo diz que as armadilhas d ’O A n ti-E d ip o foram as armadilhas do h u m o r. mas agora para fazer uma armadilha invertida.. da graça e do trágico que Michel Foucault im prim iu ao Prefácio que escreveu para O A n ti-E d ip o . 2 D eleu ze. Eu passarinho! M ário Q u in t a n a 1 Todos esses que aí estão / atravancando meu caminho.0 Currículo e seus três adversários: os funcionários da verdade.. 107). tam bém Q uintana recorre ao hum or. nos versos de Q uintana.. 1 Quintana (2006. Escutam-se. p.

. eles entraram aqui com o u m introito. não esperem respostas que apaziguem nossos corações. ou estão aí para aí ficar? E. e eu passarinho! Voltem os. o máximo que fez Foucault na Introdução à vida nãofascista —e já foi muito. uma grande linha de fuga e outros que tais. com o um a fonte de imagens. então.. um a arrancada para o nosso encontro. Afinal.. não é n e m sobre Gilles D eleuze e n em m esm o sobre Mário Q uintana. muito mesmo. o desejo e a ação política? E. frente a eles —e.. quero fazê-las ressoar ao longo desta m inha fala. deixando-os para trás? E será que eles passarão mesmo. com o disse Foucault. vendo ali determinados agenciamentos. às vezes. um a armadilha de pernas para o ar. *** Introdução à vida não-fascista é u m texto que nos inquieta e suscita várias perguntas.. Q u e é um a vida não-fascista? E. pois é no voo do passarinho que o poeta consegue se libertar daqueles que atravancam seu cam inho. / E u passarinho! Q uantas leituras são possíveis nessas tão curtas quatro linhas! Podería­ mos até mesmo ler o Poeminha do contra sob u m filtro deleuziano.. quem são esses adversários que atravancam nosso cam inho justam ente porque. finalmente. / Eles passarão. —foi elencar sete “princípios essenciais 14 Para uma vida nã o-f asci st a Material com direitos autorais .Trata-se de um a armadilha às avessas. mas sim sobre M ichel Foucault que vamos discutir nesses próximos quatro dias. E será de Q uintana que extrairei o mantra para pensar sobre Todos esses que aí estão / atravancando meu caminho. nos travam o pensamento. simetricamente. com o poderem os nos transformar em passarinhos? Para tais perguntas. Ainda que Deleuze e Q uintana digam coisas m uito próximas a esse Foucault não-fascista. Nesse sentido.. Mas não é disso que quero falar. e será tam bém com o poeta que eu talvez com preenda que. que é um a vida fascista? Q u e m são os três adversários que Foucault identifica n ’0 A n ti-E d ip o ? Q u e m são esses inimigos que atravancam nosso caminho? O n d e estão eles? N ão parecem proliferar por toda parte? E às vezes não se escondem dentro de nós mesmos? C o m o lidar co m eles? Enfrentá-los de frente ou voar para longe. frente ao nosso próprio interior. tam bém e principalm ente. Mas eles entraram aqui. O u çam o s de novo o poeta: I odos esses que aí estão / atravancando nieu caminho. um aquecim ento... u m dia eles passarão. —.. no caso da nossa vida acadêmica. nosso olhar em direção a Foucault.

tentando com binar continuidades co m descontinuidades. o f a s c i s m o Material com direitos autorais . nossos adversários são implícitos. lá só os inimigos estavam presentes. enquanto isso.. além do recurso retórico. aliás... co m a responsabilidade de com eçar com o pé direito mais esse nosso encontro. apontar algumas adversidades que atravancam nossos caminhos. e este encontro que agora esta­ mos iniciando? Pois bem . as palavras de Lutero talvez ainda caibam hoje nesta ocasião. pervasivos e intangíveis. Assim é que. com preensão e co m b a­ tividade —. E is-m e aqui. nossos tem pos e nossos valores. um tanto assustado frente ao desafio de ter de ocupar este lugar. se fosse o caso de fazer d ’O A nti-E dipo] um manual ou um guia da vida cotidiana”4. de ser o primeiro a falar neste nosso V Colóquio.. coragem e com petência. encorajado mesmo. no longínquo ano de 1521. nossas práticas e nossos interesses. co m a tarefa de trocar em m iúdos as ideias que apenas esbocei n o resum o intitulado O currículo e seus três adversários. dedico este texto. Foi lendo e relendo. 0 Cu r r í c u l o e s eu s t r ê s a d v e r s á r i o s : os f u n c i o n á r i o s da 15 v e r d a d e . simplesmente porque pretendo 4 Foucault (2001. lendo de novo e relendo uma vez mais esses princípios que rae senti estimulado. amigas. 135). entre a alegria da amizade e a ativação da vontade de saber. de todo o coração. amigos —. não posso fazer de outro m o d o ” foi o que ele disse. a situação é b e m outra: estamos entre amigos. viscosos. sólidos. Se assim procedo é justam ente para invocar e evocar as famosas palavras co m que Lutero apresentou-se diante da Dieta de W orm s: “ eis-me aqui. amiga que. Então. assim com o ele fez. cuja marca tem sido —desde o prim eiro. acima de tudo. Q u e re m mais diferenças entre aquele m o m e n to . simplesmente porque pretendo. é à Marga m u lh er guerreira e. E a ela —modelo de sensibilidade e razão. Lutero instalava um a ruptura irreversível. contra eles. Guardadas as imensas distâncias que separam nossos sistemas de pensam ento e nossas circunstâncias. / Sem ela. nada disso aqui estaria acontecendo. Eis-me aqui. eis-me agora aqui. os t é c n i c o s do de se j o. p. para pôr minhas mãos à obra. Vejam que insisto nesse “eis-me aqui” . diante de vocês —colegas. feito pela nossa querida Margareth Rago. a aceitar o honroso e preocupante convite. tangíveis.r f. há quase um a década —um a produtiva articulação entre a leveza do convívio e o rigor acadêmico. por que trago Lutero à baila? O ra. Aqui. explícitos.

. em que medida podem ser tam bém nossos adversários? O u seja. 134). Afinal. O 3 Foucault (2001. contra aqueles adversários que teim am em tornar nossas vidas mais pesadas e sombrias. mas é preciso fazer uma rápida digressão semântica e histórica. cada u m de nós pode estar carregando dentro de si mesmo o adversário que quer com bater. se cada u m de nós carrega dentro de si m esm o o seu próprio adver­ sário. que tem a ver o currículo com u m a vida não-fascista? E mais: q u em são esses três adversários do currículo que constam no m eu título? Q u e m são e o que fazem os funcionários da verdade. talvez tenham os tam bém de lutar —certam ente que com outras armas —para expulsarmos os inimigos que as circunstâncias colocaram dentro de nós. sendo adversários do currículo. com o ele lutou. então um a parte daquelas adversidades somos nós mesmos que as colocamos nas nossas vidas. em certa medida. Nesse p onto . que martela nossos espíritos e nossa conduta c o t i d i a n a S e o fascismo está em todos nós. é b o m não esquecer que. C onclui-se daí que cada u m de nós. atravanca o seu próprio cam inho. abro u m parêntese para que eu esclareça do que falo quando filo em currículo. p. Peço desculpas àqueles para q u em os Estudos de C urrículo são um assunto familiar.. Assim com o aconteceu com o R eform ado r. há mais um a questão a nos aproxim ar de Lutero: com o alertou Foucault e com o desenvolve­ rei mais adiante. A lém disso. com o sublinhou Foucault naquele texto seminal. os técnicos do desejo e o fascismo? E esses três.lutar. mas o fascismo que está em todos nós. parte das adversidades que atravancam nosso cam inho somos nós mesmos que as colocamos ali. que adversidades podem eles colocar em nossas próprias vidas? E no caso do fascismo.. não se trata apenas do “ fascismo histórico de H itler e Mussolini. que tem o currículo a ver com este Colóquio? C o m u m C o ló quio cujo fio co n d u to r é aquele instigante Prefácio de M ichel Foucault? Em outras palavras. Assim co m o ele lutou ferozm ente para arrancar o dem ônio que pensava ter dentro de si. 16 Para uma vida nã o-f asci st a Material com direitos autorais .. ★* * / E chegada a hora de eu m e explicar m elhor e finalmente entrar de cabeça no núcleo do tem a escolhido para esta m inha fala.

realizações etc. num a sociedade pautada pela reflexividade. ora é a programação pedagógica do que é ensinado aos alunos. 2 0 0 4 . Várias vezes tenho insistido que tal (digamos) “curriculização” geral das práticas escolares. a partir do século XVII. as universidades e os colégios europeus adotaram amplamente a organização curricular baseada em disciplinas. no entanto. um a corrida ou o ato de correr. O lh an d o mais de perto. uma palavra que desde há m uito aponta para a ação de percorrer um a determ inada trajetória.6 Em poucos anos. ora. T rata -se de um cam po que tem seu centro na forma latina curriculum. E isso é assim tanto se pensarmos em currículo enquanto a programação de u m curso. Para maiores detalhes. ora um a ação. Ela designa várias coisas: ora é u m atalho em u m cam inho ou é o próprio cam inho. Ainda que interessante. experiências. a am bigüidade da polissemia é. s Giddens (1991). esteve intimamente articulada com o estabelecimento e a consolidação da episteme clássica.7 A importância histórica disso tudo é mais do que evidente. hoje. o currículo acabou funcionando com o condição de possibilidade para que a lógica disciplinar fizesse da escola essa ampla e eficiente maquina­ ria de fabricação do sujeito m oderno e da própria sociedade disciplinar. tam b ém e principalm ente. pois todos esses sentidos convivem m uito próxim os. o documento que reúne os dados relativos a um a pessoa (em termos de sua formação.Uma digressão Q u a n d o se fala cm currículo. o f a s c i s m o Material com direitos autorais . u m cursus. E 111 conse­ qüência. Parece haver aí uma ambigüidade perturbadora: ora o currículo 6 um a entidade geográfica. Mas com o se isso não bastasse —e para usar as expressões de A nth o n y Giddens8 —. lado a lado em u m m esm o campo semântico. ora. os t é c n i c o s do de se j o.N e t o (1996. v id e H a m ilto n (1992). ora ele é um programa. os currículos funcionam . 2007). ela se dissipa. aquilo que cham amos de curriculum vitce. apenas aparente. logo surge o caráter polissêmico da palavra. ora um docu m en to. v id e principalmente: V e ig a . com o em currículo " Para detalhes. os historiadores mostraram que 110 110 final do século XVI e início do século XVII ambas as palavras —currículo e curso — começaram a ser usadas insitucionalmente com o artefitos capazes de organizarem e tornarem mais eficiente a educação escolarizada. com o fichas simbólicas a serviço de sistemas peritos ou sistemas de expertise. 0 Cu r r í c u l o e seus t r ê s a d v e r s á r i o s : os f u n c i o n á r i o s da 17 v e r d a d e .). N ão faz muito.

E isso é tão mais assim se pensarmos que. Existe nisso tudo uma circularidade e um a fusão evidentes: de um lado. por isso. Assim. importará quase nada se eu estou me referindo aos currículos dos cursos que ministramos ou que se oferecem a toda hora e por toda parte. Importará quase nada se eu estou me referindo a currículos-programação ou a currículos-trajetória-de-vida. D entre os caminhos que caminhei. tão importante e até mesmo decisivo em nossas vidas. praticamente desconsiderando. N o fim das contas. tam bém o espetá­ culo. pode ser visto com o um a representação sintética de m im m esm o. ao núcleo da nossa discussão. nesse jogo. Indo adiante Feita a digressão. e o que está ali registrado é visto com o necessário e suficiente para m e representar. trata-se sempre de designar um a ação de trilhar (011 de ter trilhado) um determinado (per)curso. E porque fiz tal (per)curso e porque (per) corri tal caminho que tinha o seu próprio currículo é que posso incluí-lo n u m docum ento a que cham o de “m eu curriculum vitce”. interessa-me jogar com aquela aparente ambigüidade da palavra currículo. 18 Para uma vida nã o-f asci st a Material com direitos autorais . continuem os a exploração semântica do currículo. jogar com o seu caráter fortemente polissêmico. dentre os programas que eu cum pri. isso é. dentre os currículos que eu cursei. o que vai ser incluído 110 m eu curriculum uitcv. pouca diferença faz —pautam a vida contemporânea. as fronteiras de sen­ tido que foram sendo criadas ao longo do seu uso. Assim. voltemos. sou eu que decido com o m o ntar tal docum ento —ele depende de m im .enquanto o docum ento que reúne os dados relativos a um a pessoa. de outro lado. com ou sem atalhos. além da refiexividade. o “m eu curriculum uitaj” representa a própria síntese dos trajetos (per) corridos p o r m im e. Para começar. eu escolho e categorizo —segundo determ inados critérios e objetivos —. O que conta m esm o é aquilo que está ali registrado. C o m o argumentarei a seguir. com maiores ou menores obstáculos. a transitoriedade e o consum o —material ou simbólico. ou se estou me referindo aos nossos currículos pessoais —cada um de nós com seu próprio curriculum vitcv. eu tenho esse ou aquele curriculum vitcv porque (per)corri u m detem iinado cam inho. pouco im porta. tudo isso ajuda a com preenderm os por que o currículo tornou-se hoje tão central. a aparência. quando eu falar em currículo. então. se fui eu m esm o que determ inei os critérios e objetivos. N o âmbito desta discussão. E m qualquer caso e no limite.

controlados. ambos funcionam com o objetos que trocam . elas funcionam com o parte da com plexa rede dos dispositivos de subjetivação em que o sujeito está imerso. 0 f a s c i s m o Material com direitos autorais . N o plano objetivo. de m o d o que qualquer coisa que vier a ocorrer com um produzirá efeitos sobre o outro e vice-versa. tornando-se. Além disso. de u m rebatim ento de duas vias: nu m sentido. eles propagam seus efeitos entre aqueles que nos cercam. por exem plo. no sentido inverso. m o n tan d o sua trajetória segundo aquilo que ele quer ser 011 aquilo que ele pensa que deve ser. peças mais e mais pervasivas e importantes 110 mercado da meritocracia. apontam entos. N o nosso m u n d o acadêmico. mas tam bém porque ele vai se pautando pelo seu próprio currículo. nossos currículos garantem nossas posições e promoções. mais e mais pautados por eles? C o m o não recorrerm os continuam ente a eles para sabermos q u em somos. o que está em jo g o . O sujeito acaba sendo o que é não apenas porque ele é descrito assim ou assado por seu currículo. C o m o . tais representações p ro d u zem com o que u m rebatim ento. um processo de fusão. de identificação entre o sujeito e seu currículo. abrem ou fecham portas de acesso. se narrando. as relações entre o sujeito e seu currículo são mais sutis. tais relações parecem cada vez mais intensas e inquietantes. cartoriais. Talvez se possa dizer que tal processo de fusão se dá n u m plano tanto objetivo quanto subjetivo. co m isso. assim. tanto entre o sujeito e o seu currículo quanto entre o currículo e o sujeito a que ele se refere. informações. N o plano subjetivo. é a trajetória que o sujeito diz que (per)correu —ou que disseram que ele (per)correu. Em term os práticos. onde estamos e —para usar o leit m otiv daquele nosso C o ló q u io aqui realizado há 8 anos — para sabermos o que estamos fazendo de nós mesmos? Afinal. dados. a relação entre o sujeito e seu currículo acontece em termos documentais. a cada dia. o que é posto em circulação em tais rebatim entos. o sujeito é aquele que seu currículo diz quem ele é.Essas considerações sào im portantes porque nos ajudam a entender que. em certa m edida. assim. se julgando e. os t é c n i c o s do de se j o. entre si. Em qualquer caso. em troca. Opera-se. rastreados. então. burocráticos. Trata-se. nós tem os de alimentar continuam ente nossos currículos. de m o d o a ir se vendo. avaliados? 0 Cu r r í c u l o e s eu s t r ê s a d v e r s á r i o s : os f u n c i o n á r i o s da 19 v e r d a d e . seu currículo é aquilo que ele m esm o (ou alguém por ele) registrou q u em ele é. com o não cairmos de am or pelo poder que o currículo nos confere se é principalmente por intermédio dele que somos continuam ente m onitorados. não nos deixarmos mais e mais atrelados aos nossos currículos.

2004). 20 Para uma vida nã o-f asci st a Material com direitos autorais . ao longo dos dias. ele aqui está. p. mas certam ente ele é provocativo. ! W ittgenstein (1987. à experiência. na segunda parte da sua obra. Mas seguindo M ark Selman9. desse processo de fusão ou identi­ ficação que aqueles que eu cham o de “ os três adversários do currículo” são tam bém nossos adversários. A essas alturas. às contribuições que L udw ig W ittgenstein nos deixou.E em decorrência de tudo isso. no âmbito de u m C olóquio foucaultiano. por exemplo. N o fim das contas. James Marshall10 e outros. algo que se pudesse exprimir sob a forma “que(m) sou eu. mais especificamente. não é uma suposta ontologia profunda do sujeito mas uma descrição pragmática que é feita e continuam ente refeita acerca do sujeito. à verdade. à constituição discursiva do sujeito etc. vale u m com entário quase lateral. Para alguns poderá parecer estranho —ou até mesmo im pertinente —recorrer. à linguagem. ao Segundo W ittgenstein. 1 Para mais detalhes. A rigor. 9 Selman (1988). 259). tentar determinar algo com o que um a “ontologia do sujeito que eu sou” . O que interessa. N ão há com o não reconhecer a notável aproximação que existe entre tal postura pragmática e boa parte de uma variante da Filosofia Analítica contem porânea. separadamente de com o os outros m e veem. R efiro -m e. está m uito próxim o ao tratamento que Foucault deu. nessa perspectiva antiessencialista. o Segundo W ittgenstein.N E T O . N ietzsch e e Foucault ( V E I G A . O que conta é que eu acabo sendo aquilo que m eu currículo diz que eu sou ou aquilo que os outros representam sobre mim. E trivial afirmar que. m esm o” . Vamos lá. no registro desta discussão não faz sentido buscar uma diferenciação entre enunciados tais com o “eu sou assim” ou “eu me * vejo assim” ou “ os outros m e veem assim” . vide as aproxim ações que estabeleço entre o S egund o W ittgenstein. Confesso que. arrisco-me a sugerir que teremos bastante a ganhar se tematizannos as notáveis sintonias entre as Investigações Filosóficas e o pensamento de M ichel Foucault. Trata-se de u m com entário talvez u m tanto técnico. 10Marshall (2001)." Em seu esforço para “ reconduzir as palavras do seu em prego metafísico ao seu emprego cotidiano” 12. à diferença. mesmo originário de um outro tronco filosófico. várias vezes retirei-o do m eu texto e outras tantas tornei a incluí-lo. ao discurso. não faz qualquer sentido aqui.

os técnicos do desejo e o fascismo.. N o prim eiro. Cada u m deles tem a sua preferência. terroristas da teoria. p. 1 Foucault (2001. espetacularização e de consumo. esse “ adversário estratégico” . perfilam-se esses três atravancadores dos nossos cam inhos. p. 134). fun­ cionários da verdade. Para o filósofo. da aparência. do espetáculo e do consumo. contam ina todos os demais. ★* * U m a questão que até aqui ficou em suspenso foi a caracterização daqueles a q uem Foucault cham ou de “ os três adversários aos quais O A n ti-É d ip o se encontra con frontad o” 13. Foucault (2001. mas o fascismo.. Em qualquer caso.Isso nos ajuda a com preender o quanto carece de sentido procurarmos algo como uma “ontologia profunda e definitiva do sujeito que eu sou”. militantes sombrios. 136). p. principalmente num m undo cada vez mais regido pela lógica da burocracia. estão os técnicos do desejo (psicanalistas e semiólogos).16 13 Foucault (2001. “ o inimigo maior.) “espetacularizar” para ser consumido pelos outros. desde em suas formas “ colossais. C o m eço agora falando sobre eles.. não interessa se estou pensando nos currículos-programação ou nos currículos-trajetórias-de-uida. de m o d o que m e conduzam para o final desta m inha fala. de n o v o . o adversário estratégico: o fascismo em todas as suas formas” 14. Além do mais. Foucault distribui esses adversários três grupos. esses três grupos logo co m eçam a pipocar à m in h a frente. esses três adversários “não têm a mesma força [e] representam graus diversos de ameaça” 15. E. 0 Cu r r í c u l o e seus t r ê s a d v e r s á r i o s : os f u n c i o n á r i o s da 21 v e r d a d e . o f a s c i s m o Material com direitos autorais . que nos rodeiam e nos esmagam até aquelas formas pequenas que fazem a amarga tirania de nossas vidas cotidianas” . E o currículo é um a das peças-chave nos processos contemporâneos de burocratização. O que interessa mesmo acaba sendo aquilo que eu sou capaz de mostrar e (digamos. pode-se assim rotular os três grupos: os funcionários da verdade. ele coloca os ascetas políticos. 134). N o segundo grupo. 134). p. Sintetizando. 14 Foucault (2001. essa é uma questão que nem mesmo interessa em termos práticos. N o terceiro grupo e sozinho. os t é c n i c o s do d e s e j o. com bina-se co m os outros e parece sempre a postos para nos perseguir. Q u a n d o penso n o currículo..

Sim etricam ente. estão sempre ativos os m em bros do primeiro grupo.. Aqui aproveito para registrar algumas tentativas ensaiadas no sentido de buscar outras águas para nadar. principalmente em termos de seu reconhecimento e popularidade. com isso. “ salvar o M u n d o ” ... a fim de desatravancar os caminhos da teorização e das práticas curriculares predominantes entre nós. quanto na teorização sobre tudo isso. O que eles querem não é a construção de um outro corpus teórico que pudesse substituir o atual estado de coisas. várias práticas pedagógicas não afinadas com as certezas daqueles funcionários da verdade passaram a ser vistas co m o démodés. —u m certo travam ento no (digamos. mas sim “ seis p o r zero ” . Isso significou.. Ao contrário. N o que concerne ao efetivo funcionam ento das atividades de ensino e avaliação. o que eles buscam é liberação das “velhas categorias do Negativo que o pen­ samento ocidental. por exemplo. essa “forma de paranóia unitária e totalizante” resultou num a aplicação m ecânica de alguns avanços teóricos produzidos pela T eoria Crítica.) pensam ento pedagógico vigente entre nós. N o Brasil. os avanços nesse campo ainda são modestos. A presença desses adversários que são os funcionários da verdade tem sido notável tanto na programação daquilo que é ensinado e nas atividades de ensinar e avaliar.. O amplo cam po que se convencionou cham ar de Estudos de Currículo esteve por m uito tem po atravancado principalmente pelos terroristas da teoria. no caso das experiências mais recentes. por Júlio Groppa Aquino (da USP). os efeitos de u m certo tipo de leitura e “ aplica­ ção” da Teoria Crítica. por um longo tempo. sacralizou com o forma de poder e 22 Para uma vida nã o. reacionárias e.. Em que pese os esforços desses intelectuais.. pois isso significaria cair num a contradição performativa. com o delírios pós-estruturalistas. em associação com a Pedagogia da Libertação.D o lado do currículo-programação. esses militantes sombrios do pensamento único e totalizante. reprodutivistas. substituir não propriam ente “ seis p o r meia dúzia” . Tais tentativas inovadoras estão sendo feitas. Tal travam ento manifestou-se —e ainda se manifesta am plam ente —com o um a lastimável celebração das verdades únicas anunciadas pelos arautos que arrogam a si a tarefa messiânica de “ salvar a E ducação” e..fasci st a Material com direitos autorais . N ão é nem poderia ser. p o r exem plo. muitas vezes. por Silvio Gallo e Antonio Carlos Am orim (desta Universidade). mas provocou —e certam ente ainda provoca. trouxe avanços teóricos interessantes no cam po do curnculo-programação. por Jorge Lanosa (da Universidade de Barcelona) —um a lista pequena e certamente parcial.

134). todos nós. talvez sejam os funcionários da verdade aque­ les que. em tem po real. mas nôm ade” 1 Nesse processo de dessacralização pedagógica. ainda hoje e mais do que n in g u ém . Apesar desses esforços. Lem ­ bremos o segundo princípio: “faça crescer a ação. D o lado do currículo-trajetória-de-vida. a diferença à uniformidade. sempre ocupados com o “ registro de cada signo e cada sintom a” que acontecem nas nossas vidas. esquadrinham co n ti­ nuam ente q u e m somos. o nde e o quanto publicamos. p. D o lado de cá. vejo na prática daqueles que insistem em pautar a valoração acadêmica em term os da “ lei binária da estrutura e da falta” . se quiserem. E nem preciso lembrar que esses escrutinadores e contabilistas da vida alheia podem fazer seu trabalho. As assim chamadas agências de fom ento e os órgãos oficiais de fiscalização. diligentes comissões formadas p o r nossos próprios pares e às vezes por nós mesmos. Desse m odo é que eles se autorizam a dizer 1 Foucault (2001. os agenciamentos móveis aos sistemas” . parecem cada vez mais povoados p o r esses obcecados e obsessivos guardiões da burocracia esta­ tal. presas indefesas. 0 Cu r r í c u l o e seus t r ê s a d v e r s á r i o s : os f u n c i o n á r i o s da 23 v e r d a d e . Apoiadas em imensos e com plexos sistemas de inform ações e bancos de dados. Foucault (2001. quão freqüente e im portante é a nossa participação em eventos com o o que hoje aqui inicia.m odo de acesso à realidade [. Iv Foucault (2001. coordenação e avaliação.. o fluxo às unidades. p. o f a s c i s m o Material com direitos autorais . isso é.. tem os de estar sempre alim entando esses dragões insaciáveis que são os bancos de dados. justaposição e disjunção” . em suas tentativas profanatórias. 135). o que tem os feito e deixado de fazer. entendendo] que aquilo que é produtivo não é sedentário. 135). p. os t é c n i c o s do d e s e j o. E assim ele resume o terceiro princípio: “prefira o que é positivo e múltiplo. pois a qualquer m o m e n to aqueles garimpeiros da informação p o d em lançar suas bateias à cata do que fizemos e não fizemos. pode-se dizer que. eles combinam o segundo com o terceiro dos sete princípios essenciais arrolados por Foucault18. c o n tin u a m atravancando a teorização e as práticas curriculares e que assumem um a postura fascista frente ao currículo-programaçao. vejo na prática daqueles “lastimáveis técnicos do desejo” 14 as fontes das maiores adversidades que encontram os na nossa atividade profissional. o pensamento e os desejos por proliferação.

com o se diz por aí. Prcfacc. Paris: G allim ard .. 1977. tam b ém não ativamos esse poder ubuesco. D E L E U Z E . Galli­ m a rd . F O U C A U L T . Até que. 21 Foucault (1999. 12). não conseguim os nós m esmos nos libertarmos e.fasci st a Material com direitos autorais .2" Esses técnicos do desejo. N e w Y o rk : V ik in g Press.X I V . p.o que somos e o que não somos. A n ti-O e d ip u s: C apitalism a n d S ch izophrenia. esse poder que maximiza seus efeitos justa­ m ente “ a partir da desqualificação daquele que o p ro d u z” ?21 *** Enfim .. a perpetuar nossos adversários? E por que. militantes do Estado. ju s t in time. p. In: D its et écrits II: 1 9 7 6 . 1992. Só assim nos sentiremos up-to-date e não endividados. e com eça tudo de novo. M ic h e l. presos a eles e à lógica fascista que os encanta. Paris: Q u a t r o . 1999. Conversações. dar um a de passarinho? Referências D E L E U Z E .. X I . o m onstro sagrado cham ado C urrículo Lattes. 2 0 0 1 . E por isso que. hierarquizados. Gilles.. 24 Para uma vida nã o. N ós e q u em nos cerca — pessoas ou instituições — somos todos p erm an en tem en te assim classificados. / depois. que direitos tem os e que direitos não temos. 1 3 3 -1 3 6 . até que p onto não ajudamos. ranqueados para. nós mesmos. lançar o novo registro às garras grotescas do dragão. Lá vamos nós. em geral “ caídos de amores pelo p o d e r” e em boa parte escolhidos p o r nós mesmos. com eles.1 9 8 8 . sermos incluídos ou excluídos. Mais do que nunca. desejar essa coisa que nos dom ina e explora”? Será que. “ o fascismo que nos faz amar o poder. Les anorinaux. R i o d e Ja n e iro : T r in ta e Q u a t r o . Félix. p. F O U C A U L T . M ic h e l. com o eles. tão logo term ine este C o ló q u io m uitos de nós correrá a alimentar. no m o m en to seguinte fazemos alguma coisa ou lem bram os de algo feito e ainda não registrado. Mas será que não partilhamos. vivemos com o as serpentes endividadas deleuzianas. 20 D e le u z e (1992). Gilles. parecem “martelar nossos espíritos e nossas condutas cotidianas” . G U A T T A R I .

1 3 1 -1 4 6 . 8. 1988. cultura e sociedade. L u d w ig . j u n . H A M I L T O N . 45. 2 4 9 -2 6 4 . Foucault. os t é c n i c o s do de se j o. 1 5 7 -1 7 1 . D av id . A lfredo. p. B elo H o r iz o n t e (M G ). n. 3 3 -5 2 . 1.N E T O . São L e o p o ld o : Educação U N I S I N O S . p. M a rio . p. R e g in a M aria (org. In: G A L L O . Q U I N T A N A . 1987. São P a u lo : G lo b o . Educação do preconceito: / ensaios so b re p o d e r e resistência. v. 6. p. 2 0 0 4 . p.N E T O . Alfredo. P o rto Alegre: U F R G S . 0 C ur rí cul o e seus t r ê s a d v e r s á r i o s : os f u n c i o n á r i o s da 25 v e r d a d e . S p rin g e r N e th e rla n d s : Studies in Plülosophy and Education . C am p in as: A t o m o & A línea. N ietzsche. M a rk . 15. São Paulo: E d ito ra da U N E S P . A n th o n y .G I D D E N S . W I T T G E N S T E I N .N E T O . Investigações Filosóficas. A ordem das disciplinas. V E I G A .J a m e s . C u r r íc u lo . 1992. V E I G A . v. ja n . In: Caderno H . n.). 2 004a. V E I G A . 2001. Fifth Concurrent Session in Plülosophy oj Education. S O U Z A . Lisboa: F u n d a ç ã o C a lo u s te G u lb e n k ia n . S o b re as o rigens dos te rm o s classe e c u rric u lu m . A Criticai T h e o r y o f t h e Self: W ittg enstein. n. 1996. 20 06. N ie tz sch e e W ittgenstein: alavancas para pensar a diferença e a pedagogia.N E T O . P o rto A legre. Teoria & Educação. Educação em Revista. A lfredo. V E I G A . n. P o e m i n h a d o c o n tra . 20. A lfredo. 3 1 6 -3 2 5 . S E L M A N . Sílvio. o f a s c i s m o Material com direitos autorais . 1991. D a n g e ro u s ideas in F o u c a u lt an d W ittg e n s te in . As duas faces da m o e d a : h e te ro to p ia s e eniplazamientos c u r­ riculares. 2 0 0 7 . A s conseqüências da Modernidade. M A R S H A L L .

Material com direitos autorais .

E p o r esse últim o cam inho que segui. não alicerçada nas questões transcendentais. onde o “ eu ético da antiguidade opõe-se ao sujeito moral da m o d ern id ad e” (G r o s . e é onde a lingüística a socio­ logia. formulações do conceito de sujeito. N u n c a é demais salientar a ligação entre História e Filosofia nas reflexões foucaultianas. A problematização de um a nova ideia de sujeito. etc. o sujeito como autor? Ana Maria de Oliveira Burmester Ao nos debruçarm os sobre o pensam ento de M ichel Foucault. seria preciso buscá-la no âm bito da filosofia analítica e do positivismo. ideia de sujeito. talvez rica. deram lugar ao que se chama de estruturalismo.ou uma análise dos sistemas dos significantes. ( G r o s . 27 Material com direitos autorais . a partir de discursos e práticas historicam ente realizadas. ao descrever as perspectivas filosóficas após a Segunda Guerra: H o u v e três cam inhos para encontrar um a saída: . a relevância da revisão do conceito de sujeito nos é solicitada. construída historicam ente. 636) Seguindo o cam inho concisa e claramente esboçado. p.ou tentar recolocar o sujeito 110 dom ínio histórico das práticas e dos processos no qual ele não cessou de se transformar. a psicanálise. rico e multifacetado. nós acabamos p o r atualizá-lo. sem dúvida. o tornam os nosso contem porâneo im ediato. um a nova. 639). Segundo nosso autor. isso é. 2006. pretendem os perceber. N os dias de hoje. nos permite pensarmos. . . n e m nas fundações morais.ou unia teoria do co n h ecim en to objetivo. p. 2006. e. em disciplinas diferenciadas.A vida como obra de arte. A herm enêutica do sujeito desenvolvida por Foucault em seu curso no CoUège de France (1981-1982) traz pistas e reflexões primorosas para nossa proposta.

que é múltiplo. passando p o r ju n g . rela­ cionada à figura do cuidado de si. 2000. De Freud a Lacan. Em conseqüên­ cia. 31-43). a posição da linguagem em relação ao sujeito. A crítica da concepção de sujeito vai se tornar u m dos pilares da crítica da m odernidade. Foucault teria estabelecido um a perm anente interlocução com a psicanálise. por muitos. a psicanálise acaba por ser duram ente criticada por Foucault. figuras que poderiam conviver lado a lado. o ensaio de jo e l Birm an vai desdobrar a leitura. Multiplicidade de signos. O diálogo a ser estabelecido entre a ética da Antiguidade. silenciada pela confissão. Ainda seguindo Birman. nas quais a consistência ontológica da subjetividade é colocada em questão de m aneira crucial. N o dispositivo da categoria da verdade e ainda perseguindo a cartografia de 28 Para uma vida nã o. pelo Cristianismo. sobretudo aquele do descentram ento do sujeito. se evidenciaria p o r esse viés inovador do pensam ento psicanalítico. Talvez nessa área seja plenam ente realizada a ideia de sujeito. Assim. do últim o Foucault. 49-57). j u n ­ tam ente co m a psicologia e a psiquiatria. atravessado por múltiplos discursos. com o pensam ento de fora. tecida ora a viva voz. todas essas abordagens privilegiam u m sujeito. pois a fragmentação é um a positividade m etodológica no pensam ento de Foucault (B ir m a n . que a considerava. o qual revelaria. a concepção moral. através do conceito de inconsciente. ora em surdina. p.fasci st a Material com direitos autorais . 2000. Nesse sentido. influenciados sobremaneira por Lacan. agora considerando as categorias “formas de subjetivação” e “ tecnologias de si” ou “tecnologias do e u ” . 10) N a interpretação da relação de Foucault com a psicanálise. enfim. A proposta de B irm an é a de realizar a cartografia das múltiplas figuras que Foucault apresenta da psicanálise. Ao nosso p en sad o r a psicanálise interessava de p erto pelas form ulações q ue p ro p u n h a sobre a experiência ética na m o d ern id ad e. que enuncia a tese estética da existência. 2000. prom ovido por Freud. um a inconsistência ontológica. p.Da Psicanálise O campo da psicanálise ó considerado. Segundo esse autor. o discurso psicanalítico teria realizado um a res­ tauração retom ando um a antiga filosofia do sujeito. U m a das proposições fundamentais nos v em de Joel Birman. Adler. p. (B ir m a n . neces­ sária. versões disciplinares da filosofia do sujeito (B ir m a n . um dos territórios eleitos pelo pensam ento de Foucault. B irm an aponta para os enunciados radicais de ruptura.

99). 2000. E na atualidade? Para B irm an. enfim.. p. contemporânea desse enunciado configura “o campo de uma outra experiência ética” (B ir m a n . 59-63). p. conform am .. e a indagação se ela efetivamente existiu. 99-100). a psicanálise desem penha plenam ente seu poder disciplinar (B ir m a n . em “ A vontade de saber” . A busca de um a “qualidade” da população fundam enta a política na m odernidade ocidental. 1999). Para ele. a subjetividade com o u m novo campo. Foucault salienta que para se desenvolver “ a análise concreta das relações de poder. classe etc. corpo e disciplina. 2000. 2000. Nessa perspectiva. mas o sujeito pensado em termos de nação. “pode-se m esm o considerar que a História da sexualidade se inscreve na geologia do p o d e r” . raça. A subjetividade passou a ser finalm ente u m objeto técnico “para as práticas das diversas disciplinas que confluiriam para o projeto de um a estética da existência” (B ir m a n . a leitura da psicanálise c o m o central para F oucault. do biopoder Nas referências feitas aos conceitos de biopolítica e biopoder. correlacionada ao conceito de olhar. A v id a c o m o obr a de arte: o s uj e i to c o m o aut or ? 29 Material com direitos autorais . A conseqüência. F inalm ente. 77).figuras múltiplas. prossegue Birman. 1999. acontece a partir da “ História da sexualidade” . N ão necessariamente diferente do sujeito pensado pela e na psicanálise. Ao salientar a questão do poder. p. com o algo a governar e ser governado. p ro m o v e a inserção da problem ática no cam po do biopoder e da bio-história. para Birman. Se “ é preciso defender a sociedade” (F o u c a u l t . tem os em Foucault u m enunciado de jo g o de verdade. outra teorização sobre a clínica. 80). enfatiza a modalidade do poder disciplinar. Inserida nas tramas da micropolítica. estético e político” . Mas as “ tec­ nologias de si” e a “ inserção histórica entre os registros ético. 2000. Da biopolítica. temos um a outra figura de sujeito em questão.] é preciso procurar saber com o as relações de sujeição podem fabricar sujeitos” (F o u c a u l t . é preciso abandonar o m odelo jurídico da soberania [. p. “ é preciso que nos desvencilhemos definitivam ente dos instrum entos balofos herdados da tradição da filosofia do sujeito” (B ir m a n . o pensam ento foucaultiano dos anos de 1970. O utra experiência. nas relações entre saber e poder. p. a questão da liberação sexual.

mas tam bém no interior da sociedade: guerra das raças. desde o século X V III. Para Foucault. O ra. desde o século X V I. 2 0 0 2 ). à regra interna da econom ia m áxim a” (F o u c a u l t . Segundo Foucault. no interior da qual surge o liberalismo. raças. 92). 1997. U m estado de guerra perm anente leva o Estado. guerra das classes (B u r m e s t e r . p. Os princípios referentes á qualidade da população. 1997. pois o liberalismo acaba atravessado pelo princípio: “ governa-se sempre demais” . “ governa-se sempre de m e n o s” . Confia. a pergunta decorrente só poderia ser: “para que. sujeitos por ele governados. então. improdutivo. então. o tema da “biopolítica” — entendida com o “ a maneira pela qual se tentou.” (F o u c a u l t . U m a questão ou razão de Estado. “ o liberalismo deve ser analisado. enquanto no princípio anterior. racionalizar os p ro ­ blemas propostos à prática governam ental pelos fenôm enos próprios a u m conjunto de seres vivos. para Foucault. enquanto m o d o de governo. 90-91). é necessário rever as ideias sobre a guerra. Q u a n d o critica o atual. da Escola 30 Para uma vida nã o-f asci st a Material com direitos autorais . Assim. constituídos em população: saúde. p. p. 1997. do qual procura se diferenciar. fundamentado no gerenciamento da população. não apenas externa. p. 90).. de gerenciam ento da população e exercício da governam entalidade. segundo essa ques­ tão. pois o liberalismo é a crítica às práticas anteriores. U m conceito de guerra perm anente. o faz na perspectiva de querer limitar seus abusos (F o u c a u l t . e aí está a sua especificidade. na liberdade de iniciativa. assim sujeitado e governado. com o princípio e m étodo de racionalização de exercícios de governo —racionalização que obedece. no respeito ao indivíduo. 89) —acaba por se tornar questão de Estado. higiene. quem governa. apesar de seu caráter generalizante inicial. a se preocupar com os súditos. seria preciso governar?” (F o u c a u l t . Esse ro m p im e n to co m a “razão de E stado” anterior é paradoxal. o que é do coletivo torna-se desnecessário.Nessa perspectiva. desenvolvem tecnologias de “p o d e r” e de “ saber” que procuram atingir o indivíduo. A crítica liberal é sem pre dirigida ao passado. natalidade. Surge com o desafio a essa racionalidade de biopolítica. O s dois grandes modelos históricos do liberalismo são. o da Alemanha pós-Segunda Guerra e o liberalismo americano. e a forma com o esse evento torna-se central no pensam ento jurídico-político.. 1997.

seja na perspectiva do liberalismo. os autores salien­ tam a im portância de resumir e publicar em conjunto três textos: O que é um autor?. seria possível introduzirm os uma outra pos­ sibilidade? Pensem os um a outra figura.1 (M iranda & C ascais . [que] tem a ver com o problem a do sujeito e a sua relação com a escrita” ( M ir a n d a & C a sc a is. natalidade. se “ desejamos que cada livro seja lido p o r si m e sm o ” C a sc a is. 7) Para tanto. dram a­ ticam en te dividida entre u m ro m an tism o subjectivista e u m ilum inism o objectivista. p. Do autor de uma obra de arte A pergunta inicial só poderia ser: que é um autor? N o prefácio do texto de Foucault O que é um autor?. seria necessário u m a outra posição do sujeito. In: Le M on de. política penal (F o u c a u l t .. várias vozes. 22 de j u n h o de 1961. N o caso da Alemanha. várias vidas. 1997). 1997. plurais e dissonantes. 1997. que não aquela m o n o có rd ia da ciência. A escrita de si ( M ir a n d a & C a sc a is. serem “ lidas” por si mesmas? Tais vidas são interpretações da experiência m oderna. que reserva alguns campos —família. Utilizar outras vozes. a publicação diz respeito à questão “mais urgente. A vida c om o obr a de arte: o sujei t o c o m o aut or ? 31 Material com direitos autorais . Já o liberalismo americano buscaria a racionalidade do m ercado.. (M ir a n d a & seria possível cada vida. um a outra posição desse sujeito. e da sua m an eira de visar a experiência. por ocasiao de publicaçao da H istoire de Ia folie. 1997). Foucault salienta o período desde o liberalismo —dos anos 1948 a 1962 —pós-guerra e pós-nazista. p. p.. 1997. que m u ito h eideggerianam ente considera c o m o princípio constitutivo do p e n sa m e n to m o d e r n o . Para os prefaciadores. 5). saúde. seja na perspectiva do biopoder.] esquem a qu e buscava passar claram ente pela crítica da subjetividade. Podem os tam bém pensar a questão do sujeito com uma escrita específica: a da sua própria vida. por um [. nessa cartografia dos sujeitos: ele com o autor. delinqüência. Assim. educação — ao m odelo anterior da b io política. co m o nas análises de ' O s autores referenciam uma entrevista de Poucault. A vida dos homens infames. estendendo-a aos dom ínios não exclusivamente econôm icos — família. Entre as figuras do sujeito. 6 )..de Chicago.

A biografia procura dom inar tal relação. a H e rc u lin e Barbin. mas do ser verdadeiro enq u an to sujeito de u m saber e de u m p o d e r sobre si m esm o.] u m a vida de autoria de si m esm o que é. uma forma de resistência às tecnologias m odernas de produção de subjetividade do indivíduo e uma arte da conduta centrada na coincidência daquilo que o indivíduo faz c o m aquilo que diz: procura não só do dizer verdadeiro (na tradição metafísica). p. Entre cuidado e saber de si: so b re F o u c a u lt c a psicanálise. antes do mais. q u a n d o sugere: [. 2 000. ao m esm o tem p o. 1997. 25) Seria essa a forma possível de fazermos da vida um a obra de arte? Referências B I R M A N .“ seria com o o inverso de Plutarco: vidas paralelas ao ponto de n in g u ém poder só reuni-las” ( M ir a n d a & C a sc a is. um hermafrodita. apresentando com o sujeito absoluto o que é apenas u m sujeito possível”2 ( M ir a n d a & C a sc a is. 1997.nesse caso publicada na Coleção vidas paralelas.. dirigida por Foucault . de 1984. O au to r de si próprio é o h o m e m autêntico. A vida. ambos escreveram “ estranhas” autobiografias. com o autor. ou individualizado ao m áxim o. 1997. E tam bém porque a biografia. Esse espaço dos “ sujeitos possíveis”talvez possa se tornar o espaço do sujeito que tenta construir sua própria vida. mas “ um discurso sobre v id a /m o rte que ocupa um certo lugar entre o logos e o dram a” . 9). R i o dc J a n e iro : R e l u r n e D u m a r á . Seria isso possível se partirmos do indivíduo m o d ern o com o sendo. aquele que faz da sua vida um a obra que exige p erm an en te cu m p rim en to . fruto da disciplinarizaçao das condutas. U m parricida. 32 Para uma vida nã o-f asci st a Material com direitos autorais .Foucault referentes a Pierre R iv ière ou. p. 12). “não é u m meio de unir a vida e a ob ra” . via a biopolítica. ainda. p. com o obra de arte. 2 O s autores criticam o texto de Derrida — Otabiographies. e entre eles o de a u to r” . ( M iranda & C ascais . via liberalismo? E n c e rra m o s d a n d o a palavra d ire ta m e n te a F o u cau lt. Ele. com o aponta Derrida.. Ao se deter nesses personagens. F oucault teria adotado a “ estratégia de abalar a categoria de sujeito que tem inúm eros nom es. Jo cl. A biografia .

In: F O U C A U L T .1 9 8 2 ) . M ic h e l. Sào Paulo: M artin s F o n tes. O que ê um autor? Lisboa: Passagens. R i o de J a n e iro : J o r g e Z a h a r.B U R M E S T E R . A lição de Foucault. G R O S . In: F O U C A U L T . 2 0 0 6 . A hermenêutica do sujeito. Imagens de Foucault e D eleuze: ressonâncias nietzschianas. Situação do curso. L uiz B. A n tô n io F e rn a n d o . M ic h e l. A lfredo. José A. R esum o dos cursos do Collège de France ( 1 9 7 0 . Bragança & C A S C A IS . V E I G A . 1997. E m defesa da sociedade : curso 110 C o llè g e de F ran c e (19751976).N E T O . In: R A G O . F O U C A U L T . M ic h e l. R i o de Ja n e iro : D P & A . A na M aria de O liv eira. F O U C A U L T . 1997. M a r ­ gareth. São Paulo: M a rtin s F o n tes. M ich el. A vida c om o obr a de arte: 0 sujei to c o m o aut or ? 33 Material com direitos autorais . 1999. 2 0 0 2 . F réd éric. O R L A N D I . Lacerda. E m defesa da sociedade. M I R A N D A .